You are on page 1of 179

Quando foi publicado pela primeira

vez em 1951, O Homem Revoltado
valeu a Albert Camus um verdadeiro
linchamento promovido por
intelectuais franceses encabeçados pelo
romancista e flósofo Jean-Paul Sartre.
O ataque de Camus aos crimes
perpetrados em nome da revolta
repercutiu mal, e ele ainda foi acusado
de defender a liberdade de forma
simplista, privilegiando a questão
individual. Foi assim que, por várias
décadas, a complexidade de seu
pensamento foi reduzida a uma tese de
direita.
Stálin ainda vivia, muita gente
começava a se desentender com o
Partido Comunista, mas apesar disso
Camus não podia ser perdoado ao
criticar igualmente a violência e o
totalitarismo de direita e esquerda.
Não se podia aceitar uma crítica tão
forte contra as prisões e os assassinatos
perpetrados em nome da revolução.
O novo humanismo de Camus­
talvez por vezes contraditório, mas
certamente sincero -era repudiado
radicalmente.
A amirgura do consagrado autor de
O Estrangeiro e A Peste foi canalizada
então em 1956 comA Queda,
romance-monólogo de impressionante
expressividade e força. No ano
O Homem Revoltado
Obras do autor
O avesso e o direito
Diário de viagem
O estrangeiro
O exílio e o reino
O homem revoltado
A inteligência e o cadaflso
A morte fliz
A peste
A queda
/
/
Aber Camus
O Homem Revoltado
Tradução de
VAERIE RUMJANEK
9a EDIÇÃO
EDITO RA REC O R D
RIO DE JANEIRO • SÃO PAULO
2011
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Camus, Albert, 1913-1960
C218h
9" ed.
O homem revoltado / Albert Camus; tradução
de Valerie Rumjanek.-9a ed.-Rio de ] aneiro: Record,
2011.
352p.
Tradução de: I;homme révolté
ISBN 978-85-01-04548-5
1. Totalitarismo. 2. Revoluções. I. Título.
96-1824
Título original francês
I;HOMME RÉVOLTÉ
CDD- 321.9
CDU- 321.64
Copyright © 19 51 by Éditions Gallimard
Código 04548/4
Capa: Victor Burton
Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o Brasil
adquiridos pela
EDITORA RECORD LTDA.
Rua Argentina 171- Rio de Janeiro, R]-20921-380-Tel.: 2585-2000
que se reserva a propriedade literária desta tradução
Impresso no Brasil
ISBN 978-85-01-04548-5
Seja um leitor preferencial Record.
Cadastre-se e receba informações sobre nossos
lançamentos e nossas promoções.
Atendimento e venda direta ao leitor:
mdireto@record.com.br ou (21) 2585-2002
EDITORA AFILIADA
A Jean Grenier
r
"E abertamente entreguei meu coração à terra sé­
ria e doente, e muitas vezes, na noite sagrada, pro­
meti amá-la fielmente até a morte, sem medo, com
a sua pesada carga de fatalidade, e não desprezar
nenhum de seus enigmas. Dessa forma, liguei-me
à fatalidade por um elo mortal."
Holderlin
A more de Empédocles
Sumário
INTRODUÇÃO: O absurdo e o assassinato
I. O HOMEM REVOLTADO
li. A REVOLTA METAF
Í
SICA
OS FILHOS DE CAIM
A NEGAÇÃO ABSOLUTA
Um homem de letras
A revolta dos dândis
A RECUSA DA SALVAÇÃO
A AFIRMAÇÃO ABSOLUTA
O Único
Nietzsche e o niilismo
9
ALBERT CAMUS
A POESIA REVOLTADA
Lautréamont e a banalidade
Surrealismo e revolução
NIILISMO E HISTÓRIA
III. A REVOLTA HIST
Ó
RICA
OS REGICIDAS
O novo evangelho
A execução do rei
A religião da virtude
O Terror
Os DEICÍDIOS
0 TERRORISMO INDIVIDUAL
A renúncia à virtude
Três possessos
Os assassinos delcados
O chigalevismo
0 TERRORISMO DE ESTADO E O TERROR
IRRACIONAL
0 TERRORISMO DE ESTADO E O TERROR
RACIONAL
A procia burguesa
A profcia revolucionária
10
103
104
111
124
129
138
141
144
148
152
161
178
180
183
195
204
208
219
220
230
O HOMEM REVOLTADO
O malogro da procia
O reino dos fns
Totalidade e julgamento
REVOLTA E REVOLUÇÃO
IV REVOLTA E ARTE
Romance e revolta
Revola e estilo
Criação e revolução
V O PENSAMENTO MEDITERR
Â
NEO
REVOLTA E ASSASSINATO
O assassinato niilista
O assassinato histórico
MEDIDA E DESMEDIDA
O pensamento mediterrâneo
ALÉM DO NIILISMO
11
244
261
269
282
289
297
307
312
319
321
325
329
337
341
346
Introdução
Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue
um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos
na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos
não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a des­
culpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável:
a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar as­
sassinos em juízes.
Heathcliff, em O morro dos ventos uivantes, seria capaz de ma­
tar a terra inteira para possuir Kathie, mas não teria a idéia de dizer
que esse assassinato é racional ou justificado por um sistema. Ele o
cometeria, aí termina toda a sua crença. Isso implica a força do
amor e caráter. Sendo rara a força do amor, o crime continua ex­
cepcional, conservando desse modo o seu aspecto de transgressão.
Mas a partir do momento em que, na falta do caráter, o homem
corre para refugiar-se em uma doutrina, a partir do instante em
que o crime é racionalizado, ele prolifera como a própria razão,
assumindo todas as figuras do silogismo. Ele, que era solitário como
o grito, ei-lo universal como a ciência. Ontem julgado, hoje faz a
lei.
Não nos indignaremos contra isso. O propósito deste ensaio é,
uma vez mais, aceitar a realidade do momento, que é o crime lógi-
13
ALBERT CAMUS
co, e examinar cuidadosamente suas justificações: trata-se de uma
tentativa de compreender o meu tempo. Pode-se achar que uma
época que em cinqüenta anos desterra, escraviza ou mata setenta
milhões de seres humanos deve apenas, e antes de tudo, ser julgada.
Mas, também é necessário que a sua culpabilidade seja entendida.
Nos tempos ingênuos em que o tirano arrasava as cidades para sua
maior glória; em que o escravo acorrentado à biga do vencedor era
arrastado pelas ruas em festa; em que o inimigo era atirado às feras
diante do povo reunido, diante de crimes tão cândidos, a consciên­
cia conseguia ser firme, e o julgamento, claro. Mas os campos de
escravos sob a flâmula da liberdade, os massacres justificados pelo
amor ao homem pelo desejo de super-humanidade anuviam, em
certo sentido, o julgamento. No momento em que o crime se enfei­
ta com os despojos da inocência, por uma curiosa inversão peculiar
ao nosso tempo, a própria inocência é intimada a justificar-se. Este
ensaio pretende aceitar e examinar esse estranho desafio.
Trata-se de saber se a inocência, a partir do momento em que
age, não pode deixar de matar. Só conseguimos agir no nosso pró­
prio tempo, entre os homens que nos cercam. Nada saberemos,
enquanto não soubermos se temos o direito de matar este outro
que se acha diante de nós ou de consentir que seja morto. Já que
atualmente qualquer ação conduz ao assassinato, direto ou indire­
to, não podemos agir antes de saber se, e por quê, devemos ocasio­
nar a morte.
O essencial, portanto, não é ainda remontar às origens das coi­
sas, mas, sendo o mundo o que é, saber como conduzir-se nele. No
tempo da negação, podia ser útil examinar o problema do suicídio.
No tempo das ideologias, é preciso decidir-se quanto ao assassina­
to. Se o assassinato tem suas razões, nossa época e nós mesmos
estamos dentro da conseqüência. Se não as tem, estamos loucos, e
não há outra saída senão encontrar uma conseqüência ou desistir.
É nossa tarefa, em todo o caso, responder claramente à questão
14
O HOMEM REVOLTADO
que nos é formulada, no sangue e nos clamores do século. Pois
fazemos parte da questão. Há trinta anos, antes de se tomar a deci­
são de matar, tinha-se negado muito, a ponto de se negar a si mes­
mo pelo suicídio. Deus trapaceia, todos são trapaceiros como ele,
inclusive eu, logo, resolvo morrer: o suicídio era a questão. Atual­
mente, a ideologia nega apenas os outros, só eles são trapaceiros. É
então que se mata. A cada amanhecer, assassinos engalanados se
esgueiram para dentro de uma cela: o crime de morte é a questão.
Os dois raciocínios se sustentam. Ou melhor, eles nos susten­
tam, e de maneira tão urgente que não podemos mais escolher nos-
os problemas. São eles que, um após outro, nos escolhem. Aceite­
mos essa escolha. Este ensaio se propõe a prosseguir, diante do
assassinato e da revolta, uma reflexão começada em torno do suicí­
dio e da noção de absurdo.
Mas, por ora, esta reflexão só nos oferece uma única noção, a do
absurdo. Esta, por sua vez, só nos traz uma contradição no que se
refere ao assassinato. O sentimento do absurdo, quando dele se
pretende, em primeiro lugar, tirar uma regra de ação, torna o cri­
me de morte pelo menos indiferente e, por conseguinte, possível.
Se não se acredita em nada, se nada faz sentido e se não podemos
afirmar nenhum valor, tudo é possível e nada tem importância.
Não há pró nem contra, o assassino não está certo nem errado.
Pdemos atiçar o fogo dos crematórios, assim como também pode­
mos nos dedicar ao cuidado dos leprosos. Malícia e virtude tor­
nam-se acaso ou capricho.
Decidir-se-á então não agir, o que implica no mínimo aceitar o
assassinato dos outros, apenas deplorando coerentemente a imper­
feição dos homens. Pode-se ainda imaginar a substituição da ação
pelo diletantismo trágico, e, neste caso, a vida humana não passa
de uma parada no jogo. Neste último caso, na falta de um valor
mais alto que oriente a ação, dirigir-se-á para a eficácia imediata.
15
ALBERT CAMUS
Se nada é verdadeiro nem falso, bom ou mau, a regra será mostrar­
se o mais eficaz, quer dizer, o mais forte. O mundo não estará mais
dividido em justos e injustos, mas em senhores e escravos. Desta
forma, não importa para que lado nos voltemos, no âmago da ne­
gação e do niilismo, o assassinato tem um lugar privilegiado. Se,
portanto, pretendemos nos instalar na atitude absurda, devemos
estar preparados para matar, dando assim mais peso à lógica do
que a escrúpulos que consideraremos ilusórios. Certamente, seri­
am necessários alguns arranjos. Mas, em suma, menos do que se
poder imaginar, se levarmos em conta a experiência. Além disso, é
sempre possível, como se vê todos os dias, deixar que os outros
matem por nós. Assim, tudo seria acertado em nome da lógica, se a
lógica fosse realmente satisfeita.
Mas a lógica não pode encontrar satisfação numa atitude que
deixa perceber que o assassinato ora é possível, ora impossível.
Isso porque a análise absurda, após ter tornado no mínimo indi­
ferente o ato de matar, na mais importante de suas conseqüências,
acaba por condená-lo. A conclusão última do raciocínio absurdo
é, na verdade, a rejeição do suicídio e a manutenção desse con­
fronto desesperado entre a interrogação humana e o silêncio do
mundo.' O suicídio significaria o fim desse confronto, e o racio­
cínio absurdo considera que ele não poderia endossá-lo sem ne­
gar suas próprias premissas. Tal conclusão, segundo ele, seria
fuga ou liberação. Mas fica claro que, ao mesmo tempo, esse ra­
ciocínio admite a vida como o único bem necessário porque per­
mite justamente esse confronto, sem o qual a aposta absurda não
encontraria respaldo. Para dizer que a vida é absurda, a consci­
ência tem necessidade de estar viva. Sem uma notável concessão
ao gosto pelo conforto, como conservar para si o benefício exclu­
sivo de tal raciocínio? A partir do instante em que se reconhece
'Ver O mio de Síi.
16
O HOMEM REVOLTADO
cs e bem como tal, ele é de toda a humanidade. Não se pode dar
uma coerência ao assassinato, se a recusamos ao suicídio. A men-
1 • imbuída da idéia de absurdo admite, sem dúvida, o crime por
1:.ttalidade; mas não saberia aceitar o crime por raciocínio. Diante
d confronto, assassinato e suicídio são a mesma coisa: ou se acei­
lam ambos ou se rejeitam ambos.
Da mesma forma, o niilismo absoluto, aquele que aceita legi-
1 i mar o suicídio, corre mais facilmente ainda para o assassinato
lógico. Se o nosso tempo admite tranqüilamente que o assassina­
to tenha suas justificações, é devido a essa indiferença pela vida
que é a marca do niilismo. Sem dúvida, houve épocas em que a
paixão pela vida era tão forte que também acabava em excessos
·riminosos. Mas esses excessos eram como o ardor de um gozo
Lcrrível, e não essa ordem monótona, instaurada por uma lógica
mesquinha, a cujos olhos tudo se iguala. Esta lógica levou os
valores de suicídio, dos quais nosso tempo se alimentou, às suas
(d.timas conseqüências, ou seja, ao assassinato legitimado. Do
mesmo modo, ela culmina no suicídio coletivo. A demonstração
mais notável foi fornecida pelo apocalipse hitlerista de 194 5. A
autodestruição não era nada para os loucos que se preparavam
nos covis para uma morte apoteótica. O essencial era não se des­
truir sozinho, arrastando consigo um mundo inteiro. De uma
certa maneira, o homem que se mata na solidão preserva ainda
um valor, já que aparentemente ele não reivindica para si nenhum
direito sobre a vida dos outros. Prova é que ele nunca utiliza,
1 ara dominar o outro, a terrível força e a liberdade que a sua
decisão de morrer lhe dá; todo suicídio solitário, quando não há
ressentimento, é generoso ou desdenhoso. Mas desdenha-se em
nome de alguma coisa. Se o mundo é indiferente ao suicida, é
porque este tem uma idéia daquilo que não lhe é ou poderia não
lhe ser indiferente. Acredita-se tudo destruir e levar tudo consi­
go, mas dessa própria morte renasce um valor que talvez tivesse
17
ALBERT CAMUS
¡ustilcado avida. A negaçäo absoluta, portanto, näo seesgota
comosuicidio Istoscpoderiaocorrercomadestruiçäoabsoluta,
desimesmoedosoutros Scsepodevivê-la,pelomenos, tenden-
doparaessedeleitsvel limiteSuicidioeassassinatosäo,nessecaso,
asduaslacesdeumamesmaordem-adeumainteligênciainle-
liz,queprelere ao solrimentodeumacondiçäolimitadaa negra
exaltaçäoemqueoceueaterraseaniquilam.
De lorma idêntica, se recusamos ao suicidio as suas razões,
näoepossivelconleri-lasaoassassinatoÞäoseeniilistapelame-
tade.Òraciocinioabsurdonäopodeaomesmotempopreservara
vidadaquelequelalaeaceitaro sacrilcio dosoutros. Apartirdo
momentoemquesereconheceaimpossibilidadedanegaçäoabso-
luta,eereconhecê-lao lato deviver dealgummodo,aprimeira
coisaquenäosepode negareavidadeoutremAssim,amesma
noçäoquenospermitiacrerqueoassassinatoeraindilerenteagora
retiralhesuas¡ustilcações,voltamosacondiçäoilegitimadaqual
tentamos sair Þa prstica, esseraciocinio nos garante ao mesmo
tempoque sepodeequenäo sepodematar Llenosabandonaà
contradiçäo,semnadaquepossaimpediroassassinatooulegitims-
lo, ameaçadores e ameaçados, seduzidos portoda uma epoca
inebriadade niilismo, e,no entanto, mergulhados nasolidäo, de
armasnamäoecomumncnagarganta.
Y
Nasessa contradiçäo essencialnäo pode deixardeseapresentar
comumaseriedeoutras,apartirdomomentoemquepretende-
mosmanter-nosnoabsurdo,menosprezandooseuverdadeiroca-
rster,queeodeserumapassagemvivida,umpontodepartida,o
equivalente,naexistência, adúvidametcdicadeIescartesÒab-
surdoe,emsi,contradiçäo
Ileo eemseuconteúdo,porqueexcluios¡uizosdevalorao
1 8
O HOMEM REVOLTADO
q�1crer manteravida,enquantoo prcpriovivernäopassadeum
, ízo devalor. Respirare¸ulgar Certamente, e lalsodizerque a
vida eumaperpetuaescolìa.Naseverdadequenäoseconsegue
u.ginar uma vida privada de qualquer escolha. Iesse simples
¸ooto devista, a posiçäo absurdae, em ato, inimaginsvel Llae
+,beminimaginsvelemsuaexpressäo.Qualquerhlosoladanäo-
- gnilcaçäoviveemumacontradiçäopeloprcpriolatodeseexpri-
+| r Comisso,elaconlereumminimodecoerênciaaincoerência,
+cnandosentidonaquiloqueprovavelmentenäotemnexo Ialar
c¡araAúnicaatitudecoerentebaseadananäo-signilcaçäoseria
o silêncio,seosilêncio,porsuavez, näotivesseoseusignilcado.
A absurdidade perleita tenta ser muda. Se ela lala, e porque se
.omprazou,comoveremos,porquese¡ulgaproviscriaLstacom-
¸|acência,estaauto-estimamarcaeletivamenteoequivocoprolun-
do daposiçäoabsurdaIecertamaneira,oabsurdoquepretende
.xprimirohomememsuasolidäolazcomqueelevivadiantede
|ÅespelhoÒdilaceramentoinicialcorre,entäo,oriscodese tor-
+ar conlortsvel A lerida que se coça com tanta solicitude acaba
1andoprazer.
ÞäonoslaltaramgrandesaventureirosdoabsurdoNas,al-
+al,suagrandezasemedepelolatodeteremrecusadoascompla-
.ênciasdoabsurdoparadelescguardaremasexigências.Llesdes-
.roem pelo mais, näo pelo menos "Säo meus inimigos", diz
¹ietzsche,"quedese¡amdestruir, näocriaremasiprcprios "Lle
Jestrci,masparatentarcriar Lexaltaaprobidade,lustigandoos
'edonistascomos"seuslocinhosdeporco"Iaraescapardacom-
¡lacência, o raciocinio absurdo encontra, entäo, a renúncia. Lle
|ecusaadispersäo edesembocaemumdespo¡amentoarbitrsrio,
amparti pris de silêncio, aestranha ascesedarevolta Rimbaud,
que canta "o belo crime choramingando nalama da rua", corre
¸araodesertodoIarrar, ondesequeixaapenasdeviveralisem
tamilia. Iara ele, avida era "uma larsaa serdesempenhada por
1 9
ALBERT CAMUS
todos". Þahoradamorte,porem,gritaparaairmä. "Luireipara
debaixoda terra,evocê,vocêcaminhar+aosol!"
Y
Òabsurdo,vistocomoregradevida,eportantocontraditorioQue
h+deespantosoemquenäonoslorneçaosvaloresquedecidiriam
pornosquantoa¦egitimidadedoassassinato`Ali+s,näoepossive¦
lundamentaruma atitude emuma emoçäoprivilegiada Ò senti-
mento do absurdo e um sentimento entre outros. Ò lato de ter
emprestado suas cores a tantos pensamentos e ações no periodo
entreasduasguerrasprovaapenasasualorçaeasualegitimidade.
Nasaintensidadedeumsentimentonäoimplicaqueelese¡auni-
versal. Ò errodetodaumaepocaloi o deenunciar, oudesupor
enunciadas,regrasgeraisdeaçäo,apartirdeumaemoçäodeses-
peradacu|omovimentoproprio,naqualidadedeemoçäo,eraode
sesuperarÒsgrandessolrimentos,assimcomoasgrandesa¦egri-
as,podemestarnoiniciodeumraciocinioSäointercessores.Nas
näosesaberiacomoencontr+-losemantê-losaolongodessesracio-
cinios. Se, portanto, eralegitimolevarem conta a sensibilidade
absurda,lazerodiagnosticodeummaltalcomoseencontraemsi
enosoutros, eimpossive¦vernestasensibilidade,enoniilismoque
elasupõe,maisdoqueumpontodepartida,umacriticavivida,o
equivalente,noplano daexistência, adúvidasistem+tica Fmse-
guida,eprecisoquebraros|ogosExosdoespelhoeentrarnomo-
vimentopeloqualoabsurdosuperaasiproprio
Quebradooespelho,näorestanadaquenospossaservirpara
responderasquestõesdoseculo.Òabsurdo,assimcomoadúvida
metodica, tez t+bula rasa Lle nos deixa sem saida Nas, como a
dúvida,aodesdizer-se,e¦epodeorientarumanovabusca. Como
raciocinio aconteceomesmo.Iroclamoquenäo creioem nadae
quetudoeabsurdo,masnäopossoduvidardeminhapropriapro-
20
O HOMEM REVOLTADO
' amaçäo e tenho de, no minimo, acreditar em meu protesto. A
¸rimeira e única evidência que assim me e dada, no ambito da
cxperiênciaabsurda,earevolta.Irivadodequalquerconhecimen-
|o,impe¦idoamatarouaconsentirquesemate,sodisponhodessa
.vidência,queerelorçadapelodilaceramentoemquemeencon-
|:oArevoltanascedoespet+culodadesrazäodiantedeumacon-
diçäoin|ustaeincompreensivel.Nasseuimpetocegoreivindicaa
ordemno meio do caos ea unidade no proprio seiodaqui¦o que
geedesaparece Arevoltac¦ama,elaexige,elaquerqueoescan-
da¦otermineequeseExeEna¦menteaquiloqueateentäoseescre-
.iasemtreguasobreomarSuapreocupaçäo etranslormar Nas
|ranstormareagir,eagir, amanhä,ser+matar,enquantoelaainda
aäo sabe se matare legitimo. Lla engendra¡ustamente as ações
.u|a¦egitimaçäo lhe pedimos.
¿
preciso, portanto, que a revolta
.ire as suas razões de si mesma, |+ que näo consegue tir+-¦as de
aaisnada
¿
precisoqueelaconsintaemexaminar-separaapren-
Jeraconduzir-se
Iois secu¦os derevolta, metalisica ou historica, seolerecem
,ustamenteanossaretexäo Soumhistoriadorpoderiapretender
:xpor,comdetalhes,asdoutrinaseosmovimentosquesesucede-
:amnesseperiodoIeveserpossive¦,pelomenos,buscarneleoEo
dameada.Asp+ginasqueseseguempropõemapenasalgunsmar-
coshistoricos,eumahipotesenäoeaúnicapossivel,ali+s,elaest+
longedetudoesclarecer. Nas exp¦icaemparte o rumo e, quase
inteiramente, os excessos de nosso tempo. A historia prodigiosa
queaquiseevocaeahistoriadoorgulhoeuropeu
Arevolta,emtodoocaso,sopodialornecer-nosassuasrazões
aocabodeumapesquisasobreassuasatitudes,pretensõesecon-
quistas. Lmsuasrealizaçõestalvez seencontremaregradeaçäo
que o absurdo näo conseguiu nos oterecer, uma indicaçäo pelo
menossobreodireitoouodeverdematar,aesperança, enlim,de
umacriaçäoÒhomemeaúnicacriaturaqueserecusaaseroque
21
ALBERT CAMUS
e Aquestäoesaberseestarecusanäopodelev+-losenäoadestrui-
çäodosoutrosedesiproprio,setodarevoltadeveacabarem|us-
tihcaçäodoassassinatouniversalouse,pelocontr+rio,sempreten-
säoaumaimpossivelinocência, elapodedescobriroprincipiode
umaculpabilidaderacional
22
I
O homem revoltado
··�
Queeumhomemrevoltado`Imhomemquediznäo.Nas,seele
ecusa,näorenuncia. etambemumhomem quediz sim, desdeo
-euprimeiromovimento.Imescravo,querecebeuordensduran-
|etodaasuavida,|ulgasubitamenteinaceit+velumnovocoman-
do. QualeosigniEcadodeste "näo"r
SigniEca,porexemplo,"ascoisas|+duraramdemais", "ateai,
- m, apartirdai,näo" , "assim|+edemais" ,e, ainda,"h+umlimite
juevocênäovaiultrapassar".Lmsuma,estenäoahrmaaexistên-
.| adeumalronteira.Lncontra-seamesmaideiadelimitenosen-
||mentodorevoltadodequeooutro"exagera", que estendeoseu
1ireitoalemdeumalronteiraapartirdaqua¦umoutrodireito o
enlrentaeodelimitaIestalorma,omovimentoderevo¦taapoia-
-eaomesmotemponarecusacategoricadeumaintromissäo|ulgada
·nto¦er+velenacertezacontusadeumdireitoeletivoou,maisexa-
.amente,naimpressäodorevo¦tadodequeele"temodireitode... ".
A revoltanäoocorresemosentimentodeque,dealgumalormae
emalgumlugar, setemrazäo
¿
porissoqueoescravorevoltado
dizsimultaneamentesimenäo. LleaErma, aomesmo tempo em
jue aErma alronteira, tudo que suspeita e que dese|apreservar
a¸uemdatronteira.L¦edemonstra,comobstinaçäo,quetrazemsi
.|goque"valeapena "equedeveserlevadoemcontaIecerta
aaneira,elecontrapõeaordemqueooprimeumaespeciededirei-
to anäoseroprimidoalemdaquiloquepodeadmitir.
25
ALBERT CAMUS
Aomesmotempoemquerepulsaemrelaçäoaointruso,h+em
todarevoltaumaadesäointegraleinstantaneadohomemauma
certapartedesimesmo Llelaz comqueintervenhaportanto,im-
plicitamente,um|uizodeva¦or,etäopoucogratuitoqueosustenta
emmeioaosperigos ^teentäo,pelomenoselesecalava,entregue
a esse desespero em que uma condiçäo, mesmo quando|u¦gada
in|usta,eaceita Calar-seedeixarqueacreditemquenäo se|ulga
nemsedese|anada,eemcertoscasose,narealidade,nadadese|ar
Òdesespero,comooabsurdo,|ulgaedese|atudo,emgeral,enada,
emparticular Òsilênciobemotraduz.Nas,apartirdomomento
emquelala,mesmodizendonäo,e¦edese|ae|ulga. Òrevoltado,
nosentidoetimologico,ealguemqueserebela.Caminhavasobo
chicote do senhor,agoraoenlrenta Contrapõeoqueeprelerivel
aoquenäooe Þemtodovaloracarretaarevolta,mastodomovi-
mentode revo¦tainvocatacitamenteumvalor.Jrata-serealmente
deumva¦or`
Iormaisconísaquese|a,umatomadadeconsciêncianasce
domovimentoderevolta.apercepçäo,subitamentereveladora,de
queh+nohomema¦gocomoqualpodeidentiEcar-se,mesmoque
soporalgumtempo.^teentäo,essaidentiEcaçäonäoerarealmen-
tesentida Òescravo aceitavatodasasexaçõesanterioresaomovi-
mentodeinsurreiçäo. Nuitolreqüentementehaviarecebido,sem
reagir, ordens mais revoltantes do queaque¦a que desencadeia a
suarecusa Isava de paciência,re| eitando-astalvez dentrodesi,
mas,|+quesecalava, maispreocupadocomseuinteresseimediato
doqueconscientedeseudireito.Comaperdadapaciência,coma
impaciência,começaaocontr+rioummovimentoquesepodees-
tenderatudooqueanteseraaceito.Lsseimpetoequasesempre
retroativo Ò escravo, noinstante emquere|eita a ordem humi-
lhantedeseusuperioi,re|eitaaomesmotempoapropriacondiçäo
deescravo Òmovimentoderevolta¦eva-oalemdopontoemque
estavacoma simp¦es recusa Iltrapassaate mesmo o limiteque
26
O HOMEM REVOLTADO
'ìxava paraoadvers+rio, exigindoagorasertratadocomoigual
O queeranoinicioumaresistênciairredutiveldohomemtrans-
orma-senohomemque,porinteiro,seidentihcacomelaeaela
¬L resume Coloca estapartedesiproprio, queelequeria lazer
espeitar,acimadorestoeaproclamaprelerivelatudo,mesmoa
· |daJorna-se para eleo bem supremo. Insta¦adoanteriormente
+ am compromisso, o escravo lança-se, de umavez ¸ "| +que e
+ssim. . "), ao Judo ou Þada. A consciênciavem a tona com a
evolta
Nasvê-sequeelaeconsciência,aomesmotempo,deumtudo,
a|ndabastanteobscuro,edeum"nada"queanunciaapossibilida-
1edesacrihciodohomemaessetudo. Òrevoltadoquersertudo,
dentiEcar-setota¦mentecomessebemdoqualsubitamentetomou
.onsciência,equedese|aver, emsuapessoa,reconhecidoesauda-
do-ounada, querdizer, ver-sedelinitivamentederrotadope¦a
orçaqueodominaLmúltimainstancia,eleaceitar+aderradeira
derrota,queeamorte,setiverqueserprivadodestaconsagraçäo
exclusivaaquechamar+,porexemplo,desualiberdade.Antesmor-
crdepedoqueviverde|oe¦hos.
Segundoosbonsautores, ovalor"representa,namaioriadas
vezes,umapassagemdolatoaodireito, do dese|adoaodese|+vel
,emgeral,pormeiodogera¦mentedese|ado )´" Atransiçäoparao
direitoemanilesta,comovimos,narevo¦taIamesmalorma, ela
¸assado "serianecess+rio que assim losse" ao "quero queassim
se|a", mastalvezmaisainda,aessanoçäodasuperaçäodoindivi-
duo paraum bem doravantecomum Ò surgimentodoJudoou
Nadamostraquearevolta,contrariamenteavozcorrente,eapesar
deoriundadaqui¦oqueohomemtemdemaisestritamenteindivi-
dual,questionaaproprianoçäodeindividuo Secomeleitooindi-
viduoaceitamorrer,emorrequandosurgeaocasiäo,nomovimen-
'Lalande. Vcabuláro flosófco.
27
ALBERT CAMUS
to desuare\olta, elemostracomissoquesesacrilicaemprolde
umbemque|ulgatranscenderoseupropriodestino.Seprelerea
e\entualidadedamorteanegaçäodessedireitoqueeledetende,e
porqueocolocaacimadesiproprioAgeportantoemnomedeum
\alor, ainda conluso, mas que pelo menos sente ser comum a si
proprioeatodos os homens. \ê-se queaaErmaçäoimplicitaem
todoatodere\oltaestende-seaalgoquetranscendeoindi\iduo,
namedidaemqueoretiradesuasupostasolidäo,lornecendo-lhe
umarazäoparaagir.Nascabeobser\arqueesse\alorquepreexiste
a qualquer açäo contradiz as ElosoEas puramente historicas, nas
quais o\alore conquistado ¸se e queum\alor seconquista) no
EnaldaaçäoAan+lisedare\oltanosle\apelomenosasuspeitade
queh+umanaturezahumana,comopensa\amosgregos, econtra-
riamente aospostuladosdopensamentocontemporaneoIorque
sere\oltar, se, emsi, nadah+depermanenteaserpreser\ado`Ò
escra\o seinsurge, por todos os seres ao mesmo tempo, quando
|ulgaque,emtacedeumadeterminadaordem,algodentrodelee
negado, algo quenäopertenceapenasa ele, masquee comum a
todososhomens,mesmoaquelequeoinsultaeooprime,perten-
centesaumacomunidadepreparada.`
Iuas obser\açõesiräoapoiaresteraciocinio Òber\e-se, em
primeirolugar,queomo\imentodere\oltanäoe, emsuaessência,
um mo\imento egoista Certamente, ele podeterdeterminações
egoistas. Naso homemsere\oltatantocontraamentira quanto
contraaopressäoAlemdisso,apartirdessasdeterminações,eno
seumais protundoentusiasmo,ore\oltado nadapreser\a,|+que
colocatudoem|ogo.Semdú\ida,eleexigeparasiorespeito,mas
apenas namedidaemqueseidentiEcacomumacomunidadena-
tural
3 A comunidade das vítimas é a mesma que une a vítima ao carrasco. Mas o carrasco não sabe
disso.
28
O HOMEM REVOLTADO
Òbser\emos,aseguir,queare\oltanäonasce,únicaeobriga-
·.iamente,entreosoprimidos,podendotambemnascerdoespe-
aculodaopressäocu|a\itimaeumoutro. Lxisteportanto,neste
aso,identiEcaçäocomoutroindi\iduoLenecess+riodeixarcla-
quenäo setratadeumaidentiEcaçäopsicologica, subterlúgio
¸elo qual o indi\iduo sentiria na imaginaçäo que e a ele que se
1.rige aolensa Iode ocorrer, pelo contr+rio, que näo se consiga
.er intigir a outros olensas que nos mesmos temos solrido sem
cvolta Òs suicidios deprotesto, no c+rcere, entre osterroristas
+ssoscu|oscompanheiroseramchicoteadosilustramessegrande
·o\imento Þäo se tratatampoucodosentimento dacomunhäo
�e interesses Þa\erdade, podemos achar re\oltante a in[ustiça
+postaahomensqueconsideramosad\ers+rios Lxistemapenas
1entiEcaçäodedestinosetomadadepartidoIortanto,oindi\i-
dao,näoe, por si so, esse\alorque ele se dispõeadelender. Säo
· cess+riospelomenos todos oshomensparaabrangeresse\alor
`a re\olta, o homem se transcende no outro, e, desse ponto de
.. sta,asolidariedadehumanaemetalísicaJrata-sesimplesmente,
¸orora,dessaespeciedesolidariedadequenascenasprisões.
|ode-seaindaprecisaroaspectopositi\odo\alorquetodare\olta
¸|essupõe,comparando-acomumanoçäototalmentenegati\acomo
a doressentimento,talcomoadeEniuScheler.Þa\erdade,omo-
. .mentodere\oltaemaisdoqueumatoderei\indicaçäo,nosen-
||domaislortedapala\ra ÒressentimentotoimuitobemdeEni-
doporSchelercomoumaauto-intoxicaçäo,asecreçäonelasta,em
Llr \aso lacrado, de uma impotência prolongada. A re\olta, ao
contr+rio,lragmentaoserea|uda-oatranscender. Llalibertaon-
| asque,estagnadas,setornam\iolentasÒproprioSchelerenlatiza
·aspectopassi\odoressentimentoaoobser\arolugardestacado
"I: Homme du ressentiment (O homem do ressentimento).
29
ALBERT CAMUS
queocupanapsicologiadasmulheres, dedrcadasaodese|oeapos-
sessäo Þaorigemdare\olta,h+,pelocontr+rio,umprincipiode
ati\idadesuperabundanteedeenergiaSchelertemtambemrazäo
quandodizqueain\e|asempred+umcoloridolorteaoressenti-
mento.Nasin\e|a-seaquiloquenäosetem, enquantoore\oltado
delendeaquiloqueelee.Llenäoreclamaapenasumbemquenäo
possuioudoqualteriasido pri\ado \isalazercom que sereco-
nheçaalgoqueeletemeque|+loiporelereconhecido,emquase
todos os casos,como marsimportantedoquequalquercoisaque
elepudessein\e|ar Are\oltanäoerealista Arndadeacordocom
Scheler, o ressentimento, segundocresça em uma alma lorte ou
lraca,translorma-seemarri\ismoouemamargura. Nas,emam-
bososcasos,apessoaquerseralgoquenäoe.Òressentimentoe
sempreressentimentocontrasimesmo.Òre\oltado,poroutrolado,
emseuprimeiromo\imentorecusa-seadeixarquetoquemnaqui-
loqueelee.Llelutapelaintegridadedeumapartedeseuser.Þäo
buscaconquistar, masimpor
Iarece,aíinal,queoressentrmentodeleita-seporantecipaçäo,
com uma dor que ele gostaria de\er sentida pelo ob|eto de seu
rancor.ÞietzscheeSchelertêmrazäoquando\êemumabelailus-
traçäo dessasensibilidadenotrechoemqueJertulianoinlormaa
seusleitoresquenoceuamaiorlontedelelicidade,entreosbem-
a\enturados, ser+ o espet+culo dosimperadores romanos consu-
midosnologodoinlernoLstaetambemalelicidadedaplebeque
iaassistirasexecuçõescapitais.Are\olta, pelocontr+rio,emseu
principio, limita-se arecusara humilhaçäo sem exigi-la para os
outros. Acertarnclusi\eosolrimentoparasrmesma,desdequesua
integridadese|arespeitada.
Þäo se compreende, portanto, porque Scheler identiíicade
lormaabsolutaoespiritodare\oltacomoressentimentoSuacri-
ticadoressentimentonohumanitarismo¸queeletratacomoalor-
manäo-cristädo amorhumano) aplicar-se-iatal\ez acertas lor-
30
O HOMEM REVOLTADO
·as\agasderdealrsmohumanrt+rioouastecnrcasdoterror.Nas
¸ sa em lalso noqueserelere a re\olta do homemcontra a sua
oadiçäo,omo\imentoquecompeleoindi\iduoadelesadeuma
d|gnidade comum a todos os homens. Scheler quer demonstrar
que ohumanitarismoselazacompanhardoodioaomundo.Ama-
s ahumanidadeemgeralparaquenäosetenhaqueamarosseres
oparticular.Issoluncionaemalgunscasos,eEcamaisl+cilcom-
¸reender Scheler quando se sabe que para ele o humanitarismo
·st+representadoporIenthameRousseau Nasapaixäodoho-
+empelohomempodenascerdealgomaisqueoc+lculoaritmeti-
·o dos interessesou deumaconliança, ali+s teorica, nanatureza
aamana.IiantedosutilitaristasedopreceptordeLmilio,existea
ogica,encarnadaporIostoie\skiemI\anKaramazo\, quepassa
do mo\imento de re\olta a insurreiçäo metalisica. Ciente disso,
'chelerassimresumeoconceito. "Näoh+nomundoamorsulici-
+teparaserdesperdiçadoemalgoquenäooserhumano "Nes-
1 +oqueestaproposiçäolosse\erdadeira,odesespero\ertiginoso
qaeelapressupõemerecerraalgomaisdoqueodesdem. Þa\er-
dade,eladesconheceocar+terdilaceradodare\oltadeKaramazo\.
O drama de !\an, pelo contr+rio, nasce do lato de existir amor
1emaissemob|eto.Lsseamorquenäotemaplicaçäo,porternega-
JoIeus,decide-seentäoatransleri-loparaohomememnomede
+magenerosacumplicidade
Ieresto,nomo\imentodare\olta,talcomoolocalizamosate
aqui,näoseelegeumidealabstrato,porlaltadesentimento,ecom
amob|eti\oderei\indicaçäoesteril.Lxige-sequese|ale\adoem
contaaquiloque,nohomem,näopodehcarlrmitadoaumardera,
estaparteardorosaquenäoser\eparanadaanäoserparaexistir.
|ssoquerdizerquenenhumare\oltaecarregadaderessentimen-
.o` Þäo, e sabemos bastante sobre isso, no seculo dos rancores.
Masde\emosentenderessanoçäoemseusentidomaisabrangente,
sobpenadetrai-la, e,sob esteaspecto,are\oltatranscendeo res-
3 1
ALBERT CAMUS
sentimento Quando, em O morro dos ventos uivantes, Heathc¦ill
prelereseuamoraIeusec¦amapeloinlernoparaquepossa|un-
tar-se aamada,näoe apenas sua¡uventude humilhadaquelala,
masaexperrêncradetodaumavida.Òmesmomovrmentolazcom
queNestreLckhart,emumsurpreendenteacessodeheresia,diga
queprelereoinlernocom]esusaoceuseme¦e.
¿
opropriomovi-
mento doamor. ContrariamenteaScheler, nuncaedemaisinsistir
naaErmaçäoapaixonadasub|acenteaomovimentoderevoltaeque
odistinguedoressentimento.Aparentementenegativa,¡+quenada
cria,arevo¦taeprolundamentepositiva,porquereve¦aaquiloque
nohomemsempredeveserdelendido.
Nas, alinal, essarevolta e ova¦orquee¦aveicula näo seräo
questões re¦ativas ` As razões por que a revolta ocorre parecem
mudar, naverdade, deacordocom as epocase as civi¦izações
¿
evidentequeump+ria hindu, umguerreiro do imperio inca, um
aborigineda
_
lricacentralouummembrodasprimeirascomuni-
dadescrrstäsnäotêmasmesmasideiassobrearevoltaIoder-se-ia
aErmar,atemesmocomumaprobabrlrdademurtograndedeacer-
to,que anoçäoderevoltanäotemsentido nesses casos precisos
Lntretanto, um escravo grego, um vassalo, um condottiere do
Renascimento,umburguêsparisiensedaRegência,umintelectual
russode l 900eumoper+riocontemporaneo, mesmo divergindo
quanto asrazõesdarevolta,concordariam, sem dúvida, quanto a
sua legitimidade. Lm outras palavras, o problema da revo¦ta so
pareceassumirumsentidoprecisonoambitodopensamentooci-
dentalIoder-se-iaaindasermaisexplicitoaoobservar,comScheler,
queoespiritoderevoltadilicilmenteseexprimenassociedadesem
queasdesigualdadessäo muitograndes¸regimehindudecastas)
ou,pe¦ocontr+rio,naquelasemqueaigualdadeeabso¦uta¸certas
sociedades primitivas). Lm sociedade, o espirito derevoltaso e
possivelemgruposnosquaisumaigualdadeteoricaencobregran-
desdesrgualdadesdelato.Òproblemadarevolta,portanto,solaz
32
O HOMEM REVOLTADO
seatido no interior de nossasociedadeocidental Seriatentador,
+täo,alirmarqueeleerelativoaodesenvolvimentodoindividua-
smo,caso asobservaçõesprecedentesnäo nos trvessemalertado
ontraestaconclusäo
Noplanodaevidência, tudo oquesepoderealmenteextrair
da observaçäodeSchelereque,deacordocomateoriadaliberda-
de po¦itica,existememnossassociedades umcrescimentonoho-
aemdanoçäodehomeme,pe¦apr+ticadessamesma¦iberdade,a
+satislaçäocorrespondenteA¦iberdadedelatonäoaumentoupro-
l orcionalmenteatomadadeconsciênciadohomem.Iestaobser-
..çäo sosepodededuziro seguinte· arevoltaeo ato do homem
. alormado, que tem consciência de seus direitos Nas nadanos
aatorizaadizerquesetrataapenasdosdireitosdoindividuo.Ielo
.ontr+rio,pareceeletivamente,pelasolidariedade|+assinalada,que
se trata de uma consciência cada vez mais ampla que a especie
»umanatomadesimesmaao¦ongodesuaaventura.Naverdade,
o súdito inca ou o p+rra näo se colocamo problema da revolta,
¸orque esteloiresolvrdo paraelesdentrodeumatradiçäo,antes
quetivessempodidocoloc+-los,sendoarespostaosagrado Seno
aundosagradonäoseencontrao problemadarevolta,eporque,
aaverdade, nele näo se encontra nenhuma problem+tica real,|+
que todas asrespostas säo dadas deuma sovez. A metalísica e
substituidapelomito.Þäoh+maisinterrogações,soh+respostase
coment+rioseternos,que podemser, entäo, metalsicos.Nas,an-
tes que o homem aceite o sagrado, e tambem a lim de que se|a
capazdeaceit+-lo, ou, antesque de¦eescape,e aEm deque se|a
capazdeescapardele,h+semprequestionamentoerevolta.Òho-
memrevoltado eo homemsituadoantes oudepois dosagrado e
dedicadoareivindicarumaordem humana emquetodas as res-
postasse|amhumanas,istoe, lormuladasracionalmente.Apartir
dessemomento,qualquerpergunta,qualquerpalaraerevolta,en-
quanto,nomundodosagrado,todapalavraeaçäodegraças.Serra
33
ALBERT CAMUS
possi\elmostrar,dessalorma,quenelesopodeha\erparaamente
humanadoisuni\ersospossi\eis .odosagrado¸ou,emlinguagem
cristä,odagraça´)eodare\olta.Òdesaparecimentodeumequi-
\aleaosurgimentodooutro,emboraesteaparecimentopossaocor-
rersoblormasdesconcertantes.Aindanesse caso, encontramoso
JudoouNada.Aatualidadedoproblemadare\oltadependeape-
nas do lato de sociedadesinteiras dese|arem manterho|eem dia
umadistanciacomrelaçäoaosagrado\i\emosemumasociedade
dessacralizada Semdú\ida,o homemnäo seresume a insurrei-
çäo.Nasahistoriaatual,porsuascontestações,obriga-nosadizer
queare\oltaeumadas dimensões essenciaisdo homemLlaea
nossarealidadehistorica. A menos que selu|a a realidade, seria
necess+rioquenelaencontr+ssemosnossos\alores. Iongedosa-
gradoedeseus\aloresabsolutos,pode-seencontrarumaregrade
conduta`Lstaeaperguntalormuladapelare\olta.
]+ ti\emos a ocasiäo de assinalar o\alorconluso que nasce
|
nesselimiteem que se mantem are\olta Irecisamos agora per-
guntarse esse\alore encontrado naslormascontemporaneasda
açäo edo pensamentore\oltadose, em caso alirmati\o,deEniro
seuconteúdo.Nas,antesdeprosseguir,obser\emosqueolunda-
mentodesse\aloreapropriare\olta.Asolidariedadedoshomens
se lundamenta no mo\imento de re\olta e esta, porsua\ez, so
encontra|ustiEcaçäonessacumplicidade Issonosd+odireitode
dizer,portanto,quetodare\oltaquesepermitenegaroudestruira
solidariedadeperde,aomesmotempo,onomedere\oltaecoinci-
de,narealidade,comumconsentimentoassassinoIamesmalor-
ma, lora do sagrado, estasolidariedade so passaa ter \idacomo
re\olta Ò\erdadeirodramadopensamentore\oltadohnalmente
sere\ela.Iaraexistir, ohomemde\ere\oltar-se,massuare\olta
5É preciso ftcar claro que há uma revolta metafísica no início do cristianismo, mas a ressurreição
de Cristo, o anúncio da parúsia e o reino de Deus interpretado como uma promessa de vida eterna
são as respostas que a tornam inútil.
34
O HOMEM REVOLTADO
1l ·vc respeitarolimitequeeladescobreemsipropriaenoqualos
:+ens, aoseunirem,começamaexistirÒpensamentore\oltado
niio pode,portanto,pri\ar-sedamemoria.eleeumatensäoperpe-
lii�L. Aosegai-loemsuasobrasenosseusatos,teremosquedizer,a
l':tda \ez, se ele continua Eel a sua nobreza primeira ou se, por
++saçoeloucura,esquece-a,pelocontr+rio,emumaembriaguez
t i · tiraniaoudeser\idäo.
Lnquantoisso,eisoprimeiroprogressoqueoespirito dere-
volta pro\ocanumaretexäoinicialmentepermeadapeloabsurdoe
p ·la aparente esterilidadedomundoNaexperiênciadoabsurdo,
I solrimento eindi\idual. Apartirdomo\imento dere\olta, ele
¡+nhaaconsciênciadesercoleti\o, eaa\enturadetodos. Òpri-
· eiroa\ançodamentequesesenteestranhae,portanto,reconhe-
queelacompartilhaessesentimentocomtodososhomens, e
que a realidade humana, em sua totalidade, solre com esse
1|stanciamento emrelaçäo a si mesma e aomundo Ò mal que
+ ¸enasum homemsentiatorna-sepestecoleti\a.Þanossapro\a-
ti:o di+ria, a re\olta desempenhao mesmopapelque o cogito na
··demdopensamento. ela eaprimeirae\idência. Nas essae\i-
dênciatiraoindi\iduodesuasolidäo Llaeumterritoriocomum
que lundamentaoprimeiro\alordoshomensLumere\olto,logo
··istimos.
35
II
A revolta metafsica
/1 ·evoltametalisrcaeomovimentopeloqualumhomemseinsur-
F. contraasuacondiçäoecontraacriaçäo.Llaemetalísicaporque
| :testaosEnsdohomemedacriaçäoÒescravoprotestacontra
'·\!+1 condiçäonointeriordeseuestadodeescravidäo,orevoltado
· .¦alísico,contrasuacondiçäonaqualidadedehomemÒescra-
.··rebeldeaErmaqueneleh+algoquenäoaceitaamaneiracomo
I¹ sw senhoro trata, o revoltado metalisico declara-se lrustrado
jll'la criaçäo Jantoparaumcomoparaoutro,näosetrataapenas
'k amanegaçäopuraesrmples.Lmambososcasos,naverdade,
·:·contramos um¡uizo devalor em nome do qualo revoltado se
··.asaaaprovarasuacondiçäo.
Òescravo queseinsurge contrao seusenhornäo sepreo-
I 11pa, ebomobserv+-lo,emnegarestesenhornaqualidadede
�¡\ humano.Lleonegacomosenhor Negaquetenhaodireito
'li- aegar a e¦e, escravo, na qualidade de exigência. Ò senhor
I acassanapropriamedidaemquenäoa:endeaumaexigência
qu< menospreza Seoshomensnäoconseguemrelerrr-seaum
·dorcomum,reconhecidoportodosemcadaumde¦es, entäoo
··:.emsetornaincompreensivelparaopropriohomem Òre-
I H'de exige que esse valor se|a claramente reconhecido em si
ismo, porjuesuspeitaousabeque,semele,adesordemeo
· aereinariamnomundo Òmovimentoderevoltasurgenele
I 111110 umareivindicaçäo declarezae deunrdade. A mais ele-
39
.·m . - 
ALBERT CAMUS
mentarrebeliäoexprime, paradoxalmente,aaspiraçäoaumaor-
dem.
Iinhaporlinha,essadescriçäocon\emaore\oltadometalisico
Lsteseinsurgecontraummundolragmentadoparadelereclamar
aunidade.Contrapõeoprincipiode|ustiçaqueneleexisteaoprin-
cipio de in|ustiça que\ê no mundo. Irimiti\amente, nada mais
quersenäoresol\eressacontradiçäo,instauraroreinounit+rioda
|ustiça, sepuder, ou o dain|ustiça, seaisso lor compelido Ln-
quantoespera,denunciaacontradiçäo.Aoprotestarcontraacon-
diçäo naquilo que tem de inacabado, pela morte, e de disperso,
pelomal,are\oltametalisicae arei\indicaçäomoti\adadeuma
unidadelelizcontraosolrimentode\i\eredemorrerSeadorda
mortegeneralizadadeEneacondiçäohumana,are\olta,decerta
lorma,lheecontemporaneaAomesmotempoemquerecusasua
condiçäo mortal,ore\oltadorecusa-seareconheceropoderqueo
laria\i\ernessacondiçäoÒre\oltadometalisico,portanto,certa-
mentenäoeateu,comosepoderiapensar, esimobrigatoriament
¸
blaslemo.Lleblaslema,simplesmenteemnomedaordem,denun-
ciandoIeuscomoopaidamorteeosupremoescandalo.
\oltemosaoescra\o re\oltadoparaesclareceraquestäo Lm
seuprotesto,eleestabeleciaaexistênciadosenhorcontraoqualse
re\olta\a.Þoentanto,demonstra\asimultaneamentequeo¡oder
dosenhordependiadesuapropriasubordinaçäoeaErm
_
oseu
propriopoder. odequestionarpermanentementeasuperioridade
que ate entäo o domina\a Þesse sentido, senhor e escra\o estäo
realmentenomesmobarco·arealezatempor+riadeumetäorela-
ti\aquantoasubmissäodooutro.AsduaslorçasaErmam-sealter-
nati\amente, no instante darebeliäo, ate o momento em que se
conlrontaräoparasedestruirem, eumadasduasentäodesapare-
cer+pro\isoriamente.
Iamesmalorma,seore\oltadometalsico\olta-secontraum
poder, cu|aexistência simultaneamenteaErma, ele so reconhece
40
O HOMEM REVOLTADO
t·�sa existêncianoproprioinstanteemqueacontesta.Arrastaentäo
t•sse sersuperiorparaa mesma a\enturahumilhantedohomem,
I`\Ì oseu\äopoderequi\alendoanossa\äcondiçäo.Submete-o
+ossalorçaderecusa,inclina-oporsua\ezdiantedapartedo
+aemque näo seinclina, integra-o a lorça em umaexistência
1 !¡Ì a nos absurda, retirando-o, enEm, de seurelúgio in temporal
para enga|+-lonahistoria,muitolongedeumaestalilidadeeterna
que sopoderiaencontrarnoconsentimentounanimedoshomens.
1\ ·e\oltaaErmadessemodoquenoseuni\elqualquerexistência
·¸eriore,pelomenos,contraditoria
Ahistoria dare\olta metalisicanäo pode, portanto, ser con-
+.didacomado ateismo. Sobumacertaotica, elachega acon-
·+dir-seatecomahistoriacontemporaneadosentimentoreligio-
HO. Òre\oltadodesaEamaisdoquenegaIelomenosnoinicio,ele
11:o eliminaIeus· simplesmente,lala-lhedeigualparaigual.Nas
11:1 setratadeumdi+logo cortês. Jrata-sedeumapolêmicaani-
· adapelodese|ode\encer.Òescra\o começareclamando|ustiça
!` erminaquerendoarealezaLletambemprecisaterasua\ezde
Ilo ainarInsurgir-secontraacondiçäohumanatranslorma-seem
11 +aincursäodesmedidacontrao ceuparacapturarumrei, que
H -á primeirodestronado,paraemseguidasercondenadoamorte.
1\ ebeliäohumanaacabaemre\oluçäometalísica Llae\oluido
1 ·+.ecerparaolazer,dodandiaore\olucion+rioIerrubadootro-
l1l de Ieus, o rebelde reconhecer+essa|ustiça, essa ordem, essa
+· dadequeem\äobusca\anoambitodesuacondiçäo,cabendo-
lhe agora cri+-las comas proprias mäos e, com isso,|ustiEcara
¸·.·rdadaautoridadedi\ina Começaentäooeslorçodesesperado
¸+.alundar,aindaqueaopreçodocrime,selorocaso,oimperio
I los homens.Issonäoselar+semconseqüênciasterri\eis,dasquais
conhecemos ainda algumas. Nas essas conseqüências näo se
I ..emabsolutamenteare\oltaemsiou,pelomenos,elasso\êma
+anamedidaemqueore\oltadoesqueceassuasorigens,cansa-
41
ALBERT CAMUS
seda dura tensäo entreo sim e o näo, entregando-se porEm a
negaçäo de todas as coisas ou a submissäo total. A insurreiçäo
metalsicanosolerece,emseuprimeiromovimento,omesmocon-
teúdopositivodarebeliäodoescravoÞossatarelasersexaminaro
queacontececom o conteúdo darevoltanasaçõesqueacarretae
apontarorumoaquelevaainEdelidadeouaEdelidadedorevol-
tadoassuasorigens
J
42
_
S
[
IIHÒS IL
_
AIN
1\ evoltametalisicapropriamenteditasoaparecenahistoriadas
id |as,demaneiracoerente,noEnaldoseculoX\III Òstempos
·odernoscomeçamentäoaosomdemuralhasderrubadas.Nas,
1 ¸a.tirdessemomento,suasconseqüênciassedesenrolamdelor-
Í1 +|ninterrupta,enäo hsexageroem pensarqueelasmoldarama
+ stóriadenossotempo !sso quer dizer que arevoltametalisica
11�.0 tinhasentidoantesdessadata:Seusmodelos,noentanto,säo
I lL1¦onginquos,|squeonossotempogostadesedizerprometeico
S -á queemesmo.
Asprimeirasteogoniasnos mostramIrometeuacorrentado
11 +ma coluna, nos conEns do mundo, msrtir eterno, excluido
para sempredeumperdäo queeleserecusaasolicitar
¿
squilo
·aaaindamaioraestaturado heroi, cria-o lúcido ¸"nenhuma
d sgraçaqueeunäotenhaprevistorecairssobremim"), lazcom
_ +eelegritebemaltooseuodioatodososdeusese,mergulhan-
1o-oem"umtempestuosomardedesesperolatal",olerece-oE-
+ ' menteaosraioseaotroväo. '^h' ve|amain|ustiçaquesupor-
i o¦¨
Þäosepode dizerportantoqueosantigos desconhecessema
Í` vo¦tametahsicaIemantesdeSatä,eleshaviamerigidoumado-
43
ALBERT CAMUS
lorosaenobreimagemdoRebeldeenoslegaramomaiormitoda
inteligênciarevoltada. Òinesgot+velgêniogrego, quetantocon-
tribuiuparaosmitosdaadesäoedamodestia,soubedar,contudo,
o seumodelo ainsurreiçäo. Indubitavelmente,algunsdos traços
prometeicospodemaindaserencontradosnahistoriarevoltadaque
vivemos. alutacontraamorte ¸"Iiberteios homens daobsessäo
damorte"),omessianismo¸"Þelesinstaleiascegasesperanças"),
a Elantropia ¸"Inimigo deZeus. porter amado demais os ho-
mens")
Nasnäosepodeesquecerqueo"Irometeuportadordotogo",
últimotermodatrilogiaesquiliana,anunciavaoreinodorevoltado
perdoado Òsgregosnäo säovingativos. £msuas aud+cias mais
extremas,continuamEeisaessamedida,quehaviamdeiEcado.Ò
seurebelde näosevoltacontratodaa criaçäo, esimcontraZeus,
queesempreapenasumdosdeuses,ecu|osdiasestäocontados.Ò
proprioIrometeueumsemideus.Jrata-sedeumacertodecontas
particular, de uma contestaçäo sobre o bem, e näo de uma luta
universalentreomaleobem
¿
queosantigos, seacreditavamnodestino,acreditavamem
primeirolugarnanatureza,daqualtaziamparte.Revoltar-secon-
traanaturezacorrespondearevoltar-secontrasimesmo
¿
bater
comacabeçanaparedeAúnicarevoltacoerente,entäo,e ado
suicidio Ò proprio destinogregoe um podercego, que sesu-
portacomosesuportamastorçasnaturais.Òcúmulodadespro-
porçäoparaumgregoechicotearomarcomaçoites,loucurade
b+rbaro Ò grego pinta,semdúvida, a desproporçäo,|+queela
existe,masatribui-lheumlugare,assim,umlimite.ÒdesaEode
AquilesaposamortedeI+troclo,asimprecaçõesdosheroistr+-
gicos maldizendoo seudestinonäoacarretamacondenaçäoto-
tal.
¿
diposabequenäoeinocente.Nesmocontraasuavontade,
eleeculpado,tambemtazpartedodestino Iamenta-se,masnäo
pronunciapalavrasirrepar+veis ApropriaAntigona,seequese
44
O HOMEM REVOLTADO
ÍI`À |a, o laz em nome datradiçäo, paraqueosirmäos encon-
, Ì
.
· l descansonotúmuloe paraqueosritosse|amobservados
' ì certatorma,trata-senessecasodeumarevoltareacion+ria.A
·.I.xäogrega,essepensamentocomduaslaces,deixaquasesem-
pr · .orreraotundo, emcontracanto, assuas melodiasmais de-
Hl'SI cradas,apalavraeternade
¿
dipoque,cegoedesgraçado,ir+
Í

· · oahecer que tudo vai bem Ò sim equilibra-se com o näo
's:oquandoIlatäopreEguracomC+liclesotiponietzschiano
fitais comum, mesmo quando este exclama. "Nas,sesurgirum
+o»em com a índole necess+ria. . ele escapa, espezinha nossas
'· aulas, nossasteitiçarias, nossossortilegios e todasessas leis
que semexceçäosäocontr+riasa natureza. Þossoescravosein-
H!! .giuereve¦ou-sesenhor", mesmoentäoelepronunciaapala-
vm aatureza,aindaquerecusandoalei
É quearevoltametahsicaimplicaumavisäosimpliíicadada
.· açäo,queosgregosnäopodiamter.Iaraeles,näohaviadeum
I n jo osdeusesedooutrooshomens,esimdegrausquelevavam
t i os altimosaosprimeiros Aideiadainocênciaemcontraposiçäo
ì ulpa, a visäo de uma historia inteira reduzida a luta entre o
h »eomaleram-lhesestranhas £mseuuniverso,h+maiserros
do que crimes, sendo a desproporçäo o único crime dehnitivo
No mundo totalmente historico que o nosso ameaça ser näo h+
111ais erros, soh+crimes, dos quais o primeiro e a ponderaçäo.
·\ssimseexplicaacuriosamisturadeterocidadeedeindulgên-
cia queserespira no mitogrego Òs gregos| amais íizeram do
¸ asamento,eissonosdegradaemrelaçäoaeles,umapraçator-
i · . Anal, arevolta so se imagina contra alguem. A noçäo do
1cuspessoal,criadore, portanto,respons+velportodasascoisas
dá ¡orsisoumsentidoaoprotesto humano Iode-sedessator-
|1la, e sem paradoxo, dizer que a historiadarevolta, no mundo
I |dental,einsepar+veldahistoriadocristianismo
¿
precisoes-
¸c.ar, naverdade, os últimos momentos do pensamentoantigo
45
ALBERT CAMUS
paraverarevoltacomeçaraencontrarasualinguagem,entreos
pensadoresdetransiçäo,eemninguemdemaneiramaisprot+nda
doquenasobrasde£picuroeIucrecio
A terrive¦ tristeza de £picuro|s traz um novo diapasäo £la
nasce,semdúvrda,deumaangústiadamortequenäoeestranhaao
espirito grego Nas o tom patetrco que essa angústra assume e
revelador"Iodemosnosprecavercontratodaespeciedecoisas,mas,
noqueconcerneamorte,continuamoscomooshabitantesdeuma
cidadelaarrasada "IucrecioaErma. '' substanciadestevastomun-
do estsreservadaparaamorteearuina"Ior que, entäo, adiaro
gozoparamaistarde."Ieesperaemespera",diz£picuro, "consu-
mimosnossavidaemorremostodosnosolrimento "
¿
preciso,por-
tanto,destrutarNasqueestranhogozo' Consisteemrelazerosmuros
dacidade¦a,emgarantir,nasombrasilenciosa,opäoeasguajsque
amortenos ameaça,eprecisodemonstrarqueamortenäoenada
Como£pictetoeNarcoAurelio,£picurovaibaniramortedaexis-
tênciahumana'' mortenäoenadaemrelaçäoanos,porqueaquilo
queestsdestruidoerncapazdesentrr,eoquenäosentenadaepara
nos "Sersonada:Þäo,porquetudoematerianestemundo,emor-
rersigniícaapenasretornaraose¦ementos.Òsereapedra.Asingu-
larvolúpiadaqualnoslala£picuroresidesobretudonaausênciade
sotrimento, ealelicidade das pedras Iara escaparao desnno, em
umadmirsvelmovimentoquereencontraremosemnossosgrandes
clsssicos, £picuro mata a sensibilidade, e, |s de saida, o primeiro
gritodasensibilidade,queeaesperançaÒçueoílosotogregodiz
acercadosdeusessopodeserentendidodessalormaJodaadesgra-
çadoshomensvemdaesperançaqueosarrancadosilênciodacida-
dela,queosatiraasmuralhasaesperadasalvaçäo£ssesmovimen-
tosirracionaistêmcomoúnicoeleitoodereabrirterrdascuidadosa-
menteenvoltasembandagens
¿
porissoque£prcuronäonegaos
deuses,eleosatasta,mastäovertigrnosa:eutequeaalmanäotem
outrasaidaanäoserenclausurar-senovameute."Òserbem-aventu-
46
O HOMEM REVOLTADO
ado e imortal näotemnegocios e nadacria para ninguem " £
I ucrecio acrescenta. "É incontestsvelque os deuses, porsuapro-
¸|ianatureza,gozamdeimortalidadeemmeioapazmaispromnda,
+ |heiosanossosnegocios,dosquaissedesligaramtotalmente."£s-
queçamosportantoosdeuses,näopensemosmarsnelese"nemvos-
sospensamentosdodra,nemvossos sonhosdanoitevoscausaräo
¸|oblemas".
Nais tarde reencontraremos, embora com signilicativas
+uances,otemaeternodarevoltaImdeussemrecompensanem
.astigo,umdeussurdoeaúnicaimaginaçäoreligiosadosrevo¦ta-
dos Contudo, enquanto\ignyirsma¦dizerosi¦ênciodadivinda-
d.,£picuro|ulgaque,sendoamorteinelutsvel,osilênciodoho-
aempreparamelhorparaessedestinodoqueaspalavrasdivinas
O longoeslorçodessacuriosamenteesgota-seerguendomuralhas
tm vo¦tadohomem,relazendoacidadelaesulocandosempieda-
dc o irreprimivelgritoda esperança humana £ntäo, cumprido
esserecuoestrategico,esoentäo,£prcuro,comoumdeusentreos
+omens,cantarsvrtorranumcantoquemarcaeletivamenteocars-
. crdelensivodesuarevolta"£udesmonteiastuascidades,odes-
|· ao,lecheitodososcaminhospelosquaispodiasalcançar-meÞäo
+osdeixaremosvencernemporti,nempornenhumalorçanelas-
.a£,quandosoarahoradainevitsvelpartida,nossodesprezopor
.odosqueseagarramemväoaexistênciairrompersnestebelocan-
to: Ah' comquedignidadevivemos' "
Iucrecioeoúnicoemsuaepocaquevailevarbemmaisadian-
.c essa logica, lazendo-adesembocar na reivindicaçäo moderna
°omndo,nadaacrescentaa£picuro,recusando,igualmente,qual-
quer principio deexplicaçäoque näo se enquadrenosentido Ò
atomoeoúltimorelúgioemqueoser,reduzidoaosseuselementos
¡rimsrros,prosseguirsnumaespeciedermortalrdadesurdaecega,
Jemortermortal,que,tantoparaIucrecioquantopara£picuro,
conEguraaúnicalelicidadepossivel Þo entanto, eleprecisaad-
47
ALBERT CAMUS
rt queosstomosnäoseagregamsozinhose,paranäotazeruma
concessäoaumaleisuperior,conseqüentemente,aodestinoquede-
se|anegar,Iucrecioadmiteummovimentotortaito,o
·
clinamen,se-
gundooqualosstomosseencontrameseagregam£interessante
observarque|ssecolocaograndeproblemadostemposmodernos,
em que a inteligência descobre

ue subtrair o homem ao destino
equrvalea entregs-lo ao acaso £ por isso que ela se estorça para
tornaradar-¦heumdestino, destavezhistorico Iucrecionäoche-
gouateessepontoSeuodroaodestinoeamortesesatistazcomesta
terraebrra,naqualosstomostazemoserporacidenteenaqualoser
poracidentesedissipaemstomosNasseuvocabulsriocomprova
umanovasensrbrlidadeAcrdadelacegatorna-sepraçatorte,Moenia
mundi, muralhas do mundo,umadas expressões-chaveda retorica
deIucrecroSemdúvrda,agrandepreocupaçäonessapraçaetazer
calaraesperançaNasarenúnciametodrcade£picurotranstorma-
seemumaascesevibrante,coroadaasvezespormaldições.Apieda-
de,paraIucrecio,ecertamente "podertudoolharcomumespirito )
quenadaperturba" Þoentanto,esseespiritotremediantedain|us-
tiçaqueeteitaaohomemSobapressäodaindignaçäo,novasno-
çõesdecrime,deinocência,deculpaedecastigopercorremogran-
de poema sobre a natareza das coisas Þele, tala-se do "primeiro
crime da religräo" , deIEgênia e de suarnocência degolada, desse
traçodivinoque "muitasvezespassaaolargo doscu¦padose, por
umcastigormerecido,vartrraravidaainocentes" SeIucrecrorrdi-
cularizaomedodoscastigosdooutromundo,näoeabso¦utamente
como£picuro, nomovimentodeumarevoltadetensiva,esimpor
ummovimentoagressrvo. porqueo malserracastigado, setemos
vistoexaustivamentequeobemnäoerecompensado`
Ò proprio £picuro,naepopeiadeIucrecio,tornar-se-sore-
beldemagniEcoquenäoera "£nquantoaosolhosdetodos ahu-
manidadelevavanaterraumavidaab|eta,esmagadasobopesode
umareligiäo cu|orostosemostravadoaltodasregiõescelestiais,
48
O HOMEM REVOLTADO
·1aeaçandoosmortais com seu aspecto horrivel,o primeiro, um
|ego,umhomem,ousoulevantarcontraelaosseusolhosmortais,
' contra ela insurgir-se £ assim a religiäo toi derrubada e
¸|soteada, e, quantoanos,avitorianos eleva aosceus "Sente-se
+quiaditerençaquepodehaverentreanovablaslêmiaeamaldi-
¸aoantiga Òs heroisgregos podiam dese|artornarem-sedeuses,
+asaomesmotempoemqueosdeuses|sexistentes Jratava-sede
aapromoçäo ÒhomemdeIucrecio,pelocontrsrio, procedea
+ aarevoluçäo.Aonegarosdeusesindignosecriminosos,eleas-
sameoseulugar Sardapraçatorteedsinicioaosprrmeirosata-
_aescontraadivindadeemnomedosotrimentohumanoÞouni-
versodaantiguidade,oassassrnatoeornexplicsveleoinexpisvel
. J á nocasodeIucrecio,oassassinatodeumhomemeapenasuma
espostaaoassassinatodivino£näoepor acasoqueo poemade
|acreciotermrnacomumaprodigiosarmagemdesantusriosdrvi-
I I OS cheiosde cadsveres dapeste
'äosepodecompreenderessanovalinguagemsemanoçäodeum
1eus pessoal que começalentamente ase tormarna sensibilidade
'oscontemporaneosde£picuroedeIucrecio É aodeus pessoal
qaearevoltapodepedirpessoalmenteumaprestaçäode contas]s
qaeelereina, arevolta seinsurge, emsuaresoluçäo mars teroz, e
¸.onunciaonäodelnitivo ComCaim,aprimeirarevoltacoincide
om o primeiro crime A historia da revolta, tal como avivemos
+|aalmente,emuitomaisadosElhosdeCaimdoqueadosdiscipu-
`osdeIrometeu.Þestesentido,esobretudooIeusdoAntigoJes-
. amentoquerrsmobìlrzaraenergiarevoltadaInversamente,epre-
|sosubmeter-seaoIeusdeAbraäo,de!saacedejaco,quandose
ompletou,comoIascal,acarrerradaintelrgênciarevoltadaAalma
qaemaisduvidaaspiraao|ansenismomaisexacerbado
Sobestaotica,oÞovoJestamentopodeserconsideradocomo
+ aatentativa deresponderantecipadamenteatodososCaimdo
49
ALBERT CAMUS
mundo, ao suavizar a Egura de Ieus e ao criarum intercessor
entreeleeohomemÒCristoveioresolverdoisproblemasprinci-
pais,omaleamorte,quesäoprecisamenteosproblemas dosre-
voltados Suasoluçäoconsistiu, primeiramente, emcuidar deles
Òdeushomemsotretambem,compaciênciaÒmaleamortenäo
maislhesäoimput+veis,|+queeleest+dilaceradoemorreAnoite
do Colgotasotemtantaimportancianahistoriadoshomenspor-
quenessastrevasadivindade,abandonandoostensivamenteosseus
privilegios tradicionais,viveu ate o hm, incluindo o desespero, a
angústiadamorteLxplicam-sedomesmomodooLama sabactani
e a terrivel dúvida de Cristo agonizante A agonia seria leve se
tosse sustentadapelaesperança eterna Iara que o deus se|aum
homem,eprecisoqueelesedesespere
Ògnosticismo,queetrutodeumacolaboraçäogreco-cristä,
tentoudurantedois seculos,reagindocontrao pensamento|u-
daico, ressaltar esse movimento Conhece-se, por exemplo, a
multiplicidade deintercessores imaginados por \alentino Nas
oseonsdessaquermessemetahsicadesempenhamo mesmopa-
pelqueasverdadesintermedi+riasnohelenismo Llesvisamre-
duziroabsurdodeumdi+logoentreohomemmiser+veleodeus
implac+vel É o papel, em particular, do segundo deus cruel e
belicoso de Narciäo. Lsse demiurgo criou o mundo íinito e a
morte Ievemos detest+-lo, ao mesmotempo em que devemos
negarsuacriaçäo, pelaascese,atedestrui-lagraçasaabstinência
sexual Jrata-se portantodeumaascese orgulhosa e revoltada
Simplesmente, Narciäo derivaa revoltaem direçäo a umdeus
interiorparamelhorexaltaro deussuperior A gnose, porsuas
origensgregas,permanececonciliadoraetendeadestruirolega-
do|udaicodocristianismo Llatambemquisevitar,deantemäo,
oagostinismo,namedidaemqueessetorneceargumentospara
qualquerrevoltaIaraIasilides, porexemplo,osm+rtirespeca-
ram,eoproprioCristotambem,|+queelessotrem.É umaideia
50
O HOMEM REVOLTADO
· agular, mas que visa retirar do sotrimento a it:¡ustiça Òs
»osticosquiseramapenassubstituiragraçaonipotenteearbi-
1 ·a.iapelanoçäogrega deiniciaçäo,quedeixaao homemtodas
1 1 s suasoportunidadesAproliteraçäodeseitas,entreosgnosticos
t h segundageraçäo,traduz esse estorço múltiploeterrenhodo
¸ asamentogrego,paratornaromundocristäomaisacessivel,e
I i rarasrazõesdeumarevoltaqueohelenismoconsideravacomo
¸ior dos males Nas a Igre| a condenou esse estorço e, ao
.oaden+-lo,multiplicouosrevoltados
ÞamedidaemquearaçadeCaimtriuntoucadavezmaisao
agodosseculos,epossiveldizerdamesmatormaqueodeusdo
1\ atigoJestamentoconheceuumasorteinesperadaÒsblastemos,
¸+.adoxalmente,tazemreviverodeusciumentoqueocristianismo
l ¸ aeriaenxotardopalcodahistoriaImadesuasprotundasaud+-
· i as toi|ustamenteadeanexaroproprioCristoasuatacçäo,encer-
·+adoasua historianoalto dacruz enogritoamargo que prece-
dw aagoniaAssimseconservavamantidaaEguraimplac+velde
11111 deusdeodio,maisdeacordocomacriaçäo,talcomoaconce-
am os revoltados AteIostoievski e Þietzsche, arevolta so se
1 .igeaumadivindadecruelecaprichosa,adivindadequeprete-
1' , semmotivoconvincente,osacriticiodeAbelaodeCaimeque
¸orrssoprovocaoprimeiroassassinato.Iostoievski,naimagina-
tão, eÞietzsche,de tato, ampliaräo desmesuradamenteo campo
de atuaçäodopensamentorevoltadoeiräopedirumaprestaçäode
catasaopropriodeusdeamorÞietzscheconsideraIeuscomo
+ortonaalmadeseuscontemporaneos !r+seopor,comoStirner,
:\ |lusäo deIeus, que se retarda, sob as aparências da moral, no
.s¡iritodeseuseculoNas,ateaquelaepoca,opensamentoliber-
1 i no, porexemplo, limitou-se a negar a historia do Cristo ¸"esse
omanceentadonho",segundoSade)eamanter,emsuasproprias
· egações,atradiçäododeusterrivel
Lnquanto o Òcidentetoicristäo, os£vangelhos toramos
5 1
ALBERT CAMUS
intermedisrios entre o ceu e a terra A cada grito so¦itsrio de
revolta,apresentava-seaimagemdomaiorsolrimentopossivel.
jsqueo Cristosolreraisto, evoluntariamente, nenhum solri-
mento mais era in| usto, toda dor era necesssria. Ie certa lor-
ma,aamargaintuiçäodocristianismoeseupessimismolegiti-
moquantoaocoraçäo humano equeain|ustiçageneralizadae
täosatislatoriaparaohomemquantoa|ustiçatota¦.Soosacri-
hcio de um deus inocente podia| ustiE cara ¦onga e universal
torturadainocência. So o solrimentodeIeus,e o solrimento
mais desgraçado, podiaaliviara agonia dos homens. Setudo,
semexceçäo,do ceuaterra,estsentregueador,umaestranha
lelicidadeeentäopossivel.
Nas,apartirdomomentoemqueocristianismo,aosairde
seu periodo triunlal, viu-se submetido a critica da razäo, na
exatamedidaem que a divindade do Cristo loi negada, a dor
voltou a sero quinhäo dos homens.]esus lrustrado e apenas
uminocenteamais,queosrepresentantes doIeusdeAbraäo
torturaramdemaneiraespetacular. Ò abismo queseparao se-
nhordosescravos abre-senovamente,e arevo¦tagritasempre
diantedalaceocu¦tadeumIeusciumento.Òspensadoreseos
artistaslibertinos prepararam essenovodivorcio ao atacarem,
comas precauçõeshabituais,a morale a divindadedoCristo.
ÒuniversodeCallotilustrabastantebem essemundodemen-
digos alucinantes, cu|oescsrnio, inicialmente dislarçado, aca-
barsporelevar-seaos ceus como Ion]uandeNolière Iu-
ranteosdoisseculosquepreparamessasreviravoltas,aomes-
motemporevolucionsriasesacri¦egas,dolimdoseculoX\III,
todooeslorçodopensamentolibertinosersnosentidodelazer
doCristouminocenteouumto¦o,paraanexs-¦oaomundodos
homens,naquiloqueelestêmdenobreoudedesprezivel.As-
sim se encontrars aplainado o terreno paraagrandeolensiva
contraumceu inimigo.
52
A
_
£CAÇ
_
Ò
_
ISÒIIJA
f
[
istoricamente,aprimeiraolensivacoerenteeadeSace,quereú-
!ll emumaúnicaeenormemsquinadeguerraosargumentosdo
p +samentolibertinoateopadreNesliere\oltaire.Comosesale,
:1 1 a negaçäoetambemamaisextrema.Sadesoextraidarevo¦tao
11:o abso¦uto Þaverdade,vinteeseteanosdeprisäo näoprodu-
/, aumainteligênciaconciliadora ImconEnamento täolongo
. +gendravassalosouassassinos,e, asvezes,ambosnomesmoho-
+cm Sea alma, do interiordaprisäo, lor suEcientemente lorte
¸ +·aconstruirumamoralquenäose|aadasubmissäo,trata-se,na
aiorpartedoscasos,deumamoraldedominaçäoJodaeticada
solidäoimplicaexerciciodepoderÞessesentido,Sadeeexemplar,
¸ois,namedidaemqueloitratadodemaneiraatrozpelasocieda-
d , reagiudemodoatroz.Òescritor,apesardealgumasexpressões
' cizes edoslouvores imprudentes denossoscontemporaneos, e
s .undsrio £le e admirado atualmente, com tanta ingenuidade,
¸ormotivoscomosquaisaliteraturanadatemaver.
£leeexa¦tadocomooElosoloacorrentadoecomooprimeiro
I óricodarevoltaabsolutaIsto,naverdade,eleconseguiaser.Þo

. +do das prisões, o sonho näo temlimites, arealidade nadare-
' ìeiaAinteligênciaacorrentadaperdeemlucidezoqueganhaen
53
ALBERT CAMUS
lúria Sade soconheceuumalogica, a dos sentimentos. £lenäo
criouumaE¦osoha,masbuscouosonhomonstruosodeumperse-
guido Òcorreapenasqueessesonhoeproletico.Areivindicaçäo
exasperada da¦iberdade levou Sade ao imperio da servidäo, sua
sedeextremaporumavidaapartirdeentäoproibidaloiap¦acada,
detroremluror,atetranslormar-seemumsonhodedestruiçäo
universal.Þisso,pe¦omenos,Sadeenossocontemporaneo Sigamo-
loemsuasnegaçõessucessivas
Um Homem de Letras
Sade e ateu` £le alirma que sim, segundo se acredita, antes da
prisäo,noDialogue entre un prêtre et un moribond (Diálogo entre um
padre e um moribundo); em seguida hesita-se diante de seutror
sacrilego Im de seuspersonagensmais crueis, Saint-Iond, näo
negaIeusdetormaalguma¡imita-seadesenvolverumateoria
gnosticadomaudemiurgoedelaextrairasconc¦usõesconvenien-
tes Saint-Iond,segundosediz,näoeSade Certamentenäo Im
personagemnuncaeoromancistaqueo criou Þo entanto, o ro-
mancistapodeeventua¦menteseraomesmotempotodososseus
personagens.Òra,todososateusdeSadecolocam,emprincipio,a
inexistênciadeIeus,pelarazäoevidentedequesuaexistênciala-
riasupor,ne¦emesmo,inditerença,ma¦dadeoucrueldade.Amaior
obra de Sade termina comuma demonstraçäo daestupidez edo
odiodivinosAinocentejustinecorresobatempestade,eocrimi-
nosoÞoirceuil| uraqueseconvertersseelalorpoupadapelologo
celeste. ]ustine e lulminada porum raio, Þoirceuil triunta, e o
54
O HOMEM REVOLTADO
ime humano continuars a ser a resposta ao crime divino. Hs
1essemodoumaaposta¦ibertinaqueeareplicadaapostapascaliana
Aideia, pelo menos, que Sade tem deIeus e portanto ade
. aadivindadecriminosaqueesmagaohomemeonegaSegundo
'ade,nahistoriadasreligiõesmostracombastanteevidênciaqueo
+ssassinato e umatributo divino Iorque, entäo, o homem seria
·|rtuoso` Ò primeiro movimento do prisioneiro e passar, deum
sa'to, a conseqüência mais extrema. Se Ieus mata e nega o ho-
.m,nadapodeproibirqueseneguemematemossemelhantes.
\ '�ssedesahocrispadonäosepareceemnadacomanegaçäotran-
� _ailaqueseencontraaindanoDialogue de l 7 ?2. Þäoenemleliz
a.mtranqüiloquemexclama. "Þadatenho,nadasou", concluin-
1o "Þäo, näo, virtude evicio, tudo se conlunde no caixäo " A
d.iadeIeus,segundoele,eaúnicacoisa"quenäoconsegueper-
1oarao homem" A palavra perdoar|s e singularno caso desse
¸c·itoemtorturasNaseasiproprioqueelenäoconsegueperdoar
¸orumaideiaqueasuavisäodesesperadadomundoeasuacon-
d|çäodeprisioneirorelutamdemodoabsoluto.Imaduplarevol-
t·i vaidoravanteconduziroraciociniodeSade.contraaordemdo
+undo e contra si mesmo. Como essas duas revoltas so näo säo
ontraditorias no coraçäo transtornado deum perseguido, o seu
·.ciocinio|amaisdeixadeserambiguooulegitimo, segundose|a
studadoa¦uzdalogicaounoeslorçodacompaixäo
Sadeirsnegarportantoohomemesuamoral,¡squeIeusos
+.gaNasnegarsaomesmotempoIeus,quelheserviadecauçäo
decúmpliceateentäo£mnomedequê:£mnomedomaislorte
· +stintodaquelequeoodio dos homens condena aviverentreos
+urosde umaprisäo. o instinto sexual Queinstintoe este` Ior
� 1 m lado,ea propriaexpressäodanatureza,¯poroutro, oimpeto
'•Os grandes criminosos de Sace se desculpam de seus crimes pelo fato de serem providos de
1 1petites sexuais desmedidos, contra os quais nada podem fazer.
55
ALBERT CAMUS
cegoqueexigeapossetotaldosseres,mesmoaopreçodesuades-
truiçäo SadeirsnegarIeusemnomedanatureza-omaterial
ideologico de seutempolornece-lhediscursosmecanicistas -e
larsdanaturezaumpoderdedestruiçäoIaraele, anaturezaeo
sexo, sua logica o conduz a um universo sem lei, onde o único
senhor sers a energia desmedidado dese¡o Isests o seu reino
apaixonado,ondeencontrasuasmaisbelasexclamações "Quesäo
todasascriaturasdaterradiantedeumúnicodese|o nosso' "Òs
longosraciociniosnosquaisosheroisdeSadedemonstramquea
natureza tem necessidade do crime, que e preciso destruir para
criar,quesea|ude, portanto, acriarapartirdoinstanteemqueo
homemdestroiasiproprio,visamapenascriaraliberdadeabsolu-
tadeSade,oprisioneiro,pordemaisreprimidopelain|ustiçapara
näo dese|ar a explosäo que lars com que tudovoe pelos ares É
nissoqueeleseopõeasuaepocaaliberdadequeelereclamanäoe
adosprincipiosesimadosinstintos
Sade, semdúvida,sonhoucomumarepúblicauniversal,cu|o
pro|eto nos expõeatraves deumssbiorelormador, Zame Iessa
lorma,e¦enosmostraqueumdosrumosdarevoltaealiberaçäo
domundointeiro,namedidaemque,aoterseumovimentoacele-
rado,elatoleracadavezmenoslimitesNasemSadetudocontra-
dizessesonhopiedosoL¦enäoeamigodaraçahumana,detesta
osElantropos Aigua¦dadedequenoslalaeasvezesumconceito
matemstico.aequiva¦ênciadosob|etosqueoshomenssäo,aab|eta
igualdadedasvitimasAquelesquelevamodese|oaextremospre-
cisamtudodominar, suaverdadeirarealizaçäoestsnoodio.Are-
públicadeSadenäotemaliberdadecomoprincipio,esimaliber-
tinagem ''A |ustiça", escreve esse singulardemocrata, "näo tem
existênciarea¦ Llaeadivindadedetodasaspaixões "
Þessesentido, nada mais reveladordoque o lamosolibelo,
lidoporIolmanceemLa Philosophie dans le boudoir (A .flosofa na
alcova), equetemumtitulocurioso Franceses, mais um es.r�o, se
56
O HOMEM REVOLTADO
r;�túerem ser republicanos. IierreKlossowskitemrazäoaoassinalar
que esselibelodemonstraaosrevolucionsriosqueasuarepública
: • estabelececombasenoassassinatodoreidedireitodivinoeque,
I tO guilhotinaremIeusnodia2 l de|aneirodel 793,Ecaramproi-
' Jasparasempreacondenaçäodocrimeeacensuraaosinstintos
+alelicos A monarquia, ao mesmo tempo em quesemantinha,
aobem mantinha a ideia de Ieus que criava as leis Quanto a
|,pública, sustenta-se porsisoeoscostumesdevem nelaexistir
s,c mandamentos É duvidoso portanto que Sade, como quer
|| ossowski, tenhatidoosentimentopromndodeumsacrilegioe
que essehorrorquasereligiosoo tenhalevadoas conclusõesque
+anciaÉ bemmaisprovsvelqueele tenha chegado primeiro as
·oaclusões,concebendoemseguidaoargumentopropriopara|us-
. · '·caralicenciosidadeabsolutadoscostumesqueeledese|avape-
' | aogovernodeseutempo.Alogicadaspaixõesinverteaordem
.adiciona¦doraciocinioecolocaaconclusäoantesdaspremissas
|ara convencer-se disso, basta analisar a admirsvel sucessäo de
so`smaspelosquaisSade,nessetexto,|ustiEcaacalúnia,orouboe
oassassinato, pedindoquese|amtoleradosnanovacidadela.
Lntretanto,enesseinstantequeoseupensamentoemaispro-
ando Llerecusa, comumaclarividênciaexcepciona¦parao seu
ecpo,apresunçosaaliançadaliberdadeedavirtude.Aliberda-
¡e, sobretudoquandoelaeo sonho do prisioneiro, näo pode su-
¸ortarlimites LlaeocrimeounäoemaisliberdadeComrelaçäo
a essaquestäoessencial, Sade sempresemanteveErme Lsseho-
+em,quesopregoucontradições,soencontraumacoerência,ea
oaisabsoluta, nequeserelere apena capital Acionadodeexe-
cuçõesreEnadas,teoricodocrimesexual,nuncaconseguiutolerar
o crimelegal "Ninhadetençäonacional,comaguilhotinadiante
Josmeuspropricsolhos,loicemvezesmaisterrivelparamimdo
'1Sade, mon prochain (Sade, meu pr6ximo).
É
ditions du Seuil.
57
ALBERT CAMUS
que todas as Iastilhas imagin+veis " Iesse horror, ele extraiu a
coragemdeserpublicamentemoderadoduranteoJerroredein-
tercedergenerosamentealavordasogra,que,noentanto,manda-
ra prendê-lo A¦guns anos mais tarde, Þodieririaresumirclara-
mente,talvezatesemsabê-lo,aposiçäodelendidacomobstinaçäo
porSade."Natarumhomemnoparoxismodeumapaixäoecom-
preensivel Nandarqueoutrapessoaolaça,nacalmadeumame-
ditaçäoseria,apretextodeumdeverhonroso,eincompreensivel "
£ncontra-seaquiogermedeumaideiaqueser+desenvolvidaain-
daporSade.quemmatadevepagarcomasuapessoaSade,como
sevê,emaismora¦doquenossoscontemporaneos
Nasoseuodioapenademortee, antesdetudo,apenasoodio
doshomensqueacreditamtantoemsuapropriavirtude,ounade
suacausa,queousampunir,edeEnitivamente,quandoelesproprios
säo criminosos. Þäo se pode ao mesmo tempo escolhero crime
para si e o castigo para os outros
¿
preciso abrir as prisões ou
mostraraprova, impossivel,desuavirtude.Apartirdomomento
emque seaceitao assassinato, mesmoque porumaúnicavez, e
precisoadmiti-louniversalmente Ò criminosoqueagedeacordo
comanaturezanäopode,semprevaricaçäo,colocar-sedo¦adoda
¦ei "Naisumeslorço,sequiseremserrepublicanos" querdizer.
'^ceitemaliberdadedocrime,queeaúnicaliberdaderacional,e
entremparasemprenainsurreiçäo,assimcomoseentraemestado
degraça "Asubmissäototalaomalconduz,entäo,aumaterrivel
ascese,quedeviahorrorizaraRepúblicadas ¦uzes eda bondade
naturalIorumacoincidênciasigniEcativa,omanuscritoCent vingt
journées de Sodome (Cento e vinte dias de Sodoma) tinhasidoqueima-
do no primeiro contito daRepública, que näo podia deixar de
denunciar essa liberdade heretica, devolvendo as quatro paredes
deumacelaocorreligion+riotäocomprometedor£lalheolerecia,
ao mesmo tempo, aterrive¦ oportunidade delevaradiantea sua
logicarevo¦tada
58
O HOMEM REVOLTADO
ArepúblicauniversalpodetersidoumsonhoparaSade,nun-
aumatentaçäo£mpolitica,suaverdadeiraposiçäoeocinismo
°aobraSociété des Amis du crime (Sociedade dos amigos do crime), e¦e
se declara ostensivamente a lavor do governo e desuas ¦eis, en-
_uantosedispõeaviol+-las.Iessalorma,osruliõesvotamnode-
¸atadoconservador.Òpro|etoqueSadeelaboraimplicaaneutra-
' . dadebenevolentedaautoridadeArepúblicadocrimenäopode
scruniversal, pelo menos provisoriamente £la deve hngir que
bedecealeiÞoentanto,emummundocu|aúnicaregraeoas-
sassinato,soboceudocrime,emnomedeumanaturezacrimino-
sa,Sadesoobedece,narealidade,aleiincans+veldodese|o. Nas
1cse|arsemlimiteseomesmoqueaceitarserdese|adosemlimites
A licença para destruir pressupõe que se possatambem ser
destruido Iogo,ser+precisolutaredominar Aleidestemundo
+adamaisedoquealeidalorça, sualorçamotriz,avontadede
¸oder.
Òamigo do crimeso respeitarealmenteduasespeciesde po-
1er. um,baseadonoacasodonascimento,queeleencontranasua
sciedade,ooutro,aqueleemqueseinsurgeooprimidoquando,
¸orlorçadaperversidade,consegueigualar-seaosgrandeslidal-
goslibertinos,dosquaisSadelazseusheroiscomuns £ssepeque-
aogrupode poderosos, essesiniciados, sabemquetêmtodos os
1ireitos Quemduvidar,mesmoqueporumsegundo,dessetemi-
vel privi¦egio, e logo re|eitado pelo rebanho evolta a servitima
Chega-se entäoauma especie de blanquismo moral, emqueum
¸equenogrupodehomensemu¦heres,pordeterumestranhosa-
oer,coloca-seresolutamenteacimadeumacastadeescravos.Iara
eles,oúnicoproblemaconsisteemseorganizaremahmdeexerce-
cmplenamentedireitosquetêmaterriveldimensäododese|o
£lesnäopodempretenderseimporatodoouniversoenquan-
. ouniversonäotiveraceitadoaleidocrime Sadenuncaacredi-
. uquesuanaçäoconcordariacomoeslorçoadiciona¦quealaria
59
ALBERT CAMUS
"republicana" Nas,seocrimeeodese|onäosäoaleidetodoo
universo, senemaomenosreinamemumterritoriodeEnido,näo
säomais principiodeunidade, e simlermentos decontito Þäo
säomaisalei,eohomemretornaadispersäoeaoacaso
¿
preciso,
entäo criaratodocustoummundonaexatamedidadanovaleiA ,
exigênciadeunidade,queaCriaçäonäorealizou,sesatislazaqual-
querpreçoemummicrocosmoA leidalorça|amaistempaciên-
ciaparaesperarpeloimperiodomundo£laprecisadelimitarsem
maisdelongasoterrenoemqueatua,mesmoquese|anecesssrio
cercs-lo dearamelarpadoedetorresdeobservaçäo
ÞocasodeSade,elacrialugareslechados,castelosdeondee
impossivelescapareondeasociedadedodese|oedocrimeluncio-
nasemconllitos,segundoumregimeimplacsvel A revoltamais
desenlreada, areivindicaçäo totaldaliberdadelevamao|ugo da
maioriaA emancipaçäodohomemserealiza,paraSade,naslor-
talezasdelicenciosidade, ondeumaespeciedeburocraciadovicio
regulamentaavidaeamortedoshomensemulheresqueentraram
para todo o sempre no inlerno da necessrdade £m sua obra hs
umaabundanciadedescriçõesdesseslugaresprivilegiadosonde,a
cadavez,oslibertinosleudais,demonstrandoasvitimasreunidasa
suaimpotênciae servidäo absolutas, retomamo discurso dodu-
quedeIlangisa plebedosCento e vinte dias de Sodoma: "\ocês|s
estäomortasparaomundo "
SadeviviaeletivamentenatorredaIiberdade,masnaIastilha
Arevoltaabsolutaembrenha-secomeleemumalortalezasordida,
deondeninguem-nemperseguidosnemperseguidores-pode
sarrIaracriarasualrberdade,eleeobrigadoaorganrzaraneces-
sidadeabsoluta A liberdadeilimitadadodese|osignilicaanega-
çäodooutroeasupressäodapiedade
¿
precisomatarocoraçäo,
esse "ponto lraco do espirito" , a celatrancada e o regulamento
curdaräodissoÒregulamento,quedesempenhaumpapellunda-
mental nos castelos labulosos deSade, consagra umuniverso de
60
O HOMEM REVOLTADO
1esconEança£lea|udaaprevertudo,aE mdeimpedirqueuma
I ·ura ouumapiedadeimprevistasvenhamperturbarosplanos
1ogozoplenoCuriosoprazer, semdúvida,queseexercesobco-
+ando. "Jodosacordaräotodososdiasasdezhorasdamanhä' "
\as eprecisoimpedirqueo gozo degenereesetranslorme em
:Ì ¸ego,eprecisocolocs-loentreparênteseselortalecê-lo
¿
neces-
sa·ioaindaqueosob|etosdegozonuncaapareçamcomopessoas
Se ohomeme"umaespeciedeplantaabsolutamentematerial", ele
�ópodesertratado comoob|eto,e comoob|eto de experimento
Na repúblicadearamelarpadodeSade,sohsmsquinasemecani-
I \`. Ò regulamento, modo de uso da mecanica, coloca tudo em
s ' Ì devidolugar £ssesconventosinlamestêmassuasregrassig-
+ '¡cativamente copiadas das regras das comunidades relrgiosas
O libertino,dessalorma,larsumaconlissäopúblicaNaso|ulga-
+entomuda. "Se suacondutalorpura,eleeculpado "
Comoera costumeemsuaepoca, Sadeconstruiusociedades
1caisNas,aocontrsriodeseutempo,elecodilicaamaldadena-
i . |aldohomemConstroimeticulosamenteacidadeladalorçae
1oodio,comoprecursorquee,atecolocaremnúmerosaliberda-
1e conquistada Resume, entäo, suaElosolia a lriacontabilidade
do crime. "Nassacrados ate r de março. 1 0. A partir de r de
+arço. 20. A seremmassacrados. l 6. Jotal. +6. "Irecursor, sem
1avida,masaindamodesto,comosevê
Setudoparasseai,Sadesodespertariaaatençäoquesedsaos
¸.ecursoresincompreendidos Nas,umavezqueseergueaponte
I • .adiça,eprecisocontinuaravivernocasteloIormaismeticulo-
so quese|aoregulamento,elenäoconsegueprevertudoFlepode
. ' cstruir,masnäoconseguecriarÒssenhoresdessascomunidades
o.turadasnäoencontraräoaiasatistaçäopelaqualanseiam Sade
. ocacomtreqüênciao"docehsbitodocrime" Þoentanto,nada
.•·istealiquesepareçacomsuavrdade,antesumaraivadehomem
a orrentado Jrata-se, naverdade, de deslrutar, e o msximo de
61
ALBERT CAMUS
gozo coincide com o máximo de destruição. Possuir aquilo que se
mata, copular com o sofrimento, eis o instante da liberdade total
em cuj a direção se orienta toda a organização dos castelos. Mas, a
partir do instante em que o crime sexual suprime o objeto de volúpia,
ele suprime a volúpia, que só existe no momento preciso da supres­
são. Logo, é preciso subjugar um outro objeto e matá-lo novamen­
te, e outro ainda, e a infinidade de todos os objetos possíveis. Ob­
têm-se, dessa forma, esses tristonhos acúmulos de cenas eróticas e
criminosas nos romances de Sace, que, paradoxalmente, deixam
no leitor a impressão de uma horrenda castidade.
Que papel desempenharia nesse universo o gozo, grande ale­
gria em flor de corpos aquiescentes? Trata-se de uma busca impos­
sível, no sentido de escapar do desespero e que acaba, entretanto,
em desespero; de uma corrida da servidão para a servidão e da
prisão para a prisão. Se só a natureza é verdadeira; se, na natureza,
só o desejo e a destruição são legítimos, então, de destruição em
destruição, a humanidade inteira não basta para matar a sede de
sangue, é preciso correr para a aniquilação universal. Segundo a
fórmula de Sace, é preciso ser o verdugo da natureza. Mas nem
isso se obtém com tanta facilidade. Quando se fecha a contabilida­
de, quando todas as vítimas já foram massacradas, os carrascos
ficam um diante do outro no castelo solitário. Ainda lhes falta algo.
Os corpos torturados retornam, por seus elementos, anatureza, de
onde irá renascer a vida. O próprio assassinato não acabou: "O
assassinato só tira do indivíduo que matamos a primeira vida; seria
preciso poder arrancar-lhe a segunda . . . " Sace reflete sobre o aten­
tado contra a criação: ''Abomino a natureza . . . Gostaria de atrapa­
lhar os seus planos, interromper a sua evolução, parar os astros,
virar de cabeça para baixo os globos que flutuam no espaço, des­
truir o que lhe serve, proteger o que lhe é nocivo; em resumo:
insultá-la em suas ações, e não consigo. " Não adianta imaginar um
mecânico que possa pulverizar o universo, ele sabe que, na poeira
62
O HOMEM REVOLTADO
dos globos, a vida vai continuar. O atentado contra a criação é
i mpossível. Não se pode destruir tudo, há sempre um resto. "Não
·onsigo . . . ", esse universo implacável e gélido se distende subita­
mente na atroz melancolia pela qual Sace fnalmente nos comove,
mesmo que não fosse este o seu desejo. "Poderíamos, talvez, atacar
! sol, privar dele o universo ou nos servirmos dele para atear fogo
ao mundo, isso, sim, seriam crimes . . . " Sim, seriam crimes, mas
J J 5o o crime definitivo. É preciso avançar mais, os carrascos se olham
d cima a baixo.
Eles estão sós, e uma só lei os governa -a lei do poder. Já que
tÌ aceitaram quando eram senhores, não podem mais recusá-la se
·h se voltar contra eles. Todo poder tende a ser único e solitário. É
preciso matar mais: por sua vez, os senhores irão destruir-se. Sace
percebe esta conseqüência e não recua. Um curioso estoicismo do
vfcio vem iluminar um pouco essa escória da revolta. Ele não pro­
· urará unir o mundo da ternura ao do compromisso. A ponte leva­
diça não mais baixará; ele aceitará a aniquilação pessoal. A força
desenfreada da recusa se une em sua extremidade a um consenti­
mento incondicional que não deixa de ter a sua grandeza. O se­
J J hor, por sua vez, aceita ser escravo e talvez até mesmo o deseje.
"O cadafalso também seria para mim o trono das volúpias. "
A maior destruição coincide agora com a maior afirmação. Os
�enhores atiram-se uns aos outros, e essa obra erigida para a glória
da libertinagem se encontra "coberta de cadáveres de libertinos
abatidos no auge de sua genialidade"8• O mais forte, aquele que vai
sobreviver, será o solitário, o Único, cuj a glorificação o próprio
Sace empreendeu. Ei-lo que reina, afinal, senhor e Deus. Mas, no
i nstante de sua mais importante vitória, o sonho se dissipa. O Ú ni­
·o volta-se para o prisioneiro cuja imaginação desmedida lhe deu
origem: confundem-se um com o outro. Ele está só, na verdade,
" Maurice Blanchot. Lautréamont et Sade (Lautréamont e Sade). Editions de Minuit.
63
ALBERT CAMUS
presocmumaIastilhaensangüentada,todaelaconstruidaemtor-
nodeumgozoaindanäosaciadomas|+semob|eto.Llesc\enceu
emsonho,e essadezenade\olumesabarrotadosdeatrocidadese
dellosolia resumeumaasceseinleliz,uma marcha alucinante do
näototalaosimabsoluto,umconsentimentonamorte,enE m,que
translormaoassassinatodetudoedetodosemsuicidioco¦eti\o.
Sadeloiexecutado em elígie, damesmalorma,elescmatou
emimaginaçäo.IrometeureduzidoaÒnä.Llechegouaolmda
\idaaindacomoprisioneiro,masdesta\eznumhospicio,atuando
empeçasnumpalcoimpro\isado,emmeioaa¦ucinados Òsonho
eacriaçäoolereciam-lheagoraumequi\alentederriscriodasatis-
laçäoqueaordemdomundonäolheda\aQueEquebemclaro.o
escritornadatemaserecusar.Iaraele,pelomenos,oslimitesdes-
moronameodese|opodechegaraextremos.Þesseaspecto,Sade
eohomemdeletrasperleito. Construiuumalcçäoparadarasi
prcprioailusäodeexistir.Colocouacimadetudo"ocrimemoral
quesecometeporescrito" . Òseumerito,incontest+\el,resideno
latodeterilustradoimediatamente,comainlelizclari\idênciade
umarai\a acumulada, as conseqüênciasextremasdeumalcgica
re\oltada,pelomenosquandoelaseesquece desuas\erdadeiras
origensLssasconseqüênciassäoatotalidadelechada,ocrimeuni-
\ersal,aaristocraciadocinismoea\ontadedeapocalipse \oltaräo
aserencontradasmuitosanosdepoisdeSade. Þoentanto,aotê-
lassaboreado,parecequeloisulocadopor seusprcpriosdilemas,
dosquaisscseliberounaliteratura.Curiosamente,loiSadequem
orientouare\oltaparaoscaminhosdaarte,impelidaaindamais
adiantepe¦oromantismo.Llar+partedogrupodessesescritoresa
respeito dosquaisdisseque"acorrupçäoetäoperigosa,täoati\a
que,aoimprimiremseusterri\eissistemas, sc têm comoob|eti\o
estenderpara a¦em de suas \idas asomade seus crimes, näo po-
demmaiscometê-los,masseusmalditosescritosinduziräoosou-
trosalazê-¦o,eestaideiaagrad+\elquele\amparaotúmulocon-
64
O HOMEM REVOLTADO
so|a-osdaobrigaçäoqueamortelhesimpõederenunciaraquilo
_aeexiste".Suaobrare\oltadacompro\asuasededesobre\i\ên-
· i a. Nesmo se a imortalidade que ele cobiça e a de Caim, pelo
+enoscobiça-a,ecompro\a,contraaprcpria\ontade,aquiloque
· ·ais\erdadeironare\oltametalisica.
Ie resto, suaprcpriaposteridade obriga aque se¦he renda
+omenagem Seus herdeiros näo säo apenas os escritores. Certa-
+ente,elesolreuemorreuparaexcitaraimaginaçäo dosbairros
+ores e doscalesliter+rios. Nas isso näoe tudo Ò sucesso de
'adeemnossotempoexplica-seporumsonhodelequealnacom
i1 sensibilidadecontemporanea.arei\indicaçäodaliberdadetotale
·l desumanizaçäoliamenteexecutadapelainteligência.A reduçäo
dohomemaob|etodeexperimento,oregalamentoquedetermina
as relaçõesentrea\ontadedepodereo homemob| eto,ocampo
i ' .hadodessamonstruosaexperiênciasäoliçõesqueostecricosdo
¸der\oltaräoaencontrarquandoti\eremqueorganizaraerados
�s.ra\os.
Comdoisseculosdeantecipaçäo,masemesca¦areduzida,Sade
· saltou as sociedades totalit+rias em nome da liberdade lrenetica
¸ +eare\olta,na\erdade,näoexige Comelerealmentecomeçaa
+|stcriaeatragediacontemporaneas.Lleapenasacreditouqueuma
�o.iedadebaseadanaliberdadedocrimede\iacorrerparalelamente
à |iberdadedecostumes,comoseaser\idäoti\esselimites. Þosso
capolimitou-seat·ndircuriosamenteoseusonhoderepúbhca
. ai\ersalcomasuatecnicadea\iltamentoIinalmente,aquiloque
emaisodia\a,oassassinatolegal, tiroupro\eitodasdescobertas
_+eelequeriacolocaraser\içodoassassinato porinstinto.Òcri-
+e,queSadegostariaquelosseolrutoexcepcionaledeliciosodo
.|.iodesenlreado,atua¦mentenadamaisedoqueoh+bitoenlado-
+ ao de uma\irtude que se tornou policial Säo as surpresas da
· |eratura.
65
ALBERT CAMUS
A Rvola dos Dândis
Nasarndaeahoradoshomensdeletras Òromantrsmo,comsua
revolta lucrlerina, soservirsrealmenteas aventuras darmagina-
çäo. Como Sace, ele se separars darevolta da antrguidade pela
prelerêncradadaaomaleaorndividuoAoressaltarosseuspode-
res de desalo e derecusa, arevolta nesseestsgio esquece o seu
conteúdo posrtrvo ]s que Ieus rervrndrca o que hs de bom no
homem,eprecrsozombardoqueebomeescolheromalÒodroa
morteearn|ustiçalevarssenäoaoexercicro,pelomenosaapologia
domaledoassassinato
AlutadeSatäedamortenoParaíso perdido, poemaprelerido
dosromanticos, srmboliza esse drama, mascommuitomaispro-
t·ndidadepelolatodeamorte¸comopecado)seral lhadeSatä
Iaracombateromal,orevoltado,|squese|ulgarnocente,renun-
craaobemegeranovamenteomal Òherorromantrcoproduzem
prrmerro lugara conlusäo prot·ndae, porassrm drzer, relrgiosa
entreobemeomal.'Lsseherore"latal"porquealatalrdadecon-
lunde obemcomomalsemqueo homempossadelender-se. A
latalidadeexcluios|uizosdevalor.Llaossubstituiporum^ssrm
e"quetudodesculpa,excetooCrrador,únrcoresponssvelporesse
escandalosoestadodecoisas Òheroiromantrcotambeme"latal"
porque,namedrdaemquecrescemoseupodereasuagenialidade,
0 poderdo mal cresce nele. Jodopoder, todo excesso recobre-se
entäodo'^ssrme". Òlatodeoartrsta,eopoetaemespecral,ser
demoniacoeumaideramuitoantrga, lormuladademodomuito
provocadorentreosromantrcosÞessaepoca,existe,rnclusrve,um
rmperialismo do demênio quevrsa anexar tudo a ele, mesmo os
' Tema dominante em William Blake, por exemplo.
O HOMEM REVOLTADO
� aiosdaortodoxia "ÒquelezcomqueNilton",observaIlake,
° screvesseconstrangedoramente,quandolalavasobreosan|ose
I ì.us,echero deaudscra,quandotratavadedemênrosedornler-
no, eque ele era umverdaderropoetae, sem que o soubesse,do
¸+|tido dos demênios " Ò poeta, o gênio, o propriohomem, em
s ua imagem mais elevada, exclama ao mesmo tempo que Satä
¨Adeus,esperança,mas,comaesperança,adeus,temor,adeus,re-
·rso . Ó Nal,se| aomeubem "
¿
ogritodainocêncraultra|ada
Ò heroiromantrco sente-seportanto obrrgadoalazero mal,
por nostalgiadeumbemrmpossivel Sat1rnsurge-secontraoseu
�|ador, porqueesteusoudalorçaparasub|ugs-lo. "Igualado na
+z1o", diz o Satä de Nrlton, "e¦e alçou-se acrma de seus rguais
¸.lalorça."Aviolêncradrvrnaeassimexplrcitamentecondenada
O ·evoltadosealastarsdesseIeusagressorerndigno,'¨"quanto
+ais longedele,melhor", erernarssobretodas as lorças hostrs a
odemdrvrnaÒprincipedomalsoesco¦heuessecaminhoporque
o oemeuma noçäo delnrdae utilizada porIeusparadesignros
. +| astos.AtearnocêncrarrrrtaoRebelde,namedrdaemquepres-
sapõeaceguerradostolos Lsse "negro espirrto domal,irrrtado
¸.l arnocêncra",suscrtarsumain|ustrçahumanaparalelaarn|usti-
Ça divina.]s que nararz da criaçäoests aviolência, avrolência
| .iberada e a sua resposta Ò excesso do desespero soma-se as
c+usasdodesesperoparaconduzrrarevoltaaesseestadodedetes-
+velatoniaqueseseguealonga provaçäo darn|ustrçaenaqual
d.saparecedelnrtrvamenteadrstinçäoentreobemeoma¦.ÒSatä
d.\igny
. . . Não mais consegue sentir o mal nem os benefcios
nem tampouco sentir alegria pelos males que causou.
111"0 Satã de Milton é moralmente muito superior ao seu Deus, assim como quem persevera a
l kspeito da adversidade e da sorte é superior àquele que, na fria segurança de um triunfo certo,
lXcrce a mais horrível vingança sobre os inimigos. " Herman Melville.
ALBERT CAMUS
IssodeEneoniilismoeautorizaoassassinato
Òassassinatovainaverdadetornar-sesimp+tico Iastacom-
pararoIucilerdospintoresdaIdadeNediacomo Satädosro-
manticos Im adolescente "|ovem, tristee encantador" ¸\igny)
substituiabesta-leradechilres "Ielo,deumabelezadesconheci-
danaterra" ¸Iermontov), solit+rioepoderoso,solredoredesde-
nhoso, ele oprime com negligência. Nas suadesculpae o solri-
mento"Quemousariainve|ar",dizoSatädeNi¦ton, "aqueleque
do mais alto lugar condena a maior parcela de solrimentos sem
Em`"Jantasin|ustiçassolridas, umadortäocontinua,permitem
todos os excessos Ò revoltado permite-se entäo algumasvanta-
gens Semduvida,porsimesmooassassinatonäoerecomendado
Nasest+imp¦icitonova¦or,supremoparaoromantico,delrenesi.
ÒlrenesieoinversodotedioIorenzacciosonhacomHans,da
Is¦andia Sensibi¦idadesexoticas clamampelos lurores elementa-
resdabesta-lera.Òheroibyroniano,incapazdeamarousomente
capazdeumamorimpossivel, solre despleen. Lst+so, languido,
suacondiçäooexaure Sequersesentirvivo,devesernaterrivel
exaltaçäo deumaaçäobreveedevoradora.Amaro quenunca se
ver+novamenteeamarnoardorenogritopara,emseguida,ma-
goar-se.Sosevivenoepeloinstante,para
essa união bre'e porém 'i'a
de um corafão atormentado unido à tormenta
¸Iermontov).
Aameaçamortalquepairasobreanossacondiçäotudoesteri-
lizaSoogritolazviver,aexaltaçäolazopapeldaverdadeÞesse
est+gio, oapocalipsetorna-seumvaloremquetudoseconlunde,
amoremorte,consciênciaeculpa.Lmumuniversoloradeorbita,
soexisteumavida-ados abismos,paraonde, segundoAllred
68
O HOMEM REVOLTADO
f .LIoitevin,despencamossereshumanos"tremendoderaivaeido-
+t:andoosseuscrimes",paraaliamaldiçoaremoCriadorAembria-
¡+ezlreneticae, emultimainstancia, o belo crimeesgotam entäo,
�m umsegundo,todoosent|dodeumav|daSempregar,arigor,o
.|me,oromantismo empenha-se emilustrarummovimentopro-
' ·ado de reivindicaçäo nas imagens convencionais do lora-da-lei,
do |omprisioneiro,doassaltantegenerosoJriunlamomelodrama
saagrentoeoroman noir. ComIixerecourt,liberam-seabaixocusto
ssesterriveisapetitesdaalma,queoutrosiräosatislazernoscampos
k exterminio. Semduvida, essas obras säo tambem umdesaEo a
�ociedadedaepoca.NasemsuaorigemoromantismodesaEapri-
+eiroaleimoraledivinaLisporquesuaimagemmaisoriginalnäo
é orevo¦ucion+rio,esim,logicamente,odandi
Iogicamente,porqueessaobstinaçäocomosatanismosopode
, +stiEcar-sepelaaErmaçäodain| ustiça,incessantementerepetida,
' ¡ de certa lorma, porsua consolidaçäo A dor, nesse est+gio, so
¸areceaceit+velselorirremedi+velÒrevoltadoescolheametalísica
Jc pior, que se exprime na literatura maldita daqual ainda näo
saimos"Lusentiaomeupoderesentiaosgri¦hões "¸IetrusIorel)
Mastaisgrilhõessäoidolatrados Semeles,seriaprecisoprovarou
xerceressepoderque,aEnal,näoseest+segurodeter.Acabamos
odoscomoluncion+riosnaArgelia,eIrometeu,comoIorel,quer
·charoscabares erelormaroscostumesdos colonos Aindaas-
s a. o poeta, para seraceito, deve entäo ser maldito ' Charles
|assailly,omesmoquepro|etavaumromanceElosoEco,Robespiere
IJesus Cristo, nuncavaiparaacamasemprolerir,pararetemperar-
se, algumasblaslêmiaslervorosas.Arevoltacobre-sedeluto ese
:zadmirarnospalcosNuitomaisdoqueocultodoindividuo,o
·cmantismoinauguraocultodopersonagem É nesseponto que
' ' Nossa literatura ainda se ressente disso. "Não há mais poetas malditos", diz llalraux. Há me­
|OS. Mas os outros têm a consciência pesada.
69
ALBERT CAMUS
eleelogico.SemesperarmaispelaregraoupelaunidadedeIeus,
obstinadoemsereunircontraumdestinoinimigo,ansiosoempre-
servartudoquepodeseraindapreservadonessemundoconsagra-
doamorte,orevo¦tadoromanticobuscaumaso¦uçäonaatitude.A
atitudecongregaemumaunidade estetica o homementregueao
acaso e destruido pelaviolência divina Ò ser que deve morrer
resplandece, ao menos, antesdedesaparecer, e esse esp¦endorea
sua|ustiEcaçäo Llaeumpontohxo,ounicoquesepodecontra-
poralaceagorapetrilicadadoIeusdoodio Òrevo¦tadoimpas-
sive¦sustentasemlraque|aroo¦hardeIeus "Þadamudar+",diz
Ni¦ton,"esseespiritoExo, essea¦todesdemnascidodaconsciên-
ciaolendida."Judosemexeecorreparaonada,masohumilhado
obstina-se, preservando pelo menos o orgu¦ho. Imbarroco ro-
mantico,descobertoporRaymondQueneau,pretendequeoob|e-
tivodetodavidaintelectualetornar-seIeusLsseromantico,na
verdade, est+umpouco adiantadoparaoseutempo Ò ob|etivo
eraapenas igualar-se aIeus e manter-senoseunivel Lle näoe
destruido, mas, por umeslorço incessante, todasubmissäo lhe e
negada. Ò dandismoeumalormadegradadadaascese.
Òdandicriaasuapropriaunidadepormeiosesteticos Nas
trata-se de umaesteticadasingu¦aridade e danegaçäo "\iver e
morrerdiantedeumespelho",esseera,segundoIaudelaire,olema
do dandi. Llee,naverdade,coerente Òdandi,porsualunçäo,e
sempre um opositor. L¦e so se mantem no desaEo Ate entäo, a
criaturarecebiasuacoerênciadocriadorApartirdomomentoem
queconsagrasuarupturacomele,ei-laentr
·
egueaosinstantes,aos
diasquepassam,asensibi¦idadedispersa Lprecisoportantoque
elaserealirme Òdandilor|aumaunidadepe¦aproprialorçada
recusaIisperso,naqualidadedepessoaprivadaderegra,e¦eser+
coerente como personagem. Nasumpersonagempressupõeum
publico,odandisopodedesempenharumpape¦quandoseopõe
L¦esopodeassegurar-sedesuapropriaexistênciareencontrando-a
70
O HOMEM REVOLTADO
+ rosto dos outros Òs outros säo o seuespe¦ho Lspe¦ho ¦ogo
iscado,ebemverdade, pois acapacidadede atençäo humanae
+itada. Lladeve ser sempre despertada, incitada pela provoca-
�ão. Ò dandi, portanto, e sempre obrigado a impressionar Sua
vocaçäo de dandi est+ nasingu¦aridade, seu aperleiçoamento no
cessoSempreemruptura,sempreamargemdascoisas,eleobriga
soutrosacriarem-no,enquantonegaosseusvalores Lledesem-
¸.nhaasuavidaporincapazdevivê-laIesempenha-aateamor-
i L¸ excetonosmomentosemquehcasoesemumespe¦ho.Iarao
1åndi, sersoquerdizernäosernada.Òsromanticossolalaramde
'rmatäomagnihcasobreaso¦idäoporqueelaeraasuadorrea¦,a
_.enäo se consegue suportar. Sua revoltatemraizes prolundas,
+.s do Cleveland do abade Irevost, ate os dadaistas, passando
¸.loslreneticosdel ·30, porIaudelaireepe¦osdecadentesdel · ·0,
.isdeumseculoderevoltaap¦acou-seporcompletocomasau-
11ciasda"excentricidade" Setodos souberamla¦ardador,epor-
que, semesperançadesuper+-¦adeoutralormaquenäoporväs
¸a·odias, sentiam instintivamente que ela continuava como sua
LI aicadesculpaecomosuaverdadeiranobreza.
Ioressemotivo,o¦egadodoromantismonäoloiassumidopor
|lugo,pardeIrança,masporIaude¦aireeIacenaire,poetasdo
c·ime "Judo neste mundo transpiracrime", diz Iaudelaire, "o
,na¦,asparedesealacedohomem "Quepelomenosessecrime,
k do mundo,tenhaumcar+terdistinto Iacenaire,cronologica-
+enteoprimeirodosEdalgoscriminosos,dedica-seaissoeletiva-
aente,Iaudelairetemmenosrigoremaisgenialidade.Ir+criaro
,a|dimdomal,ondeocrimesodespontar+comoumaespeciemais
·aradoqueoutras. Òproprioterrortranslormar-se-+emlinasen-
saçäoeemob|etoraro"Þäosolicareilelizemservitima,masnäo
diarei ser carrasco a limdesentir a revo¦uçäo dos dois ¦ados. "
Mesmo o conlormismo emIaudelairetemcheiro de crime. Se
.sco¦heuNaistrecomomentorintelectual,loinamedidaemque
7 1
ALBERT CAMUS
esteconservadorchegaaextremos,centrandosuadoutrinanamorte
enocarrasco "Òverdadeirosanto",EngepensarIaudelaire,"eo
queaçoitaemataopovoparaobemdopovo "Lleser+atendido.
Araçadosverdadeirossantoscomeçaadisseminar-senaterrapara
consagraressascuriosasconclusõesdarevo¦ta.NasIaudelaire,a
despeito do seuarsena¦satanico, do seugosto por Sace, de suas
blaslêmias,continuavapordemaisteologoparaserumverdadeiro
revoltado Òseuverdadeirodrama,quelezdeleomaiorpoetade
seutempo,näoresidianisso.Iaudelairesopodeserlembradoaqui
namedidaemqueloioteoricomaisprot·ndododandismo,olere-
cendo lormulas deEnitivas a uma das conclusões da revoltaro-
mantica.
Òromantismodemonstra eletivamentequearevoltaest+as-
sociadaaodandismo.umdeseusrumoseoparecer.Lmsuaslor-
masconvencionais,odandismoconlessaanosta¦giadeumamo-
ral. Þäo emaisdoqueahonrareduzidaacodigo dehonraAo
mesmotempo,porem,e¦einauguraumaesteticaaindavitoriosa
emnossomundo,ados criadores solit+rios,rivaisobstinados do
Ieusquecondenam.Apartirdoromantismo, atareladoartista
näoser+maisunicamenteadecriarummundo, nemdeexaltara
beleza porsiso, mastambemadedeEnirumaatitude. Ò artista
torna-semode¦o,apresenta-secomoexemplo.aarteeasuamoral.
Comele, começa aera dosdiretoresde consciência Quando os
dandisnäosematamunsaosoutrosouEcamloucos,lazemcarrei-
raeposamparaaposteridadeNesmoquandogritam,comoVigny,
queväoca¦ar-se, seusilêncioeestrondoso.
Nas, noamago doproprioromantismo,a esterilidade dessa
atitudeEcaclaraparaalguns revoltados,queentäoolerecemum
tipodetransiçäoentreoexcêntrico¸ouo¡ncrivel)enossosaventu-
reirosrevolucion+rios LntreosobrinhodeRameaueos"conquis-
tadores"doseculoXX,IyroneShe¦ley|+lutam,emboraostensi-
vamente,pelaliberdade.Llesseexpõemtambem,masdeumaoutra
O HOMEM REVOLTADO
+aneira.Arevoltatrocapoucoapoucoomundodoparecerpelo
do lazer,aoqualvailançar-seporinteiraÒsestudanteslranceses
d l ·3ð e os dezembristas russos väo aparecer, entäo, como as
· +canaçõesmaispurasdeumarevoltainicialmentesolit+riaeque
.scaemseguida,atravesdossacrincios,ocaminhodeumareu-
l l i ão. Nas,inversamente,ogostopeloapocalipseepelavidalrene-
1 i 'a voltar+aserencontradonosnossosrevolucion+rios ÒdesEle
1sprocessos,o|ogoterriveldo|uizdeinstruçäoedoacusado,a
¬.enaçäodosinterrogatoriosdeixamasvezesentreverumatr+gi-
\H complacência pelovelho subterlúgio em que o revoltado ro-
åntico, aorecusaro que era, condenava-seprovisoriamente ao
¸a|ecer,nainlelizesperançadeconquistarumsermaisproí+ndo
73
A
[
LCISA IA
_
AI\AÇ
_
Ò
¿
eorevoltadoromanticoexaltaoindividuoeomal,näotomapor
issomesmoopartidodoshomens,masapenasoseuproprioparti-
do Ò dandismo e sempre e em qualquer de suas lormas um
dandismoemrelaçäoaIeus. Þaqualidadedecriatura,oindivi-
duosopodeopor-seaocriador.LletemnecessidadedeIeus,com
oquallertademodosombrro.ArmandHoog'´temrazäoquando
diz que, apesar do clima nietzschiano dessas obras, Ieusainda
näo est+morto Apropriadanaçäo,insistentementereivindicada,
nadamais e do queumaboa peça que se prega em Ieus. Com
Iostoievski,pelocontr+rio,adescriçäodarevoltavaidarmaisum
passo.IvanKaramazovtomaopartidodoshomens,ressaltandoa
suainocência LleaErmaqueacondenaçäoamortequepairaso-
breelesein|ustaLmseuprimeiromovimento,pelomenos,longe
dedelenderomal,eledelendea|ustiça,quesituaacimadadivin-
dadeIortanto,elenäonegademodoabsolutoaexistênciadeIeus.
Lleoret·taemnomedeumvalormoralAambiçäodorevoltado
romanticoerala¦arcomIeusdeigualparaigaal.Òmalresponde
aomal,a soberbaacrueldade. Ò idealde \igny e, porexemplo,
1
2
Les Petits Romantiques (Os pequenos românticos). Cahiers du Sud.
O HOMEM REVOLTADO
�s¸onderaosilênciocomo silêncio. Semduvida, trata-sede al-
¸. ·-seaonive¦deIeus,oque|+eblaslêmia.Nasnäosepensaem
+testaropodernemolugardadivindade.Lssablaslêmiaereve-
:.te, |+quetodablaslêmia,aEnal,eumaparticipaçäonosagrado
ComIvan, pelocontr+rro, otommuda. Ieus e¡ulgadopor
HU::t vez,edoalto.Seomalenecess+rroacriaçäodrvina,entäoessa
.·açäoeinaceit+vel.Ivannäomaisrecorrer+aesseIeusmisterio-
., aasaumprincipiomaise¦evado,queea|ustiçaLleinaugura
11 +preitadaessencialdarevolta,queesubstituiroreinodagraça
p · . o da|ustiçaComeçaaomesmotempooataquecontraocristia-
smo. Òsrevoltadosromanticosrompiamcomo proprioIeus,
1 1 a qualidade deprincipiode odio Ivan recusaexplicitamente o
1 1 1 sterioe,porconseguinte,oproprioIeuscomoprincipiodeamor
Só o amor pode nos lazerratiEcar a in|ustiça leitaa Narta, aos
¸er+rios das dez horas , e, mais adiante, admitir a morte
+, astilic+veldascrianças."Seosolrimentodascrianças",dizIvan,
''serveparacompletarasomadasdoresnecess+riasaaquisiçäoda
v ·dade,aíirmodesde¡+queessaverdadenäovaletalpreço. "Ivan
I' .usaadependênciaprot·ndaqueocristianismointroduziuen-
1 ÍL osolrimentoeaverdade Ò mais prolundoc¦amordeIvan,o
_.eabreosabismosmaisperturbadoressobospesdorevoltado,e
o mesmo se. "Ninhaindignaçäo persistiria mesmo seeuestivesse
··ado "ÒquesigniEcaque,mesmoseIeusexistisse,mesmoseo
+|sterioencobrisseumaverdade,mesmoseostarets Zozimotives-
�L razäo,Ivannäoaceitariaqueessaverdadelossepagacomoma¦,
· om osolrimentoeamorteintigidaaosinocentes.Ivanencarnaa
Ì cusadasalvaçäoAle conduzavidaimortalNasale pressupõe
H .ceitaçäodomisterioedoma¦,aresignaçäoain|ustiça.Aquelea
_aemseimpedeoacessoale näoreceber+portantoavidaimortal
'essascondições,mesmoseavrdaimortalexrstrsse,Ivanarecusa-
ria. Llere|eitatalbarganha.Soaceitariaagraça,seessalossein-
ondicional,eeporissoqueeleproprioestabeleceassuascondi-
ALBERT CAMUS
çõesArevoltaquertudoounada "Jodaaciênciadomundonäo
valeas l+grimas das crianças "Ivan näo dizquenäoh+verdade
Lle diz que, seh+umaverdade, elaso pode ser inaceit+vel Ior
quê` Iorque e in|usta A luta da|ustiça contra averdade surge
aquipela primeiravez, enäoter+mais Em. Ivan, solit+rio,epor-
tanto moralista, se satislar+ com uma especie de quixotismo
metalisicoNaisalgumasdecadas,eumaimensaconspiraçäopo-
liticatentar+lazerda|ustiçaaverdade
Alemdisso, Ivanencarnaarecusadesersalvosozinho. Soli-
dariza-se comosmalditose, porsua causa, recusao ceu Seele
acreditasse, poderiasersalvo, mas outros seriamcondenados O
solrimentocontinuariaÞäoh+salvaçäopossivelparaquemsolre
averdadeiracompaixäo Ivancontinuar+culpandoIeusaorecu-
sarduplamente a le, como serecusam ain|ustiça e o privilegio.
Impassoamais,edoTudo ou nada chegamosaoTodos ou ninguém.
Lssadeterminaçäoextremaeaatitudequeelapressupõeteriam
bastadopara osromanticos Nas Ivan,'embora ceda tambem ao
dandismo, vive realmente os seus problemas, dilacerado entre o
sime o näo A partir desse momento, eleentra na coerência Se
recusar a imortalidade, que lhe resta` Avida no que elatem de
elementar Suprimido o sentido davida, aindarestaavida. "Lu
vivo", diz Ivan, "a despeito da logica." L mais "Se näo tivesse
maisle navida,seduvidassedamulheramada,daordemuniver-
sal,persuadidopelocontr+riodequetudonadamaisedoqueum
caos inlernal, mesmo assim eu dese| aria viver, apesar de tudo. "
Ivanvaiportantoviverevaiamartambem "semsaberporquê".
Nasviveretambemagir Lmnomedequê`Senäoh+imortalida-
de,näoh+recompensanemcastigo,nembemnemmal. '^credito
quenäoh+virtudesemimortalidade. "Lainda. "Seiapenasqueo
"É preciso lembrar que Ivan, de certo modo, é Dostoievski, mais à vontade neste personagem do
que em Aliocha.
76
O HOMEM REVOLTADO
-·'.|mentoexiste,quenäoh+culpados,quetudoest+interligado,
! J L H |udopassaeseequilibra. "Nas,senäoh+virtude,näoh+mais
I v i : ¨Judoepermitido "
Comeste "tudoepermitido"começarealmenteahistoriado
+ smocontemporaneo.Arevoltaromanticanäoiatäolonge.Ii-
..va-seadizer,emsuma,quetudonäoerapermitido,masque
• + se permitia,porinsolência,oqueeraproibido.Comosirmäos
' .mazov, muito pelo contr+rio, a logica da indignaçäo lar+ a
·..·ltavoltar-se contra si mesma, lançando-a numa contradiçäo
I |s.speradaAdilerençaessencialequeosromanticos sepermi-
1 ocomplacências,enquantoIvanvaieslorçar-separalazeromal
11 Gm desercoerenteÞäosepermitir+oexerciciodabondadeO
1 1 i i | smonäoeapenasdesesperoenegaçäo,massobretudovontade
t i • desesperaredenegarO mesmohomemquetomavaopartido
1+ | nocênciademodo täo veemente, que tremia diante do solri-
.·atodeumacriança,quedese| avaver"comospropriosolhos"a
çadormirpertodoleäo,avitimaabraçaroassassino,apartirdo
omentoemquerecusaacoerênciadivinaetentaencontrarsua
¸priaregrareconhecealegitimidadedoassassinato.Ivanrevol-
l a-se con|raumIeusassassino,mas,desdeoinstanteemqueracio-
+'izaasuarevolta,extraidelaaleidoassassinato Setudoeper-
Í l i .ido, ele pode mataropaioupelomenos deixarqueo matem
l J aalongaretexäosobreanossacondiçäodecondenadosamorte
.onduzunicamentea|ustiEcaçäodocrimeIvan,aomesmotem-
¸o,odeiaapenademorte¸aonarrarumaexecuçäo,dizcomvee-
+ência. "Suacabeçacaiu,emnomedagraçadivina. "),admitindo,
l1  principio,ocrime Jodasasindulgênciasparaoassassino,ne-
+aumaparaocarrasco Lssacontradiçäo,emqueSaJeviviaavon-
+de,laz,pelocontr+rio,IvanKaramazovsulocar
Llepareceteraintençäoderaciocinarcomoseaimortalidade
não existisse, quando apenas se limitou a dizer que a recusaria,
a .daqueelaexistisse Iara protestarcontraomaleamorte, ele
77
I
ALBERT CAMUS
preleriu portanto dizer, propositadamente, que a virtude, tanto
quantoaimorta¦idade,näoexisteedeixarquematassemoseupai.
Lleaceitavoluntariamenteopropriodilema,servirtuosoeilogico
oulogico ecriminoso. Seuprototipo, o diabo, temrazäoquando
lhe sussurra. "\aisrealizarumaaçäovirtuosae, no entanto, näo
acreditasnavirtude, eiso queteirritaeatormenta "Apergunta
que,enEm,Ivanlormu¦aasiproprio,aqueconstituioverdadeiro
progresso dado por Iostoievski ao espirito da revolta, e a unica
que nos interessa aqui. pode-seviver mantendo-se permanente-
mentenarevolta`
Ivandeixaqueadivinhemossuaresposta. sosepodeviverna
revoltaaolev+-laaoextremo.Qualeoextremodarevoltametaíísica`
Arevo¦uçäometaíísica.O senhordestemundo,apostersidocon-
testadoemsualegitimidade,deveserderrubado O homemdeve
ocuparo seu lugar "ComoIeus eaimortalidadenäoexistem, e
permitidoaohomemnovosetornarIeus"NasoqueeserIeus`
É reconhecer|ustamentequetudoe permitido, recusarqualquer
¦eiquenäose|aasua. Semquese|anecess+riodesenvolverracio-
ciniosintermedi+rios,percebe-seassimquetornar-seIeuseacei-
tar o crime ¸a ideia lavorita, igualmente, dos intelectuais de
Iostoievski) O prob¦ema pessoal de Ivan e, portanto, saber se
ser+helasualogicaese,partindodeumprotestoindignadodian-
tedosolrimentoinocente,aceitar+oassassinatodopaicomaindi-
lerençadoshomens-deusesConhecemosasuasoluçäo.Ivandei-
xar+queopaise|amortoIrolundodemaisparaqueoparecerlhe
basteesensiveldemarsparaagir,elesecontentar+emdeiarqueo
laçam.NasvaienlouquecerO homemquenäocompreendiacomo
sepodiaamaroproximotambemnäocompreendecomo sepode
mat+-lo Lspremido entre umavirtude in|ustiEc+vel e um crime
inaceit+vel,devoradopelapiedadeeincapazdeamar,umsolit+rio
prrvadodosocorrodocrnismo, esse homemdeintelrgêncrasobe-
ranaser+mortope¦acontradiçäo."Jenhoamenteterrestre",dizia.
78
O HOMEM REVOLTADO
" De queservequerercompreenderaquiloquenäoedestemun-
do?" Nase¦esoviviaparaoquenäoedestemundo,eesseorgu¦ho
+a ouscadoabso¦utoretirava-o|ustamentedaterra, daqualnada
+ava
Lssenaulr+gionäoimpede,deresto, que,colocadooproble-
ma, daidecorraaconseqüência. doravantearevoltamarcharumo
.çäo.Lssemovimento|+eapontadoporIostoievski,comuma
.ensidadeproletica,nalendadoCrandeInquisidor.¡van,Enal-
cate, näo separa a criaçäo de seu criador. "Þäo e a Ieus que
r ,eito",dizele,"masacriaçäo. "Lm outras palavras, eIeuspai,
+separ+ve¦ daqui¦o quecriou '¯ Seupro|eto deusurpaçäoconti-
+ aaportantointeiramentemoral. Llenäoquerrelormarnadana
iaçäoNas,sendoacriaçäooquee,exigedelaodireitodeeman-
. ¡ar-semoralmente,¡unto com toda ahumanrdade A partrrdo
+cmento,pelo contr+rio,emqueoespiritoderevolta,aoaceitaro
¨adoepermitido"eo "todos ouninguem",visarelazeracriaçäo
¸aragarantirarealezaeadivindadedoshomens,apartirdomo-
+. .ntoemquearevo¦uçäometalisicaseestendedomoralaopoliti-
co, teminicioumanovaempresa,dealcanceincalcul+vel,tambem
iucda,eprecisoassinalar,domesmoniilismoIostoievskr,pro-
'ctadanovareligräo,trnhaanunciadoe previsto. "SeAliochati-
.esse concluido que näo h+ nem Ieus nem imortalidade, ele se
.criatornadoimediatamenteateuesocialistaIssoporqueosocia-
· smo näo e apenas aquestäooper+ria, e sobretudo a questäo do
ateismo,desuaencarnaçäocontemporanea,aquestäodaJorrede
Habel, que se constroi sem Ieus, näo para da terra alcançar os
c.usesimpararebaixarosceusateaterra. "'`
1 4 lvan justamente aceita deixar que matem o pai. Ele escolhe o atentado contra a natureza e a
procriação. Esse pai, aliás, é infame. Entre Ivan e o deus de Aliocha, a figura detestável do pai
Karamazov se esgueira constantemente.
"l. "Estas questões (Deus e a imortalidade) são as mesmas que as questões socialistas, mas
vi sualizadas sob outro ângulo. "
79
ALBERT CAMUS
IepoisdissoAliochapode,naverdade,tratarcarrnhosamente
Ivande"verdadeirosimplorio" Lsseapenasexercitava-senoau-
todominioenäooconsegaia\iräooutros,maisserios, que,par-
tindo da mesma negaçäo desesperada, iräo exigir o imperio do
mundoSäoosCrandesInquisidores,queprendemoCristoevêm
dizer-lheque o seu metodonäo e o certo, que näo se consegue
obteralelicidadeuniversalpe¦aliberdadeimediatadeescolherentre
o bem e o mal, mas pelo dominio e a unilicaçäo do mundo É
preciso primeiroreinar, econquistar. Òreinodos ceus chegar+a
terra,everdade,masoreinadoser+exercidopeloshomens -ini-
cialmente, osCesares, os quecompreenderamprimeiroe em se-
guida,comopassardotempo,todososoutros.Aunidadedacria-
çäosedar+,portodososmeios,|+quetudoepermitido.ÒCrande
Inquisidorest+velhoecansado, poisseuconhecimentoeamargo.
Lle sabe queoshomens säomais preguiçosos doquecovardes e
quepreleremapazeamortealiberdadedediscernirentreobem
eoma¦L¦etempiedade,umapiedadelria,desseprisioneirocala-
doqueahistoriadesmentesemtregua.Lleopressionaparalalar,
parareconhecerosseuserroselegitimar,decertalorma,otraba-
lho dos Cesares e dos Inquisidores. Nas oprisioneiro se cala. A
empresaprosseguir+seme¦e,väomat+-¦o.Alegitimidadevir+no
Enal dos tempos, quando o reino dos homens estivergarantido
"Ònegocioest+apenasnocomeço,est+longedeterminar,eaterra
ter+aindamuitoquesolrer, masatingiremosonossoob|etivo, se-
remosCesare,entäo,pensaremosnalelicidadeuniversal. "
Ò prisioneiro, desde entäo, loi executado, reinam apenas os
CrandesInquisidores,queouvem"oespiritoprolundo,oespirito
dedestruiçäoedemorte" Òs Crandes Inquisidoresrecusamor-
gulhosamenteopäodoceuealiberdade."Iescedacruzeacredi-
taremos emti" ,|+gritavamospoliciaisno Colgota Nas elenäo
desceu,emvezdisso,nomomentomaistorturantedaagonia,quei-
xou-se a Ieus por ter sido abandonado Iortanto, näo h+ mais
80
O HOMEM REVOLTADO
1 · ·· vas,somenteale eomisterio,queosrevoltadosre|eitameque
Ih Grandes Inquisidoresridicularizam.Judoepermitido,eosse-
l' l l i os docrimeseprepararamnesseminutoperturbadorIeIaulo
1 1 '|a¦in, os papas que esco¦heram Cesarprepararam o caminho
t i os Cesaresquesoescolhemasimesmos.Aunidadedomundo,
que näoloileitacomIeus,agoratentar+lazer-secontraIeus
Nasaindanäochegamos l+ Iorora, Ivan so nos olerece o
s|odeshguradodorevoltadonosabismos,incapazdeaçäo,dila-
I
·
+adoentreaideiadesuainocênciaeodese|odematarLleodeia
11 ¸enademorte,porqueelaeaimagemdacondiçäohumana,eao
+esmotempocaminhaemdireçäoaocrimeIortertomadoopar-
t i do doshomens,elerecebenapartilhaasolidäo.Arevoltadara-
:o, noseucaso,terminaem¦oucura.
8 1
__
I¡RNAÇ
_
Ò
_
ISÒIIJA
A partirdoinstanteemqueohomemsubmeteIeusao|uizomo-
ral,eleomatadentrodesimesmo.Nasqua¦eentäoolundamento
damoral`Þega-seIeusemnomeda|ustiça,masaideiade|ustiça
podesercompreendidasem aideia de Ieus` Þäo nos achamos
dessemodo no absurdo`É como absurdoque Þietzsche sede-
lronta.Iaramelhorsuper+-lo, ele olevaaextremos. a moralea
últimalacedeIeusquedeveserdestruida,antesquesecomecea
reconstruçäoIeusnäomaisexisteenäogarantemaisnossaexis-
tência,ohomemdeveteradeterminaçäodelazerparaexistir
O
Ú
nico
Stirner|+quisera destruir no homem, depois do proprio Ieus,
qualquer ideia de Ieus. Nas, ao contr+rio de Þietzsche, seu
nii¦ismoesatisleito.Stirnerridiantedoimpasse,Þietzscheseatira
contraasparedesApartirdel ·+´, datadapublicaçäodeO
Ú
nico
82
O HOMEM REVOLTADO
r .\ÍÍH propriedade, Stirnercomeçaalimparo terreno Ò homem,
t p l c lreqüentava a "Sociedade dosLmancrpados" comos|ovens
+.¡.lianos de esquerda¸entreosquars Narx), näotinhaapenas
.·o.tas a acertar com Ieus, mas tambem com o ¡omem de
' .erbach,oLspiritode¡egelesuaencarnaçäohistcrica,oLsta-
\ ¡araele,todosessesidolosnasceramdomesmo"mongolismo",
11 ençanasideias eternas Lleescreveu. "Þäolundamenteimi-
l t ha causaemnada"Certamente,opecadoeum"tage¦omongol",
1 1 1 as tambem o e o direito doqualsomosprisioneiros Ieus e o
| a. argo, Stirnervaromarslongepossivelnablaslêmra¸"drgerea
+ostiaeser+sperdoado"). Nas Ieuseapenasumadasalienações
lo eu, ou melhor, daquilo que sou Socrates, Iescartes, Hegel,
dososproletaseosí losolosnadamaisízeramdoqueinventar
+vas maneiras de alienaro que eu sou, esse eu que Stirner laz
¸ : estäodedistinguirdoLuabsolutodeIichteaoredazi-¦oaquilo
que temdemais singu¦aredemaislugaz. "Òs nomesnäoono-
+eiam",eleeo
¡
nico.
Atejesus,ahrstoriauniversalparaStirnereapenasumlongo
slorçoparaidealizarorealLsseeslorçoest+encarnadonospen-
s+mentosenosritosdepuriícaçäopropriosdosantigos.Apartir
de jesus, e alcançado o ob|etivo, começa um outro eslorço que
onsiste,pe¦ocontr+rio,emrealizaroideal.Aluriadaencarnaçäo
s.cedeapuriícaçäo,devastandoomundocadavezmais,amedi-
da que o socialismo, herdeiro do Cristo, estende o seu imperio.
Masahistoriauniversalnadamaisedoqueumalongaolensaao
¸rinciproúnicoqueeusou,prrnciprovivo,concreto,¡rrncipiode
.itoriaquesequisdobrarao|ugodeabstraçõessucessivas -Ieus,
o Lstado,asociedade,ahumanidadeIaraStirner,aulantropiae
.ma mistií caçäo As proprias ílosolias ateias que ca¦minam no
cu¦todoLstadoedohomemnadamaissäodoque"insurreições
.eologicas" "Þossosateus", dizStirner,"säonaverda1egentepie-
Josa." Sohouveumcultoao¦ongodetodaahistoria,odaeterni-
83
ALBERT CAMUS
dade. Lssecu¦toementira Soeverdadeiroo
¡
nico,inimigodo
eternoe, eletivamente, detodas as coisas quenäo servem aoseu
dese|odedominaçäo
Com Stirner, o movimento de negaçäo que anima a revolta
submergeirresistive¦mentetodasasaErmaçõesLxpulsatambem
ossucedaneos dodivinodosquaisaconsciênciamoralest+carre-
gada "O alemexteriore banido", diz ele, "mas o alem interior
tornou-seumnovoceu "Nesmoarevo¦uçäo,esobretudoarevo-
¦uçäo,repugnaaesserevoltado.Iaraserrevolucion+rio,epreciso
acreditaraindaema¦guma coisa,mesmoonde näo h+nadapara
acreditar'^Revoluçäo¸lrancesa)levouaumareaçäo,eissomos-
traoq·.eerana realidade aRevoluçäo "Lscravizar-seahumanida-
denäovalemaisdoqueserviraIeus. Ieresto,alraternidadee
apenas o "mododeverdomingueiro doscomunistas".Iurantea
semana, osirmäostornam-seescravos Soexisteportantoumali-
berdadeparaStirner, "omeupoder",eumaverdade, "oesplêndi-
doegoismodasestrelas"
Þeste deserto,tudoretoresce. ^ signiEcaçäo lormid+velde
umgritodea¦egriasempensamentonäopodiasercompreendida
enquantoduroua¦onganoitedopensamentoedale "Lssanoite
chegaaoseuEm,vaicomeçarumnovoamanhecer, que|+näoeo
dasrevoluções,masodasinsurreiçõesAinsurreiçäoeemsimes-
maumaascese,querecusatodososconlortosO insurretosocon-
cordar+ comosoutros homensduranteotempoenamedidaem
queoseuegoismocoincidircomodeles. Suaverdadeiravidaest+
naso¦idäo,ondepodesaciarsemlreiosoapetitedeser,queeoseu
unicoser
O individualismo chega assim a um apogeu. É negaçäo de
tudoaquiloquenegaoindividuoegloriEcaçäodetudoaquiloque
o exa¦ta e serve O que e o bem, segundo Stirner` ^quilo que
possousar." A que estoulegitimamente autorizado` '^ tudo de
quesoucapaz."Arevo¦tadesembocaaindana|ustiEcaçäodocri-
84
O HOMEM REVOLTADO
1 1 1 • • 'tirnernäoapenastentouessa|ustiEcaçäo¸aesserespeito,sua
|.ecdênciadiretaencontra-senaslormasterroristasdaanarquia),
. . .:· tambem entusiasmou-sevisivelmente com as perspectivas
qu · assim abria "Romper com o sagrado, ou me¦hor, romper o
.,·.do, podegeneralizar-se. Þäo e uma nova revo¦uçäo que se
+·· zinha,mas,poderoso,orgulhoso,semrespeito,semvergonha,
tl nn cocsciência,umcrimenäocrescecomotroväonohorizonte,e
nflo vêsqueo ceu, carregadodepressentimentos,seescurece ese
nl l a? " Sente-seaquiasombriaa¦egriadaquelesquelazemnascer
+ ¸ca¦ipses em um casebre Þadamais pode relrear essa logica
+argaeimperiosa,anäoserumeuqueseinsurgecontratodasas
ostrações,elemesmotornadoabstratoeinomin+velalorçadeser
H · ¸ aestradoecortadodesuasraizes Þäoh+maiscrimesnemer-
lt> S; porconseguinte,näoh+maispecadores Somostodosperlei-
l os. ]+quecadaeueemsimesmointrinsecamentecriminosoem
Ì · açäoaoLstadoeaopovo,saibamosreconhecerqueviveretrans-
•·edir. A menos que seaceite matar, para ser unico "\ocê, que
� +daprolana,näotemagrandezadeumcriminoso."Aindatimi-
do, StirneraErmaemoutrolugar. "Nat+-los,näomartiriz+-los"
Nas decretar a ¦egitimidade do assassinato e decretar a
+·bilizaçäoeaguerrados
¡
nicosO assassinatocoincidir+dessa
orma com uma especie de suicidio co¦etivo Stirner, que näo o
.·nlessaounäovêisso,näorecuar+entretantodiantedenenhuma
' estruiçäoO espiritoderevoltaencontra, enEm,umadesuassa-
slaçõesmaisamargasnocaos"Þoste¸anaçäoalemä)|ogaremos
+·chäo. Iogoseseguiräotuasirmäs,asnações, quandotodasti-
.erempartidonoteurastro,ahumanidadeser+enterrada,esobre
seu tumulo, Lu, enEmmeu unico senhor, Lu, o seuherdeiro,
.·urir. "Assim,sobreosescombrosdomundo,orisodesoladodo
adividuo-reiilustraavitoriau¦timadoespiritoderevo¦ta. Nas,
aesteextremo,nadamaisepossivel,anäoseramorteouaressur-
eiçäo Stirnere,comele,todososrevoltadosnii¦istascorrempara
85
ALBERT CAMUS
osconEns, bêbadosdedestruiçäo Iepois,quandosedescobreo
deserto, eprecisoaprenderasubsistirnele Começaabuscaexte-
nuantedeÞietzsche.
Nietzche e o Niilismo
"Þegamos Ieus, negamosaresponsabi¦idadede Ieus, somente
assimlibertaremoso mundo. " ComÞietzsche,o nii¦ismoparece
tornar-seproletico Nasnadapodemosconc¦uirdeÞietzsche, a
näoseracrueldaderasteiraemediocrequeeledetestavacomtodas
as suaslorças, enquantonäosecolocarnoprimeiro planodesua
obrao clinico emvezdoproleta Òcar+terprovisorio, metodico,
estrategico,emsuma,deseupensamentonäopodeserquestiona-
do ComÞietzsche, oniilismotorna-sepelaprimeiravezconsci-
enteÒscirurgiõestêmemcomumcomosproletasolatodepen-
saremeoperarememt·nçäodoluturo. Þietzschesopensou em
lunçäodeumapocalipsevindouro,näoparaexalt+-lo,poiseleadi-
vinhavaalacesordidaecalcu¦istaqueesseapocalipseacabariaas-
sumindo, masparaevit+-loetranslorm+-loemrenascimento. Lle
reconheceuoniilismoeexaminou-ocomolatoclinico. Iizia-seo
primeiro niilista realizado da Luropa. Þäo porgosto, mas pela
condiçäo,eporqueeragrandedemaispararecusarolegadodesua
epocaIiagnosticouemsimesmo,enosoutros,aimpotênciade
acreditareodesaparecimentodolundamentoprimitivodetodale,
ouse|a,acrençanavidaÞoseucaso,o"pode-seviverrevoltador"
translormou-se no "pode-seviver semacreditarem nada`" Sua
respostaealirmativa.Sim,seselizerdaausênciadele ummetodo,
86
O HOMEM REVOLTADO
HL' sclevaroniilismoatesuasúltimasconseqüênciasese,desembo-
co ndo numdesertoe,conliandono quevaivir, sentir-se,com o
smomovimentoprimitivo,adoreaalegria.
Lmvezdadúvidametodica,elepraticouanegaçäometodi-
\H¸ a destruiçäo aplicada de tudo aquilo que ainda esconde o
· |smo de si proprio, dos idolos que escamoteiam a morte de
I ·as. "Iaraerigirumsantu+rionovo,eprecisodemolirumsan-
a|io, estae a lei. "Aqueleque quiser sercriadornobem e no
1 1 1 al deve, segundo ele, em primeiro lugar destruir os valores.
'�\ssim, o mal supremolaz parte do bem supremo, mas o bem
s ¸remo e criador " À sua maneira, ele escreveu o Discurso do
111étodo de sua epoca, sem a liberdade e a exatidäo desse seculo
X \IIlrancêsquetantoadmirava, mascomaloucalucidezque
·acterizaoseculoXX,seculodogênio,segundoele.Cabe-nos
•xa:inaressemetododarevolta

AprimeiraprovidênciadeÞietzscheeaceitaraquiloqueco-
+.ce Iaraele,oateismoeevidente,elee"construtivoeradical".
1\ .ocaçäosuperiordeÞietzsche,seacreditamosnele,eprovocar
u ma especiedecriseedeparadadecisivanoproblemadoateismo
O :undomarchaaoacaso,elenäotemlnalidade.Iogo,Ieuse
| . atil,|+ que ele nada quer Se quisesse alguma coisa, e aqui se
Ì ` ·nhecealormulaçäotradicionaldoproblemadomal,ser-lhe-ia
Ì cess+rioassumir"umasomadedoredeilogismoquediminui-
i·i a ovalortotaldodevir". Sabe-sequeÞietzscheinve|avapublica-
+enteStendhalpelalormula. "aúnicadesculpadeIeusequeele
não existe" Irivadodavontadedivina,omundolcaigualmente
¸·vadodeunidadeedeEnalidade. É porissoqueomundonäo
¸odeser¡ulgado.Jodo|uizodevaloremitidosobreomundoleva
' i +almenteacalúniadavida.]ulga-seapenasaquiloquee,emrela-
�.evidentemente, a última parte da filosofia de Nietzsche, de 1 8 80 até o seu colapso, que nos
ocupará aqui. Este capítulo pode ser considerado como um comentário a Vntade de poder.
87
ALBERT CAMUS
çäoaoquedeveriaser -reinodoceu,ideiaseternasouimperativo
moral Nas o que deviaser näo existe, este mundo näo podeser
|ulgadoemnomedenada'^svantagensdestetempo nadaever-
dadeiro,tudoepermitido "Lssaslormulas,queserepercutemem
milharesdeoutraslormulas,suntuosasouirênicas,säosuEcientes
emtodocasoparademonstrarqueÞietzscheaceitaolardornteiro
donii¦ismoedarevoltaLmsuasconsiderações,ali+spueris,sobre
"adestramentoeseleçäo",elechegouatealormularalogicaextre-
madoraciocinioniilista."Iroblema.porquemeiosseobteriauma
lormularigorosadeniilismocomp¦etoecontagioso,queensinaria
epraticariacomumconhecimentointeiramentecientiEcoamorte
volunt+ria."
NasÞietzscherecrutaparaacausadoniilismoosvaloresque
tradicionalmenteloramconsideradoscomolreiosdoniilismo Irin-
cipalmenteamoralAcondutamora¦,talcomoexpostaporSocrates
outalcomo arecomendaocristianismo,eemsimesmaumsinal
de decadência Llaquersubstituiro homemdecarnee osso por
umreílexodehomem. Llacondenaouniversodaspaixõesedos
gritosemnomedeummundoharmonioso,totalmenteimagin+rio
Seoniilismoeaincapacidadedeacreditar,seusintomamaisgrave
näo se encontrano ateismo, mas na incapacidade de acreditarno
que existe, dever o que se laz, de viver o que e olerecido Lsta
delormaçäoest+nabasedetodoidealismo Amoralnäotemle no
mundoIaraÞietzsche,averdadeiramoralnäoseseparadaluci-
dezLleeseverocomos"caluniadoresdomundo",porqueconse-
guedistinguir,nessacalunia,ogostovergonhosopelaevasäoIara
ele, a moral tradiciona¦ nada mais e do que um casoespecialde
imoralidadeIizele."É obemquetemnecessidadedeser|ustiE-
cado "Lmais "Ser+pormotivosmoraisqueumdiasedeixar+de
lazerobem. "
AhlosoE adeÞietzschegiracertamenteemtornodoproble-
madarevolta L¦acomeça|ustamenteporserumarevolta. Nas
88
O HOMEM REVOLTADO
tnte-se odeslocamentooperadoporÞietzscheComele,arevolta
pnrte do "Ieus est+ morto", que ela considera lato consumado,
·· a-se em seguida contra tudo aqui¦o quevisasubstituirlalsa-
Ì | Ì teadivindadedesaparecidaedesonraummundo,certamente
HíÍ direçäo, mas que continua a ser o unico crisol dos deuses
{ 'oatrariamente ao que pensam alguns de seus critrcos cristäos,
' .|zschenäomeditouopro|etodematarIeusLleoencontrou
otonaalmadeseutempoIoioprimeiroacompreenderadi-
« asäodoacontecimento, decidindoqueessarevoltadohomem
na ¡odiaconduziraumrenascimentosenäolossedirigida.Qual-
qu T outraatitude em relaçäo a ela, querlosseoremorso, quera
� o·placência,devalevaraoapocalipse.Þietzsche,portanto,näo
' . nulouumaE¦osoEadarevolta,masconstruiuumaElosoEaso-
l r r ` arevolta
'eeleatacaparticularmenteo cristianismo,visaapenasasua
l i I a¦Iorumlado,deixasempreintactaapessoadejesuse, por
I H I I:o, osaspectoscinicosdaIgre|a Sabe-sequeeleadmirava,como
.+hecedor,os¡esuitas."Þotndo",escreveu,"sooIeusmorale
Ì 'atado. "' 'IaraÞietzsche,como paraJolstoi,oCristonäoeum
r .o¦tadoO essencialdesuadoutrinaresume-senoconsentimen-
lo total, na näo-resistência ao mal Þäo e preciso matar, mesmo
¸+aimpedirquesemateÉ precisoaceitaromundotalcomoele
r, ecusar-seaaumentarasuadesventura,masconsentiremsolrer
¸ ssoalmenteomalqueelecontem. O reinodosceusest+imedia-
+ +enteao nossoalcance.Llenadamaisedoqueumadisposiçäo
. +teriorque nos permitecolocar os nossos atos em contato com
.ssesprincipiosequenospodedarabeatitudeimediata.Þäoale,

+asas obras, eis, segundoÞietzsche,amensagemdoCristoIe-
¸oisdisso,ahistoriadocristianismonäoloimaisdoqueumalon-
' '" Vocês dizem que é a decomposição espontânea de Deus, mas nada mais é do que uma muda
tlcrpente; ele despoja-se de sua epiderme moral. E vocês o verão reaparecer, acima do Bem e do
M< I I . "
89
ALBERT CAMUS
ga traiç¯o dessamensagem. O Þovo Jestamento|+ seachacor-
rompido,e,deIauloaosConcilios,asubserviênciaale lezesque-
cerasobras
Qual eacorrupç¯oprolundaqueocristianismoacrescentaa
mensagem de seu senhor` A ideia do|ulgamento, estranha aos
ensinamentos do Cristo, e as noções correlativas decastigo e de
recompensa.Apartirdesseinstante,anaturezatorna-sehistoria,e
historiasigniEcativa. nasceaideiadatotalidadehumana.Iaboa-
novaao|uizoE nal,ahumanidaden¯otemoutratarelasen¯ocon-
lormar-secomosEnsexpressamentemoraisdeumrelatoescrito
porantecipaç¯oAúnicadilerençaequeospersonagens,noepilo-
go, dividem-seasipropriosembonse maus.£nquantooúnico
|ulgamentodoCristoconsisteemdizerqueospecadosdanature-
zan¯otêmimportancia,ocristianismohistoricolar+detodaana-
turezaalontedopecado"QuenegaoCristo`Judooquenomo-
mentolevaonomedecrist¯o. "O cristianismoacreditalutarcon-
trao niilismo, porqueele d+umrumo ao mundo, enquanto ele
mesmoeniilistanamedidaemqueaoimporumsentidoimagin+-
rioavidaimpedequesedescubraoseuverdadeirosentido "Joda
igre|aeumapedraquesecolocanotúmulodo homem-deus, ela
tentaevitarsuaressurreiç¯oalorça."Aconclus¯oparadoxal,mas
signiEcativa,deÞietzscheequeIeusmorreuporcausadocristia-
nismo, na medida em que este secularizouo sagrado. É preciso
entenderaqui ocristranismohistorico e a "suaduplicidade pro-
lundaedesprezivel"
O mesmoraciociniolazcomqueÞietzscheseinsur|acontrao
socialismoetodasaslormasdehumanitarismo O socialismonada
maisedoqueumcristianismodegenerado Þaverdade,eleman-
temessacrençanaEnalidadedahistoria,quetraiavidaeanature-
za, que substitui Ensideais porEnsreais e contribuiparairritar
tanto avontade quanto aimaginaç¯o. O socialismoe niilista, no
sentido preciso queÞietzsche passaa conlerir aessapalavra. O
90
O HOMEM REVOLTADO
. . ' .stan¯oeaquelequen¯ocrêemnada,masoquen¯ocrênoque
rxi ste. Nestesentido,todasaslormasdesocialismos¯omanilesta-
' ·s aindadegradadas da decadênciacrist¯Iarao cristianismo,
t' oapensaecastigoimplicavamumahistoria. Nas,porumalo-
gica inevit+vel,ahistoriainteira acaba signiEcando recompensae
.·+s|igo a partir desse dia, nasceu o messianismo coletivista. Ia
·s:alorma,aigualdadedasalmasdiantedeIeus,|+queIeus
n:l á aorto,levasimplesmenteaigaaldadeJambemnissoÞietzsche
·+bateasdoutrinassocialistascomodoutrinasmoraisO niilismo,
1 |L\ semanilestenareligi¯o,quernapregaç¯osocialista,eoEm
'og|codenossoschamadosvaloressuperioresO espiritolivredes-
1 . | |+taisvaloresaodenunciarasilusõessobreasquaisrepousam,
' »rganhaqueimplicameocrimequecometemaoimpedirquea
. .ligêncialúcidarealizeasuamiss¯otranslormaroniilismopas-
�i vo emniilismoativo
`estemundo liberado de Ieus edasideias morais, o homem se
+caaatualmente sozinho e sem senhor. Þinguem menos que
` etzsche,enissoelesedistinguedosromanticos,deixouacredi-
t a r queumatalliberdadepudesseserl+cil Lssaselvagemlibera-
11o colocava-oentreaquelesarespeitodequemelepropriodissera
·oi|eremdeumanovadesventuraedeumanovalelicidade.Nas,
¸a|acomeçar, eapropriadesventuraqueclama "Iobredemim,
··oacedam-meent¯oaloucura. . . Aocolocar-meacimadaleisouo
+. aisrechaçadodosrechaçados. " Quem n¯oconsegue manter-se
c|madaleiprecisa,naverdade,encontrarumaoutraleiouade-
+ência.Apartirdomomentoemqueohomemn¯oacreditamais
I`Í Ieusnemnavidaimortal,elesetorna"respons+velportudo
+qailoquevive, portudoque,nascidodador,est+ladadoasolrer
I ta vida" É asiproprio,esomenteasiproprio,quecabeencontrar
+ordemealei. Começament¯ootempodosrechaçados,abusca
.xtenuante da|ustiEcaç¯o, anostalgia sem ob|etivo, "apergunta
91
ALBERT CAMUS
maisdolorosa,maisdilacerante,adocoraç¯oqueseindaga. onde
podereisentir-meemcasa` ".
Iorserumespiritolivre, Þietzschesabiaquealiberdadedo
espiriton¯oeumconlorto, masumagrandezaquesequereob-
tem,umavezououtra,comumalutaextenuante. £lesabiaque,
quandose querEcaracimada lei, secorreo grande risco de se
achar abaixo dessalei. Compreendeu porissoqueo espirito so
encontrava a suaverdadeira emancipaç¯o na aceitaç¯o de novos
deveres.O essencialdesuadescobertaconsisteemdizerque,sea
leieternan¯oealiberdade, aausência deleioeaindamenos. Se
nadaeverdadeiro, seo mundon¯otemregras, nadaeproibido.
paraproibirumaaç¯o, eeletivamenteprecisoqueha|aumvalore
umob|etivo.Aomesmotempo,nadaepermitido s¯oigualmente
necess+riosumvaloreumob|etivoparaescolherumaoutraaç¯o.
O predominioabsolutodalein¯oealiberdade,mastambemn¯oo
eadisponibilidadeabsoluta.Jodosospossiveissomadosn¯od¯oa
liberdade,masoimpossiveleescravid¯oO proprio caos tambem
eumaservid¯o.Soh+liberdadeemummundoondeoqueepos-
siveleoquen¯ooeseachamsimultaneamentedelinidos.Semlei,
n¯oh+liberdade Seodestinon¯olororientadoporumvalorsu-
perior,seoacasoerei,eisamarchaparaastrevas,aterrivelliber-
dadedoscegosAotermodamaiorliberaç¯o,Þietzscheacabapor
escolheradependênciatotal "Sen¯olizermosdamortedeIeus
umagrande renúnciaeuma perpetuavitoria sobre nos mesmos,
teremos que pagar por essa perda. " £m outras palavras, com
Þietzschearevoltadesembocanaascese Imalogicamaispro-
lundasubstitui,ent¯o,o"senadaeverdadeiro,tudoepermitido"
deKaramazovporum "senadaeverdadeiro,nadaepermitido".
Þegarqueumaúnicacoisase|aproibidanestemundoeomesmo
querenunciaraoqueepermitidoQuando|+n¯oseconseguedi-
zer o que e preto e o que ebranco, aluz se apaga e a liberdade
torna-seumapris¯ovolunt+ria.
92
O HOMEM REVOLTADO
Ide-sedizerqueÞietzscheseatira,comumaespeciedeale-
I i terrivel, ao impasse ao qual ele leva metodicamente o seu
t l i i l i smo. Seuob|etivoconlessoetornarinsustent+velasituaç¯ode
JI I S contemporaneos.Iara ele, aúnicaesperançapareceserche-
/ 1 1 1' ao extremodacontradiç¯o.Seohomemn¯oquiserperecernas
" i n .aldadesqueosulocam,ser+precisoqueasdeslaçadeumso
1 ol pe, criandoosseuspropriosvalores AmortedeIeusn¯od+
1 1 : 1 0a porterminadoesopodeservividacomacondiç¯odeprepa-
1' 1r amaressurreiç¯o. "Quando n¯o se encontra a grandeza em
I kus", dizÞietzsche, "elan¯o e encontrada emlugaralgum, e
pn.: |soneg+-laoucri+-la" Þeg+-la eraatareladomundo que o
.·. .ava e que elevia correr para o suicidio. Cri+-la loi a tarela
'.e-humanapelaqualsedispêsamorrer.£lesabia,naverdade,
' I ' ' a criaç¯osoepossivelnoextremodasolid¯oequeohomemso
ll' ,apenharianessevertiginosoeslorço,se,namaisextremamise-
Í i 1 1 do espirito, tivesse que consentir nesse gesto ou morrer.
N i .zschelhegritaent¯oqueaterraeasuaúnicaverdade, aqual
t' ¸|ecisoserEel,naqualeprecisovivere buscar asuasalvaç¯o.
\+sensina-lhe,aomesmotempo,queeimpossivelviveremuma
l t' I Ta semlei,porqueviversupõe|ustamenteumalei.Comoviver
l i vre esemlei` O homemdeve, sob penademorte, respondera
t'Htl enigma
Nietzschepelomenosn¯oselurtaaisso. £lerespondeesua
Í •s¸ostaest+norisco.Iamoclesnuncadançoumelhordoquesob
11 .s¸ada.É precisoaceitaroinaceit+velemanter-senoinsustent+-
vel . Apartirdomomentoemquesereconhecequeomundon¯o
¸` ege nenhum Em, Þietzsche propõe-seaadmitira suaino-
Í +cia,aaErmarqueelen¯oaceita|ulgamentos,|+quen¯osepode
, !g+-lo quanto anenhumaintenç¯o,substituindo, conseqüente-
+te,todosos|uizosdevalorporumúnicosim,umaades¯ototal
xaltadaaestemundoIessalorma,dodesesperoabsolutobro-
l n r'Í aalegriainlinita,daservid¯ocega,aliberdadesempiedade.
93
ALBERT CAMUS
Serlivre e|ustamenteabolirosEns. Ainocênciado devir, desde
quese concorde comisso, representao m+ximo deliberdade. O
espiritolivreamaoqueenecess+rio. O pensamentoprolundode
Þietzscheequeanecessidadedoslenêmenos, se eabsoluta,sem
E ssuras,n¯oimplicanenhumaespeciedecoerç¯o.Aades¯ototala
umanecessidadetotal -estaeasuadeEniç¯oparadoxaldeliber-
dadeApergunta"livredequê`"esubstituidapor"¦ivreparaquê`".
Aliberdadecoincidecomoheroismo£laeoascetismodogrande
homem, "oarcomaisesticadoqueexiste" .
£ssaaprovaç¯osuperior, nascidadaabundanciaedaplenitu-
de,eaaErmaç¯osemrestriçõesdoproprioerroedosolrimento,
doma¦edoassassinato,detudoqueaexistênciatemdeprob¦em+-
ticoedeestranho£lanascedeumavontadedeterminadadesero
que se e, em um mundo que se|ao que e¦e e. "Considerar a si
proprio como uma latalidade n¯o e lazer-se dilerente do que se
e . " ApalavraepronunciadaAascesenietzschiana,partindodo
reconhecimentodalatalidade,levaaumadivinizaç¯odalatalida-
deQt.antomaisimp¦ac+ve¦lorodestino,maisdignodeadoraç¯o
e¦e se torna O deus moral, a piedade, o amors¯o outros tantos
inimigosdalatalidadequeelestentamcompensar. Þietzschen¯o
querredenç¯o Aalegriadodevireaalegriadaaniquilaç¯o.Nas
soo individuo edestroçado O movimento derevolta, noqualo
homem reivindicavao seu proprio ser, desaparece na submiss¯o
absolutadoindividuoaodevir O amor fati substituioqueeraum
odium fati. "Jodoindividuocolaboracomtodoosercosmico,quer
sesaibaoun¯odisso, quersequeiraoun¯o."O individuoperde-
se,assim,nodestinodaespecieenoeternomovimentodosmun-
dos. "Judooqueloieeterno,omardevolve-oabeiradapraia "
Þietzscheretoraasorigensdopensamento,aospre-socr+ticos.
£stessuprimiamascausasEnaisparadeixarintactaaeternidade
dosprincipiosqueelesimaginavam. Soeeternaalorçasemob|e-
tivo,o"|ogo"deHer+c¦itoJodooeslorçodeÞietzscheenosen-
94
O HOMEM REVOLTADO
I i do dedemonstrarapresençadas¦eisnodeviredo|ogonaneces-
-i 1ade. ^criançaeinocênciaeesquecimento,umrecomeço,um
,¡o,umarodaquegiraporsiso,umprimeiromovimento,odom
- ¡ado de dizersim "O mundo edivino porque elortuito.Ior
���o,soaarte, porserigualmentelortuita,e capaz deentendê-lo.
N ahum|ulgamentoexplicaomundo,masaartepodenosensinar
11 eproduzi-lo, assim como o mundo se reproduz ao longo dos
¬ornoseternosNamesmabeiradepraia,omarprimordialrepe-
le · +cansavelmente as mesmas palavras ere|eitaos mesmos seres
··�¸antadoscomavida. Nasaquelequepelomenosconsenteem
1 · u proprioretornoenoretornodetodasascoisas,queselazecoe
Í` oexa¦tado, participadadivindadedomundo
AdivindadedohomemacabaseintroduzindoporesseviesO
Í .oltadoque,noprincipio,negaIeus,visaemseguidasubstitui-
h Nas a mensagem deÞietzschee que o revoltado sosetorna
|.usaorenunciaratodarevolta,mesmoaqueproduzosdeuses
¸ ·aa corrigir este mundo "Se existe um Ieus, como suportar o
l i t to den¯osê-lo`"¡+,naverdade,umIeus,queeomundo.Iara
¸ ·aticipardesuadivindade,bastadizersim"Þ¯orezarmais,mas
1a:abênç¯o", eaterrasecobrir+dehomens-deuses.Iizersimao
+ando, reproduzi-lo, e ao mesmo tempo recriar o mundoe a si
¸oprio, e tornar-se ogrande artista, o criador. A mensagem de
`· etzscheresume-se na palavra criaç¯o, como sentido ambiguo
_ +eelaassumiu.Þietzschesoexaltouoegoismoeainsensibilida-
de propriosdetodocriador Atransmutaç¯odosvalores consiste
�oaenteemsubstituirovalordo|uizpelodocriador.orespeitoe
a ¡aix¯o pelo queexiste. A divindadesem imortalidade deEne a
oerdadedocriadorIionisio,deusdaterra,urraeternamenteno
1esmembramento.Naselerepresentaaomesmotempoessabele-
za perturbadaquecoincidecomador.Nietzschepensouquedizer
sim aterraeaIionisioeradizersimaseuspropriossolrimentos
1udoaceitar,asuprema contradiç¯oeadorao mesmotempo,era
95
ALBERT CAMUS
reinarsobretudo.Þietzscheaceitavapagaropreçoporessereino.
So a "terra seria e doente" everdadeira. So ela e divindade. Ia
mesmalormaque£mpedocles,queseatiravano£tnaparairbus-
caraverdadeondeelaest+,nasentranhasdaterra,Þietzschepro-
punhaaohomemmergu¦harnocosmos,aEmdereencontrarasua
divindadeeternaetornar-seeleproprioIionisio Vntade de poder
termina, assim como os Pensamentos de Iascal, que tanto nos
relembra,comumaaposta.O homemn¯oobtemaindaacerteza,
masapenasavontadedecerteza,o que n¯oeamesma coisa Ie
modo idêntico, Þietzsche hesitava nesse extremo "£is o que e
imperdo+velemtiJensospodereseterecusasaassinar" Iogo,
ele teve que assinar. Nas o nome de Iionisio soimortalizouos
bilhetesaAriane,queeleescreveuquandoEcoulouco.
£mcertosentido,arevoltaemÞietzschelevouaindaaexaltaç¯o
domal.Adilerençaequeomal|+n¯oeumavingança.£leeaceito
comoumdosaspectospossiveisdobeme,commuitomaisconvic-
ç¯o, comoumalatalidadeIortanto, elee considerado comoalgo
ultrapassadoe, porassimdizer, comoum remedio Þamentede
Nietzschetratava-seapenasdoconsentimentoorgulhosodaalma
diantedoinevit+velÞoentanto,conhecem-seasuaposteridadee
otipodepoliticaqueiaserautorizadopelohomemquesediziao
último alem¯o antipolitico £leimaginavatiranosartistas. Nasa
tiraniaemaisnaturaldoqueaarteparaosmediocres '^ntesCesar
IorgiaqueIarsilal",exclamavaele.£leteveambos,CesareIorgia,
masprivadosdaaristocraciadocoraç¯oqueeleatribuiaaosgran-
deshomensdoRenascimento.Ao pedir queoindividuoseincli-
nassediantedaeternidadedaespecieemergalhassenograndeci-
clo do tempo, lizeram daraçauma particularidade da especie e
obrigaram oindividuoacurvar-se diante desse deus sordido. A
vida,daqua¦lalavacomtemoretremor,loidegradadaaumabio-
logiaparauso domestico. Imaraça de senhores incultos, ainda
96
O HOMEM REVOLTADO
h 1oaciandoavontadedepoder, encarregou-se,ent¯o,da"delor-
+.dadeanti-semita", queelenuncadeixoudedesprezar
Iletinhaacreditado na coragemunidaainte¦igência,e loia
iHso que chamou de lorça £m seu nome, colocou-se a coragem
t 'ontra ainteligência,eessavirtudequeloirealmenteadeletrans-
. a+ou-senoseucontr+rio.aviolênciacega.£letinhaconlundido
' '�|dadecom solid¯o,de acordo comaleideumespiritoaltivo.
¬++"solid¯o protnda do meio-dia e da meia-noite" perdeu-se,
.· |.etanto,nasmultidõesmecanizadasquelinalmentesemu¦tipli-
.+.amna£uropa. Iartid+rio dogostocl+ssico, daironia, da im-
p tinência lrugal, aristocrata que soube dizerque a aristocracia
. o+sisteempraticaravirtudesem seperguntarporquê,equese
\kve duvidardeumhomemquetivessenecessidadederazõespara
honesto, obcecado pela integridade¸"essaintegridade que se
o¬ouuminstinto,umapaix¯o"), servidorobstinadodessa"eqüi-
1+Je suprema da suprema inteligência, que tem como inimigo
.o:talolanatismo", trintaetrêsanosaposasuamorteloiconside-
1oporseupropriopaisumprolessordamentiraedaviolência,
o·andodetest+veis asnoções evirtudesqueoseusacriliciotor-
nara admir+veisÞahistoriadainteligência,comexceç¯odeNarx,
H +venturadeÞietzschen¯otemequivalente,|amais conseguire-
osrepararain|ustiçaquelheloileita.Semdúvida,conhecem-se
' i ' osolias queloramtraduzidas,etraidas, nodecursodahistoria.
\as, ateÞietzscheeonaciona¦socialismo,n¯ohaviaexemplode
q
ue todo um pensamento, iluminado pela nobreza e pelo solri-
+entodeumaa¦maexcepciona¦,tivessesidoilustradoaosolhosdo
+ando por um desEle dementiras e pelo terrivel amontoado de
.aJ+veresdoscamposdeconcentraç¯o
Adoutrinadosuper-homemlevandoalabricaç¯ometodicade
s.. bomens,eiso latoquedeve,semdúvida,serdenunciado, mas
_aetambem exigeumainterpretaç¯o.SeoEmúltimodogrande
+ovimento de revolta dos seculos XIX e XX devia ser o |ugo
97
ALBERT CAMUS
impiedoso,n¯oseriaent¯onecess+riodarascostasarevoltaereto-
marogritodesesperadodeÞietzscheemsuaepoca. "Ninhacons-
ciênciaeasuan¯os¯omaisamesmaconsciência "`
Reconheçamosemprimeirolugarqueser+sempreimpossivel
conlundirÞietzschecomRosenberg Ievemos seradvogadosde
delesadeÞietzsche£lepropriooaErmou,aodenunciar, anteci-
padamente,asuadescendênciaimpura "aque¦equeliberouoes-
piritodeveaindapurilcar-se"Nasaquest¯oedescobrirsealibe-
raç¯odoespirito,talcomoaconcebia,n¯oexcluiaapuriEcaç¯oÒ
propriomovimentoqueculminoucomÞietzsche,equeosusten-
ta,temassuasleiseasualogica,quetalvezexpliquemasangrenta
desEguraç¯o que seintigiua suaElosola Þ¯o haver+nadaem
suaobraquepossaserutilizadonosentidodoassassinatodeliniti-
vo` Òsmatadores,desdeque negassemoespiritoemlavordale-
tra,eatemesmoaquiloquenaletracontinuasendoespirito,n¯o
poderiam encontrar os seuspretextos em Þietzsche`A resposta
devesersimApartirdomomentoemquesenegligenciaoaspecto
metodicodopensamentonietzschiano¸en¯oecertoqueelemes-
mootenhasempreobservado),asualogicarevoltadan¯oconhece
maislimites
Ieve-se observar, da mesma lorma, que n¯o e na recusa
nietzschianadosidolosqueoassassinatoencontrasua|ustiEcaç¯o,
mas naades¯oapaixonadaque coroaaobradeÞietzsche. Judo
aceitar pressupõe aceitar o assassinato Ali+s, h+ dois modos de
consentirnoassassinato Seoescravodizsimatudo,eleaceitaa
existência do senhore do seu proprio solrimento,]esus ensina a
n¯o-resistência Seosenhordizsimatudo,eleconsentenaescra-
vid¯oenosolrimentodosoutros, eis otiranoe ag¦orilicaç¯odo
assassinato "Þ¯oeridiculoacreditaremumaleisagrada,inque-
brant+vel,n¯omentir+s,n¯omatar+s,emumaexistênciacu|aca-
racteristicaeamentiraperpetua,o assassinatoperpetuo`" Certa-
mente,earevoltametalisicaemseuprimeiromovimentoeraape-
98
O HOMEM REVOLTADO
aso protestocontra a mentira e o crime da existência. Ò sim
· ezschiano,esquecidodon¯ooriginal,renegaapropriarevolta,
Í Ì I mesmotempoemquerenegaamoralqueserecusaaaceitaro
aadocomoelee.ÞietzscheclamavaporumCesarromanocom
H +lmadoCristo£msuamente,issoera,aomesmotempo,dizer
Hi m aoescravoeaosenhor Nas,alnal,dizersimaambossigniE-
H tornar sagrado o mais torte dos dois, isto e, o senhor Cesar
1.vialatalmenterenunciaradominaç¯odoespiritoalimdeesco-
' +eroreinodolato "Comotirarpartidodocrime`", indagava-se
` |etzsche,comobomprotessorlielaseumetodo Ò Cesardevia
.sponder.multiplicando-o "Quandooslns s¯ograndes",escre-
·.a Þietzsche, emdetrimento de si mesmo, "a humanidadeusa
u aoutramedidaen¯o|ulgaocrimecomotal,mesmorecorren-
do aosmeiosmaisterriveis "Þietzschemorreueml 900, noinicio
1oseculoemqueessapretens¯oiatornar-semortal£mv¯oexcla-
+ounahoradalucidez. "É l+cillalardetodasasespeciesdeatos
orais,masteremosalorçadesuport+-los`Iorexemplo,eun¯o
oaseguiriasuportarlaltarcomaminhapalavraoumatar,euper-
s stiria,maisoumenostempo, masmorreriaporisso, esteseriao
+eudestino "Apartirdoinstanteemqueeradadooassentimento
: .otalidadedaexperiênciahumana,podiamsurgiroutrosque,longe
1cresistirem, selortaleceriamnamentiraenoassassinato.Ares-
¸onsabilidade de Þietzsche est+ no lato de ter legitimado, por
+otivos superiores de metodo, mesmoque porum instante, no
+eiodopensamento,essedireitoadesonra,doqualIostoievski |+
' |ziaque,selosseolerecidoaoshomens,poder-se-iaestarsempre
ertodevê-loscorreremeaeleselançaremNasasuaresponsabi-
' . dadeinvolunt+riavaiaindamaislonge
Þietzscheeeletivamenteoqueelereconheciaser.aconsciên-
amaisagudadoniilismoÒpassodecisivoqueelelazoespirito
de revoltadarconsisteemlazê-losaltardanegaç¯odoidealasecu-
mrizaç¯odoideal]+queasalvaç¯odohomemn¯oserealizaem
99
ALBERT CAMUS
Ieus,eladevelazer-senaterra.]+queomundon¯otemrumo,o
homem, a partir do momento emque o aceita, deve dar-lhe um
rumo,queculmineemumtiposuperiordehumanidade.Þietzsche
reivindicava o rumo do luturo humano ^ tarela degovernar a
terravai derrotar-nos. " L ainda. '^proxima-se o tempo emque
ser+necess+riolutarpelodominiodaterra,eessalutaser+travada
emnomedosprincipiosElosoEcos. "LleanunciavaoseculoXX
Nas,seoanunciava,equeestavaalertadoparaalogicainteriordo
niilismoesabiaqueumadesuasconseqüênciaseraoimperio.Ior
issomesmo,elepreparavaesseimperio.
LxisteliberdadeparaohomemsemIeus,talcomoimagina-
doporÞietzsche,istoe,ohomemsolit+rioH+liberdadeaomeio-
dia,quandoarodado mundop+raeo homemaceitatudooque
existe.Nasoqueexistevemaser."
¿
precisodizersimaodevir. "
Aluzacabapassando,oeixododiadeclina.Lnt¯oahistoriareco-
meça,e,nahistoria,eprecisoprocuraraliberdade,eprecisodizer
simahistoria.Ònietzschismo,teoriadavontadedepoderindivi-
dual,estavacondenadoainscrever-se numavontadedepoderto-
tal.Llenadaerasemoimperiodomundo.Semdúvida,Þietzsche
odiavaoslivres-pensadoreseoshumanit+rios. Lleutilizavaaex-
press¯o "liberdade do espirito" em seu sentido mais extremo. a
divindadedoespiritoindividual. Nas elen¯o podia impedirque
oslivres-pensadorespartissemdomesmolatohistoricoqueele
a morte de Ieus - e que as conseqüências lossem as mesmas.
Þietzscheviuqueohumanitarismoeletivamentenadamaiserado
queumcristianismoprivadode|ustiEcaç¯osuperior,quepreser-
vava as causaslìnaisre|eitandoacausaprimeira. Naselen¯ose
deucontadequeasdoutrinasdeemancipaç¯osocialista,poruma
logicainevit+veldoniilismo,deviamtomaracargoaquilocomque
elepropriohaviasonhado -asuper-humanidade.
Alìlosolìasecularizao ideal. Nas chegam ostiranose logo
secularizamasElosoEasquelhesd¯oessedireito.Þietzsche|+ti-
1 00
O HOMEM REVOLTADO
+haadivinhadoessacolonizaç¯oapropositodeHegel,cu¡aorigr-
+alidade,segundo ele,loiinventarumpanteismo,emqueomal,o
.|roeosolrimenton¯opoderiammaisservirdeargumentocontra
a divindade. "Naso Lstado, ospoderes estabelecidos seutiliza-
am imediatamente dessa iniciativa grandiosa. " Þo entanto, ele
¸|opriohaviaimaginado um sistema em que o crime n¯o podia
aaisservirdeargumentocontranadaecu|oúnicovalorresidiana
Jivindadedohomem.Lssainiciativagrandiosaexigiatambemser
atilizada. A esse respeito, o nacionalsocialismoeapenasumher-
deirotransitorio,adecorrênciairadaeespetaculardoniilismo.Ie
outromodo,logicoseambiciosos ser¯o todos aqueles que, corri-
gindoÞietzschecomaa|udadeNarx, escolher¯odizersimape-
+asahistoria,en¯omaisacriaç¯ocomoumtodo. Òrebeldeque
°ietzschelaziaa|oelhar-sediantedocosmospassar+aa|oelhar-se
1iantedahistoria.Queh+deespantosonissor Þietzsche,pelomenos
emsuateoriadasuper-humanidade,eantesdele Narx, comasua
sociedade sem classes,substituemambosoalem pelo maistarde.
Nisso,Þietzschetraiaosgregoseosensinamentosde]esus,que,
segundoele,substituiamoalempcoimediatamente.Narx,assim
comoÞietzsche,pensavaemtermosestrategicose,comoÞietzsche,
odiavaavirtudelormal.Ambasasrevoltas,queacabamigualmen-
tepelaades¯o aumcerto aspecto darealidade,v¯olundir-se no
marxismo-leninismo, encarnando-se na casta, daqualÞietzsche
|+lalava,quedevia "substituiro padre,oeducador,omedico" .A
dilerençaessencia¦equeÞietzsche,enquantoesperavapelosuper-
homem, propunha-sea dizer simatudoo que exrste, e Narx, a
tudooquevemaser.IaraNarx,anaturezaeaquiloquesesub|u-
gaparaobedecerahistoria,paraÞietzsche,aquiloaqueseobede-
ceparasub|ugarahistoria.
¿
adilerençaentreocrist¯oeogrego.
Þietzsche, ao menos, previu o que iaacontecer. "Ò socialismo
modernotende acriarumalormade|esuitismosecular, atornar
todososhomensinstrumentos" ,eainda. ''^quiloquesedese|aeo
1 0 1
ALBERT CAMUS
bem-estar . £mdecorrência,caminha-serumoaumaescravid¯o
espiritualcomonuncaseviuantes. Òcesarismointelectualpaira
acimadetodaaatividadedoshomensdenegocioedosElosolos. "
ColocadanocrisoldaElosolianietzschiana,arevolta,emsualou-
curadeliberdade,culminanocesarismobiologicoouhistorico. Ò
n¯oabsolutolevaraStirneradivinizarsimultaneamenteocrimee
oindividuo Nasosimabsolutoacabauniversalizandooassassi-
natoeopropriohomemaomesmotempoÒmarxismo-leninismo
realmenteaceitouoênusdavontadedeNietzsche,medianteo des-
conhecimentodealgumasvirtudesnietzschianasÒgranderebel-
decria,ent¯o,comaspropriasm¯os,paraneleseconEnar, oreino
implac+veldanecessidadeJendoescapadodapris¯odeIeus,sua
primeirapreocupaç¯oser+adeconstruirapris¯odahistoriaeda
raz¯o,completandoassrmoescamoteamentoeaconsagraç¯odes-
seniilismoqueNietzschepretendeudominar
1 02
A
j
Ò£SIA
[
£\ÒIJAIA
Se arevoltametalisicarecusaosim,limitando-seanegardemodo
osoluto,elasedestinaaparecerSecainaadoraç¯odoqueexiste,
cnunciando a contestar uma parte da realidade, obriga-se mais
edooumaistardeaagir £ntreume outro, IvanKaramazovre-
¸|esenta,masnumsentidodoloroso,o laisser-aire. Apoesiarevol-
. aua,noE mdoseculoXIXenoiniciodoseculoXX,osciloucons-
.antementeentreestes doisextremos . a literaturae avontadede
¸oder, oirracionaleoracional,o sonhodesesperadoeaaç¯oim-
i lac+vel Ior uma última vez, esses poetas, e sobretudo os
sarrealistas,iluminamparanoso caminhoquevaido parecerao
agir,atravesdeumatalho espetacular.
HawthornechegouaescreversobreNelvilleque,incredulo,
a¯osabialicaravontadenadescrença.Iamesmalorma,epos-
siveldizersobreessespoetasqueinvestemcontraosceusque,ao
dese|aremtudodemolir,aErmaramaomesmotemposuanostal-
giadesesperada por uma ordem. Ior uma contradiç¯o última,
elesquiseramextrairraz¯odadesraz¯oelazerdoirracionalum
aetodo. £sses grandes herdeiros do romantismo pretenderam
tornar a poesia exemplar e encontrar, no que elatinha demais
dilacerante,averdadeiravida Iivinizarama blaslêmiaetrans-
1 03
ALBERT CAMUS
lormarama poesi-emexperiênciaemeiodeaç¯oAteent¯o,n-
verdade,aquelesquetinhampretendidoinluenciaros-conteci-
mentose os lomens, pelomenosnoÒcidente,tinh-mleitoisso
emnomedcregr-sracion-isÒsurre-lismo,pe¦ocontr+rio,de-
pois de Ri¤baud, quis encontrar n- demência e na subvers¯o
regras de construç¯o Rimbaud, atraves desua obr- e somente
atraves dela, tinh--pontadoo caminho, m-sdamaneiralulgu-
r-nte com que o relampago ilumina abeir-de um c-minho Ò
surrealismo abriu esse c-minho e codiEcou o seu ba¦izamento
Janto porsuas exorbitanciasquantoporseusrecuos, ele deu a
últim-esuntuos-express¯oaumateoriapr+tic-darevolta irr--
cional,noprópriomomentoemque,poroutroscaminhos,open-
samento r·volt-do criava o culto da raz¯o absolut- Seus
inspiradores,IautreamonteRimbaud, nosensinamemtodocaso
porquevi-sodese|oirr-cionaldeparecerpodelevarorevoltado
aslormas maisliberticidasd-aç¯o
Lautréamont e a Banalidade
I-utreamontdemonstraqueodese|odep-recerEcat-mbemes-
c-moteado,nocasodorevolt-do,pelavontadedebanalidade.£m
ambososc-sos, crescendoousereb-ixando,orevolt-doquerser
algoquen¯oe,mesmoqu-ndosetenh-insurgido,p-raserreco-
nhecidoemseuverd-deiroser.Asblaslêmi-seoconlormismode
I-utreamontilustr-migaalmenteessainlelizcontradiç¯oqueno
seucasoresolve-senavontadeden¯o sernada Ionge de haver
nissopalinodia,comogeralmente sepensa,-aesm-lúriadeani-
1 04
O HOMEM REVOLTADO
! 1 + |l-ç¯oexplicaoapelodeNaldororagrandenoiteprimitivaeas
I · .a¦id-des laborios-s dasPoésies.
Com Iautreamont,compreende-sequearevolt-eadolescen-
l e. Nossosgrandesterroristas dabombaedapoesiamalsaemda
. mncia ÒsChants de Maldoror (Cantos de Maldoror) s¯oobrade
+ +estudantequasegenial,oseuaspectopateticosurge|ustamen-
IC dascontradiçcesdeumcoraç¯odecri-nçavolt-docontr-acri-
ç¯o econtra simesmo ComooRimbauddasI  uminations (Ilu­
minações) , lançadocontraoslimitesdo mundo, opoet-prelereE-
car comoapocalipseeadestruiç¯oaaceitararegraimpossivelque
o l-zseroquee,nummundo comoe¦ee
�presento-meparadelenderohomem",dizIautreamont,sem
s| mp¦icid-de. N-¦doror ser+, ent¯o, o an|o da pied-de` Sim, de
.ertalorma,aoterpiedadedesimesmo.Iorquê`Isso-ind-est+
¸ara ser descoberto. Nas a piedade desiludid-, ultra| ada,
· nconless+vel e inconlessa, lev+-lo-+ a extremos singulares
M-ldoror, segundoosseus proprios termos, -ceitou-vid-como
ama lerida, proibindo o suicidio de curar - cic-triz (sic ). Como
Rimbaud,elee-quelequesolreequeserevoltou,m-s,aorecu-r
misterios-mentepar-n¯oterquedizerqueserevolt-contraoque
elee,eleantecip-oeterno+libidorevolt-do.oamorpelahumani-
dade.
Simplesmente, -quele que seapresentapar-delender o ho-
memescreveaomesmotempo. "`ostre-meumhomemquese¡-
bom "£ssemovimentoperpetuoeod-revolt-niilistaRevo¦tamo-
noscontraain|ustiçaleitaanosmesmoseahum-nidadeNas,no
instantedelucidezemquesepercebesimu¦taneamente-legitimi-
dadedessarevo¦taesu-impotência,olurordanegaç¯o-c-bapor
seestender|ust-menteaquiloquesepretendiadelender.Þ¯ocon-
seguindorepar-r-in|ustiç-pel-ediEc-ç¯oda|ustiça, prelere-se,
pe¦o menos, -log+-laemumain|ustiç- -inda m-is gener-lizad-,
queEnalmenteseconlunde com--niquilaç¯o. "Òmalquevocê
1 05
ALBERT CAMUS
me lez egrandedemais, e egrandedemais o malqueeu lheEz
paraquese|avolunt+rio "Iara n¯osedetestarasiproprio,seria
necess+riodeclarar-seinocente,aud+ciasempreimpossivelaoho-
memso,seuimpedimentoequeeleseconhece.Iode-se,pelome-
nos,declararquetodoss¯oinocentes,emborase| amtratadoscomo
culpados Þestecaso,Ieuseocriminoso.
Iosromanticos a Iautreamont, n¯oh+portanto progressos
reais,an¯osernaintex¯oIautreamontressuscitaumavezmais
1
comalgunsaperleiçoamentos,aEguradoIeusdeAbra¯oeaima-
gemdorebe¦delucilerino £lecolocaIeus "emumtronoleitode
excrementos humanos e de ouro", onde est+ sentado, "com um
orgu¦hoidiota,o corporecobertocomumamortalhaleitadelen-
çoissu|os, aquelequeseauto-intitulaoCriador" Òhorrivel£ter-
" d b " " b d
d " " no, comcara evi ora , o an 1 oesperto ,quevemos provo-
carincêndiosemquemorremve¦hosecrianças", rola,bêbado,na
sar|etaouvaiprocurarnobordelprazeresignobeisIeusn¯oest+
morto, mas loi destronado Iiante da divindade derrotada
1
Naldorore pintado como um cavaleiro convencional de manto
negro£leeoNaldito"Òsolhosn¯odevemtestemunharaleiúra
queoSersupremo,comum sorrisodeodiopoderoso,meconce-
deu "£¦etudorenegou,"pai,m¯e,Irovidência,amor,ideal,aEm
de so pensarem si proprio". Jorturado pelo orgulho, esse heroi
temtodasasilusõesdodandimetalsico "Imrostomaisdoque
humano,tristecomoouniverso,be¦ocomoosuicidio "Iamesma
lorma,comoorevo¦tadoromantico,semesperançana|ustiçadivi-
na, Na¦dorortomar+ o partido domal Iazersolrere com isso
1 1
solrer, esseeopro|eto ÒsChants s¯overdadeiraslitaniasdomal
Þessemomentodecisivo,n¯osedelendemaisacnatura.Nuito
pelocontr+rio, "atacar, portodososmeios,o homem, esse animal
selvagem,eocriador . " -esseeopropositoanunciadonosChants.
Ierturbadopelopensamentode ter Ieuscomoinimigo,embria-
gadocomapoderosasolid¯odosgrandescriminosos¸ "soeucon-
1 06
O HOMEM REVOLTADO
l l': t a humanidade"), Naldororvailançar-secontra acriaç¯o e o
I ´ Ì autor Òs Chants exaltam "asantidade do crime", anunciam
1 1 1 1 1 a seriecrescentede"crimesgloriosos", eaestrole20 docanto
l i · aauguraate mesmoumaverdadeirapedagogiadocrimee da
·· o|ência.
Imardort¯obelo,nessaepoca,econvencional,n¯ocustanada.
/\ .erdadeiraoriginalidadedeIautreamontn¯oresidenisso ' ª Òs
·aanticos sustentavam com precauç¯o a oposiç¯o latal entre a
·| |d¯ohumanaeaindilerençadivina,sendoexpressõesliter+rias
\'ssasolid¯oocasteloisoladoeodandiNasaobradeIautreamont
. 1adeum dramamaisprolundo.Iarece,eletivamente, queessa
so' id¯olheerainsuport+veleque,insurgindo-secontraacriaç¯o,
· ! e tenhadese|adodestruirosseuslimites.Iongedeprocurarre-
' i.çaroreinohumanocomtorresarmadas,elequiscontndirto-
'ososreinos Iezacriaç¯oremontaraosmaresprimitivosemque
a :ora¦ perde o seu sentido ao mesmo tempo em que todos os
¸roblemas,entreosquais,segandoeleomaisassustador,odaimor-
|alidadedaalma.£len¯oquisconstruirumaimagemespetacular
dorebelde ou do dandi diante da criaç¯o, mas sim conlundiro
aomem eomundonamesmaaniquilaç¯o. Investiucontraapro-
¸rialronteiraqueseparaohomemdouniversoAliberdadetotal,
a do crime emparticular, implicaadestruiç¯odas lronteiras hu-
aanas Þ¯obastalançaraexecraç¯otodos oshomenseasipro-
¡rioÉ precisoaindalazeroreinohumanoremontaraoniveldos
reinos do instinto £ncontra-se em Iautreamont essarecusa da
consciência racional, esse retorno ao elementar, que e uma das
marcasdascivilizaçõesemrevoltacontrasimesmasÞ¯osetrata
maisdeparecer,porumeslorçoobstinadodaconsciência,massim
den¯omaisexistircomoconsciência.
'BEla faz a diferença entre o canto I, publicado em separado, de um byronismo bastante banal, e
os cantos seguintes, em que resplandece a retórica monstruosa. Maurice Blanchot observou a
importância desse corte.
ALBERT CAMUS
JodasascriaturasdosChants s¯oanlibias, porque ^aldoror
recusaaterraesuaslimitações.Aloraeleitadealgasedesargaços.
Ò castelode NaldororEcasobre as +guas. Suap+tria é ovelho
oceano. Ò oceano, simbolo duplo, e simultaneamente o lugarde
aniquilaç¯oedereconciliaç¯o.£lesaciaaseumodoarntensasede
dasalmasladadasaodesprezoporsimesmasepelosoutros,asede
den¯omaisexistir. ÒsChants seriamdestemodoasnossasMeta­
morfses, em que o sorriso antigo e substituido pelo riso de uma
bocadecontornosnitidos,imagemdeumhumormriosoeiosnante.
£ssebesti+rion¯oconsegueescondertodosossentrdosquesequis
neleencontrar,masrevela,pelomenos,umavontade de aniquila-
ç¯o que tem sua origem no amago mais obscuro da revolta. Ò
"emburreçam-se"pascalranoassume,comIautreamont, umsen-
tidoliteralIarecequeelen¯oconseguiusuportaralriaermplac+-
velclaridadeemqueeprecisodurarparaviver. "Ninhasub|etivi-
dade eumc
¡
iador,issoedemaisparaum cerebro. "£leent¯ore-
solveureduziravida, e sua obra, ao lulgurantenado dasepiano
meio de uma nuvem de tinta Ò belo trecho em que ^aldoror
copula,emalto-mar, comalêmeadotubar¯o, "umacópulalonga,
casta e medonha", e sobretudo o relato signilicativo em que
Naldoror,translormadoempolvo,atacaoCriadors¯o expressões
clarasdeumaevas¯o loradaslronteirasdoseredeun atentado
convulsrvocontraasleisdanatureza.
Aqueles quesevêembanidos dap+trraharmonrosa, naqual
|ustiçaepaix¯oEnalmenteseequilibram,preleremaindaasolid¯o
aosreinosamargosemqueaspalavras n¯otêmmais s entido,em
quereinamalorçaeoinstintodecriaturascegas.£ssedesaEoeao
mesmo tempo uma mortiEcaç¯o A lutacomo an|o do canto li
terminacomaderrotaeoapodrecimentodoan|o. Ceueterrator-
namadespencarnosabismosliquidosdavidaprimordial , comos
quaisseconlundem Iessalorma, o homem-tubar¯o dos Chants
"so tinhaconseguido anova mudançadas extremidades de seus
O HOMEM REVOLTADO
o|açosedesuaspernascomocastigoexpratorroporalgumcrrme
Jesconhecido". H+comelertoumcrrmeouailus¯odeumcrime
, seria a homossexualidade `) nessa vida mal conhecida de
|autreamont. Þenhum leitor dos Chants podedeixarde pensar
qaelaltaaesselivroumaConfssão de Stavroguin.
ÞalaltadeconE ss¯o,eprecisovernasPoésies oredobramento
|.ssamisteriosavontadedeexpiaç¯o.Òmovimentoproprioacer-
aslormasderevolta,queconsiste, comoveremos,emrestaurara
az¯oao termo daaventurairracional, emreencontraraordema
'orça de desordem e em acorrentar-sevoluntariamente com gri-
' aõesmuitomaispesadosdoqueaquelesdequesetentoulibertar,
Jesenha-se, nessaobra, com uma tal vontade de simpliEcaç¯o e
amtalcrnrsmoquee precrso eletrvamenteque essa convers¯o te-
+haumsentido.AosChants queexaltavamon¯oabsolutosucede-
seumateoriadosimabsoluto,arevoltasemperd¯o,oconlormis-
+osemnuances Isso,nalucidez. Amelhorexplicaç¯odosChants
+osedada, naverdade,pelasPoésies. "Òdesespero,aoalimentar-
secomospreconceitosdessaslantasmagorias,conduzosliteratos
· aexoravelmentea aboliç¯oemmassadasleisdivinasesociais,ea
+aldade teoricaepr+tica. "AsPoésies denunciam tambem "acul-
¸abilidadedeumescritorquedespencapelas encostasdonadae
desprezaasipropriocomgritosalegres". Nas,paraessemal,elas
sotêmumremedro -oconlormrsmometahsico. "Seapoesiada
dúvrdachega,assim,aumtalpontodedesesperomelancolrcoede
:aldadeteorica, e porserradicalmentelalsa, simplesmentepelo
:otivodequenelasediscutemosprincipios,eosprincipiosn¯o
devemserdiscutidos. "¸CartaaIarasse.)£ssasbelasrazõesresu-
:em,portanto,amoraldomeninodecoroedomanualdeinstru-
ç¯omilitar. Nasoconlormismopode serlurioso,eporissomes-
:oinsolito Quandoseexaltouavitoriada+guiamaleEcasobreo
drag¯odaesperança,pode-serepetirobstinadamentequesosecanta
aesperança,pode-seescrever. "Comaminhavozeaminhapom-
ALBERT CAMUS
padosgrandesdias,euclamoporti,oesperançaabençoada,para
quevenhas a meu lar deserto", mas e preciso ainda convencer.
Consolar a humanidade, trat+-la como irm¯, voltar a ConIcio,
Iuda,Socrates,]esusCristo,"moralistasquepercorriamasaldeias
morrendodelome"¸oqueehistoricamenteduvidoso),s¯oainda
pro|etosdodesespero.Iessalorma,noamagodovicio,avirtudee
a vida organizada têm um cheiro de nostalgia. Isso porque
Iautreamont recusa a oraç¯o e, para ele, o Cristo e apenas um
moralista. Ò que ele propõe, ou melhor, o que elesepropõee o
agnosticismoeocumprimentododever.Imbeloprogramacomo
esse implica, desgraçadamente, a resignaç¯o, a suavidade do
entardecer, um coraç¯o sem amargura, uma retex¯o tranqüila.
Iautreamontcomovequandoescrevesubitamente "N¯oconheço
outragraçasen¯oadeternascido."Nas|+seadivinhaorangerde
dentesquandoeleacrescenta. "Imespiritoimparcialaconsidera
completa."N¯oh+espiritoimparcialdiantedavidaedamorte.Ò
revoltado,comIautreamont,logeparaodeserto.Nasessedeser-
to do conlormismo e t¯o lúgubrequanto Harrar. Ò gosto pelo
absolutoesteriliza-omais ainda,assimcomoolurordaaniquila-
ç¯o. Assim como Naldororqueriaarevoltatotal, Iautreamont,
pelasmesmasrazões,exigeabana¦idadeabsoluta.Ògritodacons-
ciênciaqueeleprocuravasulocarnooceanoprimitivo,conlundir
comosurrosdalera,que,emoutromomento,eletentavadistrair
naadoraç¯oamatem+tica,eleagoraquersulocarnaaplicaç¯o de
umtristeconlormismo.Òrevoltadotenta,ent¯o,tornar-sesurdoa
esseapeloaoserque|aztambemnotndodesuarevolta.Jrata-se
den¯omaisexistir,queraoaceitarserqualquercoisa,queraore-
cusar-se a ser qualquer coisa. '' £m ambos os casos, trata-se de
umaconvenç¯osonhadora.Abanalidadetambemeumaatitude.
Ò conlormismo e umadas tentações niilistas darevoltaque
19Da mesma forma, Fantasio quer ser este burguês de passagem.
1 1 0
O HOMEM REVOLTADO
( I :inaumagrande partedenossahistoriaintelectual. £mtodo
.

aso, ela mostra como o revoltado que passa a aç¯o, quando se
squecedesuasorigens,etentadopelomaiordosconlormismos.
' �. | aexplicaportantooseculoX. Iautreamont,geralmentelou-
.adocomoobardodarevoltapura,anuncia,muitopelocontr+rio,
I gostopelasubserviênciaintelectualquesedisseminapelonosso
+.ndo.AsPoésies nadamaiss¯o doqueo prel+ciodeum "livro
' .turo", etodosasonharcomesselivroluturo,realizaç¯oidealda
evolta liter+ria. Nas ele est+ sendo escrito ho|e, apesar de
I .autreamont, emmilhõesdeexemplares, por ordem dos gabine-
l es. Ògênio,semdúvida,n¯opodeserisoladodabanalidade.Nas
1osetratadabanalidadedosoutros,aquelaqueemv¯onospro-
¸omoscapturarequeporsuavezcapturaocriador,quandoneces-
sario, atecomaa|udadapolicia. Jrata-se,parao criador, desua
¸|opriabanalidade, todaelaainda a sercriada. Cadagênio e ao
esmotempoestranhoebanal.£lenadaser+selorapenasumou
oatro.Ieveremosnoslembrardissonoqueserelerearevolta.£la
|emosseusdandiseosseusserviçais,masn¯oreconhecenelesos
seusElhoslegitimos.
Surrealsmo e Revolução
AquitrataremosapenasdeRimbaud.Aseurespeito,tudoloidito,
e maisatedoquetudo,inlelizmente.\amosdeixarclaro,entretan-
to¸porqueissoserelacionacomonossoassunto),queRimbaudso
loio poetadarevoltaemsuaobra. Suavida,longedelegitimaro
mitoquesuscitou,ilustraapenas -umaleituraob|etivadascartas
1 1 1
ALBERT CAMUS
de Iarrarpodecomprov+-lo - umaaceitaç¯o do piorniilismo
possivel RimbaudtoideiEcado porterrenunciadoaogênio que
possuia, como seessarenúnciaimplicasseumavirtudesobre-hu-
manaLmboraissodesqualiEqueos+libisdenossoscontempora-
neos,eprecisodizeraocontr+rioquesoogênioimplicaumavirtu-
de, n¯oarenúnciaaogênio. A grandeza de Rimbaud n¯o reside
nos primeiros brados em Char¦eville nem no tr+Eco de Harrar
L¦airrompenoinstanteemque,aodararevoltaa¦inguagemmais
estranhamente|ustaqueela|amaisrecebeu,eleexpressasimulta-
neamenteoseutriunloeasuaangústra,avidaausentenomundo
eomundoinevit+vel,oapeloaoimpossivelearealidade+speraa
serabraçada, arecusadamoraleanostalgiairresistiveldodever
Þessemomento emque,trazendoemsimesmo ailuminaç¯oeo
inlerno,insu¦tandoesaudando abeleza,elelazdeumacontradi-
ç¯oirredutivelumcantoduploealternado,eleeopoetadarevolta,
e o maior de todos. A ordem em que loram concebidas as suas
duasgrandesobrasn¯otemimportanciaHouvedequalquermodo
muitopoucotempoentreasduasconcepções,etodoartistasabe,
comacertezaabsolutaquenascedaexperiênciadetodaumavida,
queRìmbaudproduziua Une saison en enfr ( Uma estada no infr­
no) easIlluminations (Iluminações) aomesmotempo.Apesardetê-
las escrito uma apos aoutra, ele as solreu no mesmo momento
Lssacontradiç¯o,queomatava,eraoseuverdadeirogênio
Nas onde est+ avirtude de qucm se desvia da contradiç¯o,
traindoopropriogênioantesdetê-losolridoateoEm`Òsilêncio
deRimbaudn¯oeparaeleumanovamaneiradeserevoltarIelo
menos,n¯opodemosmaisaErm+-lodesdeapublicaç¯odascartas
deIarrarSemdúvida,suametamorloseemisteriosa. Nastam-
bemh+misterionabanalidadequeocorreaessasbrilhantes|ovens
queo casamentotranslormaemm+quinasdemoedasoudecro-
chêÒmitoqueseconstruiuemtornodeRimbaudsupõeeaErma
quenadamaiserapossivelaposaSaison en enfr Òqueeimpossi-
1 1 2
O HOMEM REVOLTADO
v · I paraopoetacoroadodedons,ocriadorinesgot+vel ` Iepoisde
Moby Dick, O processo, Zaratustra, Os possuídos, o queimaginar`
' atretanto, depois destas, nascemaindagrandesobras, queensi-
+aaecorrigem,quedepõemalavordoqueh+demaisorgu¦hoso
no homemesoterminamcomamortedocriador Quem n¯ola-
+entariaessaobramaiordoqueaSaison, daqualumadesistência
+osprivou`
AAbissinia seria, aomenos,umconvento,loio Cristo quem
a|ouabocadeRimbaud` LsseCristo seria ent¯o aquele que se
¸avoneiaatualmentenosguichêsdosbancos,a|ulgarpelascartas
1m queopoetamalditosolalaemseudinheiro,queeledese|aver
`oemap¦icado" e"rendendodividendosregulares". ´¨Aqueleque
�xultavanossuplicios,quehaviaotendidoIeuseabeleza,quese
. :mava contra a|ustiça e a esperança, que se tortalecia no duro
aabientedocrime,querapenascasar-secom alguemque "tenha
'aturo"Òmago,ovidente,oprisioneirointrat+vel,sobreoquala
¸ris¯o semprevoltaaselechar, ohomem-reidaterrasemdeuses,
cuncadeixadecarregaroitoquilosdeouroemumcintoquelhe
¸esanoventreedoqualsequeixa,dizendoqueprovocadiarreia
Ser+ esse o heroi mitico que se propõe atantos|ovens, quen¯o
cospemnomundo,masquemorreriamdevergonhaasimplesideia
daquelecinto`Iarasustentaromito,eprecisoignoraressascartas
decisivasCompreende-sequetenhamsidot¯opoucocomentadas
S¯o sacrilegas, como as vezes tambem o e averdade Crande e
admir+ve¦poeta, o maiorde seutempo,or+culolulgurante, eiso
queeRimbaudNaselen¯oeohomem-deus,oexemploleroz,o
mongedapoesiaquenosquiseramapresentarÒhomemsovoltou
aencontrarsuagrandezanoleito dehospita¦, nahoradeumEm
dilici¦, em que ate mesmo a mediocridade da alma se torna
2

justo observar que o tomdessas cartas pode ser explicado pelos seus destinatários. Mas nelas
não se sente o esforço da mentira. Nem uma palavra pela qual o antigo Rimbaud se traísse.
1 1 3
ALBERT CAMUS
comovente. "Comosouinleliz,comosourealmenteinleliz. . ete-
nhocomigodinheiroquenemmesmopossovigiar' " Iorsorte,o
gritolancinantedessashorasdesgraçadasdevolveRimbaudaessa
parceladamedidacomumque,coincideinvoluntariamente,coma
grandeza. "Þ¯o, n¯o . . eu agora me revolto contra a morte' " Ò
| ovem Rimbaud ressuscita diante doabismo, e com ele arevolta
dessestemposemqueaimprecaç¯ocontraavidanadamaiserado
queo desespero da morte É ent¯o que o traEcante burguês se
reúne ao adolescentetorturadoque amamos comtanto carinho.
£lessereúnem noterrivel medoe nadoramarga emquelnal-
mentesereencontramoshomensquen¯osouberamcorte|araleli-
cidadeSoent¯ocomeçamasuapaix¯oeasuaverdade
Ieresto,Iarrar| +seachavarealmenteanunciadonaobra,
mas sob a lorma da abdicaç¯o lina¦. "Ò melhor, umsono bem
embriagado na praia. " A lúria daaniquilaç¯o, propria de todo
revoltado, assume a sua lorma mais comum. Ò apocalipse do
crime,talcomorepresentadoporRimbaudnoprincipequemata
incansavelmenteosseus súditos,olongodesregramento s¯ote-
mas revoltadosque os surrealistasir¯oreencontrar. Nas, linal-
mente,prevaleceodesanimoniilista, aluta,opropriocrimecan-
samasuaalmaesgotada Òvidenteque,seousamosdizer,bebia
para n¯o esquecer acaba encontrando na embriaguez o pesado
sonoqueos nossos contemporaneosbemconhecem. Iorme-se,
napraiaou em
_
den. £ aceita-se,n¯omaisativamente mas de
modopassivo,aordemdo mundo,mesmoqueessaordem se| a
degradante. Ò silênciodeRimbaudpreparatambemocaminho
paraosilênciodoImperio,quepairaacimadeespiritosresigna-
dosatudo,excetoaluta.£ssagrandealma,derepentesubmissa
ao dinheiro, anunciaoutras exigências, a principio desmesura-
das,masquedepoisir¯ocolocar-seaserviçodaspolicias. Nada
ser, eis o brado do espirito cansado desuas proprias revoltas
Jrata-seent¯odeumsuicidiodoespiritomenosrespeit+vel,al-
O HOMEM REVOLTADO
+al, doqueodossurrealistasemaiscarregadodeconsequências
O propriosurrealismo, aotermo destegrandemovimento dere-
.o¦ta,soesignilicativoporquetentoucontinuaroúnicoRimbaud
qaenoscomoveAotirardacartasobreovidente,edometodoque
�. |a pressupõe, as regras deuma ascese revoltada, elei¦ustraessa
| .taentreavontadedesereodese|odeaniquilaç¯o,entreosime
o n¯o,quereencontramosemtodososest+giosdarevo¦taIorto-
dasessasrazões, emvezderepetiroscoment+rios intermin+veis
qaecercamaobradeRimbaud,pareceprelerivelvoltaraencontr+-
'oesegui-loemseusherdeiros
|evoltaabsoluta,insubmiss¯ototal,sabotagemcomoprincipio,hu-
aorecultodoabsurdo,osurrealismo,emsuaintenç¯oprimeira,
deEne-se como o processo detudo, asersempre recomeçado. A
·ecusadetodas as determinaçõese nitida, decisiva, provocadora
`Somos especialistas da revolta." N+quina de revirar o espirito,
segundoAragon,osurrealismoselor|ouprimeiramentenomovi-
:ento "dad+", de ineg+veis origens romanticas, e no dandismo
anêmico ´'An¯o-signiEcaç¯oeacontradiç¯os¯ocultivadasporsi
¸roprias. "Òsverdadeirosdad+ss¯ocontraIadaJodomundoe
diretordeIada."Òuainda. "Òqueebom`Òqueeleio`Òquee
grande, lorte, lraco. . . Þ¯o sei' N¯o sei ' "£sses niilistas de sal¯o
estavam evidentemente ameaçados deagirem como escravos das
ortodoxiasmaisrigidasNash+nosurrealismoalgomaisdoque
esse n¯o-conlormismo de lachada, | ustamente o legado de
Rimbaud,queIretonassimresume. "Ievemosdeixarnissotoda
aesperança`"
Imgrandeapeloavidaausentearma-sedeumarecusatotal
domundopresente,comodizIreton,demodosoberbo."Incapaz
"Jarry, um dos mestres do dadaísmo, é a última encarnação, mais singular do que genial, do dândi
metafísico.
ALBERT CAMUS
detirarpartidododestinoquemeloidado,atrngidonoqueh+de
maiselevadoemminhaconsciênciaporessedesaEode|ustiça,abs-
tenho-me de adaptarminhaexistência ascondiçõesridiculas da
existênciaaquiembaixo "SegundoIreton,o espirito n¯o conse-
gueíxar-senemnavidanemnoalem.Òsurrealismoquerrespon-
dera essainquietaç¯o semlìm. ¡+um "grito doespirito quese
voltacontrasimesmoeest+bastantedecididoaesmagardesespe-
b 1 " Ll t " d´
radamenteesseso stacuos . eprotestacontraamoreea n 1-
culaduraç¯o"deumacondiç¯oprec+ria. Òsurrealismocoloca-se
assimadisposiç¯odaimpaciênciaLleviveemumcertoestadode
raiva lerida, ao mesmo tempo, vive no rigore naintransigência
orgulhosa,oquepressupõeumamoral. Iesdeassuasorigens,o
surrealismo,evangelhodadesordem,viu-senaobrrgaç¯odecrrar
umaordemNas,inicialmente,sopensouemdestruir -primei-
ro,pelapoesia,noplanodaimprecaç¯o,eemseguidapelosmarte-
losmateriais. Ò processodomundorealtornou-selogicamenteo
processodacriaç¯o.
Òantiteismosurrealistaeracionalemetodico Consolida-se,
aprincipio,emumaideiadan¯o-culpabilidadeabsolutadoho-
mem,aquemenecess+riorestituir"todoopoderqueeleloica-
pazdeemprestara palavra Ieus". Comoemtodaa historiada
revolta,essaideiadan¯o-culpabilidadeabsoluta,oriundadode-
sespero, poucoapoucotranslormou-seemloucurapelocastigo
Òssurrealistas,aomesmotempoemqueexaltavam ainocência
humana,tambemacreditavampoderexaltaroassassinatoeosui-
cidioIalaramdosuicidiocomoumasoluç¯o,eCrevel,quecon-
siderava tal soluç¯o "provavelmente a mais|ustae deEnitiva",
matou-se,assimcomoRigaute\ache Aragonpêdeestigmatizar
em seguida os tagarelas do suicidio Nesmo assim, celebrar a
aniquilaç¯o,n¯o seatirando aelacom osoutros, n¯o honranin-
guem.A esse respeito, o surrealismopreservouda "literatura",
queeleabominava,aspioreslacilidades,|ustilicandoaperturba-
1 1 6
O HOMEM REVOLTADO
dora exclamaç¯o deFrgaut. "\ocêss¯otodos poetas, maseu,eu
estoudoladodamorte "
Ò surrealismon1oparou ai. Iscolheu como heroi \iolette
°ozièreou o criminoso anênimode direitocomum, alirmando
assim,diantedopropriocrime,ainocênciadacriatura. Nasou-
sou dizer tambem, e essa e a declaraç¯o da qual, desde l 933,
/ndre Iretonvemsearrependendo, que o ato surrealistamais
s|mplesconsistiaemdescerarua,revolverempunho,eatirarao
acaso no meio da multid¯o. Iara quem recusa qualquer outra
determinaç¯o que n¯e adoindividuo ede seu dese| o, qualquer
¸rimado que n¯oo dc inconsciente, isso equivalenaverdade a
|evoltar-sesimultaneamentecontraasociedadeearaz¯o.Ateo-
|· ado atogratuito e c corol+rio da reivindicaç¯o de liberdade
aosoluta.Ioucoimportaqueessaliberdadeacabeporseresumir
aa solid¯o delìnida pcr]arry. "Iepois de terrecolhido todo o
dinheiro do mundo,uatareitodoseireiembora" Ò essenciale
_aeosobst+culosse|amnegadosequeoirracionaltriunle. Que
signilìca,eletivamente, essa apologia do assassinato, sen¯oque,
emummundosemsignilìcaç¯oesemhonra,soelegitimoode-
se|o de existir, sob to1as as suas lormas` Ò impeto davida, o
arrebatamentodoinconsciente,obradodoirracionals¯oasúni-
as verdades puras, qae e preciso proteger Judo aquilo que se
opõeaodese¡o, eprincipalmenteasocredade,deveserdestruido
sempiedade.]+sepo1ecompreenderaobservaç¯odeIretona
.espeitodeSade. "Certamente,ohomemn¯omaisconsenteaqui
emunir-seanatureza,an¯osernocrime,restasaberseessan¯o
é aindaumadaslormasmaisloucas,maisindiscutiveis,deamar. "
Sente-se eletivamenteque setratadoamorsemob|eto, quee o
dasalmastorturadas Mas esse amorvazioe+vido,essaloucura
¸elaposse e| ustamente aquea sociedadeinevitavelmenteatra-
¸alha.Iorisso,Iretoa,que ainda carregao estigmadessasde-
clarações,conseguiul:zeroelogiodatraiç¯oedeclarar¸oqueos
1 1 7
ALBERT CAMUS
surrea¦istastentaramprovar)queaviolênciaeaúnicalormaade-
quadadeexpress¯o
Nasasociedaden¯oeleitasodepessoas£laetambeminsti-
tuiç¯o. Iem-nascidos demais para matar todo mundo, os
surrealistas, pelaproprialogicadesuaatitude, chegaramaachar
que,paraliberarodese|o, eraprecisoprimeirodemolirasocieda-
de.Resolveramservirarevo¦uç¯odesuaepocaIe\alpoleede
Sade, porumacoerênciaqueconstitui o assunto desteensaio, os
surrealistaspassaramaHelvetiuseaNarx.Nassente-sequen¯o
loioestudodomarxismoqueoslevouarevoluç¯o´´Aocontr+rio,
o eslorçoincessantedo surrealismo ser+,|unto como marxismo,
conciliarasexigênciasqueoconduziramarevoluç¯oIode-sedi-
zersemparadoxoqueossurrea¦istaschegaram ao marxismopor
causadaquilomesmoquemaisdetestamneleatualmenteQuando
secompartilhouomesmodilaceramentoeconhecendootndoea
nobrezadesuaexigência, hesitamosemlembraraAndreIreton
queoseumovimentodecretouoestabelecimentodeuma"autori-
dadeimp¦ac+vel"edeumaditadura,olanatismopolitico,arecusa
dalivrediscuss¯oeanecessidadedapenademorte.Iica-seigual-
menteestarrecidodiantedoestranhovocabul+riodessaepoca¸"sa-
botagem","delator"etc. ), queeodarevoluç¯opolicial.Nasesses
lreneticosqueriamuma"revoluç¯oqualquer",a¦goqueostirasse
domundodocomercioedoscompromissos,emqueeramobriga-
dosaviver]+quen¯opodiamterome¦hor,preleriamopiorNes-
teaspecto,eramniilistas.N¯osedavamcontadequeaquelesden-
treeles,quedoravantecontinuariamEeisaomarxismo,eramEeis
aomesmo tempo ao seuniilismo primeiro. Averdadeiradestrui-
ç¯o dalinguagem,queo surrealismodese|oucomtanta obstina-
ç¯o, n¯oresidena incoerênciaouno automatismo. £laresidena
22Poder-se-iam contar nos dedos da mão os comunistas que chegaram à revolução pelo estudo do
marxismo. Primeiro, a pessoa se converte, em seguida, lê as Escrituras e os Padres.
1 1 8
O HOMEM REVOLTADO
¸alavra de ordem Ie nada adiantou Aragon começar por uma
1enúnciada"desonrosaatitudepragm+tica",poisloinelaqueaca-
'ouencontrandoaliberaç¯ototaldamoral,aindaqueessalibera-
�1o tenha coincidido com uma outra servid¯o Iierre Narlle, o
s.rrealistaqueent¯oretetiacommaisprolundidadesobreopro-
|ema,aoprocurarodenominadorcomumaaç¯orevolucion+riae
.aç¯osurrealista,situava-o,comperspic+cia,nopessimismo,quer
1|zer, "odesigniodeacompanharohomememsuaderrocadaede
adanegligenciarparaqueessaperdiç¯ose|aútil".£ssamesclade
+gostinismoe demaquiavelismo deEne, naverdade, arevoluç¯o
1o seculo XX, n¯o se poderia dar express¯omais audaciosa ao
+ · |lismo da epoca. Òs renegados do surrealismo loram Eeis ao
+· ilismonamaiorpartedeseusprincipios Iecertalorma,queriam
+orrer Se Andre Ireton e alguns outros Enalmente romperam
om o marxismo, e que neles havia algo alen do niilismo, uma
segundaEdelidadeaoqueh+demaispuronasorigensdarevolta.
' .sn¯oqueriammorrer.
Certamente, os surrealistas quiseram prolessar o materialis-
+o "NaorigemdarevoltadoencouraçadoPotemkin, agrada-nos
·econheceresseterrivelpedaçodecarne "Nasnelesn¯oh+,como
+os marxistas, uma amizade, mesmo intelectual, poressepedaço
de carne Acarniçarepresentaapenaso mundo realqueeletiva-
+ented+origemarevolta,mas contrasimesnoSe elatudolegi-
. |ma,nadaexplicaIaraossurrealistas,arevoluç¯on¯oeraumEm
queserealizano dia-a-dia, naaç¯o,massimummitoabsoluto e
onsolador. £la era a "verdadeira vida, como o amor", daqual
.|lava
¿
luard, queent¯on¯oimaginavaqueseuamigoKalandra
.iriaamorrerdaquelavida £les queriamo "comunismodogê-
+io",n¯oooutro£ssescuriososmarxistasdeclaravam-seemesta-
dodeinsurreiç¯ocontraahistoriaecelebravamoindividuoheroi-
co. "A historiae regidapor¦eis condicionadas pelacovardiados
· adividuos. "AndreIretonqueria,aomesmotempo,arevoluç¯oe
1 1 9
ALBERT CAMUS
oamor, ques¯oincompativeis.Arevoluç¯oconsisteemamarum
homemqueaindan¯oexiste.Nasaquelequeamaumservivo,se
realmenteoama,elesoaceitamorrerporele.Þarealidade,arevo-
luç¯onadamaiseraparaAndreIretondoqueumcasoparticular
darevolta, enquantoqueparaosmarxistas, eemgeralparatodo
pensamentopolitico, soocontr+rioeverdadeiro Iretonn¯obus-
cavarealrzar,pelaaç¯o,aterraprometrdaquedeviacoroarahisto-
ria. Imadasteseslundamentaisdosurrealismoequerea¦mente
n¯oh+salvaç¯o Avantagemdarevoluç¯on¯oeradaraoshomens
ale¦icidade,"oabomin+velconlortoterrestre" Ielocontr+rio,no
espiritodeIreton,e¦adeviapuriEcareiluminarsuacondiç¯otr+-
gicaArevoluç¯omundialeosterriveissacrin´ciosqueelaimplica
sodeveriamtrazerumbenelicio."impedirqueaprecariedadeto-
talmenteartiEcraldacondrç¯osocialescamoteieaprecarredadereal
dacondiç¯ohumana" Simplesmente,paraIreton,esteprogresso
era desmesurado. Seriaamesmacoisaque dizerquearevoluç¯o
deveria ser posta a serviço da ascese interior pela qual todo ser
humanoconseguetransligurarorealemsobrenatural, "vingança
brilhantedaimaginaç¯ohumana" .IaraAndreIreton,osobrena-
turalocupaamesmaposiç¯o que o racionalparaHegel. Þ¯o se
podepensar,portanto,emoposiç¯omaiscompletaaElosohapoli-
ticadomarxismo.AslongashesitaçõesdaquelesaquemArtaud
chamavadeAmieldarevoluç¯opodemserlacilmenteexplicadas.
ÒssurrealistaserammaisdilerentesdeNarxdoqueoloramrea-
cion+rioscomo,porexemplo,]osephdeNaistre.£stesutilizama
tragediadaexistênciapararecusararevoluç¯o,ouse|a, paraman-
ter uma situaç¯ohistorica Òs marxistas utilizam-napara legiti-
mar a revo¦uç¯o, isto e, para criar uma outra srtuaç¯o historica.
AmboscolocamatragediahumanaaserviçodeseusEnspragm+-
ticosÞocasodeIreton,eleutilizavaarevoluç¯oparaconsumara
tragedia e, apesar dotitulo de suarevista, colocavaarevoluç¯oa
serviçodaaventurasurrealista.
1 20
O HOMEM REVOLTADO
£xp¦ica-se, enEm, a ruptura deEnitiva, se pensarmos que o
a.xismoexigiaasubmiss¯odoirracional,enquantoossurrea¦istas
h • aaviaminsurgidoparadelenderoirracionalateamorteÒmar-
s smotendiaaconquistadatotalidade,eosurrealismo,comotoda
.·¡eriênciaespiritua¦, aunidade. A totalidade podeexigirasub-
.. ss¯odoirracional,seoracionalbastaparaconquistaroimperio
d mundoNasodese¡odeunidadeemaisexigente.Þ¯olhebas-
t a quetudose|aracional.L¦equer,sobretudo,queoracionaleo
· .acionalsereconci¦iemnomesmonivel.Þ¯oh+unidadequepres-
s +¡onhaumamutilaç¯o.
IaraAndreIreton,atota¦idadesopodiaserumaetapa,neces-
saria, talvez,mascomcertezainsuEciente, nocaminhodaunida-
de. ReencontramosaquiotemadoJudoouÞada.Òsurrealismo
|endeaounrversal,eacensuracurrosa,poremprotnda,queIreton
'azaNarxconsiste|ustamenteemdizerqueesten¯oeuniversal.
Os surrealistas queriam conci¦iar o "translormar o mundo" de
Marxcomo"mudaravida"deRimbaud.Nasoprimeirolevaa
conquista datotalidade do mundo, e o segundo, a conquista da
anidadedavida.Jodatotalidade,paradoxa¦mente,erestritiva.Ii-
+almente, ambas as lormulas dividiram o grupo. Ao escolher
Rimbaud, Ireton mostrouqueo surrealismo n¯oeraaç¯o, mas
ascese e experiênciaesprritual. £le recolocou em primeiro plano
aquiloqueeaoriginalidadeprotndadeseumovimento,oqueo
tornat¯opreciosoemumarelex¯o sobrearevolta,arestauraç¯o
dosagradoeaconquistadaunidadeQuantomaiseleaprolundou
essaorigina¦idade,maisirremediavelmenteseseparoudoscompa-
nheirospoliticos,aomesmotempoemquesealastavadealgumas
desuas primeiraspetições.
AndreIretonnuncamudou,naverdade,comrelaç¯oasua
reivindicaç¯odosurrea¦,lus¯odosonhoedarealidade,sublima-
ç¯odavelhacontradiç¯oentreoidealeoreal.Conhece-seasolu-
ç¯osurrealista.airracionalidadeconcreta,oacasoob|etivo.Apo-
1 2 1
ALBERT CAMUS
esiaeumaconquista,eaúnicapossivel,do"pontosupremo" "Im
certopontodoespirito,deondeavidaeamorte,orealeoimagi-
n+rio,opassadoeotturo. . . derxamdeserpercebrdoscontradito-
riamente "Queponto supremoeesse,quedevemarcaro "aborto
colossaldosistemahegeliano"r É abuscadocume-abismo,lami-
liaraosmisticosJrata-senarealidadedeummisticismosemIeus,
quematae ilustra a sede de absolutodo revoltado Ò principal
rnrmrgodosurrealrsmoeoracronalrsmo.ÒpensamentodeIreton
olerece, ali+s, o curioso espet+culo deum pensamento ocidental
emqueoprincipiodeanalogiaesempreprelerido,emdetrimento
dosprincipiosdeidentidadeedecontradiç¯oJrata-se,|ustamen-
te,dederreteras contradiçõesnologo dodese|oedoamor,ede
derrubarosmurosdamorte.A magra, ascrvilrzações primrtrvas
ouingênuas,aalquimia,aretoricadastoresdelogooudasnoites
emclaro,s¯ooutrastantasetapasmaravilhosasacaminhodauni-
dadeedapedralilosolal. Seosurrealismon¯omudouomundo,
lorneceu-lhe alguns mitos estranhos que, em parte,| ustilicam
Nretzsche,quandoesteanunciavaoretornodosgregos. Nasso-
menteemparte, porque setratadaCreciadassom|ras-ados
misteriosedosdeusesnegros Iinalmente,comoaexperiênciade
Þietzsche culminava na aceitaç¯o do meio-dia, adcsurrealismo
culminanaexaltaç¯odameia-noite,nocultoobstinadoeangustia-
dodatempestade. Ireton, segundo suasproprrasp+lavras,com-
preendeuqueapesardetudoavidaeraumad+div+ Nas asua
ades¯on¯o podia seradaluz plena, daqualtemosnecessidade
"H+nortedemaisemmim",disseele,"paraqueeuse|aohomem
daades¯oplena "
Noentanto,atemesmoadespertodesr proprio,elelezdimi-
nuirmuitasvezesapartedanegaç¯oetrouxealuzareivindicaç¯o
positivadarevolta.£leescolheuorigoremvezdosil:ncioereteve
apenas a "exigênciamoral" que, segundo Iataille,aaimavaopri-
meirosurrealismo. "Substituiramoralemcurso, c+usadetodos
1 22
O HOMEM REVOLTADO
snossosmales,porumanovamoral " Semdúvida, elen¯oteve
´xito,assimcomoninguememnossosdias,nessatentativadelun-
dara nova moral. Nas nunca perdeu a esperança de consegurr
l.zê-loIiantedohorrordeumaepocaemqueohomemqueele
queriaenaltecerdegradou-se,obstinadamente,emnomedecertos
¸rincipiosqueosurrealismohaviaadotado,Iretonsentiu-seobri-
¡ado apropor, provisoriamente, umretorno a moral tradicional
°issotalvezha|aumapausa.Naseapausadoniilrsmoeoverda-
deiroprogressodarevoltaAIinal,porn¯opoderatribuir-seamo-
.al e os valores dos quais claramente tinha sentido necessidade,
sabe-se,eletivamente,queIretonescolheuoamor. Þacalhordice
desuaepoca,eiston¯opodeseresquecido,eleloioúnicoalalar
comprolundidadesobreoamor. Òamoreamoralemtranseque
serviu dep+triaaesseexilado. Certamente, aindalaltaaquiuma
aedida.Þempolitica,nemreligi¯o,osurrealismosopodeseruma
· :possivelsabedoria. Naseapropriaprovadequen¯oh+sabe-
doriaconlort+vel. "Queremos eteremos o alememvida", excla-
æou admrravelmente Ireton. A norte esplêndida na qual ele se
compraz,enquantoaraz¯o,tendopassadoaaç¯o,lazosseusexer-
citos marcharem pelo mundo, talvez anuncie, naverdade, essas
aurorasqueaindan¯oreluzirameosmatinaux deReneChar,poe-
tado nossorenascimento.
1 23
_
IIIISNÒ£
_
ISJ
¿
RIA
_
ento ecinqüentaanosderevo¦tametalisicaedeniilismoviram
retornar com obstrnaç¯o, sob dilerentesdrslarces,o mesmorosto
devastado,odoprotestohumano.Jodos,erguidoscontraacondi-
ç¯ohumanaeseucriador,aErmaramasolid¯odacriatura,onada
dequalquermora¦Nas,aomesmotempo,todosprocuraramcons-
truirumreinopuramenteterrestreemquereinariamasregrasde
suaescolhaRivaisdoCriador,loramlevadoslogicamentearela-
zeracriaç¯oporsuacontaAquelesquerecusaramqualqueroutra
regraao mundo quecriaram,an¯o ser adodese¡o e adalorça,
correram para o suicidio ou para a loucura e anuncraram o
apoca¦ipse Òsoutros,que quiseramcriarasregras pela suapro-
prialorça,escolheramav¯ostentaç¯o,aaparênciaouabanalida-
de,ouaindaoassassinatoeadestruiç¯oNasSadeeosromanti-
cos, Karamazov ou Þietzsche so entraram no mundo da morte
porquequiseramaverdadeiravida.Ietalmodoque,porumelei-
to inverso, e o apelo di¦acerado a regra, a ordem e a moral que
ressoanesseuniversodemente Suasconclusõessoloramnelastas
ouliberticidasapartirdomomentoemquere¡eitaramolardoda
revolta,emquelugiramdatens¯oqueelapressupõe,esco¦hendoo
conlortodatiraniaoudaservid¯o.
1 24
O HOMEM REVOLTADO
Ainsurreiç¯ohumana,emsuaslormaselevadasetr+gicas,n¯o
: +empodesersen¯oumlongoprotestocontraamorte,umaacu-
-+ç¯oveementeaestacondiç¯oregidapelapenademortegenera-
' . zada £m todos os casos queencontramos, o protesto dirrge-se
sc:pre atudo aqui¦o que, nacriaç¯o, e dissonancia, opacidade,
so' uç¯o decontinuidade Jrata-seportanto,no essencial, deuma
. . termrn+velexigênciadeunrdade.Arecusadamorte,odese¡ ode
daraç¯oedetransparências¯o as molas detodas essas ¦oucuras,
s.olimesoupueris Jrata-sesomentedarecusacovardeepessoal
demorrer` Þ¯o,porquemuitosdessesrebeldespagaramopreço
ecess+rioparaE caraalturadesuasexigências. Òrevo¦tadon¯o
�s|ge avida, mas as razões davida £lere¡eita as conseqüências
qae amorte traz Se nada perdura, nadase¡ustiEca, aqui¦oque
aorre Eca prrvado de sentrdo. Iutar contra a morte equrvale a
e|vindicarosentidodavida,alutarpelaordemepelaunidade.
Aesserespeito, o protesto contrao mal,queest+noproprio
+nagodarevoltametalísica,esignrEcativo.Revoltanteemsin¯oe
I solrimentodacriança,masolatodequeessesolrimenton¯ose¡a
j .stiEcado.AEnal,ador,oexilio,oconEnamento,s¯oasvezesacei-
osquandoditadospelamedicinaoupelobomsensoAosolhosdo
·evoltado,oquelaltaadordomundo,assimcomoaosseusrnstan-
|esdelelicidade,eumprrnciprodeexplrcaç¯o.Ainsurrerç¯ocon-
|.ao malcontinuasendoumaexigênciade unidade Þomundo
doscondenadosamorte,amortalopacidadedacondiç¯o,orevo¦-
..docontrapõeincansavelmenteasuaexigênciadevidaedetrans-
¸arênciadeEnitivas Semsabê-¦o,eleest+embuscadeumamoral
oudeumsagrado Arevoltaeumaascese, emboracegaSeore-
vo¦tadoaindablaslema,enaesperançadonovodeus.£leEcaaba-
|adosobo choquedoprimerroe mars protndodossentimentos
|eligiosos,mastrata-sedeummovimentoreligiosodesiludidoޯo
é arevoltaemsimesmaqueenobre,masoqueelaexige,mesmose
oqueelaobtemeaindaignobil
1 25
ALBERT CAMUS
Ie¦o menos e preciso saber reconhecero que e¦a obtem de
ignobilJodavezqueeladeiEcaarecusatotaldaquiloqueexiste,o
n¯oabso¦uto, elamata Jodavezqueelaaceitacegamenteaquilo
que existe, criando o sim abso¦uto, ela mata. Ò odio ao criador
pode translormar-se em odio a criaç¯o ou em amorexclusivo e
desaEadoraquiloqueexisteNasemambososcasoseladesembo-
canoassassinatoeperdeodireitodeserchamadaderevolta.Iode-
seserniilistadeduasmaneiras,eemambososcasosporumexces-
sodeabsoluto.Aparentemente,h+revoltadosquedese|ammorrer
eosquequeremcausaramorte.Nass¯oosmesmos,consumidos
pelodese|odaverdadeiravida,lrustradosporissoequeent¯opre-
leremain|ustiçageneralizadaauma|ustiçamuti¦ada.Þestegrau
de indignaç¯o, araz¯otorna-seluror. Se everdade quearevolta
instintivado coraç¯o humanoevo¦uipoucoapouco aolongodos
seculos,rumoasuamaiorconsciência,e¦atambemcresceu,como
vimos,emaud+ciacega,ateomomentodesmesuradoemquedeci-
diuresponderaoassassinatouniversa¦comoassassinatometalisico.
Òmesmo se que,comoreconhecemos,marcavaomomentomais
importante darevoltametalisica, realiza-seemtodo caso na des-
truiç¯oabso¦uta Þ¯o s¯o a revo¦ta e suanobrezaqueiluminam
atualmenteomundo,massimoniilismo£sloassuasconsequên-
ciasquedevemosdescreverdenovo,semperderdevistaaverdade
desuasorigens NesmoseIeusexistisse,Ivann¯oserenderiaa
elediantedain|ustiçaintigidaaohomemNoentanto,umarete-
x¯omais¦ongasobreessain|ustiça,umapaix¯omaisamarga¡rans-
lormaram o "mesmoqueexistas"em
"
t n¯omerecesexistir",e,
depois, em "tun¯oexistes"Asvitimasbuscaramalorçaeasra-
zõesdocrimederradeironainocênciaquereconheciamemsiAo
perderemaesperançadaimortalidade,convencidasdesuaconde-
naç¯o,elasdecidiramamortedeIeus.Seelalsodizerquenesse
diacomeçouatragediadohomemcontemporaneo,tambemn¯oe
verdade que ela tenha terminado ali £sse atentado assinala, ao
1 26
O HOMEM REVOLTADO
oatr+rio, o momento mais elevado de um dramaque começou
d.·sdeoEmdomundoantigoe cu| asúltimaspalavras aindan¯o
.ssoaramApartirdessemomento,ohomemdecideexcluir-seda
¡açaeviver porseus proprios meios Ò progresso, de Sace ate
' o|e,consistiuemampliarcadavezmaisoredutoemque, segun-
dosuaspropriasregras,reinavabrutalmenteohomemsemdeus.
' •.xpandiram-secadavezmaisaslronteirasdapraçaíorte,emlace
dadivindade,ateíazerdouniversointeiroumalorta¦ezacontrao
deus destronado eexilado. Òhomem,noextremodesuarevolta,
seconEnava,suagrandeliberdadeconsistiaapenas,docastelot­
¡.co deSaceao campo deconcentraç¯o,emconstruirapris¯ode
�.uscrimes Nasoestadodesitiopoucoapoucosegeneraliza,a
e|vindicaç¯odeliberdadequerestender-seatodosÉ precisoen-
l'ão construiroúnicoreinoqueseopõeaoreinodagraça,queeo
la |ustiça, parareunirenEm acomunidadehumana sobre oses-
.ombrosdacomunidadedivina.NatarIeuseerigirumaIgre|ae
o:ovimentoconstanteecontraditoriodarevo¦taA¦iberdadeab-
solutatorna-se,aEnal,umapris¯odedeveresabsolutos,umaascese
o letiva,umahistoriaaserterminada.Iessalorma,oseculoXIX,
q aeeodarevolta,desembocanoseculoXXda|ustiçaedamoral,
.·aquecadaumbatenopeitoChamlort,omoralistadarevolta,|+
· ahadadoasualormula. "É precisoser|ustoantesdesergenero-
so,assimcomosetemacamaantesdeteroslençois "Renunciar-
se-+,portanto,amoraldeluxoemlavordaeticaamargadoscons-
|utores
Irecisamosabordaragoraesseeslorçoconvulsivonosentido
Joimperiodomundoedaregrauniversal.Chegamosaomomen-
to em que a revolta, ao re|eitarqualquerservid¯o,visa anexar a
criaç¯ocomoumtodo. £mcadaumdessesmalogros, |+tinhamos
vistoanunciarem-seasoluç¯opoliticaeasoluç¯odeconquistaIe
+goraem diante, elasoir+reterdessasaquisições,comoniilismo
aoral, avontadede poder. Ò revo¦tado soqueria,em principio,
1 27
ALBERT CAMUS
conquistaro seuproprioseremantê-lodiante de Ieus. Nasele
esqueceassuasorigense, pelaleidoimperialismoespiritaal,ei-lo
emmarchaparaoimperiodomundo,atravesdecrimesmultipli-
cadosaoinlinito.£lebaniuIeusdeseuceu,mas,comoespirito
derevoltaunindo-seabertamenteaomovimentorevolucion+rio,a
reivindicaç¯oirracionaldaliberdadevaiparadoxalmenteusarcomo
armaaraz¯o,oúnicopoderdeconquistaquelheparecepuramen-
tehumano. NortoIeus,restaahumanidade, querdizer,ahisto-
ria, que e preciso compreender e construir. Ò niilismo, que, no
proprioseiodarevolta,alogaent¯oalorçadecriaç¯o, acrescenta
apenasquesepodeconstrui-laportodososmeiosdisponiveis.No
auge do irracional, o homem, em umaterra que ele sabe ser de
agoraemdiantesolit+ria,vai|untar-seaoscrimesdaraz¯oacami-
nhodoimperiodoshomens.Ao "eumerevolto,logoexistimos",
eleacrescenta,tendoemmenteprodigiososdesignioseapropria
mortedarevolta. "£estamossos. "
III
A revolta histórica
/
j
' |berdade, "esteterrivelnomeescrrtonacarruagemdastempes-
+1es",·est+noprrnciprodetodasasrevo¦uções.Semela,a| ustrça
¸+|ecernconcebíve¦paraosrebeldes. Chegaumtempo, contudo,
| ` Íjuea|ustrçaexrgeasuspens¯odalrberdadeÒterror,marorou
+.aor,vement¯ocoroararevoluç¯o.Jodarevoltaenosta¦grade
. +ocêncraeapeloaoser.Nasumdraanostalgrasearmaeassume
iÌ .alpabrlrdade total, quer drzer, o assassrnato e a vrolêncra As
I' vo¦tasdeescravos,asrevoluçõesregrcrdaseasrevoluçõesdose-
· u ' oX acertaram,assrm,conscrentemente,umaculpabr¦rdadecada
v · z marornamedrdaemquesepropunhamarnstaurarumalrbe-
. ç¯omarstotalLstacontradrç¯o,quesetornouobvra,rmpedeos
·ssosrevo¦ucron+rrosdeexrbrremoardetelrcrdadeedeesperan-
ta que atorava no rosto e nos drscursos de nossos constrturntes.
¬er+elarnevrt+vel,caracterrzaoutrarovalorderevolta`É aques-
t :o quesecolocaaproposrtodarevoluç¯ocomoelasecolocavaa
¸oposrtodarevoltametalisrca.Þaverdade,arevoluç¯oeapenasa
seqüêncra logrca da revolta metatísrca, e nos descobrrremos, na
+aslrsedomovrmentorevolucron+rro,omesmoeslorçodesespera-
l i esangurn+rroparaaErmarohomemdrantedaqurloqueonega.
|essalorma,oespirrtorevo¦ucron+rroassumeadelesadapartedo
+omemquen¯oquersecurvar.£letenta,srmplesmente,dar-lheo
"Philothée O' Neddy.
ALBERT CAMUS
seureinonotempo AorecusarIeus, eleescolhe ahistoria,por
umalogicaaparentementeinevit+vel
Jeoricamente,apalavrarevoluç¯oconservaosentidoquetem
em astronomia. É ummovimentoquedescreve umcirculocom-
pleto,quepassadeumgoverno paraoutro apos umatranslaç¯o
completaImamudançaderegimedepropriedadesemacorres-
pondentemudançadegovernon¯oeumarevoluç¯o,masumare-
lorma.N¯oh+revoluç¯oeconêmica,querseusmeiosse|ampacili-
cosousanguin+rios,quen¯ose|asimultaneamentepolitica.Nisso,
a revoluç¯o|+se distingue do movimento de revolta. A lamosa
lrase. "N¯o, ma|estade,n¯oeumarevolta, eumarevoluç¯o"res-
saltaessadilerençaessencial£lasignilicaexatamente. "eacerteza
deumnovogoverno" Naorigem,omovimentoderevoltaerestrr-
to N¯oemaisdoqueumdepoimentoincoerenteArevoluç¯o,ao
contr+rio, começaapartirdaideia. Nais precisamente,elaeain-
serç¯odaideia naexperiênciahistorica, enquanto arevoltae so-
menteomovimentoquelevadaexperiênciaindividualaideia.Ao
passo que a historia, mesmo que coletiva, de um movimento de
revoltaesempreadeumcompromissosemsoluç¯onoslatos,de
um protesto obscuro sem o compromisso desistemas ourazões,
umarevoluç¯oeumatentativademodelaroatosegundoumaideia,
demoldaro mundoemumarcabouçoteoricoIorisso, arevolta
matahomens,enquantoarevoluç¯odestroiaomesmotempoho-
menseprincipios Nas, pelasmesmasrazões,pode-sedizerque
ainda n¯o houve revoluç¯o nahistoria. So pode haver uma, que
seriaarevoluç¯odelinitiva Òmovimentoqueparecelecharocir-
culo|+começaaesboçaroutronoinstantemesmoemqueogover-
noseconstitui Òsanarquistas, com\arletalrente,virameletiva-
mentequegovernoerevoluç¯os¯oincompativeisnosentidodire-
to IizIroudhon. "Implicacontradiç¯o olatodequeogoverno
possaalgumavezserrevolucion+rio, pelaraz¯o muito simplesde
queegoverno. "Ieitaaexperiência,acrescentemosqueogoverno
O HOMEM REVOLTADO
HÓ podeserrevolucion+rio contraoutros governos Òsgovernos
cvolucion+riosEcamnaobrigaç¯o, namaiorpartedotempo,de
H emgovernosdeguerraQuantomaisamplaarevoluç¯o,maior
o comprometimento daguerraque ela implica A sociedade que
+ergiu de l 7·9 querlutar pela £uropa Aque nasceude l 9 l 7
+tapela dominaç¯o universal. A revoluç¯o total acaba reivindi-
+ado,comoveremos,oimperiodomundo
£nquantoesperaesseleito,seequeir+ocorrer, ahistoriados
+omens, em certo sentido, e a soma desuas revoltas sucessivas
l •:m outraspalavras,omovimentodetranslaç¯oqueencontrauma
s¡ress¯oclaranoespaçon¯oemaisqueumaaproximaç¯onotem-
p Òquesechamava,devotamente,noseculoXIXdeemancipa-
¸aoprogressivadogênerohumanoevistodoexteriorcomouma
.qüênciaininterruptaderevoltas que se superam, tentando en-
.ontrarasualormanaideia,masqueaindan¯ochegaramarevo-
ç¯odeEnitiva,queestabilizariatudonaterraenoceuNaisque
+ aaemancipaç¯oreal,oexamesuperlicialconcluiriaporumaaEr-
+aç¯odohomemporelemesmo,aErmaç¯ocadavezmaisextensa,
+assempreinacabada Sehouvesserevoluç¯oumaúnicavez,n¯o
+averiamaishistoria¡averiaumalelizunidadeeumamortesa-
·sleita. É porissoquetodososrevolucion+riosvisama unidade
do mundoeagemcomoseacreditassemnoEmdahistoriaAori-
g| nalidadedarevoluç¯odoseculoXXeque,pelaprimeiravez,ela
¸.etendeabertamenterealizarovelhosonhodeAnacharsrsCloots,
a unidade do gênerohumano e ao mesmo tempo o coroamento
1eEnitivodahistoria.Assimcomoomovimentoderevoltadesem-
oocavano"tudoounada",assimcomoarevoltametalísicadese|a-
va a unidade do mundo, o movimento revolucion+rio do seculo
`X, tendo chegado as conseqüências mais claras de sualogica,
.xige,dearmasnam¯o,atotalidadehistorica.Arevolta,sobpena
deserlútilouultrapassada,eent¯oconvocadaatornar-serevolu-
.ion+riaIaraorevoltado,n¯osetratamaisdedesaliar-seasipro-
ALBERT CAMUS
prio,comoStirner,oudesalvar-sesopelaatitude.Jrata-sededei-
Ecaraespecie,comoÞietzsche,edeadotaroseuidealdosuper-
homem, alim degarantirasalvaç¯odetodos, como queria Ivan
Karamazov. ÒsIossessosentramemcenapelaprimeiravezeilus-
tramumdossegredosdaepoca. aidentidadedaraz¯oedavonta-
dedepoder. Norto Ieus, eprecisomudareorganizaro mundo
pelas lorças do homem. ]+ n¯o bastando apenas a lorça da
imprecaç¯o, precisa-sede armas e da conquista datotalidade. A
revoluç¯o, mesmoesobretudoaquelaquepretendesermaterialis-
ta, n¯o e mais que uma cruzada metahsica desmesurada. Nas a
totalidadeeaunidade`É aquest¯oaqueesteensaiodeverespon-
der. Soqueopropositodestaan+lisen¯oelazeradescriç¯o,cem
vezesrecomeçada,dolenêmenorevolucion+rio,nemenumerar,uma
vez mais, as causas historicasoueconêmicasdasgrandesrevolu-
ções. Jrata-sedeencontraremalguns latosrevolucion+riosase-
qüência logica, as ilustrações e os temas recorrentes da revolta
metalisica.
Amaiorpartedasrevoluçõestomaasualormaeoriginalidade
num assassinato. Jodas, ouquase todas, loram homicidas. Nas
algumas, alem disso, praticaram o regicidio e o deicidio. Assim
como ahistoriadarevolta metalísica começava comSade, nosso
assuntorealcomeçasomentecomosregicidas, seuscontempora-
neos, que atacam a encarnaç¯o divina sem ousar ainda matar o
principioeterno. Antesdisso, contudo,ahistoriadoshomensnos
mostra tambem o equivalentedo primeiro movimentoderevolta
-odoescravo.
Þocasodoescravoqueserevoltacontraosenhor,h+umhomem
que se insurge contra outro, nestaterracruel,longe doceudos
principios. Òresultadoeapenasoassassinato deumhomem. Òs
motinsdeescravos,oslevantescamponeses,asguerrasdosmendi-
gos, as revoltasrústicasantecipamumprincipiodeequivalência,
1 34
O HOMEM REVOLTADO
aaavidacontraoutra,que,apesardetodasasaud+ciasedetodas
'LS mistiEcações,iremos sempreencontrarnas lormasmais puras
1oespiritorevolucion+rio,como,porexemplo,noterrorismorus-
sode l 90´
Aesserespeito,arevoltade£sp+rtaco,nolimdomundoanti-
go,algumasdecadasantesdaeracrist¯,eexemplar.Òbserve-sede
.icioquesetratadeumarevoltadegladiadores,istoe,deescravos
»dadosaoscombateshomemahomemecondenados,paradeleite
1os senhores, amatar ou aserem mortos. Jendo começado com
setenta homens, essarevolta terminacomumexercito desetenta
ailinsurretos,queesmagamasmelhoreslegiõesromanaseavan-
çam pelaIt+lia, para marchar sobre a propria cidade etena. Þo
entanto,essarevolta,comoobservaAndreIrudhommeaux,´¹n¯o
.rouxenenhumprincipionovoparaasociedaderomanaAprocla-
+aç¯o de £sp+rtaco limita-se a prometer aos escravos "direitos
|guais". £ssapassagemdolatoaodireito,queanalisamosnopri-
aeiromovimentoderevolta,e,naverdade,aúnicaaquisiç¯ologi-
caquesepodeencontrarnesteniveldarevolta. Òinsubmissore-
,eita aservid¯o e aErma-se como igual ao senhor. Quer, porsua
vez,sersenhor
Arevoltade£sp+rtacoilustra constantementeesseprincipio
dereivindicaç¯o. Òexercitoservilliberaosescravos, condenando
|mediatamenteaservid¯oosseusantigossenhores.Segundouma
tradiç¯o,abemdaverdadeduvidosa,eleteriaatemesmoorgani-
zado combates degladiadores entrev+rias centenas de cidad¯os
romanos,instalandonasarquibancadasosescravos,delirantesde
alegriaedeexcitaç¯o.Nasmatarhomenssolevaamatarcadavez
mais.Iaralazercom queumprincipiovença, umprincipiodeve
serderrubado. A cidade do sol, com que sonhava £sp+rtaco, so
poderiatersidoerigidasobreasruinas daRoma eterna, deseus
24La tragédie de Spartacus (Atragédia de Espártaco ). Cahiers Spartacus.
1 35
ALBERT CAMUS
deusesedesuasinstituições.Òexercitode£sp+rtacomarchaele-
tivamente e, paraconquist+-¦a,emdireç¯oauma Romaperplexa
por ter que pagar por seus crimes No entanto, nesse momento
decisivo,avistadasmuralhassagradas,oexercitosedetemehesi-
ta,comoserecuassediantedosprincipios,dainstituiç¯o,dacida-
dedosdeusesIestruidaRoma,oquepêremseulugar,an¯oser
essedese|oselvagemde|ustiça,esseamorleridoeexacerbadoque
ateent¯omantiveramdepeessesinlelizes`´´Lmtodocaso,oexer-
cito bate emretirada, sem tercombatido,eresolveent¯o,porum
curiosomovimento,vo¦taraolugardeorigemdas revoltas dees-
cravos,relazendoemsentidoinversoolongocaminhodesuasvi-
toriaseretornandoaSiciliaÉ comoseessesdeserdados,agorasos
edesarmadosdiantedesteceuaseratacado,retornassemaomaior
calore purezadesuahistoria, a terra dos primeirosgritos, onde
morrereral+cilebom
Começament¯oaderrotaeomartirio Antesdaúltimabata-
lha,Lsp+rtacomandacruciEcarumcidad¯oromanoparamostrar
aos seushomensodestinoqueosespera. Iurante a luta, porum
movimento irado emquen¯osepodedeixardeverumsimbolo,
e¦epropriotentaalcançarCrasso, quecomandaaslegiõesroma-
nas£lequermorrer,masnocombatehomemahomemcomquem
simboliza,naquelemomento, todosossenhoresromanos,eletiva-
mente, ele quer perecer, mas na mais elevada igualdade Þ¯oal-
cançar+Crasso. osprincipioscombatemdelonge,eogeneralro-
manomantem-seadistancia.Lsp+rtacovaimorrer, comodese|a-
va, mas sobos golpes dosmercen+rios, escravos como ele, eque
matamasuaproprialiberdadecomadele.Iorumúnicocidad¯o
cruciEcado,Crassovaisupliciarmilharesdeescravos. Asseismil
cruzes que, apos tantas revoltas |ustas, v¯o ba¦izar a estrada de
25 A revolta de Espártaco retoma, na verdade, o programa das revoltas servis que a antecederam.
Mas este programa resume-se à partilha das terras e à abolição d escravatura. Ele não se refere
diretamente aos deuses da cidade.
1 36
O HOMEM REVOLTADO
C+puaaRoma,demonstrar¯oamultid¯odeescravosquen¯oh+
juivalêncianomundodopoderequeossenhorescalculamcom
|gioopreçodeseupropriosangue
AcruzetambemosupliciodoCristo.Iode-seimaginarque
ste so tenha escolhido alguns anos depois o castigodo escravo
¸aradiminuiraterriveldistanciaque de agora emdianteseparaa
:iatura humi¦hada dalaceimplac+vel do Senhor Lleintercede,
· l e solre,porsuavez,amaisextremain|ustiça,paraquearevolta
+¯odividaomundoaomeio,paraqueadorganhetambemoceu,
¸|eservando-odamaldiç¯odos homens Quemestranhar+queo
spiritorevolucion+rio,aoquereraErmaremseguidaaseparaç¯o
do ceu e daterra, tenhacomeçado por desencarnara divindade,
+atandoosseusrepresentantesnaterra`£m1 793, decertalorma,
c:minamostemposdarevoltaecomeçam,sobreumcadalalso,os
.mposrevolucion+rios´'
"'Uma vez que não interessa a este ensaio o espírito de revolta no interior do cristianismo, nele não
h(! lugar para a Reforma, assim como para as numerosas revoltas contra a autoridade eclesiástica
que a antecederam. Mas pode-se ao menos dizer que a Reforma prepara umjacobinismo religio­
�O e que começa, de certa forma, aquilo que 1 789 vai terminar.
1 37
Os REGICIDAS
Mataram-se reis muito antes do dia 2 l de janeiro de l 793e antes
dos regicídios do século XIX. Mas Ravaillac, Damiens e se
_
us
êmulos queriam atingir a pessoa do rei, não o princípio. Deseja­
vam um outro rei ou nada. Não imaginavam que o trono pudesse
ftear vazio para sempre. I 7· 9é o ponto de partida dos tempos
modernos, porque os homens daquela época quiseram, entre ou­
tras coisas, derrubar o princípio de direito divino e fazer com que
entrassem para a história a força de negação e de revolta que se
constituíra nas batalhas intelectuais dos últimos séculos. Dessa for­
ma acrescentaram ao tiranicídio tradicional um deicídio racional.
Ò�ensamento dito libertino, o pensamento dos filósofos e �o

j
_

ristas serviram de alavanca a essa revolução.27 Para que essa tmoa­
tiva se tornasse possível e se sentisse legítima, foi necessário em
primeiro lugar que a Igreja, cuja responsabilidade e

a i

�nita, se
colocasse do lado dos senhores ao assumir a tarefa de mfhgtr a dor,
através de movimento que se disseminava na Inquisição e se per­
petuava na cumplicidade com os poderes temporais. Michelet não
"Mas os reis colaboraram para isso, impondo pouco a pouco o poder político ao poder religioso,
minando, dessa forma, o próprio princípio de sua legitimidade.
1 38
O HOMEM REVOLTADO
hL engana quando quer ver apenas dois grandes personagens na
· popéia revolucionária: o cristianismo e a Revolução. Para ele, l 7 ·9
·xplica-se, na verdade, pela luta entre a graça e a justiça. Apesar de
Michelet ter compartilhado com o seu século desregrado o gosto
pelas grandes instituições, ele viu nisso uma das causas profundas
da crise revolucionária.
A monarquia do "ancien régime", se não era sempre arbitrária
·m seu governo, era indiscutivelmente arbitrária em seu princípio.
Era uma monarquia de direito divino, quer dizer, uma monarquia
· uja legitimidade não podia ser questionada. No entanto, essa legi­
L i midade foi muitas vezes contestada, particularmente pelos Parla­
mentos. Mas aqueles que a exerciam consideravam-na e apresen­
iavam-na como um axioma. Luís XIV como se sabe, era firme
nesse princípio. 28 Bossuet o ajudava nisso, dizendo aos reis: "Vós
sois deuses. " Òrei, sob um de seus aspectos, é o encarregado, por
missão divina, dos negócios temporais e, portanto, da justiça. As­
sim como Deus, ele é o recurso último daqueles que sofrem de
miséria e de injustiça. Em princípio, o povo pode recorrer ao rei
ontra os seus opressores. "Se o rei soubesse, se o czar soubesse . . . ",
tal é com efeito o sentimento muitas vezes manifestado, nos perío­
dos de miséria, pelo povo francês e pelo povo russo. É verdade que
ao menos na França a monarquia, quando tinha conhecimento, sem­
pre tentou defender as comunidades populares contra a opressão
dos grandes e dos burgueses. Mas isso é justiça? Não do ponto de
vista absoluto, que é o dos escritores da época. Mesmo que se pos­
sa recorrer ao rei, é impossível interpor um recurso contra ele, na
qualidade de princípio. Ele distribui a sua assistência e o seu so­
corro, se quiser e quando bem entender. Ò bel-prazer é um dos
atributos da graça. A monarquia sob a sua forma teocrática é um
"Carlos I agarrava-se de tal modo ao direito divino que não achava necessário ser justo e leal com
aqueles que o negavam.
1 39
ALBERT CAMUS
governoquequercolocaracimada|ustiçaagraça, deixandoque
esta tenha sempre a última palavra. A declaraç¯o do vig+rio da
Savoia, pelocontr+rio,sotemcomooriginalidadeotatodesubme-
terIeus a|ustiça, inaugurando assim, coma pompaum pouco
ingênuadaqueletempo,ahistoriacontemporanea
Þaverdade,apartirdomomentoemqueopensamentoliber-
tino coloca Ieus em quest¯o, o problema passa para o primeiro
plano.Simplesmente,a|ustiçade ent¯oconlunde-secomaigual-
dadeIeus est+cambaleante,ea|ustiça,paraalirmar-senaigual-
dade,devedar-lheogolpedemisericordiaaoatacardiretamenteo
seurepresentantenaterra Òpor-lheodireitonaturalelorç+-laa
comelenegociar,durantetrêsanos,del 7 ·9al 792, | +edestruiro
direito divino Agraça, como últimorecurso,eincapazdeceder
£lapodecederemalgunspontos,nuncanoúltimo. Nas isson¯o
basta Segundo Nichelet, Iuis X\I, napris¯o, ainda queria ser
rei. £malgumlugar, naIrançados novos principios,o principio
vencidoaindaseperpetuava,portanto,entreosmurosdeumapri-
s¯o,unicamentepelalorçadaexistênciaedate.A| ustiçatemisto,
e apenasisto, em comumcom agraça. quersertotalereinar
.
de
modoabsoluto.Apartirdomomentoemqueentramemconttto,
lutamate amorte. "Þ¯o queremos condenarorei", dizIanton,
quen¯otemasboasmaneirasdo|urista,"queremosmat+-lo. "Ao
negarIeus,naverdade,eprecisomatarorei. Saint-]ust, aoque
1 "I
.
parece,lazIuisX\Imorrer, mas,quandoexcama. etermmar
oprincipioemvirtudedoqualvaitalvezoacusadomorreredeter-
minaroprincipioemvirtudedoqualviveasociedadequeo|ulga",
eledemonstraques¯oosElosolosquev¯omatarorei. oreideve
morreremnomedocontratosociaL'Nasissoexigeumaexplica-
ç¯o.
29Rousseau é preciso assinalar, não o teria desejado. Deve-se colocar no início desta análise, para
dar-lhe os �eus limites, o que Rousseau declarou com firmeza: "Nada aqui embaixo merece ser
comprado ao preço do sangue humano."
1 40
O HOMEM REVOLTADO
O Novo Evangelho
( ) Contrato social e em primeirolugar umapesquisasobreale-
¡· · midadedopoder ^as livro dedireito, e n¯odelato,¨em
11 · chummomentoelee umacoletaneadeobservaçõessociolo-
,,· .as Suapesquisarelere-seaprincipioseporisso mesmo|+e
ctestaç¯o. £lasupõequealegitimidadetradicional,suposta-
. eutedeorigemdivina,n¯oeadquirida.£laanunciaportanto
.·aoutralegitimidade e outrosprincipios. Ò Contrato social e
+bemumcatecismo, do qualconservao tom e alinguagem
1gm+tica. Como l 7 · 9 completaasconquistasdasrevoluções
+glesaeamericana,Rousseaulevaaseuslimiteslogicosateo-
· ado contrato que se encontraemHobbes. Ò Contrato social
1i umalargadimens¯oe umaexplicaç¯odogm+ticaa novare-
' g|¯o cu|odeus e a raz¯o, conlundidacom a natureza, e cu|o
. ¸resentantenaterra, emlugardorei, e o povo considerado
Í Ì suavontadegeral.
Òataquecontraaordemtradicionalet¯oevidenteque,desdeo
¸|meirocapitulo,Rousseauseconcentraemdemonstraraanterio-
· dadedopacto doscidad¯os,quecriaopovo,emrelaç¯o aopacto
ctre opovoeorei,que lndaarealeza.Ateent¯o, Ieus laziaos
.|s,queporsuaveztaziamospovos.ApartirdoContrato social, os
¸ovossecriamsozinhosantesdecriaremosreis.QuantoaIeus,e
�ssuntoencerradoprovisoriamente.Þaordempolitica,temosaquio
quivalente a revoluç¯o de Þewton. Ò podern¯o busca mais sua
·igemnoarbitr+rio,mas noconsentimentogeral£moutraspala-
.as,elen¯oemaisoquee,masoquedeveriaserIorsorte,segundo
|ousseau, aquiloque e n¯opodeserseparado do que deveser. Ò
' "Ver Discurso sobre a desigualdade. "Comecemos portanto por afastar os fatos, pois eles não têm
nenhuma relação com a questão. "
1 41
ALBERT CAMUS
povoesoberano"apenaspelolatodequee¦eesempretudoaquilo
queeledeveser"Iiantedessadeclaraç¯odeprincipio,pode-semuito
bemdizerquearaz¯o,obstinadamenteinvocadanaquelestempos,
n¯oemuitobemtratadanessetrabalho.Iicaclaroque,comoCon­
trato social, assistimosaonascimentodeumamistica,|+queavonta-
degeralepostuladacomooproprioIeus "Cadaumdenos",diz
Rousseau, "co¦ocaasuapessoaetodo o seu poder sob asuprema
direç¯odavontadegeral, erecebemosnonossocorpocadaindivi-
duo,comoparteindivisive¦do todo "
Lssapessoapo¦itica,quesetorousoberana,etambemdeEnida
como pessoa divina Jemali+stodososatributosdapessoadivina.
L¦a e eletivamente inlalivel,¸+ que o soberano n¯o podequerero
abuso "Soba¦eidaraz¯o,nadaselazsemcausa." Llaetota¦mente
livre,seeverdadequealiberdadeabsolutaealiberdadeemrelaç¯o
asiproprio Iessemodo,Rousseaudeclaraqueecontraanatureza
do corpo politico o soberano impor-se umalei que ele n¯o possa
inlringirLlaetambeminalien+vel,indivisivele,Enalmente,visaate
mesmoresolverogrande problemateologico,acontradiç¯oentrea
onipotênciaeainocênciadivinasAvontadegeralerealmentecoer-
citiva,seupodern¯otemlimites Nasocastigoqueimpor+aquem
recusar-lheobediêncian¯oemaisqueumalormade"lorç+-loaser
livre". AdeiEcaç¯osecompletaquandoRousseau,separandooso-
beranodesuaspropriasorigens,chegaadistinguiravontadegeral
davontadedetodos Issopodeser deduzidologicamentedas pre-
missasdeRousseauSeohomemenatura¦mentebom,seneleana-
tureza seidentiEca comaraz¯o,`' e¦e ir+exprimira excelência da
raz¯o, desde apenas que se expresse¦ivree naturalmente L¦en¯o
pode mais,portanto,vo¦taratr+semsuadecis¯o,quepairadeagora
emdianteacimade¦eAvontadegeraleemprimeirolugaraexpres-
s¯odaraz¯ouniversal,queecategoricaÞasceuonovoIeus.
31Toda ideologia é constituída contra a psicologia.
O HOMEM REVOLTADO
LisporqueaspalavrasquemaisseencontramnoContrato social
Hfo "abso¦uto", "sagrado","inviol+vel".Òcorpopoliticoassimdeli-
· do,cu|aleieummandamentosagrado,n¯oemaisqueumprodu-
i odesubstituiç¯odocorpomisticodacristandadetemporal.ÒCo-
/mto social termina,ali+s,comadescriç¯odeumareligi¯ocivilelaz
de Rousseauumprecursordassociedadescontemporaneas,queex-
.' aemn¯osoaoposiç¯o,masateaneutralidade.Þostemposmoder-
Í s,Rousseauloinaverdadeoprimeiroainstituiraproliss¯odele
.· vilIoitambemoprimeiroa|ustiEcarapenademortenumasocie-
1adecivi¦easubmiss¯oabsolutadosúditoarealezadosoberano"É
¸aran¯oservitimadeumassassinoqueaceitamosmorrer,casonos
ornemos assassinos "]ustiEcaç¯ocuriosa, mas que estabelecelir-
+ementequeeprecisosabermorrerseosoberanomandar,equese
1eve, casonecess+rio, dar-lheraz¯ocontra siproprio Lssanoç¯o
+|stica|ustiEcaosilênciodeSaint-justdesdeasuapris¯oateo ca-
1alalsoIesenvolvidaconvenientemente,ir+explicarigualmenteos
acusadosentusiastasdos|ulgamentosstalinistas.
Lncontramo-nosaquinoalvorecerdeumanovareligi¯o,com
seus m+rtires, ascetas esantosIaraavaliarbem aintuênciaque
esseevange¦hopassouater,eprecisoterumaideiadotominspira-
1odasproclamaçõesde l 7 ·J Iauchet,diantedasossadasdesco-
'ertas na Iastilha, exclamou. "Chegou o dia da revelaç¯o . Òs
ossos¦evantaram-seaosomdavozdaliberdadelrancesa,elesde-
¸õemcontraosseculosdaopress¯oedamorte,proletizamarege-
+eraç¯odanaturezahumanaedavidadasnações "\aticinou,ain-
da. '^tingimosoamagodostemposÒstiranosest¯omaduros "É
o momentodaíe perp¦exaegenerosa,oinstanteemqueumpovo
admir+velderrubaem\ersalhesocadalalsoearoda.`´Òscadalal-
sossurgemcomoosa¦taresdareligi¯oedain|ustiça.Anovale n¯o
12M esmo idílio na Rússia, em 1905, em que o Soviete de São Petersburgo desftla com cartazes
pedindo a abolição da pena de morte, e também em 1917.
ALBERT CAMUS
podetoler+-losNaschegaummomentoemqueale,sesetornar
dogm+tica,erigeosseuspropriosaltareseexigeadoraç¯oincondi-
cional £nt¯oressurgemos cadalalsose,apesardosaltares,dali-
berdade,dos|uramentosedaslestasdaRaz¯o,asmissasdanova
te dever¯ocelebrar-secomsangue£mtodoocaso,paraque 1 7 89
marqueoiniciodoreinadoda"humanidadesanta"`ede"Nosso
Senhorgênero humano",' e preciso que desapareça primeiro o
soberano destronado. Ò assassinato do rei-padre vai sancionara
novaera,queperduraateho|e
A Execu§ão do Rei
Saint-]ustintroduziunahistoriaas ideias de Rousseau Þo pro-
cesso do rei, o essencial de sua argumentaç¯o consiste em dizer
queorein¯oeinviol+veledeveser|ulgado pelaassembleia,n¯o
porumtribunalQuantoaseusargumentos,eleosdeveaRousseau
Imtribunaln¯opodeser|uizentreoreieosoberanoAvontade
geraln¯opodesercitadadiantedos|uizescomuns.£laest+acima
detodasascoisasAinviolabilidadeeatranscendênciadessavon-
tades¯oent¯oproclamadasSabe-sequeograndetemadoproces-
soeraaocontr+rioainviolabilidadedapessoarea¦Alutaentrea
graçaea|ustiçaencontrasuailustraç¯omaisprovocadoraem1 7 8 9,
emqueseopõemateamorteduasconcepçõesdatranscendência
Ieresto,Saint-justest+perleitamenteconscientedagrandezado
que est+ em|ogo. "Ò espirito com que|ulgaremos o rei ser+ o
mesmo comqueestabeleceremosaRepública "
33Vergniaud.
34 Anacharsis Cloots.
1 44
O HOMEM REVOLTADO
Ò lamoso discurso de Saint-]ust tem todo o aspecto de um
studoteologico. "Iuis,umestranhoentrenos",eisatesedoado-
+scenteacusador Seumcontrato,naturaloucivil,pudesseainda
airoreiaoseupovo,haveriaumaobrigaç¯omútua,avontadedo
¸ovon¯opoderiacolocar-secomo|uizabsolutoparapronunciara
sentença absoluta Jrata-se portanto de demonstrar que n¯o h+
|�enhumvinculoentreopovoeoreiIaraprovarqueopovoeem
s. mesmoaverdadeeterna,eprecisomostrarquearealezaeemsi
+esmao crimeeterno Saint-justcoloca,portanto, comoaxioma
qa

etodorei� rebeldeouusurpador £leerebeldecontrao povo,
a¸soberama absoluta eleusurpa A monarquia n¯o e de modo
+ 'gum umrei, "elae o crime". N¯oum crime, mas o crime, diz
'aint-]ust,istoe,aprolanaç¯oabsoluta.£sseeosentidoprecisoe
+omesmotempoextremodaexpress¯odeSaint-just,cu| osigniE-
adotoiampliadoemdemasia ´"Ninguempodereinarinocente-
+�nt
.
e "Jodoreieculpado,e,pelolatodeumhomemquererser
er,er-loladadoamorteSaint-justdizexatamenteamesmacoisa
q aandodemonstraem seguidaqueasoberania dopovoe "coisa
s

agrada" Òscidad¯oss¯oinviol+veisesagrados, sopodendoso-
·eracoerç¯odalei,express¯odesuavontade comum Iuis eo
aaicoan¯osebeneEciardessainvrolabilidadeespecialedoampa-
o dalei, pois est+situadoloradocontrato£le n¯olaz parteda
vontade geral, sendo ao contr+rio, por sua própria existência,
|laslemadordessavontadeonipotente£len¯oe"cidad¯o",única
+aneiradeparticiparda|ovemdivindade "Queeumreicompa-
adoaumlrancês`"Iortanto,eledeveser|ulgado,eapenasisso
Nas quemir+interpretaressavontadegeral e pronunciara
sentença`AAssembleia,quedetemporsuasorigensumadelega-
ç¯odessavontadeeparticipa,comoumconcilioinspirado,danova
''Ou, pelo menos, cujo significado foi antecipado. Quando Saint-Just diz esta frase ele ainda não
8:tbe quqá fala por si próprio.
'
1 45
ALBERT CAMUS
divindade.Òpovodever+emseguidaratiEcaressasentença`Sabe-
sequeoeslorçodosmonarquistasnaAssembleiaacabaseconcen-
trandonestepontoAvidadoreipodiaassimsersubtraidaalogica
dos¡uristas-burgueses,paraseraomenosconliadaaspaixões es-
pontaneas e a compaix¯o do povo Nas, ainda nisso, Saint-just
levaa sua logica a extremos, servindo-se da oposiç¯o inventada
porRousseauentreavontadegeraleavontadedetodos Nesmo
quetodosperdoassem, avontadegeraln¯o podelazê-lo Ò pro-
priopovon¯opodeapagarocrimedetirania.LmIireito,avitima
n¯o pode retirar sua queixa` Þ¯o estamos tratando de Iireito,
estamos¦idandocomteo¦ogia Ò crimedoreieao mesmotempo
umpecadocontraaordem suprema. Im crime e cometido, de-
pois perdoado, punido ou esquecido Nas o crime de realeza e
permanente,est+ligadoapessoadorei,asuaexistênciaAteoCristo,
quepodeperdoarosculpados,n¯opodeabsolverosla¦sosdeuses
L¦esdevemdesaparecerouvencer.Seopovoho|eperdoa,amanh¯
vaiencontrarocrimeintacto, mesmoqueocriminosoeste|ador-
mindo napaz das prisões. So h+portanto umasaida. "\ingar o
d
.
" assassinatodopovocomamorte orer
Ò discurso de Saint-justvisa apenas lechar, uma por uma,
todas as saidas para o rei, exceto a que leva ao cadalalso Se as
premissasdoContrato social s¯oaceitas,esseexemploelogicamente
inevit+vel. Iepoisdele, enlm, "os reislugir¯oparao deserto ea
naturezaretomar+os seusdireitos". IenadaadiantouaConven-
ç¯ovotarumaressalva, dizendoque ela n¯opre|ulgavaao|u¦gar
Iuis X\Iouaopronunciarumamedidadesegurança.£lalurta-
va-seent¯oaospropriosprincipios,tentandoescamotear, comuma
chocantehipocrisia,asuaverdadeiramiss¯o,queeralundaronovo
absolutismojacquesRoux,pelomenos,estavadizendoaverdade
do momento ao chamar o reiIuis de "último", marcando dessa
lorma o lato de que averdadeira revo¦uç¯o,|+ leitanop¦anoda
economia,realizava-seent¯onoplanodaElosoEaeeraumcrepús-
1 46
O HOMEM REVOLTADO
.a!odosdeuses.Ateocracialoiatacadaem l 7·9emseuprincipio
:ortaem 1 793 emsuaencarnaç¯o. Irissottemraz¯oemdizer.
''O monumentomaissolidodenossarevoluç¯oealilosolia "`'
Þodia2 1 de|aneiro,comoassassinatodorei-padre,termina
o quesechamousigniEcativamentedeapaix¯odeIuisX\ISem
1+vida,eumescandalorepugnanteterapresentadocomoumgran-
1emomentodenossahistoriaoassassinatopúblicodeumhomem
ìaco e bom Lsse cadalalso n¯omarcaum apogeu, longe disso
|estaaomenosolatodeque,porseusconsiderandoseconseqüên-
. as, o|ulgamento do rei e o ponto departidade nossa historia
·atemporaneaLlesimbolizaadessacralizaç¯odessahistoriaea
1csencarnaç¯ododeuscrist¯o.Ateesse momento,Ieusintrodu-
: a-senahistoriaatravesdosreisÞoentanto,mata-seoseurepre-
` atantehistorico,n¯oh+maisrei Soh+,portanto,umaaparência
1eIeusrelegadaaoceudosprincipios'
Òsrevolucion+riospodemreivindicaroLvangelho. Þaver-
mde, eles d¯oumgolpeterrivelnocristianismo,doqual este n¯o
�L recuperou. Iarece realmente que a execuç¯o do rei, seguida,
·no se sabe, de cenas histericas desuicidios ou de loucura, se
1esenroloucomoumtodonaconsciênciadoqueserealizava.Iuis
\ \Ipareceterduvidado,asvezes,deseudireitodivino,embora
l ahasistematicamentere|eitadotodosospro|etosdeleiqueaten-
+ssemcontraestacrença. Nasapartirdomomentoemquesus-
¸eita ou tem noç¯o do seu destino, parece identilicar-se, como
+ostrasualinguagem,comasuamiss¯odivina,paraquesediga
que oatentadocontraasuapessoavisaaorei-Cristo,aencarnaç¯o
.' |vna, en¯oacarnecovarde do homem Seulivro decabeceirano
' c:p¦oeaImitafão de Crto. Asuavidadeeaperleiç¯oqueesseho-
cem,apesardesuasensibilidademediana,demonstrouemseusúlti-
1''A Vendéia, guerra religiosa, lhe dá razão mais uma vez.
1 11 ·:ste será o deus de Kant, de Jacobi e de Fichte.
1 47
ALBERT CAMUS
mosmomentos,suasobservaçõesindilerentesarespeitodetadoque
pertenceaomundoexteriore,Enalmente,asuabrevenaquezanoca-
dalalsosolit+rio,aosomdoterriveltamborquelheencobriaavoz,t¯o
longe dessepovoporquemesperava serouvido,tudoissonos deixa
imagnarquen¯oeraumCapetoquemorria,massimoIuisdedirei-
todivinoe, comele,decertalorma,acristandadetemporal.Iarame-
lhorressaltaresseelo sagrado,oseuconlessoroamparaemseumo-
mentodelraqueza,aorelembrar-lheasua"semelhança"comodeus
dedor L,ent¯o,IuisX\¡serecuperaeretomaalingaagemdesse
deus"Iebereidestec+liceateaúltimagota "Iepois,deixa-secondu-
zir,trêmulo,pelasm¯osignobeisdocarrasco
A Religião da Virtude
Nasareligi¯oqueexecutatambem ovelho soberano devecons-
truiragoraopoderdonovo,ela¦echaaigre|a,oquealevaatentar
construirumtemplo Òsanguedosdeuses,queporumsegundo
respinganopadredeIuisX\I,anunciaumnovobatismo ]oseph
de Naistre qualiEcavaaRevoluç¯odesatanica Iode-severpor
quê,eemquesentido.Nichelet,noentanto,estavamaisproximo
daverdade ao cham+-la de purgatorio Nessetúnel, uma epoca
lança-secegamenteembuscadeumanovaluz,deumanovalelici-
dadeedalacedoverdadeirodeus Nasqualser+essenovodeus`
É oqueaindapodemosperguntaraSaint-]ust.
1 78 9 aindan¯oalìrmaadivindadedohomem,massimado
povo,namedidaemquesuavontadecoincidecomadanaturezae
adaraz¯o. Se avontadegeralseexpressalivremente,elasopode
O HOMEM REVOLTADO
s:·aexpress¯ouniversaldaraz¯o.Seopovoelivre,eleeinlalivel.
\orto orei,rompidososgrilhõesdoantigo despotismo, o povo
... expressarportantoaquiloqueemtodosostemposelugarese,
l ( ). eser+averdadeLleeoor+culoquedeveserconsultadopara
s+oeroqueaordemeternadomundoexigeVox populi, vox naturae.
|·ncipioseternoscomandamanossacondutaa\erdade,a ]usti-
 
�a, aRaz¯o,enlìm.Lisonovodeus ÒSersupremoquelegiõesde
+oçasvêmadorar, aoleste|aremaRaz¯o, n¯oemaisqueo deus
ti +tigo,desencarnado,bruscamentecortadodequaisqueramarras
· om aterra,equeloisolto,comoumbal¯o,noceuvaziodosgran-
des principios Irivado de seus representantes, de qualquer
. +.ercessor, odeusdosllosolosedosadvogadostemapenasova-
' odedemonstraç¯oNarealidade,eleebemlraco,ecompreende-
¬ • por que Rousseau, que pregava atolerancia, achava contudo
¸aeeraprecisocondenaramorteosateusIaraadorarpormuito
I mpoum teorema, n¯o basta a le, e preciso ainda uma policia
MasissosodeveriaocorrermaistardeLm 1 793, anovale ainda
.st+intacta,e, seacreditarmos emSaint-]ust,bastagovernar se-
¡undo araz¯o Seuponto devistaera que aartedegovernarso
¸oduziumonstrosporqueateoseutempon¯osequisgovernarde
+cordo com a natureza Ò tempo dosmonstros terminoucom o
' ì mdotempodaviolência. "Òcoraç¯ohumanocaminhadanatu-
ezaparaaviolênciaedaviolênciaparaamoral"Amoral,portan-
to, eapenasumanaturezarecuperadaaposseculosdealienaç¯o.Se
deremaoshomensapenasleis "segundoanaturezaeo seucora-
¯o", eledeixar+de serinleliz e corrupto Ò sulr+gio universal,
landamentodasnovasleis,deveobrigatoriamentelevaraumamoral
universal "Nossoob|etivoecriarumaordemdecoisastalquese
estabeleçaumatendênciauniversalparaobem. "
Areligi¯odaraz¯oestabelecedemodonaturalarepúblicadas
' eis.Avontadegeraleexpressaemleiscodilìcadasporseusrepre-
sentantes "Òpovolaz arevoluç¯o,olegisladorlaz arepública."
ALBERT CAMUS
Asinstituições"imortais,impassiveiseasalvodatemeridadehu-
mana"v¯oregerporsuavezavidadetodosemumacordouniver-
sal e sem contradiç¯o, possivel, porque todos, ao obedecerem as
leis, n¯o estar¯o obedecendo sen¯o a si mesmos. "Iora das leis,
tudoest+esteril e morto", dizSaint -]ust É arepúblicaromana,
tormalelegalista.]+seconheceapaix¯o deSaint-]uste deseus
contemporaneospelaAntiguidaderomana.Ò|ovemdecadenteque
emReimspassavahorascomaspersianastechadas,numquartode
reposteirospretos,enleitadoscoml+grimasbrancas,sonhavacom
arepúblicaespartana.ÒautordeOrgant, poemalongoelicencio-
so,sentiaaindamaisnecessidadedetrugalidadeedevirtude £m
suasinstituições,Saint-]ustaboliaacarneparamenoresdedezesseis
anos esonhava com uma naç¯o vegetariana erevolucion+ria. "Ò
mundo est+vazio desde aepocadosromanos", exclamava Nas
anunciavam-setemposheroicos -Cat¯o, Irutus,Cevolatora-
vam-senovamentepossiveis Retoresciaaretoricadosmoralistas
latinos."\icio,virtude,corrupç¯o"s¯otermosqueressurgemcons-
tantementenaretoricadaqueletempoe,maisainda,nosdiscursos
deSaint-]ust,queelestornavamsemprepesados Araz¯oesim-
plesComoNontesquieu|+vira,obeloediticion¯opodiaprescin-
dir davirtude. A Revoluç¯o Irancesa, ao pretender construir a
historiasobreumprincipio depureza absoluta,inauguraostem-
pos modernos eao mesmo tempoaeradamorallormal.
Queeavirtude,naverdade`IaraoE losoloburguêsdeent¯o,
eaconlormidadecomanatureza`e,empolitica,aconlormidade
comaleiqueexpressaavontadegeral. '^moral", dizSaint-]ust,
"emaistortequeostiranos "£letivamente,elaacabavadematar
IuisX\¡ Jodadesobediênciaalein¯odecorreportantodeuma
imperleiç¯o,supostamenteimpossivel,dessalei,masdeumatalta
"Mas a natureza, tal como a encontramos em Bernardin de Saint-Pierre, é em si mesma confor­
me uma virtude preestabelecida. A natureza também é um princípio abstrato.
1 50
O HOMEM REVOLTADO
1evirtudenocidad¯orelrat+rio.Iorisso,arepúblican¯oesomen-
te umsenado,comodizSaint-]ustcomveemência,elaeavirtude.
1oda corrupç¯o moral e ao mesmo tempocorrupç¯o politica, e
.ice-versa Òriundodapropriadoutrina,instala-seent¯oumprin-
.ipioderepress¯oinEnita. Semdúvida, Saint-]usterasinceroem
seudese|odeidiliouniversal.£lesonhourealmentecomumare-
¸úblicadeascetas,comumahumanidadereconciliadaeentregue
aoscastos|ogosdainocênciaprimeira,sobaguardadessesvelhos
s+biosqueele,antecipadamente,enleitavacomumlençotricolore
.mpenachobranco.Sabe-setambem,quedesdeoiniciodaRevo-
' aç¯o Saint-]ustsepronunciara,|unto comRobespierre,contraa
¸enademorte. £xigiasomentequeosassassinossevestissem de
¡retopelorestodavida.Iese|avauma|ustiçaquen¯oprocurasse
¨acharqueoacusadoeraculpado,massimlraco",eissoeadmir+-
vel.Sonhavatambem comumarepúblicadoperd¯oquereconhe-
.esseque, sea+rvore docrimeeradura, suaraizeratenra. Ielo
menosumdeseusbradosvemdocoraç¯oen¯opodeseresqueci-
do."É umacoisaterrivelatormentaropovo. "Sim,eterrivelNas
umcoraç¯opodesenti-loesubmeter-se,contudo,aprincipiosque
implicamemúltimainstanciaotormentodopovo
Amoral,quandoelormal, devoraIaratraseandoSaint-]ust,
ninguemevirtuosoinocentemente Apartirdomomentoemque
asleisn¯olazemreinaraconcordia,emqueaunidadeasercriada
pelos principios edestruida, quem eculpado`Aslacções. Quem
s¯oostacciosos`Aqueles que negam porsuapropria atividade a
unidade necess+ria. A lacç¯o divide o soberano. £la e portanto
blastemaecriminosa £la, eso ela, devesercombatida Nasese
houver muitas lacções` Jodas ser¯o combatidas, sem remiss¯o
Saint-]ustexclama. "ÒuasvirtudesouoJerror "É precisoendu-
receraliberdade,eopro|etodeconstituiç¯onaConvenç¯omencio-
naent¯oapenademorteAvirtudeabsolutaeimpossivel,arepú-
blica do perd¯o conduz, por uma logicaimplac+vel, a república
1 5 1
ALBERT CAMUS
dasguilhotinas.Nontesquieu|+haviadenunciadoessalogicacomo
umadascausasdadecadênciadassociedades,aodizerqueoabuso
depoderemaiorquandoasleisn¯ooprevêemAleipuradeSaint-
]ustn¯otinhalevadoemcontaaverdade,velhacomoapropriahis-
torra,dequealeremsuaessênciaest+ladadaatransgress¯o.
O Trror
Saint -] ust,contemporaneodeSaJe,chegoua|ustiEcaç¯odocrime,
sebemquepartindodeprincipiosdilerentesSaint-]ustesemdúvi-
daoanti-SaJe Sealormuladomarquês podiaser. '^bramaspri-
sõesouprovemsuavirtude",adoconvencionalserra."Irovemsua
vrrtudeouentremnasprrsões "Ambas, noentanto,legrtrmamum
terrorismo,individualnolibertino,eestatalnopadredavirtudeÒ
bemabso¦utoouomalabsoluto,seaiaplicarmosalogicanecess+ria,
exigemomesmot·rorH+certamenteambigüidadenocasodeSaint-
]ustAcartaqueescreveua\ilaind'Aubigny, em1792, temalgode
loucura.£ssaproEss¯odetedeumpersegaidoperseguidortermina
comumaconEss¯ohisterica. "SeIrutusn¯omataosoutros,vaise
matar " Impersonagemt¯o obstinadamente serio, t¯ovoluntaria-
mente lrio, logico e imperturb+vel, permite imaginar todos os
desequi¦ibriosetodososdistúrbios Saint-]ustinventouessaespecie
deseriedadequelazdahistoriadosdoisúltimosseculosumatediosa
novelapolicial.^quelequebrincaalrentedeumgovernotendea
tirania",dizele.N+ximaestarrecedora,sobretudosepensarmosno
queacarretavaumasmplesacusaç¯odetiranra,equepreparaem
todoocasoocaminhoparaaeradosCesarespedantes.Saint-]ustd+
1 52
O HOMEM REVOLTADO
o exemplo,oseupropriotomedeEnitivo.£ssasaErmaçõesperemp-
torias emcascata,esseestiloaxiom+tico esentenciososervempara
retrat+-lomelhordoqueasmarsEeispinturas.Assentençasronro-
nam,comoapropriasabedoriadanaç¯o,asdeEnições,queconstitaem
acrêncra,sucedem-secomomandamentoslrroseclaros."Òsprrnci-
pros devem s

r moderados , as l er s, r mpl ac+veis , as penas,
irreversiveis "£oestilogui¦hotina.
Imtal endurecimento dalogicasupõe, entretanto, umapai-
x¯oprolundaAi,comoemoutroslugares, voltamosaencontrara
paix¯opelaunidadeJodarevo¦tasupõeumaunidadeAde 1 789
exigeaunidadedap+tria.Saint-]ustsonhacomacidadeideal,na
qual os costumes, Ena¦menteconlorme a lei, proc¦amar¯o aino-
cênciadohomemeaidentidadedesuanaturezacomaraz¯oE se
aslacçõesvêm atrapa¦haressesonho,apaix¯ovaiexagerarasua
logicaÞ¯oseimaginar+ent¯oque,seaslacçõesexistem,osprin-
cipiosta¦vezeste|amerrados.Aslacçõess¯ocriminosasporqueos
principioscontinuamintangiveis."Chegouomomentoemquetodo
mundodevevoltara moral, e a arrstocracra, aoTerror. " Nasas
lacçõesaristocratasn¯os¯oasúnicas,deve-secontarcomasrepu-
blicanas, e com todos aqueles que em geral criticam a aç¯o do
Iegislativo e daConvenç¯o. £stes tambem s¯o culpados,|+que
ameaçamaunidadeSaint-]ustproclamaent¯oograndeprincipio
das tiranias do seculo X: "Iatriota e todo aquele que apoia a
repúb¦ica no geral, quem quer que a combata no detalhe e um
traidor "Quemcriticaetraidor,quemn¯oapoiaostensivamentea
república,umsuspeitoQuandonemaraz¯onemalivreexpress¯o
dos individuos conseguem Ermar sistematicamente a unidade, e
precisodecidir-� eliminaroscorposestranhos Aguilhotinator-
na-se desse modoumenredadorcu|atnç¯oerelutar. "Imban-
didoquelorcondenadoamortepelo trrbunaldrzquequerresrstrr
aopress¯o,porquequerresrstiraocadalalso| "Iicadilícrlcompre-
endera indignaç¯o de Saint-]ust|+ que, ate aquele momento, o
1 53
ALBERT CAMUS
cadalalsoera|ustamente apenasumdossimbolosmais evidentes
daopress¯oNasnointeriordessedeliriologico,noextremodessa
moraldevrrtude,o cadalalsoe liberdade. £legarante aunidade
racional,aharmoniadacidade£ledepura -otermoeesse-a
república, eliminando as lraudes quevêm c
¸
ntradizeravontade
gerale araz¯ouniversal "Contestam-meo titulo deElantropo",
exclamaNarat,comumestilototalmentedilerente. '^h'Quein-
|ustiça' Quem n¯ovê quedese| ocortarum pequenonúmero de
cabeçaspara salvarum grandenúmerodelas `" Impequenonú-
mero, uma lacç¯o` Sem dúvida, e toda aç¯o historicapaga esse
preço.NasNarat,aolazerosseusc+lculosE nais,exigiuduzentas
e setenta e três mil cabeças. Nas ele comprometia o aspecto
terapêuticodaoperaç¯o,urrandoduranteomassacre."Narquem-
nos comlerroembrasa,cortem-lhesospolegares,rachem-lhesa
lingua. " ÒElantropoescrevia com ovocabul+rio maismonotono
queexiste,diaenoite,sobreanecessidadedematarparacriar.£le
continuava escrevendonas noites de setembro, no tndo deseu
por¯o,aluzdevela,enquantoosverdugosinstalavambancospara
osespectadoresnosp+tiosdenossas prisões-homens adireita,
mulheres a esquerda -, para olerecer-lhes, como um gracioso
exemplodeElantropia,adegoladenossosaristocratas
Þ¯omisturemos,nemporumsegundoquese|a,apessoagran-
diosadeumSaint-]ustcomotristeNarat,macacodeimitaç¯ode
Rousseau,comoechamadocommuitapropriedadeporNichelet.
Nas o dramade Saint-]ust, pormotivos superiores, e poruma
exigênciamaisprolunda,loiterleito coro, emcertosmomentos,
comNaratAslacçõessomam-seaslacções,asminoriasasmino-
rias,|+n¯osepodedizercomcertezaqueo cadalalsoluncionea
serviçodavontadedetodosSaint-]ust,porem,n¯oderxar+deaEr-
marateoEmque ele luncionaaserviçodavontadegeral,|+que
luncionaaserviçodavirtude."Imarevoluç¯ocomoanossan¯oe
umprocesso,masumatempestadesobreosmaus. "Òbemtlmina,
1 54
O HOMEM REVOLTADO
a inocênciaselazraio,eraio|usticeiro.Nesmoaquelesquebuscam
osprazeres,esobretudoestes,s¯ocontra-revolucion+riosSaint-]ust,
quedissequeaideiadelelicidadeeranovana£uropa¸naverdade
eranovasobretudoparaSaint-]ust,paraquemahistoriaparavaem
Brutus),sed+contadequealgumaspessoastêmuma"ideiaterrivel
dalelicidadeecontndem-nacomoprazer".Jambemcontraelese
precisousarderigor. ÞoEnal, n¯osetratamaisdemaiorranemde
:inoria. Òparaisoperdidoesemprecobiçadodainocênciauniver-
sal se distancia, na terra inleliz, cheiadosgritos daguerra civil e
.acional,Saint-]ustdecreta, contrasiproprioecontraosseusprin-
cipios,quetodomundoeculpadoquandoap+triaest+ameaçadaA
seriederelatoriossobreaslacçõesdoestrangeiro,aleidodia22 do
mêsrevolucion+rioPrairial, odiscursode 1 5 deabrilde 1 794 sobre
a necessidadedapoliciamarcamasetapasdessaconvers¯o Ò ho-
memquecomtantagrandezaconsideravainlamiadeporasarmas
enquantoexistissem,emalgumlugar, umsenhoreumescravoeo
mesmoqueiriaaceitarasuspens¯odaConstituiç¯ode1 793 eoexer-
ciciodoarbitrio ÞodiscursoquelezemdelesadeRobespierre,ele
negaalamaeaposteridadeesoserelereaumaprovidênciaabstrata.
Aomesmotempo,reconheciaqueavrrtude,daquallaziaumareli-
gi¯o, sotinhacomo recompensa a historia e o presente, e que ela
devia,aqualquerpreço,t·ndaroseuproprioreino£len¯oamavao
poder"cruelemau",eque, segundodizia, "semregras,marchava
paraaopress¯o" Nasaregraeraavirtudeevinhadopovo. Como
enlraquecimento dopovo, aregraEcava obscurecida, e aopress¯o
cresciaIogo,opovoeraculpado,en¯oopoder, cu| oprincipiode-
viaserinocente. Imacontradiç¯ot¯oextremaet¯osanguin+riaso
podiaserresolvidapor�alogicaaindamaisextremaepelaaceita-
ç¯oEnaldosprincipios,nosilêncioenamorte.Saint-]ustaomenos
permaneceunestenivel deexigência Þisso, aEnal, eledeveriaen-
contrarasuagrandeza,eavidaindependentenotempoenoespaço
daquallaloucomtantaemoç¯o.
1 55
I
ALBERT CAMUS
H+muitoelepressentiraqueasuaexigênciapressupunhade
suaparteum dom totale sem reservas, dizendo ele proprio que
aquelesquelazemasrevoluçõesnomundo,"aque¦esquelazemo
bem", sopodemdormirnotúmulo Segurodequeosseusprinci-
pios,paravencerem,deviamculminarnavirtudeenalelicidadede
seu povo, conscientetalvez dequeexigiaoimpossive¦,descartou
de antem¯o a propria retirada, ao declarar publicamente que se
apunhalarianodiaemqueperdesseaesperançanessepovo.£i-lo,
noentanto,quesedesespera,|+queduvidadoproprioterror. ''A
revoluç¯o est+paralisada, todos os principios, enlraquecidos, so
restamosbarretesvermelhosusadospelaintriga Ò exerciciodo
terrorestragou o crime, assimcomo os ¦icores lortes estragam o
paladar."Apropriavirtude"une-seaocrimenostemposdeanar-
quia" .£¦etinhaditoquetodososcrimesdecorriamdatirania,que
eraomaiordetodos,e,diantedaincans+velobstinaç¯odocrime,a
propriaRevoluç¯orecorriaatirania,tornando-secriminosa Þ¯o
sepodeportantoreduzirocrime,nemas lacções,nemo terrivel
espiritodegozo,eprecisoperderaesperançanessepovoesub|ug+-
¦o.Nastambemn¯osepodemaisgovernarinocentemente
¿
ne
cess+rio,pois,solreromalouaeleservir,admitirqueosprincipios
est¯oerradosoureconhecerqueopovoeahumanidades¯oculpa-
dos £nt¯o,Saint-]ustdesviasuamisteriosaebelalace "Þ¯oha-
veriamuitoaperderabandonandoumavidanaqualseprecisaria
ser cúmpliceoutestemunhamuda domal "Irutus,que devia se
matarsen¯o matasseosoutros,começamatando os outros Nas
os outros s¯o muitos, n¯o se pode matar tudo
¿
preciso ent¯o
morrer, demonstrandoumavezmaisquearevolta,quandoedes-
regrada, oscila da aniquilaç¯o a destruiç¯o desiproprio
¿
uma
tarela l+ci¦, basta, ainda umavez, seguira logica ate o Em. Þo
discursoemdelesadeRobespierre,poucoantesdesuamorte,Saint-
]ust realrma o grande principio de sua aç¯o, o mesmo que ir+
conden+-¦o. "N¯o sou de nenhuma lacç¯o e combaterei todas "
1 56
O HOMEM REVOLTADO
|econheciaassim,eantecipadamente,adecis¯odavontadegeral,
querdizer,daAssembleia.Aceitavamarcharparaamorteporamor
+osprincipiosecontratodarealiJade,|+queaopini¯odaAssem-
'leiasopodiaservencida,|ustamente,pelaeloquênciaepelolana-
.|smodeumalacç¯oNas,qual ' , quandoosprincipios enlraque-
.em, os homens sotêmummododesalv+-¦os,quee morrerpor
.¦esNoca¦orabaladodeIarisnomêsde|ulho,Saint -]ust,recu-
sandoostensivamentearealidadeeomundo,conlessaqueentrega
s aavidaadecis¯odosprincipiosIitoisso,elepareceentender,de
+odo lugaz, uma outra verdade e termina com uma denúncia
+oderadadeIillaud-\arenneedeCollotd'Herbois"Iese|oque
|es se|ustiEquemequenosnostornemosmaissensatos. "Òesti¦o
L agui¦hotinaEcamsuspensosporuminstanteNasavirtuden¯o
a sensatez, porterorgulhodemaisAguilhotinavaitornaracair
sobreessacabeçabela elriacomo amoral Apartirdomomento
Íl queaAssembleiaocondena,ateomomentoemqueolerecea
+ucaalamina,Saint-]ustemudece. £stelongosilêncioemaisim-
¸ortantedoqueapropriamorte. £lelamentaraqueosi¦ênciorei-
+avaemvolta dos tronos e loi por isso que havia dese| ado lalar
.antoet¯obem. NasnoEm,desprezandoatiraniaeoenigmade
.mpovoquen¯oseconlormaaRaz¯opura,eleproprioretoraao
si¦êncio. Seusprincipios n¯o podiamadequar-seaoque existe, as
coisas n¯o s¯o o que deveriam ser, ¦ogo, os principios est¯o sos,
·udoseExos Abandonar-seaelesenaverdademorrer,emorrer
deumamorimpossivelqueeocontr+riodoamorSaint-]ustmor-
.e,ecomelemorreaesperança�eumanovareligi¯o
"Jodas as pedras s¯o talhad

s para o edincio daliberdade",
diziaSaint-]ust"Comasmesmaspedras,vocêspodemconstruir-
heumtemploouumtúmulo "ÒspropriosprincipiosdoContrato
social presidiramaconstruç¯odotúmu¦oqueNapole¯oveiolacrar
Rousseau, aquemn¯olaltava bom senso,compreenderaeletiva-
:ente que asociedadedo Contrato soconvinha aos deuses. Seus
1 57
ALBERT CAMUS
sucessores¦evaram-noaopedaletraetrataramdecriaradivinda-
dedohomem.Abanderravermelha,simbolodaleimarcial,epor-
tantodo£xecutivo,soboantigoregimç torna-sesimbolorevolu-
cion+rionodia 1 O deagostode 1 7 92. Jranslerênciasignilìcativa,
] d f "Þ que aures comenta essa orma. os, o povo, e que somos o
direito . Þ¯osomosrevoltadosÒsrevoltadosest¯onasJulherias."
Nasninguemsetornadeuscomtantalacilidade.Òspropriosdeu-
sesantigosn¯omorremaoprimeirogolpe, easrevoluçõesdose-
culoXIXdever¯ocompletaraliquidaç¯olìna¦doprincipiodivi-
no. Iarislevanta-seent¯oparacolocarorerumavezmarssobalei
dopovo, impedindo-o derestaurarumaautoridadedeprincipio
£ssecad+ver,queosrevoltososde1 830 arrastarampelassalasdas
Julheriaseinstalaramnotronopararender-lhehonrasridiculas,
n¯otemoutrosignilcado Òreiaindapodiasernessa epocaum
respeitadoencarregadopelosnegociosmassuadelegaç¯oeagora
conlerida pela naç¯o, suaregra e a Constituiç¯o £le n¯o e mais
Na|estade Iesaparecendo o antigo regime, deEnitivamente na
Irança,depoisde1 848 eprecrsoqueonovoregimeseconsolrde,e
ahistoria, dosecu¦oXIXate 1 91 4, eadarestauraç¯o dassobera-
niaspopularescontraas monarquias doantigoregime, ahistoria
doprincipiodasnacionalidades £steprincipiotrrunlaem 1 91 9,
quandosevêodesaparecimentodetodososabsolutismosdoanti-
goregimena£uropa. '£mtodososlugares,asoberaniadanaç¯o
substitui,dedireitoedelato,oreisoberano.Soent¯opodemsur-
girasconseqüênciasdosprincipiosde89. Þos,quevivemosago-
ra,somososprimerrosapoder|ulg+-losdemodoclaro.
Òs| acobinosrelorçaramosprincipiosmoraiseternos, napro-
pria medida em que acabavam de suprimir o que amparava ate
ent¯oessesprincipios. Iregadoresdeevangelho,quiseramlunda-
39Exceto a monarquia espanhola. Mas desmorona o império alemão, do qual Guilherme II dizia
que era "a prova de que nós, os Hohenzollern, recebemos nossa coroa somente do céu, e é apenas
ao céu que temos contas a prestar".
O HOMEM REVOLTADO
+entaralraternidadenodireitoabstratodosromanos Substitui-
·amosmandamentosdivinospelalei que supunhamdevesseser
econhecidaportodos,|+queeraaexpress¯odavontadegeral.A
eiencontravasua|ustiEcaç¯onavirtudenaturale|ustiEcava-apor
� aavez Nas, a partir do instante em queumaúnica lacç¯o se
+anilesta,oraciociniodesmorona,eentende-sequeavirtudetem
+ecessidadede|ustiEcaç¯oparan¯oserabstrataAomesmotem-
¸o,os|uristas burgueses do secu¦o X\III,ao esmagarem sobos
seus principios as|ustas evitais conquistas deseupovo, abriram
aminhoparaos dorsnrilismoscontemporaneos. odoindrviduoe
o do£stado
Alei pode eletivamente reinar desdequese|aa lei da Raz¯o
.niversal¨Naselan¯ooenunca, esua|ustiEcaç¯o seperdeseo
'omemn¯olornaturalmentebomChegaodiaemqueaideo¦ogia
eatraemchoquecomapsicologia. Þ¯oh+maisent¯opoderlegiti-
+o Aleievolui,portanto, atecontndir-se comolegisladoreum
+ovobel-prazer.Iaraondevoltar-se`£i-lasemrumo,aoperdersua
1 recrs¯o,elatorna-secadavezmaisimprecisaatelazerdetudoum
c·ime.Aleicontinuaareinar,masn¯otemmaislimiteshos.Saint-
}ustprevira essatiraniaexercidaemnomedo povosilencioso "Ò
crimeh+bilerigir-se-iaemumaespeciedereligi¯o, e osbandidos
estariamnaarcasagrada."Nasissoernevit+ve¦Seosgrandesprin-
cipiosn¯otêmt+ndamentos,sealeisoexprimeumatendênciapro-
visoria, ela soe leita parasertransgredida ou imposta Sadeou a
ditadura,oterrorismoindividualouoterrorismode£stado,ambos
|ustiEcadospelamesmaa
 
sênciade¡ustiEcaç¯o,aiseacha,desdeo
instanteemquearevolta ecortadadesuasraizeseprivadadequal-
quermoralconcreta,umadasaltenativasdoseculoX.
Òmovimentodeinsurreiç¯oquenasceem1 7 89 n¯opodepor-
'1Hegel viu efetivamente que a Filosofia das Luzes quis libertar o homem do irracional. A razão
une os homens que o irracional divide.
ALBERT CAMUS
tantodeter-seai.Ieusn¯oest+totalmentemortoparaos¡acobinos,
n¯omais do queparaosromanticos £lespreservamaindaoSer
Supremo.ARaz¯o,decertamaneira,eaindamediadora£laim-
pli ca uma ordem preexis tente. Nas Ieus est+ ao menos
desencarnadoereduzidoaexistênciateoricadeumprincipiomo-
ral Aburguesian¯oreinoudurantetodoo seculoXIXsen¯ose
apoiando nesses principios abstratos. So que, menos digna que
Saint-]ust, elausouesseapoiocomo+libi,praticandoemtodasas
ocasiões os valores contr+rios. Ior sua corrupç¯o essenciale sua
desanimadorahipocrisia,elaa|udouadesacreditarde mododeE-
nitivo os principios que proclamava Þesse sentido, sua culpa e
intinita. Apartirdoinstanteemque osprincipios eternos, assim
como avirtudelormal,loremquestionados, no momento emque
todovalorlordesacreditado,araz¯o se por+emmovimento,n¯o
seapoiandoemmaisnadaalemdospropriossucessos.£ladese|a-
r+reinar,negandotudoaqui¦oqueexistiu,aErmandotudoaquilo
quevir+aexistir.£lasetornar+conquistadora.Òcomunismorus-
so, porsuacriticaviolentadetodavirtudelormal,completaaobra
revoltadadoseculoXIXaonegarqualquerprincipiosuperiorAos
regicidiosdoseculoXIXsucedem-seosdeicidiosdoseculoXX,
que chegam aos extremos dalogicarevoltadae queremlazerda
terraoreinoemqueohomemser+deus.Começaoreinodahisto-
ria, e,identiEcando-seunicamentecomasuahistoria,o homem,
inEelasuaverdadeirarevolta,deagoraemdianteestar+ladadoas
revoluções niilistas do seculo X, que, ao negarem toda moral,
buscamdesesperadamentea unidade dogênerohumano atraves
deum extenuante acúmulo de crimese de guerras À revoluç¯o
|acobina,quetentavainstituirareligi¯odavirtude, aEmdenela
criaraunidade,suceder-se-¯oasrevoluçõescinicas,querdedirei-
taoudeesquerda,quev¯otentarconquistaraunidadedomundo
paraEnalmentelundaremareligi¯odohomemJudooqueerade
Ieus ser+deagoraemdiante dadoaCesar
Os
_
£IC
¡
IIÒS
A |ustiça, a raz¯o, averdade brilhavam ainda no ceu|acobino,
essasestrelasExaspodiamaomenosservirdepontosderelerên-
ciaÒspensadoresalem¯esdoseculoXIX,particularmenteHegel,
qaiseramcontinuaraobradaRevoluç¯oIrancesa,' aosuprimi-
em as causas de seu malogro Hegel acreditou discernir que o
|error estava de antem¯o contido na abstraç¯o dos principios
,acobinos.Segundoele,aliberdadeabsolutaeabstratadeviacon-
duziraoterrorismo,oreinododireitoabstratocoincidecomoda
opress¯o Hegelobserva, porexemplo, queo periodoquevaide
AugustoaAlexandreSevero(235 d. C. )eodomaiorconhecimen-
tododireito,mastambemodatiraniamaisimplac+vel.Iarasupe-
.aressacontradiç¯o,eraprecisoent¯oquererumasociedadecon-
creta,revigoradaporumprincipioquen¯olosselormal,emquea
liberdadeseconciliassecomanecessidadeÒpensamentoalem¯o
acabouportantofbstituindoaraz¯ouniversal,poremabstrata,de
Saint-]ustedeRousseau,porumanoç¯omenosartiE cial,porem
maisambigua - ouniversalconcretoAteaquelemomento,araz¯o
pairava acimadoslenêmenosque comelaserelacionavam. £i-la
"E da Reforma, a "revolução dos alemães", segundo Hegel.
ALBERT CAMUS
deagoraemdianteincorporadaaoluxodosacontecimentoshis-
toricos,queelaexplica,aomesmotempoemqueesteslhedäoum
corpo.
Iode-sealirmarcomsegurançaqueHegelracionalizouateo
irracional Nas,ao mesmotempo,eledavaarazäoumavibraçäo
desarrazoada,nelarntroduzindoumadesmedidacu|osresultados
estäodiantedenossosolhosÞopensamentoEodeseutempo,o
pensamento alemäo introduziu subitamente um movimento
irresistivel Ierepente,averdade,arazäoea|ustiçaencarnaram-
senodevirdomundo Nas, aolanç+-¦asnumaaceleraçäo perpe-
tua,aideologiaa¦emäconlundiaasuaexistênciacomoseumovi-
mento,Exandooterminodessaexistêncranolimdodevirhistori-
co, seequehouvesseumlm. Lssesvaloresdeixaramdeserrele-
rênciasparasetornaremlnsQuantoaosmeiosdealcançaresses
lins, isto e, avidae a historia, nenhumvalorpreexistente podia
orient+-los Ao contr+rio, uma grande parte da demonstraçäo
hegelianaconsisteemprovarqueaconsciênciamoral,emsuaba-
nalrdade, aquelaque obedecea¡ustiça e averdade como setais
va¦ores existissemloradomundo, compromete|ustamenteo ad-
ventodessesvalores Aregradaaçäotornou-seportantoapropria
açäo,quedevesedesenrolarnastrevasenquantoesperaailumina-
çäolinalArazäo, anexadapor esse romantismo, näo e mais que
umapaixäointexivel
Òslms continuaramosmesmos,soaambrçäo aumentou, o
pensamentotornou-sedinamico,arazäo,devireconquistaAaçäo
eapenasumc+lcu¦oemlunçäodosresultados,enäodosprincipi-
os Llasecont·nde, conseqüentemente, comummovimentoper-
petuoIamesmalorma,todasasdisciplinas,noseculoXIX,des-
viaram-sedahidezedaclassilicaçäoquecaracterizavamopensa-
mentodoseculoX\III AssrmcomoIarwrnsubstrturuIrneu,os
llosolosdadialeticaincessantesubstituiramosharmênicoseeste-
reis construtores darazäo. Iata desse momento aideia ¸hostil a
1 62
O HOMEM REVOLTADO
. odoo pensamentoantigoque, pelocontr+rio, seencontrava em
¸artenoespiritorevolucion+riolrancês)dequeohomemnäotem
. . manaturezahumanadelinitiva,queelenäoeumacriaturatermi-
+ada,masumaaventuradaqualpodeseremparteocriador.Com
`apo¦eäoeHegel, Elosolonapoleênico,começaaepocadaeEc+-
ia.AteÞapoleäo,oshomensdescobriramoespaçodounrverso, a
1 artirdele, otempodomundoeoluturo.Òespiritorevoltadose
·.r+prolundamentetranslormado.
Ietodamaneira,eumaexperiênciasingularencontraraobra
1.Hegelnessanovaetapadoespiritoderevo¦taLmcertosenti-
1o, nardade,todaasuaobrarespiraohorroradissidência. ele
qurs sero espirito dareconcrliaçäo Nas essa e apenas uma das
'acesdeumsistemaque,porseupropriometodo,eomaisambi-
gaodaliteraturaElosoEca. Þamedidaem que, para ele, oquee
ealeraciona¦,ele|ustiEcatodasasiniciativasdoideologoemrela-
çaoaoreal.ÒquesedenominoupanlogismodeHegeleuma|us-
· :caçäo do estado de lato. Nas a sua ElosoEa tambemexalta a
1.strurçäo pela destrurçäo. Sem dúvrda, tudo se reconcrlia na
1|aletica,enäosepodecolocarumextremosemquesur|aooutro,
l Hegel, como em todo grande pensamento, h+ material para
ontrariarHegelNasosElosolosraramentesäolidosapenascom
H inteligência, mas, muitas vezes, com o coraçäo e suas paixões,
q aenadareconciliam
IeHegel,emtodoo caso, osrevolucion+riosdoseculoX
|· raram o arsena¦quedestruiu deEnitivamente osprincipios lor-
+ais davirtud/ Iela,preservaram avisäo de uma historiasem
|anscendência,resumidaaumacontestaçäoperpetuaealutaen-
.|e asvontades de poder Sob seu aspecto critico, o movimento
..volucion+riodenossotempoeemprimeirolugarumadenúncia
.iolentadahipocrrsialormalquepresideasocredadeburguesa. A
1 retensäo, parcia¦mente lundamentada,docomunismomoderno,
comoado lascismo, mais lrivola, edenunciaramistilicaçäoque
1 63
ALBERT CAMUS
corrompeademocraciaburguesa,osseusprincipioseassuasvir-
tudes.A transcendênciadivina, ate 1 7 89, servia para|ustiEcaro
arbitrio rea¦ Apos a Revoluç¯o Irancesa, a transcendência dos
principioslormais,raz¯oou|ustiça,servepara|ustiEcarumado-
minaç¯oquen¯oe|ustanemracional£ssatranscendência,epor-
tanto, umam+scaraque precisa ser arrancada. Ieus est+morto,
mas,comoStirnerhaviaprevisto,eprecisomataramoraldosprin-
cipiosondeaindaseencontraamemoriadeIeus.Òodioavirtu-
delormal,testemunhadegradada dadivindade,lalsatestemunha
aserviço dain|ustiça, continua sendo umadas molasdahistoria
atual Þada e puro, este grito convulsiona o seculo Ò impuro,
logoahistoria,vaitornar-searegra,eaterradesertaser+entregue
alorçanuaqueir+decidirseohomemeoun¯odivino. £ntra-se
assim na mentira e naviolência, como seentra na religi¯o, e do
mesmomodopatetico.
Nasaprimeiracriticalundamentaldaboaconsciência,ade-
núnciadabelaalmaedasatitudesinelicazes,nosadevemosaHege¦,
paraquemaideologiadobem,daverdadeedabelezaeareligi¯o
daquelesquen¯otêmreligi¯o £nquantoaexistência daslacções
surpreendeSaint-]uste transgride a ordemidea¦queeleaErma,
Hegel n¯o so n¯o se surpreende, como ate alirma, ao contr+rio,
quealacç¯oeoprelúdiodoespirito.Jodomundoevirtuosopara
o|acobino Ò movimento que começacom Hegel, equetriunla
atualmente,supõe,aocontr+rio,queninguemevirtuosomasque
umdiatodo mundo o ser+. Þo começo,tudoeidilio para Saint-
just, segundo ¡ege¦, tudo e tragedia Nas noEna¦ d+tudo no
mesmo. É precisodestruiraqueles quedestroemoidiliooudes-
truirparacriaroidi¦io.£mambososcasos,avitoriaedaviolên-
ciaAsuperaç¯odoJerror,empreendidapor¡ege¦,consegueape-
nasamp¦iaroJerror.
Isson¯oetudoÒmundodeho| esopodeser,aparentemente,
ummundo de senhores e de escravos, porqueas ideo¦ogias con-
1 64
O HOMEM REVOLTADO
|emporaneas,aquelasquemodilicamalacedomundo,aprende-
·amcomHegelapensarahistoriaemlunç¯odadialeticadomi-
+iolservid¯oSe,soboceudeserto,naprimeiramanh¯domundo,
soh+umsenhoreumescravo, seatemesmo, dodeusquetrans-
.endeahumanidade, h+apenasumaligaç¯osenhor-escravo, n¯o
1 odehaveroutraleinomundoan¯oseraleidalorçaSomenteum
1eusouumprincipioacimadosenhoredoescravopodiaminter-
.irate ent¯o, lazendocomqueahistoriadoshomensn¯oseresu-
aisseunicamenteahistoriadesuasvitoriasoudesuasderrotas.Ò
eslorçodeHege¦,edoshegelianosemseguida,loiaocontr+riono
entidodedestruircadavezmais todatranscendênciaetoda nos-
|algiaqatranscendência Sebem queha| ainlinitamente mais em
Hege¦dquenos hegelianos deesquerda,quedequalquermodo
se lheimpuseram,elelornece,noentanto,noniveldadialeticado
senhoredoescravo,a|ustiEcaç¯odecisivadoespiritodepoderno
seculoXX. Òvencedorsempretemraz¯o, estaeumadas lições
quesepodetirardomaiorsistemaalem¯odoseculoXIX.É bom
observarque h+naprodigiosaestruturahegelianamaterial para
.ontradizer,emparte,essesdados. NasaideologiadoseculoX
c¯oest+ligadaaoquesechama,impropriamente,deidealismodo
mestredeIenaAlacedeHegel,queressurgenocomunismorus-
so,loisucessivamenteremode¦adaporIavidStrauss,IrunoIauer,
Ieuerbach,Narxetodaaesquerdahegeliana.Þestetrabalho,so
¡egel nos interessa,|+ que so ele teve pesona historiade nosso
tempo.SeÞietz�heeHege¦servemde+libisparaossenhoresde
IachauedeKaraganda, ¹´isso n¯ocondenatodaa suaElosoEa,
masderxaasuspeitadequeumdosaspectosdeseuspensamentos,
oudesualogica,possalevaraessesterriveisconlins
"Que encontraram modelos menos filosóficos nas polícias prussiana, napoleônica, czarista ou nos
campos ingleses da
Á
frica do Sul.
1 65
ALBERT CAMUS
ÒniilismonietzschianoemetoJicoAPhénoménologie de l'Esprit
(Fenomenologia do espírito) temtambemum car+terpeJagogico
ÞopontoJe|unç¯oJeJoisseculos,elaJescreve,emsuaseta-
pas, aeJucaç¯oJaconsciênciaacaminhoJaverJaJeabsoluta
É umEmílio metalisico. ` CaJaetapae umerro, acompanha-
Jo,alemJisso, Jesançõeshistoricasquasesemprelatais, quer
paraaconsciência,querparaacivilizaç¯oemqueelaserelìete
Hegelpropõe-seamostraranecessiJaJeJessasetapasJoloro-
sas SobumJeseus aspectos,aPhénoménologie e umameJita-
ç¯osobreoJesesperoeamorte SoqueesseJesesperosequer
metoJico, |+ que no Em JahistoriaJeve sertransliguraJo na
satislaç¯o e na sabeJoria absoluta £sta peJagogia, contuJo,
temoJeleitoJesocontarcomalgunssuperioreseloilevaJaao
peJaletra,enquanto,literalmente,elaJese| avaapenasprocla-
maroespirito Òmesmoacontececomacelebrean+liseJoJo-
minioeJaserviJ¯o
Òanimal,segunJoHegel,temumaconsciênciaimeJiataJomun-
Joexterior,umsentmentoJesi,masn¯oaconsciênciaJesimesmo,
queJistngue o homem. LstesonasceverJaJeiramenteaparurJo
instanteemquetomaconsciênciaJesimesmo, naqualiJaJeJeser
racional £leeportantoessencialmente autoconsciênciaIaraquea
autoconsciênciaseaErme,elaJeveJistinguir-seJaquiloquen¯oeela.
Òhomemeacriataraque,paraaErmarsuaexistênciaesuaJilerença,
nega. Ò que JistingaeaautoconsciênciaJo munJonaturaln¯oea
43 A comparação de Hegel com Rousseau faz algum sentido. O êxito da Phénoménologie foi, em
suas conseqüências, do mesmo tipo que o do Contrato social. Ela modelou o pensamento político
de seu tempo. A teoria da vontade geral de Rousseau é, aliás, reencontrada no sistema hegeliano.
44Segue-se uma exposição es
9
uemática da dialética senhor/escr�vo. Aqui só nos �nteressam as
conseqüências dessa análise. E por isso que nos pareceu necessána uma nova expostção, que res­
salte certas tendências em vez de outras. Ao mesmo tempo, isso excluía toda exposição crítica.
Não será difícil, entretanto, verificar que, se o raciocínio se mantém na lógica, por meio de alguns
artifícios, ele não pode pretender instituir verdadeiramente uma fenomenologia, na medida em
que se baseia em uma psicologia totalmente arbitrária. A utilidade e a eficácia da crítica de
Kierkegaard contra Hegel é que ela se apóia muitas vezes na psicologia. Isso, de resto, nada
subtrai ao valor de certas análises admiráveis de Hegel.
1 66
O HOMEM REVOLTADO
s· :plescontemplaç¯oemqueelaseiJentEcacomomunJoexterior,
quecenJo-seJesimesma,masoJese|oquepoJesentremrelaç¯o
ao munJo.£steJese|oremete-aasuaiJentiJaJe,quanJoelalhemos-
·aomunJoexteriorcomoJilerente£mseuJese|o,omunJoexterior
6 oqueelan¯otem,equeexiste,masqueelaquerterparaexistir,eque
+1omaisexstaIogo,aautoconsciênciaenecessanamenteJese|o Nas,
¸araexistir,eprecisoqueelase|asatisleita,eelasopoJesatislazer-se
omarealizaç¯oJeseuJese|o £laage,portanto,comolmJereali-
zar-see,aolazê-lo,nega,suprimeomeiopeloqualelaserealiza£lae
+egaç¯o Ag¡re JestruirparalazernascerarealiJaJe esp|rital Ja
.onsciênciaNasJestruirumob|etoinconscientemente,comose Jes-
.·oiac�e,porexemplo,noatoJecomer,laztambem
|
arteJanatu-
ezaJoanimalConsumirn¯oeainJaestarconsciente£precisoque
Jese|oJaconsciência se|aJirigiJo aalguma coisaque n¯o se|aa
catarezainconscienteAúnicacoisanomunJoqueseJistingaeJessa
.aturezae|ustamenteaautoconsciência.Iortanto,oJese|oJeveestar
centraJoemoutralormaJeJese|o,aautoconsciênciaJevesatislazer-
secomoutralormaJeautoconsciência£mlinguagemsimples.oho-
aemn¯oereconheciJoen¯osereconhececomohomemenquantose
'·mitarasubsistircomoanimal£leprecisaserreconheciJopelosou-
|roshomens.JoJaconsciência,emseuprincipio,eJese|oJeserreco-
checiJaesauJaJacomotalpelasoutrasconsciências S¯oosoutros
quenosengenJramSorecebemosumvalorhumano,superioraova-
loranimal,nasocieJaJe
]+queoval� supremoparaoanimaleapreservaç¯oJaviJa,
aconsciênciaJevealçar-seacimaJesseinstintoaEmJealcançaro
valorhumano. £laJevesercapaz JecolocarasuaviJaem|ogo.
Iara serreconheciJo poroutra consciência, o homemJeveestar
prontoaarriscaraviJaeaceitaraoportuniJaJeJamorte.Asrela-
çõeshumanaslunJamentaiss¯oassimrelaçõesJepuroprestigio,
umalutaperpetua,quesepagacomamorte,peloreconhecimento
Jeumserhumanoporoutro.
1 67
ALBERT CAMUS
Þaprimeiraetapadesuadialetica,HegelaErmaque,sendoa
morteoterrenocomumaohomemeaoanimal,eaoaceit+-laeaté
mesmodese|+-laqueoprimeirosedistinguir+dosegundo.Þoama-
godessalutaprimordialpeloreconhecimento,ohomemeent¯oiden-
tiEcado comamorteviolenta. "Norra e tone-se oquevocêe",o
lematradicionaleretomadoporHegel.Naso"torne-seoquevocê
e"d+lugarao "torne-seoquevocêaindan¯oe". Lssedese|oprimi-
tivoeapaixonadopeloreconhecimento,quesecont·ndecomavon-
tadedeexistir,sosesatislar+comumreconhecimentoqueseestende
poucoapoucoateoreconhecimentodetodos.Iamesmalorma,na
medidaemquetodosqueremserreconhecidosportodos,alutapela
vida soir+ cessar com o reconhecimento de todos por todos, que
marcar+oEmdahistoriaÒserqueaconsciênciahegelianaprocura
obter nasce na gloria, duramente conquistada, de uma aprovaç¯o
coletiva É importanteassinalarque,nopensamentoquevaiinspirar
nossasrevoluções,obemsupremon¯ocoinciderealmente,portanto,
com o ser, mas com um parecer absoluto. A historia dos homens
comoumtodonadamaise,dequalquersorte,queumalongaluta
ateamortepelaconquistadoprestigiouniversaledopoderabsolu-
to.Lmsuaessência,elaeimperialista.Lstamoslongedobomselva-
gem doseculoX\IIIedoContrato social. Þo som e nal riados
seculos, cadaconsciência,para existir, deagora emdiantedese|aa
mortedooutroAlem disso, essatragediaimplac+veleabsurda,|+
que,nocasodaaniqui¦aç¯odeumadasconsciências,aconsciência
vitoriosadeixaporissomesmodeserreconhecida,poisn¯opodeser
reconhecidapeloque n¯o existe mais. Þarealidade, allosoEado
parecerencontraaquioseulimite.
Þenhumarealidadehumanateriasidoportantoengendrada,
se,porumadiposiç¯oquesepodeconsiderarlelizparaosistema
deHegel,elen¯otivesseencontrado,desdeaorigem,doistipos
deconsciências, dasquaisuman¯otemcoragemderenunciara
vida,aceitandoassimreconheceraoutraconsciênciasemserpor
1 68
O HOMEM REVOLTADO
l · l a reconhecida.Lmresumo,elaaceitaserconsideradacomouma
.o· sa Lssaconsciênciaque,parapreservaravidaanimal,renun-
.· +avidaindependenteeaconsciênciadoescravo. Aquelaque,
conhecida,obtemaindependênciaeadosenhorIistinguem-
h umadaoutranomomentoemquesedelrontamenoqua¦uma
�curvadiantedaoutra.Nesseest+gio,odileman¯oe maisser
· .re oumorrer, mas matar ouescravizar Ò dilema repercutir+
+aseqüênciadahistoria,sebemqueo absurdo, nestemomento,
· adan¯oeste| areduzido.
Seguramente,aliberdadedosenhoretotalemrelaç¯oaoes-
:avoemprimeirolugar,|+queesteoreconhecetotalmente,eem
elaç¯oimundonaturalemseguida,umavezquepeloseutraba-
+oescravotranslorma-oemob|etosdegozoqueosenhorir+con-
�amir numa perpetua aErmaç¯o de si mesmo No entanto, essa
atonomian¯oeabsoluta.Òsenhor,parasuadesgraça,ereconhe-
c .do em suaautonomiaporumaconsciênciaque eleproprion¯o
.econhececomoautênomaIogo,elen¯opodesersatisleito,esua
autonomiae somente negativa Ò dominioeumimpasse.j+que
elen¯oconseguemaisrenunciaraodominioevo¦taraserescravo,
o destino eterno dos senhores e viverem insatisleitos ou serem
aortos Þahistoria,o senhor so serveparasuscitaraconsciência
servil,|ustamenteaúnicaquecriaahistoria.Òescravo,naverda-
de, n¯o est+ ligado a sua condiç¯o, ele quer mud+-la. Lle pode
portantoeducar-se,aocontr+riodosenhor,oquesedenominahis-
torian¯oemaisquea\seqüênciadeseuslongoseslorçosparaobter
aliberdaderealIelotraba¦ho,pelatranslormaç¯odomundona-
turalemmundotecnico,ele|+seemancipoudessanatureza,que
estavanaorigemdesuaescravid¯o,porqueelen¯osouberaelevar-
seacimadelapelaaceitaç¯odamorte.45 Llen¯ochegaateaangús-
"A bem dizer, o equívoco é profundo, pois não se trata da mesma natureza. O advento do mundo
técnico suprime a morte ou o medo da morte no mundo natural? Eis a questão importante que
Hegel deixa em suspenso.
1 69
ALBERT CAMUS
tia damortesentida nahumi¦haç¯ode todo serque n¯o eleva o
escravo ao nive¦ da totalidade humana. Ie agora em diante, ele
sabequeestatota¦idadeexiste,solherestaconquist+-la,atravesde
umalongaseqüênciade¦utascontraanaturezaecontraossenho-
resAhistoriaidentiEca-se,portanto,comahistoriadotrabalhoe
darevolta Þ¯oedeadmirarqueomarxismo-¦eninismotenhati-
radodessadia¦eticaoidealcontemporaneodosoldado-oper+rio
Ieixaremos de ¦ado a descriç¯o das atitudes da consciência
servil¸estoicismo,ceticismo,consciênciainle¦iz)queseencontram
aseguirnaPhénoménologie. Nasn¯osepodedesprezar, quantoas
suasconseqüências,umoutroaspectodessadialetica,aidentilica-
ç¯odarelaç¯osenhor-escravocomarelaç¯oentreoantigodeuseo
homemImcomentadordeHegel´observaque,seosenhorre-
almenteexistisse,eleseriaIeus.ÒproprioHegelchamaoSenhor
domundodedeusreal. £msuadescriç¯o da consciência inleliz,
ele mostra como o escravo crist¯o,querendonegaraquiloque o
oprime, relugia-se no mundo do a¦em, atribuindo-se por conse-
guinteumnovosenhornapessoadeIeus.£moutrolugar,Hegel
identiEcaosenhorsupremocomamorteabsolutaJrava-seent¯o,
novamente,emumescal¯osuperior, alutaentreohomemsub|u-
gado e o deus cruel deAbra¯o Aresoluç¯o desse novo conlito
entreodeusuniversaleoserhumanoser+lornecidapelo Cristo,
quereconciliaemsiouniversa¦eosingular NasoCristolazde
a¦gummodopartedomundosensive¦£lepêdeservisto,viveue
morreu Iogo, eleeapenasumaetapa nocaminhodouniversa¦,
ele tambem deve ser negado dialeticamente. É preciso somente
reconhecê-locomohomem-deus paraobterumasintesesuperior
Saltandoosesca¦õesintermedi+rios,bastar+dizerqueessasintese,
depoisdeseterencarnadonaIgre|aenaRaz¯o,terminano£sta-
"Jean Hyppolite. Genese et structure de la Phénoménologie de l
'
Esprit (Gênese e estrutura da
Fenomenologia do espírito), p. 168.
1 70
O HOMEM REVOLTADO
doabsoluto, erigido pelos soldados-oper+rios, no qual o espirito
domundoseretetir+enlimemsimesmonoreconhecimentomú-
aodecadaumportodosenareconciliaç¯ouniversaldetudoaquilo
qaeexistiusobosol.Þestemomento,"emquecoincidemosolhos
doespiritoeosdocorpo",cadaconsciêncian¯oser+maisportanto
queumespelhoquerelleteoutrosespelhos,eleproprioreletidoao
· aEnitoemimagensrepercutidas.Acidadehumanacoincidir+com
a deIeus,ahistoriauniversal,tribunaldomundo,prolerir+asua
s.ntença,naqualobemeomalser¯o|ustilicados Ò £stadode-
sempenhar+o papel deIestinoe proclamar+asuaaprovaç¯ode
.odarealidadeno"diaespiritualdaIresença".
Isso resume as ideias essenciais que, a despeito ou porcausada
.xtremaabstraç¯odoexposto,litera¦menteconduziramoespirito
·evolucion+rioadireçõesaparentementedilerentesequeagoraaca-
|amosporreencontrarnaideologiadenossotempo Òimora¦ismo,
o materia¦ismocientiEcoeoateismo,quesubstituiudeEnitivamente
o antiteismodosantigosrevoltados,lormaramumasocoisa,soba
· ntuênciaparadoxaldeHege¦, com ummovimentorevolucion+-
|ioque,atesuaepoca,| amaisseseparararealmentedesuasorigens
aorais,evangelicasouidealistas.£ssastendências,seasvezeses-
t¯o longe depertencerem especilicamenteaHegel, encontraram
sua lonte na ambigüidade de seu pensamento e sua critica da
transcendência. A originalidade incontest+vel de Hegel loi ter
destruidodeEnitivamentetodatranscendênciavertical,esobretu-
d� ado: p�incipiostemdúvida,el� rest�ur�,nodevirdomundo,
atmanencado espnto. Nas estatmanencan¯oeExa,elanada
tememcomumcomopanteismodopensamentoantigo.Òespiri-
to est+, en¯o est+, no mundo, ele aiselaz e estar+. Òvalorlica
portantoadiadoparaolimdahistoriaAtel+,n¯oh+criteriopro-
prioparalundamentarum|uizodevalor.É precisoagireviverem
lunç¯odoluturoJodamora¦torna-seprovisoria.ÒsseculosXIX
1 7 1
ALBERT CAMUS
eXX,emsuatendênciamaisprolunda,s¯oseculosquetentaram
viversemtranscendência.
Imcomentador,hegeliano, deesquerdaeverdademas,ape-
sardisso, ortodoxo quanto aesseponto preciso, observa, ali+s, a
hostilidade de Hegelemrelaç¯o aos moralistas, assinalandoque
seuúnicoaxiomaeviverdeacordocomosusosecostumesdesua
naç¯o.`+ximadeconlormismosocialdaqualHegeldeueletiva-
menteasprovasmaiscinicasKo|èveacrescenta,contudo, queesse
conlormismo so elegitimonamedidaemqueoscostumesdessa
naç¯ocorresponderemaoespiritodotempo,querdizer,enquanto
loremsolidoseresistiremascriticaseaosataquesrevolucion+rios
`asquemdecidir+ sobre essasolidez,quem|ulgar+sualegitimi-
dade`H+cemanososregimescapitalistasdoÒcidenteresistema
violentasinvestidas.Ieve-se,porisso,consider+-loslegitimos`In-
versamente,aquelesqueeramEeisaRepúblicade\eimardeveriam
desviar-sedestecaminho,comprometendo-secomHitlerem1 933,
porqueaprimeirasucumbiraaosgolpesdosegundo`ARepública
Lspanholadeveriasertraidanoproprioinstanteemqueoregime
do general Iranco triunlava` S¯o conclusões que o pensamento
reacion+riotradicionalteria|ustilicadoemsuaspropriasperspec-
tivas. A novidade, de incalcul+veis conseqüências, e o lato de o
pensamentorevolucion+riotê-lasassimiladoAsupress¯odetodo
valormoraledosprincipios,suasubstituiç¯opelolato-reipro-
visorio, mas real-, sopôde conduzir, comovimos, ao cinismo
politico,querdoindividuo,quer,maisseriamente,deLstado.Òs
movimentospoliticosouideologicosinspiradosporHegelreúnem-
setodosnoabandonoostensivodavirtude.
Hegeln¯opôderealmenteimpedirqueaquelesqueo leram
comumaangústiaquen¯oerametodica,numaLuropa|+dilace-
radapelain|ustiça,sevissemlançadosnummundoseminocência
47 Alexandre Kojeve.
1 72
O HOMEM REVOLTADO
c semprincipios,|ustamentenessemundoqueHegeldizseremsi
+esmoumpecado,|+queest+separadodoLspirito. Semdúvida,
Hegelperdoaos pecados nolim dahistoriaAtel+, noentanto,
.odaatividadehumanaser+culpada"Inocente,portanto,esomente
a ausênciadeatividade,oserdeumapedraenemmesmoodeuma
c|iança " A inocência das pedras, portanto, nos e estranha. Sem
· aocência -nenhuma relaç¯o, nenhuma raz¯o. Sem raz¯o -a
'orça nua, o senhor e o escravo, esperandoque um diaimpere a
.az¯o Lntreo senhor eo escravo, o solrimentoesolit+rio, aale-
gria, semraizes, ambasimerecidas. Comoviver ent¯o, como su-
l ortar,quandoaamizadeeparaoEmdostempos`Aúnicasaidae
c|iararegra, dearmanam¯o "`atarouescravizar" -aqueles
_aeleram Hegel com sua única eterrivelpaix¯o soretiveram o
¸|imeirotermododilema.Iele sotiraramaElosoliadodesprezo
edo desespero,|ulgando-seescravosesomenteescravos, ligados
¸.lamorteao Senhorabsoluto,eaos senhoresterrestres pelo chi-
cote.LssalilosoEadam+consciêncialhesensinouapenasquetodo
escravo so o e pelo consentimento, e que so se liberta poruma
ecusaquecoincidecomamorteRespondendoaodesalio,osmais
o.gulhososdentreelesidentiEcaram-seinteiramentecomessare-
cusaedevotaram-seamorte.Ainal,dizerqueanegaç¯oeemsi
+esmaumatopositivo|ustiEcavaantecipadamentetodasasespe-
ciesdenegaç¯oeanunciavaobradodeIakanineÞetchaiev."Þos-
samiss¯oedestruir,n¯oconstruir. "IaraHegel,niilistaeraapenas
o cetico, que n¯o tinha outrasaida a n¯o sera contradiç¯o ou o
suicidiolilosolico

aselepropriodeuorigemaumoutrotipode
aiilista,que,ao

zerdotedioumprincipiodeaç¯o,identiEcavao
seusuicidiocomoassassinatolilosolico '`Nessepontonascemos
|erroristas,quedecidiramqueeranecess+riomataremorreraEm
'8Este niilismo, apesar das aparências, é ainda niilismo no sentido nietzschiano, na medida em
que é calúnia da vida presente em benefício de um além histórico no qual nos esforçamos para
acreditar.
1 73
ALBERT CAMUS
deexistir,¡+queo homemeahistoriasopodemsercriados pelo
sacrrlicroepeloassassinato.£stagrandeideiadequetodoidealrs-
moev¯o, sen¯olorpagocomorisco dapropriavrda,deviaser
levada ao extremo pelos| ovens que n¯o se empenhavam em
propugn+-ladoaltodeumac+tedrauniversit+riaantesdemorre-
rememseusleitos, masquemorriamemmeioasbombaseatena
lorcaIestalorma,pelosproprioserros, elescorrigiamoseumes-
treemostravam, contrariamenteaosseusensinamentos,quepelo
menosumaaristocraciaesuperiorahorrendaaristocraciadavito-
riaexaltadaporHegel aaristocraciadosacrilicio
Imaoutraespeciedeseguidores,queir+lerHegelcommais
serredade,escolher+osegundotermododilema,declarandoqueo
escravo so se emancrpa ao escravrzar por suavez. As doutrinas
pos-hegelianas,esquecendooaspectomisticodecertastendências
domestre,levaramessesseguidoresaoateismoabsolutoeaomate-
rialismocientiEco.Nasessaevoluç¯on¯opodeserimaginadasem
odesaparecimentoabsolutodetodoprincipiodeexplicaç¯otrans-
cendenteesemadestruiç¯ototaldoideal|acobino Semdúvida,
imanência n¯o e ateismo Nas a imanência emmovimento e, se
assimpodemosdizer,ateismoprovisorio'AvagaliguradeIeus,
queemHegelaindasereletenoespiritodomundo,n¯oser+dili-
cil de apagar. Ia lormulaambigua de Hegel "Ieus semo ho-
mem n¯o e maisque o homem sem Ieus", seus sucessoresv¯o
tirarconclusõesdecisrvasIavrdStrauss,nasuaVida de Jesus, rsola
ateoriadoCristoconsideradocomoIeushomem.IrunoIauer
(Crítica da história evangelista) cria uma especie de cristianismo
materialista ao insistir na humanidade de]esus Iinalmente,
Ieuerbach¸queNarxconsideravaumgrandeespirito,edequem
sereconhecer+odiscipulocritico), emsuaEssência do cristianismo,
49De qualquer modo, a crítica de Kierkegaard é válida. Fundamentar a divindade na história é
fundamentar, paradoxalmente, umvalor absoluto em um conhecimento aproximado. Algo "eter­
namente histórico" é uma contradição em termos.
1 74
O HOMEM REVOLTADO
substrturr+todateologiaporumareligi¯odohomemedaespecre
queconverteugrandepartedopensamentocontemporaneo.Sua
tarelaser+mostrarqueadistinç¯oentre o humanoe o divino e
ilusoria, ela nada mais e do que a distinç¯o entre a essência da
humanidade,istoe, anaturezahumana,eoindividuo."Òmisterio
deIeuse apenas omisteriodoamordo homem porsiproprio "
£nt¯o,|+ressoamosacentosdeumanovaeestranhaprolecia. "A
individualidadetomouolugardale, araz¯o,odaIiblia,apoliti-
ca, o da religi¯o e da Igre|a, a terra, o do ceu, o trabalho, o da
oraç¯o,amiseria, odoinlerno,eohomem,olugardoCristo "So
|+portantouminlerno, eeleedestemundo econtra elequese
precisalutar.Apolitrcaerelrgr¯o,eocristranismotranscendente,o
doalem, lortaleceossenhoresdaterrapela renúnciadoescravoe
suscita um senhora mais no lundo dos ceus É por isso que o
ateismoeoespiritorevolucion+rios¯oapenasasduaslacesdeum
:esmomovimentodeliberaç¯o.£ssaearespostaaperguntasem-
prelormuladaporqueomovimentorevolucion+rioseidentilicou
comomaterialismoemvezdeseidentiEcarcomoidealismo`Ior-
quesub|ugarIeus,lazerdeleumescravo,eomesmoquedestruir
atranscendênciaquemantinhaopoderdosantigossenhores,pre-
parando, com a ascenslo dos novos, os tempos do homem-rei.
Quandoamiseriativeracabado,quandoascontradiçõeshistoricas
estrverem resolvidas, "overdaderro deus, o deushumano, ser+o
£stado" Òhomo homini lupus torna-seent¯ohomo homini deus. £sse
pensamentoest+nas origens do mundocontemporaneo. Assiste-
se, com Ieuerbach,nascimento deum terrivel otimismo, que
vemosaindaatualmenteemaç¯oequepareceoantipodadodeses-
peroniilista Naseapenasumaaparência.É precisoconheceras
derradeiras conclusõesde Ieuerbachemsua Togonia para enten-
deraorigemprolundamenteniilistadessespensamentosinllama-
dos. Contrao proprio Hegel, Ieuerbachir+aErmar, naverdade,
queohomemeaquiloqueelecome,resumindo destalormaoseu
1 75
ALBERT CAMUS
pensamentoeoluturo. ''A verdadeiraElosoliaeanegaç¯odaE¦o-
soEa. Þenhumare¦igi¯oeaminhareligi¯o Þenhumalilosoliaea
minhaE¦osoEa"
Òcinismo,adeilicaç¯odahistoriaedamateria,oterrorindi-
vidualeocrimede£stado,essasconseqüênciasdesmesuradasv¯o
nascer, todasarmadas, de uma concepç¯oequivocadadomundo,
queremeteunicamenteahistoriaocuidadodeproduzirosvalores
e averdade Senada pode ser entendido claramenteantes quea
verdade, nolimdostempos,tenhasidorevelada,todaaç¯oearbi-
tr+ria,alorçaacabareinando "Searea¦idadeeinconcebivel",ex-
clamava¡egel, "eprecisoquelor|emosconceitosinconcebiveis."
Imconceitoquen¯osepodeconceberprecisaeletivamente,como
oerro,serlor|ado.Nas,paraseraceito,elen¯opodedependerda
persuas¯o,queedaordemdaverdade,eledeveEnalmente serim-
postoAatitudede¡egelconsisteemdizer."Istoeaverdade,que
noentantonospareceoerro,masqueeverdadeira|ustamentepor-
que lhe acontece sero erro Quanto a prova, n¯o sou eu, mas a
historia,emseutermino,quealornecer+. "£ssapretens¯osopode
acarretarduasatitudes. ouasuspens¯odetodaalirmativaateque
selorneçaaprovaouaaErmativadetudoaquiloque,nahistoria,
parecevotadoao sucesso,particularmentealorça £mambosos
casos, um niilismo. Þ¯o se consegue compreender, de qualquer
modo,opensamentorevolucion+riodoseculoXXsesedesprezar
olatodeque,porumacasoinle¦iz,grandepartedesuainspiraç¯o
venhadeumali¦osoliadoconlormismoedooportunismo.Aver-
dadeirarevo¦tan¯oeco¦ocadaemcausapelasdistorçõesdestepen-
samento
Ie resto, o que autorizava a pretens¯o de ¡ege¦ e o que a
tornainte¦ectualmente,eparasempre,suspeita£leacreditouque
ahistoriaem 1 8 07, comÞapole¯oeeleproprio,haviaterminado,
que a alirmaç¯o era possivel e que o niilismo lora vencido. A
Phénoménologie, bibliaquesoteriaproletizadoopassado,colocava
1 76
O HOMEM REVOLTADO
amlimitenostempos £m 1 807, todosospecadoseramperdoa-
dos, e as epocas, terminadas Nas a historia continuou. Òutros
¡ecados, desdeent¯o,saltamaosolhoselazenestouraroescanda-
|odosantigoscrimes,abso¦vidosparasemprepelolilosoloalem¯o.
O endeusamento de¡egelporele mesmo, aposa deiEcaç¯ode
Napole¯o,apartirdeagorainocenteporquehaviaconseguidoes-
.abi¦izarahistoria,sodurouseteanos.£mvezdaaErmaç¯ototal,
·niilismorecobriuo mundo. A lilosolia, nesmo a ElosoIia dos
escravos, temtambemseu\ater¦oo
Nasnadapodedesencora|aroapetitepeladivindadenocora-
ç¯odohomemSurgirameaindasurgemourrosque,esquecendo-
sede\ater¦oo,pretendemsempreterminarahistoriaAdivinda-
dedohomemest+aindaemandamentoe so ser+dignadeadora-
ç¯onoEmdostempos.É precisoserviresse apoca¦ipsee, nalalta
deIeus,construirpelomenosaIgre|a. AIinal, ahistoria,queain-
dan¯oparou,deixaentreverumaperspectivaquepoderiaserado
sistemahegeliano,maspelasimplesraz¯odequeeprovisoriamen-
.earrastada, sen¯oconduzida, peloslilhos e spirituais deIegel.
Quandoaco¦eralevaemplenagloriaolilosofodabatalhadeIena,
.udoest+preparadoparaoqueseseguir+Òcéuest+vazio,aterra,
.ntregueaopodersemprincipios Aquelesqueescolheramnatare
·squeescolheramescravizarv¯oocupar, sucessivamente,alrente
dopalco,emnomedeumarevoltadesviadadesuaverdade.
/
1 77
0
¿
LRRÒRISNÒ
j
ÞII\IIIAI
]
isarev,teoricodoniilismorusso,constataqueosmaioreslan+ti-
cos s¯oascriançaseos¡ovens.Issotambemeverdadeemrelaç¯o
asnaçõesÞessaepoca,aRússiaeumanaç¯oadolescenteextraida
alorceps,haviaapenasumseculo, por um czar ainda suEciente-
menteingênuoparacortareleproprio as cabeças dosrevoltados
Þ¯oedeadmirarqueelatenhalevadoaideologiaalem¯aosextre-
mos de sacrilicio e de destruiç¯o de que os mestres alem¯es so
tinham sido capazes em pensamento Stendhalviauma primeira
dilerençados alem¯escomosoutrospovosnolatodeseexaltarem
pela meditaç¯o emvez de se acalmarem Isso e verdadeiro, mas
muito mais no quediz respeito a Rússia Þeste pais¡ovem,sem
tradiç¯o hlosolìca,`` a|uventude, irm¯ dos tr+gicos colegiais de
Iautreamont,apoderou-sedopensamentoalem¯oeencarnou,com
osangue,assuas conseqüências Im"proletariado"decolegiais`

liderou ent¯o o grande movimento de emancipaç¯o do homem,
paradar-lheoseuaspectomaisviolentoAteohmdoseculoXIX,
esses colegiais nunca passaram de alguns milhares. Þo entanto,
51Dostoievski.
500 mesmo Psarev observa que a civilização na Rússia, em seu material ideológico, sempre foi
importada. Ver Armand Coquart: Pisarev et l'idéologie du nihilisme russe (Pisarev e a ideologia do
niilismo russo)
1 78
O HOMEM REVOLTADO
diantedoabsolutismomaiscompactodaqueletempo,elessopre-
tendiamlibertarasipropriose,provisoriamente,contribuirampara
|rbertarnaverdadequarentamilhõesdemu¡iquesAquasetotalida-
dedelespagouessalibertaç¯ocomosuicidio,aexecuç¯o,apris¯oou
a loucura. Jodaahistoriadoterrorismorusso pode serresumidaa
|utadeumpunhadodeintelectuaiscontraatirania,diantedopovo
ilenciosoSuavitoriaextenuadaloiEnalmentetraida Nas,porseu
sacrihcio,eateemsuasnegaçõesmaisextremas,elesderamlormaa
amvalor,ouaumanovavirtude,quemesmoatualmenten¯oparou
deenlrentaratiraniaedea|udaraverdadeiraliberaç¯o.
Agermanizaç¯odaRússianoseculoXIXn¯oeumlenêmeno
|solado Aintuênciadaideologiaalem¯naquelemomento erapre-
¸onderante,esabe-seeletivamente,porexemplo,queoseculoXIXna
lnça,comNichelet,comQuinet,eodosestudosgermanicosNas
·aRússiaessaideologian¯oencontrouumpensamento|+estabeleci-
do, ao passo que na Irançaela precisoulutare equi¦ibrar-se com o
socialismolibert+rioÞaRússia,elaestavaemterritorroconquistado
A primeira universidaderussa, a de Noscou, mndada em 1 7 50, e
a|em¯Alentacolonizaç¯odaRússiapeloseducadores,burocratase
·ilitaresalem¯es,quetinhacomeçadocomIedro,oCrande,trans-
'ormou-se, graças a Þicolau I, em germanizaç¯o sistem+tica A
intelligentsia aparxona-seporSchellingaomesmotempoquepelosnan-
cesesnadecadade1 830, porHegel,na de1 840, e,nasegundametade
doseculoXIX,pelosocialismoalem¯ooriundodeHegeL´A|uven-
tuderussaderramaent¯onessespensamentosabstratosalorçaapai-
xonadaedesmeoidaquelheepropria,vivendoautenncamenteessas
.deiasmortasÀ re¦igi¯odohomem,|+lormuladapelosdoutoresale-
:¯es,aindalaltavamapostolosem+rtires.Òscrist¯osrassos,desvia-
dosdesuavocaç¯oorrginal,desempenharam esse papelIaratanto,
tiveramqueaceitaravrdasemtranscendênciaesemvrrtude
52 0 capital foi traduzido em 1 872.
1 79
ALBERT CAMUS
A Renúncia à Virtude
Nadecadade 1 820, entreos primeirosrevolucion+riosrussos,os
dezembristas, avirtudeaindaexiste Ò idealismo|acobinoainda
n¯oloicorrigidonessesEdalgos. Jrata-semesmodeumavirtude
consciente. "Nossos pais eram sibaritas, assim como nos somos
Catões", dizumdeles,Iierre\iasemskiAcrescente-seaissoso-
menteosentrmento,quesereencontrar+emIakaninenossocia-
listasrevolucion+riosde1 905, dequeosolrimentoeregenerador
Òsdezembristaslazempensarnessesnobreslrancesesquesealia-
ramaopovoerenunciaramaseusprivilegiosIidalgosidealistas,
Ezeramasuanoitede4 deagostoeescolheramsacriEcar-sepela
liberaç¯odopovo.Sebemqueoseuchele,Iestel,tivess�umpen-
samentopoliticoesocial,suaconspiraç¯oabortadan¯otinhapro-
gramaExo,nememesmocertoquetenhamacreditadonosucesso
"Sim,vamosmorrer", diziaumdeles, navesperadainsurreiç¯o,
"mas ser+umabela morte. " Ioirealmenteuma bela morte £m
dezembro de 1 825, atropadosrevoltososloidestruidapelosca-
nhõesnapraçadoSenado,emS¯oIetersburgo Òssobrevivente
loramdeportados,n¯o sem antes quecincodeleslossemenlorca-
dos, mas de lorma t¯o in+bil que loi preciso lazê-lo duas vezes
Compreende-se semqua¦querdiEculdadequeessasvitimas, os-
tensivamenteineEcazes,tenhamsidoveneradascomumsentimento
deexaltaç¯o edehorror por todaa Rússia revolucion+ria Sen¯o
eEcazes,eramexemplares Narcaram,noiniciodessahistoriare-
volucion+ria,osdireitoseagrandezadaquiloqueHegelchamava
ironicamentedebelaalmaeemrelaç¯oaqual,noentanto,opensa-
mentorevolucion+riorussoaindadeveriadeEnir-se.
Nesseclimadeexaltaç¯o,opensamentoalem¯oveiocombater
aintuêncialrancesaeimporoseuprestigioaespiritosdilacerados
entre o seudese|odevingança, de|ustiça, eo sentimento desua
1 8 0
O HOMEM REVOLTADO
solid¯oimpotente£leloiacolhidoaprincipiocomoapropriare-
.elaç¯o,leste|adoecomentadocomotal. ImamaniadeElosoEa
+ûamou os melhores espiritos Chegou-se mesmo a colocar em
..rsos aLógica deHegel £msuamaioria, osintelectuaisrussos
.xtrairam inicialmentedosistemahegeliano a| ustrEcaç¯odeum
qaietismo social. Jomar consciênciadaracionalidadedo mundo
T suEciente, o£spiritoserealizaria,emtodoocaso,noEmdos
t mpos.£staeaprimeirareaç¯odeStankevitch,`deIakaninede
Hielinski,porexemplo.£mseguida,apai¯orassarecuoudiante
d.ssacumplicidadedelato,sen¯odeintenç¯o,comoabsolutismo
\ logoselançouaoextremooposto.
Nada mais revelador a esserespeito do que a evoluç¯o de
Hielinski,umdosespirrtosmaisnot+veisemaisintuentesdasde-
adasde1 830 e 1 840. Iartindodeumidealismolibert+riobastan-
..vago, IielinskisubitamentedescobreHegel. £mseuquarto,a
+eia-noite,sobochoquedarevelaç¯o,elesedesmanchaeml+gri-
as comoIascalesubitamentetorna-se umnovohomem "N¯o
há arbitrionemacaso,despeço-medoslranceses. "Aomesmotem-
¸o,ei-loconservadorepartid+riodoquietismosocial.£leescreve
·�sosemhesitaç¯o, delendesua posiç¯ocomoasente,istoe, com
oragemNasessecoraç¯ogenerosovê-seent¯oaliadoaquiloque
¬emaisdetestounestemundo,ain|ustiça.Setudo elogico, tudo
se |ustiEca.É precisoaceitarochicote,aservid¯oeaSiberia.Acei-
|aromundoeseussolrimentospareceu-lhe,porummomento,o
+esmo que tomaro partido da grandeza, porque imaginava ter
apenasquesupor
)
a:osseuspropriossolrimentoseassuascontra-
dições. Nas, quandosetratadetambemaceitarosolrimentodos
outros, lalta-lhe de repente coragem. £le retoma o caminho no
s.ntido inverso Se n¯o se pode aceitaro solrimento dos outros,
algonomundon¯ose|ustiEca,eahistoria,pelomenosemumde
lJ"O mundo é regido pelo espírito da razão, isso me tranqüiliza quanto a todo o resto. "
1 8 1
1 11
I '
i
ALBERT CAMUS
seuspontos,n¯ocoinciJemaiscomaraz¯oNaseprecisoqueela
se|ainteiramenteracional,oun¯oemaishistoriaÒprotestosoli-
t+rio Johomem, poruminstantetranqüilizaJopelaiJeiaJeque
tuJo se|ustilca,vaiirrompernovamente em termosveementes
IielinskiJirrge-seaoproprroHegel. "ComtoJaaestimaquecon-
vemasualilosolaElistina,tenhoahonraJelhelazersaberque,se
tivesseaoportuniJaJeJeascenJeraomaisaltograunaescalaJa
evoluç¯o, eu lhe peJiriacontas por toJas asvitimas JaviJaeJa
historiaÞ¯oqueroleliciJaJe,mesmogratuita, sen¯oestoutran-
qüiloquantoaosmeusirm¯osJesangue."´'
IielinskicompreenJeuqueoqueeleJese|avan¯oeraoabso-
lutoJaraz¯o,masap¦enituJeJaexistênciaRecusa-seaiJentiEc+-
los £le quer a imortaliJaJe Jo homem como um toJo, nele
corporilicaJa, e n¯o a abstrata imortaliJaJe Ja especie tornaJa
£spirito£leargumentacomamesmapaix¯ocontrano�saJver-
s+rios e, JessegranJeJebateinterior, tira conclusões que Jeve a
Hegel,masvoltanJo-ascontraele
£ssasconclusõesser¯oasJornJrvrJualismorevoltaJo.Òin-
JiviJuon¯opoJe aceitarahistoriatalcomoelaocorre £leJeve
JestruirarealiJaJe para aErmaro que ele e, n¯o para colaborar
comela"Anegaç¯oeomeuJeus,comooutroraarealiJaJeNeus
herois s¯o os JestruiJores Jo antigo. Iutero, \oltaire, os
enciclopeJistas,osterroristas,IyronemCaim. " Iessalorma,vol-
tamos a encontrar Je um so golpe toJos os temas Jarevolta
metalisica É bemverJaJeque atraJiç¯olrancesaJosocialismo
inJiviJualista continuava semprevrva na Rússia Saint-Simon e
Iourie; que s¯o ¦iJos nos anos 1 830, IrouJhon, importaJo nos
anos 1 840, inspiramogranJepensamentoJeHerzene,bemmais
tarJe,oJeIerreIavrov. Nas essepensamento, quecontinuava
"Citado por Hepner. Bakmmine et le panslavisme révolttti01maire (Bakttnin e o pan-eslavismo nvoltl­
cionário ). Riviere.
O HOMEM REVOLTADO
' gaJoaosva¦ores eticos,acabousucumbinJo,pe¦omenosprovi-
� riamente, emmeioaogranJeJebate com ospensamentos cini-
os.IielinskireJescobrepelo contr+rio,comoucontraHegel, as
+esmastenJênciasJoinJiviJualismosocia¦,massoboanguloJa
aegaç¯o,narecusaJosvalorestranscenJentes QuanJoelemorre,
Í 1 848, seupensamento est+muitomais proximo, ali+s,JoJe
|erzen. Nas,emseuconlrontocomHegel,eleJelniucompre-
s¯oumaatituJequeser+aJosniilistase, pelomenosemparte,
. ' osterroristas.£lelorneceumtipoJetransiç¯oentreosgranJes
· JalgosiJealistasJe 1 825 eosestuJantes "naJistas"Je 1 860.
Tês Possessos
aanJoHerzen,ao lazeraapologiaJo movimentoniilista-na
.erJaJe,apenasenquantovianeleumamaioremancipaç¯oemre-
.ç¯oasiJeiasprontas -,escreveu.'^niquilaropassaJoeengen-
| ar o luturo" , ele vai retomar a linguagem Je Iielinski.
'otliarevski,la¦anJonaquelesqueeramtambemchamaJosJe ra-
' |cais, Jelinia-os como apostolos, "que|ulgavam ser necess+rio
enunciarcompleta/nteaopassaJoelor|arapersonaliJaJehu-
+ana segunJo outro molJe AreivinJicaç¯o Je Stirnerressurge
comare|eiç¯oJetoJahistoriaeaJecis¯oJelor|aroluturo,n¯o
+ais em lunç¯o Jo espirito historico, mas em tnç¯o Jo inJivi-
dao-reiÒinJiviJuo-rei,porem,n¯opoJealçar-sesozinhoaopo-
|er.£letemnecessiJaJeJosoutrosecaient¯oemumacontraJr-
ç¯o nirlrsta, que Isarev, Iakunin e Þetchaiev tentar¯o resolver
)
aJaumJelesamplianJoumpoucomaisocampoJaJestruiç¯oe
ALBERT CAMUS
danegaç¯o,ateque o terrorismo mateapropriacontradiç¯o,no
sacrilicioenoassassinatosimultaneos.
Òniilismodosanos1 860 começou,aparentemente,pelanega-
ç¯o mais radical possive¦, re|eitando qualquer aç¯o que n¯o losse
puramenteegoista Sabe-se que o propriotermo "nii¦ismo" loiin-
ventadoporJurguenievnoromancePais e flhos, cu|oheroi,Iazarov,
era oretratoEeldessetipode homemIsarey ao escreveracritica
desseromance,proc¦amouqueosniilistasreconheciamIazarovcomo
oseumodelo"Þadatemosparanosvangloriarmos",diziaIazaro\,
"an¯oseraesteri¦consciênciadecompreender,ateumcertoponto,
aesterilidadedaqui¦oqueexiste." "É aisso",perguntam-lhe, "que
chamamniilismo`""É aissoque chamam niilismo "Iisarevlouva
essemodeloque,paramaiorclareza,deEnedessamanerra."Souum
estranhoparaaordemexistentedascoisas,n¯odevomisturar-mea
elas "Òúnicovalorreside,portanto,noegoismoraciona

Aonegartudoaquiloquen¯oeauto-satislaç¯o,Iisarevdecla-
raguerraaElosoEa,aarte-|u¦gadaabsurda -,amora¦menti-
rosa,areligi¯oeatemesmoaoscostumeseapolidez£leconstroi
ateoriadeumterrorismointe¦ectualquelaz pensarnodosnossos
surrealistas A provocaç¯o e erigida emdoutrina, mas comuma
prolundidadedaqualRaskolnikov d+umaideiaexata. Þo auge
dessebeloarroubo,Iisarevlormulaseriamenteaquest¯odesaber
sesepodematarapropriam¯e,eresponde."£porquen¯o,seeu
odese|oeachoissoúti¦`"
A partirdai,e surpreendente n¯overmos os nossos niilistas
ocupadosemlazerlortuna,conseguirumtituloouaindadeslruta-
remcinicamentedetudo que lhes eolerecidc. A bem dizer, n¯o
laltamniilistas emboasituaç¯onasociedade. Nas eles n¯ocons-
troemumateoriacomoseucinismo,prelerindoemtodasasocasiões
render,visivelmente,umahomenagemesemconseqüênciaavirtu-
deQuantoaquelesdequetratamos, elessecontradiziamnodesa-
loquelançavamasociedadeequeemsimesmoeraaaErmaç¯ode
1 84
O HOMEM REVOLTADO
um valor.Iiziam-semateria¦istas,seulivrodecabeceiraeraFrça
o matéria, deIuchner.Nasumdelesconlessava."Cadaumdenos
st+dispostoairparaocadalalsoedarasuacabeçaporNoleschott
Darwin" ,colocandodessalormaadoutrinabemacimadamate-
·a Þesseest+gio,adoutrinatinhaumardere¦igi¯oedelanatis-
+o. IaraIisarev, Iamarckeraumtraidor,porqueIarwintinha
.z¯o Quemquerquenessemeiolalassedeimortalidadedaa¦ma
.aent¯oexcomungado\¦adimir\eidlc´temportantoraz¯oac
' eliniro niilismo comoumobscurantismoracionalistaIaraeles,
H raz¯oanexavacuriosamenteospreconceitosdale,amenorcon-
|adiç¯odessesindividualistasn¯oeraescolher,comoprototipode
az¯o,o maisvulgarcientrEcismo. £lesnegavamtudo, menosos
·aloresmaiscontest+veis,osdoSr.!omais.
É no entanto ao resolverem lazerdaraz¯omaistacanhaum
atigo de le que os niilistas dar¯o a seus sucessores um modelo
|lesn¯oacreditavamemnada,an¯osernaraz¯oenointeresse
Mas, emvezdo ceticismo, esco¦hem o apostolado, tornando-se
socialistas£staeasuacontradiç¯oComoosespiritosadolescen-
es,e¦essentiamaomesmotempoadúvidaeanecessidadedecrer
Sua soluç¯o pessoal consiste em atribuir a sua negaç¯o a
.ntransigênciaea paix¯odale. Ali+s, queh+deespantosonisso`
\eid¦ecitaalrasedesdenhosadoElosoloSolovieyaodenunciar
essa contradiç¯o. "Ò homem descende do macaco, portanto,
amemo-nosunsaosoutros. "Noentanto,averdadedeIsareven-
contra-senessedilema.Seohomeme aimagemdeIeus,ent¯o
a¯oimportaqueelesê privadodoamorhumano,chegar+odia
emqueser+saciado Nas,seecriatura cega, queerranastrevas
.umacondiç¯ocruelelimitada,eletemnecessidadedeseusseme-
lhantesedeseuamorelêmero Òndepoderelugiar-seacaridade,
aEna¦, an¯o sernomundo semdeus` Þooutro, agraçaprovêa
55La Rusie absmte et présente (A Rtissia ause1te e presente). Gallimard.
1 85
ALBERT CAMUS
todos, mesmoaos ricos. Aque¦esquenegamtudocompreendem
pelomenosqueanegaç¯oeumadesgraça.Iodement¯otornar-se
acessiveisadesgraçadeoutrem,negandoenEmasiproprios Isarev
n¯orecuavadiantedaideiademataram¯e,enoentantoencontrou
pa¦avras adequadas para lalar da in|ustiça. Queria deslrutar
egoisticamente avida, mas loi preso e depois Ecou louco Janto
cinismo ostentado levou-o, enlim, a conhecero amor, a exilar-se
delee pore¦esolrerateo suicidio, reencontrandodessalorma,no
lugardoindividuo-reiquedese|avacriar,ovelhohomemmiser+-
velesolredor,cu| agrandezaeaúnicaailuminarahistoria
Bakt+ninencarnava,masdeumoutromodoespetacularasmes-
mas contradições £lemorreunavesperadaepopeiaterrorista.'°
Ali+s, ele re|eitou antecipadamenteosatentados individuais, de-
nunciando "os Irutus desuaepoca" . Respeitava-os,contudo,|+
queacusouHerzen detercriticado abertamente o aentado lrus-
trado de Karakosoy que atirou no czar Alexandre li, em 1 866.
£sterespeitotinhasuasrazões.Iak:.nininlluiunorumodosacon-
tecimentos,damesmalormaqueIielinskieosnii¦istas,nosentido
darevoltaindividual.Naselecontribuiu comalgomais .umger-
me de cinismo politico que vai tomarcorpo como doutrinacom
Þechaiev, levandoomovimentorevo¦ucion+rioaetremos
Nalsaidodaadolescência,Iak..ninsente-setranstornado,sa-
cudido pela ElosoEa hege¦iana, como que porumaprodigiosaco-
moç¯o.Nelamergulhadraenoite,"atealoucura",dizele. "£un¯o
viamaisnadaalemdascategoriasdeHegel."Quandosaidessaini-
ciaç¯o,ecomaexa¦taç¯odosneoEtos. "Neueupessoalest+morto
para sempre, minhavidaeaverdadeiravida. £la seidentiEca, de
alguma lorma, com avida absoluta. "£¦e precisadepoucotempo
para perceberosperigosdestaconlort+velposiç¯o.Aquelequeen-
tendeuarealidaden¯oseinsurgecontraela, antessere|ubila,ei-lo
56 1 876.
1 86
O HOMEM REVOLTADO
.oalormista.NadaemBakaninopredestinavaaessaElosoliadec¯o
1cguardaÉ possiveltambemquesuaviagemaAlemanhaealasti-
· ave¦opini¯oquepassouaterdosalem¯esotenhampreparadomal
¸araadmitir, comovelho Hegel, que o£stadoprussiano losseo
1eposit+rioprivilegiadodosEnsdoespirito.Naisrussoqueopro-
¸ioczar,adespeitodeseussonhosuniversais,e¦en¯opodiaemtodo
o casosubscreveraapologiadaIrússia,quandoelaseapoiavanuma
' ogicabastantelr+gilqueaErmava '^vontadedosoutrospovosn¯o
1·cm direitos,poisopovoeorepresentantedessavontade¸do£spiri-
lo) quedominaomundo "Nosanos 1 840, poroutrolado,Iakanin
1cscobriaosocialismoeoanarquismolrancês,dosquaiseleveicu-
1 L algumastendências.Bakninre¡eitacomestardalhaçoaideolo-
¡·aa¦em¯.£letrnhachegadoateoabso¦uto,assimcomochegariaate
a destruiç¯ototal,comomesmomovimentoapaixonado,comam-
ria do "JudoouÞada",quenelevamosencontraremestadopuro.
IepoisdeterlouvadoaInidadeabsoluta, Bakaninlança-se
ao maniqueismomaiselementar. Semdúvidae¦equer, e deuma
.ezportodas,"aIgre|auniversaleautenticamentedemocr+ticada
I ||erdade". £isasuareligi¯o, elepertenceao seu seculo. Noen-
.anto,n¯oecertoquesuale aesserespeitotenhasidototal.£msua
Confssão aÞicolau I, seutomparecesinceroquandodiz queso
conseguiuacreditarnarevoluç¯oEnal"porumeslorçosobrenatu-
|aledoloroso,aosulocaralorçaavozinteriorquemesussurrava
l absurdodeminhasesperanças". Seuimoralismoteoricoebem
aaislrme, pe¦oco�rio,eaiovemosconstantementeagitar-se
comanaturalidadeeaalegriadeumanimallogoso Ahistoriasoe
regidapordoisprincipios,o£stadoearevoluç¯osocial,arevolu-
ç¯oe acontra-revoluç¯o, que n¯o e o caso deconciliar, masque
est¯o empenhados emuma lutamorta¦. Ò £stado eo crime. "Ò
:enor e mais inolensivo £stado e ainda criminoso em seusso-
nhos."Arevo¦uç¯o,portanto,eobem.£staluta,queultrapassaa
politica,etambemalutadosprincipioslucilerinoscontraoprinci-
1 87
ALBERT CAMUS
pio divino Iakunin reintroduz explicitamente na açlo revoltada
umdostemasdarevoluçloromantica.Iroudhon|+decretavaque
IeuseoNalebradava. "\enha,Satl, caluniadopelosmediocres
epelosreis ' " Iakunindeixatambementrevertodaaprolundidade
deumarevoltaaparentementepolitica."ÒNalearevoltasatanica
contraaautoridade divina, revoltanaqualvemos ao contr+rio o
germe prolicuo de todas as emancipações humanas. Como os
fraticelli daIoêmianoseculoXI\¸`), reconhecemosossocialistas
revolucion+rios de ho|e porestas palavras. £mnome daquelea
quemselezumgrandemal''
Alutacontraacriaçloser+travada,portanto,sempiedadeesem
moral,eaúnicasalvaçloresidenoexterminio "A paixlopelades-
uuiçloeumapaixlocriadora."Asp+ginasintamadasdeIakanin
sobrearevoluçlodel ·+·´proclamamcomveemênciaessaalegria

dedestruir "IestasemcomeçonemE m",dizeleÞaverdade,tanto
para ele quanto para todos os oprimidos arevoluçlo e a lesta, no
sentido sagrado dapalavra Isso laz lembraro anarquista lrancês
Coeurderoy``queemseulivroH urah, ou la révolution par les cosaques
(Hurra, ou a Rvolufão segundo os cossacos) conclamavaas hordasdo
Þorteatudodevastarem£letambemqueria "atearlogoacasado
pai" eexclamava que so havia esperança no dilúvio humanoe no
caos.Arevoltaeentendidaatravesdessasmanilestaçõesemestado
puro,emsuaverdadebiologica.Iorisso,Iakuninloioúnicodeseu
tempoacriticarogoverodoss+bioscomumaperspic+ciaexcepcio-
nalContratodaabstraçlo,eledelendeuacausadohomemcomple-
to,totalmenteidentiEcadocomasuarevoltaSeelegloriEcaomal-
leitor, o¦iderdas revoltas camponesas, seseus modelos preleridos
sloStenkaRazineeIagachev, eporqueesseshomenslutaram,sem
doutrinaesemprincipios,porumidealdeliberdadepura.Iakanin
57 Confssão, pp. 1 02 f seg. Rieder.
58Claude Harmel e Alain Sergent. Histoire de l'anarchie (História da anaruia), vol I.
1 8 8
O HOMEM REVOLTADO
otroduznoamagodarevoluçlooprincipionulodarevolta"Atem-
¸estadeeavida,edissoqueprecisamosImmundonovo,semleis
'¸ conseqüentemente,livre. "
Nasummundosemleis eummundolivre`£isapergunta
quetodarevoltalaz. SelosseprecisopedirumarespostaaIakunin,
lanloseriaduvidosa.Apesardeseopor,emtodasascircunstan-
|asecomamaisextremalucidez,aosocialismoautorit+rio,apar-
· rdoinstanteemqueelepropriodeEneasociedadedoluturo,ele
Ì apresenta,semsepreocuparcomacontradiçlo,comoumadita-
1uraÒsestatutosdaIraternidadeinternacional¸l ·6+- l ·67),que
lemesmoredigiu,|+estabelecemasubordinaçloabsolutadoin-
1ividuo ao comitê centraldurante o periodo da açlo. Ò mesmo
ocorreemrelaçloaotempoqueseseguir+arevoluçlo£leespera
¸araaRússialiberada"umlortepoderditatorial. . umpoderman-
||doporpartid+rios,iluminadoporseusconselhos,lortalecidopor
sualivrecolaboraçlo,masquenlose|alimitadopornadanempor
ainguem" .Iakanin,damesmalormaqueseuinimigoNarx,con-
tribuiuparaadoutrinaleninistaÒsonhodoimperioeslavorevo-
' ucion+rio,ali+s,talcomoevocadoporIakanindiantedoczar,eo
aesmo,atenosdetalhesdelronteira,queloirealizado porStalin.
Òriundasdeumhomemquesouberadizerquealorçamotrizda
|ússiaczaristaeraomedoequerecusavaateoriamarxistadeuma
ditaduradepartido, essas concepçõespodemparecercontradito-
rias. Nasacontradiçlomostraqueasorigensdessasdoutrinasslo
emparteniilis

Isarev|ustiEcaIakunin£stecertamenteque-
riaa liberdadetotal,masbuscava-aatraves deumatotaldestrui-
çlo Iestruir tudo implica construir sem lundações, as paredes
têmdesermantidasdepepelalorçadospropriosbraços.Aquele
quere|eitatodo o passado, sem delepreservarnadadaquilo que
poderiaservirpararevigorararevoluçlo,est+condenadoasoen-
contrar| ustiEcaçlonoluturoe,enquantoespera,encarregaapoli-
crade|ustiEcaroprovisorioIakuninanunciavaaditadura,nloa
1 89
l i
ALBERT CAMUS
despeito deseudese|odedestruiç¯o, masdeacordocomeleÞa
verdade, nadapodiadesvi+-lodessecaminho,|+quenalogueira
danegaç¯o total osvalores eticos tambemhaviam derretidoIor
sua Confssão ao czar, abertamente obsequiosa, mas que escreveu
paraserlibertado, ele introduzdemodoespetacularo|ogoduplo
napoliticarevolucion+ria. Atraves desseCatecismo do revolucioná­
rio, supostamente escrito na Suiça, com Þechaiev, ele d+ lorma,
ainda que viesse a reneg+-lo em seguida, a essecinismo politico
que n¯o mais deixaria de intuir no movimento revolucion+rio e
queoproprioÞechaievilustroudemaneiraprovocadora
IiguramenosconhecidadoqueIakanin,maismisteriosa,po-
remmaissignilicativaparaosnossospropositos,Þechaievlevoua
coerênciadoniilismot¯olongequantopêdeImespiritoquasesem
contradiç¯o.Llesurgiuem 1 8 66, nosmeiosdaintelligentsia revolu-
cion+ria, emorreuobscuramenteem|aneirode¹· ·2. Þessebreve
espaçodetempo,nuncadeixoudeseduzir.osestu
¿
antesasuavolta,
oproprioIakunineosrevolucion+riosret·giados,eosseuscarce-
reiros,enEm,queeleconvenceuaparticiparemdeumaconspiraç¯o
maluca.Quandoelesurge,|+est+segarodoquepensa.SeIakaniu
Ecouatalpontolascinadoporelequeocumuloudemandatosima-
gin+rios,eporquereconhecianessaEguraimplac+veloqueelehavia
recomendadoque selossee, decertalorma,oqueele proprioteria
sidosetivesseconseguidocuraroseucoraç¯oÞechaievn¯osecon-
tentou emdizerque era preciso unir-se "aomundo selvagem Jos
bandidos,esteverdadeiroeúnicoambienterevolucion+riodaRússia",
nem emescreverumavez mais, como Iakanin, quedeagoraem
dianteapoliticaseriaareligi¯o,eareligi¯o,apolitica Lleselezo
mongecrue¦deumarevoluç¯odesesperada,oseusonhomaisevi-
denteerat·ndaraordemassassinaque permitiriapropagareEna¦-
menteentronizaradivindadesinistraque sedecidiraaservir
Llen¯odissertouapenassobreadestruiç¯ouniversal,suaori-
ginalidade loi reivindicarlriamente, para aqueles que se devcta-
1 90
O HOMEM REVOLTADO
.ama revo¦uç¯o, ao "Judo e permitido" e, eletivamente, tudo se
¸ermitir "O revolucion+rio e um homem condenado antecipada-
+ente L¦e n¯odeveterrelações romanticas, nem coisas ou seres
a:ados.Lledeveriadespo|ar-seatedeseunome Þele, tudodeve
concentrar-seemumaúnicapaix¯o.arevoluç¯o."Seahistoria,in-
|ependentedequalquerprincipio, erealmenteleitaapenasdaluta
.ntrearevoluç¯oeacontra-revoluç¯o,n¯oh+outrasaidaan¯oser
aoraçarporinteiroumdessesvalores,paranelemorrerouressusci-
|arÞechaievlevaessalogicaaexuemos.Comele,pelaprimeiravez
arevoluç¯ovaiseparar-seexplicitamentedoamoredaamizade.
]+ se entrevêem em Þechaievas conseqüências da psicologia
+bitr+riaveiculada pelo pensamento de Hegel. Lste, no entanto,
+dmitiraqueoreconhecimentomútuodasconsciênciaspodedar-se
+oa|ustamentodoamor`'Þoentanto,Þechaievrecusara-seacolo-
caremprimeiroplanodesuaan+liseesse"lenêmeno"que,segundo
Ae, "n¯otinha atorça, apaciênciae o trabalho do negativo". Lle
decidira mostrar as consciências numa luta decarangue|os cegos,
_uetateiamobscuramentenaareiadaspraias,paratravaremporEm
+mcombatemortal,deiandodeladoessaoutraimagem,igualmen-
te ¦egitima, dostaroisquesebuscamcom diliculdadenanoite,ate
quesea|ustamparaproduzirumaclaridade maiorAquelesquese
amam,osamigos,osamantes,sabemqueoamorn¯oesomenteuma
|lguraç¯o,mastambemumalongaedolorosalutanastrevas pelo
econhecimentoe.reconciliaç¯odeEnitivos Ainal,seavirtudehis-
toricaereconhecidacomoprovadepaciência,overdadeiroamore
t¯opacientequantooodioAreivindicaç¯ode|ustiçan¯oe,ali+s,a
.nicaquepode|ustiEcaraolongodosseculosapaix¯orevolucion+-
ia,queseapoiatambememumaexigênciadolorosadaamizadepor
|odos,atemesmo, esobretudo,diantedeumceuinimigo.Aqueles
59Ele pode ocorrer também na admiração, em que a palavra "mestre" assume então um sentido
maior: aquele que forma sem destruir.
1 9 1
ALBERT CAMUS
quemorrempela|ustiça,sempreloramchamadosde"irm¯os" Iara
todoseles,aviolênciaest+reservadaaoinimigo,emlavordacomu-
uidadedosoprimidos.Nas,searevoluç¯oeoúnicovalor,elaexige
tudoeatemesmoadelaç¯o,portanto,osacrilciodoamigoApartir
de agora, aviolência ser+ voltada contra todos, em lavor de uma
ideiaabstrataIoinecess+riooadventodoreinodospossuidospara
quesedissessederepentequearevoluç¯o,emsimesma,eramais
importantedoque aqueles que elaqueriasalvar, equea amizade,
queateaitranslguravaasderrotas,deveriasersacrilcadaetranslerida
paraodiaaindainvisiveldavitoria.
AoriginalidadedeNechaieve|ustilcar,dessalorma,aviolên-
cia leita aos irm¯os Lle lormula o Catecismo com Iakanin. Nas
umavezqueeste,numaespeciededesvario,encarrega-odamiss¯o
derepresentarnaRússiaumaIni¯orevolucion+riaeuropeiaqueso
eistiaemsuaimaginaç¯o,Nechaievparteeletiv\enteparaaRússia,
lundaasuaSociedadedoNachado,delnindoeleproprioosseus
estatutosÞecess+riosemdúvidaaqualqueraç¯omilitaroupolitica,
aiencontramosocomitêcentralsecretoaquemtodosdevem|urar
ldelidadeabsoluta.NasNechaievlazmaisdoquemilitarizara re-
voluç¯o, apartir do m�o em que admite que, paradirigiros
subordinados, os che�es têmo direito deempregaraviolênciae a
mentira Iara começar, elevaimentir com eleito, quando se dir+
delegado desse comitê central aiuda inexistente e quando, com o
ob|etivodeatrairmilitanteshesitantesparaaaç¯oquepensaempre-
ender,ir+descreverocomitêcomolontederecursosilimitados.L
mais.ir+distinguircategoriasentreosrevolucion+rios,osdeprimei-
racategoria¸entenda-se.oscheles),reservando-seodireitodecon-
siderarosoutroscomo "umcapitalquesepodedespender" Jalvez
todososlideresdahistoriatenhampensadodessamaneira,masn¯o
odisseramAteNechaieyemtodoocaso,nenhumchelerevolucio-
n+rioousaralazerdissooprincipiodesuaconduta.Ateaquelemo-
mento,nenhumarevoluç¯ohaviacolocadonoiniciodesuast+buas
1 92
O HOMEM REVOLTADO
da leiqueohomempodiaseruminstrumentoJradicionalmente,o
.crutamentorecorriaacoragemeaoespiritodesacrilcio.Nechaiev
1.cidequesepodechantagearouaterrorizarosceticoseenganaros
.onlantes Ateosrevolucion+riosimagin+riospodemseraindauti-
' zados, selorem sistematicamente levados a realizar os atos mais
¸.rigososQuantoaosoprimidos,|+quesetratadesalv+-losdeuma
..z portodas,pode-seoprimi-losaindamais Seperdemcomisso,
\^ t.turosoprimidosir¯oganhar.Þechaievestabelececomoprinci-
¸ioqueenecess+rioobrigarosgovernosatomarmedidasrepressi-
.as,quen¯osedevetocarnosrepresentantesolciaismaisdetestados
¸elapopulaç¯oe,lnalmente,queasociedadesecretadeveempregar
. odos os seus recursos para aumentarosolrimentoeamiseriadas
+assas.
Lmboraessesbelospensamentostenhamatualmentealcança-
do todo o seu sentido, Nechaiev n¯oviveu paravero triunlo de
seusprincipios.Jentoupelomenosaplic+-losquandodoassassi-
+atodoestudanteIvanov, impressionandodetallormaasimagi-
aações daqueletempoqueIostoievskilezdeleumdeseustemas
.mOs possessos. Ivanov, cu|oúnicoerro,aoqueparece,loitertido
dúvidassobreocomitê central, doqualNechaievsediziadelega-
do, opunha-searevoluç¯oporqueseopunhaao homemquecom
elaseidentilcara. Iogo,deviamorrer. "Quedireitotemosnosde
tiraravidadeumhomemr", perguntaÒuspensky, umdoscama-
radasdeÞechaie�N¯osetratadedireito,massimdonossode-
verdeeliminartudoque possapre|udicaracausa "Quandoare-
voluç¯o e o único valor, n¯o h+ mais direitos, naverdade, so h+
deveresNas,porumainvers¯oimediata,emnomedessesdeveres
assumem-setodososdireitos Lm nomedacausa,Þechaiey que
nunca atentou contra avidade qualquertirano,mataIvanovem
uma emboscada. Iepois, deixa a Rússiaevai encontrar-se com
Iakunin,quelhed+ascostas,condenandoessa"t+ticarepugnan-
te" "Ioucoapouco,elechegouaconvencer-se",escreveuIakanin,
1 93
ALBERT CAMUS
"deque,paralundarumasociedadeindestrutive¦,eprecisotomar
comobaseapo¦iticadeNaquiaveleadotarosistemados|esuitas
paraocorpo,soaviolência,paraaalma,amentira "Òcoment+rio
est+ correto Nas como decidir queessat+ticaerepugnante,sea
revoluç¯o, como queriaIakanin, e o único bem` Þechaievrea¦-
mente est+ a serviço darevoluç¯o, n¯oest+ servindoasimesmo,
masacausaLxtraditado,n¯ocedeumpa¦moaosseus|uizesCon-
denadoavinteecincoanosdepris¯o,reinaaindanasprisões,or-
ganizaoscarcereirosnumasociedadesecreta,pro|etaoassassinato
doczareenovamente|u¦gadoAmorte namasmorraencerra,ao
Emdedoze anos dereclus¯o,avidadesserevoltadoqueinaugura
araçadesdenhosados grandes senhoresdarevoluç¯o
Þestemomento,noseiodarevoluç¯o,tudoerealmentepermiti-
do,oassassinatopodesererigidocomoprincipio.Þoentanto,acre-
ditou-se,comarenovaç¯odopopulismoem � 870, que este movi-
mentorevolucion+rio,oriundodastendênciasreligiosaseeticasque
se encontram nos dezembristas e no socialismo de Iavrov e de
Herzen,iarelrearaevoluç¯oparaocinismopo¦iticoqueÞechaiev
tinhailustrado.Òmovimentoapelavaparaas "almasvivas",pedia-
¦hesquelossemateopov

educassem,aEmdequee¦emarchasse
porsiproprio em direço aliberaç¯o. Òs "Edalgos arrependidos"
abandonavamalamilia, vestiam-secomroupaspobreseiamparaas
a¦deiaspregarparaos camponeses.Nasocamponêslcavadescon-
Eadoemantinha-seemsilêncioQuandon¯osecalava,denunciava
o apostolo a policia Lsse malogro das belas almas devia tornara
¦ançaromovimentonocinismodeumÞechaievou,pelomenos,a
vio¦ência. Þamedidaemqueainteligentsia n¯oconseguiuatrairo
povo,sentiu-senovamentesodiantedaautocracia,denovo,omun-
do ¦hesurgiu como aspecto do senhore do escravo Ò grupoda
\ontade doIovovai, portanto, consagrar o terrorismo individual
comoumprincipio,inaugurandoaseriedeassassinatosqueprosse-
guir+ate1 905, comopartidosocia¦istarevolucion+rio.É nestepon-
1 94
O HOMEM REVOLTADO
.oquenascemosterroristas,decostasparaoamor,unidoscontraa
cu¦pabilidadedossenhores,massolit+riosemseudesespero,emmeio
acontradiçõespropriasquesopoder¯oresolvercomoduplosacrilí-
ciodesuainocênciaedesuavida
Os Assassinos Delicados
1 87 8 eoanodenascimentodoterrorismorusso.Imamoçamuito
,ovem,\era Zassu¦itch, nodiaseguinteao|ulgamentodecentoe
aoventa e três populistas, no dia 2+ de|aneiro, mata o general
1repov, governadordeS¯oIetersburgoAbsolvidapelos|urados,
elaescapaemseguidadapoliciadoczar. Lssetiroderevolverde-
sencadeia uma serie de ações repressivas e de atentados, que se
.espondemunsaosoutros,eacu|orespeito|+seadivinhaquesoa
.xaust¯opode co¦ocarumpontoEnal.
Þomesmoanoummembroda\ontadedoIovo Kravchinski,
enunciavaosprincipiosdoterror,emseupanteto"Nortepormor-
te" .Asconseqüênciasseguemos principios ÞaLuropa,oimpe-
|adordaAlemaµha,oreidaIt+liaeoreidaLspanhas¯ovitimas
deatentados.Aindaem1 87 8 , Alexandreli cria,comaÒkhrana,a
armamaiselicazdoterrorismodeLstadoApartirdai,osassassi-
natos, na Rússia e no Òcidente, multiplicam-se no seculoXIX
Lm 1 879, novoatentadocontraoreidaLspanhaeatentadolrus-
tradocontraoczarLm 1 8 8 1 , assassinatodoczarpelosterroristas
da\ontadedoIovo SoEaIerovskaia,]eliaboveseusamigoss¯o
enlorcados. Lm1 8 83, atentadocontraoimperadordaAlemanha,
cu|oassassino loi executado a machadadas Lm 1 887, execuç¯o
1 95
ALBERT CAMUS
dosm+rtiresdeChicagoecongressoem\alênciadosanarquistas
espanhois,que lançam oavisoterrorista. "Se asociedadenäo ce-
der, eprecisoqueomaleoviciopereçam,enostodosdeveriamos
perecer com e¦es "A decada de 1 890 marca na Irança o ponto
culminantedaquiloquesechamavadepropagandapelaaçäo. Òs
íeitosdeRavachol,de\aillantedeHenrysäooprelúdiodoassas-
sinatodeCarnot.Sonoanode 1 892 contam-semaisdemilatenta-
dosadinamitena£uropaecercadequinhentosnaAmerica. £m
1 898 , assassinato deLlisabeth, imperatriz da
_
ustria £m 1 90 1 ,
assassinato de Nac Kin¦ey, presidente dos £stados Inidos Þa
]
ússia,ondeosatentadoscontraosrepresentantessecund+riosdo
regimenäocessaram,aÒrganizaçäodeCombatedopartidosocia-
listarevolucion+rionasce,em 1 903, reunindoosquadrosmaisex-
traordin+riosdoterrorismorusso Òs assassinatosdeIlehvepor
>asonovedogräo-duqueSergioporKaliaiev, em1 905, marcamo
ponto culminante desses trinta anos de apostolado sanguin+rio,
cncerrando,paraareligiäorevolucion+ria,aidadedosm+rtires
Òniilismo,estreitamenteligadoaomovimentodeumareligiäo
desiludida,termina, assim,noterrorismoÞouniversodanegaçäo
total,pela bomba epelorevolver,etambem pelacoragem comquc
caminhavamparaosupy,esses|ovenstentavamsairdacontradi-
¸<o paracriar osvalorcs que lhes laltavam. Ate aqui, os homens
norriamemnomedaquiloquesabiamoudaquiloqueacreditavam
saber.Apartirdaicriou-seoh+bito,maisdihcil,desacriEcar-sepor
algumacoisadaqualnadasesabia,anäoserqueeraprecisomorrer
jaraqueelaexistisseAteentäo,aquelesquedeviammorrerentrega-
vam-seaIeus,desaEandoa|ustiçadoshomens.Nasoqueimpres-
sionaquandose¦êemasdeclaraçõesdoscondenadosdessaepocaé
vcrquetodos,semexceçäo,entregavam-se,desaEandoosseus| uizes,
à ]ustiçadeoutroshomens,queaindaestavamporv £sseshomen
_
turos,naausênciadeseusvaloressupremos,continuavamasero
scuúltimorecurso. Òt·turoeaúnicatranscendênciadoshomens
1 96
O HOMEM REVOLTADO
semdeusSemdúvida,osterroristasqueremprimeirodestruir,aba-
'aroabsolutismo cambaleantesoboimpactodasbombas.Nas,ao
aenoscomasuamorte,elesvisamrecriarumacomunidadede|us-
tiçaedeamor,retomandoassimumamissäoqueaIgre|atraiu. Òs
terroristasqueremnarealidadecriarumaIgre|adeondebrotar+um
diao novo Ieus Nas issoe tudo` Seseuingressovolunt+rio na
culpabilidadeenamortenäotivesseleitosurgirmaisdoqueapro-
aessa de umvaloraindavindouro, a historia atual nos permitiria
+Ermar,pelomenosporora,queelesmorreramemväoenäodeixa-
am de serniilistas Imvalor mturo e ali+s uma contradiçäo em
|ermos,|+queelenäoconsegaeexplicarumaaçäonemlornecerum
¸rincipiodeescolhaenquantonäotiversidolormuladoNasloram
osproprioshomensde190 5, que,torturadospelascontradições,com
sua negaçäo eatemesmo com a morte davamvidaaumvalor de
agoraemdianteimperioso,que|+tornavamvisivelmascu|oadvento
| algavamapenasanunciarLlescolocavamostensivamenteacimade
seus algozes e de si proprios esse bem supremo e dolorosoque|+
encontramosnasorigensdarevolta Ietenhamo-nosaomenosno
.xamedessevalor,nomomentoemqueoespiritoderevoltaencon-
|ra,pelaúltimavezemnossahistoria,oespiritodecompaixäo.
"Iode-selalardaaçäoterroristasemde¦aparticipar` ", excla-
+aoestudanteKa¦iaievSeuscamaradas,reunidosapartirde1 903
aaÒrganizaçäodeCombatedopartidosocialistarevolucion+rio,
sobadireçäoAzevedepoisdeIorisSavinkoy mantêm-seto-
dos a altura dessa admir+vel declaraçäo. Säo homens exigentes.
Säoos últimos na historiadarevolta, näoväocedernadadesua
.ondiçäonemdeseudramaSeviveramnoterror,"seneletiveram
'e"¸Iokotilov),nuncadeixaram deaiEcardilacerados.Ahistoria
olerece poucos exemplos de lan+ticos que tenhamsolridode es-
crúpulosinclusiveemmeioaocont ito.Aoshomensde1 905, pelo
aenos, nunca laltaram dúvidas. A maior homenagem que ¦hes
¸odemos prestaredizerque,em 1 950, näosaberiamoslhes lazer
ALBERT CAMUS
uma única pergunta que eles já não se tivessem feito e aqual, em
sua vida ou com a sua morte, já não tivessem repondido em parte.
No entanto, passaram rapidamente ahistória. Quando Kaliaiev
decide, por exemplo, tomar parte em 1 903, com Savinkov, na ação
terrorista, ele tem vinte e seis anos. Dois anos depois, o "Poeta",
como era apelidado, foi enforcado. Uma carreira curta. Mas, para
quem examinar com um pouco de paixão a história desse período,
Kaliaiev, em sua passagem vertiginosa, mostra-lhe o aspecto mais
signifcativo do terrorismo. Sasonov, Schweitzer, Pokotilov,
Voinarovski e a maior parte dos outros surgiram, assim, na história
da Rússia e do mundo, em riste por um instante, condenados à
destruição, testemunhas breves e inesquecíveis de uma revolta cada
vez mais dilacerada.
Quase todos são ateus. Boris Voinarovski, que morreu ao ati­
rar uma bomba no almirante Dubassov, escreve: "Eu me lembro
que antes mesmo de entrar para o ginásio eu pregava o ateísmo a
um de meus amigos de infância. Só uma pergunta me constrangia.
Mas de onde vinha isso? Pois eu não tinha a menor idéia da eterni­
dade." Ò próprio Kaliaiev acreditava em Deus. Alguns minutos
antes de um atentado malogrado, Savinkov o vê na rua, plantado
diante de uma imagem, se
g
ndo a bomba em uma das mãos e
fazendo o sinal-da-cruz co± a outra. Mas ele repudia a religião.
I
Em sua cela, antes da execução, ele recusa o seu socorro.
A clandestinidade obriga-os a viver na soldão. Eles não conhe­
cem, a não ser de forma abstrata, a poderosa alegria de todo homem
de ação em contato com uma grande comunidade humana. Mas o
elo que os une substitui para eles todos os relacionamentos.
"Fidalguia! ", escreve Sasonov comentando: "Nossa fdalguia estava
permeada por um sentimento tal que a palavra 'irmão' não traduz
ainda, com suficiente clareza, a essência dessas relações recíprocas. "
Da prisão, o mesmo Sasonov escreve aos amigos: "No que me diz
respeito, a condição indispensável afelicidade é preservar para sem-
1 98
O HOMEM REVOLTADO
pre a consciência de minha perfeita solidariedade com vocês. " Por
�ua vez, a uma mulher amada que o retinha, Voinarovski confessa ter
di to essa frase, que ele reconhece ser "um tanto cômica" mas que,
�cgundo ele, comprova o seu estado de espírito: "Eu te amaldiçoa-
.
tr d )) na, se me atrasasse para um encon o com os camara as.
Esse pequeno grupo de homens e de mulheres, perdidos na mul-
1 i dão russa, ligados uns aos outros, escolhe o papel de carrascos,
para o qual nada os predestinava. Vivem no mesmo paradoxo, unin­
do em si o respeito pela vida humana em geral e um desprezo pela
própria vida, que chega até a nostalgia do sacrifício supremo. Para
I ora Brilliant, as questões programáticas não contavam. A ação ter­
rorista embelezava-se, em primeiro lugar, com o sacrifício que lhe
l �tzia o terrorista. "Mas o terror pesava sobre ela como uma cruz",
diz Savnkov. Ò próprio Kaliaiev está sempre pronto a sacrificar a
vida. "E mais, ele desejava apaixonadamente esse sacrifício. " Du­
rante a preparação do atentado contra Plehve, ele propõe atirar-se
sob os cascos dos cavalos e morrer com o ministro. Com Voinarovski
também o gosto pelo sacrifcio coincide com a atração pela morte.
Depois de sua prisão, ele escreve aos pais: "Quantas vezes, durante
minha adolescência, me ocorria a idéia de me matar . .
Ao mesmo tempo, esses algozes que colocavam a própria vida
em jogo, e de maneira tão completa, só tocavam na dos outros com
a consciência mais escrupulosa. Ò atentado contra o grão-duque
Sérgio fracassa na primeira tentativa, porque Kaliaiev, com a apro­
vação de todos os camaradas, recusa-se a matar as crianças que se
encontravam na carruagem do grão-duque. Savinkov escreve so­
bre Rachei Louriée, outra terrorista: "Ela tnha fé na ação terroris­
ta, considerava uma honra e um dever participar dela, mas o san­
gue transtornava-a tanto quanto a própria Dora. " Ò mesmo
Savinkov opõe-se a um atentado contra o almirante Dubassov no
expresso Petersburgo-Moscou: "À menor imprudência, a explo­
são poderia ter ocorrido no vagão, matando estranhos. " Mais tar-
1 99
ALBERT CAMUS
de,Savrnkov, "emnomedaconsciênciatenorrsta",negar+comin-
dignaç¯oterleitoumacriançadedezesseis anos participardeum
atentado. No momentodetgirdeumapris¯oczarista, eledecide
atrrarnosoEciaisquepoderiamimpedirasuatga,masteriaprele-
rido matar-seavoltarsuaarmacontra soldados. \oinarovski, por
suavez,quen¯ohesitaemmatarhomens,conlessanuncatercaçado,
"achandoissocoisadeb+rbaros" , edeclara. "SeIubassovestive|
acompanhadoda mulhe; n¯oatirareiabomba."
Imesquecimentot¯ograndedesimesmos,aliadoaumapreo-
cupaç¯o t¯o prolnda comavrdadosoutros, permite supor que
essesassassinosdelicadosviveramodestinorevoltadoemsuacon-
tradiç¯omaisextrema.Iode-seacreditarque,mesmoreconhecen-
doo car+terinevit+vel daviolência, admitiamcontudoque elae
in|ustiEcada Necess+rioeindesculp+vel, assim lhes parecia oas-
sassinato. Nentesmediocres,conlrontadascomesseterrivelpro-
b¦ema,podemrelugiar-senoesquecimentodeumdostermos.\¯o
contentar-se, em nome dos principios lormai s, em achar
indesculp+velqualquerviolênciaimediata, permitindoent¯oessa
violênciadit·saqueocorrenaescaladomundoedahistoria. Òu
seconso¦ao,em nome dahistoria, como latodeaviolênciaser
necess+r�a,acrescentandoent¯ooassassinato,atelazerdahistoria
nadamaisdoqueumaúnicaelongaviolaç¯o detudoaquiloque
nohomemprotestacontraain|ustiça.IssodeEneasduaslacesdo
niilismocontemporaneo,burguêserevolucion+rio.
Nasessescoraçõesextremadosnadaesqueciam.Iesdeent¯o,
incapazesde|ustilicaremoque,noentanto,consideravamnecess+-
rio,imaginaramquepoderiamolerecerasiproprroscomo|ustiEca-
ç¯o eresponder com o sacrilicio pessoala quest¯o que se laziam.
Iaraeles,assimcomoparatodososrevoltadosantesde¦es,oassassi-
nato identiEcou-se com o suicidio. Iogo, umavidasepaga com
outravida,e,dessesdoisho¦ocaustos,surgeapromessadeumvalor
Kaliaiey\oinarovskieos outros acreditamnaequivalênciadasvi-
200
O HOMEM REVOLTADO
Jas. N¯ocolocamportantonenhumaideiaacimadavidahumana,
emboramatempelaideia.\ivemexatamenteaalturadaideia.]usti-
ccam-na,¦malmente,encarnando-aateamorte. £stamosaindadi-
antedeumconceito,sen¯oreligroso,pelomenosmetaEsicodare-
volta.Iepoisdessesvir¯ooutroshomensque,animadospelamesma
f devoradora,ir¯onoentantoconsideraressesmetodossentimen-
|ais, recusando-se a admitirque qualquervida se|aequivalente a
qualqueroutra. Colocar¯oacimadavidahumanaumaideiaabstra-
|a,mesmoqueachamemdehistoria,aqual,antecipadamentesub-
aissos,v¯oarbitrariamentedecidirsub¡ugartambemosoutros.Ò
¡rob¦emadarevoltan¯oseresolver+maisnaaritmetica,massimno
c+lculodasprobabilidades. Iiantedeumat+turarealizaç¯odaideia,
U vida humana pode ser tudo ou nada. Quanto maior a le que o
calculadordepositanessarealizaç¯o,menosvaleavidahumana.£m
altimainstancia,elan¯ovalemaisnada.
Chegaremosaexaminaresselimite,istoe,otempodoscarras-
cosElosolosedoterrorismode£stado.Nasenquantoissoosre-
voltadosde1 905, nalronteiraemquesemantêm,nosensinam,ao
somdaexplos¯odasbombas,quearevoltan¯opodeconduzir, sem
deixardeserrevolta,aoconso¦oeaoconlortodogm+tico.Suaúni-
cavitoriaaparenteetriunlarpelomenossobreasolid¯oeanega-
ç¯o.Nomundoqueelesnegamequeosre|eita,elestentam,como
todas as grandes almas, relazer, homem por homem, uma
lrater�dade. Òamorquetêmumpelooutro,quelhestrazlelici-
dadeatenodeserto dapris¯o, queseestendea imensamassade
seusirm¯osescravizadosesilenciosos,d+amedidadeseuinlortú-
nioedesuaesperança.Iaraserviraesseamor,precisamprimeiro
matar, para aErmar o reino da inocência, precisam aceitar uma
certaculpabilidade. £stacontradiç¯ososeresolver+paraelesno
momento último. Solid¯o e Edalguia, desamparo e esperança so
ser¯osuperadospe¦alivreaceitaç¯odamorte.]+]eliabov, queor-
ganizouem 1 8 8 1 oatentadocontraAlexandre11, detido quarenta
20 1
ALBERT CAMUS
eoitohorasantesdoassassinato,haviapedidoparaserexecutado
aomesmotempoqueoautorrealdoatentado "So acovardiado
governo", diz ele em sua carta as autoridades, "explicariaquese
erguesse apenas um cadalalso emvez dedois "Armaram cinco,
umdelesparaamulherqueeleamava Nas]eliabovmorreusor-
rindo,enquantoRrssakov,quelraque¡araduranteosrnterrogatorros,
loiarrastadoparaocadalalsomeioloucodeterror.
É quehaviaumaespeciedeculpabilidadeque]eliabovn¯oque-
ria,masquesabiaseroseuquinh¯o,comoRissakoysecontinuasse
solit+rioaposhavermatadooumandadomatarAopedalorca,SoEa
Ierovskaiabei|ouo homem queamava edoisoutrosamigos, mas
deuascostasparaRissakoyquemorreusolit+rio,comoumreprobo
danovareligi¯oIara]eliabov,amortenomeiodeseusirm¯oscoin-
cidiacomasua|ustiEcaç¯o.Aquelequematasoeculpadosecon-
senteem continuarvivendoou se,paracontinuarvivendo,traios
irm¯osNorrer,aocontr+rio,anulaaculpabilidadeeopropriocri-
me.CharlotteCordaygrita,ent¯o,paraIouquier-Jnville."Òh,que
monstro' , elemetomaporumaassassrna' "É adescobertatorturan-
teeelêmeradeumvalorhumano quesemantemameiocaminho
entreainocênciaeaculpabilidade,araz¯oeainsensatez,ahistoriae
aeternid�eÞoinstantedestadescoberta,massoent¯o,chegapara
esses desesperadosumapazestranha,adasvitoriasdeEnitivas.£m
sua cela, Iolivanov diz que lhe teria sido "l+cil e suave" morret.
\ornarovskr escreve que venceu o medo damorte. "Sem que um
únicomúsculodemeurosto semova, semlalar,subireiaocadalal-
so . L n¯o ser+umaviolênciaexercida sobremim mesmo, ser+ o
resultadomuitonaturaldetudooquevivi "Iemmaistarde,ote-
nenteSchmidtir+tambem escrever,antes deserluzilado. "Ninha
morteir+consumartudoe,coroadapelosuplicio,minhacausaser+
rrrepreensiveleperlita. "£Kalrarevcondenadoalorcadeporsdese
tererguidocomoacusadordiantedotrrbunal, Kaliaievquedeclara
comErmeza. "Considerominhamortecomoumprotestosupremo
202
O HOMEM REVOLTADO
contraummundodel+grimasedesangue",eaindaKaliaievquem
escreve."Apartirdoinstanteemquemeviatr+sdasgrades,n¯otive
cem porummomentoodese|ode continuarde algumamaneiraa
viver "Seudese|oser+atendidoÞodialO demaio,asduashorasda
manh¯,elecaminhar+paraaúnica|ustiEcaç¯oquereconheceJodo
vestrdode negro, semsobretudo, usandoumchapeudeleltro, ele
sobeaocadalalso.AopadreIlorinski,quelheestendeocrucifxo,o
condenado, desviandoo rosto do Cristo, respondeapenas. "Lu|+
lhedissequeacabeicomavidaequemeprepareiparaamorte. "
Sim,oantigovalorrenasceaqui, noextremodoniilismo,aos
pesdaproprialorca £leeorellexo, destavezhistorico, do "nos
existimos" que encontramos noEnaldeumaan+lise do espirito
revoltado£leeaomesmo tempoprivaç¯oecertezailuminada.É
elequeresplandececomumbrilhomortalno rosto transtornado
deIoraIrilliant,quandopensavanaquelequemorriasimultane-
amenteporsiproprioepelaamizadeirrestrita,ele,quelevaSasonov
amatar-senapris¯ocomoprotestoepara "selazerrespeitarpelos
rrm¯os", eeleaindaqueabsolveateÞechaievnodiaemque,pe-
dindo-lheumgeneralquedenunciasse oscolegas,eleo derruba
comumúnicogolpeAtravesdele,essesterroristas,aomesmotem-
poemqueahrmamomundodoshomens,colocam-seacimadeste
mundo, demonstrando, pelaúltimavez em nossahistoria, que a
verdadeirarevoltaecriadoradevalores
Crfças
·
� eles, l 90´marcaopontomarsa�t� doarre�a�amen:o
revolucionano.Þaqueladata,começaumdeclinio.Òsmartrresnao
constroemas Igre|as. eless¯ooseucimento ouo seu +libi £mse-
guida, vêm os padres eoscarolas Òsrevolucion+rios t.tros n¯o
exigir¯o uma troca devidas £les aceitar¯o o risco damorte, mas
tambem consentir¯o em se preservarem ao m+ximo para servrr a
revoluç¯o.Iogo,aceitar¯oparasrpropriosaculpabrlidadetotal Ò
consentimentonahumilhaç¯o,estaeaverdadeiracaracteristicados
revolucion+riosdoseculoX, quecolocamarevoluç¯oea¡gre|a
203
ALBERT CAMUS
doshomensacimadesimesmos.Kaliaievprova,pelocontr+rio,que
arevoluçäoeummeionecess+rio, mas näo um Em suEciente. A
mesmotempo,eleelevaohomememlugarderebaix+-lo.SäoKalraiev
eseusirmäos, russos ou alemäes, quem, nahistoriado mundo, se
opõem realmente a Hegel,¯¨|+ que o reconhecimento universal e
inicialmenteconsiderado necess+rioe, depois,insuEciente.Asapa-
rênciasnäolhebastavamNesmoqueomundointeirosedispusesse
areconhecê-lo,umadúvidaaindasubsistiriaemKaliaiev elepreci-
savadeseuproprioconsentimento,eatotalidadedasaprovaçõesnäo
teriabastadoparalazercalaressadúvidaque|+lazemnascerem
todohomemsincerocemaclamaçõesentusiasmadasKaliaievduvi-
douateolim,eessadúvidanäooimpediudeagir,enissoqueelee
aimagemmaispuradarevoltaAquelequeaceitamorrer,pagaruma
vidacomoutravida, quaisquerquese|amassuasnegações,aErma
aomesmotempo umvalorquesuperaasipropriocomoindividuo
historico.Kaliaievdevota-seahistoriaateamortee,nomomentode
morrer,coloca-seacimadahistoria. Iecertalorma,everdadeque
eleseprelereaela.Nasoqueprelere,elemesmo,aquemmatasem
hesitaçäo, ou o valor que ele encarna e laz viver` A resposta näo
deixadúvidas.Kaliaieveseusirmäostriunlamsobreoniilismo
O Chigalevimo
Nas essetriunlonäoter+umamanhä. elecoincidecomamorte.
Ò niilismo, provisoriamente, sobrevive aos seusvencedores. Þo
60Duas raças de homens. Um mata uma única vez e paga com a vida. O outro justifca milhares de
crimes e aceita honras como pagamento.
O HOMEM REVOLTADO
¡roprio seiodopartidosocialistarevolucion+rio,ocinismopoliti-
co continua a encaminhar-se para avitoria. Ò chele que envia
Kaliaievparaamorte,Azeylaz|ogoduplo,denunciandoosrevo-
lucion+riosaÒkhrana,ao mesmo tempo emquemandaexecutar
ministrosegräo-duquesAprovocaçäo restaurao"Judoepermi-
tido",identrEcandoarndaahistoriaeovalorabsoluto.£steniilismo,
aposterintuenciadoosocialismoindividualista,vaicontaminaro
socialismo chamado cientiEco, que surge na decada de 1 8 80 na
Rússia '' Òlegadocon|untodeÞechaievedeNarxdar+origema
:evoluçäototalit+riadoseculoX. £nquantooterrorismoindivi-
dualperseguiaosúltimosrepresentantesdodireitodivino,oterro-
rismo de £stado preparava-separadestruirdeEnitivamente esse
direitonapropriaraizdassociedadesAtecnicadatomadadopo-
derpara arealizaçäodosEnsúltimostomao lugardaaErmaçäo
exemplardesses Ens.
Ienin,naverdade,ir+pediremprestadoaJkachev,camarada
eirmäoespiritualdeÞechaiev, umaconcepçäodatomadadepo-
derqueeleachava "ma|estosa" e queeleproprio assim resumia.
"segredorigoroso,escolhaminuciosadosmembroselormaçäode
revolucion+rios proEssionais". Jkachey quemorreu louco, laz a
transiçäodoniilismoparaosocialismomilitar£lepretendiacriar
um| acobinismorussoe sotomou aos|acobinosa sua tecnica de
açäo,|+quetambemnegavatodoprincipioetodavirtude.Inimigo
da arte e da m

ral, ele concilia nat+ticasomente o racional e o
irracional.Seu

b|etivoerealizaraigualdadehumanapelatomada
dopoderde£stado.Òrganizaçäosecreta,aliançasrevolucion+rias,
poderditatorialdoscheles,estestemasdehnemanoçäo,senäoa
existência,do"aparelho",queir+conhecerumsucessotäogrande
eeE caz Quantoao metodo propriamentedito,ter-se-+ deleuma
ideia|ustaquandosesouberqueJkachevpropunhasuprimirto-
6 1
0 primeiro grupo socialdemocrata, o de Plekhanov, é de 1 883.
I
I
ALBERT CAMUS
dos os russos de mais devrntee crncoanos, como rncapazes de
acertaremasrdeiasnovas Netodogenial,naverdade,equedevia
prevalecernatecnicadosuper-Lstadomoderno,emqueaeduca-
ç¯otansticadacriançaserealizavanomeiodeadultosaterroriza-
dos Ò socia¦ismocesarianoirscondenar, semdúvida,oterroris-
moindividual,namedidaemqueelelazrevivervaloresincompa-
tiveiscomopredominiodaraz¯ohistorica.Nasrestituirsoterror
aonivel do Lstado,tendo, como única|ustiEcaç¯o, a construç¯o
dahumanidadeenEmdividida
Imcic¦oencerra-seaqui,earevolta,cortadadesuasverda-
deirasraizes,inEelaohomemporquesubmissaahistoria,preten-
de agora escravizaro unrverso interro. Começa ent¯o a era do
chigalevismo,exaltadaemOs possessos por\erkhovenski,oniilista
que reclama o direito a desonra. Lspirito inleliz e implacsvel,¯´
escolheuavontadedepoder,aúnica,naverdade,que podereinar
sobreumahistoriasemoutrasigniEcaç¯oqueelamesmaChigalev,
ohlantropo,serssuacauç¯o,deagoraemdiante,oamorpelahu-
manidade|ustilicarsaescravizaç¯odoshomens.Ioucopelaigual-
dade,'apos¦ongasrelexões,Chiga¦evchegaaconclus¯o,comde-
sespero, dequeumúnicosistemae possivel, sebemque se|ana
verdadeum sistemadesesperador "Iartindodaliberdadeilimita-
da,chegoaodespotismoilimiado."Aliberdadetotal,queenega-
ç¯o de tudo, so podevrver   |ustrlicar-se pela criaç¯o de novos
valores identiEcados com a humanidade inteira Se esta criaç¯o
tarda,ahumanidadeseentredilaceraateamorteÒcaminhomais
curto no sentido dessesnovos padrões passa peladitaduratota¦
"Imdecrmodahumanrdadetersdireitoàpersonalrdadeeexerce-
rsautoridadeilimitadasobreosoutrosnovedecimos.Lstesperde-
r¯oasuapersonalidade,tornando-seumaespeciederebanho,res-
62"Ele concebia o homem à sua maneira, e depois nunca mais desistia de sua idéia."
""A calúnia e o assassinato em casos extremos, mas sobretudo a igualdade."
206
O HOMEM REVOLTADO
trrtos a obediêncra passiva, sendoreconduzrdosa inocêncraprr-
meirae,porassimdrzer,aoparaisoprrmitrvo,onde,deresto,deve-
r¯otrabalhar"É ogovernodoslilosotos,comoqua¦sonhavamos
utopistas, soqueestesElosotosn¯oacreditam em nada. Ò reino
chegou,maselenegaaverdadeirarevolta,trata-seapenasdoreino
dos"Cristosviolentos",pararetomarumaexpress¯odeumlitera-
toentusrasta,exaltandoavidaeamortedeRavachol "Ò papano
-lto",diz\erkhovenskrcomamargura,"nosaoseuredore,abaixo
denos, ochigalevismo "
Asteocraciastotalitsriasdosecu¦oXX,oterrordeLstados¯o
assimanunciados Òs novos senhores e osgrandes inquisidores
reinam ho|esobre uma parte de nossa historia, utrlizando-se da
revolta dos oprimidos Seureino e cruel, mas eles descu¦pam-se
porsuacrueldade, comooSat¯romantico,a¦egando queaexer-
cem como um lardo pesado "Þos nos reservamos o dese|oe o
sotrimento, os escravos ter¯o o chigalevismo." Þasce nesse mo-
mentoumanovaeumtantohorrendaraçademsrtrres.Seumarti-
rioconsiste emaceitarqueosolrimentose|aintigidoaos outros,
e¦esseescravizamaoseupropriodominio Iaraqueohomemse
tornedeus,eprecisoqueavitimaserebaixeparatornar-secarras-
co É porisso quevitimaecarrascoest¯oigualmentedesespera-
dos. Þemaescravid¯onemo poder coincidemmaiscomalelici-
dade,ossenhoresser¯omorosos,eosservos,mal-humoradosSaint-
]usttinharaz¯o,eumacoisahorrivelatormentaropovoNascomo
evitar es�rmento sesedecidiulazerdeles deuses` Iamesma
lormaqueKirilov, quesemataparaserdeus,aceitaverseusuici-
dro utilizado pela "consprraç¯o" de \erkhovenski, tambem a
divinizaç¯odohomemporsipropriorompeolimitequearevolta,
noentanto,revelava,seguindoirresistive¦menteoscaminhosenla-
meadosdatsticaedoterror,dosquaisahistoriaaindan¯osaiu.
207
0
¿
£RRÒRISNÒI£
_
SJAIÒ
£Ò
¿
£RRÒR
j
RRACIÒÞAI
]
odasasrevoluçõesmodernasresultaramnumlortalecimentodo
£stado.1 789 trazÞapole¯o, 1 848, Þapole¯oIII, 1 9 1 7, Stalin,os
distúrbiositalianosdadecadade 1920, Nussolini,arepúblicade
\eimar,Hitler£ssasrevoluções,sobretudodepoisqueaIrimei-
raCuerraNundialliquidouosvestigiosdodireitodivino,propu-
seram-se,entretanto,comumaaud+ciacadavezmaior,aconstru-
ç¯odacidadehumanaedaliberdaderealAcrescenteonipotência
do£stadosancionouessaambiç¯oemtodososcasosSeriaerrado
dizerqueisso n¯o podiadeirdeacontecer Nasepossivelexa-
minarcomoissoocorreu,ta
j
vezsesigaumaliç¯o
Iaralelamenteaumpequenonúmerodeexplicações,quen¯o
s¯oob|etodesteensaio,oestranhoeaterrorizantecrescimentodo
£stadomodernopodeserconsideradocomoaconclus¯ologicade
ambiçõestecnicaseElosoEcasdesmedidas,estranhasaoverdadei-
roespiritoderevolta,masquederamorigem,noentanto, aoespi-
ritorevolucion+riodenossotempo ÒsonhoproleticodeNarxe
aspoderosasantecipaçõesdeHegeloudeÞietzscheacabaramsus-
citando, depois queacidadedeIeusloiarrasada,um£stadora-
cionalouirracional,masem ambos oscasosterrorista
O HOMEM REVOLTADO
Abemdizer, asrevoluçõeslascistas do seculoXXn¯o mere-
cemotituloderevoluç¯o.Ialtou-lhesambiç¯ouniversal. Þ¯oh+
dúvidadequeNussolinieHitlerprocuraramcriarumimperioe
queosideologosnacionalsocialistaspensaram,explicitamente,em
imperiomundial.Adilerençaentreeleseomovimentorevolucio-
n+rio cl+ssico e que, nolegado niilista, eles decidiram deilicaro
irracional, e apenaso irracional, em vez de divinizararaz¯o.Ao
mesmo tempo, renunciavam ao universal. Isso n¯o impede que
Nussoliniinvoque Hegel, e Hitler, Þietzsche, eles ilustram, na
historia, algumas das prolecias da ideologia alem¯ A este titulo
pertencemahistoriadarevoltaedoniilismo. Ioramosprimeirosa
construiremum£stadobaseadonaideiade que nada tinhasenti-
doequeahistorianadamaiseradoqueoacasodalorça.Aconse-
qüêncian¯otardou
Apartirde 1 9 1 4, Nussolinianunciavaa "santareligi¯odaanar-
quia",declarando-seinimigodetodosos cristianismos Quantoa
Hitler, sua religi¯o conlessa|ustapunha, sem hesitaç¯o, o Ieus-
Irovidênciae o\alhalla. Ò seudeus, naverdade, eraumargu-
mentodecomicioeumamaneirade suscitarodebateno hnalde
seus discursos £nquanto durou o sucesso, ele preleriu| ulgar-se
inspirado. Þo momento daderrota, ele se| ulgoutraido por seu
povo £ntreos dois, nadaveioanunciaraomundoqueelealgum
diapudessetersidocapazdeachar-seculpadoemrelaç¯oaalgum
prpioÒúnicohomemdeculturasuperiorquedeuaonazismo
umaaparênciadeElosoEa,£rnst]unger,escolheuinclusiveaspro-
prias lormulas do niilismo. "A melhor respostaatraiç¯odavida
peloespiritoeatraiç¯odoespiritopeloespirito,eumdosgrandes
ecrueisgozos destetempoeparticipardessetrabalho dedestrui-
ç¯o "
Òshomensdeaç¯o,quandon¯otêmle,soacreditamnomovi-
mentodaaç¯o. Òparadoxoinsustent+veldeHitlerloi| ustamente
I
l i
I
ALBERT CAMUS
quererlundarumaordemest+velbaseadaemummovimentoper-
pétuo eumanegaçäo Rauschning, em suaRevolução do niilismo,
temrazäoemdizerquearevoluçäohrtleristaeradrnamismopuro
ÞaAlemanha,abaladaatéasraizesporumaguerrasempreceden-
tes,peladerrotae pelodesequilibrioeconêmico,nenhumvalorse
mantinhamaisdepé.Lmborase| anecess+riolevaremcontaoque
Coethe chamava de "o destino alemäo de tornar tudo dilicil", a
epidemiadesuicidiosquealetouopaisinteiro,entreasduasguer-
ras, d+ uma idéia da conlusäo mentalreinante.Iaraaque¦es que
desesperamdetudo,os raciociniosnäo podemdevolveralé,mas
apenas apaixäo, e, nocaso, apropria paixäo que|azianoamago
dessedesespero,querdizer,ahumi¦haçäoeoodio.Þäohaviamais
umvalor, ao mesmo tempo comum e superioratodos essesho-
mens, em nome do qual lhes seria possive¦|ulgarem-se uns aos
outros. AAlemanhade 1 933, portanto,aceitouadotarosvalores
degradadosdealgunshomens,tentandoimpê-¦osatodaumacivi-
lizaçäoIrivadadamoraldeCoethe,elaescolheuesolreuamoral
dagangue
A moralda gangueé triunlo evingança, derrota e ressenti-
mento, inesgotave¦mente. Quando Nussolini exa¦tava "aslorças
elementaresdoindividuo",anunciavaaexaltaçäodospoderesobs-
curosdosangueedoinstinto,a|ustilcaçäobiologicadaquiloque
o rnstinto de dominaçäo produz de pror. Þo | ulgamento de
Þuremberg,Irankressaltou"oodioalorma"queanimavaHitler
É bemverdadequeestehomemerasomenteumalorçaemmovi-
mento,dirigidaetornadamaiseEcazpe¦osc+lculosdaespertezae
pela implac+vel clarividênciat+tica Até mesmo sualorma nsica,
mediocree banal, näo representava para eleumlimite, lundia-o
comamassa´Somenteaaçäoomantinhadepé.Iaraele,serera
lazer Lis por queHitlere seu regime näo podiamprescindirde
64Ver o ecelente livro de Ma Picard: IHomme du néant (O homem do 1ada), Cahiers du Rhône.
2 1 0
O HOMEM REVOLTADO
inimigos. Iandislrenéticos,´`sopodiamserdeE nidosemrelaçäo
aessesinimigos, sopodiamassumirumalormanocombatelerre-
nhoqueiriaabatê-los.Ò¡udeu,osmaçons,asplutocracias,osanglo-
saxões,oeslavobestial sesucederamnapropagandaenahistoria
parareerguer,cadavezumpoucomaisalto,atorçacegaquemar-
chava paraoseu lim Òcontitoperpétuoexigiaestimulantesper-
pétuos.
Hitlereraahistoriaemestadopuro "Jornar-sevalemaisdo
queviver",diziajüngerLlepregava,portanto,aidentiEcaçäoto-
talcom acorrentedavida, em seunive¦ maisbaixo, desaEando
qualquerrealidadesuperior Òregimequeinventouapoliticaex-
terna biologica contrariava os seus proprios interesses Nas ele
obedecra ao menos a sua logica partrcular Ia mesma lorma,
Rosenbergdiziapomposamentequeavidaé"oestilodeumacolu-
na em marcha, e poucoimportamo destino e a lnalidade para
onde essa coluna marcha" . Lmboraacolunav+ semearahistoria
com ruinas, devastando o seu proprio pais, e¦a ter+ pelo menos
vividoAverdadeiralogicadessedinamismoeraaderrotatotalou,
de conquista emconquista, deinimigoeminimigo, o estabeleci-
mento do Império do sangue e da açäo. É pouco prov+ve¦ que
HitlertenhanocomeçoconcebidoesseImpérioLlenäoestavaa
alturadeseudestino,nempelacultura, nemmesmopeloinstinto
oupelarntelrgêncrat+ticaAAlemanhadesmoronouportertrava-
do uma luta imperia¦ com um pensamento politico provinciano.

Nas]üngerhaviapercebidoessalogicaederaasualormulaLle
teveavisäodeum"Impériomundialetécnico",deuma"religiäo
datécnicaanticristä" ,cu|osEéisesoldadoslossemospropriosope-
r+rios,porque¸enisto]üngerreencontraNarx),porsuaestrutura
humana,ooper+rioéuniversal "Òestatutodeumnovoregimede
comandosubstituiamudançadocontratosocial. Òoper+rioére-
65 Sabe-se que Goering recebia às vezes os visitantes fantasiado de Nero e fardado.
2 1 1
ALBERT CAMUS
tiradodaesteradenegociações,dapiedade,daliteratura,eelevado
aesteradaaçäoAsobrigações|uridicastranstormam-seemobri-
gações militares. " Ò Império, como se vê, é simultaneamente a
t+bricaeacasernamundiais, ondereinacomo escravo osoldado
oper+riodeHegel. Hitlertoidetidorelativamentecedonocami-
nho desse império Nas se de qualquermodo tivesse ido ainda
maislonge, ter-se-iaassistido apenas aodesdobramentocadavez
maisamplodeumdinamismoirresistiveleaotortalecimentocada
vezmaisviolentodosprincipioscinicos,osúnicoscapazesdeser-
viremaessedinamismo
Ialandodeumarevoluçäocomoessa,Rauschningdizqueela
näoémaisliberaçäo,|ustiçaemoladoespirito. elaé "amorteda
liberdade, o dominiodaviolênciae a escravidäo do espirito" Ò
tascismo,naverdade,éodesprezoInversamente,qualquertorma
dedesprezo,seintervémnapolitica, preparaouinstauraotascis-
mo É precisoacrescentarqueotascismonäopodeseroutracoisa
semserenegarasiproprio.jüngertiravadeseuspropriosprinci-
piosaconclusäodequeeramelhorsercriminosodoqueburguês
Hitler,quetinhamenostalentoliter+rio,mas,naquelaocasiäo,mais
coerência,sabiaquenäotaziaditerençaserumououtroapartirdo
momentoemque so se acredita nosucesso Llesepermitiu,por-
tanto,serosdoisaomesmotempo."Òtatoétudo", diziaNussolini
LHitler."Quandoaraçacorreoriscodeseroprimida . . aquestäo
dalegalidadedesempenhaapenasumpapelsecund+rio "Searaça,
ali+s,temsemprei\essidadedeserameaçadaparaexistir, nunca
h+legalidade."Lstouprontoaassinartudo,tudosubscrever . . Þo
quemeconcerne,soucapaz,comtodaaboa-té, deassinartratados
ho|ee rompê-los triamente amanhä, seo tuturo dopovo alemäo
estiver em|ogo. " Antes dedesencadearaguerra, ali+s, oFührer
declarouaseusgeneraisque näose perguntariaaovencedor,mais
tarde,se ele havia ditoaverdadeounäoÒleitmotiv dadetesade
Coeringno|ulgamentodeÞurembergretomaessaidéia. "Òven-
2 1 2
O HOMEM REVOLTADO
cedorser+sempre|uiz,eovencido,réu "Semdúvida, issopode
serdiscutido. Þesse caso, näo sepodecompreenderRosenberg,
quandoeledizno|ulgamento deÞurembergquenäohaviapre-
vistoque esse mito levaria ao assassinato Quando o procurador
inglêsobservaque"deMinha luta, aestradalevavadiretamenteas
camarasdeg+sdeNa|danek",eletoca,pelocontr+rio,noverda-
deiroassuntodo|ulgamento,odasresponsabilidadeshistoricasdo
niilismoocidental,oúnico,noentanto,quenäotoirealmentedis-
cutidoemÞuremberg, pormotivos evidentes.Þäo se pode con-
duzirum|ulgamento anunciando aculpabilidadegeraldeuma
civilizaçäojulgaram-seapenasosatosque,essespelomenos,eram
gritantesdiantedomundointeiro.
`
Hitler,emotodoo caso, inventouomovimentoperpétuo da
conquista,semoqualelenadateriasido.Nasoinimigoperpétuo
éoterrorperpétuo,destaveznoniveldeLstado. ÒLstadoiden-
tiE ca-secom"oaparelho", istoé, comocon|untodemecanismos
de conquista ederepressäo A conquistadirigidaparaointerior
do pais chama-se propaganda ¸"oprimeiro passo emdireçäo ao
interno",segundo Irank) ourepressäo Iirigida parao exterior,
criaoexércitoJodososproblemassäo,dessatorma,militarizados,
colocadosemtermosdepoderioedeelic+cia. Òcomandante-ge-
raldeterminaapoliticae, ali+s, todos osprincipais problemas de
administraçäoLsteprincipio,irretut+velquantoaestratégia,ége-
neralizadonavidacivil Imúnicolider,umúnicopovosigniEca
umúnico senhoremilhõesdeescravos Òsintermedi+riospoliti-
cosque,emtodasas sociedades,säoassalvaguardasdaliberdade
desaparecem, dando lugar aumj eov+debotas, quereinasobre
multidões silenciosas ou, o que d+ no mesmo, limitadas agritar
palavras de ordem Þäo se interpõe entre o chete e o povo um
organismodeconciliaçäooudemediaçäo,mas|ustamenteoapa-
relho,querdizer,opartido,queéopressorÞasceassimoprimeiro
e único principio desta baixa mistica, o Führerrinzi ¸principio
2 1 3
ALBERT CAMUS
autorit+rro), querestaurano mundo do nrrlrsmo uma rdolatria e
umadegradaçäodosagrado
Nussolini,|uristalatino,contentava-secomarazäodeLsta-
do,queeletranslormavaapenas,commuitaretorica,emabsoluto
"ÞadaalemdoLstado,acimadoLstado,contrao Lstado.Judo
aoLstado,paraoLstado,noLstado "AAlemanhahitleristadeu
aessalalsa razäo a suaverdadeira linguagem, que era a deuma
religiäo "Þossamissäodivina" ,escreveum|ornalnazistadurante
umcongresso dopartido, "era reconduzrrcadaqual as suas ori-
gens,asNäes Lrarealmenteumamrssäodivina "Asorigens,no
caso,estäonogritoprimalIequedeussetrata`Imadeclaraçäo
oEcialdopartidonosresponde."Jodosnos,aquiembaixo,acredi-
tamosemAdoll Hitler,nosso Führer . . e¸nosconlessamos)queo
nacionalsocialismoeaúnicale quelevaonossopovoasalvaçäo "
Òsmandamentosdochele, depenasarçaardentedospro|etores,
sobreumSinaidet+buasedebandeiras,determinamentäoaleie
avirtudeSeosmicrolonessobre-humanosordenamumasovezo
crime,entäo,dechelesparasubcheles , ocrrmedesceateoescravo,
querecebeasordenssemd+-lasaninguemImdosverdugosde
Iachauchora,emseguida,naprisäo."Socumpriordens ÒFührer
e o Reichshrer loram os únicos a produzirtudo isto, depois se
loram.C¦ueksrecebeuordensdeKaltenbrunner,e, linalmente,eu
recebiaordemdeluzilar. Llesmepassaramtodasasordens,por-
queeueraapenasumpequenoH auptscharfhrer enäohaviamais
ninguemabaixodemimaquempudessetransmiti-las Agora,eles
dizemquesoueuoassassino "Coerrngprotestavano|ulgamento
asualidelrdade aoFührer, dizendoque "existiaaindaumcodigo
dehonranestavidamaldita" .Ahonraestavanaobediência,queas
vezesseconlundiacomocrimeAleimilrtarpunecomamorte a
desobediência, e suahonra e servidäo. Quando todos säo milita-
res,ocrimeenäomatarseaordemassimoexigir
Aordem,pordesgraça,raramenteexigequeselaçaobem Ò
2 1 4
`
O HOMEM REVOLTADO
purodinamrsmodoutrrn+rionäopode sedirrgirparaobem,mas
somenteparaaelic+ciaLnquantohouverinimigoshaver+terror,
e haver+inimigos enquantoo dinamismo existir, e, paraque ele
exista,"todasasinlluênciassuscetiveisdeenlraquecerasoberania
dopovo,exercidapeloFührer, comaa|udadopartido . devemser
eliminadas" Òsinimigossäohereges,devemserconvertidospela
pregaçäo ou pela propaganda, exterminados pela inquisiçäo ou,
emoutraspalavras, pelaCestapo Òresultadoequeohomem,se
lormembrodopartido,näopassadeumrnstrumentoaservrçodo
Führer, umaengrenagemdoaparelho, ou,seinimrgodoFührer,
umprodutodeconsumodoaparelhoÒarrebatamentoirracional,
nascidodarevolta,sosepropõeareduziraquiloquelazcomqueo
homemnäose|aumaengrenagem,istoe,apropriarevolta.Òindi-
vidualismo romantico darevoluçäo alemä se realiza, linalmente,
no mundo das coisas. Ò terrorirracional translormaos homens
emcoisas,em "bacilosplanet+rios", segundoalormuladeHitler
Llesepropõeadestruirnäoapenasapessoa,mastambemaspos-
sibrlrdadesuniversarsdapessoa,arellexäo,asolidariedade,oapelo
aoamorabsoluto Apropagandaeatorturasäomeiosdiretosde
desintegraçäo, maisaindaadegradaçäo sistem+tica, o am+lgama
comocriminosocinico,acumplicidadelorçadaAquelequemata
ou tortura so conhece uma sombra em sua vitoria. näo pode se
sentirinocente Iogo, e preciso criara culpabilidadenapropria
vitima, para que, num mundo sem rumo, a culpabilidade geral
legitime apenas o exercicio da lorça, consagre apenas o sucesso.
Quandoaideia de inocência desaparece no proprio rnocente, o
valordepoder reinadelinitivamentenummundodesesperadoÉ
porissoqueumaignobilecruelpenitênciareinaneste mundo,em
queapenasaspedrassäoinocentes. Òscondenadossäoobrigados
aenlorcarem-seunsaosoutros Òpropriogritopurodamaterni-
dadeesulocado,comono caso damäegregaqueloilorçadapor
um olicia¦ a escolherqua¦ dostrêsE lhosserialuzilado É assim
2 1 5
ALBERT CAMUS
que,Enalmente,seEcalivreÒpoderdemataredeaviltarsalvaa
almaservildonadaAliberdade alemäéentäocantadaao somda
orquestradeprisioneirosnoscamposdamorte
Òscrimes hit¦eristas e, entree¦es, omassacredos|udeus näo
têmequiva¦entenahistoria,porqueahistorianäotemnenhumexem-
plodequeumadoutrinadedestruiçäototal|amaistenhasidocapaz
deapoderar-sedasa¦avancasdecomandodeumanaçäocivlizada
Nas,sobretudo,pelaprimeiraveznahistoriaosgovernantesdeum
paisutilizaramoseuimensopoderparainstaurarumamisticalora
dequalquermora¦LstaprimeiratentativadeumaIgre|aconstruida
sobre onada pagou-se comapropria aniquilaçäo A destruiçäo de
Iidice mostraeletivamentequeaaparênciasistem+tica ecientilica
domovimentohitleristaencobre,naverdade,ummovimentoirracio-
nal,quesopodeseromovimentododesesperoedoorgulho.Iiante
de uma aldeia supostamente rebelde, so seimaginavam até entäo
duasatitudesdoconquistadot.Òubemarepressäocalculadaealria
execuçäodosreténsouosaqueselvagem,eobrigatoriamentebreve,
de soldados enlurecidos. Iidice loi destruida pelos dois sistemas
con|ugadosLlailustraasdevastaçõesdessarazäoirracionalqueéo
únicovalorencontradonahistoriaAscasastoramincendiadas,cen-
to e setenta e quatro homens da aldeia luzilados, duzentas e três
mulheresdeportadasecentoetrêscriançastransleridasparaserem
educadasnare¦igiäodoFührer, alémdoqueequipesespeciaispassa-
rammesesdetrabalhonive¦andooterrenoadinamite,destruindoas
pedras,aterrandoolago,desviandoEna¦menteocursodorioIìdice,
depoisdisso,näoerarealmentemaisnada,anäoserummerolutu-
ro, segundo a logica do movimento. Iara maior segarança, esva-
ziou-seo

emitério de seus mortos, porque lembravam ainda que
algoexistiranesselugar´¯
66É
impressionante observar que atrocidades que podem lembrar tais excessos foram cometidas
nas colônias (
Í
ndia, 1 857; Argélia, 1 945 etc.) por nações européias que, na verdade, obedeciam
ao mesmo preconceito irracional de superioridade racial.
2 1 6
O HOMEM REVOLTADO
Arevo¦uçäoniilista,queseexpressouhistoricamentenare¦i-
giäo hitlerista, so suscitou, dessa lorma, umlurorinsensatopelo
nada,queacabouvoltando-secontrasimesmo.Anegaçäo,dessa
vez pe¦o menos e apesar de Hegel, näo loi criadora. Hitler
exemp¦iEcaocaso,talvezúniconahistoria,deumtiranoquenäo
deixou nenhum saldo Iara si mesmo,parao seu povo e parao
mundo,eleloiapenassuicidaeassassino Setemilhões de|udeus
assassinados, sete mi¦hões de europeusdeportadosou assassina-
dos,dezmi¦hõesdevitimasdaguerranäoseriamsuEcientespara
queahistoriao|ulgasse. elaest+acostumadacomassassinos. Nas
apropriadestruiçäodas|ustiEcaçõesú¦timasdeHitler,istoé, da
naçäo a¦emä, a partir de agora laz desse homem, cu|a presença
historicaassombrouduranteanosmilhõesdehomens, umasom-
brainconsistente emiser+ve¦. Ò depoimento de Speer no|ulga-
mentodeÞurembergmostrouqueHitler, emborativessepodido
sustaraguerraantesdodesastretotal,quisosuicidiogeral,ades-
truiçäomateria¦epoliticadanaçäoalemäIarae¦e,oúnicovalor,
atéoEm,loiosucesso.j+queaAlemanhaperdiaaguerra,elaera
covardeetraidora, ¦ogo, mereciamorrer "Seopovoalemäonäoé
capaz devencer, näo é digno devivet. " Hit¦er decidiu portanto
arrast+-loparaamorteelazerdeseusuicidioumaapoteose,quan-
do os canhões russos| +derrubavam as paredes dos pal+cios
berlinenses Hitler, Coering,quequeriaverseusossoscolocados
emumtúmulo dem+rmore, Coebbels, Himmler, Ieysematam

nos subterraneosouemce¦as. Nas essamorteéumamorte para
nada,écomoumpesadelo,umalumaçaquesedissipaÞemeEcaz
nemexemplar,elaconsagraavaidadesanguin+riadoniilismo"Lles
se|ulgavam¦ivres", gritahistericamenteIrank. "Lles näosabem
queninguém selibertado hitlerismo' " L¦esnäo o sabiam,assim
comonäosabiamqueanegaçäodetudoéservidäo,eaverdadeira
liberdade,umasubmissäointerioraumvalorqueenlrentaahisto-
riaeseussucessos
2 1 7
ALBERT CAMUS
Nasasmisticaslascistas,sebemquetenhamvisadodominar
omundopoucoapouco,nuncapretenderamrealmenteumImpe-
riouniversalNom+ximo,Hitler,impressionadocomsuasproprias
vitorias, desviou-se das origens provincianas de seu movimento,
rumoao sonhoimprecisodeumImperiodosalemäes, quenada
tinhaavercomaCidadeuniversalÒcomunismorusso,pelocon-
tr+rio, porsuaspropriasorigens,pretendeabertamenteoimperio
mundial.Lstaeasualorça,seusigniEcadoprolundoesuaimpor-
tanciananossahistoriaApesardasaparências,arevo¦uçäoalemä
näotinhaluturoLlaeraapenasumimpetoprimitivo,cu| asdevas-
taçõeslorammaioresdoque suasambiçõesreais. Ò comunismo
russo, aocontr+rio,assumiuaambiçäometalísicaqueesteensaio
descreve, aediEcaçäo, apos amortede Ieus, de umacidadedo
homemenEmdivinizadoLssenomederevo¦uçäo,aoqualaaven-
turahitleristanäopodeaspirar, o comunismorussoo mereceu e,
emboraaparentementenäoomereçamais, pretendemerecê-loum
dia, eparasempre.Ielaprimeiravez na historia, umadoutrinae
ummovimentoapoiadosporumImperioarmadopropõem-secomo
ob|etivoarevoluçäodeEnitivaeauniEcaçäoEnaldomundoRes-
ta-nosexaminardeta¦hadamenteessapretensäoHitler,noaugede
sua loucura, quis estabilizara historia pormi¦anos. Lle|ulgava
estarapontodelazê-lo,eosE losolosrealistasdasnaçõesvencidas
preparavam-separatomarconsciênciadissoeabsolvê-lo,quando
abatalhadaInglaterraeStalingradoatiraram-noamorte,lazendo
com que a historia se pusesse novamente em marcha. Nas, täo
incans+ve¦ quanto a propria historia, a pretensäo humana a
divinizaçäo ressurgiu, com mais seriedade emaioreEc+cia, soba
lormadoLstadoracrona¦,talcomoloiedilcadonaRússra.
2 1 8
`
0
¿
LRRÒRISNÒIL
_
SJAIÒ

¿
LRRÒR
[
ACIÒÞAI
_
aInglaterradoseculoXIX,emmeioaossolrimentoseasterri-
veisdesgraçasqueapassagemdocapitalagricolaaocapitalindus-
trialprovocava, Narxtinhamuitose¦ementosparaelaboraruma
impressionantean+lisedocapita¦ismoprimitivo.Quantoaosocia-
lismo,independentedosensinamentos,ali+scontraditoriosemre-
¦açäoasuadoutrina, quepodiatirardasrevoluçõeslrancesas,ele
era obrigado a lalar nele no luturo, e de lorma abstrata. Þäo e
portantodeadmrrarquetenhaconsegaidomisturaremsuadou-
trinaometodocriticomaisv+lidocomomessianismoutopicomais
contest+velInlelizmente,ometodocritico,quepordeEniçäoesta-
riaadaptadoarea¦idade,viu-secadavezmais separadodoslatos,
namedidaemquequiscontinuarE elaprolecia.Acreditava-se,e
isto|+eumaindicaçäo,queseretirariadomessianismoaquiloque
seconcederiaaverdadeLstacontradiçäo|+eraperceptivelquan-
doNarxestavavivo.AdoutrrnadoManifsto comunista näoemais
rigorosamenteexata,vinteanosdepois,quandosurge O capital. O
capital, ali+s,Ecouincompleto,porqueNarx,noEnaldavida,de-
bruçava-sesobre umaprodigiosa massa delatos sociais eeconê-
micosaqueeraprecisoadaptarnovamenteosistema Lsseslatos
2 1 9
ALBERT CAMUS
diziam respeito principalmente a Rússia, que ele desprezara até
entäoSabe-seenEmqueoInstitutoNarx-LngelsdeNoscouin-
terrompeu apublicaçäo das obras completas de Narx em 1 935,
quandoaindalaltavammaisdetrintavo¦umesparaserempublica-
dos, sem dúvida, o conteúdo dessesvolumesnäo erasuEciente-
mente"marxista" .
IesdeamortedeNarx,emtodoocaso,apenasumaminoria
dediscipuloscontinuouEe¦aoseumétodo.ÒsmarxistasqueEze-
rama'istoriaapoderaram-se,pelocontr+rio,daproleciaedeseus
aspectos apocalipticos, pararea¦izaremuma revoluçäo marxista,
nascircunstanciasexatasemqueNarxpreviraqueumarevoluçäo
näopodiaseproduzirIode-sedizerdeNarqueamaiorpartede
suasprevisõesentrouemchoquecomoslatos,nomesmomomen-
to emquesuaprolecialoi ob|eto deumalé crescente. Arazäoé
simples. as previsõeseramacurto prazo epuderamsercontrola-
das A prolecia aponta para bem maisadiante etem a seulavor
aquiloqueconso¦idaasreligiões. aimpossibilidadedeapresentar
provas Quandoasprevisõesdesmoronavam,aproleciacontinua-
vaaseraúnicaesperançaIaidecorreolatodeelaseraúnicaa
reinarem nossa historia Ò marxismo eseusseguidores soseräo
examinadosneste ensaiosoboangulodaprolecia.
A Profcia Burguesa
Narxéao mesmotempoumproletaburguêseumproletarevo-
lucion+rio Ò segundoémaisconhecidoqueoprimeiro Nas o
primeiroexplicamuitascoisasnodestinodosegundo.Immes-
220
O HOMEM REVOLTADO
sianismohistoricoecientiEcointuenciouoseumessianismore-
vo¦ucion+rio,oriundodaideologiaalemäedasinsurreiçõeslran-
cesas
Lmcontraposiçäoaomundoantigo,aunidadedomundocris-
täo e do mundomarxistaé impressionante Ambas as doutrinas
têmemcomumumavisäodomundoqueoseparadaatitudegre-
ga.jaspersdeEne-amuitobem. "É umpensamentocristäoconsi-
derarahistoriadoshomenscomoestritamentesingular."Òscris-
täosloramosprimeirosaconsideraravidahumanaeaseqüência
dosacontecimentoscomoumahistoriaquesedesenrolaapartirde
umaorigememdireçäoaumE m,nodecorrerdaqualohomem
ganhaasuasalvaçäooumereceoseucastigoAE¦osoEadahisto-
ria nasceu de uma representaçäo cristä, surpreendente para um
espiritogregoAnoçäogregadodevirnadatememcomumcoma
nossa idéia da evo¦uçäo historica. A dilerença entre as duas é a
mesma que distingue um circulo deuma linha reta Òs gregos
concebiamomundocomo ciclicoAristoteles,paradarumexem-
plopreciso, näo se|ulgavaposterioraguerradeJroia Òcristia-
nismo loi obrigado, paraestender-se ao mundo mediterraneo, a
he¦enizar-se,esuadoutrina,aomesmotempo,texibi¦izou-se Nas
a suaoriginalidade loi introduzirno mundoantigoduas noções
|amaisassociadasatéentäo,asdehistoriaedecastigoIelaidéiade
mediaçäo,ocristianismoégrego.Ielanoçäodehistoricidade,e¦eé
|udaicoevo¦tar+aserencontradonaideologiaa¦emä.
Lntende-seme¦horessecorteaoressa¦tarahostilidadedospen-
samentos historicos em relaçäo a natureza, considerada poreles
comoumob|etonäodecontemplaçäo,masdetranslormaçäo.Janto
paraoscristäosquanto paraosmarxistas,éprecisodominarana-
tureza Òsgregosachamqueémelhorobedecer-lhe Òamordos
antigospelocosmosédesconhecidopelosprimeiroscristäos,que,
deresto,esperavamcomimpaciênciaumEmdomundoiminente.
Ò he¦enismo, associado ao cristianismo, produzir+emseguidao
221 l i
ALBERT CAMUS
admir+veldesabrocharalbigense, porumlado,e, poroutro, Säo
IranciscoNascomaInquisiçäoeadestruiçäodaheresiac+tara,
aIgre|asepara-senovamentedomundoedabeleza,devolvendoa
historiaasuaprimazia sobreanatureza.jaspers também temra-
zäoaodizer. "É aatitudecristäquepoucoapoucoesvaziaomun-
dodesuasubstancia . |+queasubstanciaresidiaemumcon|unto
desimbolos " Lsses simbolos säoosdo dramadivinoque sede-
senrolaatravés dostemposAnaturezanäoémaisqueocen+rio
dessedrama Òbeloequilibrioentreohumanoeanatureza-a
aceitaçäo domundo pelo homem,quesoergueelazresplandecer
todoopensamentoantigo -loieslacelado,embeneliciodahisto-
ria,inicialmentepelocristianismoÒingressonessahistoria,pelo
povosnordicos,quenäotêmumatradiçäodeamizadecomomun-
do, precipitouesse movimento A partirdomomento emque a
divindadedoCristoénegada,emque,graçasaoscuidadosdaideo-
logiaalemä,ele|+näosimbolizamaisqueohomem-deus,desapa-
receanoçäodemediaçäoeummundo|udaicoé ressuscitado Ò
deusimplac+vel dos exércitosreinanovamente, todabelezaéin-
sultadacomolontedeprazeresociosos,aproprianaturezaéescra-
vizadaIestepontodevista,Narxéo]eremiasdodeushistorico
eoSantoAgostinhodarevoluçäoImasimp¦escomparaçäocom
umseucontemporaneo,queloiodoutrinadorinteligentedarea-
çäo,bastaria para explicar os aspectos propriamente reacion+rios
desuadoutrina
josephdeNaistrerelutao|acobinismoeoca¦vinismo,doutri-
nasqueresumiamparaele"tudooqueloipensadoderuimduran-
tetrêsséculos",emnomedeumallosolacristädahistoria. Con-
traoscismaseasheresias,elequerrelazer"omantosemcosturas"
deumaIgre|aenEmcatolicaSeuob| etrvo-eissosepercebeem
virtudedesuas aventurasmaçênicas¯-éacidadecristäuniver-
67 E. Dermenghem. Joseph de Maistre mystiqte (Joseph de Maistre místico).
222
O HOMEM REVOLTADO
sal.NaistresonhacomoAdäoprotoplastaouHomemuniversal,
deIabred' Òlivet,queestarianoprincipiodasalmasdilerenciadas
ecomoAdäoKadmondoscabalistas,queprecedeuaquedaeque
agoradeveserressuscitadoQuandoaIgre|ativerrecobertoomun-
do,eladar+umcorpoaesseAdäoprimeiroeúltimoAesserespei-
to, encontra-se nas Soirées de Saint-Pétersbourg (Noites de São
Petersburgo) umsem-númerodelormulascu|asemelhançacomas
lormulasmessianicasdeHege¦ ede Narx éimpressionante. Þa
]erusalémaomesmotempoterrestreecelestialqueNaistreima-
gina, "todos os habitantes permeados pelo mesmo espirito se
permearäo mutuamente eunsretetiräo alelicidadedosoutros".
Naistrenäochegaanegarapersonalidadeaposamorte,elesonha
apenascomumamisteriosaunidadereconquistadaemque, "ani-
quiladoomal,näohaver+maispaixäoneminteressepessoal"eem
que"ohomemsereunir+asimesmoquandodesaparecerestalei
deduaslaceseosseusdoiscentrosseconlundirem"
Þacidadedoconhecimentoabsoluto,ondeos olhosdoespiri-
tosecont.ndiamcomosdocorpo,Hege¦reconciliavatambémas
contradiçõesNasavisäo deNaistreencontraumavez mais ade
Narx,queanunciava"oE mdaquerelaentreessênciaeexistência,
entrealiberdadeeanecessidade" .IaraNaistre,omalnäoémais
quearupturadaunidade. Nasa humanidadedevereencontrar
suaunidadenaterraenocéu.Iorquecaminhos `Naistre,reacio-
¸
-
n+riodo antrgo regime, é menos eplicito sobre esta questäo do
queNarx.Lleesperava,contudo,umagranderevoluçäoreligiosa
daqual l 7· 9eraapenas"oespantosoprel+cio" CitavaSäojoäo,
aopedirque façamos averdade,oqueéprecisamenteoprograma
doespiritorevolucion+riomoderno,assim comoSäoIauloanun-
ciandoque"oúltimoinimigoaserdestruidoéamorte" Ahuma-
nidade, atravésdos crimes, daviolênciaedamorte, marcha para
essaconsumaçäoqueir+|ustiEcartudo. Aterra,paraNaistre,näo
émaisque"umimensoaltar,ondetudooquevivedeveserimo¦a-
223
ALBERT CAMUS
do sem fm, sem medida e sem descanso, até a consumação das
coisas, até a extinção do mal, até a morte da morte". No entanto,
seu fatalismo é ativo. "Òhomem deve agir como se pudesse tudo e
resignar-se como se nada pudesse. " Encontra-se em Marx a mes­
ma espécie de fatalismo criador. Maistre justifica, sem dúvida, a
ordem estabelecida. Mas Marx justifca a ordem que se estabelece
em seu tempo. Òelogio mais eloqüente do capitalismo foi feito por
seu maior inimigo. Marx só é anticapitalista na medida em que o
capitalismo prescreveu. Dever-se-á estabelecer uma nova ordem
que reclamará, em nome da história, um novo conformismo. Quanto
aos meios, são os mesmos, tanto para Marx quanto para Maistre:
o realismo político, a disciplina, a força. Quando Maistre retoma o
pensamento corajoso de Bossuet, "herege é quem tem idéias pes­
soais", em outras palavras, idéias sem referência a uma tradição,
social ou religiosa, ele dá a fórmula do mais antigo e do mais novo
dos conformismos. Òprocurador-geral, o bardo pessimista do car­
rasco, anuncia então nossos procuradores diplomatas.
Naturalmente, essas semelhanças não fazem de Maistre u mar­
xista, nem de Marx um cristão tradicional. Ò ateísmo marxista é
absoluto. No entanto, restitui o ser supremo aestatura do homem.
'' crítica da religião termina na doutrina de que o homem é para o
homem o ser supremo. " Sob esse ângulo, o socialismo é assim um
empreendimento de divinização do homem e assumiu algumas ca­
racterísticas das religiões tradicio
l
ais. ´`Esta reconciliação é em todo
o caso ilustrativa quanto aos aspectos cristãos de todo messianismo
histórico, mesmo revolucionário. A única diferença reside numa
mudança de sinal. Tanto em Maistre quanto em Marx o fim dos
tempos satisfaz o grande sonho de Vigny, a reconciliação do lobo e
do cordeiro, a marcha do criminoso e da vtima para o mesmo altar,
a reabertura, ou a abertura, de um paraíso terrestre. Para Marx, as
68Saint-Simon, que irá influenciar Marx, é ele próprio, aliás, infuenciado por Maistre e Bonald.
224
O HOMEM REVOLTADO
leis da história refletem a realidade material; para Maistre elas refle­
tem a realidade divina. Mas, para o primeiro, a matéra é a substân­
cia; para o segundo, a substância de seu deus encarnou-se aqui em-
baixo. Aeternidade os separa no princípio, mas a historicidade aca­
ba reunindo-os numa conclusão realista.
Maistre odiava a Grécia (que irritava Marx, avesso a qual­
quer beleza solar), que ele dizia ter corrompido a Europa legando­
lhe o seu espírito de divisão. Teria sido mais justo dizer que o pen­
samento grego era o espírito da unidade, justamente porque ele
não podia prescindir de intermediários, e que, ao contrário, igno­
rava o espírito histórico de totalidade inventado pelo cristianismo,
o qual, cortado de suas origens religiosas, atualmente ameaça ma­
tar a Europa. "Existe uma fábula, uma loucura ou um vício que
não tenha um nome grego, um emblema grego ou uma máscara
gregar" Deixemos de lado o furor do puritano. Essa veemente re­
pugnância exprime na realidade o espírito da modernidade em rup­
tura com o mundo antigo e em continuidade estreita, ao contrário,
com o socialismo autoritário, que vai dessacralizar o cristianismo,
incorporando-o a uma Igreja conquistadora.
Òmessianismo científico de Marx é de origem burguesa. Òpro­
gresso, o futuro da ciência, o culto atécnica e aprodução são mitos
burgueses que se constituíram em dogma no século XIX. Deve-se
observar que o Manifsto comunista é publicado no mesmo ano em

-- que saiu o Futuro da ciência, de Renan. Esta última profissão de fé,
consternadora aos olhos de um leitor contemporâneo, dá no entan­
to a idéia mais precisa das esperanças quase místicas levantadas no
século XIX pela expansão da indústria e pelos avanços surpreen­
dentes da ciência. Esta esperança é a da própria sociedade burgue­
sa, beneficiária do progresso técnico.
Anoção de progresso é contemporânea da era das luzes e da
revolução burguesa. Pode-se encontrar, sem dúvida, as suas fontes
225
ALBERT CAMUS
deinspiraçäonoséculoX\II, aquerelaentreantigosemodernos
|+ introduznaideologiaeuropéiaa noçäo perleitamente absurda
deumprogressoartistico.Iemaneiramaisséria,pode-setirardo
cartesianismo também a idéia de uma ciência sempre crescente
NasJurgot,em 1 7 50, éoprimeiroadarumadeEniçäoc¦arada
novalé Seudiscursosobreoprogressodoespiritohumanoreto-
manolundoahistoriauniversaldeIossuet.Avontadedivinaé
substituidaunicamentepelaidéiadoprogresso. ''A massatotaldo
gênerohumano,alternando calmaeagitaçäo,bensemales,cami-
nha, emboraapassoslentos,paraumaperleiçäomaior" Òtimis-
mo que lornecer+ o essencial das considerações retoricas d.
Condorcet,doutrinadoroEcia¦doprogresso,queeleligavaaopro-
gressodoLstado,doqua¦loiigua¦mentevitimaoEciosa,também,
vitimaolicial,|+queoLstadodas¦uzesobrigou-oaenvenenar-se
Sorel¯¯tinhatodarazäoemdizerquealilosoEadoprogressoera
precisamenteaquelaqueconvinhaaumasociedade+vidadedes-
lrutar da prosperidade materia¦ devida aos progressos técnicos.
Quando se est+segurode queo amanhä, na propriaordemdo
mundo,ser+melhordoqueho|e, épossiveldivertir-seempaz.Ò
progress o, paradoxalmente, pode servir para| ustitcar l
conservantismo Ietra sacada contra a conEança no tuturo, el
autoriza, desta lorma, a boa consciência do senhor Ao escravo,
aque¦escu|opresente émiser+velequenäotêm nenhum consolo
nocéu,assegura-sequeo hturo,pelomenos,édeles Òluturoéa
única espéciede propriedadeque ossenhoresconcedemde bom
gradoaosescravos
Comosevê,essasretexõesnäoestäodesatualizadas.Nasnä
estäodesatualizadasporqueoespiritorevolucion+rioretomouesse
temaambiguoecêmododoprogresso Certamente,näosetratado
mesmo tipo de progresso, Narx näo dispõe de zombarias sul-
`´Les lllusions du Progres (As ilusões do progresso).
226
O HOMEM REVOLTADO
cientesparaootimismoracionaldosburgueses Suarazäo,como
veremos,édilerenteNasa+rduamarchaparaumluturoreconci-
liadodeEne,contudo,opensamentodeNarxHegeleomarxis-
modestruiramosvaloreslormaisqueiluminavamparaos|acobinos
aestradaretadessahistorialelizÞoentanto,preservaramaidéia
dessamarchaparaalrente,conlndidasimplesmenteporelescom
oprogressosocialealirmadacomonecess+riaIavamcontinuida-
dedessemodoaopensamentoburguêsdoséculoXIX.Jocqueville,
entusiasticamenterevezadoporIecqueur¸queintuenciouNarx),
|inhaproc¦amadoso¦enemente."Òdesenvolvimentogradua¦epro-
gressivodaigua¦dadeéaomesmotempoopassadoeoluturoda
historiadoshomens "Iaraobteromarxismo,éprecisosubstituir
|gualdadeporniveldeproduçäoeimaginarquenoúltimoescaläo
daproduçäoproduz-seumatransliguraçäo,realizandoasocieda-
dereconciliada
Quantoanecessidadedaevoluçäo,AugusteComte,comalei
dostrêsest+giosdohomem,lormuladaem1 822, d+aesserespeito
U deEniçäomaissistem+ticaAsconclusõesdeComteparecem-se
curiosamentecomasqueosocialismocientiEcodeviaaceitar. Ò
positivismomostra commuitaclarezaasrepercussõesdarevolu-
çäoideologicadoséculoXIX,daqual Narxéumdosrepresen-
tantes, equeconsistiuemcolocarnoEmdahistoriaoIaraisoea
Reve¦açäo que a tradiçäo colocava na origem do mundo A era
_ positivista,quesucederianecessariamenteaera metalísica eaera
teo¦ogica,deviaassinalaroadventodeumareligiäodahumanida-
de.HenriCouhierdeline|ustamenteoempreendimentodeCom te
ao dizer que, para este, tratava-se de descobrirum homem sem
traçosdeIeusÒprimeiroob|etivodeComte,queerasubstituir
emtudooabsolutope¦orelativo,translormou-serapidamente,pela
'ºO último volume do Curso deflosoa positiva é publicado no mesmo ano em que saiu A essência do
cristianismo, de Feuerbach.
227
ALBERT CAMUS
lorça das coisas, em divinizaçäo deste re¦ativo e na pregaçäo dc
uma religiäo ao mesmo tempo universal e sem transcendência
Comte via no culto| acobino da Razäo uma antecipaçäo do
positivismoeconsiderava-se,comtodoodireito,comooverdadei-
rosucessordosrevolucion+riosde l 7·9. £lecontinuavaeamplia-
va essa revoluçäo suprimindo a transcendência dos principios e
t¡ndando, sistematicamente, a religiäo da espécie. Sua lormula,
"alastar Ieus em nome da religiäo", näo tem outro signiEcado
!naugurandoumamaniaque,desdeentäo,Ecounamoda,elequis
sero SäoIaulo dessanovareligiäo e substituir o catolicismodc
Romapelo cato¦icismodeIaris Sabe-sequeeleesperavavernas
catedrais "aest+tuadahumanidadedivinizadano antigoaltarde
Ieus" . £lecalculava com precisäo queiria pregaro positivismo
nacatedra¦deÞotre-Iameantesdoanodel · 60. £stec+¦culonä
eratäo ridiculo quanto parece. Þotre-Iame, em estado de sitio,
continuaresistindoNasareligiäodahumanidadeloieletivamen-
tepregadaporvoltadoEmdoséculoXIX,eNarx,emborapro-
vavelmentenäotivesselidoComte,loiumdeseusproletasNarx
apenascompreendeuqueumare¦igiäosemtranscendênciachama-
va-seprecisamentepoliticaComtenäooignoravaoupelomenos
compreendiaqueasuareligiäoeraantesdetudoumasocio¦atriae
queimplicavaorealismopolitico,'anegaçäodos direitosindivi-
duais e o estabelecimento do despotismo. Ima sociedade cu|o
s+biosseriamsacetootes,comdoismilbanqueirosetécnicosrei-
nandosobreuma£uropadecentoevinte milhões dehabitantes,
em que avida privada estariaabsolutamenteidentiEcadacom a
vidapública,emqueumaobediênciaabsoluta"deaçäo,depensa-
mentoedecoraçäo"seriaprestadaaosumosacerdote,quereinaria
sobre tudo, estaé a utopia de Comte, queanunciaaquilo quese
podechamardereligiõeshorizontaisdonossotempo£laéutopi-
7 1 "Tudo que se desenvolve espontaneamente é necessariamente legítimo durante um certo tempo."
228
O HOMEM REVOLTADO
ca,porque, convencido doluminosopoderdaciência, eleesque-
ceudepreverumapolicia.Òutrosseräomaispr+ticos,eareligiäo
dahumanidadeser+lundada,eletivamente,mascomosangueeo
solrimentodoshomens
Seacrescentarmos,Ena¦mente,aessasobservaçõesqueNarx
deve aos economistas burgueses aidéiaexclusiva que elelaz da
produçäoindustrialnodesenvolvimentodahumanidade,queele
tirouoessencialdesuateoriadovalor-trabalhodeRicardo, econo-
:ista da revoluçäo burguesa e industria¦, logo se reconhecer+ o
nosso direito em lalardesuaproleciaburguesa. £stas compara-
ções visam apenas demonstrar que Narx, em vez de ser como
jueremosdesordenadosmarxistasdenossotempo,ocomeçoeo
E m,'´participa,pelocontr+rio,danaturezahumana.antesdepre-
cursor, ele é herdeiro. Suadoutrina,queeleconsideravarealista,
era eletivamente rea¦ista no tempo da religiäo da ciência, do
evolucionismodarwinista,dam+quinaavaporedaindústriatêx-
til.Cemanosdepois,aciênciaencontrouarelatividade,aincerteza
eoacaso, aeconomiadeve¦evaremcontaaeletricidade,asiderur-
giaeaproduçäoatêmica.Òmalogrodomarxismopuroeminte-
graressas descobertas sucessivas e tambemo do otimismobur-
guêsdeseutempo.£letornaridiculaapretensäodosmarxistasde
manter inalteradas, sem que deixem de ser cientiEcas, verdades
velhasdecemanos.ÒmessianismodoséculoXIX,revolucion+-
¸ rioouburguês,näoresistiuaosdesenvolvimentossucessivosdessa
ciência e dessa historia, jue, em dilerentes graus, ele havia
divinizado
"Segundo Jdanov, o marxismo é "uma fosofia qualitativamente diferente de todos os sistemas
anteriores". Isto significa que o marxismo, por exemplo, não é o cartesianismo, o que ninguém
pensará em negar, ou que o marxismo nada deve essencialmente ao cartesianismo, o que é absur­
do.
229
ALBERT CAMUS
A Profcia Revolucionária
Aproleciade Narxétambémrevolucion+ria em seuprincipio
]+quetodarealidadehumanaencontrasuaorigem nasrelações
deproduçäo, odevirhistoricoérevolucion+rioporqueaecono-
miaoé. Lmcadaniveldeproduçäo,aeconomiasuscitaosanta-
gonismos que destroem, embenelicio deumnivelsuperior de
produçäo,asociedadecorrespondente.Òcapitalismoéoúltimo
dessesest+giosdeproduçäo,porqueproduzascondiçõesemque
todoantagonismoser+reso¦vidoeemquenäohaver+maiseco-
nomiaÞessedia,nossahistoriatornar-se-+pré-historiaSoboutra
perspectiva, esseesquemaéodeHege¦Adialéticaéconsidera-
dasoloangulodoespiritoCertamente,opro¡rioNarxnunca
lalouemmaterializaçäo (sic) dialética Lle deixou para osseus
herdeirosocuidadodece¦ebraressamonstruosidade¦ogicaNas
ele diz ao mesmo tempo que a realidade é dialéticae que elaé
econêmica. A realidade é um perpétuo devir, sub¦inhado pelo
choquelértildeantagonismosresolvidosacadavezemumasin-
tese superior que suscita, ela propria, o seu contr+rio, lazendo
novamenteavançarahistoriaÒqueHege¦alirmavasobrearea-
¦idaderumoaoespirito,Narxalirma-o sobre aeconomiarumo
asociedadesemclasses, todacoisaéaomesmotempoelapropria
e o seu contr+rio, e e\ta contradiçäo obriga-a a tornar-se outra
coisa Ò capitalismo, por ser burguês, reve¦a-serevolucion+rio,
abrindocaminhoparaocomunismo
Aorigina¦idadedeNarxresideemaErmarqueahistoriaéao
mesmotempodialéticaeeconomiaHegel,maissoberano,alrma-
va que elaeraao mesmo tempomatériaeespirito Ali+s, elanäo
podiasermatériasenäonamedidaemqueeraespirito, evice-ver-
sa Narxnegaoespiritocomosubstanciaú¦timaealirmaomate-
O HOMEM REVOLTADO
rialismohistorico Iode-seassinalardeimediato,comIerdiaella
impossibilidadedeconciliara dialéticaeomaterialismo Sopode
haver a dialética do pensamento Nas o proprio materia¦ismo é
umanoçäoambigua.Atéparalormarestapalavra,|+éprecisodi-
zerqueh+nomundoalgomaisdoqueamatériaCommaisrazäo
ainda, estacriticaaplica-se ao materialismo historico.A historia,
precisamente,distingue-sedanaturezape¦olatodetranslorm+-la
pelosmeiosdavontade,daciênciaedapaixäoNarxnäoéportan-
toummateria¦istapuro,pelarazäoevidentedequenäoexistema-
terialismo puro nem absoluto Lle o é täo pouco que reconhece
que,seasarmaspodemgarantirateoria,ateoriapodedomesmo
mododarorigemasarmas.Seriamaiscorretochamaraposiçäode
Narxdedeterminismohistorico.Llenäonegaopensamento,ele
oimaginadeterminado,demodoabsoluto,pe¦arealidadeexterior
"Iaramim, omovimentodopensamentonäoémaisqueoretexo
do movimento rea¦, transportado e transposto para o cérebro do
homem "Lsta deEniçäo particu¦armenterudimentarnäotemne-
nhumsentido Comoeporqueummovimento externopodeser
"transportadoparaocérebro", estadiliculdadenäoénadadiante
daqueconstitui,aseguir,adeEniçäoda"transposiçäo" dessemo-
vimentoNasNarxtinhaallosola¦imitadadeseuséculoÒque
elequerdizerpodeserdelnidoemoutrosplanos.
Iaraele,ohomemésohistoriae, particularmente,historiados
meiosdeproduçäo.Narxobservaeletivamentequeohomemdis-

tingae-sedoanimalpelolatodeproduzirosseusmeiosdesubsis-
tência.See¦enäocome,näosevestenemseabriga,elenäoexiste
Òprimum vivere é suaprimeira determinaçäo Ò pouco que e¦e
pensanessemomentotemrelaçäodiretacomassuasnecessidades
inevit+veis Narxdemonstraemseguidaque essa dependênciaé
constanteenecess+ria ''A historiadaindústriaéolivroabertodas
lacu¦dadesessenciaisdohomem "Suageneralizaçäo pessoa¦con-
sistir+emtirardessaaErmaçäo,aceit+veldemodogera¦,aconcu-
ALBERT CAMUS
säo de queadependênciaeconêmicaé única e suliciente, o que
aindaest+ para ser demonstrado.Iode-seadmitirqueadetermi-
naçäoeconêmicadesempenheumpapelcapitalnagênesedasações
edospensamentoshumanos,semporisso concluir, como Narx,
quearevoltadosalemäescontraÞapoleäopodeserexplicadauni-
camente pela laltadeaçúcaredecalé Ie resto, odeterminismo
puro é tambémabsurdo Seassim näo losse,bastariaumaúnica
alrmaçäoverdadeiraparaque,deconseqüênciaemconseqüência,
sechegasseaverdadetotalComoissonäoacontece,oubemnunca
pronunciamos uma so aErmaçäoverdadeira, nem mesmo a que
situa o determinismo, ou entäo nos ocorre dizeraverdade, mas
semconseqüências, e o determinismoélalso. Þo entanto, Narx
tinha suas razões, estranhas a logica pura, para proceder a uma
simplilicaçäotäoarbitr+ria.
Situaraorigemdohomemnadeterminaçäoeconêmicaélimi-
tarohomemasuasrelaçõessociaisÞäoh+homemsolit+rio,esta
é adescobertaincontest+veldo séculoXIX. Ima deduçäo arbi-
tr+rialevaentäoadizerqueohomemsosesentesolit+rionasocie-
dadepormotivos sociais. Se,naverdade,oespiritosolit+riodeve
serexplicadopormeiodealgoqueeste|aloradohomem,esteest+
acaminhodeumatranscendênciaÒsocial,aocontr+rio,sotemo
homemcomoautor, se, alémdisso,sepodealirmarqueosocialé
ao mesmo tempo criador do homem, chega-se a explicaçäo tota'
quepermiteexpulsaratranscendência.Òhomementäo,comoquer
Narx, "éautoreatordesuapropriahistoria" .AproleciadeNarx
é revolucion+ri porque completa o movimento de negaçäo qu.
começou com a lilosolia das luzes . Òs | acobinos destroem a
transcendência de um deus pessoal, mas substituem-na pela
transcendênciadosprincipios Narxcriao ateismocontempora-
neodestruindotambématranscendênciadosprincipios.Lml 7 ·9,
alé ésubstituidapelarazäo,masessapropriarazäo,emsuarigi-
dez,étranscendente.IemaneiramaisradicaldoqueHegel,Narx
232
O HOMEM REVOLTADO
destroiatranscendênciadarazäo,precipitando-anahistoriaAn-
tesdeles,elaerareguladora,ei-laconquistadoraNarxavançamais
do queHegeled+aentenderqueoconsideraumidealista¸coisa
queelenäoéou,pelomenos,näomaisdoqueNarxématerialis-
ta),precisamentenamedidaemqueoreinodoespiritorestitui,de
certalorma,umvalorsupra-historico O capital retomaadialética
do dominio e da servidäo, substituindo a consciência de si pela
autonomiaeconêmica,oreinolinaldoLspirito absoluto peload-
ventodo comunismo. "Ò ateismo é o humanismo intermediado
pelasupressäodareligiäo,ocomunismoéohumanismointerme-
diadopelasupressäodapropriedadeprivada "Aalienaçäoreligio-
sa tem amesmaorigem que a alienaçäo econêmica Soseacaba
comareligiäorealizandoaliberdadeabsolutadohomemquantoa
suasdeterminaçõesmateriaisArevoluçäoidentilca-secomoate
ismoecomoreinodohomem
LisporqueNarxélevadoaressaltaradeterminaçäoeconê-
micaesocial Ò seueslorçomaisprolicuoloirevelararealidade
queseesconde portr+sdosvaloreslormais,dequelaziaalardea
burguesiadeseutempo.É bemverdadequeasuateoriadamisti-
Ecaçäoéaindav+lidaporqueév+lidauniversalmente,aplicando-
setambémasmistiEcaçõesrevolucion+riasAliberdadereverencia-
dapeloSr.Jhierseraumaliberdadedeprivilégioconsolidadapela
policia,alamiliaexaltadapelos|ornaisconservadoresmantinha-se
sobcondiçõessociaisemquemulheresehomensdesciamseminus

asminas,amarradosnamesmacorda,amoralprosperavanapros-
tituiçäooper+ria.Queasexigênciasdahonestidadeedainteligên-
ciatenhamsidoutilizadasparalnsegoistaspelahipocrisiadeuma
sociedademediocreegananciosa,eisumadesgraçaqueNarx,in-
compar+vel quando setratade abriros nossos olhos, denunciou
comumaveemênciadesconhecidaatéentäo.Lssadenúnciaindig-
nadaacarretou outros excessosqueexigiramumanovadenúncia
Nasantesdemaisnadaéprecisosaber, edizerondeelanasceu,
233
J
ALBERT CAMUS
nosanguedainsurreiçäoesmagadaeml ?3+emIyone, eml ?7 l ,
naignobilcrueldadedosmoralistasde\ersalhes" Òhomemquc
nada tem, ho| enada é "Se esta aErmaçäo é talsa, era ao menos
quaseverdadeiranasociedadeotimistadosécu¦oXIXÒextremc
esvaziamento do poder que a economia da prosperidade trouxc
irialorçarNarxacolocaremprimeiroplanoasrelaçõessociaisc
econêmicas,exaltandomaisaindaa suaproleciadoreino do ho-
mem
Compreende-semelhorentäoaexplicaçäopuramenteeconê-
micadeNarxsobreahistorra.Seosprincipiosmentem,somente
arealidadedamisériaedotrabalhoéverdadeiraSeemseguidasc
puderdemonstrarquee¦abastaparaexp¦icaropassadoeoluturo
dohomem,osprincipiosseräodestruidosparasempre,aomesmo
tempoqueasociedadequedelessebeneEciaLsteser+oempreen-
dimentodeNarx
ÒhomemnasceucomaproduçäoecomasociedadeAdesi-
gualdadedasterras,oaperleiçoamentomaisoumenos r+pido do�
meios deproduçäo e a luta pelavrda criaram rapidamente desi-
gualdades sociais quese crista¦izaram em antagonismos entre a
produçäoeadistribuiçäo,conseqüentemente,emlutasdeclasses.
LssaslutaseessesantagonismossäoalorçamotrizdahistoriaA
escravidäodaAntiguidade,aservidäoleudallorametapasdeuma
longaestradaquelevaaoartesanatodosséculoscl+ssicos,emqueo
produtoréodonodosmeiosdeproduçäo.Þessemomento,aaber-
turadasviasmundiais,adescobertadenovospontosdeexporta-
çäoexige� umaproduçäomenosprovin�iana.Acont

rad

içä? :nt�
o modo de produçäo e as novas necessidades da distrbuçao¡a
anunciaoEmdoregimedapequenaproduçäoagricolaeindustria|
Arevoluçäoindustrial,ainvençäodam+quinaavaporeaconcor-
rênciapelosnovos pontos de exportaçäo para as mercadorias lc-
vam,necessariamente,adesapropriaçäodospequenospropriet+rios
eaconstituiçäodasgrandesmanulaturas Òs meios deproduçäo
234
`
O HOMEM REVOLTADO
Ecam entäo centra¦izados nas mäos daqueles que conseguiram
compr+-los, osverdadeiros produtores,ostrabalhadores, so dis-
põemdalorçadeseusbraços,queelespodemvenderao"homem
dodinheiro". ÒcapitalismoburguêsdeE ne-se,destalorma,pela
separaçäodoprodutoredosmeiosdeproduçäo.Iesseantagonis-
:ovaisurgirumasériedeconseqüênciasinelut+veisquepermi-
temaNarxanunciaroEmdosantagonismossociais
À primeiravista,digamosdeumavez,näoh+razäoparaqueo
principioErmementeestabelecidodeumalutadialéticadasclasses
deixesubitamentedeserverdaderro. Òueleésempreverdadeiro
cununcaoloi Narxdizeletivamentequenäohaver+maisclasses
aposarevoluçäo,assimcomonäohouveordensaposl 7 ?9 Nasas
ordensdesapareceramsemqueasclassesdesaparecessem,enada
aosgarantequeasclassesnäodaräolugaraumoutroantagonismo
social. Ò essencia¦daprolecia marxista, noentanto, reside nessa
aErmaçäo
ÒesquemamarxistaéconhecidoNarx,depoisdeAdamSmith
e deRicardo, delne ovalordetodamercadoriapelaquantidade
detrabalhoqueaproduz.Aquantidadedetrabalho,vendidapelo
prolet+rioaocapitalista,éemsimesmaumamercadoriacu|ovalor
ser+deEnidopelaquantidadedetrabalhoqueaproduz,emoutras
palavras, pelovalordosbensdeconsumonecess+riosasuasubsis-
tênciaAocompraressamercadoria,ocapitalistacompromete-sea
pagarosuEcienteaquelequeavende,otrabalhador,paraqueeste
possaalimentar-seeseperpetuar.Nasaomesmotempoadquireo
direito delazereste último trabalhar pelo m+ximo detempo que
puderLelepodetrabalharpormuitotempo,maisdoqueoneces-
s+rioparapagarasuasubsistência.Lmuma|ornadadedozeho-
ras,seametadebastaparaproduzirumvalorequivalenteaovalor
dosprodutosdesubsistência,aoutrametadesäohorasnäopagas,
umamais-valia,queconstituiolucropropriodocapitalista Òin-
teresse do capita¦ista é portanto alongar ao m+ximo as horas de
235
ALBERT CAMUS
traba¦hoou,quandonäoo conseguemais,aumentaraom+ximo
orendimentodooper+rio.Aprimeiraexigênciaéquestäodepo-
liciaedecrueldadeAsegunda,deorganizaçäodotraballho Lla
conduzemprimeirolugaradivisäodotrabalhoe, emseguida,a
utilizaçäodam+quina,quedesumanizaooper+rioIoroutrolado,
aconcorrênciapelosmercadosexternos,anecessrdadedeinves-
timentoscadavezmaioresemmaterialnovoproduzemoslenê-
menosdeconcentraçäoedeacumulaçäo Òspequenoscapitalis-
tassäoinicialmenteabsorvidospelosgrandes, que podemman-
ter, porexemplo,preçosdeEcit+riosdurantemuitotempo. Ima
parte cadavez maior dolucroé investida Enalmente emnovas
m+quinas e acumulada na parte est+vel do capital Lste duplo
movimentoprecipitaaderrocadadasclassesmédias,queseunem
aoproletariado,econcentraemseguida,emmäos cadavez me-
nosnumerosas,asriquezasproduzidasunicamentepelosprole-
t+rios. Iestalorma, o pro¦etariado cresce cadavez mais a pro-
porçäoqueaumentaasuadecadênciaÒcapitalpassaaconcen-
trar-seapenasnasmäosdealgunssenhorescu|opodercrescente
sebaseianorouboAli+s,abaladospelascrisessucessivas,exce-
didos pelascontradiçõesdosistema,essessenhores|+näoconse-
guemsequerassegurarasubsistênciadeseusescravos, queco-
meçamadependerdacaridadeprivadaoupública. Iatalmente,
chegaodiaemqueumimensoeércitodeescravosoprimidosse
encontradiante deumpunhadodesenhoresindignos Lsteéo
diada revoluçäo''A destruiçäodaburguesiaeavitoriadoprole-
tariad

säoigualmenteinevit+veis "
Ls�adescriçäo,célebreapartirdeentäo,aindanäosed+conta
doEmdosantagonismos.Iepoisdavitoriadoproletariado,aluta
pelavidapoderialuncionare darorigem anovosantagonismos.
!ntervêmentäoduasnoções,dasquaisumaéeconêmica -aiden-
tidadedodesenvolvimentodaproduçäoedodesenvolvimentoda
sociedade -eaoutra,puramentesistem+tica -amissäodopro-
236
O HOMEM REVOLTADO
letariadoLssasduasnoçõessereúnemnoquesepodechamarde
lata¦ismoativodeNarx
Amesmaevoluçäoeconêmica,quenaverdadeconcentrao ca-
pital em umpequenonúmerode mäos, tornao antagonismo ao
mesmotempomaiscruele,atécertoponto,irreal.Iareceque,no
augedodesenvolvimentodaslorçasprodutrvas, bastaumpeteleco
paraqueo proletariado seve|a na posse dos meios deproduçäo
arrebatadosapropriedadeprivadaeconcentradosemumaúnicae
enormemassa,doravantecomum.Apropriedadeprivada,quando
est+concentradanasmäosdeumúnicopropriet+rio,näosesepara
dapropriedadecoletivasenäopelaexistênciadeumúnicohomem
Ò resultado inevit+vel do capitalismo privado é uma espécie de
capitalismodeLstadoque,emseguida,bastasercolocadoaservi-
çodacomunidadeparaquenasçaumasociedadeemquecapitale
trabalho,contndidosapartirdeagora, produziräo emumúnico
movimento abundanciae|ustiça É em consideraçäo a essa leliz
saidaqueNarxsempreexaltouo papelrevolucion+riodesempe-
nhado,inconscientemente,éverdade,pelaburguesia.Llelaloude
um"direitohistorico"docapitalismo,lontedeprogressoeaomes-
motempodemiséria.Aseusolhos,amissäohistoricaea|ustiEca-
çäodocapitaltêmatareladeprepararascondiçõesdeummodo
deproduçäosuperior.Lssemododeproduçäonäoéemsimesmo
revolucion+rio,eleser+apenasocoroamentodarevoluçäoIorsi
¸

sos, asbasesdaproduçäoburguesasäorevolucion+rias. Quando
NarxaErmaqueahumanidadesosecolocaenigmasqueelapode
resolver, elemostraao mesmotempo queogermedasoluçäodo
problemarevolucion+rioencontra-senopropriosistemacapitalis-
taRecomendaportantoquesetolereoLstadoburguês,eatémes-
mo quesea|udeaconstrui-lo,emvezdevoltaraumaproduçäo
menosindustrializada Òs prolet+rios "podem edevemaceitara
revoluçäoburguesacomoumacondiçäodarevoluçäooper+ria"
Narxéassimoproletadaproduçäo,eépermitidopensarque,
237
 
 
I
'
ALBERT CAMUS
nestepontopreciso,enäoemqualqueroutro,elepêso sistemaà
lrentedarea¦idade.LlenuncadeixoudedelenderRicardo,econo-
mistadocapitalismodeNanchesterdiantedaque¦esqueoacusa-
vamdequerer aproduçäopelaproduçäo ¸"Com todaarazäo' ",
exclamaNarx) edequerê-la semsepreocuparcomoshomens
"É esse|ustamenteoseumérito",respondeNarx,comamesma
desenvolturadeHege¦.Queimporta,narealidade,osacriliciodos
homens,seeledeveservirparaasalvaçäodahumanidadeinteira'
Òprogressoseparece"comessehorrive¦deuspagäoquesoqueria
beberonéctarnocranio dos inimigos assassinados" .Ielomenos,
e¦eéoprogresso,quedeixar+desertorturante,aposoapocalipse
industrial,quandochegarodiadareconciliaçäo.
Nas,seoproletariadonäopodeevitaressarevoluçäonemlur-
tar-seapossedos meios de produçäo,saber+pelomenosus+-los
paraobemdetodos `Òndeest+agarantiadeque,emseuproprio
seio, näosurgiräoordens, c¦asseseantagonismos `Agarantiaest+
em Hegel Ò proletariado é lorçado a usara suariquezaparao
bemuniversal.Llenäoéoproletariado,eleéouniversalemoposi-
çäoaoparticularquerdizer,aocapitalismo.Òantagonismoentre
ocapitaleoproletariadoéaúltimalasedalutaentreosingulareo
universal,amesmalutaqueanimaatragédiahistoricadosenhore
doescravo.AotermodoesquemaidealtraçadoporNarx,oprole-
tariadoprimeiroengloboutodasas classes,deixandodeloraape-
nasum punhado de senhores, representantes do "crimenotorio"
qu� arevoluçäo,|ustamente, ir+ destruir. Além disso, ao levar o
prolet+rio até a sua última perda, o capitalismoliberta-opoucoa
poucodetodasasdeterminaçõesquepodiamsepar+-lodos outros
homensLlenadatem, nempropriedade,nemmoral, nemp+tria
Þäoseagarraportantoanadaquenäose| aaespéciedaqualéa
partirdeagoraorepresentantenueimplac+ve¦.LleaErmatudoe
todos, aErmando-sea si proprio. Þäo porque os prolet+rios säo
deuses, mas|ustamente porque estäo reduzidos acondiçäo mais
238
O HOMEM REVOLTADO
desumana "Soospro¦et+rios totalmente excluidos dessaaErma-
çäodesuapersonalidadesäocapazesderea¦izaracompletaauto-
aErmaçäo. "
Lstaéamissäodoproletariado.lazersurgirasupremadigni-
dadedasupremahumilhaçäo. Iorsuas dores esuaslutas, eleéo
Cristo humano queresgataopecadocoletivo daalienaçäo Lleé
inicialmenteo portador multilormedanegaçäototale, emsegui-
da, oarautodaaErmaçäodeEnitiva. ^ElosoEanäoconsegue se
realizarsemodesaparecimentodoproletariado,oproletariadonäo
podeselibertarsemarealizaçäodaE¦osoEa", emais. "Òpro¦eta-
riadosopodeexistirnoplanodahistoriamundia¦ . . Aaçäocomu-
nistasopodeexistircomorealidadehistoricaplanet+ria."Nasesse
Cristoéaomesmotempovingativo.SegundoNarx,eleexecutaa
sentençaqueapropriedadeproleriu contrasipropria. "Jodasas
casasestäoatualmentemarcadascomumamisteriosacruzverme-
lhaÒ|uizéahistoria,oexecutordasentença,oprolet+rio. "Iessa
lorma,arealizaçäoéinevit+vel Ascrisessesucederäoascrises¸a
perda do proletariado aumentar+, o seu número estender-se-+ a
criseuniversal,emqueomundodatrocadesaparecer+enoquala
historia, por umaviolência suprema, deixar+ de serviolenta Ò
reinodosEnsestar+constituido.
Compreende-sequeesselatalismopossatersidolevado¸como
aconteceucomopensamentohegeliano)aumaespéciedequietismo
_ ¸ politico por marxistas, como Kautsky, para quem os prolet+rios
careciamdepodersuEcienteparacriararevoluçäo,tantoquanto
osburgueses paraimpedi-¦a. AtémesmoIenin, quedeviaesco-
lheraocontr+riooaspectoativistadadoutrina,escreviaem 1 905,
numestilodeexcomunhäo."É umpensamentoreacion+riobuscar
asalvaçäodaclasseoper+riaema¦goquenäoo desenvolvimento
73 A cada dez ou onze anos, prevê Marx. Mas a periodicidade dos ciclos irá "diminuir
gradativamente".
239
ALBERT CAMUS
maciçodocapita¦ismo "SegundoNarx,anaturezaeconêmicanä
d+saltos,enäosedevelazê-laqueimaretapas É totalmentelalso
dizerqueossocialistasrelormistascontinuaramEéisaNarxneste
pontoÒlatalismo,aocontr+rio,excluiqualquerrelormapassivel
deatenuaroaspectocatastroEcodaevoluçäo,retardando,porcon-
seguinte,oêxitoinevit+vel. Alogicadeumaatitudecomoessaleva
aaprovaçäodaquiloquepodeaumentaramisériadaclasseoper+-
ria.É precisoquenäosedênadaaooper+rioparaquee¦epossaum
diatertudo
Isso näo impede que Narx tenha sentido o perigo dessc
quietismo Þäo se esperapelo poder ou entäo espera-se porele
indeEnidamente Chegao diaemque épreciso tom+-lo, e é esse
diaquecontinuasendoalgomeionebulosoparaosleitoresdeNarx
Llenäoparoudesecontradizeremrelaçäoaisso.Òbservouquea
sociedadeera "historicamenteobrigadaapassarpeladitadurada
classeoper+ria" .Quantoaocar+terdessaditadura,suasdeEniçõe
säocontraditorias'¹•É certoqueelecondenouoLstadoemtermo
claros,dizendoquesuaexistênciaeadaservidäosäoinsepar+veis
Þoentanto,protestoucontraaobservaçäodeIakunin,criteriosa
dequalquermodo,queachavaanoçäodeumaditaduraprovisoria
contr+riaaoqueseconhecesobreanaturezahumana. É bemver-
dadequeNarxpensavaqueasverdadeirasdialéticaseramsuperio-
resaverdade psicologica Que dizia adialética` Que "a aboliçäo
doLstadosolaz sentidoparaoscomunistas,comoresultadone-
cess+riodasupressäodeclasses,cu|odesaparecimentoacarretaau-
tomaticamenteodesaparecimentodanecessidadedeumpoderor-
ganizadoporumaclasseparaopressäodeoutra" Segundoalor-
mulaconsagrada,ogovernodaspessoasdavalugarentäoaadmi-
nistraçäodascoisasAdialéticaeraportantolorma¦,so| ustiEcan-
74 Michel Collinet, em La 'agéie du marxisme (A tragédia do marxismo� assinala em Marx três
formas de tomada de poder pelo proletariado: república jacobina, no Manifsto comunista; ditadu­
ra autoritária, em 18 Brrmário e governo federal e libertário em A guerra civil na Fança.
240
O HOMEM REVOLTADO
dooLstadoprolet+riopelotempoemqueac¦asseburguesadevia
serdestruidaouintegrada Nas,inlelizmente,aproteciaeolata-
lismoautorizavam outras interpretações Seest+garantido queo
reinochegar+,queimportaotempo`Òsolrimentonuncaéprovi-
sorio para quem näo acredita no luturo. Nas cem anos desolri-
mentonäosäonadaparaquemalirma,paraocentésimoprimeiro
ano,acidadedeEnitiva.Þaperspectivadaprolecianadaimporta
Comodesaparecimentodaclasseburguesa,oprolet+rioestabele-
ceoreinodohomemuniversalnoapogeudaproduçäo,pelapro-
prialogicadodesenvolvimentoprodutivoIoucoimportaqueisso
ocorrapeladitaduraepelaviolênciaÞessa]erusalémestrepitante
de m+quinas maravilhosas, quem ainda selembrar+ do gritodo
degolado`
AidadedeouroadiadaparaoEmdahistoria, ecoincidindo,
porumaduplaatraçäo,comumapocalipse,|ustilcatudo.É preci-
someditarsobreaprodigiosaambiçäodomarxismo, avaliarsua
exortaçäodesmedida,aEmdecompreenderqueumatalesperança
obrigaamenosprezarproblemasqueaparecementäocomosecun-
d+rios."Òcomunismocomoapropriaçäorealdaessênciahumana
pelohomemeparaohomem,comoretornodohomemasimesmo
comosersocial,querdizer,dehomemhumano,retornocompleto,
consciente,quepreservatodasasriquezasdomovimentointerior,
estecomunismo,porserumnatura¦ismoacabado,coincidecomo
humanismo. eleéoverdadeiroEmdaquerelaentreo homemea
natureza,eentreo homemeohomem. . entreaessênciaeaexis-
tência,entreaob|etivaçäoealrmaçäodesi,entrealiberdadeea
necessidade, entreo individuo eaespécie Lleresolve o mistério
da historia e sabe que o laz. " Soa linguagem aqui quer parecer
cientiEca. Þolundo, que dilerençatem de Iourier, queanuncia
"osdesertoslérteis,a+guadomarpot+velecomgostodevioleta,a
eternaprimavera "`Aeternaprimaverahumananoséanunciada
numa linguagem de enciclica. Que pode querere esperaro ho-
241
111
ALBERT CAMUS
memsemdeussenäooreinodohomemr Istoexplicaainquietaçäc
dos discipulos "Þuma sociedade sem angústia, e l+cilignorara
morte" ,dizumdeles.Þoentanto,eestaeaverdadeiracondenaçäo
denossasociedade,aangústiadamorteeumluxoqueest+muito
maisligadoaoociosodoqueaotrabalhador,asExiadoporsuapro-
priaocupaçäo.Nastodosocialismoeutopico,sobretudoosocia-
lismocientiE coAutopiasubstituiIeuspeloluturo.LlaidentiE-
caoluturoeamoral,oúnicovaloreoqueserveaesset·turo.Lsta
arazäoporquequase sempreloicoercitivaeautorit+ria´•Narx,
comoutopista,näodileredeseusterriveisantecessores,eumapar-
tedeseuensinamento|ustiEcaosseussucessores
Houvecertamenterazäoeminsistirnaexigênciaeticaqueea
basedosonhomarxista.´Somos obrigadosareconhecer,antesde
examinaro malogro do marxismo, queelaconstituiaverdadeira
grandezadeNarx.Llecolocouotrabalho,suadegradaçäoin|usta
e sua dignidade prolundanocentrode suaretexäo Rebelou-se
contraareduçäodotrabalhoaumamercadoriaedotrabalhadora
umob|eto.Iembrouaosprivilegiadosqueosseusprivilegiosnäo
eramdivinos, nem apropriedadeum direito eterno Lnse|ouum
sentimentodeculpaaqueles que näo tinham o direito de manter
empazaconsciênciaedenunciou,comumaperspic+ciainigual+vel,
umaclasse cu|ocrimenäoe tantotertido o poder quanto tê-lo
utilizadoparaosEnsdeumasociedademediocreesemumaver-
dadeiranobrezaÞoslhedevemosumaideiaqueeodesesperode
nossotempo-mas aqui odesesperovale mais doquequalquer
esperança -,aideiadeque,quandootrabalhoeumadegradaçäo,
ele näo evida, se bem que ocupe todo o tempo davida. Quem,
apesar das pretensões dessa sociedade, podedormirem paz, sa-
bendoquedoravanteelatiraseusprazeresmediocresdotrabalhc
75Morelly Babeuf Godkin descrevem, na realidade, sociedades de inquisição.
76Maximilien Rubel. Pages choisies pour une éthique socialiste (Páginas escolhidaspara uma ética sacia·
lista} Riviêre.
242
O HOMEM REVOLTADO
demilhõesdealmasmortasr Aoexigirparaotrabalhadoraverda-
deirariqueza,quenäoeadodinheiro,masadolazeroudacria-
çäo,elereivindicou,adespeitodasaparências,aqualidadedoho-
mem.Aolazê-lo,podemos aErmarcomconvicçäo,elenäoquisa
degradaçäosuplementarqueloiimpostaaohomememseunome
Imadesuaslrases,claraecontundente,recusaparasempreaos
seusdiscipulostriunlantesagrandezaeahumanidadequetinham
sido suas. "Im Emquetemnecessidadedemeiosin|ustosnäoe
umEm|usto "
\oltamosaencontraraquiatragediadeNietzsche.Aambiçäo,
aproleciasäogenerosaseuniversaisAdoutrinaerarestritiva,ea
reduçäo detodovalorapenasa historiaautorizava as mais extre-
mas conseqüências Narx acreditou que os Ens historicos, pelo
menos,serevelariam morais eracionaisÞistoresidesuautopia
Nas autopia, como ele mesmo näo ignorava, tem comodestino
servir ao cinismo, o que ele näo dese| ava Narx destroi toda
transcendência,edepois elepropriorealizaapassagemdolatoao
dever Nas essedeversotemorigemnolato.Areivindicaçäode
|ustiçalevaain|ustiçasenäoestiverbaseadanuma|ustilcaçäoeti-
cada|ustiça. Semisso, o crime tambem um diatorna-se dever.
Quandoomaleobemestäoreintegradosnotempo,contundidos
comosacontecimentos,nadamaisebomoumau,masapenaspre-
maturoousuperado Quemdecidir+quantoaoportunidadesenäo
o oportunista` Nais tarde, dizem os discipulos, vocês|ulgaräo.
Nas asvitimas näo estaräo mais l+para|ulgar. Iaraavitima, o
presente e o único valor, a revolta, a única açäo Iara existir, o
messianismo deve serediE cadocontraasvitimas É possivelque
Narxnäootenhadese| ado,masnissoresidesuaresponsabilida-
de,queeprecisoexaminar, emnomedarevoluçäo,ele|ustiEcaa
lutaapartirdeentäosangrentacontratodasaslormasdarevolta
243
ALBERT CAMUS
O Malogro da Profcia
Hegelterminasoberbamenteahistoriaem1 8 07; ossaint -simonistas
consideramqueasconvulsõesrevolucionsriasde1 830 e1 848 säoas
últimas,Comtemorreem 1 857, quandosepreparavaparaocupara
tribunaaEmdepregaropositivismoparaumahumanidadeaEnal
desiludidacomosseuserros.Comomesmoromantismocego,Narx
porsuavezproletizaasociedadesemclasseseareso¦uçäodomisté-
riohistorico. Narscauteloso, contudo,elenäomarcaumadata.In-
lelizmente,suaproleciadescreviatambémamarchadahistoriaatéa
horadaconsumaçäo,elaanunciavaatendênciadosacontecimentos.
Òsacontecimentoseoslatosesqueceram-senaturalmentedeseor-
ganizarem sob uma sintese, isso|sexplica por que loi necesssrio
arrums-los a lorça Nas, sobretudo a partirdo momento emque
traduzemaesperançavivademilhõesdehomens,asproleciasnäo
podemcontrnuar impunemente semum prazo. Chega um tempo
emqueadecepçäotranslormaaesperapacienteemt·riaeemqueo
mesmoEm,aErmadocomvio¦entateimosia,exigidocomumacruel-
dadecadavezmaiot,obrigaabuscadeoutrosmeios
Òmovimentorevolucionsrio,nolimdoséculoXIXenoini-
ciodosécu¦oXX,viveu, comoos primeiros cristäos, aesperado
lmdomundoedaparúsradoCristoproletsrro.Conhece-seaper-
sistência desse sentimentonoseiodascomunidadescristäsprimi-
tivas AindanoEmdosécu¦oI\umbispoda
_
lricaproconsular
calculavaquerestavam 1 O 1 anosdevidanomundo.Aolimdesse
tempoviriaoreinodoscéus,queeraprecisomerecersemtardan-
ça. LssesentimentoégeneralizadonoséculoIdenossaeraeex-
"Quanto à iminência desse acontecimento, ver Ma.os, VIII-39, XIII-30; Mates, X-23, XII-27,
28, XXIV-34; Lucas IX-26, 27, XXI-22 etc.
í
244
O HOMEM REVOLTADO
plicaaindilerençamostradapelosprimeiroscristäosemrelaçäoas
questõespuramenteteologicasSeaparúsiaestsproxima,émaisa
lé ardentedoqueasobraseaosdogmasquetudodeveserconsa-
grado Até ClementeeJertuliano, durantemais deumséculo,a
literaturacrrstänäosernteressapelosproblemasdeteologiaenäo
seaperleiçoaemrelaçäoasobrasNas,apartirdoinstanteemque
a parúsia se distancia, é precisovivercom a sualé, isto é, lazer
concessões.Þascementäoadevoçäoeocatecismo Aparúsiaevan-
gélica ests distante, Säo Iaulo veio constituiro dogma A Igre|a
deuum corpo aessalé,quenadamaiseradoqueumatensäo no
sentido doreino vindouro. Ioiprecisoorganizartudonoséculo,
atémesmo o martirio, cu|as testemunhas temporais seräoas or-
densmonssticas,eatémesmoapregaçäo,queseencontrarssob o
mantodosinquisidores.
Immovimentosimi¦arnasceudomalogrodaparúsiarevolu-
cionsria Òstextos de Narx|scitados däo umaidéiacorreta da
esperançaardentedoespiritorevolucionsriodaépoca.Apesardos
malogrosparciais,essalé näoparoudecresceratéomomentoem
queseviu,em1 9 1 7, diantedeseussonhosquaserealizados."Iu-
tamospelasportasdocéu",bradaraIiebknecht.Lm1 91 7, omundo
revolucionsrio|ulgouterrealmentechegadodiantedessasportas.
Cumpria-seaproleciadeRosaIuxemburgo '^revoluçäose le-
vantarsamanhä,comtodaasuaaltivezecomtodooalarde,e,para
oterrordevocês,elaanunciarsaosomdetodasassuastrombetas.
euexistia,euexisto,euexistirei "ÒmovimentoSpartakasacredi-
touterchegadoarevoluçäodehnitiva,|sque, segundooproprio
Narx,estadeveriapassarpe¦arevoluçäorussacompletadaporuma
revo¦uçäoocidental` • Aposarevoluçäode 1 9 1 7, umaAlemanha
soviéticateriaeletivamenteabertoasportasdo céu Nasomovi-
mentoSpartakaséesmagado,agrevegerallrancesade 1 920 lra-
"Prefácio da tradução russa do Msto comunista.
245
ALBERT CAMUS
cassa, o movrmento revolucron+rro rtalrano é estrangulado
Irebknechtreconheceentäoquearevoluçäonäoest+madura."Òs
temposnäoeramarndachegados. "£ arnda, e percebemos entäo
comoaderrotapodeexcrtarao extremo alé vencrda até o transe
relrgroso. ^olragordodesmoronamentoeconêmrco,cu|osestron-
dos|+seouvem,astropasadormecrdasdeprolet+rrosdespertaräo
comoque ao som das lanlarras do|uizoEna¦, eoscad+veres dos
lutadoresassassrnadosseporäodepéepedrräocontasaquelesque
estäocarregadosdema¦drções. "Lnquantorsso,IrebknechteRosa
Iuxemburgo säo assassrnados, aAlemanhavar atrrar-sea servr-
däo. Arevoluçäorussacontrnua so,vrvendocontraoseuproprro
srstema,arnda¦ongedasportascelestrars,comumapocalrpsepara
organrzar.Aparúsraalasta-secadavezmars.Alé contrnuarntacta,
masvergadasobumaenormemassadeproblemasededescober-
tasqueomarxrsmonäoprevrraAnovaIgre| aest+de novodrante
deCalrleu. parapreservarsualé,elavarnegaroso¦e humr¦haro
homemlrvre.
QuedrzCalrleunessemomento`Quarssäooserrosdaprole-
cra, demonstrados pe¦a proprra hrstorra` Sabe-sequea evoluçäo
econêmrca do mundo contemporaneo|+ desmenteum certonú-
merodepostu¦adosdeNarxSearevoluçäodeveproduzrr-seno
extremodedorsmovrmentosparalelos -aconcentraçäorndeEnr-
dado caprtal ea extensäo rndeEnrdado proletarrado-, elanäo
ocorrer+ounäodeverraterocorrrdoCaprtaleproletarradoloram
rgua¦menternEérs a Nar. A tendêncra observadana Ing¦aterra
rndustrral do séculoXIXmudou de rumo emcertoscasose em
outrossetornoumarscomplexa.Ascrrseseconêmrcasquedevram
seprecrprtartornaram-se,aocontr+rro,marsespor+drcas. ocaprta-
lrsmoaprendeuossegredosdoplane|amentoecontrrburuporsua
vezparaocrescrmentodo£stado-Noloch.Ioroutrolado,coma
constrturçäodassocredadesanênrmas,ocaprtal,emvezdeconcen-
trar-se,deuorrgemaumanovacategorradepequenosacronrsta-
246
(
O HOMEM REVOLTADO
cu|aúltrmapreocupaçäoéadeencora|argreves Aspequenasem-
presas,emmurtoscasos,loramdestruidaspelaconcorrêncra,como
prevrraNarxNasacomplexrdadedaproduçäolezpro¦rlerar,em
tornodasgrandesempresas,umamultrplrcrdadedepequenasma-
nulaturas Lm l 93·, Iordlorcapazdeanuncrarque 5. 200 olicr-
nasrndependentestrabalhavamparaele.Atendêncraacentuou-se
desdeentäo. Inevrtavelmente, Iordpassou acontrolaressasem-
presas Naso essencraléqueessespequenosrndustrrarslormam
umacamadasocra¦rntermedr+rraquecomplrcaoesquemarmagr-
nadoporNarxIrnalmente,alerdeconcentraçäoserevelouabso-
lutamentelalsaemrelaçäoaeconomraagrico¦a,tratadacomalgu-
maneg¦rgêncraporNarxÞessecaso,alacunaérmportante.Sob
umdeseusaspectos,ahrstorradosocra¦rsmoemnossoséculopode
serconsrderadacomoalutadomovrmentoprolet+rrocontraaclasse
camponesa£stalutacontrnua,noplanodahrstorra,alutardeolo-
grca,noséculoXIX,entreosocralrsmoautorrt+rroeosocralrsmo
lrbert+rrocu|asorrgenscamponesaseartesanarssäoevidentesNarx
trnhaportanto,nomaterralrdeologrcodeseutempo,elementospara
umaretexäosobreoproblemacamponês.Nasavontadede srste-
matrzar srmplrE cou tudo £sta srmplrE caçäo ra custar caro aos
kulaks, queconstrtuiammarsdecrncomr¦hõesdeexceçõeshrstorr-
cas,logoreconduzrdasaregrapelamorteepeladeportaçäo
AmesmasrmplrE caçäodesvrouNarxdolenêmenonacronal,
noproprroséculodasnacronalrdades. £leacredrtouquepe¦oco-
mércroepelatroca,pelaproprraproletarrzaçäo,carrramasbarrer-
rasNasloramasbarrerrasnacronarsqueprovocaramaquedado
rdealprolet+rro. Alutadas nacrona¦rdadesrevelou-sepelo menos
täo rmportante para explrcar a hrstorra quanto a luta de classes
Nasanaçäonäopodeserrnterramenteeplrcadapelaeconomra,o
srstema, portanto,rgnorou-a
Iorsuavez,oproletarradonäosealrnhou ÒtemordeNarx
conErmou-sernrcra¦mente. orelormrsmoeaaçäosrndrca¦obtrve-
247
ALBERT CAMUS
ramumaaltadospadrõesdevidaeumame¦horiadascondiçõesde
trabalhoLstasvantagensestäolongedeconstituiremumasoluçäo
eqüitativadoproblemasocialNasacondiçäomiser+veldosope-
r+riosinglesesdosetortêxtil,naépocadeNarx,longede genera-
lizar-se e de agravar-se, como queria ele, loi pelo contr+rio
reabsorvida.Narxnäosequeixariadissoatua¦mente,|+queoequi-
librio se restabeleceu por um outro erro em suas previsões Ioi
possive¦constatarqueaaçäorevolucion+riaousindicalmaiseEcaz
loisempreadaselitesoper+riasquealomenäodizimavaAmisé-
riae adegenerescêncianäodeixaramdesero queeramantesdc
Narxequeele, contratodaevidência,näoqueriaquelossem. la-
toresde servidäo, näoderevoluçäo. Lm l 933, umterçodalorça
detrabalhoalemäestavadesempregadaAsociedadeburguesaera
entäo obrigadaagarantirasubsistênciados seus desempregados,
realizandoassim acondrçäoeigida porNarx paraarevoluçäo
Nasnäoébomqueluturosrevolucion+riosseve|amnasituaçäo
deesperar opropriosustentopelas mäos do Lstado. Lsseh+bito
lorçadoacarretaoutros, menoslorçados,dosquaisHitlerlezuma
doutrina.
Iina¦mente,aclasseprolet+rianäoaumentouindeEnidamen-
te Aspropriascondiçõesdaproduçäoindustrial,quetodo mar-
xistadeviaestimu¦ar, aumentaram de lormaconsider+velaclasse
média',criandoatémesmoumanovacamadasocial -adostéc-
nicos.Òidea¦caroaIenindeumasociedadeemqueoengenheiro
seriaaomesmo tempotrabalhador braçal entrouemchoque,em
todoocaso,comoslatos.Òlatoessencialéqueatecnologra,assim
comoaciência,complicou-seatalpontoquenäoépossive¦aum
único homem compreendera totalidade de seus principios e dc
suas aplicações É quaseimpossivel, por exemplo, que umlisic
"De 1920 a 1 93 0, emumperíodo de intensa produtividade, os Estados Unidos viram diminuir O
número de seus operários metalúrgicos, enquanto o número de vendedores, na mesma indústria,
quase dobrava.
248
O HOMEM REVOLTADO
tenhaatua¦menteumavisäocompletadaciênciabiologicadeseu
tempo.Þoproprioambitodalísica,elenäopodeterpretensõesno
sentidodedominarigualmentetodosossetoresdestadisciplina.Ò
mesmo acontece com a técnica. A partir domomento em que o
desenvolvimento daprodutividade, consideradatanto pelosbur-
guesesquanto pelosmarxistascomoum bem emsi, atingiu pro-
porçõesdesmedidas,adivisäodotraba¦ho,queNarxachavapos-
sivelevitar,tornou-seinevit+velJodooper+rioloilevadoaexecu-
tarumtrabalhoparticu¦arsemconheceroplanoglobalemquese
inseriaasuaaçäoAquelesquecoordenavamostrabalhos indivi-
duaisseconstituiram, porsuaproprialunçäo,numacamadacu|a
importanciasocialédecisiva.
É maisdoque|ustolembrar,emrelaçäoaessaeradostecnocratas
anunciada porIurnham,queSimone\eil|+ adescreveu`'h+ l 7
anosnumalormaques epodeconsiderarcomoacabada,semtirar
daiasconclusõesinaceit+veisdeIurnham.
_
sduaslormastradicio-
naisdeopressäoqueahumanidade conheceu, pelas armas epelo
dinheiro,Simone\eilacrescentaumaterceira,aopressäopelat·n-
çäo. "Iode-sesuprimiraoposiçäo entrecompradorevendedordo
trabalhosemsuprimiraoposiçäoentreaquelesquedrspõemdam+-
quinaeaquelesdequemam+quinadispõe."Avontademarxistade
abolir a degradante oposiçäo entre trabalho intelectual e trabalho
manualentrouem choquecom as necessidades daproduçäo, que
Narxexaltavaemoutrotrabalho.Llepreviusemdúvida,emO ca­
pita� aimportanciado"gerente",noniveldaconcentraçäom+xima
docapital.Nas elenäoachouqueessaconcenuaçäopoderiasobre-
viveraaboliçäodapropriedadeprivada.Iivisäodotrabalhoepro-
priedadeprivada,diziaele,säoexpressõesidênticasAhistoriade-
monstrouocontr+rioÒregimeidealbaseadonapropriedadecole-
""Estamos a caminho de uma revolução proletária?" Révolution prolétarimne (Revoluçãproletá­
ria), 25 de abril de 1933.
249
ALBERT CAMUS
tivaqueriaserdeEnidocomo|ustiçamaiseletricidade.Lmúltim.
instanciaeleéapenasaeletricidade, menosa|ustiça.
Atéagoraa idéiade umamissäodoproletariado näoconse-
guiu encarnar-se na historia, isto resume o ma¦ogro da prolecia
marxista.Ala¦ênciadaSegundaInternacionalprovouqueopro-
letariadoestavadeterminadoporalgomaisquesuacondiçäoeco-
nêmica, equeeletinhaumap+tria,contrariamentealamosalor-
mulaLm suamaioria,oproletariadoaceitououtolerouaguerrac
colaborou, acontragosto ounäo, comos lurores nacionalistas da
época Narxentendiaque as classes oper+rias, antes de triunla-
rem, deveriamteradquiridocapacidade|uridicaepolitica Ò seu
erroresidesomenteemacreditarqueaetremamisériae,particu-
larmente,amisériaindustrialpodiamlevaramaturidadepolitica
É certo,ali+s,queacapacidaderevo¦ucion+riadasmassasoper+rias
loirelreadapeladecapitaçäodarevoluçäolibert+ria,duranteeapos
aComuna.Ainal,omarxismodominoulacilmenteomovimento
oper+rioapartirdel ·72, devido,semdúvida,asuagrandezapro-
pria, mastambémporqueaúnicatradiçäosocialistaquepoderia
enlrent+-loatogou-senosangue, praticamentenäohaviamarxis-
tasnainsurreiçäodel ·7 l . Lssadepuraçäoautom+ticadarevo¦u-
çäoprosseguiu, porobradosLstados policiais,atéosnossosdias
Cadavezmaisarevo¦uçäo seviuentregueaosseusburocratas c
aos seus doutrinadores, porum lado, e, por outro, as massas
enlraquecidas e desorientadas Quando a elite revolucion+ria 6
guilhotinada e se deixa Jalleyrand viver, quem iria opor-se .
Þapol.äo` Nas aessas razões historicas somam-seas exigências
econêmicasÉ precisolerostextosdeSimone\eilsobreacondi-
çäodooper+riodel+brica ' parasaberaquepontodeesgotamento
moralededesesperosilenciosopodelevararaciona¦izaçäodotra-
balho.Simone\ei¦tem razäoemdizerqueacondiçäooper+riaé
"La Condition owvriêre (A condãO oerária), Gallimard.
250
O HOMEM REVOLTADO
duasvezesdesumana,privadadedinheiroe, emseguida,dedigni-
dade. Im traba¦ho peloqualo individuo podeseinteressar, um
trabalhocriativo,aindaquemalremunerado,näodegradaavida
Òsocialismoindustrialnadalezdeessencialparaacondiçäoope-
r+ria, porque näo tocou no proprioprincipio da produçäo e da
organizaçäodotrabalho,que,pelocontr+rio,eleexaltouÒsocia-
lismoindustrialconseguiuproporaotrabalhadoruma|ustiEcaçäo
historicaquenäovalemaisdoqueaquelaqueresidenapromessa
dealegriascelestiaisparaaquelequemorrenosolrimento,elenunca
lheolereceuaalegriadocriadorAlormapoliticadasociedadenäo
est+maisemquestäonestenivel,esimoscredosdeumaciviliza-
çäotécnicadaqual dependem igualmente capitalismo e socialis-
mo.Qualquerpensamentoquenäolaçaavançaresseproblemamal
tocanoinlortúniodosoper+rios
Inicamente pelo|ogo das lorças econêmicas admiradas por
Narx,opro¦etariadore|eitouamissäohistoricadaqualNarx|us-
tamenteohaviaencarregado.Iescu¦pa-seoseuerroporque,diante
do aviltamento das classes dominantes, um homem preocupado
com acivilizaçäoprocura,instintivamente, elitesdesubstituiçäo
Nasta¦exigêncianäoéemsimesmacriativa.Aburguesiarevo¦u-
cion+ria tomou o poderem l 7 ·9 porque| +o detinha Þa época,
comodiz]ulesNonnerot,odireitoestavaatrasadoemre¦açäoao
latoÒlatoeraqueaburguesia|+dispunhadepostosdecomando
edonovopoder,odinheiroÒmesmonäoaconteceucomoprole-
tariado,quecontavaapenascomsuasesperançasemiséria,ondea
burguesiaomanteveA classeburguesaaviltou-seporumalebre
deproduçäo e de poderio material, a propria organizaçäo dessa
lebrenäopodiacriarelites `´Acriticadestaorganizaçäoeodesen-
82Lenin, aliás, foi o primeiro a registrar esta verdade, mas sem amargura aparente. Se sua frase é
terrível para as esperanças revolucionárias, ela o é mais ainda para o próprio Lenin. Ele ousou
dizer na verdade que as massas aceitariam com maior facilidade o seu centralismo burocrático e
ditat�rial porque
'
"a disciplina e a organização são mais facilmente assimiladas pelo proletariado
justamente graças a essa escola de fábrica".
25 1
ALBERT CAMUS
volvimentodaconsciênciarevoltadapodiamaocontr+riolor|arum.
elite de substituiçäo So o sindicalismo revolucion+rio, com
Ielloutier e Sorel, tomou esserumo e quis cria; pela educaçäc
proEssionalepelacultura,osnovosquadrospelosquaisummun-
dosemhonraclamavaeaindaclama.Nasissonäopodiaserleito
emumsodia, eosnovossenhores|+ estavam l+, interessadosem
utilizarimediatamente a inlelicidade, em prol de uma lelicidadc
longinqua,emvezdesublevaraom+ximo,esemdelongas,oterrl�
velsolrimento de milhões dehomens Òs socialistas autorit+rios
acharamqueahistoriacaminhavademododemasiadamentelentc
equeeranecess+rio,paraprecipit+-la,entregaramissäodoprole-
tariadoaumpunhadodedoutrinadoresIorissomesmo,eleslo-
ramosprimeirosanegaressamissäo. Þo entanto, elaexiste, näc
no sentido exclusivo que Narx lhe atribuia, mas como existe a
missäodetodogrupohumanoquesabetirarorgulhoelecundidad.
deseutrabalhoedeseussolrimentos. Lntretanto, paraqueelas ·
manileste, e preciso correr um risco e conEar na liberdade e na
espontaneidadedosoper+rios Òsocialismoautorit+rioconlscoc
aocontr+rio essaliberdadeviva emproldeumaliberdadeideal ,
aindavindoura.Aolazê-lo,querotenhadese|adoounäo, elelor-
taleceuatareladeescravizaçäoiniciadapelocapitalismodel+bri -
ca Ielaaçäocon|ugadadessesdoislatores,edurantecentoecin-
qüentaanos,excetonaIarisdaComuna,últimorelúgio darevc�
luçäorevoltada,oproletariadonäoteveoutramissäo historicasc�
näoadesertraido Òsprolet+rioslutaramemorreramparadaro
poderamilitaresouintelectuais,luturosmilitares,queporsuavcz
osescravizavam.Lssaluta,noentanto, loiasuadignidade,recc-
nhecidaportodos aquelesqueescolheramcompartilharsuaespe-
rançaesuainlelicidadeNasessadignidadeloiconquistadacou-
traoclädosantigosenovossenhoresLlaosneganopropriomo-
mentoemqueelesousamutilizar-sedela.Iecertalorma,elaanun-
ciaoseucrepúsculo.
252
O HOMEM REVOLTADO
As previsões econêmicas de Narxloram portanto ao menos
questionadas pela realidade Ò que continuaverdadeiro emsua
visäodomundoeconêmicoeaconstituiçäodeumasociedadecada
vezmaisdeEnidapeloritmoda produçäo. Naselecompartilhou
.sse conceito, noentusiasmodeseuseculo, comaideologiabur-
guesaAsilusõesburguesasconcernentesaciênciaeaoprogresso
tecnico, compartilhadas pelos socialistas autorit+rios, deram ori-
gemacivilizaçäodosdomadoresdem+quinaque,pelaconcorrên-
.iaepeladominaçäo,podedividir-seemblocosinimigos,masque
.o plano econêmico est+ su|eita as mesmas leis. acumulaçäo de
capital, produçäo racionalizadae incessantemente aumentada. A
dilerençapoliticaemrelaçäo a maioroua menoronipotênciado
Istadoeconsider+vel,maspoderiaserreduzidapelaevoluçäoeco-
aêmica. Soadilerençaentreas morais,comavirtudelormalem
·posiçäoaocinismohistorico,parecesolida Nasoimperativoda
¸roduçäodominaambososuniversos,lazendodeles,noplanoeco-
.êmico,umúnicomundo`
Iequalquermaneira, se o imperativo econêmico näo pode
aaissernegado, `suasconseqüênciasnäosäoasqueNarximagi-
aara. Iopontodevistaeconêmico,ocapitalismoeopressorpelo
+nêmenodaacumulaçäo Lleoprimepeloquee, acumulapara
aumentaro quee, exploraaindamaisnamedidaemqueacumula
cadavezmais.NarxsoimaginavacomoEmdessecicloinlernala
|evoluçäo Þessemomento, aacumulaçäo soserianecess+riaem
escalareduzida,paragarantirasaçõessociais. Nasarevoluçäose
industrializaporsuavez e percebe entäoquea acumulaçäoest+
ligadaapropriatecnica,näoaocapitalismo,queenEmam+quina
"'É bom esclarecer que a produtividade só é prejudicial quando é vista como um fim, não como
uH meio que poderia ser liberador.
"4Se bem que ele tenha sido negado -até o século XVIII -durante todo o tempo em que Marx
acreditou tê-lo descoberto. Exemplos históricos em que o confito das formas de civilização não
chegou a um progresso na ordem de produção: destruição da sociedade micênica, invasão de
Roma pelos bárbaros, expulsão dos mouros da Espanha, etermínio dos albigenses etc.
253
ALBERT CAMUS
chamaam+quina.Jodacoletividadeemlutatemnecessidadede
acumularemvezdedistribuirsuasrendas.Llaacumulaparaau-
mentare,aolazê-lo,aumentaoseupoder.Iurguesaousocialista,
elaadiaa|ustiçaparamaistarde, embenelicio apenas dopoder
Nas o poder se opõe a outros poderes Lla se equipa, searma,
porqueosoutrossearmameseequipam.L¦anäodeixadeacumu-
lar,enäodeixar+nuncasenäoapartirdodiaemquetalvezvenhaa
reinarsonomundoIaratanto,ali+s,éprecisopassarpelaguerra
Atéestedia,oprolet+riomalrecebeonecess+riopara suasubsis-
tência.Arevoluçäoéobrigadaaconstruir,acustademuitasvidas
humanas, ointermedi+rioindustria¦ecapitalistaque seu proprio
sistema exigiaArendaésubstituida pelo solrimentodohomem
Aescravidäoéentäogeneralizada,asportasdocéucontinuamle-
chadas.Lstaéa¦eieconêmicadeummundoquevivedocultoda
produçäo, earealidadeé aindamaissanguin+riadoquealei.J
revoluçäo,noimpasseaqueloi¦evadaporseusinimigosburgu¯
ses e por seus partid+rios niilistas, é a escravidäo. A menos qu.·
mudedeprincipiosederumo,elanäotemoutrasaidaanäoserHO
revoltasservis, esmagadasnosangue,ouahorrendaesperançado
suicidioatêmico Avontadedepoder, alutaniilistapeladomina-
çäoEzerammaisdoquebanirautopiamarxista Lstaporsuavez
tornou-seumlato historico destinado aserutilizadocomoosOtl·
tros. Lla, quequeriadominarahistoria, ai seperdeu, quequer·
sub|ugartodos osmeios,reduziu-seaummeio, cinicamentema·
nipulado para os Ens mais banais e sanguin+rios. Ò desenvo¦v·
mentoininterruptodaproduçäonäodestruiuosistemacapitalis|
em benelicio darevo¦uçäo Lle destruiu igualmente a sociedad.·
burguesae asociedaderevolucion+ria embenen´cio deumido|o
quetemolocinhodopoder
Iequemod

umsocialismo,quesediziacientiEco,pêdeeu-
traremtalconito

omoslatos `Arespostaésimples . elenäoc|+
cientiE co.Seumalogrodecorre aocontr+rio deummétodobas
254
O HOMEM REVOLTADO
tante ambiguo que semostrava ao mesmo tempo determinista e
prolético, dialético e dogm+tico. Se o espirito näo é mais que o
retexo das coisas, ele so pode antecipar a progressäo delas pela
hipoteseSeateoriaédeterminadapelaeconomia,elapodedescre-
vero passado da produçäo, mas näo o seu luturo, que continua
:penas prov+ve¦ Atareladomaterialismohistorico deve serade
estabe¦eceracriticadasociedadeatual,quantoasociedadelutura,
semlalharaoespiritocientiEco,elesosaberialazersuposições.Ie
|esto,näoéporissoqueseulivrolundamentalsechamaO capital,
L näoA revolução( Narxeosmarxistasdeixaram-selevarpelapro-
+ciadoluturoedocomunismoemdetrimentodeseuspostulados
e dométodocientiEco
LssaprevisäosopoderiasercientiE ca,pelocontr+rio,senäo
tivessesidoproletizadaem termos absolutos Ò marxismo näo é
cientiEco, tem,nom+ximo, preconceitos cientiEcos. L¦emostrou
abertamenteodivorcioprolundoqueseestabeleceuentrearazäo
cientiEca, pron´cuoinstrumentodepesquisa,depensamentoeaté
aesmoderevolta,earazäohistorica,inventadapelaideologiaale-
aäemsuanegaçäodequalquerprincipioArazäohistoricanäoé
amarazäo que, segundo suas lunções proprias,|u¦ga o mundo.
|laoconduzaomesmotempoemquepretende|ulg+-lo.Lncerra-
danoacontecimento,elaodirige.É aumsoinstantepedagogicae
.onquistadoraLstasdescriçõesmisteriosasencobremarealidade
maissimples Quandosereduzohomemahistoria,näoh+outra
escolhasenäoperder-senosomenalúriadeumahistoriaabsurda,
ou dar a essa historia a lorma da razäo humana A historia do
aiilismocontemporaneonäoémaisportantoqueumlongoeslorço
¸aradarordem,apenaspelaslorçashumanasesimplesmentepe¦a
|orça,aumahistoriaquenäotemmaisordemLssapseudo-razäo
acabaidentiEcando-secomoestratagemaeaestratégia,enquanto
aäo culmina no Império ideologico. Que teria a ciência a lazer
aqui`Þadaémenosconquistadordoquearazäo.Þäoselazhisto-
255
ALBERT CAMUS
riacomescrúpuloscientilicos,condenamo-nosinclusiveanäotazê-
laapartirdomomentoemque pretendemosainosconduzirmos
com a ob|etividade doscientistas Þäosepregaarazäo, quando
issoacontece,näoemaisrazäoIorisso, arazäohistoricaeuma
razäoirracionaleromantica,que¦embraasistematizaçäodoobce-
cadoouaaErmaçäomisticadoverbo
Òúnicoaspectorealmentecientilicodomarxismoencontra-
se em sua recusa previa dos mitos e na revelaçäo dos interesses
maisrudimentares NasaesserespeitoNarxnäoemaiscientihco
do que IaRocheloucauld, e e|ustamente essa a atitude que elc
abandonaapartirdoinstanteemqueentranaproleciaNäochega
a surpreenderportanto que, paratornaro marxismocientihco c
preservartalE cçäo,útilparaoseculodaciência,tenhasidoneces-
s+riopreviamentetornaraciênciamarxistapeloterrorÒprogres-
sodaciência, desde Narx, consistiugosso modo em substituir
determinismoeomecanicismobastanterudimentardeseuseculo
porum probabilismo provisorio Narxescrevia a Lngels que a
teoriadeIarwinconstituiaapropriabasedateoriadelesIaraque
omarxismocontinuasseinlalive¦,loiportantoprecisonegarasde -
cobertas biologicas leitasapartirde Iarwin. Como essas desc -
bertas, desde as mutações bruscas constatadas porde\ries, con-
sistiramemintroduzirnabiologia, contrariandoodeterminismc,
anoçäodeacaso,loiprecisoencarregarIysenkodedisciplinarcs
cromossomos, demonstrando denovo o determinismo mais ele­
mentar.IssoeridiculoNasdê-seumapoliciaaoSrHomais,eel
näoser+maisridiculo-istoeoseculoX. Iratanto,oseculo
X dever+negartambemoprincipiodaindeterminaçäoemlisica,
arelatividaderestrita,ateoriadosquanta, 85 e, enEm, atendência
geraldaciênciacontemporanea.Òmarxismoho|eemdiasoecieu-
85Roger Caillois _Jserva que o stalinismo faz objeções à teoria dos quanta, mas utiliza a ciênci11
atômica que dela decorre. Critiqt�e du marxisme (Critica do marxismo), Gallimard.
256
O HOMEM REVOLTADO
tiEcoseconseguirdesaliarHeisenberg,Iohr,Linsteineamaioria
dosgrandess+biosdonossotempo.Anal,oprincipioqueconsis-
teemusaraciênciaaserviçodeumaprolecianadatemdemisterio-
so Lle|+loichamadodeprincipiodeautoridade, eelequemguia
as Igre|asquandoelas queremescravizaraverdadeirarazäo a le
mortaealiberdadedainteligênciaamanutençäodopodertempo-
ral

Lmresumo,daproleciadeNarx,queseerguedoravantecon-
traosseusdoisprincipios,aeconomiaeaciência,sorestaoanún-
cioapaixonadodeumacontecimentoamuitolongoprazo.Òúni-
corecursodosmarxistasconsisteemdizerqueosprazossäosim-
plesmentemaislongosequeeprecisoesperarqueoEmtudo|us-
tiEque, emumdiaaindainvisivel.Lmoutraspalavras,estamosno
purgatorio enos prometemque näohaver+inlerno Òproblema
passaaserdeoutraordemSealutadeumaouduasgerações,ao
longodeumaevoluçäoeconêmicaobrigatoriamentelavor+vel,basta
paraproduzirasociedadesemclasses,osacrin´ciotorna-seconce-
bivelparaomilitante.olturotemparaeleumacaraconcreta,a
de seu neto, porexemplo Nas se, o sacrin´ciodev+rias gerações
aäotendosidosuliciente,tivermosde abordaragoraumperiodo
|nEnito de lutas universais milvezes mais destrutivas, e preciso
entäoteras certezas dale paraaceitarmorreroumandarmatar.
Simplesmente,estanovaleetäolndamentadanarazäopuraquanto
asantigas
Comoimaginaresselimdahistoria`Narxnäoretomouostermos
JeHegel.Lledisse,demaneirabastanteobscura,queocomunis-
aonadamaiseradoqueumalormanecess+riadolturohumano,
que ele näo era todo o lturo Nas, ou bem o comunismo näo
"''Ver a este respeito Jean Grenier, Essai sur I'Espirit d'orthodoxie (Ensaio sobr o espírito da ortodo­
.Útl ), Gallimard, que continua, depois de 1 5 anos, um livro atual.
257
ALBERT CAMUS
terminaahistoriadascontradiçõesedosolrimento-enäosev´
como|ustilicartantoseslorçosesacrilicios -,ouentäoeleater-
mina,esosepodeimaginaraseqüênciadahistoriacomoamarcha
rumoaessasociedadeperleitaIntroduz-seaidelormaarbitr+r|
umanoçäomisticanumadescriçäoquesequercientiE caÒdesa�
parecimentoE naldaeconomiapolitica, temalavorito de Narx
deLngels, signilicaoEmdetodosolrimentoAeconomiacoinci -
decomosolrimentoeadesgraçadahistoria,quecomeladesapa-
recemLstamosno
¿
den
Þäoselazavançaroproblemadeclarandoquenäosetratado
Emdahistoria,masdosaltoparaumaoutrahistoriaSoconseg |-
mos imaginar esta outra historia segundo nossa propria historia
Iaraohomem, as duassäoapenas uma Ali+s,estaoutrahistori+
apresentao mesmodilema Òubemelanäoéaresoluçäodascon-
tradições, e nos solremos,morremos e matamos porquasenada,
ouentäoelaéaresoluçäodascontradiçõeseterminapraticamente
anossahistoria.Òmarxismosose|ustiEcanesteest+giopelacida-
dedeEnitiva
LstacidadedosEnster+sentido`Llatemsentidonouniverso
sagrado, una vez admitido o postulado religioso Ò mundo loi
criado,eleter+umEm,Adäodeixouo
¿
den,ahumanidadedevc
voltarparao
¿
den Þäo h+
¿
dennouniversohistorico,admitin-
do-seopostuladodialético Adialéticaaplicadacorretamentenäo
podee näo deve parar `Òstermos antagênicos deuma situaçäo
historicapodemnegar-seunsaosouuos,depoissesuperaremnuma
novasintese . Nasnäoh+razäoparaqueestanovasintesese| asu-
periorasprimeiras.Òumelhor,soh+razäonamedidaemquese
impuser, arlitrariamente,umtermoadialética,nelaintroduzindo
um|uizo de valor externo Se a sociedade sem classes encerra a
87Ver a excelente discussão de J ules Monnerot, Sociologie du Communisme (Sociologiado comunismo),
.
terce1ra parte.
258
O HOMEM REVOLTADO
historia,entäo,naverdade,asociedadecapitalistaésuperioraso-
ciedadeleudal,namedidaemqueelatornacadavezmaisproximo
oadventodessasociedadesemclasses Nas,seadmitirmosopos-
tuladodialético,devemosadmiti-loporinteiroIamesmalorma
que a sociedade das ordens sucedeu uma sociedade sem ordens
mascomclasses,éprecisodizerqueasociedadedasclassessuce-
der+umasociedadesemclasses,masanimadaporumnovoanta-
gonismo aindaa serdeEnido Im movimento ao qual serecusa
umcomeçonäopodeterEm "Seosocialismoéumeternodevir,
os seus meios säo os seus Ens", diz um ensaistalibert+rio `` Òu
mais exatamente,elenäotemEm, sotemmeios, quenäosäoga-
rantidospornadasenäoporumvalorestranhoaodevirÞestesen-
tido,é|ustoobservarqueadialéticanäoénempodeserrevolucio-
n+ria.Ionossopontodevista,elaésomenteniilista,puromovi-
mentoquevisanegartudoquenäolorelemesmo
Iortanto,näoexistenesseuniversonenhumarazäoparaquese
imagine o Em dahistoria Llaé, noentanto,aúnica|ustiEcaçäo
dossacriliciosexigidosahumanidadeemnomedomarxismoNas
elanäotemoutrolundamentorazo+velsenäoumapetiçäodeprin-
cipioqueintroduznahistoria,reinoquesequeriaúnicoesuEcien-
te,umvalorestranhoahistoriaComoestevaloréaomesmotem-
poestranhoamoral, elenäoépropriamenteumvalornoqualse
possabasearaconduta,masumdogmasemlundamento,quese
pode adotar no movimento desesperado deum pensamento que
suloca de solidäo ou de niilismo, ou que ser+ imposto pelos
beneEci+riosdodogmaÒEmdahistorianäoéumvalordeexem-
ploedeaperleiçoamento
¿
umprincipioarbitr+rioeterrorista
Narxreconheceuque todas asrevoluçõesantesdelehaviam
lracassado Naspretendeuquearevoluçäoporeleanunciadade-
viaterumêxito deEnitivo.Atéaquio movimento oper+rioviveu
88Ernestan. L e Socialisme et la Liberté (O socialismo e a liberdade).
259
l i
ALBERT CAMUS
nestaaErmaçäoqueoslatosnäodeixaramdedesmentirecu|ameu-
tiradeveseragoradenunciadacomtranqüilidadeÀ medidaqueH
parúsia se distanciava, a alirmaçäo do reino Enal, enlraquecid.
quantoarazäo, tornou-seartigo delé. Ò únicovalordo mundc
marxistaresidedoravante,apesardeNarx,numdogmaimposto a
todo um império ideologico. Ò reino dos Ens é utilizado, assim
como amoraleternaeoreinodoscéus,paraEnsdemistiEcaçäc
social.LlieHaléydeclarava-sesemcondiçõesdedizerseosocia-
lismoiaconduzirarepúblicasuiçauniversalizadaouaocesarismo
europeuAtualmenteestamosmaisbem-inlormadosAsprolecias
de Þietzsche, pelo menos no que se relere a este ponto, säo
|ustihcadas Òmarxismopassouaapoiar-se,adespeitodesimes-
moeporumalogicainevit+vel,nocesarismointelectual,quelinal-
mentedevemosdescrever.
¡
ltimorepresentantedalutada|ustiç.
contraagraça, eleseencarrega, sem dese|+-lo,dalutada|ustiça
contraaverdade Comoviversemagraça,eisaperguntaquedo-
minaoséculoXIX"Iela|ustiça",responderamtodosaquelesqu
näoqueriamaceitaroniilismoabsolutoAospovosqueperdiama
esperançanoreinodoscéus,elesprometeramoreinodohomem.
Aexortaçäodacidadehumanaacelerou-seatéoEmdoséculoXIX,
quandosetornourealmentevision+ria,colocandotodasascertezas
daciênciaaserviçodautopia Nasoreinosedistanciou,guerras
prodigiosas devastaramas mais antigas nações, o sangue dosre-
voltadosrespingounosmurosdascidades,ea|ustiçatotalnäose
aproximouAquestäodoséculoXX,pelaqualmorreramosterro-
ristasde l 90´equeatormentaomundocontemporaneo,poucoa
poucotornou-semaisprecisa.comoviversemagraçaesema|us-
tiça`
Aessaquest1o sooniilismo,enäoarevolta,respondeu Só
ele lalou até o momento, retomando a lormula dos revoltados
romanticos "Irenesi " Ò lrenesi historico chama-se poder. A
vonta
_
edepoderveioocuparolugardavontadede|ustiça,lin-
260
O HOMEM REVOLTADO
gindoinicialmente identihcar-se com ela, relegando-adepois a
algumlugarnohmdahistoria,quando| +näohouvermaisnada
paraserdominadonaterraAconseqüênciaideologicavenceua
conseqüênciaeconêmicaahistoriadocomunismorussodesmen-
tiuosseus principios \oltamos aencontraraolimdesselongo
caminhoarevoltametalisica, que destavez avança no tumulto
dasarmasedaspalavrasdeordem,masesquecidadeseusverda-
deirosprincipios,dissimulandosuasolidäonoseiodemultidões
armadas, cobrindoas suasnegações comuma escol+stica obsti-
nada,aindavoltadaparaoluturo, constituidoagoracomooseu
único deus, mas dele separada por numerosas nações a serem
arrasadasedecontinentesaseremdominadosJendoaaçäocomo
principioúnico,oreinodohomemcomo+libi,ela|+começoua
construirasuapraçalortenolesteeuropeu,diantedeoutraspra-
çaslortes.
O Reino dos Fins
NarxnäoimaginavaumaapoteosetäoaterrorizanteÞemIenin,
queno entanto deu umpassodecisivo rumoao Império militar.
Narx, bomestrategistaehlosolomediocre,colocouinicialmente
oproblemadatomadadopoderÒbservemoslogoqueétotalmen-
te lalso lalar, como se costuma lazer, do|acobinismo de Ienin
Apenasasuaidéiasobreaparceladeagitadoresederevolucion+-
riosé|acobina. Òs| acobinosacreditavamnosprincipiosenavir-
tude,morreramporteremtidoqueneg+-los.Ieninsoacreditana
revoluçäo e na virtude da eEc+cia. "É preciso estar pronto para
todosos sacrilícios, selornecess+rio, usardetodos osestratage-
mas,doardil,demétodosilegais,estardecididoaocultaraverda-
261
I
I
l
ALBERT CAMUS
de,comaúnicaEnalidadedepenetrarnossindicatos. . eairealizar
todaatarelacomunista "Alutacontraamorallormal,inaugurada
por HegeleNarx,é novamenteencontradaem Ienin nacritica
das atitudes revolucion+rias ineE cazes. Ò Império era o ob|etiv
dessemovimento
Seexaminarmosasduasobrasqueestäonoinicio`'enoEm´¨
desua carreira deagitador, licaremos impressionados aoverque
ele näo deixou de lutar impiedosamente contra as lormas sent|-
mentaisdaaçäorevolucion+riaLlequisbaniramoraldarevolu�
çäo,porqueacreditava,comtodoodireito,queopoderrevolucio-
n+rionäoseestabelecenorespeitoaosdezmandamentosQuando
chega,aposasprimeirasexperiências,aopalcodeumahistoriaem
quedesempenhariaumpapeltäoimportante,vendo-otomarconta
comumaliberdadetäonaturaldomundotalcomolabricadopela
ideologiaepelaeconomiadoséculoanterior,e¦epareceseropr|-
meirohomemdeumanovaeraIndilerenteainquietaçäo,anostal-
gia,amoral,eleassumeocomando, procurao melhor meiopara
ligaromotoredecidequedeterminadavirtudeconvémaocondu�
torda historiae queoutranäoconvém. Lletateia um pouco n
inicio, hesita quanto a questäo de saber se a Rússia deve passar
primeiropeloest+giocapitalistaeindustrial Nasissoéomesmo
queduvidarquearevoluçäopossaterlugarnaRússiaLleérusso,
suamissäoélazerarevoluçäorussaLledescartaolatalismoeco-
nêmicoeentraemaçäo. Iesde 1 902, aErmacategoricamenteque
os oper+rios näo säo capazes por si mesmosde elaborarem uma
ideologiaindependente.Llenegaaespontaneidadedasmassas.A
doutrinasocialistasupõeumabase cientiEcaquesoosintelectuais
podemlhedar Quandodizqueéprecisoapagarqualquerdistin-
çäo entre oper+rios e intelectuais, é preciso traduzirque se pod
89Qtefzer, 1 902.
900 Estado e d Revolução, 1 91 7.
262
O HOMEM REVOLTADO
näoserprolet+rioeconhecer,melhorqueosprolet+rios,osinteres-
sesdo proletariado LlecumprimentaIassalle porhaverempre-
endidoumalutalerrenhacontraaespontaneidadedasmassas ''A
espontaneidadedevesubordinar-seateoria", 'dizele\ê-seclara-
mentequeissoquerdizerquearevoluçäotemnecessidadedelide-
resedelideresteoricos
Llecombateao mesmotempo o relormismo, culpadopelo
enlraquecimentodalorçarevolucion+ria,eoterrorismo,'atitu-
de exemplare ineEcaz. Arevoluçäo, antes deser econêmicaou
sentimental,émilitarAtéodiaemqueeclodir,aaçäorevolucio-
n+riaconlunde-secomaestratégiaAautocraciaéoinimigo,sua
lorça principal, a policia, corpo proEssional de so¦dados politi-
cosAconc¦usäoésimples . ''A lutacontraapoliciapoliticaexige
qualidadesespeciais,exige revolucion+rios proE ssionais "Are-
voluçäo ter+ o seu exército proE ssional, assim como as massas,
queumdiapoderäoserrecrutadas Lssecorpodeagitadoresdeve
ser organizado antes da propria massa Ima rede de agentes,
esta é a expressäousada por Ienin, que|+ anunciao reinoda
sociedadesecretae dos mongesrealistasdarevoluçäo. "Somos
os|ovensturcosdarevoluçäo,comalgode|esuitaamais", dizia
ele.Òproletariadonäotemmaismissäoapartirdessemomento
Llenäoémaisqueummeiopoderoso,entreoutros, nasmäosde
ascetasrevolucion+rios. '`
ÒproblemadatomadadepoderacarretaoproblemadoLsta-
doO Estado e a RvolufãO ( 1 9 1 7) , quetratadoassunto, éomais
curioso e mais contraditorio dos libelos Ienin utiliza nele seu
método lavorito,queéaautoridade Comaa|udade Narxede
"Marx diz igualmente: "O que este ou aquele proletário ou até mesmo o proletariado inteiro
imagina ser o seu fim não importa! "
92Sabe-se que seu irmão mais velho, que havia escolhido o terrorismo, foi enforcado.
93Heine já chamava os socialistas de "novos puritanos". Puritanismo e revolução andam, histori­
camente, de mãos dadas.
263
ALBERT CAMUS
£ngels,começaporrnsurgrr-secontra qua¦querrelormrsmo que
pretendautrlrzaro £stadoburguês, organrsmo de domrnaçäode
uma classesobreaoutra. Ò£stadoburguêsapora-senapolicrac
noexércrto,porqueé,emprrmerrolugarumrnstrumentodeopres-
säo £lereleteaomesmotempooantagonrsmornconcrlr+veldas
c¦asseseareduçäolorçadadesseantagonrsmo£ssaautorrdaded
latoso merecedesprezo "Atémesmoocheledopoder mrlrtard
um £stado crvrlrzado poderra rnve|ar o cheledo clä que asocre-
dade patrrarcal cercavadeum respertovolunt+rro e näo rmposto
pelo porrete " £nge¦s, alr+s, estabeleceu lirmemente a noçäo d
que£stadoesocredadelrvresäornconcrlr+vers ^sc¦assesdesapa-
receräo com a mesma rnevrtabrlrdade com que surgrram Com o
desaparecrmentodasclasses,desaparecer+,demodornevrt+vel, Í
£stadoAsocredadereorganrzadoradaproduçäo combasenaas-
socraçäolrvreergualdosprodutoresrelegar+am+qurnado£stad.
ao lugar que ¦he convém. o museu de antrgurdades, ao ¦ado da
rodadeuaredomachadodebronze. "
Issoexp¦rcaprovavelmentequelertoresdrstraidostenhamatri -
buidoO Estado e a Rvolução astendêncrasanarqurstasdeIenrnÍ
setenhamcompadecrdopelasrngularposterrdadedeumadoutr· -
natäoseveraemrelaçäoaoexércrto,apolicra,aoporreteeaburc-
cracra Nas,paracompreenderospontosdevrstadeIenrn,el t
devemsersempre entendrdos emtermosdeestratégra Seeledc-
lendecomtantaveemêncra atese de£ngels sobreo desapareci -
mento do £stado burguês, é porque dese|a,deumlado, coloca·
obst+culosaopuro"economrsmo"deIlekhanovoudeKautsky ´¿
poroutrolado,demonstrarqueogovernoKerenskréumgovero
burguês,quedeveserdestruidoAlr+s,ummêsdeporseleodcs
trurr+.
£ra precrso responder também aqueles que lazram ob|eçc.··
quantoaolatodeaproprrarevoluçäoternecessrdadedeumapar
lhodeadmrnrstraçäoederepressäo.Arndaaesseresperto,Nar
264
O HOMEM REVOLTADO
£nge¦ssäo¦argamenteutr¦rzadosparaprovar,comautorrdade,que
o£stadoprolet+rronäoéumestadoorganrzadocomoosoutros,
masum£stadoque,pordelinrçäo,näocessadedeteriorar-se"Ies-
dequenäo ha|amarsclassesocralparamanternaopressäo . um
£stadodeixadesernecess+rro.Òprimerroatopeloqualo£stado
¸prolet+rro)realmentesealrmacomorepresentantedetodaaso-
credade-atomadadosmerosdeproduçäodasocredade-éao
mesmotempooúltrmoatoproprrodo£stado.Ògovernodaspes-
soasésubstrtuidopelaadmrnrstraçäodascorsas . Ò£stadonäoé
abolrdo, elesedeterrora "Ò£stadoburguêséprrmerramentesu-
prrmrdopeloproletarrado.£msegurda,massomenteemsegurda,
o £stado prolet+rro é reabsorvrdo A drtadura do proletarrado é
necess+rra.prrmerro,paraoprrmrrousuprrmrroquerestadaclas-
se burguesa, em segundo lugar, para realrzar a socra¦rzaçäo dos
merosdeproduçäo.Cumprrdasestasduastarelas,elacomeçalogo
adeterrorar-se.
Ienrnparteportantodoprrncipro,claroeurme,dequeo£s-
tadomorretäologoseopereasocralrzaçäodosmerosdeproduçäo,
sendoentäosuprrmrdaaclasseexploradora.Chega,porém,nomes-
molrbe¦o,alegrtimaramanutençäo,aposasocralrzaçäodosmeros
deproduçäoesemtermoprevrsivel, dadrtaduradeumaparcela
revolucron+rra sobre o resto do povo. Ò panlleto, que usacomo
relerêncraconstanteaexperrêncradaComuna,contradrzdemodo
absolutoacorrentederdéraslederalrstaseantrautorrt+rrasquepro-
duzruaComuna £lese opõe, damesmalorma, a descrrçäootr-
mrstadeNarxede£ngelsArazäoéclara.Ienrnnäoseesqueceu
dequeaComunahavratracassadoQuantoaosmerosdeumatäo
surpreendentedemonstraçäo,säoarndamarssrmples.acadanova
drEculdade encontradapelarevoluçäo, d+-se uma atrrburçäo su-
¡lementarao£stadodescrrtoporNarx.Iezp+grnasadrante,sem
transrçäo,Ienrnalrmaeletrvamentequeopoderénecess+rropara
reprrmrra resrstêncra dos eploradores "etambém paradrrrgira
265
ALBERT CAMUS
grandemassadapopulaçäo,docampesinato,dapequenaburgue�
sia, dossemiprolet+rios,paraaorganizaçäo daeconomiasocia¦i·�
ta" A mudança é incontest+vel, o Lstado provisorio de Narx
Lngelsvê-se encarregado deumanovamissäo, quecorreorisco
de dar-lhevida longa j+ encontramos a contradiçäo do regime
sta¦inistaasvo¦tas com suaE¦osoEa oEcial Òu bem esseregim
realizouasociedadesocialistasemc¦asses,eamanutençäodeum
lormid+ve¦aparelhoderepressäonäose|ustiEcaemtermosmar-
xistas,ouentäonäoolez, comprovando-senestecasoqueadoutri-
namarxistaest+erradae,particularmente,queasocializaçäodc-
meios de produçäo näo signiEca o desaparecimento das c¦asses
IiantedesuadoutrinaoEcial,oregimeéobrigadoaescolher.ela
é la¦sa oue¦ea traiu Þaverdade, com Þetchaieve Jkatchev, {
Iassalle,inventordosocialismodeLstado,queIeninleztriunla|
na Rússia, em detrimento de Narx A partir desse momento, r
historiadas¦utasinternasdo partido, deIenina Stalin, ir+resu-
mir-se a luta entre a democracia oper+ria e a ditadura militar
burocr+tica,oume¦hor, entre|ustiçaeeEc+cia
]u¦gamosporummomentoqueIeninvaiencontrarumaes-
pécie deconciliaçäo,aovê-lolazeroelogiodasmedidastomadas
pela Comuna. luncion+rios elegiveis, demissiveis, remunerados
comooper+rios,substituiçäodaburocraciaindustrialpelagestä·
oper+riadireta SurgeumIeninlederalista,quelouvaainstitui -
çäodascomunasesuarepresentaçäoNascompreende-serapida-
mentequeesseledera¦ismosoépreconizadonamedidaemqueel
"
signiEcaaabo¦içäodo par¦amentarismo Ienin,contra todaver-
dadehistorica,qua¦iEca-odecentra¦ismoelogoenlatizaaidéiada
ditadura do pro¦etariado, censurando aos anarquistas sua
intransigênciaemre¦açäo ao Lstado Apoiada em Lngels, intcr-
vémneste ponto umanovaaErmaçäoque|ustiEcaamanutençäc
daditaduradoproletariadoaposasocializaçäo,odesapareciment·
daclasseburguesaeatémesmoadireçäo,lina¦menteconseguida,
266
O HOMEM REVOLTADO
damassa. Amanutençäodaautoridadeter+agoraoslimitesque
¦hesäotraçados pe¦as propriascondiçõesdaproduçäoIorexem-
plo,adeterioraçäodeEnitivadoLstadocoincidir+comomomento
em que se puder lornecermoradiagratuita paratodos É a lase
superiordocomunismo.''A cadaumsegundosuasnecessidades "
Atéessemomento,haver+Lstado.
Qualser+arapidezdodesenvo¦vimentorumoaessalasesu-
periordocomunismo,naqualcadaumter+segundosuasnecessi-
dades` "Isso nos näo sabemos nem podemos saber . . . Þäotemos
dadosquenospermitamresolvertaisquestões "Iaramaiorclare-
za,IeninaErma, sempredemodoarbitr+rio, "quenäoocorreua
nenhumsocialistaprometeroadventodalasesuperiordocomu-
nismo" Iode-se dizer que neste ponto morre deEnitivamente a
liberdade Io reino da massa, da noçäo derevoluçäo prolet+ria,
passa-seprimeiroaidéiadeumarevoluçäoleitaedirigidaporagen-
tesproEssionaisAcriticaimpiedosadoLstadoconcilia-seemse-
guidacomanecess+ria, mas provisoria, ditadurado proletariado
na pessoa de seus lideres Ior Em, anuncia-se que näo se pode
µreverotérminodesseLstadoprovisorioequealémdomaisnin-
guémnuncaseatreveuaprometerquehaveriaumtérmino Ie-
poisdisso,élogicoqueaautonomiadossovietes se|acombatida,
queNakhnose|atraido,eosmarinheirosdeKronstadtesmaga-
dos pelo partido
Certamente,muitasaErmaçõesdeIenin,amantepassionalda
,ustiça,podemaindasercontrapostasaoregimesta¦inista,princi-
pa¦menteanoçäodedeterioraçäoNesmoadmitindoqueaindase
passemuitotempoatéqueoLstadoprolet+riodesapareça,éainda
preciso,segundoadoutrina,paraquepossaserchamadodeprole-
t+rio,queeletendaadesapareceretorne-secadavezmenoscoerci-
tivoÉ certoqueIeninacreditavanessatendênciainevit+veleque
nissoeleloisuperado.ÒLstadoprolet+rio,h+maisdetrintaanos,
näo deunenhumsinal de anemia progressiva. Aocontr+rio, sua
267
ALBERT CAMUS
crescenteprosperidadeevisivel Ieresto,doisanosdepois,num+
conlerêncianaIniversidadeSverdlov,sobapressäodosaconteci-
mentos externos edarealidade interna, Ieninlar+umaobserva-
çäo que deixa prever a manutençäo indeEnida do super-Lstado
prolet+rio "Com estam+quinaouestamaça¸oLstado), esmaga�
remos qualquerlormadeexploraçäo,equandonaterranäohou-
ver mais possibilidade de exploraçäo, mais gente propriet+ria de
terrasel+bricas,maisgenteseempanturrandonasbarbasdos es-
lomeados,quandocoisascomo essas setiveremtornadoimpossl-
veis, soentäoporemos delado essa m+quina Lntäo, näohavera
nem Lstado nem exploraçäo. " Lnquanto houver naterra, e näo
maisem determinada sociedade,umúnicooprimido ouumpro-
priet+rio, entäoo Lstado continuar+aexistir. Lnquanto isso pet-
durar,eleser+obrigadoaaumentarsualorçaparavencer, umaa
uma, asin|ustiças,osgovernosdain|ustiça, as nações obstinada-
menteburguesas, ospovos cegos aos seus proprios interesses F
quando,sobreaterraenEmsub|ugadaedepuradadeadvers+rios,
a última iniqüidade setiveralogado no sangue dos|ustos e dos
in|ustos, entäo, tendo chegado aolimitedetodasas lorças, idolc
monstruosocobrindoomundointeiro,oLstadoser+sabiamente
reabsorvidonacidadesilenciosada|ustiça
Sob a pressäo, contudoinevit+vel, dos imperialismos adver-
sos,nascecomIenin,naverdade,oimperialismoda|ustiça.Nas
o imperialismo, mesmo o da|ustiça, näo tem outro Em senäo a
derrotaouo ImperiodomundoAtel+, näoh+outro meioa nä
serain|ustiçaIesdeentäo,adoutrinaidentiEca-sedeEnitivament.·
comaproleciaIoruma|ustiçalonginqua,elalegitimaain|ustiça
durantetodootempodahistoria,elasetornaessamistiEcaçäoque
Ienindetestavamaisdoquetudonomundo. Llalazcomquesc
aceiteain|ustiça, ocrimeeamentira, pelapromessadomilagrc.
Ima produçäo maior e um poder maior, trabalho ininterrupto,
solrimentointermin+vel,guerrapermanente-echegar+o mo-
268
O HOMEM REVOLTADO
mentoemqueaservidäogeneralizadano Imperiototal setrans-
lormar+milagrosamenteemseuoposto.olazerlivre,numarepú-
blica universal A mistiEcaçäo pseudo-revolucion+ria tem agora
sualormula.eprecisomatartodaliberdadeparaconquistaroIm-
perio,eoImperioumdiaser+aliberdadeÒcaminhodaunidade
passaentäopelatotalidade
Ttalzdade e Julgamento
Atotalidade,comeleito,näoemaisqueoantigosonhodeunidade
comumaoscrenteseaosrevoltados,maspro|etadohorizontalmente
sobreumaterraprivadadeIeus.Renunciaratodovaloreomes-
moquerenunciararevoltaparaaceitaroImperioeaescravidäoA
criticadosvaloreslormaisnäopodiaevitaranoçäo deliberdade
Imavezreconhecidaaimpossibilidadededarorigem,unicamen-
tepelaslorçasdarevolta,aoindividuolivrecomoqualsonhavam
osromanticos,aliberdadeloitambemincorporadaaomovimento
dahistoria.Jornou-seumaliberdadeemlutaque,paraexistir,deve
criar-se IdentiEcadacom odinamismodahistoria, elasopoder+
deslrutardesimesmaquandoahistoriasedetivet,naCidadeuni-
versalAtel+,cadaumadesuasvitoriassuscitar+umacontestaçäo
queatornar+väAnaçäoalemäliberta-sedeseusopressoresalia-
dos,masaopreçodaliberdadedecadaalemäo Òsindividuosno
regimetotalit+rionäoestäolivres, emboraohomemcoletivoeste|a
libertado.ÞoEm,quandooImperioemanciparaespecieinteira,a
'iberdadereinar+sobrerebanhosdeescravos, que pelo menoses-
taräolivresemrelaçäoaIeuse,emgeral,atodatranscendência.
269
I
ALBERT CAMUS
£xplica-seomi¦agredialético,atranslormaçäodaquantidadeem
qualidade. toma-seadecisäodechamaraservidäototaldeliber-
dade. Como ali+s emtodos os exemplos citados por ¡egel epoi
Narx,näoh+nenhumatranslormaçäoob|etiva,massimmudança
sub|etivadedenominaçäo Þäoh+milagre Seaúnicaesperança
donii¦ismoresidenolatodequemi¦hõesdeescravos possamum
diaconstituirumahumanidadeemancipadaparasempre,ahistó-
rianäopassadeumsonhodesesperado Ò pensamentohistorico
devia¦ivrarohomemdo|ugodivino,masessaliberaçäoexigedele
asubmissäomaisabsolutaaodevir. Corre-seentäoparaaperma-
nência do partido, como antes se corria para o altar Ior isso, a
épocaque ousadizer-seamaisrevoltadasoolereceumaescolha.
conlormismosAverdadeirapaixäodosécu¦oXXéaservidäo
Nasaliberdadetotalnäoémaisl+ci¦deconquistarqueal· -
berdadeindividual.Iaraasseguraro!mpériodohomemnomun-
do, é preciso suprimir do mundo e do homem tudo aquilo quc
escapaaoimpério,tudoaquiloquenäoédoreinodaquantidadc
esse empreendimentoéintermin+vel Lledeveestender-seaoes-
paço,aotempo e as pessoas,queabrangemas três dimensões d.
historia. Ò Império é ao mesmo tempo guerra, obscurantismo
tirania,aErmandodesesperadamentequeser+fraternidade,verda-
dee liberdade a ¦ogicade seus postulados obriga-o aisso Sem
dúvida, h+na Rússia de ho|e, e até mesmo no comunismo,uma
verdadequenegaaideologiasta¦inista Nasestatemsualogica,
queéprecisoisolareexpor,sesedese|aqueoespiritorevolucion+-
rioescapeEna¦menteadesgraçadeEnitiva
Acinicaintervençäo dosexércitosocidentaiscontraarevolu-
çäosoviéticamostrouaosrevolucion+riosrussos,entreoutrascoi -
sas,queaguerraeonacionalismoeramrealidades similaresalut+
declassesSemumasolidariedadeinternacionaldosprolet+rios, '
queatuasseautomaticamente,nenhumarevoluçäointernapodiaSl
|ulgarvi+ve¦semquesecriasseumaordeminternacionalApart· ··
270
O HOMEM REVOLTADO
dessedia,loiprecisoadmitirqueaCidadeuniversalsopoderiaser
construidasobduascondiçõesRevoluçõesquasesimultaneasem
todos os grandes paises ou entäo a liquidaçäo, pela guerra, das
naçõesburguesas,arevo¦uçäopermanenteouaguerrapermanen-
te Ò primeiro ponto devistaquasetriunlou, como se sabe. Òs
movimentos revolucion+rios daAlemanha, daIt+liae da Irança
marcaramoapogeudaesperançarevolucion+ria.Nasoesmaga-
mento dessasrevoluçõeseoconsecutivolortalecimentodosregi-
mescapitalistasEzeramdaguerraarea¦idadedarevoluçäo.Allo-
soEadasluzeslevoua£uropadotoquedereco¦her.Ielalogicada
historiaedadoutrina,aCidadeuniversal,quedeviarea¦izar-sena
insurreiçäoespontaneadoshumi¦hados,loipoucoapoucorecoberta
peloImpério,impostopelalorçaLnge¦s,comaaprovaçäodeNarx,
haviaaceitadolriamenteessaperspectivaquandoescreveu,emres-
postaaoApelo aos eslavos, deIalnin. '' proximaguerramundial
lar+ comquedesapareçamda superlcie daterranäoapenasclas-
sesedinastiasreacion+rias,mastambémpovosinteirosreacion+rios.
Issotambémlazpartedoprogresso. "Lsseprogresso,namentede
Lngels, devia eliminara Rússiados czares Aualmente, a naçäo
russainverteu o rumodoprogresso Aguerra, lriae morna, é a
servidäodo!mpériomundial.Nas,aotornar-seimperial,arevo-
¦uçäoEcanumimpasse.Senäorenunciaraseusprincipioslalsos,
aEmderetornarasorigensdarevolta,elasigniEcasomenteama-
nutençäo,porv+riasgerações,eatéadecomposiçäoespontaneado
capitalismo, deumaditaduratotalsobrecentenasdemi¦hõesde
homens, ou entäo, se ela quiser precipitar o advento da Cidade
humana,signiEcaagaerra atêmica, queelanäodese|ae Endaa
qual,deresto,qualquercidadesoexistiriasobreescombrosdeEni-
tivos Arevoluçäomundial,pe¦aproprialeidessahistoriaqueela
imprudentementedeiEcou, est+condenadaapoliciaouabomba
Aomesmotempo,e¦asevênumacontradiçäoadicionalÒsacrili-
ciodamora¦edavirtude,aaceitaçäodetodososmeiosquecons-
27 1
ALBERT CAMUS
tantemente|ustihcoupelohmperseguido, sosäoaceitos, arigor,
emmnçäodeumhmcu|aprobabilidadeérazo+velApazarmada
supõe,pela manutençäoindeEnidadaditadura, anegaçäoindeE-
nidadesselim.Òperigodeguerra,alémdisso,lazdesselimuma
probabilidadedesprezivel AextensäodoImpérioaoespaçomun-
dialéumanecessidadeinevit+velparaarevoluçäodoséculoXX.
Nas essanecessidadecoloca-adiantedeumúltimodilema.lor|ar
parasi novos principios ou renunciara|ustiçaea paz cu|o reino
delinitivoelaqueria
Lnquantoesperadominaroespaço,oImpériovê-setambém
obrigadoarernarsobreotempoAonegartodaverdadeest+vel,
tevequechegaraopontodenegaralormamaisbaixadaverda-
de, ada historia £letransportouarevoluçäo,aindaimpossivel
emescalamundial,aopassadoqueeleseempenhaemnegarIsso
tambémélogicoJodacoerência,quenäose|apuramenteeconê-
mica, dopassadoao luturo humano,supõeumaconstanteque
porsuavezpoderialembrarumanaturezahumanaAcoerência
prolundaqueNarx, homemdecultura,tinhamantidoentreas
civilizações ameaçava extrapolar sua tese, trazendo a luz uma
contrnurdadenatural, marsampladoqueaeconêmrcaIoucoa
pouco,ocomunismorussotoìlevadoarnterromper,arntroduzir
uma soluçäo decontinuidade no luturo A negaçäodosgênios
heréticos¸equasetodoso säo), das contribuiçõesdacivilizaçäo,
daarte-namedida,inlinita, emqueestaloge ahistoria-, a
renúnciaastradiçõesvivasconhnarampoucoapoucoomarxis-
mocontemporaneodentrodelimitescadavezmarsestreitos. Þäo
lhe bastou negar ou calar aquilo que nahistoriado mundo é
inassimil+velpeladoutrina,nemre|eitarasdescobertas dacrên-
ciamodernaIoiprecisoaindarelazerahistoria, mesmoamars
proxima,amaisconhecidaeatémesmo,porexemplo,ahistoria
do partido e da revoluçäo A cada ano, asvezes a cada mês, o
Pravda secorrige, sucedem-se as edrções retocadas dahrstorra
272
O HOMEM REVOLTADO
olicial,Ieninécensurado, Narxdeixadeserpublicado Þeste
est+gro,acomparaçäocomoobscurantismoreligiosonemémais
| ustaAIgre|anuncachegouaopontodedecidirsucessivamente
queamanilestaçäodivinaselazraemduas,depoisemquatroou
emtrês,eaindaemduaspessoas Aaceleraçäopropriadenosso
tempoatinge,dessemodo,alabricaçäodaverdadequenesserit-
motorna-se purailusäoComonocontopopular,emqueostea-
resdeumacidadeinteirateciamnovazioparavestirorei,mrlha-
resdehomens-comooteardal+bula-relazemtodososdias
umahistoriavä, destruidalogo ao hmdo dia, esperando que a
voztranqüiladeumacriançaproclamederepentequeoreiest+
nuLstapequenavozdarevoltadrr+entäoaquiloquetodomun-
do|+conseguever.queumarevoluçäocondenada,ahmdeper-
durar,anegarsuavocaçäo universa¦ouarenunciara simesma
paraseruniversal,vrve sobreprincipioslalsos
Lnquantorsso,essesprrncipioscontinuamluncionandoacr-
mademilhões de homens. Ò sonho do Império, contrdo pelas
realidadesdotempoedoespaço,saciaasuanosta¦gianaspessoas
As pessoas näo säo hostis ao Império apenas comoindividuos.
nestecaso,oterrortradicronalserrasuhcienteLlaslhesäohos-
tisnameJidaemqueatéomomentoninguémpêdeviversoda
historia, sempreselhe escapando de algum modo Ò Império
supõe uma negaçäo e uma certeza. a certeza da inlinita
maleabi¦idadedohomem e a negaçäo danatureza humana. As
técnicasdepropaganda servem para mediressamaleabi¦idade,
tentandolazercorncrdirrellexäoerellexocondrcionadoLlasper-
mitemassinarumpactocomaqueleque, duranteanos,loidesrg-
nado como o inimigo mortal L mars. elas permitemreverter o
eleitopsrcologicoassimobtido,lazendotodoumpovoinsurgir-
se, denovo,contraessemesmornimigoAexperiênciaaindanäo
chegouaseutermo, masseuprincipioélogicoSenäoh+nature-
zahumana,amaleabilidadedohomem,naverdade,éinlinrtaÒ
273
r '
ALBERT CAMUS
realismo politico, neste nivel, näo e mais que um romantismc
desenlreado,umromantismodaelic+cia.
Iode-seassimexplicarporqueomarxismorussore| eita,eu
suatotalidade,eaindaquesaibaseservirdele,omundodoirracio-
nal. Ò irracionaltantopodeservirao Imperio comopoderecus+-
lo Lle logeao c+lculo, e so o c+lculo devereinarno Imperio. Ò
homemnäoemaisqueum|ogo delorçasquesepodeconsidera.
racionalmente. Narxistas desavisados atreveram-seapensarqu.
poderiam conciliar sua doutrina com a de Ireud, por exemplo
Naslogotiveramquereconsiderar.Ireudeumpensadorhereticc
e"pequeno-burguês", porquerevelouoinconsciente,conlerindo-
lhe ao menos tanta realidadequanto ao superego ou ego social
Lsternconscientepodeentäodelniraoriginalidadedeumanatu-
rezahumana,emoposiçäoaoegohistorico.Òhomem,aocontr+-
rio,deveresumir-seaoegosocialeracional,ob|etodec+lculoIogo,
loiprecisoescravizarnäoapenasavidadecadaum,mastambemo
acontecimentomaisirracionalemaisisolado,cu|aexpectativaacom-
panhaohomemaolongodetodaasuavida. Ò Imperio, emseu
eslorçoconvulsivonosentidodeumreinodeEnitivo,tendeainte-
graramorte.
Iode-se sub| ugar um homemvivo, reduzindo-o a condiçäo
historicadecoisaNas,semorrerecusando,reaErmaumanature-
zahumanaquere|eitaaordemdascoisasÉ porissoqueoacusado
socproduzidoemortodiantedomundoseconsentiremdizerque
suamorteser+|ustaedeacordocomoImperiodascoisasÉ pre-
ciso morrerdesonrado ounäo existirmais, nemnavidanemna
morte.Þesteúltimocaso,näosemorre,desaparece-se.Iamesma
lorma,seocondenadoecastigado,oseucastigoprotestaemsilên-
cio,introduzindoumalissuranatotalidade.Nasocondenadonäo
ecastigado,eleerecolocadonatotalidade,elemontaam+quinado
Impcrio Jranslorma-seemengrenagem da produçäo, täoindis-
pensável,deresto,quecomotempoelenäoser+utilizadonapro-
274
O HOMEM REVOLTADO
duçäoporqueeculpado,massim|ulgadoculpadoporqueapro-
duçäotem necessidadedele Ò sistemarussodecamposdecon-
centraçäo realizoueletivamentea passagemdialeticadogoverno
daspessoasaadministraçäodascoisas,masconlundindoapessoa
eacosa
AtemesmooinimigodevecolaborarparaaobracomumIora
doImperionäoh+salvaçäoLsteImperioeouser+odaamizade
Nasestaamizadeeadascoisas,poisnäosepodepreleriroamigo
aoImperioAamizadedaspessoas-näoh+outradeEniçäo-e
asolidariedadeparticular,ateamorte,contraoquenäoedoreino
daamizade.Aamizadedascoisaseaamizadeemgeral,aamizade
comtodos,quesupõe,quandodeveserpreservada,adenúnciade
cadaum. Aquelequeamaaamigaouoamigoama-onopresente,
earevoluçäosoqueramarumhomemqueaindanäosurgiu.Amar,
decertamaneira,ematarohomemacabado,quedevenascerpela
revoluçäo Iara queviva, um dia, ele deve ser, a partir deho|e,
preleridoatudo. Þoreinodas pessoas,oshomens seligampela
aleiçäo,noImperiodascoisas,oshomensseunempeladelaçäo.A
cidadequesequerialraternaltorna-seumlormigueirodehomens
sos
Lmoutroplano,soolurorirracionaldeumabestaconsegue
imaginarsernecess+riotorturarsadicamentehomensaEmdeob-
teroseuconsentimento.Lntäo,trata-seapenasdeumhomemque
sub|ugaoutro,emumimundoacasalamentodepessoas.Òrepre-
sentantedatotalidaderacionalcontenta-se,pelocontr+rio,emdei-
xarquenohomemacoisadomineapessoa.Amentemaiselevada
einicialmenterebaixadaaordemdamaisinleriorpelatecnicapo-
licialdoam+lgamaIepois,cinco,dez,vintenoitesdeinsêniaven-
ceräoumailusoriaconvicçäoecolocaräonomundoumanovaalma
mortaIestepontodevista,aúnicarevoluçäopsicologicaconhe-
cidaemnossotempo,depoisdeIreud,loioperadapeloÞK\Ie
pelas policias politicas em geral. Cuiadas por uma hipotese
275
ALBERT CAMUS
determinista,calculandoospontoslracoseograudeelasticidad.
dasalmas,estasnovastécnicasdilataramaindamaisumdoslimi-
tesdohomem,tentandodemonstrarquenenhumapsicologiaindi-
vidualé original e que a medida comum do carsteré a matéria
Llascriaramliteralmenteatisicadasalmas
Apartirdai,asrelaçõeshumanastradicionaistoramtranslor-
madasLssastranslormaçõesprogressivascaracterizamomundo
doterrorracionalemquevive,emditerentesniveis,aLuropa. Ò
dislogo, relaçäoentreaspessoas,loisubstituido pelapropaganda
ou pela polêmica, que säo dois tipos demonologo A abstraçäo,
propriadomundodatorçaedocslculo,substituiuasverdadeiras
paixões,quepertencemaodominiodacarneedoirracional.Òpäo
substituidopelocupomderacionamento,oamoreaamizade,sub-
|ugadosadoutrina,odestino,aoplano,ocastigochamadodenor-
maeacriaçäovivasubstituidapelaproduçäo-tudoissodescre-
vebastantebemestaLuropamacilenta,povoadadelantasmasdo
poder,vitoriososouescravizados. "Comoédesgraçada",bradava
Narx,"estasociedadequenäoconhecemeiodedelesamelhorque
ocarrasco' "NasocarrasconäoeraaindaocarrascoE losoloenäo
aspirava, pelomenos,aElantropiauniversal
Acontradiçäoúltimadamaiorrevoluçäoqueahistoriaconhe-
ceunäoresideinteiramentenolatodeaspirara|ustiçaatravésde
umséquitoininterruptodein|ustiçasedeviolências.Servidäoou
mistiEcaçäoédesgraçacomumatodosostemposSuatragédiaéa
tragédiadoniilismo, elacontunde-secomodramadainteligência
contemporanea que, aspirando ao universal, acumula as mutila-
ções dohomem.Atotalidadenäoéaunidade Ò estado desitio,
mesmoestendidoaoslimitesdo mundo,näo éareconciliaçäo.A
reivindicaçäodaCidadeuniversalnäosemantémnestarevoluçäo
senäore|eitandodoisterçosdomundoeoprodigiosolegadodos
séculos,negando,emlavordahistoria, anaturezaeabeleza, su-
primindonohomemsualorçadepaixäo,dedúvida,detelicidade,
276
O HOMEM REVOLTADO
deinvençäosingular, numapalavra, suagrandeza. Òsprincipios
queoshomensseatribuemacabamtomandoolugardesuasinten-
çõesmaisnobres.Iortorçadecontestações,incessanteslutas,po-
lêmicas,excomunhões,perseguiçõessotridaseintigidas,aCida-
deuniversaldoshomenslivres elraternosderivapoucoapouco,
dandolugaraoúnicouniversoemqueahistoriaeaeE csciapodem
etetivamentesererigidascomo|uizessupremos.ouniversodo|ul-
gamento
Jodareligiäogiraemtornodas noções deinocênciaedecul-
pabilidadeIrometeu,oprimeirorevoltado,recusava, contudo,o
direitodepunirÒproprioZeus,esobretudoZeus,näoésuEcien-
tementeinocentepararecebertaldireito Lmseuprimeiromovi-
mento,arevoltarecusaportantoaocastigo sualegitimidade Nas
emsua última encarnaçäo,aoEmdeuma estalanteviagem,ore-
voltadoretomaoconceitoreligiosodecastigo,colocando-onocen-
trodeseuuniverso.Ò|uizsupremonäoestsmaisnoscéus,eleéa
propriahistoria, que sancionacomo divindadeimplacsvel. À sua
maneira,ahistorianäoémaisqueumlongocastigo,|squeaver-
dadeirarecompensasoserssaboreadanoEmdostemposAparen-
temente,estamoslongedomarxismoedeHegel,muitomaislon-
geainda dos primeiros revoltados Jodo pensamento puramente
historico, entretanto,levaabeira desses abismos. Namedidaem
queNarxpreviaocumprimentoinevitsveldacidadesemclasses,
namedidaemqueestabeleciadessemodoaboavontadedahisto-
ria,todoatrasonamarchaliberadoradeviaserimputadoamsvon-
tadehumanaNarxreintroduziunomundodescristianizadoocri-
meeocastigo,masapenasdiantedahistoria.Òmarxismo,sobum
de seus aspectos, éumadoutrinadeculpabilidadequanto aoho-
memedeinocênciaquantoahistoriaIongedopodet,suatradu-
çäo historicaeraaviolênciarevolucionsria,noaugedopoder, ela
ameaçavatornar-seaviolêncialegal,istoé,oterroreo|ulgamento
Aliss, nouniversoreligiosooverdadeiro|uizo éadiadopara
277
' l
ALBERT CAMUS
maistarde, näoénecess+rioqueocrimese|apunidosemdemora,
ainocênciaconsagrada.Þonovouniverso,pelocontr+rio,o|uizo
dahistoriadeveserpronunciadoimediatamente,poisaculpacoin-
cidecomomalogroeocastigo.Ahistoria|ulgouIukharinporque
ela o lez morrer Lla proclama ainocência de Stalin ele est+ no
augedopoder. Jtoest+eminstanciade|ulgamento,comooeste-
veJrotsky,cu|aculpasoEcouclaraparaoslilosolosdocrimehis-
toriconomomentoemqueomartelodoassassinoabateu-sesobre
ele. Ò mesmovaleparaJito, que näosabemos,segundo nos di-
zem, seéculpadoounäo.Ioidenunciado,masaindanäoloiaba-
tidoQuandolorderrubado,suaculpaser+certaIeresto,aino-
cênciaprovisoriadeJrotskyedeJitoestavaeest+ligadaemgran-
departeageogralia, e¦esestavam¦ongedobraçosecular.Iorisso,
énecess+rio|ulgarsemdemoraaquelesqueessebraçopodealcan-
çar. Ò|uizodeEnitivo dahistoriadependedeumainlinidadede
|uizosquelorempronunciadosdaquiatél+,equeseräoentäocon-
lirmadosouinvalidadosIrometem-se,assim,misteriosasreabili-
taçõesparaodiaemqueotribunaldomundolorconstruidocom
opropriomundoLste,quesedeclaroutraidoredesprezivel,in-
gressar+noIanteäodoshomens.Òoutrolicar+noinlernohistori-
co Nasquemir+|ulgar` Òpropriohomem, consumado emsua
|ovemdivindade.Lnquantoisso,aque¦esqueconceberamaprole-
cia,osúnicos capazesdeleremnahistoriaosentidoqueanteslhe
haviam atribuido, pronunciaräo sentenças, mortais parao culpa-
do,provisoriasapenasparao|uiz. Nasaquelesque|u¦gam,como
Ra|k,podemser|ulgadosporsuavez.Ievemosacreditarqueele
näo interpretava mais a historia corretamente` Þaverdade, sua
derrotaesuamorteocomprovam.Quemgarantequeos|uizesdc
ho|enäo seräo os traidores de amanhä, atirados, do alto de seu
tribunal,paraasmasmorrasdecimentoemqueagonizamosmal-
ditos da historia` A garantia est+ em sua clarividência inlalivc'
Quempodeprov+-la`Seuêxitoperpétuo.Òmundodo|ulgameu-
278
O HOMEM REVOLTADO
toéummundocircularemqueoêxitoeainocênciaautenticam-se
mutuamente,emquetodososespelhosreletemamesmamistili-
caçäo
Haveriaassimumagraçahistorica,''cu|opoderéoúnicoque
consegueinterpretarosseusdesignios,lavorecendoouexcomun-
gandoosúditodoImpério.Iaraprecaver-sedeseuscaprichos,ele
sodispõedalé,pelomenostalcomodelinidanosExercícios esiri­
tuai deSantoIn+cio. "Iranuncanosperdermos,devemossem-
pre estarpreparados paraacreditarque é pretoaquiloqueve|o
comobranco, seaIgre|ahier+rquicaassimodeEne. "Lstalé ativa
nos representantes daverdadepode ser aúnicaa salvar o súdito
dasmisteriosasdevastaçõesdahistoriaLleaindanäoest+livredo
universo do|u¦gamento ao qual est+ ligado, pelo contr+rio, pelo
sentimentohistoricodomedo Nas,semessalé, elecorreorisco
de tornar-se um criminoso ob|etivo, sem nunca tê-lo dese|ado e
comas melhoresintençõesdomundo.
Òuniversodo|ulgamentoculmina,lnalmente, nessanoçäo.
Com ela, o circulo se lecha. Aolimdessalongainsurreiçäo em
nomedainocênciahumana,surge,porumaperversäodoslatos,a
aErmaçäo da culpabilidade geral. Jodo homem é um criminoso
semquesaibadisso.Òcriminosoob|etivoé|ustamenteaqueleque
se|ulgavainocenteLleconsideravaasuaaçäosub|etivamenteino-
lensivaouatémesmolavor+velaotturoda|ustiça.Nasdemons-
tram-lhequeob|etivamenteelapre|udicouesseluturoJrata-sede
umaob|etividadecientiE ca`Þäo, mashistorica. Comosaberseo
luturoda|ustiçaest+comprometido, porexemplo,peladenúncia
levianadeuma|ustiçaatual`Averdadeiraob|etividadeconsistiria
em|ulgaroslatosesuastendênciasdeacordo com osresultados
quepodemserobservadoscientilcamente.Nasanoçäodeculpa-
bilidadeob|etivaprovaqueessacuriosaob|etividadesebaseiauni-
"A"esperteza da razão", no universo histórico, baseia-se no problema do mal.
279
ALBERT CAMUS
camenteemresultadoselatosaosquaissoter+acesso,nominimo,
aciênciadoano2000. £nquantoisso,elaseresumeaumasub|eti-
vidadeintermin+velimpostaaosoutroscomoob|etividade.éade-
Eniçäo E ¦osoE ca do terror £sta ob|etividade näo tem sentidc
delnivel,masopoderlhedar+umconteúdoaodecretarculpado
tudoaquiloquenäoaprova.£leconsentir+emdizerouemdeixar
quesedigaali¦osolosquevivemloradoImpério que, destalor-
ma,eleassumeumriscoaos olhosdahistoriatantoquantoolezo
culpado ob|etivo, mas sem sabê-lo A matéria ser+|ulgada mai
tarde, quandovitima e a¦goz tiverem desaparecido. Jal consolo,
porém,sovaleparaoalgoz,que¡ustamentedelenäotemnecessi-
dade £nquanto isso, os Eéis säo convidados regularmente para
participaremdeestranhaslestas,onde,segundorituaisescrupulo-
sos,vitimascheiasdecontriçäosäoolerecidasemsacrilicioaodeus
historico
Auti¦idadediretadestanoçäoéproibiraindilerençaemmaté-
riadeléÉ aevangelizaçäoobrigatoriaAlei,cu|alunçäoéperse-
guiros suspeitos, labrica-os.Aolabric+-los, elaos converte. Þa
sociedadeburguesa,porexemplo,édadocomosupostoquetodo
cidadäoaprove a ¦ei Þasociedadeob|etiva, ser+dado como su-
postoquetodocidadäoadesaprove. Òu, pelomenos,eledever+
estarsempreprontoparademonstrarquenäoadesaprova.Acul-
pabilidadenäoest+maisnolato,elaresidenasimp¦esausênciade
lé, o que explica aaparentecontradiçäodo sistemaob|etivo. Þo
regimecapitalista,ohomemquesedizneutroéconsiderado,ob|e-
tivamente,lavor+ve¦aoregimeÞoregimedeImpério,ohomem
neutroéconsiderado,ob|etivamente,hostilaoregimeÞadah+de
espantosonisso. SeosúditodoImpérionäoacreditanoImpério,
elenäoénadahistoricamente,porescolhapropria,eleescolhecon-
traahistoria,e¦eéblaslemoÞemmesmoalé conlessadadaboca
paralora é sulciente, é precisovivê-laeagirpara servr-la, estar
sempre alertapara consentir a tempo no lato de que os dogmas
2 80
O HOMEM REVOLTADO
mudam.Aomenorerro,aculpabilidadepotencialtorna-seporsua
vezob|etiva. Ao encerrar suahistoriaa suamaneira,arevoluçäo
näosecontentaemmatarqualquerrevolta£laseobrigaamanter
todohomem,atéo mais servil, respons+vel pelo lato dearevolta
terexistidoeaindaexistir sob o sol Þo universo do|ulgamento,
Enalmenteconquistadoeacabado,umpovodeculpadoscaminha-
r+ sem trégua rumo a inocência impossivel, sob o olhar amargo
dosCrandesInquisidores. ÞoséculoX, opoderétriste.
Aquiterminaosurpreendenteitiner+riodeIrometeu. C¦amando
seuodioaosdeuseseseuamorpelohomem,eled+ascostasaZeus
ecaminhaemdireçäoaosmortais, para¦ev+-losatomaremdeas-
sa¦to o céu Nas os homens säo lracos ou covardes, é preciso
organiz+-¦os.£lesamamoprazerealelicidadeimediata,épreciso
ensin+-losarecusaromeldosdiasparaqueseengrandeçam.Ies-
talorma,Irometeutorna-seporsuavezumsenhor,queprimeiro
ensina e em seguida comanda. A luta prolonga-se, tornando-se
extenuanteÒshomensduvidamdequeväoalcançaracidadedo
soleatémesmode suaexistência. É precisosalv+-los desimes-
mosÒheroilhesdizentäoqueeleconheceacidade,queéoúnico
aconhecê-la.Òsqueduvidamdelaseräolançadosnodeserto,pre-
gadosaumrochedo,olerecidoscomoalimentoaosp+ssaroscruéis
Òs outros, a partir de agora, iräo caminhar nas trevas, atr+s do
senhorpensativoeso¦it+rioIometeu,eapenasele,tornou-sedeus
ereinasobreasolidäo doshomens. Naseleso conquistouasoli-
däoeacrue¦dadedeZeus, elenäo émaisIometeu,é César. Ò
verdadeiro, o eternoIometeu temagoraacaradeuma desuas
vitimas Òmesmogrito,vindodolundodostempos,ressoasem-
prenolundododesertodaCitia
2 8 1
[
L\ÒIJA L
[
L\ÒIIÇ
_
Ò
A revoluçäodosprincipiosmataIeusnapessoadeseurepresen-
tante. A revoluçäo doséculoXX mata o que restade Ieus nos
propriosprincipioseconsagraonu¦ismohistorico Quaisquerqu
se|amemseguidaoscaminhospercorridosporesseniilismo,aparti|
doinstanteemqueelequercriarnosécu¦o,loradequalquerregra
moral,e¦econstroiotemplodeCésarLscolherahistoria,eapena·
ahistoria,éescolheronii¦ismocontraosensinamentosdapropria
revolta.Aquelesque selançamahistoriaemnomedoirraciona|,
bradandoquee¦anäotemnenhumsentido,encontramaservidäo
oterroredesembocamnouniversodoscamposdeconcentraçäo
Aquelesquenelaseatirampregandoasuaracionalidadeabsoluta
encontramservidäoeterroredesembocamnouniversodoscam-
posdeconcentraçäo.Òlascismoquerinstauraroadventodosuper-
homemnietzschianoLlelogodescobrequeIeus,seexiste,éta' -
vez isto ou aquilo, mas é antes de tudo o senhorda morte. Se o
homemquertornar-seIeus,elesearrogaodireitodevidaoud
morte sobre osoutros. Iabricantedecad+veres oudesubomens,
eleproprioésubomem,enäoIeus,masservidorignobildamor-
te.Arevo¦uçäoracionalquerporsuavezrealizarohomemtotald '
NarxAlogicadahistoria,apartirdomomentoemqueéaceita
28 2
O HOMEM REVOLTADO
totalmente,leva-apoucoapouco,contraasuapaixäomaise¦eva-
da,amutilarohomemcadavez mais eatranslormarasimesma
emcrimeob|etivoÞäoé|ustoidentihcarosEnsdolascismocom
osdocomunismorusso.Òprimeirorepresentaaexaltaçäodocar-
rascopelopropriocarrasco.Òsegundo,maisdram+tico,aexaltaçäo
do carrascopelasvitimas. Ò primeiro nunca sonhouemlibertar
todososhomens,masapenasem¦ibertaralgunsesub|ugarosou-
tros Òsegundo,emseuprincipiomaisprotundo,visalibertarto-
dososhomensescravizandotodos,provisoriamenteÉ precisore-
conhecer-lheagrandezadaintençäoNasé¦egitimo,pelocontr+-
rio, identiEcar os seus meios com o cinismo po¦itico que ambos
buscaramnamesmalonte,oniilismomoral.Judosepassoucomo
seosdescendentesdeStirneredeÞechaievutilizassemosdescen-
dentesdeKaliayevedeIoudhon. Atualmente, osniilistasestäo
notrono Òspensamentosquepretendemconduzirnossomundo
emnomedarevoluçäotornaram-senarealidadeideologiasdecon-
sentimento,näo derevolta Lis porque nossotempoé aeradas
técnicasprivadasepúblicasdeaniquilaçäo
Òbedecendoaoniilismo,a revoluçäovoltou-se eletivamente
contrasuasorigensrevoltadas Ò homem queodiavaamorteeo
deusdamorte,quenäotinhamaisesperançanasobrevivênciapes-
soal,quislibertar-senaimortalidadedaespécie.Nas,enquantoo
gruponäodominaromundo,enquantoaespécienäoreinar,ainda
éprecisomorrer.Òtempourge,apersuasäoexigeolazer,aamiza-
de, umaconstruçäosemlim. o terrorcontinua sendo o caminho
maiscurtoparaaimortalidadeNasessasperversõesextremascla-
mamaomesmotempopelanostalgiadovalorprimitivodarevolta
Arevoluçäo contemporanea,quepretendenegartodovalor,|+ é
emsimesmaum|uizodevalor.Atravésdela,ohomemquerreinar.
Nasporquereinar, se nadatemsentido` Iorqueaimortalidade,
sealacedavidaéhorrenda`Þäoh+pensamentoabso¦utamente
niilista,senäotalveznosuicidio,assimcomonäoh+materialismo
28 3
ALBERT CAMUS
absoluto. A destruição do homem afirma ainda o homem. Òterror
e os campos de concentração são os meios extremos que o homem
utiliza para escapar à solidão. A sede de unidade deve efetuar-se,
mesmo na cova comum. Se matam homens, é porque recusam a
condição mortal e querem a imortalidade para todos. Logo, de
certa maneira, eles se matam. Mas provam ao mesmo tempo que
não podem prescindir do homem; eles saciam uma terrível fome
de fraternidade. ''A criatura deve ter uma alegria e, quando não
tem alegria, precisa de uma criatura. " Aqueles que recusam o so­
frimento de existir e de morrer querem então dominar. ''A solidão é
0 poder", diz Sade. Para milhares de solitários hoje o poder por
significar o sofrimento do outro, confessa a necessidade do outro.
Òterror é a homenagem que solitários rancorosos acabam renden­
do à fraternidade dos homens.
Mas se o niilismo não existe, tenta existir, e isto basta para
tornar o mundo deserto. Essa loucura deu ao nosso tempo sua face
repugnante. A terra do humanismo tornou-se esta Europa, terra
desumana. Mas este é o nosso tempo; como renegá-lo? Se nossa
história é nosso inferno, não saberíamos desviar-lhe o rosto. Tal
horror não pode ser escamoteado, ele deve ser assumido para ser
superado, e pelas mesmas pessoas que o vivenciaram de forma �ú­
cida, não por quem, ao provocá-lo, se acha no direito de pronunciar
o juízo. Semelhante planta só conseguiu brotar num espesso húmus
de iniqüidades acumuladas. No extremo de uma luta até a mortt:
em que a loucura do século mistura indistintamente os home�s, o
inimigo continua sendo o inimigo fraterno. Mesmo denunciado
em seus erros, ele não pode ser nem desprezado nem odiado: hoje
a desgraça é a pátria comum, o único reino terrestre que cumpriu a
promessa.
A nostalgia do repouso e da paz deve ser ela própria rej eitada;
ela coincide com a aceitação da iniqüidade. Aqueles que choram
pelas sociedades felizes que encontram na história, confessam o
284
O HOMEM REVOLTADO
que desejam: não o alívio da miséria, mas seu silêncio. Louvado
seja, ao contrário, este tempo em que a miséria clama e retarda o
sono dos saciados! Maistre já falava do "sermão terrível que a re­
volução pregava para os reis". Ela o prega atualmente, e de modo
mais urgente ainda, às elites desonradas desta época. É preciso
esperar por este sermão. Em toda palavra e em todo ato, por mais
criminoso que seja, jaz a promessa de um valor que precisamos
buscar e revelar. Não se pode prever o futuro e é possível que o
renascimento seja impossível. Embora a dialética histórica seja fal­
sa e criminosa, o mundo, afinal, pode realizar-se no crime, seguin­
do uma idéia falsa. Esta espécie de resignação é simplesmente re­
cusada: é preciso apostar no renascimento.
Aliás, nada mais nos resta senão renascer ou morrer. Se estamos
no momento em que a revolta chega à sua contradição mais extre­
ma negando-se a si própria, ela é então obrigada a perecer com o
mundo que suscitou ou encontrar uma fidelidade e um novo arre­
batamento. Antes de ir mais adiante, é preciso ao menos esclarecer
essa contradição. Ela não é bem definida quando se diz, como os
nossos existencialistas, por exemplo (também eles submetidos por
ora ao historicismo e suas contradições ),`que há progresso ao pas­
sar da revolta à revolução, e que o revoltado nada é se não é revolu­
cionário. A contradição, na realidade, é mais restrita. Òrevolucio­
nário é ao mesmo tempo revoltado ou então não é mais revolucio­
nário, mas sim policial e funcionário que se volta contra a revolta.
Mas, se ele é revoltado, acaba por se insurgir contra a revolução.
De tal modo que não há progresso de uma atitude a outra, mas
simultaneidade e contradição sempre crescente. Todo revolucioná­
rio acaba como opressor ou herege. No universo puramente his-
950 existencialismo ateu, pelo menos, tem vontade de criar uma moral. É preciso esperar esta
moral. Mas a verdadeira difculdade será criá-la sem reintroduzir na existência histórica um valor
estranho à história.
28 5
ALBERT CAMUS
toricoqueesco¦heram,revoltaerevoluçäodesembocamnomesmo
dilema. apoliciaoualoucura.
Nestenive¦,ahistoriaporsisonäoolerecenenhumalecundidade
Llanäoélontedevalor,mas aindadeniilismo.Iode-seao menos
criar umvalor contra a historia unicamente no plano da reteäo
eterna` IssoéomesmoqueratiEcarain|ustrçahistoricaeamiséria
dos homens. Ca¦uniar este mundo reconduz ao niilismo deEnido
porÞietzsche.Òpensamentoquesebaseiaapenasnahistoria,como
aquelequesevoltacontratodahrstorra,t dohomemomerooua
razäodeviver.Òprimeiroleva-oaextremadegradaçäodo"porque
viver" , osegundo,ao "comoviver" Ahistorianecess+ria,näosuE-
ciente,näopassaportantodeumacausaocasional.Llanäoéausên-
ciadevalor, nemo propriovalor, nemmesmoomaterialdovalor
Llaéaocasiäo,entreoutras,emqueohomem podeexperimentara
existênciaaindacontsadeumva¦orque¦hepermite|ulgarahisto-
ria.Apropriarevo¦tanoslazessapromessa
A revoluçäo absoluta supunha eletivamente a absoluta
maleabrlidadedanaturezahumana,suareduçäopossivelaoestad
de lorça historica Nas a revolta, no homem, é a recusa de ser
tratado como coisa e de serreduzido a simples historia. Lla é a
alirmaçäodeumanaturezacomumatodososhomens,queescapa
ao mundo do poder Certamente, a historia é um doslimitesd
homem,nestesentidoorevolucion+riotemrazäoNasohomem,
emsuarevo¦ta,co¦ocaporsuavezumlimiteahistoriaÞeste¦imi-
tenasceapromessadeumvalorÉ onascimentodesseva¦orquea
revoluçäocesarianacombateimplacavelmenteho|e, porqueelare-
presentasuaverdadeiraderrotaeaobrrgaçäoderenunciaraseu
principios Lm l 9´0, eprovisoriamente,odestrnodomundonäo
est+sendo decidido, como parece, na¦uta entre aproduçäo bur-
guesaeaproduçäorevolucion+ria, seus lns seräoosmesmos.Ll
sed+entreaslorçasdarevo¦taeasdarevoluçäocesariana.Arevo-
luçäotriunlantedevecomprovar,porsuaspolicias,seustribunaisc
286
O HOMEM REVOLTADO
suasexcomunhões,quenäoh+naturezahumana.Arevoltahumi-
lhada,porsuascontradições,seussolrimentos,suasrenovadasder-
rotas eseu orgulho incans+ve¦,devedaraessanaturezaseu con-
teúdodesolrimentoedeesperança.
"Lu me revolto, logo existimos", dizia o escravo A revolta
metalísicaacrescentava entäo o "estamossos"emque aindavive-
mosatualmente.Nasseestamossos sobocéuvazio, seportantoé
precisomorrerparasempre, como podemosrea¦menteerstir.A
revoltametalisicatentavaentäo realizaro sercomo parecer. Lm
seguida, os pensamentos puramente historicosvieram dizer que
sereraagir Nosnäoéramos,masportodososmeiosdeviamosser
Nossarevoluçäoéumatentativa deconquistarumnovo serpela
açäo,loradequa¦querregramoralÉ porissoqueelaest+conde-
nadaasoviverparaahistoria, enoterror. Òhomem,segundoa
revo¦uçäo, näo é nadasenäo obtém na historia, por bem oupor
mal,oconsentimentounanime.Nestepontopreciso,olimiteéul-
trapassado,arevoltaéinicia¦mentetraidae,emsegurda,logicamente
assassrnada,porsela nuncaderxoudealrmar,emseumovimento
maispuro,aexistênciadeumlimiteeoserdivididoquesomos.ela
näoseachanaorigemdanegaçäototaldetodoserIelocontr+rio,
eladizsimultaneamentesimenäo Llaéarecusadeumaparteda
existência em nome de outra parte que e¦a exalta Quanto mais
prolundaéa exaltaçäo, tanto maisimplac+veléarecusa Lm se-
guida, quando,navertigemenalúria,arevolta passa aotudoou
nada, anegaçäodetodo sere detodanaturezahumana, é neste
pontoquee¦aserenegaSomenteanegaçäototal|ustilcaopro|eto
deumatotalrdadeaserconqurstada.Nasaalrmaçäodeumlrmr-
te,deumadignidadeedeumabelezacomunsatodososhomens
soacarretaanecessidadedeestenderessevaloratodoseatudoe
marcharparaaunidadesemrenegarsuasorigens Þestesentido,a
revolta,emsuaautenticidadeprimeira,näo|ustiEcanenhumpen-
samentopuramentehistorico.Areivindicaçäodarevoltaéauni-
287
ALBERT CAMUS
dade, arervindrcaçäo darevoluçäo hrstorrca, atotalrdade A pri-
meirapartedonäoapoiadoemumsim,asegundapartedanega-
çäoabsoluta,condenando-seatodasasservidõesparatabricarum
simadiadoparaoEmdostempos Imaecriadora,aoutra,nulista
A primeira est+ tadada acriara lim de existir cadavez mais, a
segundaetorçadaaproduzrrparanegarcadavezmelhor.Arevo-
luçäo historica obriga-se aagirsemprenaesperança, incessante-
mentedecepcronada, deumdraexrstrr. Nesmoo consentrmento
unanimenäoser+sulicienteparacriara eistência "Òbedeçam",
diziaIrederico, o Crandeaseussúditos.Nas,aomorrer, disse.
"£stoucansadoderernarsobreescravos "Iaraescapardessedes-
tino absurdo, a revo¦uçäo est+e estar+ condenada a renunciara
seuspropriosprincipios, aoniilismoeaovalorpuramentehistori-
co, paraencontrardenovoatonte criadoradarevolta Arevolu-
çäo,parasercriadora,näopodeseprivardeumaregra,moralou
metalísica, que equilibre o delirio historico Sem dúvida, ela só
temumdesprezo|ustiEcadopelamoraltormalemistilicadoraqu
encontranasociedadeburgaesaNassualoucuratorestenderessc
desprezoatodareivindicaçäomoral. Lmsuaspropriasorigens,L
nosseusimpulsosmaisprotndos,encontra-seumaregraquenäo
etormale que, noentanto, pode servir-lhedeguia. Arevolta,na
verdade, ¦he diz e ir+ dizer-lhe cada vez mais alto que e precis
tentaragir, näo para começar um dia a exrstrr, aos olhos deum
mundoreduzidoaoconsentimento,masemtnçäodessaexistên-
ciaobscuraque¡+semanitestanomovrmentodernsurrerçäo£sta
regra näo e tormal, nemest+su|eita a historia, como poderemos
observaraodescobri-laemestadopuronacriaçäoartisticaAntes,
porem,consrderemosapenasqueao "£umerevolto,logoexisti -
mos", ao "Þos estamos sos" da revolta metatisica, a revolta eu
conllrtocomahistorraacrescentaque,emvezdemataremorr·|
paraproduziroserquenäosomos,temosqueviveredeixarvivc·
paracraroquesomos
288
A arteetambemessemovimentoqueexaltaenegaaomesmotem-
po. "Þenhumartistatoleraoreal", dizÞietzscheÉ verdade, mas
nenhumartista pode prescindirdoreal. Acriaçäoeexigênciade
unidadeerecusadomundo Nas elarecusao mundoporcausa
daquilo quelaltaae¦eeemnomedaquiloque,asvezes, elee A
revo¦tadeixa-se observar aqui, lora dahistoria, em estado puro,
emsuacomplicaçäoprimitivaAartedeveriaportantonosdaruma
últimaperspectivasobreoconteúdodarevolta
Ievemos assinalar, no entanto, a hosti¦idade que todos os
relormadoresrevolucion+riosmostraramemrelaçäoaarteIlatäo
eaindamoderado.Llesoquestionaalunçäomentirosadalingua-
gemesoexi¦adesuarepub¦icaospoetas.Ieresto,elecolocoua
be¦ezaacimadomundoNasomovimentorevo¦ucion+riodostem-
pos modernos coincide com um processo da arte que aindanäo
chegou a seu termo. A Relorma elege a moral e exila a beleza
Rousseaudenuncianaarteumacorrupçäoqueasociedadeacres-
centouanatureza Saint-justinveste contraos espet+culos e, no
beloprogramaquetazparaa"lestadaRazäo",querquearazäo
se|apersonilcadapora¦guem "maisvirtuosodoquebelo" .A Re-
voluçäoIrancesanäodeuorigemaartistas,masapenasaumgrande
|ornalista,Iesmoulins,eaumescritorclandestino,SadeÒúnico
poeta de seu tempo loi guilhotinado Ò únicogrande prosador
exila-seemIondresedelendeacausadocristianismoedalegiti-
291
ALBERT CAMUS
mrdade.Ioucodepors,ossarnt -srmonrstasväoexrgrrumaarte"so-
cialmenteútil" . ': arteparaoprogresso"éumlugar-comumque
percorreutodo oséculo,eque\ictorHugoretomou,semconse-
guirtorns-¦o convincente So \allès traz a maldiçäodaarteum
tomde pragaquelhedsautentrcidade.
£ssetométambémodosniilistasrussos.Isarevproclamaa
decadênciadosvaloresestéticosemlavordosvalorespragmsticos.
"£upreleririaserumsapaterrorussoaumRalaelrusso. "Iraele,
um par de botas é mars útil do que Shakespeare. Ò nrrlista
Þekrassov,grandeecomoventepoeta,aErmaentretantoquepre-
lereumpedaçodequei¡oatodaaobradeIushkin. Fnalmente,
conhecemos a excomunhäo da arte pronuncrada porJolstor. A
Rússra revo¦ucionsria acabou dando as costas as esculturas em
msrmorede\ênus edeApolo,aindadouradas pelo soldaItslia,
queIedro,oCrande,trouxeraparaseu|ardimdeveräo,emSäo
Ietersburgo.
_
svezes,amrsériadesviaorostodasdolorosasrma-
gensdalelicidade.
Aideo¦ogiaalemänäoémenosseveraemsuasacusações.Se-
gundoosrntérpretesrevolucronsriosdaFnomenologia, näohavers
arte na sociedade reconciliada. A beleza sers vivida, näo unica-
mentermaginada.Òreal,rnteiramenteracional,aplacarssozrnho
todas as sedes. A critica da consciêncialormal e dosvalores de
evasäo estende-se naturalmente a arte. A arte näo é de todos os
tempos, elaédeterminada,pelocontrsrio,porsuaépoca, expres-
sando,dirsNarx,osvaloresprivrlegiadosdaclassedominante.So
hsportantoumaúnicaarterevolucionsria,queé|ustamenteaarte
postaaserviçodarevoluçäo.Alémdisso,criandoabeleza,lorada
historia,aartecontrariaoúnico eslorçoracional . atranslormaçäo
dapropriahistoriaembelezaabsoluta. Òsapateirorusso, apartir
domomentoemqueEcaconscientedeseupapelrevolucionsrio,é
overdaderrocrradordabelezadeEnrtrva. Ralaelsocriouumabe-
lezapassageira,quesersincompreensivelparaonovohomem.
292
O HOMEM REVOLTADO
Narxsepergunta,ébemverdade,comoabelezagregaarn-
dapodeserbelapara nos. £lemesmoresponde que essabeleza
expressaainlanciaingênuadomundoe que, em meioanossas
lutasdeadultos, sentrmossaudadesdessainlancia. Nasdeque
lormaasobras-prrmasdoRenascrmento rtalrano, dequelorma
Rembrandt, dequelormaaartechinesapodem ser aindabelos
para nos ` Que importa' Ò |ulgamento da arte ests deEnitiva-
mente comprometido e prossegue ho| e com a cumplrcidade
constrangidadeartistasederntelectuarsdedicadosacalúnrade
suaarteedesuainteligência. Þotemoseletivamenteque, nessa
lutaentreShakespeareeosapateiro,näoéosapateiroquemmal-
dizShakespeareouabeleza,mas,aocontrsrro, aquelequecontr-
nuaalerShakespeareenäoresolvelazerbotas,que,aliss,elenun-
caconseguirialazer.Òsartistasdenossotemposeparecemcomos
Edalgosarrependidos daRússiado século XIX. suaconsciência
pesadaosdesculpa.Nasaúltrmacorsaqueumartrstapodesentir,
drantedesuaarte,éoarrependrmento.Ietenderadiartambéma
belezaatéohni dos tempos éiralémdasimplesenecesssriahu-
mrldade,privandoenquantorssotodomundo,inclusiveosapatei-
ro,dessepäoadicionaldequeelepropriosebeneEciou.
£ssaloucuraascética, contudo, tem razões que nos interes-
sam. £las traduzem no plano estético a luta,|s descrita, entre a
revoluçäo e arevolta. £m todarevolta sedescobrem a exigência
metalisicadaunidade, armpossrbilidadedeapoderar-sedela e a
labricaçäodeumunrversodesubstituiçäo.Arevolta,detalponto
devista,élabricantedeunrversos. Isto tambémdeEneaarte. A
bemdrzer,aexigênciadarevoltaéemparteumaexigêncraestética.
Jodos os pensamentos revoltados, como vrmos, manilestam-se
numaretoricaounumuniversolechado.Aretoricadasmuralhas
emIucrécio,osconventos ecastelostrancaEadosde Sade, arlha
ouorochedoromantico, oscimossolitsriosdeÞretzsche,ooceano
elementardeIautréamont,osparapeitosdeRimbaud,oscastelos
293
ALBERT CAMUS
aterrorizantesdossurrealistasquerenascem, lustigados poruma
tempestadedellores,aprisäo,anaçäoentrincheirada,ocampod
concentraçäo,oimperiodosescravoslivresi¦ustram,asuamanei-
ra,amesmanecessidadedecoerênciaedeunidadeÞestesmun-
doslechados,ohomempodealinalreinareconhecer
LsteetambemomovimentodetodasasartesÒartistarelazo
mundoporsuaconta.Assinloniasdanaturezanäoconhecempauta
Ò mundo nuncaEcacalado.oseuproprio silênciorepeteeterna-
menteasmesmasnotas,segundovibraçõesquenosescapam.Quan�
toasquepercebemos,elasnostrazemsons,raramenteumacordc,
nuncaumamelodiaÞoentanto,existeamúsica,naqualassinlo�
niassäoacabadas,naqualamelodiad+sualormaasonsqueemsi
mesmosnäoatêm,naqualumadisposiçäoprivilegiadadasnotas
extrai,linalmente, dadesordemnaturalumaunidadesatislatoria
paraoespiritoeparaocoraçäo
"Cadavezmaisacredito", escreve \an Cogh,"queIeus näo
pode ser|ulgado neste mundo É um estudo mal-acabado de¦e. "
Jodoartistatentarelazeresseestudo,dando-lheoestiloquelhelal-
taAmaioremaisambiciosadetodasasartes,aescu¦tura,empenha�
seemharnastrêsdimensõesaEguralugazdohomem,emrestau�
raraunidadedograndeestiloadesordem dosgestos Aescultura
näo re|eitaasemelhança, daqual, a¦i+s, e¦a temnecessidade. Nas
näoabuscainicialmente.Òqueprocura,emsuasepocasdegrande-
za,eogesto,osemblanteouoolharvazioqueiräoresumirtodosos
gestosetodososolharesdomundoSeupropositonäoeimitat,mas
estilizarecapturaremumaexpressäosigniEcativaoêxtasepassagei-
rodoscorposouoredemoinhoinEnitodasatitudesSomenteentäo
elaerige, no lrontäo das cidades tumultuadas,o modelo, o tipo, a
perleiçäoimove¦ queir+mitigar, porummomento,aintermin+ve¦
lebredoshomens.Òamantelrustradopeloamorpoder+hnalmente
contemp¦ar as cari+tides gregas para apoderar-se daquilo que, no
corpoenorostodamu¦her,sobreviveadegradaçäo.
294
O HOMEM REVOLTADO
Ò principio da pintura acha-setambem, numa escolha. "Ò
propriogênio", escreveIelacroix,"retetindosobreasuaarte,näo
emaisqueodomdegeneralizaredeescolher. "Òpintorisolaseu
tema,primeiralormadeunihc+-lo.Aspaisagenslogem,desapare-
cemdamemoriaoudestroem-seumasasoutras.Iorisso,opaisa-
gistaouopintordenaturezas-mortasisolanoespaçoenotempo
aqui¦oquenormalmentemudacomaluz,perde-senumaperspec-
tivainEnitaoudesaparecesoboimpactodeoutrosvalores.Òpri-
meiroato do paisagista e emoldurarsua tela Lle tanto elimina
quantoelege.Iomesmo modo, apinturatem+ticaiselatantono
tempoquantonoespaçoaaçäoquenormalmenteseperdeemou-
traaçäo Òpintorprocedeentäoaumalixaçäo Òsgrandescria-
doressäoaquelesque,comoIerodellaIrancesca,däoaimpres-
säodequeessaExaçäoacabadeserleita,queopro|etoracabade
parar Jodos os seus personagens däo a impressäo de que, pelo
milagre daarte,continuamvivos, deixando entretanto deserem
mortais Nuitotempo apos suamorte, o lilosolo deRembrandt
continuaameditar, entreasombraealuz,sobreamesmaquestäo
"\äeapinturaquenosagradapelasemelhançacomob|etos
quenäoconseguiriamnosagradar. "Ielacroix,quecitaacelebre
observaçäodeIascal,escreveapropriadamente"estranha", emvez
de "vä" Lssesob|etosnäoconseguiriam nos agradar,poisnäoos
vemos .elessäoencerradosenegadosnumperpetuodevir Quem
olhava para asmäosdo carrasco durantea llagelaçäoouparaas
o¦iveiras nocaminhodaCruz. Nas ei-los representados, cativos
nomovimentoincessantedaIaixäo, eadordo Cristo, capturada
ness+simagensdeviolênciaedebeleza,ressoacotidianamentenas
salaslriasdosmuseus.Òesti¦odeumpintorresidenessacon|un-
çäodanaturezacomahistoria,nessapresençaimpostaaoquecon-
tinuamentedevem.Aarterealiza,semeslorçoaparente,areconci-
liaçäosonhadaporHegeldosingularcomouniversalSer+essaa
razäo pe¦aqua¦ as epocas sedentas deunidade, como a nossa, se
295
ALBERT CAMUS
v't.mparaasartesprimitivas,emqueaestilizaçäoémaisintensa
e...idademaisprovocante`Lncontra-sesempremaioresti¦izaçäo
n|a.cioenoEmdasépocasartisticas,e¦aexplicaalorçadenega-
ç.·detransposiçäoqueprovocouemtodaapinturamodernaum
a.·:bodesordenadonadireçäodoseredaunidade. Ò lamento
a.a.t+velde\anCoghéogritoorgulhosoedesesperadodetodos
o·.·.istas. "Jantonavidaquantonapintura, posso eletivamente
p·.·.t-me deIeus. Nas näo consigo, eu, solredorque sou, me
p·.·.tdealgoqueémaiordoqueeu,queéaminhavida,opoder
d·.·.ar. "
\as arevoltadoartista contrao real, eelatorna-se suspeita
p...a revoluçäototalit+ria,contémamesmaaErmaçäo queare-
v't.espontaneadooprimido. Ò espiritorevo¦ucion+rio, nascido
d..·gaçäototal,sentiuinstintivamentequehaviatambémnaarte,
a':adarecusa,umconsentimento,queacontemplaçäoarriscava-
s·.·quilibraraaçäo,abeleza,ain|ustiça,eque,emcertoscasos,a
b·'·c+eraemsimesmaumain|ustiçasemrecurso.Iamesmalor-
u.,.enhuma arte podeviver da recusa total. Assim como todo
p·a·.mento,acomeçarpelodanäo-signiEcaçäo,signiE ca,näoh+
ig..menteartedonäo-sentido. Òhomempodepermitir-seade-
n...adain|ustiçatotaldomundoereivindicaruma|ustiçatotal
q.··'eser+oúnicoacriarNaselenäopodeahrmaraleiúratotal
d.ando.Iaracriarabe¦eza,eledeveaomesmotemporecusaro
r·.'·exaltaralguns deseusaspectos.Aartecontestao real, mas
n¯·e esquiva dele. Þietzsche podia recusarqualquertranscen-
dência, moraloudivina,dizendoqueessatranscendência consti-
t...ama calúnia ao mundo e a vida. Nas talvez ha| a uma
tt..·;endênciaviva, prometida pela be¦eza, que podelazer com
q.··ssemundomorale¦imitado se|aamado epreleridoa qual-
q.··eutro.Aartenosconduzir+dessamaneiraas origensdare-
v.t.,namedidaemquetentadarlormaaumvalorqueserelugia
n:·vir perpétuo mas que o artista pressentee querarrebatara
296
O HOMEM REVOLTADO
historia. Iicaremos mais bem persuadidos disso sepassarmosa
reletirsobreartequesepropõe,precisamente, a entrarnodevir
paraprovê-lodoestiloquelhelalta.oromance.
Romance e Revola
É possivelsepararaliteraturadeconsentimento,que coincideem
gera¦comosséculosantigoseossécu¦osc¦+ssicos,daliteraturade
dissidência,quecomeçacomostemposmodernos.Òbserva-seen-
täoaescassezdoromancenaprimeira Quando ele existe, salvo
rarasexceções,näodizrespeitoahistoriamasalantasia(Teágenes e
Caricléia, ouAstraia ). Säonove¦as,näoromances. Þasegunda, ao
contr+rio,desenvolve-serealmenteoromance,umgêneroquenäo
paroudeenriquecer-seeampliaraténossosdias,parale¦amenteao
movimento criticoerevolucion+rio. Ò romance nasce ao mesmo
tempoqueoespiritoderevo¦ta,etraduz,noplanoestético,ames-
maambiçäo.
"HistoriaEngida,escritaemprosa" ,dizIittrésobreoroman-
ce É soisso` Imcriticocato¦ico'° escreveu entretanto. "A arte,
qualquerque se|ao seu ob|etivo, laz sempre uma concorrência
culpadaaIeus." É maiscorretoeletivamentela¦ardeumacon-
corrênciaaIeus,apropositodoromance,doquedeumaconcor-
rênciaaoestadocivilJhibaudetexpressavaumaidéiasemelhante,
quandodiziaapropositodeIalzac. "A comédia humana éaImita­
ção deIeuspai." Ò eslorço da grande¦iteraturaparecesercriar
96Stanislas Fumet.
297
ALBERT CAMUS
universoslechadosoutiposacabados. ÒÒcidente,emsuasgran-
des criações, näo se ¦imita a reproduzir avida cotidiana. Lle se
propõe,semcessar,grandesimagensqueoexcitamelança-seasua
procura.
AEnal,escreveroulerumromancesäoaçõesinsolitas.Cons-
truirumahistoriaatravésdeumnovoarran|odelatosverdadeiro
näotemnadadeinevit+velnemdenecess+rio.Seatémesmoaex-
plicaçäobanal -pe¦oprazerdocriadoredo¦eitor -losseverda-
deira,deveriamosnosperguntarqualnecessrdadelazamaiorpar-
tedoshomenssentirprazereseinteressarporhistoriasinventadas.
Acriticarevolucion+riacondenaoromancepurocomoaevasäode
umaimaginaçäoociosa.Iorsuavez, alinguagemcomumchama
de"romanescas"orelatomentirosodo|ornalistain+bil.H+a¦guns
¦ustroseracomumdizer,inaceitavelmente,queasmoçaseram"ro-
mances". Lntendia-secomissoqueessascriaturasideaisnäoleva-
vamemcontaasrealidadesdaexistência.Iemodogeral, sempre
se considerou que o romanesco se separava da vida, e que a
embelezavaaomesmotempoqueatraia.Amaneiramarssimplese
banal deencararaexpressäoromanescaconsisteportantoemver
nissoumexerciciodeevasäo.Òsensocomumune-seacriticare-
volucion+ria.
Nasdoqueseprocuralugirpeloromance`Ieumarealida-
de|ulgadapordemais esmagadora` As pessoas lelizes também
¦êemromances,eéumlatoconstatadoqueoextremosolrimento
tira o gosto pela leitura. Ior outro lado, o universo romanesco
temcertamentemenospesoepresençadoqueesteoutrouniver-
so, onde seres decarnee ossonos assediamsemparar. Iorque
mistério, entretanto, Adolphe nos pareceum personagem bem
maislami¦iarqueIen| aminConstant,eocondeNoscaquenos-
sosmoralistasproEssionais` Ialzacconcluiuumdiaumalonga
conversa sobre a politica e o destino do mundo, dizendo. "L,
agora,lalemosdecoisassérias",relerindo-seaseusromances. Ò
298
O HOMEM REVOLTADO
gostope¦aevasäonäobastaparaexplicaragravidadeindrscutivel
domundoromanesco,nossaobstinaçäoemlevarrea¦menteasé-
rioos incont+veis mitosque o gênio romanesco nos propõeh+
doisséculos.Aatividaderomanescasupõecertamenteumaespé-
ciederecusadoreal, mas estarecusanäo é umasimp¦esluga
Ieve-se ver nisso o movimento de retirada da bela alma que,
segundo Hegel, criaparasipropria, emsuailusäo, um mundo
lacticioemquesoamoralreina`ÒromanceediEcante,contudo,
acha-se bastantelongedagrande¦iteratura, eo melhor dosro-
mances +gua-com-açúcar, Paulo C Virgínia, obranaverdadean-
gustiante, nadaolereceatitulodeconsolo
Acontradiçäoéaseguinte. ohomemrecusao mundocomo
eleé,semdese|artgirdeleNaverdade,oshomensagarram-seao
mundoe,emsuaimensamaioria, näoqueremdeix+-lo Iongede
dese|arrealmente esquecê-lo, e¦es solrem, ao contr+rio, por näo
possui-losuEcientemente, estranhos cidadäosdomundo, exilados
emsuapropriap+tria.Anäosernosinstantest·lgurantesdap¦eni-
tude,todarealrdadeéparaelesrncompleta.Seusatoslhesescapam
sobalormadeoutrosatos,voltampara|u¦g+-lossobaspectosines-
peradosecorrem,comoa+guadeJantalo,paraumaembocadura
aindadesconhecida.Conheceraembocadura, dominarocursodo
rio,entenderenEmavidacomodestino,eissuaverdadeiranostal-
gia,nomaisprolundodesuap+tria.Nasessavisäoque,pelome-
nos noconhecimento,osreconciliariaenEmconsigomesmos, so
podeaparecer, seéqueaparece,nomomentolugazdamorte, em
quetudoseconsumaIaraexistirnomundo,porumavez,épreci-
sonuncamarsexistir.
Nasceaquiessadesgraçadainve|aquetantos homenssentem
davidadosoutros. Ò¦hadasdelora,emprestam-seaessasexistên-
ciasumacoerênciaeumaunidadequeelasestäolongedeter,mas
queparecemevidentesaoobservadorLlesovêocontornodessas
vidas,semtomarconsciênciadosdetalhesqueascorroem.Lntäo,
299
ALBERT CAMUS
dotamosdeartetaisexistências.Iemaneiraelementar, nosasro-
manceamos Þestesentido,cadajualprocuralazer de suavida
umaobrade arte Iese|amosqueoamordureesabemosqueelc
näodura, seate mesmo, pormilagre, ele tivessejue durartoda
umavida,estariaaindaincompleto.Jalvez,nestainsaci+velneces-
sidadededurar,compreenderiamosmelhorosolrimentoterrestre,
seo soubessemos eterno Irecejueasgrandes almas, as vezes,
licammenosapavoradascomo solrimentodoquecomo latode
elenäodurar Þalaltadeumalelicidadeinesgot+vel, umlongo
solrimentoconstituiriaao menosumdestino Nasnäoeassim,e
nossaspiorestorturasumdiachegaräoaolm. Certamanhä,apos
tantodesespero,umairreprimivelvontadedevivervainosanunciar
juetudo acabouequeo solrimentonäotemmais sentido que a
lelicidade.
Òdese|odepossenäoemaisjueumaoutralormadodese|o
dedurar,eelejueconstituiodelirioimpotentedoamorÞenhum
sernemmesmoomaisamado,equenosamacommaiorpaixäo,
|amaisucaemnossopoder. Þaterracruelemqueosamantesas
vezesmorremseparadosenascemsempredivididos,apossetotal
deumser,acomunhäoabsolutaportodaumavidaeumaexigên-
ciaimpossivel. Òdese|odeposse eatalpontoinsaci+velque ele
podesobreviveraoproprioamorAmar,entäo,eesterilizarapes-
soaamadaÒvergonhososolrimentodoamante,apartirdeagora
solit+rio,näoetanto denäo sermais amado, mas desaberqueo
outropodeedeveamarainda £múltimainstancia,todohomem
devorado pelodese|oalucinadode durare depossuirdese|aaos
seresqueamouaesterilidadeouamorte.£staeaverdadeirare-
voltaAquelesjuenäoexigiram,pelomenosumavez,avirginda-
deabsolutadosseresedomundo,juenäotremeramdenostalgia
edeimpotênciadiantedesuaimpossibilidade,aquelesque,entäo,
perpetuamenteremetidosasuanostalgiapeloabsoluto,näosedes-
truiram ao tentaramarpela metade, näo podemcompreendera
300
O HOMEM REVOLTADO
realidadedarevoltaeseulurordedestruiçäo.Nasosseresesca-
pamsempreenoslhesescapamostambem,elesnäotêmcontornos
bem-delineados.Avida,destepontodevista,esemestilo£lanäo
esenäoummovimentoembuscadesualormasemnuncaencontr+-
la. Ò homem,assimdilacerado, persegueemväoessalormaque
lhe daria os limites entre os quais ele seria soberano Que uma
únicacoisavivatenhasualormanestemundo,eeleestar+reconci-
liado'
Þäoh+,enlim,juemjuerque,apartirdeumnivelelementar
deconsciência,näoseesgotebuscandoaslormulasouasatitudes
que dariam a suaeistência a unidade que lhe lalta. Iarecer ou
lazer, odandiouorevolucion+rioexigemaunidade,paraexistir, e
paraexistirnestemundoComonessespateticosemiser+veisrela-
cionamentos que sobrevivem as vezes por muito tempo, porque
umdosparceirosesperaencontrarapalavra,ogestoouasituaçäo
juelaräodesuaaventuraumahistoriaterminada,elormulada,no
tomcerto,cadaumcriaparasiesepropõeaúltimapalavra Þäo
bastaviver,eprecisoumdestino,esemesperarpelamorteÉ ¡usto
portantodizerqueohomemtemaideiadeummundomelhordo
queeste.Nasmelhornäoquerdizerdilerente,melhorquerdizer
unilcado.£stapaixäoqueergueocoraçäoacimadomundodis-
perso,dojualnoentantonäopodesedesprender, eapaixäopela
unidade Llanäo desemboca numaevasäomediocre, masnarei-
vindicaçäomaisobstinada.Religiäooucrime,todoeslorçohuma-
no obedece, lnalmente, aesse dese|oirracionale pretendedara
vida a lorma que ela näo tem. Ò mesmo movimento, que pode
levar a adoraçäo do ceu ou a destruiçäo do homem, conduz da
mesmalormaacriaçäoromanesca,quedelerecebe,entäo,suase-
riedade
Que e o romance, com eleito, senäo esseuniverso emquea
açäoencontrasualorma,emqueaspalavraslnaissäopronuncia-
das,osseresentreguesaosseres,emjuetodavidapassaateracara
30 1
ALBERT CAMUS
dodestino`'Òmundoromanesconäoemaisqueacorreçäodeste
nossomundo,segundoodestinoprolundodohomemIoistrata-
se eletivamente do mesmo mundo. Ò solrimento e o mesmo, a
mentiraeoamor,osmesmosÒsheroisla¦amanossalinguagem,
têmasnossaslraquezaseasnossaslorças Seuunrversonäoemars
belonemmaisediEcantequeonossoNaseles,pe¦omenos,per-
seguem ate o tm o seu destino, e nunca houve herois täo
perturbadoresquantoosquechegamaosextremosdesuapaixäo,
Kiri¦oveStavroguin,NmeCras¦in,] ulienSorelouoprincipede
Clèves É aquiqueperdemossuamedida,poiselesterminamaquilo
quenosnuncaconsumamos
NmedeIaIayettetirouaPrincesa de Cleves damarspalpitan-
tedasexperiências LlaesemdúvidaNmedeC¦èves,enoentanto
näo o e Ònde est+ a dilerença` A dilerença e que Nme deIa
Iayettenäoentrouparaoconventoeninguemasuavoltamorreu
dedesesperoNinguemduvidaqueelatenhaaomenosconhecido
osmomentosdilacerantesdesseamorsemigualNasnäohouve
pontoE nal,elasobrevrveuaele,elaprolongou-oaoderxardevrvê-
lo, e Enalmente ninguem, nemelapropria, teriaconhecidoo seu
desenho,seelanäolhetivessedadoacurvanuadeumalinguagem
semdeleitos Jambemnäoh+historiamaisromanescaemaisbela
doqueadeSophieJonskaedeCasimirnasPlêiades, deCobineau
Sophie,mulhersensivelebela,quelazcompreenderaconEssäode
Stendhal."Soasmulheresdegrandecar+terpodemmelazerle-
liz", obrrga Casimrr a conlessar-lhe seu amor Habrtuada a ser
amada, e¦aimpacienta-se diante daque¦e queavêtodos os dias
sem, no entanto, nunca abandonarumacalmairritante Casimir
conlessaseuamormasnumtomdearrazoado|uridico L¦eaestu-
dou, conhece-atantoquantoasimesmo,est+segurodequeeste
`' Ainda quando o romance só exprima a nostalgia, o desespero, o inacabado, não deixa de criar, a
forma e a salvação. Dar nome ao desespero é superá-lo. A literatura desesperada é uma contradi­
ção em termos.
302
O HOMEM REVOLTADO
amor,semoqualnäoconseguevive;näotemluturoIecidiupor-
tantomanilestar-lheaomesmotempoesseamoresuainuti¦idade,
doar-¦heasualortuna-elaerica,ogestonäotemmaiorconse-
qüência -,encarregando-adelornecer-lheumamodestapensäo
quelhepermitarnstalar-se nosubúrbrodeumacrdadeescolhida
aoacaso¸\ilna),ealiesperarpelamorte,napobrezaCasimirre-
conhece, deresto, que aideiade receberdeSophie o necess+rio
¡araviverrepresentaumaconcessäoalraquezahumana, aúnica
queelesepermitir+,comoenvio,vezporoutra,deumap+ginaem
lrancodentro deumenve¦ope, no qua¦ eleescrever+ o nome de
SophreIepoisdemostrar-seindignada,emseguida,transtorna-
dae,porEm,melancolica, Sophieir+aceitar,tudosedesenroIar+
comoCasimirpreviraLlevaimorrer,em\ilna,desuatristepai-
xäo. Ò romanesco tem assimsua logica Imabe¦a historia näo
lunciona sem essa continuidade imperturb+vel quenunca existe
nassituaçõesvividas,masqueseencontranodevaneio,apartirda
realidadeSeCobineautivesseidoa\ilna,teriaEcadoentediadoe
teriaretonado,outerialcadoapenasporcomodismo.NasCasimrr
näoconheceavontadedemudareasmanhäsdecuraL¦evaiateo
tim,como¡eathc¦ill, que dese|ar+superara propria morte para
chegaraoinlerno
Lisportantoummundoimagin+rio,poremcriadopelacorre-
çäodestemundoreal,ummundonoqualosolrimento,sequiser,
podedurarateamorte,noqualaspaLõesnuncasäodrstraidas,no
qualosseresEcamentreguesaideiaExaeestäosemprepresentes
uns paraos outros Þele o homem Enalmente d+ a siproprio a
lormaeolimite tranqüilizador quebuscaemväo na suacontin-
gência ÒromancelabricaodestinosobmedidaAssimequee¦e
lazconcorrênciaacriaçäoeprovisoriamentevenceamorte. Ima
an+¦isedeta¦hadadosromancesmaiscelebresmostraria,empers-
¡ectrvas drlerentes acadavez, quea essênciado romanceresrde
nessa perpetua correçäo, semprevoltada parao mesmo sentido,
303
ALBERT CAMUS
queo artista eletua sobre suapropriaexperiência Ionge de ser
mora¦oupuramentelormal,essacorreçäovisaprimeiroaunidade
etraduzporaiumanecessidademetalisicaNesteniveloromance
eantesdetudoumexerciciodainteligênciaaserviçodeumasen-
sibilidadenost+lgicaourevoltadaIoder-se-iaestudaressabusca
daunidadenoromancelrancêsdean+¦iseeemNelville,Ialzac,
IostoievskiouJo¦stoiNasumbreveconlrontoentreduastenta-
tivasquesesituamnosextremosopostosdomundoromanesco,a
criaçäoproustianaeoromanceamericanodestesúltimosanos,ser+
suEcienteparaosnossospropositos
Òromanceamericano'`pretendeencontrarsuaunidaderedu-
zindoo homemqueraoelementar, queras suas reações eaoseu
comportamento L¦enäo esco¦heumsentimento ouumapaixäo,
dosquaisnosdar+umaimagemprivilegiada,comoemnossosro-
mancescl+ssicosLlerecusaaan+lise,abuscadeumamotivaçäo
psico¦ogica lundamentalque explicariaeresumiriaacondutade
umpersonagemIorisso,aunidadedesseromancenäoemaisque
umvislumbre de unidade Suatecnica consiste em descrever os
homensporseuaspectoexterno,nosseusgestosmaisindilerentes,
emreproduzirsemcoment+riososeudiscurso,ateemsuasrepeti-
ções,¯'consiste,aEna¦,emagircomoseoshomenslossemdeEni-
dos inteiramente por seus automatismos cotidianos Neste nivel
mecanico,naverdade,oshomensseparecem,eplicando-se,desta
lorma, o curiosouniversoemquetodosospersonagensparecem
intercambi+veis,mesmoemsuasparticularidadeshsicasLstatec-
nicasoechamadaderealistaporummal-entendidoA¦emdolato
deorealismonaarte,comoveremos,serumanoçäoin com preensi-
vel, Ecabastante evidenteque estemundoromanesco näovisaa
98Trata-se, naturalmente, do romance "duro" dos anos 30 e 40, e não do admirável florescimento
do romance americano do século XIX.
99Mesmo em Faulkner, grande escritor desta geração, o monólogo interior só reproduz a superfí­
cie do pensamento.
304
O HOMEM REVOLTADO
reproduçäopuraesimp¦esdarealidade,massimasuaestilizaçäo
mais arbitr+ria Llenasce deumamutilaçäo, edeumamutilaçäo
volunt+ria, eletuadasobre o real A unidadeassim obtida euma
unidadedegradada,umnive¦amentodosseresedomundoIarece
que, para esses romancistas, e avidainterior que priva as ações
humanasdaunidadeearrebataosseresunsaosoutrosLstasus-
peitaeempartelegitimaNasarevolta,queest+naorigemdessa
arte,sopodeencontrarsuasatislaçäolabricandoaunidadeapartir
dessarealidadeinterior,näoaoneg+-la Neg+-¦atotalmenteerele-
rir-seaumhomemimagin+rioÒromancedeterroretambemum
romance+gua-com-açúcardoqualtemalacilidadelormal Llee
ediEcanteasuamaneira
!J0
Avidadoscorpos,reduzidaasimes-
ma,produz,paradoxalmente,umuniversoabstratoegratuito,cons-
tantementenegadoporsuavezpelarealidadeLsteromance,de-
puradodevidainterior, emqueoshomensparecemserobserva-
dosatravesdeumavidraça,aoatribuir-se comotemaúnicooho-
memsupostamentemedio,acabalogicamentecolocandoemcena
o patologico Lxplica-se, dessalorma, onúmeroconsider+vel de
"inocentes"utilizadosnesseuniverso Òinocenteeoassuntoideal
deumempreendimentocomoeste,|+quesoedeEnido,porintei-
ro,porseucomportamentoLleeosimbo¦odestemundodesespe-
rado,emqueautêmatosinlelizesvivemnacoerênciamaismecani-
ca,queosromancistasamericanoserigiram,diantedomundomo-
derno,comoumprotestopatetico,masesteril
Quanto aIroust, seu eslorço loi criar, apartirdarea¦idade,
contemplada comobstinaçäo,ummundolechado, insubstituivel,
quesopertencesseae¦eemarcassesuavitoriasobreatransitorie-
dadedas coisas e sobre a morte. Nas os seus meios säo opostos
Consistemacimadetudonumaescolhaharmoniosa,umameticu-
1''Bernardin de Saint-Pierre e o marquês de Sade, com símbolos diferentes, são os criadores do
romance de propaganda.
305
ALBERT CAMUS
losacoleçäodemomentosprivilegiadosqueoromancistavaiesco-
lher nomaisrecêndito de seu passado Imensos espaços mortos
säoassimre|eitadospelavida,porquenadadeixaramnalembran-
ça.Seomundodoromanceamericanoeodoshomenssemmemo-
ria,omundodeIroustnäoeemsimesmomaisqueumamemoria.
Jrata-se,apenas,damaisdiliciledamaisexigentedasmemorias,a
que recusa a dispersäo do mundo como ele e, e que tira deum
pert.me redescoberto o segredo de um novo e antigo universo
Iroustescolheavidainteriore,nesta,aquiloqueemaisinteriordo
queelapropria,emlugardaquiloquenorealseesquece,ouse|a,o
mecanico, o mundo cego. Nas dessa recusa do rea¦ ele näo laz
derivaranegaçäodorealLlenäocometeoerro, simetricoaodo
romance americano,desuprimiroqueemecanicoReúneaocon-
tr+rioemumaunidadesuperioralembrançaperdidaeasensaçäo
presente,opetorcidoeosdiaslelizesdeoutrora
É dilicilvoltaraoslocaisdalelicidadeeda| uventude.Asmo-
çasemtorriemetagarelameternamentediantedomar,masaque-
le que as contempla perde pouco a pouco o direito de am+-las,
assim como as queeleamouperdem o poderde serem amadas
Lstae amelancoliadeIroust Llaloi suhcientementelorte nele
para provocar uma recusaveemente detodo o ser. Nas o gosto
pelosrostosepelaluzprendiam-noaomesmo tempoaestemun-
do Lle näo aceitou que as lerias lelizes lìcassem perdidas para
sempre.Lleassumiuatareladerecri+-lasdenovo,demonstrando,
contraamorte,queopassadoseriareencontradonoEnaldostem-
pos,sobalormadeumpresenteimorredouro, maisverdadeiroe
maisricodoquenaorigemAan+lisepsicologicadoTempo perdido
nadamaisedo queum meiopoderoso.Averdadeiragrandezade
Iroustloiterescrito o Tempo reencontrado, quereúneummundo
disperso, dando-¦he uma signilcaçäo ao proprio nivel do
dilaceramento. Suadilicilvitoria,navesperadamorte,loiterpo-
didoextrairdatransitoriedadedas lormas, unicamentepelosca-
306
O HOMEM REVOLTADO
minhos dalembrançae dainteligência, os simbolosvibrantes da
unidadehumana. ÒdesaEomaisseguroqueumaobradestetipo
pode lazer à criaçäo e apresentar-se como um todo, um mundo
lechadoeuniEcado.Istodehneasobrassemarrependimentos
]+sedissequeomundodeIrousteraummundosemdeusSe
istolorverdade,näoeporqueelenuncalalaemIeus,masporque
estemundotemaambiçäodeserumaperleiçäocompletaededar
à eternidade o semblante do homem Ò Tempo reencontrado, pelo
menosemsuaambiçäo,eaeternidadesemdeusAobradeIroust,
aesserespeito,surgecomoumdosempreendimentosmaisambi-
ciososemaissignihcativosdohomemdiantedesuacondiçäomor-
tal Lledemonstrouqueaartedoromancerelazapropriacriaçäo,
talcomoelanoseimpostaetalcomoerecusada.Ielomenossob
um de seus aspectos, estaarte consiste em prelerir acriaturaao
criador.Noentanto,com maiorperspic+cia,elaalia-seàbelezado
mundo oudos seres humanoscontraas lorçasdamorte e do es-
quecimento.É destalormaquesuarevoltaecriadora.
Rvola e Estilo
Ielotratamentoqueoartistaimpõearealidade,eleaErmasualor-
çaderecusa.Nasoqueelepreservadarealidadenouniversoque
criarevelaaaceitaçäodepelomenosumapartedoreal,queeletira
dassombrasdodevirparaconduzi-loàluzdacriaçäoLmúltima
instancia,searecusalortotal,arealidadeebanidanoseutodo, e
obtemosobraspuramentelormais.Sepelocontr+riooartista,por
motivoslreqüentementeestranhosaarte,decideexaltararealida-
3 07
ALBERT CAMUS
denuaecrua,temosorealismo. Noprimeirocaso,omovimento
primitivodecriaçäo,emquerevoltaeconsentimento,alirmaçäoe
negaçäoestäoestreitamenteligados,emutiladoexclusivamenteem
benelciodarecusa.Jrata-seentäodaevasäolormaldequenosso
tempodeutantos exemplosenaqualsevêaorigem niilista. No
segundocaso,o artistapretendedaraomundosuaunidadereti-
rando-lhequalquerperspectivaprivilegiada.Nestesentido,elecon-
lessasuanecessidadedeunidade,mesmoquedegradada.Nasele
renunciatambem a exigência primeira dacriaçäoartistica. Iara
melhornegararelativaliberdadedaconsciênciacriadora,eleahr-
maatotalidadeimediatadomundo. Ò ato decriaçäonega-seasi
proprioemambosostiposdeobras.Þaorigem,elerecusavaape-
nasumaspectodarealidade ao mesmotempoemquealirmava
outro.Seelevierare| eitartodaarealidadeouapenasalirm+-la,ele
serenegaacadavez,pelanegaçäoabsolutaoupelaaErmaçäoab-
soluta. Noplanoestetico, estaan+lise, comovemos, une-se aque
haviamosesboçadonoplanohistorico.
Nas,damesmalormaquenäoh+niilismoquenäoacabeim-
plicandoumvalor,nemmaterialismoque,autoconcebido,näoacabe
secontradizendo, aartelormaleaarterealistasäo noções absur-
das.Þenhumaarte poderecusardemodo absolutooreal. ANe-
dusasemdúvidaeumacriaturapuramenteimagin+ria,seurostoe
asserpentesqueacoroamlazempartedanatureza. Òlormalismo
podechegaraesvaziar-secadavezmaisdeconteúdoreal,mash+
sempre umlimite. Ate mesmo ageometriapura, a que chega as
vezesapinturaabstrata,exigeaindadomundoexteriorsuacore
suasrelaçõesdeperspectiva. Òverdadeirolormalismoesilêncio.
Iomesmomodo,orealismonäopodeprescindirdeumminimo
de interpretaçäo e dearbitrio. A melhor das lotograEas|+ trai o
real, elanasce deumaescolhaed+umlimiteaquiloquenäotem
limite.Òartistarealistaeoartistalormalbuscamaunidadeonde
ela näo existe, no real emestadobrutoounacriaçäo imagin+ria
308
O HOMEM REVOLTADO
queacreditaexpulsartoda e qualquerrealidade.Aocontr+rio, a
unidadeemartesurgenoEmdatranslormaçäoqueoartistaim-
põeao real. Llanäopodeprescindirnemdeumanemdaoutra.
Lssa correçäo,
! ¤ ¹
que o artistarealiza com sualinguageme por
meiodeumaredistribuiçäodeelementostiradosdoreal,chama-se
estilo e d+ ao universo recriado sua unidade e seus limites. Lm
todorevoltado,elavisa,eoconseguenocasodealgunsgênios,dar
aomundosualei."Òspoetassäooslegisladoresnäo-reconhecidos
domundo", dizShelley.
Iorsuas origens, aarte do romancenäo consegue deixarde
ilustrarestavocaçäo Llanäopodeaceitartotalmenteoreal,nem
delealastar-sedemodoabsoluto.Òimagin+riopuronäoexistee,
ainda que existisse numromance ideal que losse puramente
desencarnado,elenäoteriasignilicaçäoartistica,|+queaprimeira
exigênciada menteque busca aunidadee queestaunidadese| a
comunic+vel.Ioroutrolado,aunidadedoraciociniopuroeuma
lalsaunidade,devezquenäosebaseianoreal. Òromance+gua-
com-açúcar ¸ouoromancedeterror ) oromance edilicante alas-
tam-sedaarte,namedida,maioroumenor,emquedesobedecem
aessalei.Averdadeiracriaçäoromanesca, ao contr+rio,utilizao
realesoele,comseucaloreseusangue,suaspaixõesouseusgri-
tos. Simplesmente,elalheacrescentaalgoqueotransEgura.
Iamesmalorma,aquiloquesechamacomumentederoman-
cerealistaquerserareproduçäodorealnoqueeletemdeimedia-
to.Reproduziroselementosdorealsemnadaescolhernele,mes-
moquesepudesseimaginarestaempreitada,seriarepetirdemodo
esterilacriaçäoÒrealismodeveriaserapenasomeiodeexpressäo
dogênioreligioso,aquiloqueaarteespanholalazpressentiradmi-
ravelmente,ou,nooutroextremo,aartedosmacacos,queseconten-
10' Delacroi observa, e esta observação é pertinente, que é preciso corrigir "a perspectiva infexí­
vel que (na realidade) falseia a visão dos objetos pela frça daprecisão".
309
ALBERT CAMUS
tamcomoqueexisteeoimitam.Naverdade,aartenuncaerealis-
ta,asvezes,sente-setentadaasê-lo.Iaraserverdadeiramenterea-
lista,umadeterminadadescriçäonäopoderiaterEmQuando,por
exemplo,StendhaldescrevenumalraseaentradadeIucienIeuwen
numsa¦äo,oartistarealistadeveria,parasercoerente,utilizarv+rias
toneladasdelrasesparadescreverpersonagensecen+rios,semcon-
tudochegaraesgotartcdososdetalhes Òrea¦ismoeaenumera-
çäoindeEnidaComisso,e¦erevelaquesuaverdadeiraambiçäoea
conquista,näodaunidade,masdatota¦idadedomundoreal.Com-
preendemosentäoqueelese|aaesteticaoEcialdeumarevoluçäo
datotalidade.Noentanto,essaestetica|+demonstrousuaimpossi-
bilidade.Òsromancesrealistasescolhem,adespeitodesimesmos,
noreal,porqueaescolhaeasuperaçäodarealidadesäoapropria
condiçäodopensamentoedaexpressäo. ' `´Lscrever|+eescolher.
¡+ portantoum aspecto arbitr+rio do real, como h+umaspecto
arbitr+rio doideal,equelaz doromancerealistaumromancede
teseimp¦icitaReduziraunidadedomundoromanescoatotalida-
dedorealsopodeserleitopormeiodeum|uizoaprioristico,que
elimina do rea¦ aquilo que näo convem a doutrina Ò chamado
realismosocialista dedica-se,portanto,pelaproprialogicadeseu
niilismo,aacumularasvantagensdoromanceediEcanteedalite-
raturadepropaganda
Seoacontecimentoescravizaocriadorouseocriadorpreten-
denegaroacontecimentocomoumtodo,acriaçäorebaixa-seem
cadaumdoscasosaslormasdegradadasdaarteniilista Issoocor-
re tanto na criaçäo quanto na civilizaçäo. ela supõe uma tensäo
ininterruptaentrealormaeamateria,odevireamente,ahistoria
e osvalores Seo equilibrio se rompe, h+ditaduraou anarquia,
propagandaoudeliriolormalLmambos oscasos,acriaçäo, que
102Delacroix mostra isso com perspicácia: "Para que o realismo não seja uma palavra sem sentido,
seria necessário que todos os homens tivessem a mesma mente, a mesma maneira de conceber as
coisas."
3 1 0
O HOMEM REVOLTADO
coincidecomumaliberdaderaciona¦,eimpossive¦. Quercedaa
vertigem da abstraçäo e da obscuridade lormal, quer recorra ao
chicotedorea¦ismomaiscruoumaisingênuo,aartemoderna,em
suaquasetotalidade, eumaartedetiranosedeescravos, näode
criadores.
Aobraemqueoconteúdoextrapolaalorma,aquelaemquea
lormaalogaoconteúdo,sotratadeumaunidadeenganadaeenga-
nadora Janto neste campo quanto nos outros, todaunidadeque
näoedeesti¦oemutilaçäo. Qualquerquese|aaperspectivaesco-
¦hidaporumartista,umprincipiocontinuacomumatodososcria-
dores. aestilizaçäo, que supõe ao mesmo tempoorea¦eamente
que d+ao real sualorma Atraves de¦a o eslorço criadorrelaz o
mundo, esemprecomumaligeiradistorçäoqueeamarcadaarte
edoprotesto Querse|aoaumentomicroscopicoqueIrousttraz
paraaexperiênciahumanaou,pe¦ocontr+rio,aabsurdatenuidade
queoromanceamericanod+aseus personagens, arealidadeede
algum modo lorçada. A criaçäo, a lecundidade darevolta estäo
nessadistorçäoquerepresentaoestiloeotomdeumaobra.Aarte
eumaexigênciadeimpossive¦aqualsedeulormaQuandoogrito
mais dilacerante encontra a sua linguagem mais Erme, a revolta
satislaz a suaverdadeira exigência, tirando dessa Edelidade a si
mesmaumalorçadecriaçäoAindaqueissoentreemcontitocom
ospreconceitosdaepoca,omaiorestiloemarte eaexpressäoda
maisa¦tarevolta. Comooverdadeiroclassicismo näoemais que
umromantismodomado,ogênioeumarevoltaquecriousuapro-
priamedidaIorisso,näoh+gênio,contrariamenteaoqueseensi-
naho|e, nanegaçäoenopurodesespero
\aledizeraomesmotempoqueograndeestilonäoesimples-
menteumavirtude lormal Lle o e quandoest+em buscade si
mesmo,acustadoreal,e,nestecaso,näoeumgrandeestilo.Lle
näoinventamais,masimita -comotodaarteacadêmica -,ao
passoqueaverdadeiracriaçäo,asuamaneira,erevolucion+riaSe
3 1 1
ALBERT CAMUS
semostranecesssriole\araestilizaçäoaoextremo,|squee¦aresu-
meaintervençäodohomemea\ontadedecorreçäoqueoartista
conlereareproduçäodoreal,con\em,noentanto,queelacontinue
in\isi\el , paraquearei\indicaçäoquedsorigemaartesetraduza
na tensäo mais extrema Ò grande estilo e aestilizaçäo in\isi\el ,
istoe, encarnada "Lmarte, epreciso näotemerserexagerado",
dizIlaubert Nasacrescentaqueoexagerode\eser"continuoe
proporcionalasimesmo" .Quandoaestilizaçäoeexageradaecon-
segueser\ista,aobraepuranostalgia. aunidadequetentacon-
quistareestranhaaoconcreto.Quandoarealidadee¦iberada,ao
contrsrio,emestadobrutoeaestilizaçäo,insigniíicante,oconcre-
toseapresentasemunidade.Agrandearte,oestilo,a\erdadeira
lacedare\oltaestäoentreessasduasheresias. ' ¨
Criação e Revolução
Lmarte, are\o¦ta se completa e perpetuana\erdadeiracriaçäo,
näonacriticaounocomentsrio.Are\oluçäo,porsua\ez,sopode
aíirmar-senumaci\ilizaçäo,näonoterrorounatiraniaAs duas
questõesquenossotempolazaumasociedadeapartirdeagorano
impasse,acriaçäoepossi\elare\o¦uçäoepossi\e¦`,reduzem-sea
umaúnica, quedizrespeitoaorenascimentodeumaci\ilizaçäo
Are\oluçäoeaartedoseculoXsäotributsrias domesmo
niilismoe\i\emnamesmacontradiçäoAmbasnegamaquiloque
aíirmam, noentanto,emseupropriomo\imentoeambas procu-
103A correção difere segundo os temas. Numa obra fiel à estética acima esboçada, o estilo variaria
segundo os temas, continuando a linguagem própria do autor (o seu tom) como o lugar-comum
que faz com que se manifestem as diferenças de estilo.
3 1 2
O HOMEM REVOLTADO
ramumasaidaimpossi\el,atra\esdoterrorAre\o¦uçäocontem-
poraneaacreditainaugurar um no\o mundoquandonäo e mais
queoresu¦tadocontraditoriodomundoantigo. Iinalmente, aso-
ciedadecapitalistaeasociedadere\olucionsriasäoapenasuma,na
medidaemqueseescra\izamaomesmomeio -aproduçäoin-
dustrial -eamesmapromessaImalaz suapromessaemnome
deprincipioslormaisquee¦aeincapazdeencarnarequesäonega-
dospelosmeiosqueelaemprega,aoutra| ustiíicasuaproleciauni-
camente emnome darealidadee acaba mutilando arealidade A
sociedadedaproduçäoeapenas produti\a,näocriadora
Iorserniilista,aartecontemporaneadebate-setambementre
olorma¦ismoeorealismoAliss,orealismoetäoburguês -neste
caso, täo obscuro - quanto socialista, ou se|a, ediíicante. Ò
lormalismopertencetantoasociedade,dopassado,quandoeabs-
traçäogratuita,quantoasociedadequesepretendedoluturo,ele
deline entäo apropaganda A¦inguagem destruidapelanegaçäo
irracional perde-se no delirio \erbal, sub|ugada pe¦a ideologia
determinista,ela sereduzaumapala\radeordem.Lntreambas,
íicaaarte.Seore\oltadode\erecusaraomesmotempoolurordo
nadaeaaceitaçäodatotalidade, oartistade\e escaparaomesmo
tempo do lrenesi lorma¦ e da estetica tota¦itsria da realidade Ò
mundodeho| eeeleti\amenteuno,massuaunidadeeadoniilismo.
Aci\i¦izaçäosoepossi\else, aorenunciaraoniilismodosprinci-
pioslormaiseaoniilismosemprincipios, omundoreencontraro
caminho deuma sintese criadora. Ò mesmo ocorrenaarte, aera
docomentsrioperpetuoedareportagemagoniza,elaanunciaen-
täoaeradoscriadores.
Nasaarteeasociedade,acriaçäoeare\oluçäode\em,para
tanto,reencontraraorigemdare\olta,naqualrecusaeconsenti-
mento, singu¦aridade e uni\ersal, indi\iduo e historia se equili-
bramnatensäomaiscritica.Are\oltanäoeemsimesmaumele-
mentodeci\ilizaçäo Naselaprecedetodaci\ilizaçäo Soela, no
3 1 3
ALBERT CAMUS
impasseemque\i\emos,permiteesperarpeloluturocomqueso-
nha\aÞietzsche. "Lm\ezdo|uizedorepressor,ocriador."Ior-
mulaquenäode\epermitirailusäoridiculadeumacidadedirigida
porartistas. Llailuminaapenasodramadenossaepoca,naqualo
trabalho,inteiramentesub|ugado aproduçäo, deixou desercria-
dor.Asociedadeindustrialsoabrirsoscaminhosparaumaci\ili-
zaçäoaode\ol\eraotrabalhadoradignidadedocriador,istoe,ao
aplicarseuinteresseesuaretexäotantoaopropriotrabalhoquan-
to ao seu produto A ci\ilizaçäo, deagora emdiante necesssria,
näopodersseparar, quernasc¦asses,quernoindi\iduo, o traba-
lhador e o criador, assim como a criaçäo artisticanäo pensaem
separaralormaeoconteúdo,oespiritoeahistoria. É assimque
elareconhecersemtodosadignidadeaErmadapelare\oltaSeria
in|usto,ealissutopico,queShakespearedirigisseasociedadedos
sapateiros Nas, seriaigualmentedesastrosoqueasociedadedos
sapateirosimaginasseprescindirdeShakespeare.Shakespearesem
osapateiroser\edeslibiatirania ÒsapateirosemShakespearee
absor\idopela tiraniaquandonäocontribuiparaamplis-la.Joda
criaçäo nega em simesmao mundo do senhore do escra\o. A
horrendasociedadedetiranoseescra\osemque\egetamossoen-
contrarssuamorteesuatransEguraçäononi\eldacriaçäo.
Nasolatodeacriaçäosernecesssrianäoquerdizerquese|a
possi\el Lmarte,umaepocacriadorasedeEnepelaordemdeum
esti¦oaplicadoadesordemdeumtempo Llalormaelormulaas
paixões contemporaneas.]snäo basta portanto, paraumcriador,
reproduzir Nme de Ia Iayette, numa epoca em que os nossos
principesmorososnäotêmmaisolazerdoamor.Atualmente,quan-
do as paixões co¦eti\as sesobrepuseramaspaixões indi\iduais, e
sempre possi\e¦dominar, pelaarte, oêxtasedoamor Nasopro-
blemaine\its\e¦ e tambem dominaras paixões coleti\as e aluta
historica. Ò ob|etodaarte, paradesgostodosplagiadores, esten-
deu-sedapsicologiaacondiçäohumana.Quandoapaixäodotempo
3 1 4
O HOMEM REVOLTADO
colocaem|ogoomundointeiro,acriaçäoquerdominarodestino
inteiroNas,aomesmotempo,mantemdiantedatotalidadeaaEr-
maçäo daunidade. A criaçäo e entäo simplesmente colocada em
risco,primeiramenteporsipropriae, emseguida,peloespiritode
tota¦idade Criar, ho|eemdia,ecriarperigosamente
Iaradominaraspaixõescoleti\as,epreciso,narea¦idade,\i\ê-
laseexperiments-las,pelomenosrelati\amenteAomesmotempo
em que as \i\encia, o artista e porelas de\orado Iisso decorre
quenossaepocaemaisadareportagemdoqueadaobradearte
Ialta-lheum emprego corretodotempo Ò exerciciodessas pai-
xões, Enalmente,acarretaoportunidadesdemortemaioresdoque
notempodoamoroudaambiçäo,|squeaúnicamaneirade\i\er
autenticamenteapaixäocoleti\aedispor-seamorrerporelaepara
ela. Amaioroportunidadedeautenticidadeatualmenteeamaior
oportunidadedemalogroparaaarte.Seacriaçäoeimpossi\elem
meioaguerrasere\oluções,näoteremoscriadores,porquere\o-
luçäoeguerrasäoonossoquinhäo.ÒmitodaproduçäoindeEni-
da traz em sia guerra, assim como a nu\em, a tempestade. As
gaerrasde\astamentäooÒcidenteematamIeguyApenaserguida
dosescombros,amsquinaburguesa\êcaminharaoseuencontroa
msquinare\olucionsria.Ieguynemmesmote\etempoderenas-
cer,aguerraquesea\izinhamatarstodosaquelesque,ta¦\ez,teriam
sidoIeguySeumclassicismocriadorsemostrasseentretantopos-
si\el,de\e-sereconhecerque,mesmoilustradoemumúniconome,
eleseriaobradeumageraçäo.Asoportunidadesdemalogros,no
seculodadestruiçäo,sopodemsercompensadaspelaoportunida-
dedonúmero,querdizer,pelaoportunidadedequeentrecadadez
artistasautênticos,umpelomenossobre\i\a,assumaasprimeiras
pala\ras deseusirmäoseconsigaencontraremsua\idasimulta-
neamenteotempodapaixäoouotempodacriaçäo. Querendoou
näo, oartistanäo pode mais serumso¦itsrio,anäo sernotriunlo
melancolicoquede\eatodososseusparesAartere\oltadatam-
3 1 5
ALBERT CAMUS
bemacabare\elandoo "Þosexistimos"e,comisto,ocaminhode
umalerozhumildade
Lnquantoissoare\oluçäoconquistadora,nodes\ariodeseu
nrilismo,ameaçaaquelesque,aseudespeito,pretendemmantera
unidade natotalidade. Imdossentidos dahistoriaatual, e mais
aindada historia de amanhä, ealutaentreos artistas eosno\os
conquistadores, entre as testemunhas dare\oluçäo criadora e os
construtoresdare\oluçäoniilista Quantoaoresultadodaluta,so
podemosterilusõesrazos\eis. Ielo menos, sabemos,a partirde
agora, que ela de\e serrealrzada. Òs conquistadores modernos
podemmatar,masparecemnäoconseguircriar. Òsartistassabem
criar,masnäopodemrealmentematarSocomoexceçäoseencon-
tramassassinosentreosartistas.Alongoprazo,aarteemnossas
sociedades re\olucionsrias de\eriaportanto morrer. Nas entäoa
re\oluçäoters\i\rdo.Cada\ezqueelamatanumhomemoartista
queeleteriapodidoser,elaseextenuaumpoucomaisSe,aEnal,o
mundosecur\assealeidosconquistadores,issonäopro\ariaque
aquantidade esoberana, esimque este mundo einlerno. Þeste
inlernomesmo,olugardaartecoincidiriaaindacomodare\olta
\encida,esperançacegae\azianaprol·ndezadosdiasdesespera-
dosLrnstIwinger,emseuDiário siberiano, laladessetenenteale-
mäo que, hsanos prisioneiro emum campo no qualreina\am o
lrioealome,construiraparasi, comteclasdemadeira,umpiano
silencioso. Is, naquele amontoado de miseria, em meio a uma
multidäoeslarrapada,elecompunhaumaestranhamúsicaqueso
eleescuta\a. Iestalorma,lançadosaornlerno,mrsteriosasmelo-
diaseimagenscrueisdabelezaesquecidanostrariamsempre,em
meioaocrimeealoucura,oecodessainsurreiçäoharmoniosa,que
compro\aaolongo dos seculosagrandezahumana
Nas o inlerno so tem um tempo, a\ida um dia recomeça
Jal\ez a historra tenha um Em, nossa tarela, no entanto, näo e
termins-la,mas cris-la aimagem daquilo quedora\antesabemos
3 1 6
O HOMEM REVOLTADO
ser\erdadeiroAarte,pelomenos,nosensinaqueohomemnäose
resumeapenasahistoria,queeleencontratambemumarazäode
sernaordemdanatureza. Iara ele,ograndeIänäoestsmorto
Suare\oltamaisinstrnti\a,aomesmotempoemqueaErmao\alor
eadignidadecomumatodos,rei\indicaobstinadamente,paracom
istosatislazersualomedeunidade,umaparteintactadorealcu|o
nomeeabelezaIode-serecusartodaahistoria,aceitandonoen-
tantoo mundodas estrelas e do mar Òsre\oltados que querem
ignoraranaturezaeabelezaestäocondenadosabanirdahistoria
quedese|amconstruiradrgnidadedotrabalhoedaexrstência.Jodos
os grandes relormadores tentam construir na historia o que
Shakespeare, Cer\antes, Nolière e Jolstoi souberam criar. um
mundosempreprontoasatislazeralomedeliberdadeededigni-
dadequeexistenocoraçäodecadahomemSemdú\ida,abeleza
näolazre\oluções.Naschegaumdraemqueasre\oluçõestêm
necessidadedelaSuaregra,quecontestaorealaomesmotempo
emquelheconleresuaunidade, etambemadare\olta Iode-se
recusareternamenteain|ustiçasemdeixardesaudaranaturezado
homemeabelezadomundo`Þossarespostaesim.Lstamoral,ao
mesmotempoinsubmissaeEel,eemtodoocasoaúnicaailumi-
nar o caminho de uma re\oluçäo \erdadeiramente realista. Ao
manterabeleza,preparamosodiadorenascimentoemqueaci\i-
lizaçäo colocars no centro de sua retexäo, longe dos principios
lormaisedos\aloresdegradadosdahistoria,essa\irtude\i\aque
lundamenta adignidadecomum do mundo e do homem, eque
agorade\emosdeEnrrdrantedeummundoquearnsulta.
3 1 7
v
O pensamento mediterrâneo
RL\ÒIJALASSASSIÞAJÒ
Longedessalontede\ida,emtodoocaso,aLuropaeare\oluçäo
se agitam em uma con\ulsäo espetacular. No seculo passado, o
homemderrubaascoerçõesre¦igiosasApenasliberado,noentan-
to, ele in\enta outras mais, e intoler+\eis A\irtude morre, mas
renasce aindamais leroz Llapregaatodo mundo uma ruidosa
caridadeeesseamorpelolonginquoquelazdohumanismocon-
temporaneoumaderrisäoAtalpontodehidez,elasopodeope-
rarde\astações Chegaodiaemqueelaseirrita,torna-sepolicial,
e, paraasal\açäo do homem,erguem-seignobeislogueiras Þo
augedatragediacontemporanea,entramosentäonaintimidadedo
crimeAslontesda\idaedacriaçäoparecemtersecadoÒmedo
imobilizaumaLuropapo\oadadelantasmasedem+quinas Ln-
treduas hecatombes, instalam-se cadala¦sos no tndo das mas-
morrasJorturadoreshumanistasaicelebramemsilêncioseuno\o
cultoQuegritoosperturbaria.Òs propriospoetas,diantedoas-
sassinatodeseuirmäo,declaramorgulhosamentequeestäocomas
mäoslimpas Ò mundointeiroapartirdeentäo, distraidamente,
d+ascostasaessecrime,as\itimasacabamdeatingiroextremode
suadesgraça.elasentediam Þostemposantigos,osanguedoas-
sassinatopro\oca\aaomenosumhorrorsagrado,santiEca\ades-
3 21
ALBERT CAMUS
semodo o\alorda\ida. A\erdadeiracondenaçäodesta epoca,
pelocontr+rio, ele\ar-nosapensarquee¦anäoesuEcientemente
sanguin+ria Ò sanguenäoest+mais\isi\el, elenäo respinga de
modo\isi\elorostodenossoslariseus£isoetremodoniilismo.
oassassinatocegoeluriosotorna-seumo+sis,eocriminosoimbe-
cilparecere\igorantediantedenossoscarrascosinteligentes
Iepoisdeteracreditadopormuito tempoquepoderialutar
contraIeus aliadoahumanidadeinteira, oespiritoeuropeused+
contatambemdeque,senäoquisermorrer,eprecisolutarcontra
oshomens. Òs re\oltados que, ao seinsurgirem contraa morte,
queriamconstruir, combasenaespeciehumana, umalerozimor-
ta¦idade,horrorizam-seaose\eremobrigados,porsua\ez, ama-
tarSerecuam,noentanto,eprecisoqueaceitemmorrer,sea\an-
çam,eprecisoqueaceitemmatarAre\olta, des\iadadesuas ori-
gens e cinicamentetra\estida, oscila, emtodos os ni\eis, entre o
sacrilicio e o assassinato Sua|ustiça, que ela espera\a que losse
distributi\a,tornou-sesum+riaÒreinodagraçaloi\encido,mas
oda|ustiçatambemdesmoronaA£uropamorredessadesilusäo
Suare\oltadelendiaacausadainocênciahumana,eei-laintexi\el
contraasuapropriaculpa.Nalse¦ançaembuscadatota¦idade,e
recebe,naparti¦ha,asolidäomaisdesesperada. Queriaentrarem
comunidade,enäotemoutraesperançasenäoreunir,umporum,
aolongodosanos, ossolit+riosquemarchamparaaunidade.
Ser+precisorenunciaratodare\olta,querseaceite,comsuas
in|ustiças,umasociedadequesobre\i\easipropria,quersedeci-
da, cinicamente, servir contra os interesses do homem a marcha
inexor+\eldahistoria`AIinal,sealogicadenossarelexäode\esse
conduzir a um conlormismo co\arde, seria necess+rio aceit+-lo,
comocertaslamiliasas\ezesaceitamdesonrasine\it+\eis.Sede-
\esseigualmente|ustiEcar todos os tipos de atentados contra o
homem,eatemesmosuadestruiçäosistem+tica,seriaprecisocon-
sentirnestesuicidioÒsentimentoda|ustiçaEnalmenterealizaria
322
O HOMEM REVOLTADO
asuaaspiraçäo.odesaparecimentodeummundodecomerciantes
edepoliciais.
Nasestamosaindaemummundore\oltado,are\oltanäose
tornou,pe¦ocontr+rio,o+libideno\ostiranos `Ò"Þosexistimos"
contidonomo\imentodere\oltapode, semescandaloousubter-
íúgios, conci¦iar-se comoassassinato`Aoatribuiraopressäoum
limite noqualcomeçaadignidadecomumatodos os homens,a
re\oltadeEniaumprimeiro\alor£lacoloca\anoprimeiroplano
de suas relerências umacumplicidade transparente entreos ho-
mens,umatexturacomum,asolidariedadedosgrilhões,umaco-
municaçäodeserhumanoaserhumanoquetornaoshomensse-
melhantesecoligados. £lalaziacomqueamenteemcontitocom
ummundoabsurdodesseumprimeiropasso Comesteprogresso,
elatorna\amais angustianteoproblemaqueagorade\eresol\er
diante doassassinato. Þacondiçäodeabsurdo,oassassinatosus-
cita\a eleti\amente apenas contradições logicas, na condiçäo de
re\olta,eleedilaceramento.Ioistrata-sededecidirseepossi\el
mataralguem,se|aquemlor, cu| asemelhançaacabamosdereco-
nhecerecu¡aidentidadeacabamosdeconsagrarApenassuperada
a solidäo, e preciso reencontr+-la deíiniti\amente, legitimando o
atoquetudoisola`Condenarasolidäoaquelequeacabadesaber
quenäoest+sonäoser+ocrimedeEniti\ocontraohomem`
Segundoalogica,de\e-seresponderqueassassinatoere\olta
säocontraditoriosIastaqueumúnicosenhorse|amortoparaque
ore\oltado,decertalorma,näoeste|amais autorizadoaaErmara
comunidadedoshomens,daqualnoentantoeletira\asua|ustiE-
caçäoSeestemundonäotemumsentidosuperior,seohomemso
temohomemcomogarantia,bastaqueumhomemretireumúni-
co ser humano dasociedade dos\i\os paraque ele proprio se|a
tambemdelaexc¦uido QuandoCaimmataAbel,eleloge parao
deserto£seosassassinossäomultidäo, amultidäo\i\enodeser-
toenesseoutrotipodesolidäo chamadapromiscuidade.
323
l i
ALBERT CAMUS
A partir do momento em quegolpeia, o re\oltado di\ide o
mundoemdois Lle seinsurgiaem nome daidentidadedoho-
memcomohomemesacrihcaaidentidadeaoconsagrar,nosan-
gue, a dilerença. So sua eistência, no amago da miseriae da
opressäo,esta\acontidanestaidentidade.Òmesmomo\imento
que\isa\aahrms-lo laz portanto com que deixe deexistir. Lle
podedizerquea¦gunsoumesmoquequasetodosestäocomele
Nasbastala¦tar, nomundoinsubstitui\el dalraternidade, um
únicoserhumano,eei-¦ologodespo\oado.Senäoexistimos,eu
näo existo, assim seexplicam ainh nitatristeza de Kaliaye\ e o
silênciodeSaint-]ustIenadaadiantaaosre\oltados,decididos
apassarem pela\iolênciaepe¦o assassinatoparapreser\arema
esperançadeexistir, substituiremoNós existimos peloNós existi­
remos. Quandoassassinoe\itimati\eremdesaparecido,acomu-
nidadeirsrelazer-sesemeles.Jantonahistoriaquantona\ida
indi\idual,oassassinatoeumaexceçäodesesperadaouentäonäo
e nada Ò rompimento que ele eletua na ordem das coisas e
irre\ersi\el. L¦eeinsolitoenäopodeportantoserutilizado,nem
sistemstico, como quer a atitude puramente historica. Lle e o
limite queso sepodeatingiruma\ezedepoisdoqua¦epreciso
morrer.Òre\oltadosotemumamaneiradereconciliar-secomo
seuatoassassino,seaissosedeixoule\ar. aceitarapropriamor-
te e o sacrilicio Lle mata e morre, para que h que claro que o
assassinatoeimpossi\el.Llemostra entäo queprelere,nareali-
dade,oNós existimos aoNós existiremos. Alelicidadetranqüilade
Kahaye\emsuaprisäo,a serenidade deSaint-justaocaminhar
paraocadala¦sosäoporsua\ezexplicadas.A¦emdessalronteira
extrema,começamacontradiçäoeonii¦ismo
324
O HOMEM REVOLTADO
O Assassinato Niilista
Ò crime irracional e o crime racional traem igualmente o \alor
re\e¦ado pelo mo\imentodere\olta.\e|amoso primeiro. Aquele
que nega tudo e autoriza-se a matar, Sade, o dandi assassino, o
¡
nicoimpiedoso,Karamazo\,ospartidsriosdobandidoenlureci-
do, o surrealista que atirana multidäo rei\indicam, emsuma, a
liberdade total, a ostentaçäo sem limites doorgulho humano Ò
niilismo cont·nde na mesma iracriador ecriaturas. Ao suprimir
todoprincipiodeesperança,elere| eitaqualquer¦imitee,comuma
indignaçäocega,decu|asrazõesnemsedsconta, acaba|u¦gando
queeindilerentemataraquiloque| sestsladadoamorte
Nassuasrazões-oreconhecimentomútuodeumdestino
comumeacomunicaçäodoshomensentresi -estäosempre\i-
\as Are\oltaproclama\a-as, comprometendo-se a ser\i-¦as. Ao
mesmotempo,e¦adehnia,contraoniilismo,umaregrade conduta
quenäotemnecessidadedeesperarohmdahistoriaparaexplicar
suasaçõeseque,noentanto,näoelormal.Contrariamenteamoral
|acobina, elalaziao papeldetudoaquiloquelogeasregraseas
leisLlaabriaocaminhoparaumamoralque,longedeobedecera
principios abstratos,soosdescobrenoca¦ordabatalha, nomo\i-
mentointermins\eldacontestaçäo Þadanosautorizaadizerque
esses principios sempre existiram, e inútil declararque existiräo
Naselesexistem,enamesmaepocaemquenosexistimos.Þegam
conosco,aolongodahistoria,aser\idäo, amentiraeoterror
Þada hs de comum entre um senhor e um escra\o, näo se
podelalarecomunicar-secomumserescra\izadoLm\ezdesse
dis¦ogoimplicitoeli\repeloqualreconhecemosnossasemelhança
econsagramosnossodestino,aservidäolazreinaromaisterri\el
dossilêncios. Seain¡ustiçalazmalaore\oltado,näoepelolatode
325
ALBERT CAMUS
contrariarumaideiaeternada|ustiça,quenosnäosabemosonde
situar,maspe¦olatodeperpetuaramudahostilidadequeseparao
opressordooprimido Llamataopoucodeexistênciaquepode\ir
aomundo pelacumplicidademútuadoshomens. Iamesmalor-
ma,|squeohomem,aomentir,seisoladosoutroshomens,amen-
tiralicaproscrita,assimcomo,numpatamarinlerior,oassassinato
ea\iolência,queimpõemosilênciodeliniti\oAcumplicidadeea
comunicaçäodescobertas pela re\olta so podem\i\er no dislogo
li\re.Cadaequi\oco,cadamal-entendrdole\aà morte,alingua-
gem clara, apala\rasimples-soelas podemsal\ardessamor-
te' ¨'Òpontoaltodetodasastragediasestsnasurdez dosherois.
IlatäotemrazäocontraNoiseseNietzsche.Òdislogoaalturado
homemcustamenosdoqueoe\angelhodasreligiõestotalitsrias,
monologo ditado do topo de uma montanha solitsria. Janto no
palcoquantonarea¦idade,omonologoprecedeamorte.Jodore-
\oltado,sopelomo\imentoqueosoerguediantedoopressor, de-
lendeportantoacausada\ida,comprometendo-sealutarcontraa
servidäo,amentiraeo terrorealrmando,comarapidezdeum
raio,queestestrêsllageloslazemreinarosilêncioentreoshomens,
obscurecendo-osunsaosoutroseimpedindoquesereencontrem
noúnico\alorquepodesal\s-¦osdoniilismo,alongacumplicida-
dedoshomensemconílitocomoseudestino.
Comarapidezdeumraio. Nasissobasta, pro\isoriamente,
paradizerquealiberdademaisextrema,aliberdadedematar,näo
ecompati\e¦ comas razõesdare\olta. Are\oltanäoe, delorma
alguma,umarer\indicaçäodeliberdadetotal.A contrsrio,are-
\oltaatacasistematicamentealiberdadetotal.Llacontesta,|usta-
mente,opoderi¦imitadoquepermiteaumsuperior\iolaralron-
teiraproibida Iongederei\indicarumaindependênciageral, o
1040bserve-se que a linguagem própria das doutrinas totalitárias é sempre uma linguagem
escolástica ou administrativa.
326
O HOMEM REVOLTADO
re\oltadoquerquesereconheçaquealiberdadetemseuslimitesem
qualquerlugarondeseencontreumserhumano,|squeolimitee
precisamenteopoderdere\oltadesseserNistoresidearazäopro-
mndadaintransigênciare\o¦tadaQuantomaisare\oltatemcons-
ciênciaderei\indicarumlimite|usto,maiselaeintexi\el.Òre\ol-
tadoexigesemdú\idaumacertaliberdadeparasimesmo,masem
nenhumcaso,selorconseqüente,rei\indicarsodireitodedestruira
existênciaealiberdadedooutroLlenäohumilhaninguemAliber-
dade que reclama, ele areindrca paratodos, a que recusa, ele a
proibeparatodos Näo setratasomente de escra\o contrasenhor,
mastambem de homemcontrao mundodo senhoredoescra\o,
algoalem,graçasare\o¦ta,darelaçäoentredominioeescra\idäona
historia Aqui, o poderilimitadonäoe aúnicalei. É emnomede
outro\alorqueore\oltadoaErmaaomesmotempoaimpossibilrda-
dedaliberdadetotalereclamapara simesmoaliberdaderelati\a,
necesssriaparareconheceressaimpossibilidade.Jodaliberdadehu-
mana,emsuaessência,edessalormarelati\a.Aliberdadeabsoluta,
ouse|a,alrberdadedematar,eaúnrcaquenäoreclamaaomesmo
tempoqueasimesmaaquiloquealimitaeobliteraLlasedes\incula
entäodesuasraizes,erraao acaso, sombraabstrataema¦e\ola,ate
queimaginaencontrarumcorponaideo¦ogia.
É possi\eldizerportantoqueare\olta,quandodesembocana
destruiçäo, eilogica.Aoreclamaraunidadedacondiçäohumana,
elae lorçade\ida, näo de morte Sualogicaprol·nda näo eada
destruiçäo, e adacriaçäoIara que continue autêntica, seumo\i-
mentonäode\edeixarparatrssnenhumdostermosdacontradrçäo
queosustenta.Llede\eserEelaosim quecontem aomesmotempo
queaessenão isoladonare\oltapelasinterpretaçõesniilistasAlogi-
cadore\oltado e quererservir a|ustiça a Em denäoaumentara
in|ustiçadacondiçäohumana,eslorçar-senosentidodeumalingua-
gemclaraparanäoaumentaramentirauni\ersaleapostar,diantedo
solrimento humano, nalelicidade. A paixäoniilista, contribuindo
327
ALBERT CAMUS
comain¡ustiçaeamentira,destroiemsual+riasuaexigênciaantiga,
pri\andoare\o¦ta,destalorma,desuasrazõesmaisclaras£lamata,
lreneticaporsentirqueestemundoestsladadoamorteAconseqüên-
ciadare\olta,pelocontrsrio,erecusaralegitimaçäodoassassinato,
|sque,emseuprincipio,elaeprotestocontraamorte
Nasseohomemlossecapazde,sozinho,introduziraunida-
denomundo, sepudesse lazerreinarnomundo, apenas porum
decretoseu,asinceridade,ainocênciaea|ustiça, e¦eseriaopro-
prio Ieus. Iomesmomodo, see¦e pudesse, näoha\eria maisa
partirdairazões parare\oltaSehsre\olta,eporqueamentira,a
in|ustiçaea\iolêncialazemparte dacondiçäodo re\oltado. £le
näo pode, portanto, pretender de modo absolutonäo matarnem
mentir,semrenunciarasuare\olta,eaceitardeuma\ezportodas
oassassinatoeoma¦ Nase¦enäopodetampoucoaceitarmatare
mentir,|squeomo\imentoin\ersoque¦egitimariaoassassinatoe
a\iolência destruiria tambem as razões desuainsurreiçäoÒ re-
\oltado,portanto,näopodeencontrarrepousoSabeoqueeobem,
maspraticaapesardissoomal.Ò\alorqueomantemdepenäoe
umadsdi\adeEniti\a,elede\elutarincessantementeparamantê-
loAexistênciaqueeleobtemdesmoronaseare\oltanäoosusten-
ta.£mtodoo caso, seelenemsempreconseguedeixardemata;
diretaou indiretamente, ele pode empenharasua\ibraçäo e sua
paixäo para diminuir a oportunidade do assassinato a sua\olta.
Nergulhado nas tre\as, sua única\irtude sers näo ceder a sua
obscura\ertigem, acorrentadoaomal,arrastar-seobstinadamente
rumoaobem. Sechegaamatar,Enalmente,eleaceitarsapropria
morte.Ielassuasorigens,ore\oltadodemonstra,pelosacrilicio,
que a sua\erdadeira ¦iberdade näo e emrelaçäo ao assassinato,
masà sua propria morte £¦e descobreao mesmo tempo ahonra
metalisica Ka¦iaye\\aientäoparaalorcaeaponta\isi\elmente,
paratodososseusirmäos,olimiteexatoemquecomeçaeacabaa
honradoshomens
328
O HOMEM REVOLTADO
O Assassinato Histórico
Are\oltase desenrolatambemna historia,queexigenäosomente
opções exemplares, mas tambematitudeseEcazes Ò assassinato
raciona¦correoriscode\er-se|ustiE cadoAcontradiçäore\olta-
daserepercuteentäoemantinomias aparentementeinsolú\eiscu-
¡osmodelos,empolitica,säoporumladoaoposiçäoentrea\io¦ên-
cia e a näo-\iolência, e, por outro, a oposiçäo entre a|ustiçae a
liberdadeJentemosdeEni-lasemseuparadoxo.
Ò \alor positi\o contido no primeiro mo\imento de re\olta
supõearenúnciaa\iolência por principios. £le acarreta, conse-
qüentemente, a impossibilidade deestabilizarumare\o¦uçäo A
re\oltaarrastaconsigo,incessantemente,essacontradiçäo.Noni-
\eldahistoria, elaselortalececada\ez mais. Serenuncio alazer
comqueserespeiteaidentidadehumana,abdicodaquelequeopri-
me, renuncioa re\olta e retorno a umconsentimento niilista. Ò
niilismo,entäo,torna-seconser\ador.Seexijoqueessaidentidade
se|areconhecidaparaexistir,comprometo-menumaaçäoque,para
terêxito,supõeumcinismoda\iolência,negandoessaidentidade
eapropriare\o¦taAoamp¦iaraindamaisacontradiçäo,seauni-
dadedomundonäo\ierdoalto,ohomemde\econstrui-laasua
altura,nahistoria.Ahistoria,sem\alorqueatransíigure,eregida
pelalei da eEcscia. Ò materialismo historico, o determinismo, a
\iolência, anegaçäodetodaliberdadequenäose|a\oltadaparaa
eEcscia,o mundodacorageme dosilênciosäoasconseqüências
mais legitimas de uma pura ElosoEa dahistoria No mundo de
ho|e, soumaElosoEadaeternidadepode|ustiEcaranäo-\iolência
À historicidade absoluta, ela contrapors a criaçäo da historia, a
situaçäohistorica,perguntarsporsuaorigem. Iinalmente, consa-
grando a in|ustiça, ela remeters a Ieus a responsabilidade pela
329
ALBERT CAMUS
¡ustiça.Iamesmalorma,assuasrespostas,porsua\ez,exigiräoa
le.Ae¦aseiräocontraporomaleoparadoxodeumIeusonipo-
tenteema¦eEcooubene\olenteeesteril.Iicarsemabertoaesco-
lhaentreagraçaeahistoria,entreIeusouaespada
Qualpoderiaseraatitudedore\oltado`£lenäopodeseesqui-
\ardomundoedahistoriasemrenegaroproprioprincipiodesua
re\olta,nemescolhera\idaeternasemseresignar,emcertosentido,
aomal Näo-cristäo, porexemp¦o,elede\eirateo extremo Nas
chegaraoetremosigniEcaesco¦herahistoriademodoabsolutoe,
come¦a,oassassinatodohomem,seesteassassinatoenecesssrioa
historia. aceitara legitimaçäo do assassinato e ainda renegar suas
origens.Seore\oltadonäoescolhe,eleescolheosilêncioeaescra\i-
däodooutroSe,nummo\imentodedesespero,eledeclaraescolher
aomesmotempocontraIeusecontraahistoria,eleetestemunhada
¦iberdadepura,querdizer,denadaNestenossoestsgiohistorico,na
impossibi¦idadedeaErmarumarazäosuperiorquenäoencontrao
seulimitenoma¦,oseudi¦emaaparenteeosilêncioouoassassinato.
£mambososcasos,umarendiçäo.
Òmesmoocorrecoma|ustiçaea¦iberdade.Ambasasexigên-
cias¡sestäo noprincipiodo mo\imento de re\o¦ta, e\oltamos a
encontrs-¦as no impeto re\olucionsrio A historia das re\oluções
mostra,contudo,quequasesempreelasentramemcont ito,como
sesuasexigênciasmútuaslosseminconcilis\eis Aliberdadeabso-
lutaeodireitodomaislortededominar£latantemportantoos
conílitosquesebeneíiciamdain¡ustiça. A¡ustiçaabsolutapassa
pelasupressäo de todacontradiçäo. e¦a destroi a liberdade.'º`A
re\oluçäo para obter¡ustiça, pela liberdade, acaba¡ogando uma
contraaoutraIestalorma,emtodare\oluçäo,uma\ezliquidada
105Em Entretiens sur !e bon usage de la liberté (Considerações sobre o bom uso da liber), Jean Grenier
cria uma demonstração que pode assim se resumir: a liberdade absoluta é a destruição de todo
valor; o valor absoluto suprime toda a liberdade. Da mesma forma, Falante diz: "Se há uma
verdade una e universal, a liberdade não tem razão de ser."
330
O HOMEM REVOLTADO
acastaqueateentäodomina\a,hsumaetapaemqueelapropria
acarretaummo\imentodere\oltaqueindicaseuslimiteseanun-
cia suas oportunidades de malogro. A re\oluçäo propõe-se, em
primeirolugar,satislazeroespiritodere\oltaquelhedeuorigem,
obriga-seemseguidaanegs-lo,parame¦horaErmar-seasimes-
ma.Iareceha\erumaoposiçäoirreduti\elentreomo\imentoda
re\oltaeasaquisiçõesdare\oluçäo
Nas essas antinomias so existem no absoluto. £las supõem
ummundoeumpensamentosemmediações.Näohs,na\erdade,
conciliaçäopossi\elentreumdeustotalmenteseparadodahistoria
eumahistoriadepuradade qualquertranscendência Seus repre-
sentantesnaterrasäoeleti\amenteo yogieo comisssrio. Nas a
dilerençaentre estes dois tipos dehomens näo e, como se diz, a
dilerençaentrea\äpurezaeaelcsciaÒprimeiroescolheapenas
a ineEcscia daabstençäo, o segundo, a ineíicscia da destruiçäo
Comoambosre¡eitamo\alormediadorre\e¦adopelare\olta,eles
sonosolerecem,igua¦mentealastadosdoreal,doistiposdeimpo-
tência,adobemeadomal.
Seignorarahistoriaquerdizernegaroreal,considerarahis-
toria comoumtodo auto-suEciente e aindaalastar-se do real. A
re\oluçäodoseculoXXcrêe\itaroniilismoeserEela\erdadeira
re\olta,substituindoIeuspelahistoriaNa\erdade,elalortalece
oprimeiro,etraiasegunda Ahistoria,emseumo\imentopuro,
näo lornece porsi mesmanenhum\alor. É precisoentäo\iver,
segundoaeEcsciaimediata,calando-seoumentindoA\iolência
sistemsticaouosi¦êncioimposto,ocslculoouamentiraconcerta-
datornam-seregrasine\its\eis Impensamentopuramentehis-
torico e portanto nii¦ista. e¦e aceita totalmente o mal dahistoria,
opondo-senissoare\olta.IenadalheadiantaaErmar, emcom-
pensaçäo,aracionalidadeabsolutadahistoria,estarazäohistorica
sosecompletars,soterssentidocompletonoEmdahistoria.£n-
quantoisso,eprecisoagir,eagirsemregramora¦paraquearegra
33 1
ALBERT CAMUS
deEnitivaumdiaserealizeÒcinismocomoatitudepoliticasoe
logico em lunçäo deum pensamento absolutista, isto e, porum
¦ado o niilismo absoluto, por outro, o raciona¦ismo absoluto. ' ¨'
Quantoasconseqüências,näoh+dilerençaentreasduasatitudes
Apartirdoinstanteemquesäoaceitas,aterraE cadeserta.
Þarealidade,oabsolutopuramentehistoriconemmesmoecon-
cebivel Òpensamentode]aspers,porexemp¦o,noquetemdees-
sencial,ressaltaaimpossibilidadedeohomemcaptaratotalidade,|+
queeleseencontranointeriordestatotalidadeAhistoria,comoum
todo, sopoderiaexistiraosolhos deumobservadorexterioraela
mesmaeaomundoLmúltimainstancia,soh+historiaparaIeus
É impossivel,portanto,agirsegundoosplanosqueabraçamatota-
lidadedahistoriauniversalJodoempreendimentohistoricosopode
ser,entäo,umaaventuramaisoumenosrazo+velenindada Llee,
sobretudo,umrisco Comorisco,näopoderia|ustilcarnenhumex-
cesso,nenhumaposiçäoimplac+veleabsoluta.
SearevoltapudessecriarumaElosoEa,seriaumaElosoEados
limites, da ignoranciacalcu¦adaedo risco Aqueleque näopode
sabertudonäopodematartudo. Ò revoltado,longedelazerda
historia um absoluto, recusa-a, contestando-a em nome de uma
ideiaqueeletemdesuaproprianatureza.Llerecusasuacondiçäo,
esuacondiçäoeemgrandepartehistorica.Ain|ustiça,atransito-
riedade,amortemanilestam-senahistoria.Aore¡eit+-las,re|eita-
seapropriahistoria Semdúvida,orevoltadonäonegaahistoria
queocerca,enelaquetentaseaErmar. Naselesevêdiantedela
como oartistadiante doreal, ele are| eita semdelaescapar Þäo
conseguenuncacriarumahistoriaabsoluta.Se,pelalorçadosacon-
tecimentos, ele pode participar do crime da historia, näo pode
1 06
Vê-se ainda, e nunca seria demais insistir, que o racionalismo absoluto não é racionalismo. A
diferença entre ambos é a mesma diferença que eiste entre cinismo e realismo. O primeiro em­
purra o segundo para fora dos limites que lhe dão um sentido e uma legitimidade. Mais brutal,
ele fnalmente é menos eficaz. É a violência diante da força.
332
O HOMEM REVOLTADO
legitim+-lo Alemde ocrimeracionalnäopoderseradmitidono
niveldarevo¦ta, elesigniEcaapropriamortedarevolta.Iarator-
narestaevidência mais c¦ara, o crime racionalseexerce, empri-
meirolugar,sobreosrevoltadoscu|ainsurreiçäocontestaumahis-
toriadeagoraemdiantedivinizada
A mistiEcaçäo propriaao espirito que se diz revolucion+rio
retomaeagravaatualmenteamistiEcaçäoburguesaL¦alazcom
que seaceite, pela promessadeuma|ustiça absoluta, a in|ustiça
perpetua,ocompromissosemlimiteseaindignidade.Arevoltaso
visaaorelativoesopodeprometerumadignidadecertacombina-
dacomuma|ustiçarelativa Llatomaopartidodeumlimiteno
qualseestabeleceacomunidadehumana.Òseuuniversoeouni-
versodorelativo LmvezdedizercomHegeleNarxquetudoe
necess+rio,elarepete apenasquetudoepossiveleque,emdeter-
minadalronteira,opossiveltambemmereceosacrilicioLntreIeus
eahistoria, oyogieocomiss+rio,elaabreum caminho dilicilno
qualascontradiçõespodemservividasesesuperar.Lxaminemos
tambemasduasantinomiasdadascomoexemplo
Imaaçäorevolucion+riaquequisessesercoerentecomsuas
origensdeveria resumir-se aumaaceitaçäoativa dorelativo Lla
serialdelidade a condiçäo humana. Intransigentequanto a seus
meios,elaaceitariaaaproximaçäoquantoaseusEns,e,paraquea
aproximaçäosedeEnissecadavezmelhor,darialivrecursoapala-
vra. Nanteria desse modo a eistência comum que|ustiEca sua
insurreiçäo Lmparticular, garantiriaaodireito a possibilidade
permanentedeexpressar-se IstodeE neumacondutaemrelaçäo
a|ustiçaealiberdadeLmsociedade,näoh+|ustiçasemdireitos
naturaisoucivisquealundamentemÞäoh+direitosemexpres-
säodessedireito Seodireitoseexprimirsemhesitaçäo,eprov+-
velquemaiscedooumaistardea| ustiçapore¦epleiteadavenha
aomundoIaraconquistaraexistência,eprecisopartirdopouco
deexistênciaquedescobrimosemnos,enäoneg+-ladesdeoini-
333
l i
ALBERT CAMUS
cio Iazer com que o direito emudeça ate que a|ustiça se| a
estabelecidae lazercomque ele emudeça para sempre,¡+que
näo ter+ mais ocasiäo de lalar se a| ustiça reinar para sempre
Aindaumavez, conlia-se entäo a|ustiçaàqueles quesozinhos
têmapala\ra, ospoderosos.H+seculos,a¡ustiçaeaexistência
distribuidaspelos poderosossäochamadasdebe¦-prazer. Natar
a¦iberdadepara que reine a|ustiça e o mesmo quereabilitara
noçäodegraçasem aintercessäodi\ina, restaurando, comuma
reaçäovertiginosa,ocorpo mistico em seus elementosmaisbai-
xos Nesmoquandoa|ustiçanäoerea¦izada,aliberdadepreser-
va o poderdeprotestoe salva acomunicaçäo.A|ustiçaemum
mundosilencioso,a|ustiçaescravizadaemudadestroiacumpli-
cidadee linalmente näo podemais ser|ustiça A revoluçäo do
seculoXXseparouarbitrariamente,paralinsdesmedidosdecon-
qursta,duasnoçõesinsepar+\eis.Aliberdadeabsolutazombada
|ustiça.A|ustiçaabsolutanegaaliberdade.Iaraseremprolicuas,
ambas as noções devem encontrar uma na outra seus limites.
Þenhumhomemconsideraasuacondrçäolrvre,seelanäoe| us-
taaomesmotempo,nem|usta,see¦anäoseachalivre Aliberda-
denäopodeserimaginadasemopoderdemanilestarc¦aramente
oquee¡ustoeoqueein¡usto,derer\rndicaraexistênciainterra
emnomedeuma pequenaparceladeexistênciaqueserecusa a
morrer. ¡+, hnalmente,uma|ustiça,emborabastantedilerente,
em restaurar a liberdade, únicovalorimorredouroda historia.
Òshomensnuncaestäorealmentemortossenäoparaaliberda-
de. näoacredita\amentäomorrerinteiramente
Òmesmoraciocinioap¦ica-seàvio¦ênciaAnäo-violênciaabsolu-
tat·ndanegativamenteaservidäoesuasvrolências,aviolênciasiste-
m+ticadestroipositivamenteacomunidadevi\aeaexistênciaquede¦a
recebemosIaraseremproncuas,essasduasnoçõesde\emencontrar
osseuslimites.Þahistorraconsideradacomoumabsoluto,aviolência
se\êlegitimada,comoumriscorelauvo,elaeumaruptaradecomu-
334
O HOMEM REVOLTADO
nicaçäoIaraorevoltado,eladevepreservarseucar+terprovisoriode
rompimento,sempreligada,setalnäopudersere\rtado,aumares-
ponsabilidadepessoal,aumriscoimediatoAviolênciadesistemalaz
partedaordem,elae,emcertosentido,conlort+vel Führnzi ¸prin-
ciproautorrt+rio)ouRazäohrstorrca,qualquerquese|aaordemquea
t+ndamente,elareinaemumuniversodecoisas,näodehomensAs-
simcomoorevoltadoconsideraoassassinatocomoo¦imiteque ele
deve,seaissolorlevado,consagraratra\esdaproprramorte,tambem
a\iolênciasopode serumlimite extremo que se contrapõeauma
outraviolência,como,porexemplo,nocasodainsurreiçäoSeoexces-
sodain|ustiçalazcomqueelase|ainevit+vel,ore\oltadorecusaante-
cipadamenteavrolênciaaser\içodeumadoutrrnaoudeumarazäode
Lstado.Jodacrisehistorica,porexemplo,terminapelasinstituições
Senäotemospodersobreapropriacrise,queepurorisco,nosotemos
sobreasinstitarções,|+quepodemosdel·:i-las,escolheraquelaspelas
quaislutamos, inclinando, assim, nossalutanasuadireçäo Aaçäo
revoltadaautênticasoir+consentiremarmar-seporinstitaiçõesque
limrtemaviolêncra,näoemlavordaquelasqueacodiEquem.Sovalea
penamorrerporumarevoluçäoqueassegaresemde¦ongaasupressäo
dapenademorte,näo\aleapenaserpresoporela,anäoserqueelase
recusedeantemäoaaplicarcastrgossemtermrnoprevsivel Sea vro-
lênciadainsurreiçäosedesenrolanosentidodessasinstitaições,anun-
ciando-as com a maior lreqüência possivel, esta ser+ a sua única
maneiradeserverdaderramentepro\rsoria.Quandoohmeabso-
luto,istoe, dopontodevistahistorico,quandoseachaqueelee
certo,pode-sechegarasacriEcarosoutros. Senäoloresseocaso,
näosepodesacriEcarsenäoasimesmonumalutapeladignidade
comumÒEm|ustihcaosmeiosr É possivelNasquem|ustiEca-
r+ o Em` Aestaquestäo, que o pensamento historicodeixa pen-
dente,are\oltaresponde.osmeios.
Quesignilica umatalatitude em politrca` L,antesde mais
nada, ela e eEcaz` Ie\emos respondersem hesitaçäo que atual-
335
ALBERT CAMUS
menteelaeaúnicaatitudeeEcaz ¡+duasespeciesdeeEc+cia,a
dotul¯oe adaseiva Ò absolutismohistoricon¯o e elicaz, ele e
eliciente, ele tomou e conservou o poder. Imavez munido do
poder,eledestroiaúnicarea¦idadecriadoraAaç¯ointransigentee
limitada,oriundadarevolta,mantemestarealidadeetentaapenas
ampli+-lacadavezmais.N¯osedissequeestaaç¯on¯opodeven-
cer Ò quesedize queelacorreo riscoden¯ovencere morrer.
Naloubemarevo¦uç¯ocorrer+esseriscoouent¯oconlessar+que
n¯oe mais queumempreendimento denovos senhores, passivel
desercastigadacomomesmodesprezo. Imarevoluç¯oseparada
dahonratraisuasorigens,quepertencemaoreinodahonra.£m
todoocaso,suaescolhalimita-seaeEc+ciamaterial,aonada,ouao
risco, eacriaç¯o. Òsantigosrevolucion+riosagiamcomamaior
urgênciaeseuotimismoeracompleto¡o|e, porem,aclarividên-
ciae aconsciência do espirito revolucion+rio cresceram, eletem
atr+sde si 1 50 anos deexperiência, sobre os quaispoderelletir.
Alem disso, arevoluç¯o perdeu seu prestigio delesta. ¡o|e n¯o
passadeumprodigiosoc+lculo,que seestendeaouniverso. £la
sabe,aindaquen¯ocostumeconless+-lo,queser+mundialouen-
t¯o n¯o existir+. Suas oportunidades equilibram-secomosriscos
de umaguerrauniversa¦, que, mesmo emcasodevitoria, solhe
olerecer+oImperiodasruinas.£lapodeent¯ocontinuarhelaseu
niilismoeencarnarnosossu+riosaraz¯oúltimadahistoria.Seria
necess+riorenunciaratudo,excetoamúsicasilenciosaqueainda
ir+transligurarosinlernosterrestres. Nasoespiritorevolucion+-
rio,na£uropa,tambempode,pelaprimeiraeú¦timavez,reletir
sobre os seusprincipios eperguntar-sequaleo desvio queo laz
perder-senoterrorenaguerra, reencontrando,comas razões de
suarevolta,sualidelidade.
336
}
£IIIA£
_
£SN£I!IA
_
s desvios revolucion+rios explicam-se em primeiro lugar pela
ignoranciaou pelodesconhecimentosistem+ticodesselimiteque
pareceinsepar+veldanaturezahumanaequearevolta,|ustamen-
te,revelaÒspensamentosniilistas,pordesprezaremessalrontei-
ra,acabamlançando-senummovimentounilormementeacelera-
do. Nadamaisosdetememsuasconseqüênciase eles|ustiEcam,
ent¯o,adestruiç¯ototalouaconquistaindelinidaSabemosagora,
aoEmdestalongapesquisasobrearevo¦taeoniilismo,quearevo-
luç¯o sem outros ¦imites que n¯o a eEc+cia historica signilica a
servid¯oilimitada.Iaraescaparaessedestino,oespiritorevolucio-
n+rio,sequisercontinuarvivo,deveportantovoltararetemperar-
senaslontesdarevolta,inspirando-seent¯onoúnicopensamento
helaessaslontes,opensamentodoslimites.Seolimitedescoberto
pelarevo¦tatudo transhgura, setodopensamento, toda aç¯o que
u¦trapassaumdeterminadopontonega-seasipropria,h+,eletiva-
mente, uma medida das coisas e do homem £m historia, assim
comoempsicologia, arevoltaeumpênduloirregulat,queoscila
aleatoriamenteembuscadeseuritmoprolundo Nasessemovi-
mento pendular n¯o e completo. £le lunciona em torno de um
pivê. Aomesmotempoquesugere umanaturezacomumaosho-
337
ALBERT CAMUS
mens,arevoltatrazaluzamedidaeolimrtequeest¯onoproprio
principiodessanatureza
Atualmentetodaretex¯o,niilistaoupositiva,asvezessemsabê-
lo,d+origemaessamedidadascoisasqueapropriaciênciaconlr-
ma Òsquanta, arelatividadeateomomento,asrelaçõesdeincer-
tezadelnemummundo que sotemrealidadedeEnivelna escala
degrandezasmediasqueeanossa'`Asideologiasqueorientamo
nossomundo nasceramno tempo das grandezas cientiEcasabso-
lutas. Þossosconhecimentosrearssoautorrzam,aocontr+rio,um
pensamentodegrandezasrelativas.' ' inteligênciaeanossalacul-
dadeden¯olevarateoEmaquiloquepensamos,paraquepossa-
mosacreditarnarealidade" ,dizIazareIickelÒpensamentoapro-
ximativoeoúnicogeradordereal ' ``
Aspropriastorçasmateriais,emsuamarchacega,impõemos
seusproprioslimitesIorisso,einútilquererreverteratecnica.A
eradarodadetearn¯o existemais, eo sonhodeuma civilizaç¯o
artesanal e v¯o A m+quina so n¯o e boa em seu modo de usar
atual.É precisoacertarseusbenelicros, mesmoserecusamossuas
devastações Òcaminh¯o,dirigidoaolongodos dias edasnoites
por seu motorista, n¯o humilha o motorista, que o conhece por
inteiro e o utiliza com aleto e elc+cia. A desumanaeverdadeira
desmedida est+ na divis¯o do trabalho Nas, de desmedida em
desmedida, chegaodiaemqueumam+quinade cem operações,
mane|adaporumúnicohomem, criaumúnicoob| eto £sseho-
mem,numaescaladilerente,ter+reencontradoempartealorçade
criaç¯oqueeletinhanotempodoartesanato.Òprodutoranênimo
I07
A esse respeito, ver o excelente e curioso artigo de Lazare Bickl, "La physique confirme la
philosophie" (A física confirma a filosofia). Empédocls, número?.
lOBA ciência de hoje trai suas origens e nega suas próprias conquistas ao deixar que a coloquem a
serviço do terrorismo de Estado e do espírito de poder. Seu castigo e sua degradação são de só
produzirem meios de destruição ou de escravização, em um mundo abstrato. Mas, quando o
limite for atingido, a ciência servirá talvez à revolta individual. Esta terrível necessidade marcará
a virada decisiva.
338
O HOMEM REVOLTADO
aproxrma-seent¯odocriadorÞaturalmente,n¯oecertoqueades-
medidaindustrialir+seguirlogoessecaminhoNas|+demonstra,
porseut·ncionamento,anecessidadedeumamedidaedespertaa
retex¯o propria para organizaressa medida Òu esse valor ser+
realizado,detodalorma,ouent¯oadesmedidacontemporaneaso
encontrar+suaregraesuapaznadestruiç¯ouniversal
£ssaleidamedidaestende-seigualmenteatodasasantinomias
dopensamentorevoltadoÞemorealernteiramenteracional,nem
oracronaletotalmentereal.Comovimosapropositodosurrealrsmo,
odese|odeunidaden¯oexigesomentequetudose|aracional.£le
queraindaqueoirracionaln¯ose|asacrilcadoN¯osepodedizer
que nada tem sentido porque, com isso, estamos alrmando um
valorconsagrado porum|uizo, nem quetudotenhaumsentido,
porqueapalavratudon¯otemsigniEcaç¯oparanos Òirracional
limitaoracional,queporsuavezlhe d+suamedida. Algo,Enal-
mente,tem sentido, algoquedevemosobterdaausênciadesenti-
do Iamesmalorma,n¯osepodedizerqueoserexistaapenasno
niveldaessêncra. Òndecaptaraessêncra,sen¯ononiveldaexis-
tênciaedodevrr`Nasn¯osepode dizerquesereapenasexistir
Algoqueest+sempreemdevirn¯opodeexistir,devehaversempre
umcomeço. Òsersopodeseprovarnodevir, odevirn¯oenada
semo ser Ò mundon¯o seachanumacondiç¯o deestabrlidade
pura,maselen¯oesomentemovimento£leemovimentoeestabi-
lidade Adialeticahistorica, porexemplo, n¯ocontinuaindeEni-
damenteembuscadeumvalordesconhecido.Llagiraemtorno
dolimite,seuvalorprimeiro. Her+clito,inventordodevrr,hava
entretantoum marcoparaesseprocessocontinuo. £sselrmiteera
simbolizado porÞêmesis,deusadamedida,latalparaosdesme-
didos Imaretex¯oquequisesselevaremcontaas contradições
contemporaneasdarevoltadeveriaprocurarasuainspiraç¯onesta
deusa
Asantinomiasmoraiscomeçamtambemaserentendidasaluz
339
ALBERT CAMUS
dessevalormediadorAvirtuden¯opodeserseparadadorealsem
tornar-seprincipiodemal Þ¯opodetampoucoidentilicar-sede
modoabsoluto com orealsemnegarasiprcpria Òvalormoral
reveladopelarevoltaest+t¯oacimadavidaedahistcriaquantoa
histcriaeavidaest¯o acimadessevalormoral.Naverdade, elesc
assumerealidadenahistcriaquandoumhomemd+suavidapor
eleouaeleseconsagra Acivilizaç¯o|acobinaeburguesasupõe
queosvaloreseste| amacimadahistcria,esuavirtudelormallun-
daent¯oumarepugnantemistiEcaç¯o.Arevoluç¯odoseculoXX
decretaqueosvaloresest¯omisturadosaomovimentodahistcria,
e sua raz¯o histcrica|ustihcaumanovamistiE caç¯o A medida,
emlacedessedesregramento,nosensinaqueeprecisoumaparce-
laderealismoemtodamoral. avirtudepurae assassina, equee
necess+riaumaparcelademoralatodo realismo. ocinismoe as-
sassinoIorisso,opalavrcriohumanit+riotemtantolundamento
quantoaprovocaç¯ocinica Ò homem, aEnal,n¯oeinteiramente
culpado,elen¯ocomeçouahistcria, nemtotalmente inocente,|+
quelhed+continuidade. Aqueles que passamdestelimiteeaEr-
mamsuainocênciatotalacabamnaloucuradaculpabilidadedeli-
nitivaArevolta,aocontr+rio,coloca-nosnocaminhodeumacul-
pabilidade calculada. Sua única esperança, embora invencivel,
encarna-se,emúltimainstancia,nosassassinosinocentes
Þestelimite,o"Þcsexistimos"deEneparadoxalmenteumnovo
individualismo."Þcsexistimos"diantedahistcria,eahistcriadeve
contarcomeste "Þcsexistimos"que,porsuavez,devemanter-se
nahistcriaJenhonecessidadedosoutrosquetêmnecessidadede
mim e decadaum Jodaaç¯ocoletiva e todasociedadesupõem
uma disciplina, e o individuo, sem essa lei, n¯o e maisque um
estranhovergando-seaopesodeumacoletividadeinimiga Nas
sociedadeedisciplinaperdemorumoaonegaremo "Þcsexisti-
mos". Sc eu, em certo sentido, suporto adignidade comum que
n¯o consigo mais degradar nem em mim nem nos outros. Lsse
340
O HOMEM REVOLTADO
individualismon¯oegozo,esemprelutae, asvezes,alegriaimpar,
no auge daorgulhosacompaix¯o
O Pensamento Mediterrâneo
Quantoasaberse umatal atitudeencontrasua express¯opolitica
nomundocontemporaneo,el+cilevocar,eistoeapenasumexem-
plo,oquesechamatradicionalmentedesindicalismorevolucion+-
rioLsteprcpriosindicalismon¯oser+ineEcaz`Arespostaesim-
ples . loi ele quem, em um seculo, melhorou prodigiosamente a
condiç¯ooper+ria, desdea|ornadadedezesseishorasateasemana
dequarentahoras.ÒImperioideolcgicolezosocialismoregredir
e destruiu a maioria das conquistas do sindicalismo É que o
sindicalismo partiadabase concreta, aproliss¯o, que est+ para a
ordemeconêmicaassim comoaComunaest+paraaordempoliti-
ca, a celulaviva sobreaqualo organismo seedilica, enquanto a
revoluç¯ocesarianapartedadoutrina, nelaintroduzindoalorçao
realÒsindicalismo,assimcomoaComuna,eanegaç¯o,emlavor
doreal,do centralismoburocr+tico e abstrato ' ¨'Arevoluç¯odo
seculoXXpretendeaocontr+rioapoiar-senaeconomia,masean-
tesdetudoumapoliticaeumaideologiaIorlunç¯o,elan¯opode
evitaroterroreaviolênciaintigidaaoreal.Apesardesuaspreten-
sões, elaparte do absoluto para modelar a realidade A revolta,
inversamente,apcia-senorealparaencaminhar-seaumcombate
109Tolain, futuro partidário da Comuna: "Os seres humanos só se emancipam no seio de grupos
naturais.
341
ALBERT CAMUS
perpetuorumoaverdadeAprimeiratentarealizar-sedecimapara
baixo, asegunda, debaixoparacima Iongedeserumromantis-
mo,arevo¦tatomaaocontr+rioopartidodoverdadeirorea¦ismo.
Sequerumarevoluçäo,e¦aaqueremlavordavida,näocontraela.
Iorisso,elaapoia-seprimeironasrealidadesmaisconcretas,como
aproE ssäo,aaldeia,nasquaistransparecemaexistência,ocoraçäo
vivodascoisasedoshomensIaraela,apoliticadevesubmeter-se
aessasverdades Iinalmente, quandoelalaz avançarahistoria e
aliviaosolrimentodoshomens,elaolazsemterror,ouatemesmo
semviolência,nascondiçõespoliticasmaisdiversas ' ' ¨
NasesteexemplotemumalcancemaiordoquepareceIreci-
samentenodiaemquearevoluçäocesarianatriunlousobreoespi-
ritosindrcalistae¦ibert+rro,opensamentorevolucion+rioperdeu,
emsi,umcontrapesodo qua¦näosepodeprivarsemconhecero
lracasso Lssecontrapeso,esseespiritoquemedeavida,eomes-
mo queanimaalongatradiçäo daquilo quese pode chamar de
pensamentosolar, noqual,desdeosgregos, anaturezasemprese
equilibroucomo devir AhistoriadaprimeiraInternacional,em
que o socia¦ismo alemäo luta semtregua contra o pensamento
libert+riodoslranceses,dosespanhoisedositalianos,eahistoria
das lutas entre a ideologia alemä e o espirito mediterraneo ' ' ' A
ComunacontraoLstado,asociedadeconcretacontraasociedade
absolutista,aliberdaderetetidacontraatiraniaracionale, Ena¦-
mente, oindividualismoaltruistacontraacolonizaçäodasmassas
säo portanto antinomias quetraduzem, deumavez portodas, o
1 1
0
As sociedades escandiavas de hoje, para dar apenas um único exemplo, mostram o que há de
artifcial e criminoso nas oposições puramente políticas. O sindicalismo mais profíuo aí se conci­
lia com a monarquia constitucional, realizando a aproximação de uma sociedade justa. O primeiro
cuidado do Estado histórico e racional foi, pelo contrário, esmagar para sempre a célula profissio­
nal e autonomia comuna!.
1 1 1Ver carta de Marx a Engels (20 de julho de 1 87 0), desejando a vitória da Iússia sobre a
França: '' preponderância do proletariado alemão sobre o proletariado francês seria, ao mesmo
tempo, a preponderância de nossa teoria sobre a de Proudhon."
342
O HOMEM REVOLTADO
longoconlrontoentreamedidaeadesmedidaqueanimaahistoria
do Òcidente desde o mundo antigo. Ò prolundo contito deste
seculotalveznäoseestabeleçatantoentreasideologiasalemäsda
historiaeapoliticacristä,que,decertalorma,säocúmplices,quanto
entreossonhosalemäeseatradiçäomediterranea,asviolênciasda
eternaadolescênciaealorçaviril,anostalgia,exasperadapeloco-
nhecimentoepeloslivros,eacoragemlorta¦ecidaeiluminadano
cursodavida,enEm,entreahistoriaeanatureza^asaideologia
alemäenessesentidoumaherdeira.Þelaseencerramvintesecu-
¦os delutaväcontraa natureza, primeiro em nome de umdeus
historicoe,emseguida,dahistoriadivinizada.Semdúvida,ocris-
tianismo soconseguiu conquistar sua catolicidade assimilando o
que podia dopensamentogrego Nas, quandoa Igre¡adissipou
suaherançamediterranea,elapêsoacentosobreahistoriaemde-
trimentodanatureza, lez triunlar o gótico sobreo romanoe, ao
destruirumlimiteemsimesma,reivindicoucadavezmaisopoder
tempora¦ e o dinamismo historico. A natureza, quedeixade ser
ob¡etodecontemplaçäoedeadmrraçäo, näopodemaisseremse-
guidasenäoamateriadeumaaçäoquevisatranslorm+-la Lssas
tendências,enäoasnoçõesdemediaçäoqueteriamleitoalorçado
cristianismo,triunlam,nostemposmodernoseemdetrimentodo
proprio cristianismo,atravesdeum¡ustoretornodascoisas.Lx-
pu¦so Ieus desseuniverso historico, nasceaideologiaalemä, na
qualaaçäonäoemaisaperleiçoamento,mas puraconquista,istoe,
tirania
Nas o abso¦utismo historico, apesar de seus triunlos, nunca
deixoudeentraremchoquecomumaexigênciainvenciveldana-
turezahumana,daqualoNediterraneo, ondeainteligênciaeirmä
daluzquecega,guardaosegredo.Òspensamentosrevoltados,os
daComunaouosdosindica¦ismorevolucion+rio,näodeixaramde
proclamaressaexigênciatantodiantedoniilismoburguêsquanto
do socialismo cesariano Ò pensamento autorit+rio, por meio de
343
ALBERT CAMUS
trêsguerrasegraçasa destruiçäolísicadeumaelitederevolta-
dos, pôde submergir essa tradiçäo libert+ria Nas essa pobre
vitoriaeprovisoria,ocombatecontinuasempre A£uropasem-
pre existiunessaluta entreluzesombras.Lla sosedegradouao
renunciara essaluta, eclipsando o diapelanoite. A destruiçäo
desseequilibriod+beloslrutosho¡eemdiaIrivadosdenossas
mediações, exilados dabeleza natural, achamo-nos novamente,
nomundodoAntigoJestamento,espremidosentrelaraoscrueis
eumceuimplac+vel
Þadesgraça comum,renasceaeternaexigência, a natureza
voltaainsurgir-secontra ahistoria Þaverdade, näo setratade
desprezarnada,nemdeexaltarumacivilizaçäoemdetrimentode
outra,massimdedizersimplesmentequeh+umpensamentodo
qual o mundo de ho¡enäopode se privar pormais tempo. H+
certamentenopovorussodoquesedarumalorçadesacrin´cioa
Luropa,naAmerica,umnecess+riopoderdeconstruçäo Nas a
¡uventude do mundo encontra-se sempre emvolta das mesmas
praias IançadosnaignobilLuropaondemorre,privadade bele-
zaedeamizade, amaisorgulhosadasraças,nos,mediterraneos,
vivemossempredamesmaluz. Þocoraçäo danoite europeia, o
pensamentosolar, acivilizaçäodeduplaE sionomiaesperasuaau-
roraNasela¡+iluminaoscaminhosdoverdadeirodominio.
Ò verdadeiro dominio consiste em criar¡ustiça a partir dos
preconceitosdaepoca,emprimeirolugardomaisprolundoemais
maleEcoquepretendequeo homemliberadodadesmedidase¡a
reduzidoaumsaberesterilÉ bemverdadequeadesmedidapode
seruma lorma de santidade, quando seu preço e a loucura de
ÞietzscheNasessaembriaguezdaalmaqueseexibenopalcode
nossaculturaser+sempreavertigemdadesmedida,aloucurado
impossivel cu¡aqueimadura nunca mais deixa aquele que, pelo
menos umavez,a elese abandonou` Irometeu nuncateve essa
Esionomiadeilotaoudepromotor`Þäo,nossacivilrzaçäovegeta
344
O HOMEM REVOLTADO
nacomplacênciadealmascovardes ourancorosas,no dese¡odas
pequenasglotiasdevelhosadolescentes.Iúcilertambemmorreu
com Ieus e, de suas cinzas, surgeumdemônio mesquinho, que
nemmesmovêmaisporondeseaventuraLm l 9´0, adesmedida
esempreum:onlortoe, asvezes,umacarreiraAmedida,aocon-
tr+rio,epuratensäo.Semdúvida,elasorri,enossosconvulsion+rios,
dedicadosaccmplexosapocalipses,desprezam-na. Nasessesor-
risoresplandece no auge de um intermin+vel eslorço. ele e uma
lorçasuplementarLstespequenoseuropeusquenosmostramuma
laceavarenta,senäotêmmaislorçaparasorrir,porquepretende-
riamdarsuasconvulsõesdesesperadascomoexemplosdesuperio-
ridade.
Averdadeiraloucuradadesmedidamorreoucriaasuapro-
priamedidaIlanäolazosoutrosmorreremaEmdecriarparasi
um +libi Þo dilaceramento mais extremo, ela reencontra o seu
limite,noqual, comoKaliayev,elasesacriEcaselornecess+rioA
medida näo eo contr+rio da revolta. Arevoltae a medida, e ela
quemaexige,quemadelendeerecriaatravesdahistoriaedeseus
distúrbios. Apropria origem desse valor nosgaranteque ele so
pode ser dila:erado. A medida, nascida da revolta, so pode ser
vivida pela revolta Lla e um contito constante, perpetuamente
despertadoedominadopelainteligência.Llanäovencenemaim-
possibilidade,nemo abismo.£laseequilibra comeles Þäoim-
portaoqueEzermos,adesmedidaconservar+sempreoseulugar
no coraçäo dc homem, no lugar da solidäo Carregamos todos,
dentrodenos,asnossasmasmorras,osnossoscrimeseasnossas
devastações Nas nossa tarela näo e solt+-los pelo mundo, mas
combatê-losemnosmesmosenosoutros. Arevolta,asecularvon-
tade de näo ceder de que lalava Iarrès, ainda ho¡eest+ na base
dessecombate.Näedaslormas,lontedeverdadeiravida,elanos
mantemsempredepe,nomovimentoselvagemedislormedahis-
toria.
345
_
I
¿
NIÒ
_
IIIISNÒ
¿
xistemportantoparaohomemumaaçäoeumpensamentopos-
siveisnonivelmedioqueeoseuQualquerempreendimentomais
ambiciosorevela-secontradrtorro.Òabsolutonäoealcançado,nem
muitomenoscriadoatravesdahistoriaApoliticanäoeareligiäo,
docontr+rio,näopassadeinquisiçäo.ComoasociedadedeEniria
umabsoluto` Jalvez cadaqual busque, portodos,esseabsoluto.
Nasasociedadeeapoliticatêmapenaso encargode ordenaros
negociosdetodos paraque cadaqualtenhao lazerealiberdade
dessa busca comum. A hrstoria näo pode mais sererrgrdacomo
ob|etodeculto Llanäoemaisqueumaoportunidade,quedeve
sertornadaprolicuaporumarevoltavigi¦ante
^obsessäopelacolheitaeaindilerençaemrelaçäoàhistoria",
escreveadmrravelmenteReneChar,"säoasduasextremidadesde
meuarco "Seotempodahistorianäoeleitodotempodacolheita,
ahistorianäoemaisqueumasombralugazecrue¦ondeohomem
näoencontra mais seuqurnhäo Quem seentregaa essa historia
näoseentregaanadae,porsuavez,nadae. Nasquemsededica
ao tempo desuavida, àcasaque delende,àdignidade dos seres
vivos, entrega-seà terra, de¦a recebendo a colheita que semeia e
nutrenovamente Säoenlmaquelesquesabem, nomomentode-
346
O HOMEM REVOLTADO
se|ado,revoltar-setambemcontraahrstoriaquealazemprogredrr.
Issosupõeumaintermin+veltensäoeaserenidadecrispadadeque
nos lalao mesmo poeta. Nas averdadeiravida est+ presente no
coraçäodessadicotomraLlaeopropriodilaceramento,oespirrto
que paira acima dos vulcões de luz, a loucura pela eqüidade, a
intransigência extenuantedamedida.Iaranos, o que ressoanos
conEnsdessalongaaventurarevoltadanäosäolormulasdeotimis-
mo,quenäotêmutrlidadenoextremodenossadesgraça,massrm
palavras de corageme deinteligência, que,|unto aomar, säoate
mesmovirtude
Þenhuma saledoria atualmente podepretenderdarmars. A
revoltaconlrontaincansavelmenteoma¦,doqualsolherestatirar
umnovo impeto. Ò homempode dominaremsitudoaquiloque
deveserdominado.Ievecorrigirnacriaçäotudoaquiloquepode
sercorrigidoLmseguida,ascriançascontinuaräoamorrersem-
prein|ustamente,mesmonasociedadeperleita.Lmseumaiores-
lorço,ohomemsópodepropor-seumadiminuiçäoaritmeticado
solrimentodomundo. Nasain|ustiçaeosolrrmentopermanece-
räoe,pormaislinitadosquese|am,näodeixaräodeserumescsn-
da¦o Ò "porquê."deIimitri Karamazovcontinuar+aecoar, a
arteearevoltaso morreräocomamortedoúltimohomem
I+semdúvidaummalqueoshomensacumulamemseude-
se|oapaixonado deunidade Nas um outro malest+naorigem
dessemovimentodesordenadoIiantedessemal,diantedamorte,
o homem, no mais prolundo desi mesmo, clama por|ustrça. Ò
cristianismo historico sorespondeu a esse protesto contra o mal
pelaanunciaçäodoreinoe,depois,davidaeterna,queexigeale
Naso solrimento desgastaaesperançaeale, elecontrnuaentäo
solit+rioesemex¡licaçäo Asmultidõesquetrabalham, cansadas
desoíreremorrer, säomultidõessemdeus Þosso¦ugar, apartir
deentäo, easeuludo,longedosantigose dos novosdoutores. Ò
cristranismohistoricoadiaparaalemdahistoriaacuradomaledo
347
ALBERT CAMUS
assassinato,que,noentanto,säosolridosnahistoria.Òmaterralrs-
mocontemporaneo|ulga, damesmalorma,responderatodasas
perguntas. Nas, escravo dahistoria, eleaumentao dominiodo
assassinato historico,deixando-o ao mesmotemposem|ustilca-
çäo,anäosernoluturo,que,aindaumavez,exigeale.Lmambos
oscasos,eprecrsoesperar,e,enquantoisso,osrnocentesnäodei-
xam demorrer H+vinte seculos, asomatotaldomal näodimi-
nuiunomundo.Þenhumaparúsia,querdivinaourevolucion+ria,
serea¦izou Imain|ustiçacontrnuaimbrrcadaemtodosolrrmen-
to,mesmoomaismerecidoaosolhosdoshomens.Òlongosilên-
ciodeIrometeudiantedaslorçasqueooprimemcontinuaagri-
tarNas,nesseinterrm,Irometeuviuoshomenssevoltaremtam-
bemcontraele,ridicularizando-oLspremidoentreomalhumano
e o destino, oterroreo arbitrio, solherestasualorçaderevolta
para salvar do assassinato aqui¦o que ainda pode ser salvo, sem
cederaoorgulhodablaslêmia
Compreende-seentäoquearevoltanäopodeprescrndirdeum
estranhoamor.AquelesquenäoencontramdescansonememIeus,
nemnahistorraestäocondenadosavrverparaaquelesque,como
eles,näoconseguem viver. para os humilhados Ò corol+rro do
movimento mais puro da revolta e entäo o grito dilacerante de
Karamazov.senäoloremsa¦vostodos,dequeserveasalvaçäode
um so` Iessa lorma, condenadoscato¦rcos, nas masmorras da
Lspanha,recusamho|eacomunhäo,porqueospadresdoregrme
tornaram-na obrigatoria emcertas prisões. Jambem eles, únicas
testemunhasda inocênciacrucilcada, recusamasalvaçäo,seseu
preço e a rn|ustiça e a opressäo. Lssa loucagenerosrdade e a da
revolta, queolerta semhesrtaçäosualorçadeamor, erecusape-
remptoriamenteain|ustiça.Suahonraedenäocalcu¦arnada,dis-
trrbuirtudonavidapresente,eaosseusrrmäosvivos. Iestalorma,
elaeprodigaparaoshomensvindouros. Averdadeiragenerosida-
deemrelaçäoaoluturoconsisteemdartudonopresente.
348
O HOMEM REVOLTADO
Com isso,arevo¦taprovaqueelae o proprio movimentoda
vidae que näo se pode neg+-la sem renunciara vrda. Seu grito
maispuro,acadavez, lazcomqueumserserevolte.Iortanto,ela
eamorelecundidadeouentäonäoenada.Arevoluçäosemhonra,
arevoluçäo doc+lculo,que,aopreleriro homem abstratoaoho-
memdecarneeosso,negaaexrstêncratantasvezesquantoneces-
s+rio,co¦ocaoressentimentono¦ugardoamor.Jäologoarevolta,
esquecidadesuasorigensgenerosas,deixa-secontaminarpelores-
sentimento, elanegaavida, correndo paraadestruiçäo,lazendo
sublevar-seaturbazombeteiradepequenosrebeldes,embriõesde
escravos,queacabamseolerecendoho|e,emtodososmercadosda
Luropa,aqualquerservrdäo. Llanäoemaisrevoltanemrevolu-
çäo,masrancoretiraniaLntäo,quandoarevoluçäo,emnomedo
poderedahistoria,torna-seestamecanicaassassinaedesmedida,
umanovarevoltaeconsagrada,emnomedamoderaçäoedavida.
Lstamosnesteextremo.Þolmdestastrevas, einevrt+vel,noen-
tanto,umaluz,que|+seadivinha -bastalutarparaqueelaexista.
Iaraa¦emdoniilismo,todos nos, emmeioaosescombros,prepa-
ramosumrenascimento.Naspoucossabemdisso.
L|+arevolta,naverdade,sempretendertudoresolver,podepe¦o
menostudoenlrentar. Apartirdesteinstante, aluz|orrasobreo
proprio movimento da hrstoria. Lm torno dessa logueira
devoradora, combates de sombras agitam-se por um momento,
depois desaparecem, e cegos, tocando suas p+lpebras, exclamam
queistoeahistoria.ÒshomensdaLuropa,abandonadosassom-
bras, desvraram-se dopontolxoe reluzente. Llestrocamo pre-
sente pelo luturo, a humanidade pelailusäo do poder, a miseria
dossubúrbios porumacidadelulgurante,a|ustiçacotidianapor
umaverdaderraterraprometrda.Ierdemaesperançanalrberdade
daspessoasesonhamcomumaestranhaliberdadedaespecie,re-
cusamamortesolit+riaechamamdeimorta¦idadeumaprodigiosa
349
ALBERT CAMUS
agoniacoletivaÞäoacreditammaisnaquiloqueexiste,nomundo
enohomemvivo, osegredodaLuropaequee¦anäoamamaisa
vida Òsseuscegosacreditaramdemodopuerilqueamarumúni-
co diadavida equivalia a|ustilicar seculosinteiros de opressäo.
Iorisso,quiseramapagaraa¦egriadoquadrodomundo, adian-
do-aparamais tarde Aimpaciênciadoslimites, arecusadavida
naduplicidade,odesesperodeserhomemlevaram-nos,lna¦men-
te,aumadesmedidadesumana.Aonegarema|ustagrandezada
vida,precisaramapostarnasuapropriaexcelência.Þalaltadecoi-
samelhor,e¦essedivinizaramesuadesgraçacomeçouestesdeu-
sestêmosolhosvazadosKaliayeveseusirmäosdomundointeiro
recusam,pe¦ocontr+rio,adivindade,|+quere|eitamopoderilimi-
tado de matar Llesescolhem,e nosdäo como exemplo, aúnica
regraoriginalemnossosdias.aprenderavivereamorrere,para
serhomem,recusar-seaserdeus
Þomeio-diadopensamento,arevoltarecusaadivindadepara
compartilharaslutaseodestinocomuns.Þosescolheremos
¡
taca,
aterraíiel,opensamentoaudaciosoelrugal,aaçäolúcida,agene-
rosidadedohomemquecompreende.Þaluz,omundocontinuaa
sernossoprimeiroeúltimoamor Þossosirmäos respiram sob o
mesmo ceu que nos, a|ustiça est+viva Þasce entäo a estranha
alegriaquenosa|udaavivereamorrereque,deagoraemdiante,
nosrecusamosaadiarparamaistarde. Þaterradolorosa,elaeo
|oio inesgot+vel, o amargo alimento, o vento lorte quevem dos
mares, aantigaeanovaaurora. Come¦a,aolongodoscombates,
iremosrelazeraalmadestetempoeumaLuropaquenadaexc¦ui-
r+. Þemesselantasma, Þietzsche, que, durante doze anos apos
suaderrocada,oÒcidenteiaevocarcomoaimagemarruinadade
suamaiselevadaconsciênciaedeseuniilismo,nemesseproletada
|ustiçasem ternura, que descansa, por um erro, na quadra dos
increusnocemiteriodeHighgate,nemamúmiadeiíicadadoho-
memdeaçäoemseucaixäodevidro,nemnadadoqueainteligên-
350
O HOMEM REVOLTADO
ciaeaenergiadaLuropalorneceramincessantementeaoorgulho
deumaepocadesprezivelJodos,naverdade,podemreviver|unto
aos m+rtires de l 90´, mas com a condiçäo de compreender que
e¦es secorrigemunsaosoutrose que, sob osol,umlimiterelreia
todos.ImdizaooutroquenäoeIeus,aquiseencerraoroman-
tismoÞessahoraemquecadaumdenosdeveretesaroarcopara
competirnovamenteereconquistar, nae contraahistoria,aquilo
que¡+possui,amagracolheitadeseuscampos,obreveamordesta
terra,nomomentoemque,linalmente,nasceumhomem,epreci-
so renunciar a epoca e aos seus lurores adolescentes Ò arco se
verga, amadeirageme Þoaugedatensäo,alçar+vêo, emlinha
reta,umatechamaisinllexivelemaislivre
3 5 1
Este livro foi composto na tipologia Caslon
Old Face em corpo 1 1/13 e impresso em papel
Offset 7 5g/m2 no Sistema Digital Instant Duplex
da Divisão Gráfica da Distribuidora Record.
seguinte, Camus era reconhecido pela
Academia Sueca e recebia o Nobel de
Literatura. Ainda assim, suas idéias não
chegaram a ser "reabilitadas" pelos que as
atacaram. Livro ambicioso que é talvez
um dos mais enfáticos e apaixonados
libelos antiautoritários já escritos,
O Homem Revoltado continuou sendo
tratado com a frieza e a acomodação que
critica tão veementemente.
Mais de 50 anos depois de sua
primeira publicação, com as disputas
ideológicas e os questionamentos
existenciais da humanidade radicalmente
deslocados de seus eixos, o livro
adquire uma dimensão especial. Não
é possível mais ignorar crimes contra a
humanidade sejam quais forem seus
pretextos revolucionários.
A revolta não desculpa tudo. É assim que
o humanismo proposto por
Camus revela-se fundamental para
aqueles que preferem defender os seres
humanos antes de defenderem sistemas
teóricos abstratos. E é por isso e muito
mais que O Homem Revoltado é um
dos livros mais importantes do século.
]OÃO DOMENECH ÜNETO
C O Homem Revoltado
 
((Há crimes de paixão e crimes de lógica.
O código penal distingue um dO outro,
bastante comodamente, pela
premeditação. Estamos na época da
U
premeditação e do crime perito. Nossos

criminosos não são mais aquelas crianças


desarmadas que invocavam a descula

do amor São, ao contrdrio, adu. ltos, e seu

dlibi é irreftdvel: a flosofa pode servir
para tudo, até mesmo para tranirmar
• •
* 77
assassznos em ;uzzes.
I SBN 978-8 5-01 -04548-5