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APRESENTAÇÃO DO LIVRO "AMÍLCAR CABRAL - UM OUTRO OLHAR

"
DE DANIEL DOS SANTOS
sábado, 6 de Setembro de 2014
Nótula Explicativa

Apresentação:

Amílcar Cabral – Um Outro Olhar.

“Amílcar Cabral - Um Outro Olhar” é um ensaio sério, honesto, que tem na figura de
Amílcar Cabral um eixo condutor. O título sugere, uma certa biografia. Mas não uma
biografia do género "Longa Marcha para a Liberdade" de Nelson Mandela nem “A
Face Oculta de Kennedy” de Seymour Hersch. Cito estes dois grandes estadistas e
estas duas extraordinárias biografias porque estão uma nos antípodas da outra. A
primeira é epopeica e panegírica descrevendo um percurso honroso e dignificante
enquanto a segunda é escabrosa e indecorosa narrando os subterrâneos da vida de um
político e do seu clã – vergonhosa, imoral e pouco digna.

A obra de Daniel Santos não é uma coisa e também não é outra. Não glorifica nem
denigre. Não é isento – não gosto desta palavra porque ela, a palavra, é desprovida de
conteúdo, não tem substância, nem é real. Despiria o autor do seu saber, da sua
formação, do seu pensar, do seu cunho pessoal. É objectiva, seria a expressão certa
para a classificar.

Mas diria mais! Diria que “Amílcar Cabral – Um outro Olhar” é denso, é
substantivo, é real, por isso potencialmente polémico. É também equilibrado, porque
rigoroso e profusamente documentado.

Escrito numa linguagem simples sem ser simplista, escorreita, desprovida de qualquer
gongorismo ou sociolecto, Daniel dos Santos convida o leitor despretensiosamente a
uma permanente reflexão. Na verdade faz uma TAC (Tomografia Axial
Computadorizada) centralizada na figura de Amílcar Cabral (AC) em que escalpeliza
um homem, um partido e um tempo. Fundamenta-se na vida multifacetada de uma
das maiores figuras de África do seu tempo – Amílcar Cabral – para descrever o
homem, o político, o diplomata, o chefe militar, bem como social, cultural e
historicamente esse tempo – o das independências das colónias portuguesas de
África.

O autor divide a sua obra em três partes. O nome que dá a cada uma e as razões que
estão na base desta sua organização são explicadas e descritas nas 1ª páginas. Em
contrapartida separa a vida do “biografado” em cinco fases cronologicamente
estabelecidas, a saber: Conformista; Contestatário; Revoltado; Nacionalista e
Revolucionário desfazendo desta forma a ideia de que Cabral “nascera” político,
ao mesmo tempo que deixa intuir que ele se tornara político por efeito das
circunstâncias e da sua sensibilidade porque na verdade o que ele sonhava, era ser
um poeta de mérito e um reconhecido engenheiro, segundo confessaria.

Para descrever estas fases, o autor percorre a vida de Amílcar Cabral desde o
nascimento em Bafatá, Guiné-Bissau em 1924 passando pelo seu assassínio em Conacry
em 1973, indo para além da sua morte com a proclamação da independência da Guiné-
Bissau e até quando, diz ele, um grupo declarando-se herdeiro do seu legado político e
reivindicando a legitimidade histórica da sua luta, instala em Cabo Verde, (cito-o): “…
um modelo de Estado da mesma igualha que o de Oliveira Salazar.” E explica
(continuo a citar): “As semelhanças são enormes: ambos se baseavam no partido
único, no chefe, na polícia política, na estatização da economia, na ideologia, no
monopólio das forças armadas e dos meios de comunicação social.” (Fim de
citação).

Nada escapou ao olhar atento do investigador político e do antigo jornalista. Do país ele
aborda com clareza e com rigor científico o seu achamento, o seu povoamento, a sua
colonização, o seu “colonialismo”, cruzando e confrontando inteligente e
assertivamente teorias, doutrinas e conceitos − jurídicos, sociológicos, históricos,
culturais − concluindo convergentemente com Cabral de que Cabo Verde era uma
colónia sui generis porque “tecnicamente sem colonização e sem colonialismo”. Cabral
diria para culminar uma intervenção a este propósito: ”Os tugas adoptaram outra
política: [Em Cabo Verde] todos são cidadãos.” Isto tudo para enquadrar e
distinguir, diferenciar, as razões da luta em Cabo Verde e na Guiné.

Ao percorrer a vida de Cabral, Santos não esquece, antes, realça o facto de AC não
obstante ser filho de um homem culto e professor só ter feito a 4ª classe aos 13 anos, na
Escola Central da Praia. Aqui abro um parêntese para um comentário pessoal, extra-
livro, e fazer o ingrato papel de advogado do diabo: Juvenal Cabral, pai de Amílcar,
teve cerca de 3 dezenas de filhos – 18 com as suas 3 principais mulheres – o que
seguramente não lhe dava tempo para cuidar deles todos. Isto deve ter marcado
profundamente o menino e depois jovem, e mesmo o homem, Amílcar Cabral, o que o
leva a manifestar (poesia e cartas) uma permanente protecção e um exacerbado carinho
pela mãe e a condenar com uma violência inaudita, até com alguma deselegância e falta
de tacto diplomático, a poligamia, quando diz: “Que está de facto, profundamente
convencido de que é indigno para a espécie humana um homem ter várias mulheres.”

Ofendia desta forma, pela linguagem que utilizou e não pela condenação da poligamia,
o povo do País que o acolheu, o mundo muçulmano e a cultura generalizada de África.
Cabral viajava com dois nomes falsos (ambos com passaportes de países muçulmanos,
um de Marrocos em nome de Mohamed Benali, outro da Guiné-Conacry em nome de
Ousman Keita). Não me vou alargar sobre este facto. Fecho o parêntese.

Pois bem, AC lá fez o Liceu com distinção – 17 valores – no Gil Eanes de S. Vicente
para onde se deslocara com os seus três irmãos e a mãe que teve que trabalhar
duramente – ganhava 50 centavos por hora na fábrica de conserva de peixe, quando
havia peixe – para manter a família monoparental uma vez que o pai durante todo o
tempo – 7 anos – absolutamente nada enviara.

Depois de um ano a trabalhar na Praia, segue para cursar agronomia. Daniel dos Santos
aproveita com muita oportunidade o tempo em que Cabral se encontra em Lisboa para
descrever com suficiente minúcia o ambiente estudantil dos oriundos das então colónias
bem como a sua relação com a Casa dos Estudantes do Império – CEI – que dava os
seus primeiros passos.

Cabral chegou a Lisboa em 1945 – com 21 anos – pouco mais de um ano depois da
criação da CEI. Também fim da 2ª Grande Guerra, que, como se sabe, traria alterações
significativas na situação das colónias; ano da criação da ONU. E já agora, acrescente-
se – e não é despiciendo – auge da repressão salazarista.

E foi seguindo o seu percurso, as suas relações com a “CEI” e com os principais
protagonistas do ambiente estudantil africano do qual Daniel faz uma bem articulada
exposição da evolução da “Casa” como espaço criado pelo Estado Novo (Ministro do
Ultramar Vieira Machado e Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa Prof.
Marcello Caetano – autor dos estatutos da CEI) para integrar e controlar os estudantes
ultramarinos – dispersos em inúmeras associações – evolução, dizíamos, primeiro para
um centro de consciencialização da cultura africana, isto é, como disse Tomás Medeiros
como um local de “busca da re-africanização da identidade e das raízes” ou como
avançou Frantz Fanon «quebrar a máscara branca» uma vez que o antilhano considerava
que o colonialismo é um processo de alienação que inferioriza o colonizado porque faz
dele cópia, em termos culturais, do colonizador e, posteriormente, de politização das
consciências.

Assim dito, parece que tudo começou com a CEI. Não, nada disto. E Daniel dos Santos
expõe-no com clareza e oportunidade. Vai mais atrás, insere na sua análise toda, e não é
pouca, actividade africanista que se dá com a queda da monarquia e o advento da
república.

Refere-se ao surgimento de uma actividade político-jornalística intensa e muito
abrangente, com a criação de várias associações e organizações que lutam pela
igualdade de negros, mestiços e brancos, por uma “Uma África para os Africanos”,
aproveitando-se do pan-africanismo de Garvey e Du Bois e dos protagonistas dessas
actividades em Portugal e colónias, salientando o papel dos cabo-verdianos Augusto
Vera Cruz e dos irmãos Luis e Martinho Nobre de Mello.

A passagem de AC pela CEI não foi relevante. Por um lado porque a princípio AC
estava muito mais focado nos seus estudos do que em qualquer outra coisa. E a sua
aparição na Casa, diz-nos Daniel dos Santos, só se dá em 1949, quase no fim do curso,
pelas mãos de Marcelino dos Santos e depois da chegada de Mário de Andrade (1948).
A CEI, nessa altura, segundo Mário de Andrade [apenas] se preocupava com problemas
que estivessem ligados à geografia, à linguística e à história da colonização. E
parafraseando o autor que cita Óscar Oramas: “Amílcar não tinha formação nem
preparação teórico-ideológica para rejeitar os valores e a cultura portuguesa”. (Fim de
citação).

O surgimento (na clandestinidade) em 1951, do Centro dos Estudos Africanos (CEA),
na Rua Actor Vale, 37, em Lisboa, veio dar seguimento ao trabalho cultural iniciado na
“Casa” e que não podia continuar porque ela era dominada pelos filhos dos ricos
colonos, sobretudo angolanos, que, obviamente, não deixavam espaço para essas
actividades. O CEA era dominado pelo santomense Francisco José Tenreiro que era de
entre todos, de longe o mais bem preparado, com obras já publicadas. É este o período
em que Daniel dos Santos classifica AC de “contestatário”.

E para terminar esta fase da vida de Amílcar que o autor descreve e analisa de forma
exaustiva, não posso deixar de referir, muito rapidamente, como começou, segundo
Daniel Santos: Amílcar considerou-se sempre GUINEENSE durante toda a guerra para
a independência. E os senhores perguntar-me-ão: E não era guineense? Claro que era!
Mas só foi estudar porque o reitor do Liceu de Gil Eanes, Dr. Luis Terry, lhe concedeu
(discricionariamente) uma pequena bolsa de 350$00 mensais que era manifestamente
pouco. Chegado a Lisboa, a CEI que tinha na sua direcção Humberto Duarte Fonseca,
um cabo-verdiano e a chefiar a sua Secção de Cabo Verde, obviamente, outro cabo-
verdiano, Aguinaldo Veiga abriu concurso para uma bolsa para os naturais de Cabo
Verde a que Amílcar Cabral concorreu e ficou em primeiro lugar. Era uma bolsa de
450$00 que iria acumular com a de 350$00 do Liceu. Humberto Fonseca ainda faria
várias diligências junto do Instituto Superior da Agronomia e do Ministério da
Educação para que lhe fosse concedida isenção de propinas que não era compatível com
a condição de bolseiro, conta-nos Daniel dos Santos. E foi, graças ao empurrão destes
dois cabo-verdianos, e ao seu fechar de olhos à sua naturalidade que ele ganhou
condições para fazer o curso tendo depois escolhido a Guiné para começar a trabalhar.
Aliás, ele nunca trabalhou em Cabo Verde depois de formado.

Antes de partir, ainda no ano em que se formou, 1952, com 15 valores, publicaria o
“Apontamentos Sobre a Poesia Cabo-verdiana” no Cabo Verde – Boletim de
Propaganda e Informação onde estabelece um paralelo entre os Claridosos e os
predecessores. Dizia que o advento dos Claridosos tinha tirado a poesia cabo-verdiana
dos céus e tinha-a colocado na terra: “Cabo Verde já não era o Jardim Hesperitano mas
um país real, de gente com problemas” e, continuo a citar: «onde as árvores morrem de
sede, os homens de fome, a esperança nunca morre» … «e o mar a estrada da libertação
e da saudade». (Fim de citação)

É ainda nesse ano de 1952 que Mário de Andrade e Francisco Tenreiro publicam “Os
Cadernos da poesia Negra de Expressão Portuguesa” que para alguns constitui um
marco na afirmação da personalidade africana em terras portuguesas. Foi altura, diz-nos
Santos, em que Cabral descobre o Pan-Africanismo de Du Bois e Washington e o
Movimento Negritude de Senghor, Césaire, Anta-Diop e outros.

Na Guiné, Cabral desenvolve um extraordinário trabalho técnico merecendo a
apreciação do Governo da Guiné do qual teve sempre boas referências. Mesmo depois
de tentar fundar uma Associação, espante-se (!) em que exclui cabo-verdianos e
europeus. Longe devia estar a ideia da unidade!...
É claro que os estatutos não passaram apesar da simpatia que o Governador Mello e
Alvim, um homem de ideias liberais, tinha por ele. Mais: Mello e Alvim tê-lo-ia
repreendido e dado conselhos de que Cabral mais tarde agradeceria e dos quais nunca
mais se esqueceria.

Cabral deixa a Guiné em 1955, evacuado com paludismo e não expulso como se tenta
fazer passar, di-lo e prova-o Daniel dos Santos. Durante o tempo que esteve na Guiné
teve oportunidade de assistir a espancamentos, torturas, maus tratos de indefesos
«indígenas». Numa palavra: De viver e testemunhar a violência do colonialismo. É a
fase de revoltado, segundo Daniel dos Santos, que a explica com pormenores.

Até 1959, esclarece-nos Daniel dos Santos, «a folha de Amílcar Cabral na PIDE estava
completamente limpa».

Da Guiné salta para Angola para onde fora trabalhar num projecto ligado ao
mapeamento de solos. Ali ele tem contactos com activistas e nacionalistas angolanos,
mais politizados (numa fase mais madura) e mais bem preparados. Toma consciência da
luta que é necessário travar, merecendo de acordo com a entrevista concedida por
Tomás Medeiros a Daniel dos Santos o seguinte comentário (cito): [AC] «só começa a
falar de independência quando foi a Angola trabalhar em Cassiquel. E Mário de
Andrade fez-lhe ver que a «vida não é só solo, é mais qualquer coisa.» E acrescenta
Tomás Medeiros: «perdeu as ilusões do solo e passou a perceber que o problema estava
na organização e no combate.»

Isto, e explicações mais acabadas que encontramos ao longo do livro desfazem o mito,
engendrado e alimentado no seio do PAIGC de que AC esteve na fundação do MPLA.
AC nada tem a ver com a criação do MPLA. Ele, AC, politizou-se em Angola, com
angolanos e não o inverso como o demonstra Daniel dos Santos. É o período em que o
classifica de nacionalista.

Quando se dá a revolta dos estivadores do cais de Pidgiguiti em 1959, Cabral estava em
Angola, de regresso para Portugal tendo tomado conhecimento da ocorrência pelos
jornais. Visita a Guiné passado um mês, em Setembro, não lhe faltando informações
sobre os acontecimentos, uma vez que o seu amigo Aristides Pereira por onde passavam
as mais secretas e confidenciais informações era, sempre de acordo com Daniel dos
Santos, o homem de confiança do Governador e do Inspector da PIDE.

Pidgiguiti é mais uma das falácias do PAIGC que durante anos o reivindicou como obra
sua, sem nada, absolutamente nada ter a ver com ele. Até porque, como se verá ao longo
da obra, PAIGC nem sequer existia.

Em Janeiro de 1960, Cabral viaja para Tunes integrado no MAC (Movimento
Anticolonial) fundado em 1957 por um grupo de militantes de luta anticolonial – o 1º
compromisso político de AC – para assistir ao II Congresso Pan-africano realizado para
os movimentos africanos organizados. Não foram admitidos uma vez que o MAC era
uma organização de cidadãos de várias colónias – Viriato da Cruz e Lúcio Lara de
Angola, Amílcar Cabral da Guiné, Hugo de Menezes de S. Tomé – e não uma
associação de organizações nacionais, como se exigia. Foram obrigados por esse motivo
a “inventar” o MPLA e o PAI para poderem participar, aliás indo ao encontro dos
desejos e das recomendações de Viriato da Cruz. Ao contrário, Holden Roberto era
integrado e já conhecido através da UPA, uma organização nacional angolana que ele
presidia. Daniel dos Santos fala então da transformação do MAC para FRAIN (Frente
Revolucionária Africana Para Independência Nacional das Colónias Portuguesas)
depois para CONCP (Conferência das Organização Nacionalistas das Colónias
Portuguesas) e explica com pormenores como foram “criados” e não “fundados” os dois
partidos – MPLA e PAI.

Quanto ao PAI ele descreve com toda a minúcia a fabricação da data de 19 de Setembro
de 1956 como data da fundação do PAIGC. Apenas para levantar o véu e não tirar-vos o
prazer da leitura, direi que, dos chamados fundadores – nomes que variam conforme a
fonte – não há duas declarações coincidentes. Apenas dois exemplos de dois alegados
fundadores: Aristides Pereira disse que Cabral achou, no acto da fundação, que não era
preciso assinar nenhum papel de compromisso. O seu cunhado Fernando Fortes, ao
contrário, não só disse que assinou um documento, como também disse que falou com
Cabral sobre a sua militância no MLG. Acontece, porém, que em 1956, pretensa data da
fundação do PAI, o MLG não existia. O MLG só foi fundado em 1958. Como podia
ser?

Depois da Conferência de Tunes – um marco importantíssimo não só na vida de Cabral
como na luta das colónias – em que ele assinara com o pseudónimo de Abel Djassi, um
compromisso, não havia mais condições de Cabral regressar a Portugal onde tinha
deixado a família e teve que abandonar a clandestinidade e lançar-se na luta.

Chegou a Conacry em Maio de 1960. Já existiam no terreno muitos partidos (MLG,
MLGC e UPGB entre outros) pelo que teve de lutar duramente – nem sempre com
elegância e elevação (troca de panfletos e de insultos, conspirações, intrigas) com os
partidos concorrentes – para que o seu PAI, que acabara de sair de Tunes – sem
expressão, sem quadros e sem estruturas – fosse reconhecido como única força
representando Guiné e Cabo Verde.

Em 1963, o PAI já PAIGC dá o seu primeiro tiro. É o início da Luta Armada. E os
problemas no seio do PAIGC ganham outra natureza. É a fase de Cabral revolucionário.
Tinha sido nomeado Secretário-Geral do PAIGC fora do quadro estatutário por uma
Conferência de Quadros em Dakar. A partir daí alterou os estatutos como quis, sem
nunca convocar um único congresso e foi-se assenhoreando do Partido.

Em 1964, com a “Conferência de Quadros de Cassacá” mais tarde tornado Congresso,
do qual se saíra muito bem, mas deixando atrás “um rasto de um número indeterminado
de condenações e fuzilamentos de combatentes e de militantes”.

Reforçou os seus poderes e assumiu-se como senhor absoluto do PAIGC. Passou, desde
então, a coleccionar inimigos e adversários internos, todos movidos por um único
interesse: o de o eliminar.

E à medida que a luta se ia desenvolvendo mais poderes chamava a si. Tornou-se, diz-
no-lo Daniel dos Santos, primeiro, uma espécie de semi-deus em que, cito Maurice
Duverger citado pelo autor: “toda palavra que sai da sua boca constitui a verdade; toda a
vontade que dele emana é a lei do partido”, e depois em próprio deus que decidia da
vida e morte dos militantes e em que até os casamentos careceriam da sua autorização.

Diz um documento do PAIGC, reproduzido no livro, que ele estava acima do Partido e
podia por este facto aprovar ou reprovar qualquer decisão tomada por qualquer órgão do
Partido inclusive da sua própria Comissão Permanente. Passava a todos, sem excepção,
uma certidão de incapacidade e de incompetência.

De tudo isto e do que adiante virá nos dá conta o livro.

Ao mesmo tempo que crescia o seu autoritarismo, o seu absolutismo alegadamente
iluminado, engrossavam as fileiras internas dos que o queriam eliminar. Bastas
vezes foi posta em causa a sua liderança inclusive pelo seu próprio irmão Luis
Cabral, como poderão ver na obra.

Apresento uma lista dos atentados, conspirações, intrigas, intentonas mais importantes
de entre os que Daniel dos Santos elenca no seu livro:

• Revolta de Boé (Junho de 1967); - todos fuzilados. As causas residem, alegadamente,
na protecção que AC dava aos cabo-verdianos. Nino estaria envolvido mas recusou-se a
comparecer ao julgamento para que foi convocado.
• Novembro de 1967, um atentado perto de Ziguinchor
• Em Dezembro de 1967 são os mandingas que se manifestam devido ao número de
baixas que sofriam…
• Em Janeiro de 1969 um grupo de balantas em Boé recusa-se a combater exigindo a
presença de Cabral.
• Um outro movimento de revolta surge chefiado por Mário Gomes, Braima Sissé e
Sena Camará.
• A 3 de Maio de 1968, 150 mandingas chefiados Injai Bá da região de Oio traçaram um
plano de deserção para o exército português. A deserção era punida com fuzilamento.
• A 30 de Dezembro de 1968, os mandingas e os manjacos juntam-se e criam a Junta
Militar dos Patriotas da Guiné-Bissau com vista a transformar o PAIGC em PAIG.
Propunha-se eliminar AC e os seus homens de confiança que, para eles, só vivem
roubando o partido. A Junta era dirigida por Mamadu N’Daie, Mamandim Iafa e Bobo
Keita, todos Comandantes supremos.
• Em Fevereiro de 1969 atentado contra Osvaldo Vieira desta vez, (supostamente) à
ordem de AC que estava convencido de que Osvaldo Vieira e Lourenço Gomes
pretendiam derrubá-lo da Chefia do PAIGC.
• A 31 de Março de 1969 um militante de nome Jonjon é surpreendido pelo próprio AC
no seu Gabinete com uma granada no bolso para o eliminar como mais tarde
confessaria. Foi fuzilado com os seus cúmplices.
• Em Outubro de 1969, Malam Sanhá, Seco Baio e outros guineenses reuniram-se em
Simbeli com o propósito de urdir um atentado para eliminar AC quando este para lá se
deslocasse;
• Um outro plano para eliminar AC é conhecido em 1969;
• Em 1972, um ano antes da morte de AC também um conluio (Cabi de etnia balanta e
Caetano). Tratava-se de uma cilada que consistia em minar a estrada por onde AC iria
passar.
• Carta do Nino Vieira a Rafael Barbosa que foi interceptada e os seus efeitos: Conselho
de Guerra para Nino demitido de todas as suas funções e 40 militantes presos para
averiguações.

Perante esta enumeração (elencagem), que peca por defeito, hoje, podia-se
perfeitamente ter pedido emprestado a G. Garcia Marquez o título de um dos seus mais
famosos livros: “Crónica de Uma Morte Anunciada”, morte esta que viria a acontecer
a 20 de Janeiro de 1973.

O que intriga, e Daniel é absolutamente claro quando o insinua, é que perante os factos
e o historial, ainda permaneça em certas pessoas a fixação de que os autores morais do
bárbaro assassínio tenham sido apenas a PIDE e o Gen. Spínola quando não faltavam
agentes e motivos internos. Ou é comodismo, preguiça de pensar ou é ignorância sobre
o que se passava no interior do PAIGC, o que seria natural dada a situação de guerra e
natureza estalinista do Partido. Ou então seria mais uma fabricação do real como
veremos adiante.

Para chegar ao assassínio de Cabral, Daniel percorre a luta e o Partido de lés-a-lés: a sua
génese, o seu desenvolvimento, os seus sucessos, os seus fracassos, as suas estratégias e
tácticas, as suas falácias, os seus momentos de elevação mas também de indignidade.

Nada, absolutamente nada, escapa ao olhar de lince, perspicaz, cuidadoso e abrangente
do político e politólogo, olhar este que se projecta para além da vida do criador do PAI.

Desde a maneira autocrática, despótica e absolutista como Cabral conduziu o seu
Partido, até à criação de um poderoso e bem organizado exército passando pelas
intrigas, conspirações, choques, oposições de que atrás falámos.

Daniel dos Santos confronta ainda, com subtileza, a presença de cabo-verdianos na
luta armada, segundo ele, de 30 a 40, com a dos cubanos que chega a atingir os 500
no ano de 1967, bem como os mortos em combate – 2 da parte dos cabo-verdianos
e 17 da parte dos cubanos.

(A srª Ministra das Finanças que se cuide!…Se os cubanos reivindicarem também terem
lutado na Guiné por Cabo Verde não haverá erário que aguente…).

Daniel faz também uma oportuna e bem articulada incursão pela História comum de
Cabo Verde e Guiné abordando a questão da “fraternidade” entre os dois povos
deixando ao leitor a incumbência de concluir que, se os dois povos são irmãos, então
são os bíblicos Caim e Abel – os irmãos desavindos, uma vez que se trata de uma
relação histórica, como ele próprio observa, entre “dominador e dominado”. Daí se
poder inferir que a dogmatização da unidade Guiné - Cabo Verde, maquinada e
sustentada por Amílcar Cabral ou é um desafio à História que foi sempre adversa a essa
solução ou não passou de um instrumento habilmente urdido para a consecução da luta
para a independência da Guiné-Bissau.

A questão identitária não foi também esquecida. Sem entrar em grandes pormenores,
direi que Daniel dos Santos assume uma posição que considero salomónica, de
equilíbrio: Não temos que nos re-africanizarmos nem de nos re-europizarmos.
Somos cabo-verdianos, fruto do encontro dos dois continentes e respectivas
culturas.

Lembrando o grande poeta, ensaísta e jurista Gabriel Mariano: Não temos que
procurar as raízes, “nós somos as nossas raízes!”

Retomando o conteúdo da obra é importante salientar que o livro de Daniel dos Santos é
construído como se de um puzzle se tratasse. Um puzzle cujas peças se encaixam de
múltiplas maneiras. Tantas, quantas as conclusões a que cada leitor poderá chegar. Um
puzzle em que cada peça que se coloca é um mito que se desfaz na nodulosa edificação
construída no aconchego de um conceito marxista-leninista de ideologia que Daniel dos
Santos tão arguta e inteligentemente repescou de Mário de Andrade e que consiste na
“fabricação do real para fazer passar uma verdade” que se deseja ou que convém. É isto,
diz-nos Daniel dos Santos, cito: “que serve para explicar, por completo, a apropriação,
umas vezes, a falsificação, noutras, de muitos acontecimentos que marcaram a evolução
de alguns processos políticos nas antigas colónias portuguesas." (fim de citação).

É neste quadro que situaremos a falácia da data de criação do PAIGC; a
apropriação da greve dos estivadores de Pidgiguiti; a mentira do controlo dos dois
terços do território; o embuste do recenseamento da população da chamada zona
libertada; a apropriação da autoria da queda do helicóptero onde viajavam deputados
portugueses quando a causa tinha sido unicamente meteorológica; a teatralização
(publicidade enganosa) da audiência pública do Papa Paulo VI tornada privada; a
exultação em Conacry dos irmãos Cabral pelo bárbaro assassínio dos três majores
portugueses; a proclamação da independência da Guiné-Bissau pretensamente (há fortes
dúvidas do local) em Boé; e a alegada legitimidade histórica transferida para Cabo
Verde por um grupo de cabo-verdianos que lutaram para a independência da Guiné-
Bissau entre muitos outros assuntos cirurgicamente inseridos.

Daniel dos Santos é lógico, sem ser silogístico no sentido aristotélico do termo. No
geral evitou conclusões. Diria que é socrático quanto à metodologia de exposição; mais
propriamente maiêutico pois fornece dados e convida o leitor a tirar as suas próprias
ilações. Daí que as minhas não são unívocas. Um outro leitor aportará seguramente a
outras inferências. Contudo há sempre algumas que se consideram (ou parecem ser)
consensuais, não unânimes. E são a estas, sem quaisquer pretensões de estar certo, que
me vou rapidamente referir:

> Amílcar Cabral viveu apenas 10 anos em Cabo Verde – dos 11 aos 21 – anos que,
como é lógico, poderiam ter (e terão) sido de algum enriquecimento intelectual e social
mas dadas as limitações e as circunstâncias que se viviam é de pouco ou nula relevância
social – apenas um ou outro exercício literário. É esta a fase que Daniel classifica de
conformismo;

> Surge [AC] em Cabo Verde, para o povo cabo-verdiano, (não para a elite informada)
trazido pelo “25 d’Abril” e pelas mãos de um punhado de homens e mulheres que tinha
todo o interesse em endeusá-lo e mitificá-lo para se legitimar como herdeiros do seu
alegado “extraordinário” legado histórico colocando-o directa, mas sobretudo
convenientemente, no “Panteão” por uma unanimidade imposta e sem um debate sério
sobre ele, que promovesse, no mínimo, um consenso; (estatisticamente, a unanimidade é
quase sempre uma imposição enquanto o consenso é uma construção).

> Consenso de que ele não gozava como líder – é bom que se diga – entre os
dirigentes guineenses como a obra de Daniel dos Santos revela; e do qual, pelos vistos,
só se redimiu com a morte, que o resgatou. Basta ver a quantidade de responsáveis
guineenses implicados no seu assassínio.

> Que a luta desenvolvida na Guiné-Bissau, utilizando as justificações e os discursos de
Cabral, tinha muito mais um cunho, um cariz, anticolonialista, de mera luta pelo poder,
do que nacionalista – defesa de um ideal, de valores.
> Amílcar Cabral não teria lugar no Cabo Verde de hoje. A concepção monolítica que
ele tinha de poder, da sociedade e da política são absolutamente incompatíveis com a
democracia (sem adjectivos), com os valores e as actuais aspirações do povo cabo-
verdiano;

• O livro de Daniel dos Santos reclama de nós uma profunda reflexão sobre a verdadeira
contribuição desse homem – Amílcar Cabral – no processo político cabo-verdiano;

• É também um convite a um debate sério sobre o mérito ou demérito do seu lugar no
“Panteão” e sobre a “fundação” de uma nação que há mais de 450 anos existe e que
como tal, como nação, fez a 1ª reivindicação dos seus direitos cívicos em meados do
seculo XVI no longínquo reinado de D. João III.

• É (o livro) um desafio à mitificação, ao culto da personalidade, idiossincrático dos
regimes totalitários e ditatoriais de que guardamos evidentes resquícios e produzimos
primárias e grotescas manifestações;

• É ainda (o livro) um forte apelo a uma discussão urgente, há mais de 40 anos adiada.
Não apenas das teorias ou do pensamento de Cabral mas do seu efectivo papel na
independência do País.

Parabéns, pois, a Daniel dos Santos pela ousadia de “UM OUTRO OLHAR” sobre
Amílcar Cabral, um olhar que desacomoda, um olhar através deste importante,
interessante e, desde já, incontornável documento para o conhecimento da História de
Cabo Verde. Uma contribuição que acaba de preencher uma boa parte de uma grande
lacuna que teimosamente se tem conservado e que nem o advento da liberdade e da
democracia, onde não há temas tabus, nem personalidades ou figuras inquestionáveis,
conseguiu colmatar.

É este o livro de Daniel Santos que tenho o privilégio e a honra, e também o prazer, de
vos apresentar – uma tarefa difícil dada a sua extensão (quase 600 páginas) e densidade
– cuja leitura, a todos, recomendo vivamente.