ISSN: 2176-5804 - Vol. 11 - N.

1 - Jul/2014
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO
NÚCLEO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO HISTÓRICA REGIONAL - NDIHR
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BARMAN, RODERICK J. IMPERADOR CIDADÃO. TRADUÇÃO:
SONIA MIDORI YAMAMOTO
SÃO PAULO: EDITORA UNESP, 2012.

Mauro Henrique Miranda de Alcântara
Instituto Federal de Rondônia (IFRO)
Mestre em História
alcantara.mauro@gmail.com

R
oderick J. Barman é professor de História na Universidade de Colúmbia Britânica (UBC). Tem se dedicado há
anos em pesquisar a História da América Latina, e mais especificadamente, a História do Brasil do século XIX.
Além desta biografia sobre D. Pedro II, também publicou uma biografia sobre a Princesa Isabel, filha do
monarca, e um livro sobre a formação do Império Brasileiro¹.
A biografia de Roderick J. Barman, “Imperador Cidadão”, foi lançada primeiramente na língua nativa de
seu biógrafo, no ano de 1999, cujo título em inglês é “Citizen Emperor: Pedro II and the Making of Brasil, 1825-1891”.
Como é possível observar, o subtítulo da biografia em inglês, foi suprimido em sua tradução para o português. E tal
supressão não permite compreender, pelo título, qual a principal finalidade de Roderick J. Barman ao escrever uma
biografia sobre Pedro II: verificar o papel do Imperador na formação do Estado brasileiro no século XIX.
Esta biografia sobre D. Pedro II, uma das mais de quarenta obras publicadas sobre esse personagem entre os
séculos XIX e XXI, muito se aproxima em sua estrutura e narrativa, das obras publicadas entre o final do século XX e
início do XXI, tais como “As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca perdido nos trópicos”, de autoria da
antropóloga Lilia Moritz Schwarcz e o “D. Pedro II: ser ou não ser?”, do historiador José Murilo de Carvalho. Entretan-
to, as três se diferenciam pelo tratamento que dão as suas respectivas fontes. Schwarcz busca, através de imagens,
apresentar o personagem D. Pedro II como fundamental para a teatralidade política imperial, portanto, trata-se de
uma obra que prioriza analisar o Imperador como representação política. O subtítulo da biografia de Carvalho
demonstra o seu objetivo: verificar o drama vivido por Pedro de Alcântara em sua árdua tarefa de Imperador D.
Pedro II. Os diários e cartas do monarca foram as principais fontes utilizadas pelo historiador.
Barman, assim como os dois anteriores, molda o seu biogra-
fado diante das fontes escolhidas. Ao longo das 615 páginas e 12
capítulos da obra, podemos visualizar a documentação utilizada
pelo historiador, sendo as principais: anotações íntimas e oficiais
(diários e cartas) de D. Pedro II e de outros membros da família real,
realeza e políticos brasileiros do Segundo Reinado. Esses docu-
mentos permitiram o historiador britânico se debruçar sobre o seu
personagem e verificar sua relação com o poder que lhe era
investido. A narrativa desta biografia é uma busca incessante de
construir o Imperador como “cidadão modelo”, tomado por uma
racionalidade política que supera e obscurece o sujeito Pedro de
Alcântara.
Logo na apresentação da biografia, é possível visualizar
como Roderick Barman visualiza o seu biografado:
Na história da América Latina desde a indepen-
dência, ninguém se manteve no poder com
tanta firmeza e por tanto tempo quanto D.
Pedro II do Brasil. A única figura comparável é
Fidel Castro, que tomou o poder em Cuba após
a revolução de 1959. Por suas personalidades e
seus sistemas de governo, ambos os governan-
tes moldaram em larga medida o caráter e a
cultura pública de seus Estados-nações. Dada
à situação do Brasil em 1840, quando D. Pedro II
começou a governar, seus feitos e sua influên-
cia duradoura foram de insuperável importân-
cia (BARMAN, 2012, p. 7).
Nesta passagem, apesar da problemática comparação
que o biógrafo faz entre D. Pedro II e Fidel Castro², ele explica a
importância do subtítulo da sua obra. Para ele o Imperador foi
fundamental para a formação do Brasil, e principalmente, para a
formação, fortalecimento e consolidação da monarquia Brasilei-
ra.
O que Le Goff visualiza em São Luís, ou melhor, em qualquer
personagem que possa ser biografado: “constrói-se a si próprio e
constrói sua época, tanto quanto é construído por ela. E essa
construção é feita de acasos, de hesitações, de escolhas” (LE GOFF,
1999, p. 23-24), aproxima-se da ideia de Roderick Barman em rela-
ção à D. Pedro II. Ao mesmo tempo em que o imperador colabora
diretamente na formação do Brasil Imperial, ele é influenciado pelos
acontecimentos que ocorrem tanto no país quanto no mundo.
Muitas das características do Governo Imperial, para o
historiador, foram herdadas das características pessoais do próprio
monarca, responsável em “transformar o Brasil em um Estado
nação”:
Diligente, paciente e, acima de tudo, perseve-
rante, ele evitava iniciativas ousadas e confron-
tos. Primeiramente o imperador estabeleceu um
domínio irrefutável sobre os assuntos públicos, e
sua integridade e imparcialidade eram respeita-
das por todos. Mais do que isso, a identidade
pública que ele desenvolveu incorporava os
valores que o círculo do governo no Brasil deseja
para o país. Ele era, ao mesmo tempo, o impera-
dor modelo e o cidadão modelo (BARMAN, 2012,
p. 8).
Como visto, o fio condutor da narrativa de Barman é dotar o
monarca de uma racionalidade política. Essa marca estilística é
marcante nesta obra. Suas características pessoais são dotadas
dessa racionalidade. Perdemos de vista o homem Pedro de Alcânta-
ra nesta biografia. Talvez seja esse o ponto mais frágil da obra, pois se
perde a dimensão humana do Imperador, parece ter sido ele criado
para ser uma “máquina de governar”, como mencionado por José
Murilo de Carvalho (2007). Entretanto, como se pode verificar em
outras biografias, muitos das rupturas e mudanças de posicionamen-
to político de D. Pedro II foram motivadas por questões pessoais.
Para Barman, D. Pedro II reinava e governava. Por ser consi-
derado “ao mesmo tempo, o imperador modelo e o cidadão
modelo” ele ditava e comandava a opinião pública nacional,
minando qualquer tentativa de oposição ao seu modo de governar.
Ao verificar as cartas que o Imperador enviava ao seu
cunhado, Fernando, rei consorte de Portugal, o historiador percebeu
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que ele possuía um projeto de país para o Brasil. O seu sonho era
fazer da Monarquia brasileira a França na América:
Como governante e cidadão-modelo do Brasil,
D. Pedro II incorporava a garantia e a promessa
não do que a jovem nação era, mas do que
poderia e deveria ser. Por abraçar a cultura
europeia e a nova tecnologia, ele representa-
va o futuro. O imperador desejava então
converter o sonho em realidade, lançar o Brasil
aos benefícios do progresso. (...) Desse modo, o
país seria a França da América do Sul. Tudo isso
devia ser alcançada sem qualquer ruptura da
ordem social vigente, exceto pelo fato de que
a introdução dessas melhorias baniria a escra-
vatura (BARMAN, 2012, p. 239-240).
Este trecho deixa clarividente como Roderick Barman
visualiza a atuação política de D. Pedro II. Ao mesmo tempo em
que o vê vanguardista e buscando projetar e executar mudanças
que levaria o Brasil a alcançar os ideais do seu tempo, ou seja, o
progresso e a civilização, também verifica que tudo isso deveria
ser realizado de forma prudente e sem grandes rupturas.
O processo que levou à abolição da escravidão é um
excelente exemplo para se verificar essas características com as
quais Barman descreve do seu biografado. Para o historiador, D.
Pedro II foi o primeiro na política imperial a visualizar, ainda na
década de 1860, a necessidade de tramitar legislações que
buscassem o fim gradual da escravidão. Ele transcreve um rascu-
nho que o Imperador enviou a seus ministros, em 1864, alertando
sobre essa problemática. Diz o Imperador:
O sucesso da União Americana exige que
pensemos no futuro da escravidão no Brasil,
para que não nos suceda o mesmo que a
respeito do tráfico de africanos. A medida que
me tem parecido profícua é a da liberdade dos
filhos dos escravos, que nasceram daqui a um
certo número de anos. Tenho refletido sobre o
modo de executar a medida; porém é da ordem
das que cumpre realizar com firmeza, remedian-
do os males que ela necessariamente originará,
conforme as circunstâncias permitem. Recomen-
do diversos despachos do nosso ministro em
Washington, onde se fazem mais avisadas consi-
derações sobre este assunto (BARMAN, 2012, p.
284).
Essa recomendação apresenta o Imperador ao mesmo
tempo vanguardista³, se antecipando aos problemas que a manu-
tenção da escravidão poderia acarretar ao país, também demons-
tra o quão moderado era sua sugestão para acabar com esse
problema, ao sugerir o fim da liberdade dos filhos dos escravos, o que
acarretaria em manter a escravidão por certo tempo. Para o histori-
ador, D. Pedro II precipitou a pedra do fim da escravidão, mas foi
esmagado por ela por não compreender o processo final tanto
desta instituição, e até mesmo do seu reinado.
Portanto, para Barman, a Lei Áurea sintetiza o que foi o
Segundo Reinado, e a atuação política de D. Pedro II:
Do mesmo modo, se D. Pedro II tivesse falecido no
momento em que a lei da abolição da escravatu-
ra foi promulgada, a medida seria agora conside-
rada a suprema realização de um reinado dedi-
cado ao progresso e à justiça. Em vez disso, a Lei
Áurea é geralmente tida como um ato precipita-
do que alienou os proprietários de terras e, por
conseguinte, derrubou o Império (BARMAN, 2012,
p. 562).
A construção dos acontecimentos do Império brasileiro vai
acompanhando a vida do monarca nesta biografia. No momento
da infância de D. Pedro II, assim como ele, a nação parecia órfã, a
espera do seu pai, no caso ele próprio. Em sua maturidade, entre
1850-1870, o vigor físico e mental do Imperador assemelhasse a
estabilidade e tranquilidade que gozava o país e o regime monár-
quico. Na década de 1880, era o moribundo D. Pedro II, muito frágil
devido à piora de sua diabetes, e o regime monárquico também
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entrava em coma.
De Imperador Cidadão ou cidadão-modelo, precursor de
ideais de progresso e civilização, D. Pedro II chegou ao fim de sua
vida e do seu reinado, envelhecido, sem saúde e não conseguin-
do acompanhar e aceitar as mudanças que ele mesmo precipi-
tou décadas antes. Para o historiador ele foi sim, esmagado pela
pedra. De sábio soberano, transformou-se no “Pedro Banana” dos
jornais da corte.
Apesar disso, em nenhum momento Roderick J. Barman
deixa-nos esquecer do quão racional foi o Imperador D. Pedro II,
mesmo no fim do seu reinado, ou até mesmo no exílio. E essa é a
característica mais marcante dessa biografia, e ao mesmo tempo,
a mais temerária. Ao persistir em construir uma racionalidade
política para o “monarca-cidadão”, o britânico se esquece de
verificar se o Imperador dialogou com a sociedade brasileira no
século XIX, e apesar de “cidadão-modelo”, ele foi um “modelo”
para poucos, afinal, a concepção de cidadão exposta por
Barman, estava longe de ser uma realidade brasileira neste perío-
do.
NOTAS:
¹ Segue as referências das obras: BARMAN, R. J. Princesa Isabel do
Brasil. São Paulo: Editora Unesp, 2005. BARMAN, R. J. Brazil: The
Forging of a Nation, 1798-1852. Stanford: Stanford University Press,
1988.
² Além de estarem distantes no tempo, trata-se de regimes políticos
diferenciados, sendo D. Pedro II imperador de uma Monarquia
Hereditária e Fidel Castro chefe de Estado de um país de base
socialista. Compreende-se a durabilidade do governo do
primeiro, enquanto o segundo foi (e ainda é) constantemente
criticado pelo longo período que esteve a frente do poder político
em Cuba.
³ Barman o visualiza o Imperador como “vanguardista” ao se
preocupar ainda na década de 1860 com relação a manutenção
do trabalho escravo, pois não havia no Brasil, seja na opinião
pública, seja entre os parlamentares, menor discussão e/ou
comentário sobre o tema desde o fim do tráfico negreiro em 1850.
Para o britânico, ao se posicionar neste momento sobre o assunto, D.
Pedro II acabou por criar uma discussão entre os parlamentares e a
opinião pública, tornando necessária tramitar uma legislação que
preconizasse o fim da escravidão. Para maiores detalhes sobre o
papel de D. Pedro II no processo de extinção da escravidão, ver:
ALCÂNTARA, M. H. M. D. Pedro II e a emancipação dos escravos.
2013. 165f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal
de Mato Grosso, Cuiabá – MT.
REFERÊNCIAS
ALCÂNTARA, Mauro Henrique Miranda D. Pedro II e a emancipação
dos escravos. 2013. 165f. Dissertação (Mestrado em História).
Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá – MT.
BARMAN, Roderick J. Brazil: The Forging of a Nation, 1798-1852.
Stanford: Stanford University Press, 1988.
BARMAN, Roderick J. Imperador Cidadão. Tradução: Sonia Midori
Yamamoto. São Paulo: Editora Unesp, 2012.
BARMAN, Roderick J. Princesa Isabel do Brasil. São Paulo: Editora
Unesp, 2005.
CARVALHO, José Murilo. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das
Letras, 2007.
LE GOFF, Jacques. São Luís. Rio de Janeiro: Record, 1999.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um
monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
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