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1.

Observar
“Esse dom de observação que se chama conhecimento do mundo, vereis que
na maior parte dos casos serve para tornar os homens astutos e não
propriamente para os tornar bons.” – S. Jackson

1961. Céu índigo, noite clara para os padrões de San Francisco. Por algum
motivo, todas as luzes, e eu digo todas, estão acesas. Postes de iluminação, geralmente
ligados apenas às sete da noite – quando a luz natural cessa – estão aqui, em pleno
funcionamento, às seis e quatro pós meio-dia. Dou de ombros. As coisas mudaram
desde a última vez em que estive aqui, aos treze anos de idade.
Abro a janela do veículo, com dificuldade, para inspirar o aroma familiar da
baía quando o carro entra na icônica Golden Gate. Saudades, nostalgia, medo,
ansiedade. Lembro-me de sete anos atrás, quando passei por esta ponte sentindo
exatamente as mesmas coisas, mas estava em outra pista, no sentido oposto. Indo para
tão longe que meu coração se aperta só de pensar nas coisas das quais abri mão
quando deixei essa cidade. Tomar o chocolate quente mais acolhedor do mundo na
Ghirardelli, sair para os passeios pela Píer 39 com Georgina e sua bicicleta
massacradora de turistas, furar fila no cais da Fisherman’s Wharf e zarpar sem pagar
em passeios marítimos porque o Tio John tinha o “rabo preso” com Georgie – só Deus
sabe que chantagem ela havia feito –, e me embrenhar no meio dos turistas do parque
nacional Golden Gate só para rir de suas expressões abismadas e encantadas diante
daquela paisagem; uma das mais lindas do mundo.
Tento dispersar a onda de memórias quando percebo que a maioria delas se
resume aos cabelos artificialmente ruivos de Georgie e a como éramos próximas. Não
consigo. Lembro-me, brevemente, do momento em que estávamos disputando uma
corrida com bicicletas na rua onde eu morava. Isso pode ser um desafio normal para
qualquer criança americana, mas não se tratava de uma rua normal: era a Lombard
Street, a rua mais torta do mundo, onde o limite de velocidade é de oito quilômetros
por hora. Nós estávamos a trinta, em nossas bicicletas profissionais com cestinhas de
plástico. Fico pensando agora no quanto meus pais foram idiotas de me dar uma
bicicleta profissional. O resultado dessa brincadeira foi um tombo dourado – “dourado”
era o adjetivo que Georgina e eu usávamos para descrever coisas indescritíveis – na
quarta curva fechada depois da Leavenworth. Minha perna ficou presa entre os aros e
meu braço nu arrastou-se no asfalto por uma boa distância antes de eu ficar lá,
gemendo de dor, no meio fio. Nesse mesmo dia, Georgie havia colorido os cabelos de
vermelho, escondida dos pais. O sol brilhava naqueles fios nada homogêneos enquanto
ela parava sua bicicleta na outra calçada para vir socorrer minha tragédia.
“Eu não poderia ter pior punição por ser desobediente que te ver chorando.”
Ela murmurava, mais para si mesma, enquanto colocava meu braço ileso ao redor de
seus ombros largos. “Sabe que nunca vou desculpar a mim mesma por essas coisas, por
você se machucar mesmo quando está comigo.”
Na hora, a dor borrou todas as palavras e manchou de vermelho todas as
constatações, mas depois de sete anos me lembrando nebulosamente do acidente, sei
que uma garota de onze anos falando esse tipo de coisas não é nada normal.
Eu posso jurar que tive tudo por doze anos antes de a minha vida virar um
inferno. Uma família, uma melhor amiga, uma bela vista da janela do quarto, uma
convivência social falha porém suficiente. Ninguém nunca deixaria essas coisas irem
tão depressa. Ninguém seria tão burro e se mudaria nessas circunstâncias. A não ser
que existisse algo realmente sujo por debaixo dos carpetes, e, bem, existiu. Não
entendo como outra família pôde habitar aquela casa depois de nós. No meu
aniversário de treze anos, posso jurar, eu conseguia sentir dedos sórdidos se
arrastando atrás dos papéis de parede, infiltrando-se, podia ouvir os barulhos altos e
asquerosos que faziam a cada movimento.
Eles não ouviam isso? Não sentiam o cheiro? Não percebiam o quão análogo
aquilo era a viver num cemitério?
San Francisco é quase uma extensão do meu cemitério pessoal. Um cemitério
cercado pelo violento Oceano Pacífico, com forte cheiro de pretzels e mar, uma lápide
para cada memória que me desperta.
Não sei quanto tempo leva para o táxi chegar ao fim da Golden Gate e
atravessar a base militar El Presidio Real de San Francisco. Esse lugar sempre me
deu medo, e agradeço mentalmente por não ter notado enquanto o veículo cruzava sua
fachada. A Mason Street está completamente iluminada, tanto pelos poucos faróis
quanto por postes de iluminação e inúmeras pequenas janelinhas oriundas do famoso
romantismo americano. Eu nunca a havia visto tão linda. Aconchego-me no banco de
couro do carro até visualizar a pequena plaquinha verde anunciando o fim da Baker
Street e o começo da Lombard. Meu coração, já um tanto rápido, ameaça frear e me
deixar ali, estatelada no banco traseiro do táxi.
As inúmeras subidas e descidas, curvas e freadas bruscas me deixam tonta,
mas o motorista parece estar mais que acostumado com isso. Eu havia esquecido do
quão estranho é locomover-me por esse mar de tortuosidades. A casa 27 da Lombard
continua com sua fachada intacta, perfeita. Gramado perfeitamente cuidado, aliás,
verde como nunca sob a luz da cidade completamente acesa. Lombard nunca teve
postes de iluminação e as pessoas dos bairros de classe média costumavam dormir
cedo para economizar energia. O que diabos os faria manter as luzes acesas agora, às
sete horas, quando todo mundo deveria estar jantando apenas sob a luz das velas de
parafina?
– Vinte e sete dólares pela viagem, senhorita…? – O taxista me arranca das
divagações.
– Senhorita Holly. – Sorrio, automaticamente usando meu nome falso, e
entrego o dinheiro já em mãos para o senhor.
– Tenha uma ótima noite, senhorita Holly. Aproveite San Francisco. – Ele
abre um sorrisinho banguela para mim, o que curva seu bigode grisalho no que parece
uma segunda boca; um segundo sorriso. Bizarro. Assinto e saio do carro, preparada
para ir de encontro ao sereno noturno.
Holly é um nome sugestivamente falso. Um mês atrás eu entrei numa sala de
cinema para me esconder, e acabei precisando assistir o filme todo. A protagonista,
Holly Golightly, usava esse nome falso para se prostituir em New York. Na verdade,
ela era a roceira Lula Mae – que gostava de se comparar com animais selvagens. Algo
naquela magrelinha elegante me fazia querer ser como ela. Bem, pelo menos o nome
dela, eu posso ter por algum tempo.
Tudo bem, eu não precisava mentir para o taxista, mas não depositara minha
confiança nele imediatamente. Enquanto dirigia, o senhor olhava pelo retrovisor com
uma mania constante de perseguição. Às vezes, acariciava seu bolso, e sem querer
deixou escapar do jeans o pedaço inferior de um polaroid. Foto. Foto de família, talvez?
Tudo nele inspirava proteção, auto proteção, proteção da família, família, família. Eu
não sou da família dele, ele não irá proteger-me caso eu precise.
Meus saltos altos vermelhos fazem um barulho alto no asfalto conforme eu
ando. Knock, knock, knock. E várias cortinas vão se afastando para ver quem está
chegando em casa após as sete horas. “Garota promíscua, devia haver um toque de
recolher para tirar essas jovenzinhas vagabundas da rua.” Lembro-me das palavras de
mamãe quando, às oito horas, Annabeth Dowles abriu o portão barulhento do casebre
24 e despertou todas as senhorinhas fofoqueiras de Lombart St.. Faz tanto tempo…
Hesito à porta 27, acariciando o número de metal frio com o dedo, afastando o
orvalho de suas dobras. Olho ao redor para as inúmeras janelinhas e suas cortinas se
fecham como mágica. Sorrio. Respiro fundo e não hesito mais antes de tocar a
campainha. Percebo que mudaram o tom para algo mais discreto. Mais cortinas se
abrem atrás de mim. Ouço passos e vozes sussurradas dentro da casa.
A maçaneta gira, e meu primeiro pensamento é “se eu não estivesse de saltos,
poderia correr mais rápido”.
– Boa noite, quem procura? – Quem me atende é um homem. Dou para ele uns
quarenta e sete anos. Talvez cinquenta. Seus olhos são do tipo que não se encara, mas
eu ouso. Fixo meu olhar em suas íris amarelas, quase douradas – como as de uma
cobra –, e percebo que ao redor das pupilas há pequenas linhas marrom. Lentes de
contato. Seus olhos, na verdade, devem ser de um intenso castanho que ninguém
jamais poderá ver. Suas mãos são calejadas, o que é estranho para um morador da
classe média. As linhas de expressão em seu rosto são muitas, mas não reconheço
nenhuma daquelas famosas “ruguinhas da felicidade”: os vincos na bochecha causados
pelos sorrisos lançados ao decorrer da vida, as dobras na testa que geralmente vêm das
boas surpresas, os sulcos perto das orelhas, as rugas ao redor dos olhos. Nada. Apenas
duas fundas valas entre as sobrancelhas, daquelas que aparecem apenas quando não
se tem outra saída se não estar furioso. Esse homem é permanentemente furioso.
Sua roupa está impecável. Olho brevemente para dentro da casa e não
identifico nenhum retrato de família. No entanto, ele fecha um pouco mais a porta
quando percebe minha tentativa de espionagem. Observo as pequenas pregas em sua
calça de alfaiataria e um nome em letras cursivas bordado na barra: KC. Kacey
Cumbberland. O alfaiateiro mais prestigiado de San Francisco que fora amigo de meu
pai no início da carreira, quando ainda trabalhava numa portinha do centro da cidade.
KC deve alguns favores à minha família, se eu precisar de informações sobre essa
cobra misteriosa com ares de The Great Gatsby, talvez eu o procure.
A mão visível não está tremendo, suando, nada óbvio. Ele não demonstra
emoções, e eu deduzo que ele é um perfeito jogador de pôquer. E, por último, mas não
menos importante, seus lábios pressionam um charuto cubano fedorento. Conheço a
marca, apesar de nunca ter fumado. No entanto, convivendo há tantos anos com a alta
sociedade de New York, reconheço de longe o odor desagradável do Cohiba. Só não
entendo o porque de um apreciador de charuto caríssimos morar num bairro classe
média. Bem, talvez eu o precise agradar um dia…
– Permita que eu me apresente. Senhorita Holly, Holly Van der Welch. – Abro
um sorriso, ele entorta a boca quase imperceptivelmente em desaprovação ao meu
gesto antes de sorrir de volta. Abre a porta um pouco mais, notando que eu já terminei
minha inspeção ao local, e levanta a outra mão até então escondida. Está segurando
uma dose de uísque, que eu pensaria ser tão caro e refinado como os charutos. No
entanto, flutuam, visivelmente, várias impurezas no copo. Posso ver os grãos de poeira
pairando no álcool. O líquido opaco, longe de ser translúcido, me impede de ver o outro
lado através do copo. É falsificado, e eu nem precisei sentir o gosto de álcool de cozinha
para saber que um bom apreciador de Old Parr infartaria diante daquela bebida
dourada.
“Que diabos você pensava estar fazendo?” Lembro-me de Carrol Martinez, o
chefe do departamento policial de NY – outro antigo amigo de meu pai –, vociferando
com Rose. Ela foi sua empregada por todo o tempo em que estive hospedada na casa de
Carrol. “Não se serve uísque envelhecido a esses velhos babões do departamento. São
ricos, que gastem seus dólares em suas próprias garrafas. Deixe que se aproveitem de
outro. A eles, qualquer álcool com gelo.” Ele dizia, enquanto bebia de uma vez só os
três dedos de uísque puro. Aprendi, observando, a reconhecer o aroma, a cor e o sabor
do mate.
Um senhor sofisticado como esse, parado à porta, em hipótese alguma daria
preferência a uma bebida barata estando sozinho em casa – trabalhando ou pensando
na vida enquanto encara as lombadas dos livros em seu escritório. Tem mais alguém
com ele, e é alguém do trabalho.
Percebo que ele não vai se pronunciar e muito menos me deixar entrar.
– Eu tenho um assunto muito importante sobre a escritura da casa a tratar, é
algo urgente. Teria esperado até amanhã se não fosse. – Explico, fazendo menção a
abrir minha pasta. Finjo atrapalhar-me com o fecho e volto-me para o homem. – Não
vai convidar uma dama a entrar?
– Não tenho nada a resolver com ninguém sobre esta casa, pode voltar de onde
veio. – Ele sorri, irônico, e coloca o copo de uísque em uma mesinha fora do meu campo
de visão. Ajeita a gravata e vejo que pende, debaixo dela, uma cruz lisa e brilhante de
prata. – A não ser que queira contar a verdade.
– Ah, você tem sim. Não acho que seja legal fraudar identidade em escritura.
– Blefo. Sei que não vou conquistar a confiança desse homem, seus olhos faiscaram em
mim desde que abriu a porta. Ele não confia em ninguém. Não me preocupo em ser
afável para com ele.
Uma cópia da escritura da casa realmente está na pasta em minhas mãos. O
tempo todo, ela esteve pendurada em meu ombro como uma presença silenciosa,
porém, fazendo-se notar pelo peso. Após uma sucessão de gerações que moraram na
27, finalmente o último residente: Joe Undersea. Sir Joe Undersea. Eu o conheci
durante uma de minhas primeiras investigações, aos dezessete anos. Um sujeito
arrogante, magrelo, de olhos azuis vidrados. Não tinha idade para ser Sir,
definitivamente, no máximo uns dezoito. Ele se mudou para San Francisco com a
namorada naquela mesma época, mas me lembro bem do que disse: “quero morar
numa casa com vista para a baía, quero zarpar no cais todas as tardes”. Lombard
Street está longe de ser o ideal, e eu tenho certeza: ele consegue tudo o que quer.
Esse homem não tem nada a ver com Joe Undersea, no mínimo está usando o
nome indevidamente.
– Não vai entrar na minha casa com essas acusações sem fundamento. – Vejo
seus olhos serem escondidos pelas pálpebras cerradas e as mãos se fecham em punho.
Ele está com raiva e eu não estou com medo. A rua parece deserta, mas existem tantos
olhos na gente que poderíamos estar numa multidão. Cortinas abrem e fecham atrás
de mim.
– Então eu posso criar outras. – Dou de ombros e repouso minhas mãos ao
lado do corpo. Recuo alguns passos, fingindo estar com medo, mas o homem sabe que
não estou. Ambos sabemos que não. Simulo um pequeno tropeço em meu salto alto e
olho para trás. Todas as cortinas se fecham. “Como mágica”. Tenho pouco tempo até
que as cortinas se abram de novo.
Prendo a respiração. Sei que estou prestes a fazer algo asqueroso e me
condeno por isso. Já o fiz antes, mas agora parece pior. Parece persistência num erro.
Não conseguira livrar-me do cheiro daquele velho por duas semanas depois do
incidente anos atrás, do gosto de cigarros, e estou prestes a fadar mais horas da minha
vida à tentativa nula de me limpar.
Avanço em direção ao sujeito parado na porta e vejo que ele move sua mão
para a lateral do corpo. Ele tem uma arma, eu deveria saber. Bem, eu também tenho
uma, e se ele sacar eu não hesitarei também. No entanto, meu plano não envolve
armas. Aproximo meu corpo do dele, ficando um tanto curvada para trás, como se
estivesse tentando desviar-me. Sinto seu hálito quente e nojento de charuto em
minhas bochechas e roço meus lábios em sua pele. Sei que quer me afastar, mas afinal,
eu sou uma mulher. E, de uns tempos para cá, uma espécime bastante atraente.
Coloco meus braços dobrados entre nossos corpos, mas não faço força. Apenas
quero dar a impressão de estar tentando afastá-lo quando, na verdade, estou nos
aproximando mais. Sinto a ânsia de vômito crescendo atrás da língua e a contenho.
Pouso meus lábios fechados sobre os seus e ouço o roçar de cortinas inquietas pelas
janelas.
– Deixe-me entrar, ou eu grito. – Sussurro, movendo meus lábios lentamente
sobre os dele. – Quer um escândalo? Eu posso fazer um. – Retraio-me, empurrando-o
um pouco com o antebraço. Perplexo, ele mal se move. Quando cai em si, me encara
com ódio. Eu ameaço abrir a boca para delatar o possível abuso e vejo-o recuar,
abrindo espaço para minha entrada na casa. Assinto, sorrindo, e arrasto meus saltos
para o assoalho de madeira.
– Não vai se apresentar? – Eu sugiro, passando meu dedo pelas prateleiras
empoeiradas que cercam a entrada. Ele não tem empregadas, gosta de privacidade.
– Philip, Philip Gough. Sr. Gough para você. – Ele dá as costas e bloqueia meu
caminho quando tento ir para a sala.
– O que tem lá? – Ergo minhas sobrancelhas e Philip parece ainda mais
furioso. Acaricia novamente a arma e eu penso no tipo de pessoa que ele esconde no
outro cômodo. O tipo que o ajudaria a esconder um corpo, se necessário? – É alguma
reuniãozinha secreta de espiões da CIA? Pode contar, Philip. Eu sou discreta.
Sr. Gough está furioso. Eu encontro seus olhos amarelos novamente e percebo
o quanto estou sendo imprudente. Carrol me advertira… “Não brinque no trabalho,
apesar de todos sabermos o quanto você é boa nisso.”
– Tio Philip, não podemos errar hoje. Não assim. – Um garoto surge ao fundo
do corredor. Ele está com um chapéu preto que me impede de ver seu rosto, mas sei
que está encarando a mão de Philip Gough em cima do revólver. Vejo, de relance,
quando Philip assente. Meus olhos estão fixos no garoto. Parece tão deslocado, tão
errado que ele esteja ali.
Ele não usa gravata, terno ou qualquer roupa realmente formal. Sua calça
jeans está rasgada na barra. Seus sapatos estão desgastados e a jaqueta de couro,
bem, parece bastante surrada. Ele também tem uma cruz de prata pendendo sobre o
peito, mas a dele tem um detalhe. Um detalhe quase insignificante, mas que diz muito.
Sobre a cruz, há uma forma de homem, de braços abertos. Jesus Cristo.
Não faz sentido. Imagino que sr. Gough seja de alguma religião protestante,
que proíbe a adoração a ícones – como santos e Jesus Cristo. O menino, no entanto, é
católico. Bem, menino é modo de dizer. Ele, provavelmente, é alguns anos mais velho
que eu. “Não podemos errar hoje. Não assim.” Hoje e assim parecem palavras muito
conclusivas para mim. Eles já erraram antes, então. Hoje, porém, é um dia especial.
Interrompo meus pensamentos por um segundo para admirar o timing perfeito do
departamento policial. Eles me mandaram hoje.
Aproveito a distração do sr. Philip Gough e adentro o corredor. Meus saltos
fazem um barulho ainda mais alto no assoalho. Sinto o peso dos olhos do garoto
católico sobre mim, mas não entendo o que seu olhar quer dizer.
– Atreva-se a entrar e eu não vou poder convencer meu tio de parar. Queima
de arquivo. – Ele sussurra, e eu assinto, pesarosa. Sei que seu tio vai perseguir-me
pelas acusações que envolvem Joe Undersea, não tenho mais nada a perder se,
teoricamente, eu já não tenho mais meu direito à vida.
Eu avanço até a porta de onde vem o cheiro mais forte de bebida e
charutos. Empurro-a com as pontas dos dedos e uma lufada quente de ar atinge
minha pele. É claro que eles têm um aquecedor. Momentaneamente, recordo-me do
frio dos invernos mais gelados de New York, da necessidade de echarpes e
sobreposições. Penso no quanto todo aquele frio é mais caloroso e reconfortante que
o ambiente ameno e desagradável dessa casa.
– Philip! Você falou que não chegaria mais ninguém. – Uma dama de
vestido amarelo apressa-se em bater no lugar vago ao seu lado no sofá estofado de
couro. Os outros me encaram com desconfiança e inveja. Sim, inveja. As mulheres,
com bocas pintadas e roupas montadas, encaram-me como se eu houvesse,
pessoalmente, roubado a jovialidade de cada uma delas e substituído pela
necessidade exagerada de cosméticos.
Exceto pela mulher que me chamara anteriormente. Seu vestido é, preciso
dizer, ridículo, desajeitado. Bufante, rendado, com faixas e mais faixas e laços e
mais laços que nunca poderei descobrir onde findam. Completamente deslocada, é
isso que ela é. Não mais que eu, claro, a “convidada” atrasadíssima. Amaldiçoo
meus saltos altos por serem tão barulhentos conforme ando até ela. Apesar de todo
o mau gosto, eu prefiro aquela mulher à todos os integrantes da pequena reunião.
Seus olhos não têm desconfiança, não têm medo, nem inveja. É como se ela já
houvesse vivido perfeitamente bem todos os seus anos de juventude e não
precisasse de mais deles. Principalmente, como se não tivesse nada a esconder para
que eu pudesse descobrir.
– Philip, Philip… Convida tantos, sempre esquece algum. – Ela revira os
olhos e gesticula, pousando a mão violentamente sobre seu colo. É cômico. Percebo
que todos os outros convidados estão alternando em me encarar com uma incerteza
cada vez maior e fitar a senhora com desprezo. – No último jantar, você não vai
acreditar, Philip mandou servir a mesa e esqueceu Peter. Depois que Julia se foi,
Philip virou um grande abobalhado. Peter, tadinho, teve de comer no sofá.
À porta, o sobrinho de Philip leva a mão até o rosto e esfrega os olhos,
como se estivesse se decidindo sobre algo. Enfim, fala:
– Mãe, Peter morreu há sete anos. E o tio Philip não gosta de ouvir falar
da… Você sabe. – O garoto a encara com afeto e pena, então o sorriso da senhora
murcha.
– Peter… Peter morreu? – Ouço alguns soluços crescerem em seu peito e
ela inclina-se sobre meu ombro, onde se apoia pra chorar. Fico completamente sem
reação enquanto sinto lágrimas quentes e mãos geladas em meu pescoço. Acaricio
de leve o braço dela, um pouco comovida. Não sou idiota, essa mulher obviamente
tem Alzheimer.
O garoto faz menção de tirá-la de lá, mas eu sibilo um “não tem problema”.
Ele me devolve um “obrigado”. Sussurro para ela que tudo vai ficar bem e que
Peter está num lugar melhor, enquanto tenta se recompor. Todos na sala parecem
estar presenciando um teatro cruel com seus olhares enojados.
Philip aparece na soleira da porta e o menino desliza para outro sofá
próximo ao meu para dar lugar ao tio. O olhar que ele dirige a mim é de vitória, o
que é bem contraditório, já que eu consegui o que queria. Então é isso, ele pretende
não me deixar viva tempo suficiente para comemorar. O que eu vou descobrir nesta
sala irá morrer comigo. Meu estômago parece acomodar dezenas de tachinhas, que
espetam, furam e arranham meu interior em reação àqueles olhos de cobra.
– Obrigado, Aidan. – O sr. Gough posta-se no centro do cômodo,
pigarreando para chamar atenção. Repete o gesto quando a mulher de amarelo não
dirige sua atenção a ele. – Amelia, obrigada por ter concedido o lugar para a
senhorita. Deixe-me apresentá-la. Holly Van der Welch, uma antiga amiga de…
Julia. – Ele hesita, mas termina a frase. Não conheço nenhuma Julia, mas algo me
diz que é interessante para mim seguir o teatrinho. O garoto Aidan me encara com
os olhos arregalados e engole em seco. Sustento seu olhar com curiosidade e ele
logo se volta para Philip.
– Vamos voltar aos assuntos derradeiros. – Um homem de terno mal
passado, em seus trinta anos, pronuncia-se do outro lado da sala. Ele é solteiro,
obviamente, ou suas roupas não estariam nesse estado tão deteriorado. Seu rosto é
perfeitamente simétrico, apesar de maltratado. As mãos estão suando, os dedos
fazem círculos no estofado do sofá. Ansiedade. Ele estava perdendo, seja lá o que
fosse.
– Nós podemos deixar negócios para outra oportunidade. Há muitas
donzelas nesta sala, presumo que as senhoritas devem preferir uma boa partida de
pôquer. – Philip murmura e as senhoras se entreolham, animadas. Estava óbvio
que Gough encerraria seus assuntos assim que eu chegasse.
As cadeiras e sofás são arrastados para mais perto da mesa de centro e as
fichas são distribuídas. Os homens parecem irritados. Eu interrompi uma
negociação importante. Conforme começam as apostas, eles parecem relaxar.
– A senhora poderia informar onde fica a casa de banho? – Pergunto
baixinho para Amelia que continua a meu lado. Em algum momento ela travou
suas mãos em meu braço esquerdo com uma certa delicadeza. Ela assente.
– Segunda porta à direita, meu amor. E me chame de Amelia.
Suas mãos afrouxam e um sorriso se abre em seu rosto. Caminho
discretamente até a porta, já sem o peso de olhos sobre mim. Exceto por um par
deles.
– Não quer uma ajudinha, senhorita Holly? Pode se perder. – Philip se
pronuncia assim que meus dedos alcançam a maçaneta. Curvo meus lábios em
frustração. – Ronan pode acompanhá-la, não é mesmo? – Ele se vira para o homem
solteiro com ares de galã que eu havia flagrado em ânsia minutos atrás. Prendo um
arquejo ao perceber, de repente, que tenho medo dele e de seus aparentes um metro
e noventa, de seu olhar de vidro temperado impenetrável, de suas mãos sujas de
suor e sangue – um sangue invisível que eu sei que está lá, manchando seu
passado. Engulo em seco e penso em recuar para o sofá quando Ronan se levanta e
faz menção de andar em minha direção. Cadê toda a coragem agora? Diga-me,
Holly Van der Welch, onde está toda a sua postura?
– Deixe que eu a mostro o caminho do toillet. Ela só precisa retocar a
maquiagem, como uma dama. – Aidan intervém, soltando uma risadinha.
Direciono-lhe um “obrigada” silencioso e ele abaixa os olhos para assentir. Viro-me
de volta para a porta, sentindo um alívio enorme por ser Aidan atrás de mim e não
o belo Ronan. Talvez porque o garoto já salvou minha pele duas vezes.
No entanto, eu preferia um passe livre para andar pela casa. Sonhadora…
Lembro-me de ver, nesses corredores, um mar de manteiga. Era assim que
eu os denominava. As velas tremeluziam nas paredes creme, fazendo parecer que
ondas amanteigadas dançavam comigo no amontoado de cômodos. Agora são
apenas paredes brancas sob lâmpadas brancas.
Aidan fecha a porta atrás de mim e fica parado observando-me enquanto
eu não sei bem o que fazer.
– Não vai agradecer? – Pela primeira vez, escuto sua voz com clareza,
apesar de não ver seu rosto. Grave, rouca, baixa. É como quando fechamos todas as
janelas durante uma tempestade: ainda podemos ouvir o trovão do lado de fora,
mas ele está fraco, escorregadio.
– Eu deveria? – Arqueio as sobrancelhas. Levo uma de minhas mãos até
uma rachadura na parede. Ela não parece um simples risco na tinta.
– Eu penso que sim, Holly. Deveria haver uma relação de gratidão entre
nós. – Posso ouví-lo molhando os lábios, um sinal de receptividade. Cravo minha
unha na rachadura na parede e arranco uma lasca de tinta. Fecho a mão em punho
e dou leves batidinhas na fenda com os nós dos dedos. Como eu pensava, a parede
está oca.
– Suponho que você queira uma troca. – Viro-me para encará-lo,
abruptamente, equilibrando graciosamente meu peso nos saltos altos. – O que eu
posso fazer?
Seus olhos encontram os meus pela primeira vez quando o garoto levanta a
aba do chapéu. Sinto meu equilíbrio se esvair por alguns segundos e preciso dar um
passo para trás. Seus olhos são negros, um breu completo, daquele tipo que não dá
para diferenciar pupila e íris. Alguma parte do meu subconsciente traz à tona uma
informação fútil: a cor preta nada mais é que uma ausência de luz. O que é
contraditório, já que é a única cor que não reflete luz, mas absorve sua energia em
forma de calor, fazendo com que pensemos que é desprovida de claridade.
Em contraste com os olhos, a pele de Aidan é clara como a parede onde se
apoia, fazendo-o parecer uma criança levemente colérica. Sem querer, assim que
identifico pequenas linhas verdes – suas veias – sob a pele de seu pescoço, me pego
pensando no quanto deve ser fácil fazê-lo corar. Os traços são parecidos com os de
Amelia, delicados como se feitos de gesso e pintados a tinta a óleo.
Identifico apenas uma parte da fisionomia de Philip em seu rosto: o vinco
entre as sobrancelhas, como se vivesse em tensão constante.
Noto que toda a corrente de pensamentos durou apenas três segundos
antes que Aidan levasse a mão direita à jaqueta de couro e pegasse uma caneta e
um papel amassado. Ele abre um sorriso ponderado antes de apoiar o papel na
parede e pensar um pouco antes de escrever. O garoto parece nervoso, como se não
tivesse certeza sobre me entregar ou não aquele bilhete, e aperta o crucifixo com a
mão destra. Encara-me novamente, e eu perco algum tempo admirando o nosso
poder de comunicação silenciosa, como se um decifrasse os pensamentos do outro
antes de serem pronunciados. Bem, é tudo uma questão de linguagem corporal, e
ele parece ter uma capacidade de interpretação párea à minha.
Entendo imediatamente que aquele papel contém um endereço e levanto o
queixo para assentir. Aidan se aproxima lentamente até poder colocar o papel em
minha mão estendida. Acho engraçada a forma como ele larga o bilhete usando as
pontas dos dedos, de maneira a não tocar minha pele. Arqueio as sobrancelhas e ele
revira os olhos.
– Obrigada. – Murmuro quando ele aponta para a porta do banheiro. Eu
sei de cor a planta da casa, afinal, já morei aqui, mas Aidan não sabe. Quando
agradeço, não é pela orientação dada.
Abro a porta do toillet e um enorme espelho mostra minha figura, de cima
a baixo, na parede. Meus olhos pairam na boca vermelha refletida no vidro e,
automaticamente, todo o nojo, todo aquele gosto de charutos e álcool volta. Sinto
ânsia de vômito, lágrimas queimam meus olhos. Desvio o olhar para o teto,
tentando contê-las.
– Está tudo bem? – Aidan sussurra atrás de mim e eu me assusto com sua
presença. Faço que sim com a cabeça repetidas vezes antes de me virar para ele e
empurrá-lo com certa delicadeza para longe da soleira da porta. Fecho-a e me sento
na tampa do vaso sanitário, ainda encarando o teto, tentando fazer as lágrimas
voltarem de onde vieram.
O que eu tive com Philip não chegou a ser um beijo, não. Mas é o segundo
contato mais íntimo que já tive com uma pessoa do sexo oposto. O primeiro fora um
beijo que realmente poderia chamar-se beijo, também com um velho asqueroso. E
todos esses contatos, todos esses toques, foram por razões vãs. Comparo-me com
todas aquelas mulheres maquiadas e de roupas extravagantes na sala de visitas
dos Gough. Elas querem a jovialidade de volta, elas precisam dela, como se a
tivessem perdido. Dormiram por anos e acordaram já cheias de rugas e estrias.
Logo, eu estarei também perdendo a pele clara, o brilho nos olhos, precisarei pintar
minhas unhas de vermelho e usarei meias-calças para cobrir a pele marcada. E
quando tudo isso acontecer, estarei sozinha. Não terei nem mesmo boas
recordações de quando era atraente aos olhos dos garotos.
E é por isso, só por isso, que as aproximações com esses velhos nojentos são
tão asquerosas; porque são as únicas. E são péssimas. Tiro os saltos e dobro as
pernas sobre o assento. Coloco meu rosto entre os joelhos e choro até minhas
pernas estarem tão molhadas quanto meu rosto enquanto prometo para mim
mesma que depois de hoje não irei chorar mais pelo mesmo motivo. Aidan bate na
porta e levanto de um salto, limpando o rosto agilmente e retocando o batom em
questão de segundos. Inspiro tanto ar quanto meus pulmões podem comportar
antes de abrir a porta e sorrir para o garoto.
E o gosto de tabaco continua esgueirando-se ao redor de minha língua.
– Se você voltar pra sala, Philip te mata ainda hoje, assim que os
convidados estiverem longe. Não na frente deles, claro. – Aidan sussurra
novamente, comprimindo os lábios e mordendo o inferior incessantemente. – Eu
não quero colaborar com isso, então, você pode por favor ir embora agora? Vai dar
merda pra mim, mas minha consciência limpa é mais importante.
Eu posso ouvir suas palavras com clareza, apesar da distância, graças ao
silêncio do corredor vazio. Parece que Aidan está sussurrando em meu ouvido.
Solto uma risadinha ao imaginar a situação e ele ergue as sobrancelhas, como se
tentasse encontrar humor no que acabara de falar.
– E se Ronan tivesse vindo com você, talvez seu corpo estivesse debaixo da
ponte Golden Gate agora. – Ele sorri, tirando o chapéu e bagunçando o próprio
cabelo, tão preto como os olhos, antes de começar a distrair-se com a aba do
acessório. Comprimo meus lábios e dou de ombros antes de me virar e começar a
caminhar até a saída. Aidan vem logo atrás. Paro ao lado da porta para que ele
silenciosamente abra-a para mim. Quando começo a andar em direção ao sereno
percebo que ele já não é mais sereno, e sim um princípio de tempestade.
Agradeço mentalmente por estar usando um sobretudo ao dar meu
segundo passo para fora, antes de uma mão me puxar de volta para dentro da casa,
pressionando meu ombro direito. Aidan. Ele faz sinal para que eu espere ali e some
no corredor. Quando volta, traz um guarda-chuva preto no ombro. Sorrio em
gratidão e pego o guarda-chuva de suas mãos.
Ah, Aidan…


Eu já não sei bem para onde ir, então tateio meus bolsos atrás do bilhete
de Aidan. The Parlor, bar e hospedaria, número 2801 da Leavenworth. 20h.
Eu conheço The Parlor. Costumava ser um clube noturno quando meus
pais o frequentavam. Meu pai disse que quando a Lei Seca acabou em 1930 e
alguma coisa, transformaram os depósitos ilegais de bebida em uma hospedaria...
Leavenworth não fica muito longe, então é lá mesmo que eu vou passar a noite.
Encontro minha bolsinha de moedas – presente de Carrol – dentro de outro bolso e
aperto-a como se estivesse temendo sua fuga.
A vizinhança da Lombart St. parece nunca dormir. Pares e mais pares de
olhos me acompanham enquanto eu dobro a esquina para a Leaven. Para uma
observadora nata, ser observada é quase um castigo cruel, mas sinto-me mais
segura sabendo que há vigilância. O letreiro de plástico nada charmoso do The
Parlor chama minha atenção dentre outros botecos que vão surgindo conforme saio
da área residencial de San Francisco. Apesar da precariedade da forma como o bar
é anunciado, assim que abro a porta de madeira, posso ver um paraíso de bebidas
alcoólicas e tacos de sinuca. Olhares recaem sobre mim, e eu devo dizer que a pouca
reserva de bolo alimentar remanescente em meu estômago ameaçou desafiar a
gravidade e deslizar garganta acima. Desprezíveis, concluo, depois de algum tempo
analisando os bebuns apostando grana alta em jogo.
– A bonitinha aceita um drinque? Dois dedos de uísque diluído para a
dama, não queremos embebedá-la. – Uma voz masculina grosseira surge atrás de
mim, tão perto que associo o cheiro quente de vodka ao som. Continuo andando até
o balcão, mas sei que o homem continua atrás de mim, e bem perto.
– Fui instruída a não aceitar gentilezas de homens como você. – Respondo-
o finalmente, jogando os braços sobre o balcão de madeira. Assovio discretamente e
um garçom se dirige a mim com presteza. Encaro o estande de bebidas, e distinguo
os rótulos originais dos falsificados, seja por erros de gramática – que aos olhos
bêbados são imperceptíveis –, seja por brasões com erros grosseiros.
A que ponto chegou o homem… Nem mesmo permite ao outro o prazer de
saborear um bom uísque antigo quando está na merda.
– Medinho, dama? – Ele ri, e eu apoio os cotovelos na madeira, pela
primeira vez enxergando seu rosto.
Bonito, devo dizer. Bem mais alto que eu. Camisa xadrez com botões
totalmente desnivelados, fazendo com que muita pele fique a mostra. Braços fortes,
assim como as panturrilhas que devem ser quatro das minhas. Nenhum burguês
tem um físico assim, burgueses preocupam-se com dinheiro fácil, com escravizar.
Esse homem, certamente, está do outro lado da moeda. Ele foi escravizado.
– Não, não é medo. – Solto uma risada sonora, e ele, visivelmente, gosta
dela. – É feminismo, meu querido. A nova bíblia das mulheres do século XX.
– Já vi que é religiosa. – Um sorriso travesso cruza seus lábios de
passagem, deixando óbvia a ironia. Ele tem várias pequenas cicatrizes,
superficiais, nas laterais do rosto. Elas emolduram seus olhos cor-de-caramelo, e
têm praticamente a mesma cor deles. É como se, por toda a vida, ele tivesse
caminhado entre espinhos. E, todos os dias, voltava para casa com o rosto salpicado
de retalhos. – Ia ajudar se Jesus fosse uma mulher?
– Hm, talvez. – Reviro os olhos, apontando uma garrafa de Glenavon na
prateleira mais alta para o garçom. Baixinho, ele bufa e se dirige aos fundos do bar,
provavelmente para buscar um banco onde subir. – Se tudo for mentira, e eu espero
não ir para o Purgatório por considerar tal hipótese… – Mordo o lábio inferior ao
lembrar de quão temerosa a Deus era mamãe, de todas as suas chateações comigo
porque eu, simplesmente, não conseguia ser tão fervorosa nessas mesmas
convicções. Retomo o pensamento sobre a vericidade da Bíblia e minha possível ida
ao Purgatório para terminar a frase: – Pelo menos o cara que escreveu a Bíblia era
deveras criativo.
– Ou um grande conhecedor de ervas medicinais. – Ele sussurra,
aproximando-se de mim ainda mais, com os lábios quase colados no lóbulo de
minha orelha direita. Sinto a ânsia de vômito crescer, mas não se trata dele. Na
verdade, apesar de todo o odor de bebida, ele não cheira como todos os outros
sujeitos nojentos que encontrei em bares como esse. O homem, aparentemente, se
aproveita de perfumes entre outros artifícios que disfarçam grande parte do cheiro
de álcool sem ferir meu nariz como se eu estivesse espirrando água-de-cheiro
diretamente no rosto. Minha ânsia de vômito se deve ao ambiente, à situação, à
ideia de que esse homem sussurra para várias outras garotas diariamente à espera
de que uma delas caia na lábia. Os requisitos para ser um alvo não passam de um
par de cromossomos X, e lá está um cara desses, roçando os lábios em sua pele.
– Sorte a nossa. Eu amo boas histórias. – Murmuro, no tom de uma
conversa amigável e tediosa, tentando deixar claro que sua tentativa de seduzir
havia sido frustrada. Ele parece notar e fita-me, sem que eu encontre seu olhar.
Apesar de seus olhos não estarem em meu campo de visão, sei que estão
queimando de curiosidade.
– Sim. Posso contar ótimas histórias sobre San Francisco, se quiser. – Ele
recupera seu timbre galanteador, mas posso ouví-lo hesitar. Está inseguro, aposto
que nenhuma garota sente vontade de vomitar quando sente seu perfume
amadeirado de perto demais. Além de mim, claro.
– Quem te disse que eu já não as sei?
– Não é de San Francisco. Tem sotaque de cidade grande, fala que nem
granfina. – Ele sorri de canto de boca, como se sua dedução fosse digna de Sherlock
Holmes. Sinto uma risada caminhar, formigando em meu corpo, até a ponta de
minha língua. Esta se interrompe em meus lábios e eu prossigo séria, sem
transparecer a ironia. – Ian Baudelaire. Vim da vizinhança, mas sei coisas dessa
cidade que nem mesmo os moradores mais antigos desconfiariam. – Sr. Baudelaire
completa, apoiando um dos antebraços no balcão e estendendo a outra mão para
mim.
– Holly. Acabo de chegar de New York. – Curvo os lábios no que deveria
ser um sorriso quando seguro sua mão quente. Seus dedos propositalmente
acariciam meu pulso e eu puxo meu braço com delicadeza.
– Eu sabia. As mulheres daqui não seriam nem de longe tão interessantes.
– Ele ri, ainda com a mão estendida, como se eu ainda a segurasse. Parece um
bobo.
Sem olhar muito para ele ainda, paro a fim de fazer uma breve análise de
Ian. Minha atenção, apesar de toda a experiência recolhendo cada detalhe das
pessoas com quem convivo, concentram-se nas cicatrizes. São realmente
superficiais, e eu suspeito de que tenha deduzido bem as causas, mas são muitas
delas. Isso apenas acrescenta à sua beleza, quando a luz fraca do bar bate nas
laterais de seu rosto e fazem as marcas parecerem escarificações. Já vi pessoas com
desenhos feitos a navalha em seus rostos enquanto investigava a morte de um
mestre de umbanda. Muitos dos seguidores da religião eram imigrantes africanos
que tentavam manter alguns costumes mesmo no Ocidente, e realizavam rituais de
passagem como esse. Pensei seriamente sobre desenhar uma gota entre meus dois
olhos, mas a dor não valia a pena.
Sinto vontade de estender minhas mãos e tocar sua pele, no entanto, isso
seria um tanto quanto estranho vindo de uma estranha. Ele parece perceber e
fecha a cara imediatamente. Os resquícios de sorriso presunçoso somem.
– Eu gosto delas. – Admito, tentando resgatar seu bom humor. Não queria
vê-lo retomando complexos por culpa minha.
– Não, você não gosta. – Sua voz sai áspera, como se arranhasse a
garganta e lixasse os dentes.
– Gosto, sim. São bonitas nessa luz, são da cor dos teus olhos. – Falo, sem
humor, sem mais encará-lo. Não quero que pense coisas erradas sobre minhas
palavras.
– Fale um nome, de qualquer cidadão desse lugar. Eu posso pensar em te
contar algumas histórias. – Vejo seu sorriso voltar, ainda maior, enquanto o
garçom volta com dois copos americanos. Eu sorrio de volta, sinceramente pela
primeira vez desde que entrei no bar. Estamos progredindo, afinal.
































2. Conhecer
"Não se deve indagar sobre tudo: é melhor que muitas coisas permaneçam
ocultas." – Sófocles

Ian senta-se, arfante, afundando o rosto nas mãos calejadas,
consequentemente ocultando as cicatrizes. Sem vê-las, tenho uma breve impressão
de que aquele homem é frágil como uma peça de cristais.
– Baudelaire? – Arfo, recuando ao ver a forma como o homem reagiu ao
nome Georgina Prerogative. Ele não responde por longos segundos, longos o
suficiente, quase eternos, para que as piores hipóteses se manifestem em meus
olhos de uma forma salgada.
Não preciso relatar aqui as ideias que me vieram com força, pois todas
envolvem desgraça, e desgraça é conhecida do imaginário humano desde o
incidente no Jardim do Éden. Também não consigo pronunciar sequer uma palavra
enquanto a imagem de uma lápide com o nome de Georgie está entalada em minha
garganta. Ou, talvez, ela tenha se envolvido em alguma merda ilegal e está detrás
das grades incorruptíveis de Alcatraz. Não consigo aceitar o lapso de Georgina,
minha melhor amiga claustrofóbica, em espaços fechados e trancados por fora. Seja
num presídio ou abaixo de sete palmos de terra.
– Quem é você… De verdade? – Sua voz escapa por entre seus dedos,
abafada, e eu começo a me perguntar se fiz a coisa certa. Que indagação estúpida, é
óbvio que eu não fiz a coisa certa.
– Eu já disse quem eu sou. – Sussurro, acuada como nunca estive antes.
Nenhuma ameaça de morte jamais me deixara tão sem fôlego, porque eu sim, sei
proteger-me. Mas Georgina me lembra o casamento do frágil com o selvagem. É
sempre assim: você não sabe o quanto ama alguém até considerar a possibilidade
de esse alguém não existir no mesmo mundo que você.
Não sei quando tempo se passa, mas o ar fica denso demais para eu
respirar no local. A ligação que sempre tive com a garota, que sempre pareceu aos
olhos dos pais mais uma amizade pré-adolescente, tinha uma conotação maior que
isso. Eu morreria por ela e ela morreria por mim, uma relação insuportavelmente
interdependente. Sem exageros, sem drama. E é a primeira vez em anos que eu
sinto esse laço cingindo minha garganta.
Largo duas notas no balcão e, quando o homem detrás dele vê minha
expressão – que eu presumo estar péssima – apressa-se em me sugerir pagar por
um quarto e repousar.
………………………….