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4.

O Mago: Criador e Embusteiro
De outras coisas nunca farás o Um,
enquanto não te houveres, primeiro,
convertido no Um.
Dom
O Louco, dissemos, expressa o espírito do folguedo, livre e despreocupado,
com uma energia sem limites, que perambula, incansável, pelo universo sem nenhuma
finalidade específica. Sem se preocupar com o que pode acontecer, até olha para trás
por cima do ombro. O ago !"ig. #$% veio descansar, pelo menos temporariamente.
Sua energia é dirigida para os ob&etos ' sua frente, que ele separou para dar(lhes
aten)*o especial. +st*o colocados sobre a mesa da realidade que lhe restringirá a
atividade dentro dos seus limites para que a sua energia n*o extravase e n*o lhe fu&a.
+le, evidentemente, tem um plano. +stá a pique de fa,er alguma coisa ( de
representar para n-s.
Se o Louco é o impulso profundo do inconsciente que nos incita a buscar, o
ago simboli,a um fator em n-s que dirige essa energia e a&uda a humani,á(la. Sua
varinha mágica liga(o ao seu antepassado, .ermes, o deus das revela)/es. 0omo o
alquímico erc1rio, que possuía poderes mágicos, o ago pode iniciar o processo de
autocompreens*o, que 2ung denominava individua)*o, e guiar nossa viagem pelo
mundo inferior dos nossos eus mais profundos. O homem sempre reconheceu a
exist3ncia de um poder que transcende o ego, e procurou propiciá(lo através de ritos
mágicos.
4anto o Louco quanto o ago se acham ' vontade no mundo transcendental. O
Louco dan)a nele como crian)a inconsciente5 o ago cru,a(o como via&ante
amadurecido. 6mbos est*o relacionados com o arquétipo do +mbusteiro, porém de
maneiras diferentes. 6s diferen)as entre o Louco e o ago a esse respeito
assemelham(se 's que existem entre uma brincadeira e um ato mágico. O Louco nos
prega pe)as5 o ago nos arran&a demonstra)/es. O Louco perpetra suas surpresas
nas nossas costas5 o ago é capa, de reali,ar sua mágica diante de n-s, bastando
para isso que assistamos 's suas representa)/es. O 7uf*o nos engana e fa,(nos rir5 o
ago nos mistifica e fa,(nos pensar.
O Louco é um solitário, seu método é reservado. 6parece de repente cantando
89rimeiro de abril:8 e vai(se embora outra ve,. O ago nos inclui em seus planos.
6colhe com pra,er a nossa presen)a em seu espetáculo de mágicas, convidando(nos,
's ve,es, a subir no palco como seu c1mplice. 0erto grau de coopera)*o de nossa
parte é necessário para o bom 3xito da sua mágica. 0om o Louco, todavia, a nossa
completa inconsci3ncia é o sine qua non do sucesso.
O Louco é um amador despreocupado5 o ago é um profissional sério. 0omo a
mágica do Louco é totalmente espont;nea, ele, muitas ve,es, fica t*o surpreso quanto
n-s com o resultado. Se a coisa n*o dá certo, pouco se incomoda, e salta para a nova
aventura com um encolher de ombros. 0om o ago, porém, a situa)*o é totalmente
outra, pois, sendo um artista dedicado, quando uma de suas cria)/es falha, fica
preocupado e procura compreender o porqu3. 0omo a designa)*o do Louco é ,ero, o
mundo inteiro é a sua ostra. <nteressa(se por tudo e n*o quer saber de nada. 0omo o
enino +terno de todos os tempos, tece sonhos caprichosos, deixando aos que a t3m
a sua execu)*o. as o ago, que é o 4runfo n1mero um do 4aro, tem uma psicologia
muito diversa. <nteressa(lhe descobrir o princípio criativo 1nico por trás da diversidade.
=uer manipular a nature,a, domesticar(lhe as energias. Os ritos mágicos mais
primitivos, ligados ' fertilidade, eram cerim>nias para propiciar os deuses a fim de
assegurar colheitas abundantes e mulheres férteis. O Louco n*o tem nenhum plano
desses. Dese&a t*o(somente desfrutar a nature,a.
O ago de arselha segura a varinha numa das m*os e, na outra, uma moeda
de ouro. 6 m*o é essencial para todas as mágicas. Simboli,a o poder do homem de
domar e afei)oar a nature,a conscientemente, de canali,ar(lhe as energias para um
emprego criativo. ais rápida que o olho, a m*o do ago cria a ilus*o mais depressa
do que a nossa mente pensante é capa, de segui(la. Sua m*o é também mais célere,
no sentido de 8mais viva8, do que o intelecto laborioso do homem. 6 m*o humana
parece ter uma intelig3ncia pr-pria5 &á foi chamada 8o momento fuga, de cria)*o que
nunca pára8.
O talento do ago para o milagre e para o engano é m1ltiplo. Dirigindo nossa
aten)*o para longe da moeda de ouro, pode iludir(nos e confundir(nos com a sua
prestidigita)*o. 0omo a pr-pria consci3ncia humana, um aspecto da qual simboli,a, o
ago cria maya, a ilus*o mágica das 8dez mil coisas8. 9ois, fa,endo desaparecer os
ob&etos sobre a sua mesa, dramati,a a simples verdade de que todo ob&eto, tudo, é
apenas apar3ncia de realidade. ? ele quem cria o mundo que parece existir.
4ransformando um ob&eto ou elemento em outro, revela outra verdade5 a saber, que
debaixo das 8dez mil coisas8, todas as manifesta)/es s*o uma s-5 todos os elementos
s*o um s-5 e todas as energias s*o uma s-. O ar é fogo, é terra, é coelhos, é pombos,
é água, é vinho, é @: 4odos s*o inteiros e todos s*o santos. O ago nos a&uda a
compreender que o universo físico n*o resulta do 9oder Original da Aida atuando
sobre a matéria, resulta antes do 9oder da Aida atuando sobre si mesmo. "ora de si
mesmo o 9oder @no constr-i todas as formas, toda a for)a e miríades de estruturas.
Bo princípio, acreditava(se que s- os deuses ou os seus representantes
terrestres, os padres, tinham tal poder mágico. @ma dessas figuras foi .ermes
4rismegisto, figura mítica variamente associada ao deus egípcio 4ot e ao deus grego
.ermes. "oi ele quem nos deixou este resumo sucinto do t-pico ora discutidoC 84odas
as coisas s*o deste @m, pela medita)*o do @m, e todas as coisas t3m sua origem
neste @m.8 0omo &á se indicou, isso expressa uma verdade tanto no plano
macroc-smico quanto no plano microc-smico da exist3ncia.
6 magia é, 's ve,es, chamada ci3ncia das rela)/es ocultas. Se&a ela milagre
ou truque, uma base essencial dessa arte é a revela)*o. O ago tem o poder de
revelar a realidade fundamental, o estado de ser que constitui a base de tudo.
Depresenta um ou ' direita, a percep)*o e a dedica)*o de milagre poderia ter(se
registrado. Se as pessoas eliminadas da ilustra)*o, o mago se teria tornado,
inevitavelmente, a figura central, e sua mágica, se fosse inoperável, n*o teria passado
de um truque arrogante, um passeio do ego a servi)o da simples vaidade pessoal.
De acordo com 2ung, todos os acontecimentos mágicos, parapsicol-gicos,
todos os milagres t3m um ingrediente em comum5 uma atitude de esperan)osa
expectativa da parte dos participantes. 2ung descobriu que essa atitude esperan)osa
foi um ingrediente importantíssimo do sucesso das experi3ncias do Deno na DuEe
@niversitF em que os participantes 8adivinham8 o símbolo impresso num cart*o que
n*o podem ver. 0omentando o fen>meno, di, 2ungC 6 pessoa que está fa,endo o teste
ou duvida da possibilidade de conhecer alguma coisa que n*o se pode conhecer, ou
espera que isso se&a possível e que o milagre aconte)a. Se&a como for, a pessoa
submetida ao teste, confrontada com uma tarefa aparentemente impossível, v3(se na
situa)*o arquetípica que ocorre com tanta freqG3ncia em mitos e contos de fadas, em
que a interven)*o divina, isto é, o milagre, oferece a 1nica solu)*o.
[C.G. Jung, citado por Ira Progoff em “Jung, Synchronicity, and Human Destiny”Nova Iorque, The Julian Press,
Inc., !"#, p$gs.%&, %'(.
Descrevendo esses acontecimentos, 2ung também empregou as express/es
8arquétipo do milagre8 e 8arquétipo do efeito mágico8.
? compreensível que o ago que vive nas profunde,as, no nível psic-ide do
inconsciente, onde n*o(existem divis/es de tempo, espa)o, corpo e alma, matéria e
espírito !e onde nem mesmo os quatro elementos foram separados do grande va,io%,
tivesse o poder de p>r(nos em contato com a grande @nidade da perfei)*o, da sa1de
e da harmonia. as &á que esse grande va,io é também o 4odo de que tudo nascerá,
há de conter, por for)a, todos os opostos. B*o é muito para admirar, portanto, que o
caráter do ago se&a um labirinto de contradi)/es. 0omo Sábio, pode condu,ir(nos '
man&edoura ou reali,ar o ilagre de 0amelot. 0omo +mbusteiro, pode ser encontrado
na feira da aldeia, onde n*o se pe&aria de confundir fregueses intru&áveis, fa,endo, 's
ve,es, até desaparecer o dinheiro deles. ? um consolo saber que, sendo descendente
do astuto erc1rio, o ago herda(lhe honestamente a duplicidade. 0omo erc1rio,
mensageiro dos deuses, liga o interior e o exterior, o acima e o abaixo, compartindo de
ambos. 6lguns baralhos modernos de 4aro !notadamente a vers*o Haite% apresentam
o 4runfo n1mero um como o eclesiástico 8bom8 ago, eliminando inteiramente os seus
aspectos mais duvidosos. Aoltaremos ao assunto mais tarde mas, por enquanto,
registre(se que s- a vers*o de arselha nos oferece o pleno encantamento das
m1ltiplas facetas do ago. I primeira vista, a sua roupa colorida !"ig. #$% nos recorda
o Louco, conex*o apropriada, uma ve, que ambos os personagens partilham do
arquétipo do +mbusteiro. 0omo acontece com o Louco, as cores variegadas do ago
insinuam a incorpora)*o de muitos elementos díspares, mas aqui as cores opostas
est*o mais conscientemente arrumadas umas em rela)*o 's outras. 0omparados com
o desenho mais fortuito das vestes do Louco, os remendos coloridos alternados do
ago parecem deliberadamente dispostos para sugerir, a um tempo, oposi)*o e
intera)*o, contraste e coordena)*o. 0ada pé, perna, quadril e ombro parecem
vestidos com um pouco caso estudado pelas cores do membro oposto. Suas cores
vibram distinta e alternadamente de repuls*o e atra)*o, de forma que parecem emitir
faíscas de energia elétrica.
O tema da antítese criativa é ainda mais acentuada na aba do chapéu do ago
que dá a impress*o de um oito deitado de lado. +sse padr*o, chamado 8lemniscata8, é
o sinal matemático que representa o infinito. 0omo é aqui retratado, a curva do
contorno vermelho da aba, quase hipn-tica, denota o movimento dos opostos, cada
qual se transformando interminavelmente no outro, como no símbolo chin3s Tai Chi,
que mostra a incessante intera)*o de yang e yin, as for)as positiva e negativa
inerentes a toda a nature,a. Se voc3 se concentrar na aba do chapéu do ago ' lu,
de uma vela numa noite sem luar, ele a fará mover(se para voc3. Aista assim, ela se
torna o movimento perpétuo da cria)*o. 6s duas elipses da lemniscata, unidas no
meio por uma grande corcova ou ponte, também podem ser vistas como um par de
-culos gigantescos. Se voc3 puser esses -culos mágicos, vislumbrará novas
dimens/es da realidade. 6s lentes n*o s*o cor(de(rosa. O que veremos na nova
dimens*o é um fen>meno natural. B*o é nenhuma promessa de felicidade depois do
sofrimento presente, nem a manifesta)*o de algum vago 8outro mundo8. 6s
experi3ncias que o ago nos oferece s*o t*o inerentes ' nossa nature,a e t*o
arraigadas em nosso meio terrestre quanto as plantas que vemos crescer aos seus
pés.
? significativo, nesse sentido, relembrar que a roupa do Louco n*o tem
nenhum toque de verde. 0omo observamos, ele n*o está plantado em nossa
realidade. ? sua a energia que flui livre do totalmente n*o manifestado. 6qui o ago
organi,a essa energia para a cria)*o, preparat-ria para a sua incorpora)*o na
realidade. O barrete do Louco é amarelo, cor do poder flame&ante do sol, e ' sua
extremidade está presa min1scula bola vermelha, ou talve, campainha, usada
airosamente como se se tratasse de uma gota simb-lica de sangue. 0om o ago, o
sangue vermelho revive, seguindo e fluindo através da lemniscata da aba do chapéu.
+le 8dá o sangue8 para a situa)*o, empenhado na tarefa que tem diante de si. O
amarelo do ouro, agora centrado e modelado numa grande bola, passa a ser a coroa
do chapéu do ago. =ue o poder mágico do sol pertence também ' pessoa do ago
é sugerido pelo fato de que os anéis dos seus cabelos t3m as pontas pintadas de
ouro, cabelos que parecem os tufos serpentinos da cabe)a da edusa, o que volta a
lembrar a dupla nature,a desse +mbusteiro.
6 varinha do ago, como a batuta de um condutor de orquestra, é um
instrumento destinado a concentrar e dirigir a energia. 6 energia necessita de dire)*o.
Somente com a coopera)*o consciente do homem é que ela pode ser afei)oada para
uso humano. O maestro no p-dio usa a batuta para coordenar e modular as energias
dos m1sicos, tirando, de um som aliás ca-tico, um modelo harmonioso e rítmico.
6ssim parece que o maestro do 4aro está em vias de orquestrar as energias dos
ob&etos que tem diante de si. Segura a varinha com a m*o esquerda, indicando que o
seu poder n*o é o resultado do intelecto e do treinamento, mas um dom natural e
inconsciente. uitas ve,es os magos se valem do pr-prio dedo indicador como de
uma varinha mágica para chamar a aten)*o e concentrar energia. @ma das mais belas
representa)/es pict-ricas disso é a conhecida Criação de iguel Jngelo no teto da
0apela Sistina. Bessa pintura, o dedo indicador do ago Supremo, semelhante a um
falo, transmite a for)a de vida criativa ' m*o de 6d*o. 9odemos sentir o fluir amoroso
da energia inseminadora, que passa da m*o de Deus para a de 6d*o e, através dele,
para todas as criaturas de Deus.
"alamos da nature,a ambígua do ago5 de como, de um lado, ele pode p>r(
nos em contato com o Krande 0írculo da unidade e de como, de outro, pode a&udar(
nos a separar(lhe os elementos para exame. =ue um ser exer)a fun)/es t*o diversas
e aparentemente t*o antitéticas parece mágico5 mas que as exer)a ao mesmo tempo
parece um milagre de propor)/es inacreditáveis.
Buma ilustra)*o feita por Kolt,ius para s !etamorfoses de "v#dio !"ig. #L%,
vemos o Krande ago em pessoa operando realmente esse milagre. O quadro se
chama $eparação dos %lementos, mas é inegável que essa atividade n*o destr-i,
de modo algum, a inteire,a do Krande 0írculo. 9elo contrário, é como se a sua
verdadeira ess3ncia agora se apresentasse, pela primeira ve,, plenamente revelada.
O nosso ago interior reali,a o mesmo tipo de mágica a&udando(nos a examinar e
discriminar os elementos de nossos mundos internos de maneira que revele, ao invés
de destruir, sua unidade essencial.
Fig. 14 A Separação dos Elementos
!Kolt,ius, .endricE. De uma série de ilustra)/es para s !etamorfoses de "v#dio. 4he
etropolitan useum of 6rt, Bova <orque. 9resente da Sra. 6. S. Sullivan, #M#M.%
Aisto que essa é uma tarefa iniciada e exemplificada pelo 0riador, convém(nos
examinar mais uma ve, a dramati,a)*o que dela fe, Kolt,ius, para que possamos
compreender o que está acontecendo aqui. Bessa gravura, Deus ( ou 8a nature,a
mais bondosa8 como lhe chama Ovídio ( parece estar inteiramente absorto em sua
dan)a da revela)*o. 6o que tudo indica, a separa)*o dos elementos é uma opera)*o
difícil, até para o 0riador. Dequer, evidentemente, perfeita concentra)*o. Is ve,es
parece um neg-cio pega&oso, cheio de truques, meio parecido com chupar uma bala
puxa(puxa. De outras ve,es mais parece a dan)a dos véus, que envolvesse uma
destre,a sobre(humana e perfeita regula)*o do tempo. O problema pode ser como
rasgar os véus que escondem a realidade central sem nos enredarmos nas pompas
externas e sem nos deixarmos asfixiar por elas. =ue apaixonada intensidade requer
essa dan)a de dervixes, por cu&o intermédio se revela uma nova unidade e um novo
mundo é dado ' lu,:
Bo nível microsc-pico, s- o ego é capa, de efetuar essa mágica. Somente o
nosso ago interior tem condi)/es de dominar a intrincada coreografia da revela)*o.
S- ele pode demonstrar a correspond3ncia entre o n1cleo central e os seus
envolt-rios externos5 s- ele pode revelar que ambos s*o feitos da mesma subst;ncia.
De maneira diferente, a mágica dos alquimistas demonstrava uma
correspond3ncia entre o interno e o externo. +les viam nos elementos e nas
transforma)/es que ocorriam em suas retortas químicas, os elementos e
transforma)/es dentro de sua pr-pria nature,a psíquica. O seu prop-sito confesso era
puramente externo e químicoC aplicando calor a certas misturas, esperavam !di,iam
eles% descobrir a semente ou ess3ncia criativa que estava na base de toda matéria e,
por esse modo, transformar os metais inferiores em ouro. 0hamavam a isso 8a
liberta)*o do espírito escondido ou aprisionado na matéria8.
+m seus escritos, contudo, os alquimistas davam a entender repetidamente
que o ouro que de fato procuravam n*o era o ouro exterior, sen*o o ouro interior
transcendente, no centro da psique que 2ung chama de eu. +m &sychology and
lchemy, 2ung fa, um relato pormenori,ado das várias fases da Krande Obra, nome
que os alquimistas davam aos seus experimentos. 2ung demonstra que as várias
fases alquímicas a que aludem em seus escritos !liquidifica)*o, destila)*o, separa)*o,
coagula)*o, etc%, correspondem, de muitas maneiras, 's várias fases através das
quais a psique humana evolui, amadurece e se encaminha para a individua)*o. 2ung
descreve como, trabalhando com os elementos 8lá fora8, os alquimistas alcan)aram
uma conex*o intuitiva com espécies semelhantes de transforma)/es dentro de sua
nature,a interna. ostra como, através do trabalho externo, eles se ligaram também
ao trabalho interno, compreenderam(no intuitivamente e por esse modo também
exerceram influ3ncia sobre ele. +m outras palavras, os alquimistas, compreendessem
conscientemente ou n*o o que estavam fa,endo, utili,avam, na verdade, os seus
experimentos químicos como 8detentores de pro&e)*o8 do mesmo modo com que n-s
utili,amos as cartas do 4aro. O conte1do das suas retortas redu,ia(se a ar, terra, sal,
chumbo, merc1rio e outras coisas desse g3nero, cu&as rea)/es estudavam, chegando,
assim, a compreender, de certo modo, sua pr-pria química interior. Bossos materiais
s*o os vinte e dois 4runfos, cu&a intera)*o estamos estudando de maneira semelhante
e por motivos semelhantes.
+ssencial para o trabalho dos alquimistas era uma figura chamada erc1rio,
cu&os paradoxos n*o conheciam limites. Os alquimistas referiam(se a ele intitulando(o
de 8espírito criador do mundo8 e 8espírito escondido ou aprisionado na matéria8.
6lcunhavam(no também de 8subst;ncia transformadora8 e, ao mesmo tempo, de
8espírito que habita em todas as criaturas vivas8. +m suma, erc1rio era n*o s- o
transformador mas também o elemento que precisava ser liberado e transformado.
O nosso espírito mercurial !que poderíamos rotular de ago interior% também
compartilha dessas ambigGidades. ? o 8espírito criador do mundo8 ( e, no entanto,
está 8escondido e aprisionado8 na matéria da nossa escura inconsci3ncia. 9ara que
funcione como 8subst;ncia transformadora8 precisamos encontrar meios de libertá(lo
do cativeiro e tra,3(lo para fora, para a lu, da percep)*o consciente.
0onsoante os alquimistas, o pr-prio homem representava o seu duplo papel de
criador do mundo e prisioneiro ( de redentor e precisado de reden)*o. 9ois entendiam
que a salva)*o e a reden)*o n*o eram concedidas do alto, sen*o conseguidas t*o(
somente através da Krande obra a que consagravam suas vidasC a libera)*o do
espírito contido neles e em toda a nature,a.
B-s também precisamos encontrar maneiras de libertar o nosso espírito
aprisionado de modo que possa funcionar como 8subst;ncia transformadora8 com o
poder de alterar o nosso mundo interior e afetar o exterior. Becessitaremos dessa
a&uda a fim de encontrar o caminho através da escurid*o da nature,a interior e
desvelar afinal o eu, o sol central do nosso ser agora eclipsado na escurid*o, de sorte
que ele possa brilhar de forma nova. Ba medida em que conseguirmos fa,3(lo, n-s
como indivíduos nos modificaremos e a pr-pria nature,a humana se transformará.
9sicologicamente falando, é através da intera)*o entre a consci3ncia humana
e os primitivos arquétipos inconscientes que o inconsciente se move na dire)*o da lu,
e a qualidade da pr-pria consci3ncia humana evolve lentamente na dire)*o da
percep)*o ampliada. +stamos chegando cada ve, mais a compreender que a psique
humana, como o corpo humano, n*o é estática5 que ambos, assim como n-s mesmos,
s*o !' semelhan)a de todos os fen>menos naturais% processos em evolu)*o. 2á n*o
tendemos a pintar a 0ria)*o como um momento fixo quando o 0riador 8fe,8 isto ou
8disse8 aquilo para todo o sempre. 6o contrário, encaramos a 0ria)*o como um
acontecimento contínuo ( eterno diálogo, por assim di,er, entre o nosso pequeno
ágico e Deus, o Krande ago.
6rtistas de todas as épocas tentaram retratar a 0ria)*o. 2á discutimos diversas
dessas representa)/es pict-ricas. Benhuma, porém, capta t*o bem a ess3ncia da
0ria)*o como um processo em que est*o envolvidos assim o 0riador como o 0riado,
quanto a escultura de Dodin intitulada !ão de Deus !"ig. #N%. Besse estudo
maravilhoso, vemos 6d*o e +va abra)ados, embalados e abrigados na m*o
sustentadora do 4odo(9oderoso. 6qui as figuras humanas realmente parecem estar
evolvendo da subst;ncia da m*o do 0riador, de tal modo que o humano e o sobre(
humano, &untos, formam um 4odo supremo. Besta imagem, o milagre da 0ria)*o n*o é
apresentado como fait accompli, ato levado a cabo unicamente pelo Krande ago. +m
ve, disso, 0riador e 0riado igualmente est*o envolvidos, &untos, no ato de vir a ser.
S*o co(criadores num processo que a ambos transcende.
O ago do baralho de arselha, com o seu colorido elétrico e o seu chapéu
em forma de lemniscata, simboli,a o processo. O sentimento de 8deveniridade8
também se reflete no simbolismo do n1mero do ago, que é um. O n1mero um é
simb-lico do Fang, ou poder masculino. Leve, brilhante, ativo, penetrante, está
associado ao céu e ao espírito. +ntretanto, apesar de toda a sua aparente sinceridade,
esse n1mero tem ambigGidades ocultas, pois o seu pr-prio conceito sup/e outro. 6
idéia de um s- pode ser experimentada em rela)*o, pelo menos, com um outro. Di,(se
que o n1mero um representa a consci3ncia do homem porque, como o homem,
mantém(se ereto, ligando o céu e a terra. as a consci3ncia também sup/e uma
dualidade ( observador e observado. ? como se, escondido na costela do nosso ago,
&á estivesse contido o princípio feminino, cu&o n1mero é dois. 0omo o 8peixe8 branco
Fang do símbolo do 4ai 0hi tra, os olhos escuros do seu equivalente, assim,
engastado no espírito puro do ago, está em ponto preto de ambival3ncia feminina.
Fig. 15 A Mão de Deus Auguste !odin"
S- o baralho de arselha capta estes mati,es sutis. Ba vers*o Haite, por
exemplo, n*o se mostram os aspectos positivos Fang do ago !"ig. #O%. B*o sendo
nenhum +mbusteiro nas encru,ilhadas, esse mago contrasta com um pano de fundo
de lu, de ouro pura entre lírios e rosas. +nverga roupas sacerdotais e tem uma
express*o solene. Ba m*o direita segura, bem erguida, uma vara indicando que os
seus poderes, mantidos sob um controle consciente, s*o dedicados ao espírito celeste
lá no alto. 0om a m*o esquerda aponta para a terra, dramati,ando a máxima
hermética 80omo em cima, assim embaixo8. Deleva notar que, embora a vara do
ago tenha dois p-los, ambos s*o brancos. Dessa maneira o espírito masculino é
duplamente enfati,ado, ao passo que o Fin feminino escuro é totalmente excluído.
87ranco em cima e branco embaixo8 sugere um universo estático e estéril, regido por
um rígido perfeccionismo.
#$E MA%&C ' Fig. 1(')aral*o +aite
O cenário nesta carta parece plane&adoC em lugar do pano de fundo informal,
natural, do baralho franc3s, Haite plantou o seu ago num caramanch*o simb-lico,
cultivado de lírios e rosas. Haite elimina a maior parte das ambigGidades da vers*o de
arselha e, com elas, muito da sua vitalidade. O chapéu vistoso, com a aba que
evoca uma montanha(russa e a copa dourada, desapareceu de todo, deixando em seu
lugar uma pequena lemniscata preta, que paira qual fantasma sobre a cabe)a do
ago, oferecendo(nos pouca coisa para alimentar a imagina)*o. Os cachos
serpentinos, com pontas de ouro, do ago foram substituídos pelo severo toucado,
nada insensato, do %sta'elecimento sacerdotal. 6 mesa do mago também foi
arrumada ( artigos suspeitos, como dados, bolas e outras ninharias de origem
desconhecida e prop-sito d1bio, foram varridos, por assim di,er, para baixo da mesa.
+m seu lugar encontramos apenas os quatro ob&etos que representam os quatro
naipes do 4aro, muito bem arrumadinhos e prontos para serem usados.
Levando tudo em conta, a espécie de magia pintada na carta inglesa do século
PP é muito diferente da magia pintada na carta francesa. +ssas diferen)as refletem
duas atitudes mutuamente exclusivas a respeito da maneira de individua)*o e a
respeito do papel do ago no processo. O ago de Haite, por exemplo, parece
experimentar o poder transcendente como se este fosse locali,ado 8lá em cima8. Seu
corpo, sua posi)*o e seus gestos rígidos indicam que ele trará ilumina)*o ' 4erra num
ato de vontade, de acordo com o ritual estabelecido. S- se acentua o eixo vertical5
seus gestos n*o incluem o hori,ontal, que é a dimens*o da rela)*o humana.
+m contraste, a postura do ago franc3s e o amplo movimento do seu chapéu
incluem também a dimens*o hori,ontal. +le parece operar menos por vontade e mais
por &ogo da imagina)*o. O seu cenário casual dá margem ao inesperado e, acima de
tudo, a sua postura n*o é tensa nem rígida, pois esse su&eito viva, n*o está
preocupado com a perfei)*o futura. ? surpreendido no momento criativo do agora
sempre presente. 6 atmosfera de improvisa)*o da carta de arselha nos recorda que
os milagres de 2esus foram também reali,ados de maneira totalmente casual, ' beira
da estrada, e que as suas parábolas mais sábias foram respostas espont;neas ao
momento vivo.
O nome do ago franc3s, (e )ateleur, significa 8o ilusionista8. 9odemos
imaginá(lo atirando para o ar todos os ob&etos que est*o sobre a sua mesa, num
contínuo desenho rítmico, n*o dissemelhante ao do seu chapéu em forma de
lemniscata. Buma pintura de arc 0hagall intitulada " *lusionista, a figura central
manipula o pr-prio tempo, simboli,ado por enorme rel-gio de bolso, que ostenta
quase como uma bandeira. 6 capacidade de transcender as restri)/es do tempo
ordinário sempre pareceu mágica de um g3nero particularmente divino. O ago a
demonstra de várias maneiras. 9rimeiro, como vidente, tra, para a realidade presente
idéias e potencialidades que, de ordinário, &a,em escondidas de n-s 8no futuro8. 6
capacidade de adivinhar é, de fato, divina pois, através dela, tocamos o mundo eterno
dos imortais.
Outro modo com que o ago fa, prestidigita)/es com o tempo é através da
sua capacidade de acelerar processos naturais em aparente desafio 's leis do tempo.
0omo um ferreiro acelera a transforma)*o de metais intensificando o calor, assim
pode o ago efetuar transforma)/es da consci3ncia aplicando o calor do
envolvimento emocional. 6ntigamente os ferreiros eram considerados mágicos, cu&os
poderes se reputavam divinos, como o evidencia o fato de que um deles era o deus
olímpico .efesto.
0omo ilusionista, o ago cria padr/es mágicos no espa)o(tempo. 4odos os
artistas s*o mágicos, pois fa,em sortes com as formas de vida cotidiana, convertendo(
as em padr/es transcendentais. Despem(nas de todos os pormenores essenciais,
expondo de tal maneira a estrutura básica que &a, debaixo de todas as apar3ncias
que, através de cada d1,ia de pinturas diferentes de uma d1,ia de árvores individuais,
brilha a ess3ncia do estado de árvore.
6 escultura também é uma espécie de revela)*o mágica. Os artistas nesse
meio di,em ami1de que n*o criam suas figuras, mas simplesmente desbastam com o
cin,el todo o material supérfluo, de modo que a imagem, &á implícita na pedra básica,
pode libertar(se. +ssa idéia é magnificamente dramati,ada na famosa estátua de
iguel Jngelo t*o bem denominada " Cativo, que retrata um escravo lutando para
livrar(se de um bloco de mármore em que ainda está parcialmente aprisionado. Da
mesma maneira, os escritores force&am por libertar suas idéias da massa de
verbosidade emaranhante que tende a obscurec3(las. O problema n*o é tanto
encontrar palavras quanto extirpar o excesso, de modo que a imagem possa surgir
clara. 4odos experimentamos, sem d1vida, a verdade desse adágioC 8Se tivéssemos
mais tempo escreveríamos menos palavras.8
0omo vimos, os alquimistas também dedicavam suas vidas a libertar o espírito
aprisionado na matéria. Significativamente, conquanto fossem tidos pelos
contempor;neos como mágicos, di,iam(se artistas. Os psic-logos analistas também
s*o artistas e, no sentido em que temos usado o termo, mágicos. Aalendo(se da
massa confusa de nossas vidas diárias, nossos impulsos conflitantes e imagens
confusas a&udam(nos a descobrir o padr*o sub&acenteC o 1nico um em n-s que toca o
@m universal de toda a espécie humana.
6 palavra 8magia8 é afim da palavra imagina)*o, ingrediente necessário para
toda a criatividade nas artes e nas ci3ncias. =uem teria imaginado que pudéssemos,
um dia, voar até a luaQ B*o obstante, alguém o fe,, e assim chegamos lá. Deali,amos
essa mágica porque uma por)*o de 8alguéns8 tinha a mesma imagem e concentrou
nela as suas energias. <maginem simplesmente o que poderia acontecer se todo ser
humano vivo 8imaginasse8 a pa, e dirigisse suas energias para essa reali,a)*o. B-s,
mágicos, poderíamos, com efeito, operar milagres.
as a magia da consci3ncia humana é uma arma de dois gumes. 9odemos
usá(la para modelar um cora&oso mundo novo ou para abrir a caixa de 9andora de
dem>nios escondidos e destruir o nosso mundo e toda a vida sobre o planeta. 6
tenta)*o de abusar do poder é um aspecto oculto de qualquer figura arquetípica5 mas
visto que os poderes do ago s*o t*o primitivos, essa tenta)*o é a sua 'ete noire
especial. ? talve, em reconhecimento desse fato que a 8besta negra8 do ago se&a
especificamente retratada na carta n1mero quin,e, onde a conheceremos como a
sombra do ago, o Diabo.
+m termos &unguianos, a sombra é uma figura que aparece em sonhos,
fantasias e na realidade externa, e personifica qualidades em n-s mesmos que
preferimos n*o pensar que nos pertencem, porque admiti(las seria deslustrar a nossa
imagem de n-s mesmos. 9or isso pro&etamos em outrem tais qualidades
aparentemente negativas. +ssa pessoa parece estar sempre visitando nossos sonhos,
perturbando a atmosfera ao di,er ou fa,er coisas inadequadas ou até positivamente
diab-licas. Ba realidade externa, a pessoa na qual pro&etamos a nossa sombra age,
de ordinário, como um constante arreliador ou ma)ador. =uase tudo o que di, ou fa,
nos exaspera. 6té a sua observa)*o mais casual tem o cond*o de mexer com os
nossos nervos, que ele inflama durante dias, semanas, ou até meses. <sso n*o nos
deixa em pa,, de modo que nos vemos a todo momento envolvidos emocionalmente
com essa indese&ável personalidade. uitas ve,es o envolvimento, assim externo
como interno, produ, um resultadoC como se fosse por artes do demo, a pessoa
odiosa, que 8nunca mais queremos ver8, continua aparecendo persistente e
irracionalmente, em nossa vida de todos os dias. 0omo a famosa sombra de Dobert
Louis Stevenson, ela está sempre presente em nosso &ardim, 8onde entra conosco e
de onde sai conosco8 de maneira t*o desoladora que n-s também gritamosC 8=ue
utilidade pode ter elaQ8 =ue ela possa ter alguma utilidade é coisa que n*o nos entra
na cabe)a. as se ela e n-s formos persistentes, descobriremos que essa
personagem é 1til R e até necessária ( ao nosso bem(estar de muitas, muitas
maneiras.
+m primeiro lugar, ela mantém escravi,adas durante a mágica da pro&e)*o n*o
s- as características negativas que nos pertencem mas também muitas
potencialidades positivas. +, como logo descobrimos, se formos reivindicar como
nossas essas boas qualidades, teremos de aceitar também as negativas. 0hegar a
conhecer e aceitar a nossa sombra como um aspecto de n-s mesmos é um importante
primeiro passo no sentido do autoconhecimento e da inteire,a. Sem a nossa sombra
continuaríamos sendo apenas seres bidimensionais, papel de seda, sem subst;ncia.
6mpliando a nossa abertura de percep)*o para admitir a sombra como
membro da nossa família interior é difícil5 mas, de certa maneira, é mais fácil do que
parece. 9orque, quando chegamos a conhecer esse escuro personagem, descobrimos
que muito da sua obscuridade foi principalmente causada pelo fato de que ele
habitava a escurid*o da nossa pr-pria inconsci3ncia. I medida que lhe permitimos,
aos poucos, sair ' lu,, come)amos a descobrir que até as suas qualidades mais
aborrecíveis parecem menos escuras e o seu peso menos difícil de suportar.
<dealmente, quando !e se% o nosso sol atingir o ,3nite, poderemos ter incorporado em
n-s mesmos tantos desses aspectos sombrios que, como a crian)a no &ardim de
Stevenson, quase poderemos di,er da nossa sombraC 8nada existe dela8. +ntrementes
!o que, decifrado, quer di,er uma vida inteira% a sombra estará em evid3ncia em algum
lugar porque, ' propor)*o que as energias, anteriormente destinadas a resistir '
sombra, ao poucos se tornam disponíveis para um emprego mais criativo,
encontramos coragem e for)a para olhar cada ve, mais profundamente a nossa
pr-pria escurid*o e descobrir figuras ainda mais umbrosas.
@ma ve, que figuras de sombra podem aparecer de muitas maneiras, lutar
contra elas é uma batalha sem fim. Logo que reconhecemos e aceitamos um aspecto
espelhado numa pessoa de nossas rela)/es, ela surge de novo em outra forma. 2á
n*o é o velho amigo da casa ao lado, mas um novo vi,inho do outro lado da rua que
nos fa, rilhar os dentes. +, mais uma ve,, nos vemos enfeiti)ados, fascinados,
obcecados. Desta feita, porém, agimos com cautela. 6ntes de permitir que nos atraiam
para rondas estéreis de reflex/es circulares, fumegantes e emocionados, podemos
lembrar(nos de enfrentar o nosso ago interior e persuadi(lo a desistir de pregar(nos
as suas pe)as diab-licas. Se a abordarmos com firme,a, mas cortesmente, ele poderá
até a&udar(nos a recuperar a parte de n-s mesmos que, de uma forma ou de outra,
passou para o lado oposto da rua.
"eli,mente nunca teremos de aceitar o Diabo como nossa sombra pessoal,
nem nos surpreenderemos pro&etando todo o seu peso no vi,inho. +mbora o vi,inho
possa perfeitamente personificar a sombra pessoal, o diabo representa para n-s o que
2ung denominou a sombra coletiva, querendo com isso significar uma figura de
sombra t*o enorme e oniabrangente que s- pode ser suportada coletivamente por
toda a humanidade. Bem a criatividade sobre(humana do ago nem a infra(humana
destrutividade do Diabo nos pertencem pessoalmente. Os dois personagens s*o
figuras arquetípicas que representam tend3ncias instintivas cu&os plenos poderes
est*o acima e além do nosso alcance. B*o obstante, cada um de n-s possui um
pouco da magia da consci3ncia e, na medida em que temos esse tipo de poder, somos
presa da tenta)*o demoníaca de abusar dele. Desistir ' tenta)*o requer alto grau de
disciplina e autoconhecimento.
ShaEespeare compreendeu o problema. +m tempestade, dramati,a tanto o
problema quanto a sua solu)*o com verdadeira introvis*o poética. 6qui 9r-spero, um
duque despo&ado do seu ducado pelas maquina)/es de antigos amigos, retira(se para
uma ilha deserta, onde estuda as artes mágicas e plane&a vingar(se dos que o trairam.
6través da sua magia, libera o espírito 6riel, aprisionado muito tempo atrás no tronco
de um árvore por uma feiticeira malvada. as 9r-spero, por seu turno, su&eita 6riel '
escravid*o, obrigando esse bom espírito a servir aos seus negros prop-sitos, que
envolvem o con&uro de uma tempestade fatal capa, de provocar o naufrágio e a morte
dos que o trairam. ais tarde, através da boa influ3ncia de 6riel, 9r-spero abandona
voluntariamente o plano de vingan)a, fa, ami,ade com os inimigos e liberta 6riel e
outros que escravi,ara ' sua magia negra. Bo fim, renuncia para sempre a essa
espécie de mágica, deixa a ilha onde reinara absoluto, e regressa ao continente da
humanidade coletiva, onde &ura viver a vida e usar os talentos criativos que possui de
maneira mais humana e consciente.
<solado em seu mundo mágico, 9r-spero é um exemplo excelente do ago
arquetípico. Benhum de n-s é um ago nessas condi)/es. B*o podemos provocar
tempestades ' vontade nem, literalmente falando, libertar espíritos aéreos
aprisionados na matéria e obriga(los a cooperar. as, através da magia milagrosa da
ci3ncia moderna, o nosso 9r-spero cindiu o átomo, dando liberdade a espíritos muito
mais poderosos do que qualquer tempestade. 2á vimos essa energia muitíssimo mal(
utili,ada, e sabemos que for)as potencialmente ainda mais horrendas poder*o ser
soltas no mundo.
Benhum de n-s, como indivíduo, é responsável pela magia da ci3ncia nem
pelos horrores do abuso que dela se fa,. as todos, coletivamente, temos de suportar
essa carga. 6 n*o ser que possamos libertar o nosso bom espírito da sua atual
servid*o ao nosso materialismo, ' nossa cobi)a e ' nossa vingan)a, seremos
seguramente destruídos pela nossa pr-pria magia negra. Ba décima primeira hora
precisaremos, de um modo ou de outro, a&udar o nosso 9r-spero a encontrar o
caminho de volta ao continente da humanidade comum.
=uase todos nos sentimos inermes nessa situa)*o. +, provavelmente, há muito
pouca coisa que a pessoa comum pode fa,er diretamente para efetuar uma mudan)a
na c1pula. Somos, na verdade, min1sculas gotinhas num balde muito grande.
"eli,mente, porém, há uma conex*o direta entre a clare,a de cada gotícula e a
qualidade das águas coletivas como um todo. 4oda a ve, que renunciamos, em nossa
vida pessoal, ' magia confortável de uma pro&e)*o,inha negra, ou toda a ve, que
abandonamos a viciosa tenta)*o de vingar(nos, a consci3ncia do mundo se aclara e a
sombra escura que paira sobre o nosso planeta se aligeira. 4oda a ve, que, '
semelhan)a de 9eter 9an, nos demoramos a recuperar a nossa pr-pria sombra,inha e
a costuramos seguramente ao nosso pequenino eu, teremos feito mais do que
imaginamos possível para mitigar as ang1stias do mundo.
6 ra,*o disso ( e o ponto é crucial ( é que a correspond3ncia entre o interior e o
exterior &á n*o pode ser considerada apenas uma analogiaC tornou(se fato provado,
científico. 6 conex*o entre espírito e matéria, intuída pelos alquimistas, místicos e
poetas de muitas culturas, e expressa de modo vago e metaf-rico, é, conforme
descobriram os cientistas, muito mais real e direta do que até agora se imaginou
possível. 6 idéia alquímica de que o nosso ago interno era um 8espírito criador de
mundos8 foi demonstrada de tantas maneiras que é ho&e muito mais do que mera
verdade poética.
9rovavelmente a prova mais familiar de que n-s, com efeito, criamos o mundo
ob&etivo é oferecida pelas experi3ncias científicas levadas a efeito com a lu,. Belas
ficou provado de forma conclusiva que, debaixo de duas séries diferentes de
condi)/es experimentais controladas com cuidado !cada qual igualmente válida%,
observou(se que a nature,a da lu, era, de um lado, 8ondas8 e, de outro, 8corp1sculos8.
+, a despeito de todos os esfor)os subseqGentes nesse sentido, os dois fatos
científicos diametralmente opostos se recusaram a harmoni,ar(se. 6 8verdadeira8 lu,
n*o se apresentará nem permitirá que a conhe)amos. 6 ess3ncia fundamental da
nature,a permanece escondida. + a Bature,a tampouco se revelará, afirmam os
cientistas.
6 imperfei)*o, explicam eles, n*o está nos instrumentos feitos pelo homem
para observar a realidade externa, mas nos nossos eus humanos ( com as limita)/es
do nosso aparelho sensorial. Benhum instrumento inventado, por mais refinado e
exato que se&a, poderá algum dia oferecer(nos uma vis*o desobstruída do mundo 8lá
fora8. 6o que parece, estamos condenados para sempre a experimentar a nature,a da
lu, como 8ondas8 e como 8corp1sculos8, ambos os quais, segundo se admite, n*o
foram criados 8lá fora8 sen*o 8aqui dentro8, dentro dos nossos eus psicofísicos. B-s
mesmos 8criamos8 o mundo. 6 nature,a continua sendo, e continuará para sempre,
um mistério.
6gora parece evidente que a realidade da psique é a realidade ( a 1nica
realidade. .á muito tempo, um monge ,en colocou(o deste modoC 8+ste mundo
instável é apenas um fantasma, fuma)a moment;nea.8 Sir 6rthur +ddington, o
astrofísico, depois de dedicar a vida ' investiga)*o da chamada realidade externa,
resumiu os seus descobrimentos, mais ou menos, nestas palavrasC 86lguma coisa lá
fora ( n*o sabemos o qu3 ( está fa,endo alguma coisa que n*o sabemos o que é.8
6ssim sendo, estamos lidando com um mundo que, 's ve,es, experimentamos
como 8externo8 e, 's ve,es, como 8interno8. 9arece ho&e menos surpreendente do que
parecia outrora que a correspond3ncia entre os dois aspectos da realidade 1nica se
tenha revelado científica e matematicamente exata. as a dualidade do nosso
intelecto está t*o arraigada que essas revela)/es ainda parecem mágicas. 9or
exemploC o fato de poderem os físicos postular e descrever com acurácia um novo
elemento potencial que, mais tarde, de fato se manifesta na nature,a exterior. Ou de
terem os matemáticos !independentemente de observa)/es astron>micas% conseguido
descobrir as leis da -rbita planetária com tal exatid*o que se verificou depois que suas
f-rmulas correspondiam precisamente ' maneira com que os planetas se comportam
na nature,a.
+m The !yth of !eaning, 6niela 2affé comenta a forma milagrosa com que
esses cálculos matemáticos independentes correspondem com tanta exatid*o ao fato
científico. 8<sso parece assombroso8, di, ela, 8e s- pode ser explicado
satisfatoriamente pela postula)*o de uma Sordem ob&etiva independenteS que SmarqueS
assim o homem como a nature,a, ou o pensamento humano e o cosmo8. T6niela 2affé,
The !yth of !eaning, Bova <orque, 0. K. 2ung "oundation, #MU#,pág.V$W. 0omo se, no
nível psic-ide, os padr/es arquetípicos do mundo interior correspondessem
exatamente aos da realidade externa.
=uase todos podemos citar exemplos pasmosos em que um padr*o interno
corresponde, de s1bito, a um padr*o externo de modo milagroso, quando nenhuma
conex*o causal poderia ser encontrada entre os dois eventos. +m tais situa)/es, a
imagem interna se materiali,a de repente em realidade externa, exatamente como se
a tivéssemos con&urado. Somos, por exemplo, visitados pela lembran)a persistente de
um amigo de inf;ncia, do qual n*o tivemos notícia nos 1ltimos vinte anos. Depois, de
improviso, como que caída do céu, recebemos uma carta, um telefonema ou uma
visita totalmente inesperada desse amigo. Sincronicidade foi o termo usado por 2ung
para denotar esse tipo de coincid3ncia entre estados internos e eventos externos.
2affé aclara ainda mais o que 2ung quer di,er, elucidando(o da seguinte maneiraC 9or
8fen+menos sincron#sticos8 2ung subentende a coincid3ncia significativa de um evento
psíquico com um evento físico, que n*o podem ser casualmente ligados um ao outro e
est*o separados no espa)o ou no tempo !por exemplo, o sonho que se reali,a e o
acontecimento que o predi,%. 4ais coincid3ncias nascem do fato de que o espa)o, o
tempo e a causalidade, que para a nossa consci3ncia s*o discretos determinantes de
acontecimentos, se tornam relativos ou s*o abolidos no inconsciente, como foi
estatisticamente demonstrado pelas experi3ncias de percep)*o extra(sensorial de 2.
7. Dhine. 6 consci3ncia redu, a processos aquilo que é ainda unidade no inconsciente
e, por esse modo, dissolve ou obscurece a rela)*o recíproca de acontecimentos no
8mundo uno8. Os fen>menos sincronísticos s*o como uma irrup)*o daquele mundo
unitário transcendente no mundo da consci3ncia. Sempre imprevisíveis e irregulares,
porque n*o se baseiam na causalidade, despertam espanto ou medo porque redu,em
a disparates nossas categorias habituais de pensamento. 6 unidade paradoxal de ser
que eles revelam foi identificada por 2ung como o umis mundus de Dom. T6niela 2affé,
8The *nfluence of lchemy on the ,or- of C. .. /ung8, Spring #MOU, <rving 4exas,
Spring 9ublications, @niversitF of Dallas, págs. $#, $$W.
+ o nosso ago interno, naturalmente, o responsável pelas milagrosas
erup)/es do mundo unitário no mundo cotidiano de espa)o e tempo, causa e efeito. 6
fim de observar como isso funciona, digamos que voc3 está sentado !como é provável
que este&a% lendo este livro. +m circunst;ncias 8normais8, seria de esperar que a
leitura se processasse através da série dos 4runfos, página por página, passando
revista 's cartas, em seqG3ncia numérica, como foi delineado. +xaminando(as assim,
numa seqG3ncia, no espa)o(tempo, esperamos ver o modo com que cada carta evolve
da precedenteC como a primeira, em certo sentido, causa a segunda, e assim por
diante. De acordo com o pensamento linear a que nos acostumamos, s- deveríamos
esperar ver a carta n1mero vinte e dois, O undo, no fim do livro. 8Bo correr do
tempo8, como se di,, teremos 8via&ado através8 da série de 4runfos, chegando
finalmente ' 1ltima carta que retrata o mundo unitário, o alquímico unus mundus e que
existe além do espa)o e do tempo.
Suponhamos agora, porém, que no momento em que nos a)ode este
pensamento, o livro nos cai inexplicavelmente no ch*o, aberto na página que mostra
" !undo. 4odos provavelmente concordaríamos em que a correspond3ncia entre o
pensamento interior e o acontecimento exterior foi uma coincid3ncia milagrosa, que
transcende as categorias l-gicas de espa)o e tempo, causa e efeito. Oferecendo(nos
tal vislumbre inesperado do mundo transcendente, nosso ago interno teria
descarrilado temporariamente o nosso trem mecanístico de pensamento e oferecido
uma experi3ncia espiritual do @m permanente além de todas as categorias feitas pelo
homem.
+nquanto o nosso <mpostor mistura a ordem das cartas, podemos ouvi(lo di,er
com um sorrisoC 80omo v3em ( tudo estava aqui durante o tempo todo. ? apenas
porque a sua abertura de percep)*o é uma fenda t*o estreita que voc3 experimenta
acontecimentos em seqG3ncia, um por um. Aamos: D3 outra espiada no mundo com
os grandes olhos redondos dos meus -culos mágicos:8
4oda a ve, que um evento sincronístico irrompe em nosso mundo complacente,
ordenado, sacode(nos até os ossos e fa,(nos olhar para o mundo com grandes olhos
redondos ' procura do seu possível significado.
+m seu trabalho pioneiro nesse campo, 2ung definiu a sincronicidade como
coincid3ncia significativa. ais tarde, porém, o conceito mais ob&etivo de grau de
ordena)*o causal veio substituir a idéia de significa)*o preexistente. Bo inconsciente
coletivo, o arquétipo é visto como o fator ordenadorC o significado é uma qualidade que
o homem precisa criar por si mesmo. 2affé prossegue elucidando o assunto da
seguinte maneiraC 6 experi3ncia mostrou que os fen>menos sincronísticos t3m maior
probabilidade de ocorrer na vi,inhan)a de acontecimentos arquetípicos, como a morte,
um perigo mortal, catástrofes, crises, subleva)/es, etc. 4ambém se pode di,er que no
paralelismo inesperado de sucessos psíquicos e físicos, que caracteri,a esses
fen>menos, o arquétipo psic-ide, paradoxal, se 8ordenou8C aparece aqui como imagem
psíquica, ali como fato físico, material, externo. Aisto que sabemos que o processo
consciente consiste numa percep)*o de opostos que se colocam uns aos outros em
relevo, o fen>meno sincronístico pode ser compreendido como um modo inusitado de
tomar consci3ncia de um arquétipo.T6niela 2affé, The !yth of !eaning, Bova <orque,
0. K. 2ung "oundation, #MU#, pág. #N$W.
=uando comecei a trabalhar com as cartas do 4aro, as sincronicidades em
conex*o com os 4runfos come)aram a acontecer com freqG3ncia cada ve, maior.
@ma das mais surpreendentes di,ia respeito, muito apropriadamente, ao ago. 6final,
esse acontecimento fe,(me olhar para o mundo ( e para mim mesma R com olhos
novos. 6 princípio, contudo, n*o liguei ' idéia expressa por 2affé o fato de que um
fen>meno assim 8poderia ser compreendido como um modo ins-lito de ter consci3ncia
de um arquétipo8. Levei vários anos para encontrar as chaves desse significado
oculto.
O incidente di, respeito a uma estampa da !ão de Deus de Dodin !"ig. #N%. +u
pedira emprestada uma c-pia da estampa para estudar e dese&ava muito ter uma
igual. 9arecia(me que a m*o, tal como era representada aqui, tornava
maravilhosamente reais as qualidades andr-ginas do 0riador. +xpressava a for)a
masculina e o apoio do pai combinados com o abrigo em forma de ventre e a ternura
da m*e. Kosto do modo com que esses dois p-los da cria)*o, o Fang e o Fin, eram
apresentados como parte do 9rimordial, e voltavam a manifestar(se no abra)o de
6d*o e +va. Sendo mulher, eu estimava sobretudo o fato de que +va estivesse
diretamente ligada ao 0riador por intermédio do seu pr-prio contato pessoal e n*o por
intermédio de 6d*o como costela ou propriedade sua. 0omovia(me o modo com que a
m*o do 4odo(9oderoso e as duas figuras humanas pareciam envolvidas &untas num
processo. 0om essas emo)/es muito presentes no cora)*o, pus(me a procurar em
toda a parte uma estampa da escultura de Dodin, mas n*o encontrei nenhuma.
Depois, um dia, enquanto esperava uma amiga na sala de estar de sua casa,
casualmente tirei uma revista do meio de muitas outras que se achavam na 1ltima
prateleira de uma mesa. 6 revista caiu no ch*o aberta numa fotografia da !ão de
Deus de Dodin.
"iquei assombrada, naturalmente, e, no mesmo instante, procurei a página de
rosto da revista para averiguar que tipo de publica)*o eu escolhera assim 's cegas. +
qual n*o foi o meu pasmo ao descobrir que a revista que tinha nas m*os deixara havia
muito de ser publicada5 aquele n1mero saíra ' lu, mais de do,e anos atrás: <ntitulava(
se ,isdom !$a'edoria% e tinha a data de &aneiro de #MNU. =ue o ago tivesse
escolhido ,isdom como seu veículo era mais do que apropriado. <gualmente
apropriado fora o modo mágico com que ele escamoteara o tempo para que a
publica)*o estivesse ali, ' minha espera, depois de tantos anos. Senti que alguma
coisa além do puro acaso estava operando nesse caso. B*o senti que o meu dese&o
de possuir a estampa causara o seu aparecimento, mas senti que esse evento
sincronístico devia conter uma mensagem especial para mim.
B*o há d1vida de que eventos sincronísticos ocorrem com muito maior
freqG3ncia do que compreendemos e, é claro, todos se revelariam dignos de reparo se
pudéssemos, pelo menos, aprender a ser mais atentos. "eli,mente, para mim, o
milagroso aparecimento da estampa de Dodin n*o poderia escapar ' minha aten)*o
nem sepultar(se nas trivialidades dos dias e semanas que se seguiram. Senti que a
!ão de Deus me oferecera preciosa introvis*o, mas eu estava perplexa, sem saber
como decifrar(lhe a mensagem.
<sso exigiu de mim um ano de sturm und drang, de ensaio e erro, para entrar
em contato com o significado pessoal da experi3ncia. as, como s- acontece com
esses sucessos milagrosos, o esfor)o para sintoni,ar(lhe o significado especial
revelou(se recompensador. @ma ve, que os acontecimentos sincronísticos s*o um
dos modos com que o nosso ago interno melhor se comunica conosco, é importante
aprender a decifrar(lhe a linguagem oculta.
0omo fa, uma pessoa para decifrar um acontecimento sincronístico a fim de
determinar(lhe o significadoQ 0ada um de n-s precisa encontrar o &eito pr-prio de
fa,3(lo. 9artilho aqui de algumas experi3ncias pessoais, esperando que algumas
técnicas, que evolveram através delas, se&am 1teis a outros. +sses acontecimentos
me ensinaram muita coisa acerca dos usos !e abusos% da magia.
=uando comecei a escrever sobre as cartas do 4aro, ocorreram vários
incidentes como o que acabei de descrever, em que uma gravura ou uma informa)*o
de que eu precisava me foi 8magicamente8 oferecida. 6 princípio fiquei t*o excitada
com as circunst;ncias exteriores de cada evento e t*o fascinada pela milagrosa
ocorr3ncia que perdi de todo as suas implica)/es mais profundas. Senti que tais
acontecimentos indicavam t*o(somente que eu estava destinada a ter a gravura ou a
informa)*o em tela. Senti que a vida devia estar di,endo sim ao meu dese&o de
escrever o livro. 6s conclus/es n*o eram desarra,oadas, mas o caso é que evitavam
as implica)/es mais pessoais e emocionais dos acontecimentos. +m resultado disso
fiquei fascinada com a magia externa dos eventos em lugar de sentir(me impelida a
estabelecer um contato emocional com o seu possível significado. =uando as
sincronicidades entraram a ocorrer com freqG3ncia cada ve, maior, comecei a ficar
cada ve, mais enfeiti)ada por elas. B*o demorei a desenvolver uma no)*o bem
empolada a respeito de minhas pr-prias qualidades mágicas. 9us(me a imaginar
senhora de poderes singulares de atra)*o !em todos os sentidos da palavra%. 0ertos
chav/es apropriados a esse estado de espírito matraqueavam no meu cr;nioC 89reciso
viver direito8, 8+stou em 4ao8, etc. +u n*o alimentava exatamente a no)*o de que o
4odo(9oderoso era meu co(piloto, mas estava principiando a sentir(me preciosa e
especial.
"eli,mente, antes que eu decolasse inteiramente para a estratosfera, esbarrei
na seguinte advert3ncia oportuníssima de 2ungC Os milagres s- empolgam o
entendimento dos que n*o podem perceber(lhes o sentido. S*o meros substitutos da
realidade n*o compreendida do espírito. <sso n*o quer di,er que a presen)a viva do
espírito n*o é ocasionalmente acompanhada de maravilhosos acontecimentos físicos.
Dese&o enfati,ar apenas que tais acontecimentos nem podem substituir o espírito nem
podem provocar(lhe a compreens*o, que é a 1nica coisa essencial. T0. K. 2ung,
&sychotogy and 0eligion1 ,est and %ast, 0. H. Aol. ##, X NNLW.
0omecei a compreender que a enorme fascina)*o exercida pelos
acontecimentos parapsicol-gicos, t*o prevalecentes em nossa cultura, poderiam de
fato tornar(se 8mero substituto da n*o compreendida realidade do espírito8, e vi que eu
também permitira a mim mesma ficar t*o encantada pela sua magia que me
esquecera de usar as sincronicidades como ponte para a autocompreens*o. 9areceu(
me mais prático, ent*o, refrear minha tend3ncia para bater asas e entoar louvores 's
minhas 8maravilhosas sincronicidades8 e desviar a energia a fim de explorar o possível
significado desses eventos para mim.
0oncedido !supunha eu% que eu talve, estivesse 8destinada8 a ter figuras e
outras informa)/es sobre o 4aro, por que !larguei a perguntar a mim mesma% algumas
dessas coisas me caíam magicamente nas m*os, ao passo que o resto tinha de ser
procurado das maneiras usuaisQ 0heguei ' conclus*o de que os itens que
simplesmente apareciam em resposta ao meu dese&o deviam satisfa,er a um dese&o
mais profundo e mais pessoal do que a necessidade manifesta da pr-pria gravura.
6plicando essa introvis*o especificamente ao aparecimento milagroso da !ão de
Deus de Dodin, pus(me a fa,er esse tipo de perguntasC 8=ue defici3ncia !ou potencial
n*o reconhecido% de minha vida representa essa estampaQ +m que ponto da minha
vida diária anseio que a m*o de Deus toqueQ8 Baturalmente, as respostas a tais
perguntas s*o t*o pessoais que chegam a ser quase incomunicáveis.
+mbora este incidente tenha ocorrido há vários anos, escrevo sobre ele no
presente, pois continuam a desdobrar(se camadas da sua significa)*o oculta. +stou
descobrindo que, ' medida que diminui a minha confus*o diante da 8mágica8 das
sincronicidades, fico mais livre para entrar em contato com as introvis/es que elas t3m
para oferecer. +m outras palavras, como acontece com a gravura de !ois2s Tirando
3gua, quando a 8sede do povo8 está no quadro, o ago n*o pode ser central. 2untos
criam o milagroso evento que a ambos transcende mas que, ao mesmo tempo, tem os
pés bem fincados na boa terra da realidade humana.
De acordo com 2ung, quando ocorrem sincronicidades a ra,*o é porque um
poder arquétipo foi ativado. Aisto que os 4runfos do 4aro simboli,am tais poderes é
compreensível que estimulem acontecimentos desse g3nero. Se voc3 estiver
mantendo um caderno de apontamentos do 4aro talve, se&a 1til registrar toda e
qualquer experi3ncia dessa nature,a que aconte)a. 6qui se sugerem umas poucas
maneiras de chegar ao sentido oculto desses eventos milagrosos. Aoc3, sem d1vida,
descobrirá muitos outros.
@m modo de come)ar é formular as espécies de perguntas acima sugeridasC O
que em mim necessitava desse acontecimentoQ =ue defici3ncia !ou potencial% em
mim representa issoQ Aoc3 pode querer escrever quaisquer respostas que lhe venham
' mente. 9rocure captar com palavras o sabor das pessoas ou ob&etos envolvidos na
sincronicidade. Deixe a caneta vagabundear como quiserC em versos ruins, em versos
livres, ou em disparates mais livres ainda. 9rocure rabiscar ou desenhar casualmente
quaisquer formas ou figuras que sur&am na sua tela interior. 0ompreenda que, nessa
tentativa, n*o visa a nenhuma reali,a)*o artística. Se voc3 8n*o tem talento8, tanto
melhor, pois n*o se sentirá tentado a buscar a perfei)*o e poderá divertir(se brincando
com os seus sentimentos de forma despreocupada.
Is ve,es, um acontecimento sincronístico n*o se presta a nenhuma das
abordagens acima. Besse caso, podemos ocasionalmente chegar ' sua mensagem
retrospectivamente, pela simples observa)*o do que realmente aconteceu depois do
evento sincronístico !se é que aconteceu alguma coisa%. ais uma ve,, uma
experi3ncia pessoal servirá para ilustrar. <sso ocorreu há muitos anos em Yurique,
aonde eu fora fa,er análise pessoal e estudar. O meu ago se encontrava, naquele
dia, com o mais manhoso dos humores, pois, fosse como fosse conseguiu fechar(me
dentro do meu apartamento no momento exato em que eu me dispunha a sair para ir
ao consult-rio do analista. =uando, na semana seguinte, contei a estranha
coincid3ncia ao meu terapeuta, &á antecipava em resposta um discurso profundo sobre
o significado da sincronicidade. 6o invés disso, o médico caiu na gargalhada. =uando
p>de falar outra ve,, fe,(me uma pergunta significativaC 8+m ve, disso, o que foi que
voc3 fe, do seu tempoQ8 O exame circunstanciado do que eu fi,era naquela hora 8em
ve, disso8 revelou(se t*o recompensador que, volvidos vinte anos, ainda considero o
acontecimento,inho um dos eventos mais significativos de minha vida, pois
dramati,ou, de maneira inesquecível, o modo com que reagi ' frustra)*o. +m ve, de
aceitar o inevitável e utili,ar criativamente a hora perdida, desperdicei(a em f1teis
tentativas de vencer o destino em esperte,a. Depois de falharem todos os truques
para sair da minha pris*o por meios externos, escapei psicologicamente tomando um
pilequinho.
@ma ve, que é mais artista do que ditador, o ago pede que intercalemos aqui
uma palavra de cautela. 6o seguir quaisquer sugest/es por n-s apresentadas,
mantenha um estado de espírito brincalh*o. B*o se tenciona, como pro&eto de
trabalho, chegar a um acordo com o sentido de eventos sincronísticos. 6 atmosfera
que se sugere é, antes, uma atmosfera de explora)*o. 9retende(se que todas as
perguntas e técnicas apresentadas neste livro se&am poéticas e sugestivas, e n*o
didáticas e diretivas. 6bordar um evento milagroso como uma tarefa ou como um
dever de casa s- pode servir para sepultar o conte1do muito emocional que
procuramos. 4alve, fosse melhor ponderarmos no sentido dos eventos sincronísticos
enquanto estivéssemos empenhados em nossa rotina diária. Os 8ah: ah:8 mais
capa,es de abalar o mundo geralmente ocorrem quando estamos debaixo do chuveiro
ou lavando lou)a.
6s sincronicidades s*o fen>menos naturais. B*o há provas de que se&am
guiadas pelo destino para dar ' espécie humana li)/es de moral. 0omo as frutas e as
flores, s*o produtos da nature,a. 0rescem espontaneamente no nosso &ardim, '
espera do descobrimento. 6presentam(se para o nosso sustento e para o nosso
deleite.
uitos acontecimentos sincronísticos envolvem imagens internas, que se
materiali,am milagrosamente no mundo externo. 4odas as imagens tendem a
materiali,ar(se dessa maneira5 é da sua nature,a procurarem express*o na realidade
externa. 0omo o Cativo de iguel Jngelo, vis/es anseiam por nascer, lutando contra a
nossa letargia e indiferen)a para se livrarem do inconsciente. Sabedores disso, 's
ve,es empregamos imagens conscientemente ( contando carneiros, por exemplo, para
chamar o sono, ou visuali,ando uma cena plácida ou uma mandala para acalmar(nos
quando nos sentimos confusos. =uantidades cada ve, maiores de pessoas reservam
determinado espa)o de tempo por dia para tentar implantar imagens favoráveis no
inconsciente através da auto(hipnose ou de outras técnicas. as tais processos t3m
valor limitado. 9or defini)*o, o inconsciente é inconsciente. B*o podemos manipular(
lhe as atividades pelo poder da vontade. @ma técnica mais 1til talve, se&a observar
simplesmente nossos pensamentos, sentimentos e imagens mais íntimos ( permitir
que imagens, se&am elas quais forem, apare)am espontaneamente e atravessem a
nossa tela interior. O choque que sentirmos ao observar como 8somos realmente8 por
baixo &á efetuará uma mudan)a. O ago interno pode a&udar(nos a ter consci3ncia das
vis/es de poder, vingan)a, cupide,, ou se&a lá o que for, que existem realmente dentro
de n-s5 de modo que possamos confrontar tais aspectos com um ponto de vista mais
consciente. O ago pode também a&udar(nos a descobrir nossas fantasias criativas e
tra,3(las ' realidade. Destarte, o consciente e o inconsciente se relacionar*o de forma
significativa.
De,a uma velha máxima alquímicaC 8O que a alma imagina s- acontece na
mente, mas o que Deus imagina acontece na realidade.8 =uando o undo @nitário
irrompe em nossa consci3ncia, talve, captemos um vislumbre do mundo como Deus o
imaginava.
0omo, ent*o, haveremos de encarar o ago do 4aro em termos &unguianosQ ?
ele a consci3ncia do ego que cria a ilus*o ou a autopercep)*o que a dissipaQ + a
vontade do homem ou a <nten)*o DivinaQ 6 resposta éC ambos. 9ois é através da
consci3ncia que nos enredamos no mundo das coisas e das categorias, e é através da
consci3ncia que nos libertamos das suas confus/es. O ago cria a confus*o e nos
guia através dela. Besse sentido, o homem pode ser encarado n*o s- como o
redentor, mas também como o que deve ser redimido. 0om o Louco, o ego e o eu
eram intimamente aliados, pois é do eu que o ego evolui. Se o Louco simboli,a 8o eu
como prefigura)*o inconsciente do ego8, o ago pode ser visto como a encarna)*o
de um elo conectivo mais consciente entre o ego e o eu.
0hamando(lhe 8o conviva n*o convidado8, 6lan acKlashan equipara o ago
ao personagem central dos nossos sonhos, o Sonhador, que é, a um tempo, o su&eito
da experi3ncia e o ob&eto observado dos sonhos, um 8guia fantasmag-rico8 nos reinos
do inconsciente. 6cerca desse Sonhador di, cK<ashanC 0omo o misterioso
+mbusteiro do 7aralho do 4aro, o Sonhador está continuamente fa,endo o que parece
impossível, virando de pernas para o ar nossos solenes princípios fundamentais do
nascimento e da morte, manipulando o espa)o e o tempo com empolgante
imprud3ncia, sem nenhuma considera)*o pelas nossas convic)/es mais estimadas e
mais seguras. TcK<ashan, op. cit., pág. #LUW.
Sabemos que alguns sonhos se reali,am. B-s 8sonhamos8 o mundo em que
vivemos, nossas personalidades e metas de muitíssimas maneiras ( tudo de acordo
com nossas imagens interiores. 6lgumas imagens ocorrem em devaneios, quando
estamos acordados, quando o motor da mente consciente funciona em marcha lenta.
+stas s*o fáceis de apanhar. as as imagens arquetípicas que aparecem em sonhos,
quando a mente consciente está completamente desligada, v3m dos níveis mais
profundos da psique e s*o mais difíceis de relembrar. 6qui, mais uma ve,, o ago
pode a&udar ensinando(nos o truque de entrar nesse mundo de sonho.
O primeiro passo, naturalmente, é recordar os nossos sonhos. 9ara aqueles
que 8n*o sonham8 é 1til substituir esse pensamento negativo por uma atitude de
esperan)osa expectativa. uitas pessoas que n*o sonham descobrem que o fato de
ter um lápis e um peda)o de papel ' cabeceira da cama costuma estabelecer uma
conex*o entre a consci3ncia diurna e o mundo dos sonhos. O papel pode ficar em
branco por vários dias ( ou por mais tempo ainda ( mas se voc3 se conservar quieto ao
despertar, de olhos fechados, um fragmento do sonho da noite anterior atravessará
afinal a sua tela interior. 9ode ser que, a princípio, voc3 capte apenas uma frase ou
um quadro vago. B*o obstante, escreva o que captou. uitas ve,es isso, por si
mesmo, suscitará outras imagens ou até um drama completo. ? muito importante
escrever tudo imediatamente, pois os sonhos se esquecem com facilidade.
Aisto que as imagens de sonhos desempenham um papel t*o grande no
afei)oamento da nossa vida, convém(nos conhec3(las. ? precisamente nisso que
versa este livro. Os vinte e dois 4runfos retratam personalidades e situa)/es
arquetípicas. 0onhecendo as figuras do 4aro aprendemos a reconhec3(las quando nos
aparecem em sonhos. 6 aten)*o que prestarmos aos sonhos ( ainda que n*o fa)amos
nada mais com eles ( terá um efeito em nossa vida. O modo com que nos
comportarmos em rela)*o ao inconsciente será o modo com que ele se comportará
em rela)*o a n-s. Os personagens de sonho, como os amigos e parentes, precisam
ser levados a sério. Kostam de sentir que estamos interessados neles e no que fa,em
( que estamos envolvidos com eles.
O ago nos a&uda a envolver(nos no mundo dos sonhos. 6o passo que o
Louco vagueia, de ve, em quando, pelo nosso mundo, entrando e saindo dele, o ago
se posta diante de n-s. O Louco pode tra,er(nos sonhos aparentemente impossíveis,
mas o ago os colocará sobre a mesa a fim de examiná(los. ? ele quem nos a&uda a
fa,er que nossos sonhos se reali,em.
4odos compartimos do poder mágico do ago. Bosso é o potencial de
ilumina)*o e empreendimentos ainda n*o sonhados. Bosso é também um poder
destrutivo de gigantescas propor)/es. 9odemos fa,er explodir o planeta5 podemos
sepultá(lo, a ele e a n-s, debaixo do peso de um bilh*o de bugigangas de plástico5 ou
podemos amar e proteger o nosso meio natural e a humanidade. 6 escolha é nossa.
4alve, na medida em que o nosso ago interior nos tornar conscientes dos sonhos
que sonhamos, nossos pesadelos nunca precisar*o reali,ar(se.