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A poesia é para comer

Dizer-vos que a poesia é para comer não é mais do que um pretexto para vos falar de
poesia. Ou melhor, para vos trazer alguma poesia. Mais do que falar dela, a poesia quer que a
mostrem, que a leiam, que a amem ou odeiem, enfim, que a comam.
E é qualquer coisa parecida com isso que vos proponho fazermos agora. Vamos dar
uma volta pelas palavras dos poetas quando nos falam de emoções e sentimentos, de
sensações e estados de alma, às vezes dizendo precisamente aquilo que nós queríamos dizer
mas não sabíamos como.
Vou mostrar-vos aqui e ali que esta atividade tão necessária à sobrevivência que é
comer pode por vezes estar repleta de poesia. E que a poesia, não raras vezes, se socorre dos
prazeres da mesa para dizer o que quer.
Começo com um poema que quase todos conhecem:
De Tarde
Naquele "pic-nic" de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!
Pois está visto que reconheceram o nosso Cesário. Qualquer que tenha sido a razão
interior que o levou a reparar em certo decote, não deixa de ser verdade que essa visão
radiante se lhe ofereceu rodeada de apetitosos e refrescantes petiscos.
No mesmo piquenique, ou quem sabe no salão de um hotel ou mesmo num passeio de
Lisboa, poderia Augusto Gil ter encontrado a inspiração para escrever este poema:
No teu pescoço esbelto de morena
Usas, às vezes, um decote em vê.
Essa letra, porém, é tão pequena
Que mal se lê,
Que mostra apenas, dentre o que escondeu,
Uma nesga inestética e minúscula.
Ora um colo como o teu…
Merece letra maiúscula.
Ou António Botto, sensível a um adereço feminino:
O brinco da tua orelha
Sempre se vai meneando;
Gostava de dar um beijo.
Onde o teu brinco os vai dando.
Tem um topázio doirado
esse brinco de platina;
um rubi muito encarnado,
e uma outra pedra fina.
O que eu sofro quando o vejo
sempre airoso meneando!
Dava tudo por um beijo
onde o teu brinco os vai dando.
O que parece sobressair é que os poetas, como os outros meros mortais, são
suscetíveis de se deixarem encantar, de se deixarem levar pelo sentimento, de se renderem.
Vejam bem como nos dá conta disso o poeta Casimiro de Brito:
Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe.
O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.

Temos tendência a falar por comparações e metáforas. Elas ajudam-nos a ilustrar a
nossa visão do mundo, permitem-nos dar cor e sabor e cheiro às palavras que pronunciamos e
dão aos outros uma dimensão sugestiva do que lhes estamos a dizer. Vejam bem o que se
passa neste poema de Ary dos Santos, que se chama Os Docinhos, mas de que eu diria ser uma
bomba calórica:

É como se fosses um cabaz de doces
como se o teu beijo fosse um sim ou não
É como se fosses uma pera doce
oh meu leite-creme casca de limão
É como se fosses um pastel de nata,
meu papinho d’anjo, meu bolo de arroz
É como se eu fosse a língua de gata
e o caramelo de um bolo de noz
feito só por nós

Doces os teus olhos de amêndoa vidrada
Doces os teus braços de vida amassada
Amigo amada
Doces os teus lábios que sabem a figo
Ai amor tão doce que eu faço contigo
Amada amigo

Se tu respirasses tal como eu suspiro
claras em castelo deste sonho louco
Oh meu pão-de-ló doce que eu prefiro
sempre que te provo sabes sempre a pouco
Se tu me provasses este nosso ponto
é o ponto mais alto da nossa alegria
Canela e açúcar são o nosso encontro
meu arroz mais doce deste nosso dia
feito de poesia

Não se come que se não beba, sob pena de ficarmos enfartados, sem que a comida
desça. Ao longo dos tempos, sempre as bebidas, as alcoólicas sobretudo, foram também
louvadas ou amaldiçoadas pelos homens, que no entanto não são capazes de viver sem elas. O
rei dos reis, neste campo gastronómico, é naturalmente o vinho, como neste poema de
Joaquim Marques. Ora oiçam:

A cor serena da altivez.
A cor do sangue (mas mais densa e robusta).
A forma transparente emprestada pelo corpo acolhedor,
primeiro levantado como quem o retorna a Dioniso
e Baco, de quem sabemos ser a dádiva,
depois matizado em laivos e reverberações
de granada (ou de rubi).
Só então se fecham os olhos satisfeitos.

A seguir separam-se todos os perfumes;
O das tardes sem fim ensolaradas,
O das manhãs, mais mornas e recentes,
a avisarem do frio e da chuva que lá vêm.
O das mãos sabedoras que, em prece,
acolheram os frutos.
E também o aroma do tempo
que, sem pressa, passou,
passou, muito lentamente.

Como pode a luz ter sabor?
Como não sei…sei que tem.
Olha, mesmo agora, provo uma longa,
intensa réstia de luz do sol.
Esse sol que, ao partir,
levando consigo a glória do dia que consumiu,
nos diz a estrada vermelha, ardente, por onde vai.

Tem esse sabor quente. E também o sabor do vento e da terra…
O vento macio, ondulante gesto de bailarina
repetido e etéreo que nunca é igual
e que por isso não nos cansamos de ver.

Mastiga-se o último sorvo.
A escorrer lento pela garganta,
vem um sabor a terra que é quase rude…
Sabe a xisto, a argila, a granito
e também a madeira.

Sabe a árvore
(talvez um carvalho eterno, paciente),
meiga mãe que o vinho
guardou e fez crescer dentro de si,
antes de o dar em bênção aos homens.

Veem vocês que o vinho, como os outros alimentos, pode ser uma bênção. É
certamente uma delícia para ser provada com moderação, como todas as delícias,
tomando-lhe o gosto para bem o apreciar.

Às vezes, à mesa da refeição, quem sabe diante de um copo de vinho, deixamo-nos
levar pelos pensamentos que nos ocupam os dias, como Drummond de Andrade em
Sentimental

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando…
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
“Neste país é proibido sonhar”.
Neste pais é proibido sonhar, diz o poeta. Ele falava do Brasil mas, podia falar de
muitos outros. De Portugal, por exemplo. Houve um tempo não muito distante de nós (e
agora cada vez mais próximo, outra vez) em que sonhar era proibido, amar era proibido e
perseguir o sonho também. Alexandre O’Neill soube bem disso, quando se viu impedido de
sair do país para ir ao encontro do seu amor, Nora Mitrani. Separados pelos homens, pela
distância e, um dia, pela morte, viu-se forçado a dizer-lhe adeus:

Um adeus português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Mas, o tempo ajuda-nos a esquecer, não o amor que tivemos mas a dor lancinante
causada pela perda. Sempre seremos capazes de voltar a olhar para a vida, sempre procurando
o que já não ou ainda não temos, como neste Poema de Mário Cesariny:

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando -
a delimitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Até somos capazes de atingir a ironia e até brincar com aquelas situações que a alguns
parecem desesperantes. Vejam se não é assim neste Blues da morte de amor de Vasco Graça
Moura:
já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
Bem, a verdade, verdadinha é que os séculos passam e o amor continua a inspirar as
palavras dos poetas, que dizem por nós esta ânsia de pertencer, de sermos dois em um. Ai,
amor, que tais palavras inspiras! Oiçamos José Saramago:
Inventário
De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
Um dia, um poeta fez a radiografia desse sentimento, olhou à volta e viu como as
pessoas lidam com a emoção, as desistências e as lutas, as paixões e as derrotas e concluiu que
O amor
É difícil para os indecisos.
É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados!
Mas, os vencedores no amor
são os fortes.
Os que sabem o que querem e querem o que têm!
Sonhar um sonho a dois,
e nunca desistir da busca de ser feliz,
é para poucos!!

As palavras que ouvimos são de Cecília Meireles. As mulheres podem ser capazes de
intuir a essência das coisas, assim, de forma lapidar. Ou então de maneira mais subtil, mais
suave, mas igualmente exigente, como vemos neste poema de Rosa Lobato de Faria:
Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.
Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.
Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.
Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.
Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.
Esta subtileza das mulheres é muitas vezes contrabalançada com uma fragilidade dos
homens, que eles mostram sobretudo quando estão doentes. Também essa fraqueza já foi
cantada em poesia:
Poema aos homens constipados - (Sátira aos HOMENS quando estão com gripe)
Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero a canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão-de-ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

Já sei que estão a pensar quem terá sido a mulher que assim retratou os homens. Pois
enganam-se, foi um homem, que às vezes também gosta de ser poeta, António Lobo Antunes.
Volto um pouco à minha ideia inicial – comer e amar andam muito de mãos dadas.
Mais uma vez, peço emprestadas as palavras ao poeta Ary dos Santos que, neste poema
magnífico, vem falar do amor, da comunhão e da entrega entre dois seres:

Se digo meu amor

Se digo meu amor é por ser teu
Se digo minha vida é por ser tua
a chama que na cama não morreu
quando à luz dos lençóis te vejo nua
e eu quase deixo de ser eu

Ai meu amor minha maçã de agosto
minha romã madura em cada seio
rainha-cláudia que me sabe ao gosto
do pão moreno e puro de centeio
que é o teu corpo nu que eu saboreio
bebendo o vinho do sol posto

E mordo a tua boca de cereja
a tua orelha rosa de groselha
pois a morder um homem também beija
e deixa-te na pele a flor vermelha
que cheira a madressilva e a suor
ao lilás dos teus olhos a dar flor
quando amanheces a fazer amor

Nos ramos dos teus braços eu penduro
uma grinalda agreste de gemidos
e o meu fruto de homem já maduro
enche de força e seiva os teus sentidos
até teu corpo estar seguro

Seguro dessa força que percorre
os corredores da noite do teu corpo
dessa força viril que nunca morre
se não quando de amor eu cair morto
sobre o teu peito pelo qual escorre
o mar da seiva do meu corpo

Depois do amor ainda nos sobeja
o cheiro da alfazema derramada
nos teus cabelos que a penumbra beija
e são o linho da minha almofada
nas tuas mãos paradas no lençol
que é feito de ternura amarrotada
à espera do primeiro raio de sol
que toque no teu corpo madrugada

O amor é um sentimento bom e forte. Há várias formas de amor, e uma delas, que não
é a menos importante é o amor que temos por nós próprios. Um amor que nos dignifica,
porque aprendemos a saber quem somos.
A poesia também é para lutar. Nestes tempos que vivemos, saber o exato valor da
poesia pode ajudar-nos a abrir um caminho para a nossa valorização como pessoas individuais
e coletivas. O poeta Manuel Alegre é para isso que nos alerta nesta

Carta a um poeta

Meu caro: a poesia já não conta
embora ainda haja onde não há
às vezes sai à rua e faz de conta
a poesia está onde não está
por isso onde se encontra não se encontra.

Poesia não se rende não se vê
não é produto: existe e não existe
talvez se escreva num qualquer porquê
não busques na tevê: ela resiste
escondida onde se lê e não se lê.

Se és poeta não entres no mercado
sobretudo não fales de poesia
e se ela aparecer muito cuidado
faz dela a salvação de cada dia
e o teu recado mesmo se calado.

Termino agora, deixando-vos com um poema de Natália Correia. Um poema que,
vocês vão ver, dá razão de ser ao título que dei a esta nossa conversa com os poetas e que se
chama:
A Defesa do Poeta
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parco
do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou um instantâneo das coisas
Apanhadas em delito de perdão
A raiz quadrada da flor
Que espalmais em apertos de mão
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.


Lisboa, 27 de novembro de 2013
Lurdes Castanheira

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