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Toni Morrison –‘Sula’

Ivanete da Silva Santos
Maria Edvânia
Mariana Nascimento
(UFRPE/UAST)

1. Introdução

De acordo com Vanspanckeren (1994, p. 117), Chloe Anthony Wofford, mais
conhecida como Toni Morrison, foi uma “romancista afro-americana [...] nasceu em
Ohio, numa família muito espiritualizada. Cursou a Howard University, em
Washington, e tem trabalhado como editora sênior de uma grande editora de
Washington e professora eminente em várias universidades”.
Nasceu no dia 18 de fevereiro de 1931, em Lorain, no estado de Ohio. Morrison foi
alfabetizada pelos pais, que também incentivaram o gosto pela leitura. Em 1949, ela
entrou na universidade para estudar inglês, se graduando em 1953. Continuou seus
estudos na Cornell University, onde obteve o titulo de Mestre em filologia inglesa, em
1955. Em 1970, publicou seu primeiro romance, „O Olho Mais Azul‟, que foi ignorado
pela crítica, porém ela continuou escrevendo, tendo publicado um total de 10 romances,
se tornando “a mais famosa representante das escritoras negras contemporâneas”. Entre
suas obras, destacam-se Sula, um romance, e o conto Recitatif.

2. Breve análise da obra

2.1. Sula e o preconceito racial

O romance Sula tem como protagonista a personagem que dar título a história. A
obra narra fatos que aconteceram desde a infância, nos anos vinte, até os
acontecimentos após sua morte em 1941. Boa parte do romance descreve a relação entre
Sula e Nel Wright, que se conhecem na infância, e apesar da grande diferença entre
ambas, tornam-se amigas.

Diferenças estas, que se deve ao fato de Nel ser criada por uma família
tradicional, (composta por mãe e pai) na qual os valores estão ligados às convenções
sociais, enquanto que a família Sula foge totalmente do convencional. A avó,a matriarca
da família cria sozinha os três filhos e ajuda a criar a neta. A casa da avó de Sula também é
cheia de agregados, que contribuem para desordem e a agitação desobediência às convenções.
Toni Morrison, autora de Sula é uma escritora negra, que está inserida em uma
sociedade na qual a escravidão deixou marcas profundas, desse modo provavelmente ao
escrever suas obras, ela tem em mente a comunidade afro-americana. Temas
comopreconceito social, condição feminina e principalmente racismo, geralmente estão
presentes em suas obras. Noromance Sula, é possível identificar sinais de um racismo
institucionalizado e ensinado, como descrito abaixo:

Em uma viagem de trem para o funeral da avó que a
criara, Helene e a filha, apesar de ricamente vestidas,
são destratadas pelo condutor do trem, homem branco,
que as intima a se sentarem no vagão que é destinada
aos negros, o que prontamente cumprem. (CARREIRA,
2010. P 7)

É possível perceber também, que o racismo retratado na obra não é apenas de
negro contra brancos, ele está presente nos dois lados, como podemos observar na
descrição abaixo:
O encontro de Nel com a avó, Rochelle, causa
impressão à garota. Aquela mulher perfumada, de
pele macia, causa-lhe impacto; impacto este que
Helene, em sua ânsia de afastar-se do passado,
procura minimizar. ( CARREIRA, 2010. P 7)

O preconceito contra brancos é algo bem próximo da realidade de Morrison,
visto que seu pai tinha dificuldades de lidar com pessoas brancas. A autora declarou em
entrevista para o Jornal O globo, que o pai não permitia que pessoas brancas
frequentassem sua casa, e que isso só era possível quando o mesmo não estava presente.

3. Sula e a busca pela identidade e a rejeição a ideologia patriarcal

Podemos observar que ao longo dos anos a identidade feminina sempre foi
construída em relação a alguém, que nesse caso, a presença masculina e essa
dependência acarretaram uma afasia cultural. Toni Morrison apresenta mulheres, em seu
romance Sula, que encontram prazer na negação da ordem e por meio dela reafirmam a
própria identidade. A personagem Sula, por exemplo, não se preocupa com a opinião
das pessoas, se comporta conforme sua própria vontade, mesmo sendo o oposto a moral
da comunidade:

(...) “Ela vivia os seus dias explorando os próprios
pensamentos e emoções, dando-lhes plena
existência, não sentindo a mínima obrigação de
agradar a ninguém, a menos que seu prazer a
agradasse” (Morrison, 2004, apud CARREIRA,
2010 p. 118-119).

Morrison abordaa questão da sexualidade, criando personagens que vão contra os
estereótipos masculinos, em seu retorno, Sula provoca reação inversa aos padrões da
época:
“A sua sensualidade agressiva provoca repúdio, assim
como o prazer destrutivo que acompanha os seus
relacionamentos. Ela assume para si um papel que,
até então, só aos homens era concedido: o direito
de começar e terminar uma relação segundo seus
próprios interesses. Além disso, ela viola uma
norma silenciosa da comunidade ao relacionar-se
com homens brancos” (Morrison, 2004, apud
CARREIRA, 2010, p. 14).


Outra personagem que aparece no romance é Nel, também fruto de uma construção, é o
seu oposto: sensata, submissa, tinha apenas objetivos que lhe eram permitidos:

“A educação que recebeu, calcada no olhar
hegemônico masculino, fez com que acreditasse
que a sua identidade só se completava com a
presença de Jude. Perdendo-o, sente que a
referência à qual o seu sentido do eu se ancorava se
desfaz completamente” (Morrison, 2004 apud
CARREIRA, 2010, p. 17).

A última conversa entre as duas é forte, discutindo coisas passadas. Mesmo à beira da
morte, Sula continua orgulhosa, então Nel lhe diz que ela não pode se comportar assim;
sendo mulher e negra, ela não pode agir como um homem. Ao que Sula responde
perguntando se aquilo não era o mesmo que ser um homem.

“Em um rompante, ela diz a Nel que todas as
mulheres negras daquele país estavam fazendo o
mesmo que ela: morrendo. No entanto, ela morria
sabendo que tivera a chance de viver do jeito que
quis, enquanto que as outras morriam como um
toco de árvore ressecada”. (Morrison, 2004,apud
CARREIRA, 2010, p. 143).



É possível atentar para o fim do romance, que dá ao leitor, a impressão da derrota de
Sula, mas a sua morte, sem gerar filhos, pode ser interpretada como uma última rebelião
à lei do pai:

[...] “Ela morria em solidão, mas a sua solidão era
apenas sua; não era causada por outra pessoa; não
era uma “solidão de segunda mão” (Morrison,
2004 apud CARREIRA, 2010 p. 143).


Pode-se dizer que as personagens Nel e Sula representam duas ordens sociais
distintas: uma regida pelo patriarcado e outra pelo matriarcado.Pelo fato de ser negra e
mulher faz de Nel um ser submisso na comunidade em que vive, já para Sula atua como
um desafio à transgressão. Mesmo sendo de uma linhagem de mulheres guerreiras, Sula
é a única de sua família a discordardos padrões sociais e morais da época.Esse romance
apresenta perfis de mulheres transgressoras, inconformadas com o papel histórico que
lhes foi confiado, como é o caso da protagonista Sula.


Considerações Finais

Este trabalho, em linhas gerais, apresentou breves observações e análises do
romance „Sula‟, podemos concluir que Morrison fez de sua escrita um instrumento de
criticas dos problemas da escravidão sofridos pelos afro-americanos, com ênfase para o
sexo feminino. Para isso, ela escolheu abordar determinados conjuntos de temas
desenvolvendo um estilo com as características que ela observavacomo necessárias para
apresentá-las. Mas, ao mesmo tempo, que sua obra tem um caráter regional ela se torna
universal. Isso ocorre pelo fato dos males sofridos pelos afro-americanos, devido a sua
cor, e os das mulheres, pelo machismo sempre presente, estarem, de uma forma ou
outra, presentes em todas as sociedades. Não podemos esquecer, é claro, das questões
referentes às identidades, tanto culturais quanto nacionais e como a autora, na sua
criação literária, consegue transpor esses elementos para a(s) sua(s) narrativa(s).

REFERÊNCIAS


CARREIRA, S. S.G. Uma História de Mulheres: A Genealogia Femininaem Sula, de
Toni Morrison. Disponível
em:http://anpoll.org.br/revista/índex.php/revista/article/view/18/181.Acesso em 27
jul.2014.
CARREIRA, S. S. G. Em nome da mãe: uma reflexão sobre a representação do gênero
em obras da literatura contemporânea. Vertentes, São João del-Rei, v. 36, p. 1-21,
2010. Disponível em: <http://www.ufsj.edu.br/portal2-
repositorio/File/vertentes/Vertentes_36/resumo-abstract_shirley_carreira.pdf >.

VANSPANCKEREN, Kathryn.Perfil da Literatura Americana. Traduzido por: Márcia
Biato. Ed. Revisada. EUA: s/e, 1994.