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ACÓRDÃO N.

º 209/04
Proc. n.º 798/03
3ª Secção
Relator: Cons. Gil Galvão



Acordam, na 3ª Secção do Tribunal Constitucional:



I – Relatório

1. Nos presentes autos, vindos do Supremo Tribunal de Justiça, em que figura como
recorrente A.e como recorrido o Ministério Público, o ora recorrente interpôs, em 26 de Junho
de 2002, recurso de revisão da sentença proferida em 19 de Fevereiro de 1993 e transitada em
julgado em 3 de Março de 1993, segundo a qual B., nascido em 29 de Novembro de 1988, filho
de C., era também seu filho, alegando que da sentença só tomou conhecimento em 4 de Junho
de 2002. O recurso não foi admitido, por extemporâneo.

2. Inconformado, agravou o ora recorrente para o Tribunal da Relação de Lisboa, o qual
julgou improcedentes os fundamentos do agravo, confirmando o despacho recorrido. De novo
inconformado, interpôs agravo de 2ª instância para o Supremo Tribunal de Justiça, concluindo
do seguinte modo a sua alegação:

“[...]Conclusões:
1ª) Pela sentença de fls. 75 e 76 foi contra o recorrente reconhecida a sua
paternidade do menor B..
2ª) Tal sentença foi proferida em processo no qual o recorrente foi citado
editalmente.
3ª) O Recurso de Revisão foi interposto quando, ocasionalmente, o recorrente
tomou conhecimento da sentença e de um documento que, parcialmente, a infirmava,
e dentro dos 60 dias posteriores ao conhecimento do primeiro destes factos, o que foi
devidamente alegado.
4ª) Como alegado foi a nulidade da citação edital.
5ª) Todavia tanto o Tribunal de 1ª instância, como o Tribunal "a quo" entenderam
que tendo já decorrido 5 anos sobre o formal trânsito em julgado da sentença
recorrida, não era admissível o Recurso de Revisão e por isso o indeferiram.
6ª) Ora a nulidade da citação implica a nulidade de tudo quanto depois dela se
processe, por força do disposto no art.º 194º al. a) e pela equiparação feita entre a
falta e a nulidade da citação edital pelo art.º 771 al. f), ambos do C.P.C.
7ª) A nulidade da citação edital foi alegada quando da primeira intervenção do
recorrente no processo, pelo único meio na altura formalmente admissível e que era o
Recurso de Revisão, e, portanto, em tempo (art.º 198 n.º 2 do C.P.C.).
8ª) Mas é evidente que alegando-se a nulidade. da citação edital que implica a
nulidade da sentença, o prazo de 5 anos para interposição do recurso, não pode ser
tomado em conta, porque no silogismo jurídico, em que se funda a pretensão, a
sentença também é nula.
9ª) Não sendo assim a interpretação, ou outra do Douto Suprimento de V.Excias
que chegue a resultados processuais semelhantes, a sentença recorrida violará o
princípio da igualdade das partes e consequentemente o do contraditório, aplicável
ao processo civil, consignado no art.º 13° da Constituição da República e no
parágrafo único do artigo 6° da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, pelo
que deve ser considerado que o art.º 772 n.º 2 do C.P.C., na interpretação que lhe
foi dada na sentença recorrida é inconstitucional e como tal declarado.
10ª) Assim deve ser revogada a sentença recorrida, por violação do art.º 772 n.º 2,
194 al. a) e 771 al. f) todos do C.P.C., ou em alternativa deve ser julgado
inconstitucional, por violação do art.º 13° da Constituição da República e parágrafo
único do art.º 6° da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, a interpretação
dada na sentença recorrida à contagem do prazo de cinco anos estipulado no art.º
772° n.º 2 do C.P.C. quando aplicado à citação edital arguida de nula e em
consequência revogada também a decisão recorrida e em qualquer dos casos mandado
prosseguir o processo [...].”

3. Por acórdão de 7 de Outubro de 2003, o Supremo Tribunal de Justiça negou provimento ao
agravo. Escudou-se, para isso, na seguinte fundamentação:

“[...]Decidindo:
1.- A interpretação do disposto no n.° 2 do art. 772 C PC e sua constitucionalidade
são as únicas questões objecto do presente agravo.
Fixa ele dois prazos que correm em paralelo tendo, contudo, início diverso.
Articulam-se entre si e a exaustão de qualquer deles, de per si, por inacção do
interessado, provoca a extinção, por caducidade, do direito de peticionar a revisão da
decisão transitada (essa consequência ocorre logo que um deles tenha decorrido). A lei
não lhes abriu qualquer excepção nem estabeleceu causa impeditiva da caducidade
(CC- 298-2,328 e 331-1).
O primeiro limite temporal tem início no trânsito em julgado da decisão - o recurso
só pode ser interposto se não tiverem decorrido mais de 5 anos sobre o trânsito em
julgado da decisão a rever (corpo daquele n.° 2 e art. 671-1 CPC).
O segundo toma em atenção os fundamentos do recurso, os elementos que servem
de causa à mesma (als. a) e b) daquele n.° 2) e não pode ultrapassar o limite do
primeiro (isso o que resultava do corpo do n.° 2, reforçado com a nova redacção do
n.° 3 do art. 772, sentido em que a jurisprudência se pronunciara antes).
Respeita o recurso de revisão a decisão transitada, pelo que é extraordinário (CPC-
676-2) o que permite concluir que, procurando a lei o valor da segurança jurídica
inerente àquela, não fica insensível a outros valores (maxime, o de justiça material, indo
de encontro à verdade que não a formal). Todavia, estabeleceu balizas à excepção que
abriu, umas relativas aos fundamentos (CPC- 771), outras atinentes ao decurso do
tempo (CPC- 772,2 e 3), ambas taxativas («...só pode ...» e «o recurso não pode ser
interposto se ...»).
Significa isso que esse valor da segurança jurídica não foi erigido como absoluto,
não sem que, todavia, constitua a regra.
2.- À interpretação desse n.° 2 desinteressa em absoluto a natureza da matéria
objecto da acção onde foi proferida a sentença a rever, há-de ser válida seja [qual for] a
que aí tenha sido discutida. Não se pode pretender que a interpretação da norma varie
consoante a natureza do que tenha sido discutido na acção – v.g., porque se discutia o
estabelecimento da paternidade ou a dissolução do casamento, valer uma interpretação
que ignore a exigência de o primeiro prazo ainda não ter decorrido mas, porém, já
valer se o que se discutia era o reconhecimento do direito de propriedade, de uma
servidão ou de uma dívida, etc..
Tão pouco influem na sua interpretação as eventuais violações de normas que
tenham ocorrido no processamento da acção - apenas poderão interessar aos
fundamentos do recurso (CPC - 771), não à questão da tempestividade da sua
interposição (CPC- 772,2).
O exame liminar que ao julgador é pedido inicia-se pela questão da tempestividade
e, ultrapassada esta, incide sobre os fundamentos (CPC- 774,2).
Como se referiu antes, apenas há que decidir, através da interpretação do art. 772-2
e sua constitucionalidade, da tempestividade da interposição do recurso.
3.- Quando o agravante interpôs o recurso de revisão já há muito tinham decorrido
os 5 anos sobre o trânsito em julgado da decisão que pretendia fosse revista.
Caducara-lhe o respectivo direito a interpô-lo.
A argumentação do agravante traduz-se no seguinte raciocínio - porque nula a
citação edital é nulo tudo o que após ela se processou e, por isso, nula a sentença;
arguiu a nulidade da citação no presente recurso, a primeira intervenção formalmente
admissível (CPC- 198,2), e, portanto, em tempo; se assim não se entender, a decisão
recorrida viola o princípio da igualdade das partes e, consequentemente, o do
contraditório.
Esta argumentação, além de incorrer numa interpretação não consentida do n.° 2
do art. 198 CPC, está direccionada aos fundamentos do recurso, não à questão da sua
tempestividade, que ignora.
A possibilidade que a lei confere ao vencido de impugnar uma decisão transitada
em julgado representa, em relação aos recursos ordinários, a concessão de um mais, de
uma extensão que, na normalidade, o seu direito de defesa não conheceria.
Ao vencido é concedido um direito que posterga o valor da segurança jurídica
inerente ao trânsito em julgado, valor que ao vencedor assegura o seu interesse e com
o qual ele podia contar. A se poder falar em violação do princípio da igualdade de
armas seria não o vencido ( o agravante, aqui) mas o vencedor o prejudicado.
Na conciliação dos valores da segurança jurídica e da justiça material, a lei, já desde
o CPC1876 com a acção anulatória (art. 148) e, a partir do CPC39, com o recurso de
revisão, sobrepôs este àquele (como referia J. A. dos Reis - «estamos perante uma das
revelações do conflito entre as exigências da justiça e as necessidades da segurança e
da certeza jurídica»), circunscrevendo taxativamente os vícios que lhe podem servir de
fundamento e só permitindo a reparação desses vícios (a qual, no ensinamento de
Palma Carlos, constitui «um atentado contra a autoridade do caso julgado», autoridade
essa que, «dada a falibilidade dos julgamentos humanos ... não pode ser reconhecida
como absoluta») nos prazos que rigorosa e taxativamente delimita.
O estabelecimento desses prazos, com o efeito da caducidade se não respeitados,
em nada coloca o vencido em posição de inferioridade e desigualdade em relação ao
vencedor. Repõe o valor da segurança na vida jurídica no lugar que lhe compete,
restaura a autoridade do caso julgado conferindo à administração da justiça a força,
autoridade e segurança que publica e constitucionalmente é e deve ser reconhecida ao
trânsito das suas decisões.
O estabelecimento desses prazos não retirou ao vencido o direito que se lhe
reconhecia - impõe-lhe um ónus, o de com eles se conformar para poder exercer esse
direito de defesa.
Improcede a tese da inconstitucionalidade.
Termos em que se nega provimento ao agravo. [...]”

4. É desta decisão que vem interposto, ao abrigo da alínea b) do n.º 1 do artigo 70º, da Lei do
Tribunal Constitucional, o presente recurso. Após convite do relator, identificou o recorrente o
objecto do recurso como sendo a apreciação da constitucionalidade da norma constante da 1ª
parte do n.º 2 do artigo 772° do Código de Processo Civil, na medida em que estabelece que o
recurso (de Revisão) não pode ser “interposto se tiverem decorrido mais de cinco anos sobre o
trânsito em julgado da decisão ...»”, uma vez que, de acordo com o recorrente, “se interpretada de
maneira absoluta” (isto é, quando aplicável a casos em que “tendo corrido a acção e a execução à revelia (o
que foi a caso) se mostre que faltou a citação ou é nula a citação feita”), viola tal norma “o princípio do
contraditório, constitucionalmente garantido pelo artigo 32º, nºs 5º e 10º e, com carácter geral, o art. 13º, n.º 1 da
Constituição e o parágrafo único do art. 6º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem e por, acrescenta-se
agora, tal interpretação do n.º 2 do art. 772º do CPC não dar um mínimo de conteúdo à garantia legal da
identidade genética do Ser Humano, estabelecida no art. 26º n.º 3 da Constituição da República Portuguesa, tanto
mais que estamos no domínio dos direitos indisponíveis.”

5. Já neste Tribunal foi o recorrente notificado para alegar, o que fez, tendo concluído da
seguinte forma:
“1. O Presente recurso de revisão foi interposto depois de ultrapassado o prazo de
cinco anos sobre o trânsito em julgado de decisão recorrida.
2. Mas dentro dos 60 dias a contar da data em que o recorrente teve conhecimento
ao processo.
3. Porque o recorrente foi citado para o processo em causa editalmente, com
preterição de formalidades legais, conforme alegou.
4. O Acórdão do STJ recorrido, decidiu que o prazo estabelecido no art. 772º n.º 2
do CPC se destina a fazer valer o princípio de certeza do direito e do respeito do caso
julgado e não pode ser afastado em função da sorte que tenha o fundamento da
revisão previsto no artigo 771º al. f) do CPC e invocado por uma . das partes.
5. Quer dizer: em hipótese qualquer pessoa pode ser condenada sem possibilidade
de se fazer valer da última oportunidade que lhe é facultada pelo Recurso de Revisão,
sem intervir no processo, sem ter tido conhecimento sequer da sua existência e do seu
resultado, e isto tudo, porque foram omitidos formalismos essenciais no modo de
citação empregue, exactamente, criadas por lei para evitar que tal pudesse acontecer
6. E isto tudo em obediência a um sacro[s]santo princípio de certeza do direito
declarado, calculado em 5 anos como podia ser em 10 ou 20, e que para nada serviu:
nem o filho conheceu o pretenso pai, nem este conheceu o pretenso filho, e o
pretenso pai quando soube do que lhe tinha acontecido tentou impugnar aquilo que
considera uma injustiça e provavelmente o pretenso filho, quando atingir a
maioridade, irá, como a lei lhe faculta, impugnar e recusar a pretensa paternidade de
um pai que não é o seu.
7. Mas entretanto foram postergados outros direitos, esses com assento
constitucional, de igualdade das partes, de que ninguém pode ser condenado sem ser
ouvido, com respeito pelo formalismo criado por lei para garantir a eficácia dessa
mesma audição e que no caso concreto foi preterido de forma grave, alegada e
facilmente verificável.
8. E isto apesar de o recorrente ter aceite que se a sentença não for anulada em
consequência do reconhecimento da nulidade da citação, nos termos da alínea a) do
art. 776º do CPC, então se conforma com o princípio da certeza do direito.
9. Agora ser-lhe negada a Revisão com fundamento no decurso de um prazo
contado a partir de uma sentença nula por não terem sido cumpridos os formalismos
de citação edital destinados a assegurar os potenciais de comunicabilidade desse tipo
de citação, já de si falíveis, é que parece forma não fundamentada e ofensiva dos
princípios constitucionais invocados.
10. Não podem existir dúvidas que o fundamento de revisão da alínea f) do art.
771º do CPC só pode ser apreciado no próprio recurso de Revisão, que é um recurso
extraordinário (n.º 2 do art. 676° do CPC), mas que faz parte do processo visto estar
inserido no Título II (Do processo de declaração), do Livro III (Do Processo) do
CPC.
11. Assim sendo e no caso configurado é na interposição do recurso de Revisão
que se verifica a primeira intervenção do citado no processo, sendo portanto nessa
intervenção que se verifica o termo do prazo para arguir a nulidade da citação edital
prevista no n.º 2 do art. 198° do CPC.- e a nulidade foi arguida.
12. Por sua vez, o Juiz tem obrigação de conhecer desta nulidade logo que dela se
apercebe, oficiosamente, nos termos do n.º 1 do art. 206º do CPC.
13. Ora pretender-se que o decurso do prazo de 5 anos sobre o tr[â]nsito de uma
sentença, impede o conhecimento do Recurso de Revisão quando tal sentença está
inquinada e arguida de nula, não só ofende o citado art. 206º n.º 1 do CPC, como
14. Constitui uma violação dos arts. 13º n.º 1 e 20º da Constituição da República,
na medida em que trata designadamente uma das partes que não só não teve
conhecimento do processo em tempo oportuno, como não foi para ele citado de
forma regular e tem toda a possibilidade de ver reconhecida, sem tal interpretação -
obstáculo ao conhecimento, a nulidade de sentença, que assim já não podia servir
como termo "a quo" para a contagem de um prazo de caducidade.
15. Tal interpretação viola ainda o parágrafo único do art. 6º da Convenção
Europeia dos Direitos do Homem, que assegura também a igualdade do tratamento
das partes no acesso à Justiça e ao Direito.
16. Tal interpretação viola também, porque o frustra, como brilhantemente alegou
o Magistrado do Ministério Público junto do Supremo Tribunal de Justiça - o art. 26º
n.º 1 (também aplicável à igualdade das partes) e 3 da Constituição da República, na
medida em que assegura a protecção da Lei e do Estado "à identidade genética do
ser humano", e estando aqui em causa essa mesma identidade genética, na
concorrência entre a protecção desta e segurança jurídica, seja aquela que prevaleça.
17. Assim sendo a aplicação ao caso concreto, sub judice, do art. 772º n.º 2 (1ª parte)
do CPC e a forma como se entendeu contar o decurso do prazo de 5 anos aí prescrito,
feita tanto no Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa como pelo Acórdão do
Supremo Tribunal de Justiça viola os princípios constitucionais da igualdade das partes
no acesso ao Direito e à Justiça e no respeito do princípio do contraditório constantes
dos arts. 13º n.º 1, 20º nºs 1 e 2, 26º nºs 1 e 3 da Constituição da República e o
parágrafo único do art. 6° da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, pelo que
deve ser declarada a inconstitucionalidade de tal interpretação [...]”.

6. Contra-alegou o Ministério Público, tendo dito, a concluir:
“1 - O estabelecimento de um prazo máximo, absolutamente peremptório, que
condiciona a admissibilidade do recurso extraordinário de revisão, contado do
trânsito em julgado da sentença a rever, representa o balanceamento possível
entre dois valores constitucionalmente tutelados: o de não deixar subsistir
sentenças intoleravelmente"injustas" e a autoridade e intangibilidade do caso
julgado material, impeditivo de que a sentença definitiva possa ser revista (e
eventualmente revogada) a todo o tempo, impedindo a estabilização das relações
jurídicas judicialmente apreciadas e afectando, em termos desproporcionados, a
certeza e segurança do direito - não afrontando, deste modo, tal regime e do
acesso ao direito.
2 - Tal regime adjectivo, enquanto aplicável a uma acção de investigação da
paternidade, não afronta o artigo 26°, n° 1, da Constituição da República
Portuguesa, do qual se não pode inferir, conforme jurisprudência reiterada deste
Tribunal, a"imprescritibilidade" dos instrumentos processuais que visam assegurar a
coincidência entre os vínculos biológicos e jurídico da filiação.
3 - Termos em que deverá improceder o presente recurso.”

Corridos os vistos legais, cumpre decidir.

II. Fundamentação.

7. A primeira parte do artigo 772º, n.º 2, do Código de Processo Civil, cuja constitucionalidade
vem questionada, tem o seguinte teor:

“Artigo 772°
Prazo para a interposição
[...].
2. O recurso não pode ser interposto se tiverem decorrido mais de cinco anos
sobre a decisão [...].
[...]”.

Entende o recorrente que a norma é materialmente inconstitucional se, nos casos em que o
fundamento do recurso é o previsto na alínea f) [actual e)] do n.º 1 do artigo 771º do CPC e estiver
em causa a averiguação da paternidade, for interpretada “de maneira absoluta”, isto é, se, como se fez
na decisão recorrida, se considerar aplicável a casos em que “tendo corrido a acção e a execução à
revelia [...] se mostre que faltou a citação ou é nula a citação feita”, por violação do “princípio do contraditório,
constitucionalmente garantido pelo artigo 32º, nºs 5º e 10º e, com carácter geral, o art. 13º, n.º 1 da Constituição e o
parágrafo único do art. 6º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem e por [...] tal interpretação do n.º 2 do
art. 772º do CPC não dar um mínimo de conteúdo à garantia legal da identidade genética do Ser Humano,
estabelecida no art. 26º n.º 3 da Constituição da República Portuguesa”.

Em causa não está, portanto, em termos gerais, a previsão de um prazo peremptório de cinco
anos para a interposição do recurso de revisão, mas sim a aplicação desse prazo, absolutamente
preclusivo, às hipóteses em que a acção na qual foi proferida a decisão cuja revisão é requerida foi
uma acção oficiosa de investigação de paternidade, que correu à revelia e seja alegado, para
fundamentar o pedido de revisão, a falta ou a nulidade da citação para aquela acção.

Em suma: a questão de constitucionalidade, tal como vem colocada pelo recorrente e vai ser
apreciada pelo Tribunal, pode formular-se nos seguintes termos: é a norma contida no n.º 2 do artigo
772º do Código de Processo Civil inconstitucional, na parte em que prevê um prazo absolutamente peremptório de
cinco anos para a interposição do recurso de revisão, contados desde o trânsito em julgado da sentença a rever,
quando interpretada no sentido de ser aplicável aos casos em que a acção na qual foi proferida a decisão cuja revisão
é requerida foi uma acção oficiosa de investigação de paternidade, que correu à revelia e seja alegado, para
fundamentar o pedido de revisão, a falta ou a nulidade da citação para aquela acção?

Vejamos.

8. Da alegada violação do princípio do contraditório.

Entende o recorrente que a interpretação do artigo 772º, n.º 2, do Código de Processo Civil,
que vem questionada viola, desde logo, o princípio do contraditório, consagrado, no seu entender,
nos artigos 32º, n.ºs 5º e 10º e 13º, n.º 1, da Constituição, bem como no n.º 1 do artigo 6º da
Convenção Europeia dos Direitos do Homem.

Vejamos se tem razão.

O Tribunal Constitucional já afirmou, por inúmeras vezes, a consagração constitucional do
princípio do contraditório no âmbito do Processo Civil, princípio que o Tribunal considera
derivar do princípio do Estado de Direito e da garantia de acesso à justiça e aos tribunais,
consagrados, respectivamente, nos artigos 2º e 20º da Constituição (cfr., a título meramente
exemplificativo, os Acórdãos nºs 249/97, 259/00, publicados no Diário da República, II Série,
de 17 de Maio de 1997, de 7 de Novembro de 2000, respectivamente, ou, mais recentemente, o
Acórdão n.º 131/02, de 4 de Maio de 2002).

Sobre o sentido e alcance do princípio do contraditório no âmbito do Processo Civil ponderou o
Tribunal, no já citado Acórdão n.º 259/00, que cita o essencial da anterior jurisprudência sobre a
matéria:
“(...) 4.2. O direito de acesso aos tribunais é, entre o mais, o direito a uma solução
jurídica dos conflitos, a que se deve chegar em prazo razoável e com observância das
garantias de imparcialidade e independência, possibilitando-se, designadamente, um
correcto funcionamento das regras do contraditório, em termos de cada das partes
poder aduzir as suas razões (de facto e de direito), oferecer as suas provas, controlar as
provas do adversário e discretear sobre o valor e o resultado de umas e outras [cf. o
Acórdão n.º 86/88 (publicado nos Acórdãos do Tribunal Constitucional, volume 11º,
páginas 741 e seguintes)].
É que – sublinhou-se no Acórdão n.º 358/98 (publicado no Diário da República, II
série, de 17 de Julho de 1998), repetindo o que se tinha afirmado no Acórdão n.º
249/97 (publicado no Diário da República, II série, de 17 de Maio de 1997) – o processo
de um Estado de Direito (processo civil incluído) tem de ser um processo equitativo e
leal. E, por isso, nele, cada uma das partes tem de poder expor as suas razões (de facto
e de direito) perante o tribunal antesque este tome a sua decisão. É o direito de defesa, que
as partes hão-de poder exercer em condições de igualdade. Nisso se analisa,
essencialmente, o princípio do contraditório, que vai ínsito no direito de acesso aos tribunais,
consagrado no artigo 20º, n.º 1, da Constituição, que prescreve que "a todos é assegurado
o acesso [...] aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos, não podendo
a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos".
A ideia de que, no Estado de Direito, a resolução judicial dos litígios tem que fazer-
se sempre com observância de um due process of law já, de resto, o Tribunal a tinha
posto em relevo no Acórdão n.º 404/87 (publicado nos Acórdãos do Tribunal
Constitucional, volume 10º, páginas 391 e seguintes). E, no Acórdão n.º 62/91
(publicado nos Acórdãos do Tribunal Constitucional, volume 18º, páginas 153 e seguintes)
- depois de se sublinhar que o princípio daigualdade das partes e o princípio
do contraditório "possuem dignidade constitucional, por derivarem, em última instância,
do princípio do Estado de Direito" - acrescentou-se que, por outro lado, esses
princípios constituem "directas emanações do princípio da igualdade".
[...]
Tal como se sublinhou no citado Acórdão n.º 1193/96, a ideia de processo
equitativo e leal(due process of law) exige, não apenas um juiz independente e imparcial – um
juiz que, ao dizer o direito do caso, o faça mantendo-se alheio, e acima, de influências
exteriores, a nada mais obedecendo do que à lei e aos ditames da sua consciência –
como também que as partes sejam colocadas em perfeita paridade de condições, por
forma a desfrutarem de idênticaspossibilidades de obter justiça. Criando-se uma
situação de "indefensão", a sentença só por acaso será justa. [...]”

Também Gomes Canotilho e Vital Moreira (Constituição da República Portuguesa Anotada, 3ª Ed.,
pp. 163 e 164), assinalam, em sentido fundamentalmente coincidente, que, no âmbito normativo
do artigo 20º da Constituição, deve integrar-se ainda “a proibição da indefesa, que consiste na
privação ou limitação do direito de defesa do particular perante os órgãos judiciais, junto dos quais
se discutem questões que lhe dizem respeito. A violação do direito à tutela judicial efectiva, sob o
ponto de vista de limitação do direito de defesa, verificar-se-á sobretudo quando a não observância
de normas processuais ou de princípios gerais de processo acarreta a impossibilidade de o
particular exercer o seu direito de alegar, daí resultando prejuízos efectivos para os seus
interesses”.

Ora, definido assim o conteúdo essencial do princípio do contraditório, em que se integra
obviamente a proibição da indefesa (cfr., sobre o tema, o Acórdão n.º 440/94, publicado no Diário da
República, II Série, de 1 de Setembro de 1994), tem necessariamente de concluir-se que a solução
normativa consagrada no artigo 772º, n.º2, 1ª parte, do CPC, quando aplicável aos casos em que, tendo
corrido à revelia a acção em que foi proferida a decisão cuja revisão é requerida, seja alegado, como fundamento da
revisão, precisamente, a falta ou nulidade da citação para aquela acção, é efectivamente inconstitucional, por
ofensa daquele princípio.

Com efeito, semelhante interpretação normativa retira por completo ao interessado a
possibilidade de invocar sequer perante o tribunal a invalidade do acto (citação edital) que,
segundo ele, o impediu de apresentar qualquer tipo de defesa, conduzindo a que seja inapelavelmente
confrontado com uma decisão judicial cujos fundamentos de facto e de direito não teve - nem tem
-, por razão que alega não lhe ser imputável e fica impossibilitado de provar, qualquer
oportunidade de contraditar.

É certo, e não se ignora, que o instituto do caso julgado e o estabelecimento de um prazo para a
possibilidade de interposição do recurso extraordinário de revisão visam garantir um mínimo de
certeza, segurança e estabilidade nas relações jurídicas, valores também eles constitucionalmente
tutelados. A verdade, porém, é que a prossecução desses interesses não pode conseguir-se, como
aconteceria se prevalecesse a solução normativa que vem questionada, à custa do cerceamento
absoluto de qualquer possibilidade de questionar (ainda que num momento posterior, como
aconteceria se fosse admitido o recurso de revisão) sequer a validade do acto (citação edital) que
visava, precisamente, permitir-lhe contraditar os fundamentos de facto e de direito de uma acção
que, afectando direitos fundamentais, viria a ter uma decisão que lhe foi desfavorável.

Repare-se que, no limite, a solução normativa que vem questionada, a prevalecer, poderia
conduzir a que qualquer pessoa pudesse ser definitiva e irremediavelmente afectada num seu direito
fundamental por decisão judicial proferida em acção para a qual não foi sequer citada.

9. Aqui chegados, ainda que alguma dúvida subsistisse sobre a inconstitucionalidade da
interpretação normativa em causa por força deste fundamento geral, sempre seria de considerar,
tendo em atenção os valores em presença, que uma tal solução normativa é absolutamente
inaceitável, consubstanciando uma cedência manifestamente desproporcionada às exigências de
certeza e segurança jurídica que estão na base da solução subjacente ao disposto no artigo 772º, n.º
2, do CPC, se for aplicável a casos em que está em causa, como acontece nos presentes autos, a
revisão de uma decisão proferida em acção oficiosa de investigação da paternidade.


III. Decisão

Nestes termos, decide-se:

a) Julgar inconstitucional, por violação do princípio do contraditório, em que se integra
a proibição da indefesa, ínsito nos artigos 2º e 20º da Constituição, a norma contida no n.º 2 do artigo
772º do Código de Processo Civil, na parte em que prevê um prazo absolutamente peremptório de
cinco anos para a interposição do recurso de revisão, contados desde o trânsito em julgado da
sentença a rever, quando interpretada no sentido de ser aplicável aos casos em que a acção na qual
foi proferida a decisão cuja revisão é requerida foi uma acção oficiosa de investigação de
paternidade, que correu à revelia e seja alegado, para fundamentar o pedido de revisão, a falta ou a
nulidade da citação para aquela acção;

b) consequentemente, conceder provimento ao recurso e ordenar a reforma da decisão
recorrida em conformidade com o presente juízo de inconstitucionalidade.

Lisboa, 24 de Março de 2004

Gil Galvão
Bravo Serra
Maria dos Prazeres Pizarro Beleza
Vítor Gomes
Luís Nunes de Almeida








ACÓRDÃO Nº 598/99
Processo nº 804/97
3ª Secção
Relatora: Maria dos Prazeres Pizarro Beleza

Acordam, na 3ª Secção do Tribunal Constitucional:

1. A. C. recorreu para o Tribunal Constitucional do acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 2 de
Outubro de 1997 "ao abrigo das alíneas b e f do nº 1 do artº 70º da Lei 28/82 de 15 de Novembro", sustentando a
inconstitucionalidade do "artº 3º/1/c/ do DL 321-B/90, de 15 de Outubro (...), por ofender o princípio básico do
contraditório" e dos "arts. 393º e 394º do CPC e [d]os arts. 1251º, 1267º/b/ e 1279º do Código Civil" que "foram
interpretados inconstitucionalmente, com violação do artº 65º/1/ da Constituição – o direito à habitação: um cônjuge com
2 habitações e o outro sem uma única casa –, brigando e afrontando também os princípios da igualdade e da
proporcionalidade, em pleno arbítrio, discriminação familiar, sem peso nem medida – arts. 13º e 18º/2/ da Lei
Fundamental.
A ilegalidade e a inconstitucionalidade da interpretação dos referidos normativos foi problematizada quando o podia ser,
designadamente nas alegações de 3.2.97, de fls , onde o balanceamento da desigualdade entre os cônjuges foi devidamente
equacionado e sopesado, bem como contraalegado e ajuizado.
Sobressai a desigualdade entre o feminino e o masculino, inferiorizando e ridicularizando este até ao ponto de ficar sem o
seu próprio lar. O desequilíbrio é confrangedor!!!".
O acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 2 de Outubro de 1997, de fls. 135, negou provimento
ao recurso de agravo interposto por A. C. da decisão do Tribunal Judicial da Comarca do Barreiro que
julgara procedente o pedido de restituição provisória da posse do imóvel, devidamente identificado nos
autos, que constituía a casa de morada da família, formulado por sua mulher, M. C..
Para o que agora releva, o Tribunal da Relação de Lisboa julgou que "não foram interpretados
inconstitucionalmente os arts. 393º e 394º do C.P.C., e 1251º, 1267º/b) e 1279º do Código Civil, com violação do art.
65º/1 da Constituição (...) [que]é uma norma programática, incumbindo ao Estado assegurar tal direito [à
habitação], mediante políticas adequadas.
Não compete aos particulares e, consequentemente, à agravente, assegurar tal direito".
Igualmente decidiu que o artigo 394º do Código de Processo Civil (na versão anterior à reforma de 1997,
introduzida pelo Decreto-Lei nº 329-A/95, de 12 de Dezembro), aplicável mesmo quando o imóvel cuja
restituição provisória se pede é a casa de morada de família, por ter sido revogado o Decreto-Lei nº
293/77, de 20 de Julho, pela al. c) do nº 1 do artigo 3º do Decreto-Lei 321-B/90, de 15 de Outubro,
que "impõe que se ordene a restituição sem citação nem audiência do esbulhador", não ofende os princípios
constitucionais da igualdade e da proporcionalidade.
O recurso foi admitido pelo Tribunal da Relação de Lisboa, pelo despacho de fls. 146.
2. Notificada para o efeito, o recorrente veio apresentar as respectivas alegações, concluindo da seguinte
forma:
"TERMOS em que deve deliberar-se:
a. Julgar inconstitucional a norma do artº 3º/1/c do DL 321-B/90, de 15 de Outubro, por ofender o princípio do
contraditório processual civil, no âmbito do contencioso familiar, em que é princípio assente que o Tribunal deve tentar
sempre a conciliação entre os cônjuges, no diálogo e no debate ‘inter partes’;
b. Julgar inconstitucional as normas dos arts. 393º e 394º do CPC e os arts. 1251º, 1267º/b/ e 1279º do Código Civil,
na interpretação anti-familiar que lhes foi encrostada pelo Acórdão recorrido, por violação dos arts. 13º, 18º/2/, 65º/1/,
66º/1/ e 67º/1/ da Lei Fundamental.
c. Consequentemente, conceder provimento ao recurso e revogar o Acórdão recorrido, que deve ser reformado, de acordo com o
aqui alegado sobre a questão de ilegalidade/inconstitucionalidade".
A recorrida não contra-alegou.
3. Considerando não poder conhecer parcialmente do objecto do recurso, a relatora elaborou o parecer
de fls. 175, que foi notificado às partes, e do qual se transcreve a parte relevante:
"(...) Nos termos do disposto no nº 1 do artigo 704º do Código de Processo Civil, aplicável por força do disposto no artigo
25º do Decreto-Lei nº 329-A/95, de 12 de Dezembro, e do artigo 69º da Lei nº 28/82, de 15 de Novembro, considero
que o Tribunal Constitucional não pode conhecer parcialmente do objecto do presente recurso, pelas seguintes razões:
1ª) Quanto ao recurso interposto ao abrigo da al. f) do nº 1 do artigo 70º da Lei nº 28/82, por não ter sido invocada
nenhuma das ilegalidades nela previstas;
2ª) Quanto à questão da inconstitucionalidade da norma constante da al. c) do nº 1 do artigo 3º do Decreto-Lei nº 321-
B/90, de 15 de Outubro, por não ter sido alegada oportunamente. Com efeito, apenas foi suscitada no requerimento de
interposição de recurso, sendo certo que a al. b) do nº 1 do artigo 70º da Lei nº 28/82 exige que tenha sido levantada
"durante o processo", nos termos definidos pelo nº 2 do artigo 72º;
c) Não tomar conhecimento da questão da inconstitucionalidade das normas constantes dos artigos 1251º e 1267º, b), do
Código Civil, por não terem sido aplicadas na decisão recorrida."
Nem o recorrente nem a recorrida responderam.



4. Cumpre então conhecer do objecto do recurso, que, pelas razões constantes do parecer atrás referido,
se circunscreve à alegada inconstitucionalidade das normas contidas nos artigos 393º e 394º do Código
de Processo Civil, na sua anterior redacção, e 1279º do Código Civil, cujo texto é o seguinte:

Artigo 393º
(Em que casos tem lugar a restituição provisória de posse)
No caso de esbulho violento, pode o possuidor pedir que seja restituído provisoriamente à sua posse,
alegando os factos que constituem a posse, o esbulho e a violência.

Artigo 394º
(Termos em que a restituição é ordenada)
Se o juiz reconhecer, pelo exame das provas, que o requerente tinha a posse e foi esbulhado dela
violentamente, ordenará a restituição, sem citação nem audiência do esbulhador.
Artigo 1279º
(Esbulho violento)
Sem prejuízo do disposto nos artigos anteriores, o possuidor que for esbulhado com violência tem o direito
de ser restituído provisoriamente à sua posse, sem audiência do esbulhador.

Mesmo tendo em consideração que o bem cuja restituição foi ordenada no caso presente foi a casa de
morada de família, em nada estas normas violam o direito à habitação, constitucionalmente tutelado pelo
nº 1 do artigo 65º da Constituição. O recorrente, aliás, também não esclarece em que consistiria a alegada
violação.
O artigo 65º, como já por diversas vezes foi afirmado por este Tribunal (ver, a título de exemplo, os
acórdãos nºs 101/92 e 346/93, publicados no Diário da República, II Série, respectivamente, de 18 de
Agosto de 1992 e de 19 de Maio de 1994), tem por objectivo incumbir o Estado de uma série de tarefas
destinadas a garantir que todos disponham, efectivamente, de uma habitação condigna e adequada. Do
seu conteúdo obviamente programático não decorre – nem poderia decorrer, sob pena de impor um
regime absurdo – que não possa ser aplicável à casa de morada de família a providência da restituição
provisória da posse.
O recorrente coloca também a questão da violação, pelo disposto no artigo 394º do Código de Processo
Civil, do princípio do contraditório, por permitir que, em casos como o presente, se ordene a restituição
provisória da posse da casa de morada de família sem audiência prévia do esbulhador.
É sabido que o princípio do contraditório é um dos princípios fundamentais do Processo Civil, e que
tem tutela constitucional. É uma exigência clara do princípio da igualdade das partes, por sua vez
manifestação do princípio da igualdade perante a lei e do próprio Estado de Direito.
Isso não significa, porém, que não existam situações em que ele tem de ceder face à necessidade de
eficácia de determinadas medidas judiciais, inoperantes se precedidas de audiência da parte contra quem
são requeridas. É o que em geral, sucede com a justiça cautelar (cfr., nomeadamente, o acórdão nº
739/98, publicado no Diário da República, II Série, de 8 de Março de 1998), onde se integra a
providência da restituição provisória da posse, cuja constitucionalidade não se vê que possa ser posta em
crise, salvo se for manifestamente desproporcionado o sacrifício do contraditório.
Não é, porém, o caso, pois que a restituição da posse só é ordenada se o tribunal, julgada a prova
admissível (oferecida pelo requerente ou ordenada pelo juiz, oficiosamente), concluir pela existência de
esbulho violento.
Não são, pois, inconstitucionais as normas impugnadas pelo recorrente.

Assim, decide-se:
a) Não tomar conhecimento do recurso interposto ao abrigo da al. f) do nº 1 do artigo 70º da Lei nº
28/82, por não ter sido invocada nenhuma das ilegalidades nela previstas;
b) Não tomar conhecimento da questão da inconstitucionalidade da norma constante da al. c) do nº 1 do
artigo 3º do Decreto-Lei 321-B/90, de 15 de outubro, por não ter sido suscitada oportunamente;
c) Não tomar conhecimento da questão da inconstitucionalidade das normas constantes dos artigos
1251º e 1267º, b), do Código Civil, por não terem sido aplicadas na decisão recorrida;
d) Não julgar inconstitucionais as normas constantes dos artigos 393º e 394º do Código de Processo
Civil, na versão anterior à reforma introduzida pelo Decreto-Lei nº 329-A/95, de 12 de Dezembro;
e) Não julgar inconstitucional a norma constante do artigo 1279º do Código Civil.
Consequentemente, nega-se provimento ao recurso, na parte em que se toma conhecimento do seu
objecto.
Lisboa, 2 de Novembro de 1999-
Maria dos Prazeres Pizarro Beleza
Messias Bento
José de Sousa e Brito
Alberto Tavares da Costa
Luís Nunes de Almeida






Acórdão do Tribunal da Relação do Porto
Processo:





4765/06.8YXLSB.P1
Nº Convencional:JTRP00043879Relator:MARQUES DE CASTILHODescritores:DIREITO AO
CONTRADITÓRIO
NULIDADE PROCESSUAL
RENÚNCIA AO MANDATO
SUSPENSÃO DA EXECUÇÃO
CAUÇÃONº do Documento:RP201005044765/06.8YXLSB.P1Data do
Acordão:04/05/2010Votação:UNANIMIDADETexto Integral:SPrivacidade:1Meio
Processual:APELAÇÃO.Decisão:REVOGADA A DECISÃO.Indicações Eventuais:2ª SECÇÃO - LIVRO 368
FLS. 225Área Temática:. Sumário:I- O direito ao contraditório - que é, em si mesmo, uma decorrência do
princípio da igualdade das partes estabelecido no art. 3°-A - possui um conteúdo multifacetado: ele
atribui à parte no só o direito ao conhecimento de que contra ela foi proposta uma acção ou requerida
uma providência e, portanto, um direito à audição antes de ser tomada qualquer decisão, mas
também um direito a conhecer todas as condutas assumidas pela contraparte e a tomar posição
sobre elas, ou seja, um direito de resposta.
II- A violação do contraditório inclui-se na cláusula geral sobre as nulidades processuais constante
do art. 201°, n°1, do CPC: dada a importancia do contraditório, é inquestionável que a sua
inobserv8ncia pelo tribunal é susceptível de influir no exame ou decisão da causa.
III- Não obstante a renúncia ao mandato, o advogado do réu continuava onerado com as obrigações
decorrentes do mandato e, como tal, com a obrigação de comparecer à audiência de julgamento para
defesa do seu constituinte.
IV- Não tendo ele comparecido à aludida audiência, torna-se necessária a presença de um
representante especialmente munido de conhecimentos profissionais para o efeito, sob pena de
violação do princípio do contraditório.Reclamações: Decisão Texto Integral:Rel. nº 76/09-1061
Relator: Marques de Castilho
Adjuntos: Henrique Araújo
Vieira e Cunha
Proc.4765/06.8 YXLSB 3°- Juízo Cível -2ªSecção
Apelação
Gondomar-3ºJ-4765/06.8 YXLSB
Acordam na Secção Cível do Tribunal da Relação do Porto

Relatório

B………………..
na acção especial para cumprimento de obrigações pecuniárias emergentes de contratos nos termos
do Dec-Lei 269/98 que lhe é movida bem como a C……………., Ldª por
D………….. S.A.,
todos já melhor identificados com os sinais dos autos, não se tendo conformado com o teor do
despacho que indeferiu o seu pedido de prazo para constituição de novo mandatário no processo
veio do mesmo tempestivamente interpor recurso de Agravo, tendo para o efeito nas alegações
oportunamente apresentadas aduzido a seguinte matéria conclusiva que passamos a enunciar:
1. Devido à obrigatoriedade de comparência de uma Assembleia de credores, agendada para o
mesmo dia e hora, no Tribunal de Santa Maria da Feira, a anterior mandatária do Réu não podia
comparecer na audiência de julgamento agendada para o dia 29 de Janeiro de 2009, no âmbito dos
presentes autos;
2. Motivo pelo qual, por requerimento conjunto foi solicitado ao tribunal o adiamento do julgamento,
nos autos em causa, invocando-se os motivos;
3. Tal requerimento mereceu o indeferimento da MMª Juíza;
4. Com esta tomada de posição, houve uma violação expressa dos artigos 156° n°1 e 266° n°1 do
C.P.C;
5. O pedido de adiamento da diligencia justificava-se uma vez que o motivo alegado prendia-se com o
facto de o outro processo ser um processo de insolvência, de carácter urgente e de ser imposto ao
administrador de insolvência o cumprimento do disposto no artigo 52 e 54 do CIRE, e desde que
fosse aplicado por parte do MM° Juiz o principio de cooperação, já que quer o Mandatário da Autor
quer o da Ré concordaram no adiamento;
6. Posteriormente ao indeferimento, foi proposta a suspensão da instância ao Mandatário da Ré, que
expressamente se opôs;
7. Em 27 de Janeiro de 2009, por fax próximo das 10.30 horas e posteriormente via CTT, foi
apresentado nos autos a renúncia do Mandato e requerido a notificação do Réu, nos termos do art.
39° do C.P.C.;
8. No requerimento foi indicado expressamente “urgente";
9. Foram feitas diversas chamadas/telefonemas para o Tribunal e juízo respectivos, no sentido de
demonstrar a importância do assunto, e a urgência do mesmo;
10. A notificação do Réu, só foi ordenada no dia 29 de Janeiro de 2009, antes do início da audiência
de julgamento;
11. O requerimento da Renuncia não impediu que o julgamento fosse feito;
12. Não foram salvaguardados os direitos do Réu ao patrocínio;
13. O recorrente sustenta que devia ter sido notificado de imediato da renúncia, logo no dia
27/01/2009, ou no dia seguintes, mas antes da diligência de julgamento;
14. Entende-se ainda que o julgamento não devia ter sido realizado, após existir nos autos a renúncia,
e ainda após o Despacho da Mmª Juíza a ordenar a notificação;
15. Ao ter lugar a audiência de julgamento, foram violados os direitos de garantia e de patrocínio
judiciários expressos na CRP, designadamente art° 16° e 20° n° 2;
16. A audiência de julgamento tal qual aconteceu é nula, nulidade essa que se invoca, e que o
Tribunal devia ter conhecido oficiosamente;
17. Mais o Réu, na data de 29 de Janeiro de 2009, comprova nos autos que teve conhecimento da
renúncia desde o dia 28 daquele mês, e requer prazo para constituir novo mandatário;
18.Tal requerimento é indeferido, por alegadamente extemporâneo;
19. Este indeferimento é nulo;
20. Pese embora o Despacho ordenado em acta, para notificar o Réu, e a confirmação deste, de que já
tinha tido conhecimento da renúncia, não impediram os ulteriores termos processuais,
designadamente a Sentença e a leitura da mesma...;
21. A impossibilidade de o Réu exercer o seu direito de alegar, resulta prejuízos efectivos para os
seus interesses" (Prof. Gomes Canotilho e Vital Moreira);
22. O rigoroso e escrupuloso cumprimento dos deveres inerentes ao mandato se afigura incompatível
com o pré-anúncio, implícito na renúncia, de que o mandatário perdeu o interesse no patrocínio - Ac
2167/07- Tribunal da Relação de Évora;
23. A MM°. Juíza do processo a quo, devia ter ordenado a imediata notificação do Mandante, nos
temos do artigo 39° n° 1, 2 e 3, ordenando-se a suspensão da diligencia de audiência de julgamento,
logo no dia 27 de Janeiro de 2009, data em que deu entrada o requerimento da renuncia com a
expressa referencia de urgente;
24. O requerido pelo Réu devia ter sido aceite;
25. Foram violados, com a devida vénia, o disposto nos seguintes normativos legais:
- Artigo 16º, 17 e 20 n° 2°- da Constituição da Republica Portuguesa; - Artigo 39 do Código Processo
Civil;
- Artigo 156º n° 1 e 4 do Código Processo Civil; - Artigo 266 n° 1 e 4 do Código Processo Civil; - Artigo
166º n° 2 e 4 do Código Processo Civil; - Artigo 2019º do Código Processo Civil;
Termina por pedir que seja dado provimento ao recurso apresentado, adoptando e aceitando-se a
posição apresentada pelo agravante, com todas as consequências legais.
Não foram apresentadas contra alegações.
Tendo os autos prosseguido com a realização da audiência de discussão e julgamento com o
formalismo próprio conforme na acta de exara em conformidade com o disposto no artigo 522-B do
Código Processo Civil, como serão todas as outras disposições legais infra citadas de que se não
faça menção especial foi proferida decisão final sobre o objecto da acção na qual o D………….. SA,
pede a condenação solidária dos RR. no pagamento ao Autor da importância de Euros 7.048,40,
acrescida de Euros 986,29 de juros vencidos até à entrada da presente acção e de Euros 39,45 de
imposto de selo sobre estes juros e, ainda, os juros que sobre a dita quantia de Euros 7.048,40 se
vencerem, à taxa anual de 20,43%, desde 16 de Novembro de 2006 até integral pagamento, bem como
o imposto de selo que, à referida taxa de 4%, sobre estes juros recair tendo apenas o Réu Fernando
apresentado contestação.
A decisão foi do seguinte jaez que se reproduz nos seus precisos termos:
“Pelo exposto, julgo a presente acção procedente, por provada e, em consequência, condeno os réus
a pagar à autora a quantia de € 7.048,40, acrescida de juros vencidos e vincendos até integral
pagamento à taxa anual de 20,43%, bem como o imposto de selo que, à referida taxa de 4%, sobre
estes juros recair.”
Igualmente irresignado veio o Réu interpor tempestivamente recurso de Apelação tendo para o efeito
nas alegações oportunamente apresentadas aduzir a seguinte matéria conclusiva que passamos a
enunciar:
“O Recorrente não concorda com a douta decisão proferida, e o motivo da discordância, para além de
outros, assenta no erro de julgamento da matéria de facto, de tal forma grave que conduziu a uma
decisão absolutamente injusta.
A decisão proferida sobre a matéria de facto carece de erro de julgamento da matéria de facto, e
imprecisão e falta de conjugação dos meios probatórios na fundamentação, o que em nada contribui
para a compreensão de algumas das respostas dadas à matéria de facto.
No modesto entendimento do Recorrente, deve ser alterada a resposta à matéria de facto,
concretamente, as respostas dadas aos factos alegados nos Artigo 10º, 11º, 12º, 13º, 14º, 15º, 19º, 20º,
21°, da Contestação, na parte em que a Mmª Juiz os considera como não provados, e que na opinião
do recorrente devem ser reconhecidos, designadamente que:
a) O contrato de mutuo tem a data de 19 de Outubro de 2001 e a autorização do débito em conta tem a
data de 10/10/2001, ou seja data anterior ao contrato de mutuo
b) O remetente da carta a requerer o débito de conta, é o Sr. E…………, pessoa completamente
estranha ao Recorrente
c) Que o Doc. 2 indica um numero de contacto de mutuo, que não corresponde ao contrato de mutuo
junto aos autos, uma vez que neste contrato não existe qualquer numero identificativo
d) Não ficou definido que a falta de pagamento de uma qualquer prestação na data do seu
vencimento, implica o vencimento imediato de todas as demais
e) Não foi acordado que em caso de mora, a título de cláusula penal acrescia uma indemnização com
um juro de 20,43%
f) No mencionado contrato não se faz referencia quer aos juros de mora à taxa legal de 20%, quer à
cláusula penal.
g) Que o réu com a cedência da quota, nunca mais teve contacto com a sociedade, nem nunca mais
teve conhecimento do que se passava com o contrato de mutuo, e nunca foi notificado pelo A com a
advertência de que caso não fosse liquidado tal montante, seria intentada a respectiva acção
1. Na certeza de que este Venerando Tribunal procederá à alteração das respostas dadas na matéria
de facto, aos factos indicados no n° 3, e alegados na contestação, na parte em que a Mmª. Juíza a
quo, considera como não provada a matéria alegada, deve ser alterada a douta sentença proferida.
2. O Recorrente não concorda ainda com a douta decisão proferida, e o motivo da discordância
prende-se na falta de patrocínio judiciário devido ao apelante, na audiência de julgamento; na
nulidade da Fiança e na violação de princípios básico e normas legais, em vigor no ordenamento
jurídico português
3. O recorrente não viu os seus interesses devidamente protegidos.
4. O tribunal devia ter ordenado a notificação do Recorrente para os termos do artigo 39 do CPC,
antes de ter inicio a audiência de julgamento, e logo que o requerimento para o feito deu entrada nos
autos.
5. Ao não ter cumprido o artigo 39 CPC, previamente à audiência, devia tê-lo feito, logo que a mesma
teve inicio, suspendendo ou interrompendo a continuação da mesma, para que o recorrente pudesse
constituiu novo mandatário, e ver desta feita a sua defesa assegurada.
6. Esteve mal o Mmª Juíza em notificar a mandatária do A da renúncia e não o fazer ao Réu.
7. O comportamento da Mmª Juíza violou os princípios basilares da defesa dos direitos dos cidadãos,
bem como o dever de cooperação, exigível.
8. Do "desrespeito " pela defesa do Apelante resultou: 9. A violação do artigo 39° do CPC;
10. A violação do direito de defesa por parte do Réu;
11. A violação do art.- 155°- nº5 do CPC, uma vez que a falta do Advogado à diligência, foi
previamente apresentada ao Tribunal.
12. A violação do art. 16 e 20 n° 2 da CRP.
13. A violação dos artigos 266 nº 1 e 4; 166 n° 2 e 4; Artigo 201º, todos do CPC.
14. Acresce ainda que o recorrente não foi notificado nem interpelado.
15. Não consta do contrato de mutuo a morada do recorrente.
16. O A tinha conhecimento da morada actual do recorrente, conhecendo inclusive o local, pelo que
devia ter sido remetida para a mesma a interpelação e o aviso da falta de cumprimento do contrato.
17. O Fiador não pode ser havido em situação de incumprimento sem interpelação para cumprir.
18. A interpelação do fiador quando o devedor principal não cumpre, é pois não uma exigência de boa
fé, como um acto necessário e indispensável para permitir ao fiador accionar os meios que a lei lhe
faculte, não só para evitar a mora mas também para viabilizar o pagamento.
19. Pelo que a falta de interpelação ao recorrente, denota a inexistência de um formalismo essencial,
e como tal imprescindível para se poder aferir pela imprudência da acção relativamente a este Réu.
20. Mais, enquanto a interpelação não acontecer, não pode o Recorrente ser condenado em juros,
indemnização e cláusulas penais por não ter conhecimento do incumprimento do contrato.
21. O contrato de fiança é nulo.
22. A declaração de prestar fiança deve conter os requisitos exigidos para a proposta contratual
impondo-se, portanto, que ela contenha os elementos essenciais e específicos do contrato de fiança.
23. A declaração do fiador deve identificar a dívida garantida, o devedor, o credor e o tempo de
vinculação.
24. A declaração em causa – “ declaro que me constituo perante e para com o D……….., fiador de
todas e quaisquer obrigações que para o mutuário resultem do contrato de mútuo com fiança. Mais
declaro que a presente garantia tem o conteúdo e o âmbito legal de uma fiança solidária, incluindo
assunção das obrigações do afiançado. Para efeitos meramente fiscais, arbitra-se á presente fiança, o
valor de € 100,000$00" - não identifica a dívida garantida, nem o tempo de vinculação.
25. Estas exigências compreendem-se e justificam-se pelo propósito de evitar a precipitação do fiador
e alertá-lo para a gravidade do acto.
26. A referida proposta não traduz, portanto, uma declaração expressa de prestar determinada fiança
e, por isso, deve considerar-se nula (artigos 280°- e 2952 do Código Civil).
27. Consequentemente, deve a acção improceder quanto ao recorrente.
28. Foi expressamente violados os artigos 871º do C.C., 627 n° 1 e 634°- ambos do Código Civil, para
alem de outros normativos legais … “
Termina por pedir seja concedido provimento à apelação, com as demais consequências legais.
Foram apresentadas contra alegações nas quais se pugna pela bondade da decisão proferida.
Mostram-se colhidos os vistos dos Exmºs Juízes Adjuntos pelo que importa apreciar e decidir.

THEMA DECIDENDUM
A delimitação objectiva do recurso é feita pelas conclusões das alegações dos recorrentes, não
podendo este Tribunal decidir sobre matérias nelas não incluídas, a não ser que as mesmas sejam do
conhecimento oficioso, art. 684 nº3 e 690 nº1 e 3.
As questões que estão subjacentes no âmbito de apreciação do presente recurso traduzem-se no que
concerne ao Agravo:
a) Realização de audiência de discussão e julgamento tendo havido previamente renúncia de
mandato sem que tenha decorrido o prazo para possibilidade de concretização de constituição de
novo mandatário;
b) Falta de interpelação do fiador e nulidade do contrato de fiança.

DOS FACTOS E DO DIREITO
Para melhor facilidade expositiva e de compreensão do objecto do presente recurso vamos passar a
reproduzir em nota de rodapé a factualidade considerada assente e provada sobre a qual se
estruturou a decisão proferida relativamente ao recurso de Apelação que é do seguinte teor:[1]

No que tange à factualidade respeitante ao recurso de Agravo cabe referir que se encontra provada
com relevância para a decisão a seguinte factualidade que passamos a enumerar:
A Mandatária do Réu B………….. requereu por via FAX ao Tribunal em 22/01/2009 o adiamento da
audiência de julgamento agendada para o dia 29 de Janeiro de 2009, por ter à mesma hora e dia uma
Assembleia de Credores no âmbito de um processo de insolvência no qual havia sido nomeada
Administradora de Insolvência, não tendo todavia contrariamente ao alegado anexado ao referido
requerimento cópia do anúncio do Diário da Republica, tendo o mesmo documento dado entrada no
dia 23 de Janeiro 2009.
No mesmo requerimento, atenta a impossibilidade de substituição e falta na mencionada diligência de
insolvência, dá conhecimento que obteve da parte contrária o acordo nas datas que indicava de 10 de
Fevereiro de 2009 e 18 de Fevereiro 2009.
Com novo Fax datado de 27 de Janeiro de 2009 deu entrada de requerimento no qual renunciava ao
Mandato conferido pelo Réu Recorrente.
Em 28 de Janeiro dão entrada os documentos originais do Faxes aludidos – Cfr. 225 e 226.
A Mmª Juiz, em acta de audiência de fls. 226-A e 226-B efectuada em 29 de Janeiro pelas 9.30 horas
proferiu o seguinte despacho
“Atento o teor do Fax de fls., cumpra o disposto no artigo 39º do C.P.C. Notifique.”
O mencionado despacho foi de imediato notificado à mandatária do Autor, prosseguindo a audiência
de discussão e julgamento com inquirição das testemunhas tendo sido encerrada conforme se
verifica da mencionada acta pelas 11.05 horas sendo indicado o dia 5 de Fevereiro pelas 15 horas
para leitura da decisão.
No mesmo dia 29 de Janeiro pelas 15.29 horas deu entrada um Fax remetido pelo R/ Recorrente no
qual informa que tomou conhecimento na data de 28/1/2009 da renuncia do mandato e solicitando
prazo para constituir novo mandatário no processo juntando cópia da aludida renuncia por parte da
mandatária bem como do B.I.
Com data de 4 de Fevereiro foi aberta conclusão dos autos com informação de que o pedido de
constituição de mandatário pelo réu foi enviado já após a realização da audiência de discussão e
julgamento.
Na sequência do mesmo foi então proferido despacho nos seguintes termos:
Uma vez que a audiência de discussão de julgamento já ocorreu e o próprio requerimento de fls. 227
pp, conforme do seu teor se alcança, foi enviado posteriormente à sua realização, que estava
agendada para as 09h30m do dia 29 de Fevereiro de 2009,tendo o respectivo fax sido enviado pelas
15h29m do mesmo dia, o requerido é manifestamente extemporâneo, pelo que se indefere.”
Esta a factualidade que importa reter para a decisão
Vejamos.
Antes de mais e uma vez que o Réu interpôs tempestivamente recurso de Agravo interlocutório
importa ex vi artigo 710º nº 1 e nº2 apreciar o seu regime em que se dispõe “a apelação e os agravos
que com ela tenham subido são julgados pela ordem da sua interposição mas os agravos interpostos
pelo apelado, que interessem à decisão da causa só são apreciados se a sentença não for
confirmada.”
No seu nº 2 fixa-se que “os agravos só são providos quando a infracção cometida tenha influído no
exame ou decisão da causa ou quando, independentemente da decisão do litigio, o provimento tenha
interesse para o agravante.”
Como escreveu A. dos Reis in Cód. Proc. Civil Anotado Vol. V pág. 465 “ De modo geral pode
estabelecer-se a doutrina seguinte: em principio a Relação só deve conhecer dos agravos interpostos
pelo apelante, porque em regra os interpostos pelo apelado não têm interesse nem utilidade… “
O artigo 39º sob a epígrafe Revogação c renúncia do mandato dispõe:
1. A revogação e a renúncia do mandato devem ter lugar no próprio processo e são notificadas, tanto
ao mandatário ou ao mandante, como à parte contrária.
2. Os efeitos da revogação e da renúncia produzem-se a partir da notificação, sem prejuízo do
disposto nos números seguintes; a renúncia é pessoalmente notificada ao mandante, com a
advertência dos efeitos previstos no nº 3.
3. Nos casos em que é obrigatória a constituição de advogado, se a parte, depois de notificada da
renúncia, não constituir novo mandatário no prazo de vinte dias, suspende-se a instância se a falta
for do autor; se for do réu, o processo segue os seus termos, aproveitando-se os actos anteriormente
praticados pelo advogado.
São, de especial interesse para o caso em apreciação, os efeitos da renúncia ao mandato importando
distinguir consoante o processo exige ou não a constituição de advogado.
Se se trata de causa em que não é obrigatória a constituição de advogado, a renúncia (tal como a
revogação) produz os seus efeitos a partir da notificação, seguindo o processo os seus termos
normais, com a parte a pleitear por si.
Se, pelo contrário, se trata de processo em que é obrigatória a constituição de advogado, a parte não
pode revogar o mandato sem constituir novo advogado e a renúncia não produz os seus efeitos
próprios no prazo máximo de 20 dias, contados da notificação: até ao termo do referido prazo de
vintes dias, o mandatário renunciante terá de prosseguir com o patrocínio do seu constituinte, se este
entretanto não constituir novo mandatário.
Findo esse prazo, se a falta for do autor, suspende-se a instância, e se for do réu, o processo segue
os seus termos, à revelia deste, aproveitando-se, porém, os actos anteriormente praticados pelo
advogado enquanto durou o mandato.
O art 39º é aplicável qualquer que tenha sido a forma usada para conferir o mandato judicial, dentre
as referidas pelos arts. 35º e 36º.
Ora na situação dos autos verifica-se que a Mandatária do Réu antes da realização da audiência de
julgamento ou seja 6 dias antes no dia 22 mas com entrada no dia 23 de Janeiro de 2009 apresentou
um requerimento em que solicitava o adiamento da mesma tendo inclusive para o efeito obtido a
aquiescência do Mandatário do Autor e para o efeito inclusive apresentado datas substitutivas
designadamente os dias 10 de Fevereiro e 18 de Fevereiro do mesmo ano de 2009 pelas 10 horas.
O que é facto igualmente assente é que não tendo recebido qualquer resposta do Tribunal nos dias
subsequentes no dia 27 do mesmo mês veio requerer a renuncia do mandato e o imediato
cumprimento do disposto no artigo 39º.
Na audiência a que se procedeu e perante a renuncia operada e referenciada do Fax foi ordenado o
cumprimento do aludido dispositivo legal tendo prosseguido a audiência sem que o requerimento
formulado no sentido do seu adiamento tenha sido objecto de qualquer decisão ou melhor perante a
realização do acto tem de se considerar como não atendido ainda que formalmente inexista qualquer
despacho nesse sentido.
O Réu por sua vez tendo tido conhecimento da renuncia do mandato no dia anterior formulou
requerimento no sentido de se suspender o prazo por forma a constituir novo mandatário o que a lei
lhe confere como direito nos termos do mencionado dispositivo e seu nº 2.
Ora, porque a aludida produção de prova testemunhal ocorreu sem a presença do mandatário do réu,
pergunta-se, então, se é de anular todo o processado após o requerimento da renúncia ao mandato.
Ou seja, será que o Mmº Juiz a quo, antes da realização da audiência de julgamento, tinha que dar
despacho a dar sem efeito a mesma, a fim de serem previamente notificados os mandatários dos réus
da renúncia do seu mandatário?
No caso ainda que a questão já tenha sido objecto de diversas apreciações contraditórias afigura-se-
nos que haveria motivo para a audiência de discussão e julgamento não se realizar naquele momento
sem que tivesse sido ordenada a notificação para a constituição de novo mandatário mas sobretudo
porque igualmente se deveria suspender o prazo para que fosse possível ao réu constituir novo
mandatário.
É certo que da redacção do art. 39º poderá resultar que o mandatário que vem aos autos renunciar ao
mandato judicial, não fica desonerado das obrigações decorrentes do seu cargo a partir do momento
em que manifestou a vontade de renunciar.
Efectivamente - como vimos supra--, sendo obrigatória a constituição de advogado, a renúncia só
produz efeitos depois de ter sido constituído novo advogado por banda do mandante-- já não sendo
obrigatória a constituição de advogado, só com a junção da notificação do mandante é que a
renúncia produz efeitos.

No caso sendo obrigatória a constituição de advogado, só depois de o réu ter constituído novo
advogado ficava o mandatário/renunciante desonerado das suas obrigações decorrentes do seu
cargo, ou decorridos 20 dias sobre aquela notificação sem que a constituição de novo advogado
ocorresse.
O mesmo é dizer que à data da audiência de julgamento o advogado renunciante ainda era o
mandatário do réu.
Porém o que se alcança do mesmo normativo é que as notificações legais a operar por força de tal
disposição são a nosso ver e em contrario de outro entendimento não só no interesse do mandatário
para que se desobrigue do seu mandato mas também necessariamente no interesse do mandante de
molde a inclusive com cominação e prazo estipulado conferir novo mandato.
Na redacção deste preceito anterior à reforma, os efeitos da renúncia ao mandato só se produziam,
nos casos em que fosse obrigatória a constituição de advogado, "depois de constituído novo
mandatário", podendo o mandatário renunciante, se a parte se demorasse a constituir novo
mandatário, requerer que se lhe fixasse prazo para esse fim.
Nesse regime, não havia, em princípio, interrupção da assistência à parte por advogado, pelo que não
havia justificação para interrupção ou suspensão dos prazos processuais que estivessem a correr.
Se o mandatário renunciante, no período em que a renúncia ainda não era eficaz, negligenciasse a
defesa dos interesses do seu (ainda) mandante, poderia ser civilmente responsabilizado por essa
conduta, mas dela não poderia derivar a postergação de normas legais que fixam prazos
peremptórios.
O regime actual é diferente como supra ficou ilustrado: a renúncia produz efeitos a partir da sua
notificação ao mandante e é a lei que fixa logo o prazo (de 20 dias, a contar dessa notificação) para a
parte constituir novo mandatário.
Não sendo plausível que a parte consiga normalmente constituir novo mandatário no próprio dia em
que receber a notificação da renúncia do mandatário anterior, a regra passará a ser a de que, por
algum tempo, a parte fique desprovida de assistência por advogado.
É certo que a lei não diz expressamente que tal acarreta a suspensão ou interrupção dos prazos
processuais que estejam a correr, designadamente para a interposição de recursos ou apresentação
de alegações, ou a realização de actos como no caso a audiência de discussão e julgamento, mas a
proibição da não defesa, ínsita no princípio do Estado de Direito, e o direito ao patrocínio judiciário,
constitucionalmente consagrados, não permite que se tolere a perda irreparável de direitos sem base
em qualquer conduta processual negligente da parte, e sendo certo que a lei lhe consente o prazo de
20 dias para constituir novo mandatário.[2]
Perante o quadro factual em causa o referido acórdão considerou que a situação em que o novo
mandatário se viu colocado integrava justo impedimento à prática do acto (apresentação das
alegações) dentro do prazo normal, que devia ser prorrogado por mais 20 dias.
No caso, note-se que o próprio Réu, ainda no mesmo dia de audiência de discussão e julgamento é
certo já depois da hora designada para o seu inicio, solicitou prazo para a constituição de novo
mandatário e a suspensão da instancia pelo tempo necessário e suficiente a tal acto, o que
certamente diga-se igualmente teria feito se o Tribunal no prazo razoável o tivesse notificado desde
logo do indeferimento do adiamento audiência pelo motivo indicado pela sua Mandatária e face ao
impedimento pessoal o que se não verificou porque o processo não foi apresentado ao Magistrado
para o efeito – logo por facto que lhe não pode ser imputado – e de novo igualmente ainda que aí com
menor prazo pelo menos 48 horas antes da data de audiência designada.
Isto é em diligência normal procurou obstar a que a audiência pelos motivos indicados e apesar de já
haver tido lugar um adiamento, se fizesse com a presença de um causídico a representá-lo o que se
não concretizou.
Pode perguntar-se porém: não tendo comparecido, será que se não garantiu “a plenitude do princípio
do contraditório e a audição da prova testemunhal em plenitude”, como sustenta o apelante?
O direito ao contraditório - que é, em si mesmo, uma decorrência do princípio da igualdade das partes
estabelecido no art. 3º-A - possui um conteúdo multifacetado: ele atribui à parte não só o direito ao
conhecimento de que contra ela foi proposta uma acção ou requerida uma providência e, portanto,
um direito à audição antes de ser tomada qualquer decisão, mas também um direito a conhecer todas
as condutas assumidas pela contraparte e a tomar posição sobre elas, ou seja, um direito de
resposta.

Efectivamente, o contraditório não pode ser exercido e o direito de resposta não pode ser efectivado
se a parte não tiver conhecimento da conduta processual da contraparte.
De especial relevância é este direito de resposta.
O direito de resposta consiste na faculdade, concedida a qualquer das partes, de responder a um acto
processual (articulado, requerimento, alegação ou acto probatório) da contraparte. Este direito tem
expressão legal, por exemplo, no princípio da audiência contraditória das provas constantes do art.
517º.
O art 3º nº3 1ª parte, impõe, de facto, ao juiz, de modo programático, o dever de observar e fazer
cumprir, ao longo de todo o processo, o princípio do contraditório.
A violação do contraditório inclui-se na cláusula geral sobre as nulidades processuais constante do
art. 201º, nº1, do CPC: dada a importância do contraditório, é inquestionável que a sua inobservância
pelo tribunal é susceptível de influir no exame ou decisão da causa.
É certo que, não obstante a renúncia ao mandato, o advogado do réu continuava onerado com as
obrigações decorrentes do mandato. O que significa que à data da audiência de produção de prova -
maxime testemunhal - continuava a ser o advogado do réu e, como tal, com a obrigação de
comparecer à audiência de julgamento para defesa do seu constituinte.
Porém, não tendo comparecido à aludida audiência, não cremos que se possa dizer que o tribunal
não defendeu - seguramente que o fez - os interesses do réu da mesma forma que o interesse do
Autor, todavia temos de reconhecer que perante as vicissitudes de uma audiência de discussão e
julgamento e apesar do papel que incumbe ao Magistrado no seu dever de função, o que é certo é que
se a lei por alguma razão determina a comparência obrigatória de mandatário em determinados casos
e este é um deles, sempre tem de se considerar como justificativo de tal, entre a plêiade de interesses
subjacentes na discussão dos litígios, como necessária a presença de um representante
especialmente munido de conhecimentos profissionais para o efeito, por forma a que fiquem
salvaguardados e sobretudo numa posição de igualdade com a parte contrária os mesmos, e
sobretudo possa assumir no desempenho do munus que lhe cabe, o contraditório cabal e
integralmente o que pode pelo menos em representação ter sido colocado em causa – ao Magistrado
Judicial necessária e indubitavelmente que não cabe tal tarefa ou desempenho de substituição
daquela outra parte.
Cremos, assim, que de forma alguma foi violado o princípio do contraditório.

É que o mandatário do réu - não obstante a renúncia ao mandato, continuar onerado com as
obrigações que dele resultavam - e ter conhecimento da data da audiência de julgamento se não
compareceu à audiência de julgamento não foi porque não quis - pois fez chegar aos autos a razão
impeditiva para tal e que era justificável e comunicou aliás previamente o acordo da outra parte na
substituição da sua realização.
In casu ainda que não houvesse motivo legal para o adiamento sempre haveria para a suspensão da
instancia pelo tempo necessário a ser conferido à parte para a constituição de novo mandatário por
forma a que pudesse na sua defesa ter causídico a representa-lo não havia motivo legal para tal
adiamento.
Cabe ainda dizer por último que na anterior audiência de discussão e julgamento a mesma não se
realizou não pela falta de quem quer que fosse, mas sim porque, conforme consta da acta de de fls.
217 e 218 foi proferido o seguinte despacho:
“ Face às posições assumidas por ambas as partes a peça apresentada pela autora, qu importa
analisar também por parte do tribunal, o que inviabiliza a realização da audiência de julgamento de
imediato, impõe-se o seu adiamento, que se designa para o próximo dia 29 de Janeiro de 2009, pelas
9.30 horas”
Efectivamente, a audiência só é adiada no casos previstos no art 651º, nº1.
No que tange à falta dos advogados, regem as alíneas c) e d).
Assim, o adiamento só tem lugar por falta do advogado caso o juiz não tenha designado a data da
audiência por acordo das partes – cfr. art 155º e no caso de o advogado faltoso comunicar a
impossibilidade de comparecer, nos termos do nº 5 do art. 155º o que aliás foi inicialmente feito com a
antecedência referida.
Perante o que vem de ser exposto necessariamente temos de concluir que colhe razão e fundamento
o recurso do Apelante/Agravante relativamente à realização da audiência de discussão e julgamento
sem a presença do causídico até então constituído sem a concessão de prazo para a constituição de
novo Mandatário, face a operância da renuncia do anteriormente constituído e não presente ao acto
com motivação invocada e impediente da sua presença.
Face à procedência do interposto recurso de agravo que determina a consequente anulação dos
actos subsequentes ao despacho que determinou a realização da audiência de discussão e
julgamento sem que fosse permitido ao Réu a constituição de novo mandatário fica prejudicado o
conhecimento do recurso de Apelação da decisão proferida.

DELIBERAÇÃO
Nestes termos em face do exposto concedendo provimento ao interposto recurso de Agravo revoga-
se a decisão implícita que ordenou o prosseguimento do processo com a realização de audiência de
discussão e julgamento, sem aguardar nem conceder prazo ao Réu para constituir novo mandatário
nos termos do artigo 39º nº 2 devendo proceder-se nessa conformidade e agora perante novo
mandatário já constituído designar novo dia para a sua realização.
Custas pelo vencido a final.

Porto, 4 de Maio de 2010
Augusto José B. Marques de Castilho
Henrique Luís de Brito Araújo
José Manuel Cabrita Vieira e Cunha
___________
[1] 1. O autor, no exercício da então sua actividade comercial, e com destino, segundo informação
então prestada pela sociedade ré, à aquisição de um veículo automóvel da marca HYUNDAI, modelo
H1 2.5 TD, com a matricula ..-..-SL, por contrato constante de título particular datado de 19 de Outubro
de 2001, junto aos autos como documento nº 1, concedeu à dita sociedade ré crédito directo, sob
forma de um contrato de mútuo, tendo assim emprestado à dita ré a importância de Esc. 3.300.000$00
- Euros 16.460,33.
2. Nos termos do contrato assim celebrado entre o autor e a referida sociedade ré, aquela emprestou
a esta a dita importância de Euros 16.460,33, com juros à taxa nominal de 16,43% ao ano, devendo a
importância do empréstimo, e os juros referidos, bem como o prémio de seguro de vida, serem
pagos, na sede do autor, nos termos acordados, em 72 prestações, mensais e sucessivas, com
vencimento a primeira em 10 de Novembro de 2001 e as seguintes nos dias 10 dos meses
subsequentes.
3. De harmonia com o acordado entre as partes - cfr doc. nº 2 -, a importância de cada uma das
referidas prestações deveria ser paga - conforme ordem irrevogável logo dada pela referida
sociedade ré para o seu Banco - mediante transferências bancárias a efectuar, aquando do
vencimento de cada uma das referidas prestações, para conta bancária sediada em Lisboa logo
indicada pelo ora autor.
4. Conforme também expressamente acordado, a falta de pagamento de qualquer das referidas
prestações na data do respectivo vencimento implicava o vencimento imediato de todas as demais
prestações.
5. Mais foi acordado entre o autor e a referida sociedade ré que em caso de mora sobre o montante
em débito, a título de cláusula penal, acrescia uma indemnização correspondente à taxa de juro
contratual ajustada – 16,43% - acrescida de 4 pontos percentuais, ou seja, um juro à taxa anual de
20,43%.
6. A referida sociedade ré, das prestações referidas, não pagou a 53ª e seguintes, com vencimento a
primeira em 10 de Março de 2006, vencendo-se então todas.
7. A referida sociedade ré não providenciou às transferências bancárias referidas - que não foram
feitas - para pagamento das ditas prestações, nem a referida sociedade ré, ou quem quer que fosse
por ela, as pagou ao autor.
8. Conforme expressamente consta do referido contrato, o valor de cada prestação era de Euros
352,42.
9. O total das prestações em débito pela referida sociedade ré ao autor ascende a Euros 7.048,40,
quantitativo este a que acrescem os juros - incluindo já a cláusula penal referida - que sobre ela se
vencerem à referida taxa de 20,43% ao ano, desde a data do vencimento referida, ou seja desde 10 de
Março de 2006, até integral e efectivo pagamento.
10. Estes juros vencidos até à instauração da presente acção ascendem já a Euros 986,29.
11. Sobre os juros referidos incide imposto de selo, à taxa de 4% ao ano.
12. Este imposto de selo, sobre os juros referidos no anterior artigo 13º, ascende já a Euros 39,45
sendo, atento o referido, da responsabilidade da dita sociedade ré..
13. O réu B………….. subscreveu o documento nº 3 junto à petição inicial, que aqui se dá por
integralmente reproduzido, intitulado “Termo de Fiança”, do qual consta como mutuário a 1ª ré,
C…………, e que declara “…que me constituo perante e para com o D…………, fiador…fls14”.
14. O documento nº 2 junto à petição inicial tem a data de 10.10.2001.
15. Quem figura como tendo assinado o contrato de mútuo foram os senhores F……….. e B………….
sobre um carimbo da 1ª ré com a menção “a gerência”.
16. O documento nº 2, que foi assinado em data anterior ao documento nº 1, indica um número de
contrato de mútuo que não corresponde ao alegado contrato de mútuo com data de assinatura de 19
de Outubro de 2001, uma vez que neste, não consta qualquer número identificativo.
17. O réu B…………., em 17 de Julho de dois mil e três cedeu a quota que detinha na sociedade
C…………. ao senhor G…………., tendo na mesma data renunciado à gerência.
18. Foram realizadas as necessárias alterações, constantes do contrato de sociedade.
19. Toda restante informação constante do referido documento nº 2 junto à PI corresponde à conta da
sociedade ré, ao valor das prestações do contrato dos autos, bem como às respectivas datas de
vencimento, tendo sido aliás com base no referido documento que a sociedade ré pagou dezanove
das prestações do contrato dos autos.
20. O autor interpelou o réu, através de carta registada com aviso de recepção - que veio devolvida
com indicação de “não reclamada” - datada de 12 de Setembro de 2006 – através da qual lhe dava
conhecimento da carta enviada à sociedade ré e alertando para o facto de ir intentar uma acção
judicial contra ambos os ora réus.
21. A morada para a qual foi enviada a dita carta é a morada indicada pelo réu como sendo a sua
aquando da celebração do contrato dos autos.
22. Consta expressamente do termo de fiança dos autos, após a identificação do réu e da sociedade
co-ré como mutuária, a declaração do réu no sentido de que: “Declaro que me constituo se perante e
para com o D……….., fiador de todas e quaisquer obrigações que para o Mutuário, resultem do
contrato de mútuo com fiança. Mais declaro que a presente garantia tem o conteúdo e o âmbito legal
de uma fiança solidária, incluindo a assunção das obrigações do afiançado. Para efeitos meramente
fiscais, arbitra-se a presente, o valor de Esc. 100.000$00.”
[2] Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 13 de Julho de 2000, processo n.º 1885/00 (texto
integral em http://www.dgsi.pt/jstj, documento n.º SJ20000713018852), proferido já na vigência da
nova redacção do artigo 39.º do Código de Processo Civil








Acórdãos TRL Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa
Processo: 939/2007-8


Relator: PEDRO LIMA GONÇALVES
Descritores: INJUNÇÃO
CONTRADITÓRIO
EXCEPÇÕES

Nº do Documento: RL
Data do Acordão: 12/04/2007
Votação: UNANIMIDADE
Texto Integral: S

Meio Processual: AGRAVO
Decisão: CONCEDIDO PROVIMENTO

Sumário: No caso de em processo de injunção ser deduzida oposição com fundamento na
ineptidão do requerimento inicial, remetido que seja o processo para o tribunal
competente, não pode este Tribunal apreciar a aludida excepção sem
possibilitar o exercício do contraditório (artigo 3.º do Código de Processo Civil),
ou seja, impõe-se-lhe aguardar que o autor se possa pronunciar sobre a
contestação cujo duplicado lhe deve ser remetido simultaneamente com a
notificação da data da audiência de julgamento (artigos 1.º/4 e 17.º/1 do anexo
ao Decreto-Lei n.º 269/98, de 1 de Setembro); isto significa que o alcance do
disposto no artigo 3.º/1 do DL 269/98 se restringe na medida em que a decisão
de o juiz julgar logo procedente alguma excepção dilatória ou nulidade de que
lhe cumpra conhecer fica condicionada ao exercício do contraditório,
constituindo esta uma das “ necessárias adaptações” do processado a que alude
o artigo 17.º/1 do DL 269/98.

(SC)

Decisão Texto Integral: Acordam no Tribunal da Relação de Lisboa:

I. Relatório

1. TMN – Telecomunicações Móveis Nacionais, S.A. apresentou requerimento
de injunção, em 30/12/05, contra R.*…+ Lda., pretendendo receber a quantia
total de €11.881,63 relativa a “fornecimento de bens ou serviços”.

2. Notificada, a requerida veio deduzir oposição, invocando a excepção dilatória
de ineptidão do requerimento de injunção, por falta de causa de pedir, pelo que
todo o processado era nulo, e devia a requerida ser absolvida da instância.

3. Em consequência da oposição, os autos foram remetidos à distribuição pelos
Juízos Cíveis de Lisboa.

4. Conclusos os autos, a Sra. Juíza do *…+ Juízo Cível *…+ declarou o requerimento
inicial inepto, por falta de indicação da causa de pedir, pelo que anulou todo o
processo e absolveu a requerida da instância.

5. Inconformada com esta decisão, a A. interpôs recurso, que foi recebido como
de agravo, a subir imediatamente, nos próprios autos e com efeito suspensivo,
tendo, nas suas alegações de recurso, apresentado as seguintes (transcritas)
conclusões:

1ª. -– A contestação apresentada nos autos, deveria ter sido notificada a
Apelada atenta a invocação de uma nulidade.
2ª. - Após a distribuição da presente acção a mesma segue a forma de processo
sumário, pelo que, é aplicável o disposto no art. 785º do CPC., podendo a
Apelante responder quer às excepções quer às nulidades invocadas.
3ª. - A nulidade invocada apesar de ser de conhecimento oficioso, foi invocada
em sede de contestação e não poderia ser decidida pelo Tribunal sem a
audiência da parte contrária.
4ª. - Ao decidir como decidiu a douta sentença violou o disposto no art. 207º do
CPC.
5ª. - O requerimento de injunção encontra-se condicionado em termos de forma
e de caracteres, não se permitindo que sejam juntos quaisquer documentos
aquando da sua entrada, o que não pode penalizar a Apelante por não ser da
sua responsabilidade.
6ª. - Os elementos constantes do requerimento de injunção, nomeadamente o
número do contrato, a data da sua celebração e a identificação das facturas
peticionadas (número, data de emissão e data de vencimento e valor) são
elementos suficientes atento o tipo de acção simplificada que é a injunção para
identificar a causa de pedir.
7ª. - A sentença caracteriza não uma causa de pedir inexistente, mas outrossim
uma eventual petição deficiente que poderia ser corrigida, pois como resulta da
própria sentença, o que se considera inepto poderia ter sido corrigido com uma
junção de documentos nomeadamente das facturas em dívida e que são
correctamente identificadas e peticionadas e do próprio contrato celebrado.
8ª. - A ser inepta a petição, não poderia a sentença vir dizer que tal vício poderia
ter sido corrigido por documentos que remetessem para essa causa de pedir,
uma vez que o art. 193º nº2 al.A) estabelece a ininteligência ou falta absoluta de
causa de pedir que não se verifica.
9ª. - As regras da injunção no que concerne à utilização do procedimento de
injunção não podem prejudicar a parte que utiliza este procedimento,
nomeadamente pela impossibilidade imediata de junção de documentos.
10ª. - A douta sentença recorrida violou o disposto nos arts. 193º nº2 al.A), 207º
e 785º do CPC.

Conclui pela procedência do recurso, anulando-se a “sentença proferida,
ordenando-se o prosseguimento dos autos com a notificação da Apelante da
contestação deduzida para se pronunciar acerca da nulidade invocada
prosseguindo os ulteriores termos”
6. A recorrida não contra – alegou.
6. Foi proferido despacho de sustentação.
7. Efectuado exame preliminar e colhidos os vistos legais, cumpre apreciar e
decidir.


II - Delimitação do objecto do recurso
Conforme resulta do disposto nos artigos 684º, nº 3, e 690º, nºs 1 e 2, ambos do
Código de Processo Civil, o âmbito de intervenção do tribunal ad quem é
delimitado em função do teor das conclusões com que o recorrente remata a
sua alegação (aí indicando, de forma sintética, os fundamentos por que pede a
alteração ou anulação da decisão recorrida), só sendo lícito ao tribunal de
recurso apreciar as questões desse modo sintetizadas, sem prejuízo das que
importe conhecer oficiosamente.
Dentro dos preditos parâmetros, emerge das conclusões das alegações de
recurso apresentadas que o objecto do presente recurso está circunscrito às
seguintes questões:
- verificação de nulidade por falta de notificação à recorrente da oposição
deduzida e de o Tribunal proferir decisão sem audiência da parte contrária;
- e, no caso de se não verificar a nulidade atrás referida, a existência da
ineptidão do requerimento inicial por falta de indicação da causa de pedir

III. Fundamentação
1. Do contexto processual relevante:
1.1. A A. apresentou requerimento de injunção, em 30/12/05, pretendendo
receber da R. a quantia total de €11.881,63 relativa a “fornecimento de bens ou
serviços”.
1.2. Notificada, a R. veio deduzir oposição, arguindo a ineptidão do
requerimento de injunção, por falta de causa de pedir, concluindo pela sua
absolvição da instância.
1. 3. Em consequência da oposição, os autos foram remetidos à distribuição
pelos Juízos Cíveis de Lisboa.
1. 4. Conclusos os autos, a Sra. Juíza do *…+ Juízo Cível *…+ proferiu a seguinte
decisão: “TMN – Telecomunicações Móveis Nacionais, S.A., requereu o
procedimento especial de injunção, ao abrigo do disposto no Decreto-Lei n.º
32/2003, de 17 de Fevereiro, contra R.*…+ Lda., indicando apenas como causa de
pedir o fornecimento de bens ou serviços, a data de contrato e os números,
datas e valores de facturas.
A requerida opôs-se, invocando, entre o mais, a ineptidão do requerimento
inicial.
Para além de não identificar qual o contrato concretamente celebrado, também
a requerente não alegou, ainda que sinteticamente, o que foi fornecido, e
quando foi feita a entrega ou prestado o serviço, nem juntou qualquer
documento de onde, ainda que por remissão (incorrecta em termos de
alegação), se pudesse concluir tais factos.
Daí que seja razoável desconhecer-se o fornecimento ou serviço a que a
requerente pretende fazer referência, faltando, em absoluto, os factos que
suportam a sua pretensão.
Estabelece o art.º 193º, n.º 2, al. a), do Código de Processo Civil, que é inepta a
petição inicial quando falta a indicação da causa de pedir.
É nulo todo o processo quando for inepta a petição inicial (art.º 193º, n.º 1, do
Código de Processo Civil).
Esta nulidade é de conhecimento oficioso e deve ser conhecida até ao despacho
saneador ou até à sentença final (art.ºs 202º e 206º, n.º 2, do Código de
Processo Civil).
A nulidade de todo o processo implica a absolvição do réu da instância (art.º
288º, n.º 1, al. b), do Código de Processo Civil).
Em face do exposto, declaro o requerimento inicial inepto, anulo todo o
processo e absolvo a requerida da instância.
Custas pela requerente (art.º 446º, n.ºs 1 e 2, do Código de Processo Civil).
Registe e notifique”



2. Apreciação do mérito do agravo.
2.1. A nulidade de falta de notificação da resposta à A. e de audiência da parte
contrária antes do Tribunal proferir decisão.

Preceitua o artigo 7º do Regime dos Procedimentos a que se refere o artigo 1º
do Decreto – Lei nº269/98, de 1 de Setembro que: “considera-se injunção a
providência que tem por fim conferir força executiva a requerimento destinado
a exigir o cumprimento das obrigações a que se refere o artigo 1º do diploma
preambular, ou das obrigações emergentes de transacções comerciais
abrangidas pelo Decreto – Lei nº32/2003, de 17 de Fevereiro.”

Por sua vez, o artigo 3º do Decreto – Lei nº32/2003, de 17 de Fevereiro refere
que se entende por transacção comercial – qualquer transacção entre empresas
ou entre empresas ou entre empresas e entidades públicas, qualquer que seja a
respectiva natureza, forma ou designação, que dê origem ao fornecimento de
mercadorias ou à prestação de serviços contra uma remuneração.”

Em matéria cível, a alçada dos tribunais da Relação é de €14.963,94 e a dos
tribunais de 1ª instância é de €3.740,98 (nº1 do artigo 24 da Lei nº3/99, de 13
de Janeiro (LOFTJ).

Ora, no caso presente, a requerente reclama uma dívida de €11.881,63 e por
“fornecimento de bens ou serviços”, estando, assim, reclamada quantia superior
à alçada do Tribunal de 1ª instância mas inferior à alçada da Relação.

Havendo oposição da requerida, não é possível a aposição da fórmula
executória e, consequentemente os autos devem ser remetidos à distribuição
(artigos 14º, nº1e 16º, nº1, do referido anexo e artigo 7º do Decreto – Lei
nº32/2003, de 17 de Fevereiro).

Assim, ocorreu nestes autos, tendo sido remetidos para distribuição ao Tribunal
competente.

Prescreve o nº2 do artigo 7º do Decreto – Lei nº32/2003 que: “Para valores
superiores à alçada da Relação, a dedução de oposição e a frustração da
notificação no procedimento de injunção determinam a remessa dos autos para
o tribunal competente, aplicando-se a forma de processo comum.”
E no nº4 desta disposição legal, preceitua-se que: “As acções destinadas a exigir
o cumprimento das obrigações pecuniárias emergentes de transacções
comerciais, nos termos previstos no presente diploma, de valor não superior à
alçada da Relação seguem os termos da acção declarativa especial para
cumprimento de obrigações pecuniárias emergentes de contratos” (redacção
introduzida pelo artigo 5º do Decreto – Lei nº107/2005, de 1 de Julho).
E este último diploma entrou em vigor em 15 de Setembro de 2005. (cfr. artigo
8º do mesmo diploma)

Desta disposição legal – que se encontrava em vigor aquando da apresentação
do requerimento de injunção - resulta que, havendo oposição (como no caso
dos autos) e tendo presente o valor do pedido (€11.881,63) – inferior à alçada
da Relação -, a acção deve seguir os termos da acção declarativa especial para
cumprimento de obrigações pecuniárias emergentes de contratos.

Nos termos do nº4 do artigo 1º do Regime dos Procedimentos a que se refere o
artigo 1º do Decreto – Lei nº269/98, de 1 de Setembro “O duplicado da
contestação será remetido ao autor simultaneamente com a notificação da data
da audiência de julgamento.”
Por outro lado, refere o nº1 do artigo 3º do mesmo diploma que: “Se a acção
tiver de prosseguir, pode o juiz julgar logo procedente alguma excepção dilatória
ou nulidade que lhe cumpra conhecer ou decidir do mérito da causa.”

Assim, tendo em consideração as disposições legais citadas, e tendo presente o
caso dos autos:
- havendo oposição ao requerimento de injunção, os autos devem ser remetidos
à distribuição pelo Tribunal competente;
- e sendo o valor do pedido superior à alçada do Tribunal de 1ª instância mas
inferior à alçada do Tribunal da Relação, as acções seguem os termos da acção
declarativa especial para cumprimento de obrigações pecuniárias emergentes
de contratos;
- e, nestas, a notificação da contestação é feita em simultâneo com a notificação
da data da audiência de julgamento;
- e pode o juiz julgar logo procedente alguma excepção dilatória ou nulidade
que lhe cumpra conhecer ou decidir do mérito da causa.

Desta forma, e em primeiro lugar, importa referir que é inaplicável o disposto no
artigo 785º do Código de Processo Civil como pretende a recorrente nas suas
conclusões de recurso, porquanto a forma de processo sumário nunca será
seguida.
- A recorrente ainda está a ter presente os diplomas legais com a sua redacção
anterior ao Decreto – Lei nº107/2005, de 1 de Julho e que, como se referiu
atrás, estas alterações entraram em vigor em 15 de Setembro de 2005 –

Por outro lado, nos termos do disposto no nº4 do artigo 1º do Regime dos
Procedimentos a que se refere o artigo 1º do Decreto – Lei nº269/98, de 1 de
Setembro, a contestação é notificada ao autor simultaneamente com a
notificação do data da audiência, o que significa que não existe, nesta acção
declarativa especial, mais do que dois articulados (petição inicial e contestação).
E, nos termos do disposto no nº1 do artigo 3º atrás citado, se a acção tiver de
prosseguir, pode o juiz julgar logo procedente alguma excepção dilatória ou
nulidade que cumpra conhecer ou decidir do mérito da causa.

Ora, perante estas disposições legais, podia a Sra. Juíza proferir decisão sobre a
ineptidão do requerimento inicial, por falta de causa de pedir, anulando todo o
processado e absolvendo a R. da instância sem audiência da A.? Ou esta omissão
de audição da A. importa a violação do princípio do contraditório, pelo que se
verificaria uma nulidade, como defende a A.?

Prescreve o artigo 3º do Código de Processo Civil, nos seus nºs3 e 4, que:
“3. O juiz deve observar e fazer cumprir, ao longo de todo o processo, o princípio
do contraditório, não lhe sendo lícito, salvo caso de manifesta desnecessidade,
decidir questões de direito ou de facto, mesmo que de conhecimento oficioso,
sem que as partes tenham tido a possibilidade de sobre elas se pronunciarem.
4. Às excepções deduzidas no último articulado admissível pode a parte
contrária responder na audiência preliminar ou, não havendo lugar a ela, no
início da audiência final.”

Por outro lado, preceitua o artigo 3º-A do Código de Processo Civil que:
“O tribunal deve assegurar, ao longo de todo o processo, um estatuto de
igualdade substancial das partes, designadamente no exercício de faculdades,
no uso de meios de defesa e na aplicação de cominações ou de sanções”.

No que respeita ao direito ao contraditório –“que é, em si mesmo, uma
decorrência do princípio da igualdade das partes estabelecido no artº3º-A –
possui um conteúdo multifacetado: ele atribui à parte não só o direito ao
conhecimento de que contra ela foi proposta uma acção e, portanto, um direito
à audição prévia antes de contra ela ser tomada qualquer decisão ou
providência, mas também um direito a conhecer todas as condutas assumidas
pela contraparte e a poder tomar posição sobre elas, ou seja, um direito de
resposta.
(…) O direito de resposta consiste na faculdade, concedida a qualquer das
partes, de responder a um acto processual (requerimento, alegação ou acto
probatório) da contraparte.”
(Miguel Teixeira de Sousa, in Estudos sobre o Novo Processo Civil, págs.46 e 47)

Por outro lado, o entendimento amplo da regra do contraditório, impõe ao juiz,
antes de proferir decisão, o dever de facultar às partes a invocação de razões
que julguem pertinentes perante uma eventual ocorrência de excepções
dilatórias, e, designadamente, o dever de facultar a uma das partes a
possibilidade de se pronunciar quando qualquer excepção for deduzida pela
outra parte.


Pronunciando-se sobre o atrás citado nº1 do artigo 3º do Regime dos
Procedimentos destinados a exigir o cumprimento de obrigações pecuniárias …,
Salvador da Costa afirma que: “Havendo contestação em que o réu deduza
alguma excepção susceptível de conduzir à sua absolvição da instância ou à
remessa do processo para outro tribunal, como pode acontecer nos casos de
dedução da excepção de incompetência do tribunal, tendo em conta o princípio
do contraditório que resulta dos nºs3 e 4 do artigo 3º do Código de Processo
Civil, não pode o juiz decidir nesta fase atípica de saneamento sem que o autor
seja notificado do instrumento de contestação a fim de se poder pronunciar
sobre ela.” (in A Injunção e as Conexas Acção e Execução, Processo Geral
Simplificado, 2001, pág.87).

Também, no artigo 207º do Código de Processo Civil se determina que: a
arguição de qualquer nulidade pode ser indeferida, mas não pode ser deferida
sem prévia audiência da parte contrária, salvo caso de manifesta
desnecessidade.
- A R. havia arguido a nulidade prevista no artigo 193º do Código de Processo
Civil –

No caso presente:
A A. TMN – Telecomunicações Móveis Nacionais, S.A. apresentou um
requerimento de injunção contra a Ré, R.*…+
Esta veio deduzir oposição, arguindo, ainda, a ineptidão da petição inicial, por
falta de indicação de causa de pedir.
Em consequência desta oposição, o procedimento de injunção foi remetido aos
Juízos Cíveis de Lisboa.
As partes foram notificadas dessa remessa e advertida de que deveria proceder
ao pagamento da taxa de justiça inicial no prazo de 10 dias, a contar da data da
distribuição.
Após distribuição, foram os autos conclusos à Sra. Juíza do *…+ Juízo *…+ Cível de
Lisboa, que, de imediato, proferiu decisão em que declarou o requerimento
inicial inepto, e anulou todo o processado e absolveu a requerida da instância.

Ora, em face desta descrição se verifica que foi violado o princípio do
contraditório.
A requerida veio arguir uma excepção dilatória (a nulidade de todo o processo
por ineptidão da petição inicial, por falta de indicação da causa de pedir), tendo
sido proferida decisão no sentido por si preconizado sem que a ora recorrente
tivesse conhecimento do conteúdo da oposição deduzida e sobre a mesma
tivesse a possibilidade de se pronunciar.

Assim, e perante o princípio do contraditório, à Sra. Juíza estava vedado
pronunciar-se sobre a excepção arguida sem que a ora recorrente tivesse
conhecimento da oposição e lhe fosse possibilitado pronunciar sobre a
excepção.

Ao ser violado o princípio do contraditório foi cometida a nulidade prevista no
nº1 do artigo 201º do Código de Processo Civil, pelo que deve ser anulada a
decisão sob recurso, e determinado que a ora recorrente seja notificada da
oposição deduzida pela R.

Tendo em consideração esta decisão, fica prejudicado o conhecimento da outra
questão suscitada pela recorrente (nº2 do artigo 660º do Código de Processo
Civil).

Desta forma, o recurso merece provimento.


IV. Decisão

Posto o que precede, concede-se provimento ao agravo e, consequentemente,
anula-se a decisão sob recurso e determina-se que a Recorrente seja notificada
da oposição deduzida pela Requerida.


Sem custas.

Lisboa, 12 de Abril de 2007

(A. P. Lima Gonçalves)
(António Valente)
(Ilídio Sacarrão Martins)

Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça
Processo:
2005/03.0TVLSB.L1.S1

Nº Convencional:1ª SECÇÃORelator:GABRIEL CATARINODescritores:PODERES DO JUIZ
DECISÃO SURPRESA
PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO
PODERES DAS PARTES
ÓNUS DE ALEGAÇÃO
FUNDAMENTOS DE DIREITOData do Acordão:27/09/2011Votação:UNANIMIDADETexto
Integral:SPrivacidade:1Meio Processual:REVISTADecisão:INDEFERIDA A RECLAMAÇÃOÁrea
Temática:DIREITO PROCESSUAL CIVILDoutrina:- Roberta Costatino, “Principio del contraddittorio e
decisioni della “terza via”, in www.contabilta -pubblica.it.Legislação Nacional:CÓDIGO PROCESSO CIVIL
(CPC): - ARTIGO 3.º, N.º3, 201.º, 668.º, N.º1, AL. C).Referências Internacionais:JURISPRUDÊNCIA
ITALIANA:
-SENTENÇA N.º 20935, DE 30 DE SETEMBRO DE 2009, DAS SECÇÕES UNIDAS DA CORTE DE
CASSAÇÃOJurisprudência Nacional:
ACÓRDÃO DO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA:
-DE 4-6-2009. Sumário :I - O juiz tem o dever de participar na decisão do litígio, participando
na indagação do direito – iura novit curia –, sem que esteja peado ou confinado à
alegação de direito feita pelas partes. Porém, a indagação do direito sofre
constrangimentos endoprocessuais que atinam com a configuração factológica que as
partes pretendam conferir ao processo.

II - Há decisão surpresa se o juiz de forma absolutamente inopinada e apartado de
qualquer aportamento factual ou jurídico envereda por uma solução que os sujeitos
processuais não quiseram submeter ao seu juízo, ainda que possa ser a solução que mais
se adeqúe a uma correcta e atinada decisão do litígio.

III - Não tendo as partes configurado a questão na via adoptada pelo juiz, cabe-lhe dar a
conhecer a solução jurídica que pretende vir a assumir para que as partes possam
contrapor os seus argumentos. Decisão Texto Integral:
Requerente: AA
Requeridos: “BB – SOCIEDADE IMOBILIÁRIA, S.A”
I. - Relatório.
A autora, AA, reclama para a conferência do acórdão proferido por este Tribunal, por:
1) - ter sido violado o disposto no artigo 3.º, n.º 3 do Código Processo Civil, na dimensão
normativa aí estatuída que impede que o tribunal emita pronúncia ou profira decisão nova
sem que, previamente, accione o contraditório. Vale por dizer, que a reclamante estima
que o Tribunal se pronunciou sobre uma questão não versada nem pela autora nem pela
Ré, pelo que deveria, prévia a uma decisão convidar as partes a pronunciarem-se ou a
exprimirem a sua posição quanto à questão que tinha intenção de vir a emitir.
Em enxutas palavras conclama que o tribunal proferiu uma decisão-surpresa, o que está
constitucionalmente vedado e ao fazê-lo cometeu uma nulidade subsumível “[ao] artigo
201.º e segts. do CPC” (sic) [
[1]
]
Antes de passarmos a outras nulidades com que o acórdão é acoimado, importa fixar o
conceito de decisão-surpresa.
A questão da decisão-surpresa adquire na doutrina italiana a designação de “sentenza di
terza via” [
[2]
] ou “decisioni solitarie” ou “solipsisticamente adoptata” e vem regulada
nos artigos 101.º e 183.º do Códice di Procedura Civile. No domínio da legislação
italiana, tal como na maioria da legislações, onde se pretendem estabelecer regras de um
processo justo - processo organizado e estruturado de modo a garantir, no limite do
possível, a justiça do resultado - o juiz tem o dever de participar na decisão do litigio
participando na indagação do direito – iura novit cura – sem que esteja peado ou
confinado à alegação de direito feita pelas partes. A indagação do direito sofre, no
entanto, constrangimentos endoprocessuais que atinam com a configuração factológica
que as partes pretendam conferir ao processo. Este confinamento factológico, balizante da
capacidade cognoscente do tribunal, não impede o tribunal de enveredar pelo
conhecimento de questões que as partes não tenham enunciado ou não tenham qualificado
durante, ou no desenvolvimento, da lide processual. A questão que se coloca na doutrina
é saber se tendo, por exemplo, dirigido ao tribunal um pedido para, segundo determinada
factologia, apreciar se ocorreu um inadimplemento de um contrato e o juiz,
oficiosamente, na apreciação de mérito a que procede declara a nulidade do contrato.
Vale por dizer se é legítimo nesta caso o juiz decidir sobre a nulidade de um contrato sem
que qualquer das partes tenha suscitado a questão e sem que, previamente, tenha
convocado as partes a pronunciar-se sobre esta hipótese decisão.
O exemplo, académico, que se convocou dilucida de forma paradigmática o que deve ser
tido por decisão-surpresa ou “decisão solitária” do juiz. O juiz de forma absolutamente
inopinada e apartado de qualquer aportamento factual ou jurídico envereda por uma
solução que os sujeitos processuais não quiseram submeter ao seu juízo, ainda que possa
ser a solução que mais se adeqúe a uma correcta e atinada do litígio. Não tendo, no
entanto as partes configurado a questão na via adoptada pelo Juiz caber-lhe-ia dar-lhe a
conhecer a solução jurídica que pretenderia vir a assumir para que as partes pudessem
contrapor os seus argumentos.
Não subsistirão dúvidas de que na estruturação de um processo justo o tribunal deve
prevenir e, na medida do possível, obviar a que os pleiteantes sejam surpreendidos com
decisões para as quais as suas exposições, factuais e jurídicas, não forma tomadas em
consideração. A questão da falta ou ausência de participação das partes na formação do
juízo decisório do tribunal deve ser, contudo, objecto de uma disquisição mais
aprofundada. Trata-se de emanações dos princípios fundantes do processo justo como
sejam os princípios de cooperação, boa fé processual e colaboração entre as partes e entre
estas e o tribunal.
O n.º 2 do artigo 101.º do Códice di Procedura Civile, na reforma de 18 de Junho de
2009, Lei n.º 69, taxa de nulidade a assumpção de uma decisão que seja tomada pelo Juiz
sem que tenha sido assegurado o contraditório. Esta normativa vem correlacionada com o
artigo 183.º do mesmo diploma legal que impõe ao Juiz o dever de indicar às partes, no
decurso da audiência, as questões relevantes que, oficiosamente, possam surgir e que o
tribunal julgue ou prospective virem a ser objecto de tratamento na decisão que pensa vir
a tomar, a final. Se o não fizer nesta sede sempre terá a possibilidade de o vir a fazer ou
impulsionar nos termos do já citado artigo 101.º.
A falta ou ausência de contraditório originou na jurisprudência italiana orientações
diversas que foram desde a crismada linha rigorista ou garantistíca até á linha formalista.
Porém a sentença n.º 20935, de 30 de setembro de 2009, das secções unidas da Corte de
Cassação, tomando posição sobre a controvérsia gerada afirma “[que] resta todavia,
aberto o nó problemático se omitida a indicação da questão relevante de oficio possa não
comportar, ipso facto, a nulidade da sentença, pois que tudo se transporta a uma justiça ou
injustiça da decisão, ou então se tal nulidade seja indefectível consequência do dever de
imparcialidade do Juiz, pela sua posição super partes, que conota todo o justo processo”.
[
[3]
] (tradução nossa). Também a doutrina italiana se tem dividido na taxação de nulidade
da sentença de “terza via”, como dá nota o artigo que vimos citando.
A jurisprudência indígena, mais significativa, e que, em nosso juízo melhor, melhor atina
com o ordenamento jusprocessual vigente vem plasmada no douto acórdão do
Conselheiro João Bernardo, datado de 4 de Junho de 2009.
Embora o artigo 3.º, n.º 3 do Código Processo Civil exija do juiz uma diligência aturada
de observar e fazer cumprir ao longo de todo o processo o princípio do contraditório,
salva os casos em que ressalte uma manifesta desnecessidade. O que deve entender-se por
manifesta desnecessidade constitui-se como o nódulo ou punctum crucis da questão e só a
praxis pode ajudar a desbravar e obtemperar.
Assim, e recorrendo a uma situação que se pode configurar paralela, suponha-se que
numa acção para ressarcimento de um lesado com fundamento na responsabilidade civil
extracontratual, por exemplo decorrente de acidente de viação, o autor pede, com base na
culpa efectiva do demandado, o pagamento de determinada quantia. O tribunal, na
sequência da audiência de julgamento e após alegações de direito das partes em que cada
uma sustenta que a culpa deve ser atribuída à contraparte, acaba por decidir que cada um
deles contribuiu como uma quota de 50% para a produção do evento danoso, fixando a
indemnização em metade da quantia peticionada pelo demandante. Estaria o Juiz
obrigado a, antes da decisão, e em face do que foi discutido em audiência de discussão e
julgamento a avisar os sujeitos processuais que o tribunal perspectivava a possibilidade
de vir enveredar por uma situação de concorrência de culpas na produção do evento
danoso e por virtude dessa posição seria possível que a indemnização a fixar fosse
reduzida a metade?
Em nosso juízo, e de forma decidida, não pensamos que a falta de exercício do
contraditório não afecta a imparcialidade do julgamento nem quebra as regras de uma
decisão com justiça. Na verdade na contraposição das posições, durante todo o processo,
não podiam as partes apartar-se da hipótese de o tribunal, em face da discussão da causa,
viesse a optar por uma partição das culpas na produção da situação de que ambas
reclamam a responsabilidade da contraparte. Mutatis mutandi e transportando a situação
para o caso que nos ocupa, tendo cada uma das partes atribuído à outra a responsabilidade
no incumprimento do contrato promessa, e tendo cada uma elas a possibilidade de
esgrimir os seus argumentos para defesa da respectiva posição processual, era previsível
que o tribunal pudesse vir a enveredar por uma posição em que a atribuição da
responsabilidade pelo incumprimento fosse parcialmente fixada e numa proporção
ajustada à contribuição de cada uma para a ruptura do vínculo ou da relação contratual.
Na esteira da jurisprudência supra citada, advogamos a tese de poder a vingar a arguição
de nulidade de uma decisão quando, e se, a solução opcionada pelo tribunal se desvincule
totalmente do alegado pelas partes, na sua substancialidade ou na sua adjectividade. Vale
por dizer que as partes terão direito a insurgir-se contra uma decisão se a via nela seguida
não se ativer, com um mínimo de arrimo, ao que foi alegado e sufragado pelas partes
durante o curso do processo. Assim, se as partes não tiveram hipótese de aportar e debater
factos (novos e condizentes com a realidade jurídica prefigurada pelo tribunal antes da
decisão “solipsisticamente adoptata”) que poderiam trazer alguma luz sobre a “terza
via”, oficiosamente assumida pelo tribunal, então as partes terão o direito de tentar refazer
a actividade do tribunal de modo a encarrilar e adequar a estrutura do processo ao
resultado decisório. Na última situação prefigurada o tribunal apartou-se do dever de
cooperação, colaboração e boa fé que deve nortear o princípio de imparcialidade e de
posição super partes constitucionalmente atribuído ao Julgador. Neste caso, se o juiz
envereda por uma “terza via” e as partes não alegaram factos ou tomaram posição
concreta sobre a solução “solitária”, a decisão pode tornar-se injusta e acarretar um juízo
de parcialidade que afecta a estrutura regente de um processo justo e despejado de desvios
processuais ou substantivos que desvirtuem a decisão ou o resultado final que se espera
venha a ser assumido pelo tribunal.
No caso concreto, pensamos, não estarmos perante um caso em que as partes não
tivessem tido oportunidade de debater as questões e os factos perante as instâncias e
estando este tribunal cingido aos factos adquiridos pelas instâncias, e considerando que o
quadro factológico adquirido não necessitava de ser ampliado, a possibilidade de o
tribunal qualificar juridicamente as condutas espelhadas na factualidade adquirida era ou
devia ser previsível para qualquer dos pleiteantes. A decisão recaiu sobre factos debatidos
e devidamente sedimentados pelo que as partes não tiveram diminuição dos respectivos
direitos quando o tribunal avaliando os factos trazidos pelas instâncias apurou,
diversamente do que tinha sido a posição por elas assumida, que a responsabilidade na
ruptura da relação contratual devia ser computada numa proporção de metade para cada
uma delas. A decisão não se afasta, ou não pode constituir, em face dos factos adquiridos
pelas instâncias, uma decisão injusta, por não se revelar uma emanação de um desvio que
deva ser crismado ou taxado de imparcialidade ou postergação de factos ou direitos não
alegados.
Não se constituindo a decisão como violadora dos deveres de colaboração ou de
cooperação, por terem tido as partes a possibilidade de debaterem as respectivas
responsabilidades na quebra da relação contratual ao longo de todo o processo e
constituindo-se a decisão tomada uma emanação dos factos adquiridos pelas instâncias,
mediante a atribuição de culpas repartidas na responsabilidade que cada uma imputava á
outra, estimamos não ter este Tribunal proferido uma decisão-surpresa.
2) - Estima a reclamante que ocorre contradição entre a decisão de facto e os fundamentos
de direito no lance em que o tribunal afirma que a autora se alheou da modificação da
cozinha, nos moldes em que o tinha pedido à ré.
As afirmações produzidas para justificar a comparticipação de ambos os contraentes na
responsabilização pela deterioração da relação contratual decorrem da análise a que o
tribunal procedeu da matéria de facto global e não parcelar, pelo que se atentarmos nos
factos que a seguir se transcrevem verificar-se-á que a apreciação/análise a que se
procedeu não encerra qualquer contradição entre a decisão de facto e os fundamentos de
direito. A fundamentação de direito não pode acolher uma fracção da decisão de facto,
sob pena de truncar e ilaquear a capacidade, âmbito, alcance e sentido de uma análise
despojada de maniqueísmos e falácias conjecturais. A apreciação e ajuizamento de um
caso não se basta com o destaque de um ou dois factos mas outrossim pela abrangência
do conspecto factológico que permita ensaiar uma avaliação de conjunto e que atine com
o sentido do comportamento dos sujeitos na sua globalidade.
Por isso é que do conjunto da factualidade adquirida para a decisão, e que se transcreve
infra, extraímos a conclusão e o juízo de culpa da autora na deterioração/ruptura da
relação contratual.
“57) - Às datas das escrituras referenciadas nas alíneas U) e Z) dos Factos Assentes, a
cozinha da fracção não estava apta a funcionar, não estando feita a ligação entre os
móveis e a rede de água e o esgoto, nem instalado qualquer electrodoméstico – resposta
ao quesito 30 (de acordo com a alteração operada pelo tribunal da Relação a fls. 1682);
58) - No que diz respeito aos defeitos, a Ré "BB'' procedeu à sua correcção
imediatamente após a sua denúncia, à semelhança do que sucedeu com outras fracções
do mesmo prédio – resposta ao quesito 31.
59) - Tais defeitos não impediam o uso normal da fracção – resposta ao quesito 32.
60) - Foram realizadas, a expensas da 1 a Ré, pequenas obras de alterações e correcções
nos acabamentos de acordo com a vontade manifestada pela Autora – resposta ao
quesito 33.
61) - Todas as fracções se encontravam habitadas desde o ano 2000 – resposta ao
quesito 34.
62) - Os móveis inicialmente previstos para a cozinha da fracção autónoma não foram
colocados por vontade expressa da Autora, que pretendia que fossem instalados outros
diferentes, tendo ficado acordado que esta alteração correria por sua própria conta –
resposta ao quesito 35.
63) - A Ré "BB" indicou à Autora o nome do fabricante a quem deveria dirigir-se para
escolher os materiais que lhe interessavam – resposta ao quesito 36.
64) - O que a Autora fez, tendo-se inclusivamente dirigido às instalações do fabricante
por forma a obter uma proposta técnica e um orçamento para a cozinha que pretendia –
resposta ao quesito 37.
65) - Após o que fabricante apresentou, em 6 de Dezembro de 1999, uma proposta
técnica e um orçamento para a instalação dos móveis da cozinha solicitados pela Autora,
conforme cópia do fax de fls. 95/96 – resposta ao quesito 38.
66) - Proposta e orçamento quanto aos quais a Autora, apesar de por si solicitados,
nunca se pronunciou – resposta ao quesito 39.
67) - Nunca tendo tomado qualquer atitude com vista a adjudicação da obra da cozinha
– resposta ao quesito 40.
68) - A Ré "BB" diligenciou no sentido de obter a adjudicação da referida obra, tendo-se
proposto suportar as despesas com a ela, pelo que, em 6 de Junho de 2002, o referido
fabricante enviou nova proposta de fornecimento dos móveis da cozinha, conforme cópia
do fax de fls. 97 a 99 – resposta ao quesito 41.
69) - A escritura referida nos pontos 13 e 19 foi adiada por solicitação do marido da
autora – resposta ao quesito 42.
70) - O que a ré "BB" aceitou – resposta ao quesito 43.
71) - A primeira Ré combinou com o marido da Autora proceder de novo à marcação de
escritura e foi nessa sequência que procedeu à referida marcação para o dia 21.11.2001
às 11 horas no 8° cartório notarial de Lisboa – resposta ao quesito 48.
72) - O marido da Autora solicitou à Ré "BB" que lhe entregasse as chaves da fracção
para poder mostrá-la a um sobrinho seu que é arquitecto e que, segundo o mesmo, iria
ajudar na decoração da referida fracção – resposta ao quesito 49.
73) - A Ré "BB" confiou as chaves ao marido da Autora na sequência da solicitação
descrita no ponto 72 e não exigiu a sua restituição, embora aquele as tenha, entretanto,
devolvido – resposta ao quesito 50.
74) - O marido da Autora, em virtude da boa relação que mantinha com os membros dos
órgãos sociais da Ré "BB", solicitou-lhes autorização para colocar na arrecadação da
fracção autónoma e na própria fracção autónoma alguns bens móveis de que era
proprietário, tal como a Autora – resposta ao quesito 51.
75) - Autorização esta que, só por força das referidas boas relações, foi concedida –
resposta ao quesito 52.
76) - E foi concedida apenas para o referido efeito – resposta ao quesito 53.
77) - A Ré "BB" só não solicitou nessa altura a devolução das chaves para que a Autora
e o seu marido pudessem ter acesso às suas coisas – resposta ao quesito 54.
78) - No que diz respeito aos contratos de fornecimento de electricidade e água, eles
foram tratados por CC, funcionário da Ré "BB" – resposta ao quesito 55.
79) - Foi acordado entre as partes que seriam realizadas obras de alteração da fracção,
com vista a transformá-la num "T1" – resposta ao quesito 61.º.
80) - Essas obras consistiam principalmente numa diminuição da área da cozinha e sua
deslocação, levando-a para uma zona central do apartamento, quando inicialmente
estava projectada para se localizar num canto da traseira – resposta ao quesito 62.
81) - No local onde inicialmente estava projectada a cozinha passou a constar um quarto
– resposta ao quesito 63.
82) - Nunca em momento algum, a cozinha foi instalada no que concerne ao gás –
resposta ao quesito 64.
83) - Em Setembro de 2002, na cozinha em causa não estava montada a bancada nem o
tampo do lava-louça, nem feita a ligação entre os móveis e a rede de água e o esgoto,
nem instalado qualquer electrodoméstico, reconhecendo a Ré "BB'' que era
absolutamente impossível a instalação de gás canalizado – resposta ao quesito 65 (de
acordo com a alteração operada pelo tribunal da Relação a fls. 1682).
84) - Pelo menos em Setembro de 2002, a cozinha não estava apta a ser utilizada –
resposta ao quesito 66.
85) - No espaço para a cozinha, em Novembro de 2001, não estava feita a ligação entre
os móveis e a rede de água e o esgoto, nem instalado qualquer electrodoméstico –
resposta ao quesito 70 (de acordo com a alteração operada pelo tribunal da Relação a
fls. 1683).
86) - Tendo a Autora utilizado o apartamento, a arrecadação e a garagem livremente e
de modo absoluto – resposta ao quesito 73.
87) - Ficou convencionado que as obras descritas nos quesitos 61 ° a 63° ficavam a
cargo da Autora, com excepção de um tecto falso e dos respectivos spots, a parede da
nova cozinha, o chão do sítio da antiga cozinha em madeira e as canalizações da nova
cozinha, que ficariam a cargo da "BB'' – resposta ao quesito 75.
88) - Estas alterações implicaram a apresentação de novos projectos de especialidades
para poderem ser aprovadas pelas entidades competentes, o que a Ré "BB" fez, tendo
obtido o licenciamento necessário – 76.
Quesitos 74 a 76: “ Provado o que consta das respostas dadas aos quesitos 61.º a
63.º (de acordo com a alteração operada pelo tribunal da Relação a fls. 1682)
89) - A Ré "BB" procedeu e custeou esta alteração, o que fez por acordo com a Autora,
uma vez que a Ré "BB", também por acordo com a Autora, colocara no chão da fracção
autónoma mármore por esta solicitado, mas cujo resultado não foi do agrado desta –
resposta ao quesito 79.
90) - Em virtude de tal facto, a Autora solicitou à Ré "BB" que retirasse aquele mármore
e o substituísse por outro – resposta ao quesito 80.
91) - Esta, para evitar o custo dessa modificação, acordou com a Autora que a obra da
separação da cozinha e transformação do imóvel em “T1” seria realizada a expensas
suas” – resposta ao quesito 81 (de acordo com a alteração operada pelo tribunal da
Relação a fls. 1682).
92) - Aquando da vistoria, todas as obras da responsabilidade da Ré "BB" estavam
prontas, encontrando-se a cozinha concluída, com excepção de determinados
acabamentos extra solicitados pela Autora, como sejam o tampo e o lava-loiça em pedra
e as portas para os electrodomésticos, os quais seriam encastráveis – resposta ao quesito
82.
93) - As instalações especiais (água e electricidade) estavam concluídas antes da
transformação do apartamento em T1 e foram executadas de acordo com os projectos e
mereceram a aprovação das entidades competentes – resposta ao quesito 84.
94) - A exaustão da cozinha e o sistema de incêndio são comuns a todo o prédio e
funcionam vinte e quatro horas por dia – resposta ao quesito 85.
95) - A única instalação especial que não estava concluída e aprovada era o gás, o qual
nunca foi prevista quer no projecto inicial, quer nas alterações – resposta ao quesito 86.
96) - A cozinha, na forma em que a Autora quis que a mesma ficasse a final, por ser
interior, não pode ter instalação de gás – resposta ao quesito 87.
97) - Pelo que foi instalado um contador de electricidade com uma capacidade superior
aos instalados nos restantes apartamentos, de forma a suportar o fogão e forno eléctrico
e termoacumulador – resposta ao quesito 88.”
A conjugação da factualidade dada como provada inculca, em nosso juízo, que a ré
procurou satisfazer as “reivindicações” a autora para o ajaezamento do apartamento,
concretamente ao nível dos móveis da cozinha, não tendo a autora colaborado com os
esforços da ré e desprezando as sugestões que lhe forma feitas para aquisição de moveis.
Esta atitude e conduta revela ausência de cooperação e responsabilidade na quebra da
relação contratual e assim a qualificou o Tribunal.
Não colhe ou cabe numa reclamação a reclamante rebater argumentos ou juízos, sob pena
de transformar ou travestir a reclamação num novo recurso.
Da reanálise do aresto não ressalta a apontada nulidade de contradição entre a
fundamentação de facto e de direito.
3) - Omissão do acórdão quanto a juros e condenação em custas.
Revisitando a decisão proferida, o Tribunal decidiu:
“- Em conceder parcial provimento ao recurso e, em consequência:
a) - Considerar resolvido o contrato promessa, por verificação de existência de culpas
concorrentes, no respectivo incumprimento, e, consequentemente, ordenar à Ré a
restituição do sinal recebido;
b) - Absolver a recorrente da condenação por danos não patrimoniais, mantendo a
condenação por danos patrimoniais, no montante de quatrocentos e dezasseis euros e
cinquenta cêntimos (€ 416,50).
- Custas pela recorrente e recorrida, na respectiva proporção.”
3).a) - Omissão na condenação em juros.
O tribunal não condenou em juros por ter considerado que a condenação em danos
patrimoniais por “manter a condenação por danos patrimoniais, no montante de
quatrocentos e dezasseis euros e cinquenta cêntimos (€ 416,50)”.
É de meridiano entendimento que o verbo “manter” significa dar continuidade ao que está
consolidado ou, no caso ao que já tinha sido objecto de veredicto pelo tribunal de
instância. Quando se decidiu “manter” o decidido e não se procedeu a qualquer restrição
quer isto significar que o que fica a valer, na parte da decisão mantida, é o que dela
consta.
Queda prestado o esclarecimento, quanto a esta parte, já que quanto ao sinal a decisão é
de lídima e singela clareza. A restituição do sinal reconduz-se ao valor recebido pela ré a
titulo de sinal sem outro acrescento ou mais-valia.
3).b) -Já quanto a custas a proporção em que se condenou reporta-se ao respectivo
decaimento, atendendo aos valores da acção e da reconvenção.
II. - DECISÃO.
Na defluência do exposto, decidem os Juízes que constituem este colectivo na 1ª secção
do Supremo Tribunal de Justiça, em:
a) - Indeferir a reclamação na parte em que acoima de nula a decisão por violação do
artigo 668.º, n.º 1, al. c) e 201.º, ambos do Código de Processo Civil;
b) - esclarecer os pontos em que eram indicadas ambiguidades ou obscuridades ao aresto
(relativo a juros e custas).
Lisboa, 27 de Setembro de 2011

Gabriel Catarino (Relator)
Sebastião Povoas
Moreira Alves
____________________________
[1]
“No caso subjudice, o acórdão de fls .... quando no seu ponto II.B.2 analisa o incumprimento do contrato promessa,
vem enveredar por uma solução jurídica totalmente nova nos autos, aplicando a norma que se extrai do art. 570 do
Código Civil e, consequentemente, retirando à autora o direito à indemnização prevista no art. 442, n. 2 do CC que as
instâncias lhe haviam atribuído.
Esta solução de direito (aplicação da regra do art. 570 do Código Civil) nunca foi aflorada nos autos, nem nas 12
alegações de direito que as partes apresentaram, nem nas duas sentenças e três acórdãos que antecederam o presente
acórdão.
É assim, manifestamente uma decisão surpresa, razão pela qual o Tribunal deveria - de acordo com o princípio do
contraditório com consagração constitucional no art. 20 do texto fundamental e previsto no art. 3, n. 3 do CPC - ter
ouvido as partes antes de pronunciar o acórdão.
Ora, não tendo as partes sido ouvidas cometeu-se uma nulidade que se traduz na omissão de um acto ou de uma
formalidade que a lei prescreve e que manifestamente influi no exame e na decisão da causa, implicando a nulidade do
acórdão de fls..... que é subsequente e daquele depende absolutamente.
Nulidade que expressamente se invoca nos termos dos arts 201 e segts. do CPC.”
[2]
“Terza via” è queIla che il giudice sceglie di percorrere, nella decisione della causa, lasciandosi alle spalle le
prospettazioni dell’attore e dei convenuto (prima e seconda via).” “Terza via é aquela que o Juiz escolhe percorrer, na
decisão da causa, deixando para trás (deitando para trás das costas) as questões apresentadas pelos autores e pelos
demandados (primeira e segunda via)” (tradução nossa).
[3]
Roberta Costatino “Principio del contraddittorio e decisioni della “terza via”, in www.contabilta -pubblica.it.