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A Ingênua Vingativa.   
  
(conto)  






  















Por: Naiane Lima



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Mariana é uma dona de casa comum, deixou de trabalhar para cuidar de seu
amado e fiel esposo e seu filho pré-adolescente. Faz de tudo para facilitar a vida dos
dois: café-da-manhã? Já está feito. Roupa suja? Lavada e guardada. Almoço? Só depois
que tomar banho! Faltou gás? Já estou verificando esse problema. Casa desarrumada?
Jamais! E a consumação dos atos matrimoniais? Á disposição com frequência e
raramente enxaquecas á afeta.   
Quando perguntada por suas vizinhas se Mariana gostava da vida que tinha, pois
elas sempre reclamavam de alguma coisa uma com a outra enquanto Mariana
continuava impassível, ela era categórica na resposta:   
- Amo minha vida. Casei-me exatamente para isso. Não vou dizer que é fácil,
pois não é. Mas, me dá muita satisfação. - Concluía Mariana.   
Como podem ver, Mariana é um poço inesgotável, uma fonte natural de
submissão, como dizia sua amiga Érica, pelas suas costas, para a rua inteira, e depois
agia como nunca tivesse proferido palavras tão falsas como aquelas.   
O que ninguém sabia era que Mariana, enquanto estava sozinha em casa seu
filho na escola, seu marido no trabalho; pragueja cada cueca suja que encontrava no
quarto do filho e matava sempre o esposo por deixar toalha molhada em cima da cama e
achava ridículas aquelas mocinhas apaixonadas nas novelas:  
- Quanta idiotice! Se soubessem o quanto é terrível essa vida de casada não teria
nem sequer imaginado em casamento um dia! - Exclamava.   
Certa vez, Mariana, em uma de suas peregrinações matinais pelo supermercado
da vizinhança, escutou uma conversa, estilo confidente, no corredor ao lado de suas
vizinhas:  
- Oi, bom dia! Você soube,  mulher, do que a Érica anda aprontando com a
Mariana?  
- Eu soube... Tenho tanta pena da pobre da Mariana... Tão ingênua que nem
consegue enxergar a cobra que a é Érica.  
- Concordo... A Érica é uma sem vergonha, de fato! Roubando o marido alheio,
é por isso que não deixo aquela naja rastejar pela minha casa.   
Mariana congelou dos pés á cabeça e depois esquentou numa fúria palpável,
depois relaxou e pensou melhor no que fazer e como. Saiu do corredor como se
nenhuma montanha tivesse caído na sua cabeça; passou a mão pela testa - talvez para
sentir o tamanho dos chifres, mas era só para tirar o suor.   
Pagou as mercadorias e saiu, passando pelas vizinhas que aquiesceram; no caminho de
casa ficou remoendo a palavra "ingênua", "cobra", "roubar" e "ingênua”.   E decidiu que
odiava essa palavra.   
Naquela noite, do mesmo dia, resolveu preparar um banquete para o marido e
sua amiga rastejante, era quase uma irmã. Despachou seu filho para a avó materna sem
muitas explicações.   
Fez questão de Érica e Manoel, seu marido, sentarem próximos e ela sentou á frente
deles. Manoel elogiou a mulher por seu empenho magnifico na composição da mesa e
no seu vestido novo.   
- Gostou? Comprei no seu cartão de crédito. - Mariana sorriu. - Nem queira
saber quanto custou!  


3

Foi o salario do mês inteiro de Manoel.   
Mariana serviu os dois e os observou de prato vazio; Érica já sentia um
incomodo e a anfitriã notara, era muito perceptiva. A cobra da amiga tinha um faro
muito bom para saber se sua calda estava próximo demais á fogueira á ponto de se
queimar.  
- Quem quer sobremesa? – Perguntou, Mariana  com um sorriso engessado. 
Todos concordaram e Mariana foi até sua cozinha e trouxe sua travessa de
porcelana, que havia ganhado de sua bisavó e era somente usada em ocasiões especiais.
Manoel e Érica ficaram animados. Ela, Mariana, pousou teatralmente o recipiente sobre
a mesa. 
E a sobremesa estava servida. Na verdade, Mariana não se preocupou em
planejar nenhuma. O que ela queria era mostrar á eles dois que ela não era tão ingênua
como eles pensavam. Manoel, exasperado, levantou-se da cadeira depressa quando viu o
que havia dentro da travessa. 
Erica fez menção de se levantar, mas as pernas não á obedeciam, parecia que
seus músculos haviam pedido “com licença” e se retirado do recinto; o que restava á ser
feito era virar uma paleta de cores até atingir o branco e rir, não era de deboche e, sim,
de nervosismo. 
            - Bom, vamos ver qual mata primeiro. – Dentro da travessa continha um vidro
com um pó preto e uma faca. – Mas, antes que alguns de vocês caiam duros no chão
como dois presuntos... – Mariana, foi interrompida pelos soluços de Érica. – Será que
você poderia respeitar este momento tão solene e engolir esse choro? 
Por dentro Mariana estava de divertindo em ver a cara dos dois ali, indefesos,
sem saber o fazer. E Mariana continuou: 
- Vocês acham que sou idiota? -  Falou Mariana com calma para não tropeçar nas
palavras.-  Vocês acha que eu não sei que me traem? E acham que eu não sei o que
a vizinhança fala nas minhas costas, ás escondidas, sobre as coisas que você, Érica, fala
á respeito de mim? 
Manoel tentou se explicar, mas desistiu no meio do caminho, pois sua visão
começou a ficar turva; sentiu o ar se esvair do topo de sua cabeça. Tentou apoiar-se na
cadeira á sua frente, mas não conseguiu suportar o peso do seu corpo e caiu duro no
chão.  
Érica pôs-se a gritar histérica o que fez alguns vizinhos mais próximos interromper seus
afazeres e concentrarem a atenção, porém o grito cessou e retornaram a atenção ás
atividades que estavam fazendo antes. 
            Mariana tapou a boca de Érica com a mão, abafando o grito e pensou “Quanta
indiscrição”. Quando sentiu o corpo da ex-amiga perder a força; soltou a cabeça e deixou
que batesse contra a mesa com tampa de granito.  
            No fim, Mariana estava satisfeita com o desempenho de seu sonífero. Pegou o
vidro que estava dentro da travessa e colocou a pimenta moída no frasco original;
pegou a faca e a travessa de porcelana inglesa e guardou no armário da cozinha. Apagou
as luzes e foi dormir. 
No dia seguinte Manoel mudou-se para a casa de Érica (mas, algumas semanas
no futuro, Manoel não suportou viver com a amante e rompeu a relação e voltou para a
casa de sua mãe) Á noite, no quarto da adolescência cogitava em perdoar Mariana e
reatar o casamento. 
Entretanto, o que ganhou foi um envelope com os documentos do divórcio e nos
dias que se seguiram recebeu uma intimação convidando-o á ir até o Fórum da cidade
para descobrir que teria que pagar pensão alimentícia para a ex-esposa e o filho
adolescente. 


4

Quanto á Érica, mudou de cidade onde poderia encontrar outra Mariana para ser
a amiga, quase duas irmãs; mas claro tomando alguns cuidados para não passar por
outro acontecimento semelhante ao anterior.

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