1

INTRODUÇÃO


Desde a Antiguidade, os números têm fascinado os matemáticos.
Pitágoras, por exemplo, fundou uma sociedade secreta, em Cretona, na Antiga
Grécia, na qual se tinha uma verdadeira adoração por números e não foi à toa
que os seus discípulos (os pitagóricos) chegaram a afirmar que “tudo era
número”.
Se por um lado os números proporcionavam fascínio e admiração aos
matemáticos, por outro lado, os próprios números, de vez em quando lhes
davam algumas dores de cabeça. O próprio Pitágoras teve “uma tremenda dor
de cabeça” quando descobriu que o número 2 não podia ser escrito como um
quociente entre dois números inteiros, fato que acabou decepcionando-o.
Entretanto, a impossibilidade de se calcular raízes quadradas de números
negativos foi sem dúvida, um dos problemas que desde a Antigüidade, já dava
enormes dores de cabeça aos matemáticos. As respostas aos problemas deste
tipo só começaram aparecer a partir do século XVI.
O fato de não haver raiz quadrada para números negativos parece haver
sido consenso entre os matemáticos ao longo de diversos séculos. Mesmo
quando estas raízes apareciam naturalmente na solução de problemas de
diversos tipos não despertavam a necessidade de se compreender o seu
sentido.


2
O objetivo desta monografia é, de forma resumida, descrever a
evolução histórica dos números complexos, fazendo–se um paralelo com o
desenvolvimento da própria matemática da época.
Nesse sentido, no Capítulo I descreveremos o surgimento dos números
complexos na antiguidade, mostrando algumas atitudes tomadas pelos
matemáticos quando eles se deparavam com as raízes negativas.
No Capítulo II, veremos que a partir da resolução de uma equação do
3º grau, começa a surgir interesse em estudar com mais cautela as raízes
quadradas negativas, já que elas não eram “sofísticas” e “inúteis” como se
afirmavam.
No Capítulo III, veremos que a teoria dos números complexos começa a
se consolidar, graças ao Teorema Fundamental da Álgebra.
Finalmente, no Capítulo IV terminaremos com a interpretação
geométrica dos números complexos, que fez com que esses números fossem
aceitos, finalmente, pelos matemáticos clarificando as dúvidas e
questionamentos, levantadas durante os séculos.
Esperamos com este trabalho estar contribuindo para o enriquecimento
da bagagem histórica-social do professor de matemática.

3

CAPÍTULO I
NÚMEROS COMPLEXOS – PENSANDO NO IMAGINÁVEL

“O espírito Divino expressou-se sublimemente nesta
maravilha da análise, neste portento do mundo das
idéias, este anfíbio entre o ser e não ser, que
chamamos de raiz imaginária negativa.”
(Leibniz)

Geralmente os alunos escutam falar em números complexos pela primeira
vez, na oitava série do ensino fundamental, quando, ao resolver uma equação do
segundo grau, o discriminante tem como resultado um número negativo. O
professor talvez diga que a equação não tem solução no conjunto dos números
reais, mas que esta solução existe no conjunto dos números complexos. Isso
nos dá uma falsa impressão de que não só os números complexos surgiram a
partir da resolução de uma equação do segundo grau como também que estes
números foram uma “coisa inventada” pelos matemáticos, apenas para não
deixar essas equações sem soluções. Aí está a falha, visto que os números
complexos surgiram mais precisamente nas resoluções de equações do terceiro
grau.
Sabemos que as equações do segundo grau surgiram na Matemática
aproximadamente 1.700 anos a.C. nas tabuletas de argila da Suméria.
Al gumas dessas tabul etas já conti nham raí zes quadradas de

4
números negativos. Contudo, não foram essas raízes que l evaram ao
desenvol vi mento dos números complexos.
De uma certa forma, resolver uma equação nos dias de hoje pode ser
encarada apenas como uma tarefa algébrica de encontrar um número
desconhecido que quando considerado no lugar da variável do problema
transforma a expressão em uma sentença verdadeira. O problema posto desta
forma, parece não ter nenhuma utilidade prática.. No entanto, desde a
antiguidade, uma equação nunca era vista de uma forma solta, isolada.
Equações são formulações matemáticas para um problema concreto.
As raízes quadradas de números negativos apareciam algumas vezes na
resolução de algumas equações, desde a antiguidade. Portanto, se uma raiz
negativa aparecia na resolução de uma equação, o problema em questão era
considerado sem solução. Isso já era consenso entre os matemáticos
conforme as citações abaixo:
“... como na natureza das coisas um negativo não é quadrado, ele não
tem, portanto, raiz quadrada.”
(afirmação do matemático indiano Mahavira, século IX)

5
“o quadrado de um afirmativo é afirmativo; e a raiz quadrada de um
afirmativo é dupla: positiva e negativa. Não há raiz quadrada de um negativo,
pois ele não é um quadrado.”
(Matemático indiano Bhaskara, século XII)
O primeiro registro de um radical negativo aparece em Estereometria de
Herón (matemático grego), publicado aproximadamente em 75 d. C, quando em
um cálculo de um desenho de uma pirâmide aparecia a expressão 144 - 81 . O
aparecimento dessas raízes poderia ter servido de inspiração para motivar a
interpretação para raízes negativas, mas isso não aconteceu até porque, no
mesmo estudo, logo em seguida, os números se apresentavam trocados, ou seja,
84 - 144 .
Mais à frente, no ano de 275 d.C. (aproximadamente) surge na
Arithmética de Diophanto o primeiro exemplo de atitude frente às raízes de
números negativos. O problema consistia em achar os comprimentos dos lados
de um triângulo retângulo de perímetro de 12 unidades e de área
igual a 7.
Usando a notação algébrica atual, se chamarmos de “x” e “y” os
comprimentos dos catetos desse triângulo, a solução desse problema é
obtida, resolvendo-se o seguinte sistema:
2 2 2
2
1
) - - (12
7
y x y x
xy


6
Isolando-se “y” na primeira equação e substituindo-se na segunda, cairemos
na equação do 2
o
grau 24x
2
– 172x + 336 = 0, cujas soluções são
12
167 - 43
.
Diophanto observa que a equação só teria solução se
2
2
172
24 336, o
equivalente a dizer que 0. Como isso não acontece no problema em
questão, não havia nenhuma necessidade de dar sentido ao “número” que
representava as raízes quadradas negativas (em especial 167 - ).
Não foi somente na Antiguidade que surgiam essas observações e
conclusões em relação às raízes de números negativos. Na Matemática
européia, por exemplo, o frade Luca Paccioli (1445-1514) em seu livro Summa
de arithmética, geométrica, proportioni et proportionalita, publicado em
1494 afirma que a equação x² + c = bx só tem sol ução se
2
b
4
1
c e o
matemático Nicolas Chuquet (1445-1500 aproximadamente) faz observações
semelhantes sobre “soluções impossíveis“ num manuscrito não publicado de
1484.
Para o matemático Gerônimo Cardano (1501 - 1576) esse tipo de
problema também surgiu e ele concordava que não havia sentido e,
portanto, não havia solução para problemas que recaíam em raízes quadradas
de número negativo. Cardano, apesar disso, resolveu ir mais adiante com os

7
cálculos, e no capítulo 37 do livro: Ars Magna, ele resolve um problema que
era dividir um segmento de comprimento 10 em duas partes, de tal
maneira que o produto delas seja 40, da seguinte maneira:

x(10 - x) = 40 resultando na seguinte equação x² - 10x + 40 = 0


Tem-se que:
= b
2
– 4ac = (-10)
2
– 4.1.40 = 100 – 160 = -60 = 60
Como já era conhecido o fato de que não existia raiz quadrada de
número negativo, o problema deveria ter sido encerrado afirmando-se que ele
não tinha solução. Cardano, entretanto, continuou resolvendo a equação como se
nada tivesse acontecido, para obter:
x =
2
60 10
=
2
15) 4( 10
=
2
15 2 10
= 5 15
1


Como disse Cardano: “Deixando de lado toda tortura mental envolvida,
multiplique (5 + 15 por 5 – 15). O produto é 25 – (-15) = 40 (...) Assim
progride a natureza cujo objetivo, como afirmado, é tão refinado quanto
inútil”.



1
Curiosidade: Cardano não escrevia 15 como escrevemos hoje. Naquela época, ele usava a
notação R
x
.m, ou seja, “radix minus” para representar as raízes de número negativo.

8

Mas se o encontro com os números complexos esteve sempre adiado,
durante o estudo das equações de segundo grau, foi inevitável no estudo das
equações do 3
o
grau e, começa a “tomar vida” com o matemático Raphael
Bombelli (1526-1573), objeto do próximo capítulo.















9

CAPÍTULO II
OS NÚMEROS COMPLEXOS COMEÇAM A GANHAR VIDA

Cardano publicou em 1545, no seu livro Ars Magna uma fórmula que
resolvia as equações do 3
o
grau, que ficou conhecido como “Fórmula de
Cardano”, apesar dele mesmo admitir abertamente que não foi o descobridor
dessa fórmula e sim, Niccolo Tartaglia, que deu a sugestão para a resolução
dessas equações.
Entretanto, este livro não tinha uma linguagem didática e clara, fato que
motivou Raphael Bombelli a escrever outro livro (l’Algebra, em 1572 em 3
volumes, em Veneza) com os mesmos assuntos abordados por Cardano, mas de
um modo que qualquer principiante pudesse compreender sem precisar ficar
recorrendo a outras fontes.
No capítulo II de seu livro, Bombelli estuda a resolução de equações de graus
que não fossem maior que 4. Uma das equações estudadas por Bombelli foi x
3

= 15x + 4, que ele resolveu, utilizando a Fórmula de Cardano, chegando à
seguinte solução:
x =
3
121 2 +
3
121 - 2 , chamada de solução sofística. No entanto,
este resultado o deixou bastante intrigado, já que x = 4 também era solução da

10
equação. Este fato motivou Bombelli, muito curioso e interessado, a encontrar
uma justificativa que explicasse que, apesar do resultado acima conter raízes
quadradas negativas, existia uma solução real para o problema.
Assim, partiu do princípio que existia uma expressão do tipo a + b tal
que
3
121 2 = a + b , portanto (a + b )
3
= 121 2 . Para calcular
essa raiz cúbica ele parte da suposição de que a raiz de
3
121 2
seja o número a - b e pelo fato de ter encontrado x = 4, conclui que
(a + b ) + (a - b ) = 4 e, portanto, a = 2. Voltando à expressão
(a + b )
3
= 121 2 , conclui que b = 1 e, portanto, as raízes da equação
x
3
= 15x + 4 eram x = 2 1 e x = (2 + 1 ) + (2 – 1 ) = 4.
É importante frisar que o método utilizado por Bombelli só tinha
utilidade se ele conhecesse antecipadamente uma raiz, caso contrário, falhava.
Apesar desta limitação, esse raciocínio não deixa de ser importante, pois
explica como se pode encontrar a solução apesar do surgimento das raízes
quadradas negativas.
Após essa descoberta importante, Bombelli conclui:

11
“Eu achei uma espécie de raiz cúbica muito diferente das outras, que
aparece no capítulo sobre o cubo igual a quantidade e um número
2
. (...) A
princípio, a coisa toda me pareceu mais baseada em sofismas que na verdade,
mas eu procurei até e achei uma prova (...) Isto pode parecer muito sofisticado,
mas, na realidade, eu tinha essa opinião, e não pude achar a demonstração por
meio de linhas (isto é, geometricamente), assim, tratarei da multiplicação
dando as regras para mais e menos’’.
A “regra de multiplicação’’ a que Bombelli se refere, diz respeito ao
número 1 chamado por ele de più di mino (que corresponde mais adiante no
tempo de unidade imaginária i); o número - 1 era chamado de meno di meno
(que corresponde ao simétrico de i) e ele o enunciou, sob forma de versos, as
regras de operação, conforme abaixo:
Più via più di meno fa più di meno, +(+i) = i
Meno via più di meno fa meno di meno, -(+i) = -i
Più via meno di meno fa meno di meno, +(-i) = -i
Meno via meno di meno fa più di meno, -(-i) = +i
Più di meno via più di meno fa meno, (+i)(+i) = -
Meno di meno via più di meno fa più, (-i)(+i) = +

2
naquela época a “forma de ler” uma equação era muito diferente dos dias de hoje. A variável
“x” por exemplo era chamado de quantidade e a expressão cubo igual a quantidade e um
número é equivalente a equação ax
3
= bx + c, usando a notação atual.

12
Meno di meno via meno di meno fa meno. (-i)(-i) = -
Todo este estudo que Bombelli fez acerca dos números complexos
esbarrou em uma simbologia matemática “pobre”, pois naquela época não se
usavam sinais de mais, menos, símbolos de raiz quadrada ou cúbica, como
usamos hoje. Para representar o sinal de +, Bombelli usava p (più); m (minus)
para menos; R para raiz quadrada e R
3
para raiz cúbica. Ele também não
dispunha de parênteses, tanto é que para indicar os termos que mais eram
afetados por um radical ele sublinhava a expressão. Dessa forma, a expressão
3
121 2 era escrito na forma 0m121 2pR R
3
sendo que naquela época os
números negativos não eram escritos diretamente (-121 era escrito como
0m121). A solução da equação x
3
= 15x + 4 era escrita da seguinte forma:
0m121 2pR R
3
p 0m121 2mR R
3

Da mesma forma que os símbolos (+, -, ,
3
, etc) evoluíram com o
tempo, os símbolos e notações de números complexos também não ficaram pra
trás. Vários matemáticos, em épocas diferentes, deram sua contribuição.
Desta forma:
o símbolo 1 foi introduzido em 1629 por Albert Girard;
o símbo i foi usado pela primeira vez para representar 1 por
Leonhard Euler em 1777, apareceu impresso pela primeira vez em 1794 e

13
se tornou amplamente aceito após seu uso por Carl Friederich Gaus
em 1801;
os termos real e imaginário foram empregados pela primeira vez por
René Descartes em 1637;
a expressão número complexo foi introduzida por Gauss em 1832.
a representação gráfica dos números complexos foi obtida
independentemente por Caspar Wessel, em 1799; Jean-Robert Argand,
em 1822 e Carl Friederich Gauss, em 1831.
a representação hoje usual dos números complexos como pares
ordenados de números reais foi dada por Sir Willian Rowan Hamilton
em 1837.
Portanto, graças ao trabalho de Bombelli, os números complexos
ganharam um pouco de “credibilidade” perante os matemáticos uma vez que
eles começaram a usá-los na resolução das equações do terceiro grau.
No entanto, apesar do fato dos números complexos começarem a ser
utilizados por vários matemáticos, não tiveram fácil aceitação por parte deles.
Muito pelo contrário, levou ainda muito tempo para esta aceitação ocorrer e a
formulação matemática precisa ser concretizada.


14

CAPÍTULO III
DO SÉCULO XVI AO SÉCULO XIX:
O QUE ERA IMAGINÁVEL PASSA SER REAL
Com a contribuição de Bombelli, os matemáticos começaram a usar os
números complexos em seus trabalhos, embora eles frisassem que esses
números não possuíam significado, chegando até mesmo a utilizar termos como
“fictícios”, “impossíveis” ou “sofisticados” para mencioná-los. O matemático
Leibniz (1646-1716), um dos inventores do Cálculo Diferencial, atribuía a 1
um certo caráter metafísico interpretando-a como uma manifestação do
“Espírito Divino”; Lenhard Euler foi outro matemático que também teve a
mesma sensação de espanto.
Mesmo com poucos conhecimentos que se tinha dos números complexos,
os matemáticos aplicavam sobre eles as mesmas regras que se usava para
cálculo com números reais (princípio conhecido como “princípio da permanência
das formas”, de Leibniz). Esta extrapolação nem sempre conduzia a bons
resultados e isso levou alguns matemáticos a cometer enganos: Euler afirmou,
por exemplo, que 2 2 = 4 = 2, por analogia a regra de produto de
radicais ( a b = ab).

15
Várias foram as tentativas de fazer os números complexos ter uma
aplicação “prática” (além, claro de resolver equações do 3º grau). A primeira
delas se deve ao matemático John Wallis (1616-1703). Em 1673, ele publicou
um tratado intitulado Álgebra. No capítulo LXVI discute a impossibilidade da
existência de quantidades imaginárias e as compara com a existência de
quantidades negativas.
Depois de considerar vários exemplos de números negativos e
interpretá-los geometricamente em termos de segmentos sobre uma reta
orientada, Wallis tenta (mas sem grande repercussão) dar uma interpretação
para as quantidades imaginárias:
“Agora, o que é admitido para linhas, deve, pela mesma razão, ser
permitido também para os planos. Por exemplo: suponhamos que num local
ganhamos do mar 30 acres, mas perdemos em outro local 20 acres; se agora
formos perguntados quantos acres ganhamos ao todo a resposta é 10 acres, ou
+10 (pois 30 – 20 = 10).
... Mas se num terceiro local perdemos mais 20 acres, a resposta deve
ser –10 (pois 30 – 20 – 20 = -10)

16
Mas agora, supondo que esta planície negativa de –1600 perches
quadrados
3
tem a forma de um quadrado, não devemos supor que este quadrado
tem um lado? E assim, qual será esse lado? Não podemos dizer que é 40 e nem
–40... Mas sim que é 1600 (a suposta raiz de um quadrado negativo) ou
10 16 ou 20 4 ou 40 1 .
Se a interpretação dada por Wallis aos números complexos não
“foi pra frente”, outros trabalhos ganharam uma grande importância em razão
dos resultados contundentes que eles forneciam.
Um dos trabalhos que teve grande contribuição na consolidação da teoria
dos números complexos foi o Teorema Fundamental da Álgebra
4
.
A primeira formulação desse teorema se deve ao matemático,
Peter Roth (? – 1617), em seu livro Arithmetica Philosophica (de 1600) onde
afirma que o número máximo de soluções de uma equação nunca ultrapassa o
valor do seu grau.
Além de Roth, um dos primeiros matemáticos a se ocupar com esse
teorema foi Albert Girard (1595-1632). No seu livro (L’Invention Nouvelle en
Algèbre, de 1629), lê-se que uma equação algébrica completa de grau n possui n
soluções, admitindo, desse modo, soluções complexas. Girard foi o primeiro a

3
20 acres correspondem a 1600 perches quadrados, uma outra medida inglesa da época.
4
Teorema Fundamental da Álgebra: se a
1
, a
2
, ..., a
n
são números complexos, então a equação
polinomial a
n
x
n
+ ... + a
1
x + a
0
= 0 tem exatamente n soluções (repetidas ou não)

17
reconhecer a utilidade algébrica de se aceitar as raízes imaginárias como
soluções formais da equação onde ele mesmo afirma: “Pode-se perguntar: para
que servem estas soluções impossíveis (raízes complexas). Eu respondo: para
três coisas – para a validez das regras gerais, devido à sua utilidade e por não
haver outras soluções.”
Mais tarde, René Descartes (1596-1650) no seu livro La Géométrie
aceita que uma equação tem tantas raízes quanto seu grau, caso sejam incluídas
as raízes imaginárias, introduzindo no seu livro a denominação números
imaginários: “nem as raízes verdadeiras nem as falsas (negativas) são sempre
reais; por vezes elas são imaginárias”.
Vários matemáticos se “debruçaram” sobre o Teorema Fundamental da
Álgebra, numa tentativa de demonstrá-lo. A primeira tentativa foi em 1749,
pelo matemático Jean Le Round D’Alembert (1717-1783). Entretanto, a
demonstração de D’Alembert apenas mostrava qual seria forma das raízes,
caso elas existissem, não provando, desta forma, o Teorema Fundamental da
Álgebra. Mas todo esforço de D’Alembert não foi em vão. Muito pelo
contrário, contribuiu bastante para a difusão e aceitação dos números
complexos uma vez que, no seu trabalho, encontra-se uma exposição da teoria
dos números complexos e das funções complexas.

18
Além disso, D’Alembert consegue esclarecer uma dúvida que “pairava”
entre os matemáticos no século XVIII: que tipo de números complexos podiam
ser obtidos ao se resolver uma equação algébrica. Até aquela data, os
matemáticos acreditavam que, resolvendo equações algébricas diferentes, em
especial, extraindo raízes de números complexos, obteriam diferentes “tipos”
dessas “quantidades”.
Em 1747, D’Alembert provou que qualquer expressão algébrica de um
número complexo a + b 1 também é um número da forma a + b 1 (o único
caso em que a demonstração não estava correta era quando se elevava um
número complexo a um expoente complexo).
Em 1749, um outro matemático fez com que as investigações sobre o
Teorema Fundamental da Álgebra atingissem um estágio mais avançado,
obtendo resultados bastante importantes. Seu nome: Leonhard Euler.
Em seu livro Pesquisa sobre as Raízes Imaginárias de uma Equação, Euler
mostrou, em primeiro lugar, que se a + 1 era solução de uma equação então a
- 1 também seria. Como conseqüência imediata, se uma equação tem uma
raiz complexa então possui um fator da forma x
2
+ x + . Em seguida mostrou
que toda equação de grau ímpar obrigatoriamente tem que ter (no mínimo) uma
raiz real e que uma equação de grau par ou não possui raízes reais ou possui

19
pares de tais raízes. Por fim, mostrou que todas as raízes não reais são da
forma a + b 1 . Para chegar a esse resultado foi necessário estudar
cuidadosamente as operações com números complexos (incluindo potências
imaginárias, logaritmos de números complexos, funções trigonométricas de
argumentos complexos, etc). Desse modo, pode-se dizer que com Euler, não só
a demonstração do Teorema Fundamental da Álgebra estava praticamente
“meio caminho andado” como também a álgebra dos números complexos atingiu
sua forma atual.
Contudo, se as demonstrações sobre o Teorema Fundamental da Álgebra
apresentada pelos matemáticos estavam sendo insatisfatórias, o matemático
alemão Carl Friedrich Gauss (1777-1855) consegue dar um “final feliz” para
essa história: na sua tese de doutorado (em 1799) ele apresenta uma prova
convincente para essa demonstração na qual utiliza propriedades topológicas da
reta e do plano, assuntos que ainda não tinham sido explicitados em sua época.
É provável que, ao demonstrar o Teorema Fundamental da Álgebra,
Gauss tenha tido uma idéia importantíssima que iria consolidar de vez os
números complexos (fato que só ocorre no início do século XIX) mesmo que ele
não tenha utilizado isso na prova desse teorema: A REPRESENTAÇÃO
GEOMÉTRICA DOS NÚMEROS COMPLEXOS.

20




CAPÍTULO IV
OS NÚMEROS COMPLEXOS FINALMENTE GANHAM
O “DIREITO DE CIDADANIA”

Mesmo com a teoria dos números complexos se desenvolvendo “a todo
vapor” nesses últimos séculos, no século XVIII, ainda havia matemáticos que
tinham uma “relação de amor e ódio” com os esses números. A “relação de
amor” se evidenciava pois cada vez mais os matemáticos se aventuravam a
efetuar operações bem ousadas com os números complexos sem que isso
gerasse contradições. A “relação de ódio” aflorava pois ainda sim mantinham
dúvidas com respeito a sua legitimidade.
Euler por exemplo, escreve em Vollständige Anleitung zur Algebra
(livro publicado primeiro em russo em 1768-69 e depois em alemão em 1770):
Desde que todos os números concebíveis são maiores do que 0, ou menores que
0 ou iguais a 0, é claro que a raiz quadrada de um número negativo não pode ser
incluída entre os números possíveis. Conseqüentemente, devemos dizer que

21
estes são os números impossíveis. E esta circunstância nos condiz a tais
números, que por sua natureza são impossíveis, e que são chamados
costumeiramente de imaginários, pois eles só existem na imaginação.
Como conseqüência, ao fim do século XVIII, as quantidades imaginárias
carecem de sentido e não é a toa que De la Chapelle escreveu no seu Tratado
das seções cônicas (publicada em 1765): Veja bem que há uma grande diferença
entre uma grandeza imaginária e uma grandeza igual a nada ou a zero; parece
que uma grandeza igual a nada não é absurdo; ela é possível quando uma
quantidade é cancelada por uma outra, enquanto que uma quantidade imaginária
é uma quantidade absurda, ou que implica contradição. Você não poderá dizer
que uma quantidade imaginária possa ser considerada como zero, isto é algo
pior.
O início do século XIX foi decisivo para a legitimação dos números
complexos, uma vez que as quantidades imaginárias passam finalmente a ganhar
um sentido e isso será conseguido pela interpretação geométrica.
Em 1798, o agrimensor norueguês Caspar Wessel (1745-1818) publica um
artigo (Sobre a representação analítica da direção: uma tentativa) e dá uma
contribuição para que se possa entender os números complexos via
representações gráficas, tendo publicado o seguinte:

22
Designemos por +1 a unidade positiva retilínea e + uma certa outra
unidade perpendicular à unidade positiva e tendo a mesma origem; então o
ângulo da direção de +1 será de 0
o
, o de –1 a 180
o
, o de + a 90
o
e o de - a –90
o

ou 270
o
. Pela regra de que o ângulo de direção do produto é igual à soma dos
ângulos dos fatores, temos:
(+1).(+1) = (+1)
(+1).(-1) = (-1)
(-1).(-1) = (+1)
(+1).(+ ) = (+ )
(+1).(- ) = (- )
(+ ).(+ ) = (-1)
(-1).(- ) = (+ )
(+ ).(- ) = (+1)
(- ).(- ) = (-1)
Daí pode-se concluir que = 1 .
E do mesmo modo que fazemos hoje, Wessel representou o número
complexo a + bi pelo vetor do plano com origem no ponto O (a origem do
sistema de eixos cordenados) e extremidade no ponto P(a; b) e apresentou

23
também uma interpretação geométrica para soma e produto de dois números
complexos.
Outra contribuição fundamental foi dada por um bibliotecário suíço
chamado Jean Robert Argand (1768-1822). No seu livro (Ensaio sobre a
maneira de representar as quantidades imaginárias nas construções
geométricas), ele observa que se se multiplica +1 por i obteria i e se
multiplicasse esse resultado por i de novo, obteria – 1. Dessa forma, ele pensa
então que, ao fazer a multiplicação por i, está na realidade, fazendo uma
rotação de 90
o
no sentido anti-horário.
Outros matemáticos que trabalharam nesse problema foram o francês
Lazare Carnot (1753-1823) no seu livro (Géométrie de Position, de 1803) e
Adrian Quentin Buée (1748-1826).
Infelizmente, todas essas contribuições ficaram “engavetadas” por um
bom tempo e foi somente graças ao prestígio de Gauss que a representação
geométrica torna-se aceita e conhecida. Esta representação já era sua
conhecida e dela fez uso ao tentar demonstrar o Teorema Fundamental da
Álgebra. Em 1831, ele escreveu um artigo sobre essa questão:

24
O autor tem considerado há vários anos esta parte importante da
matemática sob um ponto de vista diferente, que permite conferir às
quantidades imaginárias, como as negativas, uma existência objetiva.
O significado intuitivo dos números complexos fica completamente
estabelecido e não precisa mais para admitir estas quantidades no domínio da
aritmética.
Ele também observa também que se os números 1, -1, 1 não fossem
chamados de positivo, negativo e imaginário, mas direto, inverso e lateral, as
pessoas não teriam tido a impressão de que existe algo de misterioso nesses
números.
Com essa representação geométrica, finalmente os complexos ganham o
“direito de cidadania” já que para os matemáticos daquela época os “entes
geométricos” tinham um tipo de realidade que faltava aos “objetos da
aritmética”.
Por fim, a formalização completa dos números complexos como pares
ordenados será desenvolvida por William Rowan Hamilton (1805-1865) em 1833
e formalizada por Augustin Cautchy (1789-1857) mais tarde, em 1847.




25






CONCLUSÃO
A difícil e árdua trajetória que os números complexos enfrentaram
mostra que um conceito matemático muito importante e crucial pode demorar
muito tempo para que possa ser bem compreendido e mesmo quando os
matemáticos os usavam nas resoluções de equações do 3
o
grau, ainda a ele
resistiam bravamente.
Dessa forma, baseado na história dos números complexos e de sua
evolução, esperamos que tenhamos contribuído para motivar alunos que tenham
dificuldades em resolver raiz quadrada com número negativo, ou pelo menos
minimizar suas dúvidas. Apesar da presente pesquisa ter sido calcada na
trajetória hist[orica dos números complexos, cremos que daqui para frente
outros trabalhos deste tipo apareçam para melhor clarear e ajudar alunos e
professores a compreender a evolução histórica dos conceitos matemáticos e

26
usar essa história como fio condutor e motivador do estudo dos conceitos
matemáticos.





BIBLIOGRAFIA
[1] MILIES, César Polcino. “A emergência dos números complexos”. RPM n
o

24 – 1994.
[2] MILIES, César Polcino. “A solução de Tartaglia para a equação do
terceiro grau”, RPM n
o
25 – 1994
[3] CARMO, Manfredo Perdigão / MORGADO, Augusto César / WAGNER,
Eduardo. “Trigonometria e Números Complexos”, Coleção Professor
de Matemática, SBM - 1999
[4] MILES, César Polcino. “Breve História da Álgebra Abstrata”, IME/USP.
[5] BOYER, C.B. “História da Matemática” (edição revista por U.C.
Merzzbath), Edgar Blücher, São Paulo, 1996.

27
[6] LIMA, Elon Lages. “Meu professor de Matemática e outras histórias”.
Rio de Janeiro, SBM – 1991
[7] KLEINER, Israel. “Thinking the Unthinkable: The story of complex
numbers (with a moral)”. Mathematics Teacher (october 1988)
583-592
[8] CARNEIRO, J.P.Q. “Resoluções de Equações Polinomiais”. Coleção
Aperfeiçoando o professor. Rio de Janeiro. Editora Universitária
Santa Úrsula, 1998.
[9] ROSA, Mário Servelli. “Números Complexos: Uma abordagem histórica
para aquisição do conceito”. PUC/SP – 1998.