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Criminalidade, a violência é seu

principal combustível
Em busca de um entendimento sobre o
que é a criminalidade e como é
originada
Por Murilo Costa

Um dos grandes problemas da sociedade pós-moderna, principalmente em países
emergentes, é a criminalidade. No Brasil, a população recorre a medidas extremas
(grupos de extermínio, por exemplo) e à desumanização dos cidadãos que cometem
ilícitos graves, propondo desde a pena de morte até a tortura como forma de fazer
justiça.
O assassinato dos denominados “bandidos” é celebrado como um ato de benfeitoria e é
elogiado por boa parte da população, mas isso é apenas um efeito originado por diversos
fatores, os mais relevantes serão expostos nesse texto. O objetivo é entender melhor
como ocorre esse fenômeno da criminalidade e quais poderiam ser as causas.

Quem são os “bandidos”?
Os responsáveis pela criminalidade, de acordo com a população e alguns meios de
comunicação são os “bandidos”, mas quem são esses bandidos? O que é necessário para
uma pessoa ser classificada como tal? Entender o significado dessa classificação é de
extrema importância para a discussão, para facilitar o entendimento, será utilizada a
definição do dicionário Priberam:
Ban·di·do
Substantivo masculino
1. Pessoa que vive de roubos ou outras atividades ilícitas. = Bandoleiro,
Salteador
2. Pessoa que é pouco honesta ou tem mau caráter. = Patife

Levando em consideração essa definição, os bandidos seriam todas aquelas pessoas que
vivem de atividades ilícitas, que praticam atos de desonestidade e/ou mau caratismo, ou
seja, se a honestidade está em seguir as leis e não prejudicar a terceiros, logo, aquele
que infringe a lei está sendo desonesto, portanto, é um bandido. Porém, se a definição
for respeitada, os sonegadores de impostos, os que pagam propina ao policial, os que
falsificam documentos para obter benefícios, os que utilizam produtos ou serviços
pirateados, também são bandidos.
Voltando às perguntas anteriores, quem são os bandidos? São aqueles que cometem
crimes, mas somente os que cometem crimes específicos, os crimes hediondos. O
sonegador, fraudador, estelionatário, esses não entram na categoria, apenas os
assassinos, estupradores ou os que cometem latrocínio (roubo seguido de morte). O que
é necessário para ser classificado como um “bandido”? É necessário que o indivíduo ou
se encaixe nos estereótipos sociais, que são vários, ou tenha cometido qualquer um dos
crimes hediondos e que não tenha dinheiro o suficiente para que esses crimes sejam
“perdoados”.
O massacre do Carandiru pode ser encarado como um ato de limpeza social que consiste
em eliminar o “bandido” para “salvar” a sociedade de um mal maior. Pode-se concluir,
baseado nesse pensamento, que o bandido é o inimigo da sociedade e deve ser
exterminado.
Não é que “bandido bom, é bandido morto”, o bandido cometedor de crimes hediondos
que não tem dinheiro suficiente para comprar a justiça que é bom morto. As influências
financeira, social e cultural estão sutilmente enraizadas nessa forma de classificar quem
merece morrer ou viver, os que cometem delitos que são socialmente aceitos não são
considerados como bandidos, a não ser que se encaixem nos estereótipos (e.g. negro,
favelado, maltrapilho ou pobre).
A influência cultural (indiferença
ao crime)
O estereótipo utilizado para distinguir os crimes aceitáveis dos intoleráveis é mais
conhecido como “jeitinho brasileiro”, ele abrange uma sorte de características e
comportamentos “típicos” daqueles que tem propensão a querer se beneficiar em
qualquer situação, mesmo às custas do outro.


O “jeitinho brasileiro” é um trejeito cultural que exalta a malandragem, esses crimes são
aceitos pela sociedade como irrelevantes ou que não precisam ser punidos com tanto
rigor, a justificativa de que todos já utilizaram do “jeitinho” pelo menos uma vez na
vida é a mais recorrente para perpetuar a prática. Isso cria uma camada de indiferença a
alguns crimes, que passam a ser considerados como algo normal e não passíveis de
punição, a expectativa de não ter que arcar com as consequências de seus atos e a
propensão a encontrar formas de burlar as regras para benefício próprio passam a ser
incentivados graças a esse sistema cultural.

Os invisíveis e os notáveis
Um dos fatores mais relevantes quando tratamos de criminalidade é o fator social e
econômico, um grande causador de violência é a extrema desigualdade social, a falta de
oportunidades e ironicamente o oportunismo criado por ela. O jovem da comunidade
pobre se vê em uma situação na qual ele pode obter ascensão social e econômica de
forma simples e rápida, trilhando o caminho do crime, ou pode trabalhar com uma
jornada de trabalho de mais de 40 horas semanais e não ascender socialmente, nem
economicamente. É óbvio que a extrema diferença social não é a única causadora de
violência e crime, outro fator, por exemplo, é a discriminação social que transforma
cidadãos em párias, inimigos a ser combatidos, o que dificulta a convivência em
sociedade. Ao se ver excluído do grupo e sem chances de participação social ou política,
se inicia um processo de revolta e o caos social se instaura.


Afinal, quem é a vítima desse conflito entre as facções do bem e do mal?

O conflito entre “pessoas do bem” e “pessoas do mal” é uma forma de discriminação
social que gera violência, ao demonizar o outro é mais fácil tratá-lo com menos
humanidade, como se aquela pessoa abdicasse do seu status de ser humano e passasse a
ser um objeto, algo descartável, um câncer que deve ser eliminado. Essa forma de
divisão social é perigosa, principalmente pelo grande potencial de incentivar o
surgimento de sociedades paralelas, organizações e facções criminosas que sobrevivem
de atividades ilegais.

A sensação de impunidade
Um outro fator de extrema importância é a impunidade, um sistema judiciário ineficaz e
incapaz de aplicar a lei com todo seu vigor, acaba servindo como um incentivador de
comportamento criminoso. Se uma pessoa prospera social e economicamente
cometendo vários crimes e as que seguem a lei não obtêm benefício algum, e ainda tem
que arcar com as responsabilidades sociais de um cidadão (impostos, trabalho, estudo),
então, cria-se uma sensação de impunidade, de que seguir as leis não vale a pena, pois
mesmo seguindo-as não há garantias de que haverá coesão social e que a justiça será
feita caso alguém lhe prejudique. O medo da violência também cria um estado de
vigilância e insegurança, as pessoas se sentem desmotivadas a seguir as leis, pois na
prática elas se mostram ineficazes.
Repressão excessiva e punições
ineficazes
Existe um outro extremo para essa realidade, uma força policial má preparada para lidar
com os cidadãos age de forma truculenta e abusam do poder que lhes é conferido para
manter a ordem social. Se por um lado a impunidade é um gerador de criminalidade, a
repressão excessiva também é, quando a punição é maior que o crime, isso gera mais
revolta e violência. Exercer violência contra o outro de forma sistemática, sem
necessidade ou direito à defesa é uma forma de promover a força como uma solução
para os problemas sociais, consequentemente, ao ser tratado com violência o cidadão
responde com mais violência.
Recorrer ao uso da violência deveria ser uma medida emergencial, quando as formas
civilizadas de resolução de conflitos se esgotassem, e então só restasse a solução à base
da força, mas como exceção e não regra.

O difícil acesso à política
Os processos políticos brasileiros não são transparentes à população, a dificuldade de
entendimento dos documentos oficiais torna a fiscalização que poderia ser feita pelo
cidadão comum uma tarefa quase impossível. Apenas especialistas poderiam conseguir
decifrar toda a complexidade do que tais documentos tentam transmitir, isso é
extremamente prejudicial ao processo democrático, uma vez que o país oferece uma
falsa sensação de transparência ao expor os documentos ao público, mas ainda mantem
os dados em sigilo pela falta de clareza e a dificuldade de entendê-los.

Pilha de processos aguardando julgamento no judiciário.

A participação política é a forma mais eficaz de integrar o indivíduo à sociedade, assim
é possível apoiar, exigir e fiscalizar a criação de políticas públicas para inclusão social,
distribuição de renda e incentivar a justiça social. Se as pessoas são desmotivadas a
participar dos assuntos políticos, as decisões podem se tornar unilaterais e não refletir os
interesses dos representados, é essencial que a população seja estimulada a se informar
sobre a vida política local, sobre as decisões de seus representantes e as prioridades de
seus governantes, sem isso, o poder político se concentra nas mãos de poucos.
A realidade social influencia diretamente a vontade da população de participar de
assuntos políticos, uma carga horária de trabalho excessiva, problemas infraestruturais
(transporte, saneamento, educação, abastecimento, alimentação) e uma estrutura
educacional falha podem ser grandes desmotivadores e impossibilitadores do processo
democrático.
O papel da educação
Os tópicos abordados são algumas das causas da criminalidade, como dito
anteriormente, é um tema complexo e com muitas variáveis, a desigualdade e
discriminação sociais, violência excessiva da polícia, impunidade, exclusão política,
influências culturais são alguns dos mais relevantes, entender como eles geram
violência e consequentemente crimes é de extrema importância para um debate
produtivo e o desenvolvimento de soluções reais para esses problemas.


É importante ressaltar a importância da educação, uma pessoa bem instruída consegue
com pensamento crítico analisar esses cenários com mais lucidez, sem uma educação de
qualidade essas mudanças não serão feitas, fomentar o debate com informação,
honestidade intelectual e uma população participativa, ou ao menos consciente da vida
política de sua comunidade é o meio mais eficaz de estruturar uma sociedade mais justa
e coesa.

Referências
Revista de Sociologia e Política - Criminalidade violenta: por uma nova
perspectiva de análise — Similars in SciELO DOSSIÊ CIDADANIA E VIOLÊNCIA
Criminalidade violenta: por uma nova perspectiva de análise Luís Antonio Machado da
Silva...
Fractal : Revista de Psicologia - The criminality device and its strategies —
Similars in SciELO O dispositivo da criminalidade e suas estratégias* The criminality
device and its strategies Gilead Marchezi Tavares T...
Estudos Econômicos (São Paulo) - Crime social, castigo social: desigualdade de
renda e taxas de criminalidade nos grandes municípios brasileiros — A teoria
econômica sugere que a desigualdade de renda contribui para o aumento da
criminalidade. Esse resultado é observado em estudos nacionais que utilizam dados de
taxas de homicídio.
Sur. Revista Internacional de Direitos Humanos - Public security policies in Brazil:
attempts to modernize and democratize versus the war on crime — Nos anos 1980
e 1990, a criminalidade violenta no Brasil cresceu consideravelmente e o tema da
segurança pública entrou definitivamente n...
Fator social na criminalidade — A criminalidade está presente desde as primeiras
civilizações, ao passo que o homem tornou-se um ser social, devendo respeitar as regras
...
Lei dos Crimes Hediondos — Editada pelo governo Collor em 1990, a Lei dos Crimes
Hediondos foi uma tentativa de resposta à violência. A sua origem remonta à Constit...