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Este trabalho, fundamentado nos postulados teóricos da Sociolinguística

Variacionista, numa interface com os estudos lexicológicos, dialetológicos e
linguísticos históricos, visa desvelar a fala de pessoas idosas de Inaciolândia –
Goiás, em busca de levantar, descrever e analisar as rupturas ou conservações
de lexias próprias de estágios anteriores da língua. Para tanto, levar-se-á em
conta “compreender os complexos padrões de interação entre língua, cultura e
sociedade”, tal como afirma Moura, (2007, p. 11), tomando-os, portanto, como
imprescindíveis para se compreender o léxico em uso por uma comunidade
linguística. A pesquisa, em função do objetivo proposto, classifica-se como
bibliográfica e de campo e, dado à fundamentação teórica adotada em primeiro
plano: Sociolinguística Variacionista, ela ocorre de forma direta intensiva e
assistemática, considerando-se para a coleta de dados a faixa etária dos
informantes, de 60 a 65 anos; a escolarização - semi-analfabetos ou
analfabetos - a naturalidade - Inaciolândia-GO - ou residentes nessa cidade
desde pequenos. Frente à analise dos resultados, pode-se concluir que há a
conservação de um léxico arcaico e em desuso, isso motivado pela realidade
familiar e social dos informantes.





ABSTRACT


This work, based on the theoretical postulates of variational sociolinguistics, in
an interface with the studies of lexicology, dialectology and historical linguistics,
aims to uncover the speech of elderly people living in Inaciolândia-Goiás, in
order to point out, describe and analyze breaks or conservations of the lexis
belonging to earlier stages of the language.To do so, it will take into account "to
understand the complex patterns of interaction among language, culture and
society," as stated Moura (2007, p. 11), assuming them, therefore, as
indispensable to understand the vocabulary in use by a language community.
This research, based on the proposed aim, classifies itself as bibliographic and
field and, given the theoretical basis used in the foreground: Variational
Sociolinguistics, it occurs in a direct, intensive and unsystematic way,
considering for the data collection the respondents’ age group, from 60 to 65
years; the schooling - semi-literate or illiterate – birth place - Inaciolândia-GO –
or residing in that city since childhood. Faced with the analysis of the results,
one can conclude that there is a preservation of an archaic and obsolete lexical,
due to the informants’ social and familiar reality.


SUMÁRIO


INTRODUÇÃO ........................................................................... Error! Bookmark not defined.
1 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS ....................................................................................... 6
1.1 A LÍNGUA NA PERSPECTIVA DA SOCIOLINGUÍSTICA ........................................ 8
1.2 LÍNGUA E CULTURA .............................................................................................. 9
1.3 AS IMPLICAÇÕES DA DIALETOLOGIA NOS USOS LINGUÍSTICOS .................. 11
1.4 BREVE QUADRO TEÓRICO SOBRE A LINGUÍSTICA HISTÓRICA ..................... 12
1.5 A LEXICOLOGIA ................................................................................................... 13
2 A LÍNGUA E SUAS ESPECIFICIDADES: A IGUALDADE EM MEIO ÀS
DIFERENÇAS.........................................................................................................................................14
2.1 VARIAÇÃO LINGUÍSTICA ..................................................................................... 14
2.2 MUDANÇA LINGUÍSTICA ..................................................................................... 16
2.3 A FALA DE PESSOAS IDOSAS ............................................................................ 17
2.4 CONSIDERAÇÕES SOBRE O LÉXICO ................................................................ 18
2.5 O LÉXICO NO PLANO DA VARIAÇÃO E MUDANÇA ........................................... 20
2.6 ARCAÍSMOS LEXICAIS ........................................................................................ 21
3 UMA HISTÓRIA EM BUSCA DE DESVELAR A FALA DE PESSOAS IDOSAS ......... 22
3.1 UMA INCURSÃO NA HISTÓRIA E FORMAÇÂO DE INACIOLÂNDIA –
GOIÁS .............................................................................................................................. 23
3.2 LOCALIZAÇÃO, ÁREA, POPULAÇÃO E CULTURA DE INACIOLÂNDIA ............. 25
3.3 PROCEDIMENTOS PARA A COLETA DE DADOS ............................................... 26
3.4 ANÁLISE DOS DADOS: AS ESCOLHAS LEXICAIS DE FALANTES IDOSOS
DE INACIOLÂNDIA – GOIÁS ........................................................................................... 26
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................... 33
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................... 35
WEBGRAFIA....................................................................................................................... 38

A fala, por se caracterizar como o meio pelo qual a língua sai do
universo da abstração, da uniformidade para entrar no universo da concretude,
da pluralidade, tem inspirado trabalhos no âmbito da Linguística que, se por um
lado abrem possibilidades de uma melhor compreensão do trânsito abstrato-
concreto (língua/fala), uniforme-plural (língua/fala), por outro lado estabelece ou
fixa a indissociabilidade entre língua e aspectos sociais.
Assim, a língua, uma vez caracterizada como um elemento social,
passa a se caracterizar também como um elemento cultural próprio de uma
sociedade, de forma que estudá-la nessa dimensão, demanda do pesquisador
lidar com aspectos socioculturais e mesmo étnicos, relacionados direta ou
indiretamente com a linguagem.
Desta feita, compreende-se serem a língua e a linguagem
representativas da veracidade social, o que, por sua vez, abre possibilidades
de análise e descrição da fala de um grupo e/ou grupos, em busca do
conhecimento das tendências mais profundas dessa fala, assim como da
igualdade de um povo em meio à sua diversidade linguística.
Não é de agora que os estudos linguísticos têm colocado à luz a
concepção de língua viva, dinâmica e, por isso mesmo, flexível, configurando a
sua submissão, não forçada, mas, natural, às variações e mudanças no
decorrer do tempo. São essas variações e mudanças que acabam por
organizar grupos, classes, comunidades ou povos em torno de uma fala com
traços comuns, todavia, distintos de outros falares e que, sem sombra de
dúvida, enriquecem a língua portuguesa.
As variações linguísticas ocorrentes em uma comunidade precisam
ser tomadas como características constituintes da língua, e não como
corrupção, erro e empobrecimento da mesma. Sua configuração estrutural
altera-se constantemente no tempo, o que conduz a corroborar que o modo de
falar de uma geração, provavelmente, será distinto do da sua geração
precedente.
Todavia, se se considerar a dificuldade de os falantes perceberem a
mudança, mesmo porque ela é lenta e gradual, entende-se que a constituição
de um corpus representativo do léxico em uso pela geração de falantes idosos
configura-se como o primeiro passo para se perceber, empiricamente, tanto a
variação como a mudança linguística.
Muito embora se reconheça, pois, que a variação e a mudança da
língua se dão também nos planos fonológico, morfológico e sintático da língua,
a área dos estudos da linguagem que propicia mais concretamente a
transparência e/ou espelhamento da realidade linguística e sociocultural de
uma comunidade, é o léxico. Todo o saber adquirido em distintas áreas e
acumulado ao longo da história de um povo é transmitido às gerações
precedentes pela palavra. Daí, a relevância de trabalhos que tomam por objeto
de análise o léxico de uma comunidade de fala.
É, portanto, nessa perspectiva que se insere esta pesquisa, com o
título: Escolhas Lexicais de Falantes Idosos de Inaciolândia – Goiás que, ao se
vincular à área de Estudos Linguísticos e à linha de pesquisa “Variação e
Mudança Linguística” do Curso de Licenciatura em Letras, da Universidade
Estadual de Goiás – Quirinópólis, tem por interesse maior caracterizar a fala de
idosos da cidade mencionada, por meio de um levantamento de suas escolhas
lexicais e que, em algum grau, causem estranhamento a pessoas mais jovens
e/ou escolarizadas, pelo fato de nessas escolhas aparecer um léxico já em
desuso.
A opção pelo levantamento e análise das escolhas lexicais de idosos liga-se à
necessidade não só de registrar e melhor entender a variedade “não culta” do
português falado no interior do estado de Goiás, como também compreender
como o léxico de um determinado grupo social propicia traçar um perfil étnico-
cultural e trazer à luz as influências linguísticas sofridas por esse grupo ao
longo de sua história de formação e constituição.
Desse modo, com esta investigação, os interesses acima
especificados se voltam à pretensão de obter, conhecer e apresentar aspectos
do vocabulário de idosos inacPiolandenses, com características interioranas
que, por hipótese, favorecem a manutenção de traços linguísticos e
socioculturais.
Assim, busca-se imbricar passado e presente de usos da língua na
cidade em que se deu a pesquisa, para a partir desse ponto, observar, levantar
e analisar a manutenção do uso de lexias já em desuso na fala de idosos, ou
mesmo, os processos de inovação, embora esses processos não façam parte
da hipótese da pesquisa.
Para tanto, este trabalho monográfico, cuja metodologia se embasa
na teoria da variação, visto apresentar uma análise em que se focaliza a
relação língua cultura  sociedade, e mesmo por ter como objeto de estudo
a fala de um povo em específico, em situação real de uso, ancora-se nos
pressupostos teóricos da Sociolinguística Variacionista, numa interface com a
Dialetologia, com a Lexicologia e a Linguística Histórica, áreas da linguística
basilares à abordagem que se pretende neste trabalho.
A Dialetelogia faz-se importante por se voltar ao estudo dos dialetos
e dos falares de uma sociedade, sem deixar de lado as variações sociais e,
obviamente, as características dos falares.
Agora, se se levar em conta a relação línguacultura, relação essa
aceita por Sapir já em 1959, ao postular ser o léxico o nível linguístico que mais
revela o ambiente físico e social dos falantes, encontra-se a revelância da
Lexicologia para o tratamento que se pretende dar ao léxico na pesquisa
proposta.
A Linguística Histórica, por sua vez, favorece um adentramento nos
estágios anteriores da língua, para assim permitir uma abordagem diacrônica,
abordagem essa de suma importância quando se busca entender e analisar a
presentificação de traços linguísticos do passado na fala de um grupo
específico.
Para o desenvolvimento da investigação, foram utilizados três tipos
de pesquisa: teórica, histórica e, principalmente, a de campo, haja vista que a
coleta dos dados se deu de forma direta intensiva e direta extensiva. O corpus
constitui-se de entrevistas, gravadas em áudio, pelas quais os informantes
narraram fatos de suas vidas, bem como de seus universos de vida
sociocultural.
Foram entrevistados vinte (20) informantes que atenderam às
seguintes variantes extralinguísticas: idosos – idade igual ou superior a 60
anos; analfabetos ou semi-analfabetos; naturais de Inaciolândia-Go ou nela
residentes desde novos; de ambos os sexos, ou melhor, 10 do sexo masculino
e 10, do feminino.
As análises priorizaram as escolhas lexicais arcaicas usadas pelos
idosos e, para tanto, foram utilizados os dicionários etimológicos de Bueno
(1996) e Cunha (1982).
Ressalta-se que se considera também na pesquisa aspectos
relacionados à história da região e da cidade de Inaciolândia, o que contribui
para identificar seu grau de antiguidade, origem geográfica e social de seus
primeiros habitantes, bem como os aspectos que influenciaram/influenciam na
economia local, fluxo migratório, dentre outros importantes e necessários ao
estudo que se pretende desenvolver.
Nessa perspectiva, as considerações apresentadas propiciam traçar
o objetivo geral da pesquisa, a saber: conhecer, descrever e analisar as
escolhas lexicais de falantes idosos de Inaciolândia-Goiás. Esse objetivo
sinaliza, portanto, a necessidade de se apresentar um quadro teórico que
permita uma melhor compreensão de traços linguísticos recorrentes a estágios
anteriores da língua ou de traços inovadores na fala de idosos.
PPPara tanto, este trabalho organiza-se por três capítulos, nos quais
se busca responder aos seguintes objetivos específicos:
 Discutir os constructos teóricos em se fundam e fundamentam a
pesquisa;
 Construir um arcabouço teórico para melhor compreensão dos objetos
de estudo das teorias linguísticas que embasam o trabalho;
 Apresentar a história de Inaciolândia- Goiás, a fim de se compreender se
há influências de quaisquer naturezas na fala dos idosos desta cidade, assim
como um material linguístico, a ser analisado do ponto de vista semântico –
etimológico, que possibilite a construção de um corpus para o estudo e
sistematização das lexias em uso na fala de idosos inaciolandenses, a fim de
descrever como funciona o sistema linguístico dessas pessoas: em
conservadorismo ou em inovação.
 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS



A ideia ou concepção da indissociabilidade entre língua e sociedade
não é nova e, por isso, se se considerar que a comunicação e a interação entre
indivíduos de um dado grupo ou de uma dada comunidade se concretizam pela
língua, torna-se consensual a relação intrínseca existente entre língua e
aspectos sociais. Essa relação permite compreender língua e sociedade como
partes de um mesmo processo cultural, tal como postula Alkmin (2003, p .24)

A tradição de relacionar linguagem e sociedade (...) está inscrita na
reflexão de vários autores do século XX. Integrados ou não à grande
corrente estruturalista (...), encontramos linguistas cujas obras são
referências obrigatórias, quando se trata de pensar a questão do
social no campo dos estudos linguísticos.

Desse modo, ao se remeter à tradição citada por Alkmin, evidencia-
se que Saussurre, um dos grandes nomes do estruturalismo, embora não
tenha tomado como objeto de estudo a implicação social no uso da língua, não
a nega, pelo contrário, afirma “a linguagem tem um lado individual e um lado
social, sendo impossível conceber um sem o outro” (1989, p.109).
Logo, compreende-se que, embora somente a partir de 1950, o
aspecto social da língua tenha adquirido status de investigação, desde mais
cedo já era impossível se pensar a língua independentemente de fatores
sociais.
Segundo Benveniste (1989, p.93) “...a linguagem é dada com a
sociedade. Assim, cada uma destas duas entidades, linguagem e sociedade,
implica a outra”. Já para Tarallo (2007, p.19), “a língua falada está totalmente
inserida e interligada à sociedade. Não há sociedade sem língua e nem língua
sem uma sociedade para que esta se manifeste”. Percebe-se, pois, a
inquestionável ligação entre a língua e o social, tal como a influência que a
sociedade exerce nos usos linguísticos dos falantes. Ainda, para Benveniste
(idem, p.104)

É na prática social, comum no exercício da língua, nesta relação de
comunicação inter-humana que os traços comuns de seu
funcionamento deverão ser descobertos, pois o homem é ainda e
cada vez mais um objeto para ser descoberto, na dupla natureza que
a linguagem fundamenta e instaura nele.

Julga--se, pois, ser nas relações interativas entre pessoas de um
mesmo grupo social ou comunidade linguística que a língua revela suas
nuances e/ou especificidades, e o homem, sua identidade pelos traços
linguísticos apresentados em sua fala. Essa afirmativa faculta um maior
entendimento da pluralidade da língua, ou seja, da sua variação e mudança
para atender às necessidades humanas.
Para validar a afirmação anterior, recorre-se a Martinet (1975) que
defende ser a modificação própria do funcionamento da língua, seja em função
da existência de gerações distintas de falantes em uma mesma comunidade de
fala, seja em função de distintos contextos de usos reais da língua. E, quando
se trata dos contextos reais de uso da língua, obviamente, remete-se ao plano
social.
Desta feita, ao se retroceder à relação língua  sociedade, implica
retroceder-se ao ramo da linguística que trata dessa relação: a Sociolinguística,
embora sem deixar também de adentrar na Dialetologia, na Linguística
Histórica e na Lexicologia que, tal como exposto, prestam-se também de
fundamentos teóricos a esta pesquisa.
1.1 A LÍNGUA NA PERSPECTIVA DA SOCIOLINGUÍSTICA


Conforme visto, a língua tem natureza social, natureza essa da qual
se ocupa um ramo da linguística - a Sociolinguística - que tem por objetivo o
estudo da língua em uso em uma comunidade de fala, de forma a “relacionar
as variações linguísticas observadas em uma comunidade com as diferenças
existentes na estrutura social desta mesma sociedade” (SILVA e ESTEVAM,
2009, p. 15).
As variações linguísticas a que se referem as autoras, só passam a
ser consideradas, como apontam as bibliografias consultadas, na década de
60, quando Labov, Weinreich e Herzog publicam “Fundamentos empíricos para
uma teoria da mudança linguística”. Nessa publicação, eles apresentam
resultados de estudos em que, por observações de uso da fala em tempo real,
conseguem comprovar a heterogeneidade da língua, revelada em
comunidades complexas, partindo-se de bases empíricas.
Nesse sentido, torna-se evidente ser objeto de estudo da
Sociolinguística a língua falada, observada, descrita e analisada em seu
contexto social, ou seja, em situações realmente vivenciadas. Para tanto, esse
estudo só se torna possível quando se tem uma comunidade linguística
composta por indivíduos que se interagem verbalmente, e possuem um mesmo
sistema de regras quanto ao uso linguístico da palavra.
Segundo Alkmim (2003, P. 30), em 1964, Labov

(...) finaliza sua pesquisa sobre a estratificação social do inglês em
New York, em que fixa um modelo de descrição e interpretação do
fenômeno lingüístico no contexto social de comunidades urbanas -
conhecido como Sociolinguística Variacionista ou Teoria da Variação,
de grande impacto na Linguística Contemporânea.

Um dos princípios fundamentais dessa teoria é a variação linguística
como condição do próprio sistema linguístico. Entender, portanto, a variação
ocorrente na língua não como erro ou deturpação constituiu/constitui condição
sino qua non para os estudos sociolinguísticos romperem com a concepção
homogênea e imutável de língua. Assim, explica Camacho ( 2001, p. 42)

Para a Sociolingüística, a natureza variável da língua é um
pressuposto fundamental, que orienta e sustenta a observação, a
descrição e a interpretação do comportamento lingüístico. As
diferenças lingüísticas, observáveis nas comunidades em geral, são
vistas como um dado inerente ao fenômeno lingüístico. A não
aceitação da diferença é responsável por numerosos e nefastos
preconceitos sociais e, neste aspecto, o preconceito lingüístico tem
um efeito particularmente negativo.

O estabelecimento da Sociolinguística Variacionista vem, pois,
comprovar, conforme já salientado, ser a língua não algo pronto, acabado, mas
sim variável, mutável, de acordo com os contextos sociais. Para Ricci, Almeida
e Fernandes (2009), a Teoria da Variação, ao se voltar aos aspectos
extralinguísticos embutidos na língua, acaba por se voltar às variações
decorrentes desses aspectos, afirmação essa que implica em outra: a língua
varia ou muda para atender às demandas socioculturais ou aos objetivos de
comunicação dos indivíduos.
Dessa forma, se a multiformidade ou heterogeneidade da língua
remete-se ao atendimento de aspectos não só sociais, mas também culturais,
claro está que, ao mesmo tempo em que se estabelece a relação língua e
sociedade, estabelece-se a relação entre língua e cultura.
1.2 LÍNGUA E CULTURA


Sabe-se que a língua é um meio que propicia ao homem a interação
com o outro, assim como, com o meio externo. Desse modo, não se pode
pensá-la dissociada da cultura, haja vista que os usos linguísticos de uma dada
comunidade prestam-se também como forma de identificação cultural dos
pertencentes dessa comunidade.
Kramsch (1998) postula ser a língua o principal meio de expressão
cultural, o que evidencia a percepção de que no modo de falar de um povo se
inserem elementos culturais pertencentes ao seu universo ou contexto social.
Segundo Lyons (1987, p.224) “a cultura pode ser descrita como
conhecimento adquirido socialmente: isto é, como conhecimento que uma
pessoa tem em virtude de ser membro de determinada comunidade.” Nas
palavras desse autor enfatiza-se o postulado de Kramsch (idem), pois faculta o
entendimento de que a língua é para ele processo e produto de aquisição e
utilização cultural da sociedade em que vive.
Essas considerações permitem conceber a língua como reflexo da
realidade humana, concepção compartilhada por Bakhtin (1988), ao afirmar
que o signo reflete e refrata a realidade material, de forma a se entender essa
realidade objetiva como aspectos socioculturais impregnados e transmudados
em signos, elementos constitutivos da língua.
É notória, pois, a interdependência língua-cultura, de maneira a não
haver língua sem cultura e mesmo, cultura sem língua. É com e pela língua e
linguagem que o homem, por seus modos de expressão ou traços linguísticos,
viabiliza a diversidade de culturas existentes. E essa diversidade de culturas,
por sua vez, traz à luz as diversidades e mudanças linguísticas.
Os contextos socioculturais em que se faz uso da língua configuram-
se como elementos basilares e, muitas vezes, determinantes de suas
variações, porque trazem explicações e justificativas para fatos que seriam
dificultados se se levasse em conta tão somente o material linguístico.
Segundo Isquerdo (1996), a língua funciona como veículo de
manifestações culturais, de formas de comportamento e de correntes
ideológicas, manifestações, formas e correntes essas que possibilitam tomar a
língua como de singular importância à vida do homem em sociedade. Pela
língua é que se entende essa sociedade, haja vista nela se encontrar
acumulada aquisições culturais representativas da mesma.
Lyons (idem) esclarece que “cada sociedade tem a sua própria
cultura e diferentes subgrupos dentro de uma sociedade podem ter a sua
própria cultura distintiva”. Nas palavras desse autor, explicita-se o reflexo da
cultura nos usos linguísticos, pois se cada sociedade tem a sua própria cultura,
obviamente, isso implica em modos distintos de se usar a língua.
Ao se analisar a relação línguacultura e ainda, a relação
línguasociedade, conclui-se que em todas as atividades humanas, a língua
faz-se presente. Por conseguinte, ela muito mais que meio de comunicação e
de interação, faz-se responsável pela sistematização das experiências
humanas no que se trata dos fenômenos do mundo. Para tanto, não é por
demais dizer que pela língua se transmite toda a cultura acumulada durante
toda a história da humanidade.
Desta feita, as reflexões até aqui apresentadas facilitam uma melhor
compreensão do trânsito da língua do abstrato para o concreto, do uniforme
para o plural, do homogêneo para o heterogêneo. Esse trânsito é indispensável
para se focalizar a língua no plano sociocultural e, ao mesmo tempo para se
abordar as escolhas lexicais de falantes idosos, foco desta pesquisa, na qual
áreas distintas da linguística se interrelacionam pelos domínios comuns que as
aproximam.


1.3 AS IMPLICAÇÕES DA DIALETOLOGIA NOS USOS LINGUÍSTICOS


De conformidade com as reflexões e ponderações vistas, pode-se
afirmar que toda língua é um conjunto de variedades que, embora seja no
primeiro plano, objeto de estudo da Sociolinguística, outras ciências delas
também se ocupam, mesmo que numa outra dimensão. Logo, se a
Sociolinguística se ocupa da relação línguasociedade, a Dialetologia estuda
a relação línguaespaço geográfico, espaço geográfico esse que envolve
modos distintos de fala.
Nesse sentido, quando se refere ao fenômeno da heterogeneidade
da língua, a Dialetologia não pode ser deixada de lado, haja vista que ela traz
contribuições para o conhecimento das variações diatópica, diastrática e
diafásica. Na verdade, os defensores da Dialetologia argumentam que ela, ao
estudar as variantes regionais, obrigatoriamente, estuda o grupo social que fala
essa variação.
Considera-se como precursor dos estudos dialetológicos no Brasil,
Amadeu Amaral que, em 1920, apresenta a obra “O dialeto caipira”, em que
estuda os falares locais e regionais do país. Todavia, foi com Antenor
Nascentes que a Dialetologia adquiriu outra dimensão ou status, com a
publicação da obra “O linguajar carioca”, em 1923. Já, em se tratando da
solidificação dessa ciência, isso se deu em 1950, com a obra “Introdução ao
estudo de língua portuguesa no Brasil”, de Serafim da Silva Neto.
Logo, se se observa o campo de atuação da Dialetologia, entende-
se o diálogo existente entre ela e a Sociolinguística, razão de neste trabalho se
apresentar uma abordagem daquela.


1.4 BREVE QUADRO TEÓRICO SOBRE A LINGUÍSTICA HISTÓRICA


Para bem estabelecer o diálogo entre as ciências, toma-se aqui a
Linguística Histórica, ramo da linguística voltado ao estudo da mudança da
língua e do material empírico produzido por essa mudança. Faraco (2005,p.9)
postula

A linguística histórica ocupa-se, então, fundamentalmente com as
transformações das línguas no tempo; e os linguistas que nela
trabalham procuram surpreender, apresentar e compreender essas
transformações, orientando-se, na execução dessas tarefas, por
diferentes sistemas teóricos.

Mattos e Silva (2008), corroborando o postulado de Faraco, concebe
a Linguística Histórica como a ciência que se ocupa da interpretação das
mudanças em todos os níveis ou componentes gramaticais, ao longo do tempo.
Portanto, se por um lado, ela trata do reconhecimento das mudanças operadas
na língua, por outro lado, busca ainda, o conhecimento e a compreensão de
como ocorrem essas mudanças.
Para tanto, a Linguística Histórica fixa a ideia de dinamicidade da
língua e, por isso, acaba por também dialogar com a Sociolinguística, visto ser
impossível pensar na relação línguasociedade, sem pensar em mudança
dessa língua. E, por sua vez, pensar a mudança linguística no plano social
conduz a se pensar no componente histórico. Por conseguinte, a necessidade
de nesse estudo, essa abordagem sobre a Linguística Histórica, pois, ela
proporciona a depreensão dos usos lexicais pelos usuários da língua.


1.5 A LEXICOLOGIA

Essa ciência trata do estudo do léxico, de forma a analisá-lo e
descrevê-lo. Para Vilela (1994, p.10), a Lexicologia deve “fornecer os
pressupostos teóricos e traçar as grandes linhas que coordenam o léxico de
uma língua. Já Barbosa (1992) afirma que uma das tarefas dessa ciência é o
exame da carga ideológica da lexia, bem como de sua dimensão persuasiva e
a análise das relações estabelecidas entre o léxico de uma língua com os
universos natural, social e cultural.
A afirmação de Barbosa propicia a compreensão da
indissociabilidade do estudo lexical dos estudos sociolinguísticos, uma vez ser
o léxico um dos componentes da língua que, como se mencionou muitas vezes
neste trabalho, não se dissocia do social.
Então, por se considerar que neste trabalho o objeto de estudo é o
léxico de um grupo específico de falantes, dos idosos de Inaciolândia-Goiás,
encontra-se a relevância de se discutir, mesmo que brevemente, o escopo de
estudo da Lexicologia. Vale, porém, mencionar que mais adiante se
apresentará um estudo mais detalhado sobre o léxico.
Retomando a referência que Barbosa (1992) faz às tarefas da
Lexicologia, não há como deixar de enfatizar a relação do léxico com o
universo cultural, mesmo porque discutir a natureza social da língua induz-se a
correlacionar também cultura e etnia, de forma a se poder conceber a língua
como de natureza sócio-etnocultural. Essa ideia se sustenta no
reconhecimento de a sociedade ser composta por culturas e etnias diferentes
que implicam em usos também diferentes da língua.
Nessa acepção, ao se voltar aos usos que o falante faz da língua, no
capítulo II deste trabalho monográfico, apresentar-se-á uma discussão teórica
sobre temas que, conjugados aos do capítulo I, são de suma importância para
se alcançar o objetivo geral delimitado na introdução e para a projeção de um
novo olhar à língua como fator de identificação social e cultural do indivíduo.
2 A LÍNGUA E SUAS ESPECIFICIDADES: A IGUALDADE EM
MEIO ÀS DIFERENÇAS



Neste capítulo, também de cunho teórico, far-se-á uma incursão em
questões linguísticas pertinentes às ciências descritas no capítulo anterior –
Sociolinguística, Linguística Histórica, Dialetologia e Lexicologia – para bem se
poder observar e melhor compreender como a língua usada por uma
comunidade de fala está estritamente ligada a sua origem sócio-histórico-
cultural.
A discussão que se fará neste capítulo, propiciará também entender
que a língua de uma geração precedente não é a mesma língua de agora,
assim como a língua de agora não será a mesma da geração procedente e
assim, sucessivamente. Ressalta ainda, que as pessoas não usam a língua de
uma mesma maneira, por isso, ela é, além, de mutável, multiforme.


2.1 VARIAÇÃO LINGUÍSTICA



A Sociolinguística demonstra ser a variação própria da língua e,
assim sendo, não se pode tomá-la isolada do fenômeno linguístico como se
fosse algo incomum, casual. Considerar a língua em sua heterogeneidade é
compreender as adaptações por que ela passa a fim de os indivíduos poderem
cumprir seus objetivos de comunicação e assim, se interagirem. Urbano (2000,
p.72) afirma

Com efeito, para que uma comunicação se concretize, temos o
emissor que diz algo (por meio de um enunciado com assunto ou
tema) a um receptor, num determinado tempo e lugar. Tais fatores
condicionarão, pois, não só a produção, mas também a linguagem do
produto desse ato comunicativo.

A variação, em sendo inerente à língua, não pode ser tratada como
aviltamento da mesma, haja vista ser uma variação ordenada, o que significa
haver um conjunto de regras que a governam, ao mesmo tempo, condiciona-a
a fatores linguísticos e extralinguísticos. Ela implica, além de uma ordenação, a
alternância de uso de modos distintos para a transmissão de um mesmo
conteúdo.
Muitas vezes, o modo distinto de se fazer referência a uma palavra,
expressão ou conteúdo causa preconceito e estranhamento a muitas pessoas.
Todavia, há de se levar em conta não existir uso errado da língua, o que existe
é o uso inadequado da mesma em relação ao contexto sócio-comunicativo em
que é usada. Para Gnerre (1998, p.6):

Uma variedade linguística “vale” o que “valem" na sociedade seus
falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles
têm nas relações econômicas e sociais. Esta afirmação é válida,
evidentemente, em termos “internos” quando confrontamos
variedades de uma mesma língua, e em termos “externos” pelo
prestígio das línguas no plano internacional

Frente a esse quadro, tem-se que a variação linguística ocorre em
função de fatores sociais relacionados ao gênero, escolaridade, profissão,
classe social, origem geográfica e contexto de fala do usuário da língua.
Paredes da Silva (2003, P.67) afirma

Ao estudar a língua em uso numa comunidade, defrontamo-nos com
a realidade da variação. Os membros da comunidade são falantes
homens e mulheres de idades diferentes, pertencentes a estratos
socioeconômicos distintos, desenvolvendo atividades variadas, e é
natural que essas diferenças, identificadas como sociais ou externas,
atuem na forma de cada um expressar-se.

Essa afirmação do autor chama a atenção por nela se explicitar a
ideia de autonomia, independência, assim como de possibilidade de os
indivíduos moldarem-na, de acordo com suas necessidades comunicacionais.
Sem contar que ela faculta conceber a variação como uma das distintas formas
de a língua se materializar e/ou se manifestar nos usos linguísticos dos
falantes.
Uma retomada no tempo permite constatar que a variação está
presente na língua portuguesa desde o seu processo de formação, tanto que
se origina do latim vulgar, considerado uma oposição ao latim clássico com o
seu conservadorismo. Nesse sentido, faz-se um tanto utópico se desejar um
nivelamento de usos da língua, pois ela é dinâmica e isso influi como
modelador na fala dos indivíduos.

Segundo Rubio (2008, p.23)

Embora se costume considerar como sinônimas, de um lado,
variantes de prestígio, conservadora, padrão, e culta, e, de outro,
variantes estigmatizada, inovadora, não padrão e popular, é preciso
se ter claro que esses conceitos nem sempre se sobrepõe

Para esse mesmo autor (idem) uma variante inovadora se
interrelaciona com o prestígio por ela adquirido na comunidade, tal como, a
preservação de uma forma já arcaica. Logo, entende-se que a história da
língua segue o mesmo curso da história da humanidade, por isso, se o homem,
seus costumes, seu modo de vida mudam, a língua também mudará. Assim,
como já referenciado outras vezes, não se pode esperar igualdade nos modos
de falar das pessoas, ou mesmo de comunidades distintas, bem como que o
modo de falar de uma geração seja igual à da geração pré e procedente,
concepção que fixa a mutabilidade da língua.
Ao se dizer, por conseguinte, em mutabilidade da língua, claro está
que ela não só varia, mas também muda no transcorrer do tempo. A partir
desse ponto, buscar-se-á discutir a língua nesse plano: da mutabilidade.


2.2 MUDANÇA LINGUÍSTICA


Muitas vezes, neste trabalho, falou-se na dinamicidade da língua, uma de suas naturezas que pressupõe a existência de duas variantes para o mesmo fenômeno linguístico num certo estágio da língua e em um mesmo espaço. Todavia, uma dessas variantes ocupa o espaço da outra,
de forma a se cristalizar na fala das pessoas, no decorrer do tempo. Diferencia-
se da variação pelo fato de essa se remeter a coexistência de duas formas
linguísticas em tempo e espaço comuns.
De acordo com Camacho (2003, p.56)

Toda mudança é o resultado de algum processo de variação, em que
ainda coexistem a substituta e a substituída, embora o inverso não
seja verdadeiro, isto é, nem todo processo de variação resulta
necessariamente numa mudança diacrônica, caso em que a variação
é estável e funciona como indicador de diferenças sociais.

A Sociolinguística encara, portanto, a mudança como um processo
que pode ser observado na sincronia, a partir da variação entre formas
concorrentes, de modo a se conceber a estreita relação existente entre
mudança e variação linguística.
Dentre um dos fundamentos da teoria sociolinguística referente à
mudança da língua surgiu da concepção de ela só poder ser percebida ao se
notar diferenças de comportamento entre jovens e velhos em uma comunidade
ou grupo de fala. Para tanto, a iniciativa de pesquisar a fala de idosos da
cidade de Inaciolândia se deu em razão de se levar em conta essa diferença de
comportamento, que nada mais é, do que comportamento de usos da língua.
Para Faraco (2005, p.117)

a predominância duma variante entre os mais jovens e sua pouca
ocorrência entre os mais velhos pode estar indicando uma mudança
em progresso, isto é, que uma das variantes está sendo abandonada
em favor de outra.

De conformidade com os estudos feitos para esta investigação, viu-
se que o processo de mudança da língua não ocorre de uma hora para outra. É
um processo gradual, em que uma variante usada por um grupo pequeno de
falantes passa a ser usada por indivíduos que possuem mais expressão social
e assim, torna-se uma norma e, obviamente uma variante.
Urge ressaltar, em recorrência, que a variação e a mudança
linguística se dão em nível fonético, morfológico, sintático, semântico e lexical,
sendo o nível lexical o foco de estudo neste trabalho, no qual se apresenta o
levantamento e a análise das escolhas lexicais de falantes idosos de
Inaciolândia-Goiás. Esse levantamento e análise se dão não com o intuito de
se examinar as inovações linguísticas na fala dos idosos, pelo contrário, a
pretensão é de levantar e analisar as lexias já em desuso e que são
conservadas pelos informantes da pesquisa.
2.3 A FALA DE PESSOAS IDOSAS


Muito embora a língua passe por variações e mudanças, operando
uma riqueza singular à mesma, é fato que ela pode também adquirir natureza
estática, quando se trata, principalmente, da fala de pessoas idosas
analfabetas e ainda, de indivíduos analfabetos. Isso ocorre pelo fato de essas
pessoas, assim como não se adaptam aos novos costumes, às novas
condições de vida, não incorporam em sua fala os mesmos traços linguísticos e
as mesmas lexias usadas pelos jovens.
Nesse sentido, é comum se verificar na fala de pessoas idosas
palavras ou expressões que já fizeram parte do léxico ativo dos falantes num
dado período histórico, mas que hoje, causam estranhamento aos jovens, bem
como às pessoas escolarizadas. Preti (2001, p.95), ao se referir à fala dos
idosos, postula

A linguagem dessa faixa etária apresente marcas específicas que
podem vislumbradas nos campos prosódico, sintático, léxico e,
sobretudo, discursivo ou conversacional e pode ser estudada em três
perspectivas que mantêm pontos de ligação e não são estáticas: a de
caráter cultural, social e psicológico individual.

Para esse autor, o relacionamento social da pessoa idosa que se dá
pela linguagem, é afetada pelo processo de envelhecimento. Desse modo,
pode-se deduzir que o entorno sociocultural do idoso contribui, sobremaneira,
para que ele mantenha em sua fala características ou nuances próprias de
estágios anteriores da língua.
Preti (idem, p.97), afirma ainda

As informações sobre o passado, que transparecem constantemente
no discurso do idoso, muitas vezes são expressas por um léxico em
que aparecem vocábulos, expressões, estruturas formulaicas, formas
de tratamento, relacionados com sua época. Neste sentido, podemos
dizer que as categorias espaço e tempo podem transparecer nas
marcas lexicais: Arcaísmos (utilização de vocábulos, formas de
construção frasais que saíram do uso na língua corrente e nela
refletem fases anteriores nas quais eram vigentes), (...)

Assim sendo, como o objeto de estudo desta pesquisa se remete ao
léxico, é imprescindível se discutir sobre ele.

2.4 CONSIDERAÇÕES SOBRE O LÉXICO



Anteriormente, no capítulo I, abordou-se a Lexicologia como a
ciência linguística que se ocupa do estudo do léxico e, não divergente de
outros ramos da linguística, volta-se aos aspectos socioculturais relacionados à
língua. Para tanto, com a sustentação da ciência lexicológica, pode-se postular
que o léxico de uma língua nada mais do que o saber vocabular de um grupo
cultural e sociolinguístico.
Por sua vez, Isquerdo (1996) concebe-o como um agrupamento de
realidades que o homem adquire por meio de sua vivência social, de tal modo
que ele acaba por exteriorizar o comportamento sociocultural humano.
Com base, portanto, nessas considerações, afirma-se que o modo
de vida das pessoas, bem como o modo como elas encaram o seu entorno
social e organizam a realidade em que vivem refletem-se no léxico, por isso a
afirmação de Biderman (2001, p.179) “qualquer sistema léxico é a somatória de
toda experiência acumulada de uma sociedade e do acervo cultural através das
idades”.
Nessa mesma perspectiva, Brandão (2009), ao investigar e
descrever atlas linguísticos regionais, defende que a projeção da cultura de um
povo se dá na língua em uso, cultura essa entendida como conjunto de
comportamentos, crenças e valores de uma sociedade e transmitidos de forma
regular. Já Turazza (2006), ao estudar o léxico, postula que ele carrega toda
uma carga histórica, cultural e ideológica.
Dessa forma, se se analisar bem as postulações de Brandão (idem)
e de Turazza (idem), conclui-se que as palavras ou lexias usadas pelos
indivíduos não são neutras, desprovidas de sentido, pelo contrário, nelas se
inscrevem a aprendizagem de valores, bem como toda a interpretação que
esses indivíduos obtêm do mundo.
Estudar e investigar o léxico usado por uma determinada
comunidade de fala conduz a se pensar a relação línguaculturasociedade,
relação que, conforme visto, foi concebida por Sapir já em 1959, ao postular
ser o léxico o nível linguístico que mais revela o ambiente físico e social dos
falantes.
Muitas são as definições, concepções ou postulações sobre o léxico,
todavia, tem-se em Vilela (1994, p.6), um breve quadro teórico capaz de
abarcá-lo em toda sua dimensão.





Ele afirma

O léxico é a parte da língua que primeiramente configura a realidade
extralingüística e arquiva o saber linguístico de uma comunidade.
Avanços e recuos civilizacionais, descobertos em inventos, encontros
entre povos e culturas, mitos e crenças, afinal, quase tudo, antes de
passar para a língua e para a cultura dos povos, tem um nome e esse
nome faz parte do léxico. O léxico que é o repositório do saber
linguístico e é ainda a janela da qual um povo vê o mundo. Um saber
partilhado que apenas existe na consciência dos falantes de uma
comunidade.

Considerando-se, portanto, a afirmação do autor, evidencia-se e
enfatiza-se cada vez mais que, em virtude da dinâmica da língua, o léxico,
assim como os demais componentes linguísticos passam por variações e
mudanças. Nesse sentido, para melhor aprofundamento das discussões
propostas, vê-se a essencialidade de uma abordagem capaz de demonstrar a
variabilidade e mutabilidade do léxico que, em sendo variável e mutável,
presta-se como um objeto riquíssimo de ou para pesquisa.



2.5 O LÉXICO NO PLANO DA VARIAÇÃO E MUDANÇA



Uma vez estabelecida as variações e mudanças sofridas pela língua
em todos os componentes da língua, Oliveira (2001) postula o léxico como o
nível linguístico que mais passa por transformações, isso por ele possuir a
capacidade de expressar a forma como uma sociedade visualiza o mundo.
Desse modo, percebe-se que um indivíduo, além de usar o léxico comum do
seu entorno social, usa ainda outro mais delimitado, de conformidade com o
papel social por ele exercido, assim como ele é capaz de carregar consigo
lexias próprias de estágios anteriores da língua.
Na mesma linha de pensamento de Oliveira (idem), Guilbert (1975)
ressalta que, diferentemente da gramática, o léxico, por não se constituir de
natureza puramente linguística, passa por transformações mais rápidas. Para
esse autor, o léxico sofre diversidades socioculturais, visto que ele participa da
estrutura da língua.
Nessa perspectiva, tem-se o léxico como altamente variável,
mutável. Se palavras surgem para designar novas descobertas, inventos e/ou
realidades, também desaparecem ou adquirem novas significações. Tem-se,
todavia, que embora haja todo esse movimento da língua, essencialmente, no
plano lexical, pode-se observar a manutenção de lexias já em desuso na fala
de algumas pessoas, principalmente, mais idosas, de forma a sentir a
necessidade de um resgaste dessa manutenção, a fim de estudo e construção
da história da língua.


2.6 ARCAÍSMOS LEXICAIS


Em se tratando das mudanças que ocorrem no plano lexical, o eixo
diacrônico da língua deixa aparente o processo de desgaste ou arcaização das
palavras, de tal modo que, com o passar do tempo, algumas palavras deixam
de fazer parte do léxico ativo de usuários da língua. Para tanto, segundo Cunha
e Cardoso (1978), “em rigor não se pode falar em arcaísmo a não ser em
relação com uso normal consagrado em certo momento da história de uma
língua.”
Remetendo-se, pois, à questão dos arcaísmos lexicais, gramáticos e
estudiosos da língua consideram-nos como lexias ou palavras que caíram ou
caem em desuso, em razão de se tornarem desnecessárias frente a
significados referentes a elementos culturais também desaparecidos. Ocorre
ainda o desuso de certas palavras, pelo fato de elas serem, em certo estágio
da língua, substituídas por outras lexias sinônimas.
Muito embora se compreenda o processo evolutivo da língua, pelo
qual novas palavras são incorporadas ao léxico dos falantes, enquanto outras
entram em processo de desaparecimento, não se pode ignorar que, na variante
popular, há a tendência de preservação de lexias obsolescentes, o que ocorre,
conforme já apontado, principalmente, na fala de pessoas idosas. Para Dubois
(1998, p.65)

Existem simultaneamente segundo os grupos sociais e segundo as
gerações, diversos sistemas linguísticos (...) formas que só pertecem
aos locutores mais velhos; estas serão consideradas pelos locutores
mais moços como arcaísmos em relação à norma comum.




A seu tempo, Torres (2001, p.97), salienta que

Embora haja algumas marcas lexicais do tempo, na fala das pessoas
mais velhas especialmente, devemos reconhecer que nem por isso
essa linguagem se tornou ininteligível aos mais jovens, mesmo
porque os próprios idosos se encarregam de buscar artifícios para
explicar os arcaísmos, as expressões formulaicas fora de uso, a gíria
do seu tempo.

Entretanto, a pesquisadora discorda em certo ponto dessa autora,
visto que consoante à investigação por ela realizada junto a vinte informantes,
em nenhum momento se observou essa busca de artifícios para explicarem as
lexias ou expressões em desuso.
Mateus e Inostroza (2001) referem-se à arcaização do léxico como
decorrente dos seguintes fatores: surgimento da sinonímia para algumas
lexias; a homonímia; a degradação de sentido de palavras e o ambiente
linguístico.
Todavia, pode-se afirmar que a manutenção de lexias próprias de
estágios anteriores da língua na fala de idosos se dá, ao mesmo tempo, por
distintas razões, dentre elas a realidade sociocultural do falante. Para Torres
(idem) “(...) fatores socioculturais agem sobre esses falantes, levando-os a
estruturarem seu discurso dentro de parâmetros diversos dos realizados pelos
falantes de outras faixas etárias.”
Nessa linha de raciocínio, no próximo Capítulo, buscar-se-á
comprovar as considerações que foram até aqui apresentadas em relação à
fala de pessoas idosas, no que tange às escolhas lexicais.
3 UMA HISTÓRIA EM BUSCA DE DESVELAR A FALA DE
PESSOAS IDOSAS



Neste capítulo, configura-se, no primeiro momento, a história de
Inaciolândia-Goiás, no intuito de se constatar ou não se essa história influencia
na preservação de um léxico já arcaico na fala dos idosos. No segundo
momento, será apresentada a análise dos dados.


3.1 UMA INCURSÃO NA HISTÓRIA E FORMAÇÂO DE INACIOLÂNDIA –
GOIÁS


A História e formação de Inaciolândia-Goiás se inicia em 1914,
quando José Rodrigues de Barros, natural de Quirinópolis-Goiás, casado com
Maria Theodora de Jesus, juntamente à sua família, chega à região e constrói
uma sede na fazenda, fixando ali residência. Na época, residiam no local
outras famílias, dentre elas as famílas Dias, Garrote e Moura.
Em busca de trabalho e por gostarem da região, com o passar do
tempo, outras famílias ali também chegaram e, como as demais, fixaram
residência. Todavia, isso só foi possível, em razão de o senhor José Inácio, tal
como era conhecido José Rodrigues, ter distribuído, em 1962, um pouco de
suas terras a essas famílias, não por doação, mas sim, por venda. Essas terras
foram divididas em três loteamentos, nos quais foram construídas as
residências do Sr José Inácio Rodrigues de Barros, do Sr Pedro Soares de
Arruda, do Sr Carmindo Francisco da Silva e do Sr Orias Francisco Sobrinho.
Esse primeiro loteamento, com registro em cartório em 1967,
constituiu-se o primeiro bairro de Inaciolândia e, assim, como as famílias
desejavam que ali se transformasse realmente em uma cidade, começaram a
trabalhar na abertura de estradas, por meio de carro de boi.
Nesse sentido, outros fazendeiros das proximidades da região
passaram a vender também suas terras, em virtude de elas não serem tão
férteis, para a formação da cidade. Com certeza, mesmo motivo de senhor
José Inácio ter loteado parte das suas.
Ressalta-se que, embora as terras tendessem à infertilidade, a
economia da época era basicamente agricultura e pecuária, sendo que para
desenvolver as atividades a ela relacionadas, chegaram, pouco a pouco, à
região famílias das regiões Norte e Nordeste do Brasil, em razão da falta de
mão de obra na região. Portanto, essas pessoas contribuíram, sobremaneira,
na formação da cidade.
Sr. José Inácio, motivado pelo esforço dessas pessoas e desejoso de ver o crescimento do povoado, constrói uma balsa que dava acesso à cidade de Gouvelândia, de forma a facilitar o trânsito de automóveis, tal como a ida e vinda de pessoas e, consequentemente, o desenvolvimento
do local.
Percebe-se, por meio de documento emitido pela Secretaria de
Educação de Inaciolândia, que o crescimento da cidade foi bem lento, tanto
que só em 1963, Sr Jamil Abdala, um dos fazendeiros que vendera suas terras,
construiu a primeira máquina beneficiadora de arroz e, em 1964, Sr José
Inácio, com todo seu empenho, conseguiu a construção da primeira igreja
Católica Apostólica Romana, por intermédio do prefeito de Itumbiara, Sr
Ataídes Rodrigues Borges.
Já, em 1965, o Sr Sebastião Xavier Júnior, também com a
contribuição do prefeito de Itumbiara, conseguiu que se construísse a primeira
escola do local, denominada Escola Municipal Shangrilá, com apenas duas
salas de aula.
Em meados de 1967 a 1970, o vereador Odair Dinato, de Itumbiara,
conseguiu, junto ao prefeito Ataídes Rodrigues, a ampliação e abertura de ruas
naquele povoado que, lentamente, adquiria porte de cidade. E, devido à
necessidade de uma rodoviária, em 1969, José Inácio doou um terreno para
tal.
O povoado de Inaciolândia passou a distrito de Itumbiara – Goiás em
14 de maio de 1976, sob a Lei 8.092/76. Nesse sentido, com o sonho de ver o
distrito se tornar emancipado e, obviamente, com mais moradores e recursos a
esses, até o ano 1978, o Sr José Inácio vendeu 400 lotes, para que neles
pudessem ser construídas mais residências e casas comerciais. Desses lotes,
107 foram escriturados, todavia, houve a proibição para tal pela prefeitura de
Itumbiara, uma vez não haver aprovação da mesma para a escrituração.
Com a morte de Sr José Inácio, em 1987, seu neto, Osvaldo
Barcelos Correa, a fim de dar continuidade ao trabalho do avô, bem como
legalizar os loteamento e fazer o inventário, chega ao local em 1989. Desse
modo, em 1990, o loteamento foi aprovado e, registrado em 1991.
A partir daí, foram construídas mais residências, comércios, hospital,
cemitério e outros, de tal forma que se iniciou a luta de alguns homens do
distrito, por sua emancipação. Para tanto, em 29 de março de 1992, deu-se o
plebiscito com a finalidade de colher a opinião pública que foi positiva à
emancipação. Então, em 29 de abril do mesmo ano, pela Lei estadual nº
11.708 no governo de Íris Resende Machado, Inaciolândia tornou-se município,
desmembrando-se, de vez, de Itumbiara.
Tem-se, desse modo, que a origem dos primeiros habitantes de
Inaciolândia caracteriza-se como essencialmente rural e, por se considerar que
na época, diferentemente da atualidade, os habitantes da zona rural viviam
alheios às informações, aos conhecimentos, ao mundo do letramento, longe do
progresso em todos os aspectos, há de se compreender a tendência de as
pessoas mais velhas usarem a variedade popular da língua, bem como de
preservarem algumas lexias pertencentes a estágios anteriores da língua, uma
herança sociocultural.


3.2 LOCALIZAÇÃO, ÁREA, POPULAÇÃO E CULTURA DE INACIOLÂNDIA


O município de Inaciolândia localiza-se na região Sudoeste do
Estado, microrregião do meia ponte, com uma área de 680 km². Limita-se ao
Norte, com a cidade de Bom Jesus; ao Sul, com o Estado de Minas Gerais; ao
Leste, com as cidades de Cachoeira Dourada e Itumbiara e, ao Oeste, com a
cidade de Gouvelândia.
Segundo o senso 2010, a população de Inaciolândia é de 5.699
habitantes, assim distribuídos: 4.815, zona urbana e zona rural, 884, embora o
interesse desta pesquisa se volte à zona urbana. Em relação ao número de
pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, há 342 do sexo masculino e
286, do feminino.
No que tange ao aspecto cultural da cidade em que se deu o estudo,
pode-se afirmar que essa se baseia em festas juninas com a tradicional dança-
quadrilha e comidas típicas; folia dos Santos Reis, reuniões de famílias para
reza do terço e cumprimento de votos; festa do peão. Essa cultura, de certa
forma, revela a tradição rural ainda incorporada na zona urbana.
Logo, levantar e analisar a fala de pessoas idosas implica considerar
não só a idade propriamente dita, mas também suas raízes socioculturais que,
uma vez ligada à zona rural de outrora, influencia, como já se afirmou, no uso
de arcaísmos.


3.3 PROCEDIMENTOS PARA A COLETA DE DADOS


Antes de se configurar, propriamente, a amostra dos dados e suas
análises, vale registrar que as lexias utilizadas para cumprir o objetivo geral da
pesquisa foram coletadas por meio de entrevistas, nas quais os informantes
narraram histórias de vida, histórias da cidade e do seu próprio universo
psicossocial.
Cada entrevista teve a duração de 1 hora, de modo a se totalizar 20
horas de gravação que, por sua vez, ocorreram em 15 dias, prazo que facultou
à pesquisadora ouvir a fala dos informantes e assim, observar se nela havia ou
não o emprego de um léxico arcaico.
Todos os informantes foram entrevistados em suas residências, com
o objetivo de se sentirem mais à vontade e o mais natural possível. Para
contribuir com a extroversão dos mesmos, em nenhum momento, deixou-se
perceber que suas falas estavam sendo gravadas. Vale esclarecer que essa
extroversão se deu de tal forma que, muitas vezes, entravam no meio da
entrevista pessoas alheias ao objetivo proposto, isto é, estavam por perto, mas
não atendiam à faixa etária delimitada para a pesquisa.




3.4 ANÁLISE DOS DADOS: AS ESCOLHAS LEXICAIS DE FALANTES
IDOSOS DE INACIOLÂNDIA – GOIÁS


Conforme já referenciado na introdução deste trabalho, para a
análise dos dados, foram utilizados dicionários etimológicos, com o propósito
de não só buscar o significado das lexias arcaicas empregadas na fala dos
informantes, mas também a origem das mesmas.


Informante 1


Assunto: Pedido de casamento e prazo que o pai da moça lhe concedeu:
“... Que era o prazo dos papeli corrê né?...”
O substantivo papel origina-se do latim “papyrus” e, o verbo correr,
também da mesma língua “curro, ere”. Nesse contexto de fala, quando o
informante diz “papeli” remete-se ao significado de documentos, e “corrê”, ao
significado de divulgar, propalar.


Assunto: Resposta sobre o tempo concedido pelo pai da moça para o
casamento:
“... Da minha banda num pega nada...”
A palavra banda é originada do germânico “binda” e nessa fala, tem
o significado de “de minha parte”

Informante 2


Assunto: Narração sobre a vida em família e a relação estabelecida com a
sogra:
“... Nóis até vivia bem... Mais pur causa de umas terra, eu e minha sogra
ficamos “debanda”.
De origem francesa (débander) a lexia “debanda” significa “cada
uma para seu lado; ficaram desentendidas”.


Informante 3


Assunto: Sobre a relação com o ex-marido e o quanto sofria com ele:
“... Deus me defenda... aquele homi era um estrupiço na minha vida...”
A palavra “estrupiço” é uma variante de estrupício ou estropício, de
origem italiana “stropiccio” (tropel, estrépito produzido por pés). Daí, o
significado de malefício; dano; prejuízo.


Informante 4


Assunto: Narração sobre a primeira vez que foi a Goiânia com um neto que a
levou para fazer tratamento, e a sensação ao ver todos aqueles prédios, bem
como a descrição dos mesmos:
“... achei tudu muito estranhe...uma curriria de genti , carru pra tudu quantu é
lado...fiquei um tempão pensanu como as pessoa mora numas jiringonça
daquelas...”
Jiringonça, variante de geringonça, que se origina do espanhol
“jerigonza”. Significa coisa malfeita; obra armada no ar.
Informante 5


Assunto: Narração sobre uma festa em que foi quando jovem e bebeu pinga
demais:
“... Minina...cê pricisava ver; cheguei im casa de um jeito ... e daí, tomei uma
coisa e outra... nada. Então, infiei o dedo na guela e lancei até a barriga duê...”
A lexia “guela” é variante de “goela” de origem latina “gulella” e
significa “garganta” por sua vez, “lancei”, do verbo lançar, também de origem
latina “lanceare”, significa “vomitei; coloquei para fora”.


Informante 6


Assunto - Lembranças de como certas coisas eram feitas antigamente:
“... A gente lembra e dana a ri depois...”
A palavra dana, do verbo danar, origina-se do hebraico e, embora
tenha muitos significados, nessa fala significa “começa”.


Informante 7


Assunto - Narração sobre o pedido de casamento ao pai da esposa e resposta
dele:
“Ele disse que dava um prazu, mais quando é fé me chegô num canto...”
Segundo os dicionaristas, a expressão “quando é fé” é de origem
portuguesa brasileira, especificamente, goiana, com o significado de “de
repente”.


Informante 8
Assunto – História sobre um primo que era ajeitador de casamentos para os
outros
“Seu Mané era muito futriqueiro...”
A palavra “futriqueiro” origina-se do francês e, nesse caso, tem o
significado de “aquele que faz combinações, tramoias”.




Informante 9


Assunto: Relato sobre sua mudança para Itumbiara e retorno para Inaciolândia
“... voltei porque toda vida aqui tinha bonança de água e lá não...”
A palavra “bonança” é de origem espanhola e significa, de
conformidade com o que diz o informante que usou uma variante de
“abundância, muita, excesso”. Todavia, dicionarizada a palavra bonança
significa “calmaria, sossego”.


Informante 10


Assunto: Sobre o pedido de dinheiro emprestado a ele pelo pai:
“Ele rudiô, rudiô, até cantá o que ele quiria...”
Variante do verbo “cantar” que se origina do infinitivo latino “cantare”
e, nesse contexto significa “falar, pedir, soltar a voz” (para exprimir determinado
sentimento).


Informante 11
Assunto – Relato sobre o ciúme que os pais tinham da filhas na época dela
jovem e do comportamento que não gostavam que elas tivessem
“A genti era moça séria, muito diferenti das moça de hoje...hoje elas é muito
isprivitada, umas sirigaita...”
Isprivitada é uma variante da lexia “espevitada” que se origina do
português e significa “desembaraçada nos modos e no falar; menina sapeca,
animada, elétrica.” Sirigaita, por sua vez, é de origem tupi “si’ri” (correr,
deslizar) e significa mulher inquieta, ligeira, assanhada, que saracoteia.



Informante 12


Assunto – Lembrança de um fato engraçado ocorrido com um amigo na lua de
mel:
“... O rapaiz era meio acavalado, então a muié saiu correndo...”
A lexia “acavalado” deriva-se de cavalo que tem sua origem do latim
“caballu”. Significa aquele que tem modos bruscos ou grosseiros, abrutalhado,
de grande potência sexual.


Informante 13


Assunto - Sobre o trajeto que o ônibus fazia para levar as pessoas a outras
cidades:
“... Cê sabe ali a istrada que vai inu pra casa do Fabianu? Ali é onde a
jardineira passava...”
A palavra jardineira origina-se do francês “jardinière”. Significa carro
para transportes de pessoas de bancos paralelos e em diferentes níveis;
ônibus
Informante 14


Assunto – Explicação sobre os cuidados que os pais precisam ter com as
filhas:
“... Se juntá o pai e mãe pra vigiá uma moça dentu di casa e querenu previ ela
de tudo prá num saí, fica pió...”
Na verdade, não se sabe se o informante quis com a palavra “previ”
dizer “prevenir”. Desse modo, criou-se a impossibilidade de buscar a etimologia
da palavra. Todavia, entende-se que ele quis dizer “proibir”





Informante 15


Assunto - situação dos filhos quando se separou da esposa:
“... tem muito tempo uai, meus mininu era tudu miúdu.”
“Miúdo” origina-se do latim “minutíno, minutus” e nesse caso tem o
significado de pequenos; garotos; crianças.


Informante 16


Assunto – Sobre dificuldades da época:
“... A gente trabalhava pra daná, tinha que arrumá maravalha para acender
fogo e fazê cumida...”
De origem um pouco duvidosa, embora considerada latina “mala
folia”, essa palavra significa “graveto”; restos da lenha.


Informante 17


Assunto: Sobre a vida das crianças da época, principalmente das doenças que
as afetavam
“... Num sei u qui acunticia, mais a mininada vivia com pereba, com
andaço...mais viva correnu nus matu discalçu, e cumenu coisa dus matu...”
De origem tupi “pe'rewa“, a palavra “pereba” tem o significado de
ferida; afecções na pele; chaga. Já “andaço”, de origem portuguesa, significa
“pequena epidemia; diárreia”.





Informante 18


Assunto: Relato sobre com quem aprendeu a ler: alfabetizou:
“... Minha mãe sabia era quasi sem leitura... mais tinha muita sabença...”
“Sabença” tem origem latina “sapientia” e significa sabedoria.


Informante 19


Assunto: Relato sobre o fato de as irmãs não terem se casado:
“... Lá na minha casa nóis era sete irmão...só quatro casô, só us o homi. As
muié ficou tudo caritó...us pai vigiava elas pur dimais...”
De origem portuguesa brasileira (indígena), especificamente,
nordestina, a lexia “caritó” significa no contexto, “solteirona; moça velha que
não casa”.


Informante 20


Assunto: Comparação do comportamento dos jovens da época com os da
atualidade:
“... foi um tempim muito bão, a gente brincava, caçoava muito...Fazia fuzaca,
mais hoje é uma coisa isquisita...muita briga, confusão...”
A palavra “fuzaca” é uma variante de “fuzarca”, de origem
portuguesa brasileira e significa “farra, folia”.
















4 CONSIDERAÇÕES FINAIS


Diante de todo o arcabouço teórico-metodológico apresentado nesse trabalho monográfico, em que a focalização se deu nas escolhas lexicais de falantes idosos da cidade de Inaciolândia-Goiás, sem desfocalizar ou desviar o olhar, em nenhum momento, das implicações socioculturais
nos usos da língua, conclui-se que um estudo dessa natureza se favorece o
conhecimento das variações, das mudanças e das conservações linguísticas
no decorrer do tempo, favorece ainda a compreensão do léxico como a “alma,
a essência da língua”.
Assim sendo, como se viu, impossível é se colocar de um lado a língua e, de outro, a sociedade e a cultura, o que impossibilita também, pensar a língua sem um acervo lexical, pois esse acervo não só fornece ao homem a liberdade de fazer suas escolhas lexicais para uso no processo
comunicativo, mas também lhe possibilita ultrapassar as barreiras linguísticas,
influenciado pelos fatores de ordem sociocultural.
Tornou-se claro, portanto, nessa pesquisa que o usuário da língua retrata em suas escolhas lexicais toda uma influência extralinguística, influência que, mesmo refletida na manutenção de um léxico arcaico, tal qual demonstrado nesse estudo, em confirmação à hipótese levantada,
configura-se como patrimônio cultural ou herança linguística legada às
gerações contemporâneas. Logo, a necessidade de registro desse léxico para
a construção da história da língua, pois, conforme aponta Fiorin (2001, p. 115)
“O léxico de uma língua forma-se na História de um povo”.
Desse modo, o que se pretendeu com esse estudo foi o de presentificar a história de idosos de Inaciolândia – Goiás, recorrendo-se, por conseguinte, ao léxico por eles usado. Assim, para recorrer a essa história, teve-se de recorrer, ao mesmo tempo, a outras histórias – àquela que
permite relacionar presente e passado da língua, Linguística História ou
diacrônica e à história de formação da cidade.
O adentramento nessas histórias teve o objetivo de fixar a ideia de
mutabilidade da língua, assim como o de apresentar o léxico como o nível
linguístico em que estão imbricadas, configuradas todas as experiências
sociais do indivíduo e todo um conjunto de bens culturais imateriais, adquirido
por suas vivências em comunidade.
Todavia, por se considerar que no seio da sociedade, com suas
particularidades ou especificidades, é que fluem as falas, e os indivíduos
revelam o léxico comum do grupo a que pertencem, buscou-se apresentar os
demais fundamentos teóricos da pesquisa, além da Linguística Histórica.
Nessa acepção, destacou-se a Sociolinguística como fundamento primeiro,
isso por se acreditar que falar em Língua de um povo envolve falar e conhecer
sua sociedade.
A teoria sociolinguística, muito embora de uma riqueza singular para
a investigação da fala de um grupo específico, não se demonstrou suficiente à
pesquisadora para o estudo a que se propôs, inscrito no título: As escolhas
lexicais de falantes idosos de Inaciolândia-GO. Portanto, sentiu a necessidade
de recorrer a outras teorias linguísticas – Dialetologia e Lexicologia, haja vista
elas também tratarem da língua em uso.
Língua é também cultura. Logo, por compreender que ao estudar a
língua de um determinado grupo, se se deseja entender a relação estabelecida
pelo homem com a realidade que o circunda, é necessário o estudo de
aspectos culturais dessa realidade, foi necessária ainda uma abordagem
teórica reflexiva não só da relação língua e sociedade, como também de língua
e cultura.
A partir desse quadro teórico criou-se um outro, no qual se procurou
abordar a variação e a mudança da língua; a fala de pessoas idosas;
considerações sobre o léxico e arcaísmo lexical. Com essa abordagem, o que
se pretendeu foi desvelar toda as nuances da língua nos usos que o falante
dela faz, para então se chegar propriamente à configuração da amostra e na
análise dos dados, pela qual se confirmou, como já dito, que a fala de idosos
de Inaciolândia-GO está para a conservação e não para a inovação.
Num primeiro instante, a partir das primeiras análises de oito (8)
entrevistas que não foram consideradas por motivo de quatro (4) dos
informantes não se enquadrarem, de fato, às variáveis extralinguísticas,
pensou-se num equilíbrio entre conservação e inovação, todavia, com as
análises concluídas da fala dos vinte (20) informantes, o resultado foi diferente.
Tem-se, portanto, um estudo sociolinguístico e lexical da fala de
idosos inaciolandenses, estudo que, embora tímido, poderá contribuir para que
outros se interessem em também pesquisar a fala de grupos específicos de
falantes.
Se esse trabalho acresce às pesquisas da realidade do português brasileiro
não se, todavia essa também foi uma das pretensões.

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