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PROVAS OPERATÓRIAS: CONTRIBUIÇÕES NO PROCESSO DE
DIAGNÓSTICO PSICOPEDAGÓGICO

Luanda Ramos Ruas
Associação De Pais E Amigos Dos Excepcionais De Anápolis
Pontifícia Universidade Católica Goiás – PUC
luaruas@hotmail.com
Profª Dra Magda Ivonete Montagni

1- Introdução
A partir do presente estudo cujo título é “Provas Operatórias: Contribuições no
Processo de Diagnóstico Psicopedagógico” objetivou-se conhecer as provas operatórias
elaboradas pelo epistemólogo Jean Piaget e colaboradores e suas contribuições no processo
de diagnóstico psicopedagógico.
Depreenderam-se deste objetivo geral, os seguintes objetivos específicos:
- Conhecer os princípios básicos da Epistemologia Genética pertinentes à aplicação e
avaliação das provas operatórias;
- Entender o processo da construção do pensamento para compreender as dificuldades de
aprendizagem, objeto de investigação e ação do Psicopedagogo;
- Contribuir com o processo de socialização do saber já construído sobre provas
operatórias e sua significação para a elaboração de diagnóstico psicopedagógico.
No contexto do presente estudo, entende-se por diagnóstico psicopedagógico o
processo que permite investigar, levantar hipóteses provisórias que serão ou não
confirmadas ao longo do processo de investigação das possibilidades e limites cognitivos
dos aprendentes, no caso, o diagnóstico que tem como referência a teoria de Jean Piaget, a
fim de identificar a presença ou não de desvios e obstáculos básicos das suas
aprendizagens.
A questão que norteou esta pesquisa foi: O conhecimento do nível operatório do
aprendente ao aplicar as provas piagetianas é uma ferramenta significativa para o
Picopedagogo avaliar as causas das dificuldades de aprendizagem?
A pesquisa que aqui é apresentada se justifica pelo que se apresenta a continuação.
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Para Sampaio (2010, p.17), “... o diagnóstico psicopedagógico clínico tem como
objetivo identificar as causas dos bloqueios que se apresentam no sujeito com dificuldade
de aprendizagem”. O psicopedagogo depara com sintomas manifestados pelos aprendentes
(agressividade, impulsividade, falta de atenção e outras diferentes dificuldades), mas não
compreende o verdadeiro problema. O que chega para o profissional é apenas a ponta do
iceberg. As causas aparentes são resultados de diferentes fatores que precisam ser
compreendidos para que sejam superadas. Nesta direção, o diagnóstico do
desenvolvimento mental a partir das provas piagetianas é um forte aliado da ação do
psicopedagogo.
Compreender como ocorre a formação do pensamento é uma busca histórica.
Diferentes vertentes investigam como o pensamento se forma e o porquê das dificuldades
de aprendizagem que aparecem no decorrer do desenvolvimento humano. Na busca de
investigar a cognição Piaget (1973) elaborou as provas operatórias com o objetivo de
avaliar a lógica do pensamento. Estas auxiliam na compreensão do desenvolvimento
cognitivo.
Conhecer tais provas e saber como aplicá-las é importante para que o trabalho seja
realizado e os resultados não tenham interpretações equivocadas. O vínculo é a base para a
realização deste trabalho. A relação de confiança entre o aprendente e o psicopedagogo é
de extrema importância durante todo o processo.
E é neste ponto que este artigo se desenvolveu. Conhecer, analisar e compreender a
valiosa contribuição que a Epistemologia Genética, incluindo as provas operatórias
elaboradas por Jean Piaget e seus colaboradores, têm a oferecer no diagnóstico
psicopedagógico.
O referencial teórico básico considerado foi: Flavell, 1975; Piaget, 1973, 1975,
1978; Mac Donell, 1994; Dolle, 2000; Sampaio, 2010, entre outros.
A metodologia utilizada nesta pesquisa foi a qualitativa. De acordo com Pádua
(2004):

[...] o desenvolvimento das investigações nas ciências humanas, as chamadas
pesquisas qualitativas procuram consolidar procedimentos que pudessem superar
os limites das análises meramente quantitativas. A partir de pressupostos
estabelecidos pelo método dialético e também apoiados em bases
fenomenológicas, pode-se dizer que as pesquisas qualitativas têm se preocupado
com o significado dos fenômenos e processos sociais, levando em consideração
as motivações, crenças, valores, representações sociais, que permeiam a rede de
relações sociais. (p.36)

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Tal pesquisa foi trabalhada no âmbito da pesquisa bibliográfica.
De acordo com Gonçalves (2005, p. 98), esse tipo de pesquisa é adequado para
estudos que visam o entrar em contato com as fontes de coleta de dados, com o intuito de
alcançar maior familiaridade com o problema, a fim de torná-lo mais explícito ou constituir
hipóteses que facilitem seu encaminhamento e realização.
Os resultados encontrados sinalizam a importância das provas piagetianas no
diagnóstico psicopedagógico, porque é um instrumento para identificação dos bloqueios
que aparecem nos aprendente com dificuldades de aprendizagem; o profissional, ao
realizar o diagnóstico, utiliza vários recursos para montar um grande quebra-cabeça,
buscando traduzir os sintomas apresentados; o uso das provas operatórias favorece
compreender como se desenvolve as funções lógicas do sujeito e se há algum obstáculo no
processo de aprendizagem devido à forma que o desenvolvimento mental vem ocorrendo.
Jean Piaget baseou-se na Epistemologia Genética para estudar aquele que nomeou
como sujeito epistêmico. Avaliar como o sujeito age para elaborar suas ideias foi o foco de
análise do autor. Tendo em vista os pressupostos epistemológicos, também investigou os
obstáculos enfrentados para aprendizagem. As provas operatórias, elaboradas pelo autor,
ajudam a perceber se as estruturas mentais acompanham ou não a idade cronológica do
discente auxiliando, assim, o diagnóstico psicopedagógico.
O presente trabalho se encontra assim organizado: 1. Introdução. 2. Desvendando o
desenvolvimento cognitivo através da epistemologia genética. 2.1. Principais perspectivas
sobre a aquisição e a construção do conhecimento. 2.2. Epistemologia genética: conceitos
básicos. 2.2.1 Estágios do desenvolvimento mental. 2.2.2 Estruturas mentais e linguagem.
3. Diagnóstico psicopedagógico. 4. Provas operatórias criadas por Piaget. 4.1Tipos de
provas operatórias. E, por último, Considerações Finais e Referências.

2 Desvendando o Desenvolvimento Cognitivo através da Epistemologia Genética

A Psicopedagogia é uma área do conhecimento que tem como objeto de estudo o
processo de aprendizagem e, mais particularmente, o aprendente e suas relações com o
referido processo. O Psicopedagogo é um profissional da educação e da saúde mental que
utiliza como um de seus instrumentos para realizar diagnóstico dos problemas de
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aprendizagem as provas de inteligência elaboradas pelo autor da teoria denominada
epistemologia genética ou psicogenética - Jean Piaget (1896-1980).
A seguir, serão apresentadas algumas ideias fundamentais da teoria psicogenética
que fundamentam o presente estudo.

2.1 Principais Perspectivas sobre a Aquisição e a Construção do Conhecimento

Conhecer a construção do pensamento foi uma busca dos grandes filósofos na
antiguidade. Há mais de dois milênios o homem vem se questionando como o ser humano
aprende e quais fatores contribuem para que esse processo ocorra de forma positiva.
Diversos cientistas e psicólogos realizaram e frequentemente realizam estudos mais
aprofundados para melhor compreender este desenvolvimento.
O modo de pensar das pessoas e o conhecer algo varia segundo as associações
mentais e depende sempre do universo cognitivo, psicológico do sujeito cognoscente.
Quem estuda esse conteúdo são os epistemólogos. Epistemologia trata das origens, dos
pressupostos, da natureza, extensão e do conhecimento. Os epistemólogos elaboram teorias
do conhecimento.
As posturas epistemológicas mais significativas são: o empirismo ou positivismo, a
fenomenologia e a dialética. O primeiro grupo afirma que o ser humano quando nasce é
uma tábula rasa, as aprendizagens ocorrem a partir das experiências acumuladas e sua base
é o determinismo ambiental e o postulado que afirma ser todo conhecimento é resultado de
experiências.
De acordo com Montagnini (2010), o viver experiências, no sentido positivista, é o
experimentar concretamente, efetivamente um determinado conteúdo porque sem esta
prática não há como assimilá-lo, aprendê-lo. Significa sofrer a influência do mundo
externo ou da situação estimuladora e reagir frente a ela. E assim o sendo, ir adquirindo o
conhecimento (a razão é adquirida) conforme a experiência que se materializa em função
da situação estimuladora recebida. A observação dos dados da experiência que se vive é
fundamental para desencadear a aprendizagem e a generalização ou transferência da
aprendizagem de um contexto para outro. Aprender a partir do viver experiências é mudar
o comportamento ao acumular informações ou dados na memória após estabelecer a
relação entre estímulo-resposta. É a apreensão de uma verdade (em detrimento da sua
construção) através da experiência.
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Com relação à fenomenologia, Montagnini (2000) afirma que o construir
conhecimento é um processo elaborado pelo aprendente ao se sentir envolvido
pessoalmente pelo conteúdo a ser aprendido porque ele tem relação com a sua
subjetividade, provocando desenvolvimento pessoal (autorrealização).
Pontua que ao suspender provisoriamente os pré-conceitos, o psicopedagogo
entende o aluno enquanto ser humano e não como objeto de depósito de conhecimentos;
como um sujeito que tem uma essência que não se confunde com a essência dos outros
indivíduos; como um ser subjetivo o que o impede de usar análises objetivas e
quantitativas; como pessoa tanto quanto o professor e as demais pessoas o são. Sobre a
consciência intuitiva do psicopedagogo, orienta-nos que o psicopedagogo-pesquisador
deve guiar-se pela compreensão que tem do aprendente enquanto pessoa a partir das suas
intuições, sem a preocupação de explicações fundamentadas em teorias ou conceitos pré-
estabelecidos, como por exemplo, explicar o comportamento do aluno em função de
fatores políticos e/ou econômicos.
Os estudiosos da fenomenologia acreditam ser o conhecimento inato, defendendo
ser o um fenômeno pré concebido.
O terceiro grupo de teóricos se baseia na compreensão de que a aprendizagem se
conquista na interação do sujeito com o objeto, na interação do sujeito com o meio social,
sendo então conhecido como construtivista. Segundo a dialética, a criança não nasce
pronta, como também não é passiva ao conhecimento oferecido. Ela constrói o seu
conhecimento ao interagir com os estímulos que lhe são oferecidos. Os cientistas Jean
Piaget e Lev Semenovich Vigosti são significativos representantes desta perspectiva
teórica.
Vigotski estudou Marx porque aspirava elaborar uma explicação sobre o processo
de aprendizagem tendo as ideias de Marx como referencial. E conhece o filósofo Hegel,
filósofo este bastante considerado por Marx. Hegel empregou a dialética em seu sentido
mais transcendental em filosofia, denotando o processo que emprega o espírito para o
conhecimento do mundo, conhecida como dialética hegeliana, que consiste em reconhecer
a inseparabilidade dos contraditórios e em descobrir o princípio de sua união em uma
categoria superior. Em outras palavras, a toda tese corresponde uma antítese, completando-
se, ambas, em uma etapa superior chamada síntese. E advogava que o que gera o avanço da
história são as contradições. A partir da negação da realidade o homem a transforma.
Quanto à contradição, Marx, por exemplo, pontuou que os conflitos ou choques de
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interesses em um plano material, concreto, provocado pelo plano econômico,
desencadeiam mudanças, transformações que vão possibilitando o fazer história como um
processo de superação das contradições. Neste sentido, a história se concretiza em função
dos fatos materiais como efeito das ações das massas trabalhadoras com suas necessidades
materiais básicas não satisfeitas pelas relações de dominação e exploração.

2.2 Epistemologia Genética: Conceitos Básicos

Piaget nasceu na Suíça, formou-se em 1915, em Ciências Naturais, doutorou-se, aos
22 anos em Biologia. Sua preocupação estava em desvendar o processo de evolução do
conhecimento. Piaget (1973) buscou entender a gênese e o desenvolvimento do
conhecimento humano a partir do caminho da pesquisa psicológica dos comportamentos
cognitivos do individuo em sua evolução. Não foi um cientista da ciência aplicada, por
essa razão, não escreveu para a Educação ou para a Pedagogia, como muitos pensam.

Piaget (1973) conduziu seus estudos de forma a contestar o paradigma inatista e o
empirista.
Para o biólogo suíço, a Epistemologia Genética, definindo esta como o estudo da
origem do conhecimento (episteme = conhecimento, logia = estudo e gênese), investigou
sobre o sujeito epistêmico. Foi esta a base para a sua construção teórica resultando em uma
das grandes contribuições que favoreceram e ainda hoje favorecem a Educação, incluindo
o trabalho do Psicopedagogo, devido a transposição que alguns estudiosos fazem,
resguardando as devidas adaptações, dos postulados piagetianos a estas áreas do
conhecimento.
A Epistemologia Genética tem como fundamentos teóricos: a) a proposta
construtivista/ interacionista expressa que é na interação com o objeto que o sujeito vai
estruturando seus conhecimentos. Cada indivíduo é um sujeito ativo, interativo e criativo
ao longo do processo do seu desenvolvimento cognitivo.
Sendo assim, a Epistemologia Genética concebe o conhecimento como um
processo, na qual o sujeito aprende na relação que tem com o objeto. É uma teoria que se
opõe ao inatismo e ao empirismo. Desta forma, o conhecimento é construído a partir da
relação do sujeito com o objeto. b) As estruturas da inteligência se desenvolvem
progressivamente de estruturas mais simples para outras mais complexas; isto é um
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processo universal no sentido que vale para todos os seres humanos, podendo variar na
idade e cada sujeito tem o seu tempo e forma para elaborá-las. Considera que a mente
possui um alto grau de estruturação e organização. Para que esta estrutura seja
adequadamente preparada, ela passa por estes dois processos que são responsáveis pela
interpretação da realidade. c) Os fatores do desenvolvimento mental são: processo de
maturação neurológica, o contato com o objeto, a interação social e o processo de
equilibração. d) Sobre o método que utilizou para pesquisar, o método clínico, esse se
caracteriza por:

... um método de conversação livre com a criança sobre um tema dirigido pelo
interrogador, que acompanha as respostas da criança, que lhe pede que justifique
o que está dizendo, explique, diga o porquê, e que igualmente apresenta contra-
sugestões, etc.” (PIAGET apud DOLLE, 2000, p. 18)

e) Outro fundamento básico é o conceito de esquema mental. Esquema, define
Flavell (1996),

... é uma estrutura cognitiva que se refere a uma classe de sequências de uma
ação semelhante, sequências que constituem totalidades potentes e bem
delimitadas nas quais os elementos comportamentais que os constituem estão
estreitamente inter-relacionadas. (p.52)

Estes esquemas são estruturas mentais que gradualmente são reelaboradas,
atingindo estágios mais avançados a partir do momento em que está preparado para isso. f)
As invariantes funcionais são processos psicológicos utilizados no momento da
aprendizagem, sendo elas: assimilação, acomodação, adaptação, organização e
equilibração. Segundo Piaget (1973), a assimilação é a incorporação de um novo objeto ou
ideia ao que já é conhecido, ou seja, a estrutura mental que o indivíduo já tem. A
acomodação, por sua vez, implica na transformação que o organismo sofre para poder lidar
com o ambiente. Assim, diante de um objeto novo ou de uma ideia, o sujeito modifica suas
estruturas tentando adaptar-se à nova situação. A adaptação possibilita ao indivíduo
responder aos desafios do ambiente físico e social. Dois processos compõem a adaptação,
ou seja, a assimilação (uso de uma estrutura mental já formada) e a acomodação (processo
que implica a modificação de estruturas já desenvolvidas para resolver uma nova situação).
Com relação à equilibração, essa é a autorregulação do pensamento à medida que o sujeito
elabora os processos mentais de assimilação, acomodação, adaptação e organização,
simultaneamente.
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Para o Psicopedagogo, estes conhecimentos são extremamente importantes na
elaboração do diagnóstico psicopedagógico.

2.2.1 Estágios do Desenvolvimento Mental

Segundo Piaget (1973), durante o processo de crescimento, o ser humano passa por
diferentes estágios de desenvolvimento.
Ramozzi-Chiarottino (1998, p.16) coloca ao descrever Piaget, que “... para Piaget
cada estágio da embriologia mental é necessário ao seguinte, ou seja, prepara o próximo,
necessariamente, por tanto, não dá saltos”. Estas estruturas são transformadas
continuamente, num progresso ascendente.
Estes estágios são: sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório
formal.
No estágio sensório motor que vai desde o momento do nascimento até
aproximadamente dois anos de idade, a criança apresenta seis fases sendo elas:
1ª fase (0;0-0;1) – Reação circular; reflexos, reações permanente instintivas ou
inatas.
2ª fase (0;1-0;4) – Formação de hábitos elementares sempre relacionados à
utilização e exploração do próprio corpo.
3ª fase (0;4-0;8) – Reação circular secundária: repetir espetáculos interessantes
encontrados ao acaso. Exploração do meio ambiente. Aparece a intencionalidade, porém
esta ainda é muito fraca, pouco resistente.
4ª fase (0;8-1;0) – Combina uma aprendizagem elementar com outra aprendizagem
elementar, e isto possibilitará à criança aplicar o que já aprendeu a situações novas.
O nível de intencionalidade da criança é mais resistente que o da fase anterior. Por
isso, já começa a agir por ensaio e erro e não somente ao acaso. Repete uma mesma ação
sem variá-la.
5ª fase (1;0-1;6) – Reação circular terciária: descobre novos meios para atingir um
fim através de ações efetivas; repete uma mesma ação variando-a.
6ª fase – Aparecem sinais de representação.
Neste estágio a criança tem o desenvolvimento voltado para sua formação sensorial
ou e motora.
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Durante todo este estágio a criança ainda não consegue representar mentalmente os
objetos.
No segundo estágio, o pré-peratório (de dois a sete anos, aproximadamente), inicia
o desenvolvimento da função de representação e da linguagem. Os objetos começam a
serem representados mentalmente, isto é, a criança é capaz de pensar no objeto mesmo que
este não esteja a sua frente. É capaz de utilizar de símbolos para representar estes objetos.
Também consegue expressar os acontecimentos passados e futuros oralmente,
evidentemente de acordo com as suas possibilidades cognitivas (pensamento transdutivo,
alógico) realizando assim, “... a primeira noção de conservação, que é o esquema de
permanência do objeto, condição necessária para a futura aquisição das noções da
substância” (RAMOZZI-CHIAROTTINO, 1998, p.16). É um período conhecido pelo
egocentrismo: a criança ainda não se mostra capaz de colocar-se na perspectiva do outro;
irreversibilidade: a criança não entende que se fizermos certas transformações, somos
capazes de restaurá-las, fazendo voltar ao estágio original, como por exemplo: a água que
se transforma em gelo e aquecendo-se volta à forma original; transdução: seu pensamento
não é dedutivo nem indutivo e por isto só entende a parte do todo sem jamais chegar à
compreensão do todo. Capta estados momentâneos sem juntá-los em um todo; imitação e
presença do pensamento e jogo simbólico. Para a educação é importante ressaltar o caráter
lúdico do pensamento simbólico.
No terceiro estágio, o operacional concreto (sete aos doze anos), a criança já
apresenta uma estrutura mental organizada. Neste período ela começa a pensar o mundo de
forma lógica, ainda que de forma elementar porque só faz uso da lógica concreta. É nesta
fase que ela descentraliza, gradativamente passando a não mais se sentir como o centro de
tudo. Goulart afirma que,

A descentrarão necessária para se chegar às operações não se baseia apenas num
universo físico, mas também num universo social; isto significa que a criança
passa elaborar seu conhecimento do mundo levando em conta os sujeitos com os
quais convive e que são, ao mesmo tempo, diferentes e semelhantes a ela. (2011,
p. 63)

Neste momento, já realiza pensamentos lógicos matemáticos (operações concretas),
compreendendo noções de tempo, peso, espaço e lógica matemática. Essas noções vão
progressivamente aumentando sua complexidade no decorrer do período sendo elas:
classificação/ seriação, multiplicação lógica/ compensação simples, compensação
complexas/ razão proporção e probabilidade/ indução de leis ou correlação.
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Neste período ela conquista a reversibilidade, no entanto ainda sem coordenar
totalmente as ideias.
Neste estágio a criança já possui uma organização mental integrada, os sistemas de
ação reúnem-se em todos integrados. Piaget fala em operações de pensamento ao invés de
ações. É capaz de ver a totalidade de diferentes ângulos. Conclui e consolida as
conservações do número, da substância e do peso.
E por último, o quarto estágio, período das operações lógico-formais
(aproximadamente a partir dos 12 anos), ocorre o progresso das operações hipotético
dedutivas. Neste momento a criança já é capaz de distinguir entre o que é real e o que é
possível. Como também se liberta do concreto sendo capaz de estruturar suas estruturas
mentais com elementos abstratos. Realiza pensamento hipotético-dedutivo, proposicional e
análise combinacional. A criança consegue pensar abstratamente e executar a
reversibilidade completa. O adolescente consegue realizar pensamento científico,
conseguindo eliminar hipóteses e acrescentar a suas observações. A criança se liberta
inteiramente do objeto, inclusive o representado, operando agora com a forma (em
contraposição a conteúdo), situando o real em um conjunto de transformações. A grande
novidade do nível das operações formais é que o sujeito torna-se capaz de raciocinar
corretamente sobre proposições em que não acredita, ou que ainda não acredita, que ainda
considera puras hipóteses. É capaz de inferir as consequências.

3. Diagnóstico Psicopedagógico

Entenda-se por diagnóstico psicopedagógico o processo que permite investigar,
levantar hipóteses provisórias que serão ou não confirmadas ao longo do processo de
investigação das possibilidades e limites cognitivos das crianças, no caso do diagnóstico
que tem como referência a teoria de Jean Piaget, a fim de identificar a presença ou não de
desvios e obstáculos básicos das suas aprendizagens.
Conhecer a criança que aprende é um desafio. Respeitar seus estágios de
desenvolvimento mental a partir de Piaget, sem menosprezar as explicações que teóricos
da psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem apresentam, criar situações que
proporcionem a transformação do pensamento no momento da aplicação dos recursos
diagnósticos, abandonar a arcaica figura do transmissor do conhecimento, mas assumir o
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papel de mediador do mesmo no momento da aplicação dos instrumentos próprios para
diagnosticar o desenvolvimento mental através das provas piagetianas é imprescindível.
O diagnóstico psicopedagógico pode inclusive ser realizado na sala aula ao
observar como o aprendente reage frente aos estímulos que recebe. Neste caso, o
Psicopedagogo e o professor investigam, simultaneamente o perfil do discente. Este
dinamismo permite a observação de dificuldades que poderão ser sanadas dentro do
próprio contexto escolar.
No entanto, não é essa realidade que se conhece. Comumente há profissionais da
educação rotulando os alunos que apresentam dificuldades no aprendizado, deixando-os
marginalizados do grupo de alunos resultando no distanciamento aluno-professor, aluno-
psicopedagogo, vínculo extremamente importante para que o processo de ensino-
aprendizagem ocorra. Desta forma, o que muitas vezes poderia ser uma comum dificuldade
durante a apreensão de novas habilidades, passa a ser um problema de dificuldades.
Muitas vezes sem respostas para compreender o aluno, normalmente o professor
encaminha os alunos considerados “aluno problema” para consultórios, no qual ficará a
cargo de profissionais, tais como: psicólogos, fonoaudiólogos, neurologistas e
psicopedagogos, realizarem um diagnóstico do mesmo. Entre estes profissionais, em geral,
o Psicopedagogo é o responsável por realizar o diagnóstico do aprendizado do aluno.
As técnicas para o diagnóstico variam conforme a linha teórica que o profissional
trabalha. As diferenças podem não alterar o diagnóstico, mas o mesmo precisa ter clareza
quanto à linha que optou.
De acordo com Bossa, o resultado das sessões, a partir da “compreensão e a análise
da produção do sujeito nos fornecem dados importantes para o diagnóstico” (1994, p. 37).
Essa investigação busca compreender integralmente a forma como aprende e os desvios
que impossibilitam as novas entradas para aprendizagem.

4 Provas Operatórias Criadas por Piaget

O presente artigo visa ampliar a compreensão sobre as Provas Operatórias, recurso
que contribui na análise do nível cognitivo do sujeito. Foi no Centro de Epistemologia
Genética, Genebra, criado e liderado por Piaget que estes estudos começaram a ser
aplicados. Sampaio (2010) esclarece,

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Por meio da aplicação das provas operatórias, teremos condições de conhecer o
funcionamento e o desenvolvimento das funções lógicas do sujeito. Sua
aplicação nos permite investigar o nível cognitivo em que a criança se encontra e
se há defasagem em relação à idade cronológica, ou seja, um obstáculo
epistêmico. (p.41)
O biólogo suíço realizou suas investigações no século XX na busca de compreensão
de como a criança aprende. Este desenvolveu pesquisas durante um longo tempo que
resultaram na Epistemologia Genética. As indagações realizadas por ele permitiram a
elaboração de uma sólida teoria do desenvolvimento que revolucionou a época e se
perpetuou até os dias de hoje. O autor comprovou a incoerência no pensamento da criança
até aproximadamente 6 e 7 anos. Durante o tempo de investigação notou que muitas
crianças davam uma mesma resposta errada a um determinado problema. Para o
epistemólogo, o caminho para chegar à compreensão das respostas certas, parcialmente
certas ou erradas eram tão importantes como o resultado final. Diante desse pressuposto,
tanto acerto e o erro são alvos de investigação auxiliando no processo para compreensão
das modificações que a criança passa no decorrer de suas aquisições mentais.
Apontar o nível do desenvolvimento mental o indivíduo que se submetia às provas
operatórias era o objetivo de Piaget (1973).
As provas piagetianas têm como objetivo avaliar as noções de tempo, número,
causalidade, conservação, entre outros. Desta forma, complementa MacDonell (1994),

Mediante as provas de Diagnóstico Operatório, podemos chegar a determinar o
grau de aquisição de algumas das noções chaves do desenvolvimento cognitivo
(…), cujo o conteúdo se leva em conta em cada uma delas de um modo muito
especifico. Algumas provas versam sobre a noção de conservação de quantidade,
referindo-se a aspectos numéricos, geométricos ou físicos, e outros indagam as
questões vinculadas às classes e ás relações. (p. 04)


Para aplicação das provas é preciso já ter havido o contato inicial entre o
entrevistado e o entrevistador (Visca, 2008, p.25). Provavelmente este contato já foi
estabelecido nas sessões anteriores, estabelecendo o vínculo. Essa ligação é absolutamente
necessária para que exista um laço de confiança entre ambos. Outro elemento de
fundamental importância apontado pelo autor são as hipóteses do entrevistador. São estas
que mostrarão o ponto de partida de onde começará a investigar.
Durante a realização das mesmas é necessário ter cuidado com as consignas
(instruções). Caso estas sejam direcionadas erroneamente pode-se obter respostas
equivocadas. Quando não houver segurança para apresentar o conteúdo da consigna,
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Sampaio (2010, p.42) sugere que estas sejam digitadas e lidas. Outro cuidado é a
alternância das provas de classificação, conservação e seriação, prevenindo uma possível
contaminação das respostas. E, segundo Piaget (1975), aplicar, no mínimo, cinco provas
piagetianas avaliando cinco estruturas mentais distintas. Quanto aos resultados, Sampaio
aconselha,

Os resultados serão mais bem compreendidos se anotados detalhadamente todas
as respostas do cliente, inclusive suas reações, postura, fala, inquietações,
reações diante do desconhecido, seus argumentos, sua organização, de que
maneira manipula e organiza o material. (p.42)

Para realização das provas o entrevistador precisa apresentar estratégias para não
haver incerteza da interpretação do nível cognitivo consubstanciado, como expõe Visca
(2008, p.26). A estratégia comum a todas as provas são: apresentação do material, a
indagação de vocabulário e a delimitação da intencionalidade da prova. Durante a
apresentação dos materiais o aprendiz passa a conhecê-lo e como o utilizará. Durante o
primeiro contato o entrevistador já observa as primeiras reações, aprovação ou reprovação
e seu conhecimentos prévios sobre aquele material.
Quanto à indagação do vocabulário, a linguagem é um instrumento para expressar o
pensamento, no entanto, durante as provas, como a avaliação não está relacionada à
avaliação do vocabulário, o entrevistador deve considerar as designações do entrevistado,
como exemplifica a autora: “nada importa se na prova de dicotomia o entrevistado designa
os círculos com esse nome ou os chama de bolas, discos, redondas, bolinhas ou de
qualquer outra forma.” (p.27).
Durante a aplicação das provas piagetianas Sampaio (2010) aponta a teoria de
Visca (2010) exemplificando estratégias no momento de sua realização. Para iniciá-las o
entrevistado deve mostrar compreensão na relação de igualdade dos materiais
apresentados, quando houver, por exemplo: a igualdade inicial das bolinhas de massa ou da
quantidade de líquido nos dois copos. Ao realizar as perguntas, de forma clara e objetiva, o
profissional tem que se atentar a questionar o pensamento apresentado para compreender
os caminhos que o entrevistado passa para elaborar as suas respostas. Antes de realizá-las é
preciso reassegurar se o sujeito “estabeleceu mesmo a igualdade inicial ou a diferença
inicial”, no caso da conservação de massa e ou de líquido (Sampaio, 2010, p.48).
Na fase da realização das provas o entrevistador deve ter como objetivo provocar a
argumentação apresentada pelo entrevistado. Sampaio (2010) afirma, ao descrever Piaget,
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ser necessário utilizar o retorno empírico, isto é, ao fim de cada prova voltar o material ao
estado inicial. Também a contra-argumentação utilizada para perceber se o entrevistado
mantém sua argumentação após a apresentação do ponto de vista contrário. A contra-
argumentação com terceiro tem o mesmo objetivo da anterior: perceber se o entrevistado
mantém sua argumentação, no entanto, utilizando o exemplo de terceiros, tal como
exemplifica Visca: “Em uma oportunidade, uma criança me disse que a salsicha tinha mais
do que a bola. O que lhe parece: essa criança estava correta ou não?” (2008, p.30). O
argumento tem grande valia durante o processo de avaliação, pois como afirma MacDonell
(1994),

Os interrogatórios que são feitos a cada prova estão destinados não só a conhecer
os juízos da criança, que variam em função da idade e do desenvolvimento,
senão particularmente sobre os argumentos que os acompanham. Por exemplo,
não só nos interessa saber se a criança aceita ou nega a invariância quantitativa
da prova de transvasamento de líquidos, mas antes de tudo, quais os argumentos
que utiliza para justificar seu juízo de conservação ou não conservação. (p. 7)

Assim, no momento da prova de conservação o autor também orienta para pergunta
de coticidade, esta é desenvolvida após tapar com a mão uma das coleções de fichas,
“Conte as fichas. Você pode me dizer quantas têm debaixo de minha mão? Como você
sabe?”. Quando preciso, pode-se buscar comprovar “uma hipótese do entrevistado de
maneira concreta” (SAMPAIO, 2010, p.49).
Ao aplicar as provas é possível observar em que estágio se encontra o pensamento
estruturado tendo a certeza, na visão cognitivista, que a criança só apresentará respostas
conforme as estruturas já formadas. A linguagem, neste momento, é um importante
instrumento mediador entre o profissional e o conhecimento do sujeito. O psicopedagogo
deve acompanhar a formação de conceitos e os diversos elementos periféricos da
linguagem, isto é, as respostas e o comportamento são observados simultaneamente.
Ao fazer as devidas observações o psicopedagogo pode avaliar se a idade cognitiva
acompanha ou não a idade cronológica do aprendiz, frente a isso, oriunda as dificuldades
de aprendizagem apresentadas. É importante frisar que os fatores sócio-culturais
influenciam nos aspectos da idade cronológica do aprendiz.
Ao serem dadas as respostas, estas são avaliadas em três níveis, como organiza
Sampaio (2010, p.42) a partir do exposto por Piaget (1975),

Nível 1: Não há conservação, o sujeito não atinge o nível operatório nesse
domínio.
15

Nível 2 ou intermediário: As respostas apresentadas oscilações, instabilidade ou
não são completas. Em um monto conserva e em outro não.
Nível 3: As respostas demonstram aquisição da noção, sem vacilação.

A classificação expressa que o sujeito não apresentou a compreensão dos conceitos
avaliados. No segundo nível refere-se às respostas invariáveis, incompletas daqueles
sujeitos que apresentaram êxito parcial em suas respostas. E o nível 3, quando as respostas
são dadas com êxito e argumentação clara.
As estratégias utilizadas durante o interrogatório das provas auxiliam na
constatação do nível cognitivo que o aprendente se encontra.

4.1 Tipos de Provas Piagetianas

As provas que o entrevistador aplicará ficarão a critério do mesmo, partindo das
verificações realizadas anteriormente e o que ele percebeu ser necessário. No entanto, as
aquisições de noções seguem uma ordem, conforme mostram algumas pesquisas
piagetianas, podendo variar conforme o contexto que o indivíduo encontra-se. (Weiss,
1992, p. 105). Mac Donell (1994) sugere a seguinte organização:
até 6 anos: provas de conservação:
de pequenos conjuntos diferentes de elementos
da quantidade de líquido
provas de classificação:
de mudança de critério ou dicotomia
provas de seriação
6 e 7 anos: provas de conservação:
de pequenos conjuntos diferentes de elementos
da quantidade de líquido
da quantidade de matéria
da composição da quantidade de líquido
provas de classificação:
de mudança de critério ou dicotomia
intersecção de classes ou quantidade da
inclusão de classes
provas de seriação
8 e 9 anos: provas de conservação:
da quantidade de matéria
da quantidade de largura
da composição da quantidade de líquido
de peso
provas de classificação:
intersecção de classes
quantificação da inclusão de classes
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prova de seriação
10 a 12 anos: provas de conservação:
de largura
de peso
de volume
provas de classificação:
intersecção de classes
quantificação da inclusão de classes
12 anos ou mais: No caso de se obter êxito na prova de conservação de
volume, administram-se as provas para o pensamento formal.

Para realização das provas o Psicopedagogo precisa organizar seu material
respeitando a idade da criança, a ordem pelas estruturas já adquiridas das noções e/ ou os
problemas apresentados pela mesma. O material deve ser apresentado antes da aplicação
das provas. Dentre os materiais usados, Weiss (1992) exemplifica,

fichas com formas, cores e tamanhos diferentes; bastonetes, duas espécies de
flores e frutas, copinhos plásticos transparentes de diferentes alturas e diâmetros;
massa plástica de duas cores diferentes, fios de lã ou correntinhas, balança,
casinha de madeira, régua, lápis, tabuleiro de papelão. (p.104)

Como descrito anteriormente, as formas de realizar as provas são praticamente a
mesma com perguntas direcionando um diálogo. O entrevistador busca entender a estrutura
do pensamento do seu aprendiz a partir das diversas estratégias mentais utilizadas pelo
entrevistado. Assim, “A postura do terapeuta é de explorar ao máximo as possibilidades da
criança procurando atingir verdadeiramente o seu nível de estrutura de pensamento, e não
se fixando em primeiras respostas que podem ser equívocas.” (Weiss, 1992, p. 104)
O psicopedagogo deve utilizar o método clínico criado por Piaget ao aplicar as
provas. Piaget citado por Dolle assim conceitua o método que criou:

... um método de conversação livre com a criança sobre um tema dirigido pelo
interrogador, que acompanha as respostas da criança, que lhe pede que justifique
o que está dizendo, explique, diga o porquê, e que igualmente apresenta contra-
sugestões, etc.” (2000, p. 18)
O registro realizado é um importante instrumento para avaliação e conclusão do
diagnóstico. Tanto a linguagem como as reações externas precisam ser anotadas. Segundo
Weiss (1992), todas as observações são relevantes, já que o importante é o processo não o
resultado, por isso, é necessário atentarem-se as respostas e argumentações apresentadas.
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Outro fator relevante são as variações emocionais, estas podem variar, caso o sujeito tenha
passado por situações que alteraram o seu comportamento.
Considerações Finais
O presente trabalho possibilitou conhecer parcialmente os postulados piagetianos
uma vez que conhecê-los na sua plenitude exigiria muito mais horas de pesquisa devido à
extensão e complexidade dos princípios da teoria epistemológica e psicológica criadas por
Piaget.
Neste artigo, o foco foi a contribuição que o trabalho do espistemólogo Piaget e
seus colaboradores deixaram para o diagnóstico psicopedagógico. As provas operatórias,
fundamentadas na Escola de Genebra, apresenta-se ainda hoje um instrumento importante
para avaliar o nível cognitivo que o sujeito se encontra, auxiliando assim, o profissional
verificar se há uma defasagem cognitiva, considerando a idade cronológica com relação à
idade cognitiva.
Conforme o Código de Ética, Capítulo I, Artigo1º, o psicopedagogo pode aplicar
“procedimentos próprios e fundamentados em diferentes referenciais teóricos” (p. 8), O
uso de provas, testes ou outros recursos são procedimentos que contribuem para um
diagnóstico psicopedagógico. A seleção dos mesmos é definida conforme as hipóteses
levantadas na entrevista realizada com a família e nas primeiras seções psicopedagógicas
com o sujeito. Ao utilizar estes recursos, o profissional deve se atentar aos aspectos
“afetivos, cognitivos, corporais e pedagógicos” (Weiss, p.101). Desta forma, o diagnóstico
implica pesquisar fatores externos e internos, um desvendar minucioso, na qual a escuta
também será ferramenta importante no decorrer da avaliação.
As provas e testes são elementos de mediação entre o cliente e o profissional
durante o processo de diagnóstico, contribuindo na percepção da elaboração do
pensamento apresentado pelo aprendente. O diálogo favorecerá a interação do aprendiz/
provas / e profissional. Argumentação, contra-argumentação e as colocações, muitas vezes
de forma subjetivas, fornecerão dados importantes para interpretação do sujeito. No
entanto, é válido ressaltar que para aplicação das mesmas deve-se ter estabelecido um
vínculo entre ambos, para que sessão ocorra de forma científica.
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Logo, tão importante quando todas as etapas de um diagnóstico é o olhar singular e
a escuta sensível do profissional para o aprendente. Este conjunto direcionará para o
diagnóstico e o caminho a percorrer durante a intervenção do aprendiz.
As provas operatórias tomam como parâmetro o sujeito epistêmico, avaliando
estruturas cognitivas comuns a todos os seres humanos. Estas provas abordam
particularidades da área lógico-matemática de classificação, ordenação e seriação. Como
vimos, para Jean Piaget, a organização destas estruturas ocorrem por estágios. A aplicação
das provas permitem investigar em que estágio do desenvolvimento encontra-se o
aprendiz.
Os postulados piagetianos esclarecem que para a concretização dos estágios é
preciso passar pelos processos de assimilação, acomodação, adaptação e equilibração.
Assim, compreender o caminho que se percorre para a elaboração do pensamento
possibilita também identificar os obstáculo epistêmicos apresentadas.
O Psicopedagogo não deve almejar apenas os resultados obtidos ao aplicar as
provas operatórias, mas buscar compreender o percurso levado até chegar nele. Weiss
completa,
Como o objetivo das provas não é ver o produto, mas, sim, descobrir o processo
mental usado pelo paciente para descobrir as respostas torna-se indispensável
analisar cada resposta, justificativa, juízos e argumentos dados (1992 p.107).
Por fim, o profissional deve buscar perceber o aprendente considerando, não só as
repostas orais, mas os diferentes elementos trazidos por ele (o olhar, as hesitações, os
bloqueios, a forma de agir e suas reações diante as situações problemas). As provas
operatórias fazem parte de um processo dinâmico, passíveis de alterações conforme o
sujeito apresenta-se no dia, por isso é fundamental para conclusão do diagnóstico a
interpretação global de todo o processo que o sujeito passou (aspectos subjetivantes e
objetivantes). A autora citada anteriormente completa,
É fundamental não considerar as provas operatórias como um instrumento
infalível, absoluto, pois o desenvolvimento operatório, sendo resultante de uma
interação indivíduo-meio, está sujeito a progressos após o momento das provas.
Deve-se considerar sempre o melhor nível de respostas dadas ao longo do
processo. O conhecimento das estruturas cognitivas do paciente permite
hipóteses para compreensão de sua conduta escolar. (WEISS, 1992, p.107)
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Assim, com um diagnóstico, o profissional traçará o caminho que percorrerá
durante a intervenção, que possibilitará ao sujeito novas formas de pensar sua
aprendizagem, promovendo sua autonomia para solucionar seus problemas, despertando
novamente o anseio para aprender.


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