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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (UFBA

)
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS (FFCH)
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS (PPGCS)









LITZA ANDRADE CUNHA










TEXTURAS DO SOFRIMENTO EMOCIONAL





















Salvador – Bahia
2012
LITZA ANDRADE CUNHA







TEXTURAS DO SOFRIMENTO EMOCIONAL







Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências
Sociais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas,
Universidade Federal da Bahia, como requisito para obtenção
do grau de Doutora em Ciências Sociais.

Orientadora: Profª Drª Míriam Cristina Rabelo
























Salvador – Bahia
2012



















_____________________________________________________________________________________________________


Cunha, Litza Anuiaue
C972 Textuias uo sofiimento emocional ¡ Litza Anuiaue Cunha. -
Salvauoi, 2u12.
12S f.: il.

0iientauoia: Piof". Bi". Niiiam Ciistina Naicilio Rabelo
Tese (uoutoiauo) - 0niveisiuaue Feueial ua Bahia, Faculuaue ue
Filosofia e Ciências Bumanas, 2u12.

1. Saúue - aspectos sociologicos. 2. Natuieza - aspectos sociologicos.
S. Sofiimento. 4. Teiapia. I. Rabelo, Niiiam Naicilio Ciistina. II. 0niveisiuaue
Feueial ua Bahia, Faculuaue ue Filosofia e Ciências Bumanas. III. Titulo.

CBB - Su1















































Para
Norma, Ricardo e Gabriel
AGRADECIMENTOS



Em primeiro lugar, quero agradecer a Miriam Rabelo, pela valiosa orientação ao longo do
desenvolvimento da pesquisa e da elaboração deste trabalho.
Agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), pelo auxílio
financeiro concedido para realização da pesquisa.
Sou muito grata a Márcio Barbosa, grande amigo, com o qual pude estabelecer uma
importante interlocução.
Gostaria de agradecer também a todos os colegas do Núcleo de Estudos em Ciências Sociais e
Saúde (ECSAS), por terem proporcionado um ambiente privilegiado de diálogo, fundamental
para realização da investigação.


RESUMO


As ciências sociais em saúde, tradicionalmente, vêm chamando a atenção para a insuficiência
da compreensão biomédica acerca da doença. Seu foco principal tem sido revelar, para além
dos aspectos físicos, dimensões sociais relevantes na compreensão dos processos de
adoecimento e tratamento. Parte-se do pressuposto da existência de uma doença em si, que
apresenta sinais físicos, sobre a qual se sobrepõe o universo cultural. Tem-se, assim, a
moderna cisão entre o campo da natureza e o da cultura. Voltando-se para investigação da
trajetória de pessoas em situação de sofrimento emocional, o presente trabalho propõe uma
reflexão acerca dessa divisão. As trajetórias de sofrimento são marcadas por diversas tensões,
não apenas entre os controles internos e as instabilidades emocionais, mas, também, entre os
desejos e as dificuldades, o que exige um empenho permanente para manter a integração. A
unidade, portanto, não está dada, é perseguida em um campo de ação, envolve todo um
trabalho a ser feito. Se não há um organismo unificado numa totalidade, mas modos de
produzi-lo, não há razão para se falar na doença como uma realidade única, sobre a qual se
formulam diversos pontos de vista. Nem é possível também encontrar um sistema coerente de
significados que defina a doença de uma vez por todas. Trata-se de considerar natureza e
cultura não mais como esferas autônomas, ligadas por relações exteriores, mas como
dimensões vividas e articuladas dentro de práticas. Nesse sentido, não se ocupar das
perspectivas, e sim das práticas, das materialidades e eventos, pode ser muito mais revelador.
Assim, vai-se descortinando um caminho de compreensão do mundo não mais como realidade
dada, mas feita por diversos elementos. A investigação seguiu esses cursos da ação, em que
diversos aspectos se relacionam na produção da realidade, e se dirigiu para os engajamentos
em que indivíduos coexistem entre si e com seres diversos em um mundo que ajudam a
moldar.

Palavras-chave: Natureza e cultura. Sofrimento emocional. Sociologia da saúde. Práticas
terapêuticas.











ABSTRACT


Calling attention to the insufficiency of the biomedical understanding of disease, the social
sciences of health have been traditionally defined in terms of an effort to reveal the social and
cultural dimensions that along with the biological aspects of disease help shape the processes
of sickness and treatment. Underlying this definition is the assumption that, superimposed to
the disease in itself, which presents a series of given physical signs, lies a cultural universe of
symbols and meanings. We have here the modern split between the domains of nature and
culture. Based on research on the trajectories of people in situation of emotional distress, this
thesis develops a reflection on this split. The trajectories are marked by diverse tensions, not
only between internal controls and emotional instability, but also between aims and desires,
on the one hand, and the difficulties of fulfilling them, on the other. These tensions require an
ongoing effort on the part of subjects to maintain their organism as an integrated whole.
Unity, therefore, is not given beforehand; it is sought after in a field of action; its emergence
requires continuous work. Given that instead of an already integrated organism, there are
modes of producing the organism, there is no reason to speak of disease as a single reality,
about which different perspectives are formulated. Neither is there a coherent system of
meanings that can define illness once and for all. Social scientists must cease to consider
nature and culture as autonomous spheres linked through external relations – for they are
dimensions that are lived and articulated within practice. Attending to practices, materialities
and events can thus prove more revealing than focusing on perspectives. Doing so leads to an
understanding of the world as a reality that, rather than given, is made or enacted by means of
diverse elements. Our research followed this path and focused on the engagements through
which human beings coexist among themselves and with other beings in a world they help to
shape.


Key-words: Nature and culture. Emotional distress. Sociology of health. Therapeutic
practices.










SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ---------------------------------------------------------------------------------- 9
1.1 CONDENADOS AO MUNDO--------------------------------------------------------------- 13
1.1.1 Matilde ----------------------------------------------------------------------------------------- 13
1.1.2 Maria ------------------------------------------------------------------------------------------- 15
1.1.3 Balbina ----------------------------------------------------------------------------------------- 17
1.1.4 Eulálio ----------------------------------------------------------------------------------------- 19

2 COMO ABORDAR O SOFRIMENTO EMOCIONAL? ------------------------------- 25
2.1 PSIQUIATRIA --------------------------------------------------------------------------------- 25
2.2 PERSPECTIVA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS EM SAÚDE ------------------------------ 28
2.3 FRAGILIDADE DO MODELO DE SISTEMA ------------------------------------------- 32
2.4 TRILHAS DE SUPERAÇÃO DA DICOTOMIA ----------------------------------------- 34

3 MODOS DE ATUAR NA PSIQUIATRIA E PSICOTERAPIAS---------------------- 40
3.1 BALBINA E MARIA: PERSEGUINDO O EQUILÍBRIO ------------------------------ 40
3.1.1 Balbina ----------------------------------------------------------------------------------------- 40
3.1.2 Maria ------------------------------------------------------------------------------------------- 43
3.2 MATILDE: ENTRE O CONTROLE E O DESCONTROLE ---------------------------- 45
3.3 AS ESTRATÉGIAS MENTAIS DE EULÁLIO ------------------------------------------- 55

4 NOVAS FORMAS DE SE SITUAR A PARTIR DAS TERAPIAS RELIGIOSAS 66
4.1 A PRESENÇA DE ENERGIAS NO MUNDO DE MATILDE ------------------------- 66
4.2 O ENCONTRO DE MARIA COM JESUS ------------------------------------------------ 84

5 COSTURAS DO SOFRIMENTO EMOCIONAL ---------------------------------------- 102
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ----------------------------------------------------------------- 114
REFERÊNCIAS ----------------------------------------------------------------------------------- 120














9

1 INTRODUÇÃO

A primeira Cúpula Global de Saúde Mental, realizada em Atenas, na Grécia (2009),
revelou que mais de 450 milhões de pessoas estão sendo afetadas diretamente por transtornos
mentais. Segundo o médico do Departamento de Saúde Mental da Organização Mundial de
Saúde (OMS), Saxena (2009), a depressão deve tornar-se a doença mais comum no mundo
nos próximos vinte anos, afetando mais pessoas do que qualquer outro problema de saúde,
incluindo câncer e doenças cardíacas, e já é chamada de epidemia silenciosa. Os diversos
profissionais dedicados a esse campo apontam para os enormes desafios na compreensão e
tratamento dessas enfermidades.
Embora existam na psiquiatria diferentes perspectivas sobre os chamados transtornos
mentais, predomina uma visão biologizante, segundo a qual, a chave para explicação dos
problemas está primordialmente na esfera orgânica, mais especificamente, no funcionamento
do cérebro. Por outro lado, as ciências sociais dedicadas ao campo da saúde chamam a
atenção para a relevância da dimensão social e denunciam as limitações da compreensão
biomédica, redutora da doença aos aspectos físicos.
Contrapondo-se à visão biomédica, tais estudos buscam revelar, para além da esfera
orgânica, todo um conjunto de significados culturais, relevantes na compreensão dos
processos de adoecimento e tratamento. São trabalhos que pressupõem a cisão entre dois
campos independentes: em um deles se situam os aspectos orgânicos morfofisiológicos, e o
outro se refere à experiência subjetiva da enfermidade e remete aos diversos sistemas de
conhecimento voltados para compreensão e explicação da doença. Tem-se assim a moderna
dicotomia entre natureza e cultura.
Diferentemente dessa postura ainda dominante nas ciências sociais, o presente
trabalho não toma como ponto de partida da investigação a categoria biomédica transtornos
mentais. Exatamente por entender que não há de um lado uma doença orgânica, domínio de
atuação da biomedicina, sobre a qual se sobrepõe a dimensão cultural a ser estudada pelas
ciências sociais, considera, então, mais apropriado optar pela noção de sofrimento emocional.
A expressão é usada por traduzir melhor a maneira como cada pessoa acompanhada descreve
sua própria condição. As narrativas referem-se à vivência do sofrimento como uma realidade
sombria, sem cor, marcada por desejos de morte, sentimentos de solidão, desmotivação e dor.
Não são apenas descrições de significados sobre a enfermidade; elas revelam um modo de
engajamento no mundo que desafia a própria dicotomia mencionada.
10

Entretanto, faz-se necessário elucidar melhor a categoria sofrimento emocional, pois,
do modo como em geral é utilizada, parece reforçar a dicotomia, visto que tradicionalmente
vem sendo situada na esfera da cultura e entendida como expressão de uma forma de
avaliação ou julgamento sobre o mundo, dependente, portanto, de significados vinculados ao
conjunto dos valores dominantes. A estrutura social, segundo essa perspectiva, postula e
cultiva certas formas de sofrimento emocional, o que revela a adesão das pessoas a todo um
sistema de significados culturais. Os sujeitos, de acordo com essa concepção, seriam
definidos como instrumento de manifestação de regras, sobre as quais o cientista social se
volta para identificar leis e regularidades. Essa compreensão não permite pensar a dimensão
criativa da emoção e sua participação na formação social.
Em primeiro lugar, é preciso compreender que os sistemas culturais não dizem o que a
emoção deve ser; eles propõem possibilidades. Assim, as emoções são vetores da cultura, a
criam, tanto quanto são criadas por ela, são causa e efeito ao mesmo tempo. James parece
iluminar bem essa ambiguidade da emoção, apontada como parte dessa estranha instância das
experiências onde nem o mundo, nem o corpo, nem a consciência podem ser claramente
separados e distribuídos (JAMES, 1890 apud DESPRET, 2004, p. 126).
Adotar a categoria sofrimento emocional como eixo da pesquisa é entender que se
trata de algo tanto biológico, quanto cultural, e é assumir o pressuposto de que natureza e
cultura não são duas esferas independentes a serem estudadas separadamente; são dimensões
indissociáveis. Entretanto, é preciso reconhecer a abrangência do conceito de sofrimento
emocional. Por essa razão, é importante ressaltar que todas as trajetórias estudadas trazem
diagnósticos psiquiátricos [depressão, síndrome do pânico, esquizofrenia e transtorno
bipolar].
Apesar de carregarem diferentes diagnósticos, quando se referem aos eventos onde os
sinais da enfermidade se manifestaram de maneira mais intensa, as pessoas pesquisadas usam
sempre a mesma expressão: crise. Momentos de profunda tristeza, dores no corpo, delírios,
pânico, queda da pressão arterial, atitudes de autoagressão, falta de motivação e tentativas de
suicídio são todas situações mencionadas como crise. Essa é uma categoria central: indica
certa unidade de todos os tipos de sofrimento emocional e revela sintomas tanto orgânicos,
quanto simbólicos.
Desde o início da investigação, foram grandes as dificuldades de acesso ao campo de
pesquisa e muitas tentativas frustradas para encontrar quem se dispusesse a expor suas
experiências de sofrimento. Revelar tais fragilidades é algo difícil para a maior parte das
pessoas. Parece mais digno falar de uma dor na coluna ou um problema cardíaco, do que
11

admitir que a vida perdeu o sentido. Muitos terminam encontrando na Internet um espaço de
diálogo onde não precisam necessariamente revelar suas identidades. Para alguns, a rede
representa a única possibilidade de interação com outras pessoas.
Grupos de ajuda mútua voltados para pessoas que vivenciam os chamados transtornos
mentais proliferam na Internet. Foi preciso associar-se a essas redes de apoio, e passar a
acompanhar a comunicação entre seus integrantes. Em seguida, então, estabeleceu-se um
contato direto, via correio eletrônico, com alguns deles. Nas mensagens explicava-se sobre o
estudo sendo realizado no PPGCS da UFBA e perguntava-se acerca do interesse em contribuir
com a pesquisa. Alguns nem chegaram a responder, outros se dispuseram a participar, mas em
seguida deixavam de se comunicar. No entanto, foram muitas as pessoas com as quais foi
possível manter uma interlocução constante durante alguns meses, entre estas, três casos serão
tratados aqui de modo mais detalhado.
A maior parte do acompanhamento das trajetórias de pessoas em situação de
sofrimento emocional ocorreu por meio dos instrumentos da Internet. Podemos talvez falar da
realização de uma etnografia on line. A presente investigação seria difícil realizar-se fora do
anonimato da rede. Dentro desse espaço de relativa proteção das identidades, a exposição das
fragilidades parece tornar-se mais fácil para cada uma dessas pessoas. As narrativas enviadas
por correio eletrônico relatam experiências de sofrimento, dificuldades e problemas muito
íntimos.
Também houve a oportunidade de seguir a trajetória de pessoas por meio de encontros
presenciais durante dois anos, uma delas será aqui apresentada. Com esta, se desenvolveu
uma relação muito próxima. Tais oportunidades de convivência permitiram a participação em
uma série de situações e eventos junto com as pessoas, inclusive rituais terapêuticos
religiosos. Essas duas formas de acesso às trajetórias guardam algumas diferenças, mas não há
por que considerar uma melhor do que outra. Muitas vezes, por exemplo, conversando por
meio de uma tecnologia de voz e vídeo na Internet, teve-se acesso direto ao ambiente da casa
e diversas interações entre os familiares das pessoas acompanhadas. Nos casos cujo
acompanhamento foi por meio de encontros presenciais, nem sempre foi possível estar
presente em situações desse tipo.
A etnografia envolveu, em primeiro lugar, uma reconstituição da história de vida de
cada uma das pessoas selecionadas. O foco principal voltou-se para os aspectos relacionados
ao sofrimento emocional: primeiros sinais, atitudes tomadas, sentimentos, emoções, eventos
importantes, experiências terapêuticas nas diversas agências, descrição dos principais
problemas vividos e estratégias consideradas relevantes para enfrentar as dificuldades. Em
12

seguida, manteve-se contato permanente com essas pessoas durante dois anos, buscando
acompanhar o dia a dia de cada uma delas.
A procura não foi pelos condicionantes/causas orgânicas ou simbólicas do sofrimento
emocional. Essas duas dimensões não são aqui compreendidas como sistemas autônomos,
totalidades dadas. No enfrentamento das tensões e dificuldades cotidianas, cada um vai
perseguindo essa totalização, que não é dada antecipadamente; ela vai sendo conquistada ao
longo dos eventos. Em lugar de identificar regularidades, procurou-se investigar, nas
diferentes trajetórias, todo esse trabalho de busca da integração. O sofrimento vai sendo
produzido e transformado nesses cursos de ação que envolvem uma pluralidade de agentes
diferenciados. Nesse transcurso, cada acontecimento vivido vai promovendo modificações,
desenvolvendo habilidades e competências e fazendo emergir novas formas de ser e viver. O
eixo central foi investigar, nas trajetórias das pessoas, os diversos elementos implicados não
apenas na emergência das crises, mas ao longo dos itinerários terapêuticos.
O trabalho está estruturado da seguinte forma: no capítulo “Condenados ao mundo”,
são descritas, de modo sucinto, as trajetórias de sofrimento de quatro pessoas. A partir dessa
apresentação, é feita uma análise, no capítulo “Como abordar o sofrimento emocional?”, do
modo como a psiquiatria, principal agência terapêutica procurada, compreende e busca tratar
essas situações. Em seguida, são expostos os argumentos das ciências sociais acerca dos
limites da compreensão biomédica e da necessidade de voltar a atenção para as dimensões
sociais dos processos de adoecimento e tratamento. Logo depois, propõe-se uma reflexão
sobre as semelhanças entre as duas perspectivas. Ambas baseiam-se no problemático modelo
de sistemas. Segue-se uma análise dos fundamentos filosóficos e das implicações da adoção
desse modelo. Conclui-se esse capítulo, com a análise, de modo breve, de algumas
considerações teórico-metodológicas que se constituíram em grandes referenciais para o
presente trabalho. Os dois capítulos seguintes são um mergulho na etnografia, buscando
perseguir e expor a dinâmica do sofrimento emocional, revelando suas texturas nos espaços
aonde vai se manifestando: os agentes em cena, corpos, significados, emoções, articulações,
sensibilidades, objetos e habilidades. Trata-se de explorar como o sofrimento e suas formas de
enfrentamento vão sendo feitas nessa rede sempre aberta a possibilidades de desenvolvimento
e apropriação. Busca-se estabelecer um diálogo permanente entre trabalho de campo e
reflexões teórico-metodológicas. As análises teóricas surgem apenas nos momentos em que a
etnografia realmente solicita. O último capítulo expressa bem essa intenção de costurar
etnografia e teoria.
13

1.1 CONDENADOS AO MUNDO
1.1.1 Matilde
1


Ao relembrar o sofrimento vivido ainda na adolescência, Matilde
2
, hoje com 31 anos,
revela:


[...] Comecei a sofrer muito, a vida parecia um pesadelo, sabe? Parecia que,
quando eu dormia, era vida e, quando tava acordada, era pesadelo. Eu
chorava, chorava tanto, vivia chorando... Só tinha vontade de morrer, queria
morrer mesmo, porque era muito sofrimento, muita dor. Uma vez, eu
cheguei a colocar uma faca no meu peito, mas não consegui enfiar. Mas, eu
desejava muito ter uma doença grave que me matasse rápido, sabe? Queria
ter um câncer desses que matam a pessoa em pouco tempo. Eu só pensava no
que eu podia fazer pra morrer. Eu agia feito uma louca mesmo: não falava
coisa com coisa, gritava, chorava muito... Às vezes, na escola, eu saía e
ficava sentada na calçada chorando... chorando. [...]


Figura 1 – O Ladrão - 1955

Fonte: Naves (1999).

Lembra-se de passar a não ter vontade de fazer nada e ficar a maior parte do tempo em
casa, deitada no sofá. Sentia-se incompreendida e rejeitada pela mãe e acredita que isso a
tenha feito sofrer ainda mais. Filha de pais assalariados e moradora de um bairro de classe
média, Matilde sempre estudou em instituições particulares. Seu desempenho escolar
começou a ser ruim, não conseguia mais estudar como antes, faltava-lhe capacidade de
concentração. O fato de ter sido sempre excelente aluna fez a coordenadora chamá-la para

1
Os nomes atribuídos às pessoas, cujas trajetórias de sofrimento acompanhei, são de personagens do livro Leite
Derramado, de Chico Buarque, publicado pela Companhia das Letras em 2009.
2
O acompanhamento de Matilde aconteceu em encontros presenciais. A comunicação com todas as outras
pessoas ocorreu pelos instrumentos da Internet.
14

uma conversa. Não se recorda do conteúdo desse diálogo, apenas lembra quando a diretora da
escola telefonou para sua mãe, orientando-a a levá-la ao psiquiatra com urgência. A família
decidiu seguir seu conselho.

Figura 2 – Céu vermelho - 1950

Fonte: Naves (1999).

[...] Eu tava do lado de minha mãe quando ouvi a diretora falar pra ela
procurar um psiquiatra pra mim. Eu nem sabia o que era psiquiatra. Foi a
primeira vez em que fiquei internada por 45 dias, tomando uma quantidade
enorme de remédios: rivotril, lexotan, haldol... Fiquei tão dopada que a
língua enrolava, e eu não conseguia nem falar direito. Quando voltei pra
casa, pedi a minha mãe que nunca mais me internasse novamente. Mas, toda
vez que eu começo a ter alucinação... paranoia... minha mãe me interna. [...]

É capaz de lembrar com detalhes os momentos de angústia vividos nesse período.

[...] Eu nem sabia o que tava acontecendo comigo. Eu chorava, eu tremia,
tremia muito. O tremor já era o espírito incorporando em mim. Minha mãe
não sabia compreender isso, eu desmaiava, começava a me bater pelo chão, e
minha mãe me chutava e dizia gritando pra eu levantar do chão, pra eu parar
de frescura. Aí eu fiquei com ódio de minha mãe, porque ela dizia que eu
não tinha nada, o que eu tinha era descaramento de menina rebelde. A única
coisa que minha mãe estranhava era que eu comecei a dormir muito no sofá.
Eu era uma pessoa dinâmica, ativa... Ninguém acreditou quando eu adoeci,
porque eu era tão saudável, eu era tão saudável. Até hoje as pessoas me
dizem que acham que eu não tenho problema nenhum não, mas é porque
nunca me viram desnorteada. Eu sentia tanta raiva de minha mãe. Eu tinha
tanto ódio de minha mãe, porque minha mãe não acreditava em mim. Ela
não acreditou que eu tava pedindo ajuda. Eu tava descontrolada,
descontrolada, louca... Tava agindo feito maluca, mas não tava agressiva,
entendeu? Minha mãe se afastou muito de mim quando eu passei pra
adolescência. Antes a gente era muito junta, e depois minha mãe não
conversava mais comigo, só com minha irmã. Então eu botava a culpa do
que tava acontecendo comigo em minha mãe. Aí quando minha mãe me
15

abraçou, eu peguei meus cabelos assim e comecei a puxar e gritar bem alto,
puxando e gritando bem alto, eu dei um escândalo. Aí minha mãe se afastou
de mim, aí eu voltei ao normal. Aí me levaram pra o hospital psiquiátrico, e
eu tava achando que tava com a perna gangrenada. Aí eu já tinha perdoado
minha mãe, eu achava que ia morrer, então eu falava: “mãe, eu te amo”,
“mãe, eu te amo”. Aí me deram um sossega-leão, e eu apaguei, acho que eu
dormi uns dois dias. Só fui acordar em casa, dopada. Desde então, esse
médico que eu tive, ele não me internava, eu ficava dopada em casa. Ele me
dopava tanto que eu não conseguia levantar, eu ficava dormindo o tempo
todo, só me levantava quando minha mãe me acordava pra comer, pra tomar
o remédio, pra tomar banho. Mas só ficava deitada dopada. Sabe quantas
gotas de aldol eu tomava? Cinquenta gotas! Isso é uma dose cavalar, não se
dá nem a um cavalo uma dose dessas. É uma dose muito forte, e o efeito
colateral é embolar a língua, os movimentos ficam dopados, você fica
andando toda dura, o pescoço duro, entendeu? Ele usava haldol, rivotril,
lexotan... uns sete tipos de remédio. Eu ficava assim durante uns dois anos,
assim dopada, aí depois ia diminuindo aos poucos. Depois dessa crise, eu
engordei 25 quilos, ninguém acreditou, foi efeito colateral do remédio. [...]

Diante da ameaça de enfrentar mais uma vez esse sofrimento, ao qual ela chama crise,
Matilde começou a fazer uso permanente de medicação psiquiátrica, por acreditar que oferece
certa segurança na prevenção. Porém, os remédios que toma provocam muita sonolência,
dificultando o desempenho das atividades cotidianas. São tensões a exigir um enfrentamento
constante. O medo de ter uma crise faz com que ela nem leve em consideração a possibilidade
de deixar de tomar essa medicação, que traz efeitos colaterais danosos e precisa ser controlada
com o uso de outros remédios. O mais difícil para Matilde, no entanto, é conviver com a
sonolência, pois se constitui em um obstáculo à realização de um projeto central na sua vida:
trabalhar. Sempre está envolvida com novos planos profissionais, que não consegue realizar e
que terminam sendo substituídos por outros. Convive frequentemente com a tristeza e a
desmotivação; às vezes, Matilde chega a chorar o dia inteiro. Diz que nesses momentos:

[...] A vida fica sem cor, fica tudo negro, nas trevas, nada tem sentido. Eu
fico jogada na cama sem vontade de fazer nada. O psiquiatra disse que eu
tenho transtorno bipolar. Isso acontece de repente, sem mais nem menos, não
tem uma razão específica. E eu não sei ainda lidar com isso... Às vezes eu
reajo, tomo um banho, saio de casa um pouco, vou ao centro espírita, mas às
vezes eu me jogo na cama e fico paralisada, sem vontade de fazer nada. [...]

São escolhas que dividem a pessoa entre desistir de viver e decidir permanecer lutando
para se manter viva. O desejo de se libertar dessa condição por meio da morte enfrenta a
severa desaprovação do espiritismo, religião que passa a ter forte presença em sua vida.
Vivencia a experiência de se relacionar com espíritos de pessoas mortas, chamados pelos
espíritas de obsessores. Entende que parte dos problemas enfrentados se deve à presença
16

desses espíritos, mas acredita também em uma dimensão física de seu problema, a ser
enfrentada com o tratamento psiquiátrico. O cotidiano de Matilde oscila entre momentos de
desmotivação, medo de voltar a ter uma crise e a tentativa de articular e combinar as diversas
terapias, com vistas a garantir uma normalidade que lhe permita realizar seus projetos.

[...] Muitas vezes, chego no centro espírita me sentindo muito mal e saio de
lá ótima, animada, transformada mesmo, sabe? Mas o centro espírita não
vende cura pra ninguém. Cada um é responsável pelo seu tratamento, a
melhora só depende da própria pessoa. Quando eu fico sem vontade de ir no
centro, isso é um sinal de uma crise se aproximando. [...]

Figura ! – Homens na cerca

Fonte: Naves (1999).

Por isso se esforça para frequentar o centro espírita, mesmo quando está sem disposição.
Faz tratamento também em instituições psiquiátricas e, em uma delas, recebe um atendimento
psicológico que considera muito importante. A articulação e a concordância entre essas
diversas práticas nem sempre se fazem de forma fácil e exigem um esforço permanente por
parte de Matilde.

1.1.2 Maria
3


Os sofrimentos emocionais de Maria se iniciaram aos 11 anos de idade. Desde então,
passou a procurar apoio psicológico e psiquiátrico, mas, por diversas vezes, iniciou e

3
As narrativas de Maria foram enviadas por correio eletrônico.
17

interrompeu o tratamento. Hoje aos 29 anos, quando se pede um relato de sua vida, ela lembra
a angústia vivida nas instituições onde estudou.

[…] Na escola, eu sempre estava sozinha e sem amigos... Era mto. tímida e
quietinha... gordinha e usava óculos... Era motivo de zoação. Isso foi até a 8ª
série. Passei muita tristeza e solidão na escola... Chegava a ficar o recreio
todo escondida no banheiro, sozinha pra ninguém me ver q eu estava sozinha
no pátio, sem amigos.
Na escola, sempre tinha a sensação que estava sendo excluída e de que as
pessoas falavam de mim. No primeiro colegial, mudei de escola... fui pra
escola pública. Lá tinha um pessoal menos preconceituoso, então consegui
fazer amigos, já na outra escola não tinha amigos e sempre ficava isolada.
Nessa nova escola, fiz amizades, mas tinha momentos que ficava calada,
quieta e tinha a sensação de excluída... Essa sensação me gerava dores,
depressão... Mas, na época, nem sabia o q era isso... E assim foi no cursinho,
na faculdade, comecei a trabalhar... Larguei a faculdade, pois não gostava do
curso. [...]

As dificuldades de se relacionar se estendiam também para o ambiente familiar.
Enquanto na escola sua atitude era de aceitação passiva da exclusão, com a família Maria era
muito agressiva.

[…] Tive uma infância e adolescência muito triste, irritada e rebelde... Bom,
sempre fui uma criança problemática, sempre uma criança ciumenta, e
queria tudo para mim.... Era irritadinha, mas minha mãe relata q eu piorei
depois da primeira menstruação... Fiquei mais irritada, agressiva... agredia
minha mãe... Eu ficava assim qdo ficava mto ociosa... Minha mãe chegou a
me levar a psicólogas, mas era rebelde e fazia um auê para entrar na sala,
brigava mto com minha mãe. Aos 11 anos quando veio a primeira
menstruação... daí tudo piorou... as brigas com minha mãe eram maiores, era
muito irritada, brigava xingava dentro de casa... Era um caos... me isolava da
família. Conheci uma outra vida, de ser independente, de sair, de baladas,
conhecer pessoas, cervejas, drogas... Me sentia livre... solta... vivendo a vida
de verdade... mas logo caía na depressão... Nessas crises, eu era mto
revoltada, irritada, descontava em meus pais e quebrava tudo em casa... mas,
nessa fase que me sentia livre, eu me sentia feliz... [...]


A situação parece ter se agravado, segundo ela, quando começou a trabalhar no setor
de telemarketing. Sentia muita desmotivação para o trabalho e também um grande
esgotamento.

[…] A crise maior se deu um tempo depois, por stress de trabalho e pontadas
na cabeça... Procurei um neuro, cheguei a fazer exames, passou remédios e
me encaminhou ao psiquiatra, que me afastou do trabalho... Iniciei o
tratamento, mas não finalizei... Qdo me sentia melhor, parava... Um tempo
depois, voltaram as crises... por stress no trabalho acabava piorando... Fui ao
psiquiatra, novamente iniciei tratamento, mas não finalizei... daí não queria
18

ir trabalhar, me estressava bastante, depois saí do telemkt e trabalhei em
recepção, mas continuava no atendimento ao cliente, e isso me cansava, não
tinha paciência, chegava a ser grossa com os clientes, explodia mesmo, era
grossa com as pessoas do trabalho... [...]

Fez exames para descobrir a razão das dores na cabeça, mas os resultados não
encontravam uma justificativa para o problema. O diagnóstico médico indicou a possibilidade
de serem decorrentes da sobrecarga e stress no trabalho. Diversas vezes iniciou tratamento
com psiquiatras, mas, quando se sentia melhor, abandonava.

[…] Tenho crise mais forte, pelo menos uma vez ao ano ou duas, mas acabo
não continuando o tratamento... pois, por volta dos meus 25 anos, comecei a
frequentar a igreja católica, que me ajudou a superar e ser mais forte... Não
sei se vc acredita, mas boa parte do meu problema era e ainda é espiritual...
Mas dessa vez não estou tão forte... então refleti e acredito que realmente
posso ter alguma deficiência que ocasiona essas crises... Então hoje estou
tratando o espiritual, psicológico e agora vou iniciar novamente... RS e
tomar medicamentos para ajudar. Há mto tempo sofro de depressão,
consegui viver um tempo bem e tive várias recaídas. Hoje estou na maior
recaída... Estou no pior momento, no momento que eu não vejo mais
esperança e não acredito em nenhuma mudança na minha vida. Vida sem
graça... sem motivos pra continuar... [...]

1.1.3 Balbina

Foi no período posterior aos exames de vestibular que Balbina
4
identificou os
primeiros sinais de sofrimento emocional. Explica que estudou em boas escolas públicas e
sempre foi excelente aluna. No entanto, o desempenho nas provas do vestibular não
correspondeu às suas expectativas e, apesar de ter feito exames em quatro universidades
diferentes, só foi aprovada em uma instituição que ficava distante da sua residência.

[…] Foi uma grande decepção tudo isso, porque, apesar de sempre ter
estudado em escola pública, eu ganhei bolsa no cursinho e estudei. Nunca
tinha me dado mal assim em prova. Sempre tinha passado nos desafios a que
me propus e ganhado até prêmios de redação/literatura. Foi uma grande
decepção comigo mesma. Eu prestei para ciências biológicas, mas, no fundo,
no fundo queria fazer medicina veterinária, pois a minha paixão são os
animais! Porém, tive medo de prestar, pois era muito imatura e achava que
não teria capacidade para proceder ao ver animais em sofrimento. Acho que
não fui muito bem orientada quanto ao curso de biologia e sinto muito
arrependimento por ter feito este curso. Já tinha começado o curso noturno
numa particular aqui perto, mas acabei sendo convocada para a outra que
ficava em outra cidade.

4
Os relatos de Balbina também foram encaminhados via correio eletrônico.
19

Vi que meus pais ficaram orgulhosos, afinal uma federal. Eu tinha dúvidas
dentro de mim se queria ir... mas meus pais pareciam empolgados. Hoje em
dia, ele me diz o contrário, que foi contra a minha ida para lá e que eu fui
teimosa... Eu não me lembro nada disso. Fomos, antes da matrícula, visitar a
cidade. Eu não gostei e me senti triste por ter que ir para lá, mas, afinal, não
podia desapontar meus pais.
No dia da matrícula e na primeira semana, continuei não gostando de lá. As
pessoas eram diferentes, tinha muita gente de classe social elevada e pessoas
do interior mesmo. Para vc ter uma ideia, na minha sala, de 60 alunos, só
havia eu e uma amiga minha que havia estudado em escola pública a vida
inteira. Para os demais, era tudo muito fácil, e eu não conseguia sentir
afinidade com aquelas pessoas.
Logo que cheguei percebi tb que a sua popularidade não era medida pela sua
simpatia, e sim pelo qto vc deixava de estudar para beber e se drogar. E para
mim nunca foi assim... eu nem bebia nada que contivesse álcool. Logo fui
encaixada na turma das nerds, sem sal. Com relação ao meu relacionamento
com a sala, foi assim durante o primeiro ano.
Não conversava com meus pais sobre nada, Litza... Só, agora, a partir de
outubro/2009, é que comecei a me abrir mais com eles, depois de eu ter
passado muito mal no trabalho e ter sido encaminhada para o pronto-socorro.
Na verdade eu não conversava com ninguém sobre isso, devo ter comentado
com minha melhor amiga na época. Achava que era só tristeza mesmo e falta
de adaptação, que logo se resolveria, pois eu estava tentando transferência.
Então, eu me sustentava nesta esperança.
Eu comecei a chorar sempre que tinha que ir para faculdade no domingo,
pois todos os finais de semana eu retornava para minha casa. Eram, contando
tudo, umas cinco horas de viagem. Eu ia chorando, escondida no ônibus e,
com o tempo, neste primeiro ano mesmo, sempre que eu tinha que pegar
aquele maldito ônibus, era uma tortura para mim. Eu passava mal do
estômago, sentia minha pressão baixar... Ainda bem que eles passavam filme
para distrair e tb eu sempre estava munida com algum recurso de áudio.
Quando eu chegava na cidade, era um desgosto. Só de escrever para vc e
lembrar, o primeiro sentimento que me vem é ódio. Eu me sentia muito
triste. A minha luz foi se apagando justamente nesta época. [...]

A tristeza era tão intensa que, em alguns momentos, já tentou se matar. Recentemente
perdeu o controle e ingeriu uma quantidade grande de vários remédios de uma só vez.
Precisou fazer lavagem gástrica e ficar internada no hospital alguns dias. Passou, então, a
recorrer a várias psicoterapias e relata ter tido muitas decepções com profissionais
despreparados, que muitas vezes a fizeram se sentir pior. Em 2009, por recomendação de uma
amiga, encontrou uma psicóloga cognitivo-comportamental. Segundo Balbina, foi ela quem
mais a ajudou a se conhecer melhor e identificar comportamentos que exigiam mudanças,
principalmente a necessidade de “diminuir a ansiedade, os pensamentos negativos e
desacelerar a mente”.
Decide fazer tratamento psiquiátrico com medicamentos. Entretanto, já foi viciada em
ansiolíticos e antidepressivos. Essa vulnerabilidade à dependência química a faz ter muita
vontade de encontrar um tratamento que a dispense do uso desses remédios. Por essa razão
20

tem tentado fazer acupuntura e se interessou muito pelo budismo, religião pela qual sentiu
grande afinidade. Além disso, busca aprender técnicas de meditação pela Internet. Mas,
muitas vezes, não resiste à ausência da medicação, pois acredita que a predispõe a ter crises
de pânico, eventos de autoagressão, insônia, dores no corpo e sensação de morte. O
sentimento é de grande fracasso e impossibilidade de encontrar uma saída.

[…] Não consegui passar a fase de abstinência dos remédios. Voltei a ter
crises de pânico, acessos de raiva e choro, vontade de autoagressão e insônia.
Tive um episódio esta semana no qual, durante uma crise, o desespero me
levou a cortar sozinha o meu cabelo (que era bem comprido e bonito, liso e
preto). Quando me refiro a desespero, quero dizer o quão viver muitas vezes
tem sido insuportável... as dores no corpo e essas sensações de morte a
qualquer momento. Consegui um encaixe de emergência, pelo SUS, com
outro psiquiatra, e ele disse que não tenho depressão, que sou disrítimica.
Suspendeu todas as medicações anteriores e prescreveu carbamazepina e
prometazina. Ele foi muito atencioso, fez muitas perguntas e já havia
estudado meu caso (o prontuário feito pelas psicólogas do programa). Fiquei
muito triste por ter que recomeçar e por ter fracassado. O bom é que pelo
menos consigo medicação gratuita pelo posto de saúde. Segunda tb começo
a realizar atividades físicas pelo posto. Estou tentando mostrar a todos que
sou forte, mas estou me sentindo uma fracassada, e que isto não vai acabar
nunca. Não tenho saído de casa, pois tenho medo de ter crises fora e me
envergonhar depois. Só saio com a minha mãe, e para coisas cotidianas,
como ir ao psicólogo e ao cabeleireiro reparar o estrago que eu fiz, rs. [...]

1.1.4 Eulálio
5


Assim como Matilde, Balbina e Maria, as primeiras experiências de sofrimento de
Eulálio surgiram na adolescência. Embora acreditasse que seus problemas haviam se iniciado
aos 17 anos, recentemente encontrou um diário escrito por ele aos 14 anos, onde há um relato
sobre seu pavor de sair de casa. O medo é vivenciado por Eulálio como um sentimento difícil
de enfrentar, que termina impondo limites à sua vida social.

[...] Me lembro agora de ainda com 14 anos ter receio de sair de casa para ir
a uma vendinha logo embaixo da casa. A casa era do meu padrasto, onde
minha mãe morava, e eu ficava durante o dia. Eu não queria ir, e minha mãe
insistia. Me lembro de episódios em que eu pedia que meu irmão fosse junto
e lembro também de uma cena quando eu fui à venda, completamente tenso
e antenado, e não olhava para os lados, a não ser para o que eu precisasse
comprar. Nos anos seguintes, sair de casa sozinho foi ficando cada vez mais
difícil, até para ir ao lado de casa. Nunca fui educado a frequentar casa de
amigos, ou a amigos frequentarem, eu não criei uma rotina de sair de casa

5
A maior parte dos relatos de Eulálio foi escrita e enviada por correio eletrônico. Em alguns momentos, também
houve comunicação por voz e vídeo pela Internet.
21

para encontrar pessoas. Ia à igreja, acompanhado, ou muito tensamente,
sozinho. Tínhamos uma banda juvenil na igreja, eu tocava bateria e violão, e
outros adolescentes eram vocais e instrumentais. Foi minha única interação
com adolescentes nessa fase e fora de casa. [...]

Hoje com 30 anos, e filho de pais assalariados, Eulálio tem a trajetória marcada por
esse sentimento de tristeza profunda, de sentir-se confuso com a vida, de ser incompreendido
pelos outros, de solidão e insatisfação. Seu medo se expressa como uma tensão na mente e ao
redor dos olhos, como uma sensação de escuridão.

[…] Ter depressão é não ter esperanças, não enxergar caminhos, raciocinar
errado. É ter vontade de ter alguém por perto, sem conseguir e sem estar
pronto ou amável o suficiente para tê-lo. É carência, sem a condição de
supri-la. É viver os anos sem se dar conta de como ou o que aconteceu.
A tristeza é constante, mas não é como a tristeza normal. A tristeza sentida
pelo depressivo é como uma tensão na mente, do lado de trás dos olhos; ao
redor do campo de visão, parece que tem um desconhecido, uma escuridão,
um medo. Os pensamentos saem todos propensos a um pessimismo terrível.
Falta amor, respeito, carinho, apesar de minha família estar sempre comigo.
Bom, eu pensei em suicídio durante um bom tempo. Minha mãe ficava louca
com isso, e até tentei escrever um texto justificando esse pensamento, e era
corriqueira a vontade de me suicidar, só que eu não o fiz por falta de
coragem de usar os métodos tradicionais.
Eu não me lembro do que vivi nesses anos todos de depressão. Mas sei dizer
que foi a mesma rotina. Não trabalhei, não estudei, fiquei na Internet
pesquisando os mais diversos assuntos de meu interesse, não tive namorada,
sexo, ficante, nem beijos. Tive foi rejeição por parte das pessoas que eu
conheci, tanto na igreja como em qualquer outro lugar, pois as pessoas não
estão prontas a entender alguém que não está com elas, não participa, não sai
com elas, não tem papos interessantes nem alegres, que foge delas.
Enfim, já andei de avião duas vezes, aqui pelo Brasil, com meu pai, para
eventos da igreja. Não tive nem nunca terei medo de avião, nem de qualquer
outro medo convencional que outras pessoas acham que os depressivos têm.
Mas temos medo de pessoas, de nós mesmos, da vida. [...]

Toda essa dor é tão insuportável a ponto de levá-lo a ter vontade de desistir de viver e
se entregar à morte. Para continuar vivo, Eulálio sente que precisa travar um combate
constante contra esses sentimentos. Nesse esforço, ele mobiliza uma série de recursos para
ajudá-lo a enfrentar essa batalha. Há uma instabilidade entre a vontade de abrir mão da vida e
o desejo de continuar lutando para realizar seus sonhos.

[…] Enfim, hoje pra mim é até nojento falar nesse assunto, mas a motivação
que me faz querer sobreviver hoje é a mesma que me fazia querer me
suicidar. Na justificativa que eu escrevi sobre o suicídio, eu teorizei que
existe um motor interno, e que esse, somado a outros fatores que eu não me
lembro, causavam o suicídio. Deixe-me tentar explicar: eu tinha pavor de
alguma coisa que eu realmente não me lembro agora. É estranho dizer isso,
22

mas eu fui tentar lembrar e não consegui. Enfim, esse pavor que eu tinha me
fazia pensar que eu seria entregue em mãos de pessoas malfeitoras, algo
assim, e que eu precisava me suicidar pra não passar por esse sofrimento,
algo que eu chamava instinto de sobrevivência, mesmo voltado para o
suicídio. É uma relação complicada.
Mas hoje eu vejo de outra forma. Hoje eu tenho um pavor, que é o de minha
mãe morrer, meu pai e madrasta morrerem, e meu irmão de alguma forma
me ignorar, e eu não ter como me sustentar na vida, tendo que morar de
favor ou vivendo em miséria. É um pavor normal até que, há algum tempo
atrás, me faria querer me suicidar, mas hoje me faz encarar as coisas
diferente. Eu tenho que me aperfeiçoar na minha área profissional, pra fazer
cliente, pra poder me sustentar e não viver na miséria. Percebeu o
pensamento? Eu não penso em me suicidar mais, mas combater esse destino
terrível com ações mais razoáveis, como trabalhar, estudar, etc. Interessante
notar que o que mudou minha atitude foi aquela minha estratégia de mudar a
mente. Eu já não pensava mais em me suicidar, mas em viver.
Bom, então hoje é assim: eu tenho medo de ficar na rua, sem ter onde morar,
sem ter como viver e combato isso tentando estudar, fazendo planos pra
arranjar trabalho na minha área, enfim, é isso que me move.
Parece simples, olhando dessa perspectiva, mas, de fato, quando se tem
depressão, o desânimo é tão grande quando não se usa a mente pra controlar
tudo. [...]


Figura " – Noturno - 1950

Fonte: Naves (1999).

Nos momentos de muita tristeza e desmotivação, Matilde diz que a vida perde a cor,
fica tudo negro e sem sentido. Balbina, em suas primeiras experiências de sofrimento
emocional, diz ter sentido sua luz se apagando a partir daquela circunstância. Eulálio vive sua
tristeza como uma tensão na mente e por trás dos olhos, uma espécie de escuridão e medo ao
redor do campo de visão. Essas imagens fazem lembrar a arte de Goeldi e a expressão usada
por Drummond para se referir aos seres que habitam o universo sombrio da obra desse artista:
“criaturas condenadas ao mundo”. As narrativas acima evidenciam a total ausência de sentido
23

para a vida e um sofrimento emocional tão insuportável a ponto de arrancar a vontade e o
desejo de seguir vivendo. A instauração dessa atmosfera ocorre a partir da primeira crise,
expressão usada por todos para se referir aos períodos marcados por grande tristeza,
descontrole, delírios, pânico, medos, desmotivação, dores no corpo, falta de esperança e
sensações de morte. A crise demanda um esforço de compreensão e exige uma atenção
permanente para seus sinais de aproximação. A vida passa a se organizar em torno das
tentativas de evitar uma nova recaída.

Figura # – Rua molhada

Fonte: Naves (1999).

A GOELDI
De uma cidade vulturine
vieste a nós, trazendo
o ar de suas avenidas de assombro
onde vagabundos peixes esqueletos
rodopiam ou se postam em frente a casas inabitáveis
mas entupidas de tua coleção de segredos,
ó Goeldi: pesquisador da noite moral sob a noite física.
Ainda não desembarcaste de todo
e não desembarcarás nunca.
Exílio e memória porejam das madeiras
em que inflexivelmente penetras para extrair
o vitríolo das criaturas
condenadas ao mundo.
És metade sombra ou todo sombra?
Tuas relações com a luz como se tecem?
Amarias talvez, preto no preto,
fixar um novo sol, noturno; e denuncias
as diferentes espécies de treva
em que os objetos se elaboram:
24

a treva do entardecer e a da manhã;
a erosão do tempo no silêncio;
a irrealidade do real.
Estás sempre inspecionando
as nuvens e a direção dos ciclones,
Céu nublado, chuva incessante, atmosfera de chumbo
são elementos do teu reino
onde a morte de guarda-chuva
comanda
Poças de solidão, entre urubus.
Tão solitário, Goeldi! mas pressinto
no glauco reflexo furtivo
que lambe a canoa de teu pescador
e na tarja sanguínea a irromper, escândalo, de teus negrumes
uma dádiva de ti à vida.
Não sinistra,
mas violenta
e meiga
destas cores compõe-se a rosa em teu louvor.
(ANDRADE, 1992, p. 278).



Figura $ – Sem título

Fonte: Naves (1999).
25

2 COMO ABORDAR O SOFRIMENTO EMOCIONAL?

2.1 PSIQUIATRIA

Nas trajetórias de sofrimento emocional, a procura pelo psiquiatra é considerada
fundamental. Faz-se importante ressaltar que, apesar de se encontrar na psiquiatria uma
diversidade de perspectivas, é possível observar um predomínio da visão biologizante. Vale a
pena, portanto, refletir acerca do modo de compreensão dominante nessa agência terapêutica.
Segundo o médico psiquiatra Geraldo José Ballone (2007), o último relatório da
Organização Mundial de Saúde (OMS) enfatiza que a depressão se deve a variações nas
respostas dos circuitos neurais, e estas, por sua vez, podem refletir alterações quase
imperceptíveis na estrutura, na localização ou nos níveis de proteínas críticas para a função
psíquica normal. Os neurotransmissores presentes no cérebro são chamados de mensageiros
químicos, pois transmitem os estímulos entre neurônios e podem atuar nas emoções. A
serotonina e a norepinefrina são os principais mensageiros químicos. A depressão envolve
uma alteração na quantidade de alguns desses neurotransmissores, assim como no número e
sensibilidade dos neuroreceptores. Paralelamente aos progressos da neurociência, diz Dr.
Ballone, ocorreram também avanços nos estudos da genética, de tal modo que quase todos os
transtornos mentais e comportamentais estão associados a um significativo componente de
risco genético.
Algumas pesquisas desse tipo realizam estudos com gêmeos geneticamente idênticos e
observam que eles têm entre 50% e 70% de possibilidade de concomitância da depressão,
enquanto os não idênticos têm entre 15% e 20%. Isto significa que, embora haja uma grande
influência da genética, a concordância entre gêmeos idênticos não chega a 100%; há,
portanto, outros fatores em jogo. Isso leva à hipótese de que os transtornos mentais e
comportamentais decorrem da interação de múltiplos genes com fatores ambientais, resumida
na fórmula, chamada pelo psiquiatra de original e centenária: Fenótipo = Genótipo +
Ambiente. O argumento é de que os gens trazem um conjunto de códigos transmissores de
informações sobre as especificações da forma orgânica, que posteriormente entram em
interação com o ambiente e fazem surgir o organismo.
O foco de investigação na psiquiatria volta-se para a esfera física; é nela que pode ser
encontrada a explicação de problemas estritamente situados no campo emocional. Há uma
cisão tão grande entre o orgânico e o psicossocial, que a psiquiatria, muitas vezes, não chega a
considerar as dores físicas como parte da depressão. Isso pode ser observado no pensamento
26

de Stahl (2011), conceituado psiquiatra americano e professor da Universidade da Califórnia,
que recentemente esteve em São Paulo para dar uma palestra a médicos brasileiros sobre
depressão e dor. Nessa ocasião concedeu entrevista a uma revista brasileira de grande
circulação, onde expôs algumas ideias, as quais se passa agora a comentar.
Em seu relato ele conta que há trinta anos, no dia a dia do consultório, vem recebendo
dos depressivos muitas queixas de dores físicas. Embora seja algo que acomete cerca de 80%
dos pacientes, durante muito tempo interpretou essas reclamações como fantasia deles.
Segundo o psiquiatra, nos manuais de medicina os sintomas da depressão são: perda de
vitalidade ou de interesse pela vida, dificuldade de concentração, sentimento de culpa,
problemas com o sono (excesso ou falta dele), pensamentos ou atos suicidas, alterações de
apetite e peso (tanto ganho, quanto perda), comprometimento da habilidade psicomotora
(agitação ou lentidão). Nenhum desses sintomas se refere a dores físicas. Os psiquiatras, diz
Stahl (2011, p. 6), têm medo da dor física porque não sabem o que fazer com ela.

[...] Se um paciente me procura reclamando de insônia, tristeza e dor, não
adianta nada eu só tratar a insônia e a tristeza, como a maioria dos
psiquiatras faz. O conceito de remissão de cura completa prevê o
desaparecimento de todos os sintomas depressivos. Oito de cada dez
pacientes com depressão moderada ou grave apresentam algum tipo de dor,
em maior ou menor grau. Ou seja, estamos falando de milhões de pessoas
em todo o mundo que não se recuperam do quadro depressivo
completamente, porque continuam a sentir um sintoma que não é
reconhecido como do âmbito da doença. [...]

Para o psiquiatra, o fundamento de qualquer quadro depressivo deve ser buscado no
funcionamento do cérebro. À medida que foi se aprofundando nesses estudos sobre os
circuitos cerebrais, encontrou uma explicação para as dores físicas dos depressivos.

[...] Entendi que os neurotransmissores (substâncias químicas responsáveis
pela comunicação entre os neurônios) envolvidos nos quadros depressivos
estavam associados também à sensação de dor e poderiam ser afinados com
medicamentos tal qual um músico afina seu instrumento [...] (STAHL, 2011,
p. 8).

Stahl (2011) revela que ficou com muita vergonha ao tomar conhecimento de que as
dores dos seus pacientes eram “reais”. Nos anos 90, diz o psiquiatra, com o uso dos
antidepressivos com ação em serotonina e noradrenalina (neurotransmissores associados à
sensação de bem-estar), foi possível perceber uma melhora nos quadros de dor.
27

O psiquiatra esclarece também que não há nenhuma diferença entre a dor decorrente
de um quadro depressivo e outros tipos de dor. A sensação é a mesma, mas, quando se
investiga, não é encontrada nenhuma justificativa orgânica para ela. Segundo ele, isso
comprova que a dor física do depressivo não está no corpo, mas no cérebro, onde é
processada equivocadamente. A maior parte dos pacientes não acredita que aquela dor pode
ser sintoma da depressão.

|...j A uoi causaua pela uepiessão é muito semelhante à chamaua uoi
fantasma, comum entie os amputauos. 0ma pessoa que peiueu a peina,
poi exemplo, poue sentii o pé uoei. Isso acontece poique os ciicuitos ua
meuula espinhal, iesponsáveis pela tiansmissão uos estimulos entie o
pé e o céiebio, ainua estão lá, funcionanuo. A peicepção ua uoi é no pé e
não no céiebio. |...j (STAHL, 2011, p. 9).

Dores desse tipo não podem ser suprimidas com analgésicos. O cérebro, em seu
funcionamento normal, envia estímulos nervosos pela medula espinhal para inibir sensações
consideradas irrelevantes, como a digestão, interpretada como inútil – por isso não a sentimos.
Da mesma forma se uma pessoa levar um tiro e precisar fugir, provavelmente só vai sentir dor
quando estiver a salvo. Essa inibição da dor é uma proteção que o organismo lança mão em
defesa da sobrevivência. O que ocorre em situações de depressão é que esse processo fica
enfraquecido, e o paciente sente dor sem que haja estímulo doloroso. Por fim, Stahl chama a
atenção para os riscos de não se tratarem essas dores.

[...] O cérebro funciona graças a uma rede precisa de conexões, em que um
circuito depende de outro. Na depressão, alguns desses circuitos funcionam
mal, o que leva à falta de vitalidade, aos problemas de sono e à dor, entre
outros sintomas. Se apenas parte desses circuitos é tratada, é grande o risco
de o circuito doente prejudicar o equilíbrio dos outros. E quanto mais o
tempo passa, pior. Os circuitos responsáveis pela sensação de dor são
diabólicos. Se não forem cortados, eles se fortalecerão. É como um músculo.
Se usamos a musculatura, ela enrijece. Do contrário, atrofia. Uma pessoa que
sente dor durante muito tempo tem circuitos de dor viciados e terá mais
dificuldade de ser tratada. [...] (Stahl, 2011, p. 9)

O modo de compreender e explicar a depressão sob a ótica da psiquiatria se situa na
esfera do organismo, mais especificamente no cérebro: é nele que se encontraria a chave do
entendimento do comportamento depressivo. Por outro lado, as ciências sociais dedicadas à
saúde emergem a partir da afirmação das limitações da compreensão biomédica voltada para
os processos de adoecimento. O foco principal é indicar a insuficiência da compreensão da
28

enfermidade apenas em termos orgânicos, subtraindo a importância das determinações
sociais.

2.2 PERSPECTIVA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS EM SAÚDE

Uma interessante revisão crítica feita por Alves (2006) oferece um bom panorama dos
principais quadros de referência das ciências sociais em saúde. Sua análise começa pela teoria
de Parsons, grande referencial de base sistêmica e responsável pela realização de um dos
primeiros estudos nessa área. As concepções parsonianas sem dúvida alguma representam um
marco importante de afirmação dos fundamentos sociais da doença.
Contrapondo-se à concepção médica, redutora da enfermidade ao campo biológico,
Parsons (1951 apud ALVES, 2006) destaca a presença de uma dimensão social ou
psicossocial nos fenômenos de saúde e doença. Estabelece as bases conceituais para uma
abordagem dos aspectos sociais das enfermidades. O entendimento das ações humanas
dirigidas à doença, segundo Parsons, remete sempre a um sistema coerente e ordenado de
ideias, símbolos e representações acerca da enfermidade, internalizadas pelos atores e
aguardando serem identificadas nos estudos. Assim emerge a importante noção de sistema
médico, compreendido como um conjunto de concepções e práticas relacionadas aos cuidados
com a saúde.
Investigações desenvolvidas segundo o enfoque parsoniano buscam identificar
regularidades nas formas de agir frente à enfermidade, cuja explicação remeteria a um sistema
simbólico. Ao estudar situações como as relatadas acima, tenderiam a se centrar na orientação
de decodificar o universo de sentidos e significados do adoecimento mental, relativo ao
contexto histórico e social em questão. Portanto, tratariam de investigar as concepções
dominantes acerca das doenças e suas formas de tratamento, compondo um grande e coerente
sistema médico, com o qual explicariam os diversos modos de lidar com a doença adotados
pelas pessoas. Tais estudos permitem comparações entre distintas culturas e suas diferentes
concepções de doença.
Posteriormente alguns pesquisadores chamaram a atenção para a dificuldade de
encontrar esse sistema médico coerente e unificado numa totalidade. São estudos que apontam
para a presença de uma pluralidade de concepções nos contextos investigados, muitas vezes
antagônicas e que ressaltam ambiguidades e conflitos, marcando as trajetórias dos indivíduos
em busca de uma resolução para problemas de saúde. Este argumento é defendido por
Freidson (1970 apud ALVES, 2006, p. 1548), para quem a compreensão das enfermidades
29

depende do estudo das estruturas cognitivas, por meio das quais indivíduos ou grupos
pertencentes a um mesmo contexto social vão formulando diferentes modos de lidar com a
doença.
Em finais da década de 1950, muitos pesquisadores passaram a seguir essa orientação.
São trabalhos que podem ser divididos em duas grandes vertentes: uma mais voltada para
compreensão de aspectos psicológicos, relacionados à maneira de perceber e enfrentar a
doença, e outra que concebe as diferenças nas concepções como decorrentes de fatores como
classe, etnia e faixa etária. São tendências que, embora se distanciem da perspectiva mais
macrossociológica parsoniana, permanecem adotando o modelo de sistemas, ou seja, a
compreensão dos modos como os indivíduos e grupos sociais interpretam e orientam suas
condutas sempre se refere a representações sociais expressas em sistemas cognitivos.
Alves (2006) chama a atenção para o número significativo de pesquisadores no campo
da saúde que atualmente ainda orientam seus trabalhos pela noção de representações sociais.
Tais investigações partem da premissa de que os indivíduos descrevem e explicam seus
sofrimentos de acordo com a interiorização de valores e concepções dos grupos sociais onde
estão situados.
No início da década de 1980, as pesquisas voltadas para experiência da doença
anunciam um novo arco interpretativo, na medida em que dedicam mais atenção a situações
práticas vividas por sujeitos em contextos específicos. Considerados os principais expoentes
dessa nova abordagem, Good (1977, 1994 apud ALVES, 2006, p. 1551) e Kleinman (1980,
1988 apud ALVES, 2006, p. 1551), fundamentados teoricamente em Geertz (1977 apud
ALVES, 2006, p. 1551), Berger e Luckmann (1967 apud ALVES, 2006, p. 1551), ressaltam o
caráter compartimentalizado dos sistemas de saúde, divididos em subsistemas e expressos,
segundo Kleinman (1973, 1978, 1980 apud ALVES, 2006, p. 1551), em três grandes arenas:
profissional, folk e popular. Daí emerge o conceito de modelos explicativos, entendidos como
um conjunto de compreensões acerca da doença, seus sintomas e formas mais adequadas de
tratar, assumidas pelos indivíduos nos diferentes sistemas de cuidados à saúde.
Essas perspectivas abrem a possibilidade de, em situações como as expostas,
compreender os modos de explicar e enfrentar a doença nos diferentes tratamentos a que se
recorre ao longo das trajetórias de sofrimento e permitem a comparação entre vários sistemas
de significados nas distintas terapias: religião, psiquiatria, psicologia etc. Além disso,
oferecem espaço para observar melhor o modo como as pessoas passam a ingressar em um
itinerário terapêutico, formulando suas concepções sobre a doença e maneiras de tratar
conforme avaliações dos modelos de compreensão e práticas advindos dos diversos setores.
30

Alves (2006) reconhece a ruptura promovida por esses trabalhos e salienta uma série
de características diferenciadoras dessas investigações: afirmam a impossibilidade de ajuste
completo entre a subjetividade dos atores e a objetividade dos sistemas; enfatizam os
fundamentos sociais do comportamento, em oposição às perspectivas mais psicologizantes;
apontam para inexistência de um sistema lógico da ação e para uma permanente tensão entre
diversas lógicas; ressaltam a importância de as investigações não se restringirem ao estudo
das representações, mas se estenderem, sobretudo, ao domínio das relações tecidas entre os
diversos indivíduos envolvidos na lida com a enfermidade.
Em linhas gerais, esses estudos chamam a atenção para insuficiência da compreensão
biomédica acerca da doença. Seu foco principal é revelar, para além dos aspectos físicos, todo
um universo de significados atribuídos à enfermidade. Em todos eles encontra-se a noção de
uma doença em si, que apresenta sinais físicos, e sobre a qual se formulam distintas formas de
interpretação. Na base das diferentes propostas de uma sociologia ou antropologia da saúde,
está uma cisão entre dois campos distintos: o primeiro refere-se aos aspectos orgânicos
morfofisiológicos da doença (disease), estudados pela biomedicina, e o segundo se dirige à
experiência subjetiva da enfermidade que, segundo muitos autores, remete aos diversos
sistemas de conhecimento voltados para compreensão, explicação e enfrentamento da doença
(illness), domínio de atuação das chamadas ciências da cultura.
As primeiras investigações dedicadas à dimensão social da doença foram de
importância fundamental para o desenvolvimento da sociologia da saúde. São trabalhos que
partem do princípio de que existe uma dimensão biológica da enfermidade a ser tratada pela
ciência médica, e uma esfera social, para a qual as ciências sociais devem se voltar. Tem-se,
assim, a moderna divisão teórica entre o aspecto da cultura e o da natureza relacionados à
enfermidade. O foco de interesse das ciências sociais em saúde se concentrou na investigação
de como a doença é percebida, interpretada e definida pelas diferentes culturas, etnias,
comunidades, classes e grupos sociais. Situações de sofrimento como as de Matilde, Eulálio,
Maria e Balbina tradicionalmente vêm sendo estudadas por cientistas sociais apenas em suas
dimensões culturais. Isso significa reconhecer a interligação entre natureza e cultura, mas
tomá-las como sistemas independentes e estudá-las separadamente. Desse modo se garantiu
um campo de atuação específico para o cientista social, um domínio de sua propriedade.
Tanto a perspectiva da psiquiatria quanto a das ciências sociais em saúde (voltadas
apenas para as dimensões culturais do adoecimento) enfrentam a mesma fragilidade: a adoção
do modelo de sistemas, ou seja, partem da noção de esferas separadas, tomadas como
totalidades dadas a priori, que estabeleceriam relações exteriores de causalidade. Esse modelo
31

de compreensão parte do pressuposto de que cada totalidade tem uma existência própria e
relativamente autônoma que estabelece com as outras apenas relações exteriores de
causalidade. Pensar dessa forma significa identificar fatores biológicos determinantes da
depressão que operam independentemente da interação, representando um sistema dado, que
só posteriormente interage com as circunstâncias sociais. Por outro lado, embora a cultura seja
pensada segundo condicionantes opostos à natureza, pois seria o reino da liberdade criativa
dos humanos, domínio da subjetividade, é estudada como sistema unificado de significados
dados e incorporados pelos indivíduos por meio da assimilação de valores posteriormente
usados para controlar a natureza. A análise segue pautada na lógica do sistema. Daí resulta a
forma de conceber o sujeito humano como o lugar da consciência, definido em oposição ao
mundo, que está profundamente arraigado no nosso modo de compreender a realidade.
Isso significa tomar cultura e natureza como esferas autônomas, ou seja, sistemas pré-
dados, compostos por partes inter-relacionadas e mantidas por certas regularidades a serem
descobertas pela ciência. Trata-se de um pressuposto bastante problemático, na medida em
que cada sistema prescinde do outro para ser compreendido e explicado, o que significa que
só admitem relações exteriores entre si, baseadas em causalidade.
Bem diferente era a compreensão dos gregos na Antiguidade, quando os médicos
costumavam prescrever aos pacientes, além das poções, a ida ao teatro (STOKLOS, 2001, p.
13). Partiam do pressuposto de que os remédios só se processariam quimicamente no corpo
quando no espírito se operasse também uma transformação. Alguns tipos de psicoterapias e
terapias religiosas muitas vezes proporcionam uma imersão semelhante à do teatro. Trata-se
de situações produtoras de uma poderosa experiência transformadora, que faz emergir
emoções, via um processo em que a dimensão orgânica dificilmente pode ser dissociada da
simbólica. No entanto, a fratura que passa a dividir o trabalho acadêmico na modernidade,
situando, de um lado, as disciplinas que lidam com a cultura e, do outro, os campos do
conhecimento que se voltam para o mundo das formas orgânicas, dificulta a compreensão de
vivências desse tipo.
A identificação de tal cisão nos conduz a algumas questões fundamentais. Em
primeiro lugar, faz-se necessário compreender os pressupostos filosóficos dessa dicotomia,
suas fragilidades e implicações nos estudos socioantropológicos. A concepção cartesiana
constitui o fundamento filosófico desse fosso entre natureza e cultura. Ao situar o pensamento
como próprio do homem e separá-lo de todo o resto, o extenso, aquilo que, contrariamente ao
pensamento, manifesta-se no espaço, Descartes promoveu uma fissura de grandes
consequências. A separação do existente em duas esferas ontológicas distintas colocou de um
32

lado as substâncias extensas (res extensa), passíveis de serem medidas e descritas
matematicamente, e do outro a consciência ou o “ser pensante” (res cogitans), gerando uma
dificuldade de compreender como ambas se relacionam, pois a origem e a manutenção dos
sistemas aparecem como garantidas de modo independente (JONAS, 2004, p. 95).

2.3 FRAGILIDADE DO MODELO DE SISTEMA

Embora Hans Jonas tenha se dedicado à interpretação ontológica dos fenômenos
biológicos, vale a pena observar a interessante crítica feita por ele a essa noção de sistemas.
Conforme se verá, sua análise ilumina pressupostos filosóficos também presentes nas ciências
sociais e ajuda a repensar esse abismo a separar os campos do conhecimento e a dificultar a
compreensão das experiências vividas em situações de sofrimento emocional.
Cada sistema é compreendido como um conjunto de elementos unidos por certos
princípios garantidores de unidade na multiplicidade, que preservam a continuidade do
sistema. Tal noção supõe um fechamento e uma delimitação que distinguem o sistema do que
está fora dele. Do ponto de vista ontológico, o problema gira em torno do conceito clássico de
substância inativa fechada em si mesma, aquilo que não precisa de nenhuma outra coisa para
existir (JONAS, 2004, p. 78).
A premissa subjacente é de que a natureza, partindo de uma condição de desordem e
estando aberta a diversas possibilidades, foi capaz de produzir sistemas harmônicos por mero
acaso, por força cega, sem nenhum princípio diretor. A emergência do sistema é vista como
resultante de uma casualidade dentro de um desordenado leque de possibilidades. Em seguida,
essa configuração que ganhou forma entre todas as outras que poderiam ter surgido, passa a
ser tomada como modelo, determinado a repetir sistematicamente seus modos de organização.
O sistema afasta a indeterminação e reduz a vida a modelos estáticos sem vida (JONAS, 2004,
p. 76).
As perspectivas teóricas que abraçam uma concepção de sistema tendem a se
concentrar nas regularidades, no que está cristalizado ou institucionalizado, e a excluir a
inovação, a não conformidade. São princípios que não operam com a indeterminação, mas
com previsão do que deve acontecer. Qualquer variação na ordenação entre as forças que
compõem o sistema são difíceis de serem explicadas por esse ponto de vista.
A apropriação dos princípios cartesianos pelas ciências sociais embasou uma
concepção da realidade social, e também do organismo humano, como sistemas autônomos,
passíveis de serem estudados objetivamente. Esse modelo encontra-se na base de todas as
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grandes teorias sociais. Ou seja, da dicotomia cartesiana parecem derivar a noção de natureza
como sistema fechado no cativeiro da substância e a de indivíduo humano cindido em duas
esferas (orgânica e psíquica). Posteriormente esta concepção é transferida para a sociedade,
que passa a ser vista como uma espécie de segunda natureza.
Ao conceber o pensamento como separado de tudo o que existe no espaço, fica-se
impossibilitado de resolver esse dilema da relação entre essas duas esferas autônomas. É uma
ontologia naturalista, pois afirma a existência de uma realidade objetiva, um sistema regulado
por leis, mas, por outro lado, situa um sujeito epistemológico, limitado por condições
materiais objetivas, que, no entanto, seria capaz de conhecer objetivamente essa realidade e
transformá-la. Haveria aí uma aporia que só pode ser superada na escolha de um dos
caminhos, ou existe uma realidade objetiva independente, que pode ser captada objetivamente
por um sujeito, e nesse caso ele não pode ser pensado como sofrendo suas determinações, ou
existe um sujeito histórico que constitui a realidade social a partir de sua práxis (SANTOS,
1990, p. 29).
É um modelo, portanto, que ameaça a própria noção de história, entendida como
possibilidade aberta à emergência do novo, pois o movimento do sistema representa a sua
repetição periódica, o que significa que ele só possui história nos momentos de constituição
ou de dissolução. Dentro da noção de sistema, a organização se dá em torno da ideia de
conservação, o novo só é admitido sob a forma de decadência.
Considerar a cultura e o organismo como sistemas sujeitos a uma ação cíclica, descrita
em termos de regularidades, é uma necessidade para todo conhecimento que trata de servir
aos interesses técnicos dos homens, pois a atitude da técnica só pode aplicar-se a objetos cujo
comportamento é essencialmente constante e previsível. O mecanismo de ação proclamado
por essas ciências pode suscitar uma tendência a perceber o mundo como uma coleção de
objetos manipuláveis, e o processo vital, como um conjunto de problemas técnicos.
Fundamentando essas concepções, está o projeto moderno de ordenação do mundo por meio
da ciência.
Ao conceber natureza e cultura como duas ordens de realidade distintas, que
estabelecem entre si relações exteriores de causalidade, essa perspectiva nos coloca diante de
um grande embaraço: explicar de que maneira ambas emergem como totalidades
independentes uma da outra. A questão central aqui não é nem de acrescentar a dimensão
social à orgânica, como tradicionalmente vem sendo feito pelas ciências sociais, nem apenas
incluir o orgânico como mais uma categoria de análise, mas repensar o fenômeno da vida.
Trata-se de buscar entender as complexas e heterogêneas tramas em que natureza e cultura
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vão se fazendo mutuamente na produção da vida. Passo a explorar essas novas perspectivas
no tópico seguinte.

2.4 TRILHAS DE SUPERAÇÃO DA DICOTOMIA

À medida que o presente trabalho de investigação foi se desenvolvendo, e seguindo as
trajetórias do sofrimento emocional, se percebeu a dificuldade de compreender esse fenômeno
estudado dentro das perspectivas teóricas e metodológicas tradicionais. Foi preciso navegar
outros territórios e construir novas possibilidades de compreensão. Nessa viagem, foi
fundamental ter contato com alguns pesquisadores que estão buscando enfrentar o desafio de
repensar o fosso entre natureza e cultura. São investigações que seguem semeando abordagens
plenas de consequências para as ciências sociais em saúde. Alguns trabalhos abrem um novo
arco interpretativo e promovem uma revisão realmente significativa dessas perspectivas
sistêmicas. Trata-se de considerar natureza e cultura não mais como totalidades dadas, ligadas
por relações exteriores, mas como dimensões vividas e articuladas dentro de práticas. Um
exemplo dessa nova orientação é o trabalho desenvolvido pela etnógrafa e filósofa Annemarie
Mol.
Tanto a psiquiatria, quanto a tradição das ciências sociais em saúde partem do
pressuposto de que o organismo é uma totalidade dada. A sistemática coerência do corpo,
evocado como modelo característico do que é um todo pela tradição teórica ocidental, em
geral, nunca é questionada. Diferentemente desse ponto de vista dominante na biomedicina
(mas também nas ciências sociais), Mol (2004) argumenta que no corpo a coerência não é
autoevidente, mas permanentemente perseguida. Entretanto, embora não considere o corpo
uma totalidade dada, Mol também não o compreende como fragmentado, ou seja, o corpo não
é nem um todo nem uma série de fragmentos. Isso porque ele tanto pode se dirigir para a
fragmentação, quanto para integração. Nosso corpo abriga uma complexa configuração de
tensões e conflitos que precisam ser enfrentados para garantir a unidade. Há tensões entre os
órgãos do corpo; entre os controles internos e o caráter instável de seus comportamentos; e
entre as várias necessidades e desejos que os corpos tentam combinar com vistas a perseguir a
totalidade. Manter alguém integrado é algo que exige um trabalho das pessoas, e quem falha
em fazer isso morre (MOL, 2004, p. 15-16).
Se não há um corpo pensado como um sistema independente, mas modos de produzi-
lo, não há, portanto, razão para se falar na doença como uma realidade única, sobre a qual se
formulam diversos pontos de vista (postura ainda presente nas ciências sociais voltadas para o
35

campo da saúde). Além disso, da mesma forma que não há um corpo unificado numa
totalidade dada a priori, também não é possível encontrar um sistema integrado de
significados que definam a doença de uma vez por todas.
A pergunta o que é a doença? deixa de fazer sentido, pois não se trata mais de buscar
o significado último dos eventos e de encontrar neles uma explicação para as práticas.
Perguntar o que é o sofrimento de Matilde, Eulálio, Balbina ou Maria resultaria em diferentes
respostas, a depender do espaço onde se formula o questionamento, ou seja, o ambiente onde
a doença está situada. Na psiquiatria, é algo que remete ao funcionamento do cérebro; na
psicologia, em geral, se relaciona a uma vivência traumática; e, na terapia religiosa, se dirige
para o universo espiritual. Vale ressaltar que não se trata aqui de uma referência a
interpretações diferentes em cada situação, mas de distintos modos de vivenciar e produzir o
sofrimento emocional.
O caminho de estudar as concepções sobre a enfermidade, tradicionalmente trilhado
pelas ciências sociais voltadas para o campo da saúde, segundo Mol, não é uma via segura
para se chegar à própria doença. Dirigir a atenção apenas para o significado é deixar de levar
em consideração a importante realidade física do corpo. Em um mundo de significados, diz a
autora, ninguém está tocando a realidade da doença, todos estão apenas formulando
interpretações sobre ela. Em meio a várias interpretações, a doença não está em nenhum lugar
para ser encontrada. Os estudos centrados nos significados multiplicam os observadores e
mantêm o objeto observado isolado. Desse modo, não se ocupar das perspectivas, mas sim
das práticas, das materialidades e eventos que vão fazendo a doença pode ser muito mais
revelador (MOL, 2002, p. 11).
Esse deslocamento do foco de estudos dos sistemas de significados para as práticas
parece apresentar uma boa alternativa de superação das tradicionais dicotomias, na medida em
que considera não haver totalidades formadas a priori, mas perseguidas em um campo de
ação. Desse modo vai se descortinando um caminho de compreensão do mundo não mais
como realidade dada, mas produzida por diversos elementos. A premissa é de que não há uma
doença independente do que se pensa e se faz, ou seja, agir, ser afetado, pensar e sentir
caminham juntos no desenvolvimento dos processos de adoecimento e tratamento. E assim,
seguimos nos tornando, enquanto nos empenhamos em tentativas de manter a totalidade
integrada.
Além de Annemarie Mol, o trabalho desenvolvido por Tim Ingold também segue essa
atitude de considerar que não há totalidades dadas; há totalidades sendo perseguidas em um
campo de práticas. Ambos chamam a atenção para a necessidade de buscar superar essa
36

fratura que divide o mundo acadêmico em disciplinas que lidam com a mente humana e seus
produtos linguísticos, culturais e sociais e em campos do conhecimento que se voltam para o
mundo das estruturas orgânicas. Ingold investiga como a biologia ou as ciências da cultura
definem, conhecem e tiram conclusões acerca de seus objetos de estudo. Interessa-lhe
compreender as transformações vivenciadas ao longo do tempo. Mol dedica-se a um trabalho
etnográfico, seus estudos apresentam uma interessante orientação metodológica para as
ciências sociais. Ela se ocupa dos eventos onde a vida vai sendo feita. Sua atenção volta-se,
portanto, para as práticas.
Enquanto Mol se dedica a investigar como a doença vai sendo atuada em cada um dos
espaços, Ingold está mais voltado para o entendimento de como essa atuação vai produzindo
novas formas de ser. Se, por um lado, Mol vai compondo enquadramentos e esboços de cenas
separadas, como instantâneos, por outro, Ingold está mais interessado nas transformações que
vão ocorrendo no desenrolar das interações em cena. Seu foco é sobre o aprendizado que vai
se dando ao longo das trajetórias, é justamente ao estudo dessa aquisição de habilidades que
ele se dedica.
Há algo de errado, diz Ingold, com a antropologia cultural ou social quando esta não
apoia o fato de que a existência humana é organismo biológico envolto em processos de
desenvolvimento semelhantes aos de outros organismos; da mesma forma que há algo de
errado com a antropologia biológica ao recusar qualquer coisa que se aproxime do papel de
agência, intencionalidade ou imaginação (INGOLD, 2000, p. 2). O que se chama diferença
cultural consiste, em primeiro lugar, em variações nas habilidades que se desenvolvem e são
incorporadas aos organismos humanos por meio de práticas e treinamentos no ambiente, em
um processo no qual corpo e mente não se separam. Assim sendo, como propriedades de
organismos humanos, as habilidades são tanto biológicas quanto culturais (INGOLD, 2000, p.
5).
Diferentemente de Mol, o trabalho de Ingold oferece uma contribuição importante
para compreensão de como os engajamentos práticos, aos quais Mol se refere, conduzem ao
desenvolvimento de habilidades específicas ao longo das trajetórias de vida. Este é o tema
sobre o qual Ingold volta-se mais detidamente. Ao assumir como ponto de partida a unidade
dinâmica organismo e ambiente, a antropologia deixa de se dedicar primordialmente aos
sistemas culturais, do modo pelo qual tradicionalmente as ciências sociais têm feito, e se
dirige para os engajamentos em que indivíduos coexistem no mundo com seres diversos.
Interessa ao antropólogo compreender os processos de aprendizagem por meio dos quais
participamos de um mundo comum, nos fazendo junto com ele.
37

Seus estudos se constituem em um mergulho mais profundo na investigação do que
chama sinergia organismo e ambiente. Por essa razão, volta suas pesquisas para o campo da
biologia, pois, segundo a perspectiva genética ortodoxa, as características formais do
organismo incipiente são copiadas junto com o DNA antes de sua interação com o ambiente.
Seu pressuposto é de que organismos são efeitos de causas genéticas e ambientais. Ingold,
pelo contrário, argumenta que copiar já é um processo que ocorre dentro do contexto de
interação organismo e ambiente. Assim, é impossível repartir causalidade entre fatores
genéticos e ambientais, pois não é em nenhum dos componentes dos sistemas em interação,
tomados individualmente, que os limites do processo haverão de ser encontrados, mas nas
relações entre eles (INGOLD, 2001, p. 124).
Vimos que a aplicação do modelo biológico ao sofrimento emocional pela psiquiatria
leva à ideia de que a maior parte dos problemas psíquicos tem um fundamento genético. Tal
afirmação parte do pressuposto de que os gens trazem um conjunto de códigos transmissores
de informações sobre as especificações da forma orgânica, estes últimos definidos a priori,
portanto, independentemente de uma interação. Apenas em um momento posterior, esse
sistema de códigos genéticos entraria em interação com o ambiente. Esta concepção toma a
esfera do organismo e a do ambiente como sistemas autônomos, realidades dadas e passíveis
de serem estudadas e compreendidas de modo independente uma da outra.
Diferentemente desta linha de pensamento, Ingold afirma que a própria formação da
carga genética e seu processo de cópia do DNA já acontecem numa situação de interação
organismo e ambiente. Em jogo aqui está a consideração de que os processos orgânicos e
históricos não estão apartados. Comumente, organismo e pessoa são concebidos como
componentes separados da existência humana. Entretanto, argumenta Ingold, uma pessoa é
organismo, e não algo que lhe é acrescentado. O que nos impede de ver dessa maneira é uma
determinada concepção de organismo como uma realidade limitada por certas fronteiras, algo
vivendo e se relacionando com outros organismos no ambiente por meio de contatos externos,
mas que não afetam sua base interna. Mas, se pessoa é organismo, então os princípios do
pensamento relacional, longe de ficarem restritos ao domínio da sociabilidade humana, devem
ser aplicados certamente sobre sua continuação na vida orgânica. Para Ingold, humanos são
trazidos para a existência como organismos – pessoas dentro de um mundo que é habitado por
existências de vários tipos, tanto humanas, quanto não humanas. As relações humanas que
estamos acostumados a chamar de sociais são um subgrupo das relações ecológicas
(INGOLD, 2000, p. 3).
38

Do mesmo modo que a biologia neodarwiniana postula um desempenho para o
organismo, a ciência cognitiva postula aparatos cognitivos inatos e geneticamente
determinados na mente, que garantem todo o aprendizado e aquisição de conhecimento
subsequentes. A imagem da mente como recipiente, presente na ciência cognitiva, traz uma
noção de competência que sugere uma cognoscibilidade desligada da ação e dos contextos de
envolvimento corporal de atores com o mundo (INGOLD, 2000, p. 13).
De forma corajosa e determinada, esse antropólogo enfrenta o importante debate
acerca da dicotomia estabelecida pelo argumento neodarwiniano e pela ciência cognitiva de
que há competências que têm uma base inata, que são distintas daquelas fundadas em
conteúdo mental adquirido. As primeiras seriam decorrentes de um processo evolucionário e
referem-se a mudanças fundamentalmente genéticas, e as segundas diriam respeito a
mudanças em reservatórios de representações culturais e pertenceriam a uma trajetória
histórica. Daí se presume que, ao longo da história de mudanças na composição desse
reservatório, a arquitetura evolutiva da mente humana permaneceu essencialmente constante.
Na perspectiva da ciência cognitiva, observa Ingold, um desenho para a mente é
copiado junto com o DNA do genoma e constituem mecanismos concretos no cérebro, antes
de ser aberto a influências diferenciadoras do ambiente. De acordo com ele, ao contrário, a
própria cópia faz parte de um processo de desenvolvimento dentro do ambiente. Essa cópia,
para Ingold, não é uma transcrição automática de dispositivos cognitivos, mas uma questão de
seguir, nas ações individuais, aquilo que as outras pessoas fazem. Seria por meio desse
trabalho de imitação que as bases neurológicas das competências humanas vão se
estabelecendo. A modularidade da organização neural não seria inata, mas fruto de processos
de desenvolvimento, como propriedades de auto-organização dinâmica do campo total de
relacionamentos no qual a vida de uma pessoa desabrocha.
Buscando superar a cisão entre inato e adquirido, Ingold argumenta que os
mecanismos supostamente inatos que garantiriam, por exemplo, a capacidade de falar,
agarrar, subir, comer e beber da criança não são construídos num vácuo, mas emergem em
contextos de envolvimento sensorial, em um ambiente altamente estruturado. É dentro do
ambiente que se formam as conexões neurológicas necessárias, junto com os aspectos
auxiliares da musculatura e anatomia, que desenvolvem essas várias competências.
Segundo Ingold (2001), os organismos, por meio de um trabalho de maturação em um
campo de prática, moldando ambientes para suas próprias gerações e as futuras, contribuem
diretamente para evolução das capacidades humanas. Hutchins (1995 apud INGOLD, 2001, p.
133), em estudo sobre as tarefas computacionais implicadas na navegação marítima, observa
39

que os “humanos criam seus poderes cognitivos criando os ambientes nos quais eles exercem
esses poderes”. Este, para ele, é o processo de cultura ou história. Hutchins compara o
navegador humano à formiga, que deve sua habilidade aparentemente inata de localizar fontes
de alimento, com precisão impressionante, aos rastros deixados no ambiente por
predecessores incontáveis. Apague os rastros e a formiga está perdida. Do mesmo modo
estariam os humanos sem cultura ou história.
A conclusão de Ingold é que as capacidades supostamente culturais dos seres humanos
são constituídas dentro de um processo de evolução. Seu ponto é que a história, compreendida
como o movimento pelo qual as pessoas criam os seus ambientes e, portanto, a si mesmas,
não é mais do que uma continuação do processo evolucionário, como definido acima, no
terreno das relações humanas. Tendo dissolvido a distinção entre o inato e o adquirido,
descobrimos que a distinção entre evolução e história também desaparece com ela.
As reflexões propostas por Ingold e Mol inspiraram e orientaram a atitude ao longo do
trabalho de pesquisa. No próximo tópico, será exposto mais detalhadamente o sofrimento
emocional das pessoas cujas trajetórias foram acompanhadas.













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3 MODOS DE ATUAR NA PSIQUIATRIA E PSICOTERAPIA

Neste capítulo, serão abordadas as transformações vivenciadas pelas pessoas
pesquisadas a partir da emergência dos primeiros sinais, a começar pelas formas de
compreensão experimentadas na psiquiatria, acompanhadas das mudanças promovidas pelo
uso da medicação e todas as atividades propostas por essa agência terapêutica. A procura por
psicoterapias também abre novas possibilidades de enfrentamento do sofrimento e pode
contribuir para que cada um se torne mais sensível a aspectos ainda não percebidos. Pesquisas
na Internet, leituras de artigos de jornal, acupuntura, atividades físicas e o desenvolvimento de
estratégias bem particulares são algumas das tentativas de não se tornar vulnerável à
emergência de uma crise. Cada uma delas permite uma vivência que pode levar à aquisição de
novas habilidades para lidar com o sofrimento e pode ir transformando a vida das pessoas.

3.1 BALBINA E MARIA: PERSEGUINDO O EQUILÍBRIO

3.1.1Balbina

Sensações repentinas de sufocamento e forte aceleração dos batimentos cardíacos
foram os primeiros sinais de sofrimento de Balbina, vividos ainda na infância. Por essa razão,
muitas vezes foi levada a médicos. Hoje, com 27 anos, lembra como foi o primeiro evento em
que esses sentimentos foram vivenciados.

[...] A minha primeira crise de pânico aconteceu quando eu ainda estava no
prezinho. Desde que me conheço por gente, sei que nasci com uma ligação
muito forte com os animais, e no dia seguinte aconteceria uma excursão ao
zoo de SP. Eu sempre tinha vontade de ir, mas como minha família era
muito pobre na época, só consegui ir nesta ocasião. Meus pais também não
eram de passear muito, não. Minha mãe sempre arrumando a casa, e meu pai
trabalhando bastante e bebendo. Na noite anterior ao passeio, eu não
consegui dormir, de tanta ansiedade! Meu coração estava disparado, eu
suava muito e tive dificuldade para respirar. Assim que adormecia, acordava
em sobressalto, como se algo muito ruim fosse acontecer. Eu lembro desse
dia com muitos detalhes. Na minha terapia, descobri recentemente que o
meu medo era que acontecesse alguma coisa à noite que me impedisse de
chegar o momento de ir ao zoo, então eu queria que a noite passasse logo.
[...]

Esses sentimentos se repetiram diversas vezes. Recorreu a uma série de médicos em
busca de uma explicação para esses sintomas, fez muitos exames, mas não encontrou
41

nenhuma justificativa orgânica para seus problemas. Foi então que um dos profissionais
perguntou se haveria algum desejo forte de Balbina por algo. Sua mãe imediatamente lembrou
o sonho da filha de ter um cachorro. Aconselhada pelo médico, o desejo foi atendido.

[...] Foi complicado, pois morávamos num quarto e cozinha, nos fundos da
casa da minha avó, e na casa principal morava ela com minha tia e tio, que
detestavam animais. Mesmo assim minha mãe pegou o Titã, um viralatinha
muito bonito e bravo, mas companheiro. [...]

Assim que Titã passou a fazer parte da família, as crises de Balbina desapareceram.
Da sua trajetória de vida, até ingressar na faculdade, ela não identifica nenhum evento
relevante. Conta que cultivava amigos muito queridos no colégio e, apesar dos pequenos
conflitos com os pais durante a adolescência, suas lembranças são de uma época feliz. Apenas
ressalta algo que acredita ser um fator desencadeante dos cansaços e tristezas posteriores: aos
16 anos teve o diagnóstico de hipotireoidismo. Passou cerca de dois anos sentindo cansaço,
dores no corpo, falta de atenção, perda de memória, desregulação do ciclo menstrual e uma
ausência de motivação para a vida. Depois de um longo processo de ajuste da medicação,
voltou a encontrar o equilíbrio.
Em um primeiro momento, a investigação do que ocorre com Balbina dirige-se ao
corpo, a procura é por uma justificativa orgânica para seus problemas. A médica fez uma série
de exames na tentativa de encontrar uma explicação física para os sintomas de Balbina. Na
medida em que não foi possível localizar esse fundamento no corpo, passou a especular sobre
outras possibilidades. A pergunta acerca de um desejo não realizado levou a família a pensar
na paixão de Balbina pelos animais e a adquirir um cachorro. Passar a conviver com um
animal de estimação fez Balbina superar os problemas vividos.
Já na adolescência, depois de experimentar crises de pânico e períodos de tristeza,
acompanhados por tentativas de suicídio, ela decidiu seguir o conselho da família e recorrer à
psiquiatria. Segundo o psiquiatra que a atendeu, seu problema deveria ser tratado com o uso
de medicação que atuasse estabilizando as emoções. Prescrição seguida por Balbina. Os
remédios, segundo ela, realmente trazem certo equilíbrio emocional e afastam as grandes
oscilações entre momentos de autoagressão descontrolados e situações de tristeza extrema. Ao
serem ingeridas, portanto, essas substâncias produzem uma nova configuração ao que ela
vive.
Comuns a todas as trajetórias são o reconhecimento do problema orgânico, apontado
pela psiquiatria, a importância do uso da medicação e a constatação de que os remédios
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trazem efeitos colaterais e riscos que precisam ser controlados permanentemente. Balbina, por
exemplo, é muito sensível à dependência química, o que faz com que esteja sempre
apreensiva com o uso dos remédios receitados pelo psiquiatra. Acredita que a medicação
esteja afetando sua memória e a sua capacidade cognitiva e que isso compromete seu projeto
de estudar para passar em algum concurso público. Vive à procura de formas de tratamento
que a dispensem do uso da medicação. Frequentemente conversa com os médicos sobre o
assunto.
Decide, então, buscar ajuda na psicologia cognitiva comportamental. Diz que durante
as sessões vai aprendendo a se conhecer melhor e a identificar a necessidade de mudar
algumas formas de agir. Conta que foi descobrindo o quanto precisa diminuir a ansiedade, os
pensamentos negativos e desacelerar a mente. A psicoterapia vai oferecendo espaço para que
ela reelabore seu problema, encontrando novas maneiras de enfrentá-lo. Reconhece o valor
desse tratamento, pois vivencia uma transformação: passa a sentir-se mais serena e
entusiasmada. O sofrimento é então experimentado de uma nova forma, é outro. Seu
problema passa a ser algo que, para ser enfrentado, exige a aquisição de novas habilidades na
vida. Emerge daí um modo distinto de ser no mundo.
Considera-se uma bióloga frustrada, por não ser veterinária. Já trabalhou muito com
animais e acredita que eles são sua razão de viver. Há dois meses comprou um cãozinho da
raça Lhasa para diminuir o sentimento de solidão, pois havia terminado um namoro e não
conseguia sair de casa. Além disso, a falta de motivação e a recorrência das crises nervosas
levaram-lhe a deixar o trabalho. “Bartô, o cão, é o motivo para que eu queira acordar todos os
dias. Ele mesmo se encarrega disto. Zooterapia realmente funciona!”
No entanto passou muito mal com os remédios prescritos pelo psiquiatra e quase
matou seu cachorrinho. Nesse dia, em meio à crise, quando percebeu o que faria, se trancou
no quarto com receio de machucar alguém. “Amo os animais, e sempre trabalhei com eles, e
vivi com eles (sou bióloga e treino cães). Sou do tipo de pessoa que anda olhando pra o chão
com receio de pisar em uma formiga. Os remédios realmente me deixaram à beira da
loucura.”
Balbina vive muitas oscilações entre a busca de diagnósticos e tratamentos que lhe
permitam ter controle sobre sua própria vida e a sensação permanente de fracasso por não
encontrar um caminho que indique uma solução definitiva. Admite a importância da
medicação, mas está sempre em busca de alternativas que substituam os remédios
psiquiátricos, pois tem muito medo da dependência química e do comprometimento da sua
capacidade para estudar e trabalhar.
43

Com acompanhamento de um psiquiatra, iniciou o que chama de desmame, ou seja, a
diminuição progressiva do uso de medicamentos até a retirada completa. Estava muito
entusiasmada com a possibilidade de ficar bem, sem o uso dos remédios. Começou um novo
namoro, depois de ter sofrido muito com o relacionamento anterior. Mas, essa tentativa
fracassou e, após uma discussão com os pais, perdeu o controle novamente e acabou
ingerindo uma quantidade enorme de remédios. Teve que fazer lavagem gástrica e, pela
gravidade do seu estado, precisou ficar internada. Sente que se empenhou o máximo possível
e fracassou, por isso agora só quer ficar sozinha. Pediu ao namorado que se afastasse, pois
vive marcando e desmarcando os compromissos e diz que não quer críticas, não quer
cobranças. Voltou, então, a fazer uso da medicação psiquiátrica.

[...] A única coisa que quero é curtir o dopamento que eu sinto com os
novos remédios (hj foi meu primeiro dia). Acho muito difícil algum rapaz,
amiga, colegas e afins entenderem a situação de uma pessoa com tais
problemas. Na realidade gostaria de ser internada. Assim eu não acordaria
todos os dias com a culpa de estar perdendo minha juventude e com o medo
de perder o controle e deixar alguém triste. […] Meu objetivo de "sair dessa"
não é mais por mim, mas pela minha mãe que se angustia junto, pelos meus
bichinhos e para poder ajudar quem ainda acha que depressão/síndrome do
pânico só acaba quando tudo acaba. Eu mesma já tentei suicídio duas vezes.
Hoje em dia não penso mais nisso (só quando tenho crise) e estou aqui
persistindo, embora muito cansada, para tentar dar esperança a quem
porventura a tenha perdido. [...]

3.1.2 Maria

Desde quando tomou conhecimento de que a depressão pode ser curada, mas que o
transtorno bipolar exige o uso frequente de medicação, Maria voltou a se empenhar na busca
de um diagnóstico seguro para a sua situação. Com esse propósito, tem procurado psiquiatras,
psicólogos, tem feito pesquisas e conversado com outras pessoas pela Internet. A mensagem
abaixo foi enviada para um grupo de ajuda mútua.

[...] Bom... na verdade eu quero saber se alguém de vocês tem transtorno
bipolar, se poderia me contar as suas experiências para que eu possa
enxergar se eu realmente tenho o transtorno ou é depressão... Um tempo
atrás o médico diagnosticou transtorno bipolar... mas depois de um tempo
que eu estava melhor pedi para ele diminuir os medicamentos... daí ele tirou
a medicação do transtorno... deixou só pra ansiedade. [...]

Já se sentiu muito mal ao tomar certos tipos de remédio psiquiátrico. Acredita que a
ingestão de algumas substâncias fazia com que perdesse um pouco a capacidade de raciocínio
44

e a deixava prostrada. Foi a uma médica que suspendeu um desses remédios, justificando que
causariam danos aos neurônios. Recentemente iniciou o uso de uma medicação que a fez se
sentir bem melhor, diminuiu a ansiedade, eliminou a irritação e melhorou muito seu humor.
Observou também uma redução na produção de saliva, aumento do sono e do apetite, efeitos
colaterais considerados por ela sem muita importância, pois não têm comprometido seu
cotidiano.
No entanto, passou por uma tensão pré-menstrual em que todos os sintomas da
depressão retornaram, principalmente a irritação. Ao procurar um ginecologista, este
esclareceu que, na tensão pré-menstrual, a grande retenção de líquido pode ocasionar
pequenos edemas cerebrais que provocam muita irritabilidade. Prescreveu-lhe um diurético
para ser usado no período que antecede à regra.
Experimentou a psicoterapia três vezes e abandonou, mas reconhece o quanto a
ajudou, por isso resolveu retomar.

[...] A psicoterapia tem me ajudado a me encontrar, entender por que ainda
vivo nessa tristeza... A psicoterapia, junto com o grupo de oração, tem
ajudado a me entender, me amar e acreditar que posso ser amada como eu
sou. As atividades da psicoterapia têm sido interessantes: ela pede que eu
faça um diário de pensamentos relatando as coisas que eu penso, emoções e
comportamentos... Daí, no dia da sessão, eu leio para ela e discutimos... e ela
me faz enxergar onde eu errei.
Mas, não sei te dizer mto sobre a terapia... Ela utiliza métodos para que eu
pense diferente sobre as situações da minha vida, de forma mais positiva...
Ela me ajuda a traçar metas, objetivos... me ajuda a me conhecer... A
psicoterapia ajuda a me conhecer, conhecer minhas limitações, me entender,
conhecer a opções de enfrentar a vida e os problemas... Estou descobrindo
que a minha felicidade depende de mim...
Eu preciso mudar meus comportamentos e sentimentos em relação aos
outros e à vida para q eu possa viver melhor... E estou buscando isso na
religião e terapia.
Essa última, ela usa a terapia cognitiva... tem me ajudado, mas me fez
descobrir que o problema está em mim, e para tudo mudar depende só de
mim, daí eu tava lutando de boa, mas nessa última TPM entreguei os pontos,
cansei de tentar e fiquei mto irritada...
Tive algumas amigas que me ajudaram tbm,... me dizendo q eu precisava
mudar por dentro...e os problemas das coisas não darem certo estava dentro
de mim... Com a terapia, fui descobrindo isso...
A psicoterapia tem ajudado, apesar de que ultimamente não tenho ido, e sei
lá... tô um pouco sem vontade, mas continuarei indo... Não sei pq, mas
chegou um ponto em que bate uma incerteza, não sei explicar... tipo uma
preguicinha de tentar, sabe? Mas continuarei, sim... A minha falta de
vontade de ir à psicóloga... eh q vou descobrindo q tudo depende de mim, e
às vezes me cansa tentar... dá preguiça sabe? Mas, enfim, tentarei.
Na penúltima TPM, estava em crise novamente, com vontade de suicídio.
Fui à psicóloga, e ela me fez me dar uma nova chance... dar uma chance para
a psicoterapia... tentar novamente e saí de lá com pensamentos mais leves...
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A psicoterapia abre um novo ambiente de vivência dos seus problemas e a faz
descobrir formas diferentes de se posicionar, se relacionar, de agir e se sentir no mundo.
Isso permite a Maria aprender a voltar a atenção para outras dimensões não percebidas e se
tornar mais sensível a realidades novas. De acordo com ela, os remédios psiquiátricos a
ajudam muito. Além disso, reconhece também a importância da psicoterapia. Acredita na
necessidade de dar continuidade a essas terapias, mas sente que o tratamento espiritual [essa
experiência será abordada mais na frente] é o que mais a fortalece. Cada vivência vai
tornando seu mundo mais vasto.

3.2 MATILDE: ENTRE O CONTROLE E O DESCONTROLE

Matilde encontra em um dos diagnósticos psiquiátricos o argumento mais apropriado
para explicar a causa das suas dificuldades. “Meu problema é endógeno porque não foi
provocado por nada externo, um trauma, um problema grave, veio de dentro mesmo, sabe?”.
Ser endógeno é compreendido por ela como algo inato, portanto, não produzido por um
evento em sua trajetória e indica também a necessidade de uso da medicação. Ela passa a
entender que, se há uma causa orgânica endógena, só os remédios podem atuar sobre ela.
Apesar dos efeitos colaterais, Matilde não dispensa o uso da medicação indicada.
Nos primeiros anos de tratamento, os psiquiatras prescreviam uma quantidade de
remédios considerada hoje por ela “cavalar”, pois a fazia enrolar a língua, ficar com o pescoço
enrijecido, passar dias dormindo quase o tempo todo e chegar a engordar 25 quilos.
Progressivamente Matilde vai adquirindo a habilidade de lidar com as substâncias prescritas
pelos psiquiatras, se tornando capaz de prever possíveis efeitos colaterais indesejáveis e
tentando evitá-los. Aprende também a buscar combater efeitos ruins com o uso de outros
remédios. Seu desafio maior é encontrar certo equilíbrio entre o excesso e a carência de
substâncias que podem contribuir para atitudes de euforia ou de prostração. Ao longo do
tempo em que vai reconhecendo melhor o processamento das medicações na sua vida, passa a
argumentar com os médicos acerca de suas necessidades.
O estabelecimento do diagnóstico depende dos relatos feitos nas consultas com
psiquiatras e psicólogos. Matilde diz que muitas vezes não revela para esses profissionais tudo
o que está vivendo.

[...] Eu vou no psicólogo todo sábado, que é um dia que eu geralmente tô
bem, porque eu fico mais relaxada, não tenho obrigação com nada. No final
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de semana eu sempre fico bem. Eu pioro a partir de segunda. Domingo, eu já
começo a ter pesadelo, por causa das coisas que eu tenho que fazer durante a
semana. Mas, sábado eu sempre tô bem, chego lá no psicólogo bem, aí não
me lembro de falar das dificuldades que eu tive durante a semana. Ele
conversa comigo e acha que tá tudo bem, não sabe do que eu passo durante a
semana. E eu esqueço de contar. Parece que eu deleto da memória, eu chego
lá bem, ele só me vê bem. [...]

Outras vezes Matilde não expressa determinadas impressões sobre as coisas, com
receio de que sejam irreais. “O psiquiatra não sabia as coisas que eu tava pensando, os
horrores que eu tava pensando, entendeu? Inclusive de fazer coisas ruins comigo mesma,
entendeu? Porque eu já tava tendo delírio.”
Sempre escuta vozes que a orientam no dia a dia, mostrando o que ela deve ou não
fazer. Acredita que são espíritos de pessoas mortas que a acompanham. Em geral não fala
sobre isso aos médicos, porque sabe que, se eles não forem espíritas, não irão compreender do
modo que ela entende. O diagnóstico espírita e o psiquiátrico convivem em certa tensão; para
Matilde, eles não se excluem, ela tenta conciliá-los.

[...] Eu vejo vultos que comentam sobre mim e também me dão orientações.
Às vezes, quando eu fico sem vontade de fazer as coisas, eles dizem pra eu
tomar banho primeiro e depois resolver se vou pra faculdade ou não. Eles
sabem que se eu tomar banho eu melhoro e termino indo pra faculdade, são
espíritos bons. Quando a gente tá sujo e bagunçado atrai espírito ruim,
porque eles gostam disso. Esses espíritos inferiores dizem pra eu deixar pra
tomar banho depois. Mas, muitas vezes essas coisas que eu vejo e escuto são
delírios, puxa mais pra esquizofrenia. [...]

O espiritismo abre um novo mundo de possibilidades de viver o seu sofrimento e é
considerado por ela o tratamento que mais ajuda a enfrentar as dificuldades. Essa experiência
será tratada a seguir.
Atualmente Matilde não é mais diagnosticada como esquizofrênica. Tanto o psicólogo
quanto o psiquiatra acreditam que ela tem transtorno bipolar. Essa mudança de diagnóstico
traz certo alívio e a situa em um universo bem diferente daquele que conviveu durante as
internações. Trata-se de uma mudança que a faz se distanciar de algumas vivências ruins:
sentimentos de rejeição, delírios, dopagem e desejos de morte.
Muitos relatos de sofrimento emocional revelam que a preocupação em definir o que é
a doença faz-se importante para pacientes e médicos, na medida em que pode indicar o que
fazer frente a ela. No diálogo entre médicos e pacientes no consultório, o central não é o que é
mais real ou verdadeiro, mas o que é mais relevante para cada paciente no enfrentamento de
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uma enfermidade. As decisões são pautadas pelas possibilidades de serem boas ou ruins na
vida cotidiana. Frequentemente, nas consultas com o psiquiatra, Matilde conversa sobre a
quantidade e o tipo de medicação a ser usada.

[...] Eu só precisava tomar o rivotril à noite pra dormir, se eu tomar durante o
dia, como o médico passou, eu só tenho vontade de dormir e termino não
conseguindo estudar e fazer minhas coisas. Eu pedi que ele passasse uma
medicação que pudesse dar mais ânimo. Mas os médicos têm medo desses
remédios porque muitas vezes deixam a pessoa agitada demais. Eu fico
eufórica às vezes e aí fico falando demais, não escuto os outros. Termino
falando muito alto, e no centro espírita reclamam se eu falar alto. [...]

Há uma preocupação em não incomodar, em não ser inconveniente com os outros e,
ao mesmo tempo, um forte desejo de realizar muitas atividades durante o dia. Essa é uma
discussão que mobiliza uma série de elementos: da vontade de trabalhar ao medo de ter uma
crise, ou o receio de ficar muito agitada e incomodar as pessoas. Aos poucos Matilde vai
desenvolvendo uma habilidade cada vez maior para viver com os remédios, aprendendo sobre
suas implicações nos comportamentos e sentimentos.
Trata-se de avaliar as perdas e ganhos do tratamento. Essas avaliações e escolhas vão
definindo os modos de engajamento ao longo da trajetória de cada indivíduo. Embora a
psiquiatria localize o problema no funcionamento do cérebro, reduzindo a enfermidade a sua
dimensão orgânica, na consulta médica entram em jogo questões relacionadas com a rotina de
Matilde, suas preocupações, sua sensação com os remédios, assim como seus valores e
desejos. São todos elementos importantes. Tudo isso é levado em consideração pelo psiquiatra
e vai definir as orientações dadas. Nesse sentido, embora o conhecimento produzido pela
biomedicina se reduza ao orgânico, na prática clínica o olhar se amplia para aspectos da
convivência social, anseios, desejos e prioridades do paciente. Olhar a prática revela a
impossibilidade de a biomedicina ser reducionista.
Nos períodos de crise, quando precisou de instituições psiquiátricas, permanecia
durante o dia e, à noite, voltava para casa. Nesses centros de tratamento, participava de várias
atividades manuais e também fazia aula de dança e música. Acredita, porém, que essa
experiência tende a agravar sua situação. “Eu passo a conviver o tempo todo com pessoas
muito perturbadas, e isso faz com que eu perca o parâmetro da normalidade.” Mas, apesar
disso, guarda boas lembranças de lá, sobretudo dos professores da instituição, chegando a
ponderar que, quando estava em casa, era terrível a sensação de que só ela vivia aquele
transtorno todo, enquanto na instituição psiquiátrica era reconfortante perceber que muitas
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pessoas passavam por sofrimentos piores que o dela. Já faz mais de dois anos que Matilde não
frequenta essas instituições.
Os psiquiatras encaminharam também Matilde para outras experiências terapêuticas,
consideradas complementares. Por essa razão ela vai a uma instituição nos períodos fora das
crises e lá recebe atendimento psicológico, psiquiátrico e participa de atividades lúdicas
coletivas. Entre todas as atividades oferecidas, escolheu trabalhar com mosaico. Gosta muito
desse trabalho, mas tem sentido dificuldade em chegar no horário marcado, pois os remédios
a deixam com muito sono. Sente que a professora de mosaico não nutre simpatia por ela, pois
percebe uma grande diferença no tratamento carinhoso dispensado a todas as pessoas, com
exceção dela. Isso tem sido um grande desestímulo. Não tem sentido vontade de ir e, quando
vai, faz coisas erradas, sendo o tempo todo maltratada pela professora.
Lamenta não poder deixar de ir, pois só recebe os remédios psiquiátricos, através da
instituição, se frequentar as atividades. Quando se refere ao atendimento psicológico, diz:

[...] Eu sempre fiz terapia com psicólogo, isso me ajuda muito. Tem muita
coisa que eu pergunto sobre mim, e eles esclarecem, dizem o que é melhor
eu fazer. Às vezes eu fico insegura, sem saber o que fazer, o psicólogo
sempre orienta bem, apoia nos momentos difíceis. Eu só não gostei de
psicanálise quando eu fiz uma vez. A pessoa não fala nada, não ajuda em
nada, só fica perguntando da minha infância, eles acham que tudo tem a ver
com a infância, com a família, eu sofrendo, chorando tanto e não encontrava
um apoio, uma ajuda mesmo... uma orientação. A psicóloga que está me
atendendo hoje eu não gosto muito, eu não confio de contar minhas coisas
pra ela porque ela conversa sobre mim com todo mundo. E outra coisa que
também eu não gosto é que às vezes eu chego lá me sentindo muito mal,
sofrendo muito e ela diz pra eu deixar de ser dramática, ela acha que eu
exagero, não percebe às vezes o meu sofrimento. Meu sofrimento muitas
vezes foi menosprezado porque tem gente que acha que as pessoas com
dificuldades econômicas sofrem muito mais do que eu. A terapeuta dizia pra
mim que eu era muito dramática porque eu tinha tudo em casa e ali tinha
gente sem ter o que comer em casa. Mas isso não tem nada a ver com o
sofrimento que a gente sente, eu tentei me matar, não tinha vontade de viver,
e elas me diziam isso. Eu achava muita falta de sensibilidade. [...]

Não se refere muito a suas experiências com psicólogos. Mas, nos poucos momentos
em que falou sobre o assunto, revelou que o valor dessa terapia se encontra na possibilidade
de compartilhar suas angústias, ser acolhida e, sobretudo, receber indicações do que fazer.
Para Matilde, as psicoterapias deveriam oferecer-lhe a oportunidade de ser escutada,
compreendida e, sobretudo, orientada. O sentimento de insegurança faz com que ela sempre
solicite a opinião das pessoas, nos momentos em que precisa tomar uma decisão. O psicólogo,
para Matilde, é alguém capaz de ajudar em situações desse tipo. No entanto, na ausência desse
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profissional, as pessoas mais próximas são consultadas. As decisões podem envolver desde a
dúvida entre comprar uma sandália ou um vestido, até o número de disciplinas em que deve se
matricular na faculdade. Muitas vezes fui procurada para opinar acerca de diversos assuntos.
Certa vez ela guardou um artigo de jornal sobre depressão. Encontrou em alguns
argumentos do texto a explicação mais sensível para o seu problema. Observar sua leitura
comentada desse artigo traz à luz importantes revelações. A matéria se inicia com a narração
da experiência de uma administradora de empresas que começou a sentir muito cansaço e
indisposição que a fizeram abandonar sua intensa vida social e se trancar em casa durante
cinco anos. A princípio interpretou os sintomas como decorrentes de uma estafa, que passaria
assim que conseguisse diminuir o ritmo de trabalho. No entanto, a preocupação cresceu
quando começou a sentir dores no peito, sonolência durante todo o dia e uma prostração que
parecia sintoma de alguma doença. Procurou um cardiologista e, só depois de descartado um
problema cardíaco, passou a admitir a possibilidade de que o que não estava bem era a
“cabeça”. Em seguida o artigo vai definido o que é depressão. Segue o comentário de Matilde:

[...] Tem uma parte do artigo dizendo assim, olhe: “depressão não é só
tristeza, é falta de energia. Para o psiquiatra Adriano Gordilho, dizer que a
cura só depende do paciente é uma crueldade, pois o deprimido não tem
energia para vencer a situação, sendo o suicídio e a perda de produtividade
os reflexos mais sérios”. Eu achei isso tão importante! Sabe por quê? Porque
o que eu mais ouço quando eu não tô bem, quando as pessoas querem me dar
apoio, o que eu mais ouço é isso: “Ah, só depende de você”, sabe? “ficar boa
só depende de você”. É muito fácil falar isso, como é que só depende da
gente se a gente tá gritando por ajuda, se a gente tá berrando, tá lá no fundo
do poço, sem energia, sem conseguir fazer nada, sabe? (chorando). Todo
mundo fala: “se esforce que você consegue sair da cama”. Às vezes eu
consigo, eu consegui sair da cama agora, e aí? E aí? Agora não paro de
chorar. [...]

Matilde se empenha o máximo possível para superar as circunstâncias em que não
consegue realizar as atividades do cotidiano, mas percebe que sua determinação e força de
vontade nem sempre são suficientes. Sente-se incompreendida e muito cobrada por todas as
pessoas com as quais convive. Por essa razão, muitas vezes tem dificuldade de compartilhar
suas fragilidades até mesmo com as amigas mais próximas.

[...] Tem pessoas a quem eu não posso nem contar que tô passando por uma
dificuldade. Aquela minha amiga que eu lhe falei, se eu contar pra ela que eu
não fui pra aula, ela me engole viva. E ela fala de uma maneira tão bruta, tão
violenta comigo, que acaba me deixando pior! Eu já tô mal, aí ela vem
daquela maneira que ela sabe falar (chorando). Aqui no prédio tem outra
pessoa que faz isso também, não é que ela me condene, essa minha amiga
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me condena. A moradora daqui não me condena, mas ela fala com jeito, ela
fala “você tem que enfrentar a faculdade, você tem que enfrentar a
faculdade”. Todo mundo fala isso “você tem que enfrentar a faculdade, você
tem que enfrentar a faculdade”. Tem gente que fala assim “Eu quero ir em
sua formatura, eu quero ir em sua formatura, viu?” Então, parece uma coisa
boba, mas no meu inconsciente o que é que isso se transformou? Em
pressão, entende? Eu sei que as pessoas falam isso pra me empolgar. [...]

No dia em que comentou sobre esse artigo, estava sofrendo muito por não estar
conseguindo ir à faculdade. Ser aprovada em uma universidade pública sempre foi um grande
sonho de Matilde. Assim que passou no vestibular começou a sentir medo de não ser capaz de
frequentar normalmente as aulas e realizar esse desejo. Há uma frustração por não ter
conseguido concluir a graduação na faculdade privada, que cursou durante alguns anos, e um
sentimento de inferioridade em relação aos outros.

Eu tenho muita vontade de me formar. Se eu não conseguir, vou ficar com
trauma, todo mundo que eu conheço já se formou, só eu que não consigo. Eu
tô com muito medo de não conseguir terminar essa graduação agora. Pra
mim ia ser muito importante, porque eu ia poder fazer concurso com nível
superior. Concurso pra nível médio é muito mais concorrido e paga pouco,
mas, quando a gente tem nível superior, é muito melhor. [...]

O medo, a tristeza e o sono impediram Matilde de ir à faculdade durante três dias na
primeira semana de aulas. O sono intenso a fez dormir o dia inteiro. Nesses momentos não
consegue se cuidar, fica vários dias sem tomar banho e sem se alimentar bem. No meio dessa
crise, ela contou chorando que a sensação não é apenas de desânimo, é de pavor.

[...] Eu tô com pavor de ir para faculdade, pavor de tomar banho, mesmo
sabendo que, se eu tomar banho, eu vou melhorar, eu melhoro na hora
quando tomo banho. Mas, tem três dias que eu tô sem tomar banho. Eu sei
que se eu tomar banho e for pra faculdade eu vou melhorar. Às vezes tenho
medo que as pessoas lá na faculdade percebam alguma coisa estranha em
mim e aconteça o que aconteceu na faculdade particular, que todo mundo me
discriminava e falava mal de mim. [...]

Certa vez estava se sentindo exatamente dessa forma descrita, quando recebeu um
telefonema de um amigo, e todo o sofrimento se dissolveu. Desligou o telefone, tomou banho
e saiu de casa. Considera a convivência com os amigos uma das coisas que mais contribuem
para uma melhora na sua condição. “O apoio que alguns amigos me dão é o que mais me
fortalece. Antes eu era muito dependente dos amigos, eu precisava muito deles, mas agora
não, eu consigo fazer minhas coisas e ser mais independente.”
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No entanto, diz que até os amigos, em certos momentos, são intolerantes e
incompreensivos com os problemas vividos por ela. Um deles lhe deu o que ela chamou de
tratamento de choque, porque disse que ela precisava se empenhar mais, senão não ia ser
ninguém na vida, ia amadurecer e olhar para trás e perceber que não construiu nada, que não
era ninguém. Matilde relata o quanto foi difícil ouvir esse amigo falar coisas tão duras.
Parece existir sempre um medo de perder amizades por causa de seus problemas. Ela
vive um conflito permanente entre contar ou não para as pessoas as dificuldades que vivencia,
porque tem receio de que se afastem com medo dela. Algumas vezes, por exemplo, fica
preocupada em estar sendo inconveniente, quando está falando demais sem escutar os outros,
e atribui esse comportamento ao uso de alguns remédios.
Não foi capaz de falar para uma das suas amigas mais próximas sobre o sofrimento
experimentado durante essa semana tão difícil. Trata-se de uma amiga que a acompanha
desde os tempos da escola e sempre lhe pede para ser mais determinada e se empenhar o
máximo possível nos estudos. Ela é vista por Matilde como um grande exemplo a ser seguido,
alguém que estudou, conseguiu formar-se e, depois de muitos sacrifícios, foi capaz de passar
em um concurso público que lhe proporciona hoje um trabalho estável e um excelente salário.
O medo de desapontar a amiga faz com que ela nem leve em consideração a possibilidade de
compartilhar com ela o sofrimento vivenciado durante a primeira semana de aulas. Não
acredita que vai poder contar com sua compreensão. Seu sentimento é de que revelar suas
fragilidades aos outros quase sempre resulta em rejeição. Muitas vezes, então, prefere não
contar suas dificuldades. No entanto isso não a livra de ter que lidar com essas situações que
busca evitar. Um dos porteiros do edifício onde mora, por exemplo, ao notar que ela não
estava indo para faculdade lhe chamou a atenção para importância de se graduar.

[...] Todo mundo se mete na minha vida, até o porteiro do meu prédio virou
pra mim e falou: “não tá indo pra aula, né?” Ele disse que eu preciso
aprender a me virar sozinha porque eu não vou ter meu pai e minha mãe a
vida toda pra me ajudar. Ficou me dizendo pra não perder essa oportunidade
de me formar numa faculdade e depois conseguir um trabalho. Ninguém
entende que eu tô tentando correr atrás disso, mas é muito difícil pra mim.
Eu disse a ele que eu não sou nenhuma princesa não e que se precisar eu vou
saber me virar sozinha porque não sou nenhuma anormal. Mas é horrível
isso das pessoas ficarem se metendo na minha vida, ninguém me respeita,
sabe? Ele me disse tanta coisa, disse que eu tenho tudo de mão beijada, que
minha mãe se esforça tanto pra me dar tudo, e eu não sei dar valor. [...]

Percebe que seu psicólogo também partilha dessa compreensão de que vencer as
dificuldades é uma questão de vontade e determinação.
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[...] Até o meu psicólogo me pressiona. A semana passada quando fui lá ele
me disse pra, dessa vez, levar a faculdade a sério e não desperdiçar essa
chance mais uma vez. Ele falou isso de uma maneira fria, seca… Ele não
percebe como eu me esforço, mas é difícil demais pra mim. O pior de tudo é
isso, as pessoas dizem pra eu me esforçar que eu vou conseguir e que só
depende de mim. [...]

Enquanto vai relatando todas essas coisas, há momentos em que um choro intenso
interrompe sua voz. Ela respira fundo e diz que vai ler mais uma parte do artigo:

[...] ele diz assim: “Na depressão o portador apresenta quadro de anedonia,
que é a falta de prazer em atividades que antes eram vistas como prazerosas.
O portador da doença se sente prostrado, cansado, sem disposição para
encarar as mais diversas situações. Na depressão não adiantam palavras de
motivação do tipo só depende de você, que só geram culpa por não se
conseguir a resposta desejada.” A resposta que os outros esperam que você
tenha, sabe? “O sentimento de desesperança é bastante comum nos quadros
depressivos. No entanto, essa tristeza não deve ser confundida com uma
situação mais leve”. Entendeu o que eu quis dizer? Porque essa já é uma
situação crônica, mais grave, gravíssima, que tem que ter cuidado, até pra
não precisar de um internamento. O que eu mais achei interessante foi dizer
que depressão não é só tristeza, mas é falta de energia, e dizer que.... essa
frase que ele disse... dizer que a cura só depende do paciente é uma
crueldade, pois o deprimido não tem energia para vencer a situação. Mas,
sabia que só em conversar com você já... não sei se me melhorou... mas
trouxe alguma coisa boa pra mim? Meu sofrimento não é só porque eu tô
mal, mas parece que eu fico me perturbando... Parece que não é só me sentir
mal, mas parece que eu me atormento (chorando) mais ainda porque eu tô
mal, sabe? E eu não sei reagir a isso (choro), já teve dias que eu me
desesperava, gritava sozinha quando não tinha ninguém em casa, eu gritava,
eu chamava por Deus, sabe? (Choro). Não adiantava, só adiantava se eu
saísse dessa vibração, e geralmente acontece isso quando eu vou pra o
banho, mas eu tenho pavor do banho também. [...]

A noção de que é possível um domínio total sobre tudo faz com que, em momentos como
esse, além do sofrimento vindo das dificuldades, há o sofrimento de sentir-se fracassada por
não conseguir o controle desejado. Isso aparece na percepção de Matilde de que, além de não
estar bem, ela fica se atormentando, mais ainda, por não ter conseguido o domínio sobre si
mesma. Acrescenta-se uma carga maior ao sofrimento, que parece ser potencializado.
Reconhece que essa determinação perseguida, em muitos momentos ajuda a aliviar a dor, no
entanto há limites que precisam ser levados em consideração.
A centralidade e a importância de ser capaz de realizar bem as atividades do cotidiano,
sobretudo estudar e trabalhar, se impõem sobre Matilde como um grande desafio a ser
enfrentado. Percebe que, para ter o respeito e a admiração das pessoas, precisaria sustentar
uma vida de agenda cheia, o que nem sempre consegue. Evita ao máximo ficar em casa, pois
53

diz que, quando fica inativa, o sofrimento se instala, mas, quando está na rua fazendo alguma
coisa, sempre se sente bem. Envolve-se com uma série de atividades fora de casa. Conta de
modo entusiasmado sobre os compromissos do dia a dia. Certa vez disse que algumas pessoas
elogiam esse seu jeito de sempre estar fazendo várias coisas. Falou cheia de orgulho que
disseram que ela parecia uma empresária, cheia de compromissos. Ela participa de um coral
numa universidade pública e tem se apresentado em vários lugares, vai com frequência às
atividades de dois centros espíritas, tem aula de violão, faz pilates e também atua no
movimento de luta antimanicomial.

[...] Eu sou delegada do movimento de luta antimanicomial, a gente se reúne
e elabora documentos com pedidos de coisas: direito a transporte livre para
mim e para o acompanhante, direito de cuidar do próprio dinheiro sempre,
mesmo quando internada. Aí a gente manda pra o congresso pra ser votado.
Tem muita gente que participa, mas também tem muita gente que não tem
condição de participar porque está em uma situação muito pior do que a
minha e chega a ficar internada direto. Meu problema é mais leve, eu posso
sair e fazer várias coisas. [...]

Entretanto, como nem sempre é capaz de sustentar essa vida de agenda cheia, sente falta
de mais compreensão dos outros para suas fragilidades. Nem mesmo as pessoas que já
passaram por uma situação de depressão, segundo Matilde, conseguem se solidarizar com seu
sofrimento. Refere-se a uma amiga de sua mãe que já teve depressão e, mesmo assim, não
entende nem acolhe as dificuldades enfrentadas por ela.

[...] Eu acho impressionante como uma pessoa que sabe o que é ter uma
depressão, porque já passou por isso, não tem compreensão, me trata com
desprezo. As pessoas têm preconceito e me tratam como alguém inferior a
elas. Não me respeitam porque o que importa é subir na vida, só lhe
admiram se você vencer. Só se importam com títulos e dinheiro. Se você não
tiver isso, as pessoas nem lhe olham. Se você não tiver dinheiro, as pessoas
não te respeitam. Quando eu tava mal, dopada de remédio, algumas pessoas
nem me olhavam, nem falavam comigo. Tem gente que pensa que eu não
reparava no desprezo delas, porque eu tava dopada, mas eu notava. Tem que
tá sadia mentalmente pra ter o respeito dos outros, tem que passar no
vestibular, tem que passar no concurso, tem que vencer, vencer, vencer.
Você tinha que ver como o menino aqui no prédio que não passou no
vestibular foi tratado pelas pessoas. Ninguém percebe que às vezes perder
faz a pessoa aprender muito. [...]

Frases, como “ficar boa só depende de você”, mencionadas por Matilde, são
largamente pronunciadas em muitas situações, por diversas pessoas e profissionais variados,
como pôde ser observado em seus relatos. Na base dessa perspectiva, que expressa um ponto
54

de vista tão disseminado, encontra-se a ideia de um eu bem centrado, guiado por uma
racionalidade que permite ordenar de modo soberano a realidade a sua volta e, sobretudo,
capaz de ter domínio sobre si mesmo e sobre o mundo.
Matilde revela o quanto se esforça para sustentar a determinação que garanta a
realização dos seus projetos pessoais. Vive essa tensão entre ter controle e constatar que o
domínio sobre sua vida está sempre lhe escapando das mãos. Há todo um trabalho para
perseguir a invulnerabilidade. Nos momentos em que começa a não ter vontade de executar as
atividades cotidianas, reúne forças e busca realizar as coisas que a fazem se sentir melhor:
toma banho, faz uma oração, vai ao centro espírita, fica observando o mar, ou sai para passear
de ônibus.
Seu maior sofrimento hoje é lidar com as situações em que sente grande falta de
motivação para viver. Nesses momentos de tristeza, ela explica que a dor é tão grande que não
sabe como cabe nela. Além disso, o medo de ter alucinações está sempre presente, o que exige
dela uma atenção permanente aos sinais de aproximação de uma crise, e um deles é começar a
não ter vontade de fazer nada. Quando isso ocorre, tenta reunir forças para vencer essa
condição, ou termina ficando em casa dormindo quase o tempo todo, situação que a incomoda
muito. Relata que, quando consegue sair de casa, se sente logo melhor e que, muitas vezes, só
o trajeto de ônibus para algum lugar já a transforma.

[...] Às vezes eu pego o ônibus em direção ao centro espírita, às vezes eu sei
que não vai dar tempo de chegar lá no horário da sessão, mas eu vou assim
mesmo. Só em sair de casa já é uma glória, a viagem é tão longa que vai me
modificando, esqueço os problemas, me faz sentir melhor. Já aconteceu de
chegar lá, e o centro já tá fechado, e eu sabia disso, mas só sair de casa e
andar assim de ônibus vendo as coisas, eu já me sinto melhor, esqueço meus
problemas, saio da sintonia ruim da minha casa e vou ouvindo música. Aí
depois eu volto pra casa outra pessoa. Antes eu ia ficar vendo o mar, parada
na orla, ficava um tempão assim só olhando o mar, aí melhorava e voltava
pra casa. Quando eu fico em casa muito tempo, eu termino ficando mal. [...]

Em diversas situações, a capacidade para evitar os estados de tristeza e dor apresenta
limites difíceis de ultrapassar. A fragilidade de quem vive o sofrimento emocional é marcada
pela oscilação entre momentos de grande desânimo com a constatação da impossibilidade do
controle desejado e a vontade de enfrentar as dificuldades com confiança e determinação. As
mudanças de sentimentos de angústia e desmotivação para circunstâncias de entusiasmo são
radicais, às vezes em um curto espaço de tempo.

55

3.3 AS ESTRATÉGIAS MENTAIS DE EULÁLIO

Não se sentir capaz de realizar as tarefas mais simples do dia a dia causa uma angústia
profunda nas pessoas cujas trajetórias foram aqui acompanhadas. As dificuldades de estudar,
de trabalhar e o medo de sair de casa sempre foram sentimentos desesperadores para Eulálio.
Sua família decidiu, então, recorrer a um psicólogo, que, entretanto, a orientou a procurar um
psiquiatra. Eulálio conta que não queria ir e, quando foi, se recusou a usar a medicação
prescrita. Sua mãe insistia na necessidade dos remédios. Além da medicação, foi orientado a
frequentar um grupo de ajuda mútua, onde pudesse conviver com pessoas que tivessem o
mesmo problema vivenciado por ele, prescrição que ele não seguiu.
Quando passou a reconhecer a importância do tratamento psiquiátrico, teve interesse
em saber se ele era portador de alguma anomalia na mente. Procurou um psiquiatra e solicitou
um exame que pudesse demonstrar essa dimensão física do seu problema. O
eletroencefalograma foi considerado normal, não apresentou, segundo Eulálio, nenhuma
justificativa orgânica para seu sofrimento.
Encontrar uma razão para essa angústia tem mobilizado Eulálio a fazer muitas
pesquisas na Internet sobre o funcionamento da mente. Foram as diversas pesquisas, leituras
de textos e conversas com pessoas nos grupos de ajuda mútua na Internet que o levaram a
desenvolver algo que chama de estratégia mental. Trata-se de uma forma de buscar controlar
as emoções e atitudes a partir de raciocínios que vão sendo desenvolvidos por ele em cada
situação de dificuldade. Essas estratégias serão tratadas com mais detalhe a seguir. Considera
essa forma de enfrentamento o que mais o tem ajudado. Mas reconhece seus limites e percebe
que não é possível ter esse controle total sobre tudo.
Passou a fazer uso de medicação psiquiátrica e acredita ser indispensável, apesar dos
efeitos colaterais. Além da medicação, foi orientado a iniciar tratamento psicológico. No
entanto, a experiência com psicoterapia não foi muito positiva, e ele apenas se recorda da
decepção de surpreender a psicóloga dormindo durante uma sessão. Atualmente vai poucas
vezes ao psiquiatra, mas gosta dele e diz que as conversas, apesar de curtas, são sempre muito
positivas.
No cotidiano de Eulálio, as tensões estão sempre presentes: há medos que paralisam,
desmotivação e, ao mesmo tempo, um desejo de superar a condição de solidão e poder
trabalhar, ter amigos, sair para se divertir e compartilhar a vida. Todos os dias ele lida com
sentimentos desse tipo e persegue certo equilíbrio entre eles.

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[...] Estar em depressão é não saber o que é depressão. É não conseguir
descrevê-la, a não ser como um sentimento de tristeza que não passa. E é
também ser incompreendido por outras pessoas; é sentir-se confuso com a
vida, sentir necessidade de conversar com alguém, não se satisfazer com
nada, a não ser com pequenas alegrias passageiras que, dependendo da
situação econômica da pessoa, são raras...
Não tinha amigos pra quem ligar, nem aonde ir de noite, nem de dia, embora
sentisse muita falta de gente comigo, de estar trabalhando, estudando, saindo
à noite, enfim, de estar vivendo. Entretanto, quando eu ia à igreja, ou a
lugares que me favoreciam estar com gente, eu era antipático, suava frio, não
tinha vontade de estar com elas. [...]

As dificuldades enfrentadas parecem intransponíveis e fazem os desejos de superação
recuarem. Uma delas é a sonolência que sente durante o dia e só melhora um pouco à noite.
“Quando eu acordo parece que a mente está travada, o pensamento é lento. Eu sinto uma
espécie de torpor que vai melhorando um pouco à medida que eu vou exercitando a mente.”
Existem fases em que Eulálio chega a dormir o dia inteiro. Essa condição impõe um
limite ao importante projeto de ter uma profissão. Não ser capaz de trabalhar produz nele um
forte sentimento de inferioridade diante dos outros. Nas interações sente-se olhado como
alguém sem valor. Isso o distancia das pessoas e o conduz ao isolamento. Quase nunca sai de
casa, a Internet passou a ser seu mundo de interação. As dificuldades de construção de uma
identidade mais positiva aparecem na narrativa abaixo. Se, por um lado, o olhar do outro
parece cristalizá-lo como um ocioso desprezível, por outro lado ele busca se revelar alguém
inteligente, capaz de formular críticas sobre o mundo ao seu redor. Enquanto isso, vai
tentando se estruturar para um dia poder trabalhar.

[...] Não sou um vagabundo, tive um problema nos meus caminhos que me
impediram de viver corretamente. Mas eu tenho meus planos de me tornar
um técnico de informática aqui da região, um profissional autônomo, porque
eu tenho a formação técnica e estou para comprar os equipamentos
necessários para exercer essa profissão de maneira decente. Mas ninguém
sabe disso, e todos os que me olham na rua só veem um covarde que anda de
cabeça baixa e nem olha na cara das pessoas. Mas elas não sabem que eu me
importo menos ainda do tanto quanto elas me consideram. Eu passo por um
ponto de ônibus cheio de gente, e passo tenso, pensando no que eles estarão
pensando, mas tento me alegrar porque dali a pouco vou passar como se
nada tivesse acontecido, não vou olhar pra ninguém, e todos vão ficar
indignados com a minha recusa em me rebaixar ao que elas me
categorizaram, e logo depois fico feliz porque dobro a esquina e faço questão
de esquecer aquelas pessoas, é um puro prazer. Logo mais passo por uma
dona de um ponto de cachorro-quente. Ela fica olhando para a rua e com
certeza me nota e se indigna comigo. Eu passo, paro no poste, com os olhos
e a cabeça fixas nos cachorros e depois ando como se nada tivesse
acontecido. Deve ser indignante pra aquela pessoa que queria dizer umas
poucas e boas para mim. Mas mal sabe ela que eu vou repetir isso durante
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muito tempo, o tempo que for preciso até eu montar meu laboratório, decidir
minha vida, mudar minha vida com os planos que tenho com minha família e
vou continuar passando, ignorando-a, e fazendo como se nada tivesse
acontecido. Depois tem os porteiros, grandes ociosos que gostam de ficar em
suas cabines olhando para os passantes. De vez em quando, escuto alguma
conversa suspeita, ultimamente eu acho que os falatórios têm ficado um
pouco mais altos, pois as pessoas viram já o quanto sou pacífico e talvez
covarde em reagir ou até olhar para as pessoas. Mas amanhã eu vou passar
de novo, e o desgraçado vai estar lá de novo, me observando passar e vai
ficar calado, porque é outro covarde que não fala na cara, precisa de amigos
pra iniciar uma conversa e jogar uma indireta, aliás, odeio gente assim. E é
por isso que eu ignoro e ultimamente tenho tentado esquecer essas pessoas,
que acho que é o melhor que eu posso fazer. Mas e se ao invés disso eu
aprendesse a conviver bem com elas? Com o propósito profissional? Tá
vendo, eu pensei isso agora, é dessa forma que eu aprendo a pensar. [...]

O valor e a importância que Eulálio atribui à atividade profissional é algo muito
presente nas suas narrativas. Essa centralidade do trabalho se expressa em diversos momentos
em que ele se refere ao tormento que sofre por ser visto pelos outros como um “vagabundo”.
E aparece também em sua admiração pelas mulheres que foram capazes de ascender
socialmente, graças ao próprio empenho profissional. Isso pode ser notado quando ele revela
que, se for desprezado por uma mulher que não tenha esse perfil, ele não se importa. Mas, se
desespera frente às mulheres bem sucedidas profissionalmente.

[...] Eu não consegui estudar, trabalhar e nem subir de classe social; é
impossível para mim e é uma missão que considero que somente os mais
preparados conseguem fazê-lo. Se uma mulher, não pelo fato de ser mulher,
mas pelo fato de que eu sou hétero e procuro mulheres, enfim, se essa
mulher cresceu mais de duas classes, com esforço, ou seja, é de uma classe
trabalhadora e humilde, o que eu aprecio, então ela me dá motivos para eu
ficar perplexo com o porquê dela ter largado de mim. Significaria um
impacto a minha moral, porque demonstraria o fato real que eu nego a mim
mesmo, o fato que eu não significo nada socialmente, e por isso ela me
largou: decidiu não perder seu tempo com um peso morto. [...]

Esse projeto de trabalhar o mobiliza muito, acredita que mudaria completamente sua
vida, por isso tem se empenhado tanto.

[...] Compramos recentemente mais de mil e quinhentos em cursos de
informática (pode parecer barato ou caro dependendo do seu ponto de vista,
mas do nosso ponto de vista é caro, mesmo parcelado, e concordo que
também é barato, levando em conta a mensalidade de uma faculdade
particular hoje em dia). Estou estudando inglês, apesar de eu saber ler
avançado, estudo mais a pronúncia e escuta; alemão, também estou
estudando, pois muita informação que é mais avançada que na linguagem
inglesa está em alemão, descobri isso ao acaso; recentemente comecei a
estudar japonês e chinês, por prazer e por achar importante para o futuro, se
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bem que eu não planejo trabalhar empregado, portanto será somente para
leitura e comunicação pela Internet; pretendo estudar espanhol e alguma
outra linguagem que vir a calhar e devo dar os créditos a um software bom
que puxei da Internet para essa finalidade, para se estudar em casa. Pretendo
estudar manutenção de computadores e dar assistência aos moradores dos
prédios ao meu redor, sendo esse meu plano chave para o futuro, e assim me
tornar "honrado" e finalmente ganhar meu próprio dinheiro e, se der certo,
ser esse meu ganha-pão para conseguir me sustentar pela vida e quem sabe
até dê para constituir uma família.
Eu tenho um alter ego muito aguçado que me persegue e me atrapalha no
raciocínio, de certa forma. Meu alter ego é ser um surfista e trabalhar com o
que gosto, antropologia ou algo parecido, não soube definir (fiz um teste
vocacional certa vez), ou trabalhar na praia, ser um cara descolado, óculos
escuros, sendo que eu tenho pavor do mar, nem em piscina eu nado direito,
não tenho equilíbrio (tentei andar de skate várias vezes e nunca consegui),
não sou descolado, não sou nada do meu alter ego, por isso tenho aprendido
a combater essa característica, pois me impede de ser feliz. Não sei o que
quero na vida, se é paz, felicidade, uma família... Até pouco tempo, na
juventude, era casar e ter uma família com filhos era meu alvo, era tudo pra
mim. Mas hoje eu já sou mais racional e cresci mentalmente, amadureci.
Outro dia até admiti o fato de nunca ser pai um dia, coisa que pra mim era a
“morte”. [...]


A seguir mais uma descrição dos seus modos de interação no cotidiano:

[...] Hoje eu parei com meus cachorros, pois vinha vindo um cachorro sem o
dono, saindo de um prédio. Eu parei e esperei o dono decidir o que ia fazer,
pois era um cachorro grande, e o espaço era pequeno, e eu prefiro perder
meu tempo a ter que olhar na cara de uma pessoa. A mulher então parou com
o cachorro na calçada, e eu fui passar e, como sempre faço, tentando ser
gentil, ofereço meus cachorros para que cheirem o outro cachorro e sejam
cheirados, como gostam os cachorros e alguns donos. Eu detesto quem passa
e parece que tem nojo, fica afastando o cachorro. E nisso alguém grita atrás
de mim bem alto o nome do cachorro, mas parece que fez de propósito, era o
esposo da dona, e não sei se quis tirar uma casquinha de mim se fazendo de
macho, gritando sorrateiramente pelas costas. Só sei que fui educado e ainda
me despedi dos dois, e é claro não me deram bola.
Será que eu fui humilhado? Eu me senti humilhado logo em seguida, uma
lembrança da infância, mas será que eu devo ficar assim mesmo? Olha que
legal, ele gritou atrás de mim, parece que hoje está tendo sexo naquela casa,
não é mesmo? Acho que a esposa vai falar: "- Ah, meu maridão, você não
devia ter gritado com o garotinho... meu machão! Tadinho, ele ficou
assustado... Vem cá meu garanhão, vem...!" E o esposo, então? Que homem,
parabéns pra ele! Veio de carona num carro do Sedex, seja lá como funciona
essa política, dentro de cada escritório deve ser a mesma sujeira do que
vemos refletida nos serviços e na política. Mas eu fui educado, civilizado.
Mal sabe ele, vou passar por lá outras vezes, e vão acontecer outras situações
parecidas, não sei, parece que já tem gente de olho em mim nesse bairro, por
eu só andar com os cachorros e não trabalhar, sei lá, ou é inveja... Eu não
quero saber da vida de ninguém e tenho feito um exercício pra sentir prazer:
tentar esquecer aquelas pessoas no momento imediato, e quando eu consigo
e venho a relembrar um tempo depois, eu gosto, me sinto bem, é sinal de que
vou deixar de me importar com as pessoas. Eu quero não dar atenção
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nenhuma, não gastar energia com pessoas inúteis pra mim. Infelizmente,
para a sorte deles, eu nasci com esse problema, valorizo de antemão as
pessoas, supervalorizo-as. E por isso têm a sorte de me ver passar com a
cabeça baixa, como que me alienando a eles. Mas isso vai mudar, eu estou
em evolução. Ou vou ter que aprender a lidar com as pessoas de um modo
mais profissional.
Você não é psicóloga e talvez não consiga tirar resultados do que escrevi,
mas eu esclareço: tem muito da minha psicose nesse texto, meus meios de
combater a psicose, por exemplo, ao invés de me importar com as pessoas
estou tentando não me importar; o modo como penso isso. Meus dilemas e
dúvidas quanto à estrutura da sociedade, e como eu faço pra pensar. [...]
Eu sempre quis alguém assim como você pra conversar, uma pessoa que me
analisasse racionalmente, cientificamente; por isso tenho tanta liberdade em
escrever pra você como nunca fiz pra ninguém, nem tenho hoje em dia
alguém pra fazer isso. É uma pena que você não responda, como faria uma
psicóloga, mas eu entendo essas limitações e não faço exigência.

Em um primeiro momento, lamentei não ser psicóloga e de alguma maneira poder
contribuir de modo direto para que Eulálio encontrasse uma forma de viver melhor. Disse-lhe
como tem sido importante a sua contribuição para minha pesquisa, que seus relatos eram
muito detalhados. Falei também que, embora não seja psicóloga e meu trabalho de pesquisa se
situe no âmbito das ciências sociais, tenho tentado com este estudo entender as relações entre
essas dimensões (psicológica, social e física) tradicionalmente separadas pelas ciências.
Expus que, do meu ponto de vista, a compreensão de situações como as narradas por ele passa
pelo reconhecimento de que é preciso repensar essas fronteiras entre as disciplinas e entender
que, na experiência vivida, essas dimensões não são aspectos que vão sendo sobrepostos
como camadas, nem há também uma relação de causalidade; são realidades que vão
emergindo juntas.
Para enfrentar suas dificuldades, Eulálio passou a ler na Internet tudo que se
relacionasse aos seus problemas. O fato de quase não sair de casa levou-o a dedicar muito do
seu tempo a essas pesquisas na rede e também a participar de alguns grupos de ajuda mútua.
Foi com essas leituras que começou a desenvolver o que chama de estratégias mentais.

[...] o que eu considero que realmente foi imprescindível pra mim, em
combate contra meus problemas psicológicos, foi minha estratégia mental.
Eu até fiz uma consulta em um psicólogo caro, cem reais por consulta, mas
como não tínhamos condição financeira não continuamos. Não tínhamos
condição de pagar o tratamento psicológico, apesar de procurarmos o
tratamento psiquiátrico pelo convênio médico. O tratamento psicológico pelo
convênio médico é pago, ou seja, não é coberto pelo nosso plano médico,
temos direito apenas a cinco consultas gratuitas, e eu resolvi fazer já com
certa idade, bem depois de ter desenvolvido o meu plano de usar a mente
contra meus males, aceitar participar, pois até então faltava até a disposição
em aceitar e ir até o tratamento psicológico. A doutora chegou a dormir em
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minhas duas únicas sessões em que fui. Daí eu desisti e resolvi seguir com
meu plano. É por isso que considero que o que mais contou em minha
jornada como força contra meus males foi a estratégia mental que eu usei.
Durante os anos que permaneci em casa, sozinho durante as tardes eu tinha
muito tempo livre e muita ideia na cabeça. Ainda não sei te responder como
essas ideias surgiam, talvez seja a minha forma de ser, eu interpreto as
situações e tudo o mais que chega aos meus sentidos de uma maneira
investigativa, teorizando. Eu sempre gostei de desenhar desde pequeno,
enchia cadernos de desenhos e desenhava relativamente bem, talvez essa
maneira criativa de pensar também me iluminava. Agora, quanto às ideias
que tive para superar meus problemas, foi fruto desse começo, dessas tardes
que passava na Internet, pesquisando diversos assuntos. Eu abria diversos
sites, um site puxando o outro; meu desktop chegou a entupir de páginas e
mais páginas, de tanta coisa que eu pesquisava. Lembro-me de pesquisar
sobre as raças humanas, sobre história geral, que eu adorava, sobre pessoas
importantes na história, puxa, eram tantos assuntos variados, eu nem me
lembro, só posso resumir que esse era meu jeito de ser, investigativo.
Eu estava precisando mesmo era de mudar minha estrutura mental. Era noite,
e as luzes ao fundo passando inspiravam minhas ideias. Eu teria que montar
uma estrutura mental; uma estrutura que mantivesse minha mente estável
durante um chacoalho emocional. E essa estrutura seria feita de pensamentos
fixos, que seriam ativados em cada ponto do chacoalho. E eu ativaria uma
nova etapa nos meus pensamentos: faria como se fosse um radar, eu
executaria uma ação no mundo ao meu redor, e esperaria o feedback, e
analisaria para chegar a uma conclusão. Era o fim dos "achismos" que
vieram comigo e que não cabiam mais ao momento em que eu estava
vivendo. Passei a colocar informações na cabeça e deixá-las em "stand by",
como que esquecendo pra tentar lembrar depois em momentos oportunos.
No princípio eu não fazia ideia se daria certo isso, eu coloquei na cabeça que
seria em caráter experimental, pois eu precisava mudar minha maneira de
pensar. E essas resoluções vieram de outros pensamentos que já afloravam
em minha mente ao longo de um tempo... Foi o resultado de ações iniciais
que eu não me lembro muito bem como começou, talvez foi o meu próprio
jeito investigativo, analítico (eu gosto de ler manuais), e como eu tinha
muito tempo disponível eu ia "enchendo" a mente de informações durante
todo o tempo que eu passei em casa depois dos dezoito anos. [...]

A possibilidade de controlar as emoções e atitudes por meio de comandos mentais
deixou Eulálio muito entusiasmado. É interessante notar como ele se apropria de um
vocabulário oriundo da informática: feedback e stand by são expressões desse modelo
adotado. Sente que encontrou um caminho seguro de superação de suas dificuldades. A
seguir, ele tenta explicar mais detalhadamente como foram surgindo essas estratégias mentais.

[...] Um dia eu descobri o conceito de “abstração”; é só um exemplo, mas eu
me lembro com maiores detalhes, pois foi um dos pontos chaves na minha
história, pois informações como essa alimentavam minha mente e de certa
forma eu tentava integrar os conceitos a minha vida. O conceito de abstração
significava que eu podia dividir minha vida, de maneira a delegar partes dela
a um novo controle, um controle que eu criaria a partir do que eu aprendesse
sobre essas partes da minha vida. Então, ir à igreja seria controlado por um
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fator, as decepções seriam delegadas a um outro sistema, ou seja, eu não
ficaria de imediato constrangido, outra parte assumiria o controle do
acontecido e eu seguiria com a vida principal. Parece algo inexplicável e de
outro mundo, mas dentro de uma mente humana é simples, é quase que
automático; somente a explicação é que impressiona, a realidade é bem mais
simples. E graças a esse conceito de abstração, que eu entendi como
funciona a estrutura universal de solução de problemas e constituição de
sistemas, em todas as áreas da humanidade. Por exemplo, uma tribo não
consegue evoluir porque não abstrair as funções da tribo. Se um fosse
responsável pela análise das madeiras, se outro fosse responsável pela
análise do alimento, ou seja, hoje no mundo existem as abstrações... É difícil
explicar assim de primeira, eu precisaria pensar muito pra poder resumir a
ideia que eu tenho... Espero que consiga compreender até aqui.
Os sistemas no mundo funcionam assim. É um sistema ocidental. E essa
ideia me influenciou ao raciocinar sobre minha própria vida. Eu "'troquei" o
sistema, assumi um novo sistema, assim como estou trocando esse sistema
que me ajudou tanto até agora por outro que eu nem tenho ideia ainda como
é, só sei que me surgiu a ideia um dia de que eu precisava trocá-lo, pois se
encontrou obsoleto numa determinada análise de um conflito que surgiu.
Então eu estou numa espécie de transição, só que bem mais complicada, pois
estou lidando com coisas que eu não sei como vão ser, então estou a cada dia
empurrando meus neurônios a novos campos, como numa batalha: eu tenho
um jogo de simulação de batalhas que você controla diversas armas de
campo, infantaria, tanques, artilharia, e o interessante é que em cada batalha
diferente sempre ocorrem batalhas espalhadas, então um grupo vai por ali e
encontra oposição e cria-se a batalha, enquanto outro grupo ainda não
encontrou batalha, enquanto outro ainda está se locomovendo, outro já está
desgastado a ponto de ruir, enfim, cada um para um lado, e a batalha
acontecendo. É assim que eu sinto que está minha mente; eu estou tentando
implantar um sistema apropriado para meus trinta anos que estão pra
começar, então estou numa corrida pra deixar minha mente estável, pois eu
ainda não contei, mas vários outros defeitos me acometem, coisas que eu não
quero deixar passar pra minha vida... Apesar de parecer perfeito em teoria,
de vez em quando eu penso que vou fracassar, que é ilusão, vários
sentimentos me acometem, mas eu mantenho firme a vontade de sobreviver,
acho que isso me guiou pela vida. Bom, tentei explicar de onde vieram
minhas ideias, espero ter sido claro; são coisas complicadas de serem
explicadas, mas na prática é simples, é automático, por isso peço que não se
impressione pela explicação, mas tente interpretar como algo natural a mim,
algo que surgiu com o tempo, como expliquei. [...]

Em alguns momentos, Eulálio percebe que as estratégias mentais não garantem a
mudança radical que esperava e reconhece as dificuldades de manter esse controle sobre a
vida.

Passou-se um dia desde que comecei a escrever, ou seja, esse texto de agora
é de outro dia e pra dar um exemplo de como é difícil fazer qualquer ação na
vida quando se tem depressão, eu estava no banho ontem à noite e comecei a
pensar que eu só tenho aqueles momentos pra pensar em várias coisas
importantes; enquanto estou na rotina diária eu penso também, mas em
coisas mais primordiais; naqueles momentos do banho eu penso em outras
coisas que me ajudam a esclarecer muitas coisas, e pensei em aumentar o
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tempo de pensar em outras coisas, ou seja, alterar minha rotina de alguma
forma a comportar um tempo pra pensar daquela maneira. Parece simples,
mas logo em seguida que eu pensei nisso, me veio um desânimo e a certeza
que eu não iria conseguir mover um dedo pra fazer aquilo, parecia tão irreal
a possibilidade de alterar minha rotina que eu me recuperei e joguei pra
estrutura que eu tenho em mente, e daí as coisas se clarificaram; só assim foi
possível imaginar uma forma de realizar aquilo e como eu não tinha uma
resposta imediata pra situação, ou seja, não visualizei uma forma fácil de
alterar minha rotina, eu joguei pra depois, é uma coisa que eu faço, eu
guardo em algum lugar da mente e acho que realmente minha mente
caminha pra fazer aquilo acontecer, ou seja, daqui pra frente, rápida ou
lentamente, dependendo do caso, num dia eu vou me lembrar daquilo
novamente, daí num outro dia eu vou relembrar, num outro dia relembro de
novo, até que, num dia, eu penso em alguma coisa, uma hipótese, e ponho na
cabeça uma ideia em favor daquela ideia inicial pra alterar minha rotina, daí,
se tudo der certo e eu encontrar uma nova rotina estável, eu consegui
implementar aquilo que parecia tão impossível realizar sem o auxílio da
minha estrutura mental, entende? [...] Mil desculpas, mas eu realmente não
pude responder todo esse tempo por vários fatores: Num dia eu resolvi
escrever a resposta a essa sua última pergunta, mas caí numa armadilha
mental onde tudo o que eu pensava era rebatido logo em seguida, então eu
nunca chegava a uma conclusão, por isso escrevi pouco e guardei como
rascunho no e-mail para reescrever depois. Mas nos outros dias eu não
lembrava, eu estive com esse problema um bom tempo, eu, apesar de não ter
muitas atividades, tenho umas poucas coisas a fazer no computador e em
casa e eu acordo de manhã, sento na cadeira e simplesmente esqueço do que
fazer! Hoje em dia eu consegui, depois de muito apanhar, configurar na
mente minhas rotinas, mas ainda esqueço de coisas novas as quais eu ainda
não passei tempo contemporizando. Eu tenho que ler e-mails, pesquisar
assuntos nos sites, ler o twitter, configurar alguns softwares que eu puxo da
Internet, limpar minha área de trabalho no computador, estudar no meu
software de aprendizado de linguagens, estudar meus novos cursos de
informática, arrumar minha mesa onde está o notebook, passar o espanador
nos móveis; isso tudo eu lembrei agora porque montei um esquema na
cabeça, mas amanhã vai chegar e eu posso esquecer de tudo... Eu tenho tido
também uma espécie de torpor na mente, como que uma fadiga em certos
momentos que a única coisa que eu vejo na frente é deitar e dormir, mas não
é sono, como, por exemplo, minha mãe, que tem esse probleminha de sentir
um sono de repente e precisar dormir; no meu caso é um bloqueio mental,
uma indisposição no corpo; não consigo pensar, me concentrar, e não é
sono...
Então eu tenho me lembrado de escrever o e-mail, mas é quando eu estou na
esteira caminhando, que eu penso em várias coisas e me vem o que me falta
fazer, mas logo depois da esteira eu tomo banho e quando vou ao
computador meu cachorro quer atenção, tem oito meses de idade, e eu tenho
que dar atenção pra ele porque não consigo ficar no computador, ele não me
deixa, então eu esqueço de tudo o que lembrei e iria fazer de noite, e o ciclo
se repete no dia seguinte...
Mas eu estou tentando combater todas essas coisas, estou tentando criar uma
estrutura mental onde as coisas a fazer apareçam automaticamente, dada uma
certa condição que seja o gatilho, como acordar, sentar na cadeira... Acho
que é a medicação que mexe com a capacidade de raciocínio, e também
porque passei muito tempo sem responsabilidades, e tentar utilizar essa
capacidade me faz sentir como se fosse uma criança tentando fazê-lo.
Vou mandar esse e-mail na frente e escrever o outro, a resposta a sua
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pergunta, logo em seguida; tentarei escrever o melhor possível, mas saiba
que muita coisa que eu escrevo é rebatida na minha mente e fico como que
em cima do muro tentando resolver o conflito... O resultado que eu escrevo é
a melhor interpretação possível do que se passa dentro de mim...
Como eu disse, eu ainda me surpreenderei com novidades filosóficas que eu
venha a descobrir em minha vida, mas eu tracei um mapa mais ou menos de
como eu funciono e é dessa forma que venho fazendo, tentando me ajudar,
lentamente. Não sei se um tratamento psicológico me ajudaria nesse
momento; eu tento ser razoável e ter bom senso nos meus pensamentos,
ainda mais agora que tenho tentado desconstruir meus pensamentos naturais
para dar espaço a um raciocínio lógico mais aprimorado.
Vou dar uma perspectiva de como estou hoje. Hoje tudo o que eu faço passa
por uma análise mental, se estou entrando no box pra tomar banho, eu penso
o porquê irei lavar o cabelo, o que devo fazer antes de sair do box e fechar a
porta, como tratar meu cachorro. Eu planejo meu futuro; tenho tido muitas
vezes em momentos específicos como que abrindo a mente a novas ideias,
novas perspectivas; Eu sou muito volátil, logo daqui a pouco posso estar
com uma tristeza não sei vinda de onde, então tenho que manter firme o
pensamento, que hoje o faço automaticamente. [...]

Certos acontecimentos são descritos por Eulálio como muito traumáticos e, ao mesmo
tempo, como impulsionadores do desenvolvimento de suas estratégias. Vale a pena citar os
dois eventos, considerados por ele, mais sofridos. Na adolescência se apaixonou por uma
colega da escola, com quem se comunicava por bilhetes, pois nunca conseguiu se aproximar
dela. Até que, em um acampamento juvenil, ela iniciou um namoro com outro colega. Eulálio
conta que o trajeto de volta para cidade foi muito sofrido.

[...] Com uma bíblia na mão, muito choro e leitura constante dos versículos,
pois não podia ficar um minuto sequer sem pensar no ocorrido, e o tormento
mental era muito forte. Foi tão forte o ocorrido que me mudei por uns meses
para o novo apartamento de minha mãe no litoral e por vários meses ou
ainda por anos a tortura mental era extremamente forte, como se eu tivesse
perdido toda a minha esperança. Eu só superei esse problema por volta dos
22 ou 23 anos. [...]

Entre os 18 e 25 anos, essa frustração afetiva era uma das poucas lembranças de
Eulálio. Outra decepção amorosa parece ter deixado marcas profundas, mas, ao mesmo
tempo, o fez produzir certas estratégias para enfrentar situações mais difíceis. Foi aos 24 anos
quando ele se apaixonou por uma prima.

[...] Mas eu era um homem depressivo, psicótico e com fobia social, segundo
minha psiquiatra. Nunca sequer conversei com ela (a prima), só ficava
paquerando por olhares. Ela tinha um blog e relatava seu dia nele. Eu
descobri e todo dia lia o que ela escrevia. Um homem que nasceu inseguro e
carente, depressivo, fóbico e psicótico é uma receita para um desastre. Num
dia voltei da casa dela, eu e minha mãe, e muito contente porque achara que
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ela tinha correspondido muito bem naquele dia. Fui ler o blog e me deparei
com um relato que dizia o contrário do que eu estivera imaginando; ela
simplesmente me desprezou e disse não ser quem ela demonstrava ser. [...]

Eulálio não se refere ao que leu no blog, mas conta que o que estava escrito “acabou
com sua noite e com sua vida”.

[...] Um tormento mental se instalou, e como já houvera vezes ter
acontecido, o fim de tudo, da esperança, dos sonhos, da vida aconteceu. É
uma sensação como que se você não prestasse pra nada, fosse um inútil para
o resto da vida, e desprezado por ser quem você é. O sentimento de desprezo
é um sentimento de ter sido desprezado por uma pessoa que vale muito,
como um rei, uma rainha, alguém muito importante. Enfim, a depressão
tornou essa cena pior. Eu gritava pra minha mãe me ajudar, deitei na cama, e
as paredes pareciam vir pra cima de mim, escuras, o teto não significava
nada, minha mãe não conseguia me ajudar, o tormento mental era enorme,
como um carrasco sem piedade me lembrava do desprezo. Eu estava numa
prisão, um calabouço; estava num breu, sem saída, pronto para o fim. Mas o
homem evoluiu ao longo do tempo, e não deixaria de ser assim comigo,
apesar de minha mente estar contra mim desde que nasci. [...]

Foi exatamente nesta circunstância que se dirigiu ao computador, leu mais uma vez o
texto, pensou sobre o que havia lido e começou a riscar traços em um papel. Ele considera que
a primeira frustração amorosa o levou à depressão, e a segunda permitiu-lhe descobrir uma
estratégia que o ajuda a sair da depressão.

[...] E cada traço que eu riscava eu balbuciava coisas que eu entendia
inconscientemente, mas não raciocinava; e traços pra cima e pra baixo, pro
lado, como se fosse um diagrama com a variável "se": se é assim, é tal e tal...
se é assim, é tal; e eu levava esse pensamento até que cheguei numa luz,
cheguei numa conclusão lógica, irracional, mas cheguei; e aquilo me deu
alento, e acalmou o tormento. O que era o fim do mundo tornou-se esperança
novamente.
Naquela noite eu consegui dormir. E nos dias seguintes, quando eu era
lembrado do ocorrido, eu recorria a esse método de tentar pensar
logicamente, ainda que incompreensível racionalmente.
No ano seguinte eu já estava desenhando as situações numa folha de caderno
e tentando chegar a conclusões lógicas; hoje, graças a esse método e a um
novo remédio para psicose, é incrível o número de informações que eu
consigo resolver dentro de minha cabeça; experiências ainda não vividas são
confrontadas logicamente, assuntos simples se tornam dissertações dentro de
minha mente e hoje combato minhas psicoses dessa forma e estou tendo
progresso.
Hoje estou aí; ainda não sou realizado e, detalhe: ainda tenho depressão. Os
meus pensamentos ainda saem errados, mas eu detecto, e tento corrigir;
corrijo minhas psicoses... Psicoses são pensamentos do tipo, às vezes me
vem uma urgência na mente de pensar em algo bom, senão vai me acontecer
alguma desgraça; de balbuciar alguma coisa, senão mais desgraças podem
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acontecer; achar que todos na rua estão falando e olhando pra mim, e muitas
outras infantilidades, coisas que trazemos da infância que estou tirando de
minha vida, para viver melhor daqui pra frente. Mas ainda não estou
realizado; digo que estou infeliz, por vários motivos, e uma dúvida maior e
pior fica em minha cabeça, se eu estou me preparando, como um filhote de
águia, que somente após um ano aprende a voar, ou se eu simplesmente não
estou vivendo, se sou essa pessoa medíocre e que sempre serei e viverei isso.
Enfim, mais neuras para que eu me divirta tentando debulhar com meus
neurônios. [...]

As estratégias que Eulálio lança mão para enfrentar esse sofrimento são muito
centradas na ideia de que é possível controlar essas situações com comandos racionais, mas há
diversos momentos em que ele percebe a grande dificuldade de alcançar êxito. Assume a
responsabilidade e sente-se culpado por não ter sido capaz de conduzir bem sua vida.
66

4 NOVAS FORMAS DE SE SITUAR A PARTIR DAS TERAPIAS RELIGIOSAS

Inicialmente não havia planejado dedicar mais atenção às terapias religiosas do que
aos outros tratamentos. Entretanto, no enfrentamento da dor, as experiências consideradas
mais importantes, pelas próprias pessoas acompanhadas, são as que ocorrem no âmbito
religioso. Matilde e Maria, por exemplo, reconhecem a necessidade de uso da medicação,
assim como estão convencidas da ajuda que as psicoterapias podem oferecer, mas revelam
que, só quando recorreram à religião, passaram por transformações mais significativas. A
terapia religiosa é sentida por muitos como a responsável pelas mudanças mais relevantes e
pelo fortalecimento para enfrentar o sofrimento. Por essa razão, volto-me com mais atenção
para a tentativa de compreender um pouco mais desse mundo onde as pessoas em situação de
sofrimento emocional vão se sentindo menos frágeis e mais encorajadas a superar suas
dificuldades.

4.1 A PRESENÇA DE ENERGIAS NO MUNDO DE MATILDE

A noção de crise, tão presente em todos os relatos, nos remete a situações muito
intensas de ruptura com o mundo compartilhado: descontroles, delírios, agressividade e
pânico. Abaixo Matilde narra alguns momentos de crise.

[...] Porque eu já tava tendo delírio. Quando eu fui levada pra o hospital, eu
sentia algumas partes do meu corpo dormentes, eu achava que minha perna
tava gangrenada e eu ia ter que amputar a perna e que, por isso, tinham me
levado pra o hospital. Eu nem olhava pra minha perna... Mas eu tinha uma
imagem da minha perna toda sangrando e podre já, e eu sentia a perna
dormente, não sentia dor, sentia dormência. Eu achava que ia ter que
amputar e que eu ia morrer. Aí eu só falava “mãe, eu te amo”, “mãe, eu te
amo”. Eu não tinha nada na perna, mas eu não conseguia olhar a perna.
Sempre que eu tô nessas loucuras, eu não sei verificar se eu tô certa, se eu tô
errada. Já teve uma vez que eu achei que tinham uns bombeiros jogando
água na minha janela porque eles queriam me pegar, isso foi de noite. Mas,
não tinha ninguém na minha janela. Nessas horas o que é que eu tinha que
fazer? Ir na janela olhar, né? Mas eu tinha tanto medo de ir na janela e ver os
caras jogando água, que isso me... o medo me paralisava. E era chuva, só
que uma chuva forte. Todos esses surtos eram porque eu não conseguia ter
um comportamento normal que as pessoas têm de achar que tá acontecendo
alguma coisa e ir verificar se aquilo é real ou não. Quando eu pisava o pé na
rua, eu achava que tinha várias pessoas apontando pra minha cabeça com
aquele laser vermelho. Então eu achava que iam atirar na minha cabeça. Às
vezes eu achava que tinham colocado cola no meu shampoo, que minhas
roupas não eram minhas roupas. Eu já achei que eu tava morta, foi uma vez
que eu precisei ser internada porque eu fiquei muito fraca, porque não tava
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me alimentando direito nem bebendo líquido. Aí eu fui internada e tive que
tomar soro, aí eu achava que os alemães e os americanos tinham colocado
umas cápsulas no meu soro e que elas iam se multiplicando no meu corpo,
tipo matrix, eu achava que eles tavam fazendo uma experiência comigo. Era
um período que eu tinha mania de que eu era cobaia, cobaia das pessoas.
Teve um momento que eu achava que tava morta, sentia o cérebro
adormecido, sabe? Eu achava que tava quase morta. Eu achava que dependia
de mim reagir e não morrer. Na última crise que eu tive, eu achava que os
federais tavam atrás de mim. Porque os traficantes queriam me usar como
bode expiatório pra eu ser presa no lugar deles. Aí eu falei pra um amigo
isso e eu falo com tanta convicção que esse amigo me perguntou: por quê? O
que foi que vc fez? Aí eu me embananava toda pra falar, mas falava. Uma
vez eu tava há três anos sem ter relação sexual e eu achei que tava grávida de
gêmeos. Como eram gêmeos homens, e meu pai sempre quis ter filho
homem, eu achava que minha mãe queria matar meus filhos. E eu falava
com as pessoas: “eu tô grávida, eu tô grávida”. As pessoas diziam pra mim
que não tinha a menor possibilidade de tá grávida sem ter tido contato com
sêmen, mas pra mim era muito real, entendeu? É uma complicação danada.
Quando eu tô na crise, eu não tenho consciência do que é real e do que não é
real. A pessoa pode falar que é impossível, mas eu não acredito na pessoa.

Esse sofrimento ameaça as tentativas de atuação da normalidade em um mundo social
comum, e a dificuldade de entender o que está acontecendo produz muita angústia. Tal
situação exige um empenho de cada um em chegar a uma compreensão. As narrativas têm
papel importante no processo de buscar situar o sofrimento na trajetória de vida, tentando
colocar a significação dos eventos ordenados no tempo e projetando um futuro mais positivo.
Simbolizar a origem do problema é uma tentativa de capturar o poder de aliviá-lo. No entanto,
esse processo de simbolização no espaço religioso não deve ser pensado como uma
transformação restrita ao nível semântico apenas.
Fernandez (1986), em um trabalho chamado Voltando ao todo, ressalta o quanto a
religião pode associar eventos que pareciam desconectados e ordená-los em um todo
coerente. Nessa realização, ela proporciona uma experiência de “relacionalidade”
(relatedness). Trata-se de sair das vivências particulares e sentir-se articulado a uma
totalidade. O autor acredita que, enquanto as sociedades modernas parecem negligenciar
essa articulação, a maior parte das religiões talvez esteja preocupada fundamentalmente
com a restauração do estado de relatedness.
A dedicação de Matilde ao espiritismo é algo que chama a atenção. Mesmo nos
momentos mais difíceis de tristeza e indisposição, quando não consegue realizar as atividades
cotidianas, raramente deixa de ir ao centro espírita, pois sente que esse tratamento lhe
proporciona uma melhora imediata. Ter tido a oportunidade de acompanhar de modo mais
próximo e por mais tempo a trajetória de Matilde me permite expor mais detalhadamente sua
experiência.
68

O mundo de Matilde, com a imersão no espiritismo, passa a se revelar em dois planos:
o material e o espiritual. A realidade visível, ou plano material, é vista como um campo de
provações, de dificuldades, de sofrimentos passageiros e necessários para que os espíritos
evoluam e possam viver melhor no mundo invisível ou espiritual, este situado em um nível
hierarquicamente superior.
No espiritismo, considera-se que só o corpo morre definitivamente, pois o espírito
sobrevive, desencarna e reencarna em outro corpo, cumprindo sua escalada evolutiva num
mundo de expiações e provações, rumo à perfeição, razão por que os espíritas não utilizam o
termo morrer quando a vida se extingue. Segundo eles, as pessoas desencarnam, e o espírito
não morre, só o corpo. A compreensão da relação entre dimensão material e espiritual
depende do entendimento de que o homem, assim como o cosmo, é constituído por uma
trindade: corpo, alma e perispírito.
O espírito é considerado o princípio inteligente da matéria, ele encarna, em um corpo,
seu invólucro perecível e instrumento material da ação da inteligência espiritual. O
perispírito, um fluido universal, é uma energia etérea e sutil que une o corpo ao espírito e
interliga os planos material e espiritual, proporcionando a comunicação entre encarnado e
desencarnado. É no perispírito também que se constitui a individualidade da alma, e, com
isso, todo o registro das atitudes e condutas dos indivíduos nas suas diversas encarnações. O
perispírito personaliza, individualiza e identifica o espírito. Por ser fluido, pode sofrer marcas,
mutações, deformações e lesões, como decorrência de acontecimentos do passado, somente
regeneráveis pela reforma moral promovida no espiritismo.
A gravidez, por sua vez, é vista como o momento em que o espírito pré-existente se
materializa em um corpo, quando, ao longo do período de gestação, vai apagando toda sua
memória de vidas passadas. Essa memória permanece inconsciente e registrada no perispírito,
podendo vir à tona nos sonhos, sob a forma de intuições e visões. O período que vai da
desencarnação até a nova encarnação é chamado de perturbação, e a duração dessa fase
dependerá do grau de evolução do espírito. Quanto mais elevado, mais rapidamente passará
por esse estágio e, consequentemente, sofrerá menos do que os inferiores.
A capacidade de comunicação com esse mundo espiritual é chamada mediunidade.
Segundo a definição de Kardec (1997), principal sistematizador da doutrina espírita, o
médium é um indivíduo que serve de união entre os humanos e os espíritos em suas
comunicações, é como se fosse um intérprete dos espíritos.

69

Seu papel é o de máquina elétrica, que transmite os despachos telegráficos
entre pontos afastados da terra. Assim, quando queremos ditar uma
comunicação, agimos sobre o médium como o telegrafista sobre o aparelho.
Isto é, do mesmo modo que o tique-taque do telégrafo desenha sobre a fita
de papel, a milhares de léguas os sinais reprodutores do despacho, nós
comunicamos através de distâncias incomensuráveis, que separam o mundo
visível do invisível, o mundo imaterial do encarnado, aquilo que nós
queremos ensinar, por meio do aparelho mediúnico (KARDEC, 1997, p. 78).

Para Matilde, todo ser humano tem algum grau de mediunidade, por isso convive
cotidianamente com seres espirituais. Quer se tenha consciência ou não, os espíritos estão
sempre tentando se comunicar com as pessoas e sobre elas exercer influência pela força do
pensamento e da vontade. Matilde diz que convive todos os dias com espíritos, eles lhe dão
conselhos bons ou ruins, a depender do nível de evolução em que se encontram. Seus próprios
pensamentos, ou os dos outros, são vistos como a manifestação da atuação de espíritos,
penetrando de um modo tão disfarçado que dão a impressão de serem nossos.
As vozes que Matilde escuta são vividas como a confirmação diária da orientação dos
espíritos. Estas experiências, antes diagnosticadas como delírio, agora passam a ser
legitimadas no espiritismo como a expressão de uma capacidade mediúnica de comunicação
com espíritos de pessoas falecidas.

[...] Às vezes eles falam direto pra mim, às vezes tem uns que dizem assim
não tome banho não, deixe pra amanhã. Eu já desconfio logo que não é
espírito bom, é espírito que quer me ver mal. Muitos dos nossos
pensamentos não somos nós, são espíritos que conseguem entrar em sintonia
com a gente e coloca lá esses pensamentos, e você nem percebe, você acha
que são seus pensamentos. Tem espíritos que fazem o bem e tem aqueles que
instigam o mal. Tem espíritos que se utilizam de familiares pra fazer o mal.
Às vezes os espíritos sabem de nossas fraquezas porque convivem com a
gente há tanto tempo... O que acontece é que, quando ele não consegue lhe
atingir diretamente, aí ele pega o seu filho e aí seu filho sabe de uma
fraqueza sua que sabe que vai te irritar, não é seu filho que tá falando aquilo,
é um espírito ruim que quer causar desordem na sua família, porque eles se
alimentam desse tipo de energia, eles incentivam a agressividade. [...]

A vida de Matilde passa a ser povoada por espíritos e hierarquizada em faixas
vibratórias que vão desde as mais inferiores às mais elevadas. Essas imagens estão muito
presentes em suas experiências. Habitualmente ela se refere a sensações relacionadas à
aproximação dessas faixas vibratórias. Seria por meio de vibrações que os espíritos imprimem
o conteúdo moral que desejam transmitir. Vibrações com o conteúdo moral semelhante
agrupam-se, formando faixas vibratórias.
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Vários sentimentos, bons ou ruins, vivenciados por Matilde [revolta, tristeza,
serenidade, dor ou calma], segundo ela, podem ter relação direta com a faixa vibratória em
que ela está conectada e ser consequência da presença de espíritos menos ou mais evoluídos.
Acredita que cada um define, por meio das suas atitudes e pensamentos, quais os espíritos
com os quais irá conviver. No entanto, todos teriam a companhia de um espírito superior, com
a missão de proteger, que equivale ao Anjo da Guarda dos católicos, e o livre-arbítrio para
escolher comportamentos e pensamentos elevados, atraindo a presença de espíritos superiores
e afastando aqueles que causam mal.
Quando, por uma baixa qualidade de pensamento ou ação, diz Matilde, permite-se a
aproximação de espíritos inferiores, acontece a obsessão. É um fenômeno em que o espírito
inferior consegue exercer uma influência profunda sobre um indivíduo, a ponto de dominar-
lhe completamente o comportamento. A obsessão é a ação persistente de um mau espírito
sobre uma pessoa. Representa características diversas, desde a simples influência na ordem
moral, sem sinais exteriores perceptíveis, até a completa perturbação do organismo e das
faculdades mentais. O obsidiado vai perdendo o controle sobre si mesmo, processo que pode
se agravar, provocando distúrbios mentais.
Os obsessores são espíritos revoltados que não aceitam se submeter à reencarnação.
Aceitar a reencarnação significa arrepender-se, assumindo sua culpa e seu carma. Mais
importante que isso, encarnar novamente significa estabelecer um compromisso com sua
própria evolução, passando por todo tipo de provação. Segundo um autor espírita chamado
Jorge Santos, a maioria das doenças mentais é decorrente de atos do passado.

O passado do ser humano, envolvido em interesses pessoais e egoísmos de
toda ordem, necessita de retificações, a fim de que sua caminhada evolutiva
possa alcançar parâmetros de sublimação, situação que todos um dia
alcançarão (SANTOS, 1990, p. 32).

Kardec (1988a) salienta que, embora a doença mental possa ser fruto de um estado de
obsessão, deve-se ter cuidado para não confundir a loucura patológica com a obsessão.
Enquanto a primeira tem um caráter objetivado, ou seja, houve a afetação de algum órgão, o
que permite à biomedicina diagnosticar como distúrbio mental, a segunda não se origina de
nenhuma lesão cerebral, mas da subjugação que espíritos inferiores exercem sobre certos
indivíduos e que tem a aparência da loucura propriamente dita.
Matilde acredita na existência de uma dimensão orgânica de seus problemas, a ser
tratada com o uso de medicação psiquiátrica, e de uma espiritual, provocada pela obsessão de
71

espíritos inferiores. O entendimento do sofrimento vivido por ela passa, com a imersão no
espiritismo, a ser identificado como um quadro típico de interferência de espíritos de pessoas
falecidas, requerendo, portanto, o tratamento em sessões de desobsessão, ritual voltado para o
afastamento dos espíritos inferiores, que são orientados a seguir o caminho da evolução e
libertar o obsidiado.
Certa vez a acompanhei numa dessas sessões de desobsessão. A sala onde se realiza
esse ritual fica na penumbra, iluminada apenas por uma pequena lâmpada escura. Muitas
pessoas são atendidas ao mesmo tempo, cada uma delas com o acompanhamento de um
médium, cuja tarefa é incorporar e dar voz aos espíritos obsessores. Enquanto isso, outros
médiuns se encarregam de dialogar com tais espíritos, buscando educá-los de acordo com os
princípios da doutrina. Os espíritos falam alto, xingam e são bastante agressivos. O ambiente
criado nesse ritual é oposto ao clima de serenidade e silêncio prescrito pelos espíritas como
ideal. Não pude ter acesso aos detalhes do que ocorreu com Matilde porque, apesar de
entrarmos juntas na sala, por acaso fomos colocadas a certa distância uma da outra. Quando
saímos da sessão, ela me revelou que o espírito obssessor, que a estava perturbando, havia
sido afastado.

[...] Quando o espírito se manifestou, ele disse que gostava de me ver mal,
tomando muito remédio... e ele ria disso, mas era apenas um espírito leviano,
não era um espírito muito ruim. Quando o espírito se manifesta em mim, e
não no médium, meu coração bate muito acelerado quando ele começa a
falar. Tem uma gangue de espíritos muito ruins que me acompanha; às
vezes, eles aparecem quando eu abro sintonia, eles são espíritos que não
conseguem encarnar logo, porque são mais primitivos, ficam vagando por aí,
mas são iguais a gente, são vingativos... Quando a gente não gosta de uma
pessoa por alguma razão, a gente não deseja mal a ela? Esses espíritos são
assim vingativos também, e, quando a gente entra em sintonia com esse tipo
de energia, eles se aproximam. Mas, na desobsessão, eles deixam a gente,
são doutrinados e vão enfraquecendo. [...]

A sessão proporciona espaço para que as vivências anteriores de Matilde possam
interagir com as novas situações propostas até que ela alcance a compreensão fundamental e a
solução de seus problemas. É nessa dinâmica de diálogo que são legitimadas, ou não,
determinadas experiências que ela carrega. Ao ingressar no espiritismo, Matilde não assimila
passivamente as imagens propostas pela terapia, pois nutre a expectativa de que suas
compreensões e experiências mais particulares sejam aceitas pela instituição.

[...] Já teve vezes que eu fiquei muito mal e não era eu, era um espírito junto
de mim precisando de ajuda. Teve uma vez mesmo que eu tava me sentindo
72

muito mal mesmo, teve um médium que... esse dia me chamou bem a
atenção, teve um médium de atração que... aí foi um médium atrás do outro,
um veio incorporou, saiu, outro veio, incorporou, saiu, outro veio incorporou
saiu, acho que foram uns quatro médiuns ou mais, e depois veio outro pra
me dar um passe. Quer dizer, aquela dor, aquela coisa que eu tava sentindo
não era eu, era espiritual, entendeu? E eu não conseguia me libertar disso. Eu
sei que tomando banho melhora bastante, banho frio. Depois o médium que
me deu o passe me disse que ele incorporou um índio e geralmente quando é
índio, caboclo ou preto velho, pode se preparar que é um excelente sinal, é
uma coisa muito boa, é um privilégio você ouvir um caboclo, porque não
acontece a todo momento, entendeu? É muito raro um caboclo incorporar e
falar coisas pra você de sua vida. Ele falou assim: “você tem que se
perdoar”, falou assim pra mim, e eu não parava de chorar, e ele dizia: “você
tem que se perdoar”. Aí eu falei assim: “eu não consigo me perdoar” e eu
chorava, eu consigo perdoar outras pessoas, mas a mim eu não consigo me
perdoar. Aí ele falou assim: “você tem que se perdoar pra seguir em frente,
porque se você ficar sempre olhando pra trás, sempre se lamentando, sempre
sem querer crescer, você vai ficar estagnada e vai perder tempo”, foi mais ou
menos isso, seguir adiante sem olhar pra trás. Eu entendi assim que não
adianta olhar pra trás porque o que ficou lá atrás não tem como mudar,
entende? O que importa é daqui pra frente, o que eu vou fazer da minha vida,
sabe? Depois ele foi embora. É raríssimo uma pessoa que vai tomar um
passe receber conselho de um espírito elevado. O caboclo e o preto velho são
espíritos bem elevados. Eles se colocam dessa forma, não sei por que, mas
eles já foram médicos, já foram milionários, já foram várias coisas na vida
em outras reencarnações. [...]

Dizer que ela precisa se perdoar oferece-lhe espaço para fazer suas próprias
elaborações com imaginação criativa, imprimindo um sentido ao drama encenado e lhe
propondo uma nova forma de se situar no mundo. Não houve no ritual apenas a
interpretação de um problema que foi comunicado, vimos que tratar o ritual como código ou
linguagem é subestimar o seu alcance. A performance ritual oferece a Matilde a
oportunidade de atuar sua experiência, gerando condições não só para reflexão, mas
também, de imersão absoluta no contexto de ação e encenação. Toda a situação em que se
envolve, ao ouvir de um espírito mais elevado que ela precisa se perdoar, exerce um forte
impacto sobre Matilde. Faz com que reconheça o quanto as exigências e cobranças feitas a
si mesma produzem um sofrimento muitas vezes difícil de suportar. Ao falar dessa
experiência, ela se emociona e chora.
Matilde torna-se expectadora do que faz e também cria e constrói a performance. O
valor do ritual reside em parte nessa ambiguidade entre ativo e passivo. O sentido é de uma
arena, onde o indivíduo é livre para estender sua busca, tanto para fora, quanto para dentro,
e descobrir novas formas de se situar na vida. A força e o poder do ritual residem, em parte,
nessa elasticidade e permeabilidade, proporcionando um engajamento total no contexto da
performance. A transformação vai-se fazendo nesse espaço oferecido pelo ritual para cada
73

um se projetar, se sintonizar com o drama proposto, mas carregando sua própria história.
Evocar o perdão é trazer para a realidade sensações, emoções e, a partir daí, abrir novas
possibilidades de viver. Essa articulação experimentada no ritual permite-lhe desenvolver
conexões com uma série de condições difíceis que vivencia e lhe oferece um caminho menos
sofrido.
Há outro centro espírita frequentado por Matilde, cuja sessão de desobsessão é feita de
uma forma um pouco diferente da anterior, da qual tive a oportunidade de participar. Nesse
ritual, o diálogo de doutrinação com o espírito obsidiador não é feito pelos médiuns
terapeutas, mas diretamente por espíritos mais evoluídos. Ela se realiza em uma grande sala
com iluminação de quase penumbra, onde são atendidas mais ou menos doze pessoas ao
mesmo tempo. Antes de entrar, Matilde chamou a atenção para necessidade de tirar os
sapatos, por uma questão de higiene, pois lá dentro as pessoas se deitam no chão. Em seguida
ela me explicou a importância de permanecer deitado no chão durante a terapia, pois, nessa
posição, a alma se emancipa, e há o alinhamento dos chacras. É uma posição perfeita para se
trabalhar a energia neles.
Nas primeiras vezes em que participou dessa desobsessão, conta que chorou muito, o
corpo tremia, e as pernas ficavam sem força para mantê-la em pé. Muitas vezes ela incorporou
espíritos, e, nesses momentos, os terapeutas pedem para as pessoas abrirem os olhos e, desse
modo, evitarem essa incorporação. Já incorporou espíritos obsidiadores de sua mãe, que
diziam que a fariam beber e fumar cada vez mais, pois pretendiam acabar com a família.
Cada pessoa tem o acompanhamento de um terapeuta que permanece sentado no chão,
transferindo com as mãos energias positivas para o paciente durante toda a sessão. São mais
ou menos oito minutos em que se permanece deitado com os olhos fechados. Ao longo desse
tempo, apenas ouvimos a manifestação dos espíritos obsessores: são risos e frases agressivas
dizendo que vão destruir as pessoas e que querem vê-las passando mal. Além disso, alguns
emitem sons expressivos de revolta por estarem sendo doutrinados, assemelhando-se aos
gritos de um porco quando está sob ameaça. Diferentemente do outro centro espírita, nesse a
desobsessão não requer a mediação de nenhum terapeuta, são os próprios espíritos mais
evoluídos que atuam e sem a necessidade de verbalização. Os terapeutas permanecem em
silêncio à espera da doutrinação silenciosa dos espíritos mais evoluídos que estiverem
presentes.

[...] É muito melhor quando a doutrinação é feita por espíritos evoluídos,
porque eles têm mais condição do que qualquer médium, porque eles fazem
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parte desse mundo espiritual. E assim, a pessoa não precisa dizer nada pra o
médium, basta pensar, imaginar os problemas que os espíritos bons
entendem e se comunicam com os espíritos obsessores. É tudo feito em
silêncio, e você não tem que contar tudo em uma entrevista, como no outro
centro, e depois ser encaminhado pra o médium que vai doutrinar. Você fica
até mais à vontade, porque é só mentalizar e pronto, a comunicação vai
acontecer sozinha. [...]

Esse formato de desobsessão, onde não é preciso explicar nada a ninguém, nem antes,
nem durante a sessão, é considerado por Matilde mais eficaz. No ritual descrito anteriormente,
cada pessoa precisa relatar a um terapeuta as razões da busca pelo tratamento antes do início
da sessão, e é necessária a mediação de um terapeuta no momento da sessão. Nesta as
experiências nem chegam a ser traduzidas em linguagem conceitual. Receber ajuda dos
espíritos sem que seja necessário comunicar os próprios problemas, segundo Matilde, é
melhor, porque os espíritos evoluídos sabem muito mais do que qualquer pessoa o que está
acontecendo no mundo espiritual, por isso vão agindo de modo poderoso.
Considerando que toda doença está relacionada à deformação no perispírito,
provocada, em última instância, por uma conduta moral falha, o tratamento implica,
sobretudo, na tentativa de manter uma conduta pautada na doutrina, como forma de não se
predispor à aproximação de espíritos considerados inferiores e evitar esse processo chamado
obsessão, em que se passa a ser controlado pela vontade de espíritos perversos e vingativos.
Todas as atividades desenvolvidas no interior do centro espírita estão fundadas numa
preocupação pedagógica, objetivando guiar tanto as pessoas, quanto os espíritos, na direção
da evolução.
Parte-se do princípio de que sendo Deus perfeito, não poderia criar um mundo e
indivíduos imperfeitos, sem que houvesse uma razão justa para isso. Sendo assim, todos os
espíritos são imperfeitos, mas dotados de livre-arbítrio para que possam optar pelo bem ou
pelo mal, o que implica na singularidade de cada trajetória rumo à perfeição. O merecimento
para gozar dos benefícios da perfeição dependerá sempre do empenho de cada um em
particular.

[...] Se a conduta do homem estivesse submetida à fatalidade, ele não teria
nem responsabilidade do mal, nem mérito do bem, desde então toda punição
seria injusta e toda recompensa sem sentido. O livre-arbítrio do homem é
uma conseqüência da justiça de Deus, é o atributo que lhe dá sua dignidade e
o eleva acima de todas as outras criaturas [...] (KARDEC, 1997, p. 92).
[...] Deus, sendo soberanamente justo, deve considerar igualmente a todos os
seus filhos; e é por isso que dá a todos o mesmo ponto de partida, a mesma
aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de agir. Todo
privilégio seria uma preferência, e toda preferência uma injustiça. Mas a
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encarnação não é para todos os espíritos, senão um estado transitório: é uma
tarefa que Deus lhes impõe, na sua entrada na vida, como primeira prova do
uso que farão do seu livre arbítrio. [...] Aqueles que fazem mau uso da
liberdade que Deus lhes concede, retardam seu adiantamento; é assim que,
por sua obstinação, podem prolongar indefinidamente a necessidade de se
reencarnar, e é então, que a encarnação se torna um castigo [...] (KARDEC,
1997, p. 43).

Nesse sentido, a fonte da vida é considerada perfeita, e qualquer doença ou
desequilíbrio físico e mental decorre da falta de sintonia com essa ordem cósmica. Ou seja,
quem não conduz sua vida de acordo com os princípios da doutrina espírita, atrai energias
negativas, predispondo-se ao desequilíbrio e às doenças.
A terapia espírita volta-se, portanto, para orientação das pessoas na busca da evolução
espiritual, pautando seus comportamentos na doutrina, como forma de não atrair espíritos
obsessores. Essa evolução espiritual está baseada na prática da caridade, ou seja, no exercício
do bem e do amor ao próximo. A vida cotidiana deve ser guiada por esse ideal. Considera-se
de grande importância também o reordenamento da postura frente à vida, optando-se por uma
atitude equilibrada, tranquila, compreensiva e serena. Antes da aproximação com o
espiritismo, muitas pessoas dizem que a vida era marcada por agressividade, angústia, revolta
e nervosismo. Ser espírita implica, ao contrário disso, em se posicionar sempre de uma
maneira tolerante, compreensiva e serena não só com os outros, mas consigo mesmo. A
conquista desse modo de se situar no mundo depende do controle de impulsos, emoções e
desejos. O processo de formação espírita está ligado a esse monitoramento sobre o corpo, com
a adoção de uma série de práticas permanentes de avaliação e domínio das atitudes. A
evolução espiritual só é possível pela capacidade de direcionar a própria vida segundo os
parâmetros da doutrina.
Matilde explica que há uma missão dada por Deus aos espíritos: é a de chegar ao grau
de espíritos superiores e atingir o estado de espíritos puros. Esse objetivo é alcançado por
meio de uma longa trajetória evolutiva, onde os espíritos encarnam, desencarnam e
reencarnam, constituindo-se, portanto, em um encadeamento de passagens do mundo visível
para o invisível. Por isso, conforme a concepção de carma, nenhum evento moralmente
significativo se perde. Cada atitude, boa ou má, tomada no passado, exerce influência no
presente. Os espíritos estão sempre tendendo para o progresso, sendo impossível a involução
espiritual, permanecendo-se, no máximo, estacionário. O carma, essa influência das atitudes
do passado, imprime certo determinismo à existência. Entretanto, considera-se que ele é
produto das escolhas de cada um e está sempre disponível à reparação no presente.
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No espiritismo, Matilde vai compreendendo sua responsabilidade pelo que lhe
acontece e a necessidade de assumir um compromisso com a própria evolução. Isso significa
afastar de si todo tipo de intolerância, raiva, rancor, agressividade, revolta, angústia, tristeza e,
sobretudo, desmotivação, atitudes que favorecem a aproximação dos campos energéticos
negativos, cujas vibrações são responsáveis pelo desequilíbrio, de onde se originam as
doenças e os sofrimentos. Começa, então, a buscar adotar posturas contrárias a estas,
cultivando-as e aperfeiçoando-as, para favorecer a evolução espiritual e garantir a saúde. O
empenho de Matilde é o de afastar comportamentos e pensamentos tidos como negativos, para
impedir a sintonia com vibrações energéticas ruins e, desse modo, se proteger das vibrações
inferiores. A intenção é não tornar-se vulnerável à aproximação de espíritos perversos,
capazes de desestruturar a vida e levar à realização de coisas indesejáveis, tirando o controle
sobre as próprias ações.
Nos depoimentos, frequentemente havia referências às dificuldades de se adaptar ao
modelo de autocontrole proposto pelos terapeutas do centro. Embutida em tal mensagem de
exigência desse controle sobre o corpo, encontra-se a noção de um eu bem demarcado sob o
comando de uma vontade una, que é a razão. Subjacente a essa ideia, está o individualismo
típico do ocidente moderno. Esse senso de responsabilidade sobre tudo o que se vive está
muito presente na experiência de Matilde. Nos momentos em que começa a sentir tristeza e
falta de vontade para fazer as coisas, ela luta com todas as forças para não se entregar a essa
melancolia e vai ao centro espírita. Acredita na importância dos rituais terapêuticos espíritas,
mas sabe também o quanto é fundamental perseguir uma atitude na vida pautada nas
orientações religiosas.
Algumas pessoas afirmam que, após se tornarem espíritas, passaram a enfrentar os
problemas com mais tranquilidade. O espiritismo parece proporcionar um sentimento de
força para enfrentar as situações difíceis. Um traço marcante na vida de quem se torna
espírita é exatamente essa tentativa de aquisição de controle total sobre o que se quer fazer.
A ideia de tornar-se mais forte expressa bem esse ideal – acreditar que a força de vontade
permite alcançar o que se deseja. Enquanto toda conduta na vida deve ser pautada por esse
controle e responsabilidade, na sessão onde se afastam os espíritos ruins o descontrole é
tolerado, pois vem dos espíritos inferiores, que precisam ser educados para que possam
evoluir.
No espiritismo, cada um é responsável pela própria reforma íntima e preparo para
enfrentar todas as provações que se apresentam, por isso o controle sobre os comportamentos
é extremamente valorizado. O alcance desse domínio vem sempre acompanhado de certo
77

orgulho, de uma sensação de que se está evoluindo. Verônica, uma terapeuta do centro, falou
sobre o quanto ela se esforça para manter a disciplina necessária para estar em equilíbrio e
harmonia interior. Contou que fumava havia trinta anos e que este hábito estava em desacordo
com a doutrina espírita. Em determinado momento, ela disse que foi preciso decidir entre
deixar de fumar ou abandonar o espiritismo. A partir desse dia, ela tomou a decisão de nunca
mais fumar. Relata que é preciso se manter o tempo todo vigilante, pois ter a disciplina
exigida pela doutrina não é fácil. “Às vezes a gente se pega tendo uma recaída, então não
podemos nos distrair.”
Os rituais espíritas são considerados fortalecedores, também aliviam a angústia, mas a
resolução definitiva dos problemas é apontada como algo que depende de mudanças de
comportamento. A frequência ao centro faz as pessoas se sentirem mais encorajadas e mais
entusiasmadas com a vida. Mas, muitos acreditam que, por não terem sido capazes de realizar
algumas mudanças, os problemas voltaram. Essa transformação envolve, em primeiro lugar, a
compreensão de que cada um é responsável por seus atos e é capaz de conduzir sua trajetória
da forma que considera melhor. A mudança principal é apontada, por Edilene, terapeuta
espírita, como de padrão de pensamento.

[...] O meu padrão de pensamento, meu padrão de ação para com os meus
filhos, com minha empregada, com meu cachorro, meu periquito. O
relaxamento e a falta de cuidado para comigo mesma e as pessoas e coisas
ao meu redor. Eu não dava banho no meu cachorro, às vezes não arrumava a
casa, tudo isso estava me prejudicando. Esta pessoa me falou: “Edilene
enquanto você não se amar, não souber que você é dona de tudo que
acontece na sua vida, você vai fazer o tratamento, vai ficar boa... agora e
depois? Você vai outra vez se sentir desamparada.” Depois de tomar
conhecimento da necessidade de entrar nesse processo de mudança foi que
eu comecei o trabalho de transformação interna. Comecei a frequentar o
centro e pedir forças para me modificar, estudar a mediunidade para ser
médium, trabalhar a mediunidade para ajudar a espiritualidade, e não para
me ajudar, estudar a doutrina para mostrar para outras pessoas que, quando a
gente muda, a gente se sente outra pessoa. [...]

Essas novas formas de elaboração vão acontecendo no curso de eventos concretos, nos
quais cada um vai incorporando, acrescentando e aprendendo a desenvolver certas habilidades
bem específicas desse universo religioso. Muitos rituais e situações em que as pessoas se
envolvem contribuem para a aquisição de todo um modo de ser espírita. Dessa forma, as
atividades, os símbolos, a ambientação e a própria postura das pessoas encontradas no interior
dos centros são elementos relevantes no sentido de proporcionar essa vivência. Dá-se que essa
experiência de incorporação do ethos espírita implica um engajamento multissensorial, não
78

sendo, portanto, uma experiência que envolva apenas mudanças na maneira de perceber, mas,
principalmente, a apreensão e adoção de um novo modo de se situar no mundo.
Esse caminho de formação do ser espírita leva a uma tentativa de mudança na maneira
de se posicionar diante da vida, de forma calma, serena, tolerante, compreensiva. O próprio
ambiente construído dentro do centro, o tom de voz baixo e agradável e a maneira de falar das
pessoas, compassivamente, são elementos que participam da formação espírita. O espaço
criado pelo centro frequentado por Matilde é bastante expressivo dos ideais espíritas e
contribui para a formação de certo modo de ser. A ambientação interna proporciona um clima
de serenidade e calma, sugerido pelas paisagens da natureza (florestas, cachoeiras etc.), temas
constantes dos quadros que decoram as paredes; pela música suave e iluminação de quase
penumbra. A própria postura compreensiva, atenciosa e tolerante dos terapeutas e
frequentadores, o falar sempre pausado dão o tom do lugar. A fachada da casa é bem simples
e de aparência semelhante a uma pequena escola ou clínica médica, detalhe que a distingue
dos espaços de outras religiões, onde, em geral, se exibem os próprios símbolos na entrada.
Ao entrar, encontramos um balcão de recepção com um funcionário cercado de livros
espíritas, expostos à venda. Mais à frente, está situado um auditório onde se realizam as
palestras sobre os ensinamentos espíritas e também o ritual do passe. A sala destinada às
sessões de desobsessão fica no andar superior.
Os centros espíritas buscam construir uma imagem de lugar onde se desenvolvem
atividades amparadas na ciência: livraria, salas de reunião e de conferências, onde se realizam
as palestras e seminários, salas de cirurgia com pessoas vestidas de branco, cheiro de éter. São
utilizados os potentes símbolos da ciência médica. Trata-se de um ambiente criado para
inspirar confiança. Embora afastando do espaço sagrado uma série de elementos presentes na
maior parte das religiões, como imagens de santos, velas, altares, oferendas etc., recorre-se a
preces e invocações, presentes na totalidade dos rituais, onde também são feitas referências a
entidades espirituais que representam pretos velhos, índios e caboclos. Os agentes religiosos
tentam afastar tudo que possa ser associado a magia, misticismo e superstição, mas as pessoas
sempre carregam elementos de outras religiões que são incorporados à prática espírita.
Constitui um traço marcante da doutrina buscar situar-se não apenas como religião,
mas como filosofia e ciência. Como religião, a codificação de Kardec se inscreve na linha de
filiação cristã – Jesus Cristo seria um espírito superior que encarnou na Terra com a missão de
auxiliar na evolução humana –, representando a terceira codificação transmitida à
humanidade, depois do Antigo Testamento e do Novo Testamento. Por outro lado, tenta-se
conferir status científico, afirmando que a existência de um mundo espiritual pode ser
79

racionalmente conhecida e controlada pela ciência. Além disso, referências a filósofos da
tradição ocidental podem ser encontradas na doutrina, tais como Platão, Descartes,
Aristóteles.
O estudo da doutrina é primordial à iniciação de qualquer pessoa no espiritismo, ainda
que ela esteja apenas em busca de tratamento. Com esse objetivo, habitualmente realizam-se
palestras sobre temas da doutrina, as chamadas doutrinárias, em auditórios especialmente
reservados para esse evento, ocasião em que se convida um palestrante, membro daquele
mesmo centro espírita ou oriundo de outro centro. O expositor procura discorrer sobre o tema
escolhido, amparando-se nos princípios da doutrina, os exemplos apresentados são concretos,
pessoais, visando ajudar os presentes na melhor compreensão do assunto sobre o qual
discorre. Segundo Matilde, as palestras servem não apenas como momento de orientação para
ela, mas também para educar os espíritos obsessores que a acompanham.

[...] O centro espírita fica mais cheio nos dias que tem sessão de
desobsessão, as pessoas vão mais nesse dia; no dia que só tem palestra
doutrinária, fica bem mais vazio. Eu gosto de ir pra doutrinária também
porque é uma forma de educar os espíritos que me acompanham. Eu acho
que quanto mais eu for, mais eles vão evoluindo até o ponto que podem me
deixar. Não é possível que esse tempo todo que eu sou espírita eles não
tenham melhorado um pouco! A gente vai evoluir e chegar à perfeição e aí é
tudo etéreo, não tem matéria. A comunicação vai ser só por telepatia, como
os espíritos evoluídos. Hoje a gente não pode ainda se comunicar assim
porque ainda não evoluímos. Já pensou como ia ser se todo mundo pudesse
ler os pensamentos dos outros? Não ia dar certo, porque a gente pensa tanta
coisa ruim dos outros... ia ser uma confusão! A gente precisa evoluir mais
pra chegar a essa comunicação por telepatia. [...]

No momento que antecede a doutrinária, as luzes são apagadas, permanecendo acesa
apenas uma pequena luz azul no teto. Além disso, utiliza-se uma música bem suave. Um dos
médiuns reza uma prece pedindo às pessoas que se tranquilizem e mentalizem o espírito de
Jesus, “Nosso Grande Irmão”. A orientação central no decorrer de muitas palestras é
vigilância contínua sobre os pensamentos e ações. Para o espiritismo, a saúde é um valor a ser
cultivado que depende exclusivamente do bom comportamento diário do indivíduo, daí a
ênfase na ideia do controle sobre os pensamentos e comportamentos, para que os maus
espíritos não consigam penetrar no perispírito. A falta de vigilância interior torna o indivíduo
suscetível à doença. Ter ou não saúde depende diretamente das escolhas feitas no dia a dia.
Além das palestras, a leitura é um importante instrumento no estudo da doutrina, por
isso qualquer centro mantém, via de regra, uma livraria onde se vendem exclusivamente livros
sobre o espiritismo, chegando a representar, em alguns desses centros, a maior fonte de
80

receita. Pelo estudo as pessoas tentam compreender as razões de seus sofrimentos e aprendem
a conduzir suas vidas segundo os parâmetros da religião. Ao lado de outras atividades, todo o
cotidiano do centro e também os próprios rituais são permeados pela leitura e comentários de
trechos de livros espíritas. A evangelização infantil também é uma atividade pedagógica
organizada com a intenção de que as crianças aprendam a estudar a doutrina desde cedo.
Nos rituais, sensações, como tranquilidade, calma e serenidade, são vivenciadas com
base na noção de energia. Um dos rituais de cura espírita mais importante é o passe, ele
permite uma troca de energia entre o mundo visível e o invisível e se destina aos males, tanto
do corpo, quanto da alma. O médium que o aplica serve de canal, por onde energias positivas
de espíritos superiores passam para quem o está recebendo. Na perspectiva espírita, a eficácia
do ritual vai depender do estado espiritual tanto do doador, quanto do receptor. O passe pode
ser dado individual ou coletivamente. Além disso, existe o autopasse, quando o próprio
passista se aplica, antes ou depois do seu trabalho, em algumas sessões de tratamento. Antes
de aplicar o passe, o médium deve fazer uma prece pedindo bons fluidos.
A sala onde se aplica o passe tem um cheiro forte de éter, nela encontram-se algumas
cadeiras dispostas em círculo e encostadas à parede, a iluminação é feita apenas com uma
lâmpada verde, o que deixa o ambiente numa quase penumbra. Várias pessoas entram de uma
só vez nesta sala, enquanto os passistas coordenam o trabalho. No momento de realização do
passe, os olhos do doador devem permanecer fechados, e sua duração é de três minutos em
média. Pela imposição das mãos do médium sobre o paciente é que as energias devem fluir.
Cada doador tem uma forma particular de situar as mãos: alguns permanecem com os braços
imóveis e elevados sobre o receptor com as palmas das mãos para fora, outros têm diferentes
movimentos que podem variar desde círculos a linha reta. De uma forma geral, inicialmente
são feitos movimentos por todo o corpo para retirar a energia negativa e, depois, se repõem os
fluidos positivos. Enquanto isso, o receptor deve permanecer imóvel, os olhos fechados e os
braços descansando ao longo do corpo, com as palmas das mãos para fora. A aplicação do
passe pode também envolver preces.
Outra forma de estabelecer contato com faixas de vibração energética superiores
acontece por meio da prece, que tanto pode ser criada espontaneamente por quem a profere,
quanto pode ser padronizada, como o Pai Nosso Espírita. Sendo proferidas geralmente com os
olhos fechados, as preces devem ser feitas com empenho para que possam irradiar
sentimentos e vibrações positivas e atrair espíritos bons. Nos momentos de maior angústia,
Matilde sempre recorre a preces para aliviar seu sofrimento. Muitas vezes quando está em
casa se sentindo angustiada, triste e sozinha, ela diz que reza em voz alta e pede forças para
continuar vivendo. Sente que isso a fortalece muito.
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Os espíritas não só propõem a existência do perispírito, fluido de energia que cerca e
penetra todos os corpos, mas também enfatizam a capacidade das pessoas de operar
transformações no organismo pelo uso do magnetismo sobre esse fluido. Defendem, ainda, a
ideia de que as pessoas adoecem em função de um obstáculo ao fluxo desse fluido pelo
organismo, o que exigiria, para o restabelecimento da saúde, o controle sobre essa ação. Para
isso se destina a fluidoterapia, tratamento realizado com fluidos magnéticos, que pode ser
feito por meio do passe ou da água fluidificada. O tratamento pelo passe consiste na
imposição das mãos do passista sobre o paciente com o objetivo de transmitir a energia
magnética que vai atuar sobre o perispírito. Essa energia é captada pelo fluido através dos
campos de força ou centros vitais e interfere no corpo físico do paciente. No caso da água
fluidificada, o processo é basicamente o mesmo, sendo que, nessa terapia, é a água que recebe
a energia magnética dos passistas, devendo depois ser ingerida pelos pacientes.
Na sala onde se realiza a sessão de fluidoterapia, as luzes ficam apagadas, e as pessoas
são conduzidas para uma maca onde permanecem deitadas. Fazem uma oração para atrair
energias positivas e passam a receber o tratamento dos espíritos sem a interferência dos
terapeutas, são os espíritos que agem diretamente nas pessoas. A seguir Matilde descreve um
pouco do que já experimentou nessa terapia.

[...] Na fluidoterapia só tem espíritos bons. Quando você entra na sala, você
já tá sendo tratada, mas, quando você deita na maca, é o auge, é quando
realmente você vai receber toda ajuda dos espíritos, e todas as impurezas vão
ser retiradas, as energias ruins que ficam impregnadas como uma poeira,
energias que você vai absorvendo. Você recebe uma gama de energia
positiva que são os espíritos elevados que trazem. Energia que eles pegam no
universo e no mar, os espíritos pegam muita energia do mar. Depois de
receber essa energia, os obsessores tentam chegar em você e não conseguem,
você fica protegido a semana toda porque vai também bebendo a água
fluidificada durante a semana. E cada vez que você vai na fluidoterapia, é
uma recarga de energia nova que você recebe. Eu ficava ansiosa pra ouvir a
mensagem que o espírito evoluído dava no final. Eu sentia transcender, eu
via luzes, tinha dias que eu via coisas maravilhosas, efeitos de raios, energia,
com o olho aberto e, às vezes, com os olhos fechados. O espírito consegue
ver como um todo, vê na frente, vê atrás. Quando o espírito vê, ele pode
enxergar com os olhos fechados também. Teve uma vez que eu vi um vulto
de homem no meu quarto, mas quando eu abri os olhos eu não vi mais,
porque eu tinha visto com o espírito. Na fluidoterapia, eu ficava com os
olhos abertos e via feixes de luzes brilhantes, às vezes formavam imagens
tipo abstratas. Teve uma vez que a energia tava tão boa que eu via infinitos
pontos de luzes, quando apagaram as luzes. Tinha dias que eu tinha uma
sensação transcendental, e eu pensava assim, meu Deus, eu não sei nem se
eu mereço isso! Eu não sei nem explicar... São sensações que eu nunca tive
antes e que são despertadas... É como se a gente estivesse flutuando, e só são
energias boas, é diferente da desobsessão, que muitas vezes você pode sentir
82

uma dor, um peso, pode desmaiar; na fluidoterapia é só energia boa que
entra por tudo que é lugar e vai limpando e recarregando. As energias
negativas que a gente vai puxando sem querer no nosso dia a dia, essa
energia ruim é toda retirada, dispersada. Sempre a sensação depois é
maravilhosa, você entra de um jeito e sai de outro. É um sentimento de paz,
serenidade... Às vezes é uma sensação de lucidez muito grande, eu que sou
dopada, eu carrego isso de ser dopada por causa da medicação, então às
vezes a fluidoterapia me dava uma lucidez que me assombrava, eu começava
a enxergar as coisas de uma outra forma, de uma forma nítida, clara, não
tinha duvida de nada, não parecia nem ser a mesma pessoa, sabe? E parecia
que era uma lucidez que tava latente e tava sendo encoberta pelos remédios e
aí nesse momento alguma energia tocou em mim e fez vir à tona essa lucidez
que é minha, que tava em mim, só que encoberta. Agora prolongar essas
sensações dependia de mim depois que eu saía da sessão. [...]

Esse reordenamento se estende e se amplia, ultrapassando os contextos ritualísticos e
permeando todas as ações da vida cotidiana, no exercício permanente frente ao compromisso
de mudança e conquista de novas atitudes. Parece de importância fundamental a atenção
acurada mais diretamente para a maneira como o sofrimento e o tratamento se manifestam nos
diversos espaços, ou seja, o entendimento apurado de como os elementos heterogêneos que
envolvem a terapia religiosa estão sendo vivenciados dentro e também fora dos rituais.
Para melhor compreender esse potencial transformativo vivenciado por Matilde na
terapia espírita, é importante também perceber como os rituais de que participa não se
constituem no espaço por excelência onde sua aflição é finalmente ordenada segundo um
modelo de explicação único. É preciso voltar a atenção não apenas para as performances
rituais espíritas, mas também para o contexto de relacionamento mais amplo e para as
vivências anteriores que ela carrega. O ritual não deve ser entendido como o momento em que
uma experiência caótica é finalmente ordenada segundo o modelo espírita.
As vivências cotidianas, produzidas fora do contexto institucional de tratamento, são
fundamentais nesse processo de reordenamento da experiência. Porque é nelas também que a
nova maneira de se situar no mundo vai se desenvolvendo, a partir da apreensão dessa
compreensão mais ampla da enfermidade e do modo de curar-se. A ideia de energia, por
exemplo, essencial para a cosmologia espírita, parece ter sido incorporada ao cotidiano de
Matilde, proporcionando sensações bem singulares.
Desde quando iniciou tratamentos em centros espíritas, a noção de energia passou a
ser algo muito presente no imaginário de Matilde. Seu modo de relacionar-se com o mundo
envolve sensações de leveza, tranquilidade e serenidade, sentimentos, geralmente,
relacionados à experiência de entrar em sintonia com energias positivas ou negativas, campo
vibratório, sugar energia, repor energia etc. Para ela, tudo o que existe é formado por um
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fluxo contínuo de energia, sendo preciso manter uma postura calma, tolerante, generosa e,
sobretudo, não ter pensamentos e comportamentos ruins, como forma de atrair energia
positiva e afastar espíritos ruins.
A maneira que vão sendo incorporados os ideais espíritas envolve engajamento e
desenvolvimento de certas habilidades bem específicas. Como pode ser observado na vivência
de Matilde, um bom exemplo é a intuição da aproximação de espíritos obsessores sob a forma
de uma energia negativa, que a invade e a faz perder a vontade de realizar as atividades do
cotidiano. É algo considerado muito sutil, que exige uma atenção permanente e uma reação de
defesa imediata.

[...] Quando eu fico assim sem vontade de ir no centro, isso é um sinal de
uma crise se aproximando. A semana passada aconteceu isso, mas como eu
já sei que não posso me entregar, eu me levantei e fui pra o centro sem tomar
banho mesmo. Quando eu cheguei lá na sessão de desobsessão, eu tava tão
carregada! O negócio tava brabo mesmo naquele dia! Eu tava com um
espírito encostado em mim, e ele se manifestou lá de um jeito que eu fiquei
descontrolada, todo mundo ficava me pedindo pra eu me controlar, e eu não
conseguia, o espírito tava furioso, ele xingava, gritava, se debatia ... até que
o médium conseguiu tirar ele de mim e incorporar ele pra ser doutrinado, aí
eu me acalmei e chorei tanto! As pessoas acharam que eu tava chorando de
vergonha, mas não era não, era de alívio. Realmente quando eu comecei a
não sentir vontade de ir ao centro, já era o espírito que tinha encostado em
mim. Isso porque eu abri sintonia, ele já tava fazendo tudo que podia pra eu
não ir ao centro, porque ele quer que a gente fique mal, gostam de ver a
gente mal. Mas foi bom eu ter ido, eu melhoro na hora, a melhora é
automática. [...]

É frequente a falta de motivação para viver, mas Matilde reúne forças e vai ao centro,
mesmo sem vontade, porque sente o quanto alivia seu sofrimento. Quando está deprimida,
deixa de cuidar de si, não toma banho nem se alimenta bem. Mas às vezes apenas a decisão de
ir ao centro faz com que ela tome banho e já se sinta melhor. Diz que o próprio trajeto de casa
até lá já vai produzindo um certo alívio. Percebe que só o fato de sair de casa já ameniza a
angústia. Acredita que isso ocorre não apenas por causa da sintonia de casa, mas porque os
espíritos elevados já começam a agir desde o momento em que ela decide ir ao centro; eles
vão se aproximando, e os espíritos ruins tendem a se afastar.

[...] Quando eu começo a fazer o tratamento aqui, os espíritos também vão
pra minha família, eles trabalham quem convive comigo, entendeu? Até
você, até uma amiga que você vai encontrar. Por exemplo, uma amiga às
vezes lhe dá um conselho e às vezes são os espíritos que estão inspirando
essa amiga a me dizer essas palavras que eu preciso ouvir. Os espíritos usam
muito as pessoas pra dizer o que precisam. [...]
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Os benefícios terapêuticos se estendem para as pessoas com as quais convive. Nos
rituais, Matilde experimenta sensações e emoções que são transformadoras, são processos
progressivos de sensibilização para novos mundos. O sofrimento emocional vai se
modificando a partir desses engajamentos e conexões feitas nos eventos espíritas.

4.2 O ENCONTRO DE MARIA COM JESUS

Maria também encontra na religião um espaço onde elabora novas maneiras de se
situar no mundo. Reconhece a necessidade do tratamento psiquiátrico e psicoterapêutico, mas
na Igreja Canção Nova, comunidade católica de renovação carismática, sente que ganha
forças para seguir vivendo.

[...] Existem coisas que precisam ser curadas... cura interior, cura da minha
autoimagem... por isso caí novamente em depressão profunda.. mas tô
procurando ajuda... estou caminhando com Deus, fazendo terapia e vou
voltar ao psiquiatra para fazer o tratamento com medicações. Mas o que me
dá forças é Deus... somente ele.
Conforme fui me envolvendo com a igreja, descobri os dons do espírito
santo (vc pode pesquisar tbm sobre) e existem pessoas que têm o dom da
palavra, da profecia... e encontrei com algumas pessoas que me revelavam
coisas da minha vida... claro que acredito que meu físico, meu cérebro, pode
ter a falta de alguma substância que me ajude a entrar em depressão....
Acredito que as medicações podem ajudar... mas tem q ser acompanhado
espiritualmente tbm... Eu tive mtas experiências maravilhosas, senti e sinto
Deus cada vez mais forte dentro de mim... Já vi coisas que me assustaram,
pessoas com fortes libertações. [...]

Ao falar de sua trajetória religiosa, Maria começa definindo sua família como católica
não praticante. Foi batizada, fez primeira comunhão e estudou em escola católica, no entanto
nunca frequentou assiduamente a igreja.

[...] Eu rejeitava a igreja católica... embora tenha estudado em colégio
católico até a 8ª série... deve ser por isso que não gostava da igreja católica,
por ver as atitudes de algumas pessoas na escola... professores e diretores...
depois no cursinho professores de história me revelaram a igreja como uma
farsa... os professores de história eram ateus. Comecei a ver Deus e Jesus
como um homem qualquer... fechei meus olhos para Deus... [...]

Aos 20 anos de idade, os sentimentos de tristeza levaram Maria a procurar centros
espíritas kardecistas. Lembra de ter vivido muitos momentos de paz e serenidade em rituais
espíritas.

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[...] Olha não sei se essa parte q estou descrevendo é do seu interesse, mas eu
acredito mto... essa minha amiga médium... Uma vez eu insisti pra ela falar
se já tinha visto algo em mim... ela disse que sim, que via um homem escuro
“um espírito”... Nessa época, estava na faculdade, tive crises de depressão...
foi quando voltei a ir no psiquiatra e tomar medicamentos... eram fortes, eu
me sentia fraca... Nessa época de depressão... eu passava mto mal, chegava a
ficar branca, pálida, um peso na minha alma, no meu corpo... não dormia
direito, tinha mta insônia... Meu quarto tinha uma energia negativa, minha
mãe e minha irmã falavam que não conseguiam ficar no meu quarto... lá
sempre me trancava pra chorar, pensar besteiras... fazia umas coisas sem
sentido.... tipo queimar coisas dentro do quarto... pensar em suicídio...
enfim...
Qdo eu ia nesse último centro espírita, eu sentia algo diferente... como se
alguém puxasse algo de dentro de mim... e eu, sem perceber, e sem força
fazia um movimento pra frente... parecia q eu ia cair, ou desmaiar... mas
voltava logo ao normal. [...]

Embora admita que o tratamento espírita tenha ajudado, algumas vezes não se sentia
compreendida e acolhida no centro. Nessa instituição espírita, ficou sabendo de sua
capacidade de comunicação com espíritos e foi aconselhada a desenvolver esse potencial
chamado mediúnico. Mas, a ideia de se comunicar com espíritos de pessoas falecidas
provocou-lhe medo. Ao conversar com uma amiga que tem uma mediunidade especial, pois
ela vê espíritos, esta lhe diz que, se pudesse ter escolhido, não queria ter nascido com esse
dom, conta que às vezes sofre muito com essa condição. Termina sentindo-se desencorajada a
dedicar-se ao desenvolvimento dessa mediunidade e vai aos poucos se distanciando do
espiritismo.
Entre os 23 e 25 anos, Maria diz que viveu o período mais difícil e tumultuado de sua
vida. Foi nessa fase de agravamento dos seus problemas que sua mãe conheceu a Canção
Nova, uma comunidade católica de renovação carismática. Com a intenção de buscar ajuda
para Maria, ela passou a ouvir o programa de rádio e a frequentar a igreja assiduamente,
principalmente a missa e os grupos de oração. Apesar de sua mãe não gostar do espiritismo,
percebia que ela respeitava sua decisão de continuar indo ao centro, embora sempre a
chamasse para ir aos eventos da igreja católica, convite que invariavelmente ela recusava.

[...] Fiquei um tempo me considerando sem fé e não acreditava no poder de
Jesus... Nessa época eu queria saber de beber e balada... Na verdade, eu
escondia meu problema na bebida... Qdo eu bebia, eu era mais alegre,
desinibida e confiante, e sóbria eu era o contrário.
Eu estudei em colégio católico até a 8ª série, tinha o conhecimento da
igreja... fiz primeira comunhão...
Mas na adolescência parei de acreditar e odiava a igreja católica... e assim
foi até uns 20 anos, daí voltei a acreditar em Deus, mas voltado ao
espiritismo... e assim foi...
86

Estava no espiritismo, nessa época comecei a ver e conhecer melhor sobre
Jesus...
O espiritismo me fez conhecer mais a Deus e a história de Jesus... então eu
entrei naquele igreja (Canção Nova) mais aberta... [...]

Quando sua mãe começou a frequentar a Igreja Canção Nova, seu pai sempre passava
na faculdade para pegar Maria e, em seguida, os dois iam buscar sua mãe. Ao chegarem à
igreja, ficavam do lado de fora aguardando o final da cerimônia.

[...] Depois de um tempo na quarta vez q fomos pegá-la... eu desci do carro e
a esperava na porta da igreja... no fundo da igreja... na quinta vez q fui
buscá-la eu entrei e estava no meio da igreja... Gostava do ambiente... lá as
orações são fortes... eh da renovação carismática, não sei se vc conhece
sobre o assunto... eles oram em línguas... e aquilo me fazia bem... e toda vez
q íamos buscá-la eu ficava no cantinho ouvindo eles orarem...
E teve uma vez q eu entrei na igreja e fui lá na frente, estavam todos em
frente ao altar, orando, oravam em línguas e eu senti uma coisa mto, mto
forte e poderosa... não sabia o q era...
Na vez seguinte, eu fui para buscar minha mãe... eu estava em crise de
depressão... ela me chamou pra ir falar com o padre.... ele saiu da sacristia,
mal ouviu o pedido da minha mãe, e ele já veio na minha direção (acho q ele
tinha sentido pelo meu olhar, pela minha face), pediu para eu ajoelhar e orou
por mim... Deitei no chão, senti meu corpo tremer e “resmunguei” tipo um
choro... qdo ele terminou a oração... eu levantei renovada... outra pessoa...
leve...
Daí frequento a igreja católica desde então e realmente conheci Jesus... de
outra forma... eu realmente o sentia... tive mtas experiências pela renovação
carismática... oro em línguas... tive mtas experiências em retiros...
libertações, curas interiores... [...]

Em seu encontro com Jesus, ela diz ser capaz de enxergá-lo não com os olhos, mas
sentindo com todo o corpo a presença dele. Esse encontro é identificado como algo que
proporciona uma transformação radical.

[...] Daí resolvi me confessar, pq fazia anos q não comungava, e gostaria mto
de receber Cristo na eucaristia... No dia da confissão, me libertei... depois q
confessei fui na missa, chorei desde o momento que falei com o padre até o
final da missa... e nesse dia eu tive um encontro com Jesus... eu escutava mta
gente falando: “eu vi Jesus” eu achava o povo doido, maluco... rsrsrs quem
vê Jesus? Rs... nesse dia eu vi... mas não vi com os olhos... vi com minha
alma... senti a presença dele mto forte em mim e fui liberta... Bom, sentia
minha alma sendo limpa, descarregando toda aquela angústia, tristeza e
depressão... Sempre saía leve, cheia de amor... uma paz incrível.
Na primeira vez, q eu “vi” Jesus, eu chorava mto, e aquilo foi me dando uma
paz (depois de um tempo entendendo mais sobre o assunto, descobri que
aquele choro era de libertação)... e senti o amor, a paz de Jesus... Senti q era
ele, sentia em meu coração, meu corpo fica todo arrepiado... leve,
descarregando tudo que há de ruim... tive mtas experiências como a oração
87

em línguas e o repouso no Espírito Santo (aconselho a pesquisar sobre isso
para entender melhor).
Qdo entrei senti uma leveza e paz... qdo as pessoas e o padre oravam e
oravam em línguas... daí começei a sentir meu corpo tremer e me sentia
como se estivesse girando... pra frente e pra trás... mas ficou nisso... Nas
próximas vezes que fui, fui atendida por um padre... e acabei deitando no
chão (hj eu sei que estava no processo de “repouso no Espírito Santo”) e
meu corpo tremia e cheguei a resmungar, um choro rápido... quando levantei
eu me senti outra pessoa... leve, livre, cheia de paz e amor. [...]

As vivências são tão fortes ao ponto de fazê-la se arrepiar, tremer e chorar. Os
sentimentos são de ir afastando e deixando para trás as angústias e tristezas vividas na luta
contra a depressão. Na sessão, Maria sente-se afetada por uma leveza e serenidade, traduzidas
por ela como uma sensação de paz. As mudanças envolvem experiências, chamadas por ela de
sobrenaturais. Na sua tentativa de expressar o significado do que viveu, ela se empenha em
demonstrar que não se trata de algo psicológico, mas, sim, de um fenômeno maior, difícil de
explicar e muito poderoso.

[...] Não entendo mto sobre esses seus estudos, mas gostaria mto que vc
visse essa experiência religiosa como algo sobrenatural mesmo, não como
psicológico... não só minha experiência, mas a de outras pessoas que vc tem
estudado... essas experiências religiosas eu te garanto que algo acima da
gente... eu vivi isso e eu tenho certeza do que estou falando... e acredito que
o corpo, mente e alma juntos nos fazem o que somos... vivos... Eu acredito
que a depressão é um problema espiritual sim... mas acredito na ciência tbm
e sei que pode ser uma deficiência fisiológica... como por ex meu caso, fui
diagnosticada bipolar... que eh uma deficiência cerebral sei lá... e q há a
necessidade de medicação...
Ah quanto à experiência religiosa, na verdade há uma ligação
entre psicológico e sobrenatural, o q eu queria dizer eh q os eventos
sobrenaturais não são ilusões psicológicas... Mas, se estamos com um bom
psicológico, com pensamentos positivos, atrairemos coisas boas
espiritualmente... [...]

A ideia de ser algo sobrenatural parece querer dizer não se tratar de um fenômeno
passível de uma simples explicação. Quando chamada a falar mais acerca dessa experiência,
em geral expressa muita dificuldade na tradução do que vivencia nas sessões religiosas,
chegando a dizer que, para entender mesmo, só vivenciando.

[...] Olha, a descrição dessa sensação é difícil dizer... só sentindo pra saber...
As sensações só experimentando pra saber... difícil eu te relatar... eh algo
incrível qdo vc está diante do Santissímo Sacramento do Altar... vc sente
realmente a presença de Jesus ali...é algo único, intenso... vc sente seu corpo
queimar... seu corpo esquenta... é lindo mesmo.... saio renovada, leve e forte.
Como te disse, somente sentindo e vivendo o momento pra vc saber como
eh.
88

Desculpa a pergunta, vc tem religião, no que vc acredita? Sei lá... talvez
sabendo mais sobre o q vc acredita fica melhor para eu explicar.
Ou se vc tiver uma oportunidade aí na sua cidade de ir a um grupo
Vc mora aonde mesmo???? Se eu conhecer algum posso te indicar...
Olha eu sou católica apostólica romana, amo minha religião e não saio dela
por nada.
Mas tenho uma mente aberta e acredito nas outras religiões tb... e as respeito
tbm.
Se quiser saber mais sobre a renovação carismática católica, pesquisa no
Google... entra no site da canção nova... se vc tiver TV por assinatura, na
Sky é canal 24... vc entenderá melhor o q estou dizendo... [...]

Foram muitas as situações em que pedia a Maria um relato mais detalhado de sua
vivência religiosa, e ela me recomendava pesquisas em sites e programas de televisão.
Nesses momentos conversamos sobre o meu interesse maior pela própria experiência
particular dela, e não nos conhecimentos sistematizados nas instituições religiosas. Expliquei
que o foco do estudo não se situava no universo de significados postos pela religião, mas no
modo como esse sistema de sentidos é criativamente apropriado pelas pessoas e vai ganhando
vida na ação. É mais comum encontrar investigações voltadas para o estudo das instituições
religiosas e seus respectivos sistemas de crença.
As mudanças são reconhecidas por Maria como muito significativas quando
comparadas ao estado anterior e às experiências vividas no espiritismo. Decide se entregar
completamente a esse encontro e passa a sentir as transformações se estenderem para outros
espaços de convivência. A força de Deus não se manifesta apenas nos rituais que participa
nem se reduz a vivências mais particulares, ela se expande para outros espaços também.

[...] Senti uma libertação incrível, sentia uma paz maior ainda mto maior do
que aquela q eu sentia nos centros espíritas... Meu corpo estava leve, eu me
sentia flutuar... Mas o inimigo de Deus não desiste, às vezes tinha recaídas,
mas ia numa missa de cura e libertação, grupo de oração e renovava as
minhas forças, orava mto em casa, no meu quarto... e hoje minha mãe que
não conseguia entrar no meu quarto, hj entra lá para rezar... o clima eh
outro...
Jesus é o único q pode salvar... curar de verdade... lógico, que psicólogos e
remédios ajudam sim, mas a salvação está Nele... Deus age nas mãos dos
médicos tbm...
Deus age nas mãos dos médicos, pq nas mãos dos médicos está a vida de
mtas pessoas... e a vida da humanidade está nas mãos de Deus... então Ele
age na medicina, age nos médicos para que as pessoas possam ser tratadas
no corpo... [...]

Logo quando começou a frequentar a igreja, passou por uma fase em que se impôs
uma série de restrições, pois acreditava que muitas coisas que fazia eram erradas e
89

consideradas pecado. Atualmente enxerga esse distanciamento do mundo como um momento
de cegueira.

[...] Hoje eu vejo de forma mais leve as coisas, com a mente um pouco mais
aberta... Mas respeitando as "regras" da igreja e de Deus; tentando praticá-
las. No início eu me fechei e me tranquei na igreja... Vivia em grupos,
missas e cursos... Vivia pra isso...
Depois fui voltando as minhas atividades, sair, pagodes, amigas, amigos, e
descobri que posso viver uma vida de graça de Deus nas coisas que eu fazia
antes... Posso voltar a frequentar pagode com as amigas e tomar cerveja,
desde que eu não beba exageradamente ou viva na galinhagem... que posso
ficar com um cara, desde q eu me respeite e ele me respeite tbm... daí fui me
abrindo... e aceitando as pessoas q eram fora da igreja tb... que, mesmo com
defeitos, elas merecem o amor... e mesmo eu q estou na igreja posso ter mais
defeitos do que elas.
E assim fui evoluindo... Voltei a sair... pagodes, baladas... cervejas.. mas de
forma moderada...
Como diz uma carta do PAPA João Paulo II “a igreja precisa de Santos de
calça jeans” que diz que a igreja precisa de jovens que se lasquem na
faculdade, que bebam coca-cola e comam pizza com os amigos, mas que
vivam a santidade em Deus... Demorei um pouco pra descobrir isso, mas hj
vivo mais leve... saio, tomo umas cervejas de vez em qdo... vou pra
baladas... curto de forma saudável... mas não deixo de ir aos eventos da
igreja, q tbm tem mtas coisas legais, encontros, shows, festinhas... eh mto
gostoso tb. [...]

A partir daí começou a vivenciar uma mudança profunda na vida e a frequentar a
igreja assiduamente, sobretudo as missas de cura e de libertação.

[...] Desde então permaneci firme na caminhada, comecei a entender os
porquês da igreja católica... Comecei a amar a igreja, a Jesus...
Bom, eu frequento a igreja aos domingos, vou à missa, frequento grupos de
oração, às vezes participo de retiros... Encontro pessoas acolhedoras... que te
olham como um irmão, como alguém conhecido, mesmo que seja a primeira
vez que eu entro no lugar... as pessoas se olham, se cumprimentam... no
início eu me sentia incomodada com isso, pq sempre quero chegar discreta...
sem que ninguém me note...
Claro que qdo vc eh de Deus, as tribulações vêm mais fortes, tive recaídas,
mas sempre me levantei com a força de Deus.
Ele tem colocado anjos na minha vida que me ajudam mto... Ele tem feito
coisas maravilhosas... Estou participando de grupos de oração, vou fazer um
curso de autoconhecimento e cura interior tbm, estou procurando me ajudar,
pra sair desse fundo do poço... [...]

A seguir algumas dessas experiências religiosas mais fortes por meio das quais
Maria vai sentindo uma grande transformação.
90

[...] Uma experiência espiritual... em julho fui a um retiro... nesse retiro
estamos em oração mais fortes e clamamos mto o Espírito Santo... no sábado
à noite tivemos experiências e oramos todos juntos... e mtas pessoas tiveram
libertações, eu chorei mto... Meu coração foi libertando de mágoas,
ressentimentos, meu coração foi amolecendo e fui sentindo o amor de
Deus... no dom de manhã tbm tivemos momentos de orações e um dos
irmãos que pregavam teve a revelação de uma pessoa q estava sendo
libertada, e o q ele dizia se encaixava em tudo q eu sentia... chorei bastante
tb, e meu coração e alma estavam mais leves... São momentos de libertação
espiritual... vc pode ser curada de uma doença física, através de uma oração
espiritual... se vc crer, e se for da vontade de Deus, vc consegue... claro que
não de forma bagunçada como vemos em algumas religiões... mas essas
curas são conquistadas pela fé e pela vontade de Deus. Tudo depende da sua
fé, das suas orações de vc estar aberta para receber a graça. [...]

É nesse jogo de Maria com os outros participantes, entre momentos de envolvimento
total no drama encenado e distanciamento de sua condição, que ela experimenta novas
maneiras de se situar no mundo. Há uma dinâmica no ritual, que pode proporcionar
mudanças no contexto da performance e, também, transformações que se estendem para
fora de onde ele emerge.

[...] E comecei a frequentar esse grupo de oração, na comunidade shalom
aqui de SP, eles têm alguns cursos de cura interior e autoconhecimento e
estou pensando em fazer... aí nesse grupo de oração eu fui me encontrando
através da forma q Deus tocava meu coração... e fui sentindo... Comprei um
livro que chama “és precioso”. É um livro de oração da comunidade shalom,
e um livrinho de oração para dez dias de cura da autoimagem... e me
ajudou... a me amar... vou fazer de novo para fortalecer a oração. E com isso
Deus foi tocando meu coração e fui percebendo qtas mágoas, rancores e
inveja eu tinha na minha alma... e fui eliminando isso através do amor e
compreensão... Comecei a aceitar as pessoas com seus defeitos e a amá-las.
Ainda tô nesse processo, mas posso te dizer q já dei um grande passo.
Oramos, cantamos, compartilhamos experiências... Adoramos Jesus no
Santíssimo Sacramento... como citei acima, eh um momento único e especial
no qual sentimos nosso corpo queimar e a presença de um amor único... É
uma libertação maravilhosa... libertação das mágoas, ressentimentos, curas,
graças recebidas. [...]

As narrativas de sofrimento emocional são marcadas pela expressão de perda do
compartilhamento do mesmo mundo das pessoas ao redor. Na Canção Nova, Maria sente-se
partilhando as mesmas vivências que os outros, e isso é vivido como algo fortalecedor.
Sensações bem diferentes daquelas descritas nos seus relatos sobre os momentos de maior
sofrimento, como aqueles de solidão na escola, em que sentia-se excluída pelos colegas.

[...] Outra experiência rs no fds seguinte a esse retiro fui trabalhar em outro
retiro... como intercessora... não sei se sabe o q eh, mas a intercessão fica um
91

grupo de pessoas numa sala juntamente com o Santíssimo Sacramento e
oramos pedindo a Deus pelas pessoas que estão participando do retiro, não
oramos para nós e sim para as pessoas que estão participando, que precisam
receber a graça... e no sab à noite q eh um momento mais forte desse retiro...
eu orava junto ao santíssimo e chorei, e me emocionei mto pq era como se
eu estivesse sentindo o mesmo que as pessoas que participavam estavam
sentindo... Isso foi bom pra mim tb... pq me senti útil e fazendo o bem ao
próximo... não sei se vc entendeu... hehe mas qualquer coisa explico melhor
no skype. [...]

Os eventos de que participa vão tornando Maria mais sensível a novas possibilidades
de enfrentamento do sofrimento, e dimensões da vida antes desconhecidas são incorporadas.
Os rituais permitem articulações que vão somando-se às anteriores; há a realidade física e a
psicológica; mas agora a vida de Maria passa a ser habitada também pelo universo espiritual.
Seu corpo vai sendo afetado por elementos novos que o modificam e tornam seu mundo mais
amplo.
O papel da religião na formação de modos específicos de ser no mundo, objeto de
diversos estudos, tem sido largamente destacado. Muitos autores chamam a atenção para o
quanto é capaz de contribuir na formação de maneiras de compreender e, principalmente, de
agir. Outros pesquisadores buscaram explorar a dimensão mais terapêutica, dedicando-se ao
estudo do poder transformativo das terapias religiosas e sua eficácia no tratamento de
enfermidades. Entretanto, alguns trabalhos terminam justamente se voltando apenas para o
universo de significados que permeiam tais contextos de tratamento. A recomendação de
Maria para mim era exatamente essa: o estudo desse sistema de concepções.
Comum a muitas análises voltadas para investigação das terapias religiosas é a
tentativa de identificação desse conjunto de sentidos orientador das condutas. No entanto, as
concepções não formam um sistema consistente e coerente. A pesquisa aqui realizada revela
não haver esse sistema único de significados comuns; há grandes variações sobre as
compreensões dos participantes a respeito do que vivenciam. As impressões das pessoas vão
sendo adquiridas não apenas nos rituais, mas também informalmente nos contextos
cotidianos. Mesmo as descrições dos terapeutas diferem entre si. As discordâncias e
inconsistências não causam problemas para os praticantes, apenas para os etnógrafos
preocupados com a decodificação de um sistema de concepções.
Não há como encontrar esse conjunto integrado de compreensões comuns. Nesse
sentido, o entendimento do que está ocorrendo na performance ritual não passa
primordialmente pela busca de significados simbólicos subjacentes, mas, sim, pelo modo
como esses significados estão emergindo e ganhando sentido na performance ou, em outras
92

palavras, como os indivíduos, de acordo com suas experiências particulares, estão se
apropriando desses universos simbólicos.
Uma análise tradicional tentaria unificar temas e proposições culturais que
interliguem as versões individuais, mas este procedimento de redução a denominações
comuns pode levar a distorções. A relação entre símbolos e ações não deve ser buscada
independentemente do seu estatuto dentro do cenário da performance. O ritual não se reduz
à conformação de regras semânticas, nem é organizado segundo princípios linguísticos, pois
o poder e a eficácia do ritual estão na performance, é nela que as transformações acontecem.
Antropólogos como Schieffelin (1985), Kapferer (1979), Fernandez (1986), Tambiah
(1979) e Turner (1967) seguem esse caminho e chamam a atenção para o fato de que a
compreensão desse potencial transformativo das terapias religiosas deve ser encontrada na
própria performance ritual, e não numa estrutura simbólica subjacente. Nas experiências de
Maria nos rituais da Canção Nova, seu corpo esquenta, ela sente uma limpeza na alma que
retira toda a angústia, tristeza e depressão. Sai da igreja sentindo-se outra pessoa, renovada,
mais leve, cheia de amor e com uma sensação de paz. É a partir do envolvimento ativo no
drama encenado e da imersão total na performance que Maria não apenas constrói
significados, mas vivencia uma transformação que envolve todo o seu ser.
Ao afirmar que esta transformação remete a algo sobrenatural, cuja compreensão
exige a própria experimentação, Maria expressa o quanto a transformação vivida não se dá no
nível semântico, mas faz aflorar emoções difíceis de serem traduzidas em linguagem
conceitual. Suas considerações são reveladoras, em primeiro lugar, de uma dificuldade de
tradução da experiência sensível em significados cognitivos.
O conhecimento aqui passa por um engajamento total de seu ser. Uma observação
mais cuidadosa pode mostrar como os modos de comunicação nessa primeira experiência na
Igreja Canção Nova não são efetivos porque transformam algo no nível semântico. O
encontro com Jesus, vivido por Maria, não constrói uma realidade simbólica porque
apresenta um argumento, o evento faz sentido não porque provê informação, sua efetividade
se faz em estabelecer uma ordem de ações e de relacionamentos entre os participantes que
faz aflorar emoções e dramas mais do que significados cognitivos.
Essa importância da retórica não discursiva e dos aspectos performativos do ritual é
pontuada por alguns antropólogos, entre eles Schieffelin (1985). Ele argumenta que os
símbolos são efetivos menos por comunicarem significados e mais por ser formulado dentro
do ritual um espaço em que os participantes se engajam na criação interativa da realidade da
performance. Para o autor, se o ritual apenas comunicasse, a sua realização não teria
nenhuma utilidade, pois bastaria transmitir as informações.
93

Segundo Schieffelin (1985), a eficácia do ritual não está no âmbito da informação ou
no reforço de determinadas crenças e não se reduz seu poder a transformações no campo
semântico. É na construção social de um contexto específico de ações e relacionamentos,
onde os participantes encontram espaço para fazer seus próprios movimentos com imaginação
criativa, que se alcança a compreensão simbólica, essencial na solução das aflições, e não na
elaboração cognitiva ou intelectual.
Além disso, o ritual não acontece para ser interpretado, mas para resolver, alterar ou
demonstrar uma situação a seus participantes. Lewis (1980) considera problemático
interpretar símbolos como coisas puramente do intelecto a serem analisadas em termos
lógicos e de categorias, como estruturas da mente, abstraídas de atitude, motivação e
emoção. Nesse sentido, diz ele, presumir que o ritual é essencialmente uma forma de
comunicação antecipa o julgamento do que será encontrado. A ênfase na comunicação pode
conduzir a uma intelectualização planejada do ritual, na qual a convicção do que deve ser
entendido por meio de um modelo de significados linguísticos distorce a observação e
provoca certa ingenuidade na detecção do que eles expressam.
Podemos dizer que a terapia religiosa pode proporcionar a aquisição de novas
compreensões, mas compreender, aqui, não é transformar um dado sensível em uma ideia
nem tomar o corpo como objeto. “[...] compreender é experimentar o acordo entre aquilo que
visamos e aquilo que é dado, entre a intenção e a efetuação – e o corpo é nosso ancoradouro
em um mundo” (MERLEAU-PONTY, 1996, p. 200).
Segundo Merleau-Ponty (1996), em qualquer movimento realizado com o corpo, não
o situamos como ideia nem como objeto, mas, simplesmente, nos fazemos existir com ele.
Nas atividades que desempenhamos com o corpo no cotidiano, não o tomamos como
instrumento separado, o qual a mente comanda para a ação, simplesmente agimos. Vivemos
nosso corpo sem nada que o separe da consciência. A consciência é completamente corpo, ela
não está unida ao corpo, pois só unimos o que antes se encontrava separado. Claro que se
pode estabelecer essa relação de conhecimento com o corpo, mas não é essa a modalidade
primordial de vivenciá-lo.
O verdadeiro cogito, diz Merleau-Ponty (1996, p. 9), “[...] não define a existência do
sujeito pelo pensamento de existir que ele tem, não converte a certeza do mundo em certeza
do pensamento do mundo e, enfim, não substitui o próprio mundo pela significação mundo”.
Antes da reflexão, o mundo já está sempre aí, somos seres no mundo. Simplesmente agimos,
sem que seja preciso a cada momento refletir sobre tudo o que fazemos. O mundo, diz o autor,
não é aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo.
94

O autor cita o caso de pessoas mutiladas que continuam se comportando como se não
tivessem perdido seu membro. Para ele, esse tipo de atitude não se passa no nível da reflexão,
pois, ainda que se saiba da perda do braço, existe um modo de se situar radicado no corpo que
permanece após a mutilação. A inaceitabilidade manifesta não é uma decisão tomada no plano
da consciência tética, não é da ordem do “eu penso que...”.

[...] Ter um braço fantasma é permanecer aberto a todas as ações das quais
apenas o braço é capaz, é conservar o campo prático que se tinha antes da
mutilação. O corpo é o veículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um
ser vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e
empenhar-se continuamente neles [...] (MERLEAU-PONTY, 1996, p. 122).

O estar lançado no mundo, o modo de nos situar, envolve nosso ser como um todo, é o
corpo-consciência que se adapta às situações. O mutilado age como se ainda possuísse o braço
porque conserva este conhecimento aprendido e, ainda que ao assumir uma atitude reflexiva
ele perceba a sua mutilação, no nível do cogito pré-reflexivo ele age como se tivesse o braço.
Um exemplo interessante, apresentado pelo autor, é o da moça que perde a fala
quando sua mãe a proíbe de ver o rapaz a quem ama. A perda da fala não é algo planejado e
desejado. Na afonia, o doente não está expressando um estado interior, traduzindo algo que
está se passando na sua consciência. Não há uma simulação, porque é impossível essa
separação entre o que a moça sente ou pensa e o que ela expressa. Ela não decide se calar,
pois só podemos fazer isso quando conseguimos falar.

[...] O homem concretamente considerado não é um psiquismo unido a um
organismo, mas este vai-vém da existência que ora se deixa ser corporal e
ora se dirige aos atos pessoais. Os motivos psicológicos e as ocasiões
corporais podem se entrelaçar porque não há um só movimento em um corpo
vivo que seja um acaso absoluto em relação às intenções psíquicas, nem um
só ato psíquico que não tenha encontrado pelo menos seu germe ou seu
esboço geral nas disposições fisiológicas [...] (MERLEAU-PONTY, 1996, p.
130).

Embora cientistas e psicólogos costumem considerar nosso corpo da maneira como ele
é visto objetivamente pelo outro, não é dessa forma que o vivenciamos. Não o usamos como
algo que está fora, como se fosse um instrumento, somos nosso corpo, nós o existimos. A
ideia de corpo como objeto entre outros objetos é construída ao se pensar o corpo de fora, sob
o ponto de vista do outro. Esse pensamento objetivo do corpo forma-se, segundo Merleau-
Ponty, no momento em que não vivenciamos mais nosso corpo nem o mundo, no nível do
saber antipredicativo. Ao falarmos do corpo em ideia, da ideia mundo etc., perdemos o
95

contato com a experiência perceptiva em que esse pensamento objetivo está fundado. Para o
autor, esse é o paradoxo de todo ser no mundo.
Uma das maiores contribuições da fenomenologia foi, exatamente, ter superado a
dicotomia existente nas ciências humanas em geral, entre consciência e mundo e entre
consciência e corpo. Enquanto, para o idealismo, a consciência constitui objetos, o
materialismo dá ênfase à exterioridade das coisas em detrimento da razão. Para a
fenomenologia, consciência e mundo não são, com efeito, duas entidades separadas na
natureza, que se trataria, em seguida, de pôr em relação. Consciência e mundo se definem
respectivamente a partir dessa correlação que lhes é, de alguma maneira, co-original. A
consciência não é tomada como parte do mundo, da maneira que a concebe o senso comum,
mas como o lugar de seu desdobramento no campo original da intencionalidade.

[...] a vida da consciência ! vida cognoscente, vida do desejo ou vida
perceptiva ! é sustentada por um “arco intencional” que projeta em torno de
nós nosso passado, nosso futuro, nosso meio humano, nossa situação física,
nossa situação ideológica, nossa situação moral, ou faz com que estejamos
situados sob todos esses aspectos. Este arco intencional faz a unidade entre
os sentidos e a inteligência, a unidade entre a sensibilidade e a motricidade.
É ele que se “distende” na doença [...] (MERLEAU-PONTY, 1996, p. 121).

Com base na ideia de que vivemos nessa unidade corpo-consciência-mundo, Csordas
(1993) elabora um conceito que pode ser de fundamental importância na compreensão da
experiência terapêutica religiosa. Partindo do princípio de que o movimento do ser de “voltar-
se para” algo implica mais engajamento corporal e multissensorial do que usualmente se
concede em definições de atenção, Csordas desenvolve o conceito de modos somáticos de
atenção, por ele definido como formas culturalmente elaboradas de atentar com e para o corpo
em meio à presença encarnada de outros. A ideia é de que a maneira de compreender e nos
situar no mundo envolve sínteses corporais-mentais fundadas em um mundo cultural
compartilhado, o que nos possibilita falar de um modo de entender e agir, dado pela forma
como o corpo se adapta às situações, antes mesmo de qualquer atitude mental. Algumas
experiências proporcionadas pela terapia religiosa podem conduzir ao que Csordas chama de
sínteses corporais pré-reflexivas. Que seriam modos corporais para lidar e se ajustar a novas
situações específicas, que revelam um envolvimento ativo do indivíduo.
O autor acredita que as experiências corporais, por meio das quais curadores,
terapeutas ou médicos aprendem sobre os problemas e estados emocionais de seus pacientes,
têm origem nessa vivência mais primordial do cogito pré-reflexivo, caracterizado pela
ausência de dualidade entre corpo e mente, self e outros.
96

A transformação da experiência no âmbito de uma terapia religiosa, portanto, funda-se
na apreensão de toda uma maneira de compreender e agir no mundo, pela via de um processo
que envolve também engajamento corporal e multissensorial, e não só intelectual. A eficácia
do ritual reside nesses novos ajustes corporais, e não apenas em mudanças na maneira de
perceber a enfermidade. Falar em significação ou re-significação da experiência, portanto, não
é tratar apenas de uma mudança de representações da doença. Essa nova compreensão do
contexto de aflição é muito mais ampla e não envolve somente uma apreensão intelectual, ela
engaja todos os sentidos.
O estudo das práticas de cura religiosa, aqui empreendido, evidenciou que as
sensações corporais vivenciadas não são mera expressão de ideias ou representações mentais
prévias. Os sentimentos vividos nos rituais não se passam no plano da consciência reflexiva e
não são escolhidos previamente entre diferentes possibilidades. Os participantes estão
lançados em situações que seguem seu fluxo independente de uma reflexão, o que não
significa que não possam ser continuamente retomadas. Os modos somáticos vivenciados em
contextos de tratamento espírita ou da cura carismática não são apenas o reflexo de ideias ou
noções produzidas no âmbito da doutrina. As sensações corporais experimentadas nas práticas
de cura são o resultado de sínteses corporais que envolvem todos os sentidos. São formas de
se situar em um mundo, incluindo a presença encarnada de outros, ou seja, fundadas em
experiências de compartilhamento.
Abandonando a ideia do corpo como um objeto, e sendo ele a nossa forma mesma de
ser no mundo e nosso ponto de vista sobre ele, podemos falar de uma maneira corporal de
compreender e agir, dada pela forma como o corpo se adapta às situações, antes mesmo de
qualquer atitude mental. Essa perspectiva nos permite superar o determinismo biológico e/ou
cultural e entender que as experiências da enfermidade e do tratamento podem conduzir ao
que Csordas chama de sínteses corporais pré-reflexivas, que não devem ser reduzidas a
manifestações orgânicas da doença apenas, nem ao resultado de determinantes culturais. É
claro que são experiências fundadas na cultura, mas revelam modos corporais específicos de
lidar e se ajustar a novas situações, expressando um envolvimento ativo do indivíduo.
Ingold
6
, também inspirado em Merleau-Ponty, dedica-se a uma análise desse modo de
ajuste, por ele chamado sinergia organismo e ambiente. Ao voltar-se para os problemas do
neodarwinismo e do cognitivismo, sua intenção é lançar luz sobre esse processo. Segundo o
autor, do mesmo modo que a teoria evolucionária imagina que as especificações de uma

6
Segundo Ingold, ao elaborar o conceito de modos somáticos de atenção, Csordas apenas desloca o corpo para a
esfera da consciência, mas mantém a dicotomia entre a consciência (agora encarnada) e o mundo.
97

forma orgânica, codificadas em genes, podem ser passadas de geração em geração,
independente dos processos de desenvolvimento, a ciência cognitiva também imagina que o
conhecimento cultural, codificado em palavras ou outros meios simbólicos, pode ser passado
adiante, independentemente de sua aplicação prática em tarefas e contextos específicos. Para
ele, pensar nesses termos é tratar o desempenho como a execução mecânica, pelo corpo, de
um conjunto de comandos gerados e colocados on line pelo intelecto e supor que o
desempenho começa com um plano que, por conter uma especificação completa e precisa do
comportamento a ser seguido, é uma estrutura complexa. Enquanto o processo de
implementação, por outro lado, é supostamente de uma simplicidade mecânica (INGOLD,
2010, p. 20).
Ao questionar esta oposição entre mecanismos cognitivos inatos e conteúdo cultural
adquirido, Ingold mostra como as formas e capacidades dos seres humanos, assim como
aquelas de todos os outros organismos, brotam dentro de processos de desenvolvimento. Seu
conceito de evolução, radicalmente diferente do neodarwiniano ortodoxo, não reserva um
espaço ontológico separado para a história humana.
O autor busca superar a postura tradicional nas teorias sociais de entender a ordem dos
significados ou da cultura como sobreposta ao domínio da materialidade ou da natureza.
Trata-se de uma tendência que tem levado os estudiosos a tratar o corpo como mero
instrumento para a manifestação exterior de significados situados na ordem mais elevada da
cultura. Segundo Jackson, ao subjugar a corporeidade ao domínio semântico, essa posição
teórica promove duas reduções. Primeiro, os movimentos, as posturas e os gestos corporais
são reduzidos ao status de signos e dirigem o analista para a procura dos significados culturais
extrassomáticos que lhe dão sustentação. Segundo, o corpo é feito passivo e inerte, enquanto o
papel ativo de mobilizar, colocar em uso e atribuir significado é delegado a um sujeito do
conhecimento apartado do corpo (JACKSON, 1989 apud INGOLD, 2000, p. 170).
Para Ingold, a primeira redução falha em reconhecer que gestos, por mais que possam
ser realizados para simbolizar, delineiam seus próprios significados embutidos em contextos
sociais e materiais de ação. A segunda redução ignora a consideração principal da
fenomenologia de Merleau-Ponty de que o corpo é dado em movimento, e a corporeidade do
movimento carrega sua própria intencionalidade imanente. É por essa intencionalidade que o
sujeito da ação é ao mesmo tempo um movimento de percepção (MERLEAU-PONTY, 1962
apud INGOLD, 2000, p. 110-111).
A maior parte dos psicólogos, diz Ingold, afirma que as pessoas percebem o contexto
que as cerca pela construção de representações do mundo no interior de suas cabeças. Supõe-
98

se que a mente trabalha sobre o cru material da experiência, constituindo sensações de luz,
som, pressão sobre a pele e, então, organizando dentro de um modelo interno que se torna
guia para a ação subsequente (INGOLD, 2000, p. 2). Para Ingold, é James Gibson quem
subverte essa concepção em uma obra intitulada The ecological aproach to visual perception.
É preciso descartar a ideia, que nos acompanha desde o tempo de Descartes, diz Gibson, da
mente como um órgão distinto, que é capaz de operar sob os dados sensíveis corpóreos.
Percepção, argumenta este autor, não é a realização de uma mente em um corpo, mas do
organismo como um todo em seu ambiente, e é equivalente ao próprio movimento
exploratório do organismo através do mundo. Se a mente está em algum lugar, então, não é
dentro da cabeça, mas fora dela, no mundo. Ingold acredita que a identidade e as
características das pessoas são a condensação de histórias de amadurecimento dentro de
campos de relacionamentos sociais que são passadas adiante e transformadas por meio das
suas próprias ações (GIBSON, 1979 apud INGOLD, 2000, p. 30).

O ser “animado” (animacy) [...] não é uma propriedade que as pessoas
imaginativamente projetam sobre as coisas que elas percebem em sua volta.
Ao invés [...] é um potencial dinâmico, transformativo do campo total de
relações em que seres de todos os tipos, mais ou menos como pessoas ou
como coisas, contínua e reciprocamente, se fazem existir. O caráter animado
do mundo da vida, em suma, não é o resultado da infusão de espírito na
substância, de agência em materialidade, mas é ontologicamente anterior à
sua diferenciação (INGOLD, 2006, p.10 apud RABELO, 2008, p.123).

O caminho através do qual qualquer pessoa se move é constituído pela prática de todas
as outras, cada um desempenha um papel no estabelecimento das condições de
amadurecimento de todos os demais indivíduos. O desenvolvimento da cognição é
equivalente ao próprio processo histórico da vida social. Este último não passa de uma
continuação, na esfera humana, de uma trajetória evolutiva mais abrangente. A tarefa de
aprender não reside nas relações entre estruturas no mundo e estruturas na mente, mas é
imanente à vida e consciência do conhecedor, pois desabrocha dentro do campo de prática
estabelecido através de sua presença enquanto ser no mundo. A cognição é um processo em
tempo real. Em vez de falar de ideias, conceitos, categorias e elos, sugere Gatewood (1985, p.
216 apud INGOLD 2010, p. 21) que deveríamos pensar em fluxos, contornos, intensidades e
ressonâncias.
Este modelo trataria o desempenho não como a descarga de representações na mente,
mas como uma realização do organismo - pessoa por inteiro em um ambiente. Isso exige uma
abordagem ecológica como a de Ingold. Sua premissa básica é que a cognoscibilidade
99

humana está baseada não em alguma combinação de capacidades inatas e competências
adquiridas, mas em habilidade.
Para Ingold, conhecimento não é comunicado, mas construído, seguindo os mesmos
caminhos dos predecessores e orientado por eles. O aumento do conhecimento na história de
vida de uma pessoa não é o resultado da transmissão de informação, mas sim de redescoberta
orientada. As deliberações não são executadas dentro de um sacrário mental interior,
protegido das múltiplas esferas da vida prática, mas em um mundo real de pessoas, objetos e
relacionamentos. O ambiente não é mera fonte de problemas e de desafios adaptativos a serem
resolvidos; ele se torna parte dos meios de adquirir competências e lidar com as dificuldades.
O exemplo da receita culinária, apresentado por Ingold, ajuda a entender que sou
capaz de seguir suas indicações porque ela dialoga com minha experiência anterior de derreter
e mexer, de lidar com os ingredientes e utensílios necessários. Os comandos verbais da receita
extraem seu significado não de sua ligação com representações mentais, mas de seu
posicionamento dentro do contexto familiar da minha atividade doméstica. Desse modo, a
informação no livro de receitas, em si mesma, não é conhecimento. Ela abre caminho para o
conhecimento, por estar dentro de uma tarefa, até certo ponto já familiar, em virtude da
experiência anterior. Apenas quando se coloca no contexto das habilidades adquiridas por
meio desta experiência anterior, a informação especifica uma rota compreensível, que pode
ser seguida na prática, e apenas uma rota assim delimitada pode levar ao conhecimento. É
nesse sentido que todo conhecimento está baseado em habilidade (INGOLD, 2010, p. 20).
Gibson, fonte de grande inspiração para Ingold, diz que não é absorvendo
representações mentais ou esquemas para organizar dados brutos de sensações corporais que
nós aprendemos, mas através de uma sintonia fina ou sensibilização de todo o sistema
perceptivo, incluindo o cérebro e os órgãos receptores periféricos junto com suas conexões
neurais e musculares, com aspectos específicos do ambiente (GIBSON, 1979, p. 246-248
apud INGOLD, 2010, p. 21).
Quando Matilde se envolve nos rituais espíritas, não está simplesmente convertendo
em comportamento manifesto uma estrutura que já existe completamente formada em sua
mente. Não se trata de momentos separados, o primeiro referindo-se à pura operação
intelectual da mente, e o segundo, à exclusiva operação física ou comportamental,
empreendida posteriormente pelo corpo. Essa é uma distinção cartesiana que evoca uma outra
bem central para a concepção da ciência cognitiva, entre resolver problemas e implementar
corporalmente as soluções encontradas. Mas, resolver problemas é inseparável dos
100

movimentos reais da pessoa em ação no cenário da prática, e ter superado uma dificuldade já
é ter implementado sua solução (INGOLD, 2010, p. 22).
A aproximação dos espíritos inferiores é experimentada por Matilde como sensações de
desmotivação e falta de energia. Estas sensibilidades vão sendo adquiridas ao longo das
vivências na terapia espírita e são essenciais ao delineamento dos contornos de seu
sofrimento. Embora sejam importantes para o diagnóstico e tratamento das enfermidades,
quase sempre são desconsideradas nos estudos tradicionais sobre terapias religiosas. Numa
experiência dessas, podemos dizer que o corpo não é vivido como um instrumento, e algumas
sensações experimentadas não são mera expressão de ideias ou representações mentais
prévias exatamente porque não há uma separação entre corpo e consciência. Os participantes
estão lançados em situações que seguem seu fluxo independente de uma reflexão, o que não
significa que não possam ser continuamente retomadas e refletidas.
No instante em que os espíritos se aproximam, Matilde os percebe pelas sensações que
invadem seu corpo, e são elas que identificam a espiritualidade. Esse contato e a vivência da
presença dos espíritos não é uma experiência centrada na cognição; ela envolve o ser inteiro.
A experiência no mundo não é compartimentada em dimensões separadas e estanques. Ao
sentir-se carregada pela energia de espíritos ruins antes da desobsessão e, em seguida, ao
experimentar leveza, tranquilidade e suavidade pela presença de espíritos bons, Matilde não
efetua uma elaboração intelectual antes de ser tomada pela sensação que o espírito lhe
proporciona. Não há um movimento de reflexão antecedendo e escolhendo previamente as
sensações que serão vivenciadas. A maneira como compreendemos e nos situamos está
sempre nos envolvendo integralmente.
À medida que Matilde desenvolve a capacidade de identificar os tipos de
espiritualidade presentes, seu mundo passa a ser povoado por espíritos bons e ruins. A
vivência numa terapia religiosa não está fundamentada na transmissão de informações e
conhecimentos, mas na aquisição de habilidades. A ideia de modos somáticos de atenção pode
ser pensada como desenvolvimento de sensibilidades, ou, nos termos de Ingold, como a
aquisição de habilidades, fundada na sinergia organismo e ambiente.
O ambiente de quase penumbra e a música suave da sala de passe, somados à ênfase
na postura calma, serena e tranquila, contribuem para a formação de uma experiência muito
específica dentro do universo espírita. É a partir da interação entre o que é proposto pelas
vivências no centro e as competências que Matilde carrega, que se desenvolvem as
sensibilidades adquiridas por ela. No espiritismo a aprendizagem passa pela aquisição da
habilidade de atrair energias positivas. Esse conhecimento não é transmitido, mas retomado e
101

refeito nas situações práticas em que Matilde se engaja. O mesmo acontece com Maria,
quando sente o corpo esquentar e tremer na presença de Jesus. Supor que nesse caso Maria
esteja apenas usando uma analogia para expressar percepções psicológicas é esquecer que,
conforme fica claro em seu relato, para ela trata-se de uma vivência de fato encarnada de se
sentir queimando. Além disso, há a sensação de experimentar a alma ser purificada de todo o
sofrimento e a condição posterior de renovação, paz, leveza e amor no coração.

102

5 COSTURAS DO SOFRIMENTO EMOCIONAL

Os medos de Eulálio o distanciam da convivência social. Chega a dizer que sente sua
vida correndo fora dos trilhos. Nas crises de tristeza, descontrole e autoagressão, Balbina
busca o isolamento, permanecendo trancada em seu quarto. Os delírios atiram Matilde para
uma realidade distante da habitada pelas pessoas que a cercam. As dores de Maria se iniciam a
partir dos sentimentos de rejeição na escola. Grande parte da angústia vivida em situações de
sofrimento emocional se localiza no sentimento de que a vida não está transcorrendo do modo
que se esperava. Há uma dificuldade de compreender o que está acontecendo, o que conduz a
sensações de insegurança e, sobretudo, de solidão.
Muito presente nas narrativas sobre a emergência dos primeiros sinais é a tentativa de
entender a situação por meio da localização da origem do problema, o fator desencadeador do
sofrimento, a causa primeira. Chama a atenção nos relatos o fato de sempre se iniciarem com
a identificação de uma situação difícil, a partir da qual o sofrimento vai sendo descrito.
Eulálio, por exemplo, em sua primeira narrativa, começa lembrando a separação dos pais
quando ele tinha por volta de cinco anos. Na ocasião o pai pediu a ele para comunicar à mãe
que se casaria com outra mulher. De maneira semelhante, a primeira vez em que pergunto a
Matilde sobre sua experiência de sofrimento, ela inicia seu relato recordando o forte vínculo
com a mãe. Em sua memória, há uma mãe atenciosa e carinhosa até a adolescência, fase a
partir da qual a mãe começa a se distanciar e a tratá-la com indiferença. Matilde logo faz uma
pausa para dizer, com os olhos cheios de lágrimas, que lembrar essas coisas lhe faz reviver o
sofrimento novamente.
Todos estão envolvidos nessa procura dos nós a serem desatados. Em meio a tantas
incertezas, buscam explicações que apresentem uma prescrição de superação e dissolvam as
angústias. Essas tentativas são marcadas pelo desejo de um diagnóstico capaz de oferecer uma
definição clara do problema, permitindo classificá-lo definitivamente, e principalmente,
chegar a uma indicação da maneira mais apropriada de intervir, com um tratamento que
proporcione domínio sobre a vida.
Descobrir a explicação que ordene é algo considerado fundamental. Entretanto, a
procura da causa principal é motivada, principalmente, por uma necessidade de ordem prática.
O que se deseja, acima de tudo, é alcançar uma compreensão que traga junto a orientação do
que fazer. Alcançar o sentido do que se vive é importante na medida em que sirva para
planejar e intervir, conduzindo ao tratamento que acabe com todo o sofrimento e traga a vida
para os trilhos.
103

A atitude de busca permanente de domínio da situação fundamenta-se numa
perspectiva muito presente na atuação de todos os sujeitos envolvidos. O pressuposto de um
eu bem centrado que conhece, ordena e controla o mundo é uma referência para todas essas
pessoas cujas experiências são aqui relatadas e, também, é um parâmetro forte nas orientações
dos profissionais envolvidos. As ciências atendem e reforçam esse desejo de objetividade,
ordenamento e domínio.
O ideal de localização do cerne do problema e a consequente superação por meio da
estabilização das emoções está presente em muitas situações e eventos. Se, por um lado, há a
tentativa de afinação [expressão muito interessante usada pelo psiquiatra Stephen Stahl em
entrevista já mencionada aqui], feita sobre o funcionamento do cérebro com o uso da
medicação, por outro lado, tenta-se desenvolver um controle sobre as instabilidades
emocionais por meio de atitudes e mudanças de comportamento nas psicoterapias. A busca
pelo domínio sobre as oscilações emocionais pode ser percebida em muitas situações, não só
na postura de quem vive o sofrimento, mas de diversos profissionais que os acompanham e
também de familiares e amigos.
No entanto, a vida vai revelando frequentemente as dificuldades de se sustentar esse
ideal de controle. Aos poucos se percebe a impossibilidade de encontrar uma causa única que
possa explicar e um tratamento exclusivo que resolva. Comum às experiências relatadas é a
descoberta de que há muitas dimensões relevantes. Não apenas os pacientes passam a
compreender a necessidade de recorrer a vários recursos terapêuticos, como os próprios
profissionais admitem a importância de buscar articular diversas atividades que facilitem a
procura de soluções.
As instabilidades emocionais exigem um enfrentamento cotidiano. O domínio sobre
essas oscilações permanentemente escapa pelas mãos. Toda a organização da vida vai se
fazendo em torno da busca pela criação de condições para evitar uma crise. O grande desafio
de quem vive o sofrimento emocional é perseguir a invulnerabilidade. Ao longo dessa
trajetória, todas as possibilidades percebidas como elementos que ajudam nesse processo vão
sendo procuradas.
Quando pede-se um relato sobre as situações de sofrimento, o que narram é a
experiência prática de viver com a doença: as abordagens começam com o que ocorreu
quando apareceram os primeiros sinais, as atitudes tomadas, as dificuldades que surgiram, o
modo como foi preciso ir se adaptando e reorganizando a vida. Isso evidencia que ter uma
doença não se restringe apenas à tentativa de encontrar significados para ela, mas traz à tona,
104

sobretudo, desafios que exigem soluções. As interpretações vão sendo bordadas e ganhando
corpo no próprio tecido da ação, nas teias de atitudes concretas.
Um estudo desenvolvido segundo a tradicional definição de campo das ciências
sociais teria como foco principal a investigação do universo de significados dados pela
cultura. O ponto de partida é de que há um organismo portador de uma doença, sobre a qual
se identificariam modos específicos de compreender e se relacionar com a enfermidade, os
quais estão relacionados a um sistema de valores e símbolos culturais. Segundo essa
perspectiva, às ciências sociais caberia decodificar ou interpretar esse sistema cultural.
No entanto, não há por que separar o que aparece junto: ao falar dos primeiros sinais
de sofrimento na infância, Balbina se refere a uma sensação de sufocamento que a impedia de
respirar normalmente e de uma aceleração dos batimentos cardíacos. A pediatra que a atende
tenta investigar os fundamentos orgânicos para seus sintomas, mas não os encontra. A
convivência com um animal de estimação faz os sintomas desaparecerem. Já na fase adulta,
os momentos de maior tristeza de Balbina são vividos com dor no estômago e queda da
pressão arterial. A depressão é definida por Eulálio como uma tristeza profunda que não
passa, uma tensão na mente e uma dor no fundo do olho. Há relatos de pessoas em que os
sentimentos de angústia são experimentados com fortes dores no coração. As narrativas
expõem sinais muito expressivos de uma grande dificuldade de separação entre dimensões
que se revelam indissociáveis.
O organismo vai sendo feito por meio de práticas concretas, não existe previamente,
dado de modo independente. As manifestações dos primeiros sinais de sofrimento, por
exemplo, são a expressão de fragilidades orgânicas que já são sociais e que não estão dadas,
vão sendo feitas nas interações. Tentar trabalhar e não conseguir produz um sofrimento que é
orgânico, mas é impregnado de valores culturais. É a partir das interações sociais, marcadas
por uma forte centralidade do trabalho, que os sentimentos de rejeição e inferioridade de
Matilde e Eulálio emergem quando não conseguem alcançar os ideais de agenda cheia. Nesse
transcurso, os significados culturais vão sendo construídos nas relações de compartilhamento
social, mas, ao mesmo tempo, fazem a dor, produzem o sofrimento emocional. Na tessitura da
dor, orgânico e simbólico são inseparáveis, pois se fazem mutuamente.
Esses aspectos relacionados à centralidade do trabalho, tão presentes em diversos
relatos, tradicionalmente são compreendidos pelas ciências sociais como a manifestação de
valores situados na esfera da cultura. O foco da investigação se volta para o sistema cultural
dominante, nele estaria a chave para se entender a conduta dos sujeitos estudados.

105

Não faz sentido falar de natureza e cultura como dois domínios ontológicos
independentes. Não são totalidades dadas a priori, co-nascem, emergem juntas e fazem-se
mutuamente. A vida da natureza e da cultura não deve ser compreendida como a realização de
algo pré-definido, mas sim como um complexo campo de interações de onde resultam as
variadas e imprevisíveis formas de vida. A agulha do real segue tecendo uma trama onde
dificilmente podemos separar uma dimensão da outra.
O presente trabalho de investigação vem indicando que essas duas dimensões se fazem
mutuamente, uma seria impossível de ser compreendida independentemente da outra. Não se
trata de realidades dadas que interagem, mas de dimensões indissociáveis, pois o
desenvolvimento de uma envolve a outra. O sofrimento de Eulálio e Matilde com as
dificuldades de trabalhar são encarnados, são modos de ser dentro de relações de
compartilhamento de mundos.
Na situação de sofrimento vivenciada por qualquer uma das pessoas cuja trajetória foi
aqui acompanhada, é possível perceber o grande empenho de todos em manter a vida dentro
dos parâmetros de normalidade. Vão sendo mobilizados uma série de recursos para ajudar a
garantir esse projeto: medicação, tratamento psiquiátrico, terapia psicológica, pesquisa na
Internet, artigos de jornal, grupos de apoio, meditação, acupuntura e terapias religiosas. Tudo
isso vai sendo articulado na tentativa de superar as dificuldades. Enquanto cada um continuar
comprometido com o enfrentamento dos conflitos, o corpo tenderá a permanecer integrado.
Ele é, no entanto, cheio de tensões: entre manter o controle e ser instável, entre as exigências
de negociar com os sentimentos de tristeza e outras demandas ou desejos, entre se entregar à
morte ou seguir lutando para manter-se vivo. No dia a dia prático, essas tensões não podem
ser evitadas, elas precisam ser permanentemente negociadas. A suposição de que temos um
corpo coerente ou somos um todo, para Mol (2002, p. 15), esconde muito trabalho a ser feito.
Manter a nós mesmos como um todo integrado é uma das tarefas da vida, não está dado, é
conquistado.
Para Eulálio, a tensão entre se entregar ou permanecer lutando é descrita como uma
batalha a ser enfrentada cotidianamente.

[…] é uma batalha, contra o cansaço mental, contra o esquecimento, contra a
auto-estima; e é necessário manter a esperança acima dessas coisas,
esperanças no futuro. O que me marcou dessa noite foi que eu vi claramente
a depressão na minha frente, como que uma falta de esperança, paz e alegria,
que traz uma nova realidade à mente, conforme a gente tenta se adaptar a
isso. O clima se torna frio, conforme nós vamos aceitando que não se
consegue mudar aquele obstáculo tão imenso que se mostra a nós. Eu ainda
106

não tenho uma resposta a essa noite. Não sei se dará certa essa estratégia que
estou desenvolvendo pra contornar a depressão. Estou numa guerra, e nessa
guerra não se sabe direito como será o fim, só se vive a batalha intensa todos
os dias, avançando lentamente, sem respostas por dias, meses, enfim, até por
anos.
Na depressão é realmente muito complicado fazer alguma coisa, tem um
desânimo muito grande, e eu acho que consigo fazer alguma coisa com esse
método. Eu disse que “acho que consigo” porque você está acompanhando
um teste que eu iniciei há um tempo, um teste que eu desenvolvi pra fazer
alguma determinada coisa acontecer na minha vida. É através dessa forma
que eu consegui me reerguer, e é dessa forma que eu acho que vou conseguir
as coisas; pelo menos até agora estamos caminhando, já compramos meus
cursos; ainda não desisti da ideia de seguir em frente com minha área
profissional, ou seja, apesar do desânimo instantâneo que dá pra fazer
alguma coisa que não esteja na mente, eu estou seguindo em frente. [...]

Balbina é capaz de se entusiasmar com os ensinamentos budistas, as técnicas de
meditação ou a psicologia cognitiva e em pouco tempo concluir que não consegue ter esse
domínio sobre instabilidades emocionais, como a tristeza, as tentativas de autoagressão, crises
de pânico, raiva e choro. Em diversos momentos perdeu o controle e agrediu os outros e a si
mesma. Fazer coisas que não se deseja assusta e causa desconforto. Esse processo vai
fragilizando o modelo de autocontrole que enxerga o corpo como instrumento da vontade
individual.
É essa forma de compreensão que está na base de muitas tentativas de domínio sobre
as instabilidades emocionais. Essa ideia se manifesta de diferentes formas nos diálogos de
indivíduos com os quais as pessoas em situação de sofrimento emocional se relacionam.
Embora se esforcem muito para realizar seus projetos, todos sentem que nem sempre essa
autodeterminação é suficiente, o que as leva a conviver constantemente com sentimentos de
frustração.
Guiada pelos ensinamentos budistas, com que passou a ter contato nas últimas
semanas, Balbina decidiu nunca mais tomar medicação psiquiátrica alguma. Foi uma atitude
que lhe impôs enormes dificuldades. Passou por crises de abstinência fortíssimas.

[…] Eu passei muito tempo da minha vida também buscando respostas
existenciais. Estudei e frequentei algumas religiões. Há pouco tempo minha
tia paterna me apresentou o Budismo de Nitiren Daishonin (atuação), e estou
me identificando muito com esta religião/filosofia. Entre os membros do
budismo, conheci o psicanalista do meu primo. Consultei-me com ele após
uma crise muito forte, no fim do ano passado, e resolvi essa semana mesmo
continuar e ver no que é que dá. Hoje mesmo tive atendimento. Ele vai
“cutucar” feridas nunca antes mexidas, e estou com um pouco de medo, pois
no Budismo e com a terapia cognitiva eu aprendi (finalmente) a desacelerar
a mente e viver o agora. O relacionamento com minha família melhorou
107

muito depois que eu comecei a estudar o budismo, e tomar as medicações.
Eu moro com minha mãe, pai e irmã do meio, adolescente, com a qual vai
fazer um ano que não nos falamos. Tenho uma irmã mais velha, casada, com
a qual também não me relaciono. Já passei esses períodos (dois anos até)
sem falar com minha mãe e meu pai, ou alternados, rs. Hoje está tudo
melhor, sobretudo com minha mãe. […]

Vive investigando estratégias alternativas que possam lhe permitir interromper o uso
das medicações. Nesse sentido, tem feito acupuntura, vem aprendendo técnicas de meditação
pela Internet, se converteu ao budismo e está matriculada em uma academia que adora ir, mas
o medo de sair de casa e ter uma crise faz com que quase nunca vá.

[…] Não acredito que me “curei” da doença... mas que adquiro sabedoria a
cada dia para lidar com ela. Estou me empenhando na prática da fé (este
budismo nos ensina a ter fé em nossa própria vida, e poder ajudar outras
pessoas com isso), cuidando da alimentação, fazendo exercícios físicos,
tendo minha vida social de volta, fazendo acupuntura, meditação, psicanálise
e até já comecei um tratamento para a TPM (que é fortíssima). Tudo isso,
para manter o meu estado de equilíbrio e evitar novas crises. Já voltei a
trabalhar e deixei um relacionamento destrutivo com um rapaz, que, assim
como meu pai, é alcoólatra, e agora estou num relacionamento sério e
saudável com outro rapaz, e estou muito feliz com tudo isso.
Há pessoas que dizem que eu vivo nos altos e baixos e que eu não poderia
ter deixado de tomar os remédios. Mas eu vou contra. E digo que nunca mais
precisarei tomar tais medicações. Acho que muita gente, assim como eu, não
precisa de remédios, e sim resgatar o respeito à própria vida, tendo uma vida
saudável, acreditando em algo (não importa a religião) e buscando meios
para buscar as causas do problema (por ex., no meu caso, a TPM me
atrapalhava muito; e a psicanálise e a terapia cognitiva me ajudam/ajudaram
a lidar com as causas do meu desequilíbrio. Os meus problemas não
mudaram... eu mudei. Eu aprendi a lidar com isso. Como um cego aprende a
lidar com a falta de visão. Eu gostaria realmente de poder ajudar pessoas que
ainda se agarram em remédios psiquiátricos como único fio de vida, e ainda
vou encontrar meios para tal. =) [...]

Quando Balbina afirma não ter se curado da doença, mas que foi adquirindo sabedoria
a cada dia para enfrentá-la, está se referindo a uma aquisição de habilidade. Chega a dizer que
seus problemas não mudaram, ela sim é que se transformou, pois aprendeu a lidar com seus
sofrimentos como um cego aprende a viver com a falta de visão. São sensibilidades que vão
sendo adquiridas a cada nova vivência no budismo, onde encontra força e fé para continuar
tentando, da mesma forma que a meditação proporciona-lhe mais equilíbrio emocional, e a
psicologia cognitiva ensina-lhe a se conhecer e assumir novas atitudes na vida.
A enfermidade de Balbina faz-se no entrelaçamento de diversos elementos
heterogêneos, entre eles: conviver com o medo permanente de ter uma nova crise; ingerir uma
108

medicação que, embora amenize essa ameaça, pode lhe levar à dependência química; buscar
tratamentos alternativos que dispensem o uso da medicação, como acupuntura, exercícios de
meditação, terapias psicológicas; vivenciar no budismo novas possibilidades de
enfrentamento; ter a companhia de um bicho de estimação. Em cada um desses tratamentos há
um novo aprendizado. A enfermidade vai sendo feita de um modo diferente, seja na
acupuntura, no budismo ou na meditação. Isso vai exigindo de cada um o exercício de
coordenação entre as diversas atividades. Assim, o mundo vai se tornando mais povoado de
novos agentes. Os elementos articulados em cada uma dessas tentativas vão possibilitando o
surgimento de novas competências para lidar com o sofrimento.
A trajetória de Maria também é marcada pelo exercício de articulação das diversas
práticas e aquisição de novas capacidades de enfrentamento da dor.

[...] Claro q ainda tenho feridas no meu coração, ainda tenho traumas e
rancores, que precisam ser curados... por isso procuro Deus... tive uma
recaída grande nesses últimos dois meses, pq parei de permitir Deus agir em
mim, para que Deus possa agir eu tenho q estar aberta, ter fé para q isso
aconteça... essa recaída se deu pq ainda tenho coisas para serem curadas,
estou tratando espiritualmente e com a psicóloga, vou no psiquiatra para
tomar medicações para ajudar...
Mas eu acredito que sem um acompanhamento espiritual, sem fé, sem Deus
é impossível tratar a depressão... acredito nos remédios... acredito na ciência,
na medicina tb claro...
A psicóloga tem me ajudado, claro que tudo depende de mim... mas as
experiências que eu tenho com Deus são incríveis e me deixam mais leve e
forte para enfrentar as situações difíceis. [...]

Depois de procurar por explicações para seus problemas e experimentar diversos
tratamentos, Maria vai deixando de acreditar na possibilidade de encontrar uma explicação
definitiva e uma solução única para seu sofrimento e passa a entender o quanto precisa
conciliar as várias compreensões e suas respectivas orientações terapêuticas.

[...] Bom eu acredito que a depressão é uma doença 90% espiritual, se eu
penso de forma negativa a probabilidade de eu atrair coisas ruins é maior,
certo? Acredito que seja uma doença hereditária, pode ser algo recebido dos
antepassados, sei lá... traumas na infância, rancores, mágoas... Tudo isso fica
acumulado na alma... no espírito... e a junção de tudo ocasiona na
depressão... se eu não cuido do meu interior (rancores, mágoas, traumas –
tudo eh espiritual, fica na alma), a depressão é diagnosticada como? Através
de fatos, certo? Não existe exame clínico, exame de sangue, etc.. que
diagnostica a depressão, estou certa? Desculpe se falei besteira!
Então eh uma doença da alma... então para ajudar eh necessário ter um
tratamento espiritual.......
Acredito que se tenho um problema psicológico que ocasiona depressão,
109

acabo atraindo “energias negativas espirituais” o q pode agravar o problema
da depressão... ou mtas vezes a depressão vem direto do espiritual, em que
apenas o tratamento espiritual ajuda na cura.
Desde 2008 até agora eu tratava apenas no espiritual, e me ajudou, mas
ultimamente o caso agravou e tive que realmente recorrer à medicação e
psicoterapia... mas até “ontem” estava bem, apenas tratando
espiritualmente... bem como agora não... mas estava bem.
Psicoterapia, medicações e tratamento espiritual têm que andar juntas para a
cura da depressão...
Acredito na união desses três itens... tenho que tratar mente, alma e
coração... a mente com medicações, se necessário, alma a religião... coração
a psicoterapia, pois trata a nossa essência, o q realmente somos e aceitarmos
como somos... acredito que isso venha do coração... pois se acreditamos em
nós, nosso coração fica mais leve, leve para amar a si mesmo e ao próximo.

Apesar de o conhecimento produzido pela psiquiatria se fundamentar em pressupostos
dicotômicos e partirem da noção de sistema (cujos pressupostos e problemas já foram
comentados), o fato de muitos profissionais acreditarem numa interação entre esferas,
interferindo e determinando o curso dos acontecimentos, faz com que eles prescrevam
terapias focadas em aspectos psicossociais. Essas tentativas de coordenação, portanto, são
feitas não apenas por quem vive o sofrimento emocional, mas também pelos profissionais que
as acompanham.
O que cada um se torna vai emergindo desses contextos de relacionamento, não está
dado previamente. As identidades de Eulálio, Matilde, Maria e Balbina vão sendo feitas em
situações de negociação nas relações sociais. Em um dos seus relatos, Eulálio mostra como
nas interações não apenas os diálogos e as ideias são importantes na formação da identidade,
mas também objetos materiais como roupas, sapatos e gravatas são relevantes nos processos
de perseguir uma imagem de honra e elegância.

[...] Ainda tenho muito pouca autoestima, mesmo não tendo motivos
aparentes; na rua não olho pra ninguém, tenho receio que alguém abra a boca
perto de mim, pois acho que é pra mim. Estou tentando transformar minha
maneira de agir; está sendo muito lento, pois assim é que eu descobri que eu
funciono. Na verdade, minha baixa autoestima influencia nas minhas
atitudes, e eu comprovei isso. Já houve momentos aonde eu me desempenhei
muito bem em situações sociais dado o momento que era propício, por
exemplo, eu me acho bonito, e minha família diz isso também, o que reforça
mais ainda esse sentimento. Dessa forma, quando eu me visto bem pra ir em
algum evento, como, por exemplo, o casamento do meu primo, aonde eu fui
de terno e gravata, eu me senti bem, pois estava num nível de elegância
muito alto; um homem desempregado, sem atividades sociais, com todos os
distúrbios que eu tenho, conseguiu num evento se sentir com a autoestima
alta e se desempenhou relativamente bem. Isso demonstra como a auto
estima influencia o desempenho. No dia a dia, saindo as ruas, com todo
mundo todos os dias me vendo passar às três horas da tarde com os
110

cachorros, eu me sinto humilhado, sem estar “honrado” por não ter um
trabalho. [...]

A identidade é algo que vai sendo feito nos modos de engajamento nas práticas
cotidianas da vida coletiva. Quando Eulálio consegue atuar a normalidade no casamento do
primo, não está interpretando um personagem, mas buscando ser ele mesmo, Eulálio, alguém
elegante, honrado e respeitado pelos outros. Não há um Eulálio mais profundo por trás dos
atos, sua identidade vai emergindo nessas formas de atuar. Quem Eulálio é depende do
desempenho expresso nas relações sociais encenadas, bem como dos ternos e gravatas. As
pessoas vão fazendo a si mesmas nas interações sociais.
Aqui os objetos não são tomados como entidades esperando fora para serem
representadas, nem são construções formadas por sujeitos do conhecimento. A compreensão
dessa realidade passa pela superação da dicotomia cartesiana, a qual situa de um lado o
pensamento, que ativamente conhece o mundo de objetos passivos, situados do outro lado.
Não são os sujeitos humanos que soberanamente ordenam, manipulam e atribuem sentido a
objetos inertes. Trata-se de partir do princípio de que é importante, na análise dessas
situações, abandonar a habitual presença soberana de uma subjetividade separada do mundo,
que o ordena e domina. Uma das consequências desse descentramento do sujeito consciente é
fazer emergir uma multiplicidade de agentes, identificados como definidores dos cursos de
ação.
Tanto a investigação desenvolvida por Mol quanto as pesquisas de Ingold assumem
essa perspectiva de alargar o âmbito de atuação das ciências sociais para materialidades, cujo
estudo costuma ser uma prerrogativa das ciências naturais. A linha divisória entre sujeitos
humanos e objetos naturais foi violada, mas não na forma de que a física pode dominar o
mundo, ou a genética permite nos explicar tudo. E sim que sujeitos (humanos) e objetos
(naturais) são emoldurados como partes de eventos que ocorrem e jogos que são encenados.
Os objetos são agentes nas práticas em que a realidade vai sendo feita. Em lugar de falar sobre
sujeitos conhecendo objetos, podemos, como um passo seguinte, passar a falar sobre atuar a
realidade na prática (MOL, 2002, p. 50).
Eulálio e Maria enfrentaram grandes dificuldades de relacionamento com colegas da
escola. Maria carrega, desse período, recordações de solidão e tristeza intensas. Acredita que
o fato de ser gordinha, usar óculos e ser tímida a levava não apenas ao isolamento e exclusão,
mas também a ser vítima de vários tipos de atitudes perversas dos colegas. Muitas vezes
ficava todo o tempo do intervalo trancada no banheiro para que ninguém presenciasse sua
111

solidão. Foi na escola também que Eulálio diz ter passado pelas experiências mais sofridas de
sua vida:

[...] A escola era particular, uma boa escola. Eu era o alvo de todos, meninos
ou meninas; me riscavam a nuca com caneta, roubavam objetos meus,
pegavam minha mochila e escondiam; chegou na fase de apanhar: meus
adversários me humilhavam desde minha chegada à escola até a saída,
torções de braço, empurrões, rasteiras, exposições ao ridículo na frente de
passantes. E os socos no braço, no peito, nas costas, chutes nas pernas. Sem
contar as inúmeras ofensas morais, exposições ridículas na frente de meninos
e meninas, mais novos ou mais velhos, durante os oito anos do primário.
Durante todo esse tempo eu temi ir à escola. Nesse tempo eu fiz alguns
poucos amigos, mas nenhuma amizade consistente, somente colegas. Da
infância não trouxe amigos. [...]

Tomando como referência as afirmações de Ingold, talvez seja possível especular que
esse sofrimento vivido nas interações sociais, em que Maria e Eulálio se engajaram, pode ser
considerado parte de um processo mais amplo, não apenas de construção de identidades, mas
também de constituição de bases neurológicas. Melhor seria pensar que o desenvolvimento de
bases neurológicas e identidades sociais são dimensões de um mesmo processo, portanto,
indissociáveis.
Uma imagem interessante talvez seja a de estender os problemas das conexões do
cérebro, descritas pela psiquiatria, para além dos limites do organismo. Desse modo, a
fragilidade do cérebro de Eulálio, que dificulta a produção de substâncias necessárias para que
ele não sinta as dores físicas da depressão, é a mesma fragilidade que o impede de superar o
medo de sair de casa e desenvolver uma identidade mais positiva nas interações sociais. Seria
uma fragilidade do organismo inteiro, composta por duas dimensões que só podem ser
compreendidas e explicadas uma em relação a outra. Trata-se de dimensões que vão sendo
feitas uma com a outra no curso das interações.
Quando se refere ao seu cotidiano como uma batalha contra o cansaço mental, o
esquecimento, o desânimo e a baixa autoestima, Eulálio entende a importância de continuar
tendo esperança no futuro, do contrário desistiria de tudo e se entregaria à morte. Toda a
trajetória dele é marcada por essa tensão entre enfrentar as dificuldades diárias e perseguir
seus projetos ou abrir mão da vida. Observar seu percurso, ou o de qualquer outra pessoa, é
perceber que não há um organismo independente, portador de certas fragilidades dadas. As
formas que o sofrimento emocional de Eulálio vai adquirindo são resultantes de diversas
interações com o ambiente que vão se realizando ao longo de sua vida.
112

A estratégia mental elaborada por Eulálio para enfrentar os sentimentos de tristeza,
solidão, pessimismo, angústia e baixa autoestima está fundamentada na concepção de uma
mente ser capaz de exercer total controle sobre as instabilidades emocionais. Quando se refere
ao seu modo de lidar com todo esse sofrimento, Eulálio sempre usa expressões como batalha
e guerra contra as emoções que o impedem de viver como gostaria.
A criação das estratégias mentais de Eulálio é considerada por ele a alternativa, entre
todas as tentativas de tratamento, que mais o ajudou. Era preciso, diz ele, montar uma
estrutura mental que mantivesse a mente estável durante um chacoalho emocional. Esse
processo, segundo ele, consiste em usar a mente para controlar situações de desequilíbrio
emocional.

[...] Eu sinto que a depressão irá crescer comigo, no sentido de evoluir. Não
só eu vou evoluir na minha mente, como também irá minha depressão. Ela
me fez enxergar um novo patamar que eu não esperava, esperava eu ter
controle sobre alguns sentimentos, mas é um capricho meu. À medida que eu
vou criando novos pensamentos, aliás, estou a todo vapor, pensando mil
novas coisas, descobrindo o mundo, minha depressão vai criando novas
formas de se apresentar a mim, me fazendo deduzir que eu tenho alguma
influência sobre ela, como se fosse eu quem a alimentasse. Talvez a fonte da
minha depressão seja eu mesmo, talvez algo incrustado bem profundamente,
talvez seja eu existindo. E à medida que eu cresço vai crescendo comigo. [...]

A tão habitual sugestão de determinação expressa na frase “se você quer, você
consegue”, presente nos diversos relatos, está fundamentada nesse pressuposto de que há uma
esfera mental, de onde saem os comandos sobre um corpo, pensado como mero instrumento
para execução das atitudes escolhidas. Mas, assim como Matilde, Eulálio também percebe que
essa tentativa de controle sobre as instabilidades emocionais tem limites difíceis de
ultrapassar.

[...] O que eu chamo de habilidade mental é por causa da maneira como eu
enfrentei a vida de uns tempos pra cá, desde que eu despertei para o que eu
estivera vivendo, a depressão. Eu penso assim: se tal situação é assim e
assado, então pode ser isso e isso. Antes eu precisava de um caderno e
caneta, mas hoje faço mentalmente. Eu aprendo com o dia a dia. Parece que
aprendo da vida coisas que eu não sei... Antes eu não fazia assim, talvez seja
normal para as pessoas fazerem isso, e eu é quem estava errado e não fazia e
passei a fazê-lo. [...]

Eulálio reconhece o quanto não é possível ter o controle mental sobre tudo o que vive,
mas vem aprendendo a lidar melhor com os sentimentos ruins e as dificuldades que não
consegue evitar ao longo da sua trajetória. Nesse processo de aprendizagem, vários elementos
113

vão definindo o curso dos acontecimentos: os remédios, as leituras e grupos de apoio na
Internet, as relações familiares, o desejo de trabalhar, a necessidade de ter esperança. Existe
todo um emaranhado de relações sendo tecidas no percurso de sua vida. Há aqui uma
aquisição de habilidade que vai sendo mantida por ele e que diferencia seus modos de
enfrentamento antes e depois do desenvolvimento de suas estratégias.

Eu quero começar a trabalhar o quanto antes, você não sabe como está o
planejamento, praticamente só falta comprar alguns acessórios e fazer os
cartões da divulgação... Não vejo a hora de enfim contar a minha psiquiatra
essa novidade. Note o tom que usei em dizer essas coisas e como estou
ansioso e animado... Olhe eu pensando de novo, e existindo, enfim, é só
isso...
O que eu pretendo mesmo é sentar num banquinho em frente à praia e olhar
o mar, o céu, e, seguro por estar enfim trabalhando e sendo alguém, deixar
aquela visão me invadir e me renovar.



















114

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não se trata aqui, portanto, de buscar as causas sociais ou orgânicas do sofrimento
emocional, nem como os envolvidos percebem e constroem significados que orientariam a
prática, mas o sofrimento mesmo, o que ele é. Entretanto o significado desse “é” se modifica,
o sofrimento não é algo dado naturalmente, ele depende do espaço onde está situado. O
sofrimento de Maria na psiquiatria é transtorno bipolar; no espiritismo, é obsessão de espíritos
inferiores; na psicologia cognitiva, é falta de conhecimento e controle sobre si mesma; na
Igreja Canção Nova, é vivido como algo espiritual e envolve experiências consideradas
sobrenaturais. O que o sofrimento é não pode ser pensado como algo universal, ele é
dependente do espaço onde está. Isso não quer dizer apenas que em cada situação se formula
um sentido para o que se vive. O que está em jogo não é falar somente de diferentes
significados atribuídos à doença, mas entender que em cada espaço a enfermidade vai sendo
feita de modo específico. Nesses esboços, coisas e palavras, mãos e olhos, tecnologias e
concepções, símbolos religiosos e valores culturais são dispostos como ingredientes
heterogêneos que dizem o que é o sofrimento emocional. Não as causas sociais do sofrimento,
nem como os envolvidos o percebem.
Considerar não haver uma doença orgânica totalmente formada, e sobre a qual vão se
construindo concepções, permite revelar a enfermidade sendo feita pelo paciente e seu modo
de agir, e também pelos médicos, pela medicação, pelas compreensões e práticas religiosas,
pelas relações com amigos e familiares, enfim, é algo resultante da interação de uma
multiplicidade de agentes. Os relatos de cada pessoa acompanhada falam tanto de significados
que mobilizam, quanto de objetos, espaços, pessoas que lhes afetam e por isso produzem a
enfermidade.
À ciência social caberia seguir esses cursos da ação, onde diversos elementos se
relacionam na produção da realidade. Ao assumir essa perspectiva, é importante considerar
uma multiplicidade de aspectos a serem observados como relevantes nas definições dos
acontecimentos e se ocupar de todos eles, não apenas de discursos, concepções, símbolos e
significados culturais. Ao longo desse processo, o orgânico, as experiências sensíveis e as
emoções já são, desde sua emergência, feitos de cultura. As palavras são carregadas de
sentimentos. Não há um sistema cultural a priori se sobrepondo ao orgânico. O orgânico é
impregnado de significados, é um certo modo de ser que vai se desenvolvendo em processos
onde não há como dissociar uma dimensão da outra.
115

Matilde não esquece o momento em que a coordenadora da escola aconselhou sua mãe
a procurar um psiquiatra. A reação da mãe foi de pavor. O diagnóstico de esquizofrenia, o
internamento por 45 dias e a enorme quantidade de remédios que tomou são definidos por ela
como um grande pesadelo. Lembra que os remédios a deixavam tão dopada que a língua
enrolava impedindo-a de falar. As palavras psiquiatria, esquizofrenia, haldol, lexotan, rivotril
e internamento se carregam de sentimentos formados nessas interações em que elas
emergiram.
O exemplo acima permite perceber que as formas que as coisas vão assumindo tanto
na imaginação, quanto no campo da materialidade, emergem de uma corrente de atividade
envolvida em um universo de prática. Dessa maneira se dissolve a dicotomia entre organismo
e cultura, revelando-se a implicação de um no outro. A história das relações de uma pessoa
com o seu ambiente ao longo do desenvolvimento está envolvida em estruturas específicas de
atenção e resposta, neurologicamente fundamentadas. Do mesmo modo, envolvidas nas
variadas formas e estruturas de ambiente estão as histórias das atividades de pessoas. Em
suma, as estruturas neurológicas e as formas (artefatos), chamadas representações, não são
causas e efeitos umas das outras; elas emergem juntas como momentos complementares de
um processo único, isto é, o desenvolvimento da vida das pessoas no mundo. É nesta
trajetória que todo conhecimento é constituído (INGOLD, 1995, p. 76).
A orientação metodológica de voltar-se para as práticas permite perceber uma teia
complexa de elementos heterogêneos sendo costurados e se fazendo mutuamente. Na
configuração do que cada um vive, a psiquiatria e a psicologia são relevantes tanto quanto os
artigos de jornal, as interações com familiares e amigos, a terapia religiosa ou a convivência
com um bicho de estimação. Todas essas dimensões da enfermidade compõem uma rede de
relações que produzem diferenças umas nas outras. Neste fazer-se mutuamente não é possível
saber antecipadamente como se somam e conduzem a interferências entre si, trata-se de um
processo sempre indeterminado, imprevisível.
Cada situação de sofrimento emocional oculta um conjunto de procedimentos diversos
e em cada uma delas ele é vivido de modo específico. Por isso, conceber qualquer
enfermidade como uma totalidade dada revela-se frágil, na medida em que se olha para as
diferentes atividades e seus modos particulares de produção do real. Mas a despeito dessa
multiplicidade, há uma permanente tentativa de conexão entre elas que busca mantê-las
juntas, e não fragmentadas. É nesse processo que o sofrimento vai sendo feito e que está a
chave de compreensão dos seus contornos. Isso não quer dizer que explorar umas poucas
116

práticas nos diz de modo definitivo o que o sofrimento emocional é. As investigações são
parciais, pois a realidade está sempre sendo feita de novas formas.
O psiquiatra considera importante a terapia psicológica, bem como os aspectos sociais.
Por outro lado, psicólogos apoiam o uso das medicações psiquiátricas. E muitas terapias
religiosas afirmam a necessidade de recorrer ao tratamento psiquiátrico. Na prática, vários
elementos vão sendo articulados e é nesse jogo de interações múltiplas que os fenômenos vão
emergindo.
Se em lugar de nos ocuparmos do estudo de sistemas de significados, voltarmos a
atenção para as práticas por meio das quais a doença vai sendo vivida, podemos perceber que
as fronteiras territoriais entre as profissões não são tão rígidas. Quando, por exemplo, o
psiquiatra no consultório pergunta a Balbina “como está você?”, ela faz um rico relato do
modo como está vivendo, das dificuldades colocadas pela doença para realização de seus
projetos, dos problemas relacionados à medicação, das tristezas, sentimentos de solidão,
vontade de trabalhar, ou seja, elementos heterogêneos podem emergir ou serem colocados de
lado na sua descrição. Por outro lado, o próprio psiquiatra vai não apenas observar exames
que revelam aspectos físicos, mas também articular outros tantos elementos. Para Mol, ao
formular tais relatos, médicos e pacientes tornam-se importantes etnógrafos, é nessa fonte que
seu trabalho de pesquisa se fundamenta.
Além disso, o fato de ser uma filósofa produzindo uma etnografia não lhe impediu de
tratar também da realidade física, ou seja, de reconhecer o humano não apenas nos aspectos
psicossociais. Embora interpretações sejam importantes, diz Mol (2002, p. 27), elas não estão
sozinhas na realização de tudo que envolve a vida, pois, no cotidiano, a vida que vivemos é
também algo feito de carne. A condição de Balbina envolve um organismo com tendência à
dependência química, agressividade, desejo de morrer, hospitais, agências terapêuticas
religiosas, animais de estimação. A questão de Mol é não abandonar nas mãos dos médicos
esse domínio das materialidades, dos espaços, de corpos e perseguir um caminho que permita
falar livremente de todas essas coisas que compõem as enfermidades. Isso significa olhar sob
um ponto de vista que amplia e ressalta o leque de elementos materiais relevantes na produção
e tratamento de qualquer doença.
Do mesmo modo que a psiquiatria e a psicologia, as ciências sociais podem romper as
fronteiras disciplinares e se ocuparem de materialidades também. Trata-se de adotar uma
perspectiva que subverta a tradição epistemológica de procurar conhecimentos na mente de
sujeitos que podem falar sobre eles. E em lugar disso, localizar conhecimentos primariamente
em atividades, eventos, instrumentos, procedimentos e assim por diante. Objetos não são
117

tomados aqui como entidades esperando fora para serem representadas, nem são construções
formadas por sujeitos do conhecimento; são elementos constitutivos dos processos de
produção das enfermidades. A investigação persegue o conhecimento incorporado em eventos
e atividades diárias.
Desde o aparecimento dos primeiros sinais, as trajetórias de sofrimento emocional são
marcadas por tentativas de criar condições que dificultem a emergência de uma crise. Ao
longo desse desenvolvimento, vai sendo produzido progressivamente um corpo habitado por
novas sensibilidades, compreensões e formas de enfrentamento da situação. É um percurso
povoado por remédios, artigos de jornal, animais de estimação, experiências terapêuticas
religiosas, grupos de ajuda mútua, entre outros. Todos esses elementos são partes importantes
de um processo amplo de aprendizagem que vai traçando novas formas para o sofrimento
emocional, acrescentando, enriquecendo e ampliando a vida das pessoas.
Tanto Matilde, quanto Eulálio, Balbina e Maria, à medida que vão percebendo a
dificuldade de localizar uma causa possível de explicar seus problemas e, em seguida,
encontrar uma forma de tratar definitiva, passam a reconhecer a necessidade de articulação
entre diversas práticas.
Essa coordenação pode ser observada em várias trajetórias. Maria, por exemplo, passa
a perceber que precisa cuidar das diversas faces do seu sofrimento. Acredita que, sendo a
depressão uma doença 90% espiritual, se ela pensa de forma negativa, a probabilidade de
atrair coisas ruins é maior. Tem a percepção de que rancores e mágoas vão se acumulando no
espírito. Considera também a existência de um fundamento genético ou relacionado a algum
trauma da infância. Entende a depressão como a junção desses elementos, por essa razão
afirma que precisa tratar mente, alma e coração. A mente com medicações, a alma na religião
e o coração com a psicoterapia, pois, segundo ela, esta trataria da essência. Acha que devemos
nos aceitar como somos, pois, se acreditamos em nós, nosso coração fica mais leve para amar
a nós mesmos e aos outros. Na psicoterapia tem feito um diário de pensamentos relatando as
coisas que pensa, as emoções e os comportamentos, até o dia da sessão, quando ela lê e
discute com a terapeuta para tentar enxergar erros e necessidades de mudança. Sente que a
psicoterapia e o grupo de oração da igreja têm lhe ajudado a se conhecer e descobrir formas
novas de enfrentar os problemas. Além disso, sente que vem aprendendo a se amar e ser
amada pelos outros. Maria considera importante conjugar o tratamento psiquiátrico com o
psicológico e o religioso. Acredita ser indispensável a associação dessas três dimensões no
enfrentamento das dificuldades. O que ocorre em um tratamento vai sendo traduzido e
coordenado com os outros.
118

Do mesmo modo, Matilde também vai perseguindo suas próprias articulações. O
medo de ter uma crise mais grave fez com que ela aprenda a ter uma grande atenção aos sinais
que podem indicar a aproximação de um sofrimento emocional. Começar a não ter vontade de
fazer nada representa para ela uma forte indicação de um problema chegando. Quando isso
ocorre, ela reúne forças para superar essa condição e procura sair de casa. Muitas vezes vai
andando até a praia e fica contemplando o mar por algum tempo. Em outros momentos, pega
um ônibus, sai sem destino, pois sente que o próprio passeio pela cidade lhe faz se sentir
melhor. Além disso, considera a terapia espírita a melhor solução para os seus problemas
Matilde considera indispensável o uso da medicação na prevenção das crises. A partir
do momento em que começou a ingerir esses remédios, acredita que conseguiu diminuir o
risco de viver uma crise mais grave, mas passa a conviver com uma série de efeitos colaterais
a exigir dela atenção e cuidado permanentes. Convencida da necessidade de buscar outras
alternativas de tratamento, recorre a psicoterapias, consideradas importantes formas de apoio
e orientação nas decisões que ela precisa tomar. Além disso, a terapia religiosa é
experimentada como um tratamento essencial e o que produz maiores transformações em sua
vida. Passar a viver as vozes que escuta no dia a dia não mais como alucinação, mas como
manifestação de espíritos, gera uma nova situação.
No espiritismo Matilde encontra uma explicação de que seu sofrimento é decorrente
da presença de espíritos ruins de pessoas falecidas. Acredita em uma dimensão orgânica para
seus problemas, a ser tratada com o uso de medicação, e outra espiritual, que exige um
tratamento religioso em rituais de desobsessão, onde conversa com os espíritos para que eles
deixem de fazer-lhe mal.
Eulálio, assim como Matilde, reconhece a importância do uso das medicações
psiquiátricas, mas, ao mesmo tempo, sente a necessidade de abrir outros horizontes de
compreensão. Por isso, está sempre pesquisando e lendo na Internet tudo que se apresente
como uma possibilidade de superação do pânico e da tristeza vividas por ele. Cada nova
descoberta vai modificando-o de algum modo. Já recorreu também a terapias religiosas e tarô.
De modo semelhante, Balbina, depois de passar por vários momentos de tristeza,
pânico, acessos de raiva e tentativas de suicídio, recorre a muitos tratamentos psiquiátricos,
psicológicos, terapias religiosas, meditação, acupuntura entre outros. A importância do uso de
remédios é admitida por ela. No entanto, tem uma relação mais difícil com a medicação por
causa do medo da dependência química. Acredita e persegue a possibilidade de encontrar
caminhos de tratamento alternativos que possam lhe afastar do risco dessa dependência. A
psicologia cognitiva, segundo ela, produziu mudanças significativas em sua vida. No budismo
119

considera que viveu experiências fundamentais e realmente transformadoras. Ressalta
também a importância dos exercícios de meditação e da acupuntura. Admite que não alcançou
a cura, mas foi adquirindo sabedoria para enfrentar seus problemas. Chega a afirmar que
aprendeu a lidar com suas dificuldades do mesmo modo que um cego aprende a lidar com a
falta de visão.
Essa sabedoria que vai sendo incorporada por Balbina, Eulálio, Matilde e Maria, ao
longo de suas trajetórias, pode ser compreendida como uma aquisição do que Ingold chama de
habilidade. Diferentemente da ciência cognitiva baseada em uma noção de desenvolvimento
de competências que sugere uma cognoscibilidade separada da ação, o conceito de habilidade
indicaria que essas capacidades adquiridas são resultantes de processos de engajamento do
organismo em seu ambiente.
Em cada um desses acontecimentos vividos ao longo dos itinerários terapêuticos, o
sofrimento vai sendo transformado. O espaço em que acontecem, os cenários, as interações,
os objetos e substâncias utilizadas, as imagens, metáforas, artigos de jornal e pesquisas na
Internet são todos eles elementos relevantes no delineamento dos cursos de ação e seus
processos. Os contornos do sofrimento emocional vão se formando e se modificando a partir
da costura de uma infinidade de elementos ao longo dos eventos.
Essa é uma perspectiva que subverte as habituais formas de investigação e exige que
se abdique do desejo de encontrar sínteses definitivas. A realidade passa a ser concebida como
modos de ser que vão sendo feitos e refeitos permanentemente, de maneira sempre provisória.
Por essa razão, nunca resultam em totalidades acabadas e passíveis de serem elucidadas de
modo pleno.

120

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