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Departamento de Ciências Sociais

CIDADANIA, RECONHECIMENTO E MOVIMENTOS SOCIAIS


Aluna: Giulia Luz
Orientadora: Angela Paiva



Introdução
A análise da lógica dos movimentos sociais é importante para se entender o processo de
mobilização coletiva no período de redemocratização pelo qual passa o Brasil desde a década
de 1980, com a nova Constituição e o retorno às eleições diretas. A participação das mulheres
das classes populares é uma constante desde a década de 1980, tornando-se importante a
compreensão do papel destas mulheres nos movimentos sociais atuais, mais especificamente
no Movimento Sem-Teto, partindo da premissa de que a participação destes atores sociais é
resultado de uma relação causal entre miséria e demanda.

Objetivos
Ao iniciarmos a pesquisa, tínhamos como objeto inicial de o MTST, Movimento dos
Trabalhadores e Trabalhadoras Sem-Teto, com o intuito de refletirmos sobre a questão de
gênero dentro do movimento social. Apropriando-nos de bases teóricas consolidadas, o
objetivo era entender a lógica do movimento escolhido à luz das discussões conceituais. Ao
mapearmos o movimento sem-teto no Rio de Janeiro, constatamos que apesar da forte
organização do movimento na cidade de São Paulo, o mesmo não ocorre aqui, visto estar em
um momento de refluxo.
Encontramos, porém, neste trajeto, duas ocupações autônomas que tratavam justamente
da nossa hipótese de pesquisa, que é o protagonismo das mulheres dentro da mobilização
dessas organizações sem-teto. Trazendo novas indagações, no que se refere ao movimento
analisado, as ocupações denominadas de “Quilombo das Guerreiras” e “Chiquinha Gonzaga”,
muito nos ajudaram com dados empíricos para dar continuidade ao projeto inicial.

Metodologia
O método utilizado para desenvolvimento da pesquisa se deu em três fases:
levantamento bibliográfico acerca das categorias analíticas que envolvem o tema central,
análise documental sobre a questão habitacional, analisando os déficits de habitação nas
cidades como Rio de Janeiro e São Paulo e sobre o movimento dos sem-teto, dando ênfase na
participação das mulheres e por último, a pesquisa de campo de movimentos específicos.
Após o levantamento bibliográfico, foi possível perceber a necessidade da junção entre
as questões de redistribuição e reconhecimento, a partir da teoria de Nancy Fraser [1], torna-
se importante repensar como foi construída desigualmente a redistribuição histórica do direito
à moradia, e a luta pelo reconhecimento da legitimidade desse direito fundamental.
Departamento de Ciências Sociais

Segundo Bobbio [2] e Carvalho [3], a moradia adequada foi reconhecida como direito
humano em 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, em seu artigo
XXV, que tornava o direito à moradia em um direito universal, aceito e aplicável em todos os
países signatários.
Na Constituição brasileira de 1988, está contemplada a dignidade da pessoa humana
(art. 2º, III), e como objetivo construir uma sociedade mais justa e solidária, erradicando a
pobreza e promovendo o bem de todos (art. 3º, I e III). Trazia como novidade a noção de
dever do Estado, em “promover programas de construção de moradias e a melhoria das
condições habitacionais e de saneamento básico” (art. 23, IX). Como afirma uma das
entrevistadas, uma dentre as lideranças da ocupação, o direito à moradia tem que ser visto de
outra perspectiva, como um direito social também prescrito na Constituição.
Com um Estado desprovido de recursos para sustentar políticas sociais capazes de
intervir com eficácia para a melhoria das condições sociais, grupos populares no Brasil
apresentam um contexto social quase oposto ao Estado Europeu, uma vez que grande parte da
população vive em condições de vida precárias, e com a ausência dos direitos mais básicos.
Além disso, a proporção de famílias chefiadas pela mulher chega a ser tão grande quanto a
família conjugal. Neste contexto, o foco da pesquisa será voltado para a prática de uma nova
concepção de moradia, com uma ideia forte de coletividade.

Conclusões
As duas ocupações pesquisadas possuem características muito próximas: concepções,
estratégias e modos de luta. Ambas pontuam a importância da mulher popular brasileira,
demonstrando a preeminência do discurso feminino dentro do movimento dos Sem-Teto. Têm
como foco, a ocupação de prédios públicos abandonados na região central da cidade, e após a
ocupação do local, constroem um regimento interno de autogestão. São movimentos
apartidários, e possuem um discurso anti-sistema.
Pensando a moradia com a perspectiva da coletividade, ambas as ocupações passam
agora por um momento de fragilidade. Com os grandes eventos sendo preparados na cidade, a
ocupação “Quilombo das Guerreiras” corre riscos de despejo pelo governo, e o uso do terreno
terá como finalidade a construção do maior complexo de torres comerciais do Brasil, o Trump
Towers Rio de Janeiro. A ocupação “Chiquinha Gonzaga”, com a chegada da UPP na favela
próxima ao prédio, sofre com o tráfico que já se encontra presente em sua portaria.
Com o prosseguimento da pesquisa será possível não só o aprofundamento teórico e
prático para compreensão destes atores sociais, como também os desdobramentos que a
pesquisa poderá trazer a partir da evolução dos acontecimentos presentes.

Referências
1- FRASER, Nancy. Da Redistribuição ao Reconhecimento? Dilemas da justiça na era
pós-socialista. Trad. Márcia Prates. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.

2- BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro, Campus, 1992.

3- CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro
Civilização Brasileira, 2002.