You are on page 1of 162

REVISTA PERSPECTIVAS EM PSICOLOGIA

Sociedade de Psicologia do Triângulo Mineiro

Diretoria (2010-2011) Presidente: Eulalia Henriques Maimone Vice Presidente: Helena de Ornellas Sivieri Pereira 1ª. Secretária: Cirlei Evangelista Silva Souza 2ª. Secretária: Larissa Guimarães Martins Abrão 1ª. Tesoureira: Célia Vectore 2ª. Tesoureira: Marineia Crosara Resende Coordenador de Eventos: Walter Mariano de Faria Silva Neto Editor da Revista: Moisés Fernandes Lemos

UFTM Universidade Federal do Triângulo Mineiro

Instituto de Educação, Artes, Letras, Ciências Humanas e Sociais

Diretora: Fábio César da Fonseca

Curso de Psicologia

Coordenadora: Helena de Ornellas Sivieri Pereira

UFU - Universidade Federal de Uberlândia

Reitor: Alfredo Júlio Fernandes Neto

Instituto de Psicologia

Diretora: Áurea de Fátima Oliveira

Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia

Coordenador: Ederaldo José Lopes

Curso de Psicologia

Coordenador: Joaquim Carlos Rossini

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

1

REVISTA PERSPECTIVAS EM PSICOLOGIA

Expediente

A Revista Perspectivas em Psicologia é uma revista científica semestral, publicada pela da Sociedade de Psicologia do Triângulo Mineiro e pelos cursos de Psicologia da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e da Universidade Federal de Uberlândia. Ela é enviada a bibliotecas universitárias do Brasil com a missão de incentivar e difundir o conhecimento científico nas diversas áreas da Psicologia tendo como referência a produção do conhecimento sobre fatos e fenômenos da região

Editor

Moisés Fernandes Lemos (UFG-CAC)

Conselho Editorial

Antonio Roazzi (UFPE) Célia Vectore (UFU) Cláudia Davis (PUCSP) Eduardo Costa (Coimbra/PT) Elias Humberto Alves (UNICAMP) Eulália Henriques Maimone (UNIUBE) Fernando Antônio de Oliveira Leite (UNIMINAS) José Lino de Oliveira Bueno (USP/Rib. Preto) Marcela Cornejo Cancino (PUC Santiago-Chile) Maria Aparecida Morgado (UFMT) Maria Gracite (Coimbra/PT) Maria Elisabeth Montagna (PUC-SP) Miguel Mahfoud (UFMG) Sinésio Gomide Júnior (UFU) Teresa Benitez Gray (Universidad de Oriente - Cuba).

Endereço da Revista

Universidade Federal de Uberlândia Campus Umuarama Av. Pará, 1720, Bloco 2C, Sala 31, Bairro Umuarama

CEP 38405-320 Uberlândia MG.

2

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

REVISTA PERSPECTIVAS EM PSICOLOGIA

Publicada originalmente com o título de: Revista da Sociedade de Psicologia do Triângulo Mineiro. Primeiro volume e número (V.1 N.1) publicado em dezembro de 1998. Uberlândia MG.

Capa

Andréia Fernandes Malaquias Assistente - Comunicação Social /UFTM

Diagramação

Thimoteo Pereira Cruz

Impressão e Acabamento

Gráfica Univesitária da Universidade Federal do Triângulo Mineiro

Ficha catalográfica:

REVISTA PERSPECTIVAS EM PSICOLOGIA. Uberlândia, V.15 N.1, jan/jun.2011. (V.1 N.1 de dezembro de 1998) Sociedade de Psicologia do Triângulo Mineiro. Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Universidade Federal de Uberlândia

Semestral

1. Psicologia

ISSN 2237-6917 CDU: 159.9

Revista indexada ao

INDEX-PSI

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

3

REVISTA PERSPECTIVAS EM PSICOLOGIA

EDITORIAL

Editorial

SAÚDE E COMPROMISSO SOCIAL

Moisés Fernandes Lemos

Na década de oitenta, a sociedade organizada já levantava bandeiras, exigindo do Estado garantias de investimentos em saúde pública, educação e saneamento básico, por entender que essa era uma maneira de melhorar a qualidade de vida da população mais sofrida. Isso faz muito tempo, mas nas últimas décadas o Brasil observou a consolidação do regime democrático e hoje podemos participar diretamente da destinação de verbas públicas, atendendo às necessidades das diversas regiões de um país continental. Os problemas de saneamento básico foram relativamente resolvidos, as endemias e a mortalidade infantil foram controladas. O Brasil ainda tem muitos problemas, entretanto, nos últimos anos o número de brasileiros abaixo da linha da pobreza diminuiu, assim como diminuiu o número de mortes por fome, por problemas de saúde de fácil controle como diarréia e doenças infantis passíveis de coberturas pelas vacinações. Cresceu o número de brasileiros na escola, aumentando, principalmente a quantidade de anos em que o brasileiro permanece nela. Aumentou a incidência de brasileiros com carteiras assinadas, com capacidade de compra, com duas ou mais refeições dia e o acesso à casa própria. Enfim, as condições de vida no Brasil melhoraram, consideravelmente, nos últimos anos, elevando a expectativa de vida de nosso povo. Mas nesse cenário, hoje nos perguntamos: quais os desafios das instituições de ensino em Psicologia e as exigências do mercado de trabalho para a atuação em saúde? Para tentar responder a este questionamento retomamos um pouco da história da Psicologia. As experiências de Wundt na Alemanha levaram ao reconhecimento da Psicologia como área do saber, dotando-a de um objeto de estudo e de um método de investigação científica que a deram o status de ciência do comportamento. Os esforços de Freud, estabelecendo as bases da Psicanálise contribuíram, sobremaneira, para o desenvolvimento da clínica e indiretamente para a inclusão da Psicologia na área de saúde, seja pelo desenvolvimento da teoria, de procedimentos técnicos ou da prática clínica. Não obstante, foi a pequena possibilidade de recuperação dos pacientes internados nos hospitais psiquiátricos suscitou questionamentos em diversos países, levando ao surgimento dos primórdios do movimento denominado de anti-psiquiatria. Na década de 60 a luta anti-manicomial atinge seu ápice na Itália com Franco Baságlia que fecha os manicômios, dando aos internos um tratamento mais humano e devolvendo-lhes a cidadania. As experiências de Baságlia geram um movimento sem precedentes, com repercussão no mundo todo.

EDITORIAL Editorial SAÚDE E COMPROMISSO SOCIAL Moisés Fernandes Lemos Na década de oitenta, a sociedade organizada

4

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

REVISTA PERSPECTIVAS EM PSICOLOGIA

No Brasil é apresentado o Projeto de Lei do deputado Paulo Delgado, que reduz o número de leitos e propõe meios alternativos ao tratamento do doente mental. Os trabalhadores da saúde se organizam em movimento e em 1985 é realizada uma convenção, exigindo mudanças significativas no modelo de saúde. Como consequência da organização dos trabalhadores em saúde pública o país adota um modelo de assistência inspirado no modelo de assistência sandinista, o qual teve como inspiração o modelo cubano. Observa-se, então, uma mudança significativa na assistência pública à saúde, com a redução de leitos e com a implantação das políticas do SUS em substituição ao modelo de hospitalização do INPS. Como principal recurso à assistência e promoção da saúde mental a lei prevê a instalação dos CAPS e a realização de oficinas terapêuticas. A saúde passa a ser um esforço conjunto de diversas áreas do saber, havendo uma horizontalização do poder na equipe interdisciplinar que atende à demanda, ou seja, a saúde mental deixa de ser uma atribuição do psiquiatra, contando com as contribuições de profissionais de diversas áreas, dentre elas a Psicologia. No que se refere à expansão das áreas de atuação da psicologia clínica os profissionais com formação de inspiração psicanalítica, por influência da Psicanálise Argentina, de forte inspiração socialista, começam a praticar uma clínica mais social, posto que a Psicologia clínica passe a ser praticada de maneira mais extensa, afirmando seu compromisso com as camadas menos favorecidas da população, mas por diversas razões que não cabe aqui discuti-las amiúde. Fato é que a Psicologia Clínica ao ser aplicada em larga escala carece da adequação das técnicas para atender uma clientela mais ampla da população, inaugurando a chamada clínica extensa, que sem negar as origens psicanalíticas faz uma clínica mais voltada para o social, se adaptando gradativamente às características da sociedade brasileira. Se na década de 1980 recebíamos formação voltada para a Psicologia de atendimentos individuais em consultórios, hoje ainda temos deficiências: carecemos de formar profissionais para uma nova realidade: a saúde pública. Não basta ensinar técnicas atendimentos clínicos, colocar profissionais no mercado em larga escala, pois suas primeiras oportunidades de trabalhar provavelmente serão na saúde pública. No entanto, o modelo de formação que ele recebeu não o capacita para atuar nessa área, gerando problemas para quem contrata e para o próprio psicólogo que se vê frustrado em suas iniciativas e com a identidade profissional pouco estabelecida. Nesse cenário, nos parece que o grande desafio para quem atua em saúde pública seja, por um lado, trabalhar numa equipe interdisciplinar, colocando sua escuta treinada a serviço do grupo. Por outro, vimos como um desafio o desenvolvimento de habilidades e competências, adequando as técnicas para o atendimento em grupo, com o envolvimento das famílias, das instituições e da rede social. O aprimoramento das oficinas terapêuticas é outro desafio, já que na prática elas não cumprem o papel previsto na legislação. Cabe ainda destacar que o papel do psicólogo na equipe não está garantido na lei, devendo os colegas que ali atuam justificar suas permanências nas equipes de trabalho e essa justificativa se faz com empenho e resultados. Entendemos que esse problema deva ser resolvido pela categoria e pelas instituições formadoras de tal maneira que o público alvo seja mais bem assistido. Destacamos, ainda,

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

5

REVISTA PERSPECTIVAS EM PSICOLOGIA

que não da para pensar em formação em Psicologia sem pensar em Psicologia Aplicada. O compromisso profissional do psicólogo deve ser essencialmente com a sociedade, como retribuição dos investimentos sociais em sua formação e capacitação como forma de diminuir o sofrimento humano, seja a instituição formadora pública ou privada, posto que todas usufruam das benesses do Governo. Sendo assim, cabe aos periódicos de Psicologia estimular a discussão, difundir os resultados de pesquisas e publicar avanços e retrocessos da área. Essas experiências, certamente, contribuirão para que a Psicologia alcance seu lugar na história. Nesse sentido, a Revista Perspectivas em Psicologia, sem perder de vista sua proposta generalista, soma esforços com as demais publicações do gênero, buscando um lugar para os psicólogos nas equipes de saúde, por mérito e competência. Tenham uma boa leitura!

6

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

REVISTA PERSPECTIVAS EM PSICOLOGIA

Artigos

CAMINHOS METODOLÓGICOS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA: PESQUISANDO A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR

Marilene Proença Rebello de Souza (USP São Paulo - SP) Anabela Almeida Costa e Santos Peretta (UFU Uberlândia - MG) Juliana Sano de Almeida Lara (UFU Uberlândia - MG) Roseli Fernandes Lins Caldas (Instituto Mackenzie São Paulo - SP)

Resumo

O presente artigo propõe-se a apresentar e discutir os recursos metodológicos utilizados para realização da pesquisa “A atuação do psicólogo da rede pública de ensino frente à demanda escolar: concepções, práticas e inovações”, no estado de São Paulo. A investigação foi organizada em duas frentes concomitantes: 1) pesquisa de campo sobre práticas psicológicas desenvolvidas na rede pública de educação, que contemplou aplicação de questionários e realização de entrevistas; 2) análise documental por meio da revisão de literatura sobre a atuação do psicólogo na educação. Foi possível mapear onde e como atuam os psicólogos paulistas. Identificaram-se avanços nas práticas profissionais psicológicas no campo da educação, os quais anunciam que psicólogos têm se apropriado dos conhecimentos da Psicologia Escolar e Educacional Crítica. Palavras-chave: psicologia escolar; metodologia; atuação do psicólogo; ensino público.

Artigos CAMINHOS METODOLÓGICOS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA: PESQUISANDO A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR Marilene Proença Rebello

Abstract

Methodological paths Research in Psychology: survey on school psychologist proceedings

This article aims to present and discuss the methodological resources for the research “School Psychologists in Public School Education: conceptions, practices and innovations” in the State of São

Paulo, Brazil. The investigation was organized into two concomitant fronts: 1) field research on the

psychological practices developed in public education, which included questionnaires and interviews; 2) document analysis by reviewing the literature about the practice of psychologists in education. It enabled the mapping of where and how the psychologists work. Advances in professional psychological practice in education were identified, which announced that psychologists have appropriated the knowledge from Critical School Psychology. Keywords: school psychology; methodology; psychologist performance; public education.

Artigo Recebido em 03/01/2012 e Aprovado em 29/8/2012

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

7

MARILENE PROENÇA REBELLO DE SOUZA, ANABELA ALMEIDA COSTA E SANTOS PERETTA, JULIANA SANO DE ALMEIDA LARA, ROSELI FERNANDES LINS CALDAS

Introdução

O presente artigo se propõe a apresentar e

discutir os recursos metodológicos utilizados para a realização da pesquisa “A atuação do psicólogo da rede pública de ensino frente à demanda escolar: concepções, práticas e

inovações”. Considerando a relevância da

escolha e sistematização do percurso metodológico para os estudos científicos, o presente texto tem como objetivo compartilhar os desafios e os caminhos encontrados para desenvolver estudo comprometido com conhecer e discutir a atuação em Psicologia Escolar e Educacional. A pesquisa em questão foi desenvolvida em âmbito nacional, nos estados de São Paulo, Rondônia, Acre, Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina e Paraná. Buscou-se manter uma unidade metodológica em todos os estados, possibilitando, assim, que tivéssemos acesso a

uma espécie de “estado da arte” da prática

profissional em Psicologia no campo da educação. E, neste artigo, nos deteremos mais especificamente no modo como se deu a condução do estudo no estado de São Paulo. Destaca-se a relevância de São Paulo para que

se conheçam as tendências e as peculiaridades da atuação em Psicologia. É possível constatar que o estado concentra quase um terço dos psicólogos brasileiros 1 e abriga os principais centros de pesquisa e formação que têm desenvolvido propostas de mudança de rumos na Psicologia Escolar e Educacional. A Psicologia Escolar passou por uma grande transformação desde a década de 1980, quando foram desvelados os compromissos político-ideológicos que vinham sendo assumidos até então por esta ciência e profissão. Passou-se, então, de uma atuação psicológica marcada pela intervenção

junto à dimensão individual das questões escolares, para práticas mais comprometidas com os aspectos institucionais e políticos da educação. Tais mudanças também impactaram a pesquisa em Psicologia Escolar e Educacional. Há cerca de 20 anos, começaram a ganhar evidência trabalhos dedicados a compreender o processo de escolarização. A temática das políticas públicas em Educação também se tornou foco de atenção das pesquisas em Psicologia (Souza, 2010a). Em consonância com a vertente de pesquisa voltada à compreensão de como as políticas públicas em Educação têm sido implantadas e apropriadas pelos diversos participantes da vida diária escolar, estão os estudos que buscam compreender como tem se dado a inserção da psicologia na educação pública brasileira (Balbino, 2008; Marinho-Araújo, Neves, Penna-Moreira e Barbosa, 2011). O estudo deste tema tem se revelado fundamental para a compreensão de quais conquistas têm sido alcançadas, bem como para que se identifique quais são os desafios e as lutas necessárias a garantir que o psicólogo seja um profissional que tenha possibilidades de atuação e efetivas contribuições para a educação brasileira. É neste cenário que se insere a pesquisa aqui apresentada, que teve como objetivo geral identificar e analisar concepções e práticas desenvolvidas pelos psicólogos da rede pública frente às queixas escolares, oriundas do sistema educacional, visando compreender em que medida apresentam elementos inovadores e pertinentes às discussões recentes na área de Psicologia Escolar e Educacional em busca de um ensino de qualidade para todos. O estudo foi organizado em duas frentes concomitantes, contemplando modalidades distintas de

8

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

CAMINHOS METODOLÓGICOS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA: PESQUISANDO A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR

investigação: 1) investigação das práticas psicológicas desenvolvidas na rede pública de educação, realizada por meio da pesquisa de campo; 2) investigação das discussões recentes na literatura sobre a atuação do psicólogo na educação, realizada por meio da análise documental. Ao optarmos por estes dois procedimentos visávamos estabelecer um diálogo teórico-prático no que se refere à atuação em Psicologia Escolar. Tal recurso possibilitou que identificássemos como e em que medida as discussões e proposições que comparecem nas publicações recentes da área de Psicologia Escolar e Educacional têm sido incorporadas nas práticas dos profissionais que atuam junto à rede pública de educação. Conhecer a atuação dos psicólogos que estão vinculados ao ensino público do estado de São Paulo foi uma tarefa complexa, desenvolvida por meio de estratégias que possibilitaram o acesso a informações quantitativas e qualitativas sobre a inserção dos profissionais e as práticas por eles desenvolvidas. A possibilidade de que estratégias quantitativas e qualitativas possam ocupar uma relação de complementariedade em estudos científicos vem sendo abordada por importantes pesquisadores (Minayo & Sanches, 1993; Spink, 1999), que questionam a ideia de dicotomia entre essas formas de conduzir pesquisas. As abordagens quantitativas possibilitam conhecer a magnitude de fenômenos sociais, enquanto as abordagens qualitativas propiciam que novos aspectos de um fenômeno emerjam e possibilitam que sejam compreendidos os significados sob a perspectiva dos sujeitos envolvidos (Serapioni, 2000). Spink (1999) propõe a triangulação metodológica, ou seja, a utilização de técnicas múltiplas para que se conheça o objeto de

pesquisa proposto. A triangulação de informações quantitativas e qualitativas, sob tal perspectiva, pode ser utilizada como forma de enriquecimento do estudo de fenômenos complexos e multifacetados. Deste modo, as informações quantitativas nos possibilitaram fazer um mapeamento amplo do número de psicólogos do estado, de suas modalidades de intervenção e dos referenciais utilizados para a condução do trabalho, enquanto as estratégias qualitativas de pesquisa foram fundamentais para que fosse aprofundada a compreensão a respeito das práticas desenvolvidas e dos contextos em que se inserem.

Conhecendo as práticas dos psicólogos na rede pública de educação

No Estado de São Paulo, centramos a busca por psicólogos nas Secretarias Municipais de Educação após verificarmos que não havia psicólogos trabalhando na Secretaria da Educação deste estado. Devido à impossibilidade de contatar os 645 municípios do estado, foi composta uma amostra de 133 municípios para contato, obedecendo aos seguintes critérios: a) boa receptividade por parte dos psicólogos do município à pesquisa; b) contato com psicólogos que participam de atividades na universidade e que, portanto, poderiam apresentar informações relevantes à pesquisa; c) contemplar todas as regiões do Estado de São Paulo, tendo como referência as cidades-sede das Diretorias de Ensino subordinadas à Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (vide Figura 1); d) contatar todos os municípios da região metropolitana de São Paulo. Optou-se por realizar contato com as cidades-sede de cada Diretoria de Ensino porque estas correspondem a municípios de

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

9

MARILENE PROENÇA REBELLO DE SOUZA, ANABELA ALMEIDA COSTA E SANTOS PERETTA, JULIANA SANO DE ALMEIDA LARA, ROSELI FERNANDES LINS CALDAS

grande porte que aglutinam à sua volta um conjunto de municípios pequenos e médios, circunscritos a cada diretoria. Desta forma, consideramos que as cidades pertencentes a uma mesma diretoria sofreriam, no âmbito educacional, a influência de uma mesma administração, centralizada na cidade-sede. Quanto à região metropolitana de São Paulo, optou-se por contatar todos os municípios que a compõem, por ser uma região que concentra um grande número de instituições de Ensino Superior com cursos de Psicologia. De acordo com a Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP, 2010), no Ensino Superior há 33 cursos de Psicologia na capital e nove nos demais municípios da Grande São Paulo, totalizando 42 dos 99 cursos de Psicologia oferecidos no Estado de São Paulo (42%).

Figura 1. Divisão do Estado de São Paulo em Diretorias de Ensino

MARILENE PROENÇA REBELLO DE SOUZA, ANABELA ALMEIDA COSTA E SANTOS PERETTA, JULIANA SANO DE ALMEIDA LARA,

Extraído de: Souza (2010b)

O contato inicial e os questionários

O contato telefônico inicial 2 com as Secretarias de Educação dos municípios permitiu obter a informação sobre a presença ou não de psicólogos em seu quadro de funcionários. Os psicólogos encontrados foram convidados a responder questionário,

enviado via fax, correio ou e-mail, ou entregue pessoalmente, no caso de cidades próximas, de fácil acesso. O material da pesquisa enviado era composto por: Carta de apresentação; Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e Questionário. O questionário era de preenchimento individual e as perguntas feitas giravam em torno do tempo de trabalho do profissional na equipe, seu cargo, formação, sua filiação teórica e modalidades de atuação de que se utilizava para responder às demandas escolares. Estruturava-se nos seguintes eixos:

dados gerais de identificação, formação, níveis de ensino em que atua, público-alvo da intervenção, modalidades de atuação, projetos desenvolvidos, fundamentação teórica e contribuições da Psicologia para a Educação. Dessa maneira, os 108 questionários respondidos proporcionaram a obtenção de dados que permitiram a caracterização das modalidades de atuação profissional, a compreensão das concepções que respaldam as práticas psicológicas, a identificação das práticas realizadas e a identificação de indícios que apontassem o caráter inovador das práticas realizadas. Indícios esses que serviram de base para a seleção dos municípios cujos profissionais seriam entrevistados na etapa seguinte da pesquisa. Além de proporcionar dados para a seleção dos profissionais que participariam da segunda etapa da pesquisa, os questionários permitiram coletar dados muito ricos na caracterização da atuação dos psicólogos que atuam na rede pública de educação e das práticas que desenvolvem. Optou-se, então, por realizar tanto leituras de caráter quantitativo, em relação à distribuição da amostra e à frequência dos dados, como também leituras de caráter qualitativo, com categorizações das respostas por similitudes

10

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

CAMINHOS METODOLÓGICOS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA: PESQUISANDO A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR

dos conteúdos, principalmente em relação às questões abertas. A análise estatística utilizou o programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS) Versão 10, para verificar de que maneira os dados coletados dos diferentes eixos do questionário se associavam, permitindo a formação de perfis dos psicólogos que atuavam na rede pública de Educação no Estado de São Paulo. Para tanto, foi realizada uma categorização das respostas coletadas nos

Identificação

no cargo e ano de ingresso na Secretaria de Educação; c) formação: tempo de formação, Instituição formadora e cursos realizados. As análises decorreram a partir da descrição da frequência dos dados, com leituras sobre os valores em médias e porcentagens. Em relação às respostas dadas sobre o trabalho do psicólogo na Secretaria de Educação, além da análise quantitativa sobre a distribuição da amostra, foram feitas categorizações a partir das diversas respostas

questionários e todos os 108 questionários respondidos foram tabulados de acordo com esta categorização.

dadas aos itens: “Cargo” de contratação pela Secretaria de Educação; “Função” exercida pelo profissional e “Tempo no Cargo”.

Foi avaliada a associação entre pares de variáveis por meio do teste “qui-quadrado”,

 

Atuação Profissional

 

para verificar quais delas eram significativas. Todos os pares possíveis de variáveis foram

A categoria atuação profissional abrangeu

testados. A constatação de associações significativas entre variáveis demonstra a existência de um padrão na distribuição dos

informações sobre a) clientela: níveis de ensino em que atua o psicólogo e público-alvo do trabalho; b) modalidades de atuação: com

dados, determinado por dependência entre essas variáveis. A partir das associações

as opções: “avaliação psicológica”, “atendimento clínico”, “formação de

significativas entre pares de variáveis, foi

professores”, “assessoria às

escolas” e

utilizada a Análise de Correspondência

“outros”;

era

solicitado

que

o

psicólogo

(ANACOR) 3 para verificar as associações significativas entre duas ou mais variáveis. Esta análise gerou um mapa multidimensional

especificasse os objetivos e estratégias de ação para cada modalidade de atuação; c) projetos e trajetória profissional: descrição de

que permitiu entender como as variáveis se associavam, podendo-se criar perfis. Para as leituras de caráter quantitativo e qualitativo, o questionário foi dividido em três grandes categorias: a) identificação; b) atuação profissional; c) fundamentação teórico-metodológica da atuação.

projetos desenvolvidos ao longo da carreira profissional, com destaque para os mais relevantes. Para as temáticas Níveis de Ensino”, “Público-Alvo” e “Modalidades de Atuação, foi feita uma análise da frequência das respostas assinaladas, que foram divididas em categorias para obtenção das médias e porcentagens. Também foram realizadas categorizações de caráter qualitativo,

A

categoria

identificação

abrangeu

buscando-se verificar se o público-alvo era

informações relativas a: a) dados pessoais:

predominantemente alunos e pais ou se

sexo e idade; b) Secretaria de Educação:

envolvia também outros atores do processo

cargo (contrato), função (que exercia), tempo

ensino-aprendizagem, como professores e

 

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

 

11

MARILENE PROENÇA REBELLO DE SOUZA, ANABELA ALMEIDA COSTA E SANTOS PERETTA, JULIANA SANO DE ALMEIDA LARA, ROSELI FERNANDES LINS CALDAS

funcionários. Com relação às modalidades de atuação, buscou-se entender,

qualitativamente, como as práticas são de fato realizadas.

Quanto à temática “Projetos e Trajetória

profissional, procurou-se separar os projetos citados em categorias, baseadas nos nomes dados aos projetos e na análise da descrição

qualitativamente a partir do conteúdo das respostas dadas. A análise da fundamentação teórico- metodológica presente nas respostas dadas aos questionários foi fundamental para que fossem escolhidos os municípios participantes da segunda etapa da pesquisa. Foram selecionadas equipes municipais ou

dos mesmos, tendo como objetivo agrupá-los de acordo com o público-alvo do trabalho e/ou com o foco da atuação.

psicólogos que apresentaram indícios de criticidade, ou seja, aqueles que apontaram para a direção de uma prática crítica. Para o

Fundamentação teórico-metodológica da atuação

levantamento desses indícios, que serviram de guia para identificar quais municípios apresentavam práticas inovadoras e

Na categoria fundamentação teórico- metodológica da atuação, foram agrupadas as respostas dadas pelos psicólogos às questões

sobre os “Autores que fundamentam teoricamente o trabalho” e sobre as “Contribuições o psicólogo pode dar à

condizentes com uma perspectiva crítica em Psicologia Escolar e Educacional, foram tomadas como referências as produções teóricas explicitadas a seguir. Adotou-se a concepção de crítica proposta por José de Souza Martins (1977) em Sociologia e Sociedade, citada por Maria

Educação”, bem como comentários adicionais

Helena Souza

Patto

em

Introdução à

feitos por alguns profissionais.

Psicologia Escolar

(1997,

p.

464),

A respeito dos “Autores” foram arrolados

compreendido como um conceito que conduz

os autores e obras citados pelos psicólogos. Procurou-se agrupar autores e obras em categorias, levando em conta as abordagens

à raiz dos fenômenos e se opõe a naturalização, levando a considerar o contexto histórico, político e cultural:

dos autores citados. As categorias utilizadas

(

)

a

possibilidade

de

pensamento

foram: “Educação”, para autores da Educação

crítico do pensamento que vai à raiz

e da Psicologia em sua interface com a

do conhecimento, define seus

Educação; “Clínica”, para autores da

compromissos sociais

 

e históricos,

psicologia e da psicanálise clínicas;

“Educação e Clínica”, para autores que fazem

uma junção entre as duas áreas, como no caso

localiza a perspectiva que o construiu,

descobre a maneira de pensar e

interpretar a vida social da classe que

da psicopedagogia; e “Outros”, para autores

apresenta

esse

conhecimento

como

que não se encaixavam em nenhuma das

universal,

porque

supostamente

categorias anteriores.

objetivo e neutro (Martins, 1977, p.2)

A questão referente às “Contribuições à Educação” que a atuação do psicólogo pode

oferecer e os comentários finais feitos pelos participantes foram analisadas

12

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

CAMINHOS METODOLÓGICOS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA: PESQUISANDO A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR

Tabela 1. Correspondência entre Indícios de Atuação Crítica em Psicologia Escolar e Educacional (Tanamachi, 1997) e Itens do Questionário

Indícios de perspectiva crítica

Itens do questionário

Consideração das múltiplas determinações (sociais, econômicas, políticas, históricas) e presença de concepção sobre o homem e sobre a educação.

Público-alvo Foco da intervenção Concepção sobre a queixa escolar ou fracasso escolar

Contribuição teórico-prática articulada à realidade em que se está inserido.

Projetos Modalidade de Atuação

Pressupostos teórico- metodológicos/ referência a autores do pensamento crítico e o modo como são apropriados.

Autores de referência Cursos realizados

Explicitação de um compromisso técnico- político e/ou teórico-prático com a transformação da Psicologia.

Contribuições do psicólogo à educação

Para a análise dos questionários, foram utilizados como base produções de Elenita de Rício Tanamachi e Marisa Eugênia Melillo Meira a respeito da atuação crítica em Psicologia Escolar e Educacional. Meira & Tanamachi (2003) defendem que a prática crítica em Psicologia Escolar e Educacional deve procurar analisar a produção da queixa escolar e o processo de subjetivação e objetivação da escolarização. Esta abordagem deve tentar compreender fenômenos por meio de suas múltiplas determinações e o método utilizado deve se pautar na reflexão e análise dos processos. Para identificar se as práticas relatadas nos questionários indicavam atuações em Psicologia Escolar e Educacional numa direção crítica, utilizou-se como base o procedimento adotado por Tanamachi em sua tese de doutorado, intitulada Visão crítica de Educação e de Psicologia: elementos para a

construção de uma visão crítica de Psicologia

Escolar (1997), para definir se as teses e

dissertações

estudadas

seguiam

uma

perspectiva

crítica.

A

partir

dos

indícios

adotados

por

Tanamachi,

fez-se

uma

correlação com

os

itens

do

questionário,

conforme indicado no Quadro 1.

Considerou-se que todos os elementos constitutivos de uma atuação crítica,

apontados acima, não seriam claramente

observados em todos os itens de um mesmo questionário, assim buscou-se por indícios de criticidade. Além disso, classificar

determinada atuação como “crítica” ou “não

crítica” significaria operar de acordo com a lógica formal, ou seja, sem considerar a multideterminação dos fenômenos, o que é

compreendido como essencial a partir do

referencial teórico adotado. Com a leitura das respostas, observou-se que muitas respostas apresentavam tanto elementos críticos quanto não críticos, encontrando-se numa linha contínua entre estes dois pólos. Dessa forma, a presença de qualquer um dos elementos constitutivos de uma atuação crítica, inovadora, ou não crítica, tradicional, não necessariamente resultaria em uma

classificação direta da atuação do psicólogo participante como crítica ou não crítica, respectivamente. Por isso, na seleção para a segunda etapa da pesquisa, foi realizada a análise de cada questionário como um todo, buscando-se identificar quais participantes apresentavam mais tendências à criticidade em sua atuação e verificando a coerência interna entre as respostas dadas. Foram considerados elementos críticos aqueles que apontavam para uma atuação que contemplasse as multideterminações dos fenômenos educacionais e que buscasse incluir os diversos atores escolares na

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

13

MARILENE PROENÇA REBELLO DE SOUZA, ANABELA ALMEIDA COSTA E SANTOS PERETTA, JULIANA SANO DE ALMEIDA LARA, ROSELI FERNANDES LINS CALDAS

superação das queixas. Consideramos elementos não críticos aqueles correspondentes a uma atuação que centrasse o foco da queixa escolar no indivíduo geralmente no aluno e em sua família desconsiderando as relações institucionais e a multiplicidade de determinações sociais e históricas que a produzem. Concluiu-se que as entrevistas seriam uma etapa fundamental para identificar em que medida as atuações dos psicólogos aproximavam-se ou afastavam-se do que consideramos como atuação crítica em Psicologia Escolar e Educacional. Além disso, forneceriam importantes informações a respeito de quais seriam as condições concretas de trabalho que possibilitam ou criam empecilhos para atuações em perspectiva crítica.

As entrevistas

Seleção dos municípios para entrevista

Para a realização desta etapa da pesquisa, foram selecionados 11 dos municípios contatados. Adotamos como critério de seleção dos municípios para a segunda etapa a presença de indicativos de uma atuação crítica e inovadora dos psicólogos, conforme critérios apontados anteriormente, e que contemplasse os avanços teórico- metodológicos da área de Psicologia Escolar e Educacional.

Realização das entrevistas

A realização das entrevistas teve como objetivo possibilitar maior aprofundamento a respeito das práticas empreendidas pelos psicólogos. Por se tratar de um instrumento de coleta da linguagem própria do entrevistado, possibilitando ao investigador desenvolver

uma ideia de como o sujeito interpreta aspectos da vida social, a entrevista é amplamente utilizada em pesquisas de cunho qualitativo, sobretudo na área educacional (Bogdan & Biklen, 1994). Para a realização das entrevistas, as Secretarias Municipais de Educação dos municípios escolhidos foram novamente contatadas para convidar os psicólogos a participarem da segunda etapa da pesquisa. Toda a equipe dos psicólogos foi convidada para a entrevista em grupo, mesmo que tivesse como membros profissionais de outras áreas e os projetos desenvolvidos pelos psicólogos fossem diferentes entre si, pois foi tomada como referência a instituição que oferece o serviço de Psicologia, e não cada profissional isoladamente. Os profissionais entrevistados receberam uma carta-convite para participação desta etapa da pesquisa e também o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, referente ao uso do material das entrevistas pelos pesquisadores. As entrevistas seguiram roteiro semiestruturado, elaborado para assegurar que o foco da conversa se articulasse com os objetivos da pesquisa, e para proporcionar a exploração de assuntos levantados pelo entrevistado. Por outro lado, o caráter semiestruturado da entrevista ofereceu oportunidade para que os participantes discorressem com maior liberdade sobre temas abordados pela pesquisa, de modo que pudessem expressar o que pensavam e sentiam a respeito. O objetivo da entrevista foi esclarecido aos participantes, assegurando- lhes que a entrevista seria tratada de forma sigilosa, evitando qualquer forma de identificação do sujeito entrevistado.

Análise das entrevistas

14

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

CAMINHOS METODOLÓGICOS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA: PESQUISANDO A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR

Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas; no entanto, duas entrevistas foram descartadas: uma devido à má qualidade do áudio e outra porque, embora apresentasse indícios de criticidade no questionário, a entrevista indicou uma atuação com tendência predominantemente tradicional. Dessa forma, restaram nove municípios paulistas participantes da etapa das entrevistas, cada qual com número variado de psicólogos. As entrevistas foram analisadas utilizando procedimentos de análise de conteúdo, tal como é definida por Bardin (2000):

Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos

ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens. (p.42)

A compreensão das entrevistas visou à exploração do material obtido de modo a organizá-lo, possibilitando que fossem feitas interpretações e inferências (Bardin, 2000). O processo de interpretação consistiu na compreensão do significado das ações e

daquilo que foi dito, conforme aponta

Rockwell (1987). Esta autora ressalta também que

interpretar requer compartilhar, dentro

do possível, ‘o conhecimento local’;

compreender o que é dito como o fazem

os outros sujeitos da localidade implicaria, dentre outras coisas,

compartilhar toda a sua experiência comum, o que é impossível (p. 27).

Ainda que seja impossível compartilhar completamente os significados, cabe ao pesquisador buscar essa aproximação. O conhecimento progressivo da situação

estudada, bem como das pessoas que dela participam, e a comparação de respostas dadas pelos diversos informantes foram importantes recursos (Rockwell, 1987). Porém, além dessa aproximação com as

categorias ‘locais’, com o modo como os

indivíduos viviam a situação estudada, foi necessário construir categorias analíticas que permitissem estabelecer relações e conceitualizações que escapavam àqueles que estavam imersos numa determinada realidade. Para isso, os pesquisadores se debruçaram sobre as entrevistas em busca de regularidades e padrões, a fim de realizar uma codificação e categorização que possibilitasse a articulação entre os avanços teóricos na Psicologia Escolar e Educacional e as práticas adotadas na rede pública de atendimento à Educação. Com este intuito, após a leitura de algumas entrevistas para entrar em contato com o material obtido, foi organizado um roteiro inicial de análise das entrevistas, baseado no roteiro para a realização das entrevistas e nos objetivos da pesquisa. Tal roteiro foi dividido em 3 eixos: serviço, atuação e concepção teórica. Com o roteiro em mãos, toda a equipe leu

uma mesma entrevista, visando apropriar-se dele e verificar se ele estava adequado aos objetivos desta etapa da pesquisa. O roteiro foi então reformulado a partir das questões suscitadas pela leitura da entrevista e informações nela contidas que ele não contemplava. Assim, o roteiro de análise foi ampliado com subitens, com vistas a detalhar a descrição das informações contidas nas entrevistas. Cada entrevista foi analisada por duas pessoas, com o objetivo de ampliar as impressões sobre a mesma. A partir do roteiro de análise, foi construído um texto síntese

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

15

MARILENE PROENÇA REBELLO DE SOUZA, ANABELA ALMEIDA COSTA E SANTOS PERETTA, JULIANA SANO DE ALMEIDA LARA, ROSELI FERNANDES LINS CALDAS

para cada entrevista, contendo também citações de trechos relevantes. Dessa forma, a análise das entrevistas foi realizada em um processo dinâmico, constituído por distintos momentos: primeiro, aproximação junto aos dados obtidos em campo; segundo, construção do instrumento de análise a partir de tais dados e dos objetivos pretendidos pela pesquisa; terceiro, verificação da adequação do instrumento ao objeto; quarto, ajuste do instrumento; e quinto, momento de análise dos dados a partir do instrumento reformulado. Isto tornou possível adequar o instrumento a realidades regionais e particularidades trazidas pelos conteúdos das entrevistas, tornando a análise mais fidedigna da realidade que se buscava apreender por meio da entrevista. Após a análise de cada entrevista separadamente, todas foram analisadas no conjunto, em cada um dos eixos: serviço,

maneira a tornar possível a análise das práticas investigadas tomando como base a literatura recente. Consideramos que as publicações da área revelam, de maneira geral, as concepções e fundamentações teórico-práticas a serem implementadas no campo da atuação do psicólogo na educação. Tendo em vista a quantidade de produções encontradas e a sua importância, considerou- se necessário realizar uma análise aprofundada e detalhada das publicações. A análise da produção bibliográfica foi constituída por meio de resenhas, elaboradas pela equipe da pesquisa a partir da leitura integral dos textos. A trajetória metodológica desta etapa da pesquisa organizou-se em três momentos, apresentados a seguir: a) critérios de escolha das produções; b) produção de resenhas das publicações; c) análise de conteúdo das resenhas.

atuação e fundamentação teórica. Foi realizada a leitura horizontal, isto é, foram lidas as respostas para o mesmo item do roteiro de análise em todas as entrevistas para

Primeiro momento: critérios de escolha das produções

observar as semelhanças e particularidades

A

pesquisa

 

iniciou-se

em 2006,

daquele tópico. Por fim, foi organizado um

realizando-se

levantamento

de

títulos

de

texto para cada eixo descrevendo o que fora

livros e coletâneas 4 relacionados à Psicologia

encontrado no conjunto de todas as

Escolar e Educacional,

segundo quatro

entrevistas.

critérios:

a)

recorte

editorial:

foram

selecionadas editoras que usualmente

Revisão de literatura: contribuições

publicam o tema de investigação; b) recorte

teóricas sobre a atuação do psicólogo na

temporal:

foram

escolhidos

trabalhos

educação

publicados entre os

anos

de 2000

a 2007,

incluindo

reedições

de

publicações,

por

Para compreender em que medida as

entendermos

que

a

partir

dos

anos

2000

práticas desenvolvidas pelos psicólogos que

houve um incremento

do

número de

atuam nas Secretarias de Educação

produções

de

Psicologia

Escolar

e

correspondem aos avanços teóricos na área de

Educacional;

c)

recorte

por

área

de

Psicologia Escolar, foi elaborado um levantamento da produção bibliográfica sobre a atuação do psicólogo na educação, de

conhecimento: buscou-se priorizar trabalhos que tratam especificamente de temáticas de Psicologia Escolar e Educacional. excluindo

16

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

 

CAMINHOS METODOLÓGICOS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA: PESQUISANDO A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR

outras,

tais

como:

Psicopedagogia,

horizontal, ou seja, buscando identificar cada

Psicomotricidade,

Psicolinguística

etc;

d)

um deles no conjunto das resenhas. Para

recorte

temático:

foram

contemplados

tanto, foram produzidas perguntas que

trabalhos que se referem direta

ou

visavam detalhar cada um dos eixos. Por

indiretamente à prática do psicólogo escolar.

Segundo momento: produção de resenhas das publicações

No segundo momento, realizamos a leitura e produção de resenhas 5 das publicações selecionadas. Para elaboração das resenhas, foram utilizados três eixos norteadores: 1) trajetória do autor: caminho percorrido pelo autor na construção de seu texto e finalidades do trabalho apresentado; 2) concepções teóricas que embasam a atuação profissional: explicitação das concepções que

respaldam as práticas psicológicas descritas no texto; 3) proposta de contribuição do autor para atuação do psicólogo escolar e educacional: caracterização das modalidades de atuação profissional e descrição da prática proposta pelo autor. Consideramos, ainda, a existência de um eixo transversal definido

como “perspectivas emancipatórias em Psicologia e Educação”, compreendendo

textos que revelam compromisso do psicólogo e do conhecimento psicológico com abordagens que consideram o fenômeno educativo enquanto constituído socialmente, nas relações produzidas no cotidiano da escola, determinadas sócio-histórico- culturalmente. Os textos foram lidos na íntegra e resenhados 6 com base nos eixos acima.

Terceiro momento: análise de conteúdo das produções

A

atividade

de

análise

das

resenhas

produzidas retomou os eixos gerais de forma

exemplo, no eixo 1, relativo à “trajetória do

autor e finalidades do trabalho”, foram geradas as seguintes questões: a) autor parte de dados educacionais, de sua própria trajetória profissional ou de conjunto de trabalhos anteriores?; b) quais questões, inquietações geraram interesse do autor pelo tema?; c) Qual o objetivo do autor?; d) Quais instituições relacionadas à área são citadas? Após a elaboração dessas questões e retorno às resenhas, observamos que várias delas referiam-se a temáticas semelhantes. Consideramos então que seria interessante, do ponto de vista comparativo, reunir o conjunto das resenhas, tomando por base determinados temas, a saber: a) intervenção do psicólogo na educação; b) Psicologia e Educação:

perspectiva crítica; c) formação do psicólogo; d) temas clássicos e revisitados; e) dimensões teórico-metodológicas da atuação do psicólogo na educação; f) políticas públicas em educação; g) formação docente; h) educação inclusiva; i) Psicologia Escolar no Brasil e em outros países; j) avaliação

psicológica. Buscou-se relacionar as informações obtidas nas análises das resenhas e nas entrevistas. Para isto, foram articulados os elementos indicativos de concepções e práticas críticas que compareceram tanto na literatura da área, como nos discursos dos profissionais participantes da pesquisa.

Resultados e Discussão

Consideramos que os recursos teórico- metodológicos adotados permitiram um levantamento importante sobre a atuação do

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

17

MARILENE PROENÇA REBELLO DE SOUZA, ANABELA ALMEIDA COSTA E SANTOS PERETTA, JULIANA SANO DE ALMEIDA LARA, ROSELI FERNANDES LINS CALDAS

psicólogo no estado de São Paulo. Foram pesquisados 133 municípios do Estado de São Paulo, sendo que em 61 deles atuam psicólogos, participando da pesquisa 108 profissionais. Do conjunto dos participantes, 96,4% são mulheres, na faixa etária de 40 anos, com a média de 8,7 anos no cargo. Encontramos uma variedade de formas de contratação: psicólogo, psicólogo escolar, professor, coordenador, supervisor, dentre outros. Com relação à formação, 78,7% dos participantes são provenientes de universidades privadas e 93% mantém uma formação continuada, nas modalidades:

especialização, cursos de atualização e supervisões. Os Serviços de Psicologia são bastante diversos quanto à composição: alguns se organizam em equipes multiprofissionais, equipes por nível de ensino ou psicólogos que individualmente atendem à demanda da Secretaria de Educação e demais solicitações no âmbito do Município e, em alguns casos, do estado. Grande parte deles foi instituída a partir dos anos 2000, por iniciativa pessoal do gestor ou por reivindicação do conjunto de profissionais que se encontravam inseridos na rede, ou ainda para adaptar-se à política de educação inclusiva. Com relação à inserção do psicólogo nestes Serviços há uma grande diversidade no que tange a vários aspectos:

cargo, função, carga horária, plano de carreira, remuneração e formas de contratação e organização do trabalho. Notou-se que um dos desafios apontados pelos participantes do estudo é a realização do trabalho diante das mudanças constantes de gestão do município que podem interferir nas formas de atuação. Com relação à atuação, a pesquisa analisou os seguintes aspetos: público-alvo, níveis de Ensino, Modalidades de Atuação e Projetos desenvolvidos ao longo da trajetória

profissional. Na Secretaria de Educação dos Municípios, esses profissionais centram seu trabalho em todas as modalidades de Ensino, predominando a atuação nos níveis de Educação Infantil e Ensino Fundamental (34%). No que tange à educação inclusiva, esta atuação encontra-se em torno de 28%. Nesses níveis, as ações centram-se no trabalho com professores (89%) e com alunos (83%). O trabalho realizado revelou três modalidades de atuação: Clínica (15%), Institucional (30%) e Clínica e Institucional (55%). Os psicólogos trabalham com diferentes projetos envolvendo estudantes, famílias e instâncias municipais de caráter intersetorial (Assistência Social, Saúde Mental e, Comunitária). O acompanhamento das queixas escolares se dá, principalmente no interior das escolas, problematizando os encaminhamentos e realizando ações nos espaços pedagógicos instituídos, buscando abarcar familiares, professores e estudantes, optando por modelos institucionais de intervenção. Do ponto de vista das concepções teórico- metodológicas, observamos a presença de pelo menos três tendências: a) Clínica, ao incluir respostas que apontam na direção de uma atuação profissional individualizada, baseada em diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. b) Institucional, ao reunir respostas referentes a uma atuação que contempla formas de intervenção em que participam diversos atores do contexto escolar; c) Clínico e Institucional, ao abarcar respostas em que comparecem características de ambas tendências. De maneira geral, o maior número de psicólogos apresentou concepções de caráter Clínico e Institucional. Do conjunto de psicólogos que participaram da pesquisa, pudemos identificar aqueles que atuam em nove municípios e que

18

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

CAMINHOS METODOLÓGICOS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA: PESQUISANDO A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR

apresentam um conjunto de práticas

profissionais que coadunam com as

tendências de atuação institucional ─

atualmente consideradas como as que melhor respondem às demandas educacionais em uma perspectiva de educação de qualidade social para todos e todas. Essa atuação centra- se em aspectos tais como: a) trabalho em equipe multiprofissional ou intersetorial; b) atuação em redes sociais; c) compreensão das dificuldades escolares a partir do cotidiano escolar e da constituição histórico-cultural do processo de escolarização; d) crítica aos diagnósticos e encaminhamentos das dificuldades de aprendizagem e ao fracasso escolar; e) atuação na formação de professores; f) atuação envolvendo os vários atores escolares; g) ações junto à política de inclusão escolar; h) participação na perspectiva do projeto político pedagógico das unidades escolares. Os psicólogos entrevistados ressaltaram que as dificuldades enfrentadas no âmbito da Educação centram-se nos seguintes aspectos:

a) modalidades de contratação que não definem claramente a função do psicólogo na educação; b) níveis salariais baixos; c) mudanças constantes de gestão; d) carga horária não condizente com a demanda da educação; e) representação clínica da profissão pelos educadores e profissionais da saúde; f) questionamentos à política de educação inclusiva pelos educadores e pais. É importante ressaltar que os profissionais destacaram que a Educação pode contribuir para o desenvolvimento e a melhoria da situação do país e de que esse seria o foco central de seu trabalho.

Considerações finais

Diante de um objeto de pesquisa, a escolha das estratégias metodológicas a adotar é uma das mais importantes decisões que os pesquisadores precisam tomar. Sobretudo quando fenômenos complexos e pouco conhecidos são eleitos como interesse de estudo, faz-se necessária a criação de recursos que possibilitem a melhor aproximação do que se pretende conhecer. Identifica-se, porém, que a prática de publicação científica destinada à discussão metodológica não tem sido muito adotada nos meios acadêmicos. Daí a relevância do presente artigo que apresentou o percurso metodológico utilizado para que fosse possível conhecer a atuação do psicólogo da rede pública de ensino do estado de São Paulo frente à demanda escolar. O estudo, vinculado a uma pesquisa de âmbito nacional, buscou compreender quais eram as concepções, práticas e inovações presentes na condução do trabalho da Psicologia junto à educação pública. Foram apresentados neste artigo instrumentos e estratégias que possibilitaram o acesso a preciosas informações quantitativas e qualitativas a respeito do que vem sendo publicado na área de Psicologia Escolar e de como os psicólogos vêm incorporando as contribuições das recentes produções acadêmicas recentes no seu trabalho. A dimensão da pesquisa proposta fez com que fosse necessário contar com uma numerosa equipe, que envolveu cerca de 50 pessoas divididas nos sete estados participantes, a fim de que fosse possível desenvolver a diversidade e a quantidade de ações previstas. A equipe do estado de São Paulo, proponente do estudo, teve como desafio criar a sistematização das estratégias que seriam utilizadas. Além disso, foi importante que o trabalho fosse conduzido de modo muito afinado, no que se refere à

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

19

MARILENE PROENÇA REBELLO DE SOUZA, ANABELA ALMEIDA COSTA E SANTOS PERETTA, JULIANA SANO DE ALMEIDA LARA, ROSELI FERNANDES LINS CALDAS

clareza de objetivos e de referenciais teórico- metodológicos. Para isto, foram realizados frequentes encontros, nos quais tais aspectos foram exaustivamente discutidos. Esta criteriosa sistematização foi necessária para que houvesse uma unidade nos procedimentos e na compreensão do fenômeno na pesquisa em âmbito nacional. No entanto, não bastou o investimento na unidade metodológica. A vasta amplitude do estudo trouxe a necessidade da flexibilização frente às especificidades e aos obstáculos regionais. Assim, conservando-se a estrutura metodológica, foi necessário fazer a adaptação de procedimentos. Algo que foi, em muitos momentos, fundamental para que se pudesse ter acesso às informações respeitando as características e os contextos dos diferentes municípios. O método aqui exposto não se põe como referencial hegemônico. Apresenta um percurso desenvolvido coletivamente, fruto de muitas discussões e reflexões do grupo que conduziu esta pesquisa. Algo que se configurou numa proposta viável e frutífera de enfrentamento dos desafios e impasses que um trabalho científico de tal monta pode apresentar. Avaliamos que trabalho foi um trabalho bastante importante, pois denotou um movimento de avanço em direção à construção de práticas profissionais no campo da educação que anunciam uma apropriação, por parte dos psicólogos que estão na Educação Pública, dos conhecimentos que vem sendo produzidos pela academia no que se refere a uma atuação que denominamos crítica em Psicologia Escolar e Educacional. Tais indícios de mudança nessa direção, identificados em vários momentos deste estudo, possibilitam vislumbrar um caminho possível, e promissor, para a Psicologia no

Estado de São Paulo, no campo da Educação de qualidade para todos e todas.

Notas de Rodapé

  • 1 O Estado de São Paulo conta com mais de 74 mil psicólogos inscritos em seu Conselho Regional de Psicologia (CRPSP), segundo informação disponível em:

spx>. No Brasil há aproximadamente 230 mil

profissionais, segundo

informação

do

Conselho Federal de Psicologia (CFP), de

acordo

com

informação

disponível

em

  • 2 Os primeiros contatos com os participantes da pesquisa e as entrevistas inspiraram-se no modelo etnográfico de pesquisa proposto por Rockwell, 2009.

  • 3 Para mais informação ver: OLIVEIRA, F. E. M. (2008). SPSS Básico para Análise de Dados. Rio de Janeiro: Ciência Moderna.

  • 4 Por coletânea entende-se: “conjunto de

trechos seletos de diferentes obras, ou coleção

de várias obras ou coisas” (Dicionário

Eletrônico Houaiss da língua portuguesa. (2001) versão 1.0 para Windows [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva).

  • 5 Por resenhas compreendemos uma síntese ou análise bibliográfica como descrito por Severino (2000).

  • 6 O processo de produção das resenhas durou aproximadamente dois anos e participaram desta etapa 32 membros da equipe de pesquisa:

RO - Iracema Tada, Maria Freire; BA - Edlamar de Jesus França, Gabriele Rocha Hayne, Juliana Oliveira, José Junio Almeida

20

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

CAMINHOS METODOLÓGICOS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA: PESQUISANDO A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR

Queiroz, Marcus de Souza Oliveira, Thais Araújo; MG - Silvia Maria Cintra da Silva, Paula Cristina Medeiros Rezende, Cárita Portilho de Lima, Viviane Silva Barreto, Cláudia Silva de Souza, Denise Silva Rocha, Maria José Ribeiro, Ana Cecília Oliveira Silva, Rafael Santos Carrijo; SP - Aline de Araújo Leite Santos, Aline Morais Mizutani, Anabela de Almeida Costa Santos, Ana Karina Amorim Checchia, Artur Rafael Agostinho Theodoro, Camila Oliveira, Deborah Rosária Barbosa, Jane Cotrin, Juliana Sano de Almeida Lara, Kátia Yamamoto, Marcelo Domingues Roman, Roseli Lins Caldas, Vânia Calado; PR - Marilda Facci, Zaira Leal e Valéria Garcia Silva. As referências dos textosresenhados estão disponíveis no site da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional:

http://www.abrapee.psc.br/livros.htm

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

21

MARILENE PROENÇA REBELLO DE SOUZA, ANABELA ALMEIDA COSTA E SANTOS PERETTA, JULIANA SANO DE ALMEIDA LARA, ROSELI FERNANDES LINS CALDAS

Referências

Associação Brasileira de Ensino de Psicologia. Curso Graduação em Psicologia. Recuperado em 01 de fevereiro, 2010, de http://www.abepsi.org.br/web/cursodegraduacao.aspx Balbino, V. C. R. (2008). Psicologia e Psicologia Escolar no Brasil: formação acadêmica, práxis e compromisso com as demandas sociais. São Paulo: Summus. Bardin, L. (2000). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições. Bogdan, R. & Biklen, S. (1994). Investigação qualitativa em educação: Uma introdução à teoria e aos métodos. Porto, Portugal: Porto.

Marinho-Araújo, C. M., Neves, M. M. B. J., Penna-Moreira, P. C. & Barbosa, R. M. (2011). Psicologia Escolar no Distrito Federal: história e compromisso com políticas públicas. In, C. M. Marinho-Araújo & Guzzo, R. S. L. Guzzo (Orgs.), Psicologia Escolar:

identificando e superando barreiras. Campinas, SP: Átomo & Alínea. Martins, J. S. (1977). Introdução. In M. A. Foracchi & Martins, J. S. Martins. Sociologia e Sociedade. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. Meira, M. E. M & Tanamachi, E. R. (2003). A atuação do psicólogo como expressão do pensamento crítico em Psicologia e Educação. In, M. E. M. Meira & M. A. M. Antunes (Orgs.), Psicologia Escolar: Práticas críticas (pp. 11-62). São Paulo: Casa do Psicólogo. Minayo, M. C. S. & Sanches, O. (1993, julho/setembro). Quantitativo-Qualitativo: oposição ou Complementaridade? Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 9 (3), 239-262. Patto, M. H. S. (1997). Introdução à Psicologia Escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo. Rockwell, E. (1987). Reflexiones sobre el proceso etnográfico. Ciudad de México:

DIE/CINVESTAV. Rockwell, E. (2009). La experiência etnográfica. Buenos Aires: Paidós. Serapioni, M. (2000). Métodos qualitativos e quantitativos na pesquisa social em saúde: algumas estratégias para a integração. Ciência & Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, v. 5, n. 1.

Recuperado em

22

outubro,

2011,

de

Souza, M. P. R. (2010a). Psicologia Escolar e políticas públicas em Educação: desafios contemporâneos. Em aberto, 23 (83), 129-149. Souza, M. P. R. (2010b). A atuação do psicólogo na rede pública de educação: concepções, práticas e desafios. Tese de Livre-Docência, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. Spink, M. J. P. (1999). Desvendando as teorias implícitas: uma metodologia de analise das representações sociais. In P. A. Guareschi &, S. Jovchelovitch (Orgs.), Textos em representações sociais (5a ed.). Petrópolis, RJ: Vozes. Tanamachi, E. R. (1997). Visão crítica de Educação e de Psicologia: elementos para a construção de uma visão crítica de Psicologia Escolar. Tese de Doutorado, Universidade Estadual Paulista, Marília, São Paulo.

As autoras:

Marilene Proença Rebello de Souza é Graduada em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1978). Mestre, Doutora e Livre-Docência em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (1991, 1996 e

22

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

CAMINHOS METODOLÓGICOS NA PESQUISA EM PSICOLOGIA: PESQUISANDO A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR

2010, respectivamente). Professora Doutora da Universidade de São Paulo. Realizou estágio Pós-Doutoral na York University, Canadá (2001-2002). Anabela Almeida Costa e Santos Peretta é graduada em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1997), aperfeiçoamento em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1999), mestre e doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (2002 e 2008, respectivamente). Atualmente é Professora Adjunto 1 da Universidade Federal de Uberlândia Juliana Sano de Almeida Lara é p sicóloga e Bacharel em Psicologia pela Universidade de São Paulo (2010). Atualmente é mestranda em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano e cursa Licenciatura em Psicologia no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Roseli Fernandes Lins Caldas é graduada em Psicologia pelo Instituto Unificado Paulista em 1979, especialista em Psicologia Escolar, Mestre em Educação, Arte e História da Cultura, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2000) e Doutora em Psicologia Escolar pelo Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano da Universidade de São Paulo (2010). É coordenadora da Representação Paulista da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional - ABRAPEE

Endereço para contato:

Av. Pará, 1720, Bairro Umuarama, CEP 38405-320 Uberlândia MG. E. mail: anabelaacs@gmail.com

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

23

REVISTA PERSPECTIVAS EM PSICOLOGIA

PARA UMA CRÍTICA AO TEMA BULLYING E “VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS”

Ana Paula de Ávila Gomide (UFU Uberlândia - MG)

A

partir

do

referencial

da

teoria

Resumo

critica

da sociedade, o presente trabalho propõe uma

problematização do tema do bullying, atualmente, explorado pela mass media, tendo em vista dois aspectos a serem considerados: pensar se nos aspectos evidenciados nos estudos atuais voltados ao tema, não presenciamos certo recrudescimento de discursos tradicionais sobre as “características patológicas de alunos-problemas” que responsabilizam o indivíduo, de forma isolada e a-crítica, pelas demais violências acometidas e ocorridas dentro das escolas; e, lançar luz aos fatores objetivos envolvidos no assunto, assim evidenciando as tendências sociais imperantes que medeiam a formação dos sujeitos e que contribuem para o estabelecimento de relações adoecidas no interior do ambiente escolar. Palavras-chave: teoria crítica; educação; violência

Abstract

A critique of the term bullying and "school violence"

From the view of the critical theory of society, this paper proposes to discuss the issue of bullying,

currently exploited by the media. This is done in order to consider two aspects: on the highlighted in the current studies focused to the theme, based on traditional discourses on the “pathological features or the problems of students” which blame individual in isolation and uncritically by other affected

and disregarding violence occurring within schools; and on objective factors involved in the matter, thus showing the prevailing social trends that mediate the formation of the subject which contribute to the establishment of relations diseased within the school environment. Keywords: critical theory; education; violence.

Artigo Recebido em 23/09/2011 e Aprovado em 10/04/2012

Introdução

Das relações históricas da educação com a psicologia é preciso destacar que a educação, desde o século XIX, tem buscado respaldo na ciência psicológica para fundamentar e resolver, cientificamente, os

“problemas” ditos educacionais, em grande

parte estabelecendo uma relação de

subordinação da educação ao tema do

“individuo”, em termos de sua configuração

psíquica. Temas como os aspectos

universais do desenvolvimento humano, as condições de ensino e aprendizagem, os

chamados “problemas de aprendizagem e fracasso escolar”, a compreensão das

características psicológicas dos alunos, entre outros -, e mais as preocupações sobre como “aperfeiçoar” o ensino -, foram elementos necessários para que os educadores e pesquisadores da área se

voltassem para a psicologia, a fim de buscarem soluções pragmáticas a tais problemas. Em decorrência desses aspectos

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

24

ANA PAULA DE ÁVILA GOMIDE

aqui mencionados, a psicologia enquanto ciência auxiliar aos processos educacionais, muitas vezes tem desempenhando um papel hegemônico nas tentativas de explicação e de orientação das práticas educativas, legitimando as intervenções e diagnósticos de psicólogos escolares dirigidas aos demais desafios encontrados no cotidiano da escola.

Os temas sobre o bullying e “violência na escola” têm sido, na atualidade, os

imperantes que, por sua vez, medeiam a formação dos sujeitos, assim configurando as suas relações adoecidas no interior das escolas (entre alunos e professores, entre alunos e alunos, etc). É preciso destacar que não se intenciona aqui desvalorizar as pesquisas psicológicas no que tange aos recortes estabelecidos para seus objetos de estudo, nem tampouco seus instrumentos de análise, principalmente

privilegiados nos estudos de especialistas,

considerados: 1) de um lado, pensar se, nos

porque a psicologia ilumina sobre os “tipos

inclusive, ocupando papéis de destaque no mass media e, (não podemos deixar de mencionar) na imprensa sensacionalista. Tendo em vista a expressividade desses temas nas pesquisas acadêmicas e nas demais abordagens de especialistas que se voltam ao assunto, bem como a exploração do fenômeno do bullying escolar veiculado pelos demais meios de comunicação de massa, trataremos aqui de problematizar o assunto em dois aspectos a serem

aspectos evidenciados nos estudos voltados aos temas, não presenciamos certo recrudescimento de discursos tradicionais

sociais” mais afeitos à violência e aqueles pelos quais o sistema social a irracionalidade objetiva - subsiste. De fato, há uma tradição de pesquisas empíricas dentro da psicologia social voltadas aos estudos sobre violência, preconceito e antissemitismo, desde a década de 50, nos países europeus e nos EUA que deixaram de herança dados e análises profícuas para a elucidação de problemas dessa natureza, sobretudo, aquelas pesquisas de campo da psicologia profunda, nas interfaces da psicanálise com a teoria social, dentro do campo da psicologia social analiticamente orientada (Adorno, Frenkel-Brunswik,

considerados e tratados com a devida

sobre as “características patológicas de

Levinson e Sanford, 1950). Os aspectos

alunos-problemas” - encontradas tanto nas tentativas de descrições de características de

alunos que cometem o bullying, quanto na

subjetivos da violência devem ser

seriedade, entretanto, pela perspectiva aqui

descrição dos

tipos

de

sujeitos

mais

adotada, não devem ter primazia sobre os

vulneráveis

a

sofrerem

violência

(as

fatores objetivos, posto a pesquisa

em um “tipo de imagem encobridora

chamadas “vitimas do bullying”) - que responsabilizam o indivíduo, de forma isolada e a-crítica, pelas demais violências

psicológica poder correr o risco de se tornar

ideológica” (Adorno, 1995) de questões

acometidas e ocorridas dentro das escolas; 2) e, de outro, dando relevo à dimensão do problema - e concordando que o mesmo merece a devida atenção por parte de

cruciais geradas pelas tendências sociais e históricas contemporâneas, de cunho regressivo, que fomentam e instilam nas pessoas seus comportamentos irracionais.

intelectuais-, pensar o que se evidencia por

trás da temática “violência na escola”, em

termos de apontar as tendências sociais

O uso do termo técnico “bullying, equivocadamente tratado pelo mass media

como uma “epidemia social”, às vezes até

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

25

PARA UMA CRÍTICA AO TEMA BULLYING E “VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS”

mesmo visto como um fenômeno extrínseco à nossa sociedade que visa descrever formas e códigos de condutas de crianças e adolescentes esses, por sua vez, apontados como indisciplinados e “sem limites” pelas

leituras técnico-psicologizantes -, acaba por ocultar as condições objetivas favoráveis à violência e a um tipo de educação que se

volta para a “eliminação” de singularidades,

quando essa privilegia a produção de identidades conformadas à lógica produtiva da racionalidade instrumental. Nesse sentido, entendemos ser o termo mais um "produto cultural" a ser consumido pelos agentes educacionais que acaba impedindo a conscientização e a reflexão mais crítica por parte dos mesmos sobre o legado de representações e práticas violentas que a

escola carrega consigo, tendo em vista a nossa cultura prenhe de manifestações bárbaras. A partir do referencial da teoria critica da sociedade, especificamente, os escritos de Adorno sobre a temática educacional e formativa, mais elementos teóricos para a discussão do tema serão apontados.

timidez excessiva, “traços que destoam das características culturais de seu grupo etário” ou “dificuldades emocionais e físicas” para

reagirem às humilhações (Campos & Jorge, 2010), para se pensar em medidas preventivas nas escolas (Fante, 2005). Em que pese a objetividade dessas pesquisas e a denúncia que subjaz às mesmas sobre as

situações desumanas encontradas no ambiente escolar, a questão é a de que os aspectos psicológicos envolvidos na violência não são suficientes para tratar do problema quando não sustentados por uma crítica social. A pesquisa psicológica para o tema da violência entre jovens, e que se volta exclusivamente para as características psíquicas dos sujeitos, deve, necessariamente, em se tratando de escola e de educação, se perguntar pelas condições de existência de seu objeto, assim evidenciando as marcas sociais nos sujeitos a serem estudados. Podemos afirmar que há uma tendência em se enfatizar os traços de caráter dos envolvidos de forma isolada e “estereotipada” – no caso, a ênfase sobre as “famílias desestruturadas” dos jovens

Educar contra a barbárie

 

agressores e suas necessidades de auto- afirmação, baixa auto-estima, etc (Campos

Em boa parte da literatura voltada ao tema do bullying e\ou violência na escola (Fante, 2005; Oliveira & Antônio, 2006), evidenciamos o tratamento do assunto sob o âmbito da psicologia de quem comete as

& Jorge, 2010)-, em detrimento de uma análise que possa trazer em seu bojo o confronto dos fenômenos apontados com as condições sociais objetivas, de uma época histórica na qual as crianças e jovens são (pseudo) formados sob a influência de

“atrocidades” para com os mais frágeis - as possíveis vitimas -, tendo em vista

imagens televisivas, criadoras de estereótipos sociais, e de jogos eletrônicos

apresentar

os

efeitos

deletérios

das

extremamente violentos (Zuin, 2010).

humilhações sobre quem

as

recebe. As

Em uma época na qual os mandamentos

pesquisas

têm

como

intuito

apontar

as

tradicionais patriarcais e religiosos têm sido

características dos agressores e as peculiaridades de sujeitos que os colocam na posição de vítimas (por exemplo, a

enfraquecidos pelas transformações estruturais das sociedades tecnológicas (que, por sua vez, forneciam a experiência

26

 

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

ANA PAULA DE ÁVILA GOMIDE

de conteúdos formativos tradicionais pelos

inconsciente,

 

e

obtém

liberdade

e

quais o indivíduo poderia se salvaguardar

satisfação em seu papel como um tal

 

dos embates da “socialização” do mundo do

objeto; na estrutura psíquica o ego se

trabalho), bem como o empobrecimento de

contrai

de

tal

maneira que já não

bens espirituais, as pesquisas psicológicas e

parece capaz de se manter como um

educacionais deveriam se atentar para essas

eu

distinto

do

id

e

do

superego. A

tendências: a de que crianças e adolescentes

dinâmica

pluridimensional,

em

encontram-se educados mais diretamente

virtude da qual o indivíduo alcançava

 

pela sociedade de massa. Os

e

mantinha

seu

equilíbrio

entre

a

comportamentos economicamente

autonomia e a heteronomia (

)

deu

necessários aqueles necessários à adaptação do sujeito à sociedade são

unidimensional, a uma identificação

 

apreendidos e interiorizados pelos sujeitos

estática

do

 

indivíduo

com

seus

por meio de outras instâncias sociais de

semelhantes

e

com

o

princípio

de

controle em virtude das transformações

realidade

administrado

(Marcuse,

 

1998, p.95).

 

ocorridas na família privada, atualmente, cada vez mais empobrecida e invadida por tais instâncias. A televisão, por exemplo,

Para Marcuse (1998), a sociedade de massas que promove um ideal coletivo por

meio de seus bens de consumo oferecidos

que são seus companheiros de brincadeiras,

da política, dos esportes, entre outros, que

comportamento intelectual e corporal

propensos a exteriorizarem suas energias

resistentes às pressões sociais e mais

“minorias”, etc. Assim, uma geração

educada cada vez mais sob os imperativos

tem sido um dos principais fatores de identificação aos sujeitos, pois, como afirma Marcuse (1998) no texto A obsolescência da

tanto os produtos ditos “culturais”, quanto as “personalidades” fungíveis da televisão,

psicanálise, a criança acaba por aprender

os vizinhos, o esporte e o cinema e todo um aparato de estímulos audiovisuais que “são autoridades no que se refere ao

acabam por manipular e ostentar as fantasias narcísicas de onipotência das massas- intensifica o controle social da energia libidinal, repercutindo na economia

adequado” (Marcuse, 1998, p.100), e não mais o modelo oferecido pela autoridade paterna, também enfraquecida pelas modificações estruturais econômicas das sociedades pós-industriais. Nesse sentido, a respeito da constituição psicológica individual nas sociedades administradas,

psíquica dos sujeitos, a saber: a formação de sujeitos frágeis e regredidos e, assim, mais

agressivas para a manutenção do status quo, cujas formas de violência podem ser expressas de diversas formas, desde a defesa de práticas políticas autoritárias até às ações de pequenas transgressões contra

Marcuse apresenta a formação de “egos

frágeis” que resultam em indivíduos poucos

inclinados a se identificarem aos modelos coletivos irracionais. Nas palavras do autor:

de uma sociedade de massa acaba por se tornar uma geração empobrecida em termos de capacidade de simbolização e de

Na

estrutura

da

sociedade,

o

e

sublimação, perdendo o poder da reflexão

indivíduo

torna-se

um

objeto

crítica. Zuin (2010), discutindo acerca dos

administrado,

consciente

crimes e massacres cometidos nas escolas,

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

 

27

PARA UMA CRÍTICA AO TEMA BULLYING E “VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS”

ressalta o arrefecimento da capacidade de produção simbólica suscitado pela indústria cultural que hoje é capaz de redimensionar tanto a esfera objetiva quanto a subjetiva. Os ressentimentos surgidos nas costumeiras relações ambivalentes estabelecidas entre alunos e professores acabam se materializando na fúria explosiva

competição como instrumental pedagógico é, no fundo, um princípio contrário a uma educação humana, e caso seja utilizada nas escolas, transforma-se em um instrumento reprodutivo da intensa competição presente na essência do capitalismo que transforma os homens em inimigos uns dos outros, privilegiando o domínio dos mais fortes,

manifestada por alguns alunos ressentidos que, privados de elementos simbólicos que

“violência na escola” devem emanar da

dos mais ricos, ou dos mais “cultos” sobre os socialmente mais “fracos”. Segundo

poderiam auxiliá-los na elaboração do

Adorno:

sofrimento psicológico, acabam por vingar

Partilho

inteiramente

do

ponto

de

sobre os colegas as humilhações sofridas. E

vista segundo o qual a competição é

o autor alerta: se caso as ambivalências

um princípio no fundo contrário a

surgidas nas relações entre os sujeitos nas

uma educação

humana.

De

resto,

escolas fossem trabalhadas, e, como afirma

acredito também que um ensino que

Adorno (1995a), se o medo e a angústia que

se realiza

em

formas

humanas

de

os jovens vivenciam cotidianamente

maneira

alguma

ultima

o

pudessem ser reconhecidas e explicitadas -

fortalecimento

do

instinto

de

lembrando que tais sentimentos estão à

competição” (Adorno, 1995a, p.161).

altura daquilo que a nossa realidade social

A escola acaba por reproduzir a lógica

injusta nos exige -, talvez os massacres e demais tipos de violência pudessem ser

instrumental quando privilegia o “bom comportamento” e a competição entre

evitados na escola. Assim, questões sobre

alunos, impedindo ou dificultando a possibilidade de aprofundamento de

de “saberes”, pois deve ter como meta a

sociedade, pois, como mesmo afirmou Adorno (1995a), a chave para a desbarbarização das pessoas reside na sociedade e em sua relação com a escola. O conhecimento de fatores desumanos testemunhados no funcionamento escolar não deve se restringir à pedagogia ou à psicologia, pois refletir a educação à luz da teoria crítica é justamente tentar evidenciar os mecanismos de dominação e de controle que se mantêm na sociedade irracional que são reproduzidos no interior das escolas.

contatos, a partir das relações entre os diferentes sujeitos e de momentos de fruição da afetividade que poderiam ser agenciados por meio de propostas educativas voltadas a experiências culturais significativas (música, teatro, dança), para além da mera educação formal. A educação que se volte para a emancipação do indivíduo, segundo Adorno, não é nem um processo de modelagem de pessoas, nem a transformação de sujeitos em depositários

No texto Educação contra a barbárie, Adorno (1995a) assinala os efeitos nefastos

criação de dispositivos pelos quais as crianças e os jovens possam dar vazão e

de uma educação que se pauta, exclusivamente, na adaptação e na competição entre crianças e adolescentes. A

expressão à agressividade, tendo em vista uma realidade social dominada pela violência e pela injustiça que atenta, de

28

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

ANA PAULA DE ÁVILA GOMIDE

várias formas, contra as vidas e a dignidade dos sujeitos. Entretanto, alerta o autor, os indivíduos estão sendo mais educados e formados para a adaptação ao todo – produzindo nada além do que “pessoas bem

considerados socialmente fracos e ao mesmo tempo seja isto verdade ou não felizes. De uma perspectiva sociológica eu ousaria acrescentar que nossa sociedade, ao mesmo tempo

em que se integra cada vez mais, gera

tendências de desagregação (

...

potencial de resistência, as pessoas

também perdem as suas qualidades,

 

ajustadas” -, em detrimento de uma

formação que poderia privilegiar a auto- reflexão crítica, providenciada pela

Junto com sua identidade e seu

capacidade de experiência 1 , e impulsionadora de resistência e de possível autonomia. E Adorno diz que, neste contexto que privilegia a formação de pessoas com o

graças a qual têm a capacidade de se contrapor ao que em qualquer tempo novamente seduz ao crime (Adorno,

“ego

enfraquecido”,

essas se tornam

1995a, p.122).

facilmente seduzidas pela coletividade, com

Em face da pressão social do

adquiridos nas primeiras experiências no

e

a disposição de tratar os outros “como

trabalho alienado, do assédio da indústria da

sendo uma massa amorfa” (Adorno, 1995a,

cultura, de uma educação que priva o

p.129),

indivíduo da reflexão assim suscitando o

ou como objetos, já que, expropriadas de sua capacidade de autodeterminação,

conformismo generalizado, a possibilidade do indivíduo de enxergar que o momento

tornaram-se, também, objetos. Das pressões sociais sobre os sujeitos que tem se multiplicado num nível insuportável, cujos efeitos são o desenvolvimento nas pessoas de certa

histórico não é inexorável, e que o mundo pode ser diferente do que tem sido apresentado aos sujeitos pela lógica da racionalidade de domínio é minada. Em outro texto intitulado Educação para quê?

“claustrofobia no mundo administrado”,

Adorno (1995b) alerta sobre o

bem como o fortalecimento progressivo do que é “anti-civilizatório” – o ódio e a aversão que as pessoas podem desenvolver contra a cultura e as autoridades que a representem -, Adorno diz que:

Quanto mais densa é a rede, mais se

desenvolvimento em crianças e adolescentes de certa aversão à educação, aos valores

seio familiar (tais como as brincadeiras, o contato com a música, a arte, e aos valores importantes para a formação de caráter),

procura escapar, ao mesmo tempo em

posto que isso dificultaria suas adaptações e

que

precisamente

a

sua

densidade

inserções no mundo competitivo e

impede a saída. Isto aumenta a raiva

massificado. E, ainda, apontando o

contra

a

civilização.

Esta

torna-se

empobrecimento de repertório de imagens,

alvo

de

uma

rebelião

violenta

de fantasias, da capacidade de linguagem e

irracional.

Um

esquema

sempre

de toda outra forma de expressão

confirmado

na

história

das

encontradas nas crianças e adolescentes, o

perseguições é o de que a violência

autor ressalta a presença de um “realismo

contra

os

fracos

se

dirige

supervalorizado” na constituição subjetiva

principalmente contra

os

que

são

desses jovens, bem como o ressentimento

 

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

29

PARA UMA CRÍTICA AO TEMA BULLYING E “VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS”

mediante os assuntos de natureza intelectual. Dentro deste cenário de realismo supervalorizado, presenciamos o enaltecimento por parte da indústria cultural da violência e dos crimes, e da produção de estereótipos sobre os mais pobres (vide os programas sensacionalistas que apresentam imagens fortes de corpos mutilados, assassinados), bem como a administração de

“forças pulsionais” para a vinculação dessas

aos objetos oferecidos por meio do consumo de “produtos culturais” (Marcuse, 1998), cujas benesses prometidas revelam-se ilusórias, além de aumentar o grau de frustração nos sujeitos. Nas palavras de Adorno:

Pelo fato de o processo de adaptação ser tão desmesuradamente forçado por todo o contexto em que os homens vivem, eles precisam impor a adaptação a si mesmos de um modo dolorido, exagerando o realismo em relação a si mesmos, e, nos termos de Freud, identificando-se com o agressor. A crítica desse realismo supervalorizado parece-me ser umas das tarefas educacionais mais decisivas, a ser implementada,

entretanto, já na primeira infância (Adorno, 1995b, p.145).

Não é demais lembrar que o sentimento de aversão ao que é

diferenciado, ao que possa “destoar” da

realidade e do cotidiano, ou do que é

moldado pela indústria cultural é uma das características muito citadas por Adorno (1995a) sobre os possíveis traços psicológicos de pessoas com tendências preconceituosas os traços autoritários. Isso nos conduz à discussão sobre a prevalência de uma educação que corrobora para a

“formação” de sujeitos com mentalidades

afeitas aos estereótipos, e aos demais preconceitos sociais, dentro de um “clima social” que promove condições para tal. Sobre as concepções educacionais vigentes é preciso então perguntar até que ponto essas reduzem os processos educativos e pedagógicos ao “necessário momento de instrução” do aluno, tendo como metas principais o desenvolvimento da capacidade formal de pensamento (o desenvolvimento de competências cognitivas necessárias à racionalidade instrumental 2 ), em detrimento da espontaneidade e de momentos singulares que poderiam ser obtidos nas relações dos alunos - suas capacidades de experiência - com diferentes objetos do conhecimento. Tais propostas educativas que se revelam, no fundo, hostis em relação à imaginação e à fantasia, correspondem à produção do conformismo social com a preparação de sujeitos para a fácil aceitação à realidade. Enquanto existirem no que têm de fundamental as condições que geraram a regressão no caso, Adorno cita o holocausto e as demais políticas totalitárias do século XX -, a barbárie continuará existindo. No texto Tabus acerca do magistério, Adorno (1995c) aponta questões cruciais encontradas nos fatores objetivos e, principalmente, subjetivos envolvidos na profissão de ensinar, nas relações entre alunos e professores e na estrutura escolar de ensino, perpassando por temas tabus relacionados ao magistério ainda bastante vigentes com relação aos preconceitos referentes à docência -, e à violência inerente às relações institucionais escolares, sendo essa o reflexo de uma sociedade extremamente desigual. As hierarquias oficial e não-oficial exercidas nas escolas - e que seguem ainda existindo hoje no

30

RReevviissttaa PPeerrssppeeccttiivvaass eemm PPssiiccoollooggiiaa,,

VV..

1155 nn..11..

JJaann // JJuunn 22001111

ANA PAULA DE ÁVILA GOMIDE

âmbito escolar -, discutidas por Adorno no texto, e que constituem as relações de poder, contribuem para a aversão de crianças e jovens contra a escola e ao corpo docente que a constitui: aquela hierarquia que diz respeito a uma espécie de aluno que se destaca por seu bom comportamento e bom desempenho de notas que, prestigiado como "aluno exemplar", enquadra-se bem nos moldes de uma sociedade extremamente individualista e competitiva; e aquela - a hierarquia não-oficial - que aponta para aqueles tipos de sujeitos que se destacam pela força física (Adorno, 1995c, p.111). Esses últimos, no entendimento de Adorno apresentados como os "ressentidos" - pois excluídos de uma formação cultural e intelectual e que desenvolvem certa aversão aos homens de estudo e ao "espírito" -, são os possíveis tipos sociais afinados com as personalidades dos algozes e carrascos, necessários às políticas totalitárias. Inclusive, nas palavras de Adorno, o nazismo explorou essa dupla hierarquia muito presente, inclusive, fora das escolas, assim incitando o repúdio e o desprezo das massas pelo trabalho intelectual, ao mesmo tempo, propiciando um clima social para a constituição de sujeitos bem adaptados e eficientes, sempre prontos para cumprir as ordens - o caráter manipulador descrito por Adorno na pesquisa A Personalidade Autoritária, obra também citada nos ensaios de Adorno sobre educação. Adorno afirma:

"A pesquisa pedagógica deveria dedicar especial atenção à hierarquia latente na escola" (Adorno, 1995c, p.111). Pensamos então que, para lançar luz ao problema do bullying, as pesquisas sociológicas e psicológicas atuais deveriam se voltar para aquilo que Adorno há muito

tempo

havia

indicado

nas