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SEGUNDA GUERRA
MUNDIAL
Uma Antologia Poética

Poetas contemporâneos ao conflito



LIVRO GRATUITO
Não pode ser vendido



Organização, seleção, edição e notas de
Sammis Reachers

2014

Foto de capa: Soldados americanos agachados num bote de assalto cruzam o rio Reno, na Alemanha,
sob fogo inimigo (Março 1945). ©The U.S. National Archives and Records Administration
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Bellum dulce inexpertis.

Pindaro















*A guerra é doce para quem não a experimentou.

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Índice

Prefácio .................................................................................................................. 08

Bertolt Brecht (ALE)
Cartilha de Guerra Alemã ................................................................................. 11
Cartilha de Guerra Alemã II ........................................................................... 14
Regresso .................................................................................................................. 16

Abgar Renault (BRA)
Transporte de Guerra ........................................................................................ 17
UBI TROJA EST ..................................................................................................... 18

Carlos Drummond de Andrade (BRA)
Carta a Stalingrado ............................................................................................. 19
Visão 1944 .............................................................................................................. 21

Cecília Meireles (BRA)
Guerra ...................................................................................................................... . 24
Pistóia - Cemitério Militar Brasileiro .......................................................... 25

Murilo Mendes (BRA)
Poema Presente ................................................................................................... 27
Tempos Duros ...................................................................................................... 28

Vinícius de Moraes (BRA)
A Rosa de Hiroshima .......................................................................................... 29
Balada dos mortos dos campos de concentração .................................. 30

Pablo Neruda (CHI)
Novo Canto de Amor a Stalingrado .......................................................... 32

Ivan Goran Kovacic (CRO)
Fosso ......................................................................................................................... 36

Vladimir Nazor (CRO)
Mãe Ortodoxa ........................................................................................................ 38

Archibald MacLeish (EUA)
Colóquio Entre os Estados ............................................................................... 40

Dudley Randall (EUA)
Epitáfios do Pacífico ........................................................................................... 44

John Ciardi (EUA)
O Dom ....................................................................................................................... 46

Karl Shapiro (EUA)
Trem de Tropas .................................................................................................... 47

Randall Jarell (EUA)
A Morte do Artilheiro da Torre Giratória .................................................. 49

5

Stanley Kunitz (EUA)
Considerações Junto a Uma Caixa de Correio ......................................... 50

T. S. Eliot (EUA/ING)
Little Gidding ………………………………………………………………………….. 52

Louis Aragon (FRA)
Os lilases e as rosas ............................................................................................. 55

Paul Eluárd (FRA)
Liberdade ................................................................................................................ 57
Coragem ................................................................................................................... 60
A Aurora Dissolve os Monstros ..................................................................... 61

Pierre Emmanuel (FRA)
Dia de Cólera ......................................................................................................... 62

René Char (FRA)
Carta do 8 de Novembro .................................................................................. 63
Pobreza e Privilégio – II .................................................................................... 64
O Verdelhão ........................................................................................................... 65

Giorgos Seferis (GRE)
O último dia ............................................................................................................ 66

Odisséas Elýtis (GRE)
Canto Heroico e Funeral para o Segundo-Tenente Desaparecido
na Campanha da Albânia .................................................................................. 67

Tasos Leivaditis (GRE)
Esta estrela é para todos nós .......................................................................... 69

Gerrit Kouwenaar (HOL)
Terceiro Canto Heroico ..................................................................................... 72

Jan Campert (HOL)
Os Dezoito Mortos ............................................................................................... 74

Gyula Illyés (HUN)
O Vizinho ................................................................................................................. 76

István Vas (HUN)
Mais do que a morte ........................................................................................... 77

János Pilinszky (HUN)
Paixão de Ravensbrück ..................................................................................... 78

Miklós Radnóti (HUN)
Céu espumante ..................................................................................................... 79
Razglednice ............................................................................................................ 80




6

Dylan Thomas (ING)
Cerimônia Após um Bombardeio ................................................................. 81
Entre os mortos num bombardeio ao amanhecer
havia um homem de cem anos ...................................................................... 84

Edith Sitwell (ING)
Ainda Cai a Chuva ................................................................................................ 85

Keith Douglas (ING)
Como Matar ............................................................................................................ 87
VERGISSMEINNICHT ......................................................................................... 88

W.H. Auden (ING/EUA)
1.º de setembro de 1939 .................................................................................. 89

Giuseppe Ungareti (ITA)
Meu Rio Tu Também .......................................................................................... 92
Nas Veias ................................................................................................................. 94

Primo Levi (ITA)
Vós que viveis tranquilos ................................................................................. 95

Salvatore Quasímodo (ITA)
Milão, Agosto de 1943 ....................................................................................... 96
Cânticos ................................................................................................................... 97
Auschwitz ............................................................................................................... 98

Sadako Kurihara (JAP)
Dizendo “Hiroshima” ....................................................................................... 100
Deixemos vir a nova vida .............................................................................. 101

Tamiki Hara (JAP)
Isto É um Ser Humano .................................................................................... 102

Hirsh Glick (LIT)
A Balada do teatro pardo: Espetáculo no cárcere de Lubick ......... 103

Czeslaw Milosz (POL)
Campo di Fiori .................................................................................................... 105

Zbigniew Herbert (POL)
17 de Setembro .................................................................................................. 107
Abandonado ........................................................................................................ 108
Cinco Homens ..................................................................................................... 111

Paul Celan (ROM)
Fuga da Morte .................................................................................................... 113

Jaroslav Seifert (TCH)
Os mortos de Lídice ......................................................................................... 115

Margarita Aliguer (URSS)
De Primavera em Leningrado ...................................................................... 117

7

Marina Tzvietáieva (URSS)
Tomaram... .......................................................................................................... 118

Mikhaíl Dúdine (URSS)
Rouxinóis .............................................................................................................. 119

Olga Fiódorovna Bierggólts (URSS)
A Guerra em Leningrado ............................................................................... 122
Conversa com uma vizinha ........................................................................... 124

Pável Antokólski (URSS)
Filho ........................................................................................................................ 126

Siemión Gudzenko (URSS)
Antes do ataque ................................................................................................. 129
A minha geração ................................................................................................ 130

Bibliografia ........................................................................................................ 131

Sobre o organizador ..................................................................................... 134














8

Prefácio

Sofro da estranha mania de organizar antologias. Já são mais de
dez. A maioria é de temática religiosa, duas delas, creio, de interesse
geral: a Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa (2008), bem
intencionada mas com lacunas e alguma injustiça, e a Breve Antologia
da Poesia Cristã Universal, publicada em 2012. Um de meus propósitos
e humilde prazer é tentar fechar ou suprir determinadas lacunas
bibliográficas – lacunas que sempre me parecem ‘imperdoáveis’. No
caso da poesia cristã, simplesmente não havia algo no gênero
(reunindo uma coleção de textos quantitativa e qualitativamente
significativos) nas bibliografias de Brasil e Portugal.

Some-se aqui a esse furor antologista meu fascínio pela Segunda
Guerra Mundial, fixação de infância, sendo mesmo anterior ao meu
interesse pela literatura, e que ao longo dos anos nunca arrefeceu
(sintomático é que em meu livro Poemas da Guerra de Inverno
(2012/1014), mais da metade dos poemas versa sobre a SGM).

Eis esboçado então o cenário para que eu volte à carga em minha
maltrapilha sina de tapa-buracos das mal a(r)madas estantes de
poesia: a esta altura do ano da graça de 2014, decorridos 69 anos do
fim do maior conflito bélico e da maior exibição de atrocidades que a
humanidade já vivenciou, não lhe parece, amigo leitor, de espantar que
não exista uma antologia de poetas ou poemas da Segunda Guerra em
nossa bibliografia lusófona, neste caso mais culposa e especificamente
na brasileira (pois afinal Portugal manteve-se ‘neutro’ no conflito)? O
Brasil enviou tropas em boa quantidade para a guerra no teatro
europeu - foi mesmo o único país latino-americano a fazê-lo –, e
empenhou grandes forças no apoio logístico e de suprimento de
matérias-primas para o esforço de guerra dos Aliados – enfim, o Brasil
vivenciou quase aquilo que se chama em teoria militar de guerra total
– pois se nosso território não chegou a ser diretamente atacado, os
navios de nossa costa (civis e militares) eram fustigados pelo
torpedeamento constante por parte dos submarinos U-Boat alemães, e
a população das maiores metrópoles fazia exercícios preventivos
contra ataques aéreos, com direito a blackouts, sirenes e tudo o mais.
Tal lacuna sempre pareceu-me digna de nota, ainda mais quando
vemos tanta irrelevância sendo impressa. Nos EUA tais antologias de
guerra são comuns – você poderá contar com umas duas dezenas delas,
de variados alcances e focalizações editoriais (embora se julgue, entre
os países anglófonos, e a meu ver injustamente, que a Segunda Guerra
9

não produziu war poets da qualidade de um Siegfried Sassoon ou
Rupert Brooke, como a Primeira Guerra).

Busquei coligir para esta seleta apenas poemas de autores
contemporâneos ao conflito, e de países diretamente envolvidos na
guerra. Sejam war poets “clássicos” (soldados-poetas que participaram
em algum momento da guerra, engajados em exércitos regulares),
sejam vítimas (população de países subjugados, judeus e minorias
étnicas, críticos e inimigos ideológicos do regime), sejam partisans e
combatentes das resistências que pululavam nas mais diversas frentes
do conflito. E também o que se poderia chamar de poetas expectadores,
que, embora nativos de países envolvidos na guerra, apenas a
acompanharam pelos canais noticiosos, caso de alguns poetas dos EUA
e de outros países americanos, como o chileno Pablo Neruda e
brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e
outros.

Neste quesito, dou especial destaque à produção de nossos poetas
que se mostraram mais impactados pelo conflito, publicando além de
CDA e Murilo Mendes, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles e Abgar
Renault. Outros contemporâneos escreveram sobre o conflito, como
Mário Barreto França, condoreiro tardio e talvez o principal poeta
evangélico do Brasil, e ainda Oswald de Andrade, cujo poema Canto do
pracinha só, que lhe rendeu algumas (eventualmente acertadas) vaias
da crítica, achamos por bem deixar de fora desta antologia, a fim de
salvaguardá-la...

Esta é uma antologia breve – são apenas 134 páginas, e com
perceptíveis e lamentáveis lacunas, pois mesmo alguns poetas de
franco renome que escreveram sobre a guerra, têm essa parte de sua
obra fragorosamente ignorada pelos seus eventuais tradutores
lusófonos. Isso nos obrigou a traduzir textos dos war poets Karl
Shapiro e John Ciardi (EUA), sem os quais estaria em situação ainda
mais imperdoável esta antologia. Mas espero que o precedente aberto
por esta seleta venha a despertar o interesse de nossos muitos
companheiros que dedicam-se à árdua-delicada (seria traduzir poesia
igualmente padecer no paraíso, como no proverbial dito maternalista?)
tarefa de traduzir poesia. Ousaria dizer que, mais que a própria
História, a Poesia está intimamente ligada à ação de compilar,
compartilhar e refletir a dor humana, dor essa que numa guerra, e
melhor, na mãe de todas as guerras, atingiu seu ápice. Ignorar essa
poesia escrita ao som dos combates – essa poderosa poesia do extremo
10

- é mais que simplesmente ignorar a História, na figura e na pena de
tão especializadas testemunhas: é ignorar a própria Poesia no que ela
tem de mais verdadeiro e humano.



SOBRE A EDIÇÃO DESTE LIVRO

Meu propósito inicial era propor a edição deste livro para alguma
editora. Mas sondagens preliminares me desestimularam. Somaram-se
a isso as dificuldades de edição de uma antologia envolvendo múltiplos
autores e tradutores: presente na questão o mesmerizante fel que
move o mundo ($$$), são mares de autorizações e correspondências,
fabulário de burrocracias que a cultura construiu em torno de si, e que
ao invés de servirem de filtros ou, quiçá, capacitores, quase sempre
alcançam apenas o status de muros. E a seleta estava aqui, há quase
dois anos amadurecendo ‘na gaveta’, o que para mim é um período de
tempo muito dilatado, pois meu ritmo de trabalho, nas demais
antologias que organizei, alcançou em média até (O.K., apenas) quatro
meses (de trabalho o mais ferrenho, entenda-se). Essa espera, essa
latência de gaveta era para mim um renitente incômodo: O
conhecimento precisa sair da gaveta, sair das cabeças, para tornar-se
cultura; na gaveta, é apenas cabala, coletânea de hieróglifos enfeitando
as paredes seladas em breu dum sarcófago.
Por tudo isso, é com prazer, com muito prazer que atropelo uma vez
mais o status quo enrijecido, e ofereço este trabalho gratuitamente a
todos os interessados. Sem editoras, sem bolsas de pesquisa, edição e
publicação, sem patrocínios culturais, sem contar com o braço ativo,
mas um tanto afetado e corporativista da academia, sem licenças além
da poética e a do Conhecimento, esse intimorato arrombador e chão
daquilo que é Homem – enfim, eis (a) informação num canal direto
como deve ser, sem atravessadores, linha reta da poesia ao leitor de
poesia.

Sammis Reachers




11

Bertolt Brecht (Alemanha 1898 – 1956)

Militante de esquerda e opositor do regime nazista desde seu início, o dramaturgo
e poeta alemão Bertolt Brecht foi perseguido, tendo a partir de 1933, com a
ascensão de Hitler ao poder, se refugiado em diversos países europeus e
posteriormente nos EUA. Homem de seu tempo como poucos lograram ser, a
poesia de Brecht é riquíssima em textos sobre o conflito. Optamos por publicar
aqui três poemas singulares, os já clássicos Manual de Guerra Alemã 1 e 2, onde o
poeta, nos anos imediatamente anteriores à Guerra, desvela irônica e mesmo
profeticamente todo o esforço de guerra alemão, com sua hipocrisia e seus
nefastos resultados; e o poema Regresso, sobre seu retorno à pátria (para onde
voltou em 1947), agora derrotada e destruída - como ele mesmo previra, em tantos
e tantos de seus textos.


Traduções de Paulo César de Souza

Cartilha de Guerra Alemã

O PINTOR FALA DA GRANDE ÉPOCA POR VIR
As florestas ainda crescem.
Os campos ainda produzem.
As cidades ainda existem.
Os homens ainda respiram.

QUANDO O PINTOR FALA SOBRE A PAZ
ATRAVÉS DOS ALTOS-FALANTES
Os trabalhadores de construção olham para
As autoestradas e veem
Cimento espesso, próprio
Para tanques pesados.

O pintor fala de paz.
Aprumando as costas doloridas
As mãos grossas em tubos de canhões
Os fundidores o escutam.

Os pilotos dos bombardeiros
Desaceleram os motores e ouvem
O pintor falar de paz.

Os madeireiros param no silêncio dos bosques
Os camponeses deixam de lado o arado e colocam a mão atrás do ouvido
As mulheres que levam a comida para o campo se detêm:
No terreno revolvido há um carro com amplificador. De lá se ouve
O pintor pedir paz.

12

OS DE CIMA DIZEM: GUERRA E PAZ
São de substância diferente
Mas a sua guerra e a sua paz
São como tempestade e vento.

A guerra nasce da sua paz
Como a criança da mãe
Ela tem
Os mesmo traços terríveis.

A sua guerra mata
O que a sua paz
Deixou de resto.

NO MURO ESTAVA ESCRITO COM GIZ:
Eles querem a guerra.
Quem escreveu
Já caiu.

OS DE CIMA
Juntaram-se em uma reunião.
Homem da rua
Deixa de esperança.

Os governos
Assinam pactos de não-agressão.
Homem da rua
Assina teu testamento.

Quando os de cima falam de paz
A gente pequena
Sabe que haverá guerra.

Quando os de cima amaldiçoam a guerra
As ordens de alistamento já estão preenchidas.

A GUERRA QUE VIRÁ
Não é a primeira. Antes dela
Houve outras guerras.
Quando a última terminou
Havia vencedores e vencidos.
Entre os vencidos o povo miúdo
Sofria fome. Entre os vencedores
Sofria fome o povo miúdo.

OS DE CIMA DIZEM QUE NO EXÉRCITO
Reina fraternidade.
A verdade disso se percebe
Na cozinha.
13

Nos corações deve haver
O mesmo ânimo.
Mas nos pratos
Há dois tipos de comida.

NO MOMENTO DE MARCHAR, MUITOS NÃO SABEM
Que seu inimigo marcha à sua frente.
A voz que comanda
É a voz de seu inimigo.
Aquele que fala do inimigo
É ele mesmo o inimigo.

GENERAL, TEU TANQUE É UM CARRO PODEROSO
Ele derruba uma floresta e esmaga cem homens.
Mas tem um defeito:
Precisa de um motorista.

General, teu bombardeiro é poderoso.
Ele voa mais veloz que um vendaval e carrega mais carga que um elefante.
Mas tem um defeito:
Precisa de um engenheiro.

General, o homem é muito útil.
Ele pode voar e pode matar.
Mas tem um defeito:
Pode pensar.

QUANDO A GUERRA COMEÇAR
Seus irmãos se transformarão talvez
De modo que seus rostos não serão reconhecíveis.
Mas vocês devem permanecer os mesmos.

Eles irão à guerra, mas
Não como a uma matança, e sim
Como a um trabalho sério. Tudo
Terão esquecido. Mas vocês
Nada deverão ter esquecido.

Vocês receberão aguardente na garganta
Como todos os outros.
Mas deverão permanecer sóbrios.








14

Cartilha de Guerra Alemã II

O PINTOR DIZ:
Quanto mais canhões forem fabricados
Mais longa será a paz.

Assim seria certo dizer:
Quando mais grãos forem semeados
Menos cereal crescerá.
Quanto mais vitelas forem mortas
Menos carne haverá.
Quanto mais neve se dissolver na montanha
Mais secos serão os rios.

NA GUERRA MUITAS COISAS CRESCERÃO
Ficarão maiores
As propriedades dos que possuem
E a miséria dos que não possuem
As falas do Guia
E o silêncio dos guiados.

SE OS CAMPOS DOS JUNKER FOREM DIVIDIDOS
Não será preciso conquistar os campos dos camponeses ucranianos.
Se os campos dos camponeses ucranianos forem conquistados
Os Junker apenas terão mais campos.

AQUELES QUE LUTAVAM CONTRA SEU PRÓPRIO POVO
Lutam agora contra outros povos.
Novos escravos
Se juntarão aos velhos.

É NOITE
Os casais
Deitam-se nos leitos. As mulheres
Parirão órfãos.

OS VELHOS
Levam dinheiro à caixa econômica
Diante da caixa econômica estão carros.
Eles levam o dinheiro
Para as fábricas de munição.

OS ANÚNCIOS DO GOVERNO
Acompanham os boatos
Como sombras.
15

Os governantes rugem
O povo sussurra.

PARA QUE CONQUISTAR MERCADOS PARA OS PRODUTOS
Que os trabalhadores fabricam?
Os trabalhadores
Ficariam de bom grado com eles.

O FÜHRER LHES DIRÁ: A GUERRA
Dura quatro semanas. Quando chegar o outono
Vocês estarão de volta. Mas
O outono virá e passará
E tornará a vir e passar muitas vezes
E vocês não voltarão.
O pintor lhes dirá: as máquinas
Farão tudo por nós. Bem poucos
Precisarão morrer. Mas
Vocês morrerão às centenas de milhares, tantos
Como nunca se viu morrer.
Quando eu ouvir que vocês estão no Polo Norte
Ou na Índia ou no Transvaal, apenas saberei
Onde um dia se encontrarão seus túmulos.





















16

Regresso

A cidade natal, como a encontrarei ainda?
Seguindo os enxames de bombardeiros
Volto para casa.
Mas onde está ela? Lá onde sobem
Imensos montes de fumaça.
Aquilo no meio do fogo
É ela.

A cidade natal, como me receberá?
À minha frente vão os bombardeiros. Enxames mortais
Vos anunciam meu regresso. Incêndios
Precedem o filho.


























17

Abgar Renault (Brasil 1901 - 1995)

O poeta e educador Abgar Renault, em seus poemas, deixa claro seu fascínio pela
Inglaterra, predileção que levou-o a traduzir, durante a Segunda Guerra, poemas
dos war poets ingleses da Primeira Guerra Mundial. Esses poemas foram
publicados em jornais do Brasil e do exterior, de 1941 a 1945, vindo também a ser
enfeixados em livro (primeira edição já em 1942). Renault era alto funcionário do
governo Getúlio Vargas, e a própria publicação desses textos traduzidos já deixa
entrever um consciente esforço de mobilização da opinião pública nacional para a
guerra que estava prestes, e acabou por efetivamente arrolar também o Brasil em
seu turbilhão.


Transporte de Guerra

Eu vi os teus soldados, Inglaterra,
dentro do teu audaz navio escuro,
da cor das águas em que lançara ferros.
Eram serenos, fortes e joviais,
olhavam do convés, dos mastros, das vigias,
e suas mãos sorriam acenando
para as lanchas que passavam, ao largo, rumo à terra.

Sorriam. E, enquanto sorriam, seus corações
talvez acariciassem coisas da distância:
o porto sem nome de que misteriosamente partiram,
sem adeuses, numa hora mal-assombrada;
as velhas colinas de verdes condados;
campos de golf, de cricket, de football;
contemplativos campos cheios do sonho de rebanhos;
os nevoeiros, mais densos sob as luzes apagadas;
talvez a esteira saudosa que a quilha aguda
foi abrindo nas águas e deixando para trás...
Eram serenos e fortes, e esperavam, e sorriam.

Que ínvios mares irá sulcar esse navio escuro,
eriçado de canhões e de metralhadoras antiaéreas,
carregado de sonhos, armas, munições e tanta vida?
Para onde largarão esses soldados do mundo?
Quando é que descerão desse navio escuro,
de que olham as luzes da cidade, prisioneiros?
Que terras negras ou que grossas águas acolherão, e quando,
o sono de seus corpos moços prodigiosamente adormecidos?

1942




18

UBI TROJA EST

Aqui é Londres London Londinium, a velha, a cinzenta, a misteriosa.
Aqui é Londres, que Adolf Hitler ia reduzir.
Onde está Adolf Hitler? – Aqui é Londres.

Compreendo os teus olhos cheios de mar,
a tua poesia de um reflexivo silêncio de velas,
a tristeza seca dos teus poetas,
quando vejo o teu céu sempre noturno, teus jardins de bruma,
tua umidade espessa a subir das águas antigas,
a correr sob pontes intemporais e andando pelas ruas;
as tuas luzes (ye lights of London town)
embaçadas de suor, de fumaça e restos de bombardeio,
e o tempo sem memória que escorre dos telhados e das paredes
e se espalha pelos bancos das praças e pelas mesas dos hotéis.
Sei o que é o teu gênio, a tua força, a tua alegria cativa,
e a tua melancolia que não chora, e entendo o orgulho dos teus homens e das tuas
mulheres
de pouca fala e olhos cheios de branda, misteriosa luz;
amos os porquês da tua língua viajeira, múltipla e uma,
carregada de praias alvas, de remotas músicas,
feita de água salgada, de verde relva,
de luar e sol ocultos, de ouro, carvão e névoas frias.

Compreendo-te, Ó Tróia indestruída, e amo-te,
e longe de ti, sobre o mar que te criou e dominaste,
sinto vultos vagando pelas ruas do meu pensamento:
Chaucer, Shakespeare, Dr. Johnson, Donne, Berkeley, Keats...
Tuas árvores graves, teus demônios, teus anjos, teu coração de aço
os rostos de distâncias do sonho e da realidade que criaste.

Londres, 1945












19

Carlos Drummond de Andrade (Brasil 1902-1987)

Maior poeta brasileiro e um dos maiores de nossa língua ao lado de Camões e
Pessoa, a II Guerra Mundial exerceu forte impacto sobre o ainda militante
comunista CDA, notadamente nos versos de seu livro A Rosa do Povo. O livro é uma
obra prima que conta com vários poemas inspirados pela guerra, tendo especial
destaque o tema da resistência soviética, que começava a vencer as forças
invasoras do Reich, prenunciando a derrota de Hitler.


Carta a Stalingrado

Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme
no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
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Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do
Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.



















21

Visão 1944

Meus olhos são pequenos para ver
a massa de silêncio concentrada
por sobre a onda severa, piso oceânico
esperando a passagem dos soldados.

Meus olhos são pequenos para ver
luzir na sombra a foice da invasão
e os olhos no relógio, fascinados,
ou as unhas brotando em dedos frios.

Meus olhos são pequenos para ver
o general com seu capote cinza
escolhendo no mapa uma cidade
que amanhã será pó e pus no arame.

Meus olhos são pequenos para ver
a bateria de rádio prevenindo
vultos a rastejar na praia obscura
aonde chegam pedaços de navios.

Meus olhos são pequenos para ver
o transporte de caixas de comida,
de roupas, de remédios, de bandagens
para um porto da Itália onde se morre.

Meus olhos são pequenos para ver
o corpo pegajento das mulheres
que foram lindas, beijo cancelado
na produção de tanques e granadas.

Meus olhos são pequenos para ver
a distância da casa na Alemanha
a uma ponte na Rússia,
onde retratos, cartas, dedos de pé boiam em sangue.

Meus olhos são pequenos para ver
uma casa sem fogo e sem janela
sem meninos em roda, sem talher,
sem cadeira, lampião, catre, assoalho.

Meus olhos são pequenos para ver
os milhares de casas invisíveis
na planície de neve onde se erguia
uma cidade, o amor e uma canção.

Meus olhos são pequenos para ver
as fábricas tiradas do lugar,
22

levadas para longe, num tapete,
funcionando com fúria e com carinho.

Meus olhos são pequenos para ver
na blusa do aviador esse botão
que balança no corpo, fita o espelho
e se desfolhará no céu de outono.

Meus olhos são pequenos para ver
o deslizar do peixe sob as minas,
e sua convivência silenciosa
com os que afundam, corpos repartidos.

Meus olhos são pequenos para ver
os coqueiros rasgados e tombados
entre latas, na areia, entre formigas
incompreensivas, feias e vorazes.

Meus olhos são pequenos para ver
a fila de judeus de roupa negra,
de barba negra, prontos a seguir
para perto do muro - e o muro é branco.

Meus olhos são pequenos para ver
essa fila de carne em qualquer parte,
de querosene, sal ou de esperança
que fugiu dos mercados deste tempo.

Meus olhos são pequenos para ver
a gente do Pará e de Quebec
sem notícias dos seus e perguntando
ao sonho, aos passarinhos, às ciganas.

Meus olhos são pequenos para ver
todos os mortos, todos os feridos,
e este sinal no queixo de uma velha
que não pôde esperar a voz dos sinos.

Meus olhos são pequenos para ver
países mutilados como troncos,
proibidos de viver, mas em que a vida
lateja subterrânea e vingadora.

Meus olhos são pequenos para ver
as mãos que se hão de erguer, os gritos roucos,
os rios desatados, e os poderes
ilimitados mais que todo exército.

Meus olhos são pequenos para ver
23

toda essa força aguda e martelante,
a rebentar do chão e das vidraças,
ou do ar, das ruas cheias e dos becos.

Meus olhos são pequenos para ver
tudo que uma hora tem, quando madura,
tudo que cabe em ti, na tua palma,
ó povo! que no mundo te dispersas.

Meus olhos são pequenos para ver
atrás da guerra, atrás de outras derrotas,
esta imagem calada, que se aviva,
que ganha em cor, em forma e profusão.

Meus olhos são pequenos para ver
tuas sonhadas ruas, teus objetos,
e uma ordem consentida (puro canto,
vai pastoreando sonos e trabalhos).

Meus olhos são pequenos para ver
esta mensagem franca pelos mares,
entre coisas outroras envilecidas
e agora a todos, todas ofertadas.

Meus olhos são pequenos para ver
o mundo que se esvai em sujo e sangue,
outro mundo que brota, qual nelumbo
- mas veem, pasmam, baixam deslumbrados.





















24

Cecília Meireles (1901 – 1964)

Uma das principais poetas da língua portuguesa, a carioca da Tijuca Cecília
Meireles era filha de açorianos. Também professora, pintora e jornalista, os
eventos da Segunda Guerra não passaram despercebidos diante de Cecília. O
poema Guerra (1945) e o livro Pistóia – Cemitério Militar Brasileiro, embora tardio
(1955) são provas cabais disto.


Guerra

Tanto é o sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.

Tanto é o sangue
que até a lua se levanta horrível,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de auréolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.

Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.

Oh, os dedos com alianças perdidos na lama...
Os olhos que já não pestanejam com a poeira...
As bocas de recados perdidos...
O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes...

Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas... — e alcançariam as estrelas.

E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados,
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,
e este mar desvairado de incêndios e náufragos,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós, imunes,
chorando, apenas, sobre fotografias,
— tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas.


25

Pistóia - Cemitério Militar Brasileiro

Eles vieram felizes, como
para grandes jogos atléticos,
com um largo sorriso no rosto,
com forte esperança no peito,
- porque eram jovens e eram belos.

Marte, porém soprava fogo
por estes campos e estes ares.
E agora estão na calma terra,
sob estas cruzes e estas flores,
cercados por montanhas suaves.

São como um grupo de meninos
num dormitório sossegado,
com lençóis de nuvens imensas,
e um longo sono sem suspiros,
de profundíssimo cansaço.

Suas armas foram partidas
ao mesmo tempo que seu corpo.
E, se acaso sua alma existe,
com melancolia recorda
o entusiasmo de cada morto.

Este cemitério tão puro
é um dormitório de meninos:
e as mães de muito longe chamam,
entre as mil cortinas do tempo
cheias de lágrimas, seus filhos.

Chamam por seus nomes, escritos
nas placas destas cruzes brancas.
Mas, com seus ouvidos quebrados,
com seus lábios gastos de morte,
que hão de responder estas crianças?

E as mães esperam que ainda acordem,
como foram, fortes e belos,
depois deste rude exercício,
desta metralha e deste sangue,
destes falsos jogos atléticos.

Entretanto, céu, terra, flores,
é tudo horizontal silêncio.
O que foi chaga, é seiva e aroma,
- do que foi sonho não se sabe
e a dor vai longe, no vento...

26

Murilo Mendes (Brasil 1901 – 1975)

O mineiro Murilo Mendes é um dos ilustres cavalheiros da segunda geração do
Modernismo brasileiro, geração de ouro que legou à poesia brasileira nomes do
naipe de Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt
e outros. Seu livro Poesia Liberdade (1947) reúne trabalhos escritos durante o
período da Segunda Guerra, onde o autor dá azo a seu lirismo que, mesmo tendo
bebido da fonte surrealista, desdobra-se em sua preocupação social diante das
mazelas e incertezas do período.


Poema Presente

O céu púbere e profundo
Ajunta nuvens de fogo
À tendência dos homens, inquietante:
E um pensamento de guerra
Anula o que poderia vir
Da água, da rosa, da borboleta.

Vergéis tranquilos
Disfarçam espadas.

Sombras pedindo corpos
Esperam desde o dilúvio
O sopro de um puro espírito.
Separam a luz da luz.























27

Tempos Duros

A aurora desce a viseira:
O monumento ao deserdado desconhecido
Acorda coberto de sangue.

O mar furioso devolve à praia
Alianças de casamento dos torpedeados
E a fotografia de um assassino,
Aos cinco anos – inocente – num velocípede.

Alguém parte o pão dos pássaros.
O ar espesso entre os sinos
Empurra o espanto das árvores.

Longas filas de homens e crianças
Caminham pelas mornas avenidas
Em busca de ração de sal, azeite e ódio.

E a morte vem recolher
A parte de lucidez
Que durante tanto tempo
Escondera sob os véus.


















28

Vinícius de Moraes (Brasil 1913 – 1980)

O carioca Vinícius de Moraes, arquétipo do boêmio, construiu sua carreira literária
através da poesia, teatro e prosa, destacando-se como um de nossos maiores
sonetistas. O poema A Rosa de Hiroshima, que virou canção musicada por Gerson
Conrad em 1974, foi publicado em 1954 no livro Antologia Poética, livro que
também trazia os poemas Balada dos mortos dos campos de concentração e A
bomba atômica, de temáticas relacionadas à Guerra.


A Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada
















29

Balada dos mortos dos campos de concentração

Cadáveres de Nordhausen
Erla, Belsen e Buchenwald!
Ocos, flácidos cadáveres
Como espantalhos, largados
Na sementeira espectral
Dos ermos campos estéreis
De Buchenwald e Dachau.
Cadáveres necrosados
Amontoados no chão
Esquálidos enlaçados
Em beijos estupefatos
Como ascetas siderados
Em presença da visão.
Cadáveres putrefatos
Os magros braços em cruz
Em vossas faces hediondas
Há sorrisos de giocondas
E em vossos corpos, a luz
Que da treva cria a aurora.
Cadáveres fluorescentes
Desenraizados do pó
Que emoção não dá-me o ver-vos
Em vosso êxtase sem nervos
Em vossa prece tão-só
Grandes, góticos cadáveres!
Ah, doces mortos atônitos
Quebrados a torniquete
Vossas louras manicuras
Arrancaram-vos as unhas
No requinte de tortura
Da última toalete...
A vós vos tiraram a casa
A vós vos tiraram o nome
Fostes marcados a brasa
Depois vos mataram de fome!
Vossas peles afrouxadas
Sobre os esqueletos dão-me
A impressão que éreis tambores -
Os instrumentos do Monstro -
Desfibrados a pancada:
Ó mortos de percussão!
Cadáveres de Nordhausen
Erla, Belsen e Buchenwald!
Vós sois o húmus da terra
De onde a árvore do castigo
Dará madeira ao patíbulo
30

E de onde os frutos da paz
Tombarão no chão da guerra!




































31

Pablo Neruda (Chile 1904 – 1973)

O chileno e Nobel de Literatura (1971) Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, conhecido
universalmente como Pablo Neruda, é um daqueles poetas que dispensam
apresentações. Homem de esquerda e eterno engajado, Neruda somou forças na
Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos, sendo por isso destituído de seu
cargo de cônsul chileno em Madrid. Em 1943 Neruda retorna ao Chile. O livro
Terceira Residência (1947) reúne algumas de suas impressões poéticas acerca da
Segunda Guerra Mundial, como este Novo Canto de Amor a Stalingrado.


Novo Canto de Amor a Stalingrado

Escrevi sobre a água e sobre o tempo,
descrevi o luto e seu metal acobreado,
escrevi sobre o céu e a maçã,
agora escrevo sobre Stalingrado.

As noivas já guardam no seu lenço
raios de meu amor enamorado,
meu coração agora está no solo,
na fumaça e na luz de Stalingrado.

Já toquei com as mãos a camisa
do crepúsculo azul e derrotado:
agora toco a própria luz da vida
nascendo com o sol de Stalingrado.

Sinto que o velho-jovem transitório
de pluma, como os cisnes adornado,
despe a roupagem de seu mal notório
por meu grito de amor a Stalingrado.

Ponho minh’alma onde quero.
E não me nutro de papel cansado
temperado de tinta e de tinteiro.
Nasci para cantar a Stalingrado.

Minha voz esteve com teus inúmeros mortos
contra teus próprios muros esmagados,
minha voz soou como o sino e o vento
vendo-te morrer, Stalingrado.

Agora americanos combatentes
brancos e escuros como a romã,
matam no deserto a serpente.
Já não estás a sós, Stalingrado.

França volta às velhas barricadas
32

com pavilhão de fúria hasteado
sobre as lágrimas recém derramadas.
Já não estás a sós, Stalingrado.

E os grandes leões da Inglaterra
voando sobre o mar de furacões
cravam as garras na parda terra.
Já não estás a sós, Stalingrado.

Hoje abaixo de suas montanhas de escarmento
não estão apenas os teus enterrados:
tremendo está a carne de teus mortos
que tocaram tua frente, Stalingrado.

Teu aço azul de orgulho construído,
seu cabelo de planetas coroados,
teu baluarte de pães divididos,
tua fronteira sombria, Stalingrado.

Tua Pátria de louros e martírios,
o sangue no teu esplendor nevado,
o olhar de Stalin sobre a neve
tingida com teu sangue, Stalingrado.

As condecorações que teus mortos
colocaram sobre o peito transpassado
da terra, o estremecimento
da morte e da vida, Stalingrado.

O sal profundo que de novo traz
ao coração do homem estremecido
com a rama de vermelhos capitães
saídos de teu sangue, Stalingrado.

A esperança que se rompe em seus jardins
como a flor da árvore esperada,
a página gravada de fuzis,
as letras de sua luz, Stalingrado.

A torre que concebes nas alturas,
os altares de pedra ensanguentados,
os defensores de tua idade madura,
os filhos de tua pele, Stalingrado.

As águias ardentes de tuas pedras,
os metais por tua alma amamentados,
os adeus de lágrimas imensas
e as ondas de amor, Stalingrado.
33


Os ossos dos assassinos feridos,
os invasores de pálpebras fechadas
e os conquistadores fugitivos
atrás de sua centelha, Stalingrado.
Os que humilharam a curva do Arco
e as águas do Sena transpuseram
com o consentimento do escravo,
se detiveram em Stalingrado.

Os que a bela Praga sobre lágrimas,
sobre o emudecido e o traído,
passaram pisoteando suas feridas,
morreram em Stalingrado.

Os que na gruta grega esculpiram
a estalactite de cristal quebrado
em seu clássico azul escasso,
agora onde estão, Stalingrado?

Os que a Espanha incediaram e dividiram
deixando o coração encarcerado
dessa mãe de ensinos e guerreiros,
se puseram a seus pés, Stalingrado.

Os que na Holanda, água e tulipas
salpicaram no lodo ensanguentado
e derramaram o açoite e a espada,
agora dormem em Stalingrado.

Os que na branca noite da Noruega
Um uivo de chacal soltaram
incendiando esta gelada primavera,
emudeceram em Stalingrado.

Horror a ti pelo que o ar traz,
o que se há de cantar e o cantado,
horror por tuas mães e teus filhos
e teus netos, Stalingrado.
Horror ao combatente da névoa,
horror ao comissário e ao soldado,
horror ao céu por traz da tua lua,
horror ao sol de Stalingrado.

Guarda-me um pedaço de violenta espuma,
guarda-me um rifle, guarda-me um arado,
e que o coloquem em minha sepultura
com uma espiga vermelha de teu estado,
para que saibam, se há alguma dúvida,
34

que morri amando-te e que me tens amado,
e se não estive combatendo em tua cintura
deixo em tua honra esta granada escura,
este canto de amor a Stalingrado.































35

Ivan Goran Kovacic (Croácia 1913 – 1943)

O poeta e escritor croata Ivan Goran Kovacic foi morto durante a Segunda Guerra,
quando da ocupação nazista de seu país (então parte da Iugoslávia), ocupação esta
que estabeleceu o estado-títere da Croácia Independente (1941-1944). Deixou um
testamento: o poema épico Fosso (Jama, publicado em 1944), em dez cantos, onde
o poeta narra o extermínio sistemático de judeus, sérvios e outras minorias
durante o período de ocupação.


Fosso

Tradução de Aleksandar Jovanocic

Canto VII (fragmento)

Calo-me Só entre gelados corpos
Gelidez mortal sobre as costas membros
Se enrola Ardentes no frio dos mortos
Sedentos línguas faringes lábios
Gelo de morte calado O inferno
Queima Nenhum grito se externa

E essa terrível carga que em mim pesa
Nem ao frio da morte causa inveja
Nas gargantas frias e se retesa
Quase eu gritei água aqui rumoreja
Ouço que acima dos corpos me invade
Um jato frio que arde arde arde

Sobre a pele nua sobre o meu dorso
Sobre o tronco o peito as coxas o abdome
Rio de gelo chama viva no curso
Deixa e afunda na carne com ardume
Quando na boca o jato frio respinga
Cal virgem escorre-me sobre a língua

O fosso está cheio Banham os mortos
Com cal vivos defendem do cheiro
Sou-lhes grato Com perdão os inertes
Nos aquecem em sua chama... severos
Defuntos e eu calo saltam nus algo
Como peixes que o cozinheiro salga

Esse último tremor do morto nervo
Nele é que eu nado na estranha tremura
Esses meus assassinos eu absolvo
Vejam o corpo que me cerca estertora
Uma velha me afaga com mãos frias
Pois sabe que não me deixa a penúria
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Canto X (fragmento)

O cheiro de incêndio trouxe até mim o vento
Assim de um só golpe de minha aldeia em chamas
Cheiro de que brotam todos os meus mementos
Bodas e colheitas festanças e carroças
Os sepultamentos lamentos e bebedeiras
O que planta a vida o que a morte ceifa

Onde está a sorte o brilho das vidraças
Ninhos de andorinhas o hálito do pomar
Onde está o bater do berço que balança
Da casa a dourada soleira à luz do sol

Onde está o aroma de pão e o ranger da mó
Vida doméstica que ressoa em faina
Onde está a janela com um recorte do céu
Sagrada soleira porta que soa mansa

Onde estão os sinos das reses no estábulo
Que através do velho chão da lonjura penetram
Nos sonhos enquanto as estrelas num pulo
Acendem séculos de paz sobre a aldeia e a terra

Não se ouve choro algum Riso Maldição Canção
A lua que viaja sobre a fogueira brilha
As fontes nos vales distantes já se calam
O cadáver de um cão enegrece na trilha


















37

Vladimir Nazor (Croácia 1876 – 1949)

Escritor e poeta, Nazor foi figura relevante do Modernismo iugoslavo. Mesmo com
67 anos durante a Segunda Guerra, o escritor engajou-se na resistência contra a
ocupação nazista e o estado-títere da Croácia Independente. Em 1944 publicou o
livro Canções dos Partizani.


Mãe Ortodoxa

Tradução de Aleksandar Jovanocic

Com as mãos e os olhos escavas esta terra
Em busca do berço, do ícone de São Jorge,
Choras junto à cova coberta de fuligem,
Queres o bordado que a fumaça soterra
- lar enlutado -
Tu, galho quebrado, pobre entre as mulheres,
mãe ortodoxa.

Com os pés cansados, hirtos, que não se aguentam,
Saíste à procura de tua vaca leiteira,
Nutriz das crianças e velhos. Mas sem eira
Nem beira lobos ou selva negra retinta
- pés doloridos -
Escondem. Não sofre, ninguém quer queijo ou leite,
mãe ortodoxa.

Choraste o destino de teu fiel companheiro,
Surrado como um cão, alvejado nas costas,
Torturado ou então atirado em masmorras.
Coração ardente, firme, duro e altaneiro
- viajor amigo -
Voltou mutilado, morreu em teu regaço,
mãe ortodoxa.

Junto às cinzas de tua casa jazem os filhos,
Garganta cortada, chamam pela mãe, choram
Junto de seus avós e na vala estertoram
Com medo da cova úmida. E teus lábios
- cova maldita -
O silêncio cerra com trevas e umidade,
mãe ortodoxa.

Não afoga tua dor, infeliz, retesada,
Sombria. Deixa que tua mágoa pelo mundo
Durante séculos ecoe, antiga, funda.
Que ouçam tuas lembranças. Silenciosa, pálida,
- que dor profunda -
38

Agora coberta de auréola de martírio,
mãe ortodoxa.

(Numa aldeia sérvia incendiada junto a Vrginmost, janeiro de 1943)






























39

Archibald MacLeish (EUA 1892 – 1982)

Durante a Primeira Guerra Mundial foi motorista de ambulância, como seu amigo
Hemingway e outros escritores norte-americanos, passando depois para a
artilharia, aonde chegou a capitão. Durante a II Guerra trabalhava como diretor da
Biblioteca do Congresso Americano, e ocupou cargos também no Departamento de
Guerra. Ajudou a formar a célula de pesquisa e informação do que viria a ser a CIA
(Central Inteligence Service). Macleish ganhou três prêmios Pulitzer por sua obra. O
poema aqui publicado saiu em livro em 1943.


Colóquio Entre os Estados

Tradução de Emílio Carrera Guerra

Há falatório por aí diz Illinois.
Há mesmo diz Iowa.
Falatório no vento leste diz Illinois.
Falatório sobre o que? diz Dakota diz Kansas diz Arkansas.
Não consigo atinar: é longe muito ao leste diz Michigan.

A leste dos galos diz Indiana.
A leste dos
Cantos matinais dos galos diz Ohio.
A leste diz York.
Mais a leste diz Connecticut: a leste.
Ainda a leste daqui diz Massachussetts.
É a leste do Quoddy diz Maine mas estou ouvindo.
Ouves
o que? diz Texas.
O que é que ouves? diz Virgínia.
Não estou bem certo diz Maine. Há ressaca nos recifes.
O gelo se acumulou nos caldeirões de Penobscot.
Presta atenção diz Oregon.
Limpa os ouvidos diz Kentucky.

Não percebo bem diz Maine. Há muita cerração.
Sinos em Old Orchard. Trompas em Ogunquit.
Presta atenção diz Mississipi.

Tenta ouvir diz Texas.
Inclina o ouvido a sotavento diz Massachussetts.
Falam alto diz Maine. É uma falação –
Grande como um bezerro na cerração.
Explica isso diz Arkansas.
É fala suja diz Maine. É pura prosa.
Falam mal de que? diz Nebraska.
Mal de nós.
O que falam de nós? diz Kentucky diz Texas diz Idaho.
40

Acho que não gostam de nós diz Maine.
Vamos
conta diz Connecticut.
Peço-te diz New Hampshire.
Falam que temos maus costumes diz Maine.
Isso mesmo
diz Kansas.
Passa pro meu lugar diz Michigan.
É de nossa maneira de casar diz Maine. Não escolhemos.
Mal nos topamos já nos misturamos. Casamo-nos
Com as irlandesas atraentes e sapecas.
Casamo-nos com as espanholas de olhos noturnos.
Casamo-nos com as inglesas de ar sarapantado.
Casamo-nos com as louras suecas; com as italianas trigueiras;
Com as alemãs de joelhos grossos; com as mexicanas
Magras ao sol com seus penduricalhos sonoros;
Com as chilenas para ter sorte; com as judias por lembrança; com as escocesas
Altas como um homem – prateadas como um salmão;
Com as francesas de habilidosos dedos e longos amores.
Falam que nos casamos com muita gente diz Maine; muito variada.
Dizem que temos sangue ruim; que somos mestiços.

É isso que dizem diz Texas.

É isso que estão dizendo.

O que põem eles na sopa diz Arkansas; o que costumam comer?
O que é que tanto os apoquenta? diz Maryland.

Será que não são homens?
Não podem fazer a coisa com estrangeiros? diz Alabama.

Serão tímidos? diz Missouri.

Ou o que? diz Montana.

Ouço falarem
que são raça pura diz Maine; que são um povo superior.

Já viram eles nossos filhos? diz York; nossas mocetonas
De peito elegante e pequeno como o das egípcias
De pernas longas e canelas delicadas
De pulsos flexíveis e finos, da grossura de três dedos –
O jeito como elas andam mundo afora com seus delgados calcanhares?
Pode-se distingui-las em qualquer parte; mostrá-las em qualquer país
Pelo porte da cabeça e pelo torneio dos calcanhares quando andam;
A cabeça, a mais erecta: a mão, menor de todas.
Já disputaram corrida com os nossos rapazes, diz Michigan – ligeiros como cobras?
No gatilho, rápidos como a codorniz; incansáveis andarilhos;
41

Latagões vigilantes no comando; comandados audazes;
Bom fôlego na reta de chegada. Já os derrotaram?

Ouço que não diz Maine. Dizem que somos
Mestiços; eles não vão conosco.

É não é? diz Kansas.
Já viram eles nossas cidades? diz Kansas; nosso trigo;
Nossos trens de carga nas Montanhas Rochosas;
Nossas estradas de quatro pistas; nossos aviões
Prateando sobre os Alleghenys, sobre os Lagos
Sobre a floresta enorme, as altas espigas, os cavalos –
Prateando sobre o lençol de neve; sobre a ressaca?
Já viram eles nossas fazendas, diz Kansas, e quem as lavra?
Já viram nossas cidades, diz Kansas, e quem as planeja?
Já viram nossos homens? diz Kansas.

Não ouço bem:
Ouço que temos sangue ruim diz Maine. É o que estão dizendo.

Quem diz, diz Missouri: quem está dizendo isso?

Donde vem, diz Montana: donde é?

Donde? quem? diz Georgia.

Não consigo atinar.
Direção leste: leste do Reno talvez.
O vento está virando diz Maine. Não posso atinar.

Leste do Reno: é isso mesmo diz Montana.

Os puros-sangues da margem do Reno diz Carolina.
O sangue que deixamos para trás diz Wisconsin.
O sangue que deixamos para trás quando partimos;
O sangue temeroso de viagens diz Nevada.
O sangue temeroso de mudanças diz Kentucky.
O sangue temeroso de estrangeiros diz Vermont: -
Sejam estrelas ou mulheres; das duas coisas.
O sangue que nunca suspirou por outro estranho: -
Por um escuro, diz Dakota, de estranhos cabelos.

Ficou em casa e casou-se com parentes diz Missouri.
Casou-se com primos que se pareciam com a mãe dele diz Michigan.
E é tudo; leste do Reno diz Wisconsin.
Sim é tudo diz Arkansas; isso é tudo –
Tudo, para os rapazes de puro sangue temerosos de estrangeiros.

Ressaca nos recifes diz Maine; gelo em Penobscot...
42

Há falatório diz Iowa.
Falatório diz Illinois.

Sinos em Old Orchard; sinos em Ogunquit...
Rumor de espigas ao vento diz Illinois.






























43

Dudley Randall (EUA 1914 – 2000)

O afro-americano Dudley Randall foi poeta e importante editor, pautando sua obra
poética pela causa negra e publicando diversos grandes autores afro-americanos.
Durante a Segunda Guerra, serviu no Exército, experiência que o inspirou a
escrever poemas tais como esses Epitáfios do Pacífico.


Epitáfios do Pacífico

Tradução de Matheus “Mavericco"

RABAUL.

Em Rabaul morri
Pela democracia.
Melhor era cair
No Mississipi.

**

PALAWAN.

Sempre pacífico,
Me enfiei entre
O amiguinho de revólver
E o de metralhadora.

**

NEW GEORGIA.

Eu amo meu lar.
O jeito é me calar.

**

NEW GUINEA.

A linguinha do mosquito
Leu uma historinha pra mim.

**

TARAWA.

Diga a eles que esta praia
Guarda parte do Brooklyn.
**
44

IWO JIMA.

Como óleo texano,
Ó meu sangue jorrando.

**

ESPIRITU SANTU.

Odiei armas,
Vendedor de armas
Que não se armava.

**

LUZON.

Esplêndidos contra a noite
Os holofotes, pegadas,
O fogo rubro das bombas
Enchendo o olhar
E os miolos.

**

BOUGAINVILLE.

Projétil
Na cavidade abdominal.
Ângulo: trinta e cinco graus.
Penetrou a pars pyrolica.
Desviada, pelo sternum.
Perfurou a auricula dextra.
Ferrou minha carreira médica.

**

VELLA VELLA.

Esta corda estrupiada
E essa daí, estuprada.

**

BORNEO.

Kil-
Roy
Aqui.
45

John Ciardi (EUA 1916 – 1986)

Natural de Boston, o descendente de italianos John Ciardi foi poeta, escritor,
crítico, editor e tradutor. Durante a guerra serviu na força aérea, tornando-se
artilheiro em um avião B-29. Suas experiências no conflito geraram o livro de
poemas de guerra Other Skies (1947). O tema da guerra continuou a repercutir em
toda a sua obra, como se vê neste poema aqui publicado. Em 1988 publicou-se
postumamente seu diário de guerra, Saipan.


O Dom

Tradução de Sammis Reachers

Em 1945, quando os guardas gritaram kaput
Josef Stein, poeta, saiu de Dachau
metade como numa ressurreição, embora sua outra metade
e 80 libras ainda continuem na sua sepultura invisível.

Então, lentamente, abriu a boca e primeiro
um caldo, e depois uma medicação, e depois
uma dieta, e com o tempo e a entrelaçada compaixão
ossos expostos foram enterrados de novo em carne,

e o milagre foi concluído. Josef Stein,
homem e poeta, levantou-se, caminhou, e até poderia
gerar, e o fez, e mais tarde morreu de outras causas
apenas parcialmente tributáveis à sua primeira morte.

Ele observou - com alguma surpresa no início -
que estranhos não poderiam dizer que ele havia morrido uma vez.
Ele voltou ao seu posto na biblioteca, bebeu sua cerveja,
publicou três poemas em uma revista francesa,

e foi muito gentil para o filho que finalmente era dele.
No decorrer de uma noite escreveu três proposições:
Que o inferno é a negação do comum. Que nada dura.
Que papel branco e limpo esperando debaixo de uma caneta

é um dom além da história e da mágoa e do céu.






46

Karl Shapiro (EUA 1913 – 2000)

Karl Shapiro teve seu livro V-Letter e outros poemas publicado nos EUA enquanto
ainda servia como soldado no teatro do Pacífico. O livro ganhou o Prêmio Pulitzer
de Poesia em 1945. Ao retornar da Guerra, foi eleito Poeta Laureado pela
Biblioteca do Congresso em 46 e 47. Desenvolveu sólida carreira como poeta,
professor e editor de poesia.


Trem de Tropas

Tradução de Sammis Reachers e Jorge Pinheiro

À nossa passagem a cidade se detém. Os trabalhadores
Levantam seus braços untados e nos saúdam e sorriem.
As crianças gritam como no circo. Os homens de negócios
Observam-nos esperançosos e prosseguem seu caminho medido.
E há mulheres de pé na porta estupefata de suas casas
Que se movem mais suavemente e parecem pedir nosso regresso,
como se uma lágrima que cegara o curso da guerra
Pudesse dissolver de uma vez nosso aço em seu doce desejo.

Fruto do mundo, ai, todos agrupados
pendurados como de uma cornucópia
em total camaradagem, com as caras amontoadas
Para pulverizar a cidade com assobios e olhares lascivos.
Uma garrafa se rompe nos postes
e uns olhos se fixam na rosa sorridente de uma dama,
Esticados como um elástico e estalam e beliscam
a boca desejosa do sabor de um beijo.

E através de horríveis continentes e dias,
nos arrastamos decididos, sujos e ligeiramente bêbados,
os bons maus rapazes de circunstância e azar,
cujos capacetes como cubos golpeiam a parede nua
de onde se retorcem os cadáveres de nossas mochilas
ao lado dos fuzis que só se parecem consigo mesmos.
E a distância se encolhe como um cinto apertado aperta o ombro e o mantém firme.

Eis um baralho de cartas; você que reparte,
dá-me sorte, um par de touros,
a sorte do novato, o valete zarolho
Ouros e copas são vermelhos, mas as espadas são negras e espadas são espadas
e paus são trevos-negros
Mas saque-me trunfos, recordações de paz. Isso exige razão e aritmética,
a sorte também viaja e nem todos regressam

47

Os trens levam aos barcos e os barcos à morte ou aos trens, e os trens à morte ou
aos caminhões, e os caminhões à morte, ou os caminhões conduzem à marcha, a
marcha à morte ou a sobrevivência que é nossa única esperança;
e a morte nos devolve aos caminhões e aos trens e aos barcos, porém a vida leva à
marcha, oh bandeira!, finalmente
o lugar da vida encontrado depois dos trens e da morte -
Brilhante anoitecer das nações depois da guerra.




























48

Randall Jarell (EUA 1914 – 1965)

O poeta, escritor e crítico literário Randall Jarell nasceu em Nashville, Tennessee.
Em 1942 deixou a faculdade para juntar-se à Força Aérea. Jarell tornou-se
operador de torres de artilharia em aviões como o B-17 e o B-24, função que ele
considerava profundamente “poética”. O pequeno poema abaixo faz referência a
esse fato, e é possivelmente o mais famoso poema de guerra americano do período
da SGM. Suas experiências de guerra redundaram em dois livros: Little Friend,
Little Friend (1945) e Losses (1948).


A Morte do Artilheiro da Torre Giratória

Tradução de Pedro Mexia

Do sono de minha mãe aterrei no Estado
e agachei-me no seu ventre até que o meu casaco molhado congelou.
Seis milhas acima da terra, desprendido do seu sonho de vida,
acordei com a tenebrosa artilharia e com os caças de pesadelo.
Quando morri, os meus pedaços foram lavados da torre com uma mangueira.



















49

Stanley Kunitz (EUA 1905 – 2006)

Stanley Kunitz nasceu em Worcester, Massachussetts, descendente de judeus
lituanos. Em 1943 foi convocado pelo Exército Americano. Objetor de consciência,
serviu como não-combatente em Washington. Em 1944 publica seu livro
Passaporte para a Guerra. Vencedor do Pulitzer em 1959, o poeta foi duas vezes
eleito Poeta Laureado pela Biblioteca do Congresso Americano.


Considerações Junto a Uma Caixa de Correio

Tradução de Zulmira Ribeiro Tavares

Quando eu me coloco no centro
da loucura daquele homem,
Profundamente em seu trauma, como no fosso
de uma chaga,
Meus ancestrais afastam-se de meus ossos
Americanos.
Lá está minha mãe num xale trançado, e
lá,
Sem dúvida, meu pai apanhando o seu fardo
Para a viagem de volta através daqueles
terríveis anos
Rumo ao inverno do olhar em cólera.
Nossa geração se foi, há dois dias
por avião,
Minha casa esbulhada, meus amigos
dispersos,
Meus dentes e orgulho golpeados, meu
povo joguete
Dos caçadores da humana pele nas
pocilgas da Europa,
As incríveis criaturas de um
histérico sonho
Avançando com machadinhas enterradas
em seus crânios
Para arrancarem o deus às máquinas.

Serão estes os cidadãos do novo
estado
Ao qual os escolhos do continente
aspiram;
Ou a poderosa linhagem de uma geração
à morte, corrupta
e untada de flama, com fluido em seus
lábios,
como se houvesse sido uma alma
entregue ao petróleo?
50


Como iremos nós não criar esta
energia ilegítima?

Agora espero sob a cicuta à beira
da estrada
Pelo carteiro ruivo com a
sorridente mão
Que me irá trazer o passaporte para a guerra.
Com familiaridade seu carro muda a marcha
Na altura da curva; ele encosta no passeio
ao meu lado; o dia.
Faz soar a sua metade; penso em Pavlov e nos seus
cães
E na inscrição gravada na ampla
moldura do seu cérebro:
“Sequência, consequência, e uma outra vez
consequência.”





















51

T. S. Eliot (EUA/Ingaterra 1888 – 1965)

Um dos maiores e mais influentes poetas do século XX, o modernista norte-
americano (naturalizado inglês) Thomas Stearns Eliot recebeu o Prêmio Nobel em
1948. O trecho aqui publicado é pertencente a quarta e última parte (Little
Gidding) do poema Quatro Quartetos (que o próprio Eliot considerava sua obra-
prima), e foi escrito em 1942. Nele, o poeta imagina um encontro com Dante nas
ruas e ruínas de uma cidade bombardeada. Eliot serviu como voluntário civil numa
brigada de antiataque aéreo, durante a Guerra. Little Gidding é o nome de uma
igreja anglicana localizada no distrito de Huntingdonshire, na Inglaterra.


Quatro Quartetos

Tradução de Ivan Junqueira

Little Gidding

II

A cinza sobre um velho é toda a cinza
Que nos deixaram as rosas incendidas,
A poeira no ar suspensa determina
O sítio onde uma história teve fim.
A poeira aspirada era uma casa,
- A parede, o lambril e o rato escasso.
A morte do esperar e do desesperar,
Esta é a morte do ar.

Inundação e seca desabrocham
Dentro da boca, sobre os olhos.
Água morta e morta areia tentam
Levar vantagem na contenda.
O ressequido solo desventrado
Boquiabre-se ante o vão trabalho
E ri sem alegria dessa guerra.
Esta é a morte da terra.

A água e o fogo sucederam
À vila, ao pasto, à urze anônima.
A água e o fogo escarneceram
Do sacrifício que repudiamos.
A água e o fogo escarvarão
Os podres fundamentos que olvidamos
Do santuário e de seu coro.
Esta é a morte da água e do fogo.

A uma hora incerta que antecede a aurora
52

Vizinha ao término da noite interminável
No recorrente fim do que jamais se finda
Após o negro pombo de flamante língua
Perder-se no horizonte de sua fuga
Enquanto as folhas mortas se moviam
Vibrando ainda como lâminas de zinco
Sobre o asfalto onde outro som nenhum se ouvia
Entre três bairros de onde a fumaça emergia,
Alguém notei que andava, trôpego e apressado,
Como se vindo a mim tal as folhas metálicas
Que a brisa urbana da alvorada embala.
E ao mergulhar naquele rosto cabisbaixo
Esse pontiagudo olhar inquisidor
Com que desafiamos o primeiro estranho
Surgido na penumbra agonizante
Captei o olhar fugaz de algum extinto mestre
A quem outrora houvesse conhecido,
Esquecido, lembrado após sem nitidez,
Como a um só e a muitos de uma vez;
Sob o castanho sazonado das feições
Os olhos de um complexo e familiar espectro
A um tempo só distinto e incognoscível.
Gritei, cumprindo assim duplo papel,
E uma outra voz ouvi bradar: “O quê!
Tu por aqui?” Conquanto ali não estivéssemos.
Contudo eu era o mesmo, embora um outro fosse
- E ele um rosto ainda em formação;
Mas bastaram as palavras para que aceitássemos
O que já precedido elas haviam.
E assim, obedientes ao vento comum,
Demais estranhos para não nos entendermos,
Concordes nesse instante de erma interseção,
De em parte alguma estarmos, antes e depois,
Em ronda morta o calçamento percorremos.
Disse-lhe então: “É natural o espanto
Que sinto, embora a naturalidade
Seja causa de espanto. Fala, pois: talvez
Eu não possa entender, ou recordar sequer.”
E ele: “Não quero repetir o que esqueceste
Sobre meus pensamentos e doutrinas.
Tais coisas já cumpriram seu destino: deixa-as.
Faze o mesmo com as tuas, e roga aos outros
Que as perdoem, como te rogo que perdoes
A maus e bons. Comido foi o fruto
Da última estação, e a besta empanzinada
Há-de atirar seus coices contra o cocho.
Pois as palavras do ano findo só pertencem
À linguagem do ano findo, e as palavras
Do ano próximo outra voz aguardam.
53

Mas, assim como agora a estrada se abre limpa
Ao intranquilo e peregrino espírito
Entre dois mundos que chegaram a parecer
Demasiado iguais, assim descubro agora
Palavras que jamais pensei dizer
Em ruas que jamais pensei revisse
Quando meu corpo abandonei sobre uma praia.
Posto que nosso fim era a linguagem,
E a linguagem desde sempre nos levara
A purificar o dialeto da tribo
E a instigar a mente para a antevisão
E a pós-visão, deixa-me revelar as dádivas
À velhice reservadas, para que seja
Coroado o esforço de tua vida inteira.
Primeiro, o enregelado atrito dos sentidos
Que expiram sem magia e nada prometer,
Senão a amarga insipidez de um fruto umbroso
Quando alma e corpo, espedaçados, principiam
A tombar cada qual para o seu lado.
Segundo, a lúcida impotência do ódio
Ante a loucura humana, e a laceração do riso
Perante aquilo que cessou de divertir-nos.
Enfim, a lacerante dor de reviver
O que já concluíste, e o que foste; a vergonha
De motivos tarde apenas revelados
E a consciência de todas as coisas mal feitas
Ou feitas simplesmente em prejuízo alheio
Que antes tomaste por virtuosas práticas.
Nesse momento é que se arranca o aplauso
Dos tolos, e a honra se macula.
Erro após erro, o exasperado espírito
Prosseguirá, se revigorado não for
Por este fogo purificador
Onde mover-te deves como um bailarino.”
Raiava o dia. Na desfigurada rua
Ele deixou-me, com uma esquiva despedida,
E evaporou-se ao brônzeo som das trompas.








54

Louis Aragon (França 1897 – 1982)

Poeta e romancista, Aragon destacou-se como membro do movimento surrealista,
ao lado de Breton e Éluard. Durante a Guerra foi um ativo poeta da resistência
francesa, sendo membro do Partido Comunista. O poema aqui transcrito foi
publicado originalmente em 1941, ano da invasão (e derrota) da França pelas
tropas de Hitler.


Os lilases e as rosas

Tradução de Marcela Vieira

Oh mês das florações e das metamorfoses
Maio que se foi sem nuvens e Junho apunhalado
Nunca esquecerei os lilases nem as rosas
Nem os que a primavera em suas copas guardou


Nunca esquecerei a ilusão trágica
O cortejo os brados a multidão e o sol
Os tanques de paixão as doações da Bélgica
O ar tremente e o rumo ao enxame de abelhas
O triunfo imprudente que preza o conflito
O sangue que em carmim prefigura o beijo
E os que envoltos de lilases por um povo ébrio
De pé morrerão nos torreões


Nunca esquecerei os jardins da França
Parecidos aos missais dos findados séculos
Nem a agitação das noites o enigma do silêncio
As rosas ao longo do caminho percorrido
A resistência das flores ao vento do pânico
Aos soldados que passavam numa onda de medo
Às bicicletas delirantes aos irônicos canhões
À deplorável vestimenta dos falsos acampados


Mas não compreendo como esse turbilhão de imagens
Conduzem-me sempre ao mesmo fadário
À Santa Marta Um general Negras ramagens
Uma cidade normanda à beira da mata
Tudo se cala O inimigo na sombra descansa
Nesta noite anunciaram a rendição de Paris
Nunca esquecerei os lilases nem as rosas
E nem aqueles dois amores perdidos


55

Buquês do primeiro dia lilás lilases de Flandres
Brandura da sombra cuja morte os rostos disfarça
E vossos buquês da retirada suaves rosas
Cores de incêndio distantes rosas de Anjou






























56

Paul Éluard (França 1895 – 1952)

Grande nome da poesia francesa do século XX, Éluard foi inicialmente dadaísta, e
posteriormente o poeta maior do surrealismo. Engajado na Resistência Francesa
durante a Guerra, foi dos seus mais destacados poetas, ao lado de Louis Aragón,
tendo escrito poemas como ‘Liberdade’ aqui publicado, poema que circulava
clandestinamente entre os insurgentes e teve até mesmo cópias lançadas de aviões
ingleses, por toda a França.


Liberdade

Tradução de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade

Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome

Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome

Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome

Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome

Nas maravilhas das noites
No pão branco de cada dia
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome

Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome
57


Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome

Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome

Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome

Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome

No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome

Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome

No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome

Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
58

Escrevo teu nome

Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome

Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome

Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade
































59

Coragem

Tradução de António Ramos Rosa

Paris tem frio Paris tem fome
Paris já não come castanhas na rua
Paris anda vestido de velha
Paris dorme de pé sem ar no metropolitano
Ainda mais sofrimento é imposto aos pobres
E a sabedoria e a loucura
De Paris infeliz
É o ar puro é o fogo
É a beleza é a bondade
Dos seus trabalhadores famintos
Não peças socorro Paris
Estás vivo com uma vida sem igual
E por detrás da nudez
Da tua palidez da tua magreza
Tudo o que é humano se revela nos teus olhos
Paris minha bela cidade
Fina como uma agulha forte como uma espada
Ingênua e sábia
Tu não suportas a injustiça
Para ti só existe a desordem
Vais liberta-te Paris

Paris bruxuleante como uma estrela
Nossa esperança sobrevivente
Vais liberta-te da fadiga e da lama
Irmãos tenhamos coragem
Nós que não usamos capacetes
Nem botas nem luvas nem somos bem educados
Um raio se acende em nossas veias
Os melhores de nós morreram por nós
E eis que o sangue dos que morreram nos volta ao coração

E de novo é a manhã uma manhã de Paris
O extremo da libertação
O espaço da Primavera que nasce
A força idiota está na mó de baixo
Estes escravos nossos inimigos
Se compreenderem
Se forem capazes de compreender
Erguer-se-ão.




60

A Aurora Dissolve os Monstros

Tradução de António Ramos Rosa

Ignoravam
que a beleza do homem é maior do que o homem

Viviam para pensar pensavam para se calarem
Viviam para morrer eram inúteis
Ocultavam a sua inocência na morte

Tinham posto em ordem
sob o nome de riqueza
sua miséria sua bem-amada

Mastigavam flores e sorrisos
Só encontravam um coração na ponta das carabinas

Não percebiam a injúria dos pobres
Dos pobres amanhã sem problemas

Sonhos sem sol tornavam-nos eternos
Mas para que a nuvem se transformasse em lama
Desciam deixavam de fazer frente ao céu

A noite do seu reino a sua morte a sua bela sombra miséria
Miséria para os outros

Esqueceremos estes inimigos indiferentes
Em breve uma multidão
Repetirá baixinho a chama clara
A chama para nós dois unicamente paciência
Para nós dois em toda a parte o beijo dos vivos.











61

Pierre Emmanuel (França 1916 – 1984)

Noël Mathieu, poeta e jornalista francês de inclinação cristã, fez-se mais conhecido
pelo seu pseudônimo, Pierre Emmanuel. Membro da Resistência Francesa, durante
todo o período de Guerra publicou diversos trabalhos, sendo, ao lado de Char,
Aragon e Éluard, uma das principais vozes poéticas da Resistência. No pós-guerra
ocupou diversos cargos de importância, e veio a ocupar a cadeira número 4 da
Academia Francesa.


Dia de Cólera

Ó meus irmãos nas prisões vós estais livres
livres de olhos queimados de corpos acorrentados
de rosto esfacelado de lábios mutilados
sois aquelas árvores fortes e torturadas
que crescem com mais força depois que as podaram
e sobre todo o território do humano destino
o vosso olhar de homens verdadeiros é ilimitado
o vosso silêncio é a terrível paz do éter.

Mais alto que os tiranos enrouquecidos de mutismo
está a nave silenciosa das vossas mãos
mais alto que a ordem irrisória dos tiranos
está a ordem das nuvens e a vastidão dos céus
está a respiração dos montes tão azuis
estão os livres horizontes da oração
estão as vastas frontes que não vergam
estão as árvores na liberdade da sua essência
estão as messes infindáveis do devir
e nos tiranos está uma angústia fatal
que é a tremenda liberdade de Deus.











62

René Char (França 1907 – 1988)

O jovem René Char inicialmente foi um filiado ao surrealismo, ao lado de Breton e
Éluard, tendo logo se afastado do movimento. Durante a Guerra, o poeta engaja-se
na Resistência, onde foi figura de destaque, adotando o codinome de Capitão
Alexandre. Sua obra então sofre um hiato, pois o autor recusa-se a publicar
durante a Ocupação alemã. Publicação que é retomada ao fim do conflito, já então
tendo sua obra profundamente marcada pelo mesmo.


Carta do 8 de Novembro*

Tradução de Margarida Vale de Gato

Os pregos no nosso peito, a cegueira transindo os nossos ossos, quem se oferece
para os subjugar? Pioneiros da velha igreja, afluência do Cristo, ocupais menos
espaço na prisão da nossa dor do que o rasto de um pássaro na cornija do ar. A fé!
O seu beijo afastou-se horrorizado deste novo calvário. Como poderia o seu braço
conservar desobstruída a nossa cabeça, ele que vive, cerceado dos frutos do seu
próximo, da caridade de uma fechadura inexata? O nojo supremo, aquele a quem a
própria morte recusa a sua última baforada, retira-se, disfarçado de mestre.
A nossa casa há-de envelhecer apartada de nós, poupando a memória do nosso
amor deitado intacto na trincheira da sua única gratidão.
Tribunal implícito, ciclone vulnerário, tão tarde nos entregas o alvo e a mesa
onde a fome foi a primeira a entrar! Sou hoje semelhante a um cão raivoso
acorrentado a uma árvore cheia de gargalhadas e de folhas.




















*8 de Novembro de 1942, data do desembarque dos Aliados no Norte da África,
marcando a grande virada na história da Resistência Francesa (N.T.).
63

Pobreza e Privilégio

Tradução de Y. K. Centeno

II

... Não quero esquecer nunca que me obrigaram a ser – por quanto tempo? – um
monstro de justiça e de intolerância, um simplificador emparedado, um
personagem ártico que se desinteressa do destino de todos aqueles que não se lhe
unem para abater os cães do inferno. As prisões em massa de israelitas, as sessões
de escalpe no comissariado, os raids terroristas dos polícias hitlerianos sobre as
aldeias estarrecidas, levantam-me do chão, dão ao cieiro do meu rosto uma
bofetada de ferro fundido vermelho. Que inverno! Paciento, quando durmo, num
túmulo que os demônios enfeitam com punhais e tumores.
O humor já não me salva. O que me deprime, e a seguir me arranca a mim
mesmo, é que no interior da nação a que se cortou a crista por meio de correntes
discordantes, seguidas de poderes grotescos e relativamente complacentes –
excetuando a repressão da agitação operária e as cruéis expedições coloniais,
adaga que o ódio de classes e a eterna cupidez enterram a espaços nalguma carne
previamente excomungada – possam ser tão numerosos os indivíduos pensantes
que se entregam com galhardia à esparrela do torcionário e se alistam nas suas
legiões. Nenhuma obra de exterminação dissimulou tão mal os seus objetivos como
esta. Não compreendo, e se compreendo, aquilo que descubro é aterrador. Nesta
medida o nosso globo não seria, hoje à noite, mais do que a bola de um grito
imenso na garganta do infinito esquartejado. É possível e é impossível.

1943



















64

O Verdelhão

Tradução de Y. K. Centeno

3 de Setembro de 1939*

O Verdelhão entrou na capital da aurora.
A espada do seu cântico trancou o triste leito.
Tudo terminou para sempre.






De Sós Permanecem



























*Neste dia, França, Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia declaram guerra à Alemanha, que
dois dias antes invadira a Polônia, dando início à Segunda Guerra (N.O.).
65

Giorgos Seferis (Grécia 1900 – 1971)

Poeta grego vencedor do Prêmio Nobel de 1963. O poema aqui publicado (datado
de 1939) é um prenuncio do que estava por vir, sobre a sua pátria e sobre toda a
Europa, nos anos imediatamente seguintes. Com a deflagração da Segunda Guerra,
ele acompanhou o governo grego no exílio por diversos países, num tour que
começou na ilha de Creta e terminou na Itália. Ao fim da guerra tornou-se
diplomata.


O ÚLTIMO DIA

Tradução de José Paulo Paes

Era um dia nublado. Ninguém decidia.
Soprava uma brisa leve. "Não é o vento leste, é o siroco" disse alguém.
Alguns magros ciprestes espetados na encosta e o mar
cinzento com lagoas de luz um pouco adiante.
Os soldados apresentavam armas quando começou a chuviscar.
"Não é o vento leste, é o siroco" foi a única decisão que se escutou.
E no entanto sabíamos que na manhã seguinte não nos restaria
mais nada, nem a mulher que ao nosso lado bebe o sono,
nem a lembrança de que um dia fomos homens,
mais nada na manhã seguinte.

"Este vento traz à mente a primavera", dizia a amiga
que passeava comigo a olhar para longe "a primavera
que de repente fez baixar o inverno sobre o mar fechado.
Tão inesperado. Tantos anos se passaram. Como morreremos?"

Uma marcha fúnebre zanzava pela chuva fina.
Como morre um homem? Estranho que ninguém pensasse nisso.
E para os que pensaram era como recordações de velhas crônicas
do tempo dos cruzados e da batalha naval de Salamina.
E no entanto a morte é coisa que acontece; como morre um homem?
E no entanto cada um recebe a sua morte, a sua própria morte, que não pertence a
mais ninguém
e a vida é esse jogo.
Baixava a luz sobre o dia nublado, ninguém decidia.
Na manhã seguinte não nos restaria nada: rendição total; sequer as nossas mãos;
e nossas mulheres servindo aos estrangeiros, nossos filhos nas pedreiras.
Passeando comigo minha amiga cantava uma canção estropiada:
"A primavera, o verão, raiás..."
Vinham à lembrança velhos mestres que nos deixaram órfãos.
Passou um casal a conversar:
"Eu me cansei da tarde, vamos para casa
vamos acender a luz de casa."

Atenas, fevereiro de 39
66

Odisséas Elýtis (Grécia 1911 – 1996)

Um dos maiores nomes da grande poesia grega moderna, Elýtis, Prêmio Nobel de
1979, foi desde jovem impactado pela corrente surrealista, notadamente através
de Paul Éluard. Durante a guerra, serviu na resistência albanesa, experiência que o
levou a escrever o livro Canto Heroico e Funeral para o Segundo-Tenente
Desaparecido na Campanha da Albânia, do qual publicamos aqui alguns trechos.


Do Canto Heroico e Funeral para o Segundo-Tenente Desaparecido na
Campanha da Albânia

Tradução de José Paulo Paes

III
Agora ele jaz sobre o capote chamuscado
Com uma brisa detida no cabelo imóvel
Com um raminho de olvido em seu ouvido esquerdo
Parece um jardim abandonado de repente pelos pássaros
Parece uma canção amordaçada nas trevas
Parece o relógio de um anjo que parasse
Quando os cílios diziam “até logo rapazes”
E a perplexidade fez-se pedra

Ele jaz sobre o capote chamuscado
À sua volta negros séculos
Latem com esqueletos de cães contra o silêncio horrível
E as horas que se tornaram pétreos pombos outra vez
Ouvem com atenção:
Mas o riso foi queimado, a terra ensurdecida
Mas ninguém ouviu o derradeiro grito
O mundo todo esvaziou-se ao derradeiro grito

Debaixo dos cinco cedros
Sem quaisquer outros círios
Ele jaz sobre o capote chamuscado;
Vazio o capacete, sangue e lama
Junto ao braço semiconcluído
E entre as sobrancelhas
O pequeno amargo poço, impressão digital do fado
O pequeno amargo poço rubro-negro
O poço onde a memória esfria!
Oh não olhem oh não olhem para onde lhe
para onde lhe fugiu a vida Nem digam como
Nem digam como subiu alto a fumaça do sonho
Assim então um momento Assim então um momento
Assim então um momento deixou o outro
E o sol eterno assim de súbito o mundo.

67


IV
Oh sol não eras sempiterno?
Pássaro não eras o instante de alegria que não cessa?
Relâmpago não eras destemor de nuvem?
E tu jardim odeão das flores
E tu crespa raiz da magnólia
Assim enquanto a árvore sacode-se na chuva
E o corpo vazio enegrece o destino
E um doido se flagela com a neve
E os dois olhos estão prestes a chorar –
Por que, pergunta a águia, onde está o bravo moço?
E as aguiazinhas espantadas, onde está?
Por que, pergunta, a suspirar, a mãe, onde está o meu filho?
E as mães todas, surpresas, onde está o menino?
Por que, pergunta o homem, onde está o teu irmão?
E os companheiros todos, estranhando, onde está o pequenino?
Pegam a neve, a febre queima
Pegam a mão, está gelada
Vão morder o pão, goteja sangue
Por que por que por que a morte não se aquenta
Para que um pão assim tão ímpio
Por que um céu como este onde outrora o sol morava?


XI
Ao longe tocam sinos de cristal –
Soa o momento mais exato deste mundo:
Liberdade,
Em meio às trevas os gregos mostram o caminho:
LIBERDADE
Por ti e de alegria há de chorar o sol
Soa o momento mais exato deste mundo!

Com passo matinal sobre a relva a crescer
Vai ele subindo o tempo todo;
Brilham agora à sua volta os anseios que outrora
Na solidão do pecado se perdiam;
Em torno do seu coração flamejam os anseios;
Pássaros saúdam-no e lhe mostram irmãozinhos
Homens o chamam e lhe mostram companheiros
“Pássaros, meus pássaros, aqui termina a morte!”
“Companheiros, companheiros meus, é aqui que a vida começa!”
O orvalho da beleza do céu cintila em seus cabelos.

Ao longe tocam sinos de cristal
Amanhã, amanhã, amanhã: a Páscoa do Senhor!

68

Tasos Leivaditis (Grécia 1922 – 1988)

O ateniense Tasos Leivaditis foi um integrante da Resistência grega, durante a
ocupação de seu país pelas tropas nazistas. Após a guerra foi deportado, em
virtude de suas atividades esquerdistas. De volta à Grécia, em 1951, foi preso pelo
regime direitista, tendo seu livro ‘Sopra o Vento nas Esquinas do Mundo’ censurado.
O poeta foi absolvido em 1955. O poema aqui publicado saiu em livro em 1952.


Esta estrela é para todos nós (excerto)

Tradução de Manuel Resende

I
Anoitecia depressa.
O vento vinha de longe cheirando a chuva
e guerra.
Os comboios cheios de soldados passavam rápidos
mal conseguíamos vê-los por detrás das vidraças.
Fechavam o horizonte grandes capacetes de aço.
Rebrilhava o asfalto molhado. Por detrás das janelas
as mulheres debulhavam umas favas secas em silêncio.
E os passos da sentinela
roubavam o silêncio à rua e o calor ao mundo.
Vá, volta os teus olhos, que eu quero fitar o céu,
dá-me a tua mão, que eu quero apertar a minha vida.
Como estás pálida, minha amada!
Como se a noite nos batesse à porta. A tua mãe,
arrastando as grossas socas, foi abrir.
Ninguém. Ninguém, repetiu. Será o vento.
Nós, apertamo-nos um ao outro. É que sabíamos,
é que sabíamos, minha amada, que não era o vento.
Milhares de humanos morriam lá fora da nossa porta.
Olha como o nosso bairro está deserto, minha amada.
O vento entra e sai pelas brechas das casas
as paredes umedecem, incham e depois caem em ruínas.
Para onde foram tantos vizinhos sem se despedirem,
deixando o banco de pedra meio por caiar
o sorriso meio por acabar.
É como se alguém dobrasse a esquina e nunca mais o víssemos.
Como se disséssemos bom dia e caísse de súbito a noite.
Mas para onde vai esta gente toda?
Também aquele amolador louro que cantava pelas manhãs
foi fuzilado
Também o do quiosque que nos dava o troco sorrindo
foi fuzilado
e o rapaz que pesava o carvão - lembras-te dele, a sério?,
foi fuzilado.
A carroça ficou de pernas para o ar na esquina.
69

A amada dele agora há-de fitar de frente a noite
Há-de dobrar-se como um cão a cheirar a camisa dele.
E o carteiro que com a voz abria as janelas
foi fuzilado.
Vá, vá, afasta a tua boca vermelha de mim, Maria.
Tenho frio.
Esta noite, em todas as paredes é fuzilada a vida.

Minha amada
amo-te muito mais do que posso dizer com as palavras
queria morrer contigo, se alguma vez morresses,
e, no entanto, minha amada,
não poderia
não poderia já amar-te como já te amei.
Fechávamos a porta atrás de nós e tínhamos frio
fechávamos as janelas e tínhamos mais frio
e ao voltar-me para ver os teus olhos
vi os olhos da vizinha a quem mataram quatro filhos
e ao estender a minha mão para a tua
era como se roubasse o pão da mão dos que tinham fome.
Abraçavas-me
e eu por cima do teu ombro olhava a rua.
E quando queríamos falar, calávamo-nos de súbito.
Escutávamos da janela aberta lá ao longe
os passos dos moribundos.
Como pode o nosso cobertor aquecer tanto gelo,
Como pode a porta proteger-nos de toda esta noite?
Entre nós os humanos deitaram a sua grande sombra.
Que vai ser de nós, amada?

Amada minha, ouves?
Não, não é o vento, vem de mais longe.
Dir-se-ia que milhares de passos descem as ruas,
Milhares de botas martelam os seus pregos no asfalto.
Aonde vão? Será que podem ir-se embora?
Como posso viver longe de ti, minha amada,
Como posso acender um candeeiro senão para te ver?
Como posso fitar uma parede por onde não perpassa a tua sombra?
Como posso apoiar-me numa mesa onde não apoias as mãos?
Uma fatia de pão que não repartimos, como posso tocá-la?
Mas não para de crescer este ruído.
Não se consegue dormir. Não há canto onde a gente se sente.
Não, não é o vento, vem de mais longe.
Vá, minha amada, corta o lençol,
rasga o teu vestido e tapa as brechas.
As pessoas enchem à pressa as trouxas com todos os seus pertences
porque todos os seus pertences não são mais
do que um pouco de pão, uma recordação e o seu amor à vida.
Depois, beijam-se e desaparecem na noite.
70

Depois ficamos nós. Onde ficamos? Porque ficamos?
Como hei-de abrir uma porta se não for para ir ter contigo?
Como hei-de atravessar uma soleira se não for para te encontrar?
Não, não podia viver longe de ti, amada minha.
Mas esta noite em todas as esquinas esperam-nos as pessoas.
Dá-me a tua boca por um momento. E prepara a minha trouxa, Maria.





























71

Gerrit Kouwenaar (Holanda 1923 - 2014)

Durante a Segunda Guerra Mundial, publicou livros de forma clandestina, além de
editar jornais subversivos. Foi preso, sendo liberado seis meses depois, vindo
então a entrar na clandestinidade. Após a guerra dedicou-se a seu trabalho de
escritor e tradutor.


Terceiro Canto Heroico

Tradução de August Willemsen e Egito Gonçalves

Na véspera da paz mandou-nos o nosso omnipotente
pai major a mim e a mais seis para o silêncio
da morte noturna, rumo
ao inimigo supostamente derrotado

sete batedores na fronteira
de quase tudo: guerra carne vida, caindo
em meio da névoa na armadilha: apenas eu
como por milagre fui poupado

enterraram-se no local
entre eles o meu companheiro inseparável
de quatro anos de trincheira

seis meses mais tarde, já primavera, eu estudava
ciências humanas na cidade, bebia cerveja, comia
bifes, mulheres, veio
o pai dele, disse: você
está vivo, era
companheiro dele, sabe
onde está sepultado, então ajude-me
a desenterrá-lo, é proibido, bem sei, mas é claro
que ele tem de ficar conosco no jardim

que podia eu fazer, fiz, cavei,
desenterrei-o com o pai, reconheci-o
pelo número da plaquinha, ele pendia
desengonçado, tépida massa mole, minha mão
afundou-se no cadáver até ao punho, tão assustada
com a matéria que desastradamente
fez um buraco

após o enterro, ele clandestino na sua própria terra, estava eu
na sala de jantar deles com a mãe a irmã o pai, bebendo
um copinho de lágrimas, conversando
em torno do seu retrato de menino
e contava: íamos juntos agachados, falávamos
72

em voz baixa acerca de um futuro melhor, fumávamos
juntos um cigarro belga, juntos não suspeitávamos
nenhum perigo / ele era
soldado corajoso, obediente
com dignidade, amava
mozart, wagner a pátria, prestava atenção
ao sussurro das suas árvores / escondi
pouco da sua verdade, só omiti
o indizível putas e pulgas e de que modo
estraçalhávamos como carniceiros

pois é, era primavera no jardim
onde o enterramos sussurrava
o plátano, árvore fazedora de mãos, no ar
havia algo perfeito, acabado, per-
feito finalmente, até a lua
parecia novinha, sua irmã carnal estava suspensa
dos meus lábios, lá pelo fim de Abril
num corpo apertado, a groselheira
perfumava a terra, a minha mão tocou-lhe
os seios, a minha mão

tocou-lhe os seios e era
a mesma tépida massa mole, a mesma
tépida massa mole, o mesmo material
simplesmente o mesmo, e era
esta mesma mão, esta
















73

Jan Campert (Holanda 1902 – 1943)

Poeta, jornalista, crítico e escritor, durante a guerra Jan Remco Theodoor Campert
foi preso em um campo de concentração, por ajudar judeus. Acabou falecendo ali,
em 1943. Seu poema mais conhecido é De Achttien Dooden (Os Dezoito Mortos). O
poema foi escrito em 1941 e publicado clandestinamente em 1943, em forma de
cartão, para arrecadar dinheiro para ajudar crianças judias. Ele fala sobre a
execução de dezoito holandeses (15 combatentes da resistência e 3 comunistas)
pelas mãos dos ocupantes alemães.


Os Dezoito Mortos

Tradução de Marco Mackaaij

Uma cela só tem dois metros de comprimento
E mal dois metros de largura,
Ainda menor é o talhão
Que por enquanto não figura,
Mas onde anônimo hei-de repousar,
Um entre dezoito,
Todos companheiros de lutar,
Nenhum verá o cair da noite.

Ó querida terra e querida luz
Da costa holandesa independente,
Com o inimigo a dominar-vos
Nunca mais tive paz um só momento.
O que pode um homem com lealdade honrosa
Ainda fazer num tempo assim?
Beija o seu filho,
Beija a sua esposa
E trava o combate mesmo assim.

Sabia que seria um esforço oneroso
Cumprir a tarefa desta iniciativa,
Mas o meu coração teimoso
Nunca do perigo se esquiva;
Ele sabe que nesta terra já houve o uso
De venerar-se a liberdade,
Antes da mão do amaldiçoado intruso
Ter tido outra veleidade.

Antes daquele, que fanfarreia e juramentos desfez,
Ter causado a náusea desta guerra
E ter invadido o território holandês
E ter saqueado a sua terra,
Antes daquele, que invoca honra
E tal germânica consolação,
74

Ter subjugado o nosso povo
E ter pilhado como um ladrão.

Agora o Caçador de Ratos de Berlim
Flauteia a sua melodia;
Tão certo como eu encontrarei meu fim
E nunca mais verei minha amada
Nem mais com ela partirei o pão
Nem da cama dela terei o usufruto -
Rejeita tudo o que ele estende na mão
Ou estendeu, esse passarinheiro astuto!

Quem ler as seguintes palavras, tenha em mente
A miséria dos meus companheiros,
E dos seus mais chegados principalmente,
No seu infortúnio sobranceiros,
Tal como também nós temos recordado
O próprio país e o próprio povo:
É passageiro todo o céu carregado,
Após cada noite nasce um dia novo.

Vejo como demora o alvorecer
Pela janela lá em cima -
Senhor, por favor alivia-me o morrer,
E se por acaso falhei,
Como qualquer um pode falhar,
Tem misericórdia de mim,
Para que possa ir como um homem
Quando em frente aos canos me encontrar...













75

Gyula Illyés (Hungria 1902 – 1983)

Poeta, escritor e tradutor, Illyés desde jovem foi um engajado nos movimentos de
esquerda na Hungria. Durante um período em Paris, trava amizade com os
surrealistas franceses. A Segunda Guerra encontra-o como editor de uma das mais
ilustres revistas literárias do país, a Nyugat (“Ocidente”). Em 1944 as forças de
Hitler invadem a Hungria, e o poeta é obrigado a fugir. Já em 1945 retorna e torna-
se membro do Parlamento húngaro. Dois anos após afasta-se da política,
dedicando-se somente à produção intelectual.


O Vizinho

Tradução de Zoltán Rózsa e Pedro Tamen

Levaram e mataram
o seu filho soldado.
“Que fazer? Guerra é guerra!”
E pegou no arado.

Mas agora diz: “Basta!”
“Mais não posso aguentar!”
Vão levar amanhã os seus cavalos
por exigência militar.

Revolta-se agora? – pergunto
mudo. E entendo então:
algures no mais terrível e profundo,
ele tem razão.

1943












76

István Vas (Hungria - 1910-1991)

Poeta, tradutor e ensaísta de origem judia, Vas foi aprisionado durante a Guerra no
campo de concentração de Geza Ottlik, onde, em virtude das agruras terríveis do
trabalho forçado, o autor tentou por diversas vezes o suicídio. Sobrevivente, Vas
nos legou uma produção de dezenas de títulos, da poesia ao romance, passando
por novelas, contos e ensaios.


Mais do que a morte

Tradução de Nelson Archer

O tempo requintado de Tibério é tudo
o que eu desejo ter de volta atualmente;
a morte simples e inocente – sobretudo
veneno ou veia aberta na banheira quente.
Mas esta idade suja que me coube inclui do
desinfetante às câmaras-de-gás. A mente
enoja-se e eu vomitarei o seu repúdio
– se a musa me ajudar – na cara do presente.
Mais do que a morte, é seu caminho, todavia,
que, feito cúmplice cruel da covardia,
quer me aviltar, com sua sombra, o coração.
Um carro zumbe. Nervos cedem. Quanto mal
nos pode agora advir se, ao regime alemão,
associar-se a canalhice nacional?










77

János Pilinszky (Hungria - 1921-1981)

Convocado para o exército húngaro em 1944, Pilinsky viu-se obrigado a seguir com
o exército alemão, em sua retirada para a Alemanha. Durante sua estada no país,
totalmente deslocado e perplexo em meio ao caos dominante, o poeta pôde
presenciar a realidade de diversos campos de concentração, ainda em plena
atividade, chegando a servir como guarda do campo de Ravensbrück. O poema
abaixo reflete um pouco dessas experiências. Ganhador de vários prêmios,
homossexual renitente, cristão, Pilinsky foi mais uma das almas marcadas para
sempre pela Guerra.


Paixão de Ravensbrück

Tradução de Nelson Archer

Sai das fileiras e detém-
-se no silêncio carregado.
Vibram, como no écran, seu crânio
raspado e as roupas de forçado.

Está medonhamente só.
Podem-se ver seus poros. Tudo
de seu parece tão imenso.
Tudo de seu – tão diminuto.

Apenas isto. Quanto ao resto,
o resto, nada singular,
foi, antes de cair por terra,
ter se esquecido de gritar.




















78

Miklós Radnóti (Hungria 1909 – 1944)

O poeta e tradutor de ascendência judia Miklós Radnóti nasceu em Budapeste.
Durante a guerra passou por diversas dificuldades, vindo a ser preso e enviado ao
campo de concentração de Bor. Durante uma das chamadas Marchas da Morte,
onde prisioneiros eram obrigados a deslocarem-se a pé por centenas e até
milhares de quilômetros, Radnóti, já debilitado, foi por fim executado e sepultado
em vala comum. Após a exumação de seu cadáver, em 1946, foi encontrado no
bolso de seu casado um caderno com seus últimos poemas, publicados sob o título
de Tajtékos ég (Céu Espumante). Abaixo, o poema que dá título ao livro.


Céu espumante

Tradução de Nelson Ascher

No céu que espuma, a lua oscila.
Estar vivo me causa espécie.
A morte assídua espreita a Idade:
quem ela encontre, empalidece.
O ano grita e depois desmaia.
(Gritara olhando ao seu redor.)
Que outono ronda-me de novo?
Que inverno embotado de dor?
Sangrava o bosque; mesmo as horas
sangravam no vaivém dos dias.
Ventos riscavam, sobre a neve,
cifras enormes e sombrias.
Já vi de tudo; o ar me esmaga
com seu peso; um silêncio cresce
ruidoso, cálido e me abraça
como fez antes que eu nascesse.
Detenho-me junto de um tronco
que agita iroso as frondes plenas
e estende um galho. Há de esganar-me?
Não é fraqueza ou medo – apenas
cansaço. Calo. E o galho apalpa
os meus cabelos, mudo, aflito.
Cabe esquecer – mas não há nada
de que já tenha me esquecido.
Espuma afoga a lua; o miasma
estria os céus, verde e agressivo.
Sem pressa, enrolo com cuidado
o meu cigarro. Eu estou vivo.

79

Razglednice*

Tradução de Teresa Balté

1
Da Bulgária o selvagem troar dos canhões rola,
ressalta na montanha, hesita, depois tomba;
caos de animais, carroças, pensamentos e homens,
relincha a estrada, erguendo-se, as crinas do céu correm.
No meio do turbilhão és a minha constante,
esplendeces no meu íntimo eternamente estática
e muda como o anjo espantado ante a catástrofe,
o inseto sepultando-se no seio podre da árvore.
1944. 30 de agosto. Nas montanhas.

2
A nove quilômetros daqui ardem
casas e montes de feno,
junto às terras camponeses assustados
fumam cachimbo sentados em silêncio.
Aqui os passos da pastorinha ainda
encrespam a água do lago,
bebe as nuvens reclinado sobre a água
o frisado rebanho.
Cservenka, 1944. 6 de outubro.

3
Da boca dos bois escorrem sangue e baba,
os homens urinam todos sangue,
a companhia é um caos fétido e atroz.
Horrenda a morte sopra sobre nós.
Mohács, 1944. 24 de outubro.

4
Eu caíra a seu lado, o seu corpo convulso
era como uma corda tensa, pronta a estalar.
Um tiro na nuca. – Terás igual destino, -
murmurei para comigo, - basta jazeres em paz.
De cima soou – Der springt noch aug**
Secavam na lama e sangue em minha orelha.
Szentkirályszabadja, 1944. 31 de outubro.






*Bilhetes postais. Em servo-croata no original
** “Esse ainda se põe de pé.” Em alemão no original (N.T.)
80

Dylan Thomas (Inglaterra 1914 – 1953)

O boêmio bardo galês Dylan Thomas, um dos maiores poetas de seu tempo, trocou
a paz do País de Gales pela alvoroçada Londres durante a guerra, onde trabalhou
escrevendo mensagens para a BBC. Seus problemas de saúde o haviam
impossibilitado de engajar-se no serviço militar. Nos poemas aqui publicados, fica
patente a forte impressão causada no poeta pelos bombardeios quase diários de
que Londres era vítima.


Traduções de Ivan Junqueira

Cerimônia Após um Bombardeio

I

Aqueles que sou
Os sofredores
Sofrei
Entre as ruas calcinadas pela morte
infatigável
De uma criança nascida há poucas horas
Com a boca esmagada
Carbonizada sobre o peito enegrecido do túmulo
A teta da mãe, e os braços repletos de fogos.

Começai
Com o canto
Cantai
As trevas se iluminaram até o começo
Quando a língua contraída pendeu cega,
Uma estrela se esfacelou
Nos séculos da criança
Aqueles que sou agora sofremos, e os milagres nada podem resgatar.

Perdoai
Perdoai-nos
Dai-nos
Vossa morte para aqueles que sou os crentes
Possam sustentá-la num grande dilúvio
Até que o sangue germine,
E a poeira cante como um pássaro
Enquanto crescem as sementes, como cresce vossa morte, através de nosso
coração.]

Chorando
Vossa morte
Chorai,
Criança além do canto do galo, junto à rua com anões de fogo
81

Cantamos o mar flutuante
No corpo saqueado.
O amor é a última luz falada. Oh
Semente de filhos no dorso da negra casca abandonada.

II

Não sei se Adão e Eva,
Ou o engalanado touro sacro
Ou as brancas ovelhas
Ou a virgem eleita
Estendida em sua neve
Sobre o altar de Londres,
Foi o primeiro a morrer
Na cinza da efêmera caveira
Oh noiva e noivo
Oh Adão e Eva unidos
Que repousam em calma
Sob o triste peito da lápide
Branca como os ossos
Do jardim do Éden.

Sei que a lenda de Adão e Eva
Não é jamais para um segundo
Silencioso em meus ofícios
Sobre os meninos mortos
Sobre a única criança
Que foi sacerdote e servos,
A palavra, os cantores e a língua
Na cinza da efêmera caveira,
Que foi o anoitecer da serpente
E o fruto como um sol,
O homem e a mulher inacabados,
O começo que desaba junto às trevas
Desnudo como os berçários
Do jardim do deserto.

III

Dentro dos órgãos e dos campanários
Das luminosas catedrais,
Dentro das bocas dos cata-ventos derretidos
Ondulando nas órbitas dos doze ventos,
No relógio morto que corrói a hora
Sobre a urna dos sabás
Sobre a vala rodopiante da aurora
Sobre o alpendre do sol e os estrondos do fogo
E as calçadas de ouro estendidas nos réquiens,
Nos caldeirões da estatuária,
82

Dentro do pão num trigal em chamas,
Dentro do vinho que queima como aguardente,
As missas do mar
As missas do mar sob as missas
Do mar que procria meninos
Irrompem como fontes e começam a pronunciar para sempre
Glória glória glória
O dilacerante e último reino do trovão da gênese.









































83

Entre os mortos num bombardeio ao amanhecer havia um homem de cem
anos

Quando a manhã despertava sobre a guerra,
Ele vestiu as calças e caminhou para a morte,
Suas madeixas bocejaram soltas e uma rajada de vento as dispersou,
Tombou onde amava, sobre as pedras arrancadas à calçada
E as fúnebres sementes do solo massacrado.
Dizei à sua rua lá no fundo que ele deteve um sol
E que da cratera de seus olhos brotaram fogos e balaços
Quando todas as chaves saltaram das fechaduras e retiram.
E não mais escaveis em defesa das algemas de seu grisalho coração.
A ambulância celeste arrastada por uma constelação de chagas
Aguarda o tinir da espada na gaiola.
Oh retirai seus ossos desse veículo banal,
A manhã está voando com as asas de sua idade
E uma centena de cegonhas pousa na mão direita do sol.






















84

Edith Sitwell (Inglaterra 1887 – 1964)

Filha da aristocracia inglesa, a mais velha dentre três irmãos (seus dois irmãos,
Osbert e Sacheverell, também se notabilizaram como escritores), Edith Sitwell foi
poeta e crítica literária. Com a eclosão da guerra, Sitwell, que então residia na
França, retornou para a Inglaterra. A guerra acabou servindo de inspiração para
muitos de seus poemas, inclusive aquele que talvez seja seu texto mais conhecido,
o belíssimo Still Falls the Rain (Ainda Cai a Chuva), aqui publicado.


AINDA CAI A CHUVA

Tradução de C. Ronald

(Bombardeio aéreo, 1940. Noite e alvorecer)


Ainda cai a chuva
Sombria como o mundo do homem, negra como a nossa perdição...
Cega como os 1940 pregos
Batidos na Cruz.

Ainda cai a chuva
Com som igual ao do coração transformado na batida do martelo
Fora do Campo Santo e os ímpios passos ouvidos

No Túmulo:
Ainda cai a chuva

No Campo de Sangue onde as pequenas esperanças
se multiplicam e o cérebro humano
Alimenta sua ambição de verme com a cara de Caim.

Ainda cai a chuva
Aos pés do Homem Agonizante pendurado na Cruz.
Cristo cada dia, cada noite, pregado lá, tem misericórdia de nós
De Dives e de Lázaro:
Debaixo de chuva a ferida e o ouro são um só.

Ainda cai a chuva
Escorre o sangue do lado alanceado do Homem Desfalecido:
Ele carrega em Seu Coração todas as feridas – aquelas da luz extinta
A última faísca esmaecida
No próprio assassinado coração, as feridas da triste e inacessível escuridão.
Nas feridas do urso acossado, - o cego e gemente urso
açoitado pelos guardas na sua desamparada carne
As lágrimas da lebre perseguida.

85

Ainda cai a chuva
Por isto saltarei para Deus que me abate -
Olha, olha como o Sangue de Cristo jorra no firmamento:
Flui do semblante profundo que pregamos na árvore

Até o sedento coração morrer aprisionando os fogos do mundo
Escura mancha com aflição
Como a coroa laurel de Cesar.

Então a voz de alguém soa semelhante
À do coração do homem que foi outrora
Uma criança no convívio dos brutos:
“Ainda amo, ainda verto minha inocente luz
E meu Sangue por ti.”























86

Keith Douglas (Inglaterra 1920 – 1944)

Morto com apenas 24 anos, Keith Douglas já despertara atenção na Inglaterra com
seus poemas, antes da Guerra. Alistado no Exército inglês, serviu como
comandante de tanques no Norte da África, experiência que o levou a escrever o
singular livro de memórias Alamein to Zem Zem (publicado em 1946), cujos
poemas vieram a sagrá-lo como um dos maiores war poets da Segunda Guerra
Mundial. Foi morto em combate durante o desembarque na Normandia.


Traduções de Matheus “Mavericco”

COMO MATAR

Sob a parábola da bola,
meninos nunca mais inocentes.
Só em ver o ar eu me punha.
A bola cai, canta no punho
fechado: Abre É presente
Abre É pra morrer na bala.

Agora, no mostrador, olho o
soldado próximo do óbito.
Ele sorri, anda em estradas
que a mãe sabe, já habituado.
O arame vai na cara: grito
JÁ. A morte, amiga, acolhe os

Homens de pó de carne e osso
desfeitos. Esta bruxaria
eu faço. Maldito, ocupado
em olhar o amor espalhado
e a onda amorosa em vacância.
Tão fácil criar um monstro.

O mosquitinho aterriza
sua sombra na pedra, e quão
parecido, quão imenso
que se encontrem sombra e homem.
Fundem-se. Sombra é homem tão
logo o mosquito-morte aproxima








87

VERGISSMEINNICHT

Dias idos, idos os soldados,
voltando num solo fantasmático
voltamos pro lugar e o espasmo
de novo encontramos do soldado.

O cano da arma, escurecido.
E enquanto seguíamos em frente
ele me pegou de repente
como demônio introduzido.

Veja, veja. Na barreira. Isto:
uma foto da namoradinha
escrito: "Steffi. Vergissmeinnicht."
num texto gótico feito a punho.

Podemos vê-lo quase contente,
abatido, tendo pago o preço
de seu fuzil ainda quente
mesmo com ele desse jeito.

Mas ela choraria se olhasse
as moscas sobre sua carcaça;
o pó no papel e a face
queimada, agora uma fossa.

Pois aqui amante e assassino
têm um só corpo e coração.
E a morte, que o deixou sozinho,
apenas o matou de paixão.












88

W.H. Auden (Inglaterra/EUA 1907 – 1973)

Nascido em 1907, em York, W.H. Auden foi um dos maiores poetas de sua rica
geração. Em 1939, data do poema aqui publicado, Auden muda-se para os EUA,
vindo anos depois a naturalizar-se cidadão americano. Em seus poemas anteriores
à Guerra, já denunciava, com sua característica voz profética, a ascensão dos
totalitarismos na Europa.

1.º de setembro de 1939

Tradução de Benedicto Ferri de Barros

Incerto e temeroso
sento-me a um dos parapeitos
da 52.ª Avenida
quando falecem as espertas esperanças
de uma década baixa e desonesta:
ondas de ira e medo circulam
sobre as brilhantes e sombrias terras do planeta
obsedando nossas vidas.
O inominável cheiro da morte
conspurca a noite de setembro.

Estudos acadêmicos precisarão
o fatal erro que enlouqueceu uma cultura
desde Lutero aos nossos dias,
revelarão o acontecido em Linz,
que imago enorme engendrou
um deus psicopático.
O povo e eu sabemos
o que as crianças aprendem nas escolas:
quem faz o mal recebe-o de volta.

Tucídides exilado sabia tudo
o que dizer se pode sobre a democracia,
o que esperar de ditadores,
o lixo que revolvem
de um túmulo apático.
Tudo está em seu livro.
A racionalidade repelida
a inculcação de hábitos
malversações e luto –
por tudo isso teremos de passar de novo.

Neste ar neutro
em que arranha-céus se elevam cegos para o céu
a fim de proclamar a força do Homem Coletivo,
em cada língua se proclamam desculpas conflitantes.
89

Quem entretanto pode viver indefinidamente
num sonho eufórico?
O espelho nos devolve a face do imperialismo,
do erro universal.

No bar, se aferram os rostos
aos rictus rotineiros.
Devem as luzes continuar acesas
e a música tocando.
As convenções se mancomunam
para que a fortaleza conserve a aparência de um lar.
Para que não vejamos
em que lugar nos encontramos:
numa assombrada floresta
como crianças assustadas
em noites que não são boas
e muito menos felizes.

Personagens importantes
nos afirmam que o lixo
de hordas militantes
é menos rijo que somos;
o que o louco Nijinsky disse
de Diaghilev é a verdade
sobre todo ser humano,
pois o erro medular de cada homem e mulher
aspira não a querer amor universal
mas ao que não pode ter:
de ser amado sozinho.

Do lado conservador
a onda dos comutantes
invade a vida moral
com sua prece matinal:
“Serei fiel à esposa
Me esforçarei no trabalho.”
Os chefes atarantados
pelas manhãs reassumem
sua rotina habitual.
Quem pode desonerá-los?
quem pode falar aos surdos?
e pelos mudos falar?

Nosso mundo estuporado
jaz indefeso na noite.
Contudo, pontos de luz
cintilam por toda a parte
onde quer que haja um justo
emitindo sua mensagem.
90


Só de amor e poeira
como eles feito,
eu possa a eles juntar-me
e sitiado por iguais
negação e desespero,
só de amor e poeira
compor um raio de luz.
























91

Giuseppe Ungaretti (Itália 1888 – 1970)

Grande nome do hermetismo italiano, durante a juventude Ungaretti lutou como
soldado na Primeira Guerra Mundial, fato que marcou sua literatura. Quando da
eclosão da Segunda Guerra, o poeta estava no Brasil, onde lecionava Literatura na
USP. Em 1942 retorna à Itália. Os versos aqui publicados são de “Roma Ocupada”,
parte do livro Il Dolore (A Dor - 1942-1945, publicado em 1947), e retratam o
sofrimento e sentimento de vazio do poeta em face à cidade de Roma ocupada
pelas tropas nazistas.


Traduções de Aurora F. Bernardini

Meu Rio Tu Também

1
Meu rio tu também, Tibre fatal,
Ora que a noite perturbada escorre;
Ora que persistente
E como a custo irrompido da pedra
Um gemido de ovelhas se propaga
Perdido pela estrada apavorada;
Pois a espera sem descanso do mal,
Dos males o mais cruel,
Pois a espera do mal imprevisível
Entrava ânimo e passos;
Que infinitos soluços e estertores
Regelam casas, indivisas covas;
Agora que a noite corre já lanhada,
Que a cada instante somem de repente
Ou receiam a ofensa tantos signos
Vindos, quase formas divinas, a luzir
Pela ascensão de milênios humanos;
Ora que já assolada corre a noite,
E quanto um homem pode sofrer sei;
Agora, enquanto escravo
O mundo de abismal pena sufoca;
Ora que insuportável o tormento
Desata entre os irmãos ira mortal;
Ora que ousam dizer
Os meus blasfemos lábios:
“Cristo, pulsar absorto,
Por que de nós tão longe
Tua bondade?”

2
Ora que ovelhinhas com carneiros
Desnorteiam-se atônitas, e nas ruas
Que já foram urbanas, se desolam;
92

Ora que um povo prova
Depois dos raptos das emigrações,
A estultice iníqua
Das deportações;
Agora que nos fossos
Com fantasia retorta
E mãos despudoradas
Das humanas feições o homem lacera
A imagem divina
E a piedade contrai-se em grito pétreo;
Agora que a inocência
Um mero eco reclama,
E geme até no coração mais duro;
Quando soam em vão os outros gritos,
Na noite triste vejo claramente.

Na noite triste eu aprendo agora,
Sei que o inferno se exibe sobre a terra
À medida de quanto
O homem se subtrai, insano,
À pureza da Tua paixão.

3
Chaga no coração
Soma de tanta dor
Que vai espalhando sobre a terra o homem;
Teu coração é a apaixonada sé
Do amor não frustro.
Cristo, pulsar absorto,
Astro encarnado nas humanas trevas,
Irmão sempre imolado
Perenemente para edificar
Humanamente o homem,
Santo, Santo que sofres,
Mestre, irmão, Deus pai de nós, os débeis,
Santo, Santo que sofres
Para livrar da morte os mortos
E sustentar-nos, infelizes vivos,
De um pranto que é só meu não mais pranteio,
Eis que Te chamo, Santo,
Sofrente Santo.







93

Nas Veias

Nas veias quase túmulos vazios
O desejo ainda galopante,
Em meus ossos o congelado cerne,
Na alma a saudade surda,
A indomável nequícia, dissolve;

Do remorso, latido interminável,
No escuro indescritível
Terrível clausura,
Resgata-me, e teus cílios piedosos
Do longo sono, soçobra;

Teu signo róseo de improviso,
Mente geratriz, remonte
E retorne a surpreender-me;
Ressuscita, inesperada
Medida incrível, paz;

Faz, na aérea paisagem, com que eu possa
Ressilabar as ingênuas palavras.



















94

Primo Levi (Itália 1919 – 1987)

Judeu de origem italiana, Primo Levi participou da resistência anti-fascista na
Itália. Capturado pela milícia fascista, acabou prisioneiro em Fossoli, sendo depois
transferido para Auschwitz, de onde foi libertado pelo Exército Vermelho. Dedicou-
se à memorialística, mas também à prosa de ficção e poesia. O poema aqui
publicado está incluído no livro Se Isto É um Homem, que o autor terminou de
escrever em 1946, sendo este seu principal livro de memórias.


Vós que viveis tranquilos

Tradução de Simonetta Cabrita Neto

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara.








95

Salvatore Quasímodo (Itália 1901 – 1968)

Laureado com o Nobel em 1959, Quasimodo desde muito jovem foi impressionado
pelo espetáculo do sofrimento humano, que vivenciou na cidade de Messina, onde
foi morar com sua família um dia após um terremoto que arrasou a cidade, em
1908. Foi engenheiro, profissão que abandonou para tornar-se professor e
dedicar-se à literatura. Também tradutor, verteu diversos clássicos para o italiano.
Durante a guerra, o poeta preferiu apegar-se aos sofrimentos do povo. Após o
conflito a sua poesia voltou-se para expressar os horrores da guerra e do regime
fascista.


Traduções de Sílvio Castro

MILÃO, AGOSTO DE 1943

Em vão perscrutas o pó,
pobre mão, a cidade é morta.
É morta: ouviu-se o último rombo
no coração do Naviglio. E o rouxinol
despencou da antena, alta no convento,
onde cantava antes do pôr-do-sol.
Não escaveis poços nos pátios:
os vivos não têm mais sede.
Não toqueis os mortos, tão vermelhos, tão inchados,
deixai-os no chão de suas casas:
a cidade é morta, é morta.






















96

CÂNTICOS

29 de Abril de 1945

FILHO

- E por que, mãe, cospes num cadáver
que prende com a cabeça baixa, atado pelos pés
às traves? E não te dão náusea os outros
baloiçantes ao lado? Ah! aquela mulher,
as suas meias de can-can macabro
e garganta e boca de flores amassadas!
Não, mãe, para; grita à multidão
que vá embora. Não é lamento, é escárnio,
é alegria: já se grudam as moscas
aos nós das veias. Atiraste contra
aquele rosto, agora: mãe, mãe, mãe!


MÃE

- Sempre cuspimos sobre cadáveres,
filho: presos às grades de janelas,
a mastros de navios, feitos cinzas
em nome da Cruz, despedaçados pelas feras
por um pouco de erva dos feudos.
E fosse solidão ou tumulto,
olho por olho, dente por dente,
após dos mil anos de eucaristia,
o nosso coração desejou aberto
o outro coração que já abrira o teu,
filho. Te arrancaram os olhos e tuas mãos
te quebraram na procura do nome a trair-se.
Mostra-me os olhos, dá-me aqui tuas mãos:
morreste, filho! Porque morreste
podes perdoar: filho, filho, filho!

FILHO

- Este mormaço repugnante, esta fumaça de
escombros, as gordas verdes moscas
bagas sobre ganchos: a ira e o sangue
gotejam justamente. Não por ti
e nem por mim, mãe: olhos e mãos ainda
me furarão amanhã. Desde séculos
a piedade é o urro do assassinado.



97

AUSCHWITZ

Lá longe, em Auschwitz, distante do Vístula,
querida, pela planície nórdica,
em um campo de morte: fria, fúnebre,
a chuva sobre a ferrugem dos postes
e sobre os nós de ferro dos recintos:
e nem uma árvore ou pássaros no ar gris
ou em nossos pensamentos, apenas inércia
e dor, que a memória deixa
ao seu silêncio sem ironia ou ira.
Tu não queres elegias, cânticos: somente
razões da nossa sorte, aqui,
tu, suave nos contrastes do espírito,
incerta a uma presença
clara da vida. E a vida está aqui,
em cada não que semelha uma certeza:
aqui ouviremos chorar o anjo, o monstro,
e nossas horas futuras
soar o além, que está aqui, em eternidade
e em movimento, não na imagem
de sonhos, de possível piedade.
E aqui as metamorfoses, aqui os mitos.
Sem nomes de símbolos ou de um deus,
eles são a crônica, os lugares da terra,
são Auschwitz, querida. Como instantânea
em fumaça de sombra, se fez
o caro corpo de Alfeu e de Aretusa!

Daquele inferno aberto por uma escrita
branca: “O trabalho vos fará livres”
saiu o contínuo fumo
de milhares de mulheres, atiradas à alva
fora dos canis contra o muro
do tiro ao alvo ou sufocadas urrando
misericórdia à água com a boca
esquelética sob as duchas a gás.
Tu, soldado, as encontrarás na tua
história, em forma de rios, de animais,
ou és tu também cinzas de Auschwitz,
medalha de silêncio?
Ficaram longas tranças fechadas em urnas
de vidro, ainda atadas com amuletos
e sombras infinitas de pequenos sapatos
e de mantas de hebreus: são relíquias
de um tempo de sapiência, de ciência
do homem que se faz medida de armas,
são os mitos, as nossas metamorfoses.
Nas vastidões, onde amor e pranto
98

e piedade apodreceram, lá longe
sob a chuva, pulsava um não dentro de nós;
um não à morte, morta em Auschwitz,
para não repetir, daquele ninho
de cinzas, a morte.







































99

Sadako Kurihara (Japão 1913 – 2005)

Sobrevivente da explosão atômica em Hiroshima, a poeta Sadako Kurihara dedicou
sua poesia a denunciar as mazelas da guerra e do uso de armas de destruição em
massa. Chegou a ser censurada durante o período de ocupação americana no pós-
guerra.


Dizendo “Hiroshima”

Poderia ao dizer-se “Hiroshima”
jamais elucidar com paixão
“Oh, Hiroshima”?
Dizer “Hiroshima” levanta respostas a “Pearl Harbor,”
“O massacre de Nanjing,”
“Brutais execuções em Manila,
mulheres, crianças,
amontoadas como animais em trincheiras,
encharcadas com gasolina,
e queimadas vivas.”

Reações a quando se diz “Hiroshima”
reverberam com fogo e sangue.

Diz-se “Hiroshima”
e ninguém se simpatiza.
Ao invés, a fúria dos asiáticos, agora sem voz,
mortos e violados, aparece.

Se temos o desejo de sentir compaixão quando se diz “Hiroshima”
Temos que de fato baixar nossas armas.
Temos que remover as bases militares estrangeiras.
Mas até que esse dia venha,
Hiroshima evocará a amargura da crueldade e desconfiança,
e nós seremos como marginalizados de uma sociedade,
queimando em energia atômica.

Para nós, japoneses,
Ouvirmos um apaixonado
“Oh, Hiroshima”,
É necessário, primeiro,
Purificar nossas mãos sujas.






100

Deixemos vir a nova vida

Foi uma noite inteira em um porão de um prédio incendiado
Pessoas feridas pela bomba atômica encontraram abrigo lá, enchendo-o.
Passaram a noite na escuridão, nem mesmo uma única vela havia.
O cheiro de sangue, ainda fresco. Cheiro forte de morte.
O calor do corpo e o odor desagradável de suor. Gemidos.
Milagrosamente, no meio da escuridão, soa uma voz:
“O bebê está nascendo!”.
Naquele porão, nos lugares mais profundos do inferno,
uma jovem estava agora dando à luz.
Que fariam eles, sem um único fósforo que fosse para iluminar a escuridão?
As pessoas esqueceram seu próprio sofrimento e fizeram o que podiam.
Uma mulher gravemente ferida que estivera gemendo momentos antes disse:
“Sou enfermeira. Deixe-me ajudar a fazer o parto!”.
Então uma vida nasceu
lá no fundo, na profunda escuridão do inferno.
Após sua missão, a enfermeira nem mesmo chegou a ver a luz do sol.
Morreu, ainda coberta de sangue.
Deixe a nova vida nascer!
Ainda que custe a minha.
Deixe a nova vida nascer!

















101

Tamiki Hara (Japão 1905 – 1951)

Nascido em Hiroshima, Tamiki Hara foi escritor, poeta e professor de inglês.
Perdeu a esposa em 1944, vítima de tuberculose. Em 1945 resolve retornar à casa
dos pais em Hiroshima (cidade que havia deixado para dar aulas) e acaba
presenciando a explosão atômica. Sobrevivente, doravante os temas da bomba e da
morte da esposa serão dominantes em sua literatura. Flores de Verão (Natsu no
Hana), escrito em 1946, é seu livro mais conhecido. O poeta suicidou-se em 1951.


Isto É um Ser Humano

Tradução de Diogo Kaupatez

Isto é um ser humano
note como a bomba atômica o transforma
o corpo horrivelmente inchado
homens e mulheres de volta à forma original
dos lábios intumescidos do rosto purulento e esturricado
escapa a voz
“socorro…”
palavra débil, inaudível
isto é isto é um ser humano
um ser humano
















102

Hirsh Glick (Lituânia 1920 – 1944)

Judeu lituano, Glick fez parte da resistência instalada no Gueto de Vilna, onde
escreveu o famoso hino Não Digas Nunca (Zog Nit Keinmol), e de cujas ruínas foi
resgatado o texto aqui publicado. Capturado, foi morto pelos nazistas ao tentar
escapar de um campo de concentração, em 1944.


A Balada do teatro pardo: Espetáculo no cárcere de Lubick

Tradução de Jacó Guinsburg

Ilumina a ribalta, Pai Shakespeare!
Para a nova arte de uma nova Europa.
E apronta – ó mundo – os teus ouvidos surdos
para escutar esta balada.

Vai começar o espetáculo...

Sem cenários nem cartazes,
por trás de muros e grades,
desenrola-se o ato que inicia o nosso drama –
Abraçada por um negro cavalheiro
uma dama, branca como a neve,
ordena ao público que respira opresso:

Achtung!
Atenção, fileira de mortos!
Que se apresente, sem murmúrios, nem clamores,
o mais jovem dos defuntos...
E que cante o hino “Horst Wessel”
e o auditório profira o juramento:
sobre o que iremos ver e ouvir
até o galo em seu canto calará!

Achtung!
Alerta, fileiras e mortos!
Onde está o mais jovem dos defuntos?
Quem cantará o “Horst Wessel”?
Surgem da cela, no fundo,
sete defuntos,
com taletim e mortalhas,
e param junto à parede
com uma vela acesa em cada mão...
Os olhares do povo se cruzam,
e impelidos pela febre,
retornam para a dama –
olhos de pais, olhos de mães,
mil corações palpitando.
103

Todos buscam suas pupilas.
E ela balouça a corda, esperando.
Quem for atingido pelo seu olhar agudo
nunca mais retornará...
Balouça-se
esperando
a corda...

A lua dependura-se nas grades:
faces macilentas, rostos cor de mate...
E tateia com seus dedos pálidos
alguém que da massa se aparta...
É uma loira criatura,
de cujos olhos azuis
pendem gotas de orvalho.
U’a mãe judia a teria amamentado?
A lua tateia com seus dedos pálidos
e de sombrio aglomerado elege a mulher.
Eis que o luar percebe um ventre intumescido...
Avistam-no também a dama e o cavalheiro.
A dama não se perturbando
golpeia a parede e clama por parteiros:
“Um comunista está nascendo!
E ele cantará o ‘Horst Wessel’,
e será o primeiro dos defuntos”.
Ressoam sete vezes entoando:
“Alemanha, Alemanha acima de tudo”.
Trajes de mortos esvoaçam...
Cai o pano do teatro.

No intervalo
saltaram num dó ato
os miolos da cabeça e do ventre as entranhas.
Para satisfazer uma necessidade humana,
o público pagava
com joias e com ouro
e moedas estrangeiras...
A vida corria a preço de um níquel
e um gole de água
custava... um anel de casamento.
O guarda tinha um aparelho
que de fezes fazia pão à vontade:
é o balde de imundícies.
E duas servas ele empregou
que as renovam sem cessar.
Os judeus tem joias e roupas
e o guarda desenvolve o negócio
com um lápis e um caderno.

104

Czeslaw Milosz (Polônia 1911 – 2004)

Filho de poloneses, Milosz nasceu na Lituânia, onde passou parte da juventude.
Retornou à Polônia para os estudos, depois indo para Paris. Durante a Segunda
Guerra entrou na clandestinidade, juntando-se à resistência polonesa e escrevendo
poemas contra a ocupação nazista. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1980.


Campo di Fiori

Em Roma, em Campo di Fiori
Cabazes de limões e azeitonas,
O pavimento salpicado de vinho
E de restos de flores.
Os feirantes despejam nas bancas róseos mariscos,
Braçadas de uva preta
Caem sobre a penugem dos pêssegos.

Justamente aqui, nesta praça,
Foi queimado Giordano Bruno.
O carrasco acendeu a fogueira
No meio da gentalha curiosa.
E mal o lume se apagou,
Tornaram a encher-se as tabernas,
Os cabazes de limões e azeitonas
De novo à cabeça dos feirantes.

Recordei Campo di Fiori
Junto de um carrossel em Varsóvia,
Numa serena tarde primaveril,
Ao som da música saltitante.
A melodia saltitante abafava
As salvas por trás do muro do ghetto.
E os casais voavam alto
No céu limpo.

O vento das casas em chamas
Trazia negros papagaios de papel,
Apanhava pétalas no ar
Quem ia no carrossel.
Levantava as saias às raparigas
Este vento das casas em chamas
E riam-se as multidões alegres
Num lindo domingo de Varsóvia.

Talvez se tire por moral da história
Que o povo romano ou varsoviano
Negoceia, diverte-se e ama
Enquanto ardem piras martirizantes.
105

Talvez haja outra moral
Que são fugazes as coisas humanas
Que o esquecimento surge,
Mesmo antes do fogo se apagar.

Mas eu pensava então
Na solidão dos que pereciam
E em Giordano
Que ao subir para o estrado
Não encontrou na língua humana
Nem uma palavra que fosse
Com que se despedir da humanidade,
Desta mesma que perdura.

Já corriam a beber o vinho,
A vender as estrelas do mar,
A carregar na balbúrdia alegre
Os cabazes de limões e azeitonas.
Ele já estava muito distante deles,
Como se tivessem passado séculos,
Porém, apenas demorou um instante
Vê-lo voar entre as chamas.

Aqueles que morrem, solitários,
Já esquecidos pelo mundo,
Estranham a nossa língua,
Como se fosse de um planeta antigo.
Mas um dia tudo será lenda,
E então, muitos anos volvidos,
Num novo Campo di Fiori
A palavra do poeta ateará a revolta.












106

Zbigniew Herbert (Polônia 1924 – 1998)

Poeta, ensaísta e dramaturgo polonês ligado às vanguardas, Herbert começou a
escrever aos 17 anos, em plena Segunda Guerra. Logo se integrou à resistência
polonesa. Após a Guerra, seguiu escrevendo e crescendo em importância, sendo
considerado um dos grandes autores poloneses do século XX, ao lado de Czeslaw
Milosz e Wislawa Szymborska.


Traduções de Sylvio Fraga Neto e Danuta Haczynska da Nóbrega

17 DE SETEMBRO¹

Meu país indefeso te receberá invasor
e o caminho de João e Maria
não se abrirá num abismo

Nossos rios sonolentos não são dados a enchentes
nas montanhas os guerreiros adormecidos seguirão dormindo
e você entrará sem problema hóspede indesejado

Mas à noite os filhos da terra se reúnem
tolos carbonários conspiradores da liberdade
vão limpar suas armas de museu
e jurar diante de um pássaro e duas cores²

Depois como sempre o fogo e explosões
jovens camuflados e comandantes insones
macas encharcadas de derrota campos rubros de glória
o alento de saber que estamos sós

Meu país indefeso te receberá invasor
te dará um pedaço de terra sob um salgueiro - e paz
para ensinar mais uma vez àqueles que virão
o dom mais difícil - perdoar os pecados









N.T.:
¹ Em decorrência do pacto entre Hitler e Stálin, o Exército Vermelho invadiu a
Polônia em 17 de setembro de 1939 e anexou suas províncias do leste. Em 1º de
setembro, tropas nazistas haviam ocupado o oeste do país.
² Figura da bandeira polonesa.
107

ABANDONADO

1
Cheguei tarde demais
para a última condução

fiquei na cidade
que não é uma cidade

sem matutinos
sem vespertinos

não há
prisão
relógio
nem água

aproveito
um tempo
fora do tempo

faço longas caminhadas
por avenidas de prédios queimados

avenidas de açúcar
de vidros quebrados
de arroz

poderia escrever um tratado
sobre a transformação abrupta
da vida em arqueologia

2
há um silêncio terrível

a artilharia nos subúrbios
se perdeu na própria coragem

às vezes
não se escuta nada
além do eco das paredes que restam

e o trovão leve
das lages ao vento

há um silêncio terrível
que precede a noite do predador

às vezes
108

um avião absurdo
surge no céu

joga folhetos
demandando rendição

eu adoraria me render
mas não tenho a quem

3
no momento estou
no melhor hotel

um porteiro morto
se mantém no posto

saio de uma pilha de entulho
e ando direto até o primeiro andar
para dentro do quarto
da ex-amante
do ex-delegado

durmo numa cama de jornal
me cubro com um pôster
que promete a grande vitória

no bar ainda há
remédio para solidão

garrafas de liquido dourado
e um rótulo simbólico
-Johnnie
com um aceno da cartola
se manda para o oeste

não culpo ninguém
por estar abandonado

minha sorte acabou
a mão certa não vem

no teto
a lâmpada lembra
uma caveira de ponta-cabeça

aguardo os vencedores

brindo aos derrotados
brindo aos desertores
109


me livrei
das idéias macabras

até o pressentimento da morte
me abandonou











































110

CINCO HOMENS

1
Eles os levam para fora de manhã
para o pátio de pedra
e os botam contra a parede

cinco homens
dois muito jovens
os outros de meia-idade

nada mais
pode se dizer sobre eles

2
quando o pelotão
ergue as armas
tudo se revela de repente
na luz invasiva
do óbvio

a parede amarela
o azul gelado
o fio preto na parede
em vez de um horizonte

esse é o momento
em que os cinco sentidos se rebelam
fugiriam felizes
como ratos de um naufrágio

antes da bala chegar
o olho percebe o voo do projétil
o ouvido capta um rumor metálico
as narinas se enchem de fumaça amarga
uma pétala de sangue roça o céu da boca
o tato se encolhe e depois afrouxa

agora eles estão caídos na pedra
cobertos até os olhos com sombra
o pelotão vai embora
seus botões correias
e capacetes de aço
mais vivos
do que os homens caídos
ao pé da parede

3
Não aprendi isso hoje
111

já sabia faz tempo

então por que tenho escrito
poemas sem importância sobre flores

o quê os cinco conversavam
na noite antes da execução

sobre sonhos proféticos
sobre a ida a um bordel
sobre peças de carro
sobre uma viagem no mar
sobre quando ele tinha copas
e apostou errado
sobre como vodka é melhor
vinho dá dor de cabeça
sobre garotas
sobre frutas
sobre a vida

assim pode se usar na poesia
nomes de pastores gregos
pode-se tentar a cor do céu da manhã
escrever sobre amor
e também
uma vez mais
com toda sinceridade
oferecer ao mundo traído
uma rosa














112

Paul Celan (Romênia 1920 – 1970)

Um dos maiores poetas do pós-guerra, Paul Celan teve toda a sua vida e obra
marcadas pelo tição do horror nazista. Romeno de língua alemã e ascendência
judia, durante a guerra, com a aliança entre Romênia e Alemanha, seus pais foram
enviados a um campo de concentração, onde morreram. Também enviado a um
campo, Celan conseguiu fugir em 1944, com o avanço das tropas russas. Data deste
ano a circulação de primeira versão do poema Todesfuge (Fuga da Morte). O poeta
suicidou-se em 1970.


Fuga da Morte

Tradução de Modesto Carone

Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos de noite nós o bebemos
bebemos
cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Um homem mora na casa bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
escreve e se planta diante da casa e as estrelas faíscam ele assobia para os seus
Mastins
assobia para os seus judeus manda cavar um túmulo na terra
ordena-nos agora toquem para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos de noite nós bebemos
bebemos
Um homem mora na casa e bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
Teu cabelo de cinzas Sulamita cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Ele brada cravem mais fundo na terra vocês aí cantem e toquem
agarra a arma na cinta brande-a seus olhos são azuis
cravem mais fundo as pás vocês aí continuem tocando para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos de noite nós bebemos
bebemos
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita ele bole com cobras
Ele brada toquem a morte mais doce a morte é um dos mestres da Alemanha
ele brada toquem mais fundo os violinos vocês aí sobem como fumaça no ar
aí vocês têm um túmulo nas nuvens lá não se jaz apertado
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é um dos mestres da Alemanha
nós te bebemos de noite e de manhã nós bebemos bebemos
a morte é um dos mestres da Alemanha seu olho é azul
acerta-te com uma bala de chumbo acerta-te em cheio
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
ele atiça seus mastins sobre nós e sonha a morte é um dos mestres da Alemanha
113

eu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita


























114

Jaroslav Seifert (Thecoslováquia 1901 – 1986)

O poeta, escritor e jornalista Jaroslav Seifert foi um dos mais destacados autores
tchecos do Séc. XX, tendo recebido o Prêmio Nobel em 1984. Em 1938 prenunciou
a guerra que estava por vir em seu livro Zhasnete Svetla (Apaguem as Luzes).
Seguiu publicando durante o conflito, e em 1945 escreve
Prilba Hlíny (O Capacete de Barro), obra que buscava inspirar os tchecos à
sublevação contra os nazistas que se retiravam, e que lhe deu grande fama,
alçando-o ao título de Poeta Nacional. O poema aqui publicado faz referência ao
chamado Massacre de Lídice, quando toda uma vila tcheca foi exterminada, como
vingança pelo assassinato do sanguinário Reinhard Heydrich, segundo em
comando das SS, e que fora morto por membros da resistência checa. Os homens
da vila foram fuzilados e mulheres e crianças enviadas para campos de
concentração, e a cidade foi dinamitada e depois aplanada com tratores, para
cumprir o desígnio de Hitler de “varrê-la do mapa”.


Os mortos de Lídice

A andorinha não encontrou seu teto,
Solta gritos de queixa, erra
Só há árvores negras, cá como lá
Cetros quebrados jorram da terra
E vocês, com o calcanhar na terra para o passo final,
Quando o caminho deságua na beira do precipício,
Vocês entram na sombra de braços abertos,
Como semeadores diante de sulcos vazios.
Ao menos a cotovia retorna para vê-los
Mais perto de vocês ela ouve melhor
O que somente os pássaros compreendem bem
Tu ouvirás talvez, em sua mensagem,
Cantar a terra que sacia o fundo
As bocas ainda cerradas de ira
Cantar a lápide deitada perto da trincheira
E os silêncios que sobre os seus nomes tombaram
Cantar a angústia dos tempos de raptos
Cantar o choro de lábios que brilham
Quando se desejava ser demente
Mas faltava tempo para a loucura
Cantar o terror ancorado no fundo do olhar
Quando vossas mulheres se colaram às portas
Como o náufrago se agarra a haste incerta
Já sem rumo para sua esperança morta
Cantar o instante de calmaria sublime
Quando resta um único suspiro
Cantar o esplendor de um povo glorioso
Sobre cujas tumbas vossos passos vão ecoar
Como outrora, lá ergue-se o cântigo
Da cotovia, ó calma eternidade
115

As rosas, as melancólicas rosas,
Mesmo elas foram pisoteadas































116

Margarita Aliguer (URSS 1915 – 1992)

Poeta, tradutora, bibliotecária e jornalista, Margarita Aliguer escreveu em diversos
jornais durante a Segunda Guerra. Vencedora do Prêmio Stálin em 1943.


De Primavera em Leningrado

Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman

No curso daquele longo inverno
você repetia, voz serena,
esmagando-lhe a treva de ferro:
"Resistiremos. Somos de pedra".

Estreitava-se o anel venenoso.
O inimigo sempre mais chegado.
Podíamos vê-lo rosto a rosto,
feroz, como fazem os soldados.
Leningrado sem luz e sem água!
Rações de pão: cento e vinte gramas...
Como animal ferido o céu gane,
céu mortiço, nuvens estagnadas.
As pedras suspiram,
...............................lajes ringem,
e a gente encontra forças e vive.
Os mortos se empilham, um a um,
guerreiros numa cova comum.
Afinal cansou-se o próprio inverno.
Os turvos horizontes se abriram.
E surgem casas negras do inferno
das bombas. Mortas. Não resistiram.
E vamos nós dois passando pontes
sob a asa triunfal de maio,
você se alegrava sem dar conta
do porquê desse sentir-se gaio.
Uma nuvem mostrou-se no alto,
uma brisa esfriou-nos os lábios.
Falávamos ambos num sussurro
do tempo passado e do futuro.
Vadeamos uma longa treva,
passamos pelas balas em crivo:
Você dizia: "somos de pedra".
É mais do que pedra.
...............................Estamos vivos.

1942
117

Marina Tzvietáieva (URSS 1892 – 1941)

A poeta e tradutora Marina Tzvietáieva teve sua vida e poesia marcadas pelo
trágico. Em 1922 exilou-se com a família em Praga, fugindo da Revolução Russa.
Em 1939 tomam a decisão que custaria a vida de quase toda a família: o retorno à
URSS. Aprisionado junto com a filha Ariadna ainda em 1939, em 1941 seu marido
é fuzilado. Marina, mal vista pelo Regime, não consegue emprego nem moradia.
Sua outra filha, Irina, é enviada para um orfanato, onde morre de fome. Com o
início da Guerra, Marina foi evacuada para a cidade de Ielabya, aonde veio a
suicidar-se.


Tomaram...

Tradução de Augusto de Campos

"Os tchecos se acercavam dos alemães e cuspiam." (Cf. jornais de março de 1939)

Tomaram logo e com espaço:
Tomaram fontes e montanhas,
Tomaram o carvão e o aço,
Nosso cristal, nossas entranhas.

Tomaram trevos e campinas,
Tomaram o Norte e o Oeste,
Tomaram mel, tomaram minas,
Tomaram o Sul e o Leste.

Tomaram a Vary e a Tatry,
Tomaram o perto e o distante,
Tomaram mais que o horizonte:
A luta pela terra pátria.

Tomaram balas e espingardas,
Tomaram cal e gente viva.
Porém enquanto houver saliva
Todo o país está em armas.








N.T.: 9 de maio de 1939 ( um dos muitos poemas feitos por Marina Tzvietáieva em
protesto contra a invasão da Tchecoslováquia pelos nazistas)

118

Mikhaíl Dúdine (URSS 1916 - )

Dúdine foi um dos importantes poetas de Leningrado, cujo cerco ele suportou
durante a Guerra.


Rouxinóis

Tradução de Manuel Seabra

Dos mortos falaremos depois.
A morte na guerra é habitual e horrível.
E no entanto abrimos a boca de espanto
pela morte do nosso camarada. Não

dizemos palavra. Não erguemos os olhos,
Na terra cinzenta abrimos uma cova.
O mundo é cruel e pronto. Consumiu os corações.
Em nós ficou só a cinza, só
as faces batidas em contradições.

Tricentésimo quinquagésimo dia da guerra.

A aurora ainda não estremeceu nas folhas,
e como aviso houve metralhadoras...
Foi ali. Foi ali que ele morreu –
o meu camarada, pela boca da metralhadora.

Aqui inutilmente foi chamado um médico,
mas só chegou de madrugada.
Não tinha ninguém para ajudar.
Estava a morrer. E, compreendido isso,

olhou para nós e esperou o fim em silêncio,
e de certa maneira sorriu desajeitadamente.
O bronzeado começou a fugir-lhe do rosto.
Depois escureceu, ficou de pedra.

Bem, fica a espera. Endurece. Enregela.
Fecha todos os sentimentos à chave.
Mas eis que surgiu um rouxinol
e começou a cantar triste e cansativamente.

Depois mais forte, em grande entusiasmo,
como se tivesse fugido da gaiola,
como se de súbito de tudo se esquecesse,
assobiando, a ave de joelhos finos.

119

O mundo abriu-se. Inchou de orvalho.
Como se ainda mal compreendesse,
aqui ao nosso lado ergueu-se outra
de certo modo nova combinação de qualidade.

Com o tempo, pelas trincheiras corria areia.
Para a água se arrastavam as raízes no precipício,
e o lírio no vale, erguendo-se em bicos de pés,
olhou para a cratera da explosão.

Um minuto mais. O lilás lança fumo,
lufadas de fumo violeta.
O lilás veio desencorajar o dia.
Está por toda a parte. É inexorável.

Um instante mais. Torce a boca
um grito que tortura o coração, -
mas acalma-te, olha: florescem
no campo de minas morangueiros bravos.

Uma macieira silvestre larga a flor,
o ar está impregnado de lírios e hortelã...
E o rouxinol assobia. E em resposta
outro e um quarto, e um quinto.

Soam gaviões. Piscos cantam.
E por toda a parte, de todos os lados
espalhado, desconfiado me aconchego,
como o pesado rolar de uma bomba.

E o mundo ruge cem verstas à volta,
como se a morte não tivesse lugar,
urra incessante a orquestra,
e é música que não tem barreiras.

Em toda esta floresta de folhas e raízes,
nem um pouco sentindo o drama,
não é provável que a sede selvagem
se arrastasse até ao sol, até a vida, até a água.

Sim, isto é a vida. Seus laços vivos,
seu reservatório calmo e alcantilado.
Nós, parece, esquecemos naquele instante
outros a quem os seus também morreram.

Um raio quente da última aurora
mal tocou no rosto afilado.
Moribundo. E, consciente disso,
olhou para nós e ficou à espera do fim.
120


Absurda morte. Torpe. Tanto mais
que, os braços agitando,
disse: “Rapazes, escrevam à Pólia,
que hoje aqui cantam rouxinóis.”

E logo caiu no silêncio total,
no trigésimo quinquagésimo dia de guerra.

Não viveu toda a sua vida, não amou
até ao fim, não acabou de cantar,
não estudou o que tinha a estudar,
nem acabou de ler os seus livros.
Estive a seu lado. Na mesma trincheira,
como ele com Pólia, eu contigo sonhava.

E talvez na areia, na argila escavada,
sufocando no próprio sangue,
um dia eu diga: “Rapazes, escrevam à Irina,
que hoje aqui cantam rouxinóis.”

E voa uma carta desse lugar
para Moscou, para a rua Zubóvski.

Que seja assim. Depois secam as lágrimas,
e não comigo mas com outro qualquer,
naquela margem distante,
tu completas a verde represa.

Que seja assim. Depois nascem crianças
para o heroísmo, para as canções, para o amor.
Que acordem cedo para a aurora
os nossos cansativos rouxinóis.

Que ao seu encontro o sol salpique de calor
e as nuvens em rebanhos se estendam.
Eu canto a morte em nome da nossa vida.
Dos mortos falaremos depois.







121

Olga Fiódorovna Bierggólts (URSS 1910 – 1975)

Vítima do Grande Terror de Stálin, Olga Bierggólts chegou a ser presa e torturada
em 1938, (pouco depois que o Terror executara seu ex-esposo). Poeta e jornalista,
ela permaneceu durante a Segunda Guerra na sitiada Leningrado (ao contrário de
outros artistas e intelectuais, que eram sistematicamente evacuados para áreas
seguras do país). Atuando como radialista, Olga encorajava a população com seus
poemas e discursos, vindo a tornar-se um símbolo da resistência conhecida em
toda a URSS. Deixou diversos livros sobre o período da Guerra, sendo após a morte
de Stálin reconhecida pelo regime com prêmios e medalhas.


Traduções de Lauro Machado Coelho

A Guerra em Leningrado

(fragmento)

... O canhoneio calou-se.
A cidade esta cheia de alvorada,
é a hora da troca das exaustas sentinelas,
as ruas estão claras e desertas.
As zeladoras varrem os cacos de vidro,
um incansável eco repete
um som estridente, raspante, angustiante
e arco-íris derramam-se pela sarjeta
com os pedaços de vidro esmigalhado.
À cidade chegou a primavera,
isso se sente nos destroços, no incêndio,
no rio que vem bater no granito de suas margens
como vem fazendo há séculos,
Silêncio.
...Moçinha lá dos lados de Mamisson,
que sabias da felicidade?
Ela é
desajeitada, tem a cara fechada, sofre de insônia
e, ás vezes anda de braço dado com a morte.
Perto dela, a alegria não é nada,
o contentamento é apenas pó.
Diante dela o inimigo perde seu poder,
o medo também
e a podridão
Ela voa, com asas de cisne,
para cimos de tal modo inacessíveis,
de tal modo solitários e despojados,
que até os deuses podem inveja-la.
(...)
Estou feliz.
E a cada dia percebo, com mais clareza,
122

que vivi toda minha vida para chegar estes dias
de impiedosa expansão.
E não escondo o meu orgulho
em ter, como mero soldado, entrado em teu destino,
minha cidade,
e no rol de teus poetas.
Não foste tu,
neste inverno biblicamente terrível,
que me levaste até a trincheira onde meus irmãos combatem,
petrificados, sem pranto,
e lá deste-me a ordem de prantear teus filhos?
e onde não pudeste erguer monumentos
nem contar ou celebrar os mortos,
lá onde se estendia a neve, esbraseada pelo clarão do incêndio,
onde a escavadeira mal conseguia abrir as trincheiras,
onde a dinamite em vão tentava ajudar-nos
a abrir a terra, a alojar os túmulos,
foi lá que obedeci à tua altiva ordem...
E carregando o feixe de minha dura escolha,
do fundo de mim mesma arranquei o poema
sem poupar sua trama de ser vivo.
A ordem de meu destino delineia-se claramente:
com meus versos, eis-me muitos anos à frente,
pregada à tua visão, conquistada, congelada
neste gelo inimitável.
... Quanto a ti, de quem devo, sem cessar,
ter piedade, por que devo entristece-me,
lamentar-te?
Eu quero é celebrar-te com glória anônima
e muda –
a mais alta glória que existe nesta terra – ;
para sempre eis-te confundido
com tudo aquilo que era maior do que a nossa própria vida,
o sonho,
a alma,
a pátria,
a existência
e, para mim, cada lugar tornou-se o local do teu túmulo,
e em toda parte esta a tua ressurreição.
É o que afirma a voz sonora de Moscou
quando, abalando em todas as cúpulas da noite,
ela canta com a mesma força os vivos e os mortos
e, para a Morte, prevê
a pena de morte.





123

Conversa com uma vizinha

Daríya Vlasiévna, minha vizinha de andar,
Vamos nos sentar, as duas,
E falar dos dias de paz,
A paz que tanto queremos de volta.

Há quase seis meses estamos lutando,
Seis meses do choro e ranger de dentes da batalha.
Cruéis são os sofrimentos da nação,
Teus sofrimentos, Daríya, e os meus.

Ó noites de gemidos e rumores,
De bombas caindo mais e mais perto,
De bocadinhos de pão racionado
Que mal parecem ter algum peso...

Para sobreviver aos grilhões do bloqueio,
Com a morte diária pairando sobre nós,
De quanta força precisamos, vizinha,
De quanto ódio precisamos – de quanto amor!

Tanto que, às vezes, momentos de dúvida
Atingiram até as vontades mais fortes:
“Hei de suportar isso? Posso aguentar?”
Suportas, sim. Hás de sobreviver.

Daríya Vlasiévna, espera um pouco:
Dia virá em que, do alto céu,
O último alerta gritará seu aviso,
O último alarma tocará bem alto.

E quão remota, ah quão vaga e distante
A Guerra parecerá, para nós, nesse dia
Em que tirarmos as tábuas das janelas,
Sumindo com as cortinas de blecaute.

Que a casa toda se encha, então, de luz,
Que se encha de paz e primavera,
De choro quieto e riso quieto e, quieta
Exulte com a recuperada quietude.

A massa nossas mãos há de moldar
De pão fresco bem crocante,
E beberemos, em goles pequenos,
Copos de vinho tinto reluzente.

E a ti – uma estátua a ti hão de erguer
E de colocá-la na praça principal;
124

De firme aço feita, imperecível,
Ela terá tuas formas familiares.

Assim como estás – desnutrida, indomável,
Arrumada às pressas e de qualquer jeito;
Assim como eras sob o bombardeio,
Levando a vida sem desanimar.

Daríya Vlassiévna, esse teu espírito
O mundo inteiro há de se renovar.
O nome desse espírito é Rússia.
Resiste e ousa tanto quanto Ela.

























125

Pável Antokólski (URSS 1896 – 1978)

O poeta e tradutor Pável Grigórievitch Antokólski foi ator e produtor de teatro
durante a Primeira Guerra, trabalho que o levou a excursionar pela frente de
batalha, e posteriormente por diversos países. O poema aqui publicado data de
1943, e foi escrito em memória de seu primeiro filho, morto na Segunda Guerra.
Com este texto o poeta foi agraciado com o Prêmio Stálin de 1946.


Filho (fragmento)

Tradução de Lauro Machado Coelho

Que são estas lágrimas? Chuva sobre um deserto calcinado.
Choveu. Mas o bálsamo da chuva já passou.
Meu filho me pediu que não o chorasse.
Era soldado. Não precisava de lágrimas.

Soldado? Não é verdade. Assim não conseguiremos
decifrar a página totalmente apagada.
Quem era o meu filho? Era uma Criação de Deus.
Criação de Deus? Não. Isso é mentira.

Longo é o meu caminho através de paredes e nuvens.
Meu único caminho verdadeiro.
Meu menino transformou-se numa nuvem fugitiva.
Algo de seu desaparece a cada minuto que passa.

Dilui-se no líquido amargo,
no orvalho salgado que brota de repente.
No combate, ele nem teve tempo de levar à boca o cantil.
Andava para a morte com passo firme, sem hesitar.

O pó grudava-se em seus dentes. Um mosquito
pousou em sua fronte seca, ardente.
Era um dia claro, desses de início da infância.
O cuco piava o seu pacífico “cu-cu”.
De que se lembrou? De que melodia?
De que rosto? De que frase em que carta?
Enquanto o pássaro, cantando a sua longevidade,
repetia um pacífico “cu-cu”.
... Que horror lhe causou aquela coisa viscosa
e quente que lhe brotou da jovem garganta?
Com que sorriso de eterno desconcerto
percebeu-se, de súbito, afogando nele?
Depois, quando, estendido no chão,
dormia tranquilamente, deitado de lado, como fazia em casa,
continuava sonhando com o tardio “cu-cu”
no paraíso do bosque, agora órfão?
126

A vida ia embora. I-a em-bo-ra. Como
se tivesse estado por pouco tempo de visita
e se desse conta de que a vela se apagara,
que a casa estava vazia, as janelas, sem vidros,
que a esperava um longo caminho de volta, à noite,
sozinha, passando por choças carbonizadas e chaminés apagadas.
Serenamente, a vida abandonou, deixou em paz,
na relva do barranco, o cadáver com os braços em cruz.
Não minta, imaginação!
Por que te expandes
e te confundes?
Não estás morta.
Olha, com os olhos bem abertos, até te converteres
na própria agonia de meu filho.
Lembra
com que desespero, quando ele gritou
surdamente, agarrando-se à relva,
logo brotou, em seu cérebro nublado,
o farrapo de esperança:
“Ainda estou vivo!”
Como se arrastou, devagar, pesado, débil,
deixando na relva um rastro vermelho.
Como ficaram a sós, com o moribundo,
a sua vida, os seus dezoito anos.

Rompe teus diques, imaginação! Pensa
que, para ti, não há outro caminho.
Quanto mais obstinada fores, maiores serão
os dezoito anos truncados.

Vamos! Põe-te em carne viva,
faz-te cinza, dispersa-te ao vento,
converte-te em sangue jovem!
Transfigura-te no amor de pais e filhos.

Não te detenhas, sai de ti mesma
com a pele descarnada, como és.
Toda a minha vida, toda a minha dor, às armas!
Ver tudo! Dizer tudo! Sofrer tudo!

... Ele saiu da trincheira. O aroma do campo
acariciou-lhe o rosto, prometendo bom tempo.
Mas, naquele momento, uma bala explosiva
perfurou-lhe o lábio e estourou dentro da boca.

Ele viu tudo, até as coisas mais ínfimas,
as folhas da grama seca tisnadas pelo fogo,
e viu pela última vez o amigo sol,
sentiu pena dele e o esqueceu.
127


Lembrou, lembrou, lembrou
tudo o que desde o princípio esquecera.
Compreendeu como haveria de ser difícil para mim.
Sentiu pena de mim e me esqueceu.

Ainda estava vivo. Um minuto. Meio minuto.
Implorando uma graça impossível.
Caiu ao chão pesadamente
e a úmida mãe terra o acolheu em seu seio.

Apertou contra ela o seu corpo cansado
e, ansioso, já quase não entendendo mais nada,
murmurou – não com os lábios – mas com toda
a sua existência que se extinguia:
“Mãe.”






















128

Siemión Gudzenko (URSS 1922 – 1953)

Nascido em Kiev, Gudzenko fez parte da boa geração de poetas russos da Segunda
Guerra Mundial. Serviu como voluntário na Infantaria. Em 1942, durante a
chamada Batalha de Moscou, foi ferido e sofreu uma concussão. Acabou morrendo
anos depois em virtude desses ferimentos, fato que havia ‘previsto’ em um de seus
poemas.


Antes do ataque

Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman

Quando se vai para a morte – canta-se
(mas se pode chorar,
antes).


O mais terrível do combate:
a vigília do ataque.
A neve – furos – em torno,
enegrecida de minas.
Estrondo –
o amigo que tomba.
A morte passou precisa.
Chegou minha vez,
sou isca e alvo.
Quarenta e um,
ano aziago.
A infantaria jaz inteira
no seu sepulcro-geleira.
Tenho a impressão de ser um ímã:
atraio enxames de minas.
Estrondo –
o tenente, num ronco!
A morte passou de novo.
Não temos fôlego de espera.
E nos conduz sobre as trincheiras
uma ira que se congela
em baionetas
contra goelas.
Foi luta breve.
Agora funde-se
a vodca enregelada.
Extraio a ponta de faca
sangue alheio
de sob as unhas.
1942
129

A minha geração

Tradução de Manuel Seabra

Não tenham pena de nós, nós não temos piedade de ninguém.
Perante o nosso comandante, como perante Deus, somos puros.
Os abrigos dos vivos enferrujaram de lama e sangue,
nas campas dos mortos nasceram flores azuis.

Abriram e morreram... Passa já o quarto Outono.
As nossas mães choram e as namoradas estão caladas e tristes,
Nós não conhecíamos o amor, nem os prazeres da profissão.
Só tivemos às costas a dura faina do soldado.
Os meus coetâneos não conheceram mulher, nem versos, nem repouso, -
só vigor e juventude. E quando regressarmos da guerra,
amaremos e faremos poemas, todos nós,
e os nossos filhos estarão orgulhosos dos seus pais-soldados.
Bem, e os que não voltarem? Que nunca amarão o que deviam amar?
Bem, e os que foram mortos pelas primeiras balas de 41?
As namoradas chorarão e as mães ficarão desesperadas –
dos meus coetâneos que não tiveram versos, nem repouso, nem mulher.
Não tenham pena de nós, nós não temos piedade de ninguém.
Os que entraram nos ataques, que partilharam as últimas migalhas,
Conhecem esta verdade – que encontramos ao pé dos canhões,
discutimos nas trincheiras em vozes roucas e rudes.
Que os vivos recordem e as gerações conheçam
esta verdade da guerra, esta verdade rude dos soldados.
As tuas muletas, a ferida mortal que te atingiu,
as campas do Volga, onde estão milhares de jovens, -
eram o nosso destino, quando praguejávamos e cantávamos,
para sairmos ao ataque e fazermos saltar as pontes do Bug.
...Não tenham pena de nós, nós não temos piedade de ninguém.
Fomos dignos da Rússia e parte dos seus tempos duros.
E quando voltarmos – e voltaremos com a vitória,
todos como demônios teimosos, como gente viva e rude,
que nos deem barris de cerveja e carne na brasa para o almoço,
que as pernas das mesas ranjam com o peso da comida.
Nós curvar-nos-emos ante aqueles que trabalharam e sofreram,
beijaremos mães e amigas, que esperaram por nós com amor.
Quando voltarmos vencedores, dominado o inimigo –
amaremos todos, coetâneos meus, e teremos trabalho à nossa frente.






130

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133

Sobre o organizador

Sammis Reachers nasceu em 09/05/1978 em Niterói – RJ. É poeta, antologista,
editor e blogueiro. Tem se destacado como promotor e divulgador da poesia
cristã/evangélica, através das antologias que organiza e dos blogs como o Poesia
Evangélica, onde já publicou mais de trezentos autores.

É autor dos livros (em formato e-book ou impresso):

POESIA
Uma Abertura na Noite (2006)
A Blindagem Azul (2007)
CONTÉM: ARMAS PESADAS (2012)
Poemas da Guerra de Inverno (2012)
Deus Amanhecer (Impresso: Editora VirtualBooks, 2013)
Poemas da Guerra de Inverno - Edição revista e ampliada (Impresso: Clube
de Autores, 2014)
PULSÁTIL – Poemas canhestros & prosas ambidestras (2014)

CONTOS
O Pequeno Livro dos Mortos (no prelo)

Organizou as seguintes antologias (apenas em formato e-book):

3 Irmãos Antologia (2006 - textos de Gióia Júnior, Joanyr de Oliveira e
J.T.Parreira)
Sabedoria: Breve Manual do Usuário (2008 - antologia de frases)
Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa (2008)
Águas Vivas volume 1 (2009 – antologia reunindo textos de poetas
evangélicos contemporâneos)
Antologia de Poesia Missionária (2010)
Águas Vivas volume 2 (2011)
Breve Antologia da Poesia Cristã Universal (2012)
A Poesia do Natal Antologia (2012)
Águas Vivas volume 3 (2013)
Antologia de Poesia Missionária volume 2 (2013)
Teatro Missionário – Peças Teatrais e Jograis sobre Missões e Evangelização
para Igrejas Evangélicas (2013 – em colaboração com Vilma Aparecida de
Oliveira Pires)
Revista Humorejo – Humor Gráfico Evangélico (2014 - charges, cartuns,
caricaturas e HQ’s)
Segunda Guerra Mundial – Uma Antologia Poética (2014)

*À exceção da segunda edição de Poemas da Guerra de Inverno e do livro de contos
ainda no prelo, todas as obras citadas podem ser lidas online ou baixadas
gratuitamente (acesse AQUI a página Biblioteca no blog Poesia Evangélica, para ter
acesso a esses e a muitos outros livros gratuitos).
Mantém mais de 10 blogs, incluindo os blogs literários:
134


O Poema Sem Fim (pessoal) - http://opoemasemfim.blogspot.com
Poesia Evangélica (desde 2006) - http://poesiaevanglica.blogspot.com
Mar Ocidental - http://marocidental.blogspot.com
Liricoletivo - http://liricoletivo.blogspot.com










































Em outubro de 2014 - São Gonçalo - RJ - Brasil