A treta do comércio de emissões Acontece mais uma cimeira do Ambiente.

Desta vez em Copenhagen, com todo o seu esplendor mediático, com toda a pompa de declarações e intenções, com as suas cortes e circos. O Ambiente é, ciclicamente, objecto de mágicos alertas que têm o condão de pôr combóios de boa gente a falar dele tanto e tão bem como antes terá falado de futebol, de escutas, da gripe A, do último modelo de telemóvel e de enchidos. Ou ainda da alegada fuga de emails, para, denunciando ditos cientistas que terão manipulado dados sobre as famigeradas alterações climáticas e o não menos famigerado aquecimento global, tentar desacreditar, menosprezar e ridicularizar o movimento ambientalista em geral. Porém, para os mais atentos ao labirinto desta temática, não terão passado despercebidos os problemas, as contradições, o falhanço das políticas até agora concretizadas pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Sendo, teoricamente, um esquema que permitiria aos países ricos comprar créditos de carbono a países pobres para aí investir em projectos considerados sustentáveis, o MDL mostrou, passados cinco anos sobre a sua aprovação e lançamento, que em vez de ter contribuído para a redução das emissões, o esquema não só pouco ou nada contribuíra para a redução das emissões a nível mundial, como provocara uma subida de 50% nos preços da electricidade, com notórios lucros para as grandes operadoras energéticas, que, ainda por cima, ousavam utilizar o esquema para esverdear a sua imagem de amigas do Ambiente. Aproveitando todas estas novas oportunidades de negócio, quem teve olho e poder fez instalar uma espécie de bolsa do carbono, através da qual foi possível todo o tipo de especulação. Tudo a bem do Ambiente, sublinhe-se. Assistiu-se, assim, a um outro tipo de neocolonialismo em que os poluidores do mundo rico, ao comprar créditos para poder continuar a poluir, ultrapassando os limites impostos pela legislação europeia, fizeram deslocalizar muitos projectos ditos sustentáveis para países pobres. Tudo a bem do Ambiente e da carteira dos grandes poluidores, esclareça-se. Houve de tudo neste mundo de negócios e negociatas. Desde a venda de créditos de carbono falsos a empresas e governos que os puderam usar para justificar um aumento nas suas emissões, a agências que facturaram sobre projectos subsidiados mas que não promoviam nenhuma qualidade do Ambiente, e a empresas que inflaccionaram o custo do programa de comércio de emissões para conseguirem mais e maiores apoios governamentais. A corrupção tomou tais proporções que alguns peritos na matéria alertaram para a possibilidade de novo terramoto financeiro, uma vez que a maior parte do negócio era feito não entre as indústrias poluidoras e as empresas aderentes do esquema do comércio de emissões mas por intermediários, por bancos e investidores que lucravam com a especulação nos mercados de carbono. Esta negociata do comércio de emissões rolou bem enquanto houve escassez de créditos de carbono. Mas, à medida que muitos países foram descobrindo a lura, o preço dos créditos baixou e muito boa gente embalou na aquisição de créditos em massa, na mira de facturar. Por isso, o esquema entrou em colapso, e pouco efeito parecem ter provocado as várias tentativas da ONU para resolver a questão a contento dos partes interessadas. É, pois, neste ambiente que decorre a cimeira de Copenhagen. E pouca mossa poderão causar estórias de fugas de emails sobre alegadas manipulações de dados climáticos e de teorias da

conspiração. Nesta encruzilhada de incertezas, as alterações climáticas, o aquecimento global e outros medos vieram para ficar. São eles que parecem estar a preencher o vazio deixado pela falência de toda uma série de referências que ancoravam as nossas vidas. Octávio Lima Publicado no Maré Viva de 8 de Dezembro de 2009 Nota – para a elaboração deste artigo foi essencial a consulta do blogue Ondas3, que, há cerca de 6 anos, agrega informação e promove o debate sobre questões ambientais.

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