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Controvérsias sobre a desindustrialização no Brasil

Gabriel Coelho Squeff *

Resumo

Este artigo discute a hipótese de desindustrialização brasileira a partir de indicadores não usualmente
encontrados na literatura e com base em dados inéditos sobre o estoque de emprego formal na economia.
Todas as estatísticas apresentadas no trabalho foram classificadas segundo a taxonomia da OCDE, o que
permitiu avaliar a referida hipótese sob uma perspectiva mais ampla do que a comumente utilizada.
Assim, embora seja indiscutível a redução da participação da indústria no PIB e a especialização das
exportações brasileiras em produtos de baixo valor agregado, o que reforça a tese de que já está em curso
um processo de desindustrialização no Brasil, dados relativos à produção, emprego e produtividade dentro
da indústria e vis-à-vis os demais setores da economia apontam que o setor manufatureiro brasileiro ainda
é relevante, contrariando, em grande medida, àquela conclusão.

Abstract

This paper discusses the de-industrialization hypothesis in Brazil based on indicators usually not found in
the literature and based on unpublished data of the stock of formal employment in the economy. All the
data presented in this paper were classified according to OCDE taxonomy, which allowed evaluating that
hypothesis in a broader perspective than that is commonly found. In that sense, while it is impossible to
deny the reduction in the industry share of GDP, and the specialization of Brazilian exports in products
with low added value, reinforcing the argument that there is an ongoing process of deindustrialization in
Brazil, data regarding production, employment and productivity within industry and vis-à-vis other
sectors of the economy suggest that the Brazilian manufacturing sector still relevant, as an opposite result
to that conclusion.

1. Introdução
A discussão acerca da hipótese de desindustrialização brasileira ganhou
notoriedade entre os pesquisadores e formuladores de política econômica nos últimos
anos. Embora existam diversos estudos teóricos e empíricos que abordam esta temática,
o debate ainda possui algumas lacunas que certamente comprometem uma avaliação
mais robusta deste fenômeno.
Neste sentido, verificamos que o assunto é muitas vezes abordado sem uma
definição clara do termo e que, adicionalmente, há uma excessiva concentração da
pesquisa aplicada em torno da participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB)
ou no Valor Adicionado Bruto (VAB). Assim, sob estas óticas, é lugar-comum concluir
que o Brasil está passando por um processo inequívoco de desindustrialização, haja
vista que a relevância da indústria, tanto como proporção do PIB quanto como
porcentagem do VAB, apresentou uma forte redução nas últimas décadas.
Isto posto, este trabalho discute a desindustrialização sob uma perspectiva mais
ampla, considerando a evolução de indicadores de produção, emprego, produtividade e
relativos ao setor externo tanto da indústria vis-à-vis os demais macro-setores da
economia, quanto a partir de uma análise intra-industrial
1
. Neste sentido, o trabalho
contribui para a discussão ao apresentar estatísticas inéditas relativas ao estoque de
trabalhadores formal na economia e com relação à sua distribuição dentro da indústria.
Ademais, outra contribuição ao debate reside no fato de que todas as estatísticas
reportadas foram agrupadas e avaliadas sob a ótica do nível de intensidade tecnológica

* Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Pesquisas Macroeconômicas do Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (DIMAC/IPEA). E-mail: gabriel.squeff@ipea.gov.br.

1
Doravante utilizaremos os termos indústria, indústria de transformação e setor manufatureiro
indistintamente. Isso implica, pois, que a indústria extrativa não é objeto de análise neste trabalho.
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
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estabelecido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE)
2
, o que permite uma avaliação mais pormenorizada da desindustrialização no
Brasil.
Para tanto, o trabalho está dividido em quatro seções além desta introdução. Na
seção 2 são apresentadas algumas das justificativas teóricas acerca da relevância da
indústria para o crescimento econômico. Adicionalmente, são conceituados os termos
desindustrialização e doença holandesa, usual e equivocadamente tratados como
sinônimos. Na seção seguinte é realizada uma extensa revisão da literatura sobre o tema,
destacando os trabalhos aplicados à realidade brasileira. A seção 4, por seu turno,
apresenta dados de produção, emprego, produtividade e de exportação/importação da
indústria brasileira com ênfase na evolução intra-setorial segundo intensidade
tecnológica. Por fim, como de praxe, na última seção são tecidas as considerações
finais.

2. Relevância da indústria e conceituação de desindustrialização e doença
holandesa
Um dos mais proeminentes autores que tratam da relevância da indústria na
economia foi Nicholas Kaldor. Em um artigo de 1966, o autor discute as causas da
baixa taxa de crescimento do Reino Unido vis-à-vis outras doze economias
desenvolvidas. A partir de algumas regressões o autor identificou uma forte associação
entre a taxa de variação do setor manufatureiro e taxa de variação do Produto Interno
Bruto (PIB). Em outras palavras, verificou-se uma correlação positiva entre a taxa de
crescimento do produto como um todo e a taxa de crescimento do setor manufatureiro
desde que esta última exceda a taxa de crescimento do restante da economia
3
. Esta
situação caracterizaria, portanto, a fase de aumento da participação da indústria no PIB.
Em face desta evidência, Kaldor (1966) levanta algumas hipóteses que
justificariam esta associação. Supõe-se que, como há diferenças nas taxas de
crescimento entre os setores, estas devam estar fortemente associadas à diferentes taxas
de crescimento da produtividade. Assim, como o nível da produtividade na indústria era
maior do que o verificado nos demais setores, um rápido aumento da produtividade
industrial elevaria a produtividade média da economia. Adicionalmente, sendo a
manufatura o locus onde ocorre a maior parte da inovação tecnológica, uma maior
concentração industrial aumenta a produtividade da economia. A avaliação da relação
produto por trabalhador nos demais setores, contudo, foi incapaz de explicar o referido
diferencial nas taxas de crescimento da produtividade dentro da economia.
Alternativamente, é possível que a taxa de crescimento econômico esteja
associada ao tamanho do setor manufatureiro na economia. Neste caso, os países que
possuíssem uma alta participação de emprego no setor manufatureiro frente aos demais
setores apresentariam maiores elevações no PIB. Todavia, a avaliação da condição do
Reino Unido à época serve para refutar esta hipótese, haja vista a elevada quantidade de
trabalhadores na manufatura e baixa taxa de variação do produto nestes países.

2
Apresentaremos e utilizaremos a classificação da OCDE na seção 4.
3
Kaldor (1966) inicialmente regrediu a taxa de crescimento do PIB total contra a taxa de crescimento do
PIB da indústria. Visando corroborar a forte correlação encontrada, o autor utilizou outras variáveis
dependentes. Com a taxa de crescimento do produto não-industrial (agricultura + serviços) os coeficientes
estimados foram muito parecidos com os da primeira regressão. Tanto com o PIB da agricultura quanto
com o PIB do setor de mineração não foram encontradas correlações significativas. Já com produto dos
serviços a constante da regressão foi praticamente zero e o coeficiente próximo à unidade, o que indica,
na visão do autor, um sentido inverso de causalidade – a taxa de crescimento do PIB que determina a taxa
de crescimento do produto dos serviços.
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Por fim, a existência de economias de escala (retornos crescentes) na indústria
faz com que a produtividade tenda a crescer mais rapidamente à medida que o produto
aumente. Esta é, segundo o autor, a verdadeira causa subjacente à associação empírica
entre o crescimento da produtividade e o crescimento da produção. Essa relação,
também conhecida como lei de Verdoorn, seria dinâmica, isto é, entre a taxa de variação
da produtividade e o produto, em vez de estática (entre o nível da produtividade e o
produto) notadamente por conta do papel desempenhado pelo progresso tecnológico.
Outra característica intrínseca à manufatura que é relevante ao processo de
desenvolvimento econômico de um país é o seu dinamismo inter-setorial, expresso pela
geração de externalidades positivas facilmente transmitidas ao restante da economia.
Esse transbordamento das atividades industriais para os demais setores decorre do fato
de que sua expansão está associada à absorção de produtos e commodities produzidos
no setor agrícola e de mineração, assim como requer a contratação de diversos tipos de
serviços, tais como serviços bancários, advocatícios, contábeis, limpeza, etc.
Entretanto, um dos fatos estilizados do processo de desenvolvimento econômico
dos países é a mudança na composição do PIB ao longo dos anos. De maneira geral,
inicialmente a agricultura responde por uma participação elevada no produto dos países.
Após alguns anos este setor começa a perder espaço para a indústria, cuja participação
aumenta inclusive por conta de uma redução dos serviços no produto total. Finalmente,
este último passa a crescer e preponderar sobre o PIB. O caso brasileiro, como pode ser
visto no Gráfico 1, não foge à regra:

Gráfico 1 – Participação no valor adicionado bruto a preços básicos
Agropecuária
Indústria
Serviços
0,0%
10,0%
20,0%
30,0%
40,0%
50,0%
60,0%
70,0%
80,0%
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9
4
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4
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0
0
1
2
0
0
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2
0
0
5
2
0
0
7

Fonte: IBGE. Elaboração do autor.
Obs: excepcionalmente, neste caso Indústria se refere tanto à Indústria Extrativa quanto à Indústria de
Transformação.

Este comportamento da indústria, sob a forma de um U invertido, é ainda mais
proeminente na indústria de transformação, como mostraremos na seção 3. Contudo, o
ponto relevante no presente momento é que este processo, usualmente denominado de
desindustrialização, traz consigo uma conotação negativa, tendo em vista a abordagem
teórica brevemente discutida acima.
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Neste sentido, existem autores que defendem que o processo de
desindustrialização brasileiro ocorreu de forma prematura, vis-à-vis os países em
desenvolvimento, e decorreu da chamada Dutch Disease. Este termo foi cunhado em um
artigo homônimo publicado revista The Economist em 1977, no qual se estabeleceu uma
relação de causalidade entre a apreciação cambial da moeda local em decorrência da
descoberta de grandes reservas de gás natural na Holanda nos anos 1960. O aumento
das exportações destas commodities, por seu turno, teria reduzido a rentabilidade das
vendas externas de produtos industrializados, reduzindo a participação das manufaturas
e dos serviços no PIB.
Porém, a despeito de ter havido uma redução das exportações holandesas no PIB
ao longo da referida década, este processo não se mostrou perene. Pelo contrário. De
acordo com dados da OCDE, essa relação que era 43% no final dos anos 1960 passa
para mais de 79% do PIB em 2010. Isso ocorreu pari passu uma queda da indústria
como proporção do PIB: de acordo com o mesmo recorte temporal, a queda foi de 27%
para 16% na indústria como um todo e de 24% para 12% no caso da indústria de
transformação.
Isso posto, fica claro que apesar da desindustrialização (no sentido pejorativo do
termo) não ter ocorrido na Holanda, o conceito se propagou como doença holandesa e é
muito utilizado atualmente. Logo, antes de adentrar na revisão da literatura teórica e
empírica sobre o tema, resta apenas destacar em que medida este fenômeno pode ser
entendido com sendo, de fato, uma doença.
A Dutch Disease deve ser entendida como uma das faces em que se manifesta a
chamada maldição dos recursos naturais (natural resource curse). Como destacam
Sachs e Warner (1995), chama a atenção que países ricos em recursos naturais têm
baixas taxas de crescimento econômico. Este fato pode ser verificado quando se
compara a média da taxa de crescimento anual do PIB por população economicamente
ativa dos países vis-à-vis a participação das exportações de produtos intensivos no PIB.
Na visão dos autores este fenômeno se constitui em um quebra-cabeça conceitual, haja
vista que, a priori, a presença de recursos naturais aumenta a riqueza e eleva o poder de
compra sobre as importações o que, conseqüentemente, deveria aumentar o
investimento e a taxa de crescimento.
Do ponto de vista teórico existem algumas justificativas para esta associação
entre baixas taxas de crescimento econômico e a existência de recursos naturais
abundantes. Argumenta-se que há falta de externalidades positivas no setor produtor de
commodities no que concerne à divisão de trabalho, vez que esta é mais complexa no
setor manufatureiro, o que leva a um padrão de vida mais elevado. Além disso, os
recursos naturais tendem a ser um setor declinante a nível mundial. Na abordagem de
Presbisch (1950), a deterioração dos termos de troca dos produtos agrícolas em relação
aos produtos manufaturados seria um obstáculo aos modelos de crescimento baseados
em recursos naturais. Adicionalmente, a volatilidade dos preços dos recursos naturais
configura um problema, na medida em que a incerteza nas decisões dos produtores de
commodities se propaga para os demais setores da economia, notadamente aqueles
também intensivos em recursos naturais (Sachs e Warner 1995).
Contudo, alguns autores argumentam que a especialização da produção de
produtos primários não é necessariamente restritiva ao crescimento; o que ocorre é que
muitos países exportadores de matérias-primas não desenvolvem também sua
habilidades em exportar produtos manufaturados e isso explicaria o porquê da
associação empírica negativa entre recursos naturais e crescimento econômico
4
. Neste

4
Frankel (2010) faz uma extensa revisão da literatura empírica acerca desta associação.
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sentido, a concentração da produção de matérias-primas não é nociva ao
desenvolvimento econômico de um país desde que estas gozem de vantagens
comparativas. Adicionalmente, é possível identificar características de learning-by-
doing nos bens não-comercializáveis, minerais e agrícolas, tal como nas manufaturas
(Frankel 2010).
Bresser-Pereira (2007 e 2008), por sua vez, avalia a doença holandesa no Brasil
como sendo uma falha de mercado decorrente da abundância de recursos naturais e de
mão-de-obra baratos, cuja produção é compatível com uma taxa de câmbio valorizada.
Verifica-se, assim, a presença de rendas ricardianas para o país vez que os custos de
produção e, conseqüentemente, os preços desses produtos intensivos em recursos
naturais são menores do que aqueles verificados internacionalmente, cujo preço é
determinado pelo produtor que possui a menor eficiência neste mercado. O problema
reside no fato de que diversos outros produtos comercializáveis se tornam inviáveis de
serem produzidos a este nível de câmbio. Ademais, a exportação deste produto é um dos
fatores responsáveis pela valorização da taxa de câmbio.
Em linhas gerais, portanto, os efeitos esperados de um aumento nos preços de
commodities são os seguintes: i) elevada apreciação cambial; ii) aumento nos gastos do
governo, em função do aumento da receita proveniente de impostos e royalties
5
; iii)
aumento nos preços dos bens não comercializáveis relativamente aos bens
comercializáveis (exceto commodities); iv) transferência de recursos e realocação de
fatores de produção dos setores comercializáveis (exceto commodities) para os setores
produtores de matérias-primas e de não comercializáveis devido aos maiores retornos
nestes dois últimos; e, v) déficit em conta corrente.
Assim, este processo será efetivamente uma ―doença‖ na medida em que: a
priori, uma taxa de câmbio valorizada desestimula as exportações
6
; é muito custoso aos
países ajustar suas contas fiscais quando há a reversão dos preços das commodities,
especialmente por conta do caráter pró-cíclico das despesas do governo; gera-se uma
distorção de preços relativos e repasse do aumento dos preços das commodities para a
inflação doméstica; podem faltar recursos para fomentar atividades de alto conteúdo
tecnológico, cujas externalidades para o restante da economia são superiores às
verificadas com a produção de matérias-primas; pode haver uma especialização
excessiva na fabricação de alguns produtos, a despeito das vantagens comparativas
(estáticas) de cada país; por fim, o país pode ter dificuldades de financiar o déficit em
conta corrente quando houver uma mudança nos preços das commodities (Bresser-
Pereira 2007 e 2008; Frankel 2010, Fischlow e Bacha 2010, Palgrave 2010).
Na próxima seção é feita uma breve resenha da literatura sobre
desindustrialização e doença holandesa, destacando os trabalhos empíricos que versam
sobre o caso brasileiro.

3. Revisão da Literatura
Inicialmente cumpre diferenciar os trabalhos que tratam da desindustrialização
exclusivamente sob a ótica do emprego (por exemplo, Rowthorn e Ramaswamy, 1997;
Rowthorn e Ramaswamy, 1999; Rowthorn e Coutts, 2004; Palma, 2005), daqueles que

5
A principal crítica do artigo seminal da revista The Economist residia no fato que o governo holandês
havia sido irresponsável ao financiar a expansão do estado de bem-estar social com recursos instáveis
(flutuação de preços) e esgotáveis.
6
Contrariamente ao que preconizam os livros-texto de macroeconomia, Schetinni, Squeff e Gouvêa
(2011) estimaram uma função para as exportações brasileiras agregadas a partir das contas nacionais
trimestrais, com base em diferentes metodologias econométricas, e encontraram fortes evidências de que
as vendas externas brasileiras agregadas são muito pouco sensíveis à taxa de câmbio real.
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abordam esta temática a partir da de uma perspectiva mais ampla, considerando
também a participação da indústria no valor adicionado ou no PIB, composição intra-
setorial da indústria, evolução da produtividade e composição das
exportações/importações, como em Bonelli (2005), Feijó et al (2005), Dasgupta e
Singh (2006), Shafaeddin (2005), Nassif (2008) e Bonelli e Pessoa (2010).
No que concerne às conclusões para o caso brasileiro não há consenso. Alguns
autores defendem a existência de um processo de desindustrialização restrita a alguns
setores, tal como em Feijó et al (2005). Outros avaliam que este processo está mais
disseminado e seus efeitos nocivos ao crescimento do PIB já podem ser sentidos há
alguns anos (por exemplo, Bresser-Pereira, 2007; Oreiro e Feijó, 2010). Por fim,
existem aqueles que não identificam a queda da participação da indústria no PIB e no
emprego total
7
como algo ruim (Nassif 2008, Bonelli e Pessoa 2010, entre outros).
Como era de se esperar, muitos dos argumentos apontados pela literatura para
justificar a desindustrialização estão calcados no referencial teórico mencionado na
seção anterior. Em linhas gerais, é possível agrupar tais justificativas em sete grandes
grupos, a saber:
1. Diferencial de produtividade: a produtividade tende a ser maior na
indústria do que nos demais setores da economia, sobretudo por conta de
mudanças tecnológicas que usualmente ocorrem na manufatura. Isso possibilita
uma rápida mudança (queda) nos preços relativos dos produtos, fazendo com
que a indústria tenha uma participação inferior no PIB do que os setores de
produtividade mais baixa. Adicionalmente, essa alteração nos preços relativos
estimula a substituição de bens manufaturados por serviços. Por fim, a
competição com produtos importados em decorrência da abertura comercial
também tende a aumentar a produtividade industrial (Rowthorn e Ramaswamy,
1997; Rowthorn e Ramaswamy, 1999; Rowthorn e Coutts, 2004; Palma, 2005;
Bonelli, 2005; Feijó et al, 2005; Bonelli e Pessoa, 2010);
2. Elasticidade-renda das manufaturas: a elasticidade-renda de
produtos manufaturados é elevada em países pobres e reduzida nos países ricos,
o que explica porque a participação da indústria no emprego e no produto
aumenta nos primeiros e cai nos últimos (Rowthorn e Ramaswamy, 1999;
Palma, 2005);
3. Especialização / terceirização: diversas atividades do processo
fabril não são mais realizadas dentro das indústrias, mas desenvolvidas por
empresas prestadoras de serviço. Portanto, parte do declínio do emprego na
indústria é um ―artefato estatístico‖ decorrente da terceirização de atividades
outrora realizadas dentro das fábricas (Rowthorn e Coutts, 2004; Palma, 2005;
Bonelli, 2005);
4. Nova divisão internacional do trabalho: elevada terceirização de
mão-de-obra para os países em desenvolvimento que, em geral, dispõem de
taxas de câmbio desvalorizadas e mão-de-obra de baixo custo. Estes fatores, que
permitem um aumento da exportação de produtos produzidos nos PED para os
países industrializados, são nocivos ao emprego industrial destes últimos
(Palma, 2005; Bonelli, 2005);
5. Investimento: o investimento em máquinas e instalações é típico
do setor industrial. Assim, altas (reduzidas) taxas de investimento aumentarão

7
Como mostraremos na próxima seção, é inegável que houve uma redução da participação da indústria
brasileira, tanto em termos de valor adicionado, quanto em termos de emprego. Contudo, não é possível
inferir somente a partir dessa evidência que este processo é nocivo ao desenvolvimento econômico do
país.
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(reduzirão) a participação de produtos manufaturados na demanda total e,
portanto, aumentarão (reduzirão) a participação da indústria no emprego e
produto totais. Um fato muito comum às economias desenvolvidas, neste
sentido, foi a queda na taxa de investimento como proporção do PIB;
6. Doença holandesa: forte aumento das exportações de produtos
primários ou serviços, tal como detalhado na seção anterior;
7. Mudança na orientação da política econômica: as políticas de
liberalização comercial e de desregulamentação financeira, preconizadas pelo
chamado Consenso de Washington, fizeram com que o setor manufatureiro de
alguns países se reduzisse prematuramente. Argumenta-se que muitas dessas
indústrias estavam em seu estágio inicial de desenvolvimento – indústria infante
– e poderiam ter se desenvolvido à luz das vantagens comparativas dinâmicas
caso tais políticas não tivessem sido adotadas. Ademais, alguns setores
ineficientes poderiam se tornar paulatinamente eficientes se o processo de
abertura comercial tivesse sido adotado de maneira seletiva e gradual
8

(Dasgupta e Singh 2006; Shafaeddin 2005). Vale destacar ainda que Palma
(2005) denomina a doença holandesa latino-americana como um processo de
desindustrialização ―descendente‖, pois foram induzidas pela política
macroeconômica. Já Bresser-Pereira (2007 e 2008) entende que a raiz deste
problema é a estratégia de crescimento com poupança externa que contempla,
entre outros, aspectos do referido consenso.
No que concerne aos fatos estilizados e resultados empíricos, cumpre destacar
inicialmente o artigo de Sachs e Warner (1997), um dos primeiros trabalhos aplicados
sobre o tema. Os autores estimaram diversas equações relacionando a taxa de
crescimento anual média do PIB dividido pela população economicamente ativa entre
1970 e 1990 contra a participação das exportações de produtos primários como
proporção do PIB (SXP) em 1970, para uma amostra inicial de 87 países (cross-
section). Em todas as regressões foi encontrado um coeficiente negativo e significante
para SXP, mesmo controlando para outras variáveis como abertura comercial, qualidade
das instituições, preços relativos e acumulação de capital. Ademais, o mesmo efeito foi
verificado (i) ao utilizar outras medidas de intensidade de recursos naturais, (ii) quando
foram retirados outliers do grupo de países, (iii) ao se subdividir a amostra em duas
partes e (iv) com a inclusão de SXP em modelos de crescimento de outros autores.
Visando averiguar o que pode estar por trás dessa associação negativa entre
crescimento econômico e intensidade em recursos naturais, Sachs e Warner (1997)
regrediram alguns dos regressores utilizados nas outras estimativas contra SXP. Neste
sentido, foram encontradas fortes associações negativas entre elevada intensidade em
recursos naturais e baixa qualidade institucional e pequenas evidências relacionadas à
acumulação de capital físico e humano e à taxa de poupança.
De maneira geral, os trabalhos econométricos utilizaram como variável
dependente na maioria dos casos a participação do emprego industrial no emprego total
(Rowthorn e Ramaswamy, 1997 e 1999; Rowthorn e Coutts, 2004; Palma, 2005).
Dasgupta e Singh (2006), por sua vez, utilizaram a taxa de crescimento do PIB, tal
como a abordagem de Kaldor (1966), e a taxa de crescimento da produtividade.
Rowthorn e Ramaswamy (1997), além de apresentarem dados que mostram que
a produtividade do setor manufatureiro dos países industrializados entre 1960 e 1994 foi

8
Shaffaeddin (2006) avalia que nas economias em que o setor manufatureiro se expandiu excessivamente
em relação a suas vantagens comparativas em decorrência de serem economias fechadas, a
desindustrialização é justificável desde que seja transitória, aumente a eficiência e promova o
crescimento.
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8

mais de duas vezes superior do que a dos serviços, os autores estimam que 60% da
desindustrialização verificada neste período decorreram do diferencial de
produtividade
9
.
Em Bonelli e Pessoa (2010) a desindustrialização foi avaliada a partir da
participação da indústria como percentagem do PIB, enquanto que Souza (2009) discute
se o Brasil sofre de doença holandesa por meio da realização de três estudos empíricos
relacionando o preço das commodities com a taxa real de câmbio, exportações e
produção industrial.
A existência das curvas em forma de ―U invertido‖ foi um resultado encontrado
por Rowthorn e Ramaswamy (1997), Rowthorn e Coutts (2004) e Palma (2005), sendo
que este último destaca que essa relação não é estável ao longo do tempo e segue uma
tendência de declínio. As ―curvas U invertidas‖ estimadas para a década de 60 estão
num nível mais elevada que as curvas dos anos 1970, que estão num nível mais elevado
que as curvas dos anos 1980 e assim sucessivamente. Isso evidencia a queda da renda
per capita do ponto de inflexão da curva ―U invertida‖. Este ponto, aliás, também foi
salientado por Dasgupta e Singh (2006) e por Cruz e Santos (2009).
Já com relação às variáveis explicativas, foram encontraram evidências de que o
saldo da balança comercial afeta positivamente a participação de empregos industriais
no emprego total (Rowthorn e Ramaswamy, 1999). As importações de manufaturados
dos países em desenvolvimento, por seu turno, têm um efeito negativo, aprofundando o
processo de desindustrialização, segundo as estimativas de Rowthorn e Ramaswamy
(1999) e Rowthorn e Coutts (2004). Ademais, em ambos os trabalhos a formação bruta
de capital fixo apresenta um efeito relevante e positivo, embora de magnitude variável.
Rowthorn e Ramaswamy (1999) decompõem a desindustrialização desde os
anos 1970. Para a maioria dos países, entre a metade e dois terços do declínio da
participação do emprego industrial no emprego total decorreu do processo natural de
crescimento econômico (mudanças comportamentais e diferenciais de produtividade e
de preço). Conjuntamente com a elevada redução da participação da FBKF como
proporção do PIB, que também apresentou uma considerável contribuiu para este
processo, é possível inferir que a maior causa da desindustrialização adveio de fatores
internos.
Rowthorn e Coutts (2004) encontraram um resultado similar no que se refere à
preponderância do crescimento econômico e investimento para explicar a
desindustrialização. Os autores encontraram, por fim, indícios de um impacto positivo
da balança comercial dos manufaturados e impacto negativo do grau de abertura da
economia (exportações mais importações de produtos industrializados, como % do PIB)
na explicação da participação do emprego industrial no emprego total.
Bonelli (2005), por seu turno, calcula três indicadores que contribuem para a
discussão do processo de mudança estrutural da economia brasileira. Em primeiro lugar,
o autor calcula o somatório do quadrado da diferença das participações da indústria,
serviços e agricultura entre os períodos selecionados e divide o resultado por 100.
Assim, utilizando-se a composição do PIB a preços constantes de 1947, verifica-se que,

9
Um dos motivos aventados para explicar esse diferencial de produtividade é que a indústria é
intrinsecamente um setor tecnologicamente progressivo na medida em que a produção pode ser
rapidamente padronizada e, conseqüentemente, as informações requeridas no processo produtivo podem
ser formalizadas em um conjunto de instruções facilmente replicáveis. Nos serviços a simples existência
de enormes diferenças entre as atividades que o compõe já dificultam ganhos de produtividade para o
setor como um todo. Ademais, serviços médicos, por exemplo, são dificilmente padronizados e, portanto,
muito difíceis de serem ofertados em larga escala. Os serviços, portanto, são tecnologicamente
estagnados. (Rowthorn e Ramaswamy 1997; 21).
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De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
9

ao longo do século XX, a década de 40 foi aquela em que houve maior mudança
estrutural e nos anos 90 foi obtido o menor índice.
Posteriormente, destaca-se que houve uma considerável mudança no
comportamento dos preços relativos entre a indústria e o restante da economia. Para
tanto, Bonelli (2005) calcula a razão entre o deflator da indústria de transformação e o
deflator do PIB, sendo o quociente de 2003 utilizado como data base. Assim, depois de
atingir a marca de quase 1,3 na década de 1980, o que sinaliza um inequívoco
encarecimento relativo dos produtos industrializados, essa razão apresenta uma
trajetória predominantemente descendente até o ano de 2005, ficando abaixo de uma
unidade desde 1995, representando, portanto, um barateamento dos produtos industriais.
Por fim, o autor também apresenta evidências de que os ganhos de produtividade
e a informalidade no mercado de trabalho contribuíram para a redução da participação
da indústria no PIB. No que concerne ao primeiro ponto, Bonelli (2005) chama atenção
para a elevada volatilidade da produtividade industrial entre os anos de 1986 e 2005 e
seu forte crescimento a partir dos anos 90. Adicionalmente, o autor associa este
desempenho à trajetória de variação da própria produção, identificando um caráter pró-
ciclico da produtividade para taxas de crescimento do nível de produção a partir de um
determinado nível (isto é, evidências a favor da lei de Verdoorn na indústria).
Já com relação à população empregada na indústria, o autor destaca a elevada
informalização tanto neste setor quanto na economia como um todo. Entretanto, a queda
da participação relativa da indústria tanto no emprego formal quanto na ocupação
(formal e informal) parecem ter se estabilizado a partir de 1998. Ademais, a comparação
entre os as décadas de 60 e 90, a partir dos Censos Demográficos, indica que neste
período houve aumento da participação do emprego industrial no emprego total, o que
permite inferir que a desindustrialização está limitada ao período posterior a 1990.
O conceito de desindustrialização relativa ou restrita a alguns setores foi
introduzido por Feijó et al (2005), haja vista que a indústria como um todo praticamente
não alterou sua participação no PIB entre 1991 e 2003 (de 22% para 23%), a despeito de
ter perdido dois pontos percentuais com relação à participação do emprego. A
decomposição do valor adicionado da indústria entre 1991 e 2003 mostra que houve
uma maior concentração em um número menor de setores e a partir do cruzamento deste
indicador com a participação percentual do emprego, os autores afirmam que as
indústrias têxtil, de fabricação de aparelhos e equipamentos de material elétrico e de
fabricação de aparelhos e equipamentos de material eletrônico sofreram um processo de
desindustrialização, pois apresentaram queda relativa sob ambas as perspectivas.
Feijó et al (2005) também apresentam a contribuição de cada setor para o
crescimento do produto industrial. Setores intensivos em recursos naturais – química,
metalúrgica e siderúrgica e de papel e gráfica (cadeia de produção da celulose) –
apresentaram crescimento em sua contribuição para o aumento do produto. Já a
observação da produtividade entre 1990 e 2003 mostra que apenas três setores
apresentaram variação negativa – fabricação de calçados e de artigos de couro e peles,
fabricação de artigos do vestuário e acessórios e indústria de transformação de material
plástico.
Por fim, a avaliação da estrutura industrial por intensidade tecnológica, embora a
classificação empregada pelos autores difira daquela usualmente utilizada pela OCDE,
aponta que os setores de alta intensidade aumentaram sua participação no valor
adicionado da indústria de transformação, em contraste com as atividades de baixa
tecnológica, que apresentaram redução. Feijó et al (2005) destacam, contudo, que esta
evidência deve ser vista com cautela, pois somente o setor de refino de petróleo foi a
atividade que alavancou o crescimento da indústria de alta intensidade tecnológica.
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
10

Ademais, é possível inferir, portanto, que a desindustrialização, de acordo com os
indicadores acima, foi restrita a alguns setores da indústria.
O trabalho de Dasgupta e Singh (2006) procura avaliar a desindustrialização a
partir da ótica kaldoriana. Os dados reportados pelos autores para o caso do Brasil
mostram que a diferença entre a taxa de crescimento do setor manufatureiro e a taxa de
crescimento do PIB se torna negativa já a partir dos anos 80, concomitantemente a um
hiato positivo com relação ao setor de serviços (exceção feita ao período 1993-2003 em
que essa diferença foi ligeiramente negativa).
As estimativas econométricas consistiram em regredir a taxa de crescimento do
PIB contra a taxa de crescimento da indústria, serviços e agricultura, tal como no
trabalho seminal de Kaldor (1966) apresentado anteriormente, a partir de dados em
cross section para 48 países para o período 1990-2000. Além disso, também foram
estimadas regressões tendo a taxa de crescimento da produtividade da economia como
variável dependente e a taxa de crescimento do valor adicionado na indústria e serviços,
além de variáveis relativas ao emprego. Os resultados apontaram que o dinamismo da
economia advém em proporções semelhantes tanto das manufaturas quanto dos
serviços.
Nassif (2008), a partir de algumas evidências de que houve aumento da
produtividade na indústria nos anos 1990
10
e face ao fato de que a perda de participação
da indústria de transformação no PIB ocorreu antes das reformas estruturais ocorridas
naquela década, afirma que não há indícios de desindustrialização no Brasil.
Ademais, o autor não verifica também a possibilidade de ter ocorrido uma nova
doença holandesa, tal como sugerido por Palma (2005) – as medidas liberalizantes e as
políticas macroeconômicas a elas associadas tendem a valorizar a taxa de câmbio,
culminando numa mudança no padrão de especialização internacional, o que torna a
pauta exportadora mais concentrada em produtos de baixo valor agregado. Para tanto,
Nassif (2008) verifica, a partir dos dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA) do IBGE,
que: (i) houve um considerável aumento do segmento de refino de petróleo no valor
adicionado da indústria total (VA) e que este fato decorre do progresso tecnológico de
um ramo produtivo; (ii) os grupos industriais intensivos em trabalho diminuíram suas
participações no VA entre 1996 e 2004; (iii) não houve alteração substancial na
participação dos setores industriais com tecnologias intensivas em escala e baseadas em
ciência entre aqueles anos.
Por fim, apesar de este trabalho estar voltado para os resultados empíricos sobre
desindustrialização e doença holandesa, é necessário apresentar o texto clássico de
Corden e Neary (1982). Nele é desenvolvido um modelo para uma pequena economia
aberta que produz dois bens comercializáveis – ―energia‖ e ―manufaturas‖ –, cujos
preços são determinados exogenamente, e um terceiro bem não-comercializável –
―serviços‖ – dado pelo equilíbrio entre oferta e demanda domésticas. O objetivo do
artigo é avaliar o efeito de um boom no setor de energia sobre a distribuição funcional
da renda e sobre o tamanho e a rentabilidade do setor de manufaturas.
Em linhas gerais, o ajuste da economia após o boom resulta na
desindustrialização (queda da participação das manufaturas) tanto em termos de
emprego quanto em termos de produto, apresentando ainda uma deterioração da balança
comercial. Adicionalmente, como a taxa de câmbio real é dada nessa modelagem como

10
É importante destacar que o autor calcula a produtividade na indústria a partir do quociente produção
industrial física/pessoal empregado no setor manufatureiro (dados da PIM-IBGE) e por meio da razão
valor agregado industrial/pessoal ocupado (dados da PIA-IBGE). Chama atenção que estes indicadores
sinalizaram para direções opostas a partir de meados dos anos 90: pela PIM verifica-se aumento de
produtividade, enquanto que pela PIA, redução.
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
11

a razão entre os não-comercializáveis sobre os comercializáveis, verifica-se uma
apreciação cambial, haja vista o aumento do preço relativo dos serviços vis-à-vis os
demais bens. Os autores destacam, entretanto, que o relaxamento de algumas hipóteses
implica na reversão de alguns destes resultados, embora haja a predominância do efeito
negativo do boom sobre a manufatura.

4. Análise descritiva do Brasil
4.1 Indústria e PIB
Conforme mencionado, existem fortes evidências a respeito da existência de
uma curva em forma de U invertido com relação à participação da indústria no produto
vis-à-vis a evolução da renda per capita. Um dos principais pontos destacados pela
literatura é o patamar de renda em que ocorre o ponto de inflexão (turning point).
Como mostra o Gráfico 2, a indústria atingiu sua maior participação (35,9%) no
produto em 1985. A despeito das mudanças metodológicas que ocorreram nos anos
1990 e 1995
11
, cujos efeitos sobre a indústria foram elevados, é possível constatar uma
tendência predominantemente declinante da relação indústria/PIB. Em 2008, último ano
para o qual há estatística oficial disponível, foi atingindo o patamar de 16,6%
12
.

Gráfico 2 – Participação da indústria de transformação no PIB – custo de fatores e
preços básicos (em %)
PIB per capita (preços de
2000) - US$ 3.374
10%
15%
20%
25%
30%
35%
40%
1
9
4
7
1
9
4
9
1
9
5
1
1
9
5
3
1
9
5
5
1
9
5
7
1
9
5
9
1
9
6
1
1
9
6
3
1
9
6
5
1
9
6
7
1
9
6
9
1
9
7
1
1
9
7
3
1
9
7
5
1
9
7
7
1
9
7
9
1
9
8
1
1
9
8
3
1
9
8
5
1
9
8
7
1
9
8
9
1
9
9
1
1
9
9
3
1
9
9
5
1
9
9
7
1
9
9
9
2
0
0
1
2
0
0
3
2
0
0
5
2
0
0
7
2
0
0
9

Fonte: IBGE, Ipeadata e UNCTAD. Elaboração do autor.

11
Como destacam Bonelli e Pessoa (2010), as fortes reduções ocorridas entre 1989 e 1990 e entre 1994 e
1995 são fruto das mudanças nos sistema de Contas Nacionais do Brasil ocorridas nestes anos. Para
contornar este problema, os autores reconstruíram uma ―nova série‖ de PIB a partir da qual ainda se
verifica uma queda na participação da indústria no PIB, mas em proporção muito menor do que a
reportada no gráfico. Contudo, o ponto que queremos destacar – o nível de renda per capita associada ao
turning point – não foi alterado.
12
Tendo em vista que o IBGE somente divulga os dados definitivos das contas nacionais de um
determinado ano T em novembro de T+2, o Ipeadata faz uma estimativa dos dados agregados a partir das
contas nacionais trimestrais, divulgadas pelo IBGE após 60 ou 70 dias do término do trimestre. Assim
sendo, os dados relativos a 2009 e 2011, reportados no Gráfico 2, foram calculados por esta referida fonte
e apontam para uma participação da indústria de transformação no PIB de 15,81% e 15,75%,
respectivamente.
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
12

A preços de 2000, o PIB per capita brasileiro em 1985 (US$ 3.374) está abaixo
do verificado em outros países. Valendo-se dos agrupamentos propostos pela
UNCTAD, verificamos que a participação da indústria no PIB brasileiro passa a ser
decrescente em um nível de PIB per capita inferior ao verificado para os países em
desenvolvimento de alta renda quando estes atingiram o turning point (US$ 6.478 em
1988). O mesmo é válido para os emergentes asiáticos (US$ 3.963 em 1988), para os
emergentes das Américas (US$ 4.167 em 1988) e para os chamados newly
industrialized economies de 1ª geração (US$ 7.195)
13
.
A partir das Contas Nacionais Trimestrais, cujos dados estão disponíveis a partir
de 1996, observamos um resultado análogo ao destacado anteriormente. Por meio da
avaliação da média móvel em quatro trimestres, averiguamos que a participação da
indústria no PIB apresentou tendências distintas e bem definidas. Afora um leve
aumento nos trimestres iniciais, a indústria perde quase dois pontos percentuais no PIB
entre o terceiro trimestre de 1997 e o primeiro de 1999, de 15,4% para 13,6%. Como se
sabe, é justamente neste último trimestre que se encerra o regime de câmbio semi-fixo,
prevalecente desde 1994.

Gráfico 3 - Participação da indústria de transformação no PIB - preços correntes (em %)
11%
12%
13%
14%
15%
16%
17%
18%
1
9
9
6
.
I
1
9
9
6
.
I
I
I
1
9
9
7
.
I
1
9
9
7
.
I
I
I
1
9
9
8
.
I
1
9
9
8
.
I
I
I
1
9
9
9
.
I
1
9
9
9
.
I
I
I
2
0
0
0
.
I
2
0
0
0
.
I
I
I
2
0
0
1
.
I
2
0
0
1
.
I
I
I
2
0
0
2
.
I
2
0
0
2
.
I
I
I
2
0
0
3
.
I
2
0
0
3
.
I
I
I
2
0
0
4
.
I
2
0
0
4
.
I
I
I
2
0
0
5
.
I
2
0
0
5
.
I
I
I
2
0
0
6
.
I
2
0
0
6
.
I
I
I
2
0
0
7
.
I
2
0
0
7
.
I
I
I
2
0
0
8
.
I
2
0
0
8
.
I
I
I
2
0
0
9
.
I
2
0
0
9
.
I
I
I
2
0
1
0
.
I
2
0
1
0
.
I
I
I
Ind. de Transf. Ind. de Transf. (média móvel - 4 trim)

Fonte: IBGE. Elaboração do autor.

A partir desta data até o 1º trim/2001 a indústria passa a ganhar participação no
PIB, retornando ao patamar verificado em 1997. Contudo, o processo é interrompido,
sobretudo, por conta do racionamento de energia que teve início naquele ano. Após um
comportamento errático até o final de 2002, a indústria inicia um processo pujante de
crescimento como proporção do PIB, atingindo o recorde neste recorte temporal de

13
O grupo de países em desenvolvimento de alta renda contempla as seguintes nações: Argentina, Chile,
China (Hong Kong, Macao e Taiwan), Coréia do Sul, Singapura, Uruguay, Venezuela e outros 32 países.
Os emergentes asiáticos são compostos de China (Taiwan), Coréia do Sul, Malásia, Singapura e
Tailândia. Já os emergentes das Américas contém as seguintes economias: Argentina, Brasil, Chile,
México e Peru. Por fim, os chamados newly industrialized economies de 1ª geração são formados por
China (Hong Kong e Taiwan), Coréia do Sul e Singapura.
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
13

16,5% no início de 2005. Contudo, a partir deste ano até o presente momento há uma
inequívoca tendência de queda nessa relação, muito embora haja indícios de reversão
dessa trajetória após o terceiro trimestre de 2009, momento no qual os efeitos da crise
financeira internacional foram mais sensíveis. Não obstante, no terceiro trimestre de
2010 a indústria representa 13,7% do PIB, isto é, um nível praticamente igual ao
prevalecente no período de adoção do regime de câmbio flexível.
Todavia, entendemos não ser adequado – nem desejável – inferir exclusivamente
a partir dos dados acima que o Brasil esteja passando por um processo de
desindustrialização ou de doença holandesa que comprometa o desenvolvimento
econômico. Para tanto, é necessário observar, entre outros, a questão da produção,
emprego e produtividade de maneira desagregada.

4.2 Produção, emprego e produtividade na indústria
Esta e a próxima seção estão voltadas à análise intra-industrial, haja vista que a
avaliação da indústria vis-à-vis os outros macro-setores (seção 4.1) aponta,
inequivocamente, para a redução da participação da indústria como proporção do PIB.
Contudo, é necessário avaliar com mais detalhe a composição da indústria, na medida
em que a redução na relação indústria/PIB não necessariamente significa algo ruim e/ou
a ser evitado e necessariamente ligado ao nível da taxa de câmbio.
Doravante, utilizaremos a taxonomia da OCDE para avaliar a evolução da
indústria brasileira. Com base na International Standard Industrial Classification (ISIC)
of All Economic Activities, Rev.3.1, a OCDE classifica as atividades industriais em
quatro categorias: baixa, média-baixa, média-alta e alta intensidade tecnológica
14
.
A adequação desta classificação aos dados brasileiros é direta, haja vista que há
uma correspondência unívoca entre a ISIC Rev. 3.1 e a Classificação Nacional de
Atividades Econômicas (CNAE) 1.0. Isso requer, portanto, que os indicadores avaliados
nesta seção (produção, emprego e produtividade do trabalho) e na próxima (exportação
e importação) estejam classificados de acordo com a CNAE 1.0.
No que concerne à evolução da produção/emprego/produtividade, utilizaremos
os dados anuais das Contas Nacionais (CN) calculados pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), por um lado, e os indicadores da Produção Industrial
Mensal – Produção Física (PIM-PF), os dados do Cadastro Geral de Empregados e
Desempregados (CAGED) e os índices da Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e
Salários (PIMES), por outro. A PIM-PF e a PIMES também são calculadas e divulgadas
pelo IBGE. Já o CAGED é apurado pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
Justifica-se a utilização de dados da CN por motivos evidentes: trata-se das
próprias contas nacionais do país. Já a PIM-PF representa uma mensuração preliminar
da taxa de variação do setor industrial no PIB. O CAGED e a PIMES são indicadores
que permitem avaliar o comportamento da produtividade do trabalho. Ademais, a partir
do primeiro é possível discutir a distribuição do emprego formal sob o regime da
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) dentro da indústria e vis-à-vis o resto da
economia. Já a PIMES é usualmente utilizada no cálculo da produtividade do trabalho a
partir da evolução do pessoal ocupado/horas pagas na indústria.
Para facilitar a análise, subdividiremos esta seção em duas partes, de acordo com
as fontes de dados utilizadas.


14
A despeito de reconhecermos que esta agregação apresenta alguns problemas – por exemplo, algumas
atividades consideradas como de alta intensidade tecnológica nos países da OCDE apresentam baixo
valor agregado no Brasil – julgamos essa taxonomia pertinente, haja vista sua ampla utilização e de fácil
comparação internacional.
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
14

4.2.1 Produção, emprego e produtividade do trabalho na indústria –
Contas Nacionais
A atual metodologia das contas nacionais, denominada de nova série das contas
nacionais – referência 2000, foi a primeira a publicar seus resultados de forma
compatível com a CNAE 1.0. Por este motivo, só é possível realizar a análise dentro da
indústria de transformação a partir do ano 2000, primeiro ano disponível na nova série
das contas nacionais – referência 2000.
Como pode ser visto na tabela 1, a participação dos produtos industriais de baixa
tecnologia caiu pouco mais de 3% no valor adicionado bruto (VAB) da indústria de
transformação entre 2000 e 2008 (preços constantes de 2008). Os bens classificados
como de média-baixa tecnologia, por seu turno, mantiveram sua participação em torno
praticamente inalterada ao longo destes nove anos. Já os produtos de média-alta e de
alta intensidade tecnológica aumentaram sua relevância no VAB em pouco mais 3 p.p.
no primeiro caso e 0,6 p.p. no segundo.

Tabela 1 – Composição do valor adicionado bruto da indústria de transformação a preços constantes
de 2008, segundo intensidade tecnológica - 2000-2008 – em %
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Baixa 40,8 41,1 41,5 40,4 39,6 39,5 39,6 38,3 37,4
Média-Baixa 27,7 27,8 26,9 27,1 27,3 26,9 26,7 26,7 26,9
Média-Alta 23,1 22,6 22,7 23,6 24,9 24,9 25,0 26,2 26,3
Alta 8,8 8,1 8,3 8,1 8,1 8,5 8,8 8,8 9,4
Memo: Indústria/PIB 17,2 17,1 16,9 18,0 19,2 18,1 17,4 17,0 16,6
Fonte: Contas Nacionais, IBGE. Elaboração do autor.

Com relação ao emprego na indústria verificamos que não houve uma perda de
participação da indústria de transformação no volume total empregado. Adicionalmente,
houve uma alteração na composição do emprego no sentido de aumento da participação
de pessoal empregado nos grupos de maior intensidade tecnológica. Os produtos de
baixa tecnologia reduziram sua participação em aproximadamente 3% no período vis-à-
vis uma elevação de 1% nos produtos de média-baixa, 1,5% nos de média-alta e de
0,5% nos de alta tecnologia (tabela 2).

Tabela 2 – Composição do emprego na indústria de transformação e
participação do emprego na indústria de transformação sobre o emprego total,
segundo intensidade tecnológica - 2000-2008 – em %
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Baixa 66,6 66,8 66,6 66,8 66,3 66,5 65,8 64,6 63,6
Média-Baixa 17,3 17,2 17,2 16,7 16,7 17,1 17,1 17,7 18,4
Média-Alta 12,3 12,3 12,3 12,7 13,0 12,5 13,0 13,5 13,8
Alta 3,8 3,7 3,8 3,8 4,0 3,9 4,1 4,2 4,2
Emprego industrial/emprego total 12,0 11,8 11,7 11,9 12,2 12,8 12,5 12,8 13,0
Fonte: Contas Nacionais, IBGE. Elaboração do autor.

Por fim, a produtividade do trabalho foi calculada a partir da razão entre o valor
adicionado bruto, a preços constantes de 2008, sobre o pessoal total empregado. Para
facilitar a análise, criamos números índices tendo como ano base 2000 e calculamos
também a produtividade dos macro-setores da economia a fim de compará-los com a
indústria.
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
15

Ao contrário do verificado no que concerne à composição do VAB e do
emprego, todos os setores da indústria de transformação apresentaram queda de
produtividade. A redução mais proeminente foi do grupo de média-baixa intensidade
tecnológica, cuja queda foi de mais de 12 p.p. no período.
A agropecuária, por sua vez, apresentou um forte aumento de produtividade
(47,2%), sendo, portanto, a grande responsável pelo ligeiro aumento de produtividade
da economia como um todo (8,6%), haja vista que os serviços apresentaram um
aumento tênue de pouco mais de 4p.p. entre 2000 e 2008.

Tabela 3 – Evolução da produtividade, segundo intensidade tecnológica e
macro-setores (2000 = 100) - 2000-2008
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Baixa 100,0 102,7 103,1 98,6 97,5 91,0 93,2 93,6 92,1
Média-Baixa 100,0 103,5 98,9 101,4 102,6 92,5 92,7 91,0 87,8
Média-Alta 100,0 100,8 100,1 99,2 102,4 99,9 97,9 100,3 98,0
Alta 100,0 95,3 94,8 90,6 86,7 87,3 87,7 86,8 92,8

Agropecuária 100,0 110,5 114,7 119,3 114,2 113,9 123,1 134,9 147,2
Indústria 100,0 100,0 98,6 98,9 100,0 95,8 97,7 98,7 96,9
Indústria de transformação 100,0 102,2 101,5 99,9 100,1 93,8 95,0 96,6 96,1
Indústria extrativa 100,0 102,7 108,3 111,5 107,1 116,5 123,7 118,0 122,1
Serviços 100,0 98,9 97,8 96,7 97,8 98,7 97,6 101,0 104,4
Total 100,0 100,7 100,0 99,5 100,1 100,0 101,1 105,3 108,6
Fonte: Contas Nacionais, IBGE. Elaboração do autor.

Isto posto, a partir dos dados das CN, julgamos não ser possível afirmar que a
indústria brasileira esteja passando por um processo inequívoco de primarização ou
especialização em setores de baixo conteúdo tecnológico. Embora os dados reportados
nesta seção não apontem de forma unívoca para esta conclusão, a composição do valor
adicionado e do emprego se deu, em alguma medida, em prol dos bens de maior
intensidade tecnológica.
Ademais, a relevante queda da produtividade da indústria deve ser avaliada com
cautela, haja vista que ela foi decorrente de uma evolução mais favorável do emprego
do que do valor adicionado e não fruto de uma retração generalizada deste setor.
Tomando como exemplo o caso da indústria de transformação, observamos que entre
2000 e 2008 o VAB cresceu em termos reais 26,7%. Como a variação do emprego foi
ligeiramente superior (31,9%), a produtividade do trabalho necessariamente tem que
apresentar uma queda.

4.2.2 Produção, emprego e produtividade do trabalho na indústria – PIM-
PF, PIMES e CAGED
A PIM-PF é uma pesquisa que produz indicadores conjunturais acerca da
evolução da produção física da indústria. Estão disponíveis dados mensais desde janeiro
de 1991 de acordo com diversas agregações. Para os nossos propósitos, foram utilizados
os índices de acordo com a CNAE 1.0 (indústria geral, indústrias extrativas, indústrias
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De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
16

de transformação e divisões e grupos desta última), além dos índices relativos a alguns
sub-setores industriais
15
.
Para reagrupar os indicadores de acordo com a taxonomia do OCDE utilizamos
os pesos de cada atividade, tal como consta na metodologia da pesquisa. Sabemos,
contudo, que os dados da PIM-PF são índices de Laspeyres com atualização de pesos,
de modo que estes variam, mesmo que em pequena magnitude, a cada mês. Entretanto,
como os pesos mensais não são divulgados, essa estratégia de agrupamento se mostrou
a mais adequada
16
e com um razoável grau de ajuste aos dados agregados
17
.
A produção física segundo intensidade tecnológica foi calculada com base no
índice de base fixa mensal sem ajuste sazonal. Logo, para evitar os problemas relativos
à sazonalidade, calculamos a média móvel em 12 meses e estabelecemos dez/1995 =
100.

Gráfico 4 – Produção industrial, segundo intensidade tecnológica – média móvel em 12
meses (dez/1995 = 100)
Baixa
Média-Baixa
Média-Alta
Alta
80
90
100
110
120
130
140
150
160
170
180
d
e
z
/
9
5
a
b
r
/
9
6
a
g
o
/
9
6
d
e
z
/
9
6
a
b
r
/
9
7
a
g
o
/
9
7
d
e
z
/
9
7
a
b
r
/
9
8
a
g
o
/
9
8
d
e
z
/
9
8
a
b
r
/
9
9
a
g
o
/
9
9
d
e
z
/
9
9
a
b
r
/
0
0
a
g
o
/
0
0
d
e
z
/
0
0
a
b
r
/
0
1
a
g
o
/
0
1
d
e
z
/
0
1
a
b
r
/
0
2
a
g
o
/
0
2
d
e
z
/
0
2
a
b
r
/
0
3
a
g
o
/
0
3
d
e
z
/
0
3
a
b
r
/
0
4
a
g
o
/
0
4
d
e
z
/
0
4
a
b
r
/
0
5
a
g
o
/
0
5
d
e
z
/
0
5
a
b
r
/
0
6
a
g
o
/
0
6
d
e
z
/
0
6
a
b
r
/
0
7
a
g
o
/
0
7
d
e
z
/
0
7
a
b
r
/
0
8
a
g
o
/
0
8
d
e
z
/
0
8
a
b
r
/
0
9
a
g
o
/
0
9
d
e
z
/
0
9
a
b
r
/
1
0
a
g
o
/
1
0
d
e
z
/
1
0

Fonte: IBGE. Elaboração do autor.

Ao contrário do verificado a partir das contas nacionais, observamos que os
setores de média-alta e alta tecnologia apresentaram maior taxa de crescimento no

15
Como o objetivo do trabalho é avaliar a o comportamento intra-industrial segundo intensidade
tecnológica, utilizamos os índices da PIM-PF que correspondem às divisões e grupos classificados pela
OCDE. Neste sentido, foi necessário recorrer a quatro índices sub-setoriais - Construção de embarcações,
inclusive reparação, Construção e montagem de vagões ferroviários, inclusive reparação, Construção e
montagem de aeronaves, inclusive reparação e Outros veículos e equipamentos de transporte. Estes sub-
setores correspondem, respectivamente, aos grupos 351, 352, 353 e 359 da CNAE 1.0.
16
De Negri, Alvarenga e Santos (2009) agruparam os índices da PIM-PF de acordo com a intensidade
tecnológica segundo a OCDE utilizando como peso a participação percentual de cada setor no valor bruto
da produção de sua respectiva categoria com base nos dados da Pesquisa Industrial Anual de 2007.
17
O índice de produção física da indústria geral é igual à soma do índice da indústria de transformação e
da indústria extrativa ponderada por seus respectivos pesos. Analogamente, o somatório dos índices das
atividades que compõem a indústria de transformação ponderada por seus respectivos pesos é igual ao
próprio índice da indústria de transformação. Todavia, embora estes pesos sejam atualizados
mensalmente, o IBGE não os divulga. Assim, optamos por utilizar os pesos que constam na metodologia
da pesquisa (IBGE 2004). Esta aproximação, contudo, se mostrou razoável, haja vista que entre jan/2002
e dez/2010 o somatório dos erros para o índice geral é igual a -0,03 e para a indústria de transformação é -
0,40.
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
17

período sob análise (dez/1995 a dez/2010). Enquanto que com aquela base de dados os
produtos de alta tecnologia reduziram levemente sua participação no total produzido,
por meio da PIM-PF verificamos que este grupo cresceu 40,5%, acima de média-baixa
(27,5%) e baixa (12,8%). Os produtos industriais de média-alta tecnologia cresceram
70%, retornando ao patamar verificado pré-crise financeira internacional. Estes
resultados, por seu turno, novamente vão de encontro à tese de que o Brasil esteja
passando por um processo de desindustrialização nocivo ao crescimento econômico de
longo prazo.
Vale destacar ainda que a crise afetou sobremaneira os produtos de média-alta
tecnologia, enquanto que os bens classificados como de baixa intensidade apresentaram
uma pequena redução. Isso possivelmente está relacionado ao mercado consumidor
destes produtos, isto é, se estes produtos são vendidos predominantemente no mercado
doméstico ou externo. Retornaremos a este ponto na seção 4.3.
Já com relação aos indicadores relativos ao emprego, apresentaremos
inicialmente os dados do CAGED. Como mencionado na introdução deste trabalho, a
utilização dos dados do estoque formal de emprego (CLT) representam uma
contribuição à literatura sobre desindustrialização, haja vista que se trata de uma série
inédita que teve de ser construída a partir dos dados disponíveis no sítio do MTE
18
.
Embora não seja recomendável avaliar a dinâmica industrial desconsiderando a
informalidade, verifica-se na tabela 4 uma grande estabilidade na distribuição do
emprego celetista no país desde 1996. O grupo denominado de ―outros‖, composto
majoritariamente pelo setor de serviços, foi o único que apresentou aumento em sua
participação no emprego formal total, embora de magnitude reduzida (pouco superior a
4%). No que concerne à indústria de transformação vis-à-vis o total de emprego, esta
apresentou uma leve redução, ligeiramente inferior a 2%. Já com relação à composição
do emprego industrial segundo intensidade tecnológica, verificamos uma estabilidade
ainda maior e indícios de que, sob esta ótica, a tese da desindustrialização e/ou
especialização regressiva em setores de baixo valor agregado não encontra respaldo.
Com efeito, o setor de baixa tecnologia reduz sua participação no total de emprego
formal no período em apenas 1,5%, enquanto que no extremo oposto verificamos que o
emprego nos setores de alta tecnologia manteve sua (reduzida) participação estável.
Com relação ao emprego/horas trabalhadas na indústria, utilizamos outras duas
fontes de dados. A partir da PIMES são gerados números índices conjunturais acerca da
evolução do pessoal ocupado e das horas pagas na indústria. Os dados estão disponíveis
desde dezembro de 2000 e também são desagregados pela CNAE 1.0. Porém, o nível de
desagregação da PIMES difere daquela utilizada na PIM-PF, o que inviabiliza avaliar a
evolução do pessoal ocupado e das horas pagas segundo os critérios de intensidade
tecnológica da OCDE
19
.

18
Para a construção das séries foi necessário a compatibilização da CNAE/95 e da CNAE 2.0 com
relação à CNAE 1.0. Isso foi necessário porque os dados compreendidos entre janeiro de 1996 (primeiro
dado mensal disponível) e dezembro de 2007 estão agrupados de acordo com CNAE/95, enquanto que
entre janeiro de 2008 e dezembro de 2010 foi utilizado a CNAE 1.0. Contudo, para este último período, a
agregação segundo grupo de atividade só está disponível de acordo com a CNAE 2.0, o que requereu a
utilização das tabelas de correspondência entre todas as versões da CNAE. Por fim, vale dizer que essas
bases do CAGED apresentam o fluxo de admissões e demissões em um determinado mês, de modo que
foi necessário coletar o estoque de emprego em uma determinada data e adicionar/subtrair o saldo
(admissões menos demissões) para construirmos as séries de estoque de emprego.
19
Por exemplo, na PIMES as divisões 31, 32 e 33 (Fabricação de máquinas, aparelhos e materiais
elétricos, Fabricação de material eletrônico e de aparelhos e equipamentos de comunicações e Fabricação
de equipamentos de instrumentação médico hospitalares, instrumentos de precisão e ópticos,
equipamentos para automação industrial, cronômetros e relógios, respectivamente) estão agrupadas na
atividade Fabricação de máquinas e aparelhos elétricos, eletrônicos, de precisão e de comunicação. Neste
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
18

Tabela 4 - Composição do estoque de emprego formal, segundo intensidade tecnológica e
demais setores (em %)
Indústria de Transformação
Indústria
Extrativa
Agricultura¹ Outros
Ano Baixa
Média-
Baixa
Média-
Alta
Alta Reciclagem Total
1996 12,9 5,4 4,5 1,0 0,1 23,8 0,5 6,5 69,1
1997 12,4 5,4 4,5 1,0 0,1 23,4 0,5 6,5 69,7
1998 12,1 5,2 4,3 0,9 0,1 22,6 0,5 6,2 70,7
1999 12,4 5,2 4,2 1,0 0,1 22,9 0,5 5,8 70,8
2000 12,5 5,3 4,3 1,0 0,1 23,2 0,5 5,6 70,8
2001 12,4 5,3 4,3 1,0 0,1 23,0 0,5 5,5 71,0
2002 12,4 5,3 4,3 0,9 0,1 23,0 0,5 5,4 71,1
2003 12,4 5,2 4,2 0,9 0,1 22,9 0,5 5,6 71,0
2004 12,8 5,4 4,4 1,0 0,1 23,5 0,5 5,7 70,3
2005 12,4 5,3 4,3 1,0 0,1 23,1 0,5 5,1 71,2
2006 12,3 5,3 4,3 1,0 0,1 23,0 0,6 5,0 71,5
2007 12,2 5,4 4,4 1,0 0,1 23,1 0,6 4,8 71,6
2008 11,8 5,4 4,4 1,0 0,1 22,7 0,6 4,6 72,1
2009 11,6 5,2 4,1 1,0 0,1 21,9 0,6 4,4 73,1
2010 11,4 5,2 4,2 1,0 0,1 21,9 0,6 4,1 73,4
¹ Engloba, além da agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e pesca.
Fonte: CAGED/TEM. Elaboração do autor.

Para contornar este problema, verificamos junto ao IBGE a possibilidade de se
desagregar a PIMES de forma compatível com a PIM-PF. Porém, como a pesquisa de
emprego e salário é feita a partir de uma amostra probabilística, não é possível a geração
de índices para os grupos e divisões pertencentes exclusivamente à PIM-PF.
Entretanto, o IBGE disponibiliza em seu sítio na internet um indicador que
realiza exatamente o oposto do desejado para os nossos objetivos: uma série de índices
da PIM-PF compatível com a desagregação da PIMES. Por um lado, a existência de um
indicador de produção ―ajustado‖ à PIMES é algo positivo, pois permite a avaliação da
evolução da produtividade de maneira adequada e com um razoável grau de
desagregação. Por outro, não permite avaliar a evolução da produtividade segundo a
classificação de intensidade tecnológica da OCDE.
Não obstante, reproduzimos nos gráficos 5 e 6 a evolução da produtividade
somente para a indústria geral, indústria extrativa indústria extrativa e indústria de
transformação
20
. Novamente, para evitar problemas relacionados ao efeito sazonal,
apresentamos a média móvel em 12 meses e fixamos o número índice em dezembro de
2002.

caso, o entrave metodológico reside no fato de que a divisão 31 é classificada pela OCDE como de
média-alta tecnologia, enquanto que as demais são consideradas como atividades de alta intensidade
tecnológica.
20
É importante ressaltar que a estratégia de calcular a produtividade do trabalho por meio do quociente da
PIM-PF com a PIMES acarreta num erro metodológico, mesmo que se objetive avaliar a evolução da
indústria geral. Isso decorre do fato de que na PIM-PF a indústria de transformação não contempla a
divisão 37 (Reciclagem), enquanto que a PIMES considera esta atividade. Deste modo, para avaliar a
produtividade das indústria geral, extrativa e de transformação é necessário utilizar como numerador a
PIM-PF compatível com a PIMES.
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
19

Alguns aspectos chamam a atenção. Em primeiro lugar, tanto a partir da
produtividade calculada a partir do pessoal ocupado quanto aquela apurada com a série
de horas pagas, verificamos que a indústria geral está colada na série da indústria de
transformação. Este fato está em linha com o observado a partir das contas nacionais na
tabela 3 e é válido para toda a amostra reportada.
Adicionalmente, constatamos que até outubro de 2008 era praticamente
indiferente analisar a evolução da produtividade na indústria extrativa com qualquer um
dos indicadores de emprego da PIMES. Porém, com a quebra do banco de investimento
Lehman Brothers em setembro daquele ano, a produtividade verificada com as horas
pagas caiu de maneira muito mais abrupta do que aquela obtida segundo o pessoal
ocupado. Isso possivelmente decorreu do fato de que empresas extrativas ajustaram seus
custos à crise financeira via redução da jornada de trabalho e não por meio da demissão
de funcionários.
Por fim, fato inconteste é que a partir do final de 2009 a trajetória de queda da
produtividade, para todas as atividades industriais, sofre reversão e passa a aumentar
continuamente. A partir de março de 2010 os indicadores de produtividade na indústria
geral e na indústria de transformação são os maiores desde que existe a PIM compatível
com a PIMES.

Gráfico 5 – Produtividade na indústria – pessoal ocupado assalariado – média móvel 12
meses (dez/2002 = 100)

Fonte: IBGE. Elaboração do autor.








IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
20

Gráfico 5 – Produtividade na indústria – horas pagas – média móvel 12 meses
(dez/2002 = 100)


Fonte: IBGE. Elaboração do autor.

Isto posto, o argumento de que a indústria do país esteja passando por um
processo de empobrecimento fica ainda mais frágil. A estrutura do emprego formal
industrial não se alterou nos últimos anos, mesmo no ano em que houve a deflagração
da crise financeira internacional, e a produtividade na indústria de transformação nunca
foi tão elevada.
Contudo, é possível argumentar que esteja havendo um deslocamento das
cadeias produtivas em função do aumento das importações. Outro sinal neste sentido
seria a mudança na composição das exportações com destaque para produtos de menor
conteúdo tecnológico ou de bens não industriais. Estes pontos são discutidos na seção
seguinte.

4.2.3 Setor externo e a indústria
Um fato indiscutível nos últimos anos é o aumento das exportações brasileiras
em termos absolutos. Porém, a participação do Brasil no mercado externo aumentou
apenas marginalmente, fruto, sobretudo, do aumento da renda mundial (Schettini,
Squeff e Gouvêa, 2010). Aliado a este processo, verifica-se um aumento da participação
de produtos não industriais, notadamente nos últimos três anos.
Cabe destacar, adicionalmente, que nos produtos de alta tecnologia este
fenômeno foi ainda mais forte, haja vista o patamar de 4,5% em 2010 é muito
semelhante ao verificado em 1997 e muito inferior ao recorde do período de 12,1% em
2000. Contudo, é importante ressaltar que este último valor, assim como o verificado
nos dois anos seguintes, representam outliers em nossa amostra, haja vista que a média
de participação dos produtos de alta intensidade tecnológica neste triênio (11,1%) é
quase o dobro da verificada no triênio anterior (6,3%) e do que a apurada entre 2003 e
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
21

2010 (6,2%). É necessária, portanto, uma avaliação mais detalhada a respeito deste
fenômeno destoante.

Composição das exportações, segundo intensidade tecnológica - acumulado no ano
(em %)
Ano Baixa Média-Baixa Média-Alta Alta Outros
1995 38,9 19,4 20,8 3,5 17,4
1996 38,4 18,4 21,0 4,1 18,1
1997 34,3 16,3 23,2 4,7 21,5
1998 33,3 15,6 23,8 6,0 21,4
1999 34,8 15,7 22,2 8,2 19,0
2000 31,1 16,7 22,8 12,1 17,3
2001 33,6 15,5 20,9 11,7 18,3
2002 33,5 16,4 21,2 9,5 19,4
2003 33,8 17,0 22,3 6,8 20,1
2004 32,2 18,7 22,9 6,7 19,6
2005 29,9 18,2 24,6 7,2 20,0
2006 28,5 19,3 23,8 6,6 21,7
2007 28,2 18,9 22,9 6,3 23,7
2008 26,8 18,6 20,5 5,7 28,5
2009 30,6 15,4 17,7 5,8 30,5
2010 28,0 13,4 17,7 4,5 36,3
Fonte: Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Elaboração do autor.

Já a composição das importações apresenta um comportamento mais estável ao
longo dos anos, embora existam algumas oscilações importantes. Estas se concentram,
porém, nos produtos com conteúdo tecnológico, notadamente os de baixa intensidade,
reduzindo sua participação, e os média-baixa intensidade, que representam 19% do total
importado em 2010 vis-à-vis 13,2% em 1997.

Composição das importações, segundo intensidade tecnológica - acumulado no ano
(em %)
Ano Baixa Média-Baixa Média-Alta Alta Outros
1995 15,2 13,3 38,7 16,7 16,2
1996 14,5 13,4 35,8 18,6 17,7
1997 13,1 13,2 39,1 19,5 15,0
1998 12,7 12,8 41,1 20,3 13,1
1999 10,4 13,2 41,0 23,4 12,0
2000 9,2 15,6 37,8 24,8 12,6
2001 7,6 14,8 40,8 24,2 12,6
2002 8,2 14,0 41,5 21,5 14,9
2003 7,5 14,0 40,8 21,1 16,6
2004 6,9 13,7 39,3 22,2 17,8
2005 6,7 14,3 38,7 23,1 17,1
2006 7,1 15,8 36,6 23,2 17,2
IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
De 3 a 5 de agosto de 2011, Rio de Janeiro/RJ
22

2007 7,3 16,5 38,3 21,5 16,5
2008 6,7 17,0 39,7 19,9 16,7
2009 8,3 14,6 41,4 22,1 13,6
2010 7,8 18,8 40,6 20,3 12,5
Fonte: Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Elaboração do autor.

Por fim, no que concerne ao saldo comercial, a tabela a seguir apresenta alguns
dados interessantes. Sob uma ótica mais ampla, verificamos que o saldo comercial
(coluna G) apresentou uma tendência de melhora contínua entre 1995 e 2006,
resultando no maior valor histórico neste último ano. Isto ocorreu pari passu a
tendência de reversão nos déficits comerciais da indústria como um todo (coluna E),
embora esta tenha apresentado superávit apenas a partir de 2002. Porém, o que chama
mais a atenção, ainda em termos mais agregados, é o fato de que o saldo da indústria
com conteúdo tecnológico volta a ser deficitário já em 2008, atingindo o saldo negativo
de US$ 30,3 bilhões em 2010.

Saldo comercial, segundo intensidade tecnológica - acumulado no ano
(em US$ milhões)
Ano
Indústria
Outros
(F)
Saldo
(G =
E+F)
Baixa
(A)
Média-
Baixa
(B)
Média-
Alta
(C)
Alta
(D)
Indústria de
transformação
(E =
A+B+C+D)
1995 10.523 2.394 (9.651) (6.731) (3.465) (1) (3.466)
1996 10.633 1.661 (9.093) (8.000) (4.799) (800) (5.599)
1997 10.327 733 (11.054) (9.193) (9.187) 2.423 (6.765)
1998 9.689 593 (11.573) (8.665) (9.956) 3.332 (6.624)
1999 11.611 1.007 (9.561) (7.592) (4.534) 3.246 (1.289)
2000 11.999 484 (8.550) (7.201) (3.269) 2.537 (732)
2001 15.382 811 (10.487) (6.680) (975) 3.660 2.685
2002 16.414 3.300 (6.802) (4.403) 8.509 4.687 13.196
2003 21.075 5.724 (3.379) (5.207) 18.213 6.664 24.878
2004 26.787 9.421 (2.551) (7.527) 26.130 7.712 33.842
2005 30.517 11.027 727 (8.475) 33.795 11.134 44.929
2006 32.752 12.159 (615) (12.044) 32.252 14.205 46.457
2007 36.571 10.535 (9.379) (15.881) 21.846 18.187 40.033
2008 41.442 7.360 (28.137) (23.118) (2.453) 27.410 24.958
2009 36.088 4.925 (25.726) (19.311) (4.024) 29.300 25.275
2010 42.292 (7.062) (37.881) (27.715) (30.366) 50.632 20.267
Fonte: Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Elaboração do autor.

No que tange à análise mais desagregada, verificamos que as indústrias de
média-alta e alta intensidade tecnológica quase sempre foram deficitárias. Porém, estes
saldos negativos têm apresentando uma tendência de deterioração acentuada desde
2005. Ademais, os bens de média-baixa tecnologia apresentaram déficit pela primeira
vez em 2010 e em um montante não desprezível (US$ 7 bilhões).
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Isto posto, é necessário destacar que o resultado agregado tem se mantido
positivo somente, e tão somente, por conta dos ininterruptamente crescentes superávits
dos setores não industriais tecnológicos (coluna F), haja vista que estes cresceram
inclusive no ano de 2009, ano no qual todos os demais indicadores apresentaram
retração em função dos efeitos da crise internacional.
Os dados relativos ao setor externo, por seu turno, apontam para um cenário
mais preocupante com relação ao desempenho da indústria e sua relevância no processo
de crescimento econômico. Todavia, uma análise mais pormenorizada é necessária para
se afirmar que a especialização da inserção externa brasileira esteja vinculada, direta ou
indiretamente, a um retrocesso da capacidade produtiva brasileira. Neste sentido, uma
avaliação com relação ao consumo aparente na indústria, por exemplo, representará uma
contribuição neste sentido.

5. Considerações finais
Este trabalhou discutiu a hipótese de desindustrialização brasileira a partir de
uma perspectiva mais ampla do que a usualmente encontrada na literatura. Para tanto,
reportamos indicadores relativos à produção, emprego, produtividade, exportação,
importação e saldo comercial segundo a classificação por intensidade tecnológica da
OCDE.
Assim, embora seja inegável que houve uma redução da participação da
indústria no PIB nos últimos anos e que as exportações brasileiras estão bastante
concentradas em produtos de baixo valor agregado, configurando indícios de que está
em curso um processo de desindustrialização no Brasil, dados relativos à produção e
emprego contrariam, em alguma medida, este entendimento.
A partir das CN, verificamos que não houve especialização produtiva em
produtos de baixo conteúdo tecnológico, a composição do emprego praticamente não se
alterou e que, apesar da queda da produtividade na indústria de transformação, o valor
adicionado apresentou um crescimento considerável no período.
Já a avaliação da produção a partir dos dados da PIM mostrou que os setores que
mais cresceram foram os de média-alta e de alta tecnologia. No que concerne ao
emprego formal, por seu turno, verificamos com base nos dados do CAGED que o
estoque de trabalho utilizado pela indústria perdeu participação para o setor de serviços.
Não obstante, a análise intra-industrial mostrou que os setores classificados como de
alta intensidade mantiveram suas participações no emprego total.
A produtividade da indústria de transformação e da indústria geral calculada
com base na PIM compatível com a PIMES mostrou que atualmente os índices são os
maiores desde que a série histórica começou a ser publicada.
Assim, entendemos que existem sinais contraditórios acerca da hipótese de
desindustrialização brasileira, desde que esta seja entendida em um sentido mais amplo
do que a simples análise da relação indústria/PIB. Em linhas gerais, os indicadores
internos não apontam que a estrutura industrial brasileira esteja estagnada ou que esteja
em curso um processo de especialização em setores de baixo conteúdo tecnológico. Por
outro lado, os dados relativos ao setor externo apresentam sinais preocupantes com
relação à composição das exportações e no que tange à manutenção de superávits
comerciais.
Deste modo, são necessário estudos mais detalhados, notadamente de ordem
econométrica, visando avaliar com maior propriedade a relação entre a estrutura
produtiva da economia, a relevância da indústria no processo de crescimento econômico
e relação destas com algumas variáveis macroeconômicas, tal como a taxa de câmbio.

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