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O CAMINHO PROFÉTICO DA MANJEDOURA

“Na plenitude dos tempos,


Deus enviou seu Filho nascido de uma mulher”
- Gálatas 4,4.

Quando refletimos sobre o tempo do Advento, estamos em tempo de preparação do Natal de


Jesus Cristo, É um tempo em que precisamos ficar atentos, ao significado humano e espiritual
do nascimento de Jesus, salvador da humanidade. Esse tempo se caracteriza por uma atitude
interior de conversão, isto é, uma mudança de mentalidade dominadora e arrogante, para uma
mentalidade acolhedora e humanística. Essa mudança facilita o ser humano a fazer sua eficaz
experiência de encontro com o divino Menino, vindo do Deus vivo ficar como “Deus
Conosco”.

Assim, desde o Advento até o encerramento do tempo do Natal, este é o grande tempo
messiânico o qual visa abrir os olhos do coração humano, para refletir e meditar o caminho
profético da manjedoura, no tempo de Natal. Singularmente, este tempo é sem igual, é único
para um “checape geral” de nossa vida mental, emocional e espiritual. Além disso, é uma
ocasião propícia de preparação pessoal, familiar, comunitária e social. É ainda o tempo de fazer
valer a prática da justiça, da partilha e solidariedade. Por essa prática é que teremos acesso no
reino de Deus, lugar humano e espiritual onde nos confraternizamos sem exclusão de ninguém.

O tempo do Natal revela a criatividade simpática de um Deus Vivo humano e amigo da


humanidade. O ser humano unido a Deus, facilmente gera imagem mental e emocional
fascinante e criativa, que estimula viver fraterna e humanisticamente a vida em comunidade e
sociedade. Imaginativamente é muito importante abrirmos, no território de nossa alma com
Deus, um novo horizonte de possibilidades para a paz, no mundo humano e cósmico. Essa paz
começa em você, em mim, no outro, na sua família, comunidade, sociedade e expande-se à
humanidade.

Saiba, portanto, que entre você e a humanidade, a humanidade e você há uma essência comum:
a vida eterna, como dom do Criador. Esta vida é movimento crescente e evolutivo no corpo, na
alma e no espírito de nossa condição humana. Esse movimento é o sopro eterno do Deus vivo
que atinge as profundezas do Universo: céu e a terra, bem como a interioridade humana, terreno
misterioso do divino Mistério.

Assim, a imagem criativa da fé, percebendo um Deus vivo nascendo na fragilidade de uma
criança dos pobres de Israel, é algo inédito que causa admiração em todos os tempos. No
entanto, não basta ficarmos impressionados com a imagem da manjedoura, sem nos abrirmos
ao sentido interpelativo que ela evoca na história dos antepassados de Jesus.

A imagem da manjedoura foi uma mensagem profética de anúncio e denúncia para povo de
Israel, que esperava o Messias com poder e majestade no palácio real em de Jerusalém. Mas
deu tudo o contrario, fora de grande cidade, o Messias esperado pelos grandes e pequenos, foi
encontrado “numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria” (Lucas 2,7). Foi
assim que o Deus vivo e criador do Universo quis ensinar à humanidade o é que ser, viver e
amar. Assim, Ele mostrou que amar é, oblativamente, servir e criar amizade, bem como
fraternidade sem reservas e sem fronteiras.

O caminho da manjedoura de Belém é um projeto humano e espiritual de igualdade e


fraternidade entre os seres humanos. Nessa manjedoura, o Deus vivo dos hebreus revelou seu
jeito divino, humano, simples e amigo, à espécie humana que está em processo existencial de
evolução, para a sua maturidade em plenitude. Esta maturidade depende de um nutriente
indispensável no relacionamento entre os humanos de hoje: a semente da humildade. Sem esta
semente-nutriente não há Natal, mas fantasia comercial de um natal capitalista sem Jesus, sem
amor, justiça e confraternidade.

Assim, se quisermos festejar o Natal de Jesus, sem fantasia comercial de consumismo e de


exploração, então, temos que tomar decididamente um outro caminho, como fizeram alguns
magos do Oriente, quando vieram ver o novo rei menino dos judeus (Mateus 2,2. 12). Qual foi
o outro caminho? O caminho da prontidão, mansidão, humildade e partilha das riquezas da
criação, como o ouro, o incenso e a mirra, conforme os escritos Sagrados em Mateus 2,11;
Salmo 72,10.15 e Isaías 60,6.

Portanto, o reconhecimento desse novo caminho possibilitou aos magos de ontem, e possibilita
aos magos de hoje, um encontro de oração, devoção e adoração com o Dono desprendido de
seus bens na natureza: Aquele que É, será e que foi encontrado pobre, simples, despojado e
humilde, entre os humilhados da história do povo de Israel.

Assim, a teologia da manjedoura de Belém é um plano profundo de transformação,


humanização e redenção libertadora, dentro de uma sociedade de mentalidade patriarcal que
perdeu o senso ético de semelhança, de justiça, paz e ordem, entre humanos e Natureza. O
resultado de tal comportamento individual ou coletivo aparece, relacionalmente, nas atitudes de
arrogância, autoritarismo, orgulho, individualismo e insensibilidade ao drama de seus
semelhantes pobres e empobrecidos, que ainda hoje gritam por justiça e paz na história do
mundo atual.

Essa teologia - como jeito místico, profético e criativo de ver Deus na história - foi fantástica na
visão cristã e humanista do evangelista Lucas. A través dele, a fé cristã é uma prática de amor à
vida de tudo e de todos; é também uma palavra de alerta e de conscientização para quem pensa
que a felicidade nesta vida, só se encontra no possuir sem compartilhar.

Além do mais, se imagina que as riquezas produzidas e acumuladas com finalidade de marcado
capitalista, é a solução de todos os problemas existenciais da humanidade. Não! A felicidade do
natal cristão não é um espírito de comercialização de coisas, mas encontro fraternal e de trocas
de amizade humana e espiritual, onde acontece o espírito natalino de compartilhamento do que
somos e temos.

Portanto, em tempo de natal cristão, essa mentalidade acumulativa e individualista está sendo
radicalmente questionada pela visão teológica, humanística e ecológica da manjedoura de
Belém. O natal cristão não é tempo de consumismo, mas tempo permanente de conversão, de
reconciliação, de compartilhamento, comunhão e participação, sem exclusão de nenhum ser
humano. Ele é tempo sagrado de fraternidade e con-fraternidade! Que sejamos felizes neste
novo tempo e bom jeito do Natal de Jesus Cristo, o homem do Amor e da Paz!
Frei Anízio Freire OFM.