BONINA

A BRASILEIRINHA MAIS INTELIGENTE DO MUNDO

Revelando Mistérios
Assim como o oxigênio é alento para o corpo físico, ler, é alimento que vivifica a alma.
O autor

CATÁLOGO INTERNACIONAL DA PUBLICAÇÃO
Pereira, Jeovane, 1968 – Bonina – Revelando Mistérios/Jeovane Pereira. 2 edição Rolim de Moura: Dpress Editora Gráfica Ltda. – Publicação independente. 1 – Literatura infanto-juvenil.

Índices para Catálogo Sistemático.
1 – Literatura infanto-juvenil. 2 – Literatura juvenil.

ISBN: 978-85-98630-08-3

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de setembro de 1998. Todos os direitos reservados ao autor.

JEOVANE PEREIRA

BONINA
A BRASILEIRINHA MAIS INTELIGENTE DO MUNDO

Revelando Mistérios

2ª EDIÇÃO

AGRADECIMENTOS
Agradeço em especial ao jornalista Daniel Oliveira da Paixão, que foi responsável pela publicação da edição deste livro na versão eletrônica.

Dedico este livro para meus filhos Rafael, Douglas, Juliana, Paola, e por meio deles, que esta homenagem se estenda a todas as crianças e jovens do mundo; Para meus pais Joaquim Alves e Jecilda Pereira, juntamente com meus irmãos Jeová, Sandra, Silvia, Cristiane, e através deles, para meus familiares em vida e aos que já "partiram". "Quem mente rouba, é ladrão e é o cão! Não é paizinho?" Ao bom entendedor, com o ensinamento acima, é possível descobrir o valor da virtude e que minha família desempenha na criação de suas proles. Quando criança eu me habituei ouvir esse princípio de outro garotinho, que aprendeu com meu avô. No mês de julho do ano 2006, em Uberlândia, no estado de Minas Gerais, uma fatalidade ceifou a vida de Valdemar Aires Filho, aquele menino que foi meu companheiro e verdadeiro amigo, nos momentos mais felizes da minha infância e juventude. Para os íntimos, carinhosamente o chamávamos de "Demar". É em memória a esse meu tio que, especialmente, homenageio com a dedicatória desta obra literária. O Demar tem minha idade! Porque nas minhas lembranças ele vive e viverá eternamente.

SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO.................................................................... 11 INTRODUÇÃO.........................................................................13

CAPÍTULO I
SALVA MILAGROSAMENTE...................................................15

CAPÍTULO II
CONHECENDO O MUNDO AMAZÔNICO.............................27

CAPÍTULO III
ENCANTANDO-SE COM O PANTANAL................................45

CAPÍTULO IV
PRIMEIRA VIAGEM AO EXTERIOR.......................................61

CAPÍTULO V
MARAVILHANDO-SE COM O NORDESTE BRASILEIRO.. 77

CAPÍTULO VI
ENCONTRANDO ALGO MUITO VALIOSO...........................93 BIOGRAFIA.............................................................................105

APRESENTAÇÃO
O que conheço do autor e sua obra, tenho a dizer: o escritor Jeovane Pereira é um homem simples. Não é dotado de qualquer dom especial que lhe credencie o tratamento "Admirável" ou algum outro título pomposo. Possui sim, uma intuição doce e aguçada; um forte desejo de despertar o sublime do ser humano que existe em cada pessoa. Essas são duas das suas qualidades facilmente perceptíveis, através de seus escritos. Neste seu livro, a ficção funde-se com a realidade e liberta, conduz o leitor ao mundo inimaginável: onde os humanos, simples mortais, são dotados de infinita capacidade de absorver conhecimento. Bonina, a personagem central deste livro, quando recém nascida foi abandonada numa cesta de lixo; criada no orfanato aprendeu cedo, com sua ama-de-leite, a despertar a curiosidade e desenvolver o raciocínio. A garota Bonina é igual a qualquer criança, porém, algo a torna especial; esse diferencial faz da personagem principal uma garotinha extraordinária. Além disso, a leitura deste livro não se restringe ao requisito da faixa etária e é desnecessário o nível cultural. É para os leitores crianças, jovens e adultos. Esta é uma obra literária recomendada para todas as famílias. "Um convite para uma viagem fascinante!" Assim pode ser definido este livro em poucas palavras. Acrescentar mais um ingrediente de estimulo nesta apresentação, é o mesmo que separar o leitor dos encantos que estão a lhe aguardar.

Carmem Catarina Galiano Fernandes
Professora e Representante de Ensino da SEDUC no município de Cacoal

INTRODUÇÃO
Diferentemente das pessoas que presumem a existência de um milagre apenas nos acontecimentos extraordinários, não explicáveis pelas leis da natureza, todavia acredito que o simples ato de respirar, acordar todas as manhãs, ouvir uma bela canção, recitar uma poesia, a fotossíntese, as órbitas dos planetas, o mundo invisível dos microrganismos, a natureza, o canto dos pássaros... Tudo que nos torna felizes é um milagre que nos acontece. Despindo-me da pretensão vaidosa e revestindo-me da sincera simplicidade, ainda que ousada, atribuo ao conteúdo deste livro um ato místico. Uma experiência sobrenatural que experimentei! Digo isso porque, à medida que pesquisava para melhor redigir um roteiro atraente para este folhoso, passei a vivenciar, mesmo que no imaginário, sensações fascinantes. Se o leitor desta obra literária sentir estas mesmas emoções, não encontro outras palavras para definir o que irá experimentar que não estas: "O ledor vivenciará acontecimentos divinais!". A mágica da leitura que nos faz emocionar, presenciar momentos magníficos, mesmo que num mundo só nosso, nos devaneios de nossas fantasias e que nos elevam o espírito. Aqui se encontra o real objetivo para o qual este livro foi escrito: "Nos tornar pessoas infinitamente melhores!". Eu sei, algumas pessoas dirão: "Exagerado!" Não tenha dúvida de que esta "ambição" é algo de grande valor para este humilde escritor, amante das belasletras. Se ao menos um dos meus leitores sentir as prodigiosas sensações pelas quais fui encantado ao escrever este livro, me dou por satisfeito, o objetivo foi alcançado. Apenas me acompanha uma desconfiança: se o que mais encantará o leitor são os fatos reais aqui descritos, ou o mundo de ficção da garotinha chamada Bonina. Quando decidi me aventurar na realização desta obra literária, fui guiado pelos meus critérios de escolha a agregar cinco preceitos fundamentais: uma criança genial, comum e ao mesmo

tempo desamparada; o fascínio do poder da mente de acumular conhecimentos; a amabilidade aos livros, que transforma vidas; a grandiosidade dos recursos físicos e naturais do território brasileiro, aliados à miscigenação do seu povo; e o enaltecimento do primoroso vínculo social chamado família. No início, me julguei incapaz de realizar esta tarefa. Foi uma centelha de um prodígio que me iluminou e passei a inflar-me de uma autoconfiança nunca existente na minha alma: "Acontecimento inexplicável!" muitas pessoas afirmaram. Se calhar, eu asseguro que escrever livros é uma missão espiritual e a transmutação na conquista de quem lê com paixão, um mistério da vida. Deixemos que este livro fale por si só! Cacoal, 20 de novembro de 2006. Jeovane Pereira do Nascimento

CAPÍTULO I
SALVA MILAGROSAMENTE
Naquela manhã o sol não foi visto. A poluição das indústrias nas proximidades e as queimadas no campo criavam densas nuvens, encobrindo a pequena cidade. O astro-rei permaneceu encoberto o dia inteiro. No crepúsculo vespertino daquele dia, uma chuva rápida trouxe consigo a lua-cheia que apontou no horizonte imensa, iluminando a escuridão da noite fria que já se anunciava. Na praça, os namorados abraçados aqueciam-se no calor da paixão. Um beco, no meio do condomínio, recusou o clarão do luar. Os garis cantarolavam, assoviavam, ao mesmo tempo em que retiravam a sujeira das ruas. Aproximou-se o alvorecer do novo dia. A garotinha que podia ter sido esmagada pela prensa do carro de lixo ou até mesmo morrer sufocada, como que adivinhando, reuniu suas forças e

chorou baixinho: seu último apelo. Um gari ouviu os gemidos abafados e ficou assustado. No dia seguinte, um jornal destaca na sua primeira página RECÉM-NASCIDA FOI ABANDONADA NA CESTA DE LIXO. No noticiário da tevê, o apresentador informou o grave estado de saúde da garotinha que tinha sido salva milagrosamente. Uma imagem da enfermeira que fez os primeiros socorros, abraçando carinhosamente a criancinha, comoveu os telespectadores. Não foi descoberto quem abandonou a pequenina. Ninguém soube o que levou a mãe a fazer uma coisa dessas. Magricela que era não encontrou alguém para adotá-la. No orfanato, deram-lhe o nome de Bonina. Desse modo Bonina, ainda muito pequena, tornou-se uma sobrevivente. Uma ama-de-leite apaixonada por livros alimentou a garotinha nos primeiros meses de vida. Noites após noites, com sua voz aveludada, contava histórias até Bonina dormir. Nos dois primeiros anos a menina resistiu a graves momentos na saúde, acometida por uma ou outra enfermidade que sempre lhe deixava entre a vida e a morte. Essa fase crítica na saúde ela também superou, mais uma vez resistiu bravamente, foi mais forte que tudo. Repentinamente, contrariando a natureza dos acontecimentos anteriores, restabeleceu o pleno vigor físico. Aprendeu desde cedo a ler e a escrever. Sua ama-de-leite tornou-se sua melhor amiga, sempre encontrou tempo para lhe contar histórias que contém nos livros. Bonina ouvia atentamente todas; uma ou outra vez se deixava conduzir pela curiosidade fazendo perguntas. Com os amiguinhos do orfanato brincava de tudo, mas o que mais gostava, era de brincar com os jogos de montagens e ler livros. Todos no orfanato conheciam quando Bonina estava triste eram obrigados a ouvi-la recitar aquele monólogo da formiga pessimista. Quando se aproximou seu quinto aniversário, ficou abatida por uma tristeza profunda pela falta de uma família. Questionou a todos sobre o porquê dos acontecimentos com seus pais, e, como ficou insatisfeita com as respostas, passou a frasear

aos quatro cantos aquele seu solilóquio.

A FORMIGA PESSIMISTA
Depois do trabalho, vou tirar um pouco do tempo do meu tempo da folga, e pensar sobre qual é minha importância no vasto universo. Aqui na Amazônia, salvei-me dos pássaros e tamanduás famintos. É por milagre que eu estou aqui, sendo tão fraca, sobreviver a este mundo selvagem. Mas se de algum modo continuo a viver, é porque existe algo importante e que eu tenho para realizar. Mas o que será? Realmente, não consigo compreender plenamente. Será que existe mesmo algo valoroso que eu possa executar? Talvez esses pensamentos, essas dúvidas, sejam apenas maluquices dessa minha cabeça ôca. Ou vai ver até existe algo oculto. Mas o quê? Tenho que colocar minha mente para matutar. E minhas incertezas, as respostas encontrar. Quem sabe foi aquele tombo, aquele de dois dias atrás, quando eu bati com minha cabeça naquela pedra. Talvez seja esse o motivo dessas loucuras que penso. Não, não existe nada de extraordinário e que eu possa efetivar! Isso é tudo esquisitice desta minha cabeça-de-vento. É isso mesmo! Eu não sirvo para nada. Por isso vivo nesse sofrimento todo. Quem sabe eu seja uma inútil! O muito que posso servir é para adubo orgânico. Enfim, não tenho utilidade alguma no vasto universo. Sou tão pequena! Talvez nem para adubo eu sirva, de tão minúscula que sou. Eu vou é parar de pensar! Eu só penso essas bobagens. Nunca chego a lugar algum. Bom para mim é voltar a trabalhar e nunca mais pensar. Trabalhando, me sinto de alguma forma útil. É isso mesmo! Mesmo que seja apenas carregando folhas, o trabalho me dignifica. Impulsionada pela comoção de vê-la tão triste, sua amade-leite presenteou-lhe com um jornal amarelado pelo tempo e recomendou-a que lesse o conteúdo principal da primeira página. Depois de ler atentamente, olhou tristemente para sua ama-deleite e perguntou-lhe: - Essa garotinha que foi encontrada na cesta de lixo sou eu? A resposta da ama-de-leite foi uma afirmativa. Desse modo, Bonina ficou sabendo por que não tinha pai e mãe. Agradeceu sua ama-

de-leite por ter lhe mostrado a verdade sobre sua origem. Passou a entender o porquê de morar no orfanato. Guardou aquele jornal como se fosse seu bem mais precioso e retomou a alegria de antes, como se nada soubesse dos pais, e voltou a se divertir com seus amiguinhos do orfanato. Tornou-se uma especialista nos jogos de montagens e passou a gostar cada vez mais dos livros. Logo foi notada sua imensa capacidade de absorver conhecimento. Se alguém se admirava com as lindas cores das paisagens nas telas, penduradas nas paredes, Bonina cuidava de fazer seus comentários: - São das três cores primárias que se reproduzem todas as outras cores secundárias; da mesma forma são dos números de zero a nove que surgem todos os números existentes; são das vinte e seis letras do abecedário que os poetas rimam belas poesias e os escritores registram todas as histórias bonitas ou feias; também é assim com as notas musicais: DÓ - RÉ - MI- FÁ - SOL - LÁ - SI, são por meio delas que uma orquestra nos proporciona um belo concerto musical e se compõem músicas que falam de amor e amizade, nos falam de tudo, embelezando nossas vidas. Quando Bonina se encontrava nas praças ou fazendo compras nas feiras, era sempre rodeada por pessoas, admiradas com sua desmedida inteligência. Numa dessas ocasiões, um homem idoso quis saber: - Quem e quando governou o primeiro presidente do Brasil? Bonina pensou um pouco, mexeu seus graúdos olhos para cima, para baixo, e em seguida respondeu: - Foi Manoel Deodoro da Fonseca! E acrescentou: - Governou provisoriamente de 15 de novembro de 1889 a 25 de fevereiro de 1891. Assim se deu, pois ao invés de assinar um termo de posse nos moldes que se tornariam padrão na República, publicou se uma Ata de Proclamação e o Decreto nº. 1, onde se estabeleceu as normas governamentais que passariam a vigorar. O Livro de Posse só se inaugura em 1891, meses antes do término do seu mandato foi quando Deodoro da

Fonseca tornou-se categoricamente, o primeiro presidente republicano do Brasil. Um homem magricela, com um grande bigode, é quem agora faz pergunta: - Quantas e quais foram as cidades capitais brasileira? Uma voz angelical ressoa: - Salvador, tornou-se capital do território tordesilhano de Portugal em 1549, depois do Vice-reino até 1763; Rio de Janeiro, capital do Vice-reino de 1763 a 1822, daí então, sede do Império aos 1889 e depois capital da República até 1960; e atualmente é Brasília, desde 1960. Uma mocinha ao lado do homem idoso emenda uma pergunta, depois de satisfeita com a confirmação do bigodudo magricela de que a resposta estava correta. - Quanto é oito vezes sete? Bonina irradia um belo sorriso e de imediato responde que é "cinqüenta e seis". Não satisfeita, a jovem tasca outra pergunta: - E a raiz quadrada de 625? O som "vinte e cinco" saiu dos lábios de Bonina em forma de meiguice. A jovenzinha depois de fazer o cálculo na calculadora, informou a todos que Bonina respondeu corretamente. Todos os que ali estavam foram pegos sorrindo da facilidade com que a menina respondia todas as perguntas que lhe eram feitas. Naquela ocasião, um escritor fez seu questionamento: - Mocinha, você sabe me dizer quando e qual povo deu origem à escrita? - Sim! Foram os sumérios do período de Uruk, legaram à humanidade a invenção da escrita. Segundo a Arqueologia, teve lugar sem dúvida, pouco antes de 3000 da Era Comum. Primeiramente pictográfica essa escrita tornou-se ideográfica, depois silábica e, muito mais tarde, alfabética. Somente entre 1500 ao ano 1000 antes de Cristo, os fenícios inventaram uma escrita mais simples, mãe de nossos alfabetos modernos. - Confesso que estou atônito! Você está certa com sua resposta. - admirou-se o escritor.

Uma gorda mulher, intrigada com a capacidade de Bonina, formulou uma pergunta difícil, que tem duas respostas. - Me diga, exatamente, quantos dias têm o período de um ano? - antes de receber a resposta, a mulher se vê pensando: "Não importa qual das duas respostas a menina responder eu direi que ela está errada e todos me darão razão!". Bonina percebeu astúcia na pergunta da mulher e respondeu cautelosamente: - No calendário gregoriano, o ano tem trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas. Todavia, de quatro em quatro anos, o ano é bissexto, passando a ter trezentos e sessenta e seis dias, sendo que o mês de fevereiro, que normalmente contém vinte oito dias, passa a ter vinte e nove. A mulher ficou pasmada, envergonhada da sua malícia, mas não se esqueceu de elogiar a garotinha Bonina. - Tá bom espertinha! Diga-me quantos e quais planetas é composto nosso sistema solar? - exclama uma velha rabugenta. - Ora, amável senhora (as pessoas em volta sorriram, porque Bonina chamou a velha rabugenta de amável senhora)! Na Via Láctea eles são vários e os livros registram ao todo nove principais: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Já esse último, Plutão, os astrônomos chegaram à conclusão de que não passa de um planeta-anão, excluindo-o da contagem dos principais. Daí então terá que colocar nos livros apenas oito os principais planetas. A propósito, a senhora sabe que o maior dentre esses é Júpiter? Que a distância média entre o Sol e a Terra é de cento e quarenta e nove milhões, quinhentos e noventa e oito mil e vinte quilômetros? Que a distância média entre a Lua e a Terra é de trezentos e oitenta e quatro mil, trezentos e noventa e nove quilômetros? E que a velocidade orbital média da Terra é de três mil, seiscentos e oitenta e três quilômetros por hora? - Claro que sei! Eu trabalho num observatório astronômico. - retrucou a senhora ranzinza. Um jovem doutor nutricionista que estava presente, quis saber sobre a alimentação de Bonina, presumindo que a

capacidade de acumular conhecimentos estava ligada com o seu modo alimentar. A menina informou-lhe que quando era menor gostava muito de comer doces. Mas que tinha se tornado amante das verduras e legumes desde que leu um livro que informava dos valores nutricionais das frutas, verduras e leguminosas. Acabando por fazer algumas mudanças na sua alimentação. Bonina então passou a gostar de suas refeições sempre coloridas e a tomar sucos periodicamente. Um rapaz musculoso que praticava exercícios, pequenas corridas matinais, se aproximou do grupo de pessoas que rodeavam a garotinha Bonina. Ouviu-a responder algumas perguntas e se convenceu que aquela menina não era tão capaz como parecia, que ali estava acontecendo algum tipo de armação, tudo combinado com algumas pessoas, perguntas e respostas. Resolveu fazer uma pergunta nada fácil, certo que iria desmascarar aqueles farsantes amigos da garotinha, podendo se exibir um pouco. Disse ele: - Moçinha! Estou lhe observando já faz algum tempo e cheguei à conclusão que a senhorita é muito inteligente. Contudo, tenho uma pergunta, prometo não ficar chateado se você não responder, pois sei o quanto é difícil para alguém da sua idade saber algo sobre os esportes olímpicos. Portanto, caso não saiba a resposta, eu entenderei. - Percebo que estou diante de um cavalheiro e será uma honra ter a resposta para sua indagação. - afirmou Bonina. - Pois bem, você sabe dizer quem, como e quando foi inventada a competição que chamamos hoje de Corrida de Maratona? - Eu presumo que o homem foi um bom jornalista. O rapaz de corpo atlético apressou-se a ficar no centro, tentando identificar os farsantes, e afirmou que Bonina estava errada na sua resposta. Percebendo que o rapaz queria somente chamar atenção para si, Bonina se antecipou de forma coloquial. - Meu caro amigo! Você me concede a oportunidade para explicar o porquê de achar que foi um jornalista?

Com um sorriso escancarado no rosto, acreditando que tinha desmascarado a farsa, afirmou de forma debochada: - Minha pequena criança, na época desse fato, não existiam jornalistas. Bonina então emenda uma pergunta: - O que fazem os jornalistas? Ainda mais debochada foi sua resposta seguinte: - Ora, senhorita! Divulgam notícias. - Então estou certa! Quando o soldado grego, no ano 490, antes da Era Comum, correu do campo de batalha nas planícies de Maratona até Atenas, uma distância aproximada de quarenta quilômetros, para "divulgar" a vitória dos gregos sobre os persas, esse soldado se mostrou um excelente "jornalista". Desse modo, quando o helenista francês Michel Bréal evocou a lendária façanha, fazendo constar já dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, em Atenas, a 10 de abril do ano 1896, a Corrida de Maratona, fezse também uma homenagem àquele valoroso "jornalista". Bonina fez uma pequena pausa para que o jovem atleta pudesse digerir aquelas informações e em seguida, perguntou suavemente: - Você concorda comigo? - Realmente! Eu nunca tinha visto por essa ótica. - se convenceu definitivamente o jovem. Muitas pessoas que ali estavam ficaram maravilhadas com o grande conhecimento da menina, outros arrebatados e muitos desassossegados. Nunca mais naquela cidade alguém se atreveu a duvidar da incrível inteligência de Bonina. A garotinha tinha desenvolvido uma nova forma de expandir seus conhecimentos "brincando com informações". Onde as pessoas comuns enxergavam apenas um soldado se sacrificando para levar uma "notícia" para seu rei, Bonina avistava um bom "jornalista", um excelente atleta, encantando muito mais as pessoas que paravam para lhe ouvir e fazer perguntas. Aprendeu a acordar cedo. Lembrava-se de sua ama-deleite sempre dizer "Quem tarde acorda, muito deixou de aprender!". O colégio era para Bonina um mundo fantástico: crianças

brincando, lápis, cadernos, livros, professores e a possibilidade de exercitar de várias formas o conhecimento. Bonina sempre conseguia notas excelentes nos testes. Desse modo, sua professora se convenceu de que ela estava além da média escolar dos outros alunos de sua classe. No meio do ano tinha passado para a série seguinte. Nas reuniões dos professores, a inteligência da menina sempre monopolizou o tema das conversas. Numa das costumeiras reuniões, sua professora informou aos outros professores que tinha presenciado uma experiência espantosa com a garotinha, quando formulou uma pergunta aparentemente muito fácil: "Quanto é a metade de dois mais dois?". Todos os outros alunos responderam "dois", mas Bonina respondeu "três". Então veio a correção da professora, dizendo-lhe que a resposta certa é "dois". Bonina insistiu com a professora, afirmou que metade de "dois" é "um" mais "dois" é igual a "três". Portanto, ela estava certa a resposta seria "dois" se a pergunta fosse metade da "soma" de dois mais dois. A professora ficou abismada com o raciocínio da menina, obrigando-se afirmar diante dos outros alunos que formulou a pergunta de forma errada, reconhecendo que Bonina estava certa com a sua resposta. Nesse dia, depois da aula, a professora resolveu chamar Bonina para uma conversa particular, especulando sobre quem ensinou tudo o que ela sabia. Com a voz meiga, Bonina se pronunciou: - Quando eu era menor, minha ama-de-leite gostava de ler todos os dias até que eu dormisse; isso fez com que eu passasse a gostar da leitura. Tudo o que nós queremos saber está nos livros. É por isso que eu gosto dos livros e sou muito apegada a eles. Até mesmo o que os professores nos ensinam encontra-se nos livros! Encantada com o que acabara de ouvir, a professora exclamou: - É verdade, Bonina! É verdade. Essa é a mais pura das verdades! Bonina então arrematou:

- No orfanato, eu gosto de brincar de tudo com meus irmãos órfãos. Mas as brincadeiras e as "viagens" mais emocionantes que eu já fiz, foi lendo livros. Nos livros de Monteiro Lobato, brinquei com a boneca de pano Emília, com o sabugo de milho Visconde de Sabugosa, com a Cuca, Narizinho, Pedrinho, com a Dona Benta... Foi muito divertido conhecer o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Fiz passeios com Alice na floresta encantada, no País das Maravilhas. Joguei o "Jogo do Contente", com a Poliana. Na selva amazônica, através dos livros, conheço os costumes dos índios Suruís, Cintas Largas, Ianomâmis, Kaiopós, Nhambiquaras... Divirto-me com as aventuras de Harry Potter e a "pedra filosofal"... Com o Pequeno Príncipe, aprendi que “Somos eternamente responsáveis pelas pessoas que cativamos”. Ah! Professora, tudo o que eu sei encontrei nos livros. Quem não se agrada de ficar horas na companhia dos livros, ainda não aprendeu a melhor brincadeira do mundo. - Bonina, na falta de um termo apropriado, afirmo que você é uma menina especial. - elogiou-a sua mestra. - A propósito, a professora sabe quando separado é junto, e tudo junto é separado? A professora pensou um pouco, afirmou não saber a resposta e perguntou em seguida: - Você sabe a resposta para essa pergunta que me fez? - Claro que sei! São as letras da palavra "tudo junto" que são separadas, e da palavra "separado" as letras são todas juntas. É uma brincadeira professora! - exclamou Bonina. No momento seguinte, professora e aluna estavam se desmanchando em gargalhadas. Desse modo, todos que residiam na cidade onde Bonina morava, conheciam ou tinham ouvido alguma história sobre a menininha mais inteligente do mundo.

CAPÍTULO II
CONHECENDO O MUNDO AMAZÔNICO
Com nove anos incompletos, Bonina concluiu a quarta série do Ensino Fundamental. Nos livros de geografia, a menina analisava os aspectos humanos e naturais mais importantes de nossa terra. A maior parte da superfície da Terra está coberta de água - água salgada - que formam os oceanos, comumente dividida em quatro grandes partes: oceano Pacífico, Atlântico, Índico, e Glacial Ártico. O maior é o Pacífico. As "terras emersas" estão agrupadas em seis partes chamadas continentes: Europa, Ásia, África, América, Oceania e Antártida. Com exceção da Antártida - o "continente branco" quase todo coberto de gelo, que é patrimônio de toda a humanidade - os demais continentes estão divididos em países, cerca de duzentas nações.

Bonina passou a conhecer melhor seu país através dos livros de geografia. O Brasil inteiro: corpo e alma. Em extensão de terras é o quinto maior do mundo. É maior que todos os países da Europa juntos. Ficando atrás apenas da Rússia, Canadá, China e dos Estados Unidos. Suas terras estão entre as mais antigas do planeta. Nelas viveram os maiores animais do mundo, como os grandes dinossauros (quem quiser conferir, pode visitar o "cemitério dos dinossauros", na Paraíba!). Os primeiros habitantes que vieram morar aqui foram os "índios" (apelido que receberam dos europeus). Já fomos, antigamente, conhecidos por ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, Terra dos Papagaios e até Estados Unidos do Brasil. Mas hoje, somos a República Federativa do Brasil ou simplesmente, Brasil. A vasta área onde está situado o Brasil, no hemisfério sul do planeta Terra, praticamente todo território, está compreendida entre o Trópico de Capricórnio (Bonina é capricorniana nasceu em 24 de dezembro) e a linha do Equador (o meio do mundo). "Como será que é o meio do mundo?" sempre se perguntou Bonina. Na festinha de conclusão da quarta série, Bonina foi escolhida para fazer a preleção em nome dos educandos. No palco do teatro ficaram os professores e os alunos que foram destaques naquele ano. Quase não reconheceu sua ama-de-leite naquelas roupas - estava diferente nos trajes clássicos - e ficou feliz de vê-la ali. Notou a satisfação da diretora do orfanato, pois foi ela a escolhida como madrinha. Também se emocionou com a presença dos internos do orfanato "seus irmãos", que foram prestigiar aquela sua vitória. Seu discurso foi breve... Agradeceu aos mestres "Esses incansáveis guerreiros que conciliam suas vidas particulares com a imensa tarefa de nos tornar pessoas melhores!". Concluiu com os agradecimentos e o reconhecimento ao trabalho dos professores, que tornam os alunos aptos para os primeiros passos na longa jornada denominada simplesmente: futuro. Na noite daquele dia memorável da festinha, Bonina fez uma

retrospectiva daqueles primeiros anos na escola. Ficou satisfeita com o sucesso alcançado. Apenas sentiu-se aturdida ao perceber que nada programou para aquelas merecidas férias. Por fim, decidiu ficar o máximo de tempo com os irmãos do orfanato e com sua ama-de-leite. Aquela seria "As férias com a família!" pensou a menina. - Leopoldina Zumira! Eu quero uma conversa importante com você. - exclamou Bonina com olhar de perplexidade. - O que eu fiz de errado? - perguntou timidamente sua amade-leite. A garota fez um breve suspense e articulou: - Posso chamá-la de "preta"? É tão original. - balbuciou Bonina com sorriso maroto. - Estou de pleno acordo! Desde que você me permita chamá-la por "nanny". - sentenciou Leopoldina. Ao perceber o sono se aproximar, Bonina pegou seu boletim abarrotado com excelentes notas, estendeu-o, olhou fixamente nos olhos de Leopoldina e depois lhe disse: - Esta é uma minha forma de agradecê-la por tudo que fez por mim, o "meu melhor" que pude realizar, só consegui por causa da sua grandiosa ajuda. No momento seguinte, as duas abraçavam-se fortemente e lágrimas rolaram, sem que as duas pudessem evitá-las. Nada foi preciso dizer naquela ocasião, o "silêncio" tudo disse. Era tarde naquela noite, quando Bonina e sua ama-de-leite despediram-se para dormir. - Boa noite, Preta! - Boa noite, Nanny! Daquele dia em diante, para Bonina sua ama-de-leite passou a ser simplesmente "preta", e para Leopoldina Zumira, a pequena garota era a sua "nanny". Muito cedo, na manhã seguinte, com um sorriso escancarado no rosto e uma carta na mão, a diretora do orfanato acordou a garota Bonina. - Menina! Menina! Você é realmente um orgulho para nossa instituição!

- Mas o que está acontecendo? "Nunca ocorreu de a diretora acordar-me!" - pensou Bonina ainda esfregando os olhos em sonolência. A diretora não perdeu tempo, ali mesmo, expôs os motivos da sua euforia: - Estava eu há uma semana preocupadíssima, ansiosa, querendo encontrar uma idéia que pudesse viabilizar a realização da festa natalina deste ano. O orçamento do orfanato está limitado. Repentinamente, há poucos instantes, recebi um telefonema da parte de uma agência de viagens turísticas me perguntando se você, Bonina, estava ciente da premiação do Concurso de Redação. Eu respondi que de nada estava sabendo. Foi quando a secretária me revelou sobre uma carta enviada para você. A diretora fez uma pequena pausa, constatou que Bonina estava desperta, e continuou: - Tínhamos nos esquecido no meio das nossas correspondências, por causa da festa de formatura. Aqui está! É pra você. A secretária me adiantou que, além da sua premiação, o corpo administrativo daquela agência de viagens irá nos fazer uma volumosa doação, depois que ficaram sabendo da precária situação financeira da instituição. Mais que depressa Bonina sentou-se na cama. - Meu Deus! É verdade! Eu... eu não esperava ganhar esse prêmio! Participei do concurso apenas para reavivar um sonho meu de conhecer a Amazônia. Inscrevi-me secretamente, não queria que ficassem sabendo que eu participei... - Mas por que você fez isso menina? Arrancando a carta das mãos de Bonina, a diretora leu o conteúdo em voz alta: "Parabéns! Sua redação foi escolhida com admiração por parte de nossos diretores. Conforme os critérios estabelecidos por nossa empresa, lhe serão fornecidas as passagens para uma viagem com acompanhante, para conhecerem a Região Norte do país, com todas suas despesas pagas. Atenciosamente, seus admiradores, ansiosos por conhecê-la

pessoalmente". A administrante do orfanato limitou-se a dizer: - Pois se prepare! Esse seu sonho irá se realizar. Assim que a chefe se retirou para informar os demais funcionários sobre o novo feito da órfã especial, os pensamentos de Bonina foram arremessados ao dia em que depositou o envelope na urna "Não escrevi nada de extraordinário!" passando a conceber na imaginação o conteúdo da sua redação.

SERÁ O BIG BANG UMA FARSA?
Por causa da sua complexidade, pouco me interesso por esse assunto. Não ousaria nem mesmo precisar a época. Sei muito pouco sobre seus defensores. Mas a tese de que o Universo proveio de uma grande explosão é defendida há várias décadas, para não dizer centenas de anos. Alguns cientistas conhecedores dessa teoria argumentam que o Universo surgiu de uma casualidade e o princípio de tudo é a Evolução. Existem milhões dos que acreditam nessa hipótese. Talvez os que crêem nessa possibilidade tenham vários argumentos para defendê-la, até mesmo desacreditando a existência do Arquiteto do Universo e do seu poder de ter criado tudo que existe. Eu, particularmente, prefiro não acreditar nessas teorias que vêm a colocar por terra a existência do Criador Inteligente, que tudo fez existir. Também não sou conhecedora dessa causa, muito menos uma cientista. Sou apenas uma criança, mas tenho comigo minhas idéias e gostaria de compartilhar com as pessoas. Não pretendo apresentá-las como a "verdade" suprema. Portanto, é provável que algumas pessoas discordem do que irei escrever sobre o que acredito da Criação. Alguns meses atrás, uma pessoa queridíssima que faz parte do meu círculo de amigos, me deu a notícia de que, em breve, seria mãe. Não sei se por ser o primeiro filho, seus olhos brilhavam de felicidade e, com isso eu também fiquei feliz. Aqui alguém pode sugerir essa pergunta: "O que esta amiga dela tem a ver com o big bang ou a Criação?" E eu direi: esta semana que passou, encontrei-me com essa amiga recostada em uma mesa, com sua aparência um tanto esgotada. Eu querendo reanimá-la, ao

cumprimentá-la disse que em breve aquela criancinha que lhe consumia estaria no mundo e lhe daria muitas felicidades. Sua reação seguinte me fez escrever sobre esse tema. A faxineira do orfanato, minha amiga, tem consciência de que aquele simples feto de há meses atrás, se transformou numa criança. Mesmo abrigada dentro de sua barriga, ainda não completamente formada, sente emoções e reage segundo tudo o que ela (a mãe) faz. A criança sorri, pensa, sonha, comunica-se, adora ouvir músicas (somente as belas melodias). Enfim, já é inteligente e sabe diferenciar o que é agradável ou ruim. Esse acontecimento aparentemente simples é de uma singularidade maravilhosa, me faz acreditar, embora limitada em conhecimento, não posso deixar de ver no óbvio da gestação de uma criança, o poder do Criador. A existência de um Ser verdadeiramente capaz, laborando a serviço da humanidade. Que me perdoem os cientistas, aqueles que defendem a tese da Evolução; os ateus, que em nada acreditam; a todos os que divergem e duvidam da existência de Deus. Na minha simplicidade, que muitos preferem denominar de ignorância, não me permito acreditar que todo esse composto harmônico, formando o universo na totalidade de sua complexidade, tenha vindo a existir por um acaso, uma explosão casuística. Poderia a teoria do big bang se harmonizar? Desde que seja creditado ao Todo-Poderoso, que matematicamente o calculou, assim como quando os homens controlam uma explosão naquele edifício que pretendem demolir. Tudo que acontece na natureza, na Via Láctea ou até mesmo com a menor partícula, é uma continua metamorfose universal, onde cada parte necessita da outra para coexistirem. Melhor, em outras palavras: não existe uma só parte isolada, e sim aspectos de uma coisa só que denominamos infinito universo. E você, em que acredita? Os empresário-jurados ficaram abismados com o raciocínio da menina de oito anos, que conseguiu harmonizar as teorias da Evolução e da Criação no mesmo conceito, numa fórmula simples. Concorrendo com alunos na faixa etária entre oito e quinze anos, a redação de Bonina foi consagrada com unanimidade pelos

julgadores. Na tarde daquele dia, a diretora do orfanato assinou um contrato com a agência de viagens. E Bonina, com apenas oito anos, conseguiu seu primeiro emprego - garota propaganda - "Foi graças a minha grande dedicação aos livros, que tenho o meu primeiro emprego!" alegrou-se Bonina. Desse modo, naquelas férias em que tinha decidido ficar no orfanato, foi conhecer a Amazônia. "Moro num país tropical... Abençoado por Deus..." Bonina ficou o dia todo cantarolando aquela música nos corredores do orfanato. "Um dia ainda quero viajar e conhecer cada palmo desse chão!" lembrando da música sertaneja, Bonina pensou refletidamente. A comissária de bordo acabara de passar servindo um lanche. No colo da sua "preta", olhando da janela do avião, Bonina enxergou aquele emaranhado de edifícios no meio da selva. Naquela manhã ensolarada a menina, Leopoldina e o casal de jovens que foram designados pela agência para acompanhar aquela viagem, preencheram as fichas de hóspedes do Hotel Vila Rica. Bonina estava certa de que não era apenas um daqueles sonhos de conhecer a Região Norte, a lembrança estava fresca como a voz jovial que ecoou naquele avião: "Passageiros! Procurem seus lugares... Coloquem seus cintos! Em poucos instantes estaremos aterrissando no Aeroporto Internacional Jorge Teixeira, na cidade de Porto Velho..." Naquela tarde visitou uma loja que vendia artigos de biojóias (artesanatos confeccionados com materiais genuínos da rica flora amazônica). Ficou observando por alguns momentos "As Três Caixas D'água", um dos marcos do desenvolvimento da região pelos povos do mundo; admirou-se de ainda estarem em perfeito estado de conservação após tantos anos. Depois foi a uma livraria em frente ao hotel. "Se estiver interessada em conhecer a verdadeira história da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, terá que adquirir o livro Ferrovia do Diabo!" Pelo modo contundente da atendente, Bonina se deixou convencer e comprou o livro do

historiador paulista Manoel Rodrigues Ferreira. Logo cedo, na manhã seguinte, decidiu conhecer o "museu" da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Fez um pequeno passeio de trem até o vilarejo de Santo Antonio e lá, observou as correntezas do rio Guaporé, que deslizam fortemente sobre grandes pedras. No passeio de barco, no rio Madeira, fez contato pela primeira vez com os "ribeirinhos", habitantes das margens dos diversos rios que povoam a vasta região amazônica. "Tanto mais respeitável e temida for a fortaleza, tanto mais firme e segura será a paz e a tranqüilidade por essas partes!". Apegando-se a esse princípio, a Coroa portuguesa lançou a pedra fundamental em 20 de julho de 1776 e inaugurou a 20 do agosto de 1783 o Real Forte Príncipe da Beira, na margem direita do rio Guaporé. Essa é uma das tantas fortalezas que foram construídas para proteger o Brasil das invasões holandesas, espanholas, inglesas, francesas, bolivianas, peruanas... O Forte contém novecentos e setenta metros de perímetro, muralhas com dez metros de altura, entre quatro baluartes, cada uma com quatorze canhoneiras. Em sua volta ainda se verifica o fosso obstaculante da passagem e o portão de três metros de altura, localizado na muralha norte. No interior existe quatorze residências para oficiais, além de capela, armazém e depósito. Na muralha sul, um portão menor. Entre um baluarte e outro, as cortinas medem noventa e dois metros e são duas muralhas paralelas de pedras canga, entre as quais existe um aterro formando um parapeito de seis passos. Vendo de perto aquele elefante de pedras, é difícil não se impressionar com o extraordinário trabalho que foi construí-lo: a cal de pedra subiu pelo rio Madeira, vindo de Belém (mil alqueires). Também os pedreiros provieram de São Paulo, Belém e Mato Grosso. Os canhões vieram do Pará; a viagem durou cinco anos. - Preta! Como poderia passar na imaginação de alguém que existe este colosso construído nestes confins amazônicos? - perguntou Bonina, arrebatada diante das ruínas da fortaleza. - Nanny, é maravilhoso que tivemos o privilégio de conhecer este lugar. - confessou Leopoldina.

- Você sabia que o Brasil já foi dividido em duas grandes partes e que todo este território amazônico foi propriedade dos espanhóis? - Sei! Mas não exatamente como e quando aconteceu. - Foi através do Tratado de Tordesilhas, em 1494, assinado entre Espanha e Portugal antes do "descobrimento" do Brasil. A região deveria pertencer à Espanha, pois realmente foram os espanhóis os primeiros exploradores europeus a atingir a região amazônica: Alonso de Ojeda, Américo Vespúcio, Vicente Yáñez Pinzon e Diogo de Lepe, por volta de 1499, antes ainda que Pedro Álvares Cabral desembarcasse em Porto Seguro em 1500. Entretanto, coube a Francisco de Orellana ser o primeiro espanhol a adentrar esta região em 1541. - informou Bonina. - Conhecer este lugar ao seu lado, Nanny, torna essa viagem ainda mais atraente. - A recíproca é verdadeira, Preta! "O pulmão do mundo!" ousou alguém certa feita dizer sobre a Amazônia. O Acre é o estado símbolo da luta pela preservação da floresta e pelo desenvolvimento sustentável, sobretudo após a morte de Chico Mendes. Bonina esteve na "Casa Museu" do ambientalista e líder sindicalista dos seringueiros, assassinado em 22 de dezembro de 1988. Também visitou os "índios exportadores": os Yawanawas, na região do Tarauacá, que vendem urucum para as indústrias de cosméticos dos Estados Unidos. Ressentiu-se quando foi impedida de visitar o Parque Nacional da Serra do Divisor, extremo oeste do Brasil. Mas alegrou-se grandemente ao perceber escorrer uma lágrima branca (látex) que forma a borracha quando fez um corte numa seringueira (hévea), e ao comer castanha-do-pará. "Huuuum! Como é saborosa!" Bonina ficou simplesmente extasiada com o sabor da castanha. Em Roraima, Bonina visitou a maior reserva indígena brasileira, a dos Ianomâmis. A reserva é palco de conflitos constantes com garimpeiros clandestinos, atraídos pelas extensas jazidas de ouro, cassiterita e pedras preciosas. Quando Bonina soube dos conflitos entre índios e garimpeiros, ficou triste. Mesmo

que à distância, não dispensou observar a cadeia montanhosa que abriga o Monte Caburaí, ponto mais ao norte do país. No Amapá, a floresta se mantém quase totalmente intacta. Na capital, Macapá, Bonina fez compras na Zona de Livre Comércio. O Amapá abriga o Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque, maior parque tropical do mundo. Essa área de preservação da natureza forma um imenso corredor de biodiversidade onde estão as nascentes dos maiores rios daquele Estado, como o Oiapoque, o Jarí e o Araguari. Nesse último acontece a maior "pororoca" do litoral brasileiro. Até surf é praticado quando ocorre o fenômeno. O mar sobe, uma onda de maré invade os rios que formam o estuário do rio Amazonas e colide estrondosamente com a massa de água doce que flui na direção contrária. No Araguari, a pororoca avança rio adentro e arrasta tudo que estiver no leito. Em Macapá é possível passar de um hemisfério a outro apenas atravessando uma rua porque a capital é dividida pela linha imaginária do Equador. - Preta, me peguei tantas vezes sonhando com este lugar. - desabafou a menina angelicalmente, quando visitava o monumento do Marco Zero. "Eu estou no meio do mundo!" Bonina gritou bem alto e envergonhou-se do que fez quando percebeu que todos ali olhavam para ela. - Nossa! Como fomos longe, Nanny! - disse Leopoldina, disfarçadamente. - É mesmo! Demos um passo muito longo! - abismou-se Bonina. Fizeram passeios de barcos nos igarapés da foz do rio Amazonas e freqüentaram o Museu Sacaca (o nome "sacaca" homenageia um curandeiro cujo apelido deriva de uma planta tradicional usada para baixar o colesterol). À tarde, visitaram a Fortaleza de São José (construção portuguesa do século XVII), e fizeram suas refeições noturnas nas baiúcas da "Zagurí", localizadas na orla do rio Amazonas. Ao chegarem à capital do Amazonas, Leopoldina percebe

uma mudança de comportamento na menina... - O que está acontecendo com você, Nanny? - pergunta Leopoldina bondosamente - Me parece tão ausente! Posso ajudála? Esqueceu-se de que somos amigas? Vamos! Diga-me alguma coisa! - Preta, vou te confessar um segredo. - Eu sabia que algo estava errado! - disparou Leopoldina. - Não há nada de errado, Preta. É que quando eu me inscrevi no concurso, não pretendia somente conhecer esta região belíssima. - Mas o que você está dizendo Nanny? - É a verdade, Preta! Por incrível que te possa parecer. Depois que você me presenteou com aquele jornal, passei a alimentar um fio de esperança de encontrar minha família. Eu soube que na época em que nasci, existiu uma jovem nortista, doméstica, na casa de uma senhora portuguesa, nas proximidades de onde fui encontrada. Falaram-me dela: com medo de perder o emprego cedeu aos assédios do patrão e engravidou. Quando a patroa soube do acontecido, ficou furiosa, expulsando a moça de sua casa. Coincidentemente, naquela ocasião, sua gravidez estava no nono mês. Entendeu? - Ora! Você não está supondo que essa jovem doméstica possa ser sua mãe, está? - Eu telefonei para o casal, no início relutaram, mas depois com minha insistência eles me forneceram as informações que tinham sobre a moça. Inclusive me cederam o endereço onde ela pode ser encontrada. Então Bonina fez uma pequena pausa e recomeçou: - Preta, o endereço fica aqui em Manaus! É preciso que me acompanhe a este local! Eu pretendo conhecer essa moça! Talvez ela possa ter voltado para casa dos pais e seja minha mãe. Compreendeu agora o porquê, também, de participar daquele concurso? - Nanny, meu anjo! Farei isso com imenso prazer! Realmente, como previu o casal, a moça retornou para sua parentela. Sabendo da história, a mulher ficou abismada com a

perseverança da garotinha Bonina para encontrar sua mãe. A doméstica começou a lamuriar-se num súbito ataque de choro, entre um soluço e outro, confessou: - Me envergonho do pensamento de abandonar minha filha. Ainda bem que recuperei a razão. Efetivamente, não me achei capaz de desprezar minha filha Deise. Enxugou as lágrimas do rosto e depois lamentou por não ser ela a mãe da garota Bonina... Aquela aventura acabou com as duas garotinhas capricornianas se divertindo e brincando com os jogos de montagens. - Nanny, você pode até não ter encontrado sua mãe. Mas foi digna de realizar um grande feito! Orgulho-me muito de você! confessou-lhe Leopoldina, quando retornavam para o hotel. - Ah, Preta! Era bom demais para ser verdade. - falou Bonina tristemente. - Mas veja o lado bom de tudo o que aconteceu: estamos conhecendo esses lugares encantadores e fizemos novos amigos. - disse Leopoldina tentando reanimá-la. - É verdade, Preta. Está sendo maravilhoso conhecer esses lugares e estamos fazendo muitos amigos. - convenceu-se Bonina. A partir desse dia, Leopoldina passou a circundar Bonina de um amor mais devotado. "Estamos na floresta com a maior biodiversidade do mundo! Somente aqui no estado do Amazonas existe uma fauna imensa, estimada em centenas de espécies de mamíferos, milhares de peixes e de pássaros. Os cientistas consideram que aqui existam milhões de espécies de plantas. A bacia do rio Amazonas, formada pela união dos rios Negros e Solimões concentra um quinto da água doce do planeta!" Assombrada Bonina assegurou. As raízes indígenas e nordestinas estão presentes na culinária da região, que têm no peixe a base de seus principais pratos, como a moqueca com postas de Tucunaré e Surubim. A menina Bonina se empanturrou com os pratos amazônicos. "Desse jeito vou acabar engordando!" Espantou-se com seu grande apetite pelas guloseimas da Região Norte.

Na Zona Franca de Manaus passearam, observaram as vitrines recheadas de eletrodomésticos, novidades eletrônicas e fizeram pequenas compras. Foram à ópera no "Teatro Amazonas", um dos mais belos do Brasil. Visitaram a "Ponta Negra", na orla do rio Negro, ponto favorito dos turistas que chegam à Manaus. Depois foram até a "cidade dos peixes ornamentais", que abastecem aquários no mundo todo com seus peixinhos coloridos. Ficou encantada com o nado dos botos cor-de-rosa. "Parecem golfinhos coloridos!" Disse Bonina ao avistar os botos amazônicos. A viagem de Manaus até o oceano Atlântico, a menina decidiu improvisar nas embarcações regionais e fazer parada nas pequenas cidades. Essa turnê durou quinze dias. Poucas horas depois da partida avistaram uma pequena cidade, onde ocorre a mais esplendorosa expressão da cultura amazônico-nordestina. A ilha abriga os bois "Caprichoso/azul" e "Garantido/vermelho". Na arena eles se enfrentam em três noites de festa, embalados pelo som contagiante das "toadas", música envolvente genuinamente amazônica. "Como pode um lugar tão pacato ser responsável pela maior festa cultural da Amazônia?" perguntouse Bonina. Mas é verdade, em meados do ano o Festival de Parintins atrai pessoas de todas as partes do mundo. Nos rios Tapajós e Amazonas ocorre o fenômeno "Encontros das Águas". Preta! As águas estão mesmo separadas! Igual lá próximo de Manaus! - a menina admirou-se com o fato dos rios dividirem-se por suas águas de cores diferenciadas. Bonina também visitou as belas praias fluviais. Encantou-se especialmente com a praia de Alter do Chão, no rio Tapajós. As "crianças pedintes" partiram o coração de Bonina. Elas se aproximam das embarcações com suas pequenas canoas, na esperança que os viajantes joguem objetos no rio e elas possam pegar. Muitas vezes se aventuram a embarcar e vender alguns artesanatos ou frutas regionais. Em Belém, experimentaram uma culinária diversificada, aromática e de gostos fortes: peixes e molhos apimentados; a deliciosa maniçoba (espécie de cozido preparado com carne de

porco e sumo das folhas tenras da mandioca); o pato no tucupi, prato típico do Estado, no qual a ave é servida com molho de mandioca e ervas; o tacacá (goma de tapioca, molho, folha de janbú cozida e camarão); o "vinho" de açaí... As duas passaram toda aquela tarde na feira do Ver-o-Peso. Foram à praia marítima de "Salinas" e à praia selvagem de Tracuateua. Em Salinas, a menina ficou diante do mar pela primeira vez (Bonina nasceu numa cidade satélite do Distrito Federal e essa foi a primeira vez que viajou). As férias estavam chegando ao fim. Antes de partirem para o estado do Tocantins, Bonina visitou a ilha de Marajó. Foi aos campos alagados, nas praias daquela ilha e nas fazendas de búfalos saboreou o queijo feito do leite daquele animal... - Nossas férias estão próximas de acabar, Preta. - Foram as férias mais felizes da minha vida! Emoções que tive o prazer de compartilhar com você, minha Nanny. Palmas é a mais nova capital brasileira. Fundada em primeiro de janeiro de 1990, mantém o título de mais recente cidade planejada e última a do século vinte no país. O nome de Palmas foi escolhido em homenagem a comarca de João de Palma, sede do primeiro movimento separatista da região. Instalada em 1809, nas margens do rio Palmas com rio Paraná. - Tantos lugares belíssimos, pessoas encantadoras, animais, pássaros, peixes, praias, "nossos irmãos índios!"... - Ah! Foram os dias mais delirantes da minha existência! E não chegamos a conhecer uma décima parte das belezas existentes na Amazônia! - desabafou Leopoldina. A sudoeste está Bananal, a maior ilha fluvial do mundo, delimitada pelos rios Tocantins (que cedeu nome ao Estado) a leste, e Araguaia a oeste. Com fauna e flora variadas, Bananal abriga o Parque Nacional da Araguaia, além de reservas indígenas como a dos Carajás. A menina Bonina também visitou aquele lugar. Praias e pescas esportivas atraem milhares de turistas de todo o país. Existem também os hotéis ecológicos que funcionam ali, onde, na maioria das vezes, são financiados estudos ambientais...

- Será que um dia retornaremos à Região Norte? - perguntou Bonina. - Mesmo que não retorne! As lembranças dessas férias vou levar comigo por toda vida. Sou-lhe muito agradecida, Nanny, foi através do privilégio de Deus tê-la colocado no meu caminho que foi possível viver dias tão maravilhosos. - Eu é que sou abençoada por Ele te colocar na minha vida. - rebateu Bonina timidamente. De volta ao orfanato, Bonina ficou horas nos dias seguintes contando aos irmãos órfãos as aventuras que viveram naquelas férias. Depois lhes presenteou com as lembrançinhas artesanais que trouxeram da Amazônia. Posteriormente, resolveu inventar o "Jogo das Respostas" com os médicos e funcionários do orfanato. Todos acharam uma maluquice, mas concordaram em brincar com a menina. Desse modo, todas as vezes que lhe encontravam, começavam a brincadeira. - Uma cena que não pode ser descrita? Virando os graúdos olhos de um lado para ou outro, Bonina responde: - Indescritível. - Muralha que não se pode destruir? - Indestrutível. - Um rosto que não se pode confundir? - É inconfundível. - Região que não se pode atingir? - É inatingível! - responde Bonina com expressão pensativa. - Uma pessoa que come mais do que deve? - É o glutão. - E as pessoas que têm exagerado amor ao dinheiro? - Essas são pessoas avarentas - foi a resposta da garota. Ao se encontrar com um dos médicos que trabalhava no orfanato, a brincadeira continuou: - Qual dos doutores cuida das crianças? - O pediatra! - respondeu Bonina. - E dos idosos? - É o geriatra. - E quem cuida dos nossos olhos?

- Esse médico é o oftalmologista! - respondeu a menina. - E da nossa pele? - O dermatologista! - E o doutor que cuida dos nossos dentes? - É o odontologista. - Muito bem Bonina! Poderia dizer qual o profissional da saúde que cuida do nosso coração? - Esse profissional se chama cardiologista. Já de costa para a menina, o médico pergunta: - Qual o especialista que se ocupa do tratamento das moléstias do ouvido, nariz e garganta? - É o otorrinolaringologista. - Você está certa, pequena dama do orfanato, você está certíssima! - sorrindo aquele doutor se despediu de Bonina. A diretora ouviu o médico elogiar Bonina e resolveu continuar com aquela brincadeira: - Qual a capital do Egito? - Cairo! - respondeu Bonina imediatamente. -E a capital da Índia? - Nova Delhi! - Quem nasce na Inglaterra? - É o inglês. - responde a menina. - E na Bolívia? - O boliviano. - Duvido que você saiba a próxima resposta! Quem nasce na Guatemala? - O guatemalteco! Estou certa? - Incontestavelmente! - afirmou a diretora já querendo encerrar sua participação na brincadeira. Leopoldina sabendo que o assunto atual mais importante para Bonina era sobre a viagem que fez para Região Norte, e a diretora com pressa, mas não conseguindo se livrar daquela brincadeira, resolve intervir. - Nanny! O Diego não está acreditando sobre aquele local onde existem as piscinas com água mineral. - Você não deveria desacreditar na Preta! Eis que vou te

relatar sobre aquele local fabuloso: o lugar se chama Cacoal Selva Park Hotel e fica na região central do estado de Rondônia. Naquele ambiente, nos sentimos como se estivéssemos verdadeiramente na Amazônia. É viver uma prazerosa aventura ecológica só o fato de se encontrar ali! Nos bangalôs, áreas de camping, passeios de barcos com indescritíveis belezas cênicas e a prática do arborismo... Araras de cores variadas, antas, capivaras, macacos, jabutis... O pirarucu, maior peixe da Amazônia, e uma infinidade de peixes... Todos no seu habitat natural! O ecossistema daquele lugar permanece harmônico e preservado! Quando alguém visita aquele local, tem a impressão de se encontrar verdadeiramente num lugar paradisíaco! É desse lugar que a Preta estava lhe falando. Lá, as piscinas são abastecidas com água mineral... Um mergulho naquelas águas cristalinas é o mesmo que "lavar a alma". Quando a menina conclui seu relato sobre o Cacoal Selva Park Hotel, notou que o irmãozinho órfão respirou fundo, como se a história o tivesse levado até aquele lugar encantado. O choro de uma criança foi ouvido e o garotinho Diego regressou à sua realidade: o orfanato.

CAPÍTULO III
ENCANTANDO-SE COM O PANTANAL
Com a memória repleta de informações e as lembranças das férias que passou na Amazônia, Bonina iniciou suas atividades escolares no quinto ano do Ensino Fundamental. Naquele primeiro dia, sentiu dificuldade de se relacionar. "Os garotos e garotas são bem maiores que eu!" Pensou a menina. Ainda maior foi o constrangimento que certo garoto a fez passar, quando a professora acabou de se apresentar para a turma. Apontando seu indicador ameaçador contra Bonina, sentenciou: - Professora! Acho que aquela menina entrou na sala de aula errada, ela é tão pequena. - Filho, há quanto tempo sua família chegou a esta comunidade? - perguntou a professora. - Estamos com dois meses aqui na cidade! Meu pai é um promotor de Justiça e foi transferido para cá. - respondeu o jovem. - Ah! Então está explicado o porquê de você não conhecer

aquela garotinha... E já que estamos iniciando o ano letivo, a tradição recomenda nos apresentarmos. Assim sendo, sugiro que façamos um círculo com as carteiras. Em seguida, darei dois minutos para que cada aluno faça sua apresentação. Quanto ao seu questionamento, meu caro jovem: quero informá-lo que o nome daquela menina é Bonina. Ela faz, sim, parte nesta turma e nós, professores, nos orgulhamos de tê-la aqui neste colégio. Bonina se mostrou humilde e isenta de qualquer vaidade. - Obrigada! Pela parte que me toca. - disse Bonina educadamente à professora. - Sei! O pai dela deve ser o prefeito, um juiz, ou quem sabe um empresário ricaço. - O garoto falou baixinho, não muito convencido - vou fazer de conta que seja verdade, está bem? piscou o olho conspiradoramente ao colega do lado. A menina Bonina permaneceu calma e tranqüila, sem nenhuma demonstração de exibicionismo e com certa dose de equilíbrio. No estudo das ciências, na quinta série, Bonina já estava familiarizada com a composição do solo, água e ar; com os seres vivos, tinha noção da classificação por sua espécie; distinguia o funcionamento de cada órgão e sistema do corpo humano; e estava adiantada na introdução da Química e Física... Nos primeiros dias de aula... "Se conseguíssemos retirar todo esse material e continuássemos nosso processo de divisão apenas com a água, chegaríamos a uma molécula de água. A partir daí, se quebrássemos de algum modo essa molécula, deixaríamos de ter água. Podemos então dizer que a molécula é a parte menor da matéria. Por sua vez, as moléculas são compostas de partículas ainda menores, chamadas átomos. No caso da água, já sabemos que sua molécula é composta de átomos de hidrogênio e oxigênio...". "Toda substância inorgânica de composição química definida, que toma parte na formação das rochas, é denominado mineral... A ciência que estuda as rochas é a Petrografia. Os petrógrafos costumam classificar as rochas em três grandes

grupos, de acordo com sua origem: magmáticas, sedimentares e metamórficas...". "Os solos podem ser formados por areia, argila, calcário e húmus em quantidades muito variáveis. Húmus é um material orgânico resultante da composição de restos de animais e vegetais. Ele fornece vários tipos de nutrientes indispensáveis ao desenvolvimento dos vegetais... Para se desenvolverem bem, as plantas precisam de nutrientes. Esses nutrientes fazem parte dos minerais e são retirados do solo justamente com a água. São eles o fósforo, o calcário, o ferro, o enxofre, o magnésio, o potássio, o cloro e outros...". - Muito bem! Você está certa em todos esses seus esclarecimentos. - disse a professora de Ciências às explicações de Bonina sobre a composição da água, formação do solo com seus nutrientes e a classificação das rochas... Educadíssima e sempre prestando atenção em todas as explicações dadas pelos professores. A classe em que Bonina estuda, é sempre um prazer para qualquer professor, pois ela estimula o esforço de todos na sala de aula. "A língua portuguesa é uma das mais difíceis de aprender do mundo!" gabava-se Bonina da complexidade que tanto lhe seduzia no aprender o Português. "As palavras que indicam os objetos, pessoas, lugares e animais pertencem à classe dos substantivos. As palavras que indicam qualidade dos objetos, pessoas ou animais pertencem à classe das palavras denominadas adjetivos. A sílaba de uma palavra pronunciada com maior intensidade que as demais é denominada sílaba tônica. A sílaba de uma palavra pronunciada com pouca intensidade é denominada sílaba átona. Numa palavra há apenas uma sílaba tônica; retirando a sílaba tônica de uma palavra, as demais são átonas. O verbo é a palavra que transmite ação, estado ou fenômeno da natureza..." - Estou perplexo diante de todos esses seus conhecimentos! - admirou-se o professor de Português. - Não vejo motivo para perplexidade, estou apenas repetindo o que aprendo nos livros. - respondeu a menina. - Realmente, Bonina, seu apego aos livros é que é louvável!

- sentenciou o professor. Na segunda semana de aulas... - O Brasil é composto de vinte seis estados, um Distrito Federal e as ilhas oceânicas! Qual aluno pode me informar quais são essas ilhas oceânicas? - perguntou a professora de Geografia. Notando que todos os alunos ficaram em silêncio, Bonina levanta o braço se prontificando fornecer a resposta. - Diga-nos, querida! - exclama a professora. - São as ilhas que compõem o arquipélago de Fernando de Noronha, as ilhas de Trindade e Martins Vaz, os penedos de São Paulo e São Pedro e o Atol das Rocas. - respondeu Bonina. - Parabéns! Sua resposta é exata. E complementou: - Alguém pode me dizer as definições exatas de um arquipélago, uma ilha, um penedo e um atol? Um silêncio dolorido permaneceu por um longo tempo na sala de aula. - Eu posso professora! - Então nos diga Bonina. - Os arquipélagos são grupos mais ou menos numerosos de ilhas; as ilhas são terras menos extensas que os continentes e cercadas de águas por todos os lados; os penedos são grandes rochas emersas e os atóis são ilhas rasas, quase ao nível do mar. - foram as definições dadas por Bonina. - Perfeitamente! - empolgou-se a professora. - Céus! Essa menininha sabe tudo? - pergunta baixinho o filho do promotor de Justiça ao aluno do lado. - Você ainda não viu nada! - Vingou-se o garoto amigo de Bonina, que tinha recebido aquela piscadela conspiradora no primeiro dia de aula. - Cale-se! E aprenda com ela. - disse secamente. O casal de jovens que acompanhou Bonina e Leopoldina na viagem ao norte do Brasil, fez um excelente trabalho: fotografou e registrou imagens espetaculares em vídeo e áudio. Os sentimentos inocentes da menina em contato com animais e lugares selvagens foram ressaltados de forma brilhante.

Isso deixou Bonina muito feliz, quando recebeu as cópias das fotografias e filmagens. Dois meses depois que recebeu as cópias das fotos e os filmes, a vida da garota mudou de maneira drástica; quando a agência iniciou uma grande campanha publicitária, enviando para suas filiais em diversas cidades brasileiras e no exterior o material publicitário. A menina mais inteligente do mundo apresenta para o mundo a culinária, os pontos turísticos, os locais para práticas de esportes radicais, as festas culturais e religiosas, os encantos amazônicos... Na tevê, nos jornais, em folders, nos outdoors e entrevistas, em quase todos os locais suas imagens estavam presentes: Bonina fazendo sua refeição com os índios. A menina visitando os museus e teatros. A garota brincando com os macacos, as araras, os botos cor-de-rosa (os golfinhos amazônicos). A pequena nas embarcações, aventurando-se nos diversos rios que compõem a bacia amazônica... Foi um estrondoso sucesso! Se refletido nas passagens vendidas. Passageiros de todo o país querendo embarcar para um ou outro lugar na Amazônia. Até do exterior chegavam turistas com mais freqüência. Os brasileiros querendo conhecer melhor seu próprio país. "Os pacotes para as férias no exterior caíram nas vendas em dez por cento, por outro lado, para a região norte do Brasil será necessário fretar aviões para cobrir a demanda!" - informou alegremente o diretor financeiro, na reunião mensal dos acionistas da agência. - Esta menina é igual ao rei Midas! (O rei mitológico grego da Frígia, na Ásia Menor. O sátiro Sileno, grato pela hospitalidade e pelo cortejo com que Midas o havia apresentado ao deus do vinho Dionísio, ofereceu concedê-lo um pedido. O rei pediu que tudo que tocasse se transformasse em ouro, mas logo se arrependeu de seu pedido, pois até a comida e a água se tornavam ouro com seu toque). - profetizou o gerente geral da empresa Naquele primeiro semestre do quinto ano do Ensino Fundamental, não foi mais possível Bonina freqüentar as aulas normais no colégio. Passou a receber lições particulares no orfanato, por causa de sua popularidade e da pouca idade. Sua

presença na sala de aula a constrangia, tanto quanto aos outros educandos. Alguns poucos alunos até passaram a hostilizá-la, sendo ela pequena e tão inteligente. - Se não bastasse todas as pessoas me cumprimentando nas ruas! Agora alguns estudantes maltratam-me na escola. O que eu fiz de mal para eles, Preta? - perguntou tristemente Bonina quando ficou sabendo que não mais iria fazer suas aulas na escola. - Você nada fez, Nanny! É que algumas pessoas por inveja, mau educação ou sei lá o porquê, acabam não gostando das outras pessoas. - proferiu sabiamente Leopoldina na intenção de consolá-la. O sucesso foi tanto que os diretores da empresa, temerosos que outra companhia pudesse interessar-se pela menina, decidiram invalidar o contrato e fazer outro mais amplo. Com agilidade de boa negociadora, a diretora do orfanato conseguiu estabelecer no contrato uma mesada, depositada numa conta bancária, que Bonina pudesse usufruir quando alcançasse sua maioridade; uma doação mensal para o orfanato; um Plano de Saúde com cobertura total e vitalício; escola particular para Bonina até sua conclusão do ensino superior; passagens livres nos aviões e ônibus das empresas filiadas à agência; assim como receber cópias de todas as fotos e filmagens feitas nas viagens. Apenas ficou reservada para a agência, a manipulação comercial do material coletado. A agência não se importou com as despesas extras escolares de Bonina. "Assim ela não precisará cumprir aquelas intermináveis horas em sala de aula, podendo a qualquer momento viajar e conhecer o Brasil! Pois não é Bonina a garota mais inteligente do mundo?" Animou-se o diretor geral da agência quando soube do ocorrido. Desse modo, a vida da menina seguiu seu curso... Naquelas férias de julho foi excepcional conhecer um dos mais belos arquipélagos do mundo. E a agência registrou cada reação da garotinha Bonina. Um vulcão entrou em erupção, resultante do afastamento ocorrido entre a África e a América do Sul. Há doze milhões de anos. Esse e mais outros eventos vulcânicos deram origem a

uma montanha submarina com aproximadamente quatro mil metros de profundidade e uma base de sessenta quilômetros de diâmetro em pleno oceano Atlântico. "Meu Deus maravilhoso! Então foi assim que surgiu um dos mais belos arquipélagos?" admirou-se Bonina, lendo o informe e ao mesmo tempo retirando as roupas das malas com uma das mãos; não demonstrou interesse em largar o informativo turístico, encantada com tantas informações. O azul celeste no céu. A jangada lá longe, distante, a perder de vista. O pescador com sua rede artesanal. Bonina pouco se entusiasmou com a arte do pintor local expressa na tela. Como esperar que aja outra reação ao quadro pendurado na parede daquele quarto quando tudo à sua volta é tão lindo e surpreendente? Os raios de sol entravam pela porta que dava entrada para a sacada do quarto. Ouviu o canto dos passarinhos. Deixou o folheto de lado e deu alguns passos adiante. Escorregou a porta fazendo um movimento contrário. Inspirou fundo e vagarosamente, diante do panorama natural. Bonina sentiu-se verdadeiramente cercada pelo grandioso oceano Atlântico. Respirou novamente, profundo e pausadamente; era como se o ar, invadindo seus pulmões, levasse uma corrente de paz, acalentando sua alma. Ficou contente de se achar ali, na varanda daquela pousada, na Vila de Nossa Senhora dos Remédios, no arquipélago de Fernando de Noronha. "Não poderia ter escolhido melhor lugar para descansar nas minhas férias de julho!" convenceu-se Bonina. Horas depois da sua chegada ao arquipélago, a garota já se encontrava adormecida, dominada por um sono leve. Uma hora antes saboreou apetitosos mariscos, sugestão do proprietário do restaurante. Ao perceber que Bonina não acordaria a tempo para o passeio vespertino, Leopoldina antecipou-se. - Nanny! Nanny! Apresse-se, caso não queira perder a caminhada. A trilha é percorrida a pé, normalmente no dia da chegada na ilha, no período da tarde. Bonina ficou maravilhada com os monumentos históricos, a igreja, o museu, os casarios em estilo

colonial e o Palácio de São Miguel. No segundo dia conheceu a praia do Cachorro e da Conceição. Naquela tarde, deslumbrouse com o pôr do sol visto da Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios e maravilhou-se com o cenário do Morro do Pico, o ponto mais alto da ilha com trezentos e vinte e três metros de altura. Sua estada ali foi enriquecida culturalmente com o passeio marítimo ao Rochedo das Pedras Secas, localizadas no mar-defora, distantes do conjunto do arquipélago, na direção da praia de Atalaia e da Enseada da Caeira... - Preta! Este lugar foi chamado de "escolhos" por Américo Vespúcio, em 1503, na sua carta descritiva da abordagem feita face ao naufrágio ocorrido nessa proximidade. É neste lugar onde começa a história oficial de Fernando de Noronha. A data de 10 de agosto é comemorada pelos habitantes da ilha. - Como você sabe disso? - perguntou Leopoldina. - Ora! Onde eu encontro essas informações se não nos livros, Preta? - justificou-se Bonina, fazendo apologismo. "Este é o Rochedo Dois Irmãos, são duas ilhas muito semelhantes entre si, formadas por rochas vulcânicas de cor escura, sobre as quais existem depósitos de "guano", que lhes acrescenta um ar esbranquiçado de rara beleza. É o mais significativo formato de afloramento vulcânico do arquipélago, tendo inspirado uma das famosas lendas de Fernando de Noronha: a Lenda do Pecado, que o considera os seios de uma mulher gigantesca, petrificados por castigo de haver pecado". Informou o guia turístico. No quarto dia já estava preparada para o "batismo" (certa modalidade de mergulho para principiantes que é oferecida aos visitantes de Fernando de Noronha). E no oitavo dia recebeu um telefonema da diretora do orfanato, informando-lhe sobre certa pessoa que tinha visto uma entrevista de Bonina na tevê: "Ela diz que está certa de saber quem é sua mãe!" Disse a diretora efusivamente. Naquele mesmo dia Bonina encerrou suas férias no Arquipélago de Fernando de Noronha e voltou para sua pequena "cidade satélite". Uma mulher muito jovem contou sua história...

Quando ela estava com dezesseis anos teve um casal de amigos com a mesma idade e que na época estavam perdidamente apaixonados um pelo outro. Ambas as famílias dos jovens não concordavam com aquele namoro. Sua amiga era sempre muito descuidada, muitas vezes apareceu no colégio com meias trocadas e as coisas pioraram quando esqueceu de usar camisinha nas relações... "Não sei o que fazer para esconder a gravidez!" Confessou-me essa amiga certa vez. Quando a família dela ficou sabendo decidiu excomungá-la, dizendo-lhe que não era mais bem-vinda na casa dos pais. O casal de amigos ficou na cidade até o nono mês da gestação. "Assim que o bebê nascer, vou abandoná-lo e sumir do mapa!" Essas foram as últimas palavras que ouviu da jovem amiga. Logo depois, o casal de adolescentes sumiu da cidade. Somente recentemente receberam uma correspondência daqueles jovens amigos do passado. São agora dois hippies. A jovem mulher informou que a data dos acontecimentos coincide com o mês do nascimento de Bonina. "Acho que essa minha amiga pode ser sua mãe!" disse a mulher dedutivamente para Bonina. "Não posso lhe dar certeza porque o endereço que está no envelope é de uma pensão na cidade de Goiânia, e não consta na lista telefônica qualquer telefone para aquele endereço." Fez uma pequena pausa e afirmou convincentemente: "Caso queira encontrar sua mãe, aqui está a direção que deve seguir!". Dois dias depois, quando Bonina chegou naquela pensão, recebeu a informação que o casal de hippies, com um garoto menor que ela, esteve ali, mas pagou sua conta e saiu logo cedo naquele dia. "É provável que ainda estejam na cidade!" informou o recepcionista do pequeno hotel familiar. - Ouviu Preta? Eu tenho um irmãozinho! - afirmou Bonina com euforia. - Estou tão contente por você, Nanny! - vibrou Leopoldina. Encontraram o casal de hippies um mês depois, na capital do Mato Grosso do Sul. A jovem ainda vive no "mundo da lua". É realmente descuidada. Não teve mais filhos em função de não fazer os acompanhamentos necessários do pré-natal, e seu parto

foi complicadíssimo devido sua pouca idade. Assim, seu útero foi avariado e ela ficou impossibilitada de engravidar novamente. O garoto de fato tem uma estrutura física menor que Bonina. Porém, é um capricorniano da mesma idade. - Por que você não informou na carta que enviou para sua amiga, sobre seu filho? - perguntou-lhe Bonina aflitivamente Tínhamos esperanças de que fosse minha mãe! Nós já percorremos várias cidades nos estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, nas quais você e seu esposo peregrinaram no último mês. - Eu... eu não informei, não? Pensei que minha amiga estava sabendo. - disse a jovem hippie distraidamente. - Sua amiga sabia da gravidez de nove anos atrás! Mas recordava que você tinha dito a ela que iria largar a criança em qualquer lugar assim que ela nascesse e sumir do mapa. Foi isso que sua amiga concluiu. Naquela ocasião, Bonina foi encontrada numa cesta de lixo e todos nós estávamos presumindo que você fosse a mãe dela, entende? - perguntou desesperadamente Leopoldina, diante aquela situação. - Desculpem-me pelo que eu as fiz passarem! Eu não tinha a menor idéia de que o quê vocês me falaram poderia acontecer. Até confesso que naquela época pensei em fazer uma besteira dessas, mas quando olhei para o Filipe a primeira vez, desisti de todos aqueles planos mirabolantes de abandonar meu filho. admitiu a jovem hippie, envergonhada dos pensamentos do passado. As muitas lembranças alegres daquela andança, quando Bonina ficou desejosa de encontrar sua família, ajudaram-na a contentar-se brevemente com a frustração e o ofuscamento de não encontrar a mãe. No Goiás, as duas foram até as cidades que formam a mais importante estação hidrotermal do país, onde as águas quentes afloram das camadas profundas do subsolo, em piscinas naturais que chegam a atingir temperaturas de trinta e sete graus centígrados... - Eu desisto! Nunca vou encontrar minha mãe. - disse

Bonina, tristemente. - Tenha fé Nanny, não se deixe abater. Todas as coisas valiosas são difíceis de encontrar. - filosofou Leopoldina, tentando reanimá-la. Na antiga capital goiana, visitaram o centro histórico, cujos casarios com sobrados coloniais e a igreja ressaltam a arquitetura barroca... - Sabe que é mesmo! Você tem razão, Preta. Tudo que é especial não se encontra tão facilmente. - articulou Bonina, já recuperada do desânimo. Leopoldina abraçou-a, deu-lhe um cheiro no olho, e naquele momento nada mais falou. Foram a um dos endereços mais famosos de Goiás: a casa da escritora Cora Coralina. - Sabe, Preta, é uma lástima que na enchente do ano 2001, grande parte do acervo de livros dedicados à Cora Coralina tenha sido destruído. - informou Bonina, já totalmente recuperada da desilusão de não encontrar os pais. - Tenho grande admiração por seus trabalhos e gosto especialmente do seu primeiro livro: Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, que ela publicou com 77 anos. - Leopoldina confessou-se admiradora da poetisa brasileira Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, conhecida mundialmente como Cora Coralina, que nasceu em 1889 e faleceu em 1985 com 96 anos. Depois de comer o peixe pintado servido na receita mais popular daquela região: a mojica acompanhada com banana-daterra ao natural, a menina fez uma promessa a Leopoldina de que, enquanto durassem aqueles dias nos Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, comeria apenas os pratos servidos com peixes. Desse modo, Bonina saboreou o pacu, piraputanga, dourado... - Nanny, caso queira pode comer outros pratos que não com peixes. - falou Leopoldina quando assistiu Bonina devorar alegremente um pacu-peba. - Ah! Se todas as promessas que tivesse feito fossem fáceis assim, queria ter milhares delas para cumprir. - Não seja glutona, Nanny.

- É força de expressão, Preta, força de expressão. - disse Bonina sorrindo alegremente. Foram ao Parque Nacional do Xingu, ali presenciaram uma comemoração indígena da tradição Quarup (festa realizada em homenagem aos chefes mortos e novos líderes). Na Chapada dos Guimarães, encantaram-se com os cânions, cascatas e sítios arqueológicos... "São em parte semelhantes à Chapada dos Veadeiros. Contudo, de beleza única!" Disse Bonina admirada ao observar uma das cavernas existentes ali. "Estas são majestosas obras da natureza que demorou milhares de anos para se formar!" Com firmeza Leopoldina apoiou a observação da menina. No Mato Grosso do Sul, tomaram o mate gelado: "tererê". Na maior planície alagável do mundo, se admiraram com um dos ecossistemas mais importante do planeta: o pantanalmatogrossense, com seus duzentos e dez mil quilômetros quadrados, composto de florestas baixas, savanas, serrados, campos e matas naturais... "Parece infinita a quantidade de pássaros!" Admirou-se Bonina com a grande variedade de aves existente no Pantanal. Tão grande quanto sua admiração pelo ajuntamento de jacarés, foi observar a capivara e uma cobra sucuri, que Bonina avistou bem próximos. "Todos os brasileiros deveriam ter o direito assegurado a visitar este lugar! E é preciso preservar estas belezas naturais para as gerações futuras!" Profetizou Bonina contemplativamente. - Já disse a você que um dia eu quis ser protetora da natureza? - perguntou Leopoldina. - Não! Você nunca me confessou nada parecido, Preta. - No passado, desejei ser uma ambientalista. Sabe aquelas duas árvores em frente ao orfanato? Fui eu que plantei! Quando você ainda era um bebê! - disse Leopoldina, com expressão saudosista. Na serra da Bodoquena, Bonina ficou impressionada com a beleza das grutas e dos rios... Intensa também foi sua fascinação pelas largas avenidas arborizadas no centro da cidade de Campo Grande... Estavam até se divertindo na capital mato-grossense do sul, quando receberam uma ligação da diretora do orfanato:

"Vocês precisam retornar com urgência!". -Mas o que será que aconteceu de tão extraordinário para que fosse solicitada com urgência nossa presença no orfanato? indagou Bonina. - Eu não faço a menor idéia! Mas acho bom nos apressar. respondeu Leopoldina. Na manhã seguinte, Bonina, Leopoldina e a diretora do orfanato, se reuniram... - Suas imagens divulgadas por todos os lugares chamam a atenção de muita gente. Enquanto vocês passeavam esse último mês, atrás dos seus supostos pais, apareceram quatro casais interessados na sua adoção. Eu sei que esta é uma situação embaraçosa para você, Bonina. Mas nós precisamos resolver esta questão como pessoas civilizadas. Afinal, este é um orfanato e me cobram resultados. Outro assunto importante que temos que tratar está aí fora, na sala de visita: apareceu-me certa senhora idosa com uma história, dando-me certeza de que possa ser sua avó. Esse é outro caso que necessitamos resolvê-lo. E tem também os intercâmbios culturais internacionais. Primeiramente, vou chamar a mulher idosa para que possamos conversar com ela... - Eu lembro perfeitamente daquele dia, era um 24 de dezembro, minha filha ficou feliz com a menina. Mas o companheiro dela, Juarez Soares, não gosta de crianças, é um caminhoneiro rude. Minha Madalena tinha acabado de ganhar a criança e aquele homem discutiu com ela, gritou: "Vou sumir e nunca mais voltar!" Minha filha o ama muito. Ele afirmou amá-la e levar minha filha Madalena, mas impôs uma condição: a criança ele não quis "Não tem como viver com uma recém-nascida na boléia de um caminhão!" Foi o que ele determinou. Então, naquele estado fragilizado, naquela tarde, minha filha entregou-lhe a pequenina. Ele saiu com a criança; na manhã seguinte, voltou embriagado e sem a menininha. Disse-nos que ela estava em boas mãos e que a entregou para um orfanato. Não acreditei naquela história dele. Minha filha choramingou os cinco dias seguintes, deu até dó. E aí partiram os dois. Assim que eles viajaram passei por uma crise depressiva, fiquei angustiada. Foi

então que resolvi voltar para Minas Gerais, junto da minha família, e de lá fui trabalhar na Espanha. Nunca mais tive contato com minha filha. No início desse ano retornei para o Brasil e desde então recomecei minha vida onde ela foi perdida... Guardo até hoje esta foto deles junto daquele caminhão nojento de feio. - Monstro! Esse homem é um desumano! - exclamou a diretora do orfanato ao ouvir aquela história. A senhora idosa começou a chorar e Bonina abraçouse a ela. - Esse homem a quem você chama de "monstro" pode ser meu pai! Eu o perdôo pelo que fez. - balbuciou Bonina com lágrimas nos olhos, já acreditando que aquela mulher fosse sua avó. - "Não chore senhora! Por favor, não chore." E aconchegouse a ela. - Perdoe-me, Bonina! Não pretendia machucá-la ou a qualquer pessoa. - desculpou-se baixinho a diretora, do seu acesso de indignação. Minutos depois, o motorista do orfanato foi levar a idosa até sua casa. Despediu-se alegremente, depois que recebeu a promessa da menina Bonina de que iria ajudá-la encontrar sua filha. Decidido o caso da idosa, debruçaram-se na questão da adoção... - Diretora! Pelo que me falou, tenho certeza que os quatro casais interessados na minha adoção são maravilhosos, isso não me resta dúvidas. Mas tenho uma lista infindável de razões para o encerramento definitivo desse assunto. Vou citar alguns: amo imensamente todos vocês aqui do orfanato e, atualmente, considero vocês minha família. A Preta já se manifestou positivamente a adotar-me desde meus primeiros dias aqui no orfanato, sinto com ela o amor de mãe. Se eu tivesse que fazer uma escolha, é com ela que eu desejo ficar. Agora, apareceu esta senhora que a pouco esteve aqui e me forneceu fortes motivos para não desistir de encontrar meus verdadeiros genitores. E se eu localizar os meus pais? Como a idosa mesma disse: a filha dela pode ser minha mãe e a adoção representa eu desistir do meu sonho mais importante. Isso eu não quero! Têm

também os meus amigos da agência, que fazem todos os meus gostos e ainda me pagam para isso, até me deram um bom emprego. Por último, surgiu-me essa oportunidade dos intercâmbios culturais, que me levará para o exterior uma vez por ano para passar dois meses fora do Brasil. Percebeu? Está bem claro! Não necessito de outra família agora e eu não quero substituílos por outras pessoas. Para mim, vocês são as melhores pessoas do mundo! O que quero e preciso é da minha verdadeira família. Eu tenho certeza de que um dia vou encontrá-la... O "caso" da adoção foi definitivamente sepultado, ficou assim solucionado. E Bonina, com todo tempo do mundo para procurar os pais verdadeiros e aprimorar seus estudos. Desse modo, cinco dias depois - não antes de ficar um dia inteiro com a mulher idosa que se declarou sua avó - Bonina viajou para a Grã Bretanha. Naquele país, foi para familiarizar-se com a língua inglesa...

CAPÍTULO IV
PRIMEIRA VIAGEM AO EXTERIOR
Pessoas com hábitos estranhos aos que Bonina sempre esteve familiarizada, idioma completamente diferente ao do seu amado "Português", cultura e culinária que difere totalmente da brasileira... A menina aproveitou a viagem que fez à Europa, para conhecer um pouco da França, da Alemanha e de outros países do continente ocidental... Nessa primeira viagem intercontinental sentiu-se só e com saudades de todos do orfanato, especialmente da Leopoldina, a quem enviou um e-mail: "Existem pessoas que passam por nossas vidas e há aquelas especiais que se estabelecem, mesmo quando ausentes." "Saudações iluminadas... Minha adorável Preta, minha amiga querida. Pensando em você, lembro-me dos pequenos índios, dos passeios de barco,

do cheiro da floresta, das cachoeiras, da Amazônia, do Pantanal com suas terras alagáveis com centenas de espécies de pássaros e de tantos outros momentos significativos que juntas vivemos... Tantas outras coisas importantes que me chegaram vindas de você, no momento em que mais necessitei: o seu sorriso, que me consola; a sua mansidão, que me acalma; a sua luta, que me fortalece; a sua alegria mesmo diante dos problemas, que me eleva; a sua companhia, que faz o tempo passar rápido de tão boa que é... Ninguém poderia suprir tanto, se não viesse do céu. Por tudo que nos aconteceu tenho certeza: você é um anjo enviado por Deus. Meu anjo protetor! Na ausência dos meus pais, familiares, amigos... Foi você quem supriu a falta de todos eles. Não pense que não estou consciente da grandeza da sua presença na minha vida. Compreendo com plenitude: você é um anjo enviado por Deus! E de tão especial que é, se estabeleceu na minha vida para sempre, mesmo quando está ausente. Informe a todos que eu enviei abraços, carregados de saudades... Valeu a pena ter te conhecido... Eternamente grata! Tua Nanny." Quando retornou da Europa, sentiu a falta de quatro dos seus "irmãos" e se deparou com uma enorme surpresa. - Preta! Onde estão a Judite, o Reginaldo, o Roberto e a Carla? - Os quatro casais que queriam lhe adotar resolveram leválos; cada criança foi adotada por um casal. - informou Leopoldina. Ao perceber o abalo que causou a informação na menina, Leopoldina tentou consolá-la com uma boa notícia. - Na sua ausência, tomei a iniciativa e fui atrás de informações sobre aquele caminhoneiro e a filha da senhora Fátima. - O quê? - perguntou Bonina distraidamente pensando nos "irmãos" que se foram. - Sim! Aquela senhora que nos contou aquela história, antes de sua viagem para fora do país. O nome dela é Fátima! Sabe aquela foto? Pois é, observando atentamente na placa do caminhão, encontrei a localidade de sua origem. Telefonei para o

Cartório Eleitoral do lugar que consta na chapa do veículo e de lá veio uma confirmação de que existem três eleitores com o mesmo nome do caminhoneiro. Meu passo seguinte foi procurá-los na Lista Telefônica e encontrei dois desses eleitores com o mesmo nome. Liguei para o primeiro e lhe disse do por que da ligação. Esse primeiro me confirmou que nunca trabalhou no transporte de cargas. Já quanto ao outro, afirmou-me que era motorista de caminhão. Imagina minha surpresa quando ele disse que sua esposa se chama Madalena! Não foi esse o nome que a senhora Fátima nos disse ter sua filha? - Foi esse mesmo! Maria Madalena! - confirmou-lhe Bonina apressadamente. - Acho que encontrei a filha da dona Fátima! Agora nós podemos confirmar se ela é sua mãe. - afiançou Leopoldina. Não deu outra, foram até o Rio Grande do Sul. Quando Leopoldina e Bonina chegaram ao endereço do caminhoneiro, foram informadas que ele e a esposa pegaram um frete aqueles dias para Argentina e estariam de volta em duas semanas. - Vamos conhecer as belezas do Rio Grande do Sul! Estamos aqui mesmo, não estamos? - sugeriu Bonina, toda feliz. E foram mesmo! Visitaram o pequeno rio Arroio Chuí, extremo sul do país. Na região serrana se depararam com os imigrantes italianos. Na região do vale do rio dos Sinos, ao nordeste do estado, alegraram-se com os descendentes alemães e no litoral, admiraram-se com o amistoso tratamento recebido dos portugueses e açorianos. Em todos os locais do Rio Grande do Sul, é predominante a tradição dos pampas. Bonina até pelou os lábios, ao tomar chimarrão. - Preta, acho que nada pode sintetizar tão maravilhosamente a beleza da alma gaúcha, que a letra desta canção do Dante Ledesma! - Qual Nanny? - Ouça!

GRITO DOS LIVRES
Quando os campos deste sul eram mais verdes Índios pampeanos que habitavam o lugar Foram mesclados com a raça do homem branco Recém chegado de querências além mar E o novo ser que se tornou miscigenado Virou semente, germinou e se fez povo E um grito novo ecoou no continente Lembrando a todos que esta terra tinha dono. Enquanto um gaúcho for visto nos pampas Enquanto esta raça teimar em viver O grito dos livres ecoará nesses montes Buscando horizontes libertos na paz No grito do índio, o grito inicial. Bom cheiro de terra no próprio ideal De amor à querência liberta nos pampas Gerada em estampas do próprio ancestral A nova raça cresceu e traçou limites Que bem demarcam a extensão dos ideais E o mesmo povo hoje repete o grito Alicerçando nas raízes culturais A liberdade não tem tempo nem fronteiras O homem livre não verga e não perde o entono Vai repetindo a todos num velho grito Passam os tempos, mas a terra ainda tem dono. Do grito do índio, aos gritos atuais, Há cheiro de terra nos próprios ideais. De um povo sofrido, ereto em vontade, De escrever liberdade nos seus memoriais. Nas serras gaúchas, além do inverno rigoroso, erguem-se as belas cidades com características européias. Ali, Bonina visitou o maior centro produtor de vinhos e foram até as ruínas

preservadas das povoações jesuítas do século XVII. Na divisa de Santa Catarina, observaram com admiração o cânion de Itambézinho, uma das principais atrações turística daquele estado. Em quinze dias, conheceram não somente as maravilhas sulrio-grandenses, mas também foram a Santa Catarina. No litoral sul desse Estado, alegraram-se diante das panorâmicas praias de Florianópolis e Garopabe e, ao norte, com o balneário de Camboriú. Na Arquitetura e Gastronomia do estado catarinense predomina a presença dos açorianos. Na capital "floripa", Bonina se deleitou com os pratos que incluem casquinha de siri, porções de camarões fritos à milanesa e ao bafo, como prato principal. Nas fazendas turismos, que se diferenciam dos hotéis fazendas pela estrutura rústica. Além da comida caseira, a menina entrou em contato direto com o campo, alegrando-se muito ao realizar tarefas nas plantações, nos currais e no dia em que plantou uma árvore. - Nanny, você não precisa trabalhar tanto! Viemos apenas passear, enquanto aguardamos a chegada do caminhoneiro. repreendeu bondosamente Leopoldina, a disposição exagerada da menina. - Preta! Para quem o trabalho é prazeroso, torna-se animador se ocupar com alguma atividade. Contudo, para quem o trabalho é pesaroso, as atividades causam uma lástima. Eu as acho prazerosas. - Sei disso! Mas não precisa esforçar-se tanto. Por fim, ficaram maravilhadas na observação das baleias francas que visitam a costa sul do estado catarinense na época da reprodução e amamentação. Ali, no estado de Santa Catarina, Bonina realizou seu sonho de conhecer o Parque Beto Carreiro World... No dia marcado, as duas estavam de volta na casa do caminhoneiro. - Realmente! Atendo-me por este nome. Minha esposa também é Madalena e já fomos várias vezes a Brasília, conforme a senhora me perguntou no dia em que ligou. Só que a mulher da qual você me fala agora não é minha sogra! Minha... minha querida sogra é paranaense e não mineira... O Juarez estava no meio de uma longa gargalhada quando

percebeu a expressão de espanto das duas se entreolhando. Estagnou o riso e voltou a ficar centrado. - Desculpem-me! Sei que a causa da menina é séria. Acontece que eu tenho um amigo com o mesmo nome. Como ele está sempre carrancudo, o apelidamos de "Turrão" e esse amigo é caminhoneiro, assim como eu. A esposa dele se chama Maria Madalena e nós a chamamos de "Madá", porque minha esposa também se chama Madalena. Espero que compreendam meu ataque de riso. De fato, a sogra dele é de Minas Gerais, só que ele não tem contato com ela faz muitos anos. Várias vezes já nos confundiram por termos nomes iguais. Quando eles se casaram, a Maria Madalena morava em Brasília. Com certeza o "Turrão" e a "Madá" são a quem estão procurando. Porém, atualmente, eles moram no Paraná. - O Paraná é imenso, Preta! Iremos levar meses para encontrá-los! - Bonina se desesperou com a notícia de que o casal pelo qual procuravam poderia estar em qualquer local do estado paranaense. - Nada disso! Eu tenho o endereço dele aqui comigo. confessou Juarez. - Graças a Deus! - exclamou Leopoldina aliviada. Assim, Leopoldina e Bonina foram para Curitiba, ao encontro do homônimo, caminhoneiros, Juarez Soares e sua esposa Maria Madalena, a verdadeira filha e genro da senhora idosa de Brasília. Ao chegaram lá, receberam a notícia de que os dois estavam para o Paraguai e que nos sete dias posteriores retornariam. - Já que estamos aqui, vamos esperar? - perguntou Leopoldina. - Desde que seja ao nosso jeito! - enfatizou Bonina. E naquele Estado, foram ao Parque Nacional do Iguaçu, visitaram as grandes indústrias automobilísticas, a hidrelétrica de Itaipu, os saltos de Sete Quedas e Santa Maria. Em Curitiba, na cidade modelo, se impressionaram com a panorâmica urbanística... No sexto dia em solo paranaense, a impaciência de Bonina foi tanta que ela convenceu Leopoldina a fazer uma surpresa ao casal de caminhoneiro na Ponte da Amizade. E as

duas foram parar em Foz do Iguaçu... - Estou impressionada com o que acabo de ouvir. Essa mulher da qual você mencionou, é de fato minha mãe. - disse alegremente Maria Madalena quando Leopoldina falou-lhe da senhora Fátima. - Ela nos falou também da sua criança e do que ocorreu há nove anos trás. - disse Bonina, escasseando a fala diante o tamanho nervosismo que ficou. Então a mulher contou a história desde o primeiro dia do nascimento da filhinha; que um mês depois convenceu o esposo a voltar e pegar sua filha no orfanato... - Quem são estas duas pessoas mamãe? - perguntou a menina que acabara de levantar na boléia e já estava na janela do caminhão. - Amigas de sua avó, minha filha! - disse "Madá" à pequena menina. Depois de se desculpar pela intromissão curiosa da filha, continuou com sua história... - Fomos até a casa de minha mãe e não mais a encontramos lá. Informaram-nos que ela tinha entregado a casa alugada e retornado para Minas Gerais. Meses depois estávamos passando por Minas e decidimos levar a neta que minha mãe tanto ama. Disseram-nos que minha mãe tinha ido para Espanha. Nunca mais nos encontramos de novo... Não queiram saber a felicidade que estou com essa notícia do retorno dela para o Brasil. Agora, nada impede minha filha de conhecer a avó! - Exclamou Madalena acariciando levemente os cabelos da filha. - Cheguei a acreditar que fosse você a minha mãe. Não é! Mas por outro lado, até fico feliz por saber que suas vidas foram acertadas e que contribuí para que reencontrasse sua mãe. Apenas peço-lhe que não demore muito! Afinal, sua genitora nos pediu que se a encontrássemos, déssemos o recado de que ela sente uma enorme saudade de vocês. - disse Bonina com expressão compenetrada. Assim, tranquilamente, Bonina se convenceu de mais um insucesso de encontrar sua mãe.

- Nanny, não importa o que aconteça, nunca vamos desistir! Nós haveremos de encontrar sua família, demore o tempo que for. - Ainda tenho minhas esperanças e sonhos intactos, com sua ajuda conseguirei realizar todos eles! - respondeu Bonina, mais consciente e racional. Quando Bonina voltou para o orfanato, passou a viver com um livro debaixo do braço, lia toda noite: ciências, arte, política, poesia, tudo enquanto existia de impresso. Sua mente ordenada e classificadora se tornou uma pequena enciclopédia que os "irmãos" no orfanato desfrutavam prazerosamente durante as noites dos sábados e domingos, quando lhes eram permitido dormirem um pouco mais tarde que nos outros dias da semana. Os órfãos ficavam reunidos no grande salão de leitura, brincando, conversando e projetando o futuro... Bonina lia poemas, os clássicos estrangeiros e brasileiros, explicava para os órfãos sobre acontecimentos sociais, especialmente sobre as maravilhas existentes no Brasil... - Sabe Preta, estava eu pensando e cheguei a seguinte conclusão: o computador pode se tornar um atraso de vida. - Como assim, Nanny? - Veja você: eu programei ler um livro durante a semana, tempo suficiente para ler dois livros de igual volume, e não é que não consegui ler nem mesmo esse que havia programado! Foi quando percebi que meu uso incorreto do computador me atrasou a vida. - respondeu Bonina. - Realmente! Se a leitura dos livros é sua prioridade, tenho que concordar com você. - afirmou Leopoldina. Nas aulas particulares, Bonina se empenhava com a máxima atenção, acumulando conhecimentos e eliminando suas dúvidas com os professores... Quando recebeu seu boletim naquele semestre, sua avaliação no desempenho escolar superou todos os outros alunos com suas notas altíssimas. Desse modo, o colégio achou por bem reconhecê-la com a conclusão do sexto ano fundamental. Naquela ocasião, a menina foi homenageada com o louvor dos professores. Bonina recebeu até um diploma comemorativo: "Aluna Exemplar Por Excelência" Estava escrito

em destaque. Algum tempo passou, até que certo dia, uma mulher maltrapilha apareceu no orfanato e contou uma história fabulosa que animou muito o coração de Bonina. - Não há dúvida! Esta mulher viveu com sua mãe. Ouça a história que ela tem para lhe contar. - disse a diretora do orfanato, que já era partidária de encontrar a mãe de Bonina. A mulher cheirava mal e suas roupas resumiam-se a trapos. - Ela é uma pedinte! - confirmou a diretora, ao observar o desconforto de todos na sala. E a mendicante começou a contar sua história... - Quando me encontrei com a Josefa, desde o primeiro dia nos tornamos amigas e ela passou a viver comigo nas ruas. Quando ela me confidenciou sua desilusão amorosa, entrou em desespero, disse-me que veio do Espírito Santo e não mais pretendia retornar para perto de sua família. Estava muito envergonhada do que fez seu marido, preferindo viver nas ruas a voltar para aquela cidade. Dormíamos embaixo dos viadutos e pedíamos ajuda das pessoas para nos alimentar. Ela também me disse que sua família tinha condições e que ela até iniciou uma faculdade. Eu não acreditei naquela história que me contou. Era uma vida dura! Vocês nem queiram saber... - Sei... sei. - limitou-se a dizer a diretora querendo que a mulher logo terminasse aquela história. E ela continuou... - Nós nos tornamos grandes amigas! Josefa sempre usou roupas largas e no início eu não percebia que ela estava grávida, só fui notar quando ficou no quinto mês da gravidez. Um dia, falando com ela sobre o bebê, perguntei-lhe por que não tinha me dito antes que estava grávida. Ainda me lembro vivamente do que minha amiga disse: "De nada iria adiantar. Adiantaria por um acaso?" Se não quer falar desse assunto, tudo bem! Foi o que lhe disse e assegurei da minha boa vontade: "Quero que saiba que estou com você para o que der e vier!" E ela precisou, quando a criança nasceu. Minha amiga não se achou com coragem de abandonar a filha e me pediu para que eu fizesse aquilo: deixar a

criança na porta de uma casa bem bonita. Assim, quem achasse a criancinha, iria cuidar dela muito bem e dessa forma eu fiz. Só que quando a dona da casa bonita chegou e percebeu a menina embrulhada nas fraudas, pegou-as, disfarçadamente, junto com o lixo, saiu apressada até um beco escuro e, há duas quadras da sua casa, abandonou a recém-nascida naquele beco sombrio. Ainda me lembro até do que pensei naquele momento "Essa garotinha nasceu sem a sorte!", depois voltei para me encontrar com a amiga Josefa. Não mais a encontrei! Ela simplesmente sumiu. Nunca mais eu a vi novamente. Recentemente, estava eu lendo um jornal velho e certa notinha de um colunista famoso que, comentou sobre a menina mais inteligente do mundo. "É também a garota de menor sorte no mundo!" Essa nota me fez recordar aquele ocorrido com minha amiga. Foi exatamente naquele local onde Bonina foi encontrada, que a mulher rica deixou aquela recém-nascida que eu abandonei na porta da sua casa. Foi por esse motivo que tomei a decisão de procurá-la. Eu relembrei da minha amiga Josefa e do que aconteceu há oito anos. - Mas eu tenho nove anos! - afirmou Bonina. - Foi há oito ou nove anos, não sei ao certo! Mas... mas o que eu estou falando é a verdade. Até hoje eu guardo os documentos que ela deixou, na pressa de ir embora. - justificouse a mulher, e no mesmo instante apresentou uma velha carteira cheia de papéis. Os documentos foram passando de mão em mão, até que chegou às de Bonina que, ficou observando com admiração a foto de Josefa nos documentos e não se conteve. - Eu havia prometido que não mais sairia em busca da minha mãe, assim como fiz das outras vezes. Vocês são minhas testemunhas! Essa história que acabamos de ouvir é diferente das outras. Observem bem essa mulher da foto! Se parece comigo, não é? Seus olhos, seus cabelos, seu rosto, tudo... são iguais aos meus. Serei exatamente assim quando for adulta! disse Bonina timidamente. "Parece mesmo!" Todos concordaram! E Bonina com sua inteligência indagadora e feroz, não encontrou nenhum vestígio

de dúvida. Desse modo, Bonina sepultou todas as decepções anteriores debaixo de um manto de entusiasmo, sólido e contagiante, e uma forte esperança a impulsionou novamente... Bonina, juntamente com Leopoldina, estavam práticas nas investigações. Sabia a quem e onde procurar quando necessitavam encontrar alguém desaparecido... Dias depois, com os pertences de Josefa, Bonina viajou ao encontro da mulher, certa de que a pedinte que viveu em Brasília fosse sua mãe. - Posso ajudá-la, Preta! Caso ela esteja necessitando da minha ajuda. Tenho dinheiro guardado e posso pedir um emprego para minha mãe na agência. Eles não têm filiais em todo o Brasil? Não fazem todos os meus gostos? Por que não esse que me é importante? Eu e minha mãe ainda seremos muito felizes! refletiu Bonina projetando o futuro com a mãe. - Pode contar comigo para ajudá-las! Farei tudo ao meu alcance. - firmemente, Leopoldina apoiou as decisões da menina. De posse dos documentos e com as informações sobre a pedinte, foi fácil encontrar a residência da mulher que outrora se contentou em ser uma mendicante. Quando Bonina e Leopoldina chegaram ao endereço, foram recepcionadas por uma pequena garota. - Mãe! Tem uma mulher e uma menina querendo falar com a senhora. A menininha se parece muito com você. - Pois não! O que desejam? - Ligamos ontem à tarde, viemos entregar seus pertences! Estes documentos são seus? - perguntou Leopoldina. Josefa ficou extremamente nervosa ao rever os antigos papéis que lhes pertenciam. Estava certa de que quem se encontrava de posse daqueles documentos sabia o que ela viveu na capital federal. Convidou Leopoldina e Bonina para que entrassem para conversar um pouco. Depois explicou para filha que queria dialogar com as duas visitas em particular, pedindo à menina para que aguardasse no quarto. A garotinha atendeu obedientemente, sem resmungar. Quando as três encontravam-se as sós na sala, Josefa contou uma história semelhante a que Bonina ouviu da mendicante

de Brasília. - Meu esposo não sabe o que me aconteceu em Brasília, mantive até hoje em segredo, não pretendia que ele viesse saber do que passei no Distrito Federal... Ele se separou de mim naquela época. Falou-me que iria ficar com outra moça, minha amiga. Fiquei desesperada e fugi com o pouco dinheiro que dispunha na bolsa. Peguei o primeiro ônibus que encontrei na rodoviária, estava indo para Brasília. Quando lá cheguei, perambulei até me acompanhar e fazer amizade com uma mulher que vive nas ruas. Fiquei vivendo de esmolas durante oito meses, foi quando minha filha nasceu... Enquanto Josefa enxugava as lágrimas que obstinadamente caiam, Bonina aproveitou a ocasião e sussurrou, profundamente abalada: - Eu sou a filha que você abandonou! - confessou Bonina timidamente. - Não! Não é mesmo. Minha filha está lá dentro do quarto. - retrucou a mulher, recuperando-se do estado emocional abalado pelas recordações fortes do passado. - Eu... eu posso explicar! - disse Leopoldina. Mas a mulher não permitiu, com aparência transtornada, entre um soluço e outro, retomou com sua história... - É verdade! Eu solicitei que aquela amiga pedinte abandonasse minha filha. Minha... minha filha é a razão do meu viver. Quando voltei para junto dos meus familiares, meu esposo soube de nossa filha e reatamos o nosso casamento. Ele até se tornou um exemplar chefe de família. - Mas sua amiga nos disse que ela abandonou sua filha numa casa bonita, como você pediu. Também presenciou quando a criança foi deixada na mesma cesta de lixo onde Bonina foi encontrada, e nada fez depois. - antecipou-se Leopoldina. - Aconteceu isso mesmo! Eu estava observando tudo de longe. Fiquei atormentada com aquela cena! Assim que minha amiga e aquela mulher rica se retiraram, fui ao local e peguei minha filha de volta. Naquele momento decidi parar com aquelas bobagens e daquele lugar mesmo voltei para minha família. Isso

faz oito anos! Não esqueço um só dia da minha vida essa coisa horrível que fui capaz de cometer, colocando a vida da minha filha em risco. Ao ouvir aquelas palavras, Bonina compreendeu o que aconteceu. Depois de um longo suspiro desanimador, admirandose do arrependimento sincero da mulher, disse-lhe: - Essa história que acabou de nos contar é parecidíssima com a minha. As únicas diferenças é que a história da minha vida aconteceu um ano antes, naquele mesmo local, e minha mãe, por um motivo que me é desconhecido agora, não voltou para pegar sua criança, assim como fez a senhora com a sua filha. desabafou Bonina com ares melancólicos. - Lamento imensamente por você pequena garota! -Josefa tentou confortar Bonina. - Quanto ao que aconteceu em Brasília fique tranqüila: seu esposo não ficará sabendo por nós sobre esse acontecimento do seu passado, pois permanecerá um segredo nosso. - afiançou Leopoldina. Logo após tudo esclarecido e com os ânimos estabelecidos, Josefa foi ao quarto da filha para que pudesse conhecer as duas novas amigas da família. - Estas são duas amigas da mamãe, minha filha. - Olá! Meu nome é Jaqueline. - O meu é Leopoldina. - E o meu Bonina. Jaqueline mostrou todos seus brinquedos para Bonina e as duas ficaram muito amigas repentinamente. Leopoldina e a mãe da garota foram para cozinha tomar chá. Enquanto as duas crianças brincavam na sala. Josefa foi informada de tudo sobre o que aconteceu com Bonina. E aquela se tornou uma manhã festiva para as meninas capricornianas e as duas mulheres. Leopoldina sabia que a cada um daqueles encontros frustrados, a menina ficava depois muito triste. Querendo reanimála, dissuadindo a da tristeza iminente, especulou com uma conversa diferente: - Você já me surpreendeu múltiplas vezes, Nanny! Mas de

todas elas, a que mais me impressiona é essa de você largar tudo o que está fazendo e sair ao encontro de uma sua suposta mãe, não fazendo caso de quem seja essa mulher. - Mas Preta! Eu sempre imaginei que estava consciente do por quê! - Como poderia? Esse seu comportamento é tão diferente do da maioria das pessoas. - Como assim: "Diferente do das outras pessoas?". - Em geral, a maioria das pessoas aprecia as outras por sua aparência ou pelo que possuem. Lamentavelmente, é assim! Ninguém pode negar isso. E você, no entanto, não se importa que sua mãe seja uma doméstica, hippie, caminhoneira ou pedinte nas ruas, vai atrás dela como se fosse encontrar uma rainha! - Esse é meu segredo especial! - Eu concordo que seja algo especial. Todavia, que você o guarde como "segredo", ah! Isso não! - É força de expressão, Preta, força de expressão! Eu... eu tenho certeza que as pessoas sabem perfeitamente do meu segredo. - Eu mesma não sei! - protestou Leopoldina. - Sabe sim! Está tudo escrito naquele livro de dizeres que você me presenteou "Os objetos foram feitos para se usar e as pessoas para amar. Entretanto, a maioria das pessoas usa as outras e amam seus objetos." Não me diga que não sabe disso? O mundo será muito melhor quando as pessoas evitarem a avareza, o preconceito e o egoísmo em suas vidas. - filosofou Bonina. - Sim! É verdade, eu sei disso! Só não imaginava que uma criança pudesse praticar esses princípios ao pé da letra. - No dia que li essa citação pela primeira vez, achei prudente fazer mudanças. Quando passei a praticá-la na minha vida, tudo mudou para melhor. Esse mecanismo é infalível! O mundo se desviou do conceito real da verdadeira-felicidade. Hoje o que impera é a ganância, o apego aos bens materiais, o modismo e o consumismo. - apostilou Bonina. - Eu concordo com você, a grande parte dos seres humanos

está com a visão desfocada da realidade. Desviaram-se para um caminho contrário ao seu próprio bem. Esquecem que a única forma de sermos felizes, é promovendo a felicidade na vida do nosso próximo. A única condição de encontrarmos a paz é propiciando a paz na vida de nossos familiares, amigos, vizinhos e "desconhecidos". A própria "Lei Ouro", proclamada por aquele Jovem da galiléia, nesse conceito se apóia "Tudo que quereis, devereis fazer ao teu próximo!" Foi sua principal recomendação. A fama, o poder, o sucesso artístico, acadêmico, empresarial ou científico, fazem muito bem ao nosso ego e muitas vezes nos trazem conforto. Mas tudo isso não passa de "bela" abstração, essa falsa-felicidade é criação da imaginação humana. A verdadeira felicidade não se resume ao que nossos olhos possam enxergar ou com o que nossas mãos possam tocar. - desabafou Leopoldina. - A verdadeira felicidade consiste em fazer o bem sem ver a quem! - repetiu Bonina o antigo adágio. - O mundo seria melhor, Nanny, se as pessoas pensassem como você. - confessou Leopoldina. - Seria infinitamente melhor se vivessem como você, Preta. Muito do que sou é porque procuro imitá-la! - contestou Bonina, desapegada de qualquer vaidade e com muita admiração por sua ama-de-leite. - Vindo de você, fico lisonjeada com o comentário. - Você é uma grande mulher! Quando eu crescer, quero viver do mesmo modo como leva sua vida. - sentenciou Bonina já esquecido completamente da desilusão de encontrar a mãe. - Eu te amo tanto, tanto, Nanny. - Eu também te amo muito, muito mesmo, Preta. E as duas se aconchegaram num forte abraço... - Preta, não me encontro com qualquer disposição para retornar ao orfanato, nós duas bem que poderíamos ficar mais uns dias aqui e conhecermos algumas das maravilhas do território capixaba. - É claro que podemos! Somente será preciso avisar a diretora do orfanato.

Desse modo, conheceram no sul do litoral capixaba. As paisagens recortadas por serras, morros, e as contrastantes ao norte, com suas paisagens planas, com dunas e palmeirais. Na costa do Espírito Santo foram às praias de Marataíses, Guarapari, Piúma e Conceição da Barra, onde se situam as dunas do rio Itaúnas. Visitaram museus. O Teatro Carlos Gomes. Foram até o Convento de Nossa Senhora da Penha e na residência onde viveu o padre José de Anchieta. No interior, foram ao Parque Nacional do Caparão, o Pico do Itabira e as Pedras do Frade e da Freira. Degustaram a torta e a moqueca capixaba de peixes e de frutos do mar, cozidos em panelas de barro artesanais, ao molho de urucum, de origem indígena... Leopoldina e a menina resolveram alongar aqueles dias em que Bonina estava indisposta, e concordaram em conhecer o estado vizinho de Minas Gerais. Visitaram as cidades históricas. Nas ladeiras íngremes do calçamento da cidade onde residiu Aleijadinho, constataram que os calçadões permanecem originais desde os duzentos anos do "descobrimento" do Brasil. E ali, se depararam com o mais completo e bem conservado conjunto de obras do escultor, em pedra sabão: "Os profetas!". No adro da basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, e dos grupos em madeiras nas Capelas dos Passos, que representam cenas da Paixão de Cristo, Bonina fez um pedido a Deus: "Senhor! Ajude-me a encontrar meus pais". O estado de Minas é pioneiro na produção de café e de leite, que empresta à culinária o seu requinte, como é o caso dos famosos "Queijo Minas", que tanto faz jus a sua fama. Na região central de Minas, na área de mineração de ouro e diamante, povoada no século XVII, conserva-se um magnífico acervo arquitetônico, composto na maior parte por igrejas que possuem valiosas coleções de arte-sacra, com peças de ourivesaria, mobiliário, quadros e esculturas. Leopoldina e Bonina ficaram impressionadíssimas com a rara beleza rústica das cidades mineiras. Também visitaram montanhas, vales e grutas... Estavam fadigadas e felizes, quando resolveram voltar para o orfanato.

CAPÍTULO V
MARAVILHANDO-SE COM O NORDESTE BRASILEIRO
Naquela manhã ninguém lhe deu atenção. Todos passavam apressados. A diretora do orfanato trouxe à tona uma falha sua do passado na frente das pessoas, coisa que nunca aconteceu. Forçaram-na a ir ao médico naquela tarde. Leopoldina pouco conversou com ela. "Parece que todo mundo está ficando louco?!" Pensou Bonina, quando voltava do hospital. Notou a sala do refeitório escura quando chegou da clínica e logo as crianças fariam sua última refeição do dia. "Isso nunca aconteceu!" Leopoldina pediu-a rudemente que fosse acender a luz do refeitório, esse foi o estopim, convenceu-se de que alguma coisa estava errada. "O orfanato está um silêncio só! Esqueceram até que hoje é meu aniversário!" Foram os últimos pensamentos de Bonina antes de acender a luz. Quando o clarão dos raios das luzes iluminou o salão, a

menina notou uma faixa de um lado ao outro do refeitório e nela escrito: "FELIZ ANIVERSÁRIO, BONINA!". Um enorme bolo, salgadinhos, sucos, doces, refrigerantes... abarrotavam a grande mesa. Um carrinho de pipoca e outro de algodão-doce foram colocados nos dois cantos do salão. Palhaços divertidíssimos alegravam o local. Uma mesa menor estava encostada na parede, repleta de pacotes grandes e pequenos, embrulhados com papel de presente. O refeitório estava todo enfeitado com balões, confetes, serpentinas, línguas de sogra, chapéus coloridos... Todas as pessoas presentes batiam palmas, sorriam e acompanhados pelos sons que ecoavam do piano, cantavam em uma só voz: "Parabéns para você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida... Hoje é dia de festa, para alegrar nossas almas..." Então era isso?! Nada estava acontecendo de errado! Eles preparam uma surpresa no meu aniversário! concluiu Bonina, e aí sorriu cheia de felicidade. Enquanto todos tentavam abraçar Bonina ao mesmo tempo, o pediatra do orfanato pediu silêncio e, ao conseguir seu intento, se pronunciou numa postura solene: - Algo muito importante está faltando nesta festa! Antes de partir o bolo, seria interessante um discurso da aniversariante. Um coro unânime se fez naquele momento: discurso, discurso, discurso... Bonina levantou as mãozinhas, fez um pequeno exercício na garganta, e começou: - Eu acho lindas as homenagens frenéticas que os jovens e as tietes promovem para seus ídolos: os renomados atores, músicos, esportistas... Enfim, muitas vezes, até realizando enormes sacrifícios em nome dessa admiração. Ao mesmo tempo, isso me faz perceber que estou em dívida com todos vocês, meus ídolos especiais aqui do orfanato: as cozinheiras que preparam nossa alimentação, os doutores que cuidam da nossa saúde, a assistente social, a diretora, minha Preta que largou tudo para trabalhar aqui e cuidar melhor de mim, os meus irmãos órfãos... Naquele momento, muitos adultos que ali estavam, não

conseguiram impedir que as lágrimas saíssem do anonimato. Bonina, também emocionada, fez uma pausa e depois continuou: - Quero lhes falar da minha admiração pelos escritores: através de seus escritos, eles tornam possível que a sabedoria se espalhe em toda a terra. Nos livros encontramos as mais belas poesias, ficamos sabendo sobre o "infinito" Universo e as profundezas da Terra, o mundo dos microrganismos, como também a harmonia nas órbitas dos planetas, das grandezas das galáxias e os segredos do fundo do mar... Os livros fazem com que homens simples tornem-se doutores, cientistas, professores... O mais especial dos livros, é que eles nos fazem sonhar. Amanhã é Natal! E eu sonho. Espero que a felicidade que eu estou sentindo agora se torne contagiosa e que todos vocês sejam infectados por ela. Fez uma pequena pausa e aí proferiu em alta voz: - Amo imensamente todos vocês! O silêncio que permaneceu enquanto Bonina discursou, foi substituído por um coro de vivas e uma saraivada de palmas. Muitos adultos que estavam presentes, não contiveram suas emoções e lagrimejaram iguais crianças. Uma semana depois Bonina viajou... As publicidades estavam levando centenas de pessoas a conhecer Fernando de Noronha. O arquipélago tornou-se mais atraente, mostrado numa versão com a garota mais inteligente do mundo. E assim, Bonina se tornou mais conhecida. Foram empolgantes as recomendações do diretor geral da agência quando foi se despedir da menina no aeroporto. - Bonina, fique o tempo que for necessário! Mostre-nos o melhor dos estados nordestinos e divirta-se o quanto puder. Desembarcaram em Salvador naquela manhã... - Você percebeu Preta? - O quê? - quis saber Leopoldina. - Aqui os das raças negra e mulata são predominantes, diferentemente dos demais estados que visitamos. São mais alegres! Vigorosos... - É verdade! Mais não foram sempre assim. No período

colonial brasileiro eram trazidos da África e aqui tratados como escravos trabalhavam em condições desumanas. Eram obrigados a permanecer em senzalas. Sofreram muito até conseguirem sua liberdade. Nos dias de hoje, ainda, são levados a conviver com o preconceito maldoso de pessoas sem o mínimo de senso humano. Foi a "Redentora", uma mulher corajosa, que os libertou efetivamente no papel. Embora, no ano 1850 fosse decretada a Lei Eusébio de Queirós, que extinguia o tráfico negreiro no território brasileiro. Somente entre sete de maio de 1871 a 31 de março do ano 1873, quando assumiu pela primeira vez a regência do império, foi sancionada a Lei Visconde do Rio Branco (Lei do Ventre Livre), pela qual a Princesa Izabel libertou os filhos que nascessem de mães escravas. E finalmente, a 13 de maio de 1888, instituiu-se a Lei Áurea, que aboliu definitivamente a escravatura no Brasil. A História revela o caráter excepcional dessa mulher. - informou Leopoldina euforicamente. - Aposto que eu sei o porquê de gostar tanto da Princesa Izabel. - afirmou Bonina com sorriso zombeteiro. - Ora, porque a princesa foi uma grande mulher! E por que mais haveria de ser? - Izabel Cristina Le-o-pol-di-na Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon! Não seria porque leva seu nome no dela? - perguntou Bonina com sorriso maroto. - É lógico que essa sua suposição não representa o real motivo da minha admiração pela princesa. Entretanto, eu não posso negar que essa sua teoria é um lisonjeio acalentador. A verdade é que a Princesa Izabel foi uma mulher extraordinária. E que nome esse o dela! - admirou-se Leopoldina. - E como é! O de dom Pedro I é ainda maior: Pedro de Alcântara Francisco Antônio Jose Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. Acho que eles nunca assinaram seus nomes completos. - complementou Bonina. No segundo dia, visitaram pontos turísticos da capital baiana: o pelourinho com suas igrejas, fortes, palácios e os casarões do período colonial... Ficaram deslumbradas com a dança corporal

que acontece nas rodas de capoeira, embaladas pela música rítmica do berimbau. Na Praia de Todos os Santos, um dos mais lindos adornos da costa litorânea brasileira, que encantou os navegadores e colonizadores, Bonina se deparou com as belas praias de São Felix, Cachoeira, Maragogipe e a ilha de Itaparica. No extremo norte de Itaparica visitaram o Forte de São Lourenço, construção de 1711. Bonina foi a Lagoa de Abaeté, nas Dunas de Itapoã e seu famoso lago com o mesmo nome. Freqüentou o Arraial D'Ajuda e as praias de Porto Seguro, Ilhéus, Lençóis, Trancoso, Caravela e Alcobaça. Visitaram o local onde foi realizada a primeira missa no Brasil, que é referência fundamental da costa do "Descobrimento", atualmente denominada de Praia Coroa Vermelha. No Parque Nacional de Abrolhos, admiraram-se com a variedade dos corais... Foram os cinco dias que passaram mais rápidos na vida da menina. Experimentaram a culinária baiana: a moqueca de peixe à baiana, vatapá, abará, mungunzá e o famoso acarajé baiano. O acervo arquitetônico colonial resguardado na antiga capital sergipana é algo apaixonante. Naquele Estado, Bonina fez questão de conhecer um engenho e observar de perto como se produz açúcar. Saboreou o doce de jenipapo, a moqueca de pitú (certo camarão) e a caranguejada. Em Aracaju, visitou a Ponte do Imperador, construída em 1860, para a visita de dom Pedro II ao Brasil. - Interessante! Nesta cidade é como se estivéssemos dentro de um enorme tabuleiro de xadrez. - disse Leopoldina. - E você não está enganada, Preta. Além da peculiaridade de ter sido projetada em forma de tabuleiro de xadrez, pelo engenheiro brasileiro Sebastião Basílio Pirro, por volta de 1850, o povo sergipano reivindica o título de primeira capital planejada do país, para Aracaju. - relatou Bonina esse fato histórico. Na variedade de paisagens e diversidade cultural e gastronômica alagoana, Bonina encontrou um rico litoral e belezas naturais, como as áreas de mangues. Na Barra de São Miguel e foz do rio com mesmo nome, ficaram abismadas com o embelezamento do recife arenítico que se faz ali. Foi à praia de

Ponta Verde, enseada da Pajuçara e depois observou o desaguar do rio São Francisco no mar. Em Alagoas, fez questão de conhecer de perto o tão famoso pau-brasil de onde originou o nome do seu país. Colocou um pequeno pedaço da árvore dentro de um nanico vidro com álcool e vedou hermeticamente "Esse é um meu tesouro!" Afirmou Bonina. Foram ao local onde antes foi o Quilombo dos Palmares, comunidade formada em 1590 e destruída em 1694. Considerada local sagrado de resistência negreira onde surgiu o culto ao grande nome de Zumbi, último rei de palmares, considerado herói pelos movimentos negros. Em 13 de maio, dia oficial da morte de Zumbi, é comemorada a data nacional da negritude. Com seus cento e oitenta e sete quilômetros de praias de areias finas e água esverdeada, o litoral pernambucano é considerado um dos maiores centros turísticos do país, com destaque para as praias de Tamandaré, Porto de Galinhas, no sul da capital, ótimas para realização de esportes náuticos e a ilha de Itamaracá, ao norte, que abriga uma antiga prisão. Bonina se divertiu copiosamente em todos os locais que visitou no Nordeste. Mas também se indignou! - Preta, eu me recuso acreditar numa explicação sensata para o porquê de num país tão rico existir um elevado número de pessoas pobres e outros milhões na miséria total. - Nanny, acontece que aqui no Nordeste, essa injustiça social é maior. - "Injustiça!" Essa é a palavra correta para definir a penúria existente no Brasil. É isso mesmo: "A pobreza é um produto da injustiça social brasileira!". - Minha querida, o que acha de mudarmos de assunto? Falaremos dos grandes nomes da Literatura pernambucana. - É um bom assunto a se tratar. O Pernambuco foi berço de vários escritores, como Manoel Bandeira, além de ser terra de adoção do paraibano Suassuna, autor de "O Alto da Compadecida". - Eu queria tanto entender como você consegue armazenar tantas informações! - falou Leopoldina.

- É muito simples: eu amo ler os livros. Eles me revelam de tudo! Inclusive, aqui no Pernambuco, os livros nos informam que as músicas frevo e maracatu são os ritmos tradicionais mais fortes de suas expressões culturais. Não é por acaso que a capital brasileira do frevo fica no território pernambucano. - afirmou Bonina animadamente. A capital pernambucana com suas praias, além da arquitetura que revela a presença dos holandeses nos tempos de Brasil colônia, é uma cidade de singular beleza, especialmente sua rede de metrô, a segunda maior do país, só perdendo para a de São Paulo. No litoral paraibano, Bonina foi às praias tranqüilas de areias finas e com coqueirais. Certo dia cismou ir à praia de Ponta de Seixas, antes do alvorecer. - Nanny, porque ir à praia tão cedo? - perguntou Leopoldina. - Desejo ser um dos primeiros habitantes da América do Sul a presenciar o Sol nascer neste dia maravilhoso que se anuncia. Bonina está certa! Na praia de Ponta de Seixas, além de ser o extremo leste do Brasil, é o ponto leste mais remoto da América do Sul, onde o Sol nasce primeiro. No sertão paraibano, Bonina presenciou com tristeza o maior problema e motivador da pobreza das populações nordestinas: a seca. Ali, também, a menina se deparou com o Sítio Paleontológico do Vale dos Dinossauros, onde são encontrados vestígios significativos da existência dos grandes répteis jurássicos. - Ouça que coisa espantosa, Preta. - O quê? - Nesse informe que estou lendo, diz que a cidade de João Pessoa, foi chamada de Filipéia de Nossa Senhora das Neves. - E quando isso aconteceu? - Desde sua fundação em 1585, só passou a se chamar João Pessoa em 1930, homenagem ao presidente assassinado. Aqui diz, também, que a capital paraibana é a capital mais arborizada do país e a cidade vive exclusivamente do turismo. No Rio Grande do Norte, Bonina visitou os locais onde existe

a maior produção de camarão em cativeiros do país e deu as "caras" nas grandes salinas. Diante das montanhas de sal, Leopoldina ficou admirada, e questionou: - Onde irão consumir todo esse sal? - Pode até te parecer inconcebível essa informação! Mas não existe um só estado brasileiro que não consuma do sal que é produzido nestas salinas. - É verdade mesmo, Nanny? - Os índices mais otimistas afirmam que noventa e cinco por cento de todo o sal consumido no Brasil é produzido nestas salinas. Os rio-grandenses-do-norte reivindicam, também, o posto de maior produtor de petróleo em terra. Só perdem para produção petrolífera marítima do Rio de Janeiro. Na capital, Natal, os pratos com frutos do mar foram os prediletos de Bonina e Leopoldina preferiu carne-de-sol com arroz-de-leite. No Ceará, Bonina foi a Floresta Nacional do Araripe, onde está a maior concentração de fósseis do período cretáceo. Em Fortaleza, visitou museus e parques temáticos. Na área praiana da capital, testemunhou com admiração o extraordinário complexo verticalizado dos edifícios na faixa-beira-mar. No sertão, foi até a terra do Padre Cícero (padin ciço, para os nordestinos). Ali se encantou com uma romaria e a literatura de cordel. No setor costeiro do Ceará, Bonina encontrou praias dotadas de areias alvas, graciosa barreta dos rios e montes de dunas praianas... Uma paisagem que se completa pela presença de comunidades tradicionais de pescadores e jangadeiros: viventes de um cotidiano rústico, operoso e fraterno. Na praia "Redondas", deparou-se com um pequeno porto canoeiro e se deslumbrou com a chegada das jangadas dos pescadores de lagostas repletas de gaiolas. Além da exuberância da paisagem do sertão, com sua riqueza ambiental, existem, no Parque Nacional da Serra da Capivara, centenas de sítios arqueológicos, com classes de caatingas e arbustos, que estão entre as arvores predominantes e uma imensa variedade em espécies animais. Bonina ficou espantosamente encantada, enlevada, especialmente quando se apresentou as formações rochosas datadas de milhões de anos

e as pinturas rupestres encontradas no sertão piauiense. Nas pequenas estradas e trilhas secundárias, nos caminhos seguindo de Terezina pelas cidades ao longo do rio Parnaíba, com suas paisagens belíssimas, passando por corredeiras, cavernas e regiões de mata preservadas... Bonina se aventurou de jipe e muitas vezes de bicicleta. O litoral piauiense é o menor dos demais estados nordestinos. Entretanto, trata-se de um trecho de costa privilegiado. Esse ecossistema costeiro é semelhante ao da Amazônia; com seu grande número de ilhas, lagoas, igarapés, praias de areias finas formadas por dunas e coqueirais. As estreitas ruas da capital maranhense com seus sobradões, suas fachadas de azulejos de cores fortes e sacadas de ferro, impressionaram muitíssimo Bonina. Outra peculiaridade dos maranhenses é seu apreço pelos sons contagiantes, acompanhados nos balanços sensuais dos corpos ritmados pela música de origem jamaicana. Não é por um acaso que a cidade de São Luis é considerada a capital brasileira do reggae. Em Alcântara, sua base avançada de lançamentos de foguetes, que convivem com as construções coloniais, é prova do contraste das maravilhas existentes em cada um dos estados nordestinos. No passeio de jipe que Bonina fez no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, ficou encantada com os ventos fortes a espalhar as dunas de até cinqüenta metros de altura. No interior maranhense, degustou uma leve cozinha regada com o óleo de babaçu e os fortes doces de buriti e jenipapo. No litoral, consumiram abundantemente mariscos, siris, caranguejos e peixes, como o mero, pescada, robalo, cascudo, tainha, surubim e peixe-boi... As férias no Nordeste estavam chegando ao fim, Bonina resolveu fazer uma última visita nas ruas estreitas da velha capital maranhense e rever os belos sobradões com suas fachadas azulejadas. Certamente o Universo conspirou para que houvesse aquele encontro. As gargalhadas das pessoas que rodeavam um garotinho atraíram Bonina, que se aproximou do grupo de pessoas. Aquela cena a fez lembrar-se dos momentos que tinha vivido na

cidade satélite onde morava. Relembrou vivamente das vezes em que estava nas praças e feiras, sendo questionada disso ou daquilo pelas pessoas, interessadas nas suas respostas. Observou atentamente o garotinho responder as perguntas que ela também sabia as respostas. Bonina ouviu um sussurro de um jovem que estava ao seu lado "Parece que esse menino sabe de tudo!" Decidiu fazer uma indagação que pudesse interessar a todos que estavam ali, e questionou o garotinho com uma pergunta: - Quem lhe ensinou todos esses conhecimentos? - Meus pais! Eles são amantes das belas-letras e desde cedo me inculcaram um enorme apreço pelos livros. Todo tipo de conhecimento que desejarmos, haveremos de encontrar nos livros. A leitura é a mãe do saber! - respondeu o garoto. - Muito obrigada, pelo que acabou de me confirmar. Eu concordo com você! - agradeceu Bonina. Uma acadêmica sulista que estava fazendo turismo no Nordeste acompanhou pasmada a conversa das duas crianças, e não agüentou o desassossego, apontando seu indicador para Bonina, resolveu fazer uma pergunta: - Você é a garota mais inteligente do mundo? - Não estou certa disso! Mas posso lhe garantir que sou uma das garotas que mais gosta de ler livros no mundo. - afirmou Bonina desapegada de qualquer vaidade. Assim, Bonina conheceu o garotinho Laerte, com apenas sete anos, e que assim como ela, passou a gostar de ler livros desde muito cedo. Uma nova história de vida estava iniciando, com novos personagens, mas a essência era a mesma: uma criança que amar ler os livros irá descobrir os mistérios da vida. Dois dias após o encontro com o garotinho Laerte, Bonina estava de retorno ao orfanato... Passou a relatar para os irmãos órfãos, tudo sobre os momentos marcantes de suas férias no Nordeste. Um mês depois, por três semanas sucessivas, todos no orfanato ficaram deslumbrados com milhares de fotos que Bonina recebeu da agência. As crianças ainda estavam

encantadas com as fotos, quando chegaram os DVD's com as filmagens concernentes a cada estado nordestino que Bonina visitou, e o encantamento permaneceu por vários dias enquanto assistiam os DVD's. A menina mais inteligente do mundo apresenta para o mundo a culinária, os pontos turísticos, os locais para práticas de esportes radicais náuticos, as festas culturais e religiosas, os encantos do Nordeste e a alegria dos nordestinos... Novamente, em quase todas as cidades brasileiras apareceram imagens da garotinha: Bonina fazendo sua refeição no local onde antes fora um quilombo. A menininha visitando os museus, teatro e acervos arquitetônicos coloniais. A garota brincando com os golfinhos, tartarugas... Nas pequenas comunidades, aventurandose a navegar numa pequena jangada, nos mangues e nas dunas... Mais uma vez o sucesso foi bombástico! - Bonina! Gostaria de ter uma conversa particular com você. - Quando quiser diretora! Apenas lhe peço para que a Preta esteja presente, não tenho segredos com ela. - Mas é claro! O que eu tenho para expor para você é do interesse da Leopoldina, que deseja tanto sua felicidade. - Então estamos de pleno acordo! E uma reunião foi marcada para o dia seguinte. - Muito bem! Vamos ao ponto que verdadeiramente interessa. Estou certa de está fazendo o que é correto. - Que mistério é esse diretora? - perguntou Leopoldina. - Um mistério que muito vai agradar Bonina, quando for completamente esclarecido. - Então nos diga logo! Ou está querendo nos matar de curiosidade? - indagou Bonina. - Está bem! Aconteceu quando vocês duas estavam de férias no Nordeste. Um senador do Brasil, que é neto de um conde da nobreza italiana, me visitou! Confessou ter tido um caso com sua secretária, no início do seu primeiro mandato. A moça era uma jovem sonhadora que desejava muito vencer na vida. O senador me revelou que o ardor jovial da moça acabou por tornálo um descuidado e a jovem secretaria engravidou. Aquela gravidez indesejada tornou-se um grande problema para os dois. O político,

de forma alguma estava disposto em torna-se parte de um escândalo e aquela moça, não pretendia estragar uma carreira que, nas suas previsões, muito brevemente se tornaria brilhante. Assim, aquela criança que estava na sua barriga, passou a ser um incomodo para os dois. Por fim, concluíram que um bebê naquele momento poderia atrapalhar o futuro de ambos. Mesmo assim, a secretária resolveu levar a gravidez até o fim, mas não ficou com a criança. O senador desconfia que a moça tenha abandonado a filha no hospital. Só depois que ficou sabendo sobre seu caso Bonina, que você tem estado à procura dos pais, ele percebeu que as datas coincidem com os acontecimentos de há dez anos. O senador está convencido que você, Bonina, tem sangue "azul" e que toda essa sua inteligência é por causa da sua nobre origem... - Mas que bobagem é essa? Todos meus conhecimentos eu encontrei nos livros e o mérito é da Preta que me fez descobrir o valor da leitura, quando passou noites e mais noites lendo até que eu dormisse! - confessou Bonina quando ficou sabendo dos pensamentos do senador que poderia ser o seu pai. - Bonina, o senador me pediu absoluto sigilo, até poder confirmar através de um parecer especializado. Mas antes disso, caso queira, pode expor seus pensamentos pessoalmente a ele. O Dr. Ferdinando pediu para que eu lhe transmitisse um seu convite, que você vá até São Paulo, para conhecê-lo melhor... Não deu outra, Bonina foi visitar o senador em São Paulo. O político logo se apaixonou pela enorme capacidade de assimilação de Bonina, com sua memória prodigiosa, seu conhecimento alastrado nos mais diversos assuntos e sua educação refinada. O nobre descendente italiano se apressou em fazer os exames de paternidade, pois ele tinha guardado uma trança dos cabelos da falecida amante, que foi seu grande amor. E demonstrou disposição para reconhecer Bonina como sua legítima filha... Nos dias que se seguiram, enquanto aguardavam os diagnósticos dos exames, mais e mais o respeitável senador se apegava à menina, alegrando-se grandemente com a presença de Bonina na sua mansão.

- Está vendo Preta? Sou filha bastarda, nascida de uma relação promiscua e pecaminosa do nobre político e sua secretária! - brincou Bonina com a idéia de ser filha do senador. - Nanny, não brinque com esse assunto sério! Se esse bondoso homem for realmente seu pai, lembre-se da história que a diretora nos contou do fim trágico que levou a jovem mulher que o senador teve um caso. - aconselhou Leopoldina amorosamente. - Minha mãe morreu tão jovem! Você está com toda razão, Preta. Esse assunto não tem nada de engraçado! - refletiu Bonina. Desse modo, Bonina passou a viver como uma garota rica. Conheceu tudo quanto é lugar importante no estado de São Paulo. Ganhou presentes bonitos e caros. Foram a várias casas de espetáculos, museus, teatros... Foi até a baixada santista, na praia do Guarujá. Quando o resultado dos exames chegou, todos ficaram aflitos ao saber que o prognóstico foi negativo: constatou-se que a menina Bonina não é filha do senador brasileiro. Mas o político não se conformou com aqueles resultados "Tenho certeza que a menina é minha filha! Sua aparência é semelhante aos belos traços da mãe!" E certo que os resultados dos exames não correspondiam com a realidade, mandou fazer novos exames nos Estados Unidos. Assim, Bonina, tinha se tornado a queridinha do senador e ficou vivendo como garota rica. Foi até visitar as residências e empresas da família do político, existentes no Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa, Bonina chegou num sábado. No domingo leu no jornal que o Botafogo iria jogar aquele dia e convidou Leopoldina para que fossem conhecer o estádio do Maracanã. Depois Bonina quis conhecer o bairro carioca de Botafogo, a praia de Botafogo, o clube do Botafogo, comprou uma camiseta e uma bandeira do Botafogo... Aquele domingo, só se ouviu Bonina falar no Botafogo. E Leopoldina ficou muito espantada com aquela admiração repentina da menina pelo clube de futebol e tudo com que denominava Botafogo. - Nanny! Você nunca me disse nada sobre essa sua paixão pelo Botafogo. Desde quando você alimenta essa admiração?

- Faz muito tempo, Preta. Foi você que me fez descobrir e gostar do Botafogo! - Eu? Você está é ficando maluca! Nunca disse nada a você sobre esse time de futebol. - Um dia eu explico tudo para você! Vamos à Copacabana? - Vamos! Por hoje já chega de Botafogo. E as duas sorriram alegremente. Passearam nas paias de Copacabana e Ipanema. Na Baía de Guanabara ficou encantada com as belezas naturais do Pão de Açúcar; uma dezena de vezes subiu e desceu nos bondinhos. No Corcovado subiram até o Cristo Redentor... Visitaram o importante acervo histórico e arquitetônico da época do Brasil imperial. "Aqui se reúnem os imortais!" Exclamou Bonina diante da Academia Brasileira de Letras. Foram nas praias de Angra, Parati e nas ruínas do presídio que foi desativado na Ilha Grande... Na "Cidade Maravilhosa", o destino reservou uma surpresa desagradável para Bonina. A garota e Leopoldina estavam visitando uma favela, quando, repentinamente, as duas se encontraram no meio de uma troca de tiros entre uma facção criminosa e a Polícia... Uma bala perdida promoveu a fatalidade! Leopoldina ainda foi socorrida, mas infelizmente não agüentou o impacto destruidor daquele projétil de AR-15. Aquele incidente ceifou a vida da melhor amiga de Bonina. No dia seguinte, os resultados dos exames de paternidade chegaram dos Estados Unidos comprovaram de forma inquestionável: o senador não possui qualquer traço genético com Bonina. E a menina então foi obrigada a retornar para o orfanato. Por muitos dias Bonina ficou profundamente triste e abalada com o falecimento de Leopoldina. Foi lendo livros que a menina pouco a pouco recuperou o ânimo de viver. Os meses se passaram e Bonina se empenhava cada vez mais nos estudos. Sua inteligência vivaz, lógica, expansiva e explosiva, tornou-a extremamente capaz. No mês de dezembro daquele ano, quando completou onze anos, já estava com o diploma de conclusão do Ensino Fundamental. No ano seguinte, deu um passo ainda maior, concluiu o

Ensino Médio em apenas um ano... Em Brasília, sempre que ficava muito triste com a falta de Leopoldina, Bonina visitava o Congresso Nacional. Passou muitas tardes conversando demoradamente com o senador Ferdinando. Quando saiam do seu gabinete, o político passeava com a menina na Praça dos Três Poderes, visitavam o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Na capital federal, Bonina freqüentou muitos lugares importantes. A menina e o nobre político se tornaram grandes amigos...

CAPÍTULO VI
ENCONTRANDO ALGO MUITO VALIOSO
Para menina Bonina, os intercâmbios culturais internacionais proporcionaram a oportunidade de constatar o mundo que conheceu nos livros. A garota, aos doze anos, conheceu os lugares mais remotos. Viajou até a "Terra Santa", foi conhecer os lugares "sagrados" onde Jesus, o filho de Deus, andou. Foi aos Estados Unidos e à Inglaterra, onde aprendeu melhor o idioma inglês. No Japão e na Coréia, conheceu os costumes asiáticos. Emocionou-se ao fazer um passeio nas Muralhas da China. Também foi à Austrália, na Oceania, festejou com os aborígines e brincou no gelo com as crianças esquimós... Caía uma brisa fina, Bonina encontrava-se no orfanato. Tinha acabado de chegar da viagem que fez a Nova Iorque, quando visitou a sede da Organização das Nações Unidas. Foi um dos brasileirinhos escolhidos para freqüentar a sede da ONU, na

semana que foi instituído o Ano Internacional das Crianças, onde Bonina fez um brilhante discurso. Estava lendo suas correspondências, onde verificou sua aprovação nos vestibulares de Medicina, Direito e Letras, justamente os quais Bonina concorreu. Mas o vazio que a acompanhou por todos aqueles dias da sua vida, permanecia presente e cada vez mais forte. Nos momentos de crise, Bonina se refugiava na leitura do velho jornal que ganhou da Leopoldina quando tinha apenas cinco anos. Perdeu a conta de quantas vezes leu aquele velho jornal. "Será que nunca irei encontrar minha família? Onde será que estão vocês meus pais? Agora não tenho mais a ajuda da Leopoldina, será que eu nunca vou realizar meu maior sonho?" Bonina ficava se perguntando no silêncio do quartinho do orfanato. Sabia de cor as previsões do horóscopo, que foram feitas aquele dia, para o seu signo - Capricórnio: para tudo que fizer agora, você vai sentir a mão de um amigo em seu ombro "A Preta!". Aproveite para seguir o rumo certo de sua vida, com a orientação oportuna ao seu lado "Os livros!". Dicas do dia: torne útil sua popularidade hoje "Estou na primeira página deste jornal!". Mas não a transforme em algo egoísta "Não há como me engrandecer com esta notícia!". Seja inteligente no seu modo de agir "Amando a leitura procuro acatar fielmente esta previsão!". Esses eram os pensamentos de Bonina quando estava lendo aquelas previsões no velho jornal. Um título na página de esporte sobre uma equipe de futebol aprisionava sua atenção - A ESTRELA SOLITÁRIA ESTE ANO VAI DE MAL A PIOR. Passou a gostar do time do Botafogo só porque o termo "estrela solitária", muito se parecia com o que lhe aconteceu. "A Preta não ficou sabendo o porquê da minha admiração pelo time do Botafogo! Nunca mais eu vou deixar para realizar amanhã o que posso fazer hoje!". Todavia, a notícia da recém-nascida que foi abandonada na cesta de lixo, mexia com seu emocional, a garotinha naquela manchete é Bonina. Outras três notícias naquele velho jornal atraiam a atenção da menina: JARDINEIRO CONDENADO - MULHER

ATROPELADA PERDE BEBÊ NO PARTO COMPLICADO ENFERMEIRA ACUSADA DE SEQÜESTRO FOI CAPTURADA. Bonina ficou observando atentamente aquelas notícias quando, inesperadamente, começou a sorrir alegremente da idéia que surgiu na sua cabeçinha "Vou voltar ao passado e descobrir como e onde está cada um desses personagens!". Naquele mesmo dia começou sua investigação. O jardineiro foi o primeiro personagem que Bonina encontrou. No jornal estava a indicação onde ele podia ser encontrado. Um homem de voz acalentadora e olhar cativante! As rugas, marcas que demonstravam uma longa experiência de vida, não mascaravam a beleza dos traços do belo jovem que foi no passado. Mesmo com aquela idade era um homem admirável. Ali estava Bonina, diante da própria notícia. Já tinha lido sobre aquele homem dezenas de vezes, mais não esperava que ele fosse tão esplendoroso. A patroa do jardineiro esqueceu-se do local onde abandonou seu pequeno estojo de jóias em que guardava seu precioso anel com brilhantes. Não tendo a menor idéia de onde o largou, fez uma injusta acusação ao seu jardineiro. Afirmando que ele se apoderou do seu bem valioso. O jardineiro enfrentou um julgamento e foi condenado pelo crime de furto. Dias depois a Polícia descobriu o anel na prateleira de uma joalheria que vende jóias usadas, e veio a confirmação do joalheiro que disse ter comprado a jóia de um garoto que trabalhava no lixão da cidade. O garoto afirmou que achou o anel numa sacola de lixo, assim como o tênis que ele usava. O filho da rica senhora reconheceu o tênis como sendo dele e que tinha se desfeito do mesmo jogando-o no lixo por já estar muito velho. Desse modo, a rica senhora reconheceu que poderia ter jogado no lixo por engano seu precioso anel e chegou à conclusão que o jardineiro era um homem honesto, inocentando-o da acusação e do crime que lhe fora imputado. Foi solto dez dias depois do julgamento, quando a Polícia concluiu as investigações que o inocentavam. Sua patroa, na tentativa de se desculpar e amenizar o erro grave que cometera, aumentou o salário do jardineiro que a perdoou e permaneceu trabalhando na casa...

A conversa com o primeiro personagem encontrado deixou Bonina muito eufórica e contente. O homem lhe confessou que fez um bom casamento e que era pai de quatro filhos saudáveis: dois garotos e duas meninas. Acrescentou ainda que sua mulher perdeu o primeiro filho: "Foi por milagre minha esposa não ter morrido!". Bonina se comoveu com o relato que a fez recordar de sua condição de órfã e limitou-se a oferecer sua amizade. Não querendo prolongar aquele assunto triste, por temer atrapalhar o jardineiro no seu trabalho. Logo depois se despediram com o juramento de Bonina que, prometeu retornar com mais tempo para conhecer os filhos e a esposa do jardineiro. No dia seguinte... Uma mocinha entrou naquele hospital e logo foi reconhecida. Os enfermeiros e os médicos faziam sempre muita questão de que todos soubessem que a menina mais inteligente do mundo fora salva pelos profissionais daquele hospital, e Bonina tinha muito apreço pelo carinho que recebia. Logo, todos queriam lhe agradar. Num tom enigmático, uma voz meiga ecoou: - Hoje eu estou aqui para tratar de um assunto sério com o administrador. - levando os enfermeiros a um ataque de riso, inclusive a menina. - Eu quero falar com o diretor! É sério pessoal! - Muito bem, eu estou aqui! O que a mocinha quer falar comigo? - perguntou o diretor que se aproximou para cumprimentá-la. - É particular! - disse Bonina. E o som de novas gargalhadas impregnou o ambiente hospitalar. - Tudo bem, então me acompanhe. Bonina se despediu de todos e seguiu o diretor até sua sala... - Não tomarei muito do seu tempo, sei o quanto ele é precioso para a vida de muitas pessoas. Estou apenas querendo saber sobre uma paciente que esteve aqui no primeiro dia em que me trouxeram para cá. - Como é o nome dessa pessoa? - perguntou o diretor. Bonina retirou o velho jornal da mochila escolar, apontou

para a notícia sobre a mulher que foi acidentada perdendo seu bebê, e afirmou: - É esta aqui da matéria! O diretor sorriu largamente... Posteriormente, informou que aquela mulher restabeleceu a saúde e nos anos que se seguiram foi mãe por mais quatro vezes e os partos realizados naquele hospital. - Então, com certeza, vocês têm o endereço da mulher? - Certamente! Duas horas depois... Bonina tocou a campainha de uma casa, num bairro distante do centro da cidade. - Bom dia! Meu nome é... - Eu sei quem é você! "A menina mais inteligente do mundo!" Já assisti você na tevê. Meu marido falou que conversou com você e me confirmou que nos faria uma visita. Eu confesso que relutei em acreditar, mesmo sabendo que ele sempre fala a verdade. - antecipou-se a mulher. - Quem é seu esposo? Não me recordo dele e muito menos que lhe fiz qualquer promessa de visitá-la. Há poucas horas, peguei seu endereço no hospital onde foram realizados os partos de seus filhos. Estou aqui porque eu e a senhora estivemos no mesmo local, no dia que minha vida foi salva. - Meu esposo é o jardineiro que você visitou ontem, lembra? - Mas que coincidência incrível! Acabei de descobrir que a senhora, o seu esposo e eu, fomos notícias doze anos atrás, no mesmo jornal. - Esse foi um dia nada bom, tanto para mim quanto para meu esposo. - Muito menos para mim! - Bonina arrebatou. No momento seguinte, a mulher passou a relatar o ocorrido naquele dia triste. - Sofri muito naquela época! Um mês antes, meu esposo tinha sido preso, acusado de furtar uma jóia da patroa. Fui ao julgamento dele e um juiz o condenou a ficar três anos aprisionado. Eu estava grávida, no mês de ter a criança. Fiquei transtornada com aquela condenação! Tinha certeza que meu esposo era

inocente. Saí arrasada daquela sala de audiência e fiquei vagueando pelas ruas. Inesperadamente, um carro me atropelou. Fiquei alguns dias na Unidade de Tratamento Intensivo. Quando recobrei meus sentidos, recebi duas notícias: uma boa, meu marido tinha sido inocentado e estava liberto. Mas a outra era uma péssima notícia: meu bebê faleceu por causa do acidente. Como eu tinha se esquecido dos meus documentos em casa, os médicos não ficaram sabendo qual era meu nome, endereço ou qualquer outra informação sobre minha pessoa. A notícia que apareceu no jornal é que eu era uma indigente. Um amigo de meu marido até nos aconselhou a requerer uma indenização do dono do jornal, mas eu não concordei e desestimulei meu esposo daquela idéia. Já tínhamos problemas demais. Até porque a notícia estava conforme as informações prestadas pelo hospital. - Naquele dia eu quase morri! Fui salva milagrosamente por um gari. - acrescenta Bonina. No momento seguinte, dominadas por um afeto repentino, as duas se abraçaram, desfazendo-se em lágrimas. Aquela manhã terminou com Bonina recostada à mesa, ceando com o jardineiro Valdemar, a esposa Maria e as quatro crianças do casal. Ambos fizeram juras com promessas de amizade duradoura. Quando retornou para o orfanato, Bonina contou toda a incrível história que vivenciou naqueles últimos dois dias, quando decidiu "voltar" ao passado. Uma semana depois, apareceram as primeiras pistas do paradeiro da mulher que no passado foi acusada de seqüestrar bebês. No primeiro momento Bonina ficou apreensiva e adiou o primeiro contato, até ficar convencida de que não existiam riscos naquela aproximação. Gioconda estava prostrada numa cama. Um câncer maligno reduzira sua vida ao tratamento de quimioterapia. Os médicos lhes davam poucos dias de vida. "Como uma doença pode deformar tanto uma pessoa? A mulher nada se parece com a que está na foto do jornal!" Foram os primeiros pensamentos de Bonina ao vê-la. Os médicos não permitiam visitas prolongadas. Desse modo, Bonina apressou-

se a informar quem era e os motivos que a trouxeram ali, mostrando o velho jornal para Gioconda. Logo em seguida se despediu, desejando melhoras para a mulher. Quando já estava se aproximando da porta de saída, ouviu uma voz rouca que ecoou no quarto: - Espere! Tenho um segredo que quero revelar. - Por que para mim? - perguntou Bonina. - Porque é um assunto que vai interessá-la. - disse Gioconda firmemente. - Seus médicos me proibiram de prolongar a visita. - Então se aproxime, não temos muito tempo. - O que quer me revelar? Seja breve. - Sente-se, pois presumo que irá ficar abalada. Gioconda olhou atentamente para Bonina e continuou: - Não quero morrer sabendo que me foi oportunizado tirar esse grande peso que carrego. Fez uma longa pausa e exclamou: - Eu sei quem é sua mãe! Bonina sentiu seu mundo explodir de felicidade "Minha Mãe?!" Pensou a menina. Sentou-se e emudeceu. E Gioconda prosseguiu: - Doze anos no passado, eu era enfermeira e programei seqüestrar uma criancinha. Mas uma fatalidade estragou meus planos: a mãe e a criança que eu pretendia seqüestrar faleceram. Logo após meus planos serem desfeitos, outra mulher que tinha sido acidentada chegou ao mesmo hospital e entrou em serviço de parto. Nasceu uma linda menina! A mãe da garotinha ficou entre a vida e a morte. Seus documentos na ocasião não foram encontrados e a mulher foi dada como indigente, surgindo uma grande oportunidade para que eu realizasse os planos pelos quais estava disposta. Eu não desperdicei aquela oportunidade: troquei as criancinhas. Colocando a que morreu no lugar daquela em que a mãe estava na Unidade de Tratamento Intensivo e levei a garotinha sobrevivente comigo. Mas outro fato inesperado me aguardava: quando eu fui fazer a entrega da criança, observei de longe a Polícia prender o casal de estrangeiros que estavam

dispostos a pagar pela menina. Naquele momento fiquei desesperada! Com medo de ser presa, abandonei a garotinha num beco escuro, no meio de várias sacolas de lixo, e fui para meu apartamento que ficava ali próximo. Pensei em retornar assim que tudo acalmasse. Mas a Polícia já estava me esperando. Desse modo, fui impedida de voltar para pegar a criança, não podendo revelar onde tinha deixado a garotinha para não me comprometer com a Justiça. No dia seguinte, os jornais e os noticiários na tevê anunciaram que uma recém-nascida tinha sido encontrada por um gari, e ninguém ficou sabendo do paradeiro da mãe. Meses depois eu fui solta por falta de provas. Nunca mais, desde então, pratiquei semelhante crime! É esse o segredo que eu tinha para revelar: a garotinha que eu abandonei naquele dia é você. As lágrimas caíram sem nenhum controle, o coração pulsou fortemente, Bonina ficou totalmente cativa daquele momento. Uma mescla de pensamentos invadiu a mente da menina: as lembranças das viagens que fez; as homenagens que recebeu; os bons momentos que viveu e tudo que aprendeu. Com os olhos já avermelhados, olhou nos olhos de Gioconda, prostrada na cama, e declarou: - Você me tirou a oportunidade de viver com minha família durante muito tempo. Privou-me de tantas outras possibilidades! Nesses doze anos, eu sequer pude pronunciar "papai" ou "mamãe". Assim mesmo, não consigo guardar raiva ou rancor da senhora. Para acalmá-la da sua culpa e da dor que certamente deve estar sentindo, quero que saiba de uma coisa: hoje, com essas suas declarações, eu me tornei a menina mais feliz do mundo. Interessante! As voltas que o mundo dá! A pessoa que me causou o maior mal é a que me tornou uma garota afortunada. Sei onde encontrar meus pais e meus quatro irmãos. A propósito, meus pais se chamam Valdemar e Maria, meus irmãos são Jorge, Josias, Elaine e Suellen. - Perdoe-me por todo mal que te causei! - foram as últimas palavras da seqüestradora arrependida. Naquele dia, quando Bonina informou sobre a confissão que ouviu de Gioconda, muitas pessoas não acreditaram nela,

chegaram a afirmar que aquela era uma estória da cabeça imaginativa da menina. Gioconda faleceu na manhã seguinte. Foi necessário um exame de DNA para confirmar a veracidade e o desfecho da história da garotinha mais inteligente do mundo, que encontrou sua família nas páginas de um velho jornal. Dias depois... A pequena casa do bairro popular pouco se diferenciava das demais, apenas no enorme quintal bem zelado, onde era cultivada uma infinidade de hortaliças, plantas frutíferas e medicinais. Os dois grandes jambeiros plantados em um dos cantos do alto muro proporcionavam sombreamento o dia inteiro. Uma mesa e dois bancos brancos de madeira, embaixo dos jambeiros, era o espaço ao ar livre protegido do sol abrasador do verão. Onde a família se reunia para conversar, tomar limonadas e fazer seus lanches nas tardes ensolaradas dos dias de domingo. Os galhos fortes de um dos jambeiros sustentavam dois balanços. Ao lado tinha um belo escorregador para as crianças brincarem. Existia um cercado na parte da frente da casa, equitativamente dividido, com uma cancela no meio. Nas laterais do alambrado e no pequeno quadrado central, emoldurado com tijolos, eram cultivadas belas orquídeas, rosas, samambaias e flores variadas; que exalavam fragrâncias agradáveis. O gramado era bem cuidado. As crianças corriam de um lado para o outro, brincavam de esconde-esconde, amarelinha, dançavam com os bambolês e cantavam músicas infantis. Na pequena varanda, os pais orgulhosos e felizes observavam a algazarra dos filhos, com os rostos transbordando de alegria. Bonina abraçou os irmãos alegremente, beijou-os, repetindo todo o instante que os amava... Naquele primeiro Natal com a família, a garota ficou imensamente feliz. Bonina estava com treze anos, quando resolveu retornar às salas de aulas... - Parabéns, professora! - disse um jovem de feições orientais. - E por qual motivo me felicita? Sendo que ainda não tive o

prazer de conhecê-lo! - Perdoe-me pela distração, professora! Meu nome é Juan. E o motivo pelo qual estou lhe parabenizando, é pelo modo como conduz a criação de seus filhos. - E como veio saber o modo como conduzo a criação dos meus filhos? - Ora, professora, hoje cedo quando estava conhecendo o Campus, me deparei com uma porção de acadêmicos circundando e fazendo perguntas para uma garotinha. Fiquei pasmado! Cheguei a me perguntar como ela tinha as respostas para todas as perguntas que lhe eram feitas. Agora percebo de onde vêem todos os seus conhecimentos: ela assiste às aulas com a mãe... - Mas do que exatamente você está falando? - Aquela menina ali, não é sua filha? - perguntou o rapaz, apontando seu indicador para Bonina (levando todos os acadêmicos da classe ao riso). - Juan, onde esteve nos cinco últimos anos? - Estava a oito anos morando com meu avô no Japão. respondeu o jovem sansei. - Só estando morando do outro lado do mundo para não conhecer Bonina! - E quem é essa menina tão especial? - perguntou o jovem, neto de japoneses. - Este ano, aquela garota ingressou nos cursos de Medicina no período da manhã, e faz Letras aqui conosco no período da tarde. Ela fala fluentemente o inglês, o francês, o italiano, o espanhol, e arranha aproximadamente cinco outros idiomas, além do latim. Conhece as cinco regiões brasileiras e visitou aproximadamente trinta países, nos seis continentes... E para que eu não fique toda minha aula relatando a você sobre os feitos daquela garota, basta que saiba de uma coisa: Bonina é considerada a criança mais inteligente do mundo! - disse a professora, orgulhosa por ser a mestra de alguém tão conhecida e também muito respeitada. - Obrigada, professora! Pela parte que me toca. - disse

Bonina, com sincera modéstia. Assim, iniciou uma nova fase na vida da brasileirinha mais inteligente do mundo: a menina que nunca perdeu a esperança de encontrar sua família; a garota que tem muito apreço pelos livros...

CORRESPONDÊNCIA
Contato literário, críticas e sugestões...
E-mail: jeovane_pn@hotmail.com

BIOGRAFIA
O autor Jeovane Pereira do Nascimento, candango de nascimento*, foi registrado no distrito de Zé Doca, do município de Monção, no estado do Maranhão. Na pré-adolescência, seus pais migraram para a Amazônia, onde ele se naturalizou, definitivamente, habitante da nova região. Passou a conviver com os pais na cidade de Itaituba ("lugar de pedrass pequena", na língua tupi-guarani - Ita/pedra, ituba/pequena), no estado do Pará. Seu pai se tornou proprietário de um pequeno hotel, foi onde passou a ouvir incríveis histórias, testemunhos e aventuras dos garimpeiros que se embrenhavam na floresta em busca de ouro. Aproveitava para desenvolver a capacidade de bom ouvinte. O pai era quem guardava o resultado da garimpagem de muitos dos seus hóspedes, armazenado em frascos de plástico o metal em pó, e as pepitas embrulhadas em papel, sempre, mantendo uma boa quantidade do metal precioso em seu poder. Assim desenvolveu seu respeito pela posse de outrem, através das atitudes dos pais. Na fase final da sua adolescência, passou uma temporada no Nordeste, com seus avós maternos, onde estruturou seu caráter, observando as virtudes dos avós. Quando retornou ao lar, permaneceu pouco tempo. Logo colocou seus pés novamente nas estradas e passou a conhecer, quase na totalidade, a extensão territorial do mundo amazônico, levado pela latente veia migrante herdada do pai. Dos mestres e livros, é que vem sua modesta formação cultural. Em setembro de 2004, fez uma visita ao tio Francisco Aires Magalhães, em Brasília. Lá, redescobriu o que mais gosta de fazer: escrever. Pelo que decidiu se empenhar com o seu melhor espírito literário. Em março do ano 2005, lançou seu primeiro livro: CENSURADO, onde o autor narra uma odisséia que viveu na cidade de Cacoal, no estado de Rondônia.

*CANDANGO - primeiros habitantes da atual capital brasileira; expressão usada pelos espanhóis, referindo-se aos nordestinos da época da construção de Brasília; aqui, é tida como maior corrente migratória por ocasião do nascimento do autor que, é filho de um eterno migrante.