No período do Renascimento, com a exploração de locais até então desconhecidos

,
como o Novo Mundo, a América, a grande questão que se colocou a partir do
confronto visual com a alteridade1, com os que eram diferentes dos europeus, foi
justamente se os seres encontrados pertenciam à humanidade.
As diferenças culturais das sociedades nem sempre apareceram como um fato. Na
maioria das vezes, eram vistas como aberrações, necessitando de justificativa.
Laplantine (1991) nos lembra de que, na antiguidade grega, os homens de cultura
diferente eram chamados de bárbaros, já que não faziam parte da helenidade (da
sociedade deles). No Renascimento (séculos XVII e XVIII), os homens que não eram
pertencentes à cultura europeia eram chamados de selvagens, os seres da floresta,
apresentando-se como oposição à humanidade. Porém, no século XIX, o termo que
será utilizado é o primitivo, que, no século XX, será substituído pelo subdesenvolvido,
muito utilizado ainda hoje.
O mesmo autor (1991, p. 37-38) afirma que, no período do Renascimento, o critério
que atribuía o estatuto de humano era o religioso, isto é: “O selvagem tem uma
alma?”.
Essa forma de agir, de expulsar da cultura, isto é, para a natureza aquele que não
participa da nossa humanidade é, segundo Lévi-Strauss, o que mais caracteriza os
verdadeiros “selvagens.” (apud LAPLANTINE, 1991, p. 40).
Assim, a partir do século XIV, os europeus vão utilizar critérios para conceder aos índios
o estatuto de humanos. Além do critério religioso, isto é, que consistia no
questionamento sobre “se o índio tinha alma” – e naquele momento a resposta foi
negativa –, os mesmos foram colocados como “sem religião” e ainda como “diabos”.
Além deste, ainda utilizaram os seguintes critérios para a figura do mau selvagem
(LAPLANTINE, 1991, p. 41):
a aparência física: eles estão nus ou “vestidos de peles de animais”; os
comportamentos alimentares: eles “comem carne crua”, e é todo o imaginário do
canibalismo que irá aqui se elaborar; a inteligência tal como pode ser apreendida a
partir da linguagem: eles falam “uma língua ininteligível”.
Desta forma, por não acreditarem em Deus, não têm alma, não falam a linguagem
dos europeus, tendo uma aparência diferente da deles e apresentavam-se
alimentando como animais, serão chamados de selvagem. Serão vistos como os
demais animais e não como seres humano, já que eram seres “sem moral, sem religião,
sem lei, sem escrita, sem Estado, sem consciência, sem razão, sem objetivo, sem arte,
sem passado, sem futuro”. (LAPLANTINE, 1991, p. 41).


O bom selvagem e o mau civilizado:Os nativos eram bons, porque eram considerados
puros, ingênuos, viviam de um modo natural, em contato com a natureza. Sendo
assim, considerados maus civilizados por não terem contato com os males da
civilização. O natural era bom. E a civilização, ruim.
O mau selvagem e o bom civilizado:O nativo era considerado mau, por não ter um
deus, não ter moral, leis, cultura, etc. Já o civilizado era visto como bom, exatamente
por ter e fazer parte de tais coisas.
É no pensamento teórico dessa antropologia que consiste a Teoria
Evolucionsita.”

“O que é também muito característico dessa antropologia (evolucionista), que pretende ser
cientifica, é a considerável atenção dada:
1 – A essas populações que aparecem como sendo as mais “arcaicas” do mundo: os aborígenes
australianos;
2 – ao estudo do
parentesco;

3 – e ao da religião.
“Esmagados sob o peso dos materiais, os evolucionistas consideram os fenômenos
recolhidos (o totemismo, a exogamia, a magia, o culto aos antepassados, a filiação matrilinear...)
como costumes que servem para exemplificar cada estágio. E quando faltam documentos,
alguns (Frazer) fazem por intuição a reconstituição dos elos ausentes, procedimento
absolutamente oposto, como veremos mais adiante, ao da etnografia contemporânea, que
procura, através da introdução de fatos minúsculos recolhidos em uma única sociedade, analisar
a significação e a função das relações sociais.” p. 70.