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INTRODUÇÃO
à GEOGRAFIA
(Geografia e Ideologia)
NELSON WERNECK SODfíÉ
PETRÓPOLIS 1976
A Geopolítica
oE oD ET ER M I N I S M O geográficoé um dos traços mais- ca-
racterísticos da Geografia da época doimperialismo, a Geo-
política assinala deformaçãolevada à monstruosidade — é
a Geografia dofascismo. D esde que R atzel lançara as bases
dodeterminismo, abrem-se à Geografia dois caminhos: ocien-
tíficoe oideológico. A Geopolítica representa a culminância
da trilha ideológica. Claroestá que, sendoa ciência sempre
vinculada à ideologia, também os chamados possibilistas tra-
balham uma ciência de classe. D efendem-se, até mesmopor
decoroprofissional, de misturar-se à tropilha dos geopolíti-
cos. A obra que edificaram, maior ou menor, assinala uma
fase dodesenvolvimentohistóricoda Geografia, a fase con-
dicionada, em larga faixa domundo, pela dominaçãoburgue-
sa; essa fase nãopode ser ignorada e oque ela apresentou
de melhor está incorporadoaopatrimónioda cultura huma-
na. A Geopolítica nãotem esse caráter: oriunda da Geogra-
fia da etapa imperialista, e pretendendo-se geográfica, não
passa de construçãoideológica desprovida de sentidocientí-
fico, marginal, com papel noplanopolíticounicamente. S eu
estudonãodeve duixar de ser feito, entretanto, pois encerra
preciosos ensinamentos, e particularmente quantoaograu de
descomedimentoe de falsidade a que pode atingir oconheci-
mento, quandoa fi crvi ço das forças reacionárias, necessaria-
mente obscurantistas. A rigor, uma reconstituiçãohistórica
da Geografia só s<? poderia e deveria ocupar domaterial geo-
gráficoacumulado; nãosendoa Geopolítica parte desse ma-
terial, porque estranhoe marginal, poderia, legitimamente,
ser omitida. N ãoficou a humanidade, entretanto, livre da
deformaçãopolítica que gerou aquele produto empírico; o
fascismoretorna aopalco, às vezes disfarçado— batizando-
se, aqui e ali, cinicamente, de democracia — mas sempre fu-
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riosoe anticultural, como o neocolonialismo, que também
abandonou as roupagens ostensivas docolonialismotradicio-
nal — a que a Geografia esteve tãoestreitamente ligada —
para apresentar-se em travestis esfarrapados. N ãoé demais,
pois, sumariar a génese e a funçãoda Geopolítica, apesar de
tudo. R ebentos seus apodrecem à nossa vista. N ãocusta com-
preendê-los e situá-los pela informaçãosobre a matriz e so-
bre as condições que a geraram.
Procurandoestabelecer, novolume inicial de UEvolution
de 1'Humanité, dirigida por Henri Berr, uma «introduçãogeo-
gráfica à História», Lucien Febvre lembrava: «O geógrafo
parte dosoloe nãoda sociedade. N ãovai, sem dúvida, ao
pontode pretender que esse soloé a 'causa' da sociedade.
R atzel se contenta em dizer que ele é 'oúnicoliame de coe-
sãoessencial de cada povo'». M as é aosolo, antes de tudo,
que vai sua atenção ( . . . ) . R atzel, dominado, a um tempo,
peloseu preconceitode antropogeógrafoe pelas preocupações
de ordem mais política que científica — que, por momentos,
foram assemelhar-se a mais recente e a menos fecunda de
suas grandes obras, a Politische Geographie a uma espécie
de manual de imperialismoalemão— escreve: «S e os tipos
os mais simples de Estadosãoirrepresentáveis sem um solo
que lhes pertença, omesmodeve ser, assim, com os tipos os
mais simples da sociedade: a conclusãoimpõe-se». E prosse-
gue: «Família, tribo, comuna nãosãopossíveis senãosobre
um soloe seu desenvolvimentonãopode ser compreendido
senãoem relaçãocom esse solo».C3
Poucoadiante, Lucien Febvre reafirma: «O solo, nãoo
Estado: eis oque deve reter ogeógrafo».6 4 E; lembra, depois,
as reações que a obra de R atzel despertou, na França, algu-
mas já apreciadas aqui: «Havia já muitotempo— era em
1898, nodia seguinte aoaparecimentoda Politische Geogra-
phie e noanomesmoem que E. D urkheim examinava a obra
de R atzel — que Vidal de I a Blache declarava, de sua parte:
«O s fatos da Geografia Política se delineiam ainda demasia-
doesparsos, sem adaptaçãoaos da Geografia Física». E ajun-
tava: «Acreditamos firmemente, de nossa parte, que nada
poderia ser, em definitivo, mais fecundopara a Geografia
Política que odesenvolvimento, tãonotável, que assume, sob
63. Lucien Febvre: op. cit., p. 43 e 48/49.
64. Idem, p. 78.
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nossos olhos, o estudo físico do Globo. As relações entre o
homem e o meio no qual se exerce sua atividade não podem
deixar de se revelar ainda mais claramente, à medida que
se tateia menos através do estudo das formas, dos climas e
da distribuição da vida» ( . . . ) . E. Gallois, por seu turno,
em livro que citamos muitas vezes: «É preciso, quando se quer
ter em conta fatos humanos, pensar sempre na influência
possível do meio. Ora, como reconhecer essa influência sem
um estudo preliminar, independente do meio físico? Como
discernir o que é o fato do homem do que é o fato da natu-
reza — se se começa por confundir, nos mesmos quadros,
as obras dos homens e as condições naturais?» 6 6 Procuran-
do deslindar as relações entre a natureza e o homem — en-
tre, conseqtientemente, a Geografia Física e a Geografia Hu-
mana — Lucien Febvre deixa clara a perplexidade ou a timi-
dez das figuras mais eminentes da Geografia francesa diante
das teses de Ratzel. Posição ideológica, no fundo, em que pese
o saber daquelas figuras, sua autoridade. Na verdade, só
podiam repudiar aquelas teses — e as repudiaram — aque-
les que se haviam emancipado da ideologia burguesa. Febvre
não se detém em explicar aquela tolerância estranha.
Outra é a sua posição ante deterministas do passado:
«É uma ação que, de longa data, abalou os sábios, inclinados
a notar que os agentes climáticos exerciam nos seres huma-
nos uma ação direta somática, de toda forma análoga à que
eles notavam em todos os seres vivos, animais ou vegetais.
Sob a influência de stimuli particulares, apareciam, dizem-
nos, adaptações fisiológicas. Darwin fazia delas um dos ele-
mentos da seleção natural. Lamarck aí forjava sua doutrina
da evolução. Filósofos, Herbert Spencer ou Augusto Comte,
atribuíam a esses fatos considerável importância. Em seu
seguimento, toda uma plêiade de antropólogos e de médicos
acumulava observações, anotações, constatações de detalhe.
Desde muito tempo, usava-se, ou abusava-se por vezes, de
considerações gerais sobre a tonicidade dos diversos climas,
O calor debilita, enerva, enlanguesce o organismo humano.
O frio torna-o mais pesado, mas também mais robusto e como
que mais concentrado: lugares-comuns, mil vezes desenvol-
65. Lucien Febvre: op. cit., P. 98/99, A citação de Ia Blache é dos Amwles dr.
Géoyraphie, VII, Paris, 1898, p, 98. A de L. Gallois é de Régions Naturelles et Nnma
de Pays, Paris, 1907, p. 224,
56
vidos, desde Bodin, que os produziu com vigor, mil vezes refu-
tados também, e pelos fatos os mnis elementares».6 6
Ora, aquilo que, em Heródoto, em Hipócrates, em Bodin
ou em Montesquieu mesmo, e ainda em deterministas poste-
riores, pode ser historicamente situado e compreendido — e
tais figuras, cada um em seu tempo, em seu meio, em sua
atividade, fizeram o conhecimento avançar, já resulta de de-
liberada e reacionária opção, em figuras dos fins do século
XIX e particularmente em figuras do século XX, e tais figu-
ras retardaram o avanço do conhecimento. O que importa,
como conclusão? Importa observar que, pelas condições pe-
culiârfi&_ac_d6£línio da bujrgueaijT ria fase imperialista, as
teorias de..JRatzel £ncjojitravãrn~^arhinhò"ãl)értõ, mesmo naqu£
lês círculos que não as adotavam. i'ais círculos ffáõ estavam
empenhados em repudiá-las. Assim, travestidas de ciência,
acobertadas por um nome respeitado, tido como fundador da
Antropogeografia, elas acabaram se transformando, de que-
da em queda, numa monstruosidade pseudogeográfica. Note-
se — porque os aspectos formais são, por vezes, diáfanos dis-
farces daquilo que é conveniente esconder ou desconhecer —
que duas controvérsias semânticas assumiram largas propor-
ções : entre os partidários do título Antropogeografia e os
partidários do título Geografia Humana, para o novo ramo
dos estudos geográficos; e entre os partidários, pouco adian-
te, de Geopolítica ou de Geografia Política, como título para
outro ramo da mesma Geografia. Com a diferença, do segun-
do em relação ao primeiro caso, de que o título Geopolítica,
tendo sido desmoralizado, os partidários do título Geografia
Política passavam a explicar que esta nada tinha a ver com
aquela.
Ratzel teve seguidores que procuraram manter-se, ain-
da que deterministas, no campo da Geografia. A americana
Ellen C. Semple, por exemplo, autora da American History
and its Geographic Conditions. Ela sustentava que se deve-
ria comparar povos típicos de todas as raças e de todos os
estágios de civilização, situados em condições geográficas se-
melhantes; se houvesse diferença, provinha da raça; se hou-
vesse concordância, derivaria do meio. Assim, dois elementos
apenas influíam na História: a raça e o meio. Ellen Semple
explicava que cossacos e hunos, separados por séculos, foram
66. Lucien Febvre: op. cit., p. 117.
57
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levados ao deslocamento pela natureza do ar, seco e excitante,
e pelas dificuldades de vida no meio originário. Ou como
A. Supan, autor de Leitlinien der Allgemeinen Politischen
Geographie, e W. Vogel, autor de uma Politische Geographie,
na Alemanha. Ou mesmo de um Camille Vallaux, autor da
Geographie Sociale: lê Sol et 1'Etat, na França. Até que pon-
to teria essa corrente influí do, ou sido influenciada, na obra
de T. T. Mahan, The Influences of the Sea Power upon the
French Revolution and Empire, é duvidoso. Mahan foi, sem
dúvida, um dos teóricos da expansão imperialista norte-ame-
ricana, iniciada em fins do século XIX e de que resultou a
conquista das Filipinas, Cuba e Porto Rico, anteriores posses
coloniais espanhola». Com Mahan, os limites da Geografia
foram ultrapassados, incontestavelmente. A disputa imperia-
lista por nova repartição do mundo, levada à ebulição com
a ascensão germânica, propiciaria as condições em. que, nos
países em competição, surgisse a passagem do campo da Geo-
grafia ao da Geopolítica, isto é, ao esforço para revestir de
caráter cientí fico aquilo que não passava, na realidade, de
espoliação colonialista ou imperialista.
A passagem da Geografia à Geopolítica se deve ao ca-
racterizado teórico da expansão imperialista inglesa Halford
Mackinder, cuj o renome como geógrafo lhe permitira chegar
à vice-presidência da Royal Geographical Society e à cátedra
universitária em Londres. Em 1904 — por coincidência, o
ano da morte de Ratzel — Mackinder leu, naquela agremia-
ção, pequeno estudo intitulado Geographical Pivot of History.
Nesse trabalho, .ele estabelecia uma arbitrária divisão do
mundo, com duas amplas faixas circulares — crescente in-
terior, ou marginal, e crescente exterior, ou insular — tendo
como centro a ampla área, que denominava «área pivot» ou
heartland (terra-coração). À base dessa divisão, Mackinder
formulou uma «l ei »: «Quem dominar a Europa Oriental do-
minará o coração continental; quem dominar o coração con-
tinental controlará a ilha-mundo; quem dominar a ilha-mun-
do controlará o mundo». Essa «lei» foi formulada após o
fim da Primeira Guerra Mundial, no livro Democratic Ideais
and Reality. Nem em 1904, quando Mackinder divulgou sua
concepção, nem em 1919, quando a resumiu na «lei» citada,
sua teoria suscitou maior interesse, seja nos domínios da
Geografia, seja nos da Política. Mas o fato é que se deve
a Mackinder, também, ter fundido aqueles dois campos. Tí-
58
tulo e teoria, abandonando progressivamente qualquer carac-
terística geográfica, encontrariam acolhimento, ampliação e
influência considerável graças às condições criadas na Ale-
manha pela derrota e no mundo pela vitória da Revolução
de Outubro e criação da União Soviética, com a resistência
desta ao cerco e ocupação, como à guerra civil, apresentando-
se como acontecimento histórico irreversível. A Geopolítica
passa de concepção desvairada de um geógrafo medíocre a
instrumento teórico de destacado papel, assim, graças, de um
lado — o geral — ao advento do socialismo no poder de um
grande Estado e, de outro lado — o particular — à neces-
sidade de aproveitar os ressentimentos e dificuldades da der-
rota e frustração para armar ideologicamente a burguesia
alemã, tornando-a tropa de choque para a destruição da
União Soviética, ao mesmo tempo que teoria j ustificatória
da expansão imperialista na América, Ásia e África.
O formulador político da teoria geográfica consequente
foi o j urista reacionário e germanófilo sueco Rudolf Kj ellén,
o primeiro a empregar a expressão Geopolítica. Profunda-
mente impressionado pelas ideias de Ratzel, o professor de
Upsala defendeu uma divisão singular da ciência política C7 :
a Cratopolítica, ciência da organização legal do poder do Es-
tado; a Geopolítica, ciência do Estado como dominador do
espaço; a Demopolítica, ciência das formas de organização
política das massas; a Ecopolítica, ciência dos processos de
produção e de consumo; e a Sociopolítica, ciência do controle
da sociedade. A predominância das concepções ratzelianas no
pensamento de Kj ellén ressalta de suas formulações. Esta,
por exemplo: «Os Estados procuram escolher unidades geo-
gráficas, como seja uma região, para se aliarem com elas e,
por meio dessa aliança, se transformarem em unidades natu-
rais». cs Ou esta, já contendo algo do próprio Kj ellén, como
teorizado? do imperialismo alemão: «Estados vitalmente for-
tes, com uma área de soberania limitada, são dominados pelo
categórico imperativo de dilatar seu território pela coloniza-
ção, união com outros Estados, ou conquistas de diferentes
espécies. Foi esse o caso com a Inglaterra, e é o caso com
a Alemanha e o Japão; como vedes, não é o instinto primi-
tivo da conquista, mas a tendência natural e necessária para
a expansão como meio de autoconservação».C9
'. R. Kj ellén: Der Staat Ais Lebensform, Leipzig, 1917.
1. R. Kj ellén: op. cif., 4» edição, Berlim, 1924, p. 61.
'. liem, p. 76.
67
69.' YdemTv^n.
59
Ora, como vedes, é o imperialismo colocado como expan-
são natural e justa. Claro na sorte a que ficam destinados os
Estados mais fracos: «Quanto mais o mundo se organizava,
mais os vastos espaços, como Estados grandes, faziam sen-
tir sua influência, e, quanto maior o desenvolvimento dos
grandes Estados, menor a importância do pequeno Estado».70
Que resta aos pequenos Estados, então? Kjellén não tem ne-
nhuma dúvida: «Aos Estados pequenos parece estar reser-
vada, no mundo da política, sorte idêntica à que têm os po-
vos primitivos, no mundo da cultura. São repelidos para a
periferia, mantidos nas áreas marginais e zonas fronteiras,
ou desaparecem».71 O livro de Kjellén, O Estado como For*
ma de Vida, de 1916, foi vertido para o alemão e publicado
em 1917, no momento em que, entrando os Estados Unidos
na guerra, a derrota germânica se delineava. Definindo a
Geopolítica «ciência do Estado como organismo geográfico
e, significativamente, como soberania», e achando que Ratzel
havia sido «o grande abridor de sulcos no solo virgem da
Geopolítica», Kjellén ultimava a fase em que ela abandonava
a área da Geografia.
Mas sua influência no pensamento dos geógrafos ale-
mães, discípulos de Ratzel, naquela fase especial, foi enor-
me. Entre eles estavam alguns dos nomes mais conhecidos,
como Otto Maull e Ernst Obst, a que logo outros se vieram
juntar.72 Maull considerava o Estado, ortodoxamente ratze-
liano, como organismo espacial, e distinguia entre categorias
de Estado, os das planícies, os das montanhas, os mediter-
râneos, os costeiros, os oceânicos. Dissertando sobre a neces-
sidade de expansão de determinado tipo de Estado, afirmava,
com absoluta clareza, que a penetração económica exercida
por eles era perfeito substituto da dominação territorial."
Kjellén apresentara, abertamente, a «missão» da Alemanha:
«Nessa situação, a Alemanha surge como o líder mais natu-
ral, quer do ponto de vista geográfico, quer do cultural. Isto
significaria, para a Alemanha, como administradora do di-
reito de primogenitura, aceitar a posição de dirigente do
70. Idem, p. 74.
71 . Idem, p. 81/82.
72. Otto Ma u l I , autor de uma PoUti.schc Gvographie (Berl i m, 1 9 25 ) , como, muito
mais tarde, de Das Wesen der Geopolittk (Berl im, 1 9 35 ) , na fase de expansão do poder
nazista, esteve no Brasil, em 1922.
73. Maull escreveu o ensaio "Brasiliens geopolitische Struktur", publ icado no Zcit-
schrift fiír Geopolitik, voi. I, p. 90/100, Berl im, 1924, pouco conhecido pelos pró-
prios geopollticos brasileiros.
60
mundo e, com esse fim, usar essa imensa fonte de poder,
que lhe parece faltar no momento, a fé em tal missão». Isto,
constante do livro de Kjellén As Grandes Potências de Nos-
sos Dias, publicado, na edição alemã, em 1914, encontraria
eco nos geógrafos germânicos e se ampliaria em dezenove
edições, seguido por outro livro, As Grandes Potências e a
Crise Mundial. Morto Kjellén, em 1922, a Alemanha atraves-
sava a crise consequente da derrota. Começaram a aparecer
obras de Geopolítica, assinadas não apenas por geógrafos.
O mentor desse movimento ideológico que, surgindo pa-
ralelamente ao nazismo e das mesmas condições, com ele se
fundiria, pouco adiante, seria o soldado e geógrafo Karl Haus-
hofer. Como militar, ele viajou pela Ásia e esteve no Japão,
em 1908; lutou na Primeira Guerra Mundial, passando à re-
serva, em 1919, como major-general. fim 1921, tornou-se pro-
fessor de Geografia na Universidade de Munique. Estreara,
em livro, em 1913, escrevendo sobre o Japão, à base de sua
experiência direta. Na imprensa, insistiu em trabalhos sobre
o Oriente, assumindo logo a categoria de especialista. Foi em
consequência dessa especialização que apareceu, em 1924, sua
obra Geopolitik dês Pazifischen Õzcans. Discutindo diferen-
ças entre Geografia Política e Geopolítica, Haushofer susten-
tava que esta era «essencialmente dinâmica» e constituía «um
modo de educar as massas no conceito de espaço». Assim,
escrevia: «Geopolítica é a ciência que determina e condicio-
na a evolução política ao solo». Concluindo: «Definida nes-
ses termos, a Geopolítica quer fornecer os instrumentos para
as atividades políticas e ser um guia na vida política ( . . , ) .
A Geopolítica pretende e deve se tornar a consciência geo-
gráfica do Estado».
Estes trechos constam de uma espécie de declaração de
princípios, publicada no número inaugural do Zeitschrift fúr
Geopolitik, fundado por Haushofer, com a ajuda de Obst e
Lautensach. Paralelamente, era fundado, em Munique, o Insti-
tui filr Geopolitik, também sob a direção de Haushofer. Por
essa época, criava-se a interdependência entre a renascente
indústria pesada alemã, os departamentos do governo, as Uni-
versidades e o incipiente Partido Na/ista. Quando fracassou
o putsch da cervejaria, Haushofer foi apresentado a Hitler,
então preso, pelo seu ex-aluno Rudolf Hess. Hitler, preso
privilegiado, ocupava o seu tempo em ditar o Mein Kampf;
seu capítulo IV é considerado como diretamente inspirado por
61
Haushofer. O Instituí fiir Geopolitik, entretanto, prosseguia
em suas atividades, ocupando cerca de mil peritos. A Geo-
política ampliava-se, agora, em geojurisprudência, geomedici-
na, geopsicologia e outras Geowissenschaften (geociências).
Uma das teses du geopsicologia, por exemplo, é que a_ expe-
dição militar aliada contra a Rússia bolchevista, em 1919,
fracassara, em Arkangelsk, pelo efeito depressivo da deso-
lada tundra sobre os soldados ingleses e franceses. Muito de-
pois, aproveitando a «lição», ao que se diz, o Afrika Korps,
de Rommel, era submetido a exercícios em gigantesco galpão
aquecido, em Berlim. Pouco antes, aliás, da anexação da
Tchecoslováquia, o Zeitschrift dedicara número especial a
esse país.
Hitler ascendeu ao poder em 1933. No ano seguinte,
Haushofer foi escolhido presidente da Academia Germânica.
Sua escola foi instalada em magnífico edifício, em Munique.
Nesse mesmo ano, Ewald Banse via seu livro Raum und
Volk im W eltkri< > ,( j e ( Espaço e Povo na Guerra Mundial) tra-,
duzido para o inglês e passava da Universidade de Bruns-
wick a chefe de seção técnica no Estado Maior do Exército
Alemão. O princípio básico pregado pelos geopolíticos, em
todos os campos, ativamente mobilizados, era curto e fácil de
gravar: «Espaço é poder». Provando que tal princípio ser-
vira à expansão inglesa e norte-americana, a Geopolítica ale-
mã estendeu sua influência a esses países, onde encontrou
adeptos, embora nenhum nome dotado de lastro cultural ou,
pelo menos, de notoriedade.74
E levou àa últimas consequências os ensinamentos de
Ratzel. Otto Maull opinava que Ratzel deixara a Geografia
Política em nívi-1 que «não podia bastar aos desejos da polí-
tica prática, despertados pelo abalo da Grande Guerra».
Henning, por seu lado, seria também franco: «A Geopolítica
quer fornecer materiais à ação política, quer servir de guia
74. Em artigo, desprovido de caráter cientifico, procurando informar sobre o tema,
intitulado "Geopolítica", publicado em Time (Chicago, 21 de dezembro de 194 2) e
transcrito no Boletim Geográfico (Eio, setembro de 194 8 ) , Joseph J. Thorndike Jr.
chama a isso de "sistema científico Que um inglês inventou, os alemães usaram e os
americanos precisam estudar". No texto, o repórter — e disso não passa — mostra
que Hamilton foi geopolítico, como Jefferson ao comprar a Luisiana, como Sewar,
ao defender a compra do Alaska. E acrescenta: "Neste século, Teodoro Roosevelt mos-
imperiaiiamo, evidentemente, que não tivesse sido assim.
62
para a vida prática. Permite-lhe passar do saber ao poder,
quer ser a consciência geográfica do Estado». Haushofer
afirmaria o sentido prático, no caso da Alemanha nazista,
nos termos seguintes: «Uma grande nação tem de romper de
um espaço singularmente estreito, amontoado de gente, sem
ar fresco, um espaço vital acanhado e mutilado há um milé-
nio. . . a menos que toda a Terra se abra à livre imigração
dos povos melhores e mais capazes ou que os espaços vitais
ainda não ocupados sejam redistribuídos segundo as reali-
zações anteriores e a capacidade de criar».75 Em 1932, Hen-
ning, Maull e Arthur Dix escreveram livros didáticos de Geo-
política. Haushofer lançava Baustein zur Geopolitik ( As Pe-
dras Angulares da Geopolítica). Schmitthenner, em 1938,
editou o seu livro Lebensráume im Kampf der Kulturen ( Es-
paços Vitais na Batalha das Culturas) para, já durante a
guerra, lançar Lebensraumfragen der Võlker. Norbert Krebs
editara, em 1937, as primeiras folhas do Atlas dês Deutschen
Lebensraumes in Mitteleuropa.
Sem o nazismo, a Geopolítica não teria ultrapassado os
limites daquilo que, com frequência, na fase de decadência
do capitalismo, em vários campos, confunde a novidade com
o novo. Seu ingresso na área científica estaria naturalmente
vedado. O regime, entretanto, compeliu, de forma irresistí-
vel, à submissão, todos aqueles que necessitavam continuar a
exercer, na Alemanha, atividades culturais: «É difícil dizer-
se como os geógrafos germânicos, em conjunto, encaravam
a situação política que, em 1933, levou Hitler ao poder. Al-
guns deles, militantes da Geopolítica, conforme nos referi-
mos, eram a favor do novo regime; outros pareciam por de-
mais mergulhados em discussões teóricas para se preocupa-
rem com as consequências do novo governo em sua vida e
estudos. De qualquer forma, não poderiam influir; a propa-
ganda emocional já produzira seus efeitos nocivos e a Ale-
manha, inclusive a Geografia alemã, começou uma nova era,
hesitantemente, porém sem grandes perturbações. Foi esta
a época sombria da Geografia germânica. Era uma época de
interferência e normas governamentais, de deterioração da
profissão e de falta de vontade de protestar».7Õ
75. In Zeitachríft fiir Geopolitik, vol. II, Munique, 1934 .
76. Samuel van Valkenburg: "Escola Germânica de Geografia", in Boletim Geo-
gráfico, nl 159, Rio, nov. -dez. , 1960, p. 984 /986.
63
Esse processo de capitulação da inteligência diante da
força se repetiria, embora jamais nas mesmas proporções. O
nazismo, o fascismo, são necessariamente obscurantistas, ini-
migos da cultura, pelo fermento de verdade que ela contém.
Quem não capitula é perseguido: na Alemanha nazista, Phi-
lippson foi recolhido a um campo de concentração; como Ley-
den, que passara à Holanda e, com a invasão desta, morreu
na prisão; o mesmo aconteceu ao francês Jacques Ancel,
quando da ocupação de seu país. Este cometera, em 1936, o
crime de denunciar: «a Geopolítica forneceu suas armas ao
hitlerismo». Pagou com a vida essa verdade. Leo Waibel, co-
mo outros, foi obrigado a deixar a Alemanha. Como narrou
um especialista: «O expurgo racista atingiu também a Geo-
grafia». Waibel era casado com uma judia, O especialista
conclui, melancolicamente: «Diferentes geógrafos tiveram de
escolher entre ingressarem no partido ou perderem o cargo:
geralmente optaram pela primeira solução».7 Y A Geopolítica
alemã teve um fim trágico, como o do próprio regime que
a mantivera, como o do próprio Haushofer e de seu filho:
«O filho via com toda clareza aproximar-se e desenrolar-se
a grande catástrofe da pátria. A influência da família no
partido, que tinha sido considerável, desde a época da luta,
foi-se extinguindo, pouco a pouco, depois de 1938 e, princi-
palmente, depois da fuga de Rudolf Hess para a Inglaterra,
apesar de os filhos de Haushofer, para os quais o título de
'ariano', do partido, não tinha sido suficiente, terem sido de-
clarados 'arianos de honra'. A. Haushofer afastou-se de seu
pai e, juntamente com outros patriotas, meditou na salvação
de sua pátria antes de sua completa ruína. Como prisioneiro
da Gestapo, encontrou, porém, um fim triste, mas honroso.
Os seus poemas Sonetos Moabitanos, escritos na prisão, são
um documento estarrecedor de sua trágica agonia. Mas tam-
bém ao pai, que posteriormente deixou o mundo dos vivos
pelo caminho do suicídio, não se poderá negar que viveu sob
a fatalidade de um destino trágico».7 8
Arthur Dix foi uma das figuras mais destacadas da Geo-
política germânica. Autor de manual destinado a difundir-lhe
os ensinamentos, Dix, que ainda desenvolve seus trabalhos na
área da Geografia Política, define esta da maneira seguinte:
77, Samuel van Valkenburg: art. cit,, p. 988.
78. C. TroU; "A Geografia científica na Alemanha n
in Boletim Geográfico, Rio, n» 82 e 83, jan.-fev, de 1960
„ .10 período de 1933 a 1945"
1960, p. 1277.
64
«Geografia Política é a ciência que estuda a sede e a esfera j
de poder dos Estados. Sua zona de observação é d oujMJfréi
da Terra, contemplada como campo de atividade das socie-
dades humanas e como cenário onde se desenvolve a vida dos
povo? "organizados em Estados. Ocupa-se, por conseguintèT
"dãsrelaçjoes das coietividades políticas com o espaço que ha-
bitam e a área de tráfico». ™ Dix, em suas posições, varia
entre o simples determinismo e a Geopolítica germânica. As-
sim, a Geografia determina o comércio: «Em grandes traços,
os fundamentos geográficos explicam com bastante clareza o
desenvolvimento do tráfico».80 O poder marítimo definiria o
predomínio comercial: «Desde que o horizonte geográfico se
estendeu à quase totalidade do Planeta, o mundo teria de cor-
responder à nação mais forte nos mares que, enfim, rodeiam
e envolvem as massas continentais, representando o meio
mais cómodo de comunicação e de tráfico».S1 Os Estados,
para Dix e, segundo ele, «partindo da base das circunstân-
cias económicas», seriam distribuídos_jem_Sête gruposj. «1.
E'stados de economia autónoma e independente. 2. Estados de
superprodução agrária. 3. Estados de superprodução indus- !
trial, 4. Estados de superprodução financeira. 5. Estados que
necessitam um suplemento de produções agrícolas. 6. Esta-
dos que necessitam um suplemento industrial. 7. Estados que
necessitam ajuda financeira». Conclui: «Em troca, os Estados
do terceiro e quarto grupos experimentam forte necessidade
de expansão e neles figuram os países que encarnaram prin-
cipalmente a aspiração a dominar com seu influxo a política /
mundial». 82
É claro que a Alemanha, como os demais países impe-
rialistas, estava no grupo 3 e no grupo 4. Mas Dix — que
escreve entre as duas Grandes Guerras, após a derrota ale-
mã na primeira, portanto — torna-se mais claro, adiante:
«O povo alemão, no entanto, não abandona seu ideal de cons-
tituir uma grande Germânia, entre o Reno, o Vístula e o
Danúbio. A própria natureza pareço atribuir à nação alemã
a missão de reunir e agrupar os países da Europa central;
o cumprimento dessa missão tem sido sua obra histórica, de
acordo com a Geografia e o sentimento popular que, muitas
vezes, assinalou o caminho às classe» dirigentes e às dinastias
7 0. A. Di x: Geografia Política, Barcelona, 191Í U, p. 9.
SO. Idcrii, p. 173.
81, A. Dix: op. cit,, 11, 157.
82, Idem, p. 21.
65
principescas».83 Mas como é preciso travestir de ciência esse
amontoado ideológico de sonhos e desejos, Dix formula algu-
mas «leis», isto é, alguns traços do determinismo geográfico,
/agora gerais: «Avanço sobre a linha de menor resistência» 84 ;
/ «Aspiração ao domínio da totalidade da bacia hidrográfica» 85 ;
«Aspiração a uma saída para o mar »8 6 ; «Tendência a possuir
vários acessos ao mar» 87; «Aspiração às costas opostas» 88;
«Função das grandes rotas transcontinentais»89; «Aspiração
dos Estados a arredondar sua esfera de domínio» 90 ; «Aspi-
ração à unidade nacional».91 Obedecendo a tais aspirações,
seria possível justificar qualquer tipo ou forma de expansão
| territorial ou de prática imperialista.
A Geopolítica, que passara por transitório eclipse, e ape-
nas parcial, com a derrota nazi-fascista, ganhou corpo, nova-
mente, com a chamada «guerra fria», definindo claramente
seu conteúdo ideológico. Pela sua natureza e pelos seus pro-
pósitos, deveria acolher-se particularmente nos Estados Uni-
dos e, em proporções mais reduzidas, nos países dependentes/
dos Estados Unidos. Trata-se, nessa nova fantasia carnava-
lesca, de estabelecer a naturalidade e até a necessidade da
hegemonia mundial de uma grande potência, capaz de dar
segurança aos povos seus tutelados e servidores e de assegu-
rar neles a vigência ou a continuidade de regimes políticos
autoritários, apresentados como preservadores da «civilização
cristã e ocidental». Tais países, carentes de « ajuda», renun-
ciam, para alcançar tão alta proteção, à sua soberania eco-
nómica e política, passando a simples fornecedores compul-
sórios de matérias-primas, de força de trabalho barata ou
de ambas, a preços fixados pelos compradores. Daí a obra
de geopolíticos como Harrison e Weigert ou de doutrinado-
res, já fora do campo geográfico, como Merryem, Larmeroux,
Jessup, Lanterpath, para não falar em impostores como Ja-
mes Burnham, economista e professor da Universidade de
Nova York, autor de obra muito celebrada pela crítica, em
seu país e nos satélites, Struggle for the World, em quejpre-
ga a criação de um império universal, dirigido naturalmente
83. Idem, p, 136/136.
84. Idem, p. 28.
85. Idem, p. 29.
86. Idem, p. 42.
87. Idem, p. 46.
88. Idem, p. 63.
89. Idem, p. 69.
90 . Idem, p. 77. i : > '
91. Idem, p. 91.
66
de Washington, «através de um sistema combinado de conces-
sões e ameaças», mas onde «o sopro das concessões deve sem-
pre indicar a picada da força». Rematando, sem nenhum dis-
farce : «A força deve estar sempre presente, pronta para ser
usada, seja pelo processo indireto de sanções económicas,
seja pela direta explosão de bombas atómicas». Trata-se, co-
mo se vê, de pessoa com as melhores intenções, tal como os
atuais futurólogos, profetas de catástrofes e juizes de países
que condenam à servidão perpétua, gordos, pretensiosos e
ignorantes. Encontram, por vezes, nos países satélites, políti-
cos que defendem a traição, achando que a soberania, hoje,
deve ser limitada e que as fronteiras que se devem conside-
rar não são as políticas mas as ideológicas, isto é, defendem
o direito de usar a canga.
Nos Estados Unidos, sob o rótulo de Geografia Política,
para cobrir conteúdo de clara e escandalosa Geopolítica, Ni-
cholas Spykman, professor da Universidade de Yale, discutia,
em 1942, as teses necessárias, a seu ver, ao papel dos E's-
tados Unidos no mundo: America's Strategy and World Po-
litics (Estratégia Americana e Política Mundial). Spykman
afirmava que, ao contrário do que pregavam alguns salva-
dores do « mundo livre», os esforços no sentido da conquista
e preservação do poder não visavam a realização de valores
morais; os valores morais é que eram feitos para a conquista
e preservação do poder. Era, evidentemente, levar muito lon-
ge os ensinamentos de Ellen C. Semple e deformar os de
Isaiah Bownan, que tratara a Geografia Política e comba-
tera a Geopolítica como os alemães a haviam elaborado. Re-
capitulando trabalhos editados após a Segunda Guerra Mun-
dial, alguém resumiria a situação da maneira seguinte: «Uma
verdadeira escola americana de Geopolítica está ainda para
nascer. Mas está claramente a caminho. Este ano, cerca de
1.500 cursos de Geopolítica estão sendo dados nos colégios
estadunidenses. Nas Universidades, em todas as partes do
país, velhos geógrafos estão surgindo como novos geopolíti-
cos. Embora haja alguns fracos, há outros com inteligência
de primeira ordem. Entre os eminentes geógrafos que estão
preparando o caminho para uma escola de Geopolítica ver-
dadeiramente americana estão: o presidente Isaiah Bowman,
da John Hopkins University; o padre Walsh, de Georgetown;
Nicholas Spykman, de Yale; Derwent Whittlesey, de Har-
vard; Edward Mead Earle e Harold Sprout, de Princeton. O
67
Exército tem autoridades geopolíticas capazes no coronel Wil-
liam S. Curbertson, do Estado Maior, e no coronel Herman
Beokema, de West Point». Derwent Whittlesey retomou, em
1944, com o seu livro The Earth and the State, o velho tema
das relações entre o solo e o Estado. Seguia e aprofundava
teses do conhecido determinista norte-americano, E. Hunting-
ton, professor de Yale, cuj o trabalho, de 1915, Civilization
and Climate recolocou, em termos extremados, a causação do
clima como condição imperativa do avanço da civilização,
culminando, em 1945, com o livro Mainsprings of Civilization,
de texto enriquecido por gráficos e estatísticas, retomando e
reafirmando aquela causação.
Apenas a título de exemplo, convém mencionar, como
típica, a atividade geopolítica de J, Vicens Vives, da Univer-
sidade de Barcelona. Lastimando a derrota de seus confra-
des hitleristas, cuj a posição nazista impugna, ele escreve:
«Foi um crasso e imperdoável erro, uma traição a si mesmos
e à j ovem ciência que cultivavam».82 E retoma, na Espanha
franquista, as teses deterministas mais comuns: «K um fato
evidente, confirmado pela experiência histórica, que a hege-
monia cultural e política não se manteve no mesmo lugar
desde as origens da civilização. Existe uma real marcha des-
sa hegemonia das zonas temperadas subtropicais e meridio-
nais para as zonas frias e úmidas do norte ( . . . ) . Da mesma
maneira que cada espécie vegetal e animal conta com uma
zona ótima biológica, em redor da qual se pode traçar uma1:
auréola de possibilidades decrescentes, a espécie humana en-
contra, para seu adequado florescimento na superfície terres-
tre, zonas ótimas. Estas obedecem a fatores climatológicos
precisos, entre os quais figuram, em primeiro lugar, a umi-
dade e o tipo de tempo».93 Aquilo que o geopolítico alemão A.
Dix denominava «aspirações», Vives denomina «estímulos» e
alinha-os, dissertando sobre a necessidade de cada um: «Estí-
mulos das comarcas mais duras» 9l 1; «Estímulos das novas
pátrias» 9 G ; «Estímulos dos choques»3 6 ; «Estímulos das pres-
sões»"7 ; «Estímulos das punições».98 Concluindo: «Os estí-
mulos a que acabamos de nos referir não se desenvolvem
92. J. V. Vives: op. cit., p. 6.
93. J. V. Vives: op. cit,, P. 95/96 e 98.
94. Idem. p. 90.
95. Idem, p. 90.
96. Idem, p. 91.
97. Idem, p. 92.
98. Idem, p, 98.
68
fel!;
proporcionalmente a um grau de maior adversidade geo-his-
tórica. O mérito da doutrina de Toynbee reside em haver
formulado, como já dissemos, a «medida de ouro»: «O estí-
mulo mais efetivo é o que se situa ontre a carência e o exces-
so de adversidade».89
Claro que as absurdidades da G eopolítica não definem,
por si sós, o nível dos estudos geográficos, nem mesmo em
países como a Alemanha, sob regime nazista, como os Esta-
dos Unidos, sob as condições da «guerra fria», ou de filiais,
como a Espanha, sob o franquismo. Os Spykman ou os Hun-
tington não são a G eografia norte-americana. Seria demais
alinhar nomes de autores e de obras que nos provem isso.
Apenas a título de exemplo, convém referir as colocações de
um professor como Jan O. M. Broek, da Universidade de
Minnesota. Sobre o determinismo: «Ninguém nega a signi-
ficação do clima, solo, água ou características da superfície
para a humanidade. Mas explicar a variedade do comporta-
mento humano simplesmente pela diferença do ambiente fí-
sico é uma forma de adoração do sol».100 Sobre clima: «Por
esse motivo, seria absurdo dizer que o clima é responsável
pelas plantações de laranjas da Flórida ou pelos recantos de
esquiagem na Nova Inglaterra. O clima vem sendo o mesmo
há muito tempo, constituindo apenas um fator permissivo.
O americano moderno age como quer, embora sempre den-
tro das limitações da estrutura sócio-econômica».m Ainda
sobre clima: «Um bom exemplo de mito geográfico é a
crença popular nas Zonas Frígida, Tórrida e Temperada,
originalmente desenvolvida pelos gregos antigos. Foi, essen-
cialmente, uma divisão da Terra segundo a sua exposição
aos raios solares». m A respeito da influência da G eografia
no conhecimento da sociedade: «Outra concepção errónea, ain-
da comum entre os leigos, é que a finalidade da G eografia é
descobrir como o ambiente físico (ou natural) determina,
ou, pelo menos, condiciona o comportamento humano».103 A
posição de Broek nos restitui ao terreno da G eografia. Sua
condenação do determinismo é idêntica à de todos os geógra-
fos dotados de um mínimo de noção de ciências sociais.
99. Idem, p. 94.
100. J. O. M. Broek: Iniciação ao Estudo da, Geografia, 2» edição, Rio, 1972, p. 32.
101. Idem, p. 38/89.
102. Idem, p. 70.
103. J. O. M. Broek: op. cit,., p. 106.
69
A Geopolítica, denunciada cedo por Demangeon e_ por
Jacques Ancel, na França, antes da Segunda Guerra Mun-
dial, já com o nazismo instalado na Alemanha, não passa de
singular deformação que geógrafo algum de responsabilida-
de e autoridade aceita sequer considerar. É como a definiu
Pierre George: «A pior das caricaturas da Geografia apli-
cada da primeira metade do século XX foi a Geopolítica,
justificando, autoritariamente, qualquer reivindicação territo-
rial, qualquer «pilhagem», por pseudos-argumentos científi-
cos». 104 Pertenceria a um geógrafo alemão, que o Brasil co-
nheceu, Leo Waibel, colocar o problema em seus mais adequa-
dos termos. Waibel apreciou, preliminarmente, o problema do
determinismo: «Entendemos por determinismo geográfico o
conceito de que os elementos da Geografia Humana sejam
determinados principalmente pelos fatores naturais, ou me-
lhor, físicos. Este conceito foi introduzido na Geografia por
Friedrich Ratzel. Em contraste com esta filosofia materia-
lista, Vidal de Ia Blache, na Franca, e Alfred Hettner, na
Alemanha, afirmaram que os fatores físicos não exercem in-
fluência determinativa e que a consideração de tais fatores
pode chegar somente à «possibilidade». A decisão cabe ao
homem, ao seu wttágio de desenvolvimento, ao poder da sua
vontade (que é forte) e ao espírito. Esta é a filosofia geográ-
fica que, hoje em dia, é geralmente aceita, na França e na
Alemanha, ao pa«so que, nos Estados Unidos, devido à in-
fluência de Ellen Semple, discípula de Ratzel, o determinis-
mo geográfico ainda é aceito e ensinado; o desenvolvimento
da Geografia alemã, nos últimos 50 anos, é tão pouco co-
nhecido aqui que Friedrich Ratzel, que faleceu em 1906,
ainda é considerado a última palavra da geografia alemã, e
a fama do meu mestre Alfred Hettner ainda não atingiu o
Brasil».
Posta em questão a Geopolítica, tendo Waibel sido acusa-
do de não ter querido se «elevar até o plano geopolítico do
problema» 105, responde, e nessa resposta está a qualificação
da Geopolítica: «Mais uma vez, ele errou; o que eu não
quero é rebaixar o meu padrão profissional ao nível de um
geopolítico! Para os geógrafos alemães, a palavra Geopolitik
tem sabor amargo. A Geopolítica é aquela pseudociência que
104. Pierre George e outros: A Geografia- Ativa, S. Paulo, 19 6 6 , p. 14.
106. Trateva-se da mudança da capital para o planalto central, com a escolha da
região para sua sede.
70
é largamente responsável pela catástrofe da Alemanha atual,
e não foi sem razão que o seu principal representante, o ma-
jor-general Karl Haushofer, em 1945, suicidou-se, na idade de
78 anos! Os seus principais sequazes eram mestres-escolas,
calouros de Universidades, jornalistas e, naturalmente, os di-
rigentes do Partido Nacional Socialista. Todos foram atraí-
dos pela sua linguagem mística, suas palavras de ordem e sua
fraseologia oca, sem apreender a sua pouca ciência, a sua caça
de efeitos e sua incapacidade de pensar clara e logicamente.
Ele tinha muito poucos seguidores, entre os geógrafos ale-
mães, conforme escreveu, recentemente, Karl Troll, e a maio-
ria destes concordava com as críticas dirigidas pelos geógra-
fos franceses contra a Geopolítica».10G Esta a palavra auto-
rizada, séria, científica, a respeito da Geopolítica e do que
representou no regime nazista. Porque o regime é que a colo-
cou em primazia, deu-lhe foros de ciência oficial, consagrou
seus princípios como verdades. Daí a conclusão de que a Geo-
política é a Geografia do fascismo.107
106. Leo Waibel: "Determinismo geográfico e Geopolitloa", in: Boletim Geográfico,
n» 164, Elo, setembro-outubro de 1961. Waibel foi provavelmente o mais destacado
geógrafo a trabalhar no Conselho Nacional de Geografia. Este foi o único de B eus
artigos publicados no B rasil não recolhido ao seu livro Capítulos de Geografia Tro-
pical e do Brasil, editado pelo IBGE. Foi reputado inconveniente.
107. O juízo é do conjunto, e não de indivíduos. No B rasil, ao lado de adesões
visceradas de radicalismo político direitista, houve, também, seguidores ingénuos, sem
compromisso maior.
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