UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS COMUNICAÇÃO E ARTES CURSO DE PSICOLOGIA

POTENCIALIDADES TERAPÊUTICAS DO USO RITUALÍSTICO DA AYAHUASCA

MIRNA COSTA BRAZ SOARES TRABALHO DE CONCLUSÃO DO CURSO DE PSICOLOGIA Orientador(a): Prof. Silvia A. C. Martins Ph.D
Maceió, junho de 2009.

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MIRNA COSTA BRAZ SOARES

POTENCIALIDADES TERAPÊUTICAS DO USO RITUALISTICO DA AYAHUASCA

Trabalho de conclusão de curso apresentado como parte das atividades para formação de psicólogo através do curso de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas sob orientação de. Silvia A. C. Martins, Ph.D, profa. Adjunta do Instituto de Ciências Sociais da UFAL.

Maceió, 2009

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Os componentes da banca de avaliação, abaixo listados, consideram este trabalho aprovado.

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Prof. Silvia A. C Martins Ph. D. (Orientadora) - UFAL

________________________________________________________________________ Prof. Ms. José Geraldo Ribeiro da Cruz - UFAL

________________________________________________________________________ Prof. Clarice Novaes da Mota Ph. D. - UFAL

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“Dedico este trabalho a todos os meus amigos em especial aqueles que me ajudam em meu processo de transformação interior.

A Kaanda pelo apoio no EMFLORES, a Anita, ao Marcio, a Lara, a Carla, a Vóluzi Câmara com todo seu amor e boa vontade, que foi fundamental para que esse trabalho se realizasse. A minha família, meu pai e minha mãe pela base sólida que me proporcionaram.

Ao Mestre Irineu por ter me acolhido nessa Doutrina Verdadeira, a Virgem Maria e ao Patriarca São José

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Tudo passa e tudo fica porém o nosso é passar, passar fazendo caminhos caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória nem deixar na memória dos homens minha canção eu amo os mundos sutis leves e gentis, como bolhas de sabão

Gosto de ver-los pintar-se de sol e graná voar abaixo o céu azul, tremer subitamente e quebrar-se...

Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais; caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho e ao voltar a vista atrás se vê a senda que nunca se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho somente há marcas no mar...

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SUMÁRIO

Apresentação ............................................................................................................7 Introdução ................................................................................................................ 9 1 A AYAHUASCA COMO PLANTA MESTRA- A NOÇÃO DE ENTEÓGENO ........... 20 2 A UTILIZAÇÃO DA AYAHUASCA EM CONTEXTO URBANO E RITUAL ............ 24
2.1 A IMPORTÂNCIA DO RITUAL PARA CONSAGRAÇAO DA AYAHUASCA ..................... 28
2.1.1 RITUAL DO SANTO DAIME ........................................................................................................ 31 2.1.2 RITUAL DO ESSÊNCIA DIVINA .................................................................................................. 40

3 EXPERIÊNCIAS TRANSPESSOAIS ATRAVÉS DO USO RITUALÍSTICO DA AYAHUASCA.................................................................................................................. 46
3.1 AS EXPERIÊNCIAS COM AYAHUASCA E O RETORNO AO SAGRADO NA CONTEMPORANEIDADE ................................................................................................................................................... 52

4 POTENCIALIDADES TERAPEUTICAS DO USO RITUALÍSTICO DA AYAHUASCA ................................................................................................................................. 59
4.1 AYAHUASCA E XAMANISMO: A DESCOBERTA DOS POTENCIAIS TERAPÊUTICOS DA BEBIDA SAGRADA..................................................................................................................................60 4.1.1 FUNÇÃO TERAPÊUTICA DA AYAHUASCA.............................................................................62 4.1.1.1 AYAHUASCA A CAMINHO DO SELF.................................................................................... 76

Considerações finais ............................................................................................. 80

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APRESENTAÇÃO

Os estados transcendentes e os aspectos transpessoais da vida sempre fizeram parte do meu interesse. Intuitivamente fui levada a conhecer a Ayahuasca, podendo vivenciar essa realidade e assim perceber como é grande o potencial transformador e curador da bebida sagrada. Através da minha própria experiência e vivência com a Ayahuasca, pude entrar em contato com a realidade transpessoal, que só conhecia intuitivamente e teoricamente, principalmente através da leitura de Jung, Grof e Weil. O processo de pesquisa foi impulsionado pela minha própria experiência, percepções, curiosidades e, principalmente, reverência ao caminho que tanto modificou a minha forma de viver e compreender a vida. Estou sempre experienciando transformações, acordos internos e me conhecendo. É um grande estudo sobre a vida e sobre nós mesmos, onde passei a tomar consciência dos conteúdos advindos do meu ego, como as minhas projeções, meus mecanismos de defesa, padrões de comportamento, carências. Passei também a vivenciar aqueles conteúdos advindos do Inconsciente Coletivo, indo em direção ao Self, compreendendo e entrando em contato com as minhas raízes espirituais, penetrando na realidade dos mitos, dos arquétipos e do Sagrado.
Os estados transpessoais levam a uma forma mais ampliada de entendimento e integração psicoemocional, potencializa nosso encontro com o Sagrado e a vivencia de conteúdos profundos capazes de modificar, transformar e curar

(BERTOLUCCI, 1991, p.20).

O que mais me motivou a pesquisar esse tema foram às mudanças que aconteceram em mim mesma. Como fardada do Santo Daime, onde faço parte do Núcleo
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Céu das Águas em Maceió- AL pude compreender como atua a bebida sagrada em mim mesma. E através da lições que me foram passadas em cada trabalho espiritual, passei a prestar mais atenção a mim mesma, compreendendo o meu lugar no mundo, sentindo fluxo da vida em direção à plenitude do Ser. Devido ao fato de eu mesma estar vivenciando aquilo que estudo, a pesquisa teve caráter heurístico e experiencial. Busquei compreender as potencialidades terapêuticas da Ayahuasca a partir das minhas próprias experiências e vivências, não esquecendo, entretanto, a experiência do outro e o conhecimento já produzido sobre o assunto.

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INTRODUÇÃO

Em meio ao vazio subjetivo evidente na sociedade contemporânea está existindo uma maior movimentação na busca pelo autoconhecimento, através de “um movimento ascendente no nível de consciência, levando a que muitas pessoas se interessem por práticas espirituais e por outras buscas que denotam uma insatisfação com o „lado oficial‟ do saber, devido a uma necessidade de encontrar outras fontes de realização pessoal” (BERTOLUCCI, 1991, p.116).
É exatamente numa época de insignificação, de exasperado consumismo, que surge, como objeto de interesse dos grandes centros urbanos, o uso ritual da ayahuasca, introduzido, entretanto, no interior do Brasil, desde o início deste século O uso da ayahuasca tem sido considerado legítimo até agora: um grande número de pessoas investiram suas vidas nesses cultos, tornando-os centrais para as suas identidades sociais, individuais e espirituais (SILVA SÁ, 1996, p. 8, 12).

Muitas pessoas estão insatisfeitas com o conhecimento que possuem sobre si mesmas e muito dos paradigmas que utilizavam passam a não fazer mais sentido. Nesse contexto, a Ayahuasca, uma bebida enteógena utilizada inicialmente por diversas tribos indígenas da América do Sul, vem sendo cada vez mais utilizada em contexto urbano no Brasil e se expandindo por diversos paises do mundo. As substancias enteógenas vêm sendo utilizadas por diversas culturas do Planeta há tempos imemoráveis. São conhecidas como plantas Mestras ou plantas professoras, pelo referencial que possuem na solução dos problemas de uma coletividade e por serem consideradas “plantas de uma profunda e misteriosa sabedoria, instrumentos do divino, fontes de beleza e inspiração, assim como meios para manter a integridade cultural” (LERRER, 2009).
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A utilização das plantas denominadas Enteógenas está ligada fundamentalmente ao contexto espiritual sagrado, sendo essa nomenclatura o que difere dos outros termos, como alucinógenos e psicodélicos, que estão desvinculados desse contexto. Entre as plantas enteógenas podemos citar a Ayahuasca, Jurema, lsa, Salvia Divinorum, Cannabis Sativa, Peyote, que funcionam como facilitadoras do acesso entre a realidade comum e uma realidade extraordinária onde ocorrem as experiências transpessoais, revelações e aprendizados. A Ayahuasca, conhecida como daime e vegetal, é utilizada nos contextos ritualísticos do Santo Daime, União do Vegetal, Barquinha e outros grupos. A bebida sagrada é o elo principal dos grupo religiosos e é através dela que esses grupos se estruturaram. Tavares (2002) nos fala que o campo de pesquisa com Enteógenos vai além dos limites da experiência racional, a partir de uma revalorização do não-cotidiano e das experiências não-conceituais. Pretendendo-se com isso, reestruturar o lugar da produção do conhecimento, habilitando o seu acesso a outros reinos da experiência humana, como por exemplo, o do indizível, da natureza intrínseca da experiência religiosa e do sagrado. O uso da Ayahuasca está tradicionalmente vinculado a um ritual, onde o objetivo é entrar em contato com o divino e com o sagrado, proporcionado experiências de autoconhecimento e de transcendência. Essas experiências são fluidas, subjetivas e transpessoais, pois levam ao contato com uma realidade que transcende o cotidiano. Experienciamos assim, níveis de consciência que vão além do pensamento lógico formal com o qual estamos acostumados a lidar cotidianamente; aprofundamos nosso conhecimento sobre nós mesmos e podemos alcançar níveis profundos que estão no nosso inconsciente. Experiências como essas transcendem a pessoa, por isso são chamadas de transpessoais, indo além do individuo, da racionalidade e do sistema de crenças acumuladas ao longo da vida.

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O termo “transpessoal” foi utilizado pela primeira vez na área da psicologia por Carl Gustav Jung em 1917, quando se referia ao Inconsciente Coletivo. Para Jung, além do inconsciente individual existe também aquele que seria transpessoal ou coletivo por manifestar expressões e reações comuns ao espírito humano. A hipótese desse inconsciente o leva a estudar a dimensão psíquica do acesso ao simbólico, incluindo os arquétipos e mitos presentes em toda a humanidade e em nossa psique (GAILLARD 2003, p. 57).
Experiências ditas transpessoais acompanham o homem há milênios. No Ocidente, na maioria das vezes, estas vivências são associadas à religião, caracterizando-se como um encontro com um estado místico indescritível e não vivido pela maioria dos indivíduos. Ao contrário, porém, no Oriente estas experiências obtiveram atenção e estudo que desenvolveram métodos e técnicas para vivenciá-las. O Zen-Budismo, a Ioga e o Sufismo, por exemplo, são três doutrinas orientais que, além de uma preocupação com o funcionamento da mente, sua relação com o Cosmos e o desenvolvimento da personalidade, têm implicitamente em seu pensamento a evolução interior do indivíduo visando atingir experiências transcendentais (TRIPICHIO, 2007)

A Psicologia Transpessoal é considerada a quarta força da Psicologia, buscando uma visão integradora e complementar do conhecimento das escolas antecessoras (behaviorismo, Psicanálise, Psicologia Humanista), com o objetivo de dar um corpo único à psicologia, de acordo com uma visão holística do homem, onde as divergências de opinião não sejam mais vistas como antagonismos, mas como visões complementares e não-excludentes sobre o mesmo objeto de estudo: o ser humano. A abordagem Transpessoal ganhou força a partir do lançamento da Revista de Psicologia Transpessoal (Journal of Transpersonal Psychology), que foi lançada 1969, tendo como principais responsáveis Viktor Frankl, Stanislav Grof, Maslow, Antony Sutich. De acordo com Pedrassoli (2008), os principais objetos de estudo são:
Psicologia e Psicoterapia Meditação, caminhos e práticas espirituais Mudança e transformação pessoal Pesquisa da consciência Vício e recuperação 11

Pesquisa de psicodélicos e estados alterados de consciência Morte e Experiências de Quase-Morte (EQM) Auto-realização e valores superiores A conexão mente-corpo Mitologia e Xamanismo Experiências culminantes

Os precursores da Psicologia Transpessoal, como Jung, Maslow e Weill desde o inicio do século passado já consideravam a importância de se explorar a dimensão mais profunda do ser humano, contidas nas experiências transpessoais, considerando que é através do autoconhecimento e do contato com as questões espirituais que ocorre a manifestação dos valores positivos necessários para o desenvolvimento saudável. O desenvolvimento espiritual conduz ao Self, que de acordo com Jung (1987), corresponde ao centro do nosso Ser, responsável pelo nosso alinhamento com os propósitos superiores da nossa alma. A experiência do Self é considerada intrinsecamente terapêutica e integradora pela a psicologia transpessoal justamente porque leva progressivamente para além do ego. Considerando legitima a experiência humana como um todo, a Psicologia Transpessoal não despreza a dimensão espiritual do ser humano, inclusive considerando-a como fator primordial para o bem estar psicológico (MASLOW, 1998) e relacionandoa a Saúde Mental.
As experiências de transcendência, espontâneas ou induzidas, transportariam o homem aos níveis mais profundos do seu inconsciente -o inconsciente coletivo- onde poderia encontrar o sentido da sua existência, sua identificação com a humanidade e uma profunda união com todo o universo. A emergência destes valores do inconsciente - através das experiências de transcendência- possibilitaria a cura de muitos transtornos mentais, sobretudo os de origem neurótica ou psicossomática (PELAEZ, 2006).

Em nossa pesquisa buscaremos compreender os conteúdos mobilizados na experiência com Ayahuasca, que são fundamentalmente transpessoais, o seu potencial terapêutico e as transformações ocorridas nos indivíduos, que estão relaciona-

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das a uma série de fatores como a bebida enteógena, a subjetividade, o contexto ritualístico, o contato com o sagrado e o autoconhecimento implicado na experiência. A abordagem metodológica utilizada foi a qualitativa referenciada pelo método fenomenológico, pelo método heurístico e pela etnografia. De acordo com Holanda (2008), por fenomenológico, entendemos o reconhecimento da alteridade do sujeito pesquisado, o que foi evidenciado na importância dada aos depoimentos colhidos e a compreensão que cada pessoa possui da sua própria experiência.
O método fenomenológico constitui-se numa abordagem descritiva, partindo da idéia de que se pode deixar o fenômeno falar por si, com o objetivo de alcançar o sentido da experiência, ou seja, o que a experiência significa para as pessoas que tiveram a experiência em questão e que estão, portanto, aptas a dar uma descrição compreensiva desta [...] A coleta pode ser feita através de entrevistas, depoimentos, estudos de caso, acrescidas de auto-reflexão, etc. (HOLANDA, 2006).

A pesquisa fenomenológica está interessada em descrever o vivido pelo outro de acordo total com sua linguagem, estando o pesquisador implicado nesse processo, pois ele não é neutro, pela dicotomia sujeito-objeto. A pesquisa fenomenológica está relacionada à psicologia transpessoal no sentido de estar interessada na totalidade experiência subjetiva do outro. Uma das premissas da psicologia transpessoal é estudar e compreender o ser humano de forma mais completa, evitando fragmentações. Foram colhidos depoimentos de participantes da Igreja Céu das Águas - Santo Daime- e do Centro de Harmonização Interior Essência Divina, ambos localizados em Maceió- AL. Buscou-se sempre uma maneira livre, aberta e espontânea na abordagem de cada pessoa, para que cada uma pudesse se expressar da melhor maneira, de uma forma natural. Os relatos nos ajudaram a traçar um panorama mais amplo sobre a questão uso ritualístico da Ayahuasca e sua função terapêutica. As pessoas entrevistadas, em sua maioria, possuíam nível superior, profissionais ligados a psicologia, Jornalismo, Ciências Sociais e também alguns estudantes universitários. Tais pessoas forma escolhidas ao acaso, aleatoriamente, sem prévia escolha. Os dados levantados foram surpreendentes, mostrando a riqueza da experiência de cada pessoa e o entendimento da sua própria experiência.
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Além dos dados etnográficos colhidos em pesquisa de campo participante, utilizamos também fontes primárias de entrevistas já realizadas sobre uso do enteógeno ayahuasca, em pesquisa desenvolvida no AVAL, grupo de pesquisa Antropologia Visual em Alagoas, do Instituto de Ciências Sociais da UFAL, onde há uma pesquisa em andamento desde 2007 que registra e reúne dados etnográficos, imagísticos e documentação das religiões Ayahuasqueiras em Alagoas. De acordo com BOUMARD (1999) no método etnográfico, o pesquisador é participante e registra também suas percepções, observações e reflexões em campo. Isso se dá ao mesmo tempo em que observa, registra as experiências que os pesquisados descrevem, procurando revelar o significado que as pessoas investigadas dão às suas ações e vivências subjetivas. A pesquisa também teve caráter heurístico devido à inclusão da subjetividade do pesquisador no processo de pesquisa, que conflui com as suas vivências e experiências com a bebida com a bebida sagrada e com as compreensões e transformações que surgiram a partir daí.
A palavra “Heurística” decorre do verbo grego heuriskein, que significa “encontrar”, “descobrir”. Corresponde a “encontro”, “busca” ou “arte da busca”. Refere-se a um processo de pesquisa interna através do qual se descobre a natureza e o significado da experiência [...] Neste modelo o self do pesquisador está presente ao longo de todo o processo, ou seja, o pesquisador experiência self-awareness (autoconsciência) e autoconhecimento. O processo heurístico engloba processos “autocriativos” e “auto-descobertas”, principiando por uma questão ou problema que o pesquisador pretende responder. Trata-se, pois, de um processo “autobiográfico. A grande contribuição do modelo heurístico está na intrínseca participação do sujeito do pesquisador no próprio ato da pesquisa, isto é, na efetiva colocação da subjetividade do pesquisador no ato de pesquisar. No contexto da pesquisa heurística em psicologia, Maciel (2004, p. 184) assinala: “É vital para a pesquisa heurística o engajamento, ou seja, a postura humana básica que depende da estrutura da afirmação volitiva, e que se manifesta como o “estarcom” o dado, conviver com a experiência (HOLANDA, 2006).

Não pôde haver um distanciamento do pesquisador com seu objeto de estudo, pois com Ayahuasca a compreensão se dá a partir da própria experiência. Nesse caminho é necessário experienciar para compreender, não entender a partir de pres14

suposições ou apenas do conhecimento teórico. O fundamental é sentir e vivenciar, pois como na maioria das situações da vida é da experiência que vem a compreensão. No primeiro capitulo, A Ayahuasca como Planta Mestra - a noção de Enteógeno reúno informações sobre esse chá e explico a noção de enteógeno; No segundo capitulo, “A utilização da Ayahuasca no Ritual Religioso em Contexto Urbano”, busco explicitar como a Ayahuasca, uma bebida indígena, utilizada primeiramente por tribos no interior da Floresta Amazônica, pôde se disseminar em populações urbanas das grandes cidades do Brasil e do mundo. Além disso, faremos um breve relato de como se deu o surgimento do Santo Daime, uma das religiões ayahuasqueiras contempladas nesse estudo e a sua importância para expansão e legalização da bebida no Brasil e internacionalmente. Nesse capitulo, abordo também sobre o ritual, que é um elemento de fundamental importância para a segurança da experiência com Ayahuasca, definindo e dando os contornos da mesma. “Os rituais com Ayahuasca sempre foram utilizados, desde os primórdios, com propósitos claramente definidos e principalmente voltados para cura, expansão da consciência e autoconhecimento (DROUOT, 1999, p. 29)”. No terceiro capitulo, “Experiências Transpessoais através do uso Ritual da Ayahuasca”, descrevo experiências ocorridas com a Ayahuasca do ponto de vista da psicologia transpessoal, buscando compreender como a psicologia lida com o fenômeno, quais os conceitos que ela utiliza, quais são as características e os pontos de ligação entre experiências transpessoais e uso da Ayahuasca. No quarto capitulo, “Potencialidades Terapêuticas do Uso Ritual da Ayahuasca”, verifica-se que existe um potencial transformador e curativo inerente ao uso ritual da Ayahuasca, pois uma de suas funções é amplificar o nível de compreensão de nós mesmos, promovendo resoluções internas, conflitos e autoconhecimento. O potencial terapêutico da ayahuasca advém das experiências ocorridas que podem conduzir a diversos processos psíquicos e a transformação interior. Essas experiências são percebidas como re-elaboradoras da vida psíquica, capazes de integrar o desenvolvimento emocional, psicossocial e espiritual dos indivíduos (MALUF, 2003; CREMASCO, 2007).

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A Ayahuasca também demonstra ser fundamental na resolução e tratamento de problemas, digamos mais objetivos, como a recuperação de pessoas drogadictas (SANTOS, 2006; LABATE, 2006), de pessoas com depressão e, inclusive, como foi relatado num dos depoimentos, na reversão de um quadro de síndrome de West de uma criança. O numero de pessoas que encontram na Ayahuasca um caminho para a autotransformação e para a cura pessoal vem aumentado e seus benefícios vem sendo cada vez mais divulgados. Nota-se, entretanto, que ainda ecoam muitos preconceitos com relação ao tema, tanto no meio acadêmico quanto no senso comum.
Naturalmente, falar de psicoativos provocará em alguns imediato preconceito e medo. Sim, é um problema mesmo, mas nada comparado com algo chamado ignorância, pois do que, da qual estamos falando? No Brasil aproximadamente 25.000 pessoas usam Ayahuasca para fins religiosos perfeitamente integrados na sociedade, nas suas famílias e seus trabalhos e, plenamente legais juridicamente. Legalização essa que ocorreu com pesquisas científicas do mais alto nível que confirmaram as características inócuas da bebida em questão (levada a cabo com cientistas como Charles Grob, Jace Callaway, Dennis Mckenna e Rick Strassman. Há muita informação em autores como Beatriz Labate, Ralph Metzner, Benny Shanon, Luis Eduardo Luna, etc). Descartar o tema por preconceito, em discussões sobre ciência da consciência é um preconceito, uma segregação ideológica, tendenciosa, movida por segundas intenções, jamais limpa ou honesta e, muito menos, científica (Mikosz 2008).

Assim, o objetivo central desse trabalho é contribuir para desmistificação do preconceito sobre o uso da Ayahuasca, mostrando o potencial de transformação que o seu uso pode acarretar. Beber a Ayahuasca pode refletir uma necessidade que algumas pessoas possuem de se autoconhecer, se autocompreender e evoluir espiritualmente, alem da cura que é vivenciada em vários níveis (seja físico e/ou espiritual). Segundo Stolaroff,
Com integridade, compromisso e coragem, vastos aspectos da mente podem ser explorados. É importante compreender: aquilo que alguém vivencia depende bastante de seu sistema de crenças, motivação, condicionamento e do conteúdo inconsciente acumulado – isso inclui a rigidez com que a mente funciona. Ocidentais, por diversos séculos, têm focado primeiramen16

te no mundo exterior, resultando na negligência do desenvolvimento de habilidades interiores. Essa negligência, casada com uma forte ênfase no materialismo e reducionismo, tem criado uma dolorosa cisão entre valores adotados conscientemente e os interesses profundos do ser. (STOLAROFF 1999: 60-80)

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1. A AYAHUASCA COMO PLANTA MESTRA- A NOÇÃO DE ENTEÓGENO

De acordo com Oliveira (2008), as plantas mestras ou plantas professoras, como são chamadas algumas plantas psicoativas, são agentes sociais reconhecidamente eficazes no processo de transmissão do conhecimento, pois a elas alguns grupos recorrem desde tempos imemoriais para responder, afirmar ou negar determinadas situações extremas da vida cotidiana seja um caso de doença ou uma decisão coletiva. O conceito de Planta Mestra advém do conhecimento xamânico, onde a característica principal é o uso ritual de plantas sagradas, que são identificadas como plantas mestras por sua capacidade de ensinar, de mostrar o caminho e dar compreensão (LUNA, 2002) O conhecimento xamânico refere-se a um conjunto de ensinamentos e técnicas milenares para conduzir a experiências de êxtase e a curas espirituais e físicas. Utilizado em todas as partes do mundo desde os primórdios da humanidade esse conhecimento está presente nas religiões ayahuasqueiras. A práxis xamânica pode ser caracterizada como o conhecimento cosmológico entre os quais está o uso de plantas, de natureza considerada sagrada, que muitas vezes são identificadas como plantas Mestras (GROISMAN, 1999). A Ayahuasca, como Enteógeno, é empregada desde os primórdios com fins religiosos e terapêuticos, quando se pretendia não apenas uma melhoria nos sintomas, mas “buscava-se atingir experiências de transcendência que restaurariam o equilíbrio entre o homem doente e seu cosmos, onde a cura é vista como uma trans19

formação espiritual e a busca de conexão e unidade (PELAEZ, 2006).
Assim como a Jurema, utilizada pela tribo brasileira Cariri Xocó, ou o Peyote para os grupos das pradarias norte americanas, também a Ayahuasca está inserida num contexto em que as plantas ocupam um importante papel simbólico. A utilização dessas substancias com finalidades curativas são conhecidos desde há mais remota antiguidade, como exemplo temo a Soma, utilizada há 3500 anos na Índia; o Peyote tradicionalmente utilizados por Índios da Meso-América há mais de 2000 anos e atualmente utilizado em varias parte do México e América do Norte (GROISMAN, 1999).

Enteógeno é uma palavra que tem origem do grego “Entheos” e “Genesthe”, que significam respectivamente “Deus interior” e “que gera”. O significado literal é algo como: “Que gera Deus interior”. A palavra “entheos” também é a raiz da palavra “entusiasmo”, cujo sentido original dizia respeito à “inspiração divina”. Assim, enteógeno também pode ser definido como o “que gera inspiração divina” (Wasson apud Pelaez, 2006). Enteógeno é uma denominação dada as substancias psicoativas que são utilizadas dentro de um contexto ritual considerado Sagrado e que leva a experiências de transcendência e autoconhecimento.
O uso de enteógenos, denominados pelo vegetalismo peruano de plantas professoras, por acreditarem serem elas possuidoras de um espírito ensinador e curador, foi adotado ritualmente nos cultos religiosos de povos de diferentes culturas e épocas, permitindo-lhes acessos a estados alterados da consciência. Segundo estudos antropológicos apenas os esquimós não fizeram uso de tais plantas, em decorrência da vegetação ser inexistente no meio ambiente habitado por eles (ARAUJO, 2005)

De acordo com Groisman (1999), os ensinamentos obtidos através da Ayahuasca são encarados como revelação, que nasce da dialética entre a experiência individual e a cosmologia grupal. Essa descoberta reconstrói a concepção pessoal em relação ao status quo até então vivido, a partir de uma ruptura na existência do sujeito que ao entrar em contato com o “Eu Superior”, pode transpor os limites da consciência favorecendo o contato com o mundo espiritual. Durante o uso de enteógenos amplia-se o nível de consciência, saindo de um
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estado comum e passando os perceber de outra forma a mesma realidade, inclusive podendo vivenciar aspectos do inconsciente transpessoal ou coletivo. Na medida em que se toma consciência do material inconsciente, aumenta-se o nível de consciência através de insights que funcionam como chaves para penetrar nos reinos do inconsciente (LERRER, 2009). Sobre o contato coma realidade do Sagrado e a vivência do Divino em si mesmo, proporcionada pelos enteógenos podemos citar o depoimento de um fardado do Santo Daime, que fala sobre umas de suas experiências mais marcantes com Ayahuasca:
O daime é uma dádiva divina, para que os homens aqui da terra se encontrem com o corpo do próprio Deus em si mesmos. Isso ai é uma coisa evidentemente espiritual. Uma das minhas experiências mais marcantes foi o fato de me lembrar de Deus e de me encontrar com Deus. A experiência foi essa... Essa sensação de sentir que sou filho de Deus, que sou um ser divino... Eterno... Simplesmente tomando consciência de que Deus e que domina e quem tem o poder e que ao mesmo tempo me ama e me dá todas as possibilidades para a vida, me dá tudo para que eu aprenda a ser seu filho com o ser divino.

[...] A partir do momento que eu estava tomando o daime,

muito obscuramente eu estava sentindo o chamado e sabia que ali tinha algo importante e precisei me entregar mesmo para o daime, me entregar para Deus. As coisas não são tão rápidas como a gente pretende. Temos que ter paciência e fazer os trabalhos porque num chegado momento nós vamos receber o chamado, o nosso coração vai se abrir mesmo completamente para isso.

A noção de Enteógeno se afasta do conceito de alucinógeno, que não é adequado para se referir a Ayahuasca, pois além dessa ser uma palavra carregada de estereótipos, etimologicamente significa divagar mentalmente, delirar, falar sem sentido, carregando um senso de fuga da realidade, traços que definitivamente não são representativos da experiência com a bebida sagrada. A alucinação é uma distorção patológica da capacidade de senso-percepção. Alucinar de olho fechado, não é alucinação. A alucinação esta fora e não dentro de nós, como nas mirações (espécie de visão interna experienciada nos estados trans-

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pessoais através da Ayahuasca). Geralmente as pessoas com sintomas psicopatológicos de alucinação, possuem muito medo e sofrem com aquilo que vêem. Mariano, fardado do Santo Daime explica,
O alucinógeno faz com que a pessoa fuja do problema, se aliene, saia da realidade. Já o enteógeno não é alienante, ao contrario liberta de nossas cascas, entraves e barreiras, levando ao contato com o centro de nosso ser, onde encontramos as verdades superiores, que vêm de cima, do plano espiritual e do centro da nossa psique.

Dessa perspectiva, ALVERGA (1996), ressalta que tal gama de fenômenos importantes vivenciados em contextos ritualísticos, com tantas repercussões psicológicas, éticas e sociais relevantes, não podem ser interpretados como mera alucinação ou como sintomas psicóticos. De acordo com STORALOFF (1999), o uso de enteógenos é importante por facilitar o nosso acesso a essas dimensões e “acordar para a realidade”. Não é o único meio para isso, muitos vão escolher o caminho da meditação e da psicoterapia. Mas, para muitos outros, o uso apropriado de enteógenos pode apressar bastante esse processo, pode revelar as travas interiores que bloqueiam e até mesmo temporariamente dissolvê-las, para que a pessoa desenvolva uma visão clara sobre si mesmo.
A sociedade prega uma coisa e faz outra. A Ayahuasca mostra o individuo tal como ele é, sem as mascaras que está acostumado a usar socialmente e o impulsiona a procurar em si mesmo a natureza das coisas. “Perceber o problema, enxergar e entrar em contato com a realidade que negamos normalmente, como mecanismo de defesa, já é um grande passo para transformação (depoimento de Mariano)”.

A percepção habitualmente embotada que temos da realidade permite reconhecer uma fração pequena de uma realidade revestida de projeções. A propriedade central dos enteógenos é levantar o véu da ilusão, do ego e expandir a percepção da realidade e de si mesmo.

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De acordo com Malheiro (s/d), existe atualmente uma cultura do enteógeno, com um saber voltado para ampliação da consciência e para a viagem interior apresentando-se como uma forma se expansão das possibilidades para a construção do auto-conhecimento. A autora usa o termo psiconauta para se referir àqueles que mergulham no universo da experimentação com enteógenos. Psiconauta, de acordo com Malheiro (s/d) significa viajante da psique, tendo como a principal premissa a exploração de técnicas para obtenção de estados transpessoais de consciência através do uso de substâncias psicoativas e também da exploração de técnicas, como meditação, respiração etc. Através de estados transpessoais conduzidos pelo enteógeno, seria possivel encontrar respostas para questões espirituais, através de experiências diretas, pois “A verdadeira ampliação da personalidade é a conscientização de um alargamento que emana de fontes internas e o drama dos mistérios da vida também pode ocorrer sob a forma de experiência espontânea, extática ou visionaria (JUNG, 2000, p, 133)”.

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A UTILIZAÇÃO DA AYAHUASCA EM CONTEXTO URBANO E RITUAL

A expansão ritualística da Ayahuasca em populações urbanas é um fenômeno relativamente recente. Há poucas décadas, a bebida era utilizada em culturas xamânicas localizadas em regiões remotas da floresta amazônica e em outras regiões da América Latina (LABATE, 2002). Atualmente calcula-se que o número de pessoas que fazem uso regular da bebida na América do Sul, excluindo-se as populações indígenas, pode chegar a mais de 30 mil pessoas (LUNA,1997). “As religiões ayahuasqueiras vivem seu melhor momento. Assimiladas por outras fés e reconhecidas pelas autoridades, vêem seu número de adeptos subir 10% ao ano (REVISTA GALILEU, 2008). A religião do Santo Daime possui aproximadamente cem anos de fundação. Através do Sr. Raimundo Irineu Serra foi organizado no Brasil a primeira religião ayahuasqueira, fundamentalmente brasileira, que se caracteriza, de acordo com Grosiman (2004), por ser “um sistema ritual tendo como contexto, a Ayahuasca e o conjunto de ensinamentos provenientes do que se chama “Ecletismo Evolutivo”, que foram concepções reunidas a partir do Espiritualismo, do Cristianismo Místico ou Esotérico e do xamanismo”. Após o surgimento do Santo Daime, outros grupos adotaram o uso da Ayahuasca em rituais sincréticos especialmente no Brasil, onde os efeitos transpessoais da bebida são unidos aos conceitos do Cristianismo, das religiões Afro-Brasileiras, do esoterismo europeu, do espiritismo e das tradições indígenas. As principais religiões deste módulo incluem o Santo Daime (segmentos do Alto Santo e CEFLURIS), a U24

nião do Vegetal, a Barquinha e o Centro de Cultura Cósmica, além de núcleos e igrejas dissidentes e outros grupos independentes. De acordo com Goulart (2003), os vários cultos ayahuasqueiros que existem no Brasil constituem diferentes linhas de uma mesma tradição religiosa, se inserindo num mesmo campo religioso, o campo das religiões ayahuasqueiras brasileiras.
Conforme estas três linhas vão crescendo, crescem também as dissidências no interior das mesmas. A partir do falecimento de seus fundadores inicia-se, em cada uma delas, um intenso processo de fragmentação e cisões. Em 1971, com a morte do fundador da linha do Santo Daime, tem início um movimento de rupturas que levaram ao aparecimento de dois segmentos desta linha: O Alto Santo e o CEFLURIS, cada um destes contendo, também, sub divisões internas, com uma variedade de centros, igrejas etc.

As religioes Ayahuasqueiras tradicionais sao o Santo Daime e a Uniao do Vegetal, que possuem um corpo hierárquico, com principios doutrinários e ritualísticos definidos e bem organizados. Essas duas religiões principais sao responsáveis pela legitimação do uso ritual da Ayahuasca em contexto urbano no Brasil e em outros países. Entre as religiões Ayahuasqueiras, a bebida é considerada o veículo da ação religiosa. “Adaptando-se a novas condições sociais, culturais e ecológicas, voltandose mais ao desenvolvimento do autoconhecimento e ao enfrentamento das grandes questões existenciais da vida, da morte e do sofrimento! (MACRAE, 2004) O uso da Ayahuasca dentro do contexto urbano, ou semi-urbano foi oficialmente reconhecido e protegido pela lei em junho de l992 pelo Conselho Nacional Anti-drogas (CONAD), que decidiu liberar definitivamente a utilização do chá para fins religiosos em todo o território nacional, baseado em investigações interdisciplinares, desenvolvidas desde l985, levando em conta o lado antropológico, sociológico, cultural e psicológico dos rituais, além de análises fotoquímicas da ayahuasca (SILVA SÁ, Parecer técnico-científico sobre o uso da Ayahuasca, 2001). O numero de pessoas que encontram na Ayahuasca um caminho para a autotransformação e para a cura pessoal vem aumentado e seus benefícios cada vez

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mais divulgados. Nota-se, entretanto, que ainda ecoam muitos preconceitos com relação ao tema, tanto no meio acadêmico quanto no senso comum. Os preconceitos com relação ao uso ritual da Ayahuasca foram e ainda são muitos. A Ayahuasca e o seu uso ritual foi combatido. Em alguns paises, como a Argentina, a luta pela legalização ainda continua. Em outros, como México, Canadá, Holanda, Alemanha, Itália, Japão etc, o uso ritualístico da Ayahuasca, foi liberado para realização dos trabalhos do Santo Daime.
O Santo Daime tendo se espalhado por diversas partes do mundo, mantém a base sobre o qual foi erguido ao mesmo tempo em que assimila e incorpora elementos de culturas tão diversas como a Japonesa ou a Holandesa. Na terra do sol nascente existem varias igrejas do Daime que já possuem hinos próprios, recebidos no idioma nativo e refletindo sobre questões particulares, mas ligadas da mesma forma a fonte que emana da floresta Amazônica [...] O Santo Daime, religião cabocla de nascimento ensina em português e cada vez mais se espalha pelo mundo e conquista adeptos nos mais distantes países, replantando a santa doutrina Cristã através de uma musica e um ritual simples, aliados ao sacramento herdados dos povos da floresta, provando que este é um conhecimento universal, capaz de tocar a todos sem distinção (OLIVEIRA 2008, p. 216)

A legalização da Ayahuasca é uma demonstração da seriedade dos estudos e do uso da bebida em contexto ritual, que não traz riscos à saúde psíquica, nem à sociedade. Isso demonstra tratar-se claramente de um trabalho serio e benéfico. Segundo Silva Sá,
Não é um modismo ou uma novidade passageira que excita, tantas vezes, as intervenções pessoais e, frequentemente, irresponsáveis dos que detêm transitoriamente o poder. O uso religioso do chá psicoativo ensejou a criação de instituições que provêem muitas pessoas com os arcabouços éticos, sociais e culturais, em torno dos quais construíram suas vida (SILVA SÁ, 1999).

Além disso, a Ayahuasca também foi considerada como Patrimônio Imaterial da Humanidade pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional), considerando que existe legitimidade social no pedido de reconhecimento do chá como patrimônio da cultura imaterial do Brasil. A afirmação foi feita em Brasília, pelo
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presidente do, Luis Fernando de Almeida, aos representantes de entidades ayahuasqueiras que utilizam o chá com fins religiosos no Acre. O processo de reconhecimento foi aberto com aval da Gerência de Registros do Iphan, no final de maio de 2008, durante a visita do então ministro da Cultura, Gilberto Gil, a sede do Alto Santo no Acre. Em Alagoas, o Santo Daime está presente há aproximadamente 10 anos. O seu núcleo chama-se Céu das Águas e está localizado no Alto do Cruzeiro, na praia em Riacho Doce, Maceió - AL. Existe há aproximadamente cinco anos. Faz parte do CEFLURIS e realiza os trabalhos regulares de concentração, Missa e os Hinários oficiais do Mestre Irineu, Padrinho Sebastião e Padrinho Alfredo. O corpo de fardados é de aproximadamente 15 pessoas e recebe os diversos freqüentadores regulares e visitantes. Pela quantidade de membros em seu corpo de fardados se insere, de acordo com o CEFLURIS, na categoria Núcleo de Instrução. Alem dos trabalhos espirituais, o Núcleo Céu das Águas, através da Associação Comunitária e Ambientalista, fundada no ano de 2007, vem desenvolvendo trabalhos educativos, artísticos e recreativos com as crianças da comunidade, com o objetivo de aliar as práticas espirituais aos cuidados ambientais e comunitários. Possuindo bastante receptividade da comunidade. Outros centros do Santo Daime também possuem organizações que se voltam para os trabalhos comunitários e ambientais. Como exemplo podemos citar a ONG Apoitcha (Associação de apoio ao trabalho cultural, histórico e ambiental), localizada em Lucena na Paraíba, que trabalha com crianças e adolescentes, inclusive com crianças vitimas do vírus HIV. EM 2005, A ONG recebeu um premio da UNICEF pelos trabalhos realizados. Atualmente, entre outros serviços, a ONG oferece para crianças e adolescentes de 7 a 16 anos oficinas de arte-educação diárias com o objetivo de despertar o gosto pela leitura e escrita. Em Alagoas, além do Santo Daime, existem outros grupos que consagram Ayahuasca em rituais religiosos, como o CHIED Essência Divina (grupo pesquisado), localizado também na região do Alto do Cruzeiro em Riacho Doce; a UDV (o maior grupo do estado), localizada no município de Marechal Deodoro e na praia de Ipioca.

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1.1

A IMPORTÂNCIA DO RITUAL PARA CONSAGRAÇAO DA AYA-

HUASCA
O ambiente e o ritual são de fundamental importância para proporcionar segurança na experiência com Ayahuasca.Os ritos para Jung (2000, 32) são muros construídos contra os perigos do inconsciente, pois as experiências com a Ayahuasca podem ser de tal maneira arrebatadoras psiquicamente, que o ritual é um meio de dar segurança à força que é gerada, protegendo do risco de uma desestruturação produzida pelo inconsciente sobre o consciente.
Como meios de defesa face a esses poderes, a essas existências mais fortes, o homem criou os rituais. Poucos são aqueles capazes de agüentar impunemente a experiência do numinoso. As cerimônias religiosas coletivas originam-se de necessidades de proteção, funcionam como anteparos entre o divino e o humano, isto é, entre o arquétipo e a imagem de Deus, presente no inconsciente coletivo e o ego (NISE DA SILVEIRA apud DALGARRONDO, 2008: 66,67).

Os rituais religiosos pretendem ser veículos, meios de comunicação da pessoa humana com o Absoluto, com o Astral, com Deus ou outro nome que tenha essa realidade transcendente que o ser humano, ordinariamente, não percebe, especialmente em nossa civilização contemporânea e ocidental. O ritual serve de preparação para o que vai acontecer na experiência, para o contexto da relação espiritual e do processo interno. “Os rituais tradicionais são tão indispensáveis à experiência com Ayahuasca quanto um bom guia” (DOUOT, 1999, p. 64). O rito é meio, é instrumento. A bebida vai sempre interagir com o conjunto psicológico de cada indivíduo e a estrutura do local escolhido. Os rituais criam um ambiente propício para que cada participante tenha a oportunidade de abstrair-se do cotidiano, do mundo ordinário no qual vivem, possibilitando a sua entrada em estados especiais de consciência.
O conteúdo da experiência com Ayahuasca é uma resultante da interação de três fatores básicos. Os fatores essenciais são: o “set”, que traduzo como sendo o “fator pessoal”, isto é aquele que o individuo traz consigo, os seus conteúdos (intenção, atitudes, personalidade, humor, etc.); o “setting”

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ou “fator ambiental” corresponde a todos os elementos externos ativos e capazes de influir a experiência (BARBIER, 2005, s/p).

Uma pessoa que bebe ayahuasca sozinha, por exemplo, terá uma experiência totalmente diferente daquela que se tomar com alguém ou com um grupo. Na experiência com ayahuasca, não são apenas as propriedade farmacológicas que influenciam a experiência, mas todo o contexto ambiental que inclui a forma de direcionamento do ritual, os hinos1 (no caso do Santo Daime), as chamadas2 (No caso da Essência Divina), o grupo, a liderança.
Embora os agentes químicos da Ayahuasca atuem nos mesmo receptores cerebrais, podendo causar similares mudanças somáticas, psíquicas e pereceptivo-sensoriais, porém não determinam as características per se das experiências. Esses agentes somente abririam as portas para outras formas de percepção da realidade; mas nesses espaços mentais abertos, cada homem imerso numa cultura, colocaria os conteúdos e o significado das experiências. A experiência seria uma combinação entre os efeitos da substancia, a disposição psicológica do individuo e as características do ambiente onde a experiência acontece (PELAEZ, 2006)

A estrutura do ambiente que compreende a parte física, ambiental, a parte social, a parte musical, os instrumentos, as musicas, as imagens simbólicas utilizadas todos esses fatores são importantes de serem considerados no ritual, pois facilitam o acesso ao material emocional (sentimentos e pensamentos) e ao material simbólico contido no inconsciente. Vânia. (membro do Essência Divina), colaborou para a compreensão da importância do ritual, a partir das suas vivências. Para ela:
Não é só vegetal que possibilita as transformações. Se falarmos dessa forma estamos pecando por reducionismo, porque ai você anula a parte espiritual , a condução da sessão e também o ritual. Você não pode deixar de lado as chamadas, porque elas contém sons universais, que podem fazer vo-

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Hinos- Cânticos recebidos por inspiração divina; canalizações de versos musicados que contem ensinamentos doutrinários, mensagens de sabedoria e os fundamentos espirituais da Doutrina. Inicialmente os hinos eram recebidos pelo fundador do Santo Daime, Raimundo Irineu Serra, para logo serem recebidos também por outros membros, o que acontece até os dias atuais. Cânticos de inspiração divina herdados da tradição da União do Vegetal .

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cê mergulhar no inconsciente e tornar seu material inconsciente, consciente. Não se pode desprezar a harmonização do ambiente que existe para que se possa se comunicar com o seu ser espiritual, com seu Deus interno ou seu Deus exterior, com O deus que ta dentro ou com o Deus que está fora. Do ponto de vista espiritual seria isso também. Também existe uma parte social. Não é a mesma coisa tomar o chá em outro contexto ou comungar, entre irmãos.

O ritual inclui a idéia de ordenamento do aquém para viabilizar o ir além. Daí a sua importância como disciplina e, ao mesmo tempo, como gerador de força. Assim como as águas do rio, que só produzem energia quando represadas. É o preço pago para gerar a luz (SILVA SÁ, 1996)”. As regras que integram um ritual devem servir para alcançar o objetivo de entrar em contato com o Sagrado, mantendo a atenção dos presentes para um objetivo comum, para que assim possam vivenciar as transformações possíveis. Importando a atitude com que se conduz a atenção dos participantes. Portanto cada pessoa entra num universo comum a todos. Os “perigo” dos rituais é que eles possam se tornar mais importantes do que o evento que acontece em nossa consciência, ou seja, que nos apeguemos demasiadamente às formas, ao externo, deixando de captar os ensinamentos que se originam e são processados em nosso interior. As imagens os símbolos religiosos presentes nos rituais servem para que a pessoa se concentre no Divino. O símbolo está carregado de energia numinosa e por sua força e conteúdos energéticos envolvidos transporta e reporta a lembranças do passado e ao contato com a realidade divina. No Santo Daime os principais símbolos sagrados são o Santo Cruzeiro e as imagens de Jesus Cristo, da Virgem Maria, de São José e São João e outros santos importantes, seres míticos, presentes na historia da religião Cristã, que são reverenciados nessa doutrina, fundamentalmente brasileira, fazendo parte da sua cosmologia. De acordo com Jung (2000, p. 132) podemos alcançar a transformação através de um rito usado para esse fim. Os rituais aos quais Jung se refere são os mági30

cos tribais, utilizados intencionalmente para produzir algum tipo de transformação psíquica, onde além da graça, a transformação advém do esforço do iniciado para alcançar a meta.
Em todo caso, trata-se de um processo demorado de transformação interna e do renascimento em outro ser. Este outro ser é o outro em nós, a personalidade futura mais ampla, com a qual já travamos conhecimento como um amigo interno da alma. Por isso é algo reconfortante quando encontramos o amigo e companheiro reproduzido no ritual sagrado. Existem aquelas vivencias mediadas pelo rito sagrado, que transcendem a vida. Através da participação do neófito no rito lhe é revelado a perpetuidade da vida através de transformações e renovações. O decisivo nesse caso é, a existência de um processo que transcorre por si mesmo, se transforma ritualmente, sendo que o neófito recebe a graça, é influenciado, ou consagrado por sua participação (JUNG, 2000, p. 133- 135)

O ritual é a forma necessária para entrar em contato com o conteúdo interno, numinoso (OTTO, 1985), saindo do mundo das formas, das aparências, onde mais importante que a exploração do espaço exterior é a exploração do espaço interior. Nesse espaço as transformações podem acontecer.

1.1.1

RITUAL DO SANTO DAIME

O Santo Daime é uma das mais importantes religiões ayahuasqueiras contemporâneas em expansão.Os rituais desenvolvidos consistem em comungar, nas datas estabelecidas, a Ayahuasca, rebatizada como daime, em sessões religiosas compostas de orações e cânticos de celebração a seres divinos. Os rituais do Santo Daime são denominados “trabalho”, pois aqueles que lá estão, além de estarem em serviço devocional, também estão “criando uma energia extática” (ALVERGA apud DROUT, 1999, p. 84). Isso significa que os indivíduos vivenciam experiências de estado de êxtase, podendo ter visões e experiências xamanísticas, inclusive o contato com entidades espirituais, que são uma das características dessas experiências. De acordo com Maluf (2003), a noção de trabalho é uma das categorias empregadas para descrever e sintetizar o conjunto das atividades rituais realizadas em
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um dado contexto. Essa noção é largamente utilizada no circuito das espiritualidades e terapias alternativas ("trabalho de crescimento", "trabalho do Daime", "trabalhar um padrão emocional") e descreve os diversos processos da experiência espiritual. É a noção que descreve a situação em si e os seus procedimentos, rituais. Este sentido pode ser observado também no universo religioso e espiritual do Santo Daime. Segundo MacRae,
Todo ritual ou "trabalho" de Daime é concebido como uma oportunidade de aprendizagem e de cura e todos almejam a doutrinação dos espíritos presentes. Há, porém, uma variedade de diferentes rituais considerados mais apropriados para diversas situações. São os "hinários", "trabalhos de cura", "concentração", "missas" e "feitios". Todos se centram em torno do consumo da bebida e da provocação de estados alterados de consciência dentro de um contexto físico e social destinado a conter e guiar as "viagens" dos adeptos. Segundo Couto são "rituais de ordem", promovendo a coesão hierárquica do grupo e a busca da harmonia tanto interna quanto externa dos adeptos (MACRAE, 2004, p. 25).

Oliveira (2008, p. 50), nos fala que os trabalhos são momentos de preparação para que o desenvolvimento individual e coletivo do daimista seja mais bem aproveitado. O trabalho seria o veiculo para se atingir uma perfeição material e espiritual, pois é nele que se recebe instruções, correções, “pêias” mesmo adiantamento. De acordo com o segmento do CEFLURIS, os rituais do Santo Daime, obedecem a um calendário oficial de concentrações, nos dias 15 e 30 de cada mês, da Santa Missa na primeira segunda feira do mês, de trabalhos oficiais nos festivais de
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que servirão para esse

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O medo, a culpa, a desconfiança, a ansiedade, podem ser potencializados durante a sessão,

gerando desconforto físico e psicológico. É a chamada “Pêia” [...] “Pêia” é quando a borracheira vêm acompanhada de sentimentos desagradáveis como mal estar físico, náuseas e vômitos, dor e desconforto psicológico. Essas sensações são atribuídas a alguma desarmonia no corpo e na mente. A desarmonia do corpo pode ser devido a alguma doença, alguma coisa na alimentação que não se digeriu, etc. (RICCIARDI, 2008, p. 77-78).

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junho e dezembro etc, além da realização de trabalhos de cura e, dependendo da Igreja, trabalhos de Mesa Branca, Trabalho de Cruzes e de São Miguel. Os trabalhos regulares são chamados de “Concentração” acontecem nos dias 15 e 30 de cada mês. Nesses trabalhos, o objetivo é concentrar a mente num foco comum, domar os pensamentos e se entregar aos ensinos que o daime mostra. Nota-se que um estado meditativo conduz o ritual. As pessoas são orientadas a ficarem em silêncio em seus respectivos lugares, buscando se interiorizar, entrar em contato com suas questões e com o que o daime pode mostrar. Segundo os adeptos, muito do que a pessoa está precisando perceber, realizar e aprender são obtidos no momento da concentração. O Trabalho de Concentração é iniciado com as orações do Pai Nosso e Ave Maria intercalados, advindos da tradição cristã da religião. Após é lido a chave de harmonia e a consagração do aposento, advindas da tradição do Circulo Esotérico da Comunhão do Pensamento, grupo esotérico o qual o Mestre Irineu fazia parte antes de fundar o Santo Daime. Com essas preces, o trabalho é aberto, as pessoas comungam o daime, individualmente e voltam para os seus lugares. Os trabalhos oficiais são chamados de hinários onde as experiências transpessoais são vivenciadas através do canto e do bailados, uma espécie de biodança circular, com passos compassados. Os hinários “duram geralmente uma noite inteira, festejando principalmente o dia de um santo (ALVERGA apud DROUT 1999, p. 84). Nos trabalhos oficiais do Santo Daime, celebrados nas datas consideradas de grande importância do calendário religioso, são cantados apenas os hinos dos líderes fundadores (Mestre Irineu, Padrinho Sebastião e outros padrinhos e madrinhas) (REHEN, 2007, p. 6). Esses trabalhos acontecem geralmente em festivais no meio do ano, os festejos Juninos. E no final do ano, os festejos natalinos, o ano novo e a comemoração do dia da Virgem da Conceição.
Em muitas culturas, os festivais são realizados como comemoração de mitos que lhes estão associados e como a recordação de um acontecimento que se pensa ter ocorrido numa data histórica determinada, ou num qualquer passado mítico: Nesses trabalhos rememoram-se não só a historia e o 33

sentido da data (São José, São João, Finados etc) extraindo-se a relação de cada adepto com isso, revivendo-se todos os mitos ligados a origem e a constituição da Doutrina, como se recapitulam a historia e o sentido trazido a tona pelo hinário que é cantado (OLIVEIRA, 2008, p. 61).

Outro dos trabalhos importantes e representativos na doutrina são os feitios de preparação da bebida sagrada. Nesses rituais, uma alquimia é realizada através da união das duas plantas, juntamente com a água e o fogo (cozimento utilizando fogo de lenha). Assim, o daime é preparado rememorando os ritos dos antigos povos indígenas em suas cerimônias xamânicas. Segundo Oliveira,
Trabalhar em um feitio é a oportunidade de participar de um processo artesanal que remonta à ancestralidade da doutrina, dos seus arquétipos, de seus fundadores, da comunhão mesmo com a divindade no momento em que esta se encarna na bebida (idem, p. 66).

O trabalho do Santo Daime é considerado um “xamanismo coletivo” (COUTO 1989), herança das raízes culturais e espirituais do uso da Ayahuasca em culturas indígenas da Amazônia. Porém difere-se do xamanismo tradicional, pois em seus rituais todos os adeptos, e não apenas o xamã, podem interagir com o mundo simbólico. Nos rituais do Santo Daime, todos se tornam potencialmente xamãs e estão aptos a ver e ouvir através de experiências extáticas, pois todos comungam a bebida sagrada Segundo Araújo, trata-se de.
Um novo xamanismo que é fruto de um homem diferente que vem aí, e de uma Nova Era. [...] estamos em contato com um fenômeno de xamanismo para iluminarmos nossa passagem por esse mundo, que é algo tão superior, mas tão superior, que só resta o silêncio e a admiração (ARAUJO, 2005, s/p)

Nos trabalhos, encontramos uma linguagem que são como lições permanentes para um aluno que busca conhecimentos sagrados (ARAÚJO 2005). Os adeptos que se comprometem com o serviço e a missão espiritual do Santo Daime, são chamados de “fardados”, pois aos rituais do seu calendário mensal e anual se apresentam com uma indumentária própria, uniformizada. “Ser fardado significa ser um componente do rito. É uma representação iniciática, que distingue os membros do grupo (irmandade) dos demais (BOMFIM, 2006).

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O Santo Daime, entendido como um "sacramento religioso", passou então a ser distribuído para todos os participantes dos rituais. "Mestre Irineu" - como ficou conhecido - reuniu os neófitos em "igrejas" e os iniciados deveriam portar uniformes ("fardas") durante as cerimônias: para as mulheres, uma saia branca e uma blusa branca de mangas compridas, o saiote verde pregueado e sobreposto à saia, uma fita verde larga cruzando o peito e fitas finas e coloridas pendendo da parte superior esquerda. Do lado direito do peito, uma estrela de seis pontas com o símbolo de uma águia pousando na lua crescente e no lado oposto o emblema de uma rosa para as mulheres casadas e uma palma para meninas e moças. Além disso, uma coroa de lantejoulas brancas e prateadas compôs o restante da farda feminina. Para os homens, terno branco com gravatas azuis 7 e a estrela colocada no lado esquerdo do peito dos rapazes e direito dos homens casados - havendo um outro tipo de vestimenta, dependendo do ritual (REHEN, 2007, p. 12).

As fardas possuem duas conotações, uma é a vestimenta própria para o trabalho, uma roupa sagrada, utilizada apenas nos momentos rituais, considerada pelos daimistas como uma armadura, como uma roupa que protege. A farda também tem a conotação parecida com a do fardamento escolar, pois Santo Daime é considerado uma escola espiritual e os fardados são os alunos dessa escola. Os trabalhos são também um momento para servir, para exercitar a caridade. A farda é o identificador daqueles que trabalham espiritualmente e materialmente nessa linha. Ana, fardada do Santo Daime, compartilhou conosco as suas compreensões sobre o farda:
A farda é uma preparação, um uniforme que usamos em nossos trabalhos espirituais e tem o sentido simbólico de armadura. Se somos um batalhão, estamos na batalha, na batalha do bem e do mal, o bem interior, nossas virtudes e o mal interior , nossas falhas a serem trabalhadas e superadas. Além disso, dentro do trabalho espiritual a ação é a caridade, então é como se usássemos o uniforme de trabalho, de serviço para a caridade. Mas a farda pode se tornar apenas uma roupa, porque se eu não estiver com esse compromisso no meu coração, na minha alma, na minha essência e no meu espírito nada adiantará a vestimenta exterior se ela não estiver plasmada verdadeiramente no interior.

De acordo com ARAUJO (2005), o traje de serviço característico do Santo Daime faz parte do imaginário social e histórico, espiritual, que o Mestre Irineu deixou. Os trajes não são folclóricos, não são alegorias, mas sim a representação de
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uma determinada linguagem simbólica que remonta a um tempo sagrado, porque remete ao imaginário profundo, quando atingimos um outro plano de mentalidade. O ritual do Santo Daime é do tempo sagrado. Outras das características centrais dos trabalhos é a musicalidade. A música ocupa lugar central, já que a maior parte dos seus trabalhos são cantados e tocados. A musica tem função de construir símbolos sagrados e transmiti-los. Através do canto, violão e toque dos maracás, gera-se uma determinada freqüência impulsionando e conduzindo os estados transpessoais.
A música cantada e tocada quase constantemente serve para harmonizar o grupo, impondo um ritmo marcado e uma afinação às vozes. A utilização de música durante as cerimônias remete às antigas práticas xamanísticas de onde se originou a prática de tomar ayahuasca. O canto e a percussão, de natureza fortemente ritmada e repetitiva são poderosos auxiliares na provocação de estados alterados de consciência e são considerados como capazes de invocar a atuação de espíritos auxiliadores. As letras dos hinos guiam as "viagens" dos adeptos na direção desejada e ajudam a evitar a angústia e o mal-estar. Esses "hinos" servem também para orientar as interpretações das experiências que os adeptos têm durante as sessões. Ajudam a criar unidade entre as vivências dos indivíduos e dos símbolos mágicos ou míticos em que se projetam tais vivências, o que é de grande importância para evitar a desagregação do grupo. (MACRAE, 2004)

Os hinos da doutrina são sagrados e contém os ensinamentos e instruções a serem seguidas, que além de possuir harmonia e beleza inigualáveis, facilitam o contato com o divino guiando a experiência transpessoal. Através dos hinos, que são a base da Doutrina do Santo Daime, o conhecimento é transmitido a todos.
Na Doutrina não existe pregação, não existe hermenêutica, o único material possível de entendimento são os hinos. Todo o ensinamento da Doutrina daimista está contido nos hinos. A ingestão da bebida acarretará uma expansão da consciência, atuando diretamente, individualmente, sobre cada adepto no seu trabalho espiritual, permitindo que os ensinamentos dos hinos sejam trabalhados em cada pessoa. Assim, cada indivíduo terá seu próprio entendimento dos hinos. Esses dois mecanismos, a bebida e os hinos, permitirão um profundo mergulho dentro de si, na qual os adeptos estarão “se trabalhando”, isto é, revendo seus feitos e se aperfeiçoando de

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acordo com os ensinamentos baseados no amor, na verdade, na justiça, no perdão, na humildade, caridade, entre outras qualidades divinas

(MENE-

SES, 2005) Não é raro que os adeptos “recebam” hinos, que são versos musicados captados espiritualmente do Astral (como é chamada a dimensão espiritual e transpessoal pelos adeptos). Rehen (2007) nos fala sobre o que diferencia os hinos de uma musica comum:
O que distinguem os hinos de outras manifestações musicais é o fato dos primeiros serem descritos como "recebidos" espiritualmente. De acordo com o discurso nativo, receber um hino é absolutamente diferente de compor uma música, isso porque em uma composição, ainda que possa existir o fator da "inspiração" ou até mesmo da "intuição", o compositor é sujeito do processo de autoria, estando apto a experimentar, alterar e influenciar a música em todas as suas dimensões: rítmica, harmônica, melódica e poética; sentindo-se de alguma forma o seu proprietário, aquele que "faz", "cria" e/ou "inventa". Já para os seguidores do Santo Daime, os hinos seriam dádivas de seres sobrenaturais que as oferecem para os adeptos neste caso chamados de "aparelhos" - que apenas "recebem" para então cantar em conjunto com outros membros do grupo. Gustavo Pacheco (1999) chamou o processo do "recebimento" dos hinos do Santo Daime de clariaudiência ou psico-musico-grafia propondo uma variação terminológica para os fenômenos espíritas da clarividência e da psicografia (REHEN, 2007, p. 6)

No Núcleo de Instruções Céu das Águas, por exemplo, um dos hinos recebidos por um dos membros do grupo, legitima a existência do Núcleo como um ponto de luz, que cresceria conforme o desenvolvimento espiritual e a integração dos membros no trabalho coletivo material e espiritual. O núcleo mostra sinais de crescimento. Iniciou seus trabalhos espirituais com uma média de cinco pessoas, há seis anos. Atualmente recebe uma média de trinta pessoas em seus trabalhos regulares de concentração. Abaixo o Hino recebido pelo antigo dirigente do grupo, Agnus Bahia, que legitima a existência do Núcleo:
“Eu vi um ponto de luz Guiado por Jesus 37

O ponto ia crescendo Conforme o que ia acontecendo Se cumprindo as palavras Do profeta das matas No expandir da Doutrina Dou viva ao Céu das Águas”

Através dos hinos, o sistema de valores é transmitido ao grupo. O Santo Daime, de acordo com Oliveira (2008), não possui um livro fundador, visto que apresenta através dos diversos hinários, algumas categorias similares encontradas em textos sagrados de diversas religiões como a Bíblia, os Vedas, o Alcorão, funcionando como suporte e guia para o adepto e refletindo a historia do grupo.
Os praticantes da religião encontram nos hinos um tipo de explicação nativa e afirmam sentir amor e alegria ou mesmo mal-estar físico relacionando-os a causas espirituais, que segundo eles teriam profunda ligação com os argumentos apresentados nas letras das canções religiosas e que ao longo das cerimônias despertariam determinadas emoções. Os efeitos no campo físico e psíquico se relacionam com uma ordem detalhada e ritualmente consolidada coletivamente, sendo suscitados e interpretados por meio dos cânticos (REHEN, 2007).

A tradição da musica no Santo Daime é uma re-elaboração do antigo do canto dos ícaros xamânicos em rituais de cura, onde acreditava-se que através de alguns cânticos específicos e de determinada freqüência, recebidos espiritualmente, entrarse-ia em contato com entidades espirituais que viriam em auxilio do xamã.
De um modo geral, todo hino teria o poder de curar, característica herdada da matriz xamânica ancestral dos ícaros vegetalistas (GOULART, 2004), chamadas destinadas a evocação de poderes mágicos. Mas se os hinos servem como evocadores das forças de cura, como formadores de “corrente” e como “mapas”, a própria bebida, sozinha, teria propriedades curadoras. Assim, por extensão, qualquer ritual daimista tem a cura como fim. Segundo De Rose (2006), o próprio chá é considerado um ser divino, 38

capaz de curar e de transmitir conhecimento. Assim, infere-se que os hinários constroem uma cosmologia acessível independentemente de evocação, inscrevendo-se no inconsciente coletivo dos participantes. Entre mythos e logos, o que se inscreve na cultura e transparece como identidade é o sentido vivido, forjado em sistemas pelas categorias da razão e da sensibilidade (ACCIOLY, 2007, p. 4). Os hinos desempenham um importante papel de cura, assim como os ícaros, cantos xamânicos, desempenham um papel terapêutico importante nas cerimônias peruanas. Eles tem uma importância fundamental porque estimulam e desencadeiam visões. Em outros termos, os cantos e rituais trabalham em harmonia para criar um campo morfogenético que sustenta e amplifica a experiência extática (DROUOT, 1999, p. 84)

O depoimento de (A, visitante do Santo Daime), nos mostra a evidência do aprendizado obtido através dos hinos, em uma sessão de cura, na Igreja Céu das Águas:
Eu aprendi muita coisa. Sei que eu tava com várias aflições e as respostas foram aparecendo com os hinos. Eu acho que me impressionei mais porque isso me veio sem uma borracheira forte e uma peia. Mas pelo que eu entendi, o daime vai mostrando aos poucos individualmente, um a um, os hinos ajudam a compreender.

Outras das características do Santo Daime é que há regras para a participação nos rituais que servem como preparação e como instrumento de coesão e ordem no momento do trabalho. Por exemplo,
- prescrições dietéticas e comportamentais que devem ser observadas durante três dias antes e depois da tomada da bebida e que preparam a atitude do adepto para um acontecimento importante que foge da rotina cotidiana; - uma organização social hierárquica em que um "comandante" ou "padrinho" é reconhecido como o dirigente da sessão, auxiliado por um corpo de "fiscais" responsáveis pela ordem do trabalho;

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- organização do espaço e do comportamento ritual. Assim há uma mesa/altar central onde uma cruz de Caravaca, o Santo Cruzeiro, e outros símbolos religiosos realçam a sacralidade da ocasião; -Todos os participantes são alocados a um determinado lugar no salão, muitas vezes um retângulo desenhado no chão, separados em grupos por sexo e idade ou experiência sexual (mulheres, moças, homens e rapazes) (MACRAE, 2004).

De acordo com Morris (2006), todas as religiões incluem práticas rituais, códigos de ética, corpo de doutrinas, crenças, escrituras ou tradições orais; Assim como padrões de relações sociais focadas em torno de uma congregação ritual, igreja ou comunidade moral. Esses direcionamentos e regras de conduta conduzem a um ethos que dá vazão à experiência emocional e mística do grupo religioso envolvido.

1.1.1.1

RITUAL DO ESSÊNCIA DIVINA

O Centro de Harmonização Interior Essência Divina existe em Maceió desde 2005, A sede do CHIED é localizada nas mesmas imediações do Núcleo Céu das Águas no bairro de Riacho Doce em Maceió. Nesse centro é desenvolvido um trabalho com a bebida sagrada de acordo com outra abordagem, chamada pelo dirigente de „unificação‟, que pretende abarcar em seu interior elementos do Santo Daime e da União do Vegetal, concepções filosófico-religiosas orientais, práticas xamanisticas indígenas etc. A característica que marcadamente diferencia rituais praticados no Essência Divina dos realizados no Santo Daime é que o contexto ritualístico é concebido como “livre” onde consiste num espaço de introdução de variados elementos e de diversas orientações e experimentações. Ensinamentos em áudio são colocados, principalmente voltados para o autoconhecimento, geralmente extraídos da filosofia oriental. Na força da Ayahuasca ou borracheira, como é chamada o estado de consciência expandida viabilizada através do chá, o nível da compreensão e aprofundamento da experiência é ampliado.

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Os hinos do Santo Daime, do próprio CHIED e de membros, bem como as “chamadas” utilizadas nos rituais da UDV, estão presentes nos rituais do Essência Divina. Entre os hinários do Santo Daime estudados pelo grupo, pudemos acompanhar o do Mestre Irineu, Germano Guilherme e Maria Damião. As “chamadas” são cânticos, tais como os hinos, recebidos da dimensão espiritual, advindos da tradição da União do Vegetal que também impulsionam uma serie de desdobramentos. Essa religião tem como líder espiritual o Mestre Gabriel. Segundo Araújo,
Mestre Gabriel traz sabedorias da fonte espiritual; mesma expressão e conteúdo, dirigido para sujeitos enunciatários diferentes, no entanto suas chamadas vêm da mesma fonte; tal qual o Santo Daime é xamânico, sendo esse último com linguagem e roupagem religiosas porque dirigido à salvação dos cristãos e de outros religiosos que buscam um equilíbrio assim, maior, místico, transformador. Não é sem motivo que essa força surge depois de um processo de enraizamento cultural dos seus discípulos (ARAÚJO, 2005, s/p).

Além dos hinos e chamadas, há espaço para experimentações musicais diversas como utilização de estilos variados de músicas como new age, popular brasileira, etc. Aparentemente alguns tipos de musica não caberia num trabalho espiritual, no entanto nota-se que efeito é positivo, surgindo reflexão, dando uma sensação de leveza e descontração ao ambiente, uma pratica que é utilizada também na União do Vegetal. Para John Blacking (1973), citado por Rehen (2007), a música não seria simplesmente o reflexo ou "produto" de uma dada realidade social, mas um "sistema cultural" capaz de informar os corpos e modelar os pensamentos. Uma das qualidades essenciais da música seria a capacidade de criar um "outro mundo" de "tempo virtual". Em qualquer ritual com Ayahuasca, a figura de um dirigente é de fundamental importância na condução. O dirigente precisa demonstrar experiência, conhecimento da bebida e dos processos advindos e principalmente responsabilidade e seriedade nos trabalhos. Tanto no Santo Daime, quanto no Essência Divina existe a presença de um líder, um dirigente responsável. É a pessoa responsável por conduzir o ritual.
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A pessoa de um dirigente em trabalhos com Ayahuasca funciona como um facilitador, pois o tipo de liderança e dinâmica dos trabalhos são fatores essenciais capazes de influenciar em grande parte a harmonia e a tranqüilidade da experiência. Barbier aponta que um dirigente,
Precisa ser paciente, empático, familiarizado com os processos da experiência; Uma liderança não muito interventiva e tranqüila favorece o acesso e estudo dos conteúdos pessoais, o exame e integração da sua própria trajetória, o encontro de caminhos e conceitos próprios. (BARBIER, 2005)

Pudemos observar que o Mestre dirigente do CHIED desempenha uma importante função no grupo, sendo bastante respeitado por todos. O grupo é perceptivelmente harmonizado. Laura, fardada do Essência Divina, em seu depoimento nos dá uma importante compreensão sobre o papel de um dirigente na sessão.
Deve existir uma pessoa que dirija, que coordene, que tenha conhecimento do que é a Ayahuasca para poder ministrar. Ai não pode desprezar o conhecimento, não pode ser qualquer pessoa, tem que ser uma pessoa especifica responsável. Inclusive responsável, pra responder pela Ayahuasca em relação ao Estado, ao conselho de entorpecentes, conselho nacional anti-drogas. Essa pessoa que está à frente respondendo por esse trabalho, por isso deve conhecer profundamente o que é esse trabalho. O fato de chamar Mestre é porque é um professor, porque ministra um determinado ensino.

As sessões do Essência Divina são realizadas a cada 15 dias, no primeiro e no terceiro sábado de cada mês. Ao contrário do Santo Daime onde as orações são a base de abertura e fechamento dos trabalhos, no Essência Divina, o trabalho é aberto sem nenhuma oração formal. Notamos, entretanto, que a reverência a Jesus Cristo está presente quando na hora de beber o chá todas as pessoas repetem ao

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mesmo tempo: “Deus que nos guie no caminho da luz, para sempre sempre amém Jesus”. Após essa afirmação, todos bebem o chá e se sentam para a parte do trabalho que é denominada “concentração”. Nesse momento variadas musicas são colocadas, sons da natureza, sons xamânicos, mantras, hinos, ensinamentos. A concentração não é no silêncio como no Santo Daime. Essas músicas possuem o fator de serem agente potencializadoras da borracheira. Esteticamente, todas as musicas são de bastante qualidade. É freqüente os participantes escutarem gravações em áudio feitas pelo mestre dirigente ou por membros do CHIED baseadas em trechos filosóficos, religiosos, etc. É largamente utilizado equipamento tecnológico durante os rituais, através de transmissão de músicas com uso de laptop e amplificadores. Notamos a presença de quadros com as imagens do Mestres que fazem parte da linha ayahuasqueira: Mestre Irineu do Santo Daime, Mestre Gabriel da UDV, Mestre Francisco do Centro de Cultura Cósmica. Apenas a imagem do Padrinho Sebastião não está presente. O centro é em formato de uma oca, construído pelos próprios membros do CHIED juntamente com os índios de uma tribo Indígena Kariri Xocó do Estado de Alagoas. O formato da construção é um costume, uma arquitetura tradicional da tribo, herdada dos seus antepassados, que foi utilizada para construção do ambiente ritual do Essência Divina. Como fardada do Santo Daime, pude compartilhar bons momentos nesse Centro. Acredito que todos os grupos façam parte da mesma família, da mesma linha da Ayahuasca. O que diferencia um lugar do outro é abordagem utilizada. Cada pessoa possui afinidades próprias e se sentem melhor desempenhando um determinado serviço. O xamanismo sempre fez parte de meus interesses. Na primeira visita que fiz ao Essência Divina em 2007, vivenciei uma experiência muito forte. Num momento da sessão, que aconteceu um dia depois de meu fardamento no Santo Daime, o Mestre estava fazendo algo que eu compreendi como um trabalho xamânico, na fo43

gueira com os maracás. Nesse momento a força estava muito grande, eu estava como que me desprendendo de mim mesma, e tudo tremia. Ao mesmo que eu estava naquele lugar físico tridimensional, estava em outro, e era como se eu relembrasse a memória de um passado, como uma sensação de dejavu. Senti como se já conhecesse aquele lugar, aquelas pessoas. No momento em que o Mestre estava fazendo o ritual com os maracás senti algo como um zumbido muito forte, muito alto, tudo tremia, e era aterrorizante de tão forte. Nessa hora me entreguei a mãe terra, me deitei no chão como que pra buscar um suporte, um conforto. Ao olhar para o Céu, lá estava lua... Senti que quem governava, era Deus. Aprendi que precisava ter fé em Deus e tive. Precisei acreditar verdadeiramente em quem poderia me segurar naquele momento. Nessas horas, por mais forte, desconfortável e amedrontadora que seja a situação, só nos resta ter calma e fé no Poder Superior que nos segura. Com a fé veio a cura. Nesse momento me senti como me desprendendo do meu corpo, eu via meu corpo lá em baixo e via meu corpo em cima. Eu era uma observadora e via o que se passava nos dois planos. E doía muito, meu corpo doía muito. E eu me enxerguei no plano astral, com varias índias, velhas xamãs, com seus maracás sobre mim, chacoalhavam os maracás e me mandavam segurar a dor, pois eu estava recebendo a minha cura: “segura fia, segura que essa é a tua cura” foi o que ouvi nitidamente. E varias cobras saiam de dentro de mim, do meu corpo etérico. A medida que o Mestre terminava o ritual com os maracás no plano físico, aquela força foi se acalmando e eu fui retornado a um estado mais comum e me acalmando, as dores passaram e eu voltei novamente a terra. Recebi uma importante cura, aprendi a ter fé em Deus, a acreditar no Poder Superior e a agradecer a essas entidades curadoras. Acredito que elas fazem parte de minhas raízes ancestrais. A experiência foi fortíssima e posso considerar como uma das mais fortes que já tive, no pouco tempo que estou no caminho da Ayahuasca. Há apenas seis anos comungo a bebida, apenas há dois anos me fardei no Santo Daime, ou seja, ainda tenho muito caminho a percorrer, muito a compreender num caminho que se faz com muita calma, amor, paciência e tranqüilidade.

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EXPERIÊNCIAS TRANSPESSOAIS ATRAVÉS DO USO RITUALÍSTICO DA AYAHUASCA

As experiências transpessoais são consideradas como um estado superior de consciência, onde se dissolve a aparente fronteira entre o “eu” e o mundo exterior, em que desaparece o que chamamos de pessoa e surge uma vivencia que está além (WEIL, 1995, p. 14)”. Essas capacidades potenciais estão relacionadas à existência de estados superiores de consciência, ainda desconhecidas para a maior parte da humanidade. O caminho para atingir esses estados é o caminho da autotranscendência, ou superação do ego individual. De acordo com Bertolucci (1991), é um pressuposto da psicologia transpessoal que todo ser humano possui impulsos em direção à realização dos estados superiores de consciência, única possibilidade real de libertação. As experiências transpessoais, de acordo com a autora, constituem “estados superiores de consciência”, experiências humanas mais evoluídas, realizadoras, complexas ou cósmicas.
Em um mundo quase que totalmente prensado por fenômenos como reificação, estandartização, desenraizamento simbólico, ausência de cidadania e exclusão moral, sem falar na ausência de políticas públicas de bem-estar social. É ai onde se insere o movimento ayahuasqueiro, que busca transformações através do conhecimento sagrado (ARAÚJO, 2005).

Os processos subjetivos decorrentes do uso ritual da Ayahuasca são por natureza transpessoais porque alargam a experiência e visão da realidade, diminuem o império do ego sobre a personalidade, facilitam uma mudança de valores e conduzem o
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individuo a uma experiência sagrada da existência. O psicólogo Tripichio observa que:
Experiências ditas transpessoais acompanham o homem há milênios. No Ocidente, na maioria das vezes, estas vivências são associadas à religião, caracterizando-se como um encontro com um estado místico indescritível e não vivido pela maioria dos indivíduos. Ao contrário, porém, no Oriente estas experiências obtiveram atenção e estudo que desenvolveram métodos e técnicas para vivenciá-las. O Zen-Budismo, a Ioga e o Sufismo, por exemplo, são três doutrinas orientais que, além de uma preocupação com o funcionamento da mente, sua relação com o Cosmos e o desenvolvimento da personalidade, têm implicitamente em seu pensamento a evolução interior do indivíduo visando atingir experiências transcendentais (TRIPICHIO, 2007, s/p)

A dimensão transpessoal das experiências vivenciadas por indivíduos não se restringe apenas a questões relacionadas à identidade, à personalidade e à historia de vida. Essa dimensão, como já foi ressaltado, ultrapassa o ego, indo em direção a uma totalidade e a integração das variadas camadas da psique, saindo-se do mundo da forma, indo em direção ao conteúdo organizativo que reside no centro da psique (BERTOLUCCI, 1991, p. 55). Stanislav Grof, psiquiatra pioneiro da Psicologia Transpessoal, referência no estudo das experiências de consciência expandida, explica que:
Nos estados transpessoais ocorre uma mudança qualitativa de consciência, de forma profunda, onde nosso campo de consciência é invadido por conteúdos de outras dimensões da existência, que podem ser muito intensos e modificadores da nossa visão de mundo (GROF, 2000, p. 78).

Essas experiências são geradas a partir do inconsciente transpessoal ou coletivo, que despertado pelo o uso da Ayahuasca, manifesta conteúdos universais que não correspondem apenas à historia individual. Com a Ayahuasca, há possibilidade de interação tanto com conteúdos do inconsciente pessoal, quanto do inconsciente coletivo.A Ayahuasca dissolve os limites da mente inconsciente, permitindo o acesso a um leque mais abrangente de conhecimentos e também a conteúdos reprimidos e esquecidos, possibilitando que eles sejam re-elaborados.

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Brandão (1994), citado por Tavares (2004) destaca que através da Ayahuasca,
O alvo do sujeito é conhecer-se até onde for possível, dissolver-se na ordem mística de um cosmos vivo, mas à condição de fazê-lo trabalhando a plenitude de sua própria pessoa, e as várias dimensões espirituais de si mesmo, em nome de um mesmo trabalho individual sobre a fidelidade à sua própria pessoa.

No estado de expansão da consciência é possível o alcance de outros níveis de emancipação. Os estados expandidos de consciência não conduzem à desorganização, mas à organização e re-elaboração psíquica em busca de uma melhor qualidade de consciência. De acordo com Bertolucci (1991), a psicologia da personalidade, da persona, do ego, ou qualquer outro nome que se queira dar é uma psicologia parcial, pois leva em conta somente a linha horizontal da vida. Ela nos fala de uma nova forma de psicologia que estudaria a linha vertical, ou seja, a essência do homem que consideraria não só a existência de questões emocionais da personalidade, mas algo que vai além do que representa a essência do homem. Só podemos recuperar a perspectiva de totalidade sobre o fenômeno psíquico retornando à experiência humana em todas as suas manifestações e verdadeiramente ao sujeito das experiências. Para Bertolucci (1991), a Psicologia Transpessoal, dentro de uma metodologia fenomenológica procura trabalhar incentivando o desenvolvimento da consciência em suas formas superiores. Há registro de técnicas para conduzir a experiências transpessoais desde os primórdios da humanidade (BARBIER, 2003). As grandes tradições espirituais da humanidade elaboraram seus termos específicos para as experiências transpessoais, que equivalem simbolicamente, por exemplo: o Zen-budismo chama de satori, o Taoísmo de hsù ("estado de vazio"), o Sufismo de fana ("extinção do ego"), o Budismo de nirvana, a Kriya Yoga de samadhi, o Cristianismo de "reino dos céus" e o Santo Daime de “miração” (BOMFIM, 2002). Maslow (1998), chama essas experiências de peak experiences ou experiências culminantes. Para ele uma experiência culminante é um momento em que você
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é tirado de si mesmo, que faz você sentir-se um com a vida, ou com a natureza, ou com Deus. Dá a sensação de ser parte do infinito e do eterno. Essas experiências tendem a deixar marcas profundas na vida da pessoa, mudá-la para melhor, e muitas pessoas procuram essa experiência ativamente. São também chamadas de experiências místicas, e são conhecidas em muitas tradições religiosas e filosóficas. Todas essas características se encontram combinadas em maior ou menor grau nos estados transpessoais de consciência e se constituem em estados de contemplação interna, sejam eles alcançados naturalmente, espontaneamente ou conduzidos através de ritmos musicais de instrumentos musicais (como tambores, maracás, etc.), de mantras ou através do uso de enteógenos. De acordo com Alverga (1996), as experiências transpessoais, através da Ayahuasca, possuem características próprias que as permitem reconhecer, como por exemplo:
...inefabilidade, incapacidade de narrar em palavras os primores alcançados com toda sua riqueza de visões e sensações; caráter irretorquível das verdades vivenciadas, o que pressupõe uma grande potencialização do dom da intuição; sensação de unicidade; experiência subjetiva de fusão do Eu no universo; transcendência do tempo e do espaço, sensação de emergir beatificamente no Eterno Agora; sensação de profunda positividade frente à vida; reconhecimento da sacralidade do caráter divino da experiência obtida; aumento do poder de concentração e cognição; sensação de conforto e estímulo moral para desempenhar as instruções recebidas; insights reveladores e valiosos para o solucionamento de conflitos internos; reverência e humildade frente ao desconhecido, serenidade frente a aceitação da morte e a compreensão desta como uma transição para uma vida desmaterializada e de pura consciência; predisposições de altruísmo e abnegação; visualização da linguagem”. (ALVERGA, 1996)

Penetrar nos mistérios proporcionados pela Ayahuasca permite ao homem a participação no mundo das realidades iluminadas, ou seja, pelo mundo do sagrado. Esse encontro se da com muita intensidade, de uma forma mais profunda e arrebatadora.

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Vânia, fardada do Essência Divina nos fala sobre a questão da religiosidade com Ayahuasca e os conteúdos que podem ser vivenciados:
Outra coisa a ser trabalhada com a Ayahuasca é questão da religiosidade e não da religião. Então você fica muito livre e desperta em você, em vez das normas e regras de fé da religião, possibilita o encontrando com Deus, com a sua sabedoria interior e entendendo também que esse Deus pode ser uma Deusa. O Deus tem características maternais e a Mãe tem características paternais. Essas coisas vão chegando na gente.

Shannon (2003), pesquisador Israelita da área das Ciências Cognitivas, compartilhou em seu trabalho as experiências que vivenciou com a Ayahuasca. Ele nos fala que a substância abriu para ele uma dimensão do sagrado que nunca tinha vivenciado antes, quando teve visões muito fortes. A experiência foi tão forte que o levou a querer integrar o uso ritual da Ayahuasca no estudo da fenomenologia da consciência humana e investigar as dimensões psicológico-cognitiva da experiência e suas implicações mais amplas para o estudo da consciência humana.
A Ayahuasca demonstra o forte impulso na psique dos indivíduos que a bebida pode provocar. A ayahuasca provoca poderosas visões que se associam a insights pessoais, ideações intelectivas, reações afetivas e experiências espirituais e místicas profundas. Também se observam alterações dos parâmetros básicos da experiência – identidade pessoal, conexão com o mundo exterior, temporalidade e os sentimentos de significação e de noese, além disso, provoca uma abertura psico-cognitiva que conduz ao contato com o sagrado (SHANNON, 2003).

Essas experiências podem ser descritas por outras pessoas, inclusive falando do encontro com seres arquetípicos, como divindades, deuses, anjos, santos, budas, orixás. Os arquétipos são manifestações de uma energia Universal, personificada, transformada em imagem e símbolo nas diversas culturas. O símbolo é uma imagem carregada de energia, despertado nas diversas praticas religiosas. “O psiquismo humano produz, de forma espontânea, os conteúdos religiosos, pois dessa natureza é o ser humano, um ser intrinsecamente religioso (DALGARRONDO, 2008, p. 65)”. Sob o efeito da bebida sagrada, entramos naturalmente em contato com essa dimensão mística e metafísica da existência. Essa se trata de uma dimensão inteira-

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mente diferente da qual estamos acostumados a lidar, o que não retira seu status de verdadeira.
Esses estados de consciência constituem experiências humanas mais evoluídas, realizadoras, complexas ou cósmicas. A experiência transpessoal, de fato representa uma modalidade superior de estado de consciência, pois trata-se da experiência de centro de si mesmo (Self), ao mesmo tempo em que é Centro e fonte de toda a Vida. Nessa dimensão, todas as divisões são abolidas, não há mais separação entre sujeito e objeto, eu e outro. A vivencia dessa posição superior de consciência, mesmo por breves momentos, é altamente curativa e amplia a capacidade de realização do sujeito em todos os sentidos (BERTOLUCCI, 1991, p. 20).

No Santo Daime, o estado transpessoal provocado pela Ayahuasca é chamada de miração. A pessoa ao mesmo tempo em que observa, atua no universo espiritual, do inconsciente. Para o escritor, físico e xamã, Drouot, a miração significa ao mesmo tempo visão interna e êxtase, é o modelo de uma forma de consciência na qual o eu se concentra na realidade interna. Ela favorece a consciência espiritual e é notavelmente similar às visões e aos estados extáticos descritos pelos santos e os místicos de tantas religiões (DROUOT, 1999, p. 74, 83)”. Ou seja, o individuo experiência a si mesmo como um observador uma testemunha daquilo que acontece, ao mesmo tempo em que atua no cenário de infinitas possibilidades que aparecem no contexto da visão interna. Para Bertolucci nesse momento, a pessoas se tornam testemunhas desse poder de direcionamento ou intencionalidade que faz parte das experiências transpessoais, quando então, o sujeito pode experienciar-se ao mesmo tempo como consciência transcendental, observador ou testemunha transpessoal. (BERTOLUCCI, 1991, p. 21). Na miração, o individuo é conduzido a mudanças perceptivas, vivenciando uma experiência qualitativamente diferenciada em relação aos padrões perceptivos do cotidiano, englobam não raro entidades divindades, Mestres, Santos e outros arquétipos. Para aqueles que a vivenciam tais experiências são tão convincentes e reais quanto as experiências da própria vida cotidiana (idem, 140). É no inconsciente coletivo, ou transpessoal, que a realidade das figuras arquetípicas estão armazenadas.

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Esse sentimento profundo e tocante, revelado pela bebida e pelo contexto religioso foi expresso em um dos depoimentos:
Conheci o Daime, eu tinha 24 anos de idade e foi ai que eu senti meu coração ferver, minha alma vibrar, compreendi que eu era o veiculo para encontrar Deus e foi o Daime que me mostrou. Assim percebi que era me conhecendo, me lapidando e me descobrindo, que eu seria capaz de ser que Eu Sou (depoimento de Ana fardada do Santo Daime).

Utilizada num contexto ritualístico responsável e sério, a Ayahuasca pode levar o individuo a potencializar seu processo de encontro com a dimensão transcendente de si mesmo e da vida. Conduzindo assim, a um novo projeto existencial pautado na auto-transformação e no retorno ao sagrado. A busca pelo transcendente e pelo sagrado é uma maneira de re-significar a vida, podendo ser considerada o contraponto a toda situação de esvaziamento das subjetividades que observamos atualmente.

2.1

AS EXPERIÊNCIAS COM AYAHUASCA E O RETORNO AO SA-

GRADO NA CONTEMPORANEIDADE.
O surgimento Mítico da primeira religião Ayahuasqueira contemporânea Os mitos e os símbolos sagrados estão presentes desde a criação da primeira religião ayahuasqueira do Brasil, o Santo Daime. “Mito é uma forma comunicativa de conservar e de significar um valor através de um símbolo que esclarece e expressa o valor de um significado de uma verdade profunda (TAVOLA, 1985 apud RAMOS, 2005)”. O mito, ou o que se tornará um mito, com o passar do tempo, é aquele relato do Encontro do Mestre Irineu, fundador da Doutrina, com um ser divino, através do estado visionário da miração. O Encontro do Mestre com um ser mítico representando a energia feminina primordial da Grande Mãe, da Rainha da Floresta, que é identificada como a Virgem Maria, traçou os fundamentos do que seria a religião do Santo Daime.
Sob o efeito da Ayahuasca, Mestre Irineu visualizava, ouvia e recebia ensinamentos divinos em estado de "miração" e assim foi inspirado para fundar 52

a religião, obedecendo à sua "professora", a "Rainha da Floresta" (ou "Virgem da Conceição"), com quem afirmava manter contatos espirituais . Foi assim que ele "recebeu" os hinos, apresentando os principais elementos do ethos religioso daimista na orientação dos adeptos em suas "viagens astrais" e no cotidiano. Para os seguidores, esses cânticos são mensagens dos "seres" da floresta e do "astral" (região celestial), apresentando também os valores e normas de conduta idealizadas pelo grupo. O próprio "mito de origem" da doutrina do Santo Daime, com o Mestre Irineu recebendo ensinamentos da lua, já apresenta a noção de sacralidade daquilo que vem do alto. (REHEN 2007, p. 5)

O principio arquetípico do Sagrado Feminino Universal foi manifestado desde o inicio do surgimento do Santo Daime. Atualmente mais de trinta e seis paises falam da Rainha da Floresta, através dos hinos, reverenciando a Floresta e a Mãe Natureza e Virgem Maria que manifestou os primores e a beleza da natureza e do Divino através dessa bebida sagrada. Como indicação do retorno ao Sagrado Feminino, um grupo de mulheres daimistas das diversas partes do Nordeste se reuniram em março de 2009, na Praia de Japaratinga em Alagoas, num Encontro de Mulheres na Floresta (EMFLORES-NE). Foram quatro dias de vivências, grupos de discussões, exercícios de yoga, biodança, alimentação natural e trabalhos do Santo Daime em celebração ao Sagrado Feminino. As mulheres buscaram Reverenciar o principio sagrado em si mesma e na natureza, na Virgem Mãe que é mulher e foi quem entregou a Doutrina do Santo Daime ao Mestre Irineu. A principal facilitadora desse Encontro de Mulheres foi uma das madrinhas, moradora do Céu do Mapiá, que há muito tempo se dedica à Doutrina, sendo contemporânea do Padrinho Sebastião; Maria Alice Campos Freire, desenvolve um trabalho terapêutico muito importante na Floresta Amazônica, Fundadora do Centro Medicina do Floresta onde, desde 1989 desenvolve pesquisas e curas com as plantas da Amazônia, bem como a educação de crianças e jovens para a preservação da Natureza e do desenvolvimento sustentável. Ela é uma ativista na defesa das suas tradições e patrimônio, sendo uma das responsáveis pela sistematização dos Florais da Amazônia.

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Maria Alice é também uma das membros do Conselho Internacional das 13 avós Xamãs, representantes femininas das diversas tradições espirituais do Planeta Terra. Criado em outubro de 2004 reúne 13 Avós Indígenas de todo o mundo: do Alasca, América do Norte, América do Sul e América Central, África e Ásia. Abaixo a declaração de Aliança elaborada pelo Conselho das 13 avós, que legitima o papel das mulheres na preservação da natureza, através da tradições sagradas de seus povos.
Nós somos o Conselho Internacional das Treze Avós Indígenas. A nossa

é uma aliança de oração, de educação e cura para a nossa Mãe Terra, todos os seus habitantes, todas as crianças e para as próximos sete gerações vindouras. Estamos profundamente preocupados com a destruição sem

precedentes da nossa Mãe Terra, a contaminação do nosso ar, águas e do solo, as atrocidades da guerra, o flagelo da pobreza mundial, a ameaça das armas nucleares e de resíduos, que prevalece na cultura do materialismo, as epidemias que ameaçam a saúde dos povos da Terra, a exploração dos indígenas medicamentos, e com a destruição de formas de vida indígenas. Nós, o Conselho Internacional das Treze Avós Indígenas, acreditamos que a herança de nossos ancestrais, formas de oração, a paz e a cura são vitalmente necessários hoje. Vivemos juntos para cuidar, educar e formar os nossos filhos. Vivemos juntos para defender a prática das nossas cerimônias e afirmar o direito de utilizar a nossa planta medicamentos isentos de restrição legal. Viemos juntos para proteger as terras onde os nossos povos vivem e sobre a qual dependem as nossas culturas, a fim de salvaguardar o patrimônio coletivo de medicamentos tradicionais, e para defender a própria terra. Acreditamos que os ensinamentos de nossos antepassados vão luz nosso caminho através de um futuro incerto. Nós unir com todos aqueles que honram o Criador, e para todos aqueles que trabalham e rezar para os nossos filhos, para a paz mundial, e para a cura de nossa Mãe Terra (Conselho Internacional das Vovós Indígenas, 2004)

As avós são mulheres de oração e mulheres de ação. As suas formas tradicionais de rito e conexão com Deus, sua ligação com as forças da mãe terra, sua solidariedade para com o outro cria uma teia que ajudarão a humanidade a reequilibrar as injustiças de um mundo em desequilíbrio, desconectado da leis fundamentais da natureza e do original ensinamentos baseados em uma relação para toda a vida.

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Alguns estudiosos do xamanismo como (CHAMALU, 1999), falam que estamos numa era onde o Matriarcado está retornando, onde as características femininas estão sendo mais solicitadas em diversas áreas da vida. Estamos saindo de uma era onde predominou o princípio masculino, onde imperou as guerras, a dominação, a competitividade, a racionalidade. E estamos entrando em uma nova fase, onde prevalecerá as características femininas, do amor, da receptividade, do acolhimento, do cuidado, da intuição. Os cuidados com a natureza, com a mãe terra podem ser sinais dessa mudança. Retornando a historia do surgimento mítico do Santo Daime, Oliveira (2008, p. 85) também nos fala sobre o encontro do Mestre Irineu com a Rainha da Floresta:
Nesse momento se dá o encontro mítico entre o Mestre Irineu e a Rainha da Floresta, representação de Nossa Senhora da Conceição que de cima da lua nova começa a lhe entregar o conhecimento dos segredos sagrados contidos na bebida que ele próprio designará como Daime (num ato rogativo: daí-me amor, daí-me fé, daí-me luz). Em outras aparições, essa deusa Universal, como identificou Irineu, lhe ordenará a criação da Doutrina e lhe instruirá no recebimento dos cantos para que através deles se estabeleça o contato entre o mundo material e o mundo espiritual (OLIVEIRA 2008, p. 85).

A partir desse encontro mítico e místico, o sistema simbólico que permeia os valores do grupo daimista é criado. Esse sistema simbólico pode ser compreendido e vivenciado pelos adeptos, pois através da bebida abre-se a possibilidade desses conteúdos também serem revelados a cada um. O daime abre as portas para que esse contato aconteça e que cada um possa comprovar ou pelo menos intuir a veracidade do mito. O tempo do Santo Daime é o tempo do Sagrado, vivenciado pelo fundador no momento do Encontro com a Divindade e vivenciado também pelos seus seguidores.
Os símbolos do Santo Daime são construídos através da arte (a musica e os cânticos); dos mitos que se apresentam através das visões induzidas pela bebida (compreendidos aqui não como alucinações, mas como imagem refletidas pela consciência e que compõe a realidade do adepto na medida em que são elas que instruem e erigem as bases do conhecimento sobre o real (OLIVEIRA, 2008, p. 12). 55

. Para as sociedades arcaicas o sagrado é o real por excelência. Nelas são os mitos que conferem ao mundo essa categoria. Segundo Eliade (1992),
É na experiência do sagrado, no reencontro com uma realidade transhumana, que nasce a idéia de que alguma existe realmente, que há valores absolutos, suscetíveis de guiar o homem e conferir uma significação à existência humana (ELIADE, 1992, p. 45)

Nos grupos religiosos, citados a Ayahuasca é o Sacramento compartilhado. É o elo que une os adeptos. A palavra sacramento (sacramentun) é de origem latina, formada por duas palavras: Sacra, que quer dizer sagrado e Mentun que significa lembrar, memorar. Ou seja, lembrar de coisas sagradas. Portanto, através dessa bebida sacramental, o individuo re-encontra, rememora, em seu intimo a noção do sagrado (CRIPPA, 1975). De acordo com Goulart (2003, p. 03) Para os seguidores dos cultos religiosos aqui considerados a ayahuasca é uma bebida sagrada, cujos significados se relacionam à constituição de todo um conjunto simbólico, ritualístico, cosmológico, associando-se, de certa forma, à noção de sacramento. O sagrado, segundo Dalagarrondo (2008) é definido como a percepção socialmente influenciada de um ser divino ou de um senso de verdade e realidade ultima, manifestando-se através da Espiritualidade que dá capacidade de estar em conexão intrapessoal, interpessoal e transpessoal. Para Crippa (1975, p.104), “A realidade de tudo o que existe está ontologicamente fundada na manifestação do sagrado. O real, o profundamente real é o sagrado. O sagrado tem consistência em si mesmo e garante a realidade de tudo o que vem a ser no mundo natural e no mundo histórico. O sagrado é um elemento inerente a estrutura da consciência - não é um estado de consciência nem uma parte da consciência humana. Um desafio maior da época atual consiste em descobrir novas vias para reativar este elemento em nossa cultura, que amplamente ocultou tudo o que concerne ao espírito, ao sagrado e ao místico (DROUT, 1999, p. 155).
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As religiões ayahuasqueiras encontram-se inseridas no fenômeno da “nova consciência religiosa que se caracteriza como um movimento de reencontro com o sagrado, que se aproxima e dialoga com o movimento filosófico-psicológico do autoconhecimento, um caminho para o conhecimento espiritual e seu desenvolvimento (BOMFIM, 2002). O homem contemporâneo conserva em si traços arcaicos oriundos do inconsciente coletivo, e com isso sentimentos de uma valorização sagrada do mundo. Por isso, hoje esses movimentos da nova consciência religiosa estão em alta. O Sagrado se manifesta principalmente na natureza e através dela. Nas sociedades arcaicas os homens têm maiores possibilidades de viver o sagrado, principalmente porque nessas sociedades o contato com natureza se dá em praticamente em todas as áreas da vida. Através do reencontro com o sagrado, está ocorrendo uma revalorização de uma vida natural e do respeito à natureza, como resgate ao principio do sagrado feminino, da mãe terra, da Rainha da Floresta, de Gana.
Mudanças nas relações com a natureza. A idéia de natureza, como sendo uma força protetora para o homem é central na cosmologia daimista. Em qualquer das suas manifestações -astros, animais, vegetais, minerais- a natureza seria uma fonte de mistérios nos quais o homem, estando em “sintonia com ela” poderia aceder. Os daimistas iriam descobrindo as benções da natureza e teriam permanentemente uma atitude de preservação em relação a ela (PELAEZ, 2006).

Inclusive muitos hinos do Santo Daime falam sobre a importância do contato com a natureza, que é a fonte sabedoria. Com a Ayahuasca o sagrado se manifesta na natureza e através da natureza. Está ocorrendo um resgate da relação homemnatureza, que é também um resgate do homem consigo próprio. Esse resgate é conseqüência do longo processo histórico de devastação da natureza, desmatamentos, violência contra animais, poluição, extrativismo predatório, gerando a necessidade de um resgate cármico, com a natureza Como exemplo do retorno ao sagrado e a vida natural, temos o Céu do Mapiá, que é uma comunidade no coração da Floresta Amazônica, ponto de convergência
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do Santo Daime (CEFLURIS). Lugar onde tem-se oportunidade de viver o sagrado com muito mais intensidade do que nas cidades. “En el centro del culto, o Céu do Mapiá, 2007)”.
Essa comunidade “tenta recriar um modo de vida em comunhão com a natureza e com os ensinamentos da floresta, criando uma existência em que os cuidados cotidianos e a conexão com o divino passam pelo uso de uma planta sagrada. A ingestão de ervas na floresta amazônica parece-nos um costume normal, bem adaptado à maneira de viver dos habitantes da selva. A preocupação dos residentes do Mapiá é grande porque a destruição da floresta tropical ameaça não apenas um numero incalculável de espécies vegetais, mas ainda a cultura dos homens que conhecem as sua propriedades e as utilizam em sua vida cotidiana (DROUOT 1999, p. 95, 98).

se vive en un estado numinoso que tiende a ser constante (LAVAZZA,

No Céu do Mapiá a vida gira em torno do propósito da Doutrina, e os cuidados com a vida cotidiana, se mesclam com os trabalhos espirituais. A vida em comunhão com a natureza é a constante e os moradores buscam estratégias para a preservação ambiental e para uma vida comunitária digna e organizada, ao mesmo tempo em que se dedicam aos trabalhos espirituais, que acontecem praticamente todos os dias.

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3

POTENCIALIDADES TERAPEUTICAS DO USO RITUALÍSTICO DA AYAHUASCA

Desde os primórdios, a utilização da Ayahuasca possuiu função terapêutica. Estando relacionada a práticas xamanísticas, a bebida foi desvendada através da sabedoria dos indígenas que se utilizam, dentre outras coisas, da arte de reconhecer e selecionar as plantas, preparando-as e fazendo as combinações necessárias para o tratamento físico e espiritual. Isso inclui também conhecimentos fitoterápicos que conduzem a estados transpessoais e a uma maior integração entre o individuo e o cosmos. A médica, mestra em Antropologia, Pelaez aponta que:
As propriedades curativas atribuídas ao Santo Daime não constituem um fato isolado, pelo contrário, estas representações doutrinárias construídas em torno da bebida ritual parecem reforçar os dados históricos sobre as propriedades dos enteógenos. Como é sabido, estas substâncias foram empregadas por muitas culturas xamânicas como instrumentos de acesso a domínios invisíveis vistos como sagrados, despertando sentimentos de transcendência considerados terapêuticos. Mais tarde e com outras bases teóricas, na Psicoterapia Psicodélica buscavam-se os mesmos resultados: procurar a emergência de valores espirituais para atingir a cura de transtornos neuróticos ou psicossomáticos. Consideramos que o traço transcultural da “cura espiritual”, ou seja, o desenvolvimento de um sentimento de transcendência, também está presente entre os daimistas. Mas em torno deste sentimento “universal”, eles -do mesmo modo que os outros grupos- têm elaborado um peculiar sistema de significados que é essencial no processo de cura (PELAEZ, 2006, p )

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3.1

AYAHUASCA E XAMANISMO: A DESCOBERTA DOS POTENCI-

AIS TERAPÊUTICOS DA BEBIDA SAGRADA
O xamanismo existe há mais de trinta ou quarenta mil anos. É um tipo de conhecimento que reflete numa das mais antigas formas de cura utilizadas pela humanidade. Suas raízes podem ser rastreadas até a era paleolítica, fazendo parte das culturas da América do Norte e do Sul, da Europa, da África, da Ásia, da Austrália, da Micronésia e da Polinésia, constituindo uma ciência universal (GROF, 2000). O fato de, através da história humana, tantas culturas distintas terem achado as técnicas xamânicas úteis e relevantes sugere que a prática da indução de estados holotrópicos envolve, o que os antropólogos chamam de mente primal, um aspecto básico e primordial da psique humana que transcende a raça, sexo, cultura e tempo histórico. As técnicas e procedimentos xamânicos sobreviveram até hoje (op. cit.), A mente primal, pode ser considerada como o Inconsciente coletivo, na visão Junguiana. Dimensão que pode ser explorada pelas plantas de poder e pelas técnicas xamânicas. Drouot observa que
Hoje, um numero cada vez maior de indivíduos conscientes das realidades ecológicas, sociológicas, religiosas e espirituais percebe que o xamanismo foi a primeira chave que permitiu ao ser humano compreender seu meio ambiente e viver em harmonia com ele (DROUOT, 1999, p. 149)”

Ainda sobre características de práticas de cura em sociedades arcaicas Pelaez destaca que:
Quando nas culturas tradicionais estes agentes eram empregados com fins terapêuticos, não se pretendia meramente uma melhoria dos sintomas, mas, e talvez com uma visão mais holística do homem, se buscava atingir experiências de transcendência que restaurariam o equilíbrio entre o homem doente e seu cosmos simbólico. Como o transtorno orgânico colocava-se num segundo plano, a remissão sintomática não era necessariamente um indicador da cura, nem a morte do paciente marcava o fracasso do tratamento (PELAEZ, 2006, s/p).

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O tratamento xamânico engloba o ser humano de uma forma holística. Por exemplo, entre os xamãs Quichua, índios sul-americanos, conhecidos como ayahuasqueros, não se faz uma distinção clara entre a cura do físico, do psicológico ou do espiritual, pois tudo engloba o mesmo ser em contato e todas essas categorias são interdependentes (WALKER, s/d) A psicologia e o xamanismo possuem relação, ambos trabalham com a cura psíquica. Cada qual com seu nível de representação e sua forma de olhar para o fenômeno, que é o mesmo, o inconsciente e suas infinitas possibilidades. O que diferencia uma abordagem da outra são os referenciais conceituais para interagir com o individuo. O Xamã é o sábio, o curandeiro, que sabe conectar vários níveis de consciência, vários mundos da psique e do espírito. Utiliza-se dos estados transpessoais do êxtase para percorrer os mundos interiores e exteriores - em busca da cura do corpo e da alma. Chaves (2000) nos fala que o terapeuta ao reconhecer, vivenciar e compreender a dimensão transpessoal, no sentido de trabalhar e lidar com estados alterados de consciência, utiliza-se tanto de técnicas e abordagens desenvolvidas pela ciência oficial, como pode utilizar-se de música, respiração, exercícios, meditação, hipnose, visualizações, como recursos amplificadores do estado original de consciência, a fim de promover a cura do indivíduo como um todo, nos seus aspectos psíquicos, espirituais e físicos. Assim, o psicoterapeuta assemelha-se a um xamã, podendo-se utilizar da manipulação dos mais variados elementos para produzir transformação, resgatando a unidade fundamental, trabalhando os vários níveis de consciência e a mudança de padrão e paradigma individual, promovendo o processo de Individuação, mudança nos níveis relacionais. Coaduna-se com essas reflexões, Zacharias (2009), quando ressalta que o psicoterapeuta não é, no exercício de sua profissão, um xamã – embora possa trabalhar com os com os mesmos conteúdos psíquicos- o inconsciente. O mundo dos es61

píritos e o inconsciente possuem fenomenologia semelhante. No entanto, o psicólogo abordará o trabalho com o inconsciente de um ponto de vista diferente do xamã, mas ambos os conhecimentos são complementares.

3.1.1

FUNÇÃO TERAPÊUTICA DA AYAHUASCA

Conforme pareceres oficiais (Parecer técnico-científico sobre o uso da Ayahuasca ou “Chá Santo Daime”), a utilização da Ayahuasca, dentro de um contexto bem direcionado e responsável, não traz nenhum tipo de malefício à saúde, não gera dependência. Ao contrário, de acordo com Silva Sá (1996, s/p): Podemos constatar os efeitos integradores e re-estruturantes do Daime com indivíduos que antes de participarem dos rituais apresentavam desajustes sociais ou psicológicos. Os estados transpessoais através da Ayahuasca conduzem a organização e re-elaboração psíquica em busca de uma melhor qualidade de consciência. O contato com níveis transpessoais de consciência auxilia o processo de cura psíquica e de mudança da personalidade. De acordo com MALUF (2003), a dupla implicação entre o terapêutico e o espiritual é uma característica recorrente nas religiões ayahuasqueiras. Uma dimensão religiosa está presente no trabalho terapêutico, assim como um sentido terapêutico é dado aos rituais (expressões como "o Daime é a cura" são exemplos disso). As pessoas que se utilizam da bebida continuam lúcidas, e não relatam experiências sem sentido, ou de puro divertimento. De acordo com os relatos, elas começam a vivenciar uma compreensão mais aprofundada da vida e de si mesmo. A Ayahuasca só não é recomendada a pessoas com personalidades esquizóides e prépsicóticas; neuróticos com instabilidade de identidade e níveis altos de ansiedade, como a síndrome do pânico (PELAEZ, 2006). As experiências advindas do uso ritual da ayahuasca são profundamente transformadoras, pois permitem uma re-visitação intensiva e absorta dos conteúdos mentais, recordações, idéias, fantasias, pensamentos, emoções, medos, esperanças, sensações em gerais.

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Os condicionamentos, os sentimentos reprimidos e traumas podem naturalmente emergir no trabalho espiritual para se tornarem conscientes. Entrar em contato com esses conteúdos pode produzir sentimentos desconfortáveis. Porém, ao focar diretamente nos sentimentos negados, mantendo-se sem apego ou aversão, abre-se uma possibilidade de eles irem aos poucos se dissipando (STORALOFF, 1999). Essas experiências são percebidas como re-elaboradoras da vida psíquica, pois permite que os indivíduos façam releituras do seu conteúdo interno, que de acordo com o nível de consciência são capazes de integrar o desenvolvimento emocional, psicossocial e espiritual dos indivíduos, por isso possui valor terapêutico. Em experiências transpessoais com Ayahuasca, outros dos conteúdos que podem ser trabalhados é a diluição de padrões egóicos limitantes. Processo que pode ser bastante doloroso, tratando-se de uma espécie de morte iniciática. “A “morte iniciática” tem a ver com o fim do homem natural, rotineiro e preso as tarefas de conformação social, para que por meio do “processo místico”, se converta em um outro, em um ser espiritual (DALGARRONDO 2008, p. 26)”. Assim, o homem renasce com uma nova vida e uma nova forma de perceber a si próprio e a vida, adequando o ego para ficar apto de atuar cada vez mais integrado com níveis mais elevados de consciência; - a diluição dos padrões egóicos é fundamental para a evolução do Indivíduo rumo a uma consciência maior de si e de sua natureza (CHAVES, 2000). Maluf destaca também que:
É através dessas experiências que o indivíduo pode "aprender e se transformar". O sofrimento é percebido como um instrumento e uma possibilidade de aprendizado e de transformação pessoal [...] De modo geral, o trabalho com Ayahuasca descreve todo o esforço terapêutico e espiritual, individual ou coletivo, para superar o mal-estar e as suas causas: as dificuldades, os medos, os "padrões de comportamento". O resultado desse esforço seria um processo de transformação, de mudança, no qual, o "velho Eu", na linguagem nativa, dará lugar a um "novo ser" (MALUF, 2003 s/p)

As experiências profundas com a Ayahuasca são capazes de nos levar a transcender os condicionamentos e padrões de comportamento que possuímos. Através dos processos envolvidos, cria-se um estilo de vida voltado para o autoconhecimento, sendo este considerado como fator fundamental para a cura:
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Quem cura para mim é a fé da pessoa e o auto-conhecimento. Então claro que já me curei de muita coisa tomando daime. Para mim o Santo Daime é um trabalho espiritual de auto-conhecimento, de a pessoa poder curar ela de suas coisas. (Depoimento de M. B fardado do Santo Daime, AVAL); A capacidade de me auto-conhecer e uma certa maturidade adquirida através do uso da ayahuasca é por mim considerado como cura. Sei que tenho muito que melhorar, mas já me sinto feliz e satisfeito com os ensinos que essa bebida e a doutrina do Santo Daime tem me dado (depoimento de J. P fardado do Santo Daime).

As pessoas ao entrarem em contato consigo mesmas e ao se conscientizaram do que é melhor vão realizando as transformações naturalmente, se modificando e se melhorando e fazendo escolhas que contribuam para o seu desenvolvimento pleno. Pelaez observa que:
Cada história de cura é única nas suas características, com situações peculiares e tempos diferentes para cada um. Porém, nos diversos relatos dos daimistas descreveram-se mudanças similares reconhecidas por eles como indicadores concretos e visíveis das suas curas espirituais. A principal transformação na vida dos daimistas, e da qual decorreriam todas as outras, seria o sentimento de ter acordado, que lhes possibilitaria reconhecer a existência de um mundo invisível que daria um “verdadeiro” sentido à realidade aparente. A partir desta convicção, expressam ter maior “consciência” nos seus atos de vida, sentem também aumentada a capacidade de autocrítica e a disposição para modificar pensamentos e condutas vistos como errados (PELAEZ, 2006).

O depoimento de Lourdes, fardada do Essência Divina, nos deu uma boa contribuição do processo de mudança de valores:
O estilo de vida também muda, mas não porque estão dizendo o que você vai fazer, nem o grupo está forçando. Mas você vai ter a compreensão do que é melhor. Você começa a despertar. Pois como vai transformando o que inconsciente em consciente, vai se conscientizando. A sua autoconsciência vai aumentando cada vez mais. Na medida em que aumenta você vai e percebendo o que é melhor pra você. Por exemplo, se é melhor pra você não comer carne, você não come. Mas não tem ninguém que diga: você não 64

vai comer carne! Todas as culturas e estilos de vida são respeitados. Por exemplo, você é protestante e chega lá “seja bem vinda”.

Ao acessar com mais facilidade os nossos conteúdos internos, podemos nos reavaliar, nos compreender nos conhecer. A compreensão é interior, os ensinos vêm de dentro pra fora. Não é preciso que alguém, uma figura externa diga o que fazer como normalmente estamos acostumados, pois as resoluções são “ditadas” por uma voz interior, que orienta. Helena, um visitante do Santo Daime, nos fala:
Com o daime eu aprendi coisas muito interessantes. Passei a prestar mais atenção nas coisas que estavam acontecendo comigo, no que eu podia melhorar”. Sobre a experiência de cura ela fala que “não é bem curar, mas acho que o daime acelerou coisas que eu queria entender, que aconteciam comigo, até os comportamentos mesmo, que fica mais claro durante a sessão. É como se você passasse a prestar mais atenção em você mesmo, o que acontece com você...”

A Ayahuasca desperta para essa voz que existe em cada um de nós e também nos serve de espelho que nos faz reconhecer nossos mecanismos de defesa, nossas máscaras, além de nos proporcionar insights transformadores. As transformações interiores acontecem somente com a compreensão e o esforço de cada pessoa. O desenvolvimento interior não depende somente do uso de uma planta ou substância, embora elas possam ser úteis para descobrir o caminho.
Elas podem revelar os erros de nossos comportamentos e percepções, que estão gerando sentimentos desconfortáveis e reações inadequadas, e tem a capacidade de mostrar como tais erros podem ser corrigidos. Quando voltamos a errar, ao ponto de perder energia e motivação, eles podem nos dar novo fôlego e renovar nossa inspiração e determinação (STORALOFF, 1999).

As pessoas, após o uso da Ayahuasca, reconhecem ter tido mudanças nas suas personalidades, nas suas relações com o corpo, nas suas relações com a sociedade, nas suas relações com a natureza e nas suas concepções de trabalho.
A Ayahuasca permite o reconhecimento e a resolução de conteúdos inconscientes, e a dissolução da compartimentagem interna, a revelar mecanismos de defesas diversos como “projeção”, “negação” ou “deslocamento”. O gerenciamento emocional

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produtivo dessa reavaliação, a reorganização psíquica, implica um grau suficiente de equilíbrio e bom senso e a e dissolução dos conflitos internos (BARBIER, 2003 p. 3).

A motivação necessária para a mudança é dada, devendo cada um com seu próprio esforço colocar em pratica o aprendizado obtido nos trabalhos. O potencial terapêutico da Ayahuasca, não significa em si mesmo a transformação. O resultado do trabalho é uma composição em via-de-ser, cuja realização depende das relações e interações implicadas entre o individuo, o ambiente, a substância e as mudanças exercitadas na vida cotidiana. A Ayahuasca como “tecnologia de sagrado” (GROF, 2000) não é o único caminho e não realiza sozinha os benefícios. Ela mostra, desperta, proporciona compreensão. O resultado, entretanto, depende da integração entre a experiência e os esforços de mudança de cada um. Tais substâncias são apontadores do caminho; então devemos trabalhar com uma intenção séria de alcançar os estados que são mostrados como possíveis.
Receber uma luz não é igual a aplicar essa luz no dia a dia. Não há conexão inerente entre uma experiência mística de unidade e a expressão ou manifestação daquela unidade na vida cotidiana. Este ponto é talvez óbvio, contudo freqüentemente esquecido por aqueles que debatem se, em princípio, um agente psicoativo pode ou não ter valor no âmbito da busca espiritual. Qualquer que seja a fonte ou a origem da iluminação, as revelações só poderão ter efeitos práticos com a permissão e dedicação do individuo (BARBIER, 2003).

Vivências com Ayahuasca abrem possibilidades e revelam uma amplitude inédita, outras faces, prismas da realidade, e valoriza diretamente as vivências cotidianas. O que as permite caracterizar são os depoimentos das pessoas acerca de suas experiências, que situam-se além de toda e qualquer experiência vivida até então. A partir dessas vivências, as pessoas passam por importantes modificações em suas formas de viver a vida. O depoimento de Ana Aparecida, fardada do Santo Daime, vem ao encontro de nossas reflexões:
Depois do daime, posso me considerar um ser em busca do aperfeiçoamento e do meu despertar pleno e claro. Quanto mais se aprende mais res-

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ponsáveis nos tornamos por todos os nossos atos e pensamentos, então a cada trabalho temos uma lição e com isso uma aprendizagem e a vida é a prova. Essa mundão é muito cheio de coisas e temos que saber bem direitinho o que vamos escolher para dar a prova. Hoje eu sei que sou uma pessoa melhor, uma mãe melhor, uma filha melhor, uma neta melhor, uma amiga melhor, essa melhora é a cada dia, não estou aqui dizendo que me tornei santa não, nem que o daime me fez santa, me faz melhor a cada dia, todo dia um pouquinho conforme eu vou merecendo, conforme minhas notas. Além de ter na minha vida um ser em forma de liquido que cura a matéria e a alma. Eu digo que o daime vem curando minha alma e minha mente. Como maestro que rege uma orquestra, Ele vem me mostrando em cada nota de cada hino, em cada miração, que é pra ver se eu chego lá um dia, na condição de ser humano, uma pessoa saudável, feliz, vencedora, caridosa, humana, enfim, um ser virtuoso e de bem com a vida e com a morte da matéria.

Mais uma vez, ressaltamos que não é a Ayahuasca por si mesma que proporciona as diversas transformações. É necessário um trabalho árduo de mudança de atitudes, valores e comportamento, um processo que é facilitado efetivamente pela intenção aprofundada e o comportamento retrabalhado na vida cotidiana. Demonstrando assim que o resultado positivo advém do esforço para fazer as mudanças de comportamento que foram indicadas, uma vez que é preciso se reavaliar para se transformar, e conhecer-se para resgatar a si mesmo. Segundo Pelaez,
A cura, então, é mais uma transformação espiritual do que a desaparição dos sintomas da doença. Achterberg descreveu deste modo o processo de cura: é entrar num momento no qual se sente a verdade extática de estar absoluta e totalmente unido a todos os aspectos da criação. (PELAEZ, 2006)

Cris, fardada do Santo Daime, nos relata uma importante vivencia de cura física, inclusive narrando o seu encontro com uma entidade espiritual, bastante conhecida no cenário do Espiritismo Kardecista:
Eu fui pro trabalho com muita dor de cabeça, onde só eu estava cantando o hinário. Tinha varias pessoas, mas o único violeiro era o meu companheiro e a única que cantava era eu. Era trabalho de concentração. Minha cabeça doía muito. Em um momento do trabalho vi por traz de mim Dr. Fritz mexendo na minha cabeça. Meus cabelos arrepiava todinho, fechei o olho conti67

nuei cantando e deixei acontecer. [e como você sabia que era o Dr. Fritz?] Ele falou pra mim: eu sou Dr. Fritz e vim te curar. Ele tava todo de branco com aquele negocio que os médicos usavam na testa, tipo uma lanterna. [e como era a sensação e o que você via?]. Só via ele atrás de mim, a mão na minha cabeça. Não senti medo, nem dor. [Você sabe do que ele te curou?] Não exatamente , mas a minha dor de cabeça, que estava me incomodando há muitos dias passou. .

Abaixo, o depoimento de Amélia, membro do Essência Divina, revela a reversão do quadro grave de síndrome de West do seu filho. Ela não conhecia a Ayahuasca até então, nem acreditava em Deus e nem nas coisas espirituais. Para ela, tudo se resolvia na matéria. Através da Ayahuasca, a mulher que, de acordo com suas próprias palavras, era cética e racionalista, mudou seu paradigma de visão de mundo, ao mesmo tempo em que seu filho pôde recuperar a saúde.
Meu filho nasceu bem a priori, mas aos 10 meses, começou a manifestar umas crises convulsivas muito fortes. E mais tarde depois de muita agonia, busca por médicos, foi diagnosticado como síndrome de West que ataca principalmente nos meninos e a principal característica são as convulsões e também retardo mental. Ele passou por esses estágios todos inclusive tendo 23 convulsões diárias. Esse processo durou nove anos e era controlado à custa de fortes medicamentos. Aos nove anos de idade tava tendo crises neurológicas tão grandes que quando atacava ele chegava a pular 1 metro e meio de distancia. Estávamos cogitando a possibilidade de começar a usar capacete nele. Ele tinha dificuldade de relacionamento e também na educação. Tinha necessidade de uma educação especial, mas os professores não estavam capacitados para atendê-lo... enfim... Já tínhamos percorridos muitos neurologistas sem sucesso.

Com a grave doença do seu filho, ela decide encarar a possibilidade de usar Ayahuasca,
[...] Nessa época eu já tinha ouvido a falar da ayahuasca, pois tinha um membro da família que já tomava. Mas eu tinha minhas resistências, achava que era coisa de maluco tomar um chá não sei aonde... E outra coisa, eu sempre fui muito da razão. Para mim as coisas se resolviam no plano material mesmo e se tinha uma solução para o meus filho era nos médicos e não na religião, Mas ai eu fui num trabalho com ayahuasca e só depois de um ano eu comecei na borracheira a me concentrar no caso especifico do meu 68

filho. E me apareceu muito consciente no trabalho a vontade de tirar a medicação dele. Eu me lembro de estar querendo saber se eu deveria fazer isso. Mas essa resposta não me veio claramente do tipo tire ou não tire. A minha resposta veio na forma de outra pergunta:” você confia? Se confiar...”

Amélia então descreve como decidiu suspender tratamento alopata:
Daí eu fiz uma opção arriscada na época. E resolvi tirar a medicação dele. O meu filho também já tomava uma quantidade muito pequena do chá nesses trabalhos e eu já havia percebido melhoras e mudanças no quadro da doença... as melhoras foram imensas, não no sentido das crise, mas principalmente no aprendizado e nos relacionamentos com outras pessoas. Ele tinha muita dificuldade de aprendizado na época, melhorou muito. Foi nessa época que ele começou a se alfabetizar. Eu tirei a medicação contra toda orientação medica. Em outra época tiramos a medicação para ver se ele sustentava sem crises e ele não sustentou. Precisando passar uma época pra controlar as crises ele teve que passar por um estagio de coma induzido. A fase que eu fui para a Ayahuasca foi justamente no período pós esse coma. E quando tirei a medicação para surpresa dos outros e não a minha, ele não teve mais nada. Esperei três meses e fiz outros exames novamente, depois de um ano que meu filho estava na ayahuasca, foi o único exame que deu normal. Novamente fiz outros exames que também deram normal. A eletricidade do cérebro dele está estabilizada. Inclusive a medica comentou que a fase que o meu filho está é a pior e ficou muito surpresa quando viu que ele.

O entendimento proporcionado pela Ayahuasca da doença do seu filho e da sua relação com ele também aumentou, possibilitando uma melhor elaboração do problema e consequentemente, um melhor enfrentamento da situação. Ao passo que nesse momento ela passou a aceitar a presença de um Ser Superior que poderia lhe ajudar nesse momento :
Espiritualmente compreendi que era um processo meu de resgate com ele. Entendi que eu estava passando por um grande teste como mãe, esse vinculo sagrado mãe e filho estava passando por uma provação, um resgate. Eu tive duas alternativas quando recebi o resultado do exame quando meu filho tinha 10 meses: uma era deprimir e desistir de lutar ou cair em campo. Até eu me surpreendi com minha própria força. A minha família muitas vezes sofria até mais que eu, pois era uma situação tão agressiva de lidar. Eu

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pensava: “se tiver cura pro meu filho, eu vou achar” eu e meu filho sempre tivemos uma ligação muito forte. Devido ao seu retardo mental, ele possuía uma dificuldade muito grande de comunicação com todos, menos comigo. Ele possuía um comportamento autista e eu pensava “se ele não vem pra o meu mundo, eu vou para o dele. Então tudo o que ele fazia, eu imitava para ver se eu estabelecia uma linguagem e funcionou. E começamos nos falar, interpretava os gestos e o nosso vinculo aumentou. Eu mandei diversas cartas para médicos do mundo inteiro narrando o caso do meu filho e pedindo ajuda e a resposta era: seu filho é doente mental e a sua vida vai ser essa. A idéia era controlar as crise, porque com menos crises, menos doente mental. Mas não conseguíamos controlar a crise. Então tínhamos a certeza que ele ia ficar doente mental. Quando eu estava na UTI com meu filho recebi uma carta da mãe de um paciente que dizia: “sabe por que seu filho ainda não está curado? Porque você nunca pedia a quem pode fazer por você. Você acredita demais nas coisas da terra. Ai eu fiquei pensando... como aquela mulher que não me conhecia podia estar dizendo aquilo de mim (que realmente fazia todo sentido)? Ela falou exatamente a verdade, eu nunca pedia a Deus. E comecei a pensar na possibilidade de haver um Deus e pedir a Ele” (A. fardada do Essência da Divina)

Esse é um caso ilustrativo do potencial terapêutico da bebida nua situação de reversão da doença de uma criança e da mudança na visão de mundo da mãe. Através da bebida e do suporte psicológico e espiritual que foi proporcionado pelo grupo do Essência Divina, o uso terapêutico da ayahuasca foi eficaz. Esse fato interferiu na estrutura familiar. Atualmente toda a família, inclusive a criança, comunga essa bebida. O fato de pertencer a um grupo espiritual de apoio também é importante, pois a cura não advém somente da Ayahuasca, mas do contexto e do propósito a que se recorre ao utilizá-la. Nesse sentido, tivemos o depoimento de Vânia, fardada do Essência Divina, que relatou a melhora do quadro de esclerose múltipla que possuía há dezessete anos, quando durante um ano dão uso regular da Ayahuasca nos rituais, melhorou consideravelmente, diminuindo os sintomas. De acordo com pesquisas atuais, a ayahuasca também pode ser eficaz no tratamento de dependência química e outros sintomas psicopatológicos, como a depressão. Ricciardi nos fala sobre esse contexto:
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Não só os grupos terapêuticos, mas também as religiões que fazem uso de enteógenos apresentam considerável sucesso com adeptos em dificuldades com dependência de álcool e drogas. Muitos adeptos da UDV, Santo Daime e Barquinha, dizem que melhoraram seus problemas com álcool e drogas fazendo o uso da Ayahuasca em rituais religiosos. Em uma investigação sobre usuários da Ayahuasca no Brasil, o psiquiatra C. Grob (1996), concluiu que 73% dos participantes haviam sofrido de toxicomanias no passado, e que em todos os casos haviam sido completamente curados ao participar regularmente de cerimônias com a Ayahuasca. A partir daí se torna evidente que existe uma relação entre o uso de enteógenos, (no caso estudado a Ayahuasca) e a sua eficiência como facilitadora para o tratamento e cura de dependência de drogas em diferentes contextos: rituais e terapêuticos (RICCIARDI, 2008, p.113).

Para Labate (2008), devido as potencialidades terapêuticas da Ayahuasca no que se refere ao tratamento de pessoas drogadictas, abriu-se um campo de estudo voltado para o tratamento e re-integração dessa pessoas.
A aparente melhora de muitos casos de abuso e dependência de substâncias psicoativas, segundo o relato de vários grupos terapêuticos e religiosos voltados para o uso ritual da ayahuasca, bem como de antropólogos, psicólogos e psiquiatras que estudam o tema, representa um fenômeno de saúde promissor. Esse pode ser melhor compreendido a partir de estudos interdisciplinares sistemáticos que combinem a abordagem quantitativa com uma sutileza qualitativa e etnográfica. Tal esforço interdisciplinar deve ser acompanhado também de uma tentativa de diálogo com os saberes nativos, colaborando para que o conhecimento adquirido durante décadas pelos diferentes grupos que utilizam a ayahuasca no tratamento da dependência auxilie futuros estudos clínicos de terapias psicodélicas voltadas para abordar o problema (LABATE, 2008, p. 29)

Labate é uma das pioneiras pesquisadoras do fenômeno do uso da Ayahuasca nos centros urbanos. De acordo com suas pesquisas, existem atualmente dois principais centros de tratamento para a dependência que utilizam a ayahuasca: o Takiwasi no Peru, e o Instituto de Etnopsicologia Amazônica Aplicada (Ideaa), localizado próximo a comunidade do Céu do Mapiá na Amazônia. O Takiwasi, é a principal referência até o momento no tratamento da dependência química através do uso da ayahuasca. A ênfase principal é no tratamento do
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abuso da pasta-base de cocaína, conhecida como mescla, consumida em larga escala na região. O modelo do Takiwasi segue mais o de uma clínica de tratamento de dependentes, com forte isolamento, disciplina rígida e espírito contrito De acordo com Labate, nesse centro, curandeiros locais, médicos, psicólogos e terapeutas exploram os potenciais curativos das terapias ocidentais juntamente com técnicas oriundas das terapias tradicionais amazônicas, utilizando a ayahuasca e outras técnicas xamânicas além da vida comunitária, atividades manuais e artísticas, e psicoterapia. O seu programa é bastante extenso, durando necessariamente nove meses tendo as suas atividades exclusivamente voltadas para o atendimento de dependentes se apoiando sobretudo, no estilo de sessão de ayahuasca do vegetalismo ayahuasqueiro peruano. Jacques Mabit, o seu fundador, possui um discurso ortodoxista de manutenção da tradição xamânica amazônica no tratamento dos dependentes. O Instituto de Etnopsicología Amazónica Aplicada (Ideaa), criado pelo médico psiquiatra barcelonês Josep María Fábregas, combina técnicas terapêuticas derivadas das tradições xamânicas ameríndias, da religião do Santo Daime, das escolas das terapias gestáltica e da psicologia humanista e transpessoal. O programa terapêutico inclui trabalho manual, sessões de ayahuasca e sessões de integração da experiência em grupo, bem como interações como a comunidade vizinha daimista do Céu do Mapiá. O programa contempla também sessões individuais com a ayahuasca, bem como práticas contemplativas orientais, tais como Meditação Zen e a Yoga. O Ideaa trata, sobretudo, de problemas ligados a dependência, mas também são recebidos pacientes com outros distúrbios de ordem psicológica e física. São aceitos, ainda, pacientes saudáveis que vêm em busca de “autoconhecimento” ou “desenvolvimento pessoal” (LABATE, 2008, p. 23). No Santo Daime, um de seus principais lideres o Padrinho Sebastião, e o Sr Wilson Carneiro (contemporâneos do Mestre Irineu), segundo relatos, também receberam as sua curas através do Santo Daime:
É interessante notar que ambos foram desenganados pela medicina oficial e não sabemos exatamente que doença tinham, mas apenas que os dois sofriam de enfermidade no estomago. Segundo os dois, depois de terem tentado tudo que conheciam (leia-se além da medicina oficial, centros espí72

ritas, curandeiros, rezadores) foram operados espiritualmente e alcançaram a cura depois de beberem o Santo Daime com o Mestre Irineu (OLIVEIRA 2008, p. 24)

Há relatos de outros grupos, centros e personagens que contam casos de cura por meio da Ayahuasca, embora este não seja o seu foco central. Há uma espécie de senso comum de que o “Daime cura”. Cris, fardada do Santo Daime, nos relata uma importante experiência de cura num ritual do Santo Daime. Ela era fumante compulsiva e tinha enfisema pulmonar. Após um trabalho em que vivenciou uma cirurgia espiritual, pôde se livrar do vicio, e se curar da doença:
Essa experiência foi muito forte, até hoje está na minha mente. Aconteceu num trabalho de cura, onde tomamos um daime bem apurado. Nessa época eu fumava igual uma “caipora”, duas carteiras de cigarro por dia. No trabalho, o dirigente me deu meio copinho de café (aqueles copinhos de plástico pequeno). Quando chegou naquele hino: "Os espíritos estão chegando pela linha devagar..." [ela faz referência a um dos hinos cantado no trabalho de cura do Santo Daime]...Ai eu fui pro chão... [Caiu mesmo? Tombou? ]...Me deitei normal. Quer dizer nem tanto normal. Assim que me deitei eu senti o cheiro do daime empreguinando no salão e uma nevoa. Quando fechei os olhos vi vários seres operando meu pulmão, escutei ate o barulho de instrumentos cirúrgicos. Eu vi uma panela de ferro queimando toda preta e saindo muita fumaça e o fogo em baixo dessa panela. Ai eles tiravam uma coisa preta do meu pulmão. Eu sentir muita falta de ar e vomitava. No vomito eu via varia baganas de cigarro. Parecia que eu ia morrer, fiquei um pouco assustada, mas estava consciente que era uma cura. Eu ainda fiquei uns três meses em trabalho, sentindo as conseqüências daquela experiência. Eu tomava daime e não ficava nem em pé de tanta fraqueza. Eu tinha enfisema pulmonar e o daime me curou.[Foi curada de enfisema no daime?] Sim esta cirurgia foi isso. Nem precisei ir pra medico. [depois você fez algum exame para comprovar?] Os médicos do astral me garantiram... Tu já vi pobre ir pra medico?[risos] Pobre tem que ter fé mana. Eu acredito muito no poder do daime como remédio. Ate hoje eu não suporto cigarro.

Outras das importantes pesquisas realizadas atualmente foi uma sobre o tratamento da depressão com Ayahuasca, da USP de Ribeirão Preto-SP. O contexto

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da pesquisa é totalmente desvinculado do contexto ritual, da sacralidade, realizado num contexto biomédico de laboratório.
O "chá do Santo Daime", originário da Amazônia e empregado em rituais religiosos, tornou-se a base de uma pesquisa inédita bem-sucedida da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto para tratar pacientes com depressão.O projeto-piloto foi feito com duas mulheres com problemas crônicos de depressão, que tomaram uma dose do chá e relataram melhora imediata. A idéia agora é estender o estudo para 60 pacientes, com dosagens repetidas. Depois da Universidade Federal de Santa Catarina fazer pesquisas com camundongos, a USP testou o chá nas duas mulheres na faixa dos 50 anos que têm sintomas como perda de apetite, desânimo e choro.Elas tomaram 200 ml (um copo) da bebida e ficaram em observação por três dias. "No mesmo dia as pacientes já estava melhores, e no segundo dia diziam que não estavam mais depressivas, que as cores da vida tinham voltado", disse Jaime Eduardo Hallak, professor do Departamento de Neurociência e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina da USP. Após três dias, foi ministrado às pacientes antidepressivo comum, "porque ainda não há evidências do efeito permanente da ayahuasca". "Mas elas acharam a experiência positiva e disseram que gostariam de tomar mais." O médico agora aguarda nova autorização do Comitê de Ética do HC de Ribeirão para ministrar o chá a 60 pacientes em doses repetidas e em intervalos pequenos. A ayahuasca contém duas substâncias - harmina e dimetiltriptamina. A harmina é uma espécie de antidepressivo, mas o que causa o efeito imediato é a dimetiltriptanima, que gera o equivalente a um banho de serotonina no cérebro.O segredo do Santo Daime, diz Hallak, está na rapidez: o efeito é mais imediato, por exemplo, do que tomar um comprimido de antidepressivo (COISSI, 2008)

Será que a bebida é apenas uma substância com propriedade químicas, que serviria como mais um medicamento? Será que vale a pena descartar a sacralidade inerente a bebida e desvincula-la de seu contexto espiritual e divino? Uma abordagem desse tipo é no mínimo simplista visto que, como já foi dito, os processos a que a Ayahuasca conduz são principalmente espirituais, ao invés de materiais e orgânicos e conduzem principalmente a experiências transpessoais, de onde se origina as curas.

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A importância desses estudos não pode ser descartada, pois eles contribuem para legitimidade cientifica do potencial terapêutico da ayahuasca, nos moldes da ciência ocidental. O que não se pode é reduzir a ayahuasca as suas propriedades psicofarmacológicas e neuroquímicas apenas. Devido as potencialidades terapêuticas que são inerentes a Ayahuasca, seu uso conduz a Saúde Mental. ”A Organização Mundial de Saúde afirma que não existe definição "oficial" de saúde mental. Diferenças culturais, julgamentos subjetivos, e teorias relacionadas concorrentes afectam o modo como a saúde mental é definida Admite-se, entretanto, que o conceito de Saúde Mental é mais amplo que a ausência de transtornos mentais (MEDIONDO, 2004, p. 158)”. Saúde Mental pode ser definida como o equilíbrio emocional entre o patrimônio interno e as exigências ou vivências externas. É a capacidade de administrar a própria vida e as suas emoções dentro de um amplo espectro de variações sem contudo perder o valor do real e do precioso. É ser capaz de ser sujeito de suas próprias ações. É buscar viver a vida na sua plenitude máxima Os seguintes itens foram identificados como critérios de saúde mental:
- Atitudes positivas em relação a si próprio - Crescimento, desenvolvimento e auto-realização - Integração e resposta emocional - Autonomia e autodeterminação - Percepção apurada da realidade - Domínio ambiental e competência social;

O conceito de Saúde Mental abrange a forma social de viver, que inclui as concepções sobre a existência, Deus, morte, amor e felicidade, relacionamentos, pactos sociais e está intimamente relacionado a capacidade de realização em todos sentidos. É sempre evidente uma mudança nos valores individuais entre os adeptos da Ayahuasca, a revalorização de uma vida voltada para natureza, a mudança de hábi75

tos alimentares, o desprezo aos vícios, ou seja, a elaboração de uma nova forma de ser e estar no mundo, que consequentemente acarretam a uma mudança na relação com o outro.

3.1.1.1.1

AYAHUASCA A CAMINHO DO SELF

A Vida tem um sentido, sendo assim, a busca pelo desenvolvimento interior é fundamental. Jung (1987) mostrou que o desenvolvimento espiritual e o desenvolvimento psicológico fazem parte do mesmo processo. Não existe desenvolvimento psicológico sem o correspondente desenvolvimento espiritual. E os dois caminhos levam ao desenvolvimento do sentido ético da vida. A Ayahuasca conduz ao sentimento do Espiritual, da percepção de que a vida vai além da matéria, nos levando ao contato da nossa essência. Para Jung (1987), o sentimento do espiritual é essencial ao ser humano, constituiria uma função natural e sua ausência deixaria a psique incompleta, comprometendo o seu equilíbrio. A dificuldade de o homem lidar com a sua dimensão espiritual é uma negação que o impede de entrar em contato com suas dimensões mais profundas. No caminho espiritual, temos que estar preparados para entrar em contato conosco, nos conhecer verdadeiramente, com nossos defeitos e virtudes, temos que resgatar os nossos erros e buscar uma forma mais correta de viver, buscar a perfeição, a ética.
Esta é a primeira prova de coragem no caminho interior. O encontro consigo mesmo pertence às coisas desagradáveis que evitamos, enquanto pudermos projetar o negativo a nossa volta. Se formos capazes de ver nossa própria sombra e suporta-la, teríamos resolvido uma parte do problema. [...] O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra. A sombra é, no entanto, um desfiladeiro, um portal estreito cuja dolorosa exigüidade não poupa quem quer que desça ao poço profundo. Mas pra sabermos quem somos, temos de conhecer-nos a nós mesmos (JUNG, 2000, p. 44).

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No geral, o homem foge do encontro consigo mesmo. Muitos têm medo de se descobrir em suas facetas, tem medo do espelho que mostra a si mesmo e também do desconhecido.
Verdadeiramente, aquele que olha o espelho vê em primeiro lugar sua própria imagem. Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo porque a encobrimos com a persona. Mas o espelho está por de traz da mascara e mostra a face verdadeira (idem, p.30)

O ego é o centro do campo de consciência, aquela instancia da personalidade mediadora entre nós e a realidade externa, não se confunde com a totalidade da psique; ele é apenas um complexo dentre outros. “É oportuno, portanto, distinguir o ego do Self, sendo o ego apenas o sujeito da consciência, ao passo que o Self é o sujeito da totalidade da psique, que compreende o inconsciente (JUNG apud GAILLARD, 2003, p. 45)”. O self é entendido como o centro maior da personalidade, a representação da divindade interior que guia todo o desenvolvimento. De acordo com a visão Junguiana é a dissolução da falsa visão do ego, de suas identificações e de seus falsos objetivos que é substituída pela consciência de que o ser humano vai além. Compreende a totalidade da psique, no sentindo de um vir a ser, em fluxo continuo, em direção a plenitude e a integração das variadas dimensões de si mesmo. O movimento produzido, quando o individuo vivencia a função transcendente da psique, em direção ao Self, é o processo de Individuação. Esse movimento, de acordo com Jung (1997, p. 35),
conduz à revelação do essencial no homem, onde o sentido e a meta desse processo é a realização da personalidade originária. É o estabelecimento e do potencial do homem, onde é capaz de atingir sua totalidade, isto é, a capacidade de poder curar-se”.

Sobre isso, Bertolucci observa que:
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As experiências do Self tem uma função prospectiva, transcendente, criativa, transformadora por isso pode trazer profundas revelações e ampliar a capacidade de perceber e sentir a si mesmo e a vida, aumentando a capacidade de auto-realização Os estados de consciência superiores” constituem experiências humanas mais evoluídas, realizadoras, complexas ou cósmicas. A experiência transpessoal, de fato representa uma modalidade superior de estado de consciência, pois trata-se da experiência de centro de si mesmo (Self), ao mesmo tempo em que Centro e fonte de toda a Vida. Nessa dimensão, todas as divisões são abolidas, não há mais separação entre sujeito e objeto, eu e outro. A vivencia dessa posição superior de consciência, mesmo por breves momentos, é altamente curativa e amplia a capacidade de realização do sujeito em todos os sentidos (Bertolucci, 1991, p. 20,21).

A dimensão aberta pela Ayahuasca surpreende. É para aqueles que têm coragem de penetrar numa realidade diferente e não tem medo da autotransformação que isso implica, onde a pessoa naturalmente é levada a experienciar a si mesmo, com seus defeitos e virtudes. Empreender este caminho não é para muitos, é para aqueles que tiverem a coragem de olhar para si mesmos em todas as suas dimensões, olhando do todo para a pequena parte que se é e, através de uma identificação cósmica, poder limpar as identificações limitantes, entrando num novo eixo de pensamento e possibilidades (CHAVES, 2000). Isso não significa que as mudanças sejam alcançadas rapidamente e com facilidade, o caminho é árduo. Mas sem duvida a Ayahuasca catalisa o processo, sendo um bom atalho no caminho da renovação.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com o que foi demonstrado, a Ayahuasca atua na prevenção da saúde mental, devido aos processos psíquicos, espirituais e sociais capazes de conduzir ao equilíbrio em indivíduos. A partir de dados empíricos, foi também demonstrado que existem potencialidades terapêuticas em seu uso ritual e uma conseqüente mudança na qualidade de vida dos seus adeptos. Ao entrarem em contato consigo mesmas e ao se conscientizarem sobre o que é melhor, as pessoas vão realizando as mudanças e naturalmente se transformando. Por envolver mudanças interiores de valores, os indivíduos podem se reinserir no mundo social com outra perspectiva e uma outra forma de atuação. Beber Ayahuasca não é um mito, mas uma necessidade que determinadas pessoas possuem de se auto-conhecer, se auto-compreender, de crescer e evoluir espiritualmente Através dos estados transpessoais alcançados a partir do uso da ayahuasca, aliados ao contexto ritual, atinge-se um outro nível de consciência que permite o reconhecimento de outras dimensões da realidade, possibilitando uma reflexão aprofundada sobre si mesmo e sobre a vida, de acordo com princípios éticos bem definidos. Atuando, consequentemente, na transformação dos indivíduos, possibilitando que o maior numero de pessoas façam contato e tenham experiências transpessoais como fonte de si mesmo e do mundo, ampliando seu potencial transformador e criador da realidade

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O ambiente, o ritual e a cultura no qual estão inseridas as pessoas adeptas dos grupos ayahuasqueiros são responsáveis por desencadear, ou ao contrário, limitar o potencial terapêutico da bebida. A vivencia da dimensão transpessoal da existência, proporcionada pela Ayahuasca, é altamente curativa e amplia a capacidade de realização do sujeito em todos os sentidos. É ai onde a Saúde Mental está implicada, visto que a Ayahuasca e os processos decorrentes proporcionam uma melhor qualidade de consciência dos adeptos e consequentemente a uma melhor qualidade das relações, favorecendo assim, a uma tomada de consciência capaz de modificar positivamente as suas vidas. O individuo é o primeiro lugar onde devem ser realizadas as transformações. Somente após isso, as transformações podem ser espelhadas no exterior, através de atitudes mais conscientes e respeitosas perante a vida, ao próximo, a natureza. O individuo é levado então, a se re-inserir na sociedade com uma nova forma de viver, de se perceber e de tratar o próximo, em busca de uma melhoria nos diversos aspectos, individuais, sociais, cósmicos.

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ANEXOS

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