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A MULHER NO TAMBOR DE MINA

(
*)
Mundicarmo Maria Rocha Ferretti
(
**)
Análise da posição e representação da mulher e das entidades
espirituais femininas no Tambor de Mina do Maranhão.
1 – INTRODUÇÃO
A importância da mulher na reliião afro!brasileira tem sido afirmada e demonstrada por muitos
pes"uisadores# mas há uma car$ncia de estudos sobre a representação do feminino nas di%ersas
manifestaç&es da reliião afro!brasileira' (andombl)# *mbanda# +atu"ue# ,an-# Tambor de Mina e
outras. .este trabalho pretendemos e/aminar a posição da mulher e das entidades espirituais femininas no
Tambor de Mina do Maranhão e fa0er uma análise de aluns rituais reali0ados em terreiros de 1ão 2u3s#
para entidades femininas# procurando %er como a mulher (ou o feminino) ) representada na"ueles
rituais
(
4).
2 – A mulher no Tambor de Mina do Maranhão
.o Tambor de Mina 5 manifestação da reliião afro!brasileira t3pica do Maranhão e
predominante no .orte do +rasil 5 a mulher ) maioria# tanto como m)dium de incorporação "uanto na
chefia dos terreiros. 6sta posição# apesar de maior nos terreiros antios ("ue %$m do s)culo passado) )
tamb)m obser%ada em terreiros mais no%os# onde a Mina costuma coe/istir com outros sistemas
reliiosos como' (ura ou 7a8elança# Mesa +ranca (9ardecista)# *mbanda e o (andombl).
6m 1ão 2u3s# nos terreiros mais antios# homem não costuma entrar em transe e# "uando recebe
uma entidade espiritual# não dança tambor. 7or essa ra0ão# nunca assume a chefia do terreiro# o "ue
8ustifica a afirmação da e/ist$ncia de um matriarcado no Tambor de Mina. 6mbora tenha ha%ido no
Maranhão# no s)culo passado e no in3cio do nosso s)culo# aluns pais!de!santo "ue prepararam mães de
terreiros importantes# s: as mulheres são lembradas como ;pilares< do Tambor de Mina 5 ) dif3cil alu)m
contar a hist:ria da Mina sem lembrar os nomes de' Andresa# da (asa das Minas# =udu# da (asa de .a-#
Anastácia# do Terreiro da Tur"uia# >: 1e%era# .há Alice# Ma/imiana e de tantas outras mães!de!santo.
A partir dos anos cin"?enta# hou%e# em 1ão 2u3s# uma proliferação de terreiros abertos por
homens (eralmente 8á interados no campo reliioso afro!maranhense# como curador@ pa8))# mas# mesmo
nos terreiros abertos por eles# a mulher tem maioria e ocupa posiç&es de desta"ue. 6mbora não se8a ali a
mãe!de!santo# )# eralmente# a uia ou mãe!pe"uena e a contra!uia (a seunda e terceira pessoa da casa).
.a (asa Fanti!Ashanti (terreiro aberto em 4ABC por 7ai 6uclides# 8á conhecido como curador# e "ue
introdu0iu ali# em 4ACD# o (andombl))# todas as posiç&es hierár"uicas loo abai/o do pai!de!santo são
ocupadas por mulheres e# "uando reali0amos ali nosso trabalho de campo (4ACE!4ACF)# ADG dos
participantes dos to"ues de Mina e CDG dos participantes do (andombl) eram do se/o feminino
(F6RR6TTH# M. R.# 4AAI).
A posição das entidades espirituais femininas nos terreiros de Mina da capital maranhense
parece# no entanto# inferior J das masculinas# se8am elas %odum# ori/á# entil (nobre associado a ori/á) ou
(
*) Apresentado oriinalmente em (a/ambu# no 4C
o
6ncontro Anual da A.7K(1 5 LT' Reliião e 1ociedade# coordenado por
Maria Melena (oncone 5 NI!NF@44@4AAE.
(
**) =r. em AntropoloiaO Ad8unto H> 5 =ep. de 7sicoloia *FMA@aposentadaO professora Titular da *6MA 5 =ep. (i$ncias
1ociais.
(
4) 6ntre os trabalhos publicados sobre reliião afro!brasileira# "ue dão uma atenção especial J mulher# merecem desta"ue'
A*LRA1 (4ACI e 4ACA)# +HRMA. (4ACN)# +KP6R!ARA*QK (4AAI)# (K1TA 2HMA (4AFF)# 2A.=61 (4AEF)#
1H2>6R1T6H. (4AFA)# 16LATK (4ACA). 6m 1ão 2u3s# a "uestão foi tamb)m tratada em trabalhos ainda não publicados como
os de' +AR+K1A (4AAE)# +RH2MA. (4ACA)# 26HT6 (4ACE)# e outros.
caboclo. Al)m delas serem numericamente inferiores e de# eralmente# permanecerem ;em terra< por
menos tempo "ue as masculinas# as entidades femininas não são recebidas em todos os rituais# e poucas
são ;donas< de terreiro ou da cabeça dos filhos!de!santo. .a Mina# a maioria das entidades espirituais
recebidas como ;donas da cabeça< ou uia!chefe (seu representante na linha de caboclo)# pertence ao
se/o masculino e# raramente# um terreiro tem como chefe espiritual uma entidade feminina. 6mbora o
nome dos terreiros nem sempre reflita suas crenças e %alores atuais# parece sinificati%o "ue# num
le%antamento de terreiros maranhenses reali0ado por Maria do Rosário e Manuel 1antos (1A.TK1 e
1A.TK1 .6TK# 4ACA)# en"uanto RDG dos terreiros de Mina da capital eram diriidos por mães!de!
santo# menos de NDG dos "ue t$m nome de santo ou de entidade espiritual tinham nomes femininos
(Heman8á# Rainha Rosa# (hica +aiana# Maria +oi# (abocla Hta# .ossa 1enhora da Luia# 1anta +árbara).
.a (asa das Minas!Qe8e (terreiro considerado o mais antio do Maranhão)# embora o transe com
%odum feminino tenha a mesma duração e ocorra nos mesmos rituais em "ue ocorre o das entidades
masculinas# atualmente# s: Ab$ está sendo recebida# o "ue sinifica "ue# atualmente# mais de ADG das
%odunsis da casa entram em transe com %odum masculino (=ossu# 2epon# A%ere"uete# Qotim# e outros).
.o passado# no entanto# eram tamb)m recebidas ali# pelas %odunsis!on8ai (com iniciação completa) as
tob-ssis 5 entidades femininas infantis (meninas) "ue# embora não fossem ;donas da cabeça<# eram
recebidas# com orulho# fora do ;to"ue<# nas festas e obriaç&es randes.
.a (asa de .a- (fundada por africanas# no s)culo passado# como a (asa das Minas!Qe8e# onde
se recebem ori/ás# %oduns# entis e caboclos) embora não ha8a uma festa ou ritual s: para entidades
femininas# elas são incorporadas# principalmente# na festa de 1anta +árbara e na +ancada (ritual reali0ado
na "uarta!feira de cin0as# onde há rande distribuição de doces e frutas# de "ue nos ocuparemos mais
adiante# neste trabalho). .a (asa de .a-# embora as entidades femininas e os entis participem dos
to"ues# nunca ficam ;em terra< at) o encerramento dos rituais. =epois de alum tempo# costumam ;dar
passaem< a uma entidade masculina e cabocla# prática tamb)m obser%ada em outros terreiros.
6m di%ersos terreiros de 1ão 2u3s# costuma ocorrer uma festa s: para entidades femininas#
fre"?entemente denominadas tob-ssas# reali0ada# eralmente# no ani%ersário da ;senhora< do pai ou mãe!
de!santo# ou no dia de uma santa do catolicismo a ela associada' 1antana (associada a >: Missã ou .anã)#
1anta +árbara (a Maria +árbara 1oeira# a Hansã e outras)# .ossa 1enhora da (onceição (a Mãe Maria e a
Heman8á)# 1anta 2u0ia (a linha de princesas da (ura@7a8elança)# e outras. .estes terreiros# as festas e os
rituais para as tob-ssas são# eralmente# muito dispendiosos# pois en%ol%em lu/o# delicade0a e
sofisticação 5 ;coisas finas<# de classe alta# e distribuição de alimentos. 6ntre estes rituais# merecem
desta"ue' a +ancada e o Tambor das tob-ssas# reali0ados em muitos terreiros de Mina da capital# onde o
feminino e o infantil estão muito associados.
3 – Bancada e Tambor da !ob"a #$enhora%&
#
2&
K termo +ancada desina# no Tambor de Mina# rituais reali0ados na (asa das Minas!Qe8e# na
(asa de .a- (terreiros de 1ão 2u3s fundados por africanos) e em terreiros nelas inspirados# na "uarta!
feira de cin0as# onde há rande distribuição de frutas# doces# bebidas# pipocas e outros alimentos# a
pessoas liadas J reliião ou ao pessoal a ela de%otado. 6stes alimentos# antes de serem distribu3dos#
permanecem por %árias horas no "uarto de santo e sua preparação en%ol%e a obser%ância de muitos
preceitos. .a Mina!Qe8e# a distribuição ) feita pelas filhas!de!santo em transe com %oduns masculinos ou
femininos e inclui# obriatoriamente# pipoca# ;a0ori< 5 farinha de milho torrado misturada com açScar#
coco e fei8ão torrados (F6RR6TTH# 1. F.# 4ACB e 4AA4). .a (asa de .a-# a +ancada ) reali0ada pelas
filhas!de!santo incorporadas com entidade espiritual feminina (adulta ou menina# como a 7rincesa Mira e
=iana) ou com entidade masculina (%odum# como ,apanã# entil# como =om Qoão# e caboclo# como
(
N) Apesar de (K1TA 6=*AR=K (4AEC) ter denominado as tob-ssis da (asa das Minas!Qe8e de tobosa# as %odunsis da"uele
terreiro denominam tob-ssis as entidades femininas infantis recebidas# no passado# pelas on8a3 e "ue# seundo elas não %$m
em outros terreiros. Atualmente o termo tob-ssa ) usado apenas fora da (asa das Minas!Qe8e e desina o con8unto de entidades
femininas recebidas como ;senhora< (dona da cabeça ou seunda entidade espiritual) pelas filhas!de!santo. 7or esta ra0ão#
"uando falamos a"ui em tob-ssi estamos nos referindo Js meninas da (asa das Minas# e "uando falamos em tob-ssa estamos
nos referindo Js ;senhoras< recebidas em outros terreiros de Mina.
Taba8ara).
6m outros terreiros de 1ão 2u3s# a +ancada costuma ser reali0ada apenas com entidades
femininas# de prefer$ncia com as nobres (rainhas e princesas) e# embora possa ocorrer na "uarta!feira de
cin0as# reali0a!se mais fre"?entemente' 4) no primeiro dia do ano ("uando muitos terreiros no +rasil
feste8am Heman8á)O N) no dia I4 de maio ou em outra data de feste8o de .ossa 1enhora no calendário
cat:lico# como C de de0embro (festa de .. 1ra. da (onceição# associada por uns a Heman8á e por outros a
Mãe Maria# e a K/um)O I) em festa de santa do catolicismo (+árbara# 2u0ia# Rosa de 2ima e outras).
.estes terreiros a +ancada ) reali0ada# preferentemente# no ani%ersário da principal entidade feminina da
casa (eralmente# a ;senhora< do pai ou da mãe!de!santo)# "uando se rende tamb)m homenaem Js
;senhoras< das filhas!de!santo.
3.1. Bancada na casa de Santana (São Lus!MA " #ona $u$a%)
.a casa de 1antana# a +ancada ) reali0ada no ani%ersário de Rainha Madalena# no dia I4 de
maio. Mas# no dia 4N de de0embro de 4AAI# reali0ou!se ali uma +ancada para a ;senhora< de =ona
.enem 5 filha!de!santo de um terreiro 8á desaparecido (de Mãe Hrin)ia)# "ue está ;encostada< ali desde
4ARA
(
I). =ona .enem trabalha na (oliseu# empresa encarreada da limpe0a urbana de 1ão 2u3s# e 0ela
pelo Terreiro da Tur"uia com 7ai 6uclides (da (asa Fanti!Ashanti) 5 "ue assumiu a chefia da casa ap:s o
falecimento de sua fundadora. 6mbora 7ai 6uclides e =ona .enem não se8am filhos da Tur"uia são
liados a ele por receberem encantados da fam3lia do Rei da Tur"uia 5 seu chefe espiritual.
1antana ) uma das muitas mães e pais!de!santo de 1ão 2u3s "ue não se definem como *mbanda
e "ue continuam resistindo ao fasc3nio do (andombl)# embora não tenham %inculação com as centenárias
casas das Minas e de .a-# e tenham iniciado sua carreira como ;curador< (na linha de (ura@ 7a8elança).
Apesar de ter# há muito# se tornado ;mineira<# continua reali0ando festas e rituais de (ura@7a8elança.
(omo outros pais!de!santo de 1ão 2u3s "ue começaram a trabalhar como curador# reali0a tamb)m# em sua
resid$ncia# sess&es de ;mesa!branca< (presidida por pessoa a ela liada) e# no s3tio# onde fica sediado seu
terreiro# a tradicional festa do 6sp3rito 1anto. Al)m de muito conhecida em 1ão 2u3s como mãe!de!santo
e ;curadeira<# ) muito procurada como bordadeira. 1antana passa muitas horas do dia e da noite na
má"uina de costura bordando# em ;Richelieu<# as toalhas usadas na uma (barracão) por pessoas de sua
casa e de muitos outros terreiros da capital e do interior do Maranhão
(
E).
1eundo informação de 1antana (mãe!de!santo)# a ;senhora< de =ona .enem# "ue nunca
;arreara< na Mina# %eio nela na (asa Fanti!Ashanti# "uando assistia a um candombl). (omo ela não osta
muito de (andombl)# resol%eu dar sua obriação na Mina# no terreiro onde ) ;encostada<. 6scolheu para
madrinha =ona (eleste# da (asa das Minas!Qe8e# de "uem ) muito amia e "ue se responsabili0ou pelo
bolo confeitado e pelas lembranças distribu3das aos con%idados (uma cestinha de flores). 7ara diferençar
a"uela +ancada da "ue ) reali0ada ali no m$s de maio# na festa de Rainha Madalena# com todas as
dançantes usando saia de mesma cor# as participantes usaram saias diferentes.
6ncontra%am!se no terreiro# al)m do pessoal da casa# seus familiares e amios# muitos %i0inhos
(moradores do bairro 5 aluns como con%idados e outros atra3dos pelo mo%imento da casa). Ma%ia
tamb)m na assist$ncia pessoas de %ários terreiros' da (asa das Minas# do terreiro de Mãe 6l0ita (membro
do H.T6(A+# como =ona .enem# muito amia de =ona (eleste 5 sua presidente)# terreiro de Adelmo
(pai!de!santo muito liado a 1antana# "ue tamb)m sentou na"uela +ancada para ;arreada< de sua
;senhora<). .a"uela mesma data (%)spera da festa de 1anta 2u0ia) reali0ou!se# na (asa Fanti!Ashanti# o
+aião 5 baile de sanfona# com pandeiro e instrumentos de corda# participado por entidades femininas da
linha (ura<@ 7a8elança 5 princesas e caboclas# descrito por n:s em outro trabalho (F6RR6TTH# M.R. 4AA4
(
I) .o Tambor de Mina# o termo ;encostado< desina as pessoas de um terreiro "ue não foram iniciados ali ("ue o pai ou a
mãe!de!santo não ;colocou a mão em sua cabeça<).
(
E) 6mbora a +ancada se8a um ritual da Mina# ) tamb)m reali0ado# em 1ão 2u3s# em terreiros "ue se definem como *mbanda#
e para entidades da linha de (ura@7a8elança. .ão sabemos "uando ela começou a ser reali0ada no terreiro de 1antana. 6m
4ACB# "uando ela bordou uma toalha para uma e/posição reali0ada no Museu de (ultura 7opular# por ocasião do col:"uio
internacional da *.61(K' 1obre%i%$ncias da reliião africana na Am)rica e no (aribe# ela 8á ocorria ali com rande pompa.
e 4AAI'IBA).
A ;senhora< de =ona .enem ) Rainha =ina# tamb)m conhecida na Mina por Fina Q:ia# esposa
de =om Qoão. Foi ela "uem determinou tudo na +ancada# com rande anteced$ncia. 1antana# como era de
se esperar# sentou com Rainha Madalena. =idi (dançante do terreiro da Tur"uia# tamb)m encostada
na"uela casa)# com Menina do Maracu8á# 1ulica com Flor de 2Ts# (oncita (uia da casa) com 7rincesa
Flora# Adelmo (pai!de!santo %isitante) com Moça 2aura# Alice com +orboletinha# uma dançante da casa#
com 2inda# e duas outras com encantadas cu8o nome não cheou ao nosso conhecimento.
.ão sendo filha da casa# obser%amos apenas a parte pSblica do ritual# reali0ada no barracão. U
tarde# "uando cheamos# os tambores (abatás e mata) esta%am no salão# e o altar 8á esta%a enfeitado#
podendo ser %isto entre os santos as imaens de' 1anta 2u0ia# 1ão Qoão e 1ão 1ebastião. 6ncontramos a
casa cheia de crianças# cada uma com uma sacola de plástico na mão# prontas para receber os alimentos
"ue lhes seriam ofertados na +ancada. A mesa começou a ser armada depois da nossa cheada. 7rimeiro o
chão foi forrado com esteiras cobertas por toalhas brancas e bordadas. =epois# foram tra0idos para o
salão# em tabuleiros# bacias# tra%essas# tielas e pratos' frutas# batata doce# amendoim# pipoca# bolos#
cocada# mariola# balas# chocolates# biscoitos e outros alimentos. 6m seuida# foram tra0idas para o salão#
pelas au/iliares# as arrafas de refrierante# licor# refresco e de outras bebidas não alco:licas. =epois de
armada# a mesa foi enfeitada com %asos de flores e# em torno dela# foram colocadas cadeiras forradas de
renda (para as encantadas) e ban"uinhos (para as mulheres "ue iam a8udá!las na distribuição dos
alimentos)
(
B).
As filhas!de!santo receberam as encantadas antes de %irem para o barracão# lone dos olhos da
assist$ncia. =epois de incorporadas# %ieram para uma sala "ue fica antes dele# onde permaneceram em p)
ou sentadas# por alum tempo# "uase em sil$ncio. 6m seuida# foram para o salão# onde sentaram em
cadeiras "ue lembra%am os tronos "ue são armados nos terreiros de 1ão 2u3s# para o Hmp)rio# na festa do
6sp3rito 1anto. Mais da metade destas cadeiras esta%am sendo ocupadas ou uardadas por bonecas
(eralmente randes e louras). Kbser%amos "ue# "uando as tob-ssas sentaram no ;trono<# alumas (como
Rainha Madalena) colocaram a boneca em p)# ao lado dele e outras ficaram com ela no colo# mas
nenhuma brincou com ela. 6sta relação# "ue ) id$ntica J da 7rincesa =oralice (Troirinha) e sua boneca# na
(ura@7a8elança da casa de Mãe 6l0ita# contrasta com a dos er$s com sua boneca# no (andombl) da (asa
Fanti!Ashanti.
As tob-ssas esta%am ricamente %estidas e %árias tra0iam uma manta de miçanas coloridas# no
estilo das "ue eram usadas na (asa das Minas!Qe8e pelas tob-ssis (entidades femininas infantis 5
meninas)# al)m do capote de seda ou de renda colocado sobre a blusa em um dos ombros (no estilo das
usadas na (asa Fanti!Ashanti pelas princesas no +aião) e "ue poderia ser um substituto do ;pano da
(osta<# usado no Maranhão na (asa das Minas!Qe8e# na festa de paamento. 7ara marcar a diferença entre
a"uela +ancada e a reali0ada# em maio# para Rainha Madalena# as saias das tob-ssas eram de cores
diferentes e duas delas tinham saia estampada (Fina Q:ia# de =ona .enem# e Flor de 2Ts# de 1ulica).
Adelmo usou calça e tSnica de cetim branco e# sobre esta# manta de miçanas %erdes.
.o salão# as tob-ssas sentaram com suas ser%entes (moças ou senhoras)# pr:/imo aos alimentos
"ue iam distribuir. .a mesa# em frente a cada uma delas# ha%ia um bolo confeitado "ue# apesar de nunca
ser di%idido no salão# ) sempre colocado na +ancada
(
R)
A distribuição de alimentos começou pelas crianças# "ue iam passando# em fila# com suas
(
B) .a +ancada reali0ada em maio da"uele ano# na festa de Rainha Madalena# ha%ia tanta comida "ue foi dif3cil conseuir
espaço na mesa para tudo o "ue fora tra0ido.
(
R) .a Festa do =i%ino os bolos confeitados e as lembranças são distribu3dos no dia seuinte# entre os "ue contribu3ram mais
para a sua reali0ação# as pessoas mais liadas ao festeiro e J casa onde foi reali0ada. .a +ancada da (asa das Minas
(Arrambam) a distribuição dos alimentos ) feita pelas %odunsis incorporadas com %odum# mesmo "uando elas contaram com a
colaboração de ;assissis< (pessoas "ue tem liação com um %odum mas não entram em transe com ele) na sua a"uisição e
preparação. .a (asa de .a-# cada entidade espiritual "ue senta na +ancada se fa0 acompanhar de uma au/iliar# prática
tamb)m adotada em outros terreiros de 1ão 2u3s.
sacolas# por cada tob-ssa. Ao contrário do "ue ocorre nas festas de (osme e =amião e do 6sp3rito 1anto#
a distribuição reali0ada na +ancada nunca ) e"?itati%a (umas pessoas sempre recebem muito mais do "ue
outras)# o "ue ) considerado normal# uma %e0 "ue decorre de prefer$ncias das encantadas e não das filhas!
de!santo. (ada pessoa de%eria entrar na fila s: uma %e0# mas alumas crianças e adultos entraram mais de
uma %e0# o "ue foi ob8eto de falat:rio# mas não foi impedido por ninu)m. V poss3%el "ue aluma delas
esti%esse substituindo pessoas "ue não se encontra%am ali ou "ue não podiam ir para a fila.
(omo está%amos fotorafando# %e0 por outra uma encantada ou um parente das filhas!de!santo
"ue participa%am do ritual# nos solicita%a uma foto. Terminada a distribuição e retirados da ;mesa< os
bolos confeitados# as encantadas dei/aram o salão e sentaram# com suas bonecas# na sala onde sentaram
antes# auardando o in3cio do ;to"ue<. 6n"uanto isso# suas au/iliares di%idiam o bolo confeitado e as
lembranças da festa entre pessoas escolhidas pelas encantadas. Kbser%ando "ue tr$s delas não tinham
bonecas (a de Adelmo e a de duas dançantes) e indaando sobre o moti%o desta diferença# fomos
informados por uma pessoa da casa "ue ;s: as princesas dança%am com bonecas<. 6m outra ocasião#
Adelmo nos esclareceu "ue# em sua casa# as tob-ssas não le%a%am boneca para o barracão por"ue ele
;acha%a feio ente rande com boneca<.
2oo "ue a mesa foi desfeita# uma e"uipe pro%idenciou a limpe0a do local# para "ue o ;to"ue<
pudesse ser iniciado# pois# apesar das ;senhoras< ostarem de dançar# nunca ficam incorporadas at) ;altas
horas< da noite.
3.&. Ta'(o$ das to()ssas na casa de Santana (1&!1&!1**3)
.o dia 4N@4N@4AAI# ap:s a +ancada da ;senhora< de =ona .enem# descrita anteriormente# foi
reali0ado um to"ue de tambor na casa de 1antana. K ritual não começou com ;Hbarab-<# canto de abertura
da Mina!na- para 2eba ou 6/u# e sim com uma saudação ao terreiro# prática muito adotada em casas
abertas por curador'
;1al%ar# sal%ar# terreiro no%o de meu pai<
(omo de costume# dançou!se as primeiras mSsicas indo e %indo em direção aos tambores. =epois#
o rupo fe0 uma roda# e# em seuida ficou alternando esses dois mo%imentos básicos de acordo com a
;doutrina< "ue ia sendo ;pu/ada<. Ap:s serem cantadas as ;doutrinas< obriat:rias# cada encantada
;pu/ou< pelo menos uma ;doutrina< falando de si ou re%erenciando os donos da casa ou entidade
espiritual de sua fam3lia. A dança delas era lenta# desanimada e sem rodadas 5 muito diferente da
apresentada pelas encantadas do +aião "ue esta%a sendo reali0ado# na"uele momento# na (asa Fanti!
Ashanti (eralmente# caboclas e mais liadas J linha de (ura@7a8elança). As tob-ssas "uase não olha%am
para a assist$ncia. Apesar de muitas cantarem com ;%o0 de criança mimada<# nenhuma %eio para o
barracão com sua boneca.
=urante o to"ue# Rainha =ina tinha as mãos sempre cobertas pelo capote ou enroladas na ;pana< 5
lenço rande de cetim# usado principalmente em terreiros de curadores e no Tambor da Mata (linha de
(od: 5 estilo do interior do Maranhão). 6ste procedimento foi tamb)m por n:s obser%ado em 4AAI# no
terreiro de 7ai Qore Htaci# em ;to"ues< para tob-ssas. =epois de dançarem por alum tempo# as tob-ssas
;deram passaem< aos caboclos# "ue ficaram incorporados nas filhas!de!santo "ue as receberam at) o
encerramento do ritual ou at) se es%a0iar a Sltima arrafa de bebida comprada para a festa (como
acontece com 1eu +eberrão# ;caboclo farrista< de 1antana# e com muitos encantados da Tur"uia).
' – (n!idade e)iri!uai *eminina no Tambor de Mina do Maranhão+ !ob"i e
enhora
A importância das entidades espirituais femininas no Tambor de Mina ) uma "uestão comple/a.
1endo em nSmero menor "ue as masculinas# recebidas com menor fre"u$ncia e permanecendo ;em terra<
por menos tempo# parecem ter uma importância menor. .o entanto# são recebidas com orulho pelos
;mineiros< e para elas são reali0adas obriaç&es dispendiosas# festas e rituais especiais# "ue atraem para o
terreiro pessoas de todas as idades e muitas crianças. 6# na Mina!Qe8e# e/iste um culto especial para
entidades femininas infantis# as tob-ssis (meninas)# "ue# apesar de ter chamado a atenção de muitos
pes"uisadores# está lone de ser compreendido
(
F).
Mas# se as entidades femininas t$m uma presença tão rande na Mina por "ue são tão ausentes no
barracão (espaço ritual onde são reali0ados os to"ues de Mina) e por "ue raramente são ;donas da cabeça<
ou dos terreirosWX... Kbser%aç&es reali0adas em 1ão 2u3s tem nos le%ado J conclusão "ue as entidades
espirituais femininas raramente são donas de terreiro ou ;da cabeça< dos filhos!de!santo# são minoritárias
no barracão# e permanecem ;em terra< por menos tempo do "ue as masculinas# não por serem menos
importantes# mas# por"ue são femininas.
Hndaando certa %e0 a 7ai 6uclides# da (asa Fanti!Ashanti# por "ue o +aião (ritual da linha de
(ura@7a8elança para entidades femininas) termina mais cedo do "ue os to"ues de Mina e por"ue as
encantadas recebidas nele não %$m com maior fre"u$ncia# obti%emos a seuinte e/plicação' ;no +aião
%$m moças de cateoria alta# moça %olta cedo para casa e não anda saindo todo dia<...
Apesar da mulher ter na Mina uma posição muito ele%ada# a análise de rituais reali0ados para
entidades espirituais femininas recebidas como ;senhoras< mostra "ue a representação da mulher no
Tambor de Mina parece não se distanciar muito do estere:tipo machista de mulher# e/presso claramente
nas mensaens do =ia das Mães (seundo domino de maio# m$s de Maria e de muitas festas para
tob-ssas) "ue são %eiculadas pelos meios de massa. Tal como as mães brasileiras# as entidades espirituais
femininas recebidas como ;senhoras< são representadas em 1ão 2u3s como ;santas< (recatadas)# rainhas
(reser%adas)# maternais e dom)sticas# no "ue parecem imitar a ;>irem Maria<# mãe de Qesus.
.a sociedade brasileira# embora a mulher se8a "uase sempre submissa ao homem ("ue assume a
maioria das posiç&es de comando)# )# fre"?entemente# apresentada como rainha (do lar)# tendo a casa
como o seu %erdadeiro espaço de atuação 5 da3 a denominação ;rainha do lar<. Apesar desta ideoloia não
encontrar rande fundamento na realidade dos terreiros de Mina 5 chefiados principalmente por mulheres
5 parece influenciar a concepção de entidades espirituais femininas# fa0endo com "ue elas se apresentem
ali como subordinadas Js masculinas e permaneçam ;em terra< por menos tempo "ue a"uelas.
.a Mina a fiura das entidades femininas parece tamb)m associada J fertilidade# como a das Ham3
K/oroná africanas# da3 por"ue# fora das centenárias casas das Minas!Qe8e e de .a-# o ritual da +ancada
(onde há abundância de alimentos e rande nSmero de crianças) ) sempre reali0ado como uma obriação
de tob-ssa (senhora). A distribuição não e"?itati%a de alimentos na +ancada# em contraste com a reali0ada
nos terreiros nas festas de (osme e =amião e do =i%ino 6sp3rito 1anto (do catolicismo popular)# aponta
para as matri0es não cristãs da representação feminina no Tambor de Mina. Mas# se tem poder sobre a
fertilidade# tal como as Ham3 K/oroná (A*LRY1# 4ACA)# não são temidas ou representadas como
terr3%eis# embora# "uando distribuem alimentos# possam dar muito a uns e "uase nada a outros.
A análise da +ancada e do Tambor de Tob-ssa reali0ados fora das (asas das Minas!Qe8e e de
.a-# chama atenção ainda para outros aspectos da representação da mulher no Tambor de Mina.
.a"ueles rituais as ;senhoras< aparecem# fre"?entemente# com bonecas e# não raramente# e/ibem um
comportamento infantil. 1em "uerer near a e/ist$ncia desse traço nos estere:tipos de mulher da
sociedade brasileira# ostar3amos de chamar atenção para a associação ha%ida na Mina entre as tob-ssis
da (asa das Minas!Qe8e (meninas) e as entidades recebidas como ;senhora< em outros terreiros. .ão ) por
acaso "ue estas são# enericamente# denominadas tob-ssas e "ue usam# fre"?entemente# a tradicional
(
F) +A1TH=6 (4AFCO 4AFEO 4AF4) le%anta %árias hip:teses sobre as tob-ssis. 7ara ele elas seriam e"ui%alentes a Hb$8is ou a er$s
do (andombl)O ancestrais da fam3lia real cultuados# "ue le%am as %odunsis a um estado de semitranseO e# citando >6RL6R
(4ABF)# "uestiona se não seriam um estáio inicial de incorporação do %odum. .a pressuposição de "ue todos os %oduns da
(asa das Minas são masculinos (no "ue se e"ui%ocou) suere "ue as tob-ssis são femininas por"ue os %oduns são masculinos.
Al)m da necessidade de continuação da pes"uisa na (asa das Minas!Qe8e# ) necessário um estudo comparati%o com o
(andombl) Qe8e!Mahi da +ahia e com outras manifestaç&es reliiosas oriinárias do antio reino do =ahom) (+enim) como' a
Rera Arará de (uba# o %odum do Maiti e com as relii&es tradicionais do +enim.
manta de miçanas das tob-ssis da (asa das Minas
(
C) ...
K estere:tipo de mulher como fráil# dominada e imatura (chorona e manhosa como uma criança
mimada)# encontrado em muitos dom3nios da cultura brasileira# de%e ter contribu3do para "ue a fusão
senhora!menina fosse reali0ada na Mina "uase sem cr3tica. Fora da reação de 7ai Adelmo' ;lá em casa
tob-ssa não sai com boneca por"ue acho feio ente rande com boneca<# não encontramos ninu)m
"uestionando os traços infantis apresentados pelas tob-ssas (senhoras) nos rituais obser%ados. Mas o
comportamento infantil das entidades femininas recebidas na Mina como ;senhora< torna!se mais
compreens3%el "uando se considera a influ$ncia e/ercida pela Mina!Qe8e no Tambor de Mina do
Maranhão e a impressão dei/ada pelas tob-ssis da (asa das Minas!Qe8e no meio reliioso afro!
maranhense
(
A).
A boneca# "ue aparece na +ancada e Js %e0es tamb)m no Tambor de tob-ssa# embora possa ser
considerada um brin"uedo de menina# parece ser ali um s3mbolo de feminilidade (da3 por"ue as tob-ssas
não brincam com ela). .os pe8is cubanos ela ) tamb)m encontrada com saias lonas e rodadas cobrindo
as 8arras de ori/ás femininos (neras# nas de Heman8á e louras ou mulatas# nas de K/um). .os terreiros de
1ão 2u3s# a boneca aparece tamb)m como s3mbolo de nobre0a# tanto na Mina# como na (ura@7a8elança# o
"ue nos foi e/plicado por uma senhora no terreiro de 1antana' ;princesa dança com boneca<...
(omo 8á foi mencionado# na +ancada as tob-ssas recebem um tratamento principesco e são
apresentadas nos to"ues reali0ados para elas como nobres 5 com %estimentas caras e especiais#
comportamento reser%ado# sem se misturar com a assist$ncia 5 bem diferentes das caboclas# "ue ostam
de cumprimentar a assist$ncia# de dar rodadas no salão e de permanecer ;em terra< ap:s os rituais (as
%e0es para beber e animar a festa com suas brincadeiras). .a Mina!Qe8e as tob-ssis são comandadas por
.och$ .a$ (a rande mãe) 5 %odum da fam3lia real "ue não incorpora 5 e são tratadas ali como
princesas
(
4D).
6mbora ha8a pontos em comum entre as tob-ssas (senhoras) e as tob-ssis (meninas)# ) preciso não
es"uecer "ue na (asa das Minas!Qe8e as tob-ssis não se confundem com %oduns femininos# nem mesmo
"uando esses são to"?enos (adolescentes) ou desempenham funç&es análoas Js deles. .unca são
recebidas como ;senhoras< (donas da cabeça) como são# por e/emplo# Ab$ e .och$ =ec) (%oduns
femininos adulto e to"?eno)# da3 por"ue não participam dos to"ues. 1ão meninas# ;sinha0inhas<#
recebidas apenas nas festas e obriaç&es maiores# tanto pelas %odunsis!on8ai "ue tinham %odum
masculino (;senhor<) como pelas "ue tinham %odum feminino (;senhora<). 6 são consideradas mais
puras e mais pr:/imas Js pessoas do "ue os %oduns (comem# dormem# tomam banho# t$m medo de
mascarado). Qá as tob-ssas recebidas em outros terreiros %$m sempre como ;senhoras< (donas da cabeça
ou a8unt:). .a Mina!Qe8e os %oduns femininos são recebidos em todos os rituais e permanecem ;em terra<
por tanto tempo "uanto os %oduns masculinos# mesmo "uando pertencem J fam3lia real e são to"?enos
(adolescentes).
As tob-ssis Mina!Qe8e parece "ue tamb)m não se confundem com as meninas recebidas ho8e na
(asa de .a-. Al)m de se afirmar na (asa das Minas!Qe8e "ue tob-ssis (meninas) s: e/istem na Mina!
Qe8e# antes da +ancada de 4AAE# ou%imos de =ona 2Scia (atual chefe da casa) a seuinte e/plicação' ;n:s
a"ui não temos tob-ssi# tob-ssi ) lá em cima# em 8e8e# n:s temos ) menina<... 6 ainda# obser%aç&es do
comportamento das entidades femininas# em rituais atualmente reali0ados na (asa de .a-# t$m
demonstrado "ue elas se apro/imam mais das ;tob-ssas< de outros terreiros do "ue das ;tob-ssis< da
(
C) A e/tensão Js ;senhoras< de caracter3sticas das tob-ssis Mina!Qe8e pode e/plicar o comportamento infantil de entidades
espirituais femininas em outros terreiros# tanto na +ancada como no Tambor de Tob-ssa como' fala ;tepe!tepe< (obser%ada em
Rainha Madalena# no terreiro de 1antana)# e/pressão fision-mica denosa ou infantil (obser%ada em Hemanan8a# no terreiro de
Qore)# dança com pulinhos (como obser%amos no terreiro de 6l0ita# na festa das moças# e em =ona =-ro# recebida por
2ucimar# da (asa Fanti!Ashanti# no terreiro da Tur"uia.
(
A) (omo as tob-ssis s: eram recebidas por %odunsis!on8ai e a (asa das Minas dei/ou de fa0er iniciação completa# elas
desapareceram em meados dos anos sessenta (seundo cálculos de 1)rio Ferretti).
(
4D) 7ara 1)rio F6RR6TTH (4ACA'4CR) o culto a .a$ pode ser comparado ao das Ham3 K/oroná da .i)ria# +enim e outras
rei&es da Yfrica 5 mães ancestrais respeitadas e temidas# "ue não incorporam e "ue t$m o poder de se transformar em pássaro.
(asa das Minas. .a (asa de .a- as entidades femininas (adultas e meninas) participam de rituais com
as entidades masculinas (+ancada# to"ue) e são# eralmente# recebidas como ;senhora< (donas da cabeça
ou a8unt:)
(
44).
6/iste ainda uma caracter3stica apresentada pelas ;senhoras< no Tambor de Tob-ssa "ue não foi
a"ui analisada' as tob-ssas dançam# eralmente# com as mãos encobertas. (omo na +ancada as
;senhoras< são tratadas como a nobre0a na Festa do =i%ino 6sp3rito 1anto (sentam em cadeiras cobertas
por rendas# t$m roupas lu/uosas# etc.) e nesta festa a nobre0a usa lu%as# cobrir as mãos pode ser mais um
s3mbolo de nobre0a. Mas# as tob-ssas com suas mãos encobertas# lembram tamb)m imaens da >irem
Maria com seu manto nas mãos. A identificação das ;senhoras< da Mina com a .ossa 1enhora do
catolicismo# reliião tamb)m professada pelo pessoal dos terreiros de 1ão 2u3s# "ue 8á foi lembrada# pode
tamb)m e/plicar o comportamento recatado e reser%ado da"uelas encantadas# em contraste com o das
caboclas (menos identificadas com a Mãe de Qesus e com as santas cat:licas do "ue as ;senhoras<).
, – -ON-.U/ÃO
A representação da mulher no Tambor de Mina ) influenciada pela ideoloia dominante
(machismo# catolicismo) mas não pode ser redu0ida a ela. Muitos traços das entidades espirituais do
Tambor de Mina s: podem ser bem interpretados le%ando!se em conta sua oriem africana e
peculiaridades do campo reliioso afro!maranhense (influ$ncias das (asas das Minas e de .a-# etc.).
Assim# reprodu0# em parte# a ideoloia dominante na sociedade brasileira# mas apresenta aspectos "ue s:
podem ser bem interpretados conhecendo!se o conte/to espec3fico em "ue foi produ0ida.
LRAM1(H (4AFC)# em 2iteratura e >ida .acional# chama atenção para a heteroeneidade do
momento hist:rico e para a e/ist$ncia na mesma )poca e na mesma sociedade de obras "ue refletem as
concepç&es dominantes e outras a realidade %i%ida por rupos não heem-nicos. .o caso brasileiro# o
nero# al)m de constituir um desses sementos não heem-nicos# tem tradiç&es culturais pr:prias e estas
tradiç&es são encontradas de forma bastante %i%a nos terreiros de reliião afro!brasileira. 7or conseuinte#
não se pode estranhar "ue representaç&es da mulher no Tambor de Mina de 1ão 2u3s reprodu0am a
ideoloia dominante mas reflitam tamb)m outras formas de relaç&es sociais# outros %alores e %is&es de
mundo.
Ao mesmo tempo "ue o culto Js tob-ssis e tob-ssas tem a %er com o matriarcado da Mina# re%ela
o machismo dominante na sociedade brasileira e tão forte no Maranhão. Assim# na Mina# as entidades
espirituais femininas são ob8eto de um culto especial# dispendioso# mas a"uelas entidades são recebidas
por um nSmero menor de m)diuns# %$m poucas %e0es por ano e# fora da Mina!Qe8e# permanecem ;em
terra< por pouco tempo. Hsto sinifica "ue# em Sltima análise# elas dei/am o campo li%re para a atuação
das entidades masculinas. 6mbora não se possa di0er "ue na (asa das Minas!Qe8e as tob-ssis estão acima
dos %oduns to"?enos (adolescentes) e "ue as tob-ssas são superiores Js entidades espirituais masculinas#
recebidas como senhores em outros terreiros# há mais e/i$ncias para "ue elas se8am recebidas. 6las#
eralmente# s: %$m em "uem tem rau iniciático ele%ado e nas festas e obriaç&es maiores ou mais
;finas<. (ontudo# estão# eralmente# abai/o das entidades masculinas 5 "ue são maioritárias como chefes
espirituais de terreiro e como ;donos da cabeça< dos mineiros.
A importância da mulher no Tambor de Mina como mãe de terreiro e filha!de!santo associada J
rande impressão causada pelas tob-ssis da (asa das Minas!Qe8e podem ser apontadas entre os fatores
responsá%eis pelo orulho dos ;mineiros< pelas suas ;senhoras<# pela e/ist$ncia nos terreiros de 1ão 2u3s
de rituais especiais para elas e pelo esmero com "ue esses rituais são reali0ados. Mas a representação da
mulher no Tambor de Mina# embora apresente muitos traços em comum# %aria de casa para casa. V de se
esperar "ue apresente diferenças sinificati%as "uando se compara casas diriidas por mulher com casas
diriidas por homens# terreiros de Mina apeados aos modelos das (asas das Minas e de .a- com
(
44) V preciso lembrar "ue a (asa de .a-# como a (asa das Minas# dei/ou de fa0er iniciaç&es completas por %olta de 4A4B e
"ue# seundo informação de Mãe =udS (falecida em 4ACA com mais de cem anos) a 1)rio F6RR6TTH (4ACB)# a mina!na-
tinha tob-ssis como as da (asa das Minas!Qe8e.
terreiros de Mina de caboclo# terreiros "ue se definem como *mbanda e terreiros de Mina "ue
introdu0iram o (andombl).
.as representaç&es a"ui analisadas# as entidades espirituais femininas# recebidas como ;senhoras<
na Mina maranhense# apro/imam!se da Heman8á e distanciam!se da 7omba Lira da *mbanda (A*LRY1#
4ACA) e correspondem J mulher on3rica ("ue se op&e J ;piranha<)# encontrada por +6R2H.Z (4AFR) em
análise de letras de samba' fráil# raciosa# desliada# ;diferente da mulher "ue se tem<. (om efeito#
en"uanto na Mina!Qe8e as tob-ssis são consideradas mais puras do "ue os %oduns# as mulheres são %istas
como mais su8eitas a impure0as do "ue os homens# pois# al)m do contato com a morte e da ati%idade
se/ual ("ue torna o ;corpo su8o<)# são contaminadas pelo sanue menstrual e pelo parto.
.a representação de entidades espirituais caboclas ou não recebidas como ;senhora< (;dona da
cabeça< ou a8unt:) estes modelos se apresentam em raus diferentes e combinados# permitindo a distinção
de um nSmero maior de modelos femininos.
0 – BIB.IO1RA2IA
A*LRY1# Moni"ue. =e Piá Mi a 7omba Lira' transformaç&es e s3mbolos da libido. Hn' MK*RA# (arlos
6u$nio Marcondes de. Meu sinal está em teu corpo. 1ão 7aulo# 6=H(K.@6=*17# 4ACA.
!!!!!!. Ks $meos e a morte' notas sobre os mitos dos Hbe8i e dos abi9u na cultura afro!brasileira. Hn'
MK*RA# (arlos 6u$nio M. de. As senhoras do pássaro da noite' escritos sobre a reliião dos
Kri/ás >. 1ão 7aulo' AM@6=*17# 4AAE.
+AR+K1A# Maria >enina (. (>enina d[Kum). A mulher nera e a reliião afro!brasileiro. Te/to
elaborado para reunião do H.T6(A+@MA# 4AAE
+A1TH=6# Roer As relii&es africanas no +rasil' contribuiç&es a uma 1ocioloia das interpretaç&es de
ci%ili0aç&es. 1ão 7aulo' 7ioneira@6=*17# 4AF4.
!!!!!!. As Am)ricas neras' as ci%ili0aç&es africanas no .o%o Mundo. 1ão 7aulo' =HF62# 4AFE.
!!!!!!. K (andombl) da +ahia' rito na-. Ned. 1ão 7aulo' 6d. .acionalO +ras3lia' H.2# 4AFC.
+6R2H.Z# Manoel Tosta. 1ossea leão' alumas consideraç&es sobre o samba com forma de cultura
popular. (onte/to# n.4# no%.4AFR# p.4D4!44E.
+HRMA.# 7atr3cia. Fa0er estilo criando $neros' estudo sobre a construção reliiosa da possessão e da
diferença de $neros em terreiros da +ai/ada Fluminense. Tese de doutorado em Antropoloia.
*ni%ersidade Federal do Rio de Qaneiro# 4ACC.
+RH2MA.# 1on8a. Minha reliião# uma "uestão de f)# irmãX' uma refle/ão teol:ica na prática reliiosa
das neras da tradição reliiosa afro!brasileira dos tambores de Mina. Amisterdam' *ni%ersidade
de Amisterdam# 4ACA (Adaptação de cap3tulo de monorafia de mestrado 5 N4p).
+KP6R!ARA*QK# >eroni"ue. Femmes et cultes de possession au +resil' les companons in%isibles.
7aris# 2[Marmattan# 4AAI.
(K1TA 6=*AR=K# Kctá%io da. The nero in .orthern +ra0i%# a studT in acculturation. .e\ Por9'
Q.Q.Auustin 7ublisher# 4AEC.
(K1TA 2HMA# >i%aldo da. A fam3lia!de!santo nos (andombl)s 8e8e!na-s da +ahia' um estudo de
relaç&es intra!rupais. =issertação de Mestrado. 1al%ador' *ni%ersidade Federal da +ahia# 4AFF.
F6RR6TTH# Mundicarmo Maria R. Tambor de Mina# (ura e +aião na (asa Fanti!Ashanti@MA# 1ão 2u3s#
16(MA# 4AA4 (=isco e folheto).
!!!!!!. Rei da Tur"uia o Ferrabrás de Ale/andriaW. Hn' MK*RA# (arlos 6u$nio Marcondes de. Meu sinal
está em teu corpo. 1ão 7aulo# 6=H(K.@6=*17# 4ACA.
!!!!!!. =esceu na uma' o caboclo do Tambor de Mina no processo de mudança de um terreiro de 1ão
2u3s 5 a (asa Fanti!Ashanti. 1ão 2u3s' 1HKL6# 4AAI.
F6RR6TTH# 1)rio F. ]uerebentan de ^omadunu' 6tnoloia da (asa das Minas. 1ão 2u3s' 6=*FMA#
4ACB.
!!!!!!. >oduns da (asa das Minas. Hn' MK*RA# (arlos 6u$nio M. de. Meu sinal está no teu corpo. 1ão
7aulo' 6=H(K.@6=*17# 4ACA.
!!!!!!. Repensando o sincretismo' estudo sobre a (asa das Minas. Tese de =outorado# *17@FF2(M# 4AA4.
LRAM1(H# Ant-nio. 2iteratura e %ida nacional. Rio de Qaneiro' ^ahar# 4AFC.
2A.=61# Ruth. A cidade das mulheres. Rio de Qaneiro' (i%ili0aç&es +rasileiras# 4ARF. 6dição oriinal
em inl$s# 4AEF.
26HT6# 13l%ia (ristina (osta. A mulher nera no Maranhão. Monorafia de 6speciali0ação em
1ocioloia# *FMA# 4ACE.
76R6HRA# Manoel .unes. A (asa das Minas' contribuição ao estudo do culto dos %oduns# do panteão
=aomeano# no 6stado do Maranhão 5 +rasil. N.ed.# 7etr:polis' >o0es# 4AFA.
1A.TK1# Maria do Rosário (. e 1A.TK1 .6TK# Manoel dos. +oboromina' terreiros de 1ão 2u3s# uma
interpretação s:cio!cultural. 1ão 2u3s' 16(MA@1HKL6# 4ACA.
16LATK# Rita 2aura. Hn%entando a nature0a' fam3lia# se/o e $nero no ,an- do Recife. Hn' Moura#
(arlos 6u$nio M de. Meu sinal está no teu corpo. 1ão 7aulo' 6=H(K.@6=*17# 4ACA.
1H2>6R1T6H.# 2eni M. Mãe de todo mundo' sobre%i%$ncias nas comunidades de (andombl) da +ahia.
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>6RL6R# 7ierre F. .otes sur le cult de Krisa et >odun J +ahia# la baie de tous les saints# ou +r)sil# et J
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=a9ar# 4ABF.
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