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São Paulo – 2013

1ª- edição
HISTÓRIA
Conexão
VOLUME 2
ENSINO MÉDIO
HISTÓRIA
2
a
-
série
Roberto Catelli Junior
Bacharel e licenciado em História pela Pontifícia Universidade
de São Paulo. Mestre em História pela Universidade de São
Paulo. Professor de História da rede particular de ensino do
estado de São Paulo. Assessor para organização de currículos
e formador de professores na rede pública de ensino.
MANUAL DO
PROFESSOR
Editores: Arnaldo Saraiva e Joaquim Saraiva
Projeto gráfico e capa: Flávio Nigro
Pesquisa iconográfica: Cláudio Perez
Coordenação digital: Flávio Nigro e Nelson Quaresma
Colaboração: Maria Soledad Más Gandini, Renata Pereira Lima Aspis e Roberto Giansanti
Produção editorial: Maps World Produções Gráficas Ltda
Direção: Maurício Barreto
Direção editorial: Antonio Nicolau Youssef
Gerência editorial: Carmen Olivieri
Coordenação de produção: Larissa Prado
Edição de arte: Jorge Okura
Editoração eletrônica: Alexandre Tallarico, Flávio Akatuka, Francisco Lavorini, Juliana Cristina Silva,
Veridiana Freitas, Vivian Trevizan e Wendel de Freitas
Edição de texto: Ana Cristina Mendes Perfetti
Revisão: Adriano Camargo Monteiro, Fabiana Camargo Pellegrini,
Juliana Biggi e Luicy Caetano
Pesquisa iconográfica: Elaine Bueno e Luiz Fernando Botter
Cartografia: Maps World (Alexandre Bueno e Catherine A. Scotton)
Conteúdos digitais: Esfera Digital
Fotos da capa: Mt Saint-Michael – Yoshio Tomii Photo Studio/Aflo Diversion/Glow Images;
Detroit – Getty Images
2013
Editora AJS Ltda. – Todos os direitos reservados
Endereço: R. Xavantes, 719, sl. 632
Brás – São Paulo – SP
CEP: 03027-000
Telefone: (011) 2081-4677
E-mail: editora@editoraajs.com.br
Título original: Conexão História
© Editora AJS Ltda, 2013
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Catelli Junior, Roberto
Conexão história : volume 2 : ensino médio :
2º série / Roberto Catelli Junior. -- 1. ed. --
São Paulo : Editora AJS, 2013.
Bibliografia.
"Suplementado pelo manual do professor"
1. História (Ensino médio) I. Título.
13-06551 CDD-907
Índices para catálogo sistemático:
1. História : Ensino médio 907
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Catelli Junior, Roberto
Conexão história : volume 2 : ensino médio :
2º série / Roberto Catelli Junior. -- 1. ed. --
São Paulo : Editora AJS, 2013.
Bibliografia.
"Suplementado pelo manual do professor"
1. História (Ensino médio) I. Título.
13-06551 CDD-907
Índices para catálogo sistemático:
1. História : Ensino médio 907
ISBN: 978-85-8319-001-1 (Aluno)
ISBN: 978-85-8319-002-8 (Professor)
Muitas gerações se fizeram as mesmas perguntas ao estudar História: Para que serve? Por que tenho
de saber o que aconteceu na Revolução Francesa ou no Brasil colonial? Essas perguntas ainda persistem.
Talvez você já tenha se perguntado isso.
A História, vista em si, talvez não pareça servir para nada. Ela só tem sentido quando lhe atribuímos
um significado. E quanto mais questionarmos e refletirmos sobre os acontecimentos da história, mais
poderemos refletir sobre a realidade que nos cerca e a vida que vivemos.
Quando estudo História com a única finalidade de memorizar fatos do passado para obter um resul-
tado satisfatório em uma avaliação, dificilmente ela terá algum sentido. Seria o mesmo que ouvir uma
canção da qual não gosto repetidas vezes apenas para decorar sua letra e sequência melódica.
Para mim, autor desta obra e professor, estudar História significa, principalmente, estimular a reflexão,
exercitar o espírito crítico e promover descobertas. Preciso sempre fazer perguntas: Em que a Revolução
Francesa, por exemplo, se relaciona com o mundo em que vivo? Que ideias foram produzidas pelo ser huma-
no daquela época (século XVIII)? O que é diferente dos dias atuais? O que pensavam os revolucionários?
Que sociedade eles queriam construir? Preciso ainda ser crítico o suficiente para saber identificar as dife-
rentes posições dos autores que têm interpretações contrárias. Por que concordo com um e discordo do
outro? É preciso saber contextualizar o assunto em um duplo sentido: compreender os eventos históricos
conforme a época em que se vivia, além de buscar construir as relações com o presente.
Estudar História pode ser também um profundo mergulho nas experiências vividas pelos seres huma-
nos, ao longo do tempo, nas mais diferentes dimensões: cultural, econômica, política e social. Podemos
entrar em contato com modos de vida muito diversos do que conhecemos na atualidade e refletir sobre o
significado daquelas experiências para o presente e para o futuro.
O que se estuda na História? Certamente não são apenas os grandes eventos políticos e econômicos,
ainda que esses estabeleçam marcos para a humanidade. Podemos estudar a vida cultural, a condição
feminina, a religiosidade, a música, o pensamento científico, as atividades esportivas, enfim, tudo aquilo
que se refere à experiência de homens e mulheres em sociedade.
Nesse mergulho nas várias dimensões da vida humana não podemos nos limitar aos conhecimentos de
História. Será necessário recorrer às Artes, às Ciências, à Filosofia, à Geografia e à Sociologia, pois sabemos
que a vida humana não está compartimentada em conhecimentos disciplinares. Ao contrário, para com-
preender a sua história é preciso recorrer a todas as suas dimensões, formando uma rede de conhecimentos.
Para estudar história precisamos acessar uma grande rede de conhecimentos para discutir a experi-
ência humana ao longo de milhares de anos. Muitos desses conhecimentos, por sua vez, podem, hoje, ser
obtidos por meio da rede mundial de computadores e da variedade de linguagens disponíveis. É possível
recorrer a internet, vídeos, cinema, televisão, rádio, enfim, a variadas fontes de informação que também
contribuem para a construção do conhecimento histórico na escola.
Ao estudar História, cabe ainda perguntar quais fontes podemos utilizar. Os documentos escritos, os
objetos da cultura material, as imagens, as histórias em quadrinhos, as obras literárias, as propagandas,
as canções, os depoimentos gravados, ou seja, todo registro ou vestígio da vida humana pode ser fonte
para o estudo da História.
Desejo que este material didático o auxilie a construir um sentido para seus estudos, embora isso não
dependa apenas de um livro ou do professor. Estes podem apenas favorecer e despertar a sua curiosida-
de. Essa é minha intenção primeira com esta obra. A partir daí, e das informações disponíveis, recomendo
o mais fundamental: faça perguntas, busque relações e atribua um significado para tudo. “Fazer sentido”
também quer dizer “fazer sentir”: é preciso que esse processo nos desperte para algo. Caso contrário,
tanto a História quanto a música, o futebol, a praia, o(a) namorado(a), os amigos, a família, o mundo,
enfim, ficam incompletos e insuficientes.
O autor
APRESENTAÇÃO
CONHEÇA SEU LIVRO
PESQUISA
Orientações para organização de pesquisa
sobre algum tema relevante para uma melhor
compreensão dos conceitos, fatos históricos ou
situações em estudo no capítulo.
CONTEXTO
Núcleo de desenvolvimento do conteúdo
didático do livro, que contém informações tex-
tuais, cartográficas, visuais e esquemáticas.
LINHA DO TEMPO
Eventos e fatos históricos relativos ao tema
do capítulo em desenvolvimento, organizados
cronologicamente.
NA INTERNET
Sugestão de links destinados ao detalhamen-
to e aprofundamento de assuntos estudados.
TRABALHANDO COM DADOS
Apresentação de coleções de dados e infor-
mações, geralmente organizadas em tabelas,
para suscitar discussões e dimensionamentos
de fatos históricos e econômicos.
ROTEIRO DE TRABALHO
Proposta de atividades ordenadas a partir
de algumas das seções com conteúdos previa-
mente fixados.
VESTIBULANDO
Apresentação de testes e questões exigidas
em vestibulares e no Enem.
RELEITURA
Apresentação das ideias e conceitos estu-
dados no capítulo em linguagem distinta do
texto didático como, por exemplo, letras de
música, obras de arte ou publicações.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
Sugestões de livros, filmes e sites que con-
têm mais e diversificadas informações sobre os
temas estudados.
INTERDISCIPLINARIDADE
Apresenta relações entre os diversos con-
ceitos históricos estudados e outras disciplinas
ou matérias com as quais o aluno tem contato.
DOCUMENTOS
Aqui são apresentados artigos, transcrições
e informações que, quando discutidas, con-
solidam a aprendizagem e a significação dos
conceitos estudados.
PONTO DE VISTA
Detalhamento ou confrontação de diferen-
tes pontos de vista sobre o assunto em estudo.
Relação dos objetos digitais
de aprendizagem apresentados
no livro.
Infográfico de fatos históricos
organizados de forma contínua
e cronológica
Conjunto de referências cruzadas
de temas relevantes estudados ao
longo dos livros da coleção.
UNIDADE 1
Política: revolução e cidadania . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
CAPÍTULO 1 História, política e vida cotidiana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
A política . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 Diferentes formas e regimes de governo . . . . . . . . . . . 14
CAPÍTULO 2 O Príncipe e Leviatã: o Estado absolutista
e a construção do Estado-nação moderno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
A formação do Estado moderno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
As monarquias nacionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
Estado absolutista: burguês ou feudal?. . . . . . . . . . . . . 31
Religião e política no processo de construção
do Estado moderno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
CAPÍTULO 3 Os princípios do liberalismo e a construção
do cidadão moderno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
A revolução burguesa na Inglaterra . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
As bases do pensamento liberal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
Desdobramentos do liberalismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
CAPÍTULO 4 As revoluções burguesas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
Da Revolução Inglesa à Revolução Francesa . . . . 66 A Revolução Francesa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
CAPÍTULO 5 Industrialização e trabalho assalariado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
O trabalho assalariado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
Transformação social, movimento operário
e conflito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
O processo de industrialização brasileiro
e o movimento operário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101
As condições de trabalho e o
movimento operário no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
CAPÍTULO 6 A cultura burguesa, as repúblicas liberais
e os conflitos na Europa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122
Liberais, realistas, socialistas, anarquistas:
república contra monarquia na Europa . . . . . . . . . . . . 122
A unificação italiana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130
A unificação alemã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132
SUMÁRIO
CAPÍTULO 7 A crítica ao capitalismo e o
caminho para o socialismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 140
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144
As primeiras propostas alternativas
de organização social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144
As sociedades socialistas do século XX . . . . . . . . . . 147
UNIDADE 2
Relações de poder e a
construção do Brasil independente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 170
CAPÍTULO 8 Relações de poder e vida cotidiana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 172
CAPÍTULO 9 Movimentos anticolonialistas
e independências na América . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 180
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 183
A Independência dos Estados Unidos . . . . . . . . . . . . 183
Revoltas contra a metrópole no Brasil . . . . . . . . . . . . . 186
O processo de independência brasileiro . . . . . . . . . 190
A independência em
outros países da América . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194
CAPÍTULO 10 A construção do Brasil independente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 206
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 210
O Primeiro Reinado (1822-1831) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 210
O período regencial (1831-1840) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 211
Revoltas de norte a sul. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213
O Segundo Reinado (1840-1889). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 220
A cafeicultura no Império . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222
CAPÍTULO 11 A República autoritária no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 245
A construção da República . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 245
A política dos governadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 247
A economia cafeeira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 251
A industrialização e o movimento operário . . . . . 252
A Revolta da Vacina e a reforma
urbana do Rio de Janeiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 255
A Revolta da Chibata . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 258
A Guerra de Canudos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 259
A Guerra do Contestado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 263
O tenentismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 264
A crise da República Velha
e a Revolução de 1930 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 268
Da belle époque à era do rádio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 269
Referências bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 283
Gabarito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 288
SUMÁRIO
CONTEÚDO DIGITAL
G
Execuções no período medieval . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
G
Independência do Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 199
G
Etnias africanas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 215
G
Imigrantes – Hospedaria dos imigrantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 226
G
Propagandas no Brasil no final do século XIX . . . . . . . . . . . . . 221
G
Semana de Arte Moderna de 1922 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 270
G
Revolução Francesa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74
G
Terceira Revolução Industrial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96
G
Movimento operário no início do século XX . . . . . . . . . . . . . . . . 103
G
Pintores românticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124
G
Cidades industriais europeias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134
G
Vida cotidiana em Cuba . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 160
G
Diversidade de relações de poder no cotidiano . . . . . . . . . . . . 172
A
Trecho da canção Pelo Telefone, Donga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 272
V
Produção industrial – robotização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
V
Revolução Russa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147
V
Discurso de Che Guevara na ONU . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159
I
As meninas, Diego Velazquez . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
I
Mural sobre a Revolução Mexicana, Diego Rivera . . . . . . . . . 196
I
Simón Bolívar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 202
I
América em 3 momentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 197
I
Revoltas regenciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213
I
Movimento abolicionista no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222
I
Guerra do Paraguai . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 238
I
Presidentes brasileiros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 247
I
Coluna Prestes – Miguel Costa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 267
I
Leviatã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
I
Fases da Revolução Francesa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
I
Longa Marcha – China . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 à 282
LINHA DO TEMPO ÍNDICE
OD
THESAURUS
H
I
S
T
Ó
R
I
A
,

P
O
L
Í
T
I
C
A

E

V
I
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História, política e vida cotidiana
CAPÍTULO 1
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emocracia, ditadura, monarquia, parlamentarismo, presidencialismo, Poder
Executivo, Poder Legislativo, Poder Judiciário etc. Para muitas pessoas, a polí-
tica se resume a esses termos, que nem sempre são bem compreendidos. No
Brasil, a política é muitas vezes relacionada à corrupção e à conquista de privilégios
pessoais, sendo considerada uma carreira profissional à qual poucos têm acesso.
Muitas pessoas veem o termo de forma negativa e chegam a hostilizar aqueles que
tomam atitudes consideradas políticas. Mas será que política se restringe às relações
político-partidárias e a atos de governo? Qual a relação entre política e cidadania?
Você acha que realiza ações políticas em seu cotidiano?
Vamos estudar neste capítulo o conceito de política, que remonta à Antiguidade
e ganhou novo sentido na Idade Moderna, especialmente após a formação do que se
denominou Estado moderno.
Metalúrgicos participam de assembleia durante paralisação para reivindicar reajuste salarial, em São José dos Campos (SP), 2009. É
comum uma paralisação de trabalhadores ser tachada de “greve política”. Isso acontece quando os objetivos do movimento não se
referem às questões específicas da categoria. Uma greve pode ter intenção, por exemplo, de projetar um presidente de sindicato ou
de atingir a imagem de um governante. Pode-se dizer que esse tipo de greve é ilegítimo? E será que existe greve não política? Afinal,
protestar e reivindicar melhores condições de trabalho é uma ação política.
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CONTEXTO
A política
No mundo contemporâneo, o termo política
está diretamente associado às instituições do
governo, aos partidos políticos e à organização
do Estado. A força e o poder dessas instituições
sobrepõem-se a outras formas de expressão políti-
ca. No entanto, é preciso ampliar essa concepção.
As organizações não governamentais (ONGs), os
sindicatos, a Igreja, as associações profissionais
e de bairro, as empresas e mesmo os indivíduos,
ao tomarem decisões sobre sua vida cotidiana,
realizam atos políticos. Mas como isso acontece?
Antes de mais nada, vamos tentar compreender
como se estabeleceu e foi entendida a política ao
longo da história para depois entender seu signifi-
cado no presente. É importante considerar também
que a história da política confunde-se com a histó-
ria da cidadania e das lutas pelos direitos humanos.
Desde que o ser humano se organiza em socie-
dade – ou até mesmo antes, há algumas centenas
de milhares de anos, quando o primeiro grupo deci-
diu viver em comunidade, estabelecendo regras e
dividindo tarefas –, podemos afirmar que já exis-
tiam relações políticas. No mundo antigo, entre os
egípcios, os sumérios e os persas e também nas
sociedades pré-colombianas, por exemplo, havia
uma forma de estruturação social e, consequente-
mente, existia uma organização política.
A palavra política tem origem na pólis grega,
a cidade-estado da Grécia antiga, que era forma-
da por uma comunidade de cidadãos livres não
estrangeiros que participavam das decisões públi-
cas. Dessa forma, pode-se afirmar que a política
nasceu no período em que os indivíduos passaram
a exercê-la como tal, ou seja, foi na Grécia antiga
que as pessoas a conceberam como uma prática
relacionada à pólis.
Para o filósofo grego Aristóteles (384-
322 a.C.), o ser humano seria, por natureza, um
animal político, e a cidade também era parte do
espaço de expressão da política. Tal natureza
dos indivíduos, por sua vez, manifesta-se pela
linguagem, que é uma função social relacionada
à noção de justiça. Nesse sentido, afirmam Célia
Quirino Galvão e Maria Lúcia Montes:
De fato, segundo Aristóteles, um homem só é
realmente homem quando pode dispor livre-
mente de sua faculdade de julgar para realizar
escolhas, sobretudo escolhas éticas, isto é, afir-
mar a distinção entre o que é bom e o que é mau,
e isto não apenas com relação a seus próprios
atos, mas também com relação à comunidade
dos homens entre os quais vive, determinando,
assim, o que devem ser as leis que os regem e
as formas de seu governo. Na verdade, é isto
essencialmente o que torna necessária a vida em
sociedade, mostrando por que o homem é um
ser social e político.
GALVÃO, Célia Quirino; MONTES, Maria Lúcia.
Constituições brasileiras e cidadania. São Paulo:
Ática, 1987. p. 11. (Fundamentos).
Na sociedade grega daquela época, nem todas
as pessoas tinham direitos iguais; ao contrário, os
direitos eram determinados pelo nascimento. Para
ser um cidadão grego, era necessário ter nascido
naquela cidade-estado e ser do sexo masculino.
Pode-se dizer que a organização da vida social
estava diretamente relacionada à comunidade
natural. Enquanto para algumas pessoas estavam
reservados o trabalho e a escravidão, para outras
estavam destinados, por exemplo, a vida pública
e o ócio, o que na Grécia antiga significava a pos-
sibilidade de dispor de seu tempo para participar
dos debates políticos, dedicar-se ao mundo das
ideias e cuidar do corpo e do espírito.
Já na Roma antiga se utilizava a expressão
civitas em substituição à pólis grega. Os cidadãos
livres nascidos em Roma, os patrícios, tomavam
decisões sobre os negócios e a vida pública da
cidade, exercendo seus direitos políticos.
Segundo a filósofa Marilena Chaui, é possível
afirmar que os gregos e os romanos “inventaram”
a política:
[…] [Eles] separaram a autoridade pessoal pri-
vada do chefe de família – senhorio patriarcal
e patrimonial – e o poder impessoal público,
pertencente à coletividade […], separaram au-
toridade militar e poder civil, subordinando a
primeira ao segundo […], separaram autori-
dade mágico-religiosa e poder temporal laico,
impedindo a divinização dos governantes […],
criaram a ideia e a prática da lei como expressão
de uma vontade coletiva e pública […], criaram
instituições públicas para aplicação das leis e
garantia dos direitos […], criaram a instituição
do erário público ou do fundo público, isto é, dos
bens e recursos que pertencem à sociedade e são
por ela administrados por meio de taxas, impos-
tos e tributos, impedindo a concentração da pro-
priedade e da riqueza nas mãos dos dirigentes;
criaram o espaço político ou espaço público – a
assembleia grega e o Senado romano – no qual os
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que possuíam direitos iguais de cidadania discu-
tiam suas opiniões, defendiam seus interesses,
deliberavam em conjunto e decidiam por meio do
voto, podendo, também pelo voto, revogar uma
decisão tomada.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo:
Ática, 2003. p. 351-2.
Com o advento da pólis, a política passou a ser
a forma de expressão dos seres humanos livres e
iguais que decidiam sobre os destinos da cidade.
O Estado não era mais o monopólio de um líder
espiritual, militar ou de uma família, mas a partir
de então passou a existir um espaço público de
tomada de decisões: a assembleia. Para defen-
der suas ideias, os cidadãos precisariam saber
discursar a fim de convencer os demais e fazer
prevalecer sua opinião.
Já na Idade Média, a sociedade era organizada
em ordens, praticamente não existindo a possibili-
dade de ascender socialmente. Um camponês não
poderia ser um nobre ou um homem do clero. Para
a Igreja Católica, que ditava muitas das regras
sociais e exercia grande poder sobre a população
cristã da Europa, a igualdade só existiria diante de
Deus, e no mundo terreno as posições deveriam
ser imutáveis. Para a Igreja, havia aqueles que
tinham nascido para orar, aqueles que deveriam
trabalhar e ainda os que deveriam guerrear.
Dessa forma, as possibilidades de a gran-
de massa camponesa interferir nos rumos da
política ditada pela nobreza e pelo clero eram
muito limitadas. Mesmo assim, em alguns
momentos, a população camponesa acabou
se rebelando contra regras que lhe foram
impostas. Por exemplo, na França do século XIV
ocorreram revoltas camponesas contra os cons-
tantes aumentos de impostos, que ficaram co-
nhecidas como jacqueries. Os camponeses,
conhecidos como jacques, se opunham às deci-
sões da nobreza, chegando a realizar vários
ataques contra seus membros.
Após o século XV, durante o processo de
formação do Estado moderno e do capitalismo
e com a ascensão da burguesia como grupo
social emergente, ocorreram transformações na
maneira como se organizavam as comunidades
políticas e o próprio pensamento político, rom-
pendo com toda a tradição anterior. O pensa-
dor italiano Nicolau Maquiavel, nascido em
Florença (1469-1527), atribuiu um novo significa-
do à política ao considerá-la uma luta constan-
te entre forças contrárias, ou seja, um campo
das disputas entre os indivíduos.
Representação do Senado romano entre
os séculos IV e III a.C., feita no século XIX
por Cesare Maccari.
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Representação das Jacqueries, revoltas camponesas ocorridas na França, no século XIV. Em uma das imagens, líder camponês das
Jacqueries é executado. Na outra, camponeses atacam nobres. Representações criadas em 1754. (sem dimensões)
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Em um contexto de conflitos e instabilidade
política em Florença, Maquiavel se perguntava
como um príncipe poderia salvar o Estado e dar
estabilidade ao governo. A resposta, segundo ele,
estaria na capacidade de prever, calcular e ela-
borar estratégias; enfim, a ação do ser humano
garantiria o êxito. Para governar com estabilidade
seria preciso ter equilíbrio e prudência, tomando
as decisões adequadas em nome da salvação do
Estado. Para ele, vale mais a verdade efetiva, a
realidade concreta, do que as regras preestabele-
cidas, uma vez que somente a análise da realidade
poderia garantir o sucesso de um governante.
Este deveria levar em consideração a capacidade
humana de trair e realizar atos malignos.
Esse pensamento de Maquiavel ia contra os
princípios da Igreja Católica. Sua principal obra,
O príncipe, acabou por ser incluída no Index, lista
de livros proibidos dos católicos.
Tomando como ponto de partida essas con-
siderações históricas, podemos refletir sobre
o que é política. Ela nasceu, para Aristóteles,
como expressão própria da pólis, da cidade.
O ser humano é o animal político que se utiliza
de sua capacidade de discursar, argumentar e
convencer. Já para Maquiavel, vários séculos
depois, a política relaciona-se com a luta entre
forças contrárias e envolve a necessidade de
se construir estratégias adequadas para salvar
o Estado e/ou proteger um território. Tanto na
Antiguidade como na Idade Moderna, entretanto,
a política relaciona-se com as questões públicas
e com a organização e a manutenção do próprio
Estado. Porém, com o passar do tempo, as lutas
por direitos e pela cidadania também foram se
incorporando às questões públicas. Todas essas
concepções e práticas estiveram e ainda estão
em permanente construção.
Como analisaremos nos capítulos seguintes,
novas concepções e formas de organização polí-
tica serão construídas nos séculos seguintes,
sendo Maquiavel o marco de uma nova forma de
compreender a política. No século XVII come-
çou a se desenvolver o pensamento liberal, que
defende a igualdade de direitos, ou pelo menos
de oportunidades, entre os seres humanos. Daí
em diante, questiona-se o poder absoluto do rei
em muitos países europeus e proclamam-se os
direitos do cidadão como ocorreu na Inglaterra
do século XVII e na França no século XVIII. Seria
correto o rei ter o poder hereditário? Os cida-
dãos não deveriam escolher seus governantes
e participar das decisões públicas? As leis não
deveriam ser iguais para todos? Esses questio-
namentos estão na gênese da luta por direitos
iguais e pelo estabelecimento da democracia no
mundo contemporâneo.
Na atualidade, realizamos atos políticos toda
vez que votamos, pois empreendemos uma ação
que visa a um fim, que tem uma intenção e, em
alguma medida, expressa uma ideia, um inte-
resse, uma vontade. Da mesma forma, a Igreja
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intervém publicamente para defender concep-
ções, tomar posição e proteger interesses. O
mesmo ocorre com os sindicatos, as associações
e todos os agentes sociais que estão em cons-
tante negociação e conflito.
Podemos concluir que a política expressa
a constante negociação entre os diferentes
agentes sociais que lutam por seus interesses
em diversos âmbitos da vida social. Quando
votamos em um candidato, realizamos um ato
político e expressamos um interesse, uma von-
tade ou uma ideia, da mesma forma que, quando
deixamos de votar ou fazemos isso de modo dis-
plicente, estamos delegando mais poder a outro
que escolherá por nós. Para alguns, deixar de
votar pode ser até mesmo um ato consciente de
protesto contra o sistema eleitoral ou de gover-
no. Em qualquer um dos casos, expressou-se um
ato político.
Diferentes formas e
regimes de governo
Para Aristóteles, existiam três boas formas de
regime político: a monarquia, a aristocracia e
a república. Em oposição a essas formas exis-
tiam: a oligarquia, a tirania e a democracia.
Não cabe aqui discutir os motivos pelos quais
Aristóteles considerava cada um desses gover-
nos bons ou maus, mas apenas registrar que essa
categorização nasceu na Grécia antiga.
Mas o que é uma república? Como ela se dife-
rencia de uma monarquia? Qual a diferença entre
uma república parlamentarista e uma república pre-
sidencialista? O que é uma república oligárquica?
É possível existir monarquia presidencialista? Você
conhece alguma república parlamentarista? Antes
de mais nada, observe o quadro a seguir para enten-
der o que significa cada um desses termos.
Formas e regimes de governo
Monarquia
Do grego
monarchía
(móno = único;
archía = poder,
autoridade).
O governo é centralizado em uma única pessoa que, por ter poderes
especiais, é colocada acima de todos os outros governados. É geral-
mente fundado em bases hereditárias, e a tradição determina a base
da soberania. Na Idade Média, o rei era um representante de deter-
minada localidade; na Idade Moderna, durante o período absolutista,
foi considerado o representante divino da nação.
Oligarquia
Do grego oligarchía
(oligoi = pouco;
archía = poder,
autoridade).
Significa “governo de poucos”, também designado, na Grécia antiga,
como “governo dos ricos”. Desde a Antiguidade a expressão tem
um valor negativo, não indicando exatamente uma forma própria de
governo, mas determinando que o poder está sob o controle de um
número restrito de pessoas (às vezes ligadas por vínculos de san-
gue) e que gozam de privilégios por estar no poder.
República
Do latim res publica
(res publica = coisa
pública).
Contrapõe-se à monarquia.
Na república o chefe de Estado ou o grupo de pessoas que governa só
pode ser eleito pelo povo diretamente (por meio do voto) ou indiretamen-
te (mediante uma assembleia). Na Roma antiga, a república referia-se
à res publica (“coisa pública”), ou seja, ao bem comum para o qual são
criadas leis comuns, que são o princípio de construção da justiça.
No mundo contemporâneo, a partir do século XVIII, surgem as
repúblicas federativas, que têm por base a Constituição, os Estados
e a União. Inclui-se aí o Poder Legislativo, que seria formado pelo
Senado (representação dos Estados) e pela Câmara dos Deputados
(representantes da Nação).
Aristocracia
Do grego
aristokratía
(aristoi = melhores;
kratía = força,
poder).
Significa “governo dos melhores”: o governo é exercido por poucas
pessoas, que podem ser nobres ou não. Na Grécia antiga, Aristóteles
considerava a aristocracia uma boa forma de governo, voltada para
os interesses da comunidade. A oligarquia, ao contrário, seria uma
forma ruim de governo, que só atenderia a interesses particulares.
A partir da Idade Moderna, o termo aristocracia passou a ser enten-
dido simplesmente como um grupo de nobres (pessoas privilegiadas
por direito hereditário, que tenham títulos de nobreza ou sejam des-
cendentes delas), sem necessariamente apresentarem poder político.
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ROTEIRO DE TRABALHO
Com a observação do quadro acima, podemos
afirmar que é possível existir uma república
democrática ou uma monarquia parlamen-
tar, como ocorre atualmente na Inglaterra. Além
disso, pode-se fazer referência a uma república
oligárquica, tal qual a que foi vista no Brasil
entre os anos de 1889 e 1930, por exemplo, quando
VOCABULÁRIO
Moção: proposição feita por um participante de uma
assembleia para que seja discutida e votada.
Formas e regimes de governo
Democracia
Do grego
demokratía
(dêmos = povo).
Na Grécia clássica, a democracia era entendida como o governo do
povo, de todos os cidadãos, ou seja, dos homens livres que tinham
direitos políticos. A partir da Idade Moderna, a democracia pas-
sou a significar um tipo especial de república, com uma estrutura
democrática de organização do poder. Nesse sistema, o governante
é escolhido pelos cidadãos por eleição direta ou indireta, sendo
respeitada a vontade popular. Nas democracias contemporâneas há
também a divisão de poderes: Executivo, Judiciário e Legislativo,
que devem ter autonomia e equilíbrio entre si, exercendo vigilância
uns sobre os outros.
Parlamentarismo
Do inglês
parliament.
É o Parlamento que concentra o maior poder neste regime político.
Os parlamentares escolhem entre seus pares o primeiro-ministro,
que é o chefe de governo. Já o chefe de Estado, que representa a
Nação, pode ser um presidente eleito por voto direto ou um monarca.
Dessa forma, existem repúblicas parlamentaristas e monarquias
parlamentaristas. O primeiro-ministro, chefe de governo escolhido
pelo Parlamento, pode ser destituído do cargo: vota-se uma moção
de desconfiança e derruba-se o governo. Formam-se, então, governo
e gabinete (ministério) parlamentar novos. Os ministros também
devem ser submetidos à aprovação do Parlamento. Em alguns
casos, após a votação de uma moção de desconfiança para derru-
bar um gabinete ministerial, o primeiro-ministro pode dissolver o
Parlamento, sendo convocadas eleições em seguida. Assim, o povo
tem o direito de escolher entre a maioria que derrubou o gabinete e
o grupo ligado ao primeiro-ministro.
Presidencialismo
Do latim
praesident.
No regime político presidencialista existem três poderes: Executi-
vo, Legislativo e Judiciário. O primeiro é exercido pelo presidente
e seu corpo de ministros; o segundo, pelos deputados federais e
senadores (sistema bicameral); e o terceiro, pelos magistrados
do Superior Tribunal Federal e por todo o corpo de juízes. Cada
um desses poderes é autônomo, mas um poder deve controlar o
outro, mantendo-se uma relação de equilíbrio entre eles. O chefe
de Estado e o chefe de governo são representados pela figura do
presidente, chefe do Poder Executivo.
NA INTERNET
Com base no quadro acima, vamos investigar e descrever quais formas de governo já existiram
no Brasil desde a sua independência, em 1822, até os dias atuais?
os cafeicultores dominavam o cenário político e
governavam em seu benefício.
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1. Organize um quadro com informações sobre os regimes e as formas de governo e o período em
que vigoraram no Brasil. Esse quadro pode ter três colunas: na primeira, indique o período; na
segunda, a forma de governo; na terceira, o regime de governo.
2. Para realizar a pesquisa sobre o século XX, sugerimos a visita ao site do Centro de Pesquisa e
Documentação de História Contemporânea do Brasil, disponível em: <www.cpdoc.fgv.br>
(acesso em: 8 abr. 2013). Ele oferece inúmeras informações sobre a história brasileira após 1930.
3. Não se esqueça de sempre verificar e indicar suas fontes de pesquisa de informação. Prefira
sites de instituições e de estudiosos especializados.
4. Com os resultados da busca realizada, crie uma apresentação eletrônica para a classe.
Preocupe-se em ter uma linguagem visual comunicativa e objetiva, sem excessiva poluição visu-
al, para mostrar da melhor maneira possível os resultados da investigação.
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PONTO DE VISTA
Wolfgang Leo Maar é doutor em Filosofia e professor
da Universidade Federal de São Carlos – SP (Ufscar).
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A política e as políticas
Wolfgang Leo Maar
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pesar da multiplicidade de facetas a que se aplica a palavra “política”, uma delas goza de
indiscutível unanimidade: a referência ao poder político, à esfera da política institucional.
Um deputado ou um órgão de administração pública são políticos para a totalidade das
pessoas. Todas as atividades associadas de algum modo à esfera institucional política, e o espaço
onde se realizam, também são políticas. Um comício é uma reunião política e um partido é uma
associação política, um indivíduo que questiona a ordem institucional pode ser um preso político;
as ações do governo, o discurso de um vereador, o voto de um eleitor são políticos.
Mas há um outro conjunto em que a mesma palavra manifesta-se claramente de um modo
diverso. Quando se fala da política da Igreja, isto não se refere apenas às relações entre a Igreja e
as instituições políticas, mas à existência de uma política que se expressa na Igreja em relação a
certas questões como a miséria, a violência etc. Do mesmo modo, a política dos sindicatos não se
refere unicamente à política sindical, desenvolvida pelo governo para os sindicatos, mas às ques-
tões que dizem respeito à própria atividade do sindicato em relação aos seus filiados e ao restante
da sociedade. A política feminista não se refere apenas ao Estado, mas aos homens e às mulheres
em geral. As empresas têm políticas para realizarem determinadas metas no relacionamento com
outras empresas, ou com os seus empregados. As pessoas, no seu relacionamento cotidiano,
desenvolvem políticas para alcançar seus objetivos nas relações de trabalho, de amor ou de lazer;
dizer “Você precisa ser mais político” é completamente distinto de dizer “Você precisa se politizar
mais”, isto é, “Precisa ocupar-se mais da esfera política institucional”.
Da mesma maneira, um músico que exclama: “Eu sou um artista, não entendo de política”,
posicionando-se frente à arte engajada, refere-se à política institucional. E pode muito bem, sem
incorrer em nenhuma incoerência, continuar: “mas tudo que faço tem profundo sentido políti-
co”. Ele está fazendo uma distinção entre o valor político imediato de um comício pelas eleições
diretas para Presidente da República, que pretende interferir na estrutura do Poder institucional,
e o valor político não diretamente institucional do movimento sindical, das comunidades de
base da Igreja, de uma passeata de estudantes, do movimento gay, de uma invasão de terras, ou
de um manifesto cultural.
MAAR, Wolfgang Leo. O que é política? 16. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 9-12.
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Que coisa é política
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ode-se afirmar que a Política tem a ver
com quem manda, por que manda, como
manda. Afinal, mandar é decidir, é conse-
guir aquiescência, apoio ou até submissão. Mas é
também persuadir. Não se trata, como já foi dito, de um processo simples, e ninguém pode alegar
compreendê-lo integralmente, apesar dos esforços dos estudiosos, que há milhares de anos vêm
tentando dissecá-lo, analisá-lo e categorizá-lo. Em toda sociedade, desde que o mundo é mundo,
existem estruturas de mando. Alguém, de alguma forma, manda em outrem; normalmente uma
minoria mandando na maioria. Este fato está no centro da Política.
[…] É impossível que fujamos da Política. É possível, obviamente, que desliguemos a televisão, se
nos aparecer algum político dizendo algo […] que não estamos interessados em ouvir. Isto, porém,
não nos torna “apolíticos”, como tanta gente gosta de falar. Torna-nos, sim, indiferentes e, em última
análise, ajuda a que o homem que está na televisão consiga o que quer, já que não nos opomos a
ele. O problema é que, por ignorância ou apatia, às vezes pensamos que estamos sendo indiferentes,
mas, na verdade, estamos fazendo o que nos convém.
RIBEIRO, João Ubaldo. Política. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. p. 11-3.
João Ubaldo Ribeiro (1941-) é formado em Direito, mas sempre se dedicou ao
jornalismo. Publicou vários romances, entre eles Sargento Getúlio (1972), Viva o povo
brasileiro (1984), O sorriso do lagarto (1989) e A casa dos budas ditosos (1999).
1. Depois de ter lido os dois textos, registre em seu caderno as principais ideias de cada parágrafo deles.
2. Agora destaque a ideia principal de cada texto.
3. Há semelhanças e diferenças entre as opiniões dos autores sobre o significado do termo “política”?
Justifique.
4. Você concorda com os autores? Explique.
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Aquiescência: consentimento, concordância.
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DOCUMENTOS
Os diferentes poderes que compõem a República Romana e os direitos
peculiares de cada um
Políbio
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governo da República Romana estava dividido em três corpos tão bem equilibrados
em termos de direitos que ninguém, mesmo sendo romano, poderia dizer, com cer-
teza, se o governo era aristocrático, democrático ou monárquico. Atentando ao poder
dos Cônsules, dirá que é absolutamente monárquico e real; à autoridade do Senado, parecerá
aristocrático, e ao poder do Povo, julgará que é Estado Popular. Eis aqui os direitos de cada um
destes corpos.
Os Cônsules, enquanto estão em Roma e antes de saírem para a campanha, são árbitros dos
negócios públicos: todos os demais magistrados lhes obedecem, com exceção dos Tribunos. Eles
conduzem os embaixadores ao Senado, propõem os assuntos graves a serem tratados e têm o direito
de decretar. Sob seu encargo estão todos os atos públicos que deverão ser expedidos pelo Povo.
Devem convocar assembleias, propor leis e resolver sobre a maioria dos votos. Têm autoridade
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quase soberana nos casos de guerra e em todos os casos
relacionados a uma campanha, como mandar nos aliados
sob seu encargo, criar Tribunos militares, levantar exército
e escolher tropas. Durante as campanhas podem castigar
segundo seu arbítrio e gastar o dinheiro público como melhor lhes convier, para o que os acompanha,
sempre, um questor, que executa sem discutir todas as ordens. Se se considerar a República Romana
sob este aspecto, dir-se-á, com razão, que seu governo é meramente monárquico e real. Se, contudo,
alguns destes direitos (ou aqueles de que falaremos a seguir) mudassem agora ou dentro em pouco,
nem por isso nosso juízo será menos verdadeiro.
O primeiro em que o Senado manda é no erário; nada entra ou sai dele sem sua ordem…
Igualmente, todos os delitos cometidos dentro da Itália que requerem uma correição pública,
como traições, conspirações, envenenamentos e assassinatos, pertencem à jurisdição do Senado…
Precisando despachar alguma embaixada fora da Itália para reconciliar as potências, exortá-las ou
mandar declaração de guerra, é o Senado que tem esta incumbência… Se alguém entra em Roma
em ocasião na qual os Cônsules não estão, parecerá seu governo pura aristocracia […].
Partindo deste pressuposto não se estranhará a pergunta: qual parte compete ao Povo no gover-
no? […] O Povo julga e impõe multas quando o delito merece e estas recaem, principalmente,
sobre os que têm os principais cargos. Só ele condena à morte… O povo distribui os cargos entre
os merecedores… Cabe a ele aprovar ou revogar leis, além de ser consultado sobre a paz e a guerra.
POLÍBIO. História universal, VI, 6 e 7. In: PINSKY, Jaime. 100 textos de história. 4. ed. São Paulo: Contexto, 1988. p. 90-2.
Políbio (c. 203 a.C.-c. 120 a.C.) foi historiador e político helênico. Aproximou-se de personalidades públicas da
vida política de Roma, tendo estudado e escrito sobre a organização política romana durante a República. Sua obra,
dividida em quarenta livros, encerra-se com a destruição de Cartago.
VOCABULÁRIO
Erário: recursos financeiros públicos.
1. A qual período da história romana se refere o autor?
Quais são seus marcos de início e fim?
2. O que caracterizaria, segundo Políbio, um governo aris-
tocrático, monárquico e republicano?
3. Organize um quadro com todos os aspectos menciona-
dos pelo autor sobre a organização do poder no período
estudado. Inclua os cargos e suas atribuições.
1. Quando elegemos um deputado federal e um presidente, que poderes estamos delegando a
essas pessoas?
2. Algum dos poderes citados na tabela concentra maior autoridade? Justifique.
3. Há uma inter-relação entre esses poderes? Explique.
4. Há alguma relação entre a organização do poder na Roma antiga, conforme o texto de Políbio (na
página anterior), e a organização do poder em nossa sociedade? Você acha que são organizações
políticas de sociedades democráticas? Justifique.
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Agora, leia a tabela abaixo, que mostra a organização política do Brasil conforme a Constituição
Federal de 1988, e faça as atividades do Roteiro de trabalho no fim da página ao lado.
Organização política do Brasil conforme a Constituição Federal de 1988
Poder Legislativo Poder Executivo Poder Judiciário
Congresso Nacional/
Câmara dos Deputados/
Senado
Presidência e ministérios
Supremo Tribunal Federal
e outras instâncias
Algumas atribuições do
Congresso Nacional
Art. 48. Cabe ao Congresso Nacional,
com a sanção do Presidente da
República […] dispor sobre todas as
matérias de competência da União,
especialmente sobre:
I – sistema tributário, arrecada-
ção e distribuição de rendas;
II – plano plurianual, diretrizes
orçamentárias, orçamento
anual, operações de crédito,
dívida pública e emissões de
curso forçado;
III – fixação e modificação do efe-
tivo das Forças Armadas;
[…]
V – limites do território nacional,
espaço aéreo e marítimo e
bens do domínio da União;
[…]
VIII – concessão de anistia;
[…]
X – criação, transformação e
extinção de cargos, empre-
gos e funções públicas;
[…]
XII – telecomunicações e radio-
difusão;
XIII – matéria financeira, cambial e
monetária, instituições finan-
ceiras e suas operações;
XIV – moeda, seus limites de
emissão, e montante da dívi-
da mobiliária federal.
Art. 49. É da competência exclusiva
do Congresso Nacional:
[…]
II – autorizar o Presidente da
República a declarar guer-
ra, a celebrar a paz…
[…]
IX – julgar anualmente as
contas prestadas pelo
Presidente da República…
X – fiscalizar e controlar, dire-
tamente, ou por qualquer
de suas Casas, os atos do
Poder Executivo, incluídos os
da administração indireta;
[…]
XII – apreciar os atos de conces-
são e renovação de concessão de
emissoras de rádio e televisão.
Art. 76. O Poder Executivo é exercido
pelo Presidente da República, auxilia-
do pelos Ministros de Estado.
[…] Art. 84. Compete privativamente
ao Presidente da República:
I – nomear e exonerar os
Ministros de Estado;
[…]
IV – sancionar, promulgar e
fazer publicar as leis, bem
como expedir decretos e
regulamentos para sua
fiel execução;
V – vetar projetos de lei, total
ou parcialmente;
[…]
XIII – exercer o comando supre-
mo das Forças Armadas,
nomear os Comandantes
da Marinha, do Exército e
da Aeronáutica, promover
seus oficiais-generais e
nomeá-los para os cargos
que lhes são privativos;
XIV – nomear, após aprovação
pelo Senado Federal, os
Ministros do Supremo
Tribunal Federal e dos
Tribunais Superiores, os
Governadores de Terri-
tórios, o Procurador-
-Geral da República, o
presidente e os diretores
do Banco Central…
[…]
XXIV – prestar, anualmente, ao
Congresso Nacional,
dentro de sessenta dias
após a abertura da ses-
são legislativa, as con-
tas referentes ao exercí-
cio anterior.
Art. 92. São órgãos do Poder
Judiciário:
I – o Supremo Tribunal Federal;
I-A – o Conselho Nacional de
Justiça;
II – o Superior Tribunal de
Justiça;
III – os Tribunais Regionais
Federais e juízes federais;
IV – os Tribunais e juízes do tra-
balho;
V – os Tribunais e juízes eleito-
rais;
VI – os Tribunais e juízes milita-
res;
VII – os Tribunais e juízes dos
estados e do Distrito
Federal e Territórios.
[…]
Art. 102. Compete ao Supremo
Tribunal Federal a guarda da
Constituição, cabendo-lhe:
I – processar e julgar, originaria-
mente:
a) a ação direta de inconstitucionali-
dade de lei ou ato normativo fede-
ral ou estadual e a ação declarató-
ria de constitucionalidade de lei ou
ato normativo federal;
b) nas infrações penais comuns,
o Presidente da República, o
Vice-Presidente, os membros do
Congresso Nacional, seus próprios
Ministros e o Procurador-Geral da
República;
c) nas infrações penais comuns e
nos crimes de responsabilida-
de, os Ministros de Estado e os
Comandantes da Marinha, do
Exército e da Aeronáutica […].
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INTERDISCIPLINARIDADE
O ser humano como um ser social
Lemos na seção Contexto que o filósofo grego Aristóteles concebeu a política como uma ativi-
dade inerente ao ser humano. Segundo ele, “o homem é um animal político”. Isso quer dizer que
o ser humano só pode ser concebido como tal com base na vida em sociedade. É por meio das
relações sociais que vai travando ao longo da vida que o indivíduo vai se constituindo como ser
humano. Toda pessoa passa por um processo de humanização que se inicia na primeira infância:
aprende a falar, a andar, a relacionar-se com os outros e com ela mesma, na família, na escola, em
todos os lugares e momentos de sua vida. Dizer isso equivale a dizer que somos seres sociais.
Leia a crônica a seguir e reflita sobre o significado da política para a vida do ser humano
em sociedade.
A humanidade no banheiro
Renata Lima Aspis
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úcio não estava com vontade nenhuma de levantar-se naquela manhã. “Tem dias em
que a gente se sente como quem partiu ou morreu…” (será que o poeta estava pensando
em depressão quando escreveu isso?). Mas quem é que falou em depressão? Ele só não
estava com vontade de falar com ninguém e acabou-se. Sua vontade era simplesmente trancar-se
em casa e ficar só. Sozinho pra fazer o que quisesse como quisesse ou simplesmente não fazer
nada e não dar satisfação pra ninguém. Como não tinha a casa toda só para si, como sabia que
se demorasse demais para levantar-se logo ouviria os chamados nervosos de sua mãe, foi para o
banheiro e trancou-se lá. Não tinha vontade de tomar banho nem de usar a privada, mas entre
uma coisa e outra, sem saber onde enfiar o próprio corpo, acabou ligando o chuveiro e depois
se sentando na privada com uma revista na mão. Folheava-a sem maiores interesses quando
uma ideia meio boba e divertida passou pela sua cabeça: o que aqueles caras que fizeram essa
revista estariam fazendo agora, exatamente nesse momento? Provavelmente, uma outra revista,
para ser publicada esse mês. Ora, teriam que estar mesmo lá, na redação, pensando e fazendo
o número do mês que vem, exatamente como fizeram o mês passado para que eu pudesse estar
aqui, agora, lendo isso, pensou Lúcio. Exatamente como deve ter milhares de caras trabalhando
na Companhia de água agora, pra poder estar saindo essa água toda desse chuveiro aqui. E daqui
a pouco será hora do almoço e eles irão para o refeitório comer. Mas isso só será possível porque
alguém está cozinhando essa comida que eles irão comer depois. E alguém teve que ter plantado
essa comida algum dia e só pôde plantar porque alguém desenvolveu as sementes e inventou
os fertilizantes e os agrotóxicos. E ele, ou eles, só puderam ficar no laboratório desenvolvendo
seus estudos porque alguém estava plantando o algodão que seria colhido para se transformar na
camisa que eles iriam vestir para ir para o trabalho! Mas quem estava fazendo a papinha e tro-
cando a fralda do seu filhinho seria quem, anos mais tarde, iria conseguir aperfeiçoar a fórmula
do produto? E quem dirigiu o caminhão que transportou a comida? Quantas pessoas fizeram o
caminhão? Com que know-how? Quem desenvolveu?
Quem vai descobrindo uma coisa, o faz baseado em descobertas anteriores? E o que foi neces-
sário para que isso tivesse sido possível? Todas as lavadeiras, as cozinheiras, agricultores… Ai!
Chega! Que loucura de ideia era essa, que coisa mais comprida, mais sem fim… Mas, espera, tem
alguma coisa a ver. Vamos recapitular. Peguemos esse sabonete como exemplo. (A essa altura ele
já estava debaixo da água se ensaboando.) Lúcio pensou isso meio imitando o jeito de um profes-
sor e meio sério, já sem saber se sua ideia tinha algum pé ou cabeça ou não. Então, o sabonete. O
sabonete não dá em árvore, não é um produto da natureza. Mas se tiver uma fragrância de jasmim,
por exemplo, tem uma ligação com a natureza (e não só por isso, talvez). Mas alguém teve que
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Edescobrir um jeito de transformar aquele jasmim que está na mata em cheirinho bom de sabonete!
E esse alguém, será que foi uma pessoa só? Será que teve uma inspiração luminosa, súbita, ou ficou
anos pesquisando isso?
– LÚÚÚCIOOO!
Caramba, o que é agora, bem no meio da minha ideia mirabolante!
– QUIÉÉÉ!? Ah! Tá bom, já sei, não demore, não demore!
Por que não posso demorar? Quem está com pressa de quê? Por que nunca posso fazer o que
eu quero à hora que eu quero? Por que não posso simplesmente gastar toda a água da caixa, toda
a água da cidade? Bem que eu queria ser o único habitante da Terra! Bem, voltando ao assunto do
sabonete. Hummm! Deixa eu pensar, onde estava mesmo? Ah! Lembrei! Alguém teve que desen-
volver a tecnologia pra fabricar um simples sabonete como esse. E a pergunta é: quantas pessoas
estão envolvidas nisso? Se formos desvendando todas as relações que existem entre as
pessoas para os lados e para trás, será que mais perto ou mais longe, ou seja, direta ou indiretamen-
te estamos todos ligados? Parece exagero. Vamos tentar um outro exemplo. (Nesse ponto, Lúcio
já estava completamente envolvido com a ideia de que o mundo era um grande emaranhado de
gente e que mesmo a pessoa mais remota em algum tempo ou espaço tivesse a ver com todo o
mundo, ou melhor, com ele!)
O exemplo podia ser o papel higiênico ou a maçaneta da porta, a embalagem do shampoo ou o
azulejo, o fato era que Lúcio caía sempre na mesma coisa; uma teia enorme, cheia de caminhos
e atalhos que acabavam sempre na mesma coisa: ele mesmo! Minha Nossa Senhora, pensou, e
eu que achava que estava sozinho nesse banheiro! Pensei que podia fazer o que quisesse, que
não devia nada a ninguém! Pensei que eu fosse eu, simplesmente!
Mas, quer dizer que, na verdade, eu sou mais que um corpo que se ensaboa sem pensar, sou
um usuário desse sabonete, sou um leitor de revistas, um filho de alguém, uma pessoa que usa
uma maçaneta, um telespectador, um consumidor, vizinho, amigo, irmão, namorado, enfim,
estou envolvido em uma grande teia de relações sociais. Parece impossível. E ainda há pouco
eu me perguntava por que não podia gastar a água toda da cidade! Falei que queria ser o único
habitante desse planeta. Nossa! Como eu seria se fosse o único ser humano do planeta Terra?…
Ou não seria alguém?
1. Veja como Lúcio, no ócio, começa a divagar e,
depois, levando mais a sério seus pensamentos,
acaba chegando a uma conclusão filosófica impor-
tante sobre o que significa ser um ser humano. Qual
é essa conclusão?
2. Se Lúcio estiver certo em sua concepção de ser
humano, que ideia de política provavelmente ele tem?
Será que para ele política é a atividade dos políticos?
Ou é a atividade de qualquer pessoa quando vota ou
trabalha por alguma causa? Será que Lúcio acredita
que qualquer atividade humana, por interferir em toda
a sociedade, e, portanto, no cotidiano de todos que
nela vivem, é uma atividade política?
3. Partindo da ideia que você acha que Lúcio tem sobre
política, responda: Você concorda com ele? Por quê?
Redija um texto que expresse sua opinião. Não se
esqueça de apresentar argumentos que a sustentem.
Aristóteles.
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RELEITURA
Estudantes amazonenses em caminhada na avenida Eduardo, em Manaus (AM), cujo objetivo foi alertar a sociedade
e o governo sobre os problemas enfrentados pelas crianças e adolescentes que vivem nas ruas das grandes cidades,
por meio da Campanha de Enfrentamento à Situação de Moradia nas Ruas de Crianças e Adolescentes: Criança Não
é de Rua, que teve mobilizações simultâneas em dez cidades brasileiras. Foto de 2009.
Quarenta movimentos de juventude fazem manifestação na Esplanada dos Ministérios para denunciar os problemas
da educação pública, da juventude negra, do machismo e do racismo no país. Brasília, 02/04/2013.
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1. Com base em suas reflexões e nos textos estudados neste capítulo, analise cada uma das ima-
gens e explique em quais delas estão ocorrendo atos políticos. Justifique.
2. Considerando as justificativas da resposta anterior, explique em quais contextos e situações
você, cidadão brasileiro, poderia ter uma atuação política.
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BRENER, Jayme. Regimes políticos. São Paulo: Scipione, 1996. (Ponto de apoio).
O livro realiza uma análise histórica e sociológica dos principais regimes políticos dos séculos XIX e XX, entre eles o
capitalismo, o socialismo, as democracias liberais, o fascismo e o nazismo. O autor considera as condições favoráveis
para o surgimento desses regimes, apontando seu apogeu e crise e posicionando-se criticamente sobre as vantagens
e as desvantagens de cada regime.
SANTOS JR., Walter. Democracia: o governo de muitos. São Paulo: Scipione, 1996. (Opinião e debate).
Este livro traça um panorama da discussão que envolve a democracia. O que é democracia? Quais são suas origens
históricas? Como sabemos, no mundo atual, se estamos diante de um governo democrático? Essas e outras questões
podem ser compreendidas por meio desta obra.
Terra e liberdade. Direção de Ken Loach. Reino Unido/Alemanha, 1986. (109 min).
O filme se passa em um dos momentos de maior discussão ideológica sobre política do século XX: a Guerra Civil
Espanhola (1936-1939). Entre os que lutavam ao lado dos republicanos, estavam socialistas stalinistas ou trotskistas,
além dos anarquistas. Na Falange, os conservadores apoiavam os fascistas.
Constituição Federal do Brasil (1988). Disponível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/ConstituicaoConstituiçao.
htm>. Acesso em: 8 abr. 2013.
Versão eletrônica da Constituição brasileira vigente.
Especial: 20 anos da Constituinte: as dificuldades políticas. Tv Câmara. Disponível em: <http://www2.
camara.leg.br/camaranoticias/tv/materias/CAMARA-INFORMA/185074-ESPECIAL---20-ANOS-DA-
CONSTITUINTE---AS-DIFICULDADES-POLITICAS.html>. Acesso em: 8 abr. 2013.
Retrospectiva do processo de discussão na Constituinte e aprovação da Constituição de 1988.
Os 20 anos da Constituição de 1988. Arquivo N. Disponível em: <http://globotv.globo.com/globo-news/arquivo-
n/v/os-20-anos-da-constituicao-de-1988/891036/>. Acesso em: 8 abr. 2013.
Retrospectiva do processo de discussão na Constituinte e aprovação da Constituição de 1988.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
No Dia dos Professores, sindicatos
ligados à categoria realizam protes-
tos por reajuste salarial em frente à
Secretaria Estadual de Educação, na
Praça da República, em São Paulo
(SP). Os professores protestam ves-
tindo um avental com desenho de um
corpo nu. Foto de outubro de 2009.
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O Príncipe e Leviatã: o Estado
absolutista e a construção do
Estado-nação moderno
CAPÍTULO 2
A
pós o século XV, durante o Renascimento cultural europeu, valorizou-se o ser humano em detri-
mento do divino. Ao mesmo tempo, fortalecia-se o comércio europeu com a expansão marítima
e a conquista da América. Começavam também a desenvolver-se pressupostos científicos
com base na razão e no cálculo. Nasceu uma nova forma de encarar e exercer a política. Surgiram os
Estados nacionais europeus e suas monarquias de orientação absolutista. Nesse processo engen-
draram-se a organização política e muitos dos princípios contemporâneos. Assim, compreender esse
processo significa desvendar parte da
história da política das sociedades em
que vivemos. Não existem mais monar-
quias absolutistas, porém continuamos a
viver em Estados-nações, que se conso-
lidaram na Idade Moderna. E é isso o que
iremos estudar neste capítulo.
NOCRET, Jean. A família de Luís XIV (detalhe), 1670.
Óleo sobre tela, 298 cm 419 cm. Na imagem, Luís
XIV, rei absolutista que governou a França entre 1643
e 1715, aparece como o deus grego Apolo. Chamado
também de “Rei Sol”, é representado nesta cena com
sua família, ocupando o lugar central. Os reis abso-
lutistas centralizavam o poder e diziam detê-lo por
vontade divina. Ao monarca Luís XIV é atribuída a fa-
mosa frase: “O Estado sou eu.”. Nesta tela, portanto, o
artista expressa o poder do governante, buscando na
tradição clássica elementos que valorizem os signos
do poder absolutista.
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1385 ¬ Centralização monárquica em Portugal, não se constituindo ainda
governos absolutistas.
1481 ¬ D. João II assume o trono português, investindo fortemente na
centralização do poder nas mãos do rei.
1485 ¬ Início da dinastia Tudor na Inglaterra: centralização monárquica sob
o governo de Henrique VII.
1469 ¬ União dos Reinos de Castela e Aragão por meio do casamento de
Isabel I (de Castela) e Fernando II (de Aragão).
1492 ¬ Centralização monárquica na Espanha: expulsão dos mouros de
Granada. Chegada de Colombo à América.
1495 ¬ D. Manuel torna-se rei de Portugal.
1498 ¬ Vasco da Gama descobre um novo caminho para as Índias.
1500 ¬ Pedro Álvares Cabral chega às terras que viriam a ser chamadas
de Brasil.
Período de florescimento das monarquias nacionais na Europa.
Intensificação do processo de “caça às bruxas” na Europa a partir de
meados do século. Práticas mercantilistas, das quais alguns princípios já
estavam formulados desde a segunda metade do século XV.
1509-1547 ¬ Reinado de Henrique VIII na Inglaterra.
1513-1516 ¬ O filósofo florentino Nicolau Maquiavel escreve O príncipe.
1514 ¬ Francisco I torna-se rei da França, criando o Estado absolutista francês.
1515-1547 ¬ Processo de centralização monárquica na França — dinastia Valois.
1517 ¬ Início da Reforma Luterana na Alemanha: criação da religião
protestante em oposição ao catolicismo, iniciando-se, então, vários
conflitos religiosos na Europa.
1519 ¬ Carlos V torna-se rei da Espanha.
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Os mouros de Granada se submetem aos reis católicos, pintura de
Antonio Rodriguez, século XVIII. (sem dimensões)
CRANACH, Lucas. O Velho –
Retrato de Martinho Lutero, 1528.
Óleo sobre tela, 34,3 cm 24,4 cm.
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1536 ¬ O rei D. João III institui a Inquisição em Portugal. Até 1684 foram
queimadas 1 379 pessoas, muitas acusadas de feitiçaria.
1541 ¬ Início da Reforma Calvinista na Suíça sob a liderança de João Calvino.
1545-1563 ¬ Concílio de Trento: Contrarreforma Católica.
1556 ¬ Filipe II torna-se rei da Espanha.
1580 ¬ Início da União Ibérica.
1589 ¬ Henrique IV torna-se rei da França.
Começa o período de maior força do absolutismo na França
(até o século XVIII).
1603 ¬ Morte da rainha Elizabeth na Inglaterra, pondo fim à dinastia Tudor.
Jaime I assume o trono iniciando a dinastia Stuart.
1610 ¬ Luís XIII torna-se rei da França.
1621 ¬ Filipe IV torna-se rei da Espanha.
1625 ¬ Carlos I assume o trono inglês.
1640 ¬ Fim da União Ibérica. D. João IV torna-se rei de Portugal. Início da
Revolução Puritana na Inglaterra, a primeira revolução burguesa da
Europa.
1643 ¬ Luís XIV torna-se rei da França.
1649 ¬ Deposição e execução do rei Carlos I. Criação do regime republicano
na Inglaterra, sob a liderança parlamentar de Oliver Cromwell.
1651 ¬ Publicação de Leviatã, do filósofo inglês Thomas Hobbes.
Filipe IV da Espanha, retratado por
Diego Velázquez em 1644. Óleo sobre
tela, 130,2 cm 97,8 cm.
DYCK, Antoon van. Rei da Inglaterra, à cavalo, 1633.
Retrato, óleo sobre tela, 370 cm 265 cm. Carlos I, à
cavalo, com seu cavalariço – Saint Antoine.
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CONTEXTO
A formação do Estado moderno
No século XVI, a Europa definitivamente já não
era a mesma da Idade Média (476-1453). A partir do
século XI começou a ocorrer grande crescimento
das atividades comerciais. No final da época medie-
val, os mercadores e os banqueiros prenunciavam
o desenvolvimento capitalista. No século XVI, foi
a vez de a ciência inovar e desafiar as antigas teo-
rias. O Renascimento artístico e cultural, iniciado
na Península Itálica no século XIV, colocaria o ser
humano como o centro do Universo. O humanismo
passou a ser referência para muitas pessoas nos
séculos que seguiram. Além disso, a expansão marí-
tima levaria para a Europa não apenas riquezas,
mas também a possibilidade de novas conquistas.
Nesse contexto, foram se constituindo Estados
nacionais unificados sob o signo de uma família
real. Assim aconteceu na França, na Inglaterra, em
Portugal e na Espanha, entre outros reinos europeus.
A origem desses Estados, contudo, nos remete
à Idade Média. Desde o império constituído por
Carlos Magno (rei dos francos) entre os séculos
VII e VIII, começaram a ser organizados alguns dos
fios de uma história que teria desdobramentos na
formação de reinos nos séculos seguintes. Afirma
Gérard Soulier, jurista francês:
A Europa nasceu na Idade Média e os traços principais
da Europa moderna desenham-se aí, pouco a pouco,
de maneira contrastada: por um lado, o fracionamento
— em particular, na sociedade feudal — lentamente
reduzido pela formação de Estados, mas estes vão
acentuar as oposições; por outro, a unidade numa fé
cristã que conquistou o conjunto do continente. Por
outro ainda, os sábios, os letrados — essencialmente
clérigos — têm uma língua comum, o latim, e, quando
as universidades se desenvolvem, a partir do século
XIII, estabelece-se entre elas uma circulação intensa,
de uma ponta à outra do continente…
SOULIER, Gérard. A Europa: história, civilização,
instituições. Lisboa: Instituto Piaget, s.d. p. 38.
Afirma ainda o mesmo autor:
Os reis são, exatamente, os artesãos do Estado e
é em seu proveito que foi inicialmente formulada
a doutrina da soberania por legistas franceses
alimentados de Direito romano. Mas a invenção
do Estado não é uma invenção de juristas; é, em
primeiro lugar, o fruto da obstinação das grandes
dinastias em unificarem territórios sob o seu impe-
rium. A palavra fronteira aparece no século XIV, tal
como o símbolo nacional da bandeira. No momento
do Renascimento, vários grandes estados já mani-
festam, claramente, a sua presença na História. A
política dos reis foi, em primeiro lugar, assegurar a
sua autoridade sobre um território; esta autoridade
recebeu a legitimação da teoria da soberania, mas
esta deslocar-se-á do monarca para a nação.
SOULIER, op. cit., p. 47-8.
Diferentemente do que ocorria na Idade Média,
no Estado moderno o poder não se afirmaria mais
em relações pessoais, ou seja, mediante laços esta-
belecidos entre os representantes das diferentes
ordens (nobreza, clero e trabalhadores). As relações
de fidelidade, hierarquia e obrigação entre campo-
neses e senhores ou entre vassalos e suseranos não
definiriam a ordem social da mesma forma. Uma das
principais características do Estado moderno que
aqui estaria em processo de gestação desde fins da
Idade Média era sua impessoalidade. O governante,
como chefe de Estado, deveria governar independen-
temente dessas relações de compromisso, oferecen-
do em especial segurança a todos os seus súditos.
Enquanto na Idade Média os exércitos eram pri-
vados e atendiam aqueles que estavam protegidos
por um nobre, na Idade Moderna (1453-1789) o exér-
cito do rei defenderia todos aqueles que vivessem
em um mesmo território. Surge a definição de um
espaço nacional que tem fronteiras delimitadas.
Derrubados os muros das cidades medievais, foram
postas em seu lugar linhas invisíveis, abstratas, que
só podiam ser encontradas nos mapas, mas
que eram defendidas pelos exércitos reais. Tais exér-
citos eram sustentados pelo rei com o apoio finan-
ceiro dos comerciantes burgueses, interessados
em conquistar melhores condições para a expansão
de seus negócios com a ampliação das fronteiras.
O processo de afirmação desses Estados nacio-
nais estendeu-se por séculos, sendo necessário cons-
truir um corpo de leis nacionais e vários símbolos que
permitissem a homens e mulheres de um mesmo
país se identificarem como tal. Até mesmo uma his-
tória nacional precisou ser criada. Na Idade Média,
caso perguntássemos a uma pessoa da região da
atual França se ela era francesa, certamente ela res-
ponderia que não, pois se sentia vinculada à região
em que nascera, à terra, mas não à nação. Poderia
responder que era de tal cidade ou católica, mas não
francesa. Além da formulação de leis nacionais às
quais todos estariam submetidos, buscou-se unificar
a moeda e ainda adotar uma língua nacional, embora
isso não tenha ocorrido com frequência.
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A Torre Eiffel (abaixo, à esquerda, em
foto de 2008), em Paris, foi cons-
truída em 1889 em homenagem ao
primeiro centenário da Revolução
Francesa. Ela tem 324 metros de al-
tura e recebe mais de 6 milhões de
turistas por ano. O Big Ben (abaixo, à
direita, em foto de 2008), por sua vez,
localiza-se em Londres, em uma das
torres do Parlamento inglês. Instalado
em 1859, seu sino pesa 13 toneladas.
É um dos pontos turísticos mais im-
portantes da capital inglesa. O Cristo
Redentor (ao lado), cartão-postal do
Rio de Janeiro e símbolo nacional, foi
inaugurado em 1884 pelo imperador
D. Pedro II. Como a Torre Eiffel e o Big
Ben, também atrai inúmeros turistas.
Além da importância para os seus
respectivos países, os três fazem parte
do Patrimônio Histórico Mundial ou
Patrimônio da Humanidade, na clas-
sificação da Unesco (Organização das
Nações Unidas para a Cultura, Ciência
e Educação).
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O conceito de Nação propriamente dito só sur-
giu no século XVIII. Ele se refere ao sentimento de
pertencer a um certo país, a uma imagem constitu-
ída daquilo que une um determinado agrupamento
humano, todavia que não corresponde necessaria-
mente à realidade cotidiana de todos que habitam
aquele espaço. Assim, por exemplo, pode-se conside-
rar hoje que o Brasil é o país do Carnaval e do fute-
bol. Trata-se de uma imagem que não engloba toda a
variedade de problemas e realidades brasileiras, mas
grande parte dos brasileiros se vê como parte da
Nação do Carnaval e do futebol. Da mesma forma, a
Torre Eiffel é um símbolo da França, o Big Ben é um
símbolo da Inglaterra e o Corcovado, do Brasil.
As monarquias nacionais
A primeira forma de expressão e organização
política desses novos Estados foram as monar-
quias nacionais, que logo caminharam para sua
forma absolutista. Essa maneira de organizar o
governo ficou conhecida como Antigo Regime,
rótulo atribuído pelos historiadores da época poste-
rior à eclosão da Revolução Francesa (1789), que der-
rubaria a monarquia absolutista na França. Quase
todos os reinos europeus adotaram esse modo de
organização do poder durante a Idade Moderna,
com exceção dos Países Baixos (Bélgica e Holanda),
que adotaram a forma republicana sob o título de
República Holandesa dos Países Baixos Unidos.
Embora Portugal tenha se tornado um Estado
unificado em fins do século XIV, só passou a ser
um Estado absolutista mais tarde. O auge desse
tipo de governo ocorreu no século XVIII, quando
o marquês de Pombal era secretário de Estado,
durante o reinado de D. José I.
Na Espanha, finalmente unificada em 1492, o
absolutismo fortaleceu-se com as riquezas trazidas
da América no século XVI, fazendo daquela nação
uma das mais poderosas da Europa, principalmente
durante o reinado de Filipe II e enquanto durou a
anexação de Portugal e suas colônias (1580-1640).
Na Inglaterra, por sua vez, o absolutismo
sofreu sua primeira derrota nos anos 1640, quando
o Parlamento, liderado por Oliver Cromwell, depôs
o rei e instaurou o regime republicano. No entanto,
em 1660 a monarquia foi restaurada, porém o rei
não tinha mais poderes absolutos.
Em relação à França, o absolutismo teve força
entre os séculos XVII e XVIII, a partir do reinado
de Luís XIII (1610-1643); o rei Luís XIV (1643-1715),
o Rei Sol, foi um de seus maiores expoentes. Ele
subiu ao trono com apenas 5 anos de idade – sua
mãe, Ana d’Áustria, era a regente e confiou o
poder ao cardeal italiano Giulio Mazarino, que
governou até 1851. O Rei Sol assumiu efetiva-
mente o trono com 13 anos, ainda com o apoio do
cardeal, que esteve ao seu lado até 1661.
O absolutismo apoia-se na teoria do direito divi-
no dos reis, propagada pelo bispo Jacques Bossuet
(1627-1704), que, em sua obra Política tirada da
Sagrada Escritura, afirmava:
O rei vê de mais longe e de mais alto; deve acre-
ditar-se que ele vê melhor, e deve obedecer-se-lhe
sem murmurar, pois o murmúrio é uma disposição
para a revolta.
O poder real emana da vontade de Deus; o rei
era seu primeiro súdito e o ser humano de maior
autoridade. O monarca absoluto não depende do
Parlamento, embora ele possa existir e ser con-
vocado quando o rei assim o desejar. Seu poder
é também hereditário, ou seja, é transmitido aos
filhos. Sua vontade é soberana. O rei seria a própria
divindade, segundo Bossuet. Luís XIV sintetizava
seu absolutismo ao afirmar: “O Estado sou eu.”.
No governo absolutista, a superioridade do rei e
o caráter divino de seu poder eram reforçados por
um conjunto de rituais. Desenvolveram-se regras
de etiqueta que separavam as pessoas comuns
daquelas que poderiam estar à altura do monarca.
Somente os privilegiados que dominavam essas
regras e os rituais palacianos tinham acesso aos
espaços da realeza. Havia uma forma específica
de dançar, fazer as refeições, cumprimentar as
pessoas ou vestir-se. Muitas sutilezas tinham de
ser respeitadas, como a maneira de segurar um
lenço, os momentos em que um olhar era permitido
sem configurar uma indelicadeza, enfim, era uma
micropolítica que não só construía alianças como
assegurava ao rei uma posição diferenciada.
Durante as monarquias absolutistas, os reis man-
tinham uma vida cheia de cerimoniais que tinham
por objetivo elevar ainda mais sua figura. Os nobres
deveriam seguir um rigoroso código de etiqueta, e o
vestuário e o comparecimento em festas, recepções
e bailes reais eram de suma importância.
Vivendo intensamente o ambiente da
corte, muitos desses nobres envolviam-
-se em intrigas palacianas, das quais
os romances também faziam parte.
Em contraposição à vida da corte, os
camponeses, que compunham a maior
parte da população francesa, viviam
com simplicidade, sem acesso aos
privilégios dos cortesãos.
Retrato de Filipe IV da Espanha (detalhe),
de Diego Velázquez, 1644. (sem dimensões)
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O bobo da corte Sebastián de Morra, de Diego Velázquez, 1644.
Óleo sobre tela, 106 cm 81 cm.
A marquesa Brígida Spinola Doria, de Peter Paul Rubens, c. 1606.
Óleo sobre tela, 152 cm 99 cm.
A família de Filipe IV ou As meninas, como ficou mais conhecida esta obra-prima do século XVII de Diego Velázquez, repre-
senta uma cena do cotidiano da famíla real. A filha de cinco anos do rei está no centro do quadro, cercada por uma escolta
de criados. O rei e a rainha estão refletidos no espelho e o próprio artista está presente na cena em frente ao grande cavalete
que sustenta uma tela de pintura. Óleo sobre tela, 318 cm 276 cm.
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Estado absolutista:
burguês ou feudal?
As monarquias nacionais absolutistas afirma-
ram-se no século XVI, mas no século anterior já
se observavam os primeiros sinais de sua cons-
trução. Era um momento de afirmação do capi-
talismo e de crise do feudalismo. Isso não quer
dizer, entretanto, que as monarquias nacionais
absolutistas tenham expressado o domínio dos
burgueses capitalistas sobre a nobreza feudal. As
revoluções burguesas ocorreriam efetivamente
muitos anos mais tarde — no caso inglês, no sécu-
lo XVII, e na França, somente no fim do século
XVIII, com a Revolução Francesa.
Então o que era o Estado absolutista? Leia o
que afirma o historiador britânico Perry Anderson:
O paradoxo aparente do absolutismo na Europa
ocidental era que ele representava fundamental-
mente um aparelho de proteção da propriedade e
privilégios aristocráticos, embora ao mesmo tem-
po os meios através dos quais esta proteção era
concedida pudessem assegurar simultaneamente
os interesses básicos das classes mercantis e ma-
nufatureiras nascentes.
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado absolutista.
Lisboa: Afrontamento, 1984. p. 16.
Assim, as monarquias absolutistas podem ser
consideradas uma forma de dominação da nobre-
za sobre a massa camponesa. No entanto, a bur-
guesia conseguiria se beneficiar desse processo
ainda que não tivesse o controle direto do poder.
Em outra passagem, Perry Anderson explica:
Os senhores que se mantiveram proprietários dos
meios de produção fundamentais em qualquer
sociedade pré-industrial eram, evidentemente,
proprietários nobres. Durante toda a primeira fase
da época moderna, a classe dominante — econô-
mica e politicamente — era, portanto, a mesma
da própria época medieval: a aristocracia feudal.
Esta nobreza sofreu profundas metamorfoses nos
séculos que se seguiram ao fim da Idade Média:
mas, desde o princípio ao fim da história do abso-
lutismo, nunca foi desalojada do seu domínio do
poder político.
ANDERSON, op. cit., p. 42-3.
Essa nova organização política, que contraria
a tradicional fragmentação local medieval, tem
na cobrança de impostos uma das formas de
sustentação: eram recolhidos impostos da bur-
guesia mercantil e da população camponesa. A
classe senhorial era, geralmente, isenta desses
pagamentos. No entanto não se tratava mais de
uma relação entre senhores e vassalos ligados
por mecanismos de proteção. Os nobres no poder
cobravam taxas de todos os camponeses, inde-
pendentemente de qualquer relação pessoal. De
maneira gradual, esses impostos foram substi-
tuindo a corveia, o trabalho gratuito que os cam-
poneses realizavam nas terras do senhor.
O maior gasto do Estado, tal qual ocorria
na Idade Média, era com a guerra, vocação dos
nobres. Essa era uma forma de ampliar o domínio
daqueles que estavam no poder e de conquistar
novas terras, criando novos espaços de negócios.
A maior parte da renda nacional era consumida
com as atividades militares. A composição dos
exércitos já não atendia apenas a uma lógica local
— havia uma tendência a formar exércitos profis-
sionais do Estado, compostos em grande parte de
soldados mercenários, isto é, contratados para
lutar. Esses exércitos combatiam os inimigos
internos e reprimiam os camponeses, que, em
várias ocasiões, organizavam protestos contra a
cobrança de impostos.
O comércio era outro elemento fundamental
da prosperidade do Estado absolutista. No sécu-
lo XVII, pode-se afirmar que se obteve sucesso
somente nos casos francês e inglês. Assim, França
e Inglaterra desenvolveram políticas protecionis-
tas e buscaram expandir seus impérios coloniais
a fim de manter a balança comercial favorável e
aumentar suas reservas em ouro. O protecionismo
relacionava-se com a garantia de que a políti-
ca geraria os benefícios para aquela monarquia.
Dessa forma se poderiam taxar mercadorias vin-
das de outros países ou criar o monopólio real
sobre a produção ou a comercialização de algum
outro produto. O cardeal Richelieu (1585-1642),
ministro das finanças de Luís XIII, por exemplo,
estimulou a criação de companhias de comér-
cio, a expansão colonial e a construção naval.
Os retratos tornaram-se comuns a partir do Renascimento,
quando ocorreu uma valorização do ser humano em oposição
à visão teocêntrica (Deus no centro do Universo) que predomi-
nava na Idade Média. Nesse período, muito anterior à invenção
da fotografia, poucas pessoas podiam contratar artistas que as
retratassem. Esse privilégio cabia a nobres, ministros de Estado,
ricos comerciantes, reis, cardeais. As imagens à esquerda são do
artista espanhol Diego Velázquez (1599-1660), pintor predileto
da corte do rei Filipe IV (1621-1655) da Espanha. Como outros
monarcas de sua época, Filipe IV mantinha pessoas excluídas do
contexto social, como os anões, para divertir a corte. Ao retratar
um desses anões, Velázquez procurou devolver a humanidade e
a dignidade a essa figura, sempre ridicularizada pelos cortesãos.
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Embarque para Citera, de Antoine Watteau, 1718.
Óleo sobre tela, 130 cm 192 cm.
Interior campestre com um velho flau-
tista, de Louis Le Nain, c. 1642. Óleo
sobre tela, 54,1 cm 62,1 cm.
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A imagem ao lado mos-
tra uma família camponesa
que se prepara para jantar.
A segunda imagem repre-
senta, conforme Stephen
Jones, “o mais famoso
exemplo de pintura do gê-
nero fête champêtre [festa
campestre], que mostra ce-
nas da sociedade elegante
em parques […]. Colocou
nessa alegoria […] a sínte-
se de uma época e de um
modo de vida. O tema é o
culto do amor. Citera é uma
ilha real no Mediterrâneo,
centro de um antigo culto
pagão a Vênus. Entretanto,
as delicadas e graciosas fi-
guras que descem para o
barco representam aman-
tes ideais rumando não pa-
ra os altares da deusa do
amor, mas para um lugar
indefinido onde o romance
eternamente floresce […].
A viva emoção dos aristo-
cratas que viram tal quadro
pode ter sido causada pelo
fato de que uma elevada
aspiração romântica lhes
inspirava a própria exis-
tência elegante e vazia”.
(JONES, Stephen. A arte
do século XVII. São Paulo:
Círculo do Livro, s.d., p. 15.)
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Jean-Baptiste Colbert (1619-1683) foi ministro
das finanças de Luís XIV e responsável pelo
Tesouro francês. Ele estimulou o comércio inter-
nacional e defendeu a criação de manufatu-
ras reais na França, proibindo a importação de
produtos similares. Em 1664, afirmou: "Só a
abundância de dinheiro num Estado constituirá
a diferença entre a sua grandeza e o seu poder."
(Apud DEYON, Pierre. O mercantilismo. 2. ed.
Lisboa: Gradiva, 1989. p. 33)
No mesmo ano, o inglês Thomas Mun publicou
um livro sobre o comércio exterior em que dizia:
O modo normal de fazer aumentar a nossa riqueza
e as nossas espécies é o comércio externo, relati-
vamente ao qual será sempre necessário observar
a seguinte regra: vender aos estrangeiros mais
do que lhes compramos para nosso consumo.
Apud DEYON, op. cit., p. 41.
Conclusivamente afirma o historiador Perry
Anderson, já citado neste capítulo:"A centrali-
zação econômica, o protecionismo e a expan-
são ultramarina engrandeceram o Estado feudal,
embora beneficiassem a burguesia incipiente."
(Apud DEYON, op. cit., p. 44)
Teorias absolutistas
Alguns pensadores europeus da Idade
Moderna formularam ideias que se relacionam
direta ou indiretamente com a criação das monar-
quias absolutistas. O primeiro deles é Nicolau
Maquiavel (1469-1527), citado no capítulo ante-
rior. Maquiavel não pode ser considerado um ide-
alizador do absolutismo, contudo ele reconstruiu
o significado da ação política no mundo moderno.
Você já deve ter ouvido falar que uma pessoa é
“maquiavélica”. A utilização desse termo tem
relação com o pensador florentino, porém possui
um sentido pejorativo: maquiavélico seria, no uso
corrente, aquele capaz de fazer qualquer coisa
para atingir seus objetivos, incluindo traição, per-
fídia e atitudes desleais. Mas será que Maquiavel
defendia atitudes desse tipo?
Maquiavel viveu num período em que Florença
convivia com intensas disputas políticas entre
os vários Estados da região: o Reino de Nápoles,
as Repúblicas de Florença e de Veneza, além
dos Estados papais e do Ducado de Milão. As
constantes guerras tornavam o quadro político
sempre instável. Maquiavel perguntava-se como
seria possível governar diante de tal situação e o
que o governante deveria fazer para se manter no
governo diante de tantos conflitos. Sua resposta
seria construída na obra O príncipe, que revolucio-
naria o pensamento político vigente, herdado da
Antiguidade clássica.
Maquiavel rompeu com os princípios que norte-
avam a ação política. Sobre isso, afirma a socióloga
Maria Teresa Sadek:
Seu ponto de partida e de chegada é a realidade
concreta. […] a verdade efetiva das coisas. Esta é
sua regra metodológica: ver e examinar a realidade
tal como ela é e não como se gostaria que ela fosse.
A substituição do reino do dever ser, que marcara
a filosofia anterior, pelo reino do ser, da realidade.
[…] A ordem, produto necessário da política, não
é natural, nem a materialização de uma vontade
extraterrena, e tampouco resulta do jogo de dados
do acaso. Ao contrário, a ordem tem um imperativo:
deve ser construída pelos homens para se evitar o
caos e a barbárie, e, uma vez alcançada, ela não será
definitiva, pois há sempre, em germe, o seu trabalho
em negativo, isto é, a ameaça de que seja desfeita.
SADEK, Maria Teresa. Nicolau Maquiavel:
o cidadão sem fortuna, o intelectual da “virtú”.
In: WEFFORT, Francisco (Org.). Os clássicos da política.
São Paulo: Ática, 1993. v. 1. p. 17-8.
A política transforma-se, para o filósofo, no
reinado das estratégias. Estas, por sua vez, não
estão diretamente relacionadas com as regras
morais do mundo católico, pois uma decisão polí-
tica pode implicar até mesmo a determinação de
provocar guerra e morte de pessoas independen-
temente dos princípios religiosos, como ocorria
no período medieval.
Na visão de Maquiavel, os seres humanos
são vaidosos, egoístas e fazem de tudo pela
aquisição de riquezas; por isso o governante
precisa cuidar para não ser traído, quer dizer,
precisa traçar uma estratégia adequada para
se manter no poder. Conforme sua reflexão, o
que um governante deve fazer com um traidor?
Pode perdoá-lo por piedade, mas não será pior
se ele sobreviver e depois liderar um golpe
contra o governante, prejudicando todo um
povo? Um governante precisa ter equilíbrio:
não pode ser odiado a ponto de instigar uma
revolta nem ser amado a ponto de permitir uma
traição. É preciso traçar a melhor estratégia
para se sustentar no poder. A política, enfim,
passa a se relacionar com a luta entre as pes-
soas da mesma maneira que o Renascimento
havia colocado o ser humano como centro do
Universo e destinado a ele a capacidade de
transformar a natureza.
Diferente de Maquiavel, o jurista francês Jean
Bodin (1530-1596) pode ser considerado um teórico
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do absolutismo. Em sua obra A República, ele enfa-
tiza a noção de soberania no contexto das guerras
religiosas que vinham ocorrendo na França do
século XVI. Para dar maior estabilidade ao governo
e pôr fim às disputas entre católicos e protestan-
tes, Bodin afirma a necessidade de existir uma
vontade suprema e soberana obedecida por todos.
Para ele, soberania traduzia-se na autoridade abso-
luta e indivisível do rei. Nesse sentido, afirma:
Nada havendo de maior sobre a terra, depois de
Deus, que os príncipes soberanos, e sendo por
ele estabelecidos como seus representantes pa-
ra governarem os outros homens, é necessário
lembrar-se de sua qualidade, a fim de respeitar-
-lhes e reverenciar-lhes a majestade com toda a
obediência, a fim de sentir e falar deles com toda a
honra, pois quem despreza seu príncipe soberano,
despreza a Deus, de quem ele é a imagem na terra.
Apud CHEVALIER, Jean-Jacques. As grandes obras
políticas: de Maquiavel a nossos dias.
Rio de Janeiro: Agir, 1966. p. 58.
Por último, devemos fazer referência ao pen-
sador inglês e teórico do absolutismo Thomas
Hobbes (1588-1679). Considerado um pensador
contratualista, defendia a ideia de que a ori-
gem do Estado e, portanto, da sociedade se dá
quando os homens fazem um contrato ou pacto
entre si, tendo vivido antes disso em estado
de natureza. Não é possível, contudo, demar-
car cronologicamente quando os seres humanos
viveram em um estado de natureza, pois se trata
de um passado distante e indeterminado. O que
importava era justificar a existência da nova
forma de organização política e social burguesa
que surgia. Tratava-se, naquele momento, de um
indivíduo independente do senhor feudal e com
poder econômico crescente. Dentre os pensa-
dores que podem ser chamados contratualistas,
além de Hobbes, são frequentemente citados o
inglês John Locke (1632-1704) e o francês Jean-
Jacques Rousseau (1712-1778), os quais conhe-
ceremos no próximo capítulo.
Para Hobbes, no estado de natureza todos os
homens eram iguais e viviam livres; no entan-
to havia um constante estado de guerra, no
qual reinava a desconfiança. Isso ocorria por-
que, no estado de natureza, não havia nenhuma
instituição que regulasse as relações entre as
pessoas, ou seja, não havia Estado. Assim, o
mais razoável para cada um era atacar o outro
para evitar um possível ataque. Daí a conhe-
cida frase de Hobbes: “O homem é o lobo do
homem.”. Segundo o autor, se duas pessoas dese-
jam a mesma coisa, no caso a preservação da
própria vida, cada qual se esforça em defender-
-se subjugando o outro. Esse é motivo do estado
de guerra constante. Havia, portanto, no estado
de natureza, um direito de natureza: a liber-
dade que cada um tem de usar seu poder como
bem entender para defender sua preservação.
Todavia, o ser humano naturalmente também
deseja, além de sua preservação, a paz e o con-
forto de uma vida em segurança. Para alcançar
isso, segundo Hobbes, todos os homens devem
renunciar ao seu direito natural de usar a guerra
para defender-se. Mas, para o pensador inglês, a
mera combinação de uma regra como essa entre
os seres humanos não é suficiente para obrigá-
-los a respeitarem-se mutuamente, pois a máxima
“Faças para o outro o que queres que ele faça a
ti.” é contrária às nossas paixões naturais. Então
é necessário um poder forte, armado, que obrigue
os indivíduos a obedecer à regra. A única maneira
de instituir tal poder é transferir o poder de todos
a uma só pessoa, ou a uma assembleia, redu-
zindo todas as vontades a uma só. Todos devem
submeter suas vontades e decisões às vontades
e decisões de um soberano, tornando-se assim
seus súditos e reconhecendo as ações dele como
representação das suas. Desse modo, todos
viverão em paz e estarão protegidos contra outros
seres humanos. Essa multidão unida em uma só
pessoa chama-se Estado.
Para Hobbes, governo e sociedade nascem
juntos. O Estado seria condição para a existência
da sociedade. Sem governo há o estado de guerra
constante e geral; logo, o poder do governo deve
ser ilimitado. O soberano deve ter poder abso-
luto, ou seja, se todos transferem seus poderes
para o soberano e tudo o que este fizer é como
se cada um o estivesse fazendo, não há por que
acusá-lo de injustiça, tentar depô-lo ou matá-lo, já
que não fazemos isso com nós mesmos. O súdito
só estará desobrigado de obediência ao sobera-
no quando a ordem deste atentar contra a vida
daquele, pois assim perde-se o sentido do pacto,
já que este foi feito visando à preservação da vida.
Hobbes atribui ao Estado o nome Leviatã para
simbolizar seu poder absoluto. Leviatã — mesmo
nome do livro em que Hobbes expôs suas ideias —
é um monstro da mitologia fenícia, citado na Bíblia;
trata-se de um deus mortal que impõe a disciplina
e controla os impulsos egoístas dos seres huma-
nos, garantindo a paz e evitando as traições. O
próprio Hobbes define o Leviatã, ao afirmar:
É nele que consiste a essência do Estado, a qual
pode ser assim definida: uma pessoa de cujos atos
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uma grande multidão, mediante pactos recíprocos
uns com os outros, foi instituída por cada um co-
mo autora, de modo a ela poder usar a força e os
recursos de todos, da maneira que considerar con-
veniente, para assegurar a paz e a defesa comum.
Àquele que é portador dessa pessoa se chama
soberano, e dele se diz que possui poder soberano.
Todos os restantes são súditos.
HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, forma e poder
de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo:
Nova Cultural, 1997.p. 144. (Os Pensadores).
Religião e política no processo de
construção do Estado moderno
Desde a decadência do Império Romano do Oci-
dente, a partir do século V até meados do século
XVI, a Igreja Católica se impôs, exercendo grande
poder na Europa. Nesse período, entretanto, sur-
giram aqueles que criticavam algumas condutas
do clero, como a venda de indulgências, um docu-
mento que garantia a salvação de quem o com-
prasse. Condenava-se também o enriquecimento
de homens ligados à carreira eclesiástica, a venda
de figuras sagradas e as atitudes imorais de bispos
e padres que não respeitavam as regras da Igreja.
O monge alemão Martinho Lutero (1483-1546)
foi um dos principais críticos da Igreja Católica.
No dia 13 de outubro de 1517, afixou na porta
da Catedral de Wittenberg, do Sacro Império
Romano-Germânico, as 95 teses que se opunham
a essa Igreja. O documento de Lutero seria o marco
de uma nova religião cristã: o protestantismo, ou
seja, a religião daqueles que protestam contra a
Igreja Católica. A maior ênfase de suas teses está
na crítica à venda de indulgências, considerada
por ele imoral. Segundo Lutero: "Deve-se ensinar
aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando
ao necessitado, procedem melhor do que se com-
prassem indulgências." (Tese 43). "Os tesouros
das indulgências, por sua vez, são as redes com
que hoje se pesca a riqueza dos homens." (Tese 66).
Excomungado da Igreja Católica, passou a
combatê-la postulando o fim de toda a estrutura
eclesiástica: não haveria mais um chefe da Igreja
(papa) nem bispos nem nenhum outro cargo ecle-
siástico. Em 1530, no documento conhecido como a
Confissão de Augsburgo e assinado por vários prín-
cipes, dentre eles os da Saxônia, de Nuremberg e
de Brandenburgo, foram estabelecidos os princípios
da doutrina luterana. Cada igreja protestante seria
autônoma e dirigida pelo pastor, embora seguisse
os preceitos da nova religião. Foram eliminadas,
ainda, as imagens sagradas e as figuras de santos.
Frontispício da primeira edição do livro Leviatã (1651), de
Thomas Hobbes, ilustrado por Abraham Bosse. Na imagem
vemos o monstro Leviatã, dotado de poder militar e religioso.
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O culto protestante baseava-se na doutri-
na da “justificativa pela fé”. Mediante o
poder da oração, os fiéis estabeleceriam
uma relação direta com Deus, sem a
presença de intermediários. Dessa forma,
Lutero pretendia evitar que se pudesse utilizar a
vida religiosa para outro fim que não fosse glorifi-
car a Deus. Os seres humanos não seriam salvos
por obras executadas em prol da Igreja nem pela
confissão, mas sim pela fé, pelo poder das orações
e por uma atitude pessoal e moral condizente com
os princípios da Igreja. Em vez de comprar uma
indulgência que garantisse a salvação, o fiel teria
de construir a consciência de que foi correto ao
longo da vida e, por isso, poderia ser salvo. Quanto
maior a fé, maior a chance de salvação.
Além de Lutero, surgiram outros reformadores
da Igreja: João Calvino (1509-1564) e Huldreich
Zwínglio (1484-1531), que fundaram a religião pro-
testante na Suíça. Zwínglio, que atuava ao norte
daquele país como pastor, já condenava a compra
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Algumas teses de Lutero
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eia agora algumas das 95 teses divulgadas por
Martinho Lutero em 1517 e explique quais
críticas ele realizava à Igreja Católica.
21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências
que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena
e salva pelas indulgências do papa.
22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgató-
rio de uma única pena que, segundo os cânones,
elas deveriam ter pago nesta vida.
23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as
penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos
mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessa-
riamente ludibriada por essa magnífica e indistinta
promessa de absolvição da pena.
25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório
de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua
diocese e paróquia em particular.
26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas
não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas
por meio de intercessão.
27. Pregam doutrina mundana os que dizem que, tão
logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá
voando [do purgatório para o céu].
28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, pode
aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja,
porém, depende apenas da vontade de Deus.
(…)
37. Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, partici-
pa de todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que
são dons de Deus, mesmo sem carta de indulgência.
38. Contudo, o perdão distribuído pelo papa não
deve ser desprezado, pois — como disse — é uma
declaração da remissão divina.
(…)
45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente
e o negligencia para gastar com indulgências obtém
para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.
REVISTA ESPAÇO ACADÊMICO. Disponível em:
<www.espacoacademico.com.br/034/34tc_lutero.htm>.
Acesso em: 8 abr. 2013.
de indulgências nos anos 1510. Ele aderiu às teses
de Lutero, defendendo a salvação pela fé e o direi-
to dos sacerdotes ao casamento, condenando a
cobrança de taxas para o batismo e o casamen-
to, entre outras ideias. Após um debate público
entre autoridades católicas e Zwínglio em Zurique
(Suíça), o conselho da cidade decidiu que suas
ideias poderiam ser veiculadas, fundando-se uma
nova igreja de orientação protestante. As imagens
sagradas foram proibidas, os padres e as freiras
receberam autorização para casar e a Bíblia foi
traduzida para a língua local. Outras cidades,
como Basileia e Berna, aderiram à nova religião.
Em Genebra, nos anos 1530, João Calvino fun-
dou a religião protestante calvinista. Seu pensa-
mento estava fundado na ideia de que existiriam
os eleitos de Deus, ou seja, já estariam predestina-
dos aqueles que seriam salvos. A questão residia
em saber como identificar os que estariam salvos.
A única maneira era ter uma vida regrada confor-
me os preceitos da Bíblia. Os fiéis deveriam ter
um grande autocontrole, evitando os vícios, o des-
perdício de tempo, o sono excessivo, a diversão e
tudo que fosse contrário à moral cristã. Um outro
elemento importante seria a dedicação e a discipli-
na para o trabalho. Uma pessoa que enriquecesse
por meio do trabalho e se dedicasse seriamente a
ele poderia estar entre aqueles que seriam salvos.
Esse era um sinal da possível salvação, pois a
certeza nunca seria conquistada. O ser humano
DIFUSÃO DAS REFORMAS
PROTESTANTES NO SÉCULO XVI
Com base em DUBY, Georges. Atlas historique mondial.
Paris: Larousse, 2003. p. 78.
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deveria construir a consciência de que agiu corre-
tamente, sendo esse o sinal de sua salvação.
No contexto do desenvolvimento do capitalismo,
pode-se afirmar que esse pensamento contribuiu
para a construção de uma nova ética, na qual o
trabalho e o enriquecimento têm um valor positivo
e não estão desvinculados do pensamento religioso.
Na Inglaterra, o protestantismo ganhou a ade-
são do rei Henrique VIII, que governou aquele
reino entre 1509 e 1547. O rei decidiu romper com
a Igreja Católica, conquistando maior autonomia:
usou como pretexto sua separação da rainha
Catarina de Aragão e seu desejo de casar-se
com Ana Bolena, uma dama da corte. Como seu
pedido de divórcio foi negado pelo papa, Henrique
VIII anunciou o fim da aliança com os católicos e
casou-se com Ana Bolena. Acabou excomungado
e, em 1534, criou a Igreja Anglicana, que man-
teve a estrutura do clero católico e as imagens
sagradas, mas adotava a doutrina calvinista.
O rápido florescimento da religião protestante
por várias partes da Europa obrigou a Igreja Católica
a organizar a Contrarreforma. Entre 1545 e 1563,
ocorreu o Concílio de Trento, quando diversas
autoridades eclesiásticas se reuniram para tomar
medidas que moralizassem e, ao mesmo tempo,
modernizassem a Igreja, evitando a perda de fiéis.
Entre as resoluções estavam: a criação do catecis-
mo, a proibição da venda de indulgências, a criação
de escolas para a formação de novos eclesiásticos
e a reativação do Tribunal do Santo Ofício.
Esse tribunal era o responsável pela Inquisição,
encarregada de combater as heresias, ou seja, as
ideias contrárias ao que pregava o clero católico.
Foi criado também o Index — lista de livros proi-
bidos por se oporem aos princípios cristãos. No
contexto da Contrarreforma, em 1534, o espanhol
Inácio de Loyola fundou a Companhia de Jesus,
cujos membros eram chamados de jesuítas.
A companhia, que tinha uma rígida hierarquia e dis-
ciplina, assumiu o projeto de expansão da religião
católica a outros povos. Missionários, os jesuítas
vieram para a América com o intuito de catequizar
os indígenas a partir de meados do século XVI.
O surgimento do protestantismo também teve
grande impacto na vida política. Como o poder do
Estado estava diretamente ligado ao poder religio-
so, as famílias reais fizeram suas escolhas confor-
me seus objetivos políticos. Como você viu, isso
ocorreu na Inglaterra, quando Henrique VIII rompeu
com a Igreja Católica e fundou o anglicanismo.
Na França, as disputas políticas passaram a se
relacionar diretamente com a luta entre católicos e
protestantes calvinistas (chamados huguenotes).
Esses conflitos evidenciaram-se em agosto de
1572, durante a chamada Noite de São Barto-
lomeu. Nessa ocasião, milhares de protestantes
foram massacrados quando a católica Margarida
de Valois, irmã do rei Carlos IX, casou-se com o pro-
testante Henrique de Navarra. Com a presença de
vários líderes protestantes em Paris para assistir
ao casamento, a rainha Catarina de Médicis, mãe
de Margarida, ordenou, no dia de São Bartolomeu,
que os huguenotes fossem mortos, aproveitando-
-se da tensão popular gerada pelo casamento entre
nobres de religiões opostas. Aquilo que seria uma
tentativa de amenizar os conflitos entre católicos
e protestantes se transformou no motivo da morte
de dezenas de milhares de pessoas. Henrique de
Navarra, que se tornou rei com o nome de Henri-
que IV, acabou se convertendo ao catolicismo.
Por fim, a difusão do protestantismo propiciou a
eclosão de várias revoltas camponesas em diferen-
tes regiões da Europa. Ocorreram protestos contra
a condição social em que viviam, saques e assaltos
a castelos. Surgiram lideranças que se opunham ao
pensamento de Zwínglio, Calvino e Lutero, como é
o caso dos anabatistas, que defendiam a sepa-
ração entre Igreja e Estado e não a subordinação
da primeira ao segundo, tal qual defendia Lutero.
Thomas Müntzer, um dos líderes anabatistas,
pregava contra os ricos e a exploração social.
Comenta o historiador Jean Delumeau:
[Müntzer] parece, contudo, ter lutado por uma re-
generação da Igreja graças à igualdade social, que
permitiria, já a partir desta Terra, a cristianização
completa do mundo… Mas não lhe pareceu que tal
pudesse ser alcançado a não ser por meio de uma
ação violenta que destruísse os obstáculos erguidos
pelos ricos e pelos poderosos à difusão do Evangelho.
DELUMEAU, Jean. Mil anos de felicidade.
Lisboa: Terramar, 1997. p. 156-7.
Em 1525, Müntzer e seu aliado Heinrich Pfeiffer
conseguiram que fosse destituído o conselho da ci-
dade e eleito um outro exclusivamente formado por
partidários seus e juntaram-se à guerra dos campo-
neses, que, tendo começado em finais de 1524 sobre
as margens do lago de Constança, já se estendera
ao Tirol, a Salisburgo, à Floresta Negra e à Alsácia e
estava agora a atingir a Francónia e a Turíngia. Este
levantamento, apesar do nome, não agrupava unica-
mente rurais. Era antes a revolta do “homem pobre
genérico”, em que participavam também os proletá-
rios das cidades, em particular os mineiros.
DELUMEAU, op. cit., p. 147-8.
Centenas de camponeses morreram no confli-
to com as forças reais. Müntzer foi preso e deca-
pitado em 1525.
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PONTO DE VISTA
Pátria — morada e prisão dos povos
Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa
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s homens não precisam de cidades-capitais. Ao longo da história, desenvolveram-se socie-
dades e civilizações que não possuíam um centro de poder situado em posição geográfica
fixa. Muitas vezes, o poder político identificou-se com um homem — com uma família, um
clã ou uma dinastia — e não com um “lugar”. Nesse caso, o deslocamento espacial dos detentores
do poder significava a transferência geográfica do próprio centro de poder.
A fixação de uma capital — uma cidade que abriga os órgãos do poder político e que simboliza a
presença da autoridade máxima — consiste em uma operação histórica e geopolítica, reflexo de um
grau avançado de separação entre o poder e as pessoas que o detêm. Os governantes passam, o governo
fica — é isso que as sociedades estão afirmando quando estabelecem uma cidade-capital permanente.
A implantação de cidades-capitais já se generalizou na Idade Moderna europeia. A formação do
Estado moderno na Europa, um processo cujo ponto de partida se encontra no período renascen-
tista, deflagrou a fixação das capitais permanentes. Depois disso, a hegemonia da Europa sobre o
mundo disseminou o Estado e a cidade-capital para todos os continentes e sociedades. O planisfério
político é o melhor espelho dessa realidade: na sua forma mais simples, ele mostra apenas as frontei-
ras políticas dos países e as cidades que são capitais.
O planisfério político é uma representação do mundo dos Estados. Essa representação ignora os
fatos da geografia física — nela, não aparecem a rede hidrográfica, as cordilheiras montanhosas, os
planaltos ou planícies. A realidade visível, constatável, praticamente está oculta dessa representação do
mundo. O que aparece é uma outra realidade, abstrata, construída pela cultura e pelas ideias: o Estado.
Do ponto de vista espacial, o Estado se define, essencialmente, pelas fronteiras e pela capital política.
A constituição do Estado realizou-se paralelamente à consolidação das nações.
A nação é a sociedade politicamente organizada, que se reconhece no Estado. A fixação da capital é um
episódio desse trajeto histórico e cultural de criação de coletividades amplas e abstratas chamadas nações.
Neste mapa podemos ob-
servar as fronteiras entre os
vários reinos.
A EUROPA NO SÉCULO XVII
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Com base em DUBY, Georges.
Atlas histórico mundial. Madri:
Debate, 2001. p. 72.
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A nação é um contrato político. Seus participantes não se identificam uns com os outros por
solidariedades étnicas, linguísticas ou religiosas: sentem-se parte da mesma nação por comparti-
lharem um contrato histórico, que demorou séculos para ser estabelecido. Ser francês, britânico,
alemão, norte-americano, russo ou brasileiro é compartilhar um sentimento nacional que se origi-
nou e desenvolveu enquanto se erguiam os Estados da França, Grã-Bretanha, Alemanha, Estados
Unidos, Rússia e Brasil. A reafirmação desse contrato, ano após ano, aprofunda a estabilidade
do Estado nacional. A ruptura desse contrato deflagra movimentos de secessão, como os da
Tchecoslováquia e Iugoslávia em 1990-91, que implodem o Estado nacional.
A formação do Estado nacional enquadrou os povos em uma realidade ideológica expressa
na noção de pátria. Essa noção amplia a adesão a um conjunto social amplo, que ultrapassa lar-
gamente o círculo das relações locais e que se define pela soberania política do Estado. Desde a
constituição e a disseminação dos estados nacionais pelo mundo, a pátria se tornou a morada (e
também a prisão) dos povos.
MAGNOLI, Demétrio; BARBOSA, Elaine Senise. Formação do Estado nacional. São Paulo: Scipione, 1996. p. 7-10.
1. Registre em seu caderno quais são as ideias centrais do texto, colocando em evidência a tese e
a conclusão dos autores analisados.
2. Utilizando as informações da seção Contexto, explique em que medida as cidades-capitais se
relacionam com o processo de formação do Estado moderno.
3. No século XXI, as cidades-capitais ainda exercem o mesmo papel? Justifique sua resposta.
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DOCUMENTOS
Dos direitos dos soberanos por instituição
Thomas Hobbes
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iz-se que um Estado foi instituído quando uma multidão de homens concordam e pactu-
am, cada um com cada um dos outros, que a qualquer homem ou assembleia de homens a
quem seja atribuído pela maioria o direito de representar a pessoa de todos eles (ou seja, de
ser seu representante), todos, sem exceção, tanto os que votaram a favor dele como os que votaram
contra ele, deverão autorizar todos os atos e decisões desse homem ou assembleia de homens, tal
como se fossem seus próprios atos e decisões, a fim de viverem em paz uns com os outros e serem
protegidos dos restantes homens.
É desta instituição do Estado que derivam todos os direitos e faculdades daquele ou daqueles a
quem o poder soberano é conferido mediante o consentimento do povo reunido.
Em primeiro lugar, na medida em que pactuam, deve entender-se que não se encontram
obrigados por um pacto anterior a qualquer coisa que contradiga o atual. Consequentemente,
aqueles que já instituíram um Estado, dado que são obrigados pelo pacto a reconhecer como
seus os atos e decisões de alguém, não podem legitimamente celebrar entre si um novo pacto
no sentido de obedecer a outrem, seja no que for, sem sua licença. Portanto, aqueles que estão
submetidos a um monarca não podem, sem licença deste, renunciar à monarquia, voltando à
confusão de uma multidão desunida, nem transferir sua pessoa daquele que dela é portador para
outro homem, ou outra assembleia de homens. Pois são obrigados, cada homem perante cada
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homem, a reconhecer e a ser considerados autores de tudo quanto aquele que já é seu soberano
fizer e considerar bom fazer.
[…] E quando alguns homens, desobedecendo a seu soberano, pretendem ter celebrado um
novo pacto, não com homens, mas com Deus, também isto é injusto, pois não há pacto com Deus
a não ser através da mediação de alguém que represente a pessoa de Deus, e ninguém o faz senão o
lugar-tenente de Deus, o detentor da soberania abaixo de Deus. E esta pretensão de um pacto com
Deus é uma mentira tão evidente, mesmo perante a própria consciência de quem tal pretende, que
não constitui apenas um ato injusto, mas também um ato próprio de um caráter vil e inumano.
HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo: Nova Cultural, 1997.
p. 145-6. (Os Pensadores).
De que forma os príncipes devem guardar a fé
Nicolau Maquiavel
[…]
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eveis saber… que existem duas formas de se combater: uma, pelas leis, outra, pela força.
A primeira é própria do homem; a segunda, dos animais. Como, porém, muitas vezes a
primeira não seja suficiente, é preciso recorrer à segunda. Ao príncipe torna-se necessário,
porém, saber empregar convenientemente o animal e o homem… Por isso, um príncipe prudente
não pode nem deve guardar a palavra dada quando isso se lhe torne prejudicial e quando as causas
que o determinaram cessem de existir. Se os homens todos fossem bons, este preceito seria mau.
Mas, dado que são pérfidos e que não a observariam a teu respeito, também não és obrigado a cum-
pri-la para com eles. Jamais faltaram aos príncipes razões para dissimular quebra da fé jurada. […]
E tão simples são os homens, e obedecem tanto às necessidades presentes, que aquele que engana
sempre encontrará quem se deixe enganar.
[…] Antes, teria eu a audácia de afirmar que, possuindo-as e usando-as todas, essas qualidades
seriam prejudiciais, ao passo que, aparentando possuí-las, são benéficas; por exemplo: de um lado, pare-
cer ser efetivamente piedoso, fiel, humano, íntegro, religioso, e de outro, ter o ânimo de, sendo obrigado
pelas circunstâncias a não o ser, tornar-se o contrário. E há de se entender o seguinte: que um príncipe, e
especialmente um príncipe novo, não pode obser-
var todas as coisas a que são obrigados os homens
considerados bons, sendo frequentemente força-
do, para manter o governo, a agir contra a carida-
de, a fé, a humanidade, a religião. É necessário,
por isso, que possua ânimo disposto a voltar-se
para a direção a que os ventos e as variações da
sorte o impelirem, e, como disse mais acima, não
partir do bem, mas, podendo, saber entrar para o
mal, se a isso estiver obrigado… Procure, pois, um
príncipe, vencer e conservar o Estado. Os meios
que empregar serão sempre julgados honrosos e
louvados por todos…
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo:
Nova Cultural, 1996. p. 101-3. (Os Pensadores).
Alegoria de autor desconhecido da esco-
la francesa, século XVI, que representa
Henrique IV se apoiando na religião a fim
de proporcionar a paz ao Reino da França.
Óleo sobre madeira, 330 cm 260 cm.
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Leia atentamente os textos das páginas 290 e 291 e responda em seu caderno:
1. Por que, para Hobbes, os homens escolhem instituir um Estado?
2. Para ele, como deve ser a relação entre súditos e soberano em um Estado instituído?
3. Quais são, para Maquiavel, os principais objetivos de um governante?
4. Em que medida a frase “Os fins justificam os meios” pode se aplicar ao pensamento de Maquiavel?
5. Utilizando as informações da seção Contexto, responda em seu caderno:
a) A concepção de política presente no texto de Maquiavel se opõe ao pensamento cristão?
b) Em que medida essa concepção rompe com o pensamento anterior à sua época?
6. Observe a imagem da página anterior e explique em que medida ela pode se relacionar com o
pensamento absolutista, com as afirmações de Thomas Hobbes e as reformas religiosas.
ROTEIRO DE TRABALHO
RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

Os testes 2, 3 e 5 possuem citações de documen-
tos ou autores que devem ser considerados para
a resposta. Antes de escolher uma alternativa,
interprete o enunciado com base no que foi estu-
dado. Em seguida, verifique as alternativas que
se relacionam diretamente com o conteúdo das
citações, conforme o que foi pedido na questão.
Em alguns testes, a citação tem pouca influên-
cia sobre a escolha da resposta.

O teste 4 não exige que se conheçam todos os
autores e obras citadas. Associe àqueles que você
conhece e verifique as combinações de resposta.
1. (Enem) Segundo Aristóteles:
Na cidade com o melhor conjunto de normas e
naquela dotada de homens absolutamente justos,
os cidadãos não devem viver uma vida de trabalho
trivial ou de negócios — esses tipos de vida são
desprezíveis e incompatíveis com as qualidades
morais —, tampouco devem ser agricultores os
aspirantes à cidadania, pois o lazer é indispensá-
vel ao desenvolvimento das qualidades morais e à
prática das atividades políticas.
(VAN ACKER, T. Grécia: a vida cotidiana na cidade-Estado.
São Paulo: Atual, 1994.)
O trecho, retirado da obra Política, de Aristóteles,
permite compreender que a cidadania:
a) possui uma dimensão histórica que deve ser
criticada, pois é condenável que os políticos de
qualquer época fiquem entregues à ociosidade,
enquanto o resto dos cidadãos tem de trabalhar.
b) era entendida como uma dignidade própria
dos grupos sociais superiores, fruto de uma
concepção política profundamente hierar-
quizada da sociedade.
c) estava vinculada, na Grécia Antiga, a uma
percepção política democrática, que levava
todos os habitantes da pólis a participarem
da vida cívica.
d) tinha profundas conexões com a justiça,
razão pela qual o tempo livre dos cidadãos
deveria ser dedicado às atividades vincula-
das aos tribunais.
e) vivida pelos atenienses era, de fato, restrita
àqueles que se dedicavam à política e que
tinham tempo para resolver os problemas
da cidade.
2. (Fatec-SP)
A França é uma monarquia. O rei representa a
nação inteira, e cada pessoa não representa outra
coisa senão um só indivíduo ante o rei. Em conse-
quência, todo poder, toda autoridade, reside nas
mãos do rei, e só deve haver no reino a autoridade
que ele estabelece. Deve ser o dono, pode escutar
os conselhos, consultá-los, mas deve decidir. Deus
que fez o rei dar-lhe-á as luzes necessárias, contan-
to que mostre boas intenções.
(Luís XIV — Memórias sobre a arte de governar.)
Podemos caracterizar o absolutismo monárqui-
co posto em prática nos países europeus duran-
te a Idade Moderna como:
a) uma aliança entre um monarca absolutista
e a burguesia mercantil, a fim de dominar e
excluir o poder da nobreza.
b) uma aliança bem-sucedida entre a burguesia
e o proletariado.
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c) uma forma de governo autoritária, cujo poder
está centralizado nas mãos de uma pessoa
que exerce todas as funções do Estado.
d) um sinônimo de tirania exercida pelo monar-
ca sobre seus súditos.
e) um poder total concentrado nas mãos da
nobreza, no qual cabia aos juízes e deputados
a tarefa de julgar e legislar.
3. (Enem)
I. Para o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679),
o estado de natureza é um estado de guerra
universal e perpétuo. Contraposto ao estado de
natureza, entendido como estado de guerra,
o estado de paz é a sociedade civilizada.
Dentre outras tendências que dialogam com as
ideias de Hobbes, destaca-se a definida pelo
texto abaixo.
II. Nem todas as guerras são injustas e, correlati-
vamente, nem toda paz é justa, razão pela qual
a guerra nem sempre é um desvalor, e a paz
nem sempre um valor.
(BOBBIO, N.; MATTEUCCI, N.; PASQUINO, G.
Dicionário de política. 5. ed. Brasília/São Paulo:
Universidade de Brasília/ Imprensa Oficial do Estado, 2000.)
Comparando as ideias de Hobbes (texto I) com a
tendência citada no texto II, pode-se afirmar que:
a) em ambos, a guerra é entendida como inevi-
tável e injusta.
b) para Hobbes, a paz é inerente à civilização e,
segundo o texto II, ela não é um valor absoluto.
c) de acordo com Hobbes, a guerra é um valor
absoluto e, segundo o texto II, a paz é sempre
melhor que a guerra.
d) em ambos, a guerra ou a paz são boas quan-
do o fim é justo.
e) para Hobbes, a paz liga-se à natureza e, de
acordo com o texto II, à civilização.
4. (PUC-PR) O absolutismo real foi consagrado no
plano teórico por alguns filósofos e pensadores,
que o explicaram como necessário e justo.
Numere a coluna II pela coluna I, e depois assinale
a alternativa que contém a sequência correta:
Coluna I
( 1 ) Nicolau Maquiavel
( 2 ) Jean Bodin
( 3 ) Thomas Hobbes
( 4 ) Jacques Bossuet
Coluna II
( ) Seis livros da República
( ) O Leviatã
( ) Política resultante das Sagradas Escrituras
( ) O príncipe
a) 2 - 3 - 1 - 4.
b) 4 - 3 - 1 - 2.
c) 3 - 2 - 4 - 1.
d) 2 - 3 - 4 - 1.
e) 2 - 4 - 1 – 3.
5. (Unifesp-SP)
O fim último, causa final e desígnio dos homens
(que amam naturalmente a liberdade e o domínio
sobre os outros), ao introduzir aquela restrição
sobre si mesmos sob a qual os vemos viver nos
Estados, é o cuidado com sua própria conserva-
ção e com uma vida mais satisfeita. Quer dizer, o
desejo de sair daquela mísera condição de guerra
que é a consequência necessária (conforme se
mostrou) das paixões naturais dos homens, quan-
do não há um poder visível capaz de os manter
em respeito, forçando-os, por medo do castigo, ao
cumprimento de seus pactos e ao respeito àque-
las leis de natureza.
Thomas Hobbes (1588-1679). Leviatã.
São Paulo: Nova Cultural, 1979. (Os Pensadores)
O príncipe não precisa ser piedoso, fiel, humano,
íntegro e religioso, bastando que aparente possuir
tais qualidades (…). O príncipe não deve se des-
viar do bem, mas deve estar sempre pronto a fazer
o mal, se necessário.
Nicolau Maquiavel (1469-1527). O Príncipe. São Paulo: Nova
Cultural, 1986. (Os Pensadores)
Os dois fragmentos ilustram visões diferentes
do Estado moderno. É possível afirmar que:
a) Ambos defendem o absolutismo, mas Hobbes
vê o Estado como uma forma de proteger
os homens de sua própria periculosidade, e
Maquiavel se preocupa em orientar o governan-
te sobre a forma adequada de usar seu poder.
b) Hobbes defende o absolutismo, por tomá-lo
como a melhor forma de assegurar a paz, e
Maquiavel o recusa, por não aceitar que um
governante deva se comportar apenas para
realizar o bem da sociedade.
c) Ambos rejeitam o absolutismo, por consi-
derarem que ele impede o bem público e a
democracia, valores que jamais podem ser
sacrificados e que fundamentam a vida em
sociedade.
d) Maquiavel defende o absolutismo, por acreditar
que os fins positivos das ações dos governan-
tes justificam seus meios violentos, e Hobbes o
recusa, por acreditar que o Estado impede os
homens de viverem de maneira harmoniosa.
e) Ambos defendem o absolutismo, mas
Maquiavel acredita que o poder deve se con-
centrar nas mãos de uma só pessoa, e Hobbes
insiste na necessidade de a sociedade partici-
par diretamente das decisões do soberano.
6. (ENEM) Não ignoro a opinião antiga e muito difun-
dida de que o que acontece no mundo é decidido
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por Deus e pelo acaso. Essa opinião é muito aceita
em nossos dias, devidos às grandes transforma-
ções ocorridas, e que ocorrem diariamente, as
quais escapam à conjectura humana. Não obstan-
te, para não ignorar inteiramente o nosso livre ar-
bítrio, creio que se pode aceitar que a sorte decida
metade dos nossos atos, mas [o livrearbítrio] nos
permite o controle sobre a outra metade.
MAQUIAVEL, N. O Príncipe. Brasília: EdUnb, 1979 (adaptado).
Em O Príncipe, Maquiavel refletiu sobre o exercí-
cio do poder em seu tempoo. No trecho citado,
o autor demonstra o vínculo entre o seu pensa-
mento polítiico e o humanismo renascentista ao
a) valorizar a interferência divina nos aconteci-
mentos definidores do seu tempo.
b) rejeitar a intervenção do acaso nos proces-
sos políticos.
c) afirmar a confiança na razão autônoma como
fundamento da ação humana.
d) romper com tradiçãoque valorizava o passa-
do como fonte de aprendizado.
e) redefinir a ação política com base na unidade
entre fé e razão.
7. (ENEM) Na frança, o rei Luís XIV teve sua imagem
fabricada por um conjunto de estratégias que visa-
vam sedimentar uma determinada noção de sobera-
nia. Neste sentido, a charge apresentada demonstra
Charge anônima. In: BURKE, P. A fabricação do rei.
Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
a) a humanidade do rei, pois retrata um homem
comum, sem os adornos próprios à vestimen-
ta real.
b) a unidade entre o público e o privado, pois a
figura do rei com a vestimenta real represen-
ta o público sem a vestimenta real, o privado.
c) o vínculo entre monarquia e povo, pois leva
ao conhecimento do público afigura de um rei
despretensioso e distante do poder político.
d) o gosto estético refinado do rei, pois eviden-
cia a elegância dos trajes reais em relação
aos de outros membros da corte.
e) a importância da vestimenta para a constitui-
ção simbólica do rei, pois o corpo político ador-
nado esconde os defeitos do corpo pessoal.
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RELEITURA
A magia acompanha a história da humanidade desde seus primórdios, e a mulher tem sido
especialmente relacionada a ela desde a Antiguidade no mundo ocidental. Acreditava-se, na Idade
Média, que feiticeiras eram capazes de preparar unguentos, filtros e poções mágicas, os quais podiam
ser utilizados para o bem ou para o mal. Essas mulheres, em geral parteiras e curandeiras, muitas
vezes eram injustamente responsabilizadas pelas doenças ou infortúnios de moradores da aldeia.
Comenta o historiador francês Jean Delumeau:
É
[…] impossível, para apreender em sua complexidade a grande perseguição da feitiçaria
na Europa, não estudar de muito perto os comportamentos dos camponeses. Eles estavam
mergulhados em uma civilização mágica. Frequentemente, conheciam mal o cristianismo e
o misturavam inconscientemente às práticas pagãs vindas do fundo das eras. Acreditavam no poder
maléfico de alguns deles [camponeses]; não é muito duvidoso que um ou outra […] pudesse acre-
ditar possuir esse poder excepcional e que procurasse servir-se dele por motivos de vingança. […]
Em razão dos poderes excepcionais que se lhe atribuíam [à feiticeira], era alternadamente temida
e cortejada pela aldeia, solicitada ora para prejudicar e ora para curar, ora para enfeitiçar e ora para
desfazer os feitiços.
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente (1300-1800). São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 377 e 379.
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o longo da Idade Média, a Igreja Católica demonizou a figura da feiticeira, transformando-a em
bruxa e agente de Satã. Inicialmente a Igreja combatia o paganismo, eliminando da prática
religiosa cristã os amuletos, os feitiços, as simpatias, enfim, todo o conteúdo mágico que
extrapolasse os termos cristãos. No século XIV, consolidada a figura da bruxa demoníaca, produziu-
-se o primeiro manual do inquisidor com a finalidade de caçar as bruxas. Em 1486, um novo manual,
o Malleum maleficarum, utilizado nos três séculos seguintes, indicava aos inquisidores como reco-
nhecer, processar e julgar uma bruxa.
A perseguição às bruxas ganhou maior fôlego na Idade Moderna, quando o Estado se aliou à
Igreja para combater o demônio, que acreditavam estar corporificado na mulher bruxa. Negando as
práticas tradicionais das populações rurais e procurando impor a razão que nascia da nova forma
de organização política, o Estado impunha sua autoridade e suas leis em um contexto marcado pela
reorganização da vida econômica sob a lógica do capitalismo. Da mesma forma, a razão renascentista
vinha a propor uma nova visão de ser humano, dando impulso à ciência e negando os conhecimen-
tos tradicionais.
Entre os séculos XV e XVII, mais de 5 mil pessoas foram executadas na Suíça em processos de
bruxaria. Do século XVI ao XVII, ocorreram mais de 3 mil execuções no sudoeste da Alemanha, e
entre dois e três mil na Lorena (França).
Conforme os manuais dos inquisidores e os juízes da época, uma das formas de o demônio se
aproximar e fazer mal aos homens era por intermédio da bruxa. Pelo ato sexual ele se apoderaria do
corpo dos homens. Considerada símbolo do pecado e da sexualidade na Idade Média, a mulher seria
o principal alvo do demônio. Satã seria o senhor do prazer, e as bruxas provavelmente teriam copula-
do com ele, sendo, a partir daí, capazes de realizar todo tipo de maldade. Para acabar com tal pecado
e afastar esse demônio, seria necessário caçar, torturar e matar as mulheres consideradas bruxas.
A crença na relação de Satã com as mulheres pode ser claramente percebida no interrogatório a
que foi submetida uma mulher acusada de fazer secar o leite da vaca de um morador de Sugny, em
Luxemburgo, em 1657. Ela teria ainda soprado na boca de uma mulher, causando-lhe a morte. O
inquisidor pergunta à prisioneira:
Que, tendo a dita prisioneira sido espancada pelo falecido Nicolas Pierret, seu marido, fugiu para
seu feno, no paiol? Onde o diabo foi encontrá-la e lhe disse que se casasse com ele e que lhe daria
Xilogravura de 1555 de mulheres sendo queimadas por serem consideradas bruxas
no Sacro Império Romano-Germânico.
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1. De acordo com os textos da página anterior, por
que a mulher foi identificada como uma bruxa
demoníaca? Analise também a xilogravura dessa
mesma página e responda em seu caderno.
2. Qual a relação que se pode fazer entre a caça
às bruxas e o processo de formação do Estado
moderno? Explique em que medida a ética protes-
tante se contrapõe à prática da feitiçaria.
3. No mundo contemporâneo, as bruxas são recor-
rentemente utilizadas como personagens de his-
tórias infantis. De acordo com essas histórias,
responda em seu caderno:
a) Como elas são caracterizadas?
b) Que relação pode existir entre essa caracteri-
zação e a história da caça às bruxas na Europa
moderna?
MAGNOLI, Demétrio; BARBOSA, Elaine Senise. Formação do Estado nacional. São Paulo: Scipione, 1996.
Analisa várias capitais do mundo e sua constituição como cidades-capitais no processo de formação dos Estados
nacionais modernos.
RIBEIRO, Renato Janine. A etiqueta no Antigo Regime. São Paulo: Moderna, 1999.
O autor analisa como a ordem social influencia nos hábitos cotidianos das pessoas. Na época do Antigo Regime, a
etiqueta destaca-se como forma de afirmação da hierarquia e inserção social.
A rainha Margot. Direção de Patrice Chéreau. Alemanha/França/Itália, 1994. (139 min).
Retrata a França em 1572, quando a católica Marguerite de Valois se casa com o protestante Henrique de Navarra.
Nessa ocasião ocorreria a conhecida Noite de São Bartolomeu, quando católicos e protestantes entraram em conflito.
Luís XIV, o Rei Sol — biografias. Estados Unidos, 2008. (44 min).
Documentário que mostra a trajetória política de Luís XIV, rei absolutista francês.
Lutero. Direção de Eric Till. Alemanha, 2003. (112 min).
Mostra a trajetória de Lutero, que divulga as 95 teses, é perseguido pela Igreja Católica e sai em defesa de suas ideias
em oposição aos católicos e a suas práticas.
Museu do Louvre. Disponível em <www.louvre.fr/>. Acesso em: 8 abr. 2013.
Podem-se visitar as salas que contêm as pinturas relacionadas ao período do Antigo Regime.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
os meios de viver em boa situação? Que ela se casou com o diabo e que ao mesmo tempo deitou-se
com ele? Que nome tinha o diabo e como se fazia chamar?
Em que locais e lugares foi ela dançar com os diabos?
DELUMEAU, op. cit., p. 382-3.
Somente no século XVIII cessou a caça às bruxas, quando já se impunha o pensamento científico
e se desenvolvia o pensamento iluminista. Além disso, a autoridade e a racionalidade do Estado
passaram a predominar na maior parte dos países europeus.
Detalhe da imagem da p. 32.
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Os princípios do liberalismo e a
construção do cidadão moderno
Imigrantes olham a Estátua da Liberdade ao chegar a
Nova York, em 1915. A estátua, obra do escultor francês
Fredèric Bartholdi inaugurada oficialmente em 1886, foi
um presente do governo da França em comemoração
ao centenário da independência dos Estados Unidos e
pode ser considerada um símbolo do liberalismo. Os
Estados Unidos são um grande difusor e promotor des-
sa ideologia (liberdade para competir, individualismo e
defesa da propriedade privada) pelo mundo. Na imagem
ao lado, a estátua em segundo plano dá a entender que
os imigrantes que chegam a Nova York terão uma nova
vida de liberdade.
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CAPÍTULO 3
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tualmente, muitos falam de liberalismo e neoliberalismo em tom de crítica, já
outros defendem com orgulho esse ideal. Entretanto, o que é o liberalismo?
O que significa ser liberal hoje? O que isso tem a ver com a organização
sociopolítica atual?
No capítulo 1, estudamos os regimes e as formas de governo, investigamos o que
é política e conhecemos a história desse conceito. No capítulo seguinte, começamos
a entender como todas as modificações
sociais na organização político-econômica
da Europa (a partir do século XV) caminha-
ram com as novas ideias acerca do conhe-
cimento, da religião e da política. Esse é
um processo de mudanças radicais que se
estende até os dias de hoje, deixando suas
influências e heranças. Vamos continuar
a estudá-lo para que possamos ter mais
clareza a respeito da realidade em que
vivemos hoje e entender um pouco mais
sobre o liberalismo nos dias atuais.
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CONTEXTO
O liberalismo é uma das principais corren-
tes de pensamento que fundamentam a política
europeia e do Ocidente desde o século XVII até os
dias atuais. Sua doutrina, ou conjunto de ideias,
forma um sistema de crenças e convicções, uma
ideologia. Neste capítulo, vamos abordar os prin-
cípios gerais que sustentam a doutrina liberal,
usando como fio condutor a obra Segundo tratado
sobre o governo, ensaio relativo à verdadeira ori-
gem, extensão e objetivo do governo civil (publi-
cada originalmente entre 1689 e 1690), do inglês
John Locke (1632-1704).
Fundador do pensamento liberal, Locke tem
grande importância na história do pensamen-
to humano, não só no campo da política, mas
também em relação à discussão sobre o conhe-
cimento da humanidade. Em sua época havia
uma fervorosa preocupação sobre como os seres
humanos constroem seus conhecimentos. Fica
mais fácil entender essa preocupação da época
se nos lembrarmos de todas as mudanças que
estavam ocorrendo na vida concreta e na menta-
lidade da humanidade na passagem do feudalis-
mo para o capitalismo.
A revolução burguesa
na Inglaterra
Em 1688, um ano antes da publicação da obra
de Locke, havia ocorrido a Revolução Gloriosa,
responsável pela restauração da monarquia na
Inglaterra, mas não mais sob base absolutista e,
sim, parlamentar. Inaugurava-se o que denomina-
mos hoje monarquia parlamentar, ou seja, ape-
sar da existência da monarquia, o poder de deci-
são concentra-se nas mãos do Parlamento, fórum
de representação dos diferentes setores da socie-
dade. A obra de Locke pode ser relacionada com
a história da revolução burguesa na Inglaterra, a
chamada Revolução Inglesa. Conforme o histo-
riador inglês Cristopher Hill:
O poder do Estado que protegia uma velha ordem
foi derrubado, passando o poder às mãos de uma
nova classe, e tornando-se possível o desenvolvi-
mento do capitalismo.
HILL, Cristopher. A Revolução Inglesa de 1640. 3. ed.
Lisboa: Editorial Presença, 1985. p. 11.
Representação da execução do rei Carlos I na Inglaterra,
feita pelo pintor John Weesop, 1649. Óleo sobre tela,
163,2 cm 296,8 cm.
Coleção particular/The Bridgeman/Keystone
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Cromwell entre dois pilares, c. 1653-9. Alegoria de autor des-
conhecido exaltando Cromwell. Ele aparece como o Leviatã
de Thomas Hobbes, que lançou sua obra em 1651 e defendia
que deveria haver um governante ou grupo de homens que
governasse de maneira absoluta e estivesse acima de todos os
indivíduos para controlar a sociedade e garantir a segurança.
Para Hobbes, o Estado precisava ser forte e armado. Na ima-
gem, Cromwell representa a paz, a justiça e a prosperidade;
e os pilares, a força espiritual, de um lado, e a força temporal
(a política e as armas), de outro. (sem dimensões)
Esse processo iniciou-se em 1640 com a
Revolução Puritana, que culminou com a decapi-
tação do rei Carlos I, em 1649, e a criação de uma
república na Inglaterra.
Na primeira metade do século XVII, a Inglaterra
vinha desenvolvendo o comércio e as manufaturas,
principalmente de tecidos. Já havia se iniciado a
colonização inglesa da América e as terras conti-
nuaram a ser cercadas em um movimento que as
tornava, cada vez mais, mercadorias capitalistas.
Trabalhadores eram expulsos de suas terras, que
se transformavam em propriedades privadas des-
tinadas prioritariamente às pastagens de ovelhas
que forneceriam lã para as manufaturas.
A composição social da Inglaterra do início
do século XVII abrigava quatro grandes grupos:
a aristocracia, formada por nobres de sangue
de linhagem medieval; os yeomen, produtores
rurais livres que compunham parte significativa
da população inglesa; a gentry, um grupo de
nobres capitalistas que possuíam pequenas pro-
priedades; e, por fim, a burguesia mercantil, grupo
numericamente minoritário, mas de crescente
importância econômica. Juntas, a gentry e a bur-
guesia mercantil passaram a se opor ao poder
real, uma vez que não viam seus interesses repre-
sentados pela realeza. Pleiteavam um regime
de governo mais descentralizado, no qual fosse
concedido mais poder ao Parlamento. Queriam
evitar o aumento constante de impostos sobre o
comércio e impedir o monopólio real de diversos
produtos. Além disso, até o início do século XVII
criticavam a tímida participação inglesa no pro-
cesso de conquista das terras americanas.
As diferenças políticas ganharam cores religio-
sas no Parlamento. O anglicanismo era a religião ofi-
cial do Estado e, portanto, da realeza e da aristocra-
cia. Já os representantes da gentry e da burguesia
mercantil passaram a criticar a presença de rituais
católicos no anglicanismo e valorizaram a teologia
calvinista. Autodenominaram-se puritanos, uma vez
que pretendiam recriar o protestantismo calvinista
eliminando os traços católicos do anglicanismo.
Entre 1640 e 1649, essa oposição alcançou seu
ponto máximo, ocorrendo aí a Revolução Puritana.
Nesse período, o confronto entre os dois grupos no
Parlamento e com a realeza foi intenso.
Em 1628 foi imposta ao rei a Petição de Direitos,
que impunha um maior controle parlamentar sobre
os impostos e impedia o rei de convocar o exército
sem a autorização prévia do Parlamento. No ano
seguinte, o rei dissolveu o Parlamento, entretanto,
após um conflito com a Escócia, em 1640, con-
vocou-o novamente a fim de conseguir recursos
financeiros. Parlamentares da gentry e da burgue-
sia mercantil, juntos, conseguiram impedir o rei de
manter um exército permanente; a política religio-
sa passou a ser controlada pelo Parlamento, que
teria de ser convocado regularmente a cada três
anos. Em 1642, contudo, Carlos I tentou novamente
dissolver o Parlamento para ampliar sua autorida-
de. Católicos e anglicanos posicionaram-se ao lado
do rei, enquanto parlamentares puritanos e presbi-
terianos defenderam a supremacia do Parlamento.
Iniciou-se uma luta entre o exército defensor da
monarquia e as forças defensoras do Parlamento.
A guerra civil estendeu-se até 1649, quando o rei
Carlos I foi decapitado e foi proclamada a República,
sob a liderança do parlamentar puritano Oliver
Cromwell, que recebeu o apoio do Parlamento, que
era representado, em sua maioria, pelos puritanos.
Em 1651, em defesa dos interesses comer-
ciais burgueses, o novo governo aprovou o Ato de
Navegação, determinando que qualquer mercadoria
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Nesta gravura, c. 1653, de autor desconhecido, Cromwell é
representado dissolvendo o chamado Longo Parlamento em
1653, que ficou assim conhecido por ter sido convocado em
1640 e dissolvido somente nessa data. Após a dissolução do
Parlamento, Cromwell governou com poderes ditatoriais.
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vinda da América, Ásia ou África só poderia entrar
na Inglaterra em navios ingleses ou nos de seu
país de origem. Além disso, na construção dessa
nova ordem burguesa começaram a ser abolidos
os domínios e os direitos feudais. Os proprietários
passavam a ter direito absoluto sobre a proprieda-
de, independentemente de relações de vassalagem;
ou seja, a propriedade passava a ser legalmente
reconhecida pelo Estado. Foram confiscadas e
vendidas terras da Igreja e da Coroa, que serviram
para financiar os governos revolucionários.
Em 1653, Cromwell instalou um regime dita-
torial, uma nova Constituição foi elaborada e ele
alçou ao posto de Lorde Protetor. Entretanto, após
conflitos entre o exército e o Parlamento (repre-
sentado pela alta burguesia), este foi dissolvido, e
em seu lugar foi convocado um Parlamento com
seus aliados diretos. Tal órgão foi logo desmem-
brado, tornando-se explícita a ditadura de caráter
militar. Em 1655, Cromwell rendeu-se às pressões
da alta burguesia e terminou o período de domínio
militar. Cromwell aceitou uma nova Constituição,
e foi criado um conselho do Parlamento para con-
trolar o exército. Também o Protetorado, que ele
liderava, ficaria sob o controle do Parlamento.
Cromwell faleceu em 1658, antes que a nova
Constituição entrasse em vigor. Seu filho, Richard
Cromwell, assumiu a liderança do governo. Todavia
não conseguiu exercer uma liderança efetiva no
Parlamento, que acabou por decidir pela restau-
ração da monarquia na Inglaterra em 1660 sob o
governo de Carlos II, simpatizante do catolicismo.
Conforme o historiador inglês Christopher Hill:
[…] a Restauração não foi de modo algum uma
restauração do antigo regime, tornando evi-
dente não a fraqueza da burguesia e da peque-
na nobreza, mas a sua força. Os funcionários
da Administração, o tribunal, os financiadores
do Governo fizeram poucas mudanças depois de
1660. Carlos II voltou, pretendendo que era rei
por direito hereditário divino desde que a cabeça
do pai rolara no cadafalso, em Whitehall. Contudo,
não recuperou a posição do pai. Os tribunais de
privilégios não foram restabelecidos e Carlos II
não tinha qualquer autoridade executiva indepen-
dente. […] Carlos foi denominado rei pela graça de
Deus, mas foi realmente rei pela graça dos merca-
dores e nobres rurais.
HILL, op. cit., p. 102-3.
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Gravura de John Brown Basilicon, de 1684, que representa
Carlos II praticando o ritual da cura pelo toque de suas mãos.
Esse ritual ocorria na Idade Média, mas também na Idade
Moderna. Atribuía-se aos reis absolutistas o poder divino de
curar. (sem dimensões)
Coleção particular/The Art Archive/Other Images
Gravura de Auguste Alexandre Baudran, colorida por Claude
Jacquand, 1860. Representa o filósofo e matemático René
Descartes em sua mesa de trabalho. Segundo Descartes, o
homem é um ser pensante e, por isso, toda sua realidade
existe. Para ele, a razão é absoluta e universal e só precisa
de si mesma para conhecer todas as verdades. Em sua obra
Meditações, propõe buscar a verdade utilizando a própria
dúvida como método. Ele analisa as “verdades” que conhece-
mos e questiona todas elas, até chegar a uma única certeza:
a de que duvida. Se duvida, pensa. Se pensa, existe. Daí a
célebre frase: “Penso, logo existo”. Dentre suas principais
obras estão Discurso do método (1637) e Princípios de filoso-
fia (1644). (sem dimensões)
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Carlos II governou até 1685, quando faleceu.
Subiu ao trono seu irmão Jaime II, que procurou
retomar bases absolutistas ao fortalecer, com o
apoio da aristocracia, o poder real em detrimento
do Parlamento, além de defender o catolicismo.
Ocorreu então, em 1688, a Revolução Gloriosa.
Os revolucionários burgueses articularam a
deposição do rei Jaime II, que, sem força militar e
política para resistir ao movimento, fugiu do país.
O trono foi oferecido aos protestantes Guilherme
e Maria de Orange, que era filha de Jaime II.
Entretanto, para assumir o trono, deveriam acei-
tar a Declaração de Direitos (1689), na qual se
estabelecia, entre outras coisas, que o rei não
poderia cancelar leis criadas pelo Parlamento,
sendo transferidas para este órgão as decisões
legislativas e econômicas. Tal declaração deter-
minou ainda que o exército só poderia ser mobili-
zado em tempos de paz com o consentimento do
Parlamento. Além disso, as eleições para deputa-
dos deveriam ser livres. Dessa forma, permitiu-se
que a burguesia dirigisse os negócios do Estado
por meio do Parlamento, e foram tomadas medi-
das favoráveis ao avanço do capitalismo.
As bases do pensamento liberal
Alguns pensadores, principalmente contempo-
râneos de Hobbes (1588-1679), mas não distantes
do inglês John Locke (1632-1704), foram expoentes
das mudanças que se processaram no pensamen-
to de sua época, criando teorias que transcende-
ram seu tempo. Seus escritos influenciaram as
bases da formação do mundo ocidental contem-
porâneo e, por isso, são considerados tão impor-
tantes e estudados até hoje. Entre eles estão o
italiano Galileu Galilei (1564-1642) e o francês
René Descartes (1596-1650).
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Lembremos que a época de Descartes era de
mudança da concepção que o ser humano tinha de
si mesmo. A emergência e o fortalecimento da bur-
guesia levaram à busca de teorias que justificassem
a nova ordem política e social que ela vinha impondo.
Passou-se a acreditar que todos os indivíduos
possuíam sua razão e dela podiam utilizar-se livre-
mente para julgar, decidir e agir. Essa nova con-
cepção de ser humano diferia muito da que existia
antes do surgimento do burguês, quando as verda-
des eram consideradas incontestáveis, pois eram
ditadas por Deus ou pela natureza. O indivíduo
burguês emergente, nascido de sua capacidade
de trabalho, livre das amarras da servidão a Deus
e ao senhor feudal, além de seus braços, tem
também sua mente, que o orienta. Não precisa de
mais nada para se estabelecer como aquele que,
de agora em diante, deterá o poder.
O racionalismo instaurado por Descartes parte
de uma concepção bastante diferente da concep-
ção empírica de Locke. Descartes, além de colocar
a razão como a responsável pela criação dos conhe-
cimentos, ainda admite a existência de algumas
ideias inatas como a de Deus, por exemplo. Como
empirista, Locke afirmava que todo conhecimento é
produzido pela experiência do sujeito e pela relação
que trava com as coisas. Para ele, a pessoa, quando
nasce, tem a razão vazia, é uma “folha em branco”,
uma “tábula rasa”. Os conhecimentos começariam
com a experiência dos cinco sentidos. Então, para os
empiristas, a razão, a verdade e as ideias são adqui-
ridas por meio da experiência empírica.
Note que aí reside a base necessária para as
teorias contratualistas no campo da política, ou
seja, a de que nada é inato no ser humano, todos
têm as mesmas capacidades, todos são iguais.
As teorias contratualistas surgem a partir de
Hobbes, paralelamente ao processo de desenvol-
vimento do capitalismo.
Os filósofos que hoje classificamos como contra-
tualistas, como vimos no capítulo anterior, são aque-
les que tecem suas análises e propostas políticas
partindo do princípio de que o ser humano, antes de
viver em sociedade, vivia em estado de natureza, já
como indivíduos formados. Por algum motivo – para
cada autor esse motivo é diferente – esse estado
torna-se insustentável, fazendo com que os indiví-
duos estabeleçam um contrato entre si e criem a
sociedade, fundando o Estado. Esse pressuposto – da
existência individual anterior à existência da socieda-
de – leva à ideia de que uns não dependem dos outros
para se formarem como seres humanos, culturais e
sociais. E é essa ideia que abre espaço para o surgi-
mento do individualismo, uma das bases do libe-
ralismo, como veremos mais adiante. Essas teorias
foram esforços de elaboração de uma justificativa
racional que se opusesse às teorias que sustenta-
vam a nobreza, baseadas no poder natural e divino.
Para Locke, assim como nada é inato na razão,
nas ideias, também o poder de uns sobre os outros
não é inato. Todos são iguais, todos têm iguais
direitos ao trabalho e à propriedade.
Vamos acompanhar o raciocínio de Locke na
construção dessas ideias, desenvolvido em sua
obra Segundo tratado sobre o governo. Locke afirma
que, em estado de natureza, o que ameaça o direito
fundamental do ser humano de preservação da vida
é a fome e não os outros seres humanos, como o
afirmava Hobbes. Segundo ele, os indivíduos viviam
livres, sem se hostilizarem, sem nem mesmo se
relacionarem entre si. Sempre preocupados com
a própria sobrevivência, relacionavam-se apenas
com a natureza e consigo mesmos. Preste aten-
ção nessa construção do individualismo. E o que
faziam os seres humanos? Retiravam da natureza
aquilo de que precisavam para sobreviver. O que
havia sido colhido ou caçado por um indivíduo era
comido para saciar sua fome, para preservar sua
vida. Como era comido por ele, podemos dizer que
foi apropriado por ele. Ele tem o direito de comer, ou
morreria de fome, e esse direito é completamente
independente do consentimento dos outros, pois,
se cada um fosse esperar por esse consentimento,
morreria de fome. Se ele se apropriou legitimamen-
te da comida, ele é legitimamente seu proprietário.
Ora, o que legitima essa propriedade? Seu trabalho.
Uma fruta colhida não é o mesmo que uma fruta no
alto de uma árvore. Ao esforçar-se para apanhá-la,
o ser humano imprime algo seu naquela fruta, tor-
nando-a assim sua legítima propriedade. Ele tem a
propriedade de sua pessoa, de seu corpo e, portan-
to, de seu trabalho; decorre daí que tem igual direito
às coisas que consegue por meio do trabalho.
Observa Pierre Manent, filósofo francês con-
temporâneo:
[…] de uma relação bastante simples Locke con-
segue tirar duas proposições fundamentais para o
liberalismo e para o capitalismo. A primeira seria
que o direito à propriedade privada é anterior à
sociedade; não depende do consentimento de ou-
trem, é um direito apenas do indivíduo, sua essên-
cia é “natural” e não “social”. A segunda conclu-
são é a de que a relação do homem com a natureza
se estabelece através do trabalho. O homem é na-
turalmente um animal proprietário e trabalhador.
Essa concepção é bastante diferente da defendida
por Aristóteles e aceita até então de que o homem
é um animal político. Até então a propriedade
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Foto do primeiro volume da edição de 1740 da obra que reunia
vários trabalhos de Locke.
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também era considerada um direito natural, mas
não individual e nem advinda do trabalho.
MANENT, Pierre. História intelectual do liberalismo:
dez lições. Rio de Janeiro: Imago, 1990. p. 63-82. (adaptado)
Segundo Locke, Deus deu o mundo para todas
as pessoas igualmente. Fez isso em benefício dos
seres humanos, para que melhorassem suas vidas
usando o que encontrassem. O princípio de que
o ser humano se apropria naturalmente do fruto
de seu trabalho também se aplica à propriedade
da terra. Todo indivíduo tem o direito legítimo à
propriedade do pedaço de terra que consegue
cultivar. Locke afirma isso depois de constatar
que há o bastante na natureza para que todos
possam usufruir igualmente desse direito natural.
Ou seja, há espaço suficiente no planeta para
que todos cultivem a terra a fim de conseguir
seu próprio sustento. No entanto, segundo ele,
o uso da terra deve ser racional, pois só é certo
nos apropriarmos daquilo que vamos usufruir.
Não há razão para excedentes, para desperdícios.
Não há razão para guardar mais do que podemos
consumir. Aquilo que não conseguimos conservar
e usar pertence a outrem, deve ser deixado onde
está para que outro se aproprie. Assim, a mesma
lei que dá o direito à propriedade também o limita.
Podemos concluir que, para Locke, é o traba-
lho que confere valor às coisas, e não a natureza.
É por meio do trabalho humano, da intervenção
da humanidade na natureza que as coisas pas-
sam a ter valor e podem tornar-se propriedade de
alguém. Vale dizer que, segundo Locke, é o traba-
lho que legitima a propriedade.
No entanto, em relação ao dinheiro essa regra
já não funciona. É possível que uma pessoa acu-
mule muito mais dinheiro do que ela possa usar.
E veja que interessante: Locke não vê nenhum pro-
blema nisso. Ele dizia que não podemos acumular
mais do que podemos consumir, pois não temos o
direito de desperdiçar. Aquilo que se estragaria,
caso não conseguíssemos usar, estaria fazendo
falta a outra pessoa. Se guardássemos mais do
que pudéssemos usar, estaríamos usurpando o
direito do outro. Ora, em relação ao dinheiro isso
não acontece, pois o dinheiro não estraga. Uma
pessoa pode ter muito mais dinheiro do que preci-
sa para viver. Nesse caso não haveria usurpação
do direito nem prejuízo do outro. Pode acontecer
até mesmo de alguém acumular riquezas sem pro-
duzir nada na terra ou sem sequer possuir terras, se
essa pessoa dedicar-se a intermediar, comprando e
vendendo, as mercadorias produzidas por outros.
Todos estão de acordo que a moeda representa
quantidades de trabalho; então, quem a possui não
precisa ser necessariamente o trabalhador.
Vemos que Locke, partindo do princípio de que
é o trabalho que legitima a propriedade, serve-se
desse raciocínio sobre a moeda para legitimar a
atividade do burguês, que é aquele que comercia, o
intermediário, ou seja, não é o trabalhador da terra.
Chegado a esse ponto, vamos nos deter nos
motivos lockianos da passagem do estado da
natureza para o estado civil. Poderíamos começar
perguntando: Se em estado de natureza homens e
mulheres gozam de poder absoluto sobre sua pró-
pria pessoa e suas posses, por que abandonariam
espontaneamente esse estado para se submeter a
qualquer outro poder?
John Locke explica:
[…] não é sem razão que [o ser humano] procura
de boa vontade juntar-se em sociedade com outros
que estão já unidos, ou pretendem unir-se, para
a mútua conservação da vida, da liberdade e dos
bens a que chamo de “propriedade”. O objetivo
grande e principal, portanto, da união dos homens
em comunidades, colocando-se eles sob governo,
é a preservação da propriedade.
LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo, ensaio
relativo à verdadeira origem, extensão e objetivo do
governo civil. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 82.
O ser humano em estado civil é o cidadão, o indi-
víduo que participa de uma sociedade consensual, o
membro de uma instituição. Além de seu trabalho e
sua razão, ele passa a ser indivíduo econômico que
negocia com os outros: mercador que vende e troca.
Cada um concorda em restringir sua ilimitada liber-
dade natural para ver regulamentado o igual direito
de todos à propriedade; esse é seu principal intuito
ao estabelecer uma relação social com outros.
Nesse estado, há leis estabelecidas e consentidas
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Cartaz satírico de Letourmy, produzido entre 1789 e 1804, em
que um nobre evoca a igualdade durante a Revolução Francesa.
A defesa da igualdade entre os cidadãos, um dos princípios
de Rousseau, foi um dos lemas fundamentais da Revolução
Francesa. Durante esse movimento foi criada a Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão, mostrada na imagem acima.
por todos, há juiz imparcial e com autoridade para
decidir sobre as questões e um poder que apoia,
sustenta e executa a sentença justa, coisas essas
que faltavam no estado de natureza.
Ao contrário de Hobbes, que propõe um poder
absoluto ao Estado, Locke está preocupado com
a preservação e o desenvolvimento do indivíduo.
O governo a que ele propõe que se submetam os
seres humanos em estado civil não tem outra finali-
dade senão a de garantir, para cada indivíduo, seus
direitos naturais à vida, à liberdade e à propriedade.
Desdobramentos do liberalismo
No século XVIII surgiu a teoria do livre-comércio,
que seria amplamente defendida no século seguin-
te, quando ficou conhecida como laissez-faire (livre
fazer). Ela foi primeiramente elaborada pelo pen-
sador escocês Adam Smith (1723-1790), autor da
obra A riqueza das nações. Para ele, os fenômenos
econômicos definiam-se como manifestação de
uma ordem natural, devendo haver a maior liber-
dade individual possível no âmbito das relações
econômicas. Ele criou a doutrina da liberdade
natural. Conforme o economista Winston Fritsch,
Adam Smith volta-se contra “as interferências da
legislação e das práticas exclusivistas característi-
cas do mercantilismo que, segundo ele, restringem
a operação benéfica da lei natural na esfera das
relações econômicas”. (In: SMITH, Adam. A rique-
za das nações. São Paulo: Abril Cultural, 1983. v. 1.
p. XVIII. Os economistas.)
O escocês criticava todo tipo de monopólio
econômico, incluindo o das metrópoles sobre suas
colônias. Smith destacava o individualismo, a liber-
dade e a livre concorrência, por meio dos quais os
interesses individuais naturalmente seriam har-
monizados, ocorrendo o bem-estar da sociedade
como um todo. Suas ideias foram o ponto de parti-
da para o desenvolvimento de um liberalismo eco-
nômico, que condenava a intervenção do Estado na
economia. Segundo o economista Paulo Sandroni:
Adam Smith exalta o individualismo, consideran-
do que os interesses individuais livremente de-
senvolvidos seriam harmonizados por uma “mão
invisível” e resultariam no bem-estar coletivo;
essa “mão invisível” entraria também em jogo no
mercado dos fatores de produção enquanto impe-
rasse a livre concorrência. A apologia do interesse
individual e a rejeição da intervenção estatal na
economia se transformariam em teses básicas
do liberalismo.
SANDRONI, Paulo. Dicionário de Economia.
São Paulo: Abril Cultural, 1985. p. 404.
Ainda no século XVIII, o filósofo francês
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), apesar de
também partir da ideia de estado de natureza, con-
traria o liberalismo individualista elaborando a ideia
de contrato social. Segundo ele, todos os seres
humanos nascem livres, mas deveriam estabelecer
um pacto para viver em sociedade, ou seja, preci-
sariam elaborar um contrato social. A base desse
contrato estaria na preservação da liberdade, da
igualdade e da justiça. Rousseau afirma:
Encontrar uma forma de associação que defenda e
proteja a pessoa e os bens de cada associado com
toda a força comum, e pela qual cada um, unindo-se
a todos, só obedece, contudo, a si mesmo, permane-
cendo assim tão livre quanto antes. Esse, o problema
fundamental cuja solução o contrato social oferece.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. 2. ed.
São Paulo: Nova Cultural, 1978. p. 32-3. (Os pensadores).
Ou seja, cada ser humano é, ao mesmo tempo,
legislador e sujeito; portanto obedece à lei que ele
mesmo fez. Então desrespeitar as leis coletivamen-
te acordadas significava desrespeitar a vontade de
todos os cidadãos. Nesse caso, o direito de rebelião
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Representação de uma paisagem industrial na periferia de Paris, próximo a Montmartre, feita por Vincent van Gogh, 1887. Pastel e
guache em papel verde, 39,5 cm 53,5 cm. Destaca-se nesta representação a presença das chaminés das fábricas na vida urbana.
deveria ser colocado em prática em favor da manu-
tenção do que foi coletivamente acordado. Para
Rousseau, aquele que governa nada mais é que o
conjunto dos membros da sociedade. É o somatório
não dos indivíduos, mas dos cidadãos, pois agora
o indivíduo está em estado civil. Resumindo, para
o filósofo francês, o indivíduo vê suas forças mul-
tiplicadas na defesa de sua pessoa e seus bens
quando está em sociedade, uma vez que todos têm
o mesmo interesse de preservação.
Não há, em Rousseau, a criação de um Estado
separado do cidadão. Para viver em sociedade, cada
um “dá-se completamente”; isso significa que todos
submetem seus impulsos naturais individuais aos
padrões coletivos. E essa submissão é igual para
todos. Nas palavras de Rousseau, “cada um dan-
do-se a todos, não se dá a ninguém”. É assim que
ele pensa resolver a questão da liberdade e da igual-
dade em sociedade. Como era de se supor, para o
autor nenhum tirano poderia ameaçar a liberdade
do indivíduo; dessa forma, ele condena a escravi-
dão. Podemos perceber que seu pensamento liberal
assume uma feição mais democrática, uma vez que
se preocupa mais intensamente com a defesa da jus-
tiça social e da igualdade. O contrato social deve ser
regido pela vontade geral, a vontade do cidadão – e
não a do indivíduo, como dissemos –, que o conduz a
querer o bem do conjunto ao qual pertence.
Em todo o século XIX e no século XX, vários
autores liberais continuaram a defender teses
relacionadas com seus princípios formuladores,
sendo ainda hoje esse pensamento amplamente
difundido na sociedade contemporânea.
No século XIX, os principais teóricos do libe-
ralismo foram, na Inglaterra, Jeremy Bentham
(1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873); na
França, Tocqueville (1805-1859), e, nos Estados
Unidos, Thomas Jefferson (1743-1826) e
Thomas Paine (1737-1809), embora este último
tenha nascido na Inglaterra. Nesse período, a
sociedade burguesa e industrial já se impusera
fortemente, fazendo do capitalismo um sistema
econômico hegemônico. Os pensadores dessa
época, portanto, não estavam mais criando teo-
rias para justificar a fundação de uma nova
ordem. Com a Revolução Industrial europeia, em
meados do século XVIII, camponeses migraram
para as cidades para trabalhar como operários,
inchando os centros urbanos. Assim, as reivin-
dicações democráticas desse período deveriam
atender às exigências não só da burguesia, mas
também do operariado, que já se organizava em
sindicatos e, influenciado pelos ideais socialistas
e anarquistas (estudaremos o socialismo e o anar-
quismo no capítulo 7), exigia melhores condições
de trabalho. Podemos dizer que o pensamento
político do século XIX, marcado pela pressão das
organizações operárias, passou a representar um
liberalismo democrático. A tônica passou a ser
a igualdade, uma vez que havia necessidade de
garantir a liberdade de um número crescente de
pessoas mediante uma legislação e garantias jurí-
dicas. A liberdade pregada pelos clássicos do libe-
ralismo alguns séculos antes, fundada na proprie-
dade, já não encontrava a mesma correspondência
na realidade e, portanto, deixava de ser enaltecida.
Bentham foi o fundador do chamado utilitaris-
mo, desenvolvido posteriormente por Stuart Mill.
Segundo essa doutrina ética, a utilidade é o prin-
cipal critério da ação humana. Bentham pretendia
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reformular as leis segundo esse princípio para que
toda a legislação alcançasse o objetivo de pro-
porcionar felicidade ao maior número possível de
indivíduos. Em seu livro mais importante, Princípios
de moral e de legislação (1780), Bentham escreveu:
A natureza colocou o homem sob o império de dois
mestres soberanos: o prazer e a dor. O princípio de
utilidade reconhece essa sujeição e a supõe como fun-
damento do sistema que tem por objeto erigir, com a
ajuda da razão e da lei, o edifício da felicidade. O impor-
tante é que o homem procure calcular como obter o
máximo de felicidade com um mínimo de sofrimento.
Apud JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo.
Dicionário básico de Filosofia. 3. ed. Rio de Janeiro:
Zahar, 1996. p. 28.
Em 1859, Stuart Mill publicou Da liberdade, tendo
como principal tese a de que a felicidade individual
é útil porque aumenta a felicidade da coletividade.
As ideias da ética utilitarista serviram para a ela-
boração de uma teoria liberal utilitarista. Sustentando
essa teoria há uma ideia bastante simples: a de que,
de maneira geral, a felicidade coletiva é mais facil-
mente alcançada pela liberdade que pela coerção:
a liberdade seria então mais útil para a humanidade.
Façamos agora uma síntese dos princípios
liberais citados. São eles: o individualismo, a pro-
priedade, a liberdade, a igualdade e a democracia.


Individualismo: Uma das ideias principais do
liberalismo é a de que o ser humano existe como
indivíduo que tem direitos antes de qualquer con-
vívio social. Como vimos, Locke trata o ser huma-
no como um sujeito consciente e racional em
estado de natureza, que é anterior à instituição
da sociedade. Apenas pelo fato de ser humano,
cada um já tem direitos naturalmente, que inde-
pendem da posição ou da função de cada um na
sociedade – ou seja, todos são iguais.

Propriedade: Para o liberalismo, o direito à
propriedade é um direito natural de todo indiví-
duo. Ora, a doutrina liberal rejeita a ideia de todo
privilégio que venha de nascimento (era o tempo
de firmar o poder do burguês em detrimento da
nobreza) e afirma que os instrumentos legítimos
de ascensão social e acúmulo de riquezas são o
talento pessoal e o esforço de trabalho de cada
um. Qualquer um que trabalhe e se esforce, que
seja “industrioso e racional”, pode acumular
riquezas. Essas riquezas são um direito natural
que deve ser protegido pelo governo como um
de seus principais objetivos de existência.

Liberdade: O princípio da liberdade está direta-
mente relacionado com o individualismo, pois se
trata da liberdade de cada um desenvolver seus
potenciais. Qualquer tipo de controle político,
religioso, intelectual e econômico é considerado
falta de liberdade e, portanto, um desrespeito à
personalidade do indivíduo. Este deve ser deixado
totalmente livre para lutar por sua felicidade, isto
é, trabalhar para acumular propriedades, para
adquirir uma posição social vantajosa em decor-
rência de suas aptidões pessoais. Pode-se afirmar
que a propriedade é a própria expressão da liber-
dade do indivíduo trabalhador e empreendedor.

Igualdade: A igualdade defendida pelo libera-
lismo refere-se aos direitos. Os seres humanos
não são todos iguais em talentos, capacidades
e potencialidades. Se não são iguais individual-
mente, não podem ser iguais socialmente. Se o
governo deve garantir o livre desenvolvimento
das potencialidades de cada um, então diferentes
indivíduos obterão diferentes resultados ao traba-
lharem pela aquisição de riquezas, dependendo
das capacidades individuais. Portanto a igualdade
deve ser o direito de cada um desenvolver-se indi-
vidualmente. A igualdade deve ser perante a lei:
todos devem ter iguais direitos à vida, à liberdade,
à propriedade e à proteção da lei. Sendo assim,
a doutrina liberal, como vemos, reconhece as
desigualdades sociais e defende que estas são
legítimas, já que advêm das diferenças individuais,
e os mais talentosos têm direito ao “sucesso” na
sociedade. Essa ideia parte de uma concepção
naturalista de ser humano, como se cada um, por
natureza, a partir do nascimento, já fosse o que é,
independentemente das condições culturais que
cercam a formação da pessoa durante a vida.

Democracia: Consiste no direito que todos têm
de participar do governo. Ora, há uma grande
discussão em torno da viabilidade disso. Como
proceder para que todos possam governar?
Instaura-se aí a contradição entre a necessidade
de todo o povo deliberar sobre a vida da socieda-
de e a possibilidade concreta de isso acontecer.
Esse entrave entre a teoria e a prática é resolvido
por meio da instituição da representação parla-
mentar, forma encontrada para a maioria estar
presente no governo. É também uma maneira de
realização daquele indivíduo idealizado por essa
doutrina, aquele que existe enquanto tal, sem
nenhuma existência social, política e cultural,
enfim. O sufrágio universal despoja o ser humano
de suas relações, suas características pessoais,
sexo, classe social, profissão, para transformá-lo
em um “indivíduo simplesmente”. O resultado
das eleições é determinado pela maioria, que é
um critério quantitativo.
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o mundo contemporâneo são feitas referências não somente ao liberalismo, mas também ao
neoliberalismo. Vamos realizar uma pesquisa para procurar entender o que é o pensamento
neoliberal e que relações mantém com o liberalismo?
1. Objetivos do trabalho
Procurar entender o impacto e a importância do pensamento liberal para compreender a realidade
de muitas sociedades contemporâneas.
2. Texto de apoio
Para começar, leia o trecho abaixo e as instruções que seguem.
[…] [o] declínio dos regimes comunistas se deu em paralelo à ascensão de dois líderes que avocaram
para si os méritos da “vitória do capitalismo” […]. Thatcher, em especial, se tornaria a madrinha do
novo contexto político. Decretando a falência da ideia de socialismo, ela pronunciou o que se tornaria
a fórmula básica do novo credo neoliberal: “Não há e nem nunca houve essa coisa chamada sociedade,
o que há e sempre haverá são indivíduos.”. Fórmula que ela completou com um princípio lapidar, de
cunho moral, para abençoar o espírito da concorrência agressiva: “A ganância é um bem” (greed is
good). […] Até então as posições radicais monopolizavam a simbologia da emancipação e da justiça
social, apostando todas as cartas nos princípios da esperança e da solidariedade, num mundo coeso por
impulsos de liberdade, igualdade e fraternidade. Aos conservadores restava tachar essa atitude de ilusó-
ria, de lunática, de chamariz para a implantação da tirania totalitária. A operação ideológica construída
pelo nexo Reagan-Thatcher mudou completamente a configuração do debate político.
SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 35-6.
Consulte enciclopédias, sites, CD-ROMs, jornais e livros em geral para obter as informações
pedidas abaixo e elaborar sua análise.
a) Investigue quem são as personagens citadas pelo autor do texto acima.
b) Sobre os fatos descritos no texto, responda:

Quando esses fatos ocorreram?

Em que contexto?

Por que a ideia de socialismo havia falido?
c) Procure fontes que forneçam explicações sobre o que é o neoliberalismo e verifique se está de
acordo com os aspectos citados por Sevcenko.
d) Investigue em que medida o neoliberalismo se relaciona com a política e a economia brasileira
atuais. O Brasil segue ou já seguiu uma política neoliberal?
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PONTO DE VISTA
O peso de chumbo da totalidade
Roberto DaMatta
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individualidade, a consciência de si e de um espaço interno repleto de emoções, culpa, inve-
ja e pensamentos inusitados, a noção de estar só e apartado de um grupo é certamente uma
experiência universal e pode ser encontrada em qualquer sociedade humana. Mas o indivi-
dualismo, ou a ideia de que os indivíduos que constituem um grupamento humano são o centro do
sistema que deve curvar-se diante de suas vontades e ser por elas governado, é algo relativamente
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novo na história da humanidade. Alguns historiadores das ideias traçam o seu surgimento no con-
tratualismo inglês do século XVII, uma teoria que lê a vida social como decorrência das interações
entre os cidadãos-indivíduos que formam, como um clube, a sociedade.
O individualismo difundiu-se pelo mundo e encontrou nova alma e índole nos Estados Unidos
que, como o nome bem revela, trata-se de uma totalidade social explicitamente constituída por
Estados relativamente autônomos que “decidem” se unir para formar uma “union” ou um coletivo
maior e mais inclusivo, num pacto político eminentemente moderno e republicano. Tal como os
indivíduos abrem mão de algumas de suas liberdades para garantir o bem comum, assim fizeram os
“Estados originais” e os ex-territórios que hoje constituem os Estados Unidos.
Implementado como doutrina política e como um estilo de vida ou sistema cultural, o individua-
lismo leva a imaginar que se vive sozinho, como uma ilha ou como as estrelas da bandeira americana,
geometricamente ordenadas e iguais em tamanho e importância. De fato, nada é mais revelador da
índole americana do que o ditado que diz: cada um por si e Deus por todos, mote que, suplementado
pelo “mind your own business” (meta-se no seu próprio negócio), “live and let live” (viva e deixe
viver) e o “no strings attached” (sem compromisso pessoal), é indicativo de uma moralidade voltada
para o interior de cada um, avessa em princípio em valorizar relações e, com elas, o dar e o receber.
Esses princípios permeiam a vida americana e, do ponto de vista brasileiro, cuja vida social decor-
re orientada por valores opostos, pois, para nós, viver é relacionar-se, meter-se na vida alheia, fofocar
e, sobretudo, pertencer, eles são duros de pôr em prática e, sobretudo, de vivenciar.
Pois bem, tudo isso é para observar como a bárbara destruição das torres e de parte do Pentágono
tem promovido a súbita e milagrosa descoberta dos sentimentos coletivos nesses Estados Unidos
americanos. [O autor refere-se ao atentado de 11 de setembro de 2001, em que terroristas sequestra-
ram aviões comerciais e os lançaram contra as duas torres gêmeas do World Trade Center, em Nova
York, e o Pentágono, em Washington, causando milhares de vítimas. As torres eram símbolo do
poderio econômico dos Estados Unidos, pois lá funcionavam grandes empresas que movimentam
grandes quantias. A autoria do referido atentado foi atribuída a Osama Bin Laden, muçulmano, líder
do movimento Al Qaeda, e gerou os ataques dos Estados Unidos ao Afeganistão, onde supostamen-
te Bin Laden estaria escondido.] E que peso têm esses sentimentos num sistema que se pensava
como divorciado do mundo e de si mesmo. De certo modo, o que caiu com o ataque terrorista não
foram somente as torres, mas a certeza plena numa vida social autônoma e reclusa, como se a com-
partimentalização individualista fosse um escudo inviolável contra o sofrimento e a morte.
[…] Subitamente, todos se deram conta de que eram americanos e que o coletivo exigia mais do que
pagar impostos, seguir as regras de trânsito e enviar cheques caritativos pelo correio. A gigantesca pro-
porção, a brutalidade e a irracionalidade do ataque deram uma medida do ódio e da ousadia do inimigo.
Ademais, a identidade com o sofrimento dos semelhantes, a empatia imediata com sua dor, a
compreensão instantânea dos seus gestos e sentimentos trouxeram de volta esses relacionamentos
insuspeitados que constroem as existências coletivas. De repente, os americanos viam-se a si mesmos
como diversificados e livres para escolher, não tiveram escolha a não ser a de assumir sua coletividade.
DAMATTA, Roberto. O peso de chumbo da totalidade. O Estado de S. Paulo, 25 out. 2001.
1. Segundo o autor, os norte-americanos, antes do atentado, viviam de forma individualista. O que,
no texto, nos faz acreditar que o autor tenha razão?
2. Para Roberto DaMatta, o que o atentado de 11 de setembro causou aos norte-americanos?
3. Qual é a relação que o autor faz entre individualidade e coletividade? Você concorda com ele?
Por quê?
4. É possível relacionar a individualidade norte-americana citada por DaMatta com o pensamento
liberal? Justifique.
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RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

É necessário conhecer a obra de Robinson
Crusoé para responder à questão 1? Ou é pos-
sível chegar à resposta certa sem conhecê-la?

Caso seja, explique como fazê-lo. Que percurso
você realizou para chegar à resposta correta?

Para responder à questão 2 é necessário realizar
uma leitura atenta do texto de Rousseau presen-
te no enunciado. Leia o texto pelo menos duas
vezes e faça anotações no caderno destacando
a ideia central do texto. Em seguida, analise as
opções de resposta.

Já a questão 3 é bastante fácil, tendo em vista
o tema do capítulo. Essa questão nos obriga a
analisar várias frases, verificando qual delas é
pertinente ao pensamento de Locke e destacan-
do quais elementos nos levarão à resposta.

Nas demais questões, elimine primeiro as alternati-
vas incorretas para chegar mais rápido à resposta.
1. (PUC-SP) Segundo o historiador Eric Hobsbawm,
para o liberalismo clássico o homem era um ani-
mal social apenas na medida em que coexistia em
grande número. Por isso, considera que o símbolo
literário do “homem” dessa corrente de pensa-
mento foi Robinson Crusoé, que conseguiu, após
um naufrágio, viver quase três décadas numa ilha
deserta, criando, sozinho, as condições de sua
sobrevivência. Em consonância com esse perfil, o
pensamento liberal pressupõe
a) a crença no progresso, que deveria assegu-
rar, através da intervenção governamental na
atividade econômica, a felicidade e o confor-
to ao maior número possível de pessoas.
b) a crença no racionalismo, na livre iniciativa e
no progresso, daí decorrendo a necessidade
de manter a menor interferência governa-
mental possível na atividade econômica.
c) a crença de que o bem-estar social seria
assegurado pelo respeito aos costumes tra-
dicionais aceitos e estabelecidos.
d) a ideia de que a sociedade seria formada por
uma teia de relações, tornando necessário ao
homem agir em função dos seus semelhantes.
e) a ideia de que só um governo centralizado e
forte poderia assegurar a liberdade econômi-
ca e a obtenção dos objetivos individuais.
2. (UFMG-MG) Leia este trecho:
[As] camadas sociais elevadas, que se pretendem
úteis às outras, são de fato úteis a si mesmas, à
custa das outras […] Saiba ele [o jovem Emílio]
que o homem é naturalmente bom […], mas
veja ele como a sociedade deprava e perverte
os homens, descubra no preconceito a fonte de
todos os vícios dos homens; seja levado a estimar
cada indivíduo, mas despreze a multidão; veja
que todos os homens carregam mais ou menos a
mesma máscara, mas saiba também que existem
rostos mais belos do que a máscara que os cobre.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou Da educação.
São Paulo: Martins Fontes, 1985. p. 311.
A partir dessa leitura e considerando-se outros
conhecimentos sobre o assunto, é CORRETO
afirmar que o autor:
a) compreende que os preconceitos do homem
são inatos e responsáveis pelos infortúnios so-
ciais e pelas máscaras de que este se reveste.
b) considera a sociedade responsável pela corrup-
ção do homem, pois cria uma ordem em que uns
vivem às custas dos outros e gera vícios.
c) deseja que seu discípulo seja como os
homens do seu tempo e, abraçando as más-
caras e os preconceitos, contribua para a
coesão da sociedade.
d) faz uma defesa do homem e da sociedade do seu
tempo, em que, graças à Revolução Francesa,
se promoveu uma igualdade social ímpar.
3. (UPM-SP) O liberalismo, como doutrina política
atuante no cenário europeu, desde o final do
século XVIII, apesar de servir principalmente aos
interesses da classe burguesa, contagiou as par-
celas populares da sociedade oprimidas pelos no-
bres e pelos reis absolutistas. A sociedade liberal
burguesa, mesmo sendo essencialmente elitista,
era mais livre do que a do Antigo Regime, por:
a) acreditar nos princípios democráticos, crian-
do oportunidades para que todos pudessem
enriquecer.
b) permitir maior liberdade de expressão e pen-
samento, e restringir a esfera de atuação do
poder estatal.
c) aumentar, ao máximo, o poder do Estado,
para que este defendesse as liberdades indi-
viduais de cada cidadão.
d) garantir a igualdade de todos perante a lei e o
direito à participação política para todos os
indivíduos.
e) praticar o liberalismo econômico, acreditando
na livre-iniciativa e na regulamentação do
comércio pelo Estado.
4. (FGV-SP)
O século XVII é decisivo na história da Inglaterra…
Toda a Europa enfrentava uma crise em meados
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do século XVII e ela se expressava por meio de
uma série de conflitos, revoltas e guerras civis.
HILL, Christopher. O eleito de Deus: Oliver Cromwell e a
Revolução Inglesa. p. 13.
A esse respeito é correto afirmar:
a) Durante o século XVII, a Inglaterra foi a única
região que passou ao largo das turbulências
político-sociais que sacudiram as monar-
quias europeias.
b) A Declaração de Direitos (Bill of Rights),
elaborada em 1689, estabeleceu a monarquia
absolutista na Inglaterra, condição funda-
mental para o poderio britânico que se verifi-
caria nos séculos XVIII e XIX.
c) A chamada Revolução Gloriosa de 1688 con-
solidou a emergência dos grupos radicais,
denominados niveladores e cavadores, em
detrimento do poder da aristocracia senho-
rial inglesa.
d) O resultado final da Revolução Inglesa foi
a adoção de um pacto político e religioso
entre a burguesia e a nobreza proprietária
de terras, que garantiu o reconhecimento da
supremacia papal sobre os assuntos religio-
sos da monarquia.
e) Após a chamada Revolução Puritana, que
resultou na execução do rei Carlos I, e a
Revolução Gloriosa, que levou à deposição
de Jaime II, a monarquia teve seu poder limi-
tado, tendo que cumprir as leis votadas pelo
Parlamento.
5. (Enem) Que é ilegal a faculdade que se atribui
à autoridade real para suspender as leis ou seu
cumprimento.
Que é ilegal toda cobrança de impostos para a
Coroa sem o concurso do Parlamento, sob pretex-
to de prerrogativa, ou em época e modo diferentes
dos designados por ele próprio.
Que é indispensável convocar com frequência os
Parlamentos para satisfazer os agravos, assim
como para corrigir, afirmar e conservar leis.
Declaração de Direitos. Disponível em: <http://disciplinas.stoa.
usp.br>. Acesso em 20 dez. 2011 (adaptado).
No documento de 1689, identifica-se uma par-
ticularidade da Inglaterra diante dos demais
Estados europeus na Época Moderna. A peculia-
ridade inglesa e o regime político que predomi-
navam na Europa continental estão indicados,
respectivamente, em:
a) Redução da influência do papa – Teocracia.
b) Limitação do poder do soberano – Absolutismo.
c) Ampliação da dominação da nobreza –
República.
d) Expansão da força do presidente –
Parlamentarismo.
e) Restrição da competência do congresso –
Presidencialismo.
RELEITURA
Entrevista concedida ao Jornal da USP em 1997 (trechos selecionados).
JU – […] o liberalismo será incapaz de resolver os problemas da sociedade[?]
Roque Spencer – Para começar, o liberalismo já é rigorosamente uma filosofia de indivíduos pessimis-
tas. O liberal sabe que não existe a bondade natural concebida por Rousseau e que o ser humano está
mais próximo do que dizia Thomas Hobbes, para quem os homens estão naturalmente em estado de
guerra uns contra os outros. Mas ele sabe também que, independentemente de tudo isso, há um valor
universal no indivíduo, que é a sua própria realização. Isto é, a liberdade. Mais exatamente, liberdade
de pensamento, liberdade moral. Para mim, é isso o que caracteriza fundamentalmente o liberalismo.
JU – A liberdade econômica não está entre as características fundamentais do liberalismo?
Roque Spencer– O liberalismo econômico é o que prevalece hoje, de fato. […] Mas, para mim,
esse liberalismo é apenas complementar. Ele funciona na medida em que auxilie a realização de
um liberalismo propriamente ético e político – que prefiro chamar de “liberalismo cultural” –, que
prioriza a liberdade de pensamento, a liberdade moral. O liberalismo econômico precisa estar subor-
dinado ao liberalismo cultural.
JU – O mercado não é tudo, então?
Roque Spencer – O mercado é necessário para saber o valor, o preço das coisas. Mas o mercado
precisa ter marcos jurídicos muito determinados. Ou seja, é preciso haver a intervenção do poder
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1. Pode-se afirmar que o autor é um defensor do
liberalismo?
2. Que diferenças ele estabelece entre o liberalis-
mo econômico e o cultural?
3. Elabore um texto concordando com o autor ou
discordando dele. Você acredita nos princípios
que o liberalismo defende? Entende que ele seja
praticado hoje no Brasil? Que críticas você faria
ao liberalismo?
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Roque Spencer nasceu em 1927 e é professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).
Entre suas obras estão O fenômeno totalitário, Estudos liberais e A ilustração brasileira e a ideia de Universidade.
público, para que se evitem os oligopólios e os monopólios e se promova uma concorrência mais ou
menos razoável. Mas a corrente influenciada por Von Mises e outros acha que o mercado resolve por
si só todos os problemas. Von Mises é o grande teórico do que as pessoas hoje teimam em chamar
de “neoliberalismo”.
JU – O senhor diria que, no século 20, o liberalismo econômico prevalece de tal forma que
esquece a questão ética?
Roque Spencer – Existe o liberalismo do empresário – da pessoa que está na produção – e o libe-
ralismo de tipo intelectual. O empresário, geralmente, está voltado para o lucro. Em geral, quando
pensa nos problemas sociais é porque percebe que resolver certos problemas acaba dando mais lucro
para a empresa. Já entre os liberais intelectuais há aqueles que acreditam que o empresário precisa
lidar com a questão social e outros estão pouco preocupados com o assunto.
JU – Então há mesmo um tipo de liberalismo que está preocupado com as questões sociais?
Roque Spencer – Claro. Mas veja. Um liberal não quer ser paternalista nem pretende a salvação dos
indivíduos. O que ele deseja é criar todas as condições – de saúde, educação, habitação etc. – para
que o indivíduo se desenvolva plenamente e abra o seu próprio caminho.
CASTRO, Roberto C. G. A face humana do liberalismo. Jornal da USP, 18-24 ago. 1997, ed. 400.
MICELI, Paulo. As revoluções burguesas. São Paulo: Atual, 1994.
Analisa a ascensão da burguesia e a Revolução Francesa e a Inglesa. Enfoca a consolidação dessa classe social e faz
um paralelo entre as revoluções burguesas e as socialistas.
Cromwell, o chanceler de ferro. Direção de Ken Hughes. Inglaterra, 1970. (134 min).
Divergências no Parlamento inglês e a morte do rei levam a Inglaterra à Revolução Puritana, tema desse filme épico.
DHnet. Disponível em: <www.dhnet.org.br/direitos/anthist/pet1628.htm>. Acesso em: 8. abr. 2013.
Versão eletrônica da Petição de Direitos inglesa, de 1628.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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As revoluções burguesas
CAPÍTULO 4
A
s revoluções burguesas, que têm como importante ponto de partida a
Revolução Inglesa (1640-1688) e a Revolução Francesa (1789-1799), são pilares
fundamentais da construção de grande parte das sociedades contemporâne-
as. Nesse sentido, estudá-las significa retomar as origens e a lógica de funcionamen-
to de nossa vida social.
No entanto, precisamos primeiramente entender o que é uma revolução. Em
que ela se diferencia de uma revolta ou uma reforma? Que tipo de transformações
se relaciona com uma revolução? O que é resistência? Para haver uma revolução
é preciso haver luta ou guerra civil? Existe alguma revolução ocorrendo em nosso
planeta no presente?
O sociólogo Florestan Fernandes explica:
A palavra revolução encontra empregos correntes para designar alterações contí-
nuas ou súbitas que ocorrem na natureza ou na cultura. No essencial, porém, há
pouca confusão quanto ao seu significado central: mesmo na linguagem de senso
comum, sabe-se que a palavra se aplica para designar mudanças drásticas e vio-
lentas da estrutura da sociedade. Daí o contraste frequente de “mudança gradual”
e “mudança revolucionária”, que sublinha o teor da revolução como uma mudança
que “mexe nas estruturas”, que subverte a ordem social imperante na sociedade. […]
A revolução constitui uma realidade histórica; a contrarrevolução é sempre o seu
contrário… aquilo que impede ou adultera a revolução.
FERNANDES, Florestan. O que é revolução. São Paulo: Brasiliense, 1984. p. 7-9.
Neste capítulo iremos conhecer os episódios que se relacionam com o processo
das revoluções burguesas, em especial a Revolução Francesa, de importância fun-
damental para a compreensão da organização das sociedades ocidentais no mundo
contemporâneo. Alguns dos lemas e das questões postas por esse processo revo-
lucionário continuam a fazer eco nos dias atuais. A igualdade, a liberdade e os
direitos do ser humano continuam presentes como princípios a serem defendidos
por muitos setores sociais em nosso tempo.
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Acima, gravura, A Versalhes, a Versalhes, de 1789, representa mulheres marchando em direção ao Palácio de Versalhes em 5 de ou-
tubro de 1789 para pedir a deposição do rei. Abaixo, a representação de 1789 mostra o rei da França, Luís XVI, acuado pela população
que tinha invadido o Palácio das Tulherias, residência oficial do rei em Paris. Nos dois casos, com forte apoio popular, questionam-se
o poder e os privilégios da nobreza, abrindo espaço para a ascensão burguesa. (sem dimensões)
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Da Revolução Inglesa à Revolução Francesa
1640-1649 ¬ Guerra civil na Inglaterra. Luta entre a realeza e o Parlamento.
Decapitação do rei Carlos I em 1649 e criação de uma república.
1660 ¬ Restauração da monarquia na Inglaterra.
1661 ¬ Luís XIV é coroado rei absolutista na França.
1688 ¬ Revolução Gloriosa na Inglaterra. Deposição de Jaime II e posse de
Guilherme e Maria de Orange.
1689 ¬ Imposição ao rei da Declaração de Direitos. Limitação da autoridade real
e ampliação do poder do Parlamento.
1694-1778 ¬ Período de vida do escritor iluminista Voltaire.
1689-1755 ¬ Período de vida do filósofo e escritor iluminista Montesquieu.
1712-1778 ¬ Período de vida do filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau.
1740-1786 ¬ Período do governo absolutista ilustrado de Frederico II, na Prússia.
1750-1777 ¬ Período do governo absolutista ilustrado em Portugal, sob a orientação
do marquês de Pombal, ministro do rei D. José I.
1751-1772 ¬ Período de publicação da Enciclopédia, obra que expunha as ideias
iluministas.
1762-1796 ¬ Período do governo absolutista ilustrado de Catarina II, na Rússia.
1774 ¬ Luís XVI assume o trono na França. O fisiocrata Turgot torna-se ministro do
rei. Abolição da corveia e tentativa de desenvolvimento da indústria. Turgot
consegue controlar o déficit financeiro do Estado, demitindo-se em 1776.
1776 ¬ Independência dos Estados Unidos da América.
1780-1790 ¬ Período do governo absolutista ilustrado de D. José II, na Áustria.
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Fac-símile da Enciclopédia, de 1751.
Detalhe de uma gravura representando o rei Carlos I na bata-
lha de Naseby em 1645, na qual teve seu exército derrotado.
(sem dimensões)
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1789 ¬ França: inauguração dos
Estados-Gerais, no dia 5 de maio;
proclamação da Assembleia Nacional
pelo Terceiro Estado, 17 de junho;
Tomada da Bastilha, 14 de julho.
1792 ¬ Queda da monarquia francesa e
criação da república.
1793 ¬ Decapitação de Luís XVI.
1793-1795 ¬ Período do Terror e da ditadura
jacobina.
1795-1799 ¬ Período do Diretório na França.
1799 ¬ Napoleão Bonaparte toma o poder a
partir de um golpe de Estado.
1799-1804 ¬ Período do Consulado na França.
1804-1815 ¬ Império Napoleônico.
1815 ¬ Batalha de Waterloo e derrota de
Napoleão.
1815-1830 ¬ Período da restauração na França.
Pós-1830 ¬ Afirmação da sociedade burguesa na
Europa.
BAZILLE, Jean-Frederic. Reunião de família (detalhe), 1867. Óleo sobre tela, 152 cm 230 cm. Esta obra insere-se na
corrente impressionista, que surgiu na França entre 1860 e 1880, revolucionando as concepções artísticas vigentes e
abrindo caminho para a futura arte moderna. O impressionismo altera a maneira de os artistas representarem a na-
tureza e o mundo exterior em geral, com a captação do imediato, do instante, do movimento. Os principais temas da
pintura impressionista são cenas do cotidiano da sociedade burguesa, especialmente o lazer, como nesta tela de Bazille.
Cartaz de 1794. Reafirma os valo-
res revolucionários republicanos
durante a Revolução Francesa.
Lê-se “Unidade, individualidade
da República. Liberdade, igual-
dade, fraternidade, ou a morte”.
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PONTO DE VISTA
Da revolução
Hannah Arendt
[…]
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s Revoluções, embora possamos ser tentados a defini-las, não são meras mudanças. […]
A Antiguidade estava bem familiarizada com a mudança política e com a violência que a
acompanhava, mas nenhuma delas parecia dar origem a algo inteiramente novo. As mudan-
ças não interrompiam o curso daquilo que a Idade Moderna passou a chamar de História […].
[…] O conceito moderno de revolução, inextricavelmente ligado à noção de que o curso da
História começa subitamente de um novo rumo, de uma História inteiramente nova, uma História
nunca dantes conhecida ou narrada que está para se desenrolar, era desconhecido antes das duas
grandes revoluções no final do século XVIII.
[…] A palavra revolução foi originalmente um termo astronômico, que cresceu em importância
nas ciências naturais com o De revolutionibus orbium coelestium, de Nicolau Copérnico. Neste empre-
go científico, o vocábulo reteve seu preciso significado latino, designando o movimento regular,
sistemático e cíclico das estrelas, o qual, visto que todos sabiam que não dependia da influência do
homem e que era, portanto, irreversível, não era certamente caracterizado pela novidade nem pela
violência. Ao contrário, a palavra indica claramente uma recorrência, um movimento cíclico […]
Nada poderia estar mais distanciado do significado original da palavra revolução do que a ideia que
se apoderou obsessivamente de todos os revolucionários, isto é, que eles são agentes num processo
que resulta no fim definitivo de uma velha ordem, e provoca o nascimento de um novo mundo.
[…]
Foi apenas no decorrer das revoluções do século XVIII que os homens começaram a tomar cons-
ciência de que um novo princípio podia ser um fenômeno político, podia ser a consequência daquilo
que os homens tinham feito e que, conscientemente, se dispuseram a fazer.
ARENDT, Hannah. Da revolução. São Paulo: Ática, 1990. p. 17, 23, 34 e 38.
Nicolau Copérnico (1473-1543) pode ser considerado o fundador da Astronomia moderna. Em 1543 publicou o livro
De revolutionibus orbium coelestium, que explicava o modelo heliocêntrico do sistema solar. A Terra deixaria de ser o centro
do Universo, colocando o Sol em seu lugar. Isso provocou forte reação da Igreja Católica, que defendia o teocentrismo e
se posicionava contra a teoria heliocêntrica.
Hannah Arendt nasceu em 1906 na Alemanha, onde iniciou seus estudos filosóficos e políticos. De origem hebraica, foi para
Paris nos anos 1930 por causa da perseguição aos judeus. Nos anos 1940 foi para Nova York, após a invasão da França pelos
nazistas. Viveu nos Estados Unidos até 1975, quando faleceu vítima de uma doença cardíaca. Entre seus principais escritos
estão: Origens do totalitarismo, A condição humana e Da revolução. Trata-se de uma das mais importantes pensadoras políticas
do século XX, e sua obra é importante referência teórica, especialmente no que diz respeito aos regimes políticos totalitários.
Revolução social
Bobbio, Matteucci e Pasquino
A
Revolução é a tentativa, acompanhada do uso da violência, de derrubar as autoridades
políticas existentes e de as substituir, a fim de efetuar profundas mudanças nas rela-
ções políticas, no ordenamento jurídico-constitucional e na esfera socioeconômica. […]
A necessidade do uso da violência como elemento constitutivo de uma Revolução pode ser
teorizada […] em uma fundamentação histórica que mostre como as classes dirigentes não cedem
seu poder espontaneamente e sem opor resistência, e como, em consequência, os revolucionários
são obrigados a arrebatá-lo pela força, e que […], além disso, como as mudanças introduzidas pela
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CONTEXTO
Da Revolução Inglesa
à Revolução Francesa
Podemos considerar a Revolução Inglesa do
século XVII a primeira revolução burguesa da
história. Ela inclui dois momentos: a Revolução
Puritana, de 1640, que culminou na fundação de
uma república na Inglaterra e na decapitação do
rei em 1649; e a Revolução Gloriosa, de 1688, que
restabeleceu a monarquia de caráter parlamentar.
Na Inglaterra, a nova ordem desencadeou
vários conflitos entre o poder real e o Parlamento
(ver capítulo 3). Enquanto o monarca buscava
sustentar uma estrutura de privilégios e decidir
autonomamente sobre a economia, o Parlamento
(principalmente sua representação burguesa –
comerciantes e empresários), que não via seus
interesses garantidos, queria exercer maior con-
trole sobre a economia.
Revolução não podem ser pacificamente aceitas, já que significam a perda do poder, do status e da
riqueza para todas as classes prejudicadas […].
O elemento que caracteriza a Revolução da época moderna é, com efeito, a divisão da sociedade
em dois grupos antagônicos, que lutam por manter ou conquistar o poder, com a particularidade
de que, se vencerem, os “revolucionários” provocarão profundas transformações na própria estrutura
socioeconômica.
BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política.
Brasília: Ed. da Universidade de Brasília, 1986. p. 1121-30.
1. Nos textos anteriores identifique as palavras que dificultam seu entendimento e escreva-as no
seu caderno.
a) Pelo contexto da frase tente deduzir o significado dessas palavras.
b) Em seguida, confira o significado no dicionário.
c) Verifique se sua interpretação foi pertinente e leia novamente o texto.
2. Agora, responda em seu caderno:
a) O que significa revolução para Hannah Arendt? Segundo a autora, em que período da história
se firmou esse conceito contemporâneo?
b) O que é revolução social para os autores do segundo texto?
3. Compare os dois textos. Há diferenças entre a opinião dos autores?
4. Utilizando as ideias e as informações dos dois textos, defina o que é revolução social.
O historiador Modesto Florenzano afirma:
[Os estudiosos] usam indistintamente [a expres-
são revoluções burguesas], tanto para designar
todos os fenômenos históricos em que uma bur-
guesia foi, senão a protagonista, pelo menos a
beneficiária do processo que abriu caminho ao
capitalismo, quanto para designar o processo his-
tórico no Ocidente, entre aproximadamente 1770
e 1850, que transformou a sociedade ocidental de
aristocrática e feudal em burguesa e capitalista.
No primeiro caso consideram-se como revolu-
ções burguesas as seguintes revoluções: a dos
Países Baixos (atual Holanda) no século XVI, as da
Inglaterra (1640 e 1688) no século XVII, a da França
(considerada como Revolução burguesa clássica)
no século XVIII, as da Alemanha, Itália e Japão no
século XIX e, finalmente, a da China em 1911.
FLORENZANO, Modesto. As revoluções burguesas. 14. ed.
São Paulo: Brasiliense, 1995. p. 10.
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As revoluções burguesas referem-se certa-
mente a um processo de domínio burguês e à con-
solidação das forças capitalistas. Isso não quer
dizer que se relacionem somente com momentos
de tomada de poder. Além do processo revolu-
cionário que derrubou muitas monarquias na
Europa e grupos aristocráticos em outras partes
do mundo, constituiu-se um processo de constru-
ção da sociedade burguesa, na qual foram intro-
duzidas novas formas de organização econômica,
política e cultural. Uma sociedade cada vez mais
baseada foi se estabelecendo nas premissas libe-
rais, defensoras do individualismo, da livre con-
corrência, da liberdade e da propriedade. Assim,
podemos afirmar que as revoluções que rebenta-
ram a partir do século XVII e ecoaram por todo o
século XVIII e XIX tornaram a sociedade europeia
eminentemente burguesa.
A Revolução Francesa
No século XVIII, diferentemente do que ocorria
na Inglaterra, as monarquias absolutistas rei-
navam na maior parte dos Estados europeus.
Foi nesse século que surgiram as teorias do
laissez-faire (livre-comércio), defendidas pelo pen-
samento liberal. Ainda foram difundidas na Europa
as ideias do Iluminismo e do absolutismo ilustra-
do, que se espalharam em várias cortes europeias,
como as da Áustria, Rússia, Prússia, Espanha
e Portugal. Um dos momentos mais importan-
tes desse período foi a Revolução Francesa.
Para compreendermos parte do que aconteceu
na Revolução Francesa, precisamos antes estudar
o contexto europeu que envolveu o século XVIII.
Isso pode nos ajudar a entender a especificidade
dessa revolução burguesa. Segundo o historiador
inglês Eric Hobsbawm, ela se diferencia em mui-
tos aspectos da Revolução Inglesa. Diz ele:
Se a economia do mundo do século XIX foi forma-
da principalmente sob a influência da Revolução
Industrial britânica, sua política e ideologia fo-
ram formadas fundamentalmente pela Revolução
Francesa. A Grã-Bretanha forneceu o modelo para
as ferrovias e fábricas, o explosivo econômico que
rompeu com as estruturas socioeconômicas tra-
dicionais do mundo não europeu; mas foi a França
que fez suas revoluções e a elas deu suas ideias, a
ponto de bandeiras tricolores de um tipo ou de ou-
tro terem se tornado o emblema de praticamente
todas as nações emergentes… A França forneceu
o vocabulário e os temas da política liberal e radi-
cal-democrática para a maior parte do mundo. A
França deu o primeiro grande exemplo, o conceito e
o vocabulário do nacionalismo. A França forneceu
os códigos legais, o modelo de organização técnica
e científica e o sistema métrico de medidas para a
maioria dos países.
HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções. 9. ed.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994. p. 71.
O Iluminismo e o
absolutismo ilustrado
O pensamento iluminista, também denominado
ilustrado, teve papel importante na construção de
um pensamento que valorizava a noção de progres-
so com base no desenvolvimento da razão, da ciên-
cia e do indivíduo como ser racional capaz de tomar
decisões e conquistar sua liberdade, ou seja, um
ser capaz de escolher. O filósofo alemão Emanuel
Kant sintetizou parte dos princípios iluministas, ao
afirmar, em 1784: “Tem coragem de servir-te do teu
próprio entendimento! Eis a divisa das ‘Luzes’.”.
Fazia-se referência às luzes em oposição ao
período medieval, no qual o conhecimento era
limitado pela Igreja Católica e o pensamento reli-
gioso estava acima da razão. Aquele período era
conhecido como o da escuridão, o das trevas, e o
novo período que nascia era iluminado pela razão.
Dentre os vários pensadores iluministas, pode-
mos citar o escritor François-Marie Arouet
Voltaire (1694-1778), o romancista e drama-
turgo Denis Diderot (1713-1784), o filósofo
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), o filóso-
fo e escritor Charles Montesquieu (1698-1755)
e o matemático Jean Le Rond D’Alembert
(1717-1783). Suas ideias são frequentemente iden-
tificadas com aquelas relacionadas a uma ideolo-
gia dita burguesa, ou seja, elas teriam promovido
um pensamento que estaria de acordo com as
aspirações burguesas. Deve-se, contudo, relativi-
zar essa posição, pois não se pode afirmar cate-
goricamente que estavam a serviço desse ideário.
Além disso, não havia uma total unanimidade de
ideias entre os pensadores considerados atual-
mente iluministas. Rousseau, por exemplo, sus-
peitava e criticava os supostos benefícios morais
trazidos pela civilização.
Sobre esses intelectuais, afirma o historiador
Francisco Falcon:
[…] eram toda espécie de “letrados” ou, se qui-
sermos ser mais precisos, todos os “homens
de letras”. […] Eram, portanto, os membros das
profissões liberais (médicos, advogados, profes-
sores etc.), os “oficiais” ou funcionários do Estado
absolutista, os “clérigos” de diversos matizes
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Um serão na casa de madame Geoffrin em 1755, tela de Anicet-Charles Lemmonier, 1812. Óleo sobre tela, 129,5 cm 196 cm. Na Paris
do século XVIII, algumas mulheres da nobreza ou da classe burguesa se destacaram ao tornar suas residências locais de bate-papo
social e cultural. Foi o que se viu no salão de madame Geoffrin, um dos pontos de encontro dos intelectuais. No salão estão o fisiocrata
Turgot e os iluministas D’Alembert e Diderot. No fundo do salão há um busto de Voltaire.
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ou categorias, os artistas, os “diletantes” dos
tipos mais variados – nobres ou comerciantes.
Encontrando-se nos salões e academias, fazendo
parte de associações ou de sociedades secretas,
essa gente formava o mundo por excelência em que
se produziam e debatiam as ideias do Iluminismo.
FALCON, Francisco José Calazans. Iluminismo.
São Paulo: Ática, 1986. p. 19, 28-9. (Princípios).
A base do pensamento iluminista é secular,
leiga e opõe a religião à razão. Isso não signi-
ficava necessariamente negar a existência de
Deus, como o fazia Diderot. De acordo com os
ilustrados, deveria existir sempre uma iluminação
racional, a qual guiaria as ações do ser humano,
trazendo-lhe felicidade. Para esses pensadores,
tudo precisaria ser submetido à análise crítica da
razão, sendo, dessa forma, possível derrubar tudo
o que veio antes e abrir caminho para o conheci-
mento do novo, descobrindo as luzes e superando
as sombras e as trevas. Vêm daí as expressões
Iluminismo e Século das Luzes (em referência
ao século em que se desenvolveu o Iluminismo). A
ciência ocupava um papel central, pois lhe caberia
demonstrar a própria racionalidade do Universo,
tornando possível o controle do ser humano sobre
a natureza. Nesse sentido, quanto mais a razão se
desenvolvesse, quanto mais a pessoa fosse escla-
recida, maior seria a probabilidade de ela alcançar
a felicidade e a liberdade. Assim, funda-se uma
visão otimista e cosmopolita do ser humano cal-
cada na crença do progresso.
Tanto quanto se lutava pela liberdade, defen-
dia-se a igualdade entre as pessoas. Todo tipo de
privilégio seria condenado, assim como a escra-
vidão, a servidão e a dominação colonial. Para
alcançar a igualdade, seria fundamental eliminar a
ignorância e qualquer tipo de superstição. Nesse
contexto, a aplicação do princípio da tolerância
às mais diversas esferas sociais seria importante.
Deveria existir tolerância religiosa, aceitando-se,
por exemplo, as diferentes formas de culto.
Uma das principais formas de veiculação do
pensamento iluminista foi a Enciclopédia, obra
que pretendia fazer uma síntese dos conhecimen-
tos existentes, sendo também uma divulgadora
das novas ideias. A intenção era que ela fosse um
guia essencial para a construção do progresso
e da felicidade humana. A Enciclopédia viria a
materializar o produto daquilo que se denominava
reflexão racional.
O primeiro volume da Enciclopédia foi publi-
cado em 1751 e o último, em 1772. Com seus
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Acima, representação de um experimento com “sapatos elásticos” no Rio Sena, em Paris, século XVIII (autor anônimo). Um relo-
joeiro de Paris havia se proposto a flutuar no rio com os tais sapatos em 1783, porém sua tentativa não deu certo. Mesmo assim,
o evento atraiu grande parte da população, que acreditava que o ser humano, tendo recentemente conquistado o céu com balões,
poderia flutuar sobre as águas. Com a multiplicação das descobertas científicas, que cada vez mais revelavam fenômenos da natu-
reza outrora desconhecidos, o indivíduo do final do século XVIII se via cercado de forças invisíveis. A descoberta da lei da gravidade
por Newton, por exemplo, foi vista como a revelação de um poder oculto. Além disso, os cientistas esclarecidos eram obrigados
a recorrer à imaginação para explicar suas teorias, o que muitas vezes aproximava ciência e ficção. O ser humano dessa época
já contemplava a possibilidade de navegar pelo céu, como mostra a figura no alto da página, de cerca de 1784. Um ano antes, em
1783, ocorreu a primeira viagem de balão tripulada de sucesso.
17 volumes de texto e 11 volumes de ilustrações
contribuíram 140 autores, que escreveram mais de
70 mil artigos. Em 1759 foi incluída no Index, lista
de livros proibidos pela Igreja Católica. Mesmo
assim continuou a circular.
Diretamente relacionado ao Iluminismo está o
absolutismo ilustrado, que se refere a uma forma
particular de absolutismo, próprio do século XVIII,
no qual parte das ideias iluministas é incorpo-
rada por alguns Estados absolutistas europeus.
Monarcas europeus procuraram utilizar alguns prin-
cípios da Ilustração sem negar o absolutismo. Eram
adeptos do chamado despotismo esclarecido.
Nessa redefinição política, foram modificados
os métodos de ação do Estado e a prática admi-
nistrativa. Colocou-se a necessidade da criação
de reis-filósofos ou que pelo menos fossem asses-
sorados por filósofos ou indivíduos esclarecidos.
O rei não personalizaria mais o Estado, seria
seu representante maior e não sua personificação.
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Nessa nova forma de organizar e administrar o
Estado, defenderam-se a redução da influência
eclesiástica e o fortalecimento do aparelho buro-
crático na busca de maior eficiência. Criou-se
um corpo de profissionais para exercer diferen-
tes cargos da administração sob o comando do
rei. Os intelectuais estariam sempre presentes
opinando, emitindo pareceres e apresentando
projetos de reforma.
Essa nova forma de governar enfrentou a
resistência da Igreja Católica. Os jesuítas, por
exemplo, chegaram a ser expulsos de Portugal e
de suas colônias em 1759, da França em 1764 e
da Espanha em 1767. Em 1773, o papa Clemente
XIV acabou extinguindo a Companhia de Jesus.
Estabeleceu-se ainda o direito do governante
sobre os assuntos do clero no reino, colocando-o
novamente em contraposição à Igreja, que não
poderia mais contrariar os interesses do Estado.
Na Áustria, José II determinou que todas as bulas
e decretos papais fossem submetidos à aprova-
ção estatal. Colocou-se em prática o princípio
iluminista da tolerância, permitindo em diversos
países a coexistência de várias religiões.
Do ponto de vista econômico, a manutenção
do absolutismo exigia cada vez mais recursos
para manter um exército ativo e realizar conquis-
tas. Prova disso é o fato de que, somente em 1752,
a Prússia gastou 90% de seus recursos com des-
pesas militares.
Nesse período surgiu um grupo de pensado-
res franceses, os fisiocratas, que começou a
combater as ideias mercantilistas, defendendo
princípios liberais de livre-comércio. Para eles,
a terra e a natureza eram o ponto de partida
fundamental do processo produtivo, pois daí se
retiravam novos produtos, enquanto a indústria e
o comércio transformavam e vendiam aquilo que
era produzido na terra. Assim, eles acreditavam
que o Estado deveria investir na agricultura e não
proteger o comércio. Considerando que a ordem
econômica deveria ser regida por leis naturais,
defendiam a liberdade econômica e o laissez-faire,
ou seja, condenavam a intervenção do Estado na
economia e defendiam o livre-comércio. Eram a
favor da eliminação de barreiras e taxas feudais,
além de considerar que o Estado deveria garantir
o direito de propriedade.
Entre os autores fisiocratas estão François
Quesnay (1694-1774), o economista e médico da
Corte de Luís XV, o economista e ministro francês
Jacques Turgot (1727-1781) e o Marquês de
Mirabeau (1715-1789), também economista.
As ideias econômicas dos fisiocratas nem
sempre foram adotadas pelos reis absolutistas,
que, em alguns casos, como em Portugal e na
Prússia, preferiram manter as medidas monopo-
listas e protecionistas.
Ao longo do século XVIII, dentre os vários
governos absolutistas ilustrados (ou déspotas
esclarecidos), destacam-se:

o de José II (1780-1790) na Áustria, que aboliu
a servidão no país e concedeu a liberdade de
culto;

o de Catarina II (1762-1796), na Rússia, que
também concedeu a liberdade religiosa;

o de Frederico II (1740-1786), na Prússia, que
concedeu a liberdade de culto e proclamou-se
discípulo de Voltaire. Tornou obrigatório o ensi-
no básico e proibiu a tortura.
Em Portugal, o Marquês de Pombal, ministro
do rei D. José I (1750-1777), procurou promover a
indústria e modernizar a administração colonial,
tornando mais eficiente a cobrança de tributos.
Um dos objetivos de Pombal era fortalecer os
grandes comerciantes nacionais e, para tanto,
criou companhias do comércio monopolistas que
atuariam nas colônias e na metrópole com exclu-
sividade. Investiu na educação, modernizando
o ensino da Língua Portuguesa e reformando a
Universidade de Coimbra em consonância com
as ideias da Ilustração. Na Espanha, durante
o reinado de Carlos III (1759-1788), também a
indústria foi estimulada e buscou-se racionalizar
a administração do Estado.
1789, início da revolução
O pensamento iluminista e a reestruturação
dos Estados nacionais ocorrida no século XVIII
fazem parte do contexto em que aconteceu a
Revolução Francesa, mas não são explicações
suficientes para os eventos que se sucederam a
partir de 1789. Vamos estudar agora a especifi-
cidade francesa para buscar compreender esse
processo revolucionário.
A França tinha aproximadamente 28 milhões
de habitantes em 1789. A cidade de Paris ultra-
passava 650 mil habitantes e os camponeses
representavam cerca de 80% da população. Cerca
de 10% dessa população rural era composta de
grandes proprietários; outros 70% eram peque-
nos proprietários, locatários ou arrendatários. Os
demais viviam no limite da sobrevivência, conse-
guindo manter-se com pequenos trabalhos e tare-
fas que realizavam sazonalmente. A sociedade
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francesa do Antigo Regime estava dividida em
três ordens ou estados: clero (primeiro estado),
nobreza (segundo estado) e terceiro estado
(o restante da população), do qual faziam parte
os camponeses, os burgueses, os artesãos e
outras categorias urbanas. É importante lembrar
que era o terceiro estado que arcava com o paga-
mento dos impostos, embora não fosse o maior
beneficiário dos investimentos públicos.
A burguesia, ainda que enriquecida, não podia
ocupar certos cargos reservados ao clero e à
nobreza. Era esse o caso dos postos de oficiais
do exército e da marinha. No interior da burgue-
sia havia a alta burguesia financeira, que eram
os grandes comerciantes ligados ao comércio
colonial, financiadores e fornecedores do Estado
em diversas situações, principalmente durante
os períodos de guerra. Existia também a pequena
burguesia, composta de profissionais liberais,
funcionários da administração pública e comer-
ciantes de menor expressão econômica. O clero, a
primeira das ordens, tinha muita riqueza, grande
influência política e cultural. Os nobres eram os
maiores proprietários, com cerca de 20% das
terras do reino. Havia ainda os nobres togados e
os de espada. Estes últimos possuíam ancestrali-
dade, enquanto os primeiros eram burgueses que
tinham recebido do rei títulos de nobreza.
Até a primeira metade do século XVIII, a
França teve relativa prosperidade econômica.
Sua participação em três guerras a partir de
1740 (contra a dinastia dos Habsburgo, contra
a Prússia, além de seu apoio à independência
americana contra a Inglaterra) consumiu gran-
des recursos e endividou o Estado. Depois disso,
com as más colheitas nos anos 1780, houve fome,
miséria, elevação de preços e vários levantes
populares. O desenvolvimento industrial francês
não era comparável ao inglês, sendo a econo-
mia bastante dependente da agricultura. Em
1788, agravava-se a crise e já se contavam mais
de três milhões de desempregados nas cida-
des. Para compensar a queda na arrecadação,
o Estado aumentou os impostos, ampliando a
crise. Contudo, nem a aristocracia estaria dis-
posta a perder privilégios nem a burguesia pre-
tendia ceder mais recursos ao Estado.
Em meio a esse impasse, o rei francês Luís XVI
convocou uma Assembleia de Notáveis em feve-
reiro de 1787. Eles buscavam pôr fim aos atritos e
reorganizar a ordem econômica. Entre os notáveis
que se reuniram em 1787 não havia nenhuma repre-
sentação popular. No entanto, várias províncias
francesas não consideraram legítimas as decisões
que criavam novos impostos. Defendiam que só a
reunião dos Estados-Gerais, composta de repre-
sentantes das três ordens, poderia aprovar tais
medidas. Em meio a muitas pressões e movimentos
sediciosos contra o Estado, Luís XVI convocou, em
agosto de 1788, a reunião dos Estados-Gerais, que
deveria ocorrer em maio de 1789. Aconteceriam
então as eleições dos 1 200 deputados que iriam
compor a reunião dos Estados-Gerais. Durante as
eleições, foram criados os cadernos de queixas
nos quais seriam sintetizadas as reclamações de
cada ordem a serem levadas à reunião. Muitos
panfletos e escritos foram produzidos para ali-
mentar as discussões que antecederiam o registro
das queixas nos cadernos.
Paralelamente, no contexto de crise econô-
mica e escassez de alimentos, ocorreram vários
levantes populares, sendo pilhadas casas de
autoridades reais, celeiros, castelos e conventos.
Os camponeses exigiam também a abolição dos
direitos feudais. Em Paris, poucos dias antes da
abertura da reunião dos Estados-Gerais, eclodiu
o levante do Faubourg Saint-Antoine (Bairro
de Santo Antônio). Mais de mil pessoas ficaram
feridas e cerca de 300 morreram nos conflitos que
ocorreram após o rebaixamento dos salários em
algumas fábricas da região.
Charge francesa de 1789 que representa um camponês,
membro do terceiro estado, sustentando o clero e a nobreza.
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Em 5 de maio de 1789 foi aberta a reunião dos
Estados-Gerais, sendo pouco menos da metade
de seus integrantes representantes do terceiro
estado. Havia uma questão crucial que dividia
os presentes. Como seriam votadas as deci-
sões? Por cabeça (individual) ou por ordem?
Evidentemente que, ao terceiro estado, somente
interessava que o voto fosse por cabeça. A reu-
nião foi inaugurada em meio a muitos conflitos,
não se conseguindo nem mesmo proceder ao
ritual de verificação de poderes, uma vez que
seus integrantes não chegaram a um acordo
sobre o modo como fazê-lo.
Dessa forma, em junho de 1789, os repre-
sentantes do terceiro estado proclamaram-se
em Assembleia Nacional e ameaçaram ces-
sar o pagamento de impostos se o rei não acei-
tasse suas propostas. Também o clero aderiu à
Assembleia, e a nobreza isolou-se ao lado do rei.
No mês seguinte, alguns deputados da nobreza se
juntaram àqueles que se denominavam patrio-
tas, em oposição aos aristocratas. Cada vez
mais enfraquecido, o rei não conseguia sequer
o suficiente apoio do exército. Ainda no mês de
julho os deputados proclamaram a Assembleia
Nacional Constituinte, que deveria elaborar uma
Constituição para a França.
Os Estados-Gerais
N
a vigência do Antigo Regime, os Estados-
Gerais representavam um expediente – de
exceção, sem autonomia, sem continuidade,
e que não deixava qualquer traço de suas atividades.
Só deviam a sua reunião à iniciativa do governo que
os mantinha ou os mandava embora, conforme bem
entendesse. Eram desprovidos de qualquer autori-
dade em matéria de governo e mesmo de legislação.
E, se lhes acontecia tomar parte na elaboração de
certas ordenações, em termos de direito, nem por isso
deixava de ser o rei o único legislador para o reino,
assim como autor das leis e como dispensador e abo-
nador dos privilégios. Até 1789, esse atributo essencial
permaneceria um princípio intangível da autoridade
monárquica: diante de uma conjuntura de exceção, o
monarca fazia apelo à “representação” do reino para
obter um consenso que lhe apoiasse a política, ou,
mais simplesmente, subsídios extraordinários.
HALÉVI, Ran. In: FURET, François; OZOUF, Mona.
Dicionário crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1989. p. 53.
Revolta de trabalhadores no Faubourg Saint-Antoine motiva-
da pelo aumento de impostos em abril de 1789. Gravura de
Abraham Girardet, de 1789. (sem dimensões)
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Hotel dos Inválidos, de Perelle, gravura do século XVIII. (sem dimensões). O Hotel dos Inválidos foi criado pelo rei Luís XIV nos anos
1670 para abrigar militares fora de combate, mutilados de guerra e desamparados. Nos dias atuais é um dos pontos turísticos da
cidade de Paris, que pode ser observado no centro da foto aérea tirada da Torre Eiffel em 2009 (abaixo).
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Os confrontos entre o rei e os membros da
Assembleia Constituinte tomaram conta das ruas,
havendo conflitos entre as forças reais e os patriotas
que saíam em passeata contra as medidas reais
contrárias à realização da Assembleia. Protestos
populares contra o aumento de preços de alimen-
tos também podiam ser vistos, além da pilhagem
de lojas. No dia 14 de julho daquele ano, a enorme
milícia popular formada por cerca de 50 mil pessoas
invadiu o Hôtel des Invalides (Hotel dos Inválidos,
construído para ser um hospital militar), onde muitas
armas estavam guardadas. De lá foram tomados
milhares de fuzis e canhões. Faltavam as balas, que
se imaginavam guardadas no castelo da Bastilha,
prisão do Estado desde o século XVII, que abrigava
pessoas condenadas pelo rei absolutista, em geral
por razões políticas. A fortaleza foi invadida. Aqueles
que supostamente teriam escondido as armas foram
enforcados e suas cabeças, expostas em espetos.
Dessa forma, pode-se afirmar que a Tomada
da Bastilha, em 14 de julho de 1789, foi a eclosão
do processo revolucionário que se prolongaria por
vários anos, tornando evidente a força do grupo que
defendia a Assembleia, do qual faziam parte princi-
palmente o terceiro estado e porção significativa do
clero. Em várias prefeituras, até mesmo em Paris,
o poder foi tomado pelos revolucionários, não res-
tando ao rei outra opção senão aceitá-los. Membros
da aristocracia começaram a deixar a França; os
chamados emigrados temiam a ofensiva popular. No
campo, milhares de camponeses se insurgiram con-
tra o pagamento de impostos e dos direitos feudais.
Muitos castelos foram queimados, instalando-se
uma situação de pânico, a qual o historiador francês
Georges Lefebvre chamou de “O grande medo”. Em
meio à miséria, ao desemprego e às revoltas popu-
lares, corriam boatos de que “bandidos” estariam
chegando. Iria se tratar de um ato conspiratório da
aristocracia, interessada em vingar-se do terceiro
estado. O terror se instalou, ampliando a participa-
ção camponesa na revolução que acabou por ace-
lerar a destruição definitiva das estruturas feudais.
Reunida a Assembleia, decidiu-se pela abo-
lição de privilégios de nobres e do clero, procu-
rando, assim, acalmar os camponeses. Foram
abolidos os direitos feudais, as isenções fiscais do
clero e da nobreza e os títulos honoríficos.
Em agosto, a Assembleia Constituinte divulgou
a Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão, na qual se afirmava no primeiro de seus
17 artigos: “Os homens nascem livres e iguais nos
direitos”. Quer dizer, decretava que todos os seres
Representação comemorativa da Tomada da Bastilha e da
libertação de seus prisioneiros, em gravura dos anos 1790.
(sem dimensões)
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humanos seriam iguais perante a Lei, não devendo
haver mais uma estrutura de privilégios. Ainda con-
forme a Declaração, haveria direitos naturais que
deveriam ser preservados, entre eles a liberdade
e a propriedade. Definia também que um cidadão
só poderia ser preso nos casos previstos em Lei,
sendo incorporado o princípio do habeas corpus,
ou seja, a pessoa é inocente até que se prove a
culpa, não podendo ser detida sem provas concre-
tas. Deveria haver liberdade religiosa e de opinião,
sendo permitido falar e escrever livremente.
Apesar da publicação do documento, não havia
unidade na Assembleia. À direita ficavam os aris-
tocratas; à esquerda, os constitucionais liderados
pelos burgueses. Em outubro, homens e mulheres
realizaram uma caminhada de protesto até Versa-
lhes, exigindo medidas do rei contra a fome e a assi-
natura da Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão. Sem saída, Luís XVI ratificou o documento.
Começaram a surgir, nas várias regiões da
França, muitos clubes políticos que discutiam ideias
e apoiavam ou não partes do projeto de Constituição.
O clube dos cordeliers, por exemplo, defendia a
criação de uma república, assim como o clube dos
jacobinos (geralmente comerciantes e profissio-
nais liberais), que, em 1790, já tinha organizado 150
organizações políticas sob essa orientação.
A Assembleia Nacional estabeleceu que a
França seria uma monarquia e Luís XVI seria
O rei Luís XVI, a rainha Maria Antonieta e seus filhos, em 6 de
outubro de 1789, um dia depois da manifestação popular em
Versalhes. Esta representação, feita por Gyula Benczur em 1872,
mostra a tensão da família real. Óleo sobre tela. (sem dimensões)
então o rei dos franceses e não mais
o rei da França. Os bens do clero
passaram a cobrir o déficit público.
Criou-se a liberdade de indústria, eli-
minaram-se as corporações de ofício e proibiu-se
a greve, estabelecendo novas condições para o
avanço da indústria burguesa. Haveria eleições
censitárias para deputados, ou seja, somente
aqueles que pagavam certa quantia de impostos
poderiam votar. A Constituição foi promulgada
em setembro de 1791 e foi jurada pelo rei.
A partir de 1
o
- de outubro de 1791, a Assembleia
Nacional começou a funcionar como Poder
Legislativo da monarquia constitucional, que tinha
o rei e seus ministros à frente do Poder Executivo.
Na Assembleia, um grupo de deputados (os
feulliants) defendia a monarquia constitucional
e o total respeito à Constituição aprovada. No
outro extremo, os jacobinos eram defensores da
república. Eles defendiam a limitação do direito
de propriedade, devendo ser toda a sociedade
obrigada a garantir a alimentação de seu povo.
Além desses, havia os girondinos, inicialmente
um grupo de deputados que ficaria do lado direito,
enquanto os jacobinos estariam do lado esquerdo.
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Os girondinos representariam a alta burguesia:
os grandes negociantes e donos de manufatu-
ras. Seriam ao mesmo tempo defensores das
ideias iluministas. Temiam as alianças populares
e defendiam o fim imediato dos levantes organi-
zados pela população. Colocavam-se ainda contra
qualquer limitação do direito de propriedade, a
qual consideravam inviolável. Os girondinos fica-
ram conhecidos também como brissotinos, ou
seja, os adeptos de Brissot, líder girondino que
acabou por ser guilhotinado em 1793 com a perse-
guição a seu grupo no período em que se instala-
ria o Terror, como veremos mais adiante.
Havia ainda na Assembleia os montanheses,
republicanos que, em sua maioria, eram oriundos
da pequena burguesia e pertenciam ao clube
dos jacobinos e ao clube dos cordeliers. Além
disso, os montanheses buscavam o apoio dos
sans-culottes. Tratava-se de um grupo radi-
cal ligado aos jacobinos, do qual faziam parte
lideranças revolucionárias como Maximilien
Robespierre (1758-1794), Georges Danton
(1759-1794) e Jean-Paul Marat (1743-1793).
Por se sentarem nos bancos mais altos da
Assembleia, eram conhecidos como os da mon-
tanha. Havia ainda a chamada planície, compos-
ta de deputados ditos de centro, ou melhor, sem
uma definição política precisa. Ora apoiavam os
girondinos, ora os montanheses.
Nesse período ocorreram vários conflitos que
acirraram o clima revolucionário, pois aumentava
a pressão popular, que reivindicava melhores con-
dições de vida. Lutando contra a fome, grupos de
pessoas saqueavam padarias e armazéns, haven-
do inúmeros protestos nas ruas de várias cidades
francesas. Ganhou força aí a importante figura dos
sans-culottes, em geral trabalhadores parisienses,
ou seja, barbeiros, pedreiros, artesãos etc.
Afora as pressões populares, cresciam os confli-
tos com as nações absolutistas vizinhas que amea-
çavam brecar a revolução, sendo, por esse motivo,
a presença de forças estrangeiras na França uma
alternativa para os contrarrevolucionários. O rei
Luís XVI estava sob constante suspeita de atuar ao
lado dos contrarrevolucionários. Em junho de 1791,
tinha tentado fugir do país – a conhecida fuga de
Varennes (fronteira com a Bélgica) – com o apoio
de aliados estrangeiros e da nobreza emigrada.
Pretendia exilar-se na Áustria, onde tencionava
reforçar a resistência aos revolucionários france-
Os sans-culottes se relacionavam a um grupo popular da periferia de Paris que
assim se denominava por não usar calças presas nos joelhos (culottes) à maneira
dos aristocratas, e sim calças compridas. Formaram a Sociedade Fraternal
dos Patriotas dos Dois Sexos e tinham como principal lema a fraternidade,
além de defenderem valores como a honestidade e a civilidade. A partir
de 1792, esse grupo atuou ativamente nas jornadas revolucionárias
e foi a base de apoio dos jacobinos. Para Patrice Higonnet, o
sans-culotte típico “não era nem o operário dos Gobelins, nem o
indigente dos cortiços, mas um artesão, um homem em via de
se tornar mestre num ofício, ou um pequeno artesão. Ele vestia
calças – necessariamente –, uma carmanhola [tipo de casaco],
suspensórios e tamancos, um boné vermelho e uma insígnia
tricolor. […] O sans-culotte concebia, com dificuldade, que um
homem pudesse ser moral em matéria pública e desonesto em sua
vida privada. […] O sans-culotte era um moralista. A política, tal como
a compreendia, se relacionava menos ao simples jogo de interesses
do que à moralização da política e à politização do cidadão. […] O
rico e o próprio nobre não seriam nocivos unicamente pela fortuna
ou pelo berço, mas por terem um caráter antissocial, corrompido pelo
dinheiro e pelo exercício do domínio. Fraternal, o sans-culotte sentia-se
perfeitamente justificado no ódio implacável que dedicava a seu contrário,
‘o aristocrata’, o qual seria egoísta e orgulhoso. […] Para o sans-culotte, a
sociedade constituía um todo que representava um só e indivisível Estado
republicano. Esse parisiense não queria o igualitarismo dos bens, mesmo
pensando que o Estado e a sociedade deviam conceder a todo cidadão
os meios de viver. Mas sem ser verdadeiramente partidário da comunhão
dos bens, desprezava o dinheiro. O ouro era, para ele, objeto de suspeita”
(HIGONNET, Patrice. Sans-culottes. In: FURET, François; OZOUF, Mona.
Dicionário crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1989. p. 412-4). Ao lado, representação de um sans-culotte, em gravura do
século XVIII. (sem dimensões)
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Nobre vestido com um culote, uma saia de cetim
cinza, jaqueta e um colete bordado branco. França,
1786. (sem dimensões)
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ses. O plano falhou e o rei foi capturado. Mesmo
sendo perdoado pela Assembleia Constituinte,
passou a ser visto pela população como um traidor.
Ao longo do ano de 1792, o conflito entre o rei e a
Assembleia se agravou, em razão de discordâncias
sobre demissões e nomeações de ministros, além
dos vetos reais a determinações da Assembleia:
estava estabelecida a cisão entre essas duas par-
tes. Em fins de julho desse ano, chega-se ao limite
do atrito quando as forças militares austro-prus-
sianas saem em defesa de Luís XVI e ameaçam os
revolucionários. O então deputado e líder jacobino
Robespierre pede a deposição do monarca.
No dia 10 de agosto de 1792, o Palácio das
Tulherias, que abrigava a família real em Paris,
foi invadido sob o comando de líderes jacobinos
e com a forte presença das forças populares.
Após a luta com as forças reais, declara-se na
Assembleia o fim da monarquia absolutista na
França. Uma nova Assembleia foi convocada para
reformular a Constituição, uma vez que a França
iria se transformar em uma república. Essa
nova Assembleia seria denominada Convenção
e concentraria os poderes Legislativo e Executivo.
A partir de 1792, um novo calendário foi instituído
no país (veja imagem abaixo).
Ilustração da época representando o calendário francês republicano de 1792. O calendário revolucionário era baseado no sistema
decimal e foi criado pelos matemáticos Joseph L. La Grange e Gaspard Monge, além de outros intelectuais ligados ao Comitê de
Instrução Pública. O ano continuou a ser dividido em 12 meses de trinta dias; contudo, os meses foram divididos em três décadas em
vez de semanas. Os dias foram denominados primidi, duodi até decadi, que seria o décimo dia de cada uma das partes do mês. Já
os meses e suas subdivisões recebiam os nomes conforme a estação do ano. No outono, eram chamados de: vendemiário, brumário,
frimário; no inverno: nivoso, pluvioso, ventoso; na primavera: germinal, floreal, prafrial; e no verão: messidor, termidor, frutidor. O pri-
meiro ano da nova sociedade republicana francesa começou à zero hora do dia 22 de setembro de 1792 e terminou em 21 de setembro
de 1793, conforme o calendário gregoriano. Esse calendário republicano foi abandonado em 1.º de janeiro de 1806. Vale lembrar que
a mudança representa a negação do calendário cristão vigente naquele momento na maioria dos países do Ocidente. Considera-se
que a revolução começaria uma nova história, sendo necessário reiniciar até mesmo a contagem dos dias e anos. (sem dimensões)
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As palavras de ordem da república france-
sa ficariam famosas: liberdade, igualdade e
fraternidade.
A luta contra as invasões estrangeiras pros-
seguiu, e Luís XVI foi considerado culpado pela
Convenção por ter instaurado a guerra no país.
Condenado à morte por se opor e lutar contra as
propostas revolucionárias, foi guilhotinado em
cerimônia pública em janeiro de 1793.
No período da Convenção, que durou até 1795,
houve um domínio inicial dos girondinos. Em junho
de 1793, com o apoio dos sans-culottes, vários
chefes girondinos foram presos e acusados de
monarquismo pelos montanheses. Os jacobinos
assumiram a direção da Convenção em um con-
texto de crise econômica, inflação, fome e amea-
ças externas e internas.
O Grande Terror
Para evitar a contrarrevolução e assegurar que
o despotismo monárquico não voltaria a ter força
na França, os jacobinos decidiram pela instau-
ração de um poder centralizado ditatorial. Esse
regime de repressão, chefiado por Robespierre,
foi chamado de Grande Terror.
Era necessário lutar tanto contra as pressões
internas quanto as pressões externas. Rebeliões
antirrevolucionárias ocorriam em várias cidades
francesas e no campo também. Desde março
de 1793 acontecia a Guerra da Vendeia. Veja
o que o historiador François Furet afirma sobre
esse conflito:
A revolta começou no mês de março, como uma
recusa ao recrutamento. Para fortalecer os efetivos
militares da República, a Convenção votara em fe-
vereiro uma mobilização de trezentos mil homens,
sorteados entre os celibatários de cada comuna. A
chegada dos recrutadores, que lembrou os proce-
dimentos da monarquia, começou a despertar por
todo lado resistências e mesmo princípios de sedi-
ção, logo reprimidos. Mas as coisas assumiram um
aspecto particularmente grave no curso inferior do
Loire, na região de Mauges e nos bosques vendea-
nos. Nos primeiros dias de março, em Cholet, gran-
de povoado com indústria de tecidos na junção das
duas regiões, rapazes das comunas vizinhas, uma
mistura de camponeses e de tecelões, invadiram
a cidade e mataram ali o comandante da Guarda
Nacional, um patriota proprietário de manufatura.
Uma semana depois, a violência alcançou a extre-
midade oeste dos bosques, nos brejos bretões; o
pequeno povoado de Machecoul foi cercado pelos
camponeses em 10 e 11 de março, e foram ali mas-
sacrados centenas de “patriotas” . […]
A “Vendeia militar”, que escaparia de modo inteiro
à autoridade de Paris durante alguns meses, não
Representação da execução de Luís XVI ocorrida em 21 de janeiro de 1793. Litogravura, 1793. (sem dimensões)
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formara em 1789 uma região moralmente dividida
do resto da nação; pelo menos, não se percebe tra-
ço disso nos cadernos de queixas das paróquias,
hostis, como os demais, aos direitos dos senho-
res, com um caráter razoavelmente reformador
em matéria de justiça ou de imposto. Não foi,
portanto, a queda do Antigo Regime que sublevou
o povo contra a Revolução, mas a reconstrução
do novo regime: a nova distribuição dos distritos
e departamentos, a ditadura administrativa dos
povoados e das cidades, e, sobretudo, a questão
do juramento dos padres à Constituição, que deu à
resistência clandestina o nome de Deus, e a ação
dos padres refratários. Já houvera, em agosto de
1792, um começo de revolta, logo reprimido. Em
1793, no entanto, não foi o regicídio [assassinato
do rei] de janeiro que desencadeou a insurreição,
mas a reimposição do recrutamento forçado. Um
indício suplementar de que, se o povo da Vendeia
colocou Deus e o rei em suas bandeiras, foi mais
do que a saudade do Antigo Regime, a cujo faleci-
mento assistira sem lágrimas, que divisou em tais
símbolos inevitáveis de sua tradição.
FURET, François. A Vendeia. In: FURET, François;
OZOUF, Mona. Dicionário crítico da Revolução Francesa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 177-8.
A Guerra da Vendeia, que começara em março,
persistiu até dezembro, quando o exército republica-
no conseguiu debelar as forças apoiadas por católi-
cos e republicanos. O saldo da guerra foi de cerca de
10 mil soldados mortos em batalha. Mesmo depois
do fim do conflito, a região da Vendeia continuou a
ser resistente à república por vários anos.
O regime do Terror foi implementado efetivamen-
te em setembro de 1793. Uma nova Constituição foi
votada pela Convenção. Nela seria declarado o
direito ao trabalho, à instrução, à liberdade e à
insurreição, esta nos casos em que os direitos
dos povos fossem desrespeitados. Antes mesmo
da instalação efetiva do Terror, já havia sido cria-
do pelo deputado jacobino Jean-Paul Marat, sob
inspiração de Danton, o Comitê de Salvação
Pública, composto de nove membros. Nesse
comitê seriam tomadas todas as medidas neces-
sárias para que os contrarrevolucionários fossem
derrotados. O Tribunal Revolucionário decidiria
as penas aplicadas aos inimigos da Revolução. Foi
aprovada a Lei dos Suspeitos, que autorizava a
prisão de qualquer pessoa considerada suspeita de
trair a Revolução. Cerca de 40 mil pessoas foram
presas conforme esse dispositivo legal. Os comi-
tês já existiam desde 1789, mas foram fortalecidos
durante o período da Convenção, uma vez que
o Poder Executivo funcionava com o Legislativo.
Cada comitê era formado por um grupo de deputa-
dos que discutiam propostas para vários setores da
sociedade. Além do Comitê de Salvação Pública,
havia o Comitê de Finanças, o de Fiscalização e o
de Segurança Geral.
Nesse período, todos os jovens entre 18 e 25
anos foram convocados para enfrentar a contrar-
revolução, que conseguiu obter algumas vitórias
no interior do país. Criou-se um estado de guerra
constante, sendo a violência uma das armas para
consolidar a Revolução. Em outubro de 1793, em
Paris, a rainha Maria Antonieta foi executada na
guilhotina. Em 1794, uma nova legislação ampliou
os poderes do Tribunal Revolucionário, possibili-
tando que uma denúncia levasse um suspeito à
condenação sem mesmo haver um inquérito para
investigar a veracidade das acusações. Só entre
junho e julho desse ano mais de mil pessoas foram
julgadas e cerca de 800, executadas. Entre elas
estava o criador da Química moderna, Antoine
Lavoisier. Até mesmo membros do governo revo-
lucionário foram condenados e guilhotinados. Esse
foi o caso de Georges Danton. Líder revolucionário
e membro do Comitê de Salvação Pública, Danton
DAVID, Jacques-Louis. A morte de Marat, 1793. Óleo sobre
tela, 165 cm 128 cm. O pintor retratou Jean-Paul Marat
(1743-1793), o defensor do Grande Terror, no Tribunal
Revolucionário. Em julho de 1793, Marat foi assassinado.
Charlotte, autora do crime e que se dizia sua admiradora, foi
condenada pelo Tribunal Revolucionário e guilhotinada em
seguida. Esse foi um dos episódios que contribuíram para que
se defendesse a implementação do Terror.
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Representação da prisão
de Robespierre, feita por
Herriet Fulchran-Jean, em
1794. (sem dimensões).
Nela, um soldado da
Guarda Nacional aponta
a arma para Robespierre.
passou a desaprovar o regime de excessiva repres-
são e acabou por ser julgado como traidor. Foi con-
denado à guilhotina também em 1794. Assim como
ele, vários líderes girondinos tiveram o mesmo fim.
O aprofundamento da Revolução Francesa
trouxe ainda várias medidas anticristãs, como a
criação de um novo calendário, a substituição dos
nomes de santos das ruas e a convocação da Festa
da Razão, celebrada na Catedral de Notre-Dame
de Paris. Em defesa da liberdade, decretou-se o
fim da escravidão nas colônias francesas, ato que
seria suspenso por Napoleão em 1802.
Embora o regime ditatorial dirigido por
Robespierre e Saint-Just (1767-1794) tenha eli-
minado muitos inimigos, não conseguiu resolver
os problemas sociais que ainda permaneciam
no país. Apesar de terem sido tomadas algumas
medidas para melhorar a saúde pública, o abas-
tecimento de alimentos e mesmo a distribuição
de terras para indigentes, tais medidas não foram
suficientes para que os sans-culottes e a maioria
da população aprovassem o regime do Terror. Sem
o apoio popular, cresceu a oposição a Robespierre
e Saint-Just, que, em 27 de julho (9 termidor
no calendário da revolução) de 1794, acabaram
sendo condenados pela tirania e guilhotinados
por ordem da Assembleia. Eliminada grande parte
do perigo externo, uma porção significativa da
Convenção, liderada pelos girondinos, já não via
motivo para continuar a ditadura. Com eles, mais
de uma centena de pessoas ligadas aos jacobinos
foi guilhotinada, pondo fim ao período do Terror.
Com o fim do Terror, foram reorganizados os
comitês e fechado o clube dos jacobinos. Os
girondinos voltaram à cena política, e a presença
dos sans-culottes no cenário político foi reduzida.
A Lei dos Suspeitos foi abolida, e a Assembleia
Nacional retomou o controle do governo da França.
Esse processo de luta contra os jacobinos e a
ordem política que se instituiria a partir de então
ficaram conhecidos como reação termidoriana,
que restabeleceu o poder político da Assembleia
em detrimento dos comitês.
Ainda que a Convenção não tivesse conseguido
atingir seus objetivos no que dizia respeito às trans-
formações sociais, durante esse período foram
criadas várias possibilidades de enriquecimento
da vida cultural francesa, ficando em evidência o
princípio iluminista de desenvolvimento da razão.
O historiador Carlos Guilherme Motta explica:
Além da Biblioteca Nacional, do Museu do Louvre e
do Arquivo Nacional, da adoção do sistema decimal
e do sistema métrico, a Convenção lançou os fun-
damentos de uma nova concepção de cultura e de
sociedade. Seu Comitê de Instrução Pública produ-
ziu um projeto […] que previa uma escola para cada
mil pessoas e liberdade de ensino. Não foi adotado
o ensino obrigatório e gratuito – como desejariam os
montanheses –, mas para o ensino primário votou-se
uma escola por cantão. Já o secundário interessava
à burguesia termidoriana; cada departamento deveria
ter uma escola central, sem exame, programa ou
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inspeção, com alunos externos[…] O ensino supe-
rior seria por especialidade: daí o Museu de História
Natural (do “Jardin des Plantes”), a Escola Central de
Trabalhos Públicos (embrião da École Polytechnique,
1794), o Conservatório de Artes e Ofícios, a Escola de
Belas-Artes, o Conservatório Nacional de Música. E,
além da École de Mars de Neuilly para fornecer qua-
dros para o exército, e da École Normale para formar
professores para as Escolas Centrais, criaram-se as
Écoles de Santé em Paris, Montpellier e Estrasburgo,
para a formação de médicos.
MOTTA, Carlos Guilherme. A Revolução Francesa.
São Paulo: Ática, 1989. p. 177.
O Diretório
Uma nova Constituição foi redigida e adotada
a partir de agosto de 1795. Nela se reafirmou o
direito de propriedade, sendo até mesmo possível
que burgueses desapropriados retomassem seus
bens confiscados pelo Terror. O direito de voto foi
limitado aos homens alfabetizados que pagavam
impostos. Passaram a existir duas Câmaras, que
eram o Conselho dos Quinhentos, responsá-
vel pela elaboração das leis, e o Conselho dos
Anciãos, formado por 250 membros com mais
de 40 anos. O Poder Executivo seria composto de
cinco diretores eleitos pelos Conselhos. Era o cha-
mado Diretório, que passou a governar a França
a partir de 1795. Com o retorno dos girondinos,
voltava ao poder a alta burguesia, que, ao eliminar
o Terror, começou a fazer valer seus interesses.
Nesse período, começou a ter destaque, no cená-
rio francês, Napoleão Bonaparte, militar filho
do burguês Charles Bonaparte. Napoleão liderou
a campanha francesa contra os estados do norte
da Península Itálica, na qual ele se saiu vitorioso.
Conseguiu que os reinos do Piemonte e de Milão
assinassem tratados de paz com a França. Abriu
caminho para invadir a Áustria, que acabou por
assinar um tratado de paz com a França em 1797,
cedendo territórios sob seu domínio à nação fran-
cesa. Além disso, formaram-se várias repúblicas na
Europa sob influência ou intervenção do governo
francês: Nápoles, Suíça e Roma, entre outras.
A França vivia ainda uma grave crise econômica,
a inflação subia progressivamente e a moeda perdia
valor. Em 1795 foi abandonado o assignat como
moeda e criado o franco, sendo necessário revitalizar
a economia para fazer frente aos custos de guerra.
Para prejudicar a Inglaterra, nação inimiga
da França, Napoleão propõe a invasão do Egito,
importante rota de negócios com as Índias. Era de
lá que saía grande parte do algodão utilizado nas
indústrias inglesas. Apesar de sua vitória nessa
expedição, começou a se articular uma coalizão
europeia contra a França. Dela faziam parte a
Inglaterra, o Império Otomano, a Rússia e Nápoles.
Com isso, o exército francês começou a sofrer
algumas derrotas em diferentes regiões da Europa.
Em 1796, um movimento liderado por François
Babeuf, a Conspiração dos Iguais, tentou orga-
nizar um golpe de Estado para derrubar o Diretório.
Os rebeldes prenunciavam o comunismo e exigiam
a soberania popular, a divisão comunitária dos
bens e dos trabalhos, além da democracia social.
A conspiração foi denunciada e Babeuf acabou
preso e guilhotinado no ano seguinte. Herdeiro
dos jacobinos, Babeuf questionava a propriedade
privada, propondo sua supressão.
Em 1797, uma tentativa de golpe de Estado
liderada pelos realistas fez com que se intensifi-
casse o processo de militarização e centralização
do poder republicano. Temia-se tanto o avanço dos
realistas, que haviam conseguido expressivo resul-
tado nas eleições daquele ano para a renovação do
Conselho dos Quinhentos e dos Anciãos, quanto a
radicalização revolucionária.
Nas eleições que renovariam parte dos conse-
lhos legislativos em 1799, os jacobinos voltaram a
ter expressão no cenário político. Passaram a criti-
car as derrotas militares e a questionar as decisões
do Diretório, sendo reabertos os clubes jacobinos.
Temendo um novo processo de radicalização da
revolução e a mobilização popular, setores da bur-
guesia, liderados pelo abade Emmanuel Sieyès,
articularam um golpe de Estado para reformar a
Constituição. Napoleão retornou de uma campa-
nha militar no Egito e liderou o golpe militar que
ocorreu em 9 de novembro de 1799, ou 18 brumário
no calendário da Revolução Francesa. Chegava ao
fim o Diretório.
Após a demissão de três diretores e a oposição
do Conselho dos Quinhentos a Napoleão, este
invadiu a sala do Conselho e forçou a retirada dos
deputados, que abandonaram o local. Estava reali-
zada a tomada do poder. Em seguida, foi criado o
Consulado, poder executivo que teve como seus
primeiros representantes Napoleão, o abade Sieyès
e o general Roger Ducos. Uma nova Constituição
foi elaborada centralizando o poder e fazendo
de Napoleão o primeiro-cônsul do país por dez
anos. Napoleão ascendia ao poder, sendo implemen-
tada uma direção governamental de caráter ditato-
VOCABULÁRIO
Cantão: unidade político-territorial em alguns países europeus.
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rial na França. Ao comentar o desfecho do Golpe do
18 brumário, o historiador Jean Tulard afirma:
Paris não se moveu. A mola revolucionária da capi-
tal estava quebrada. A opinião pública não desejava
outra guerra civil. A Revolução parecia terminada.
Cabia a Bonaparte consolidar suas conquistas:
“Liberdade, igualdade, propriedade”.
TULARD, Jean. História da Revolução Francesa (1789-1799).
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. p. 347.
Os princípios burgueses estariam garantidos e a
revolução tinha acabado, tendo a burguesia consegui-
do se afirmar no poder ao apoiar o golpe de Napoleão.
O Consulado e o
Império Napoleônico
Em 1804 Napoleão lançou o Código Civil
Napoleônico, no qual garantiu o direito à proprie-
dade, a igualdade dos cidadãos perante a lei, proibiu
as greves e a organização sindical e reafirmou a
reforma agrária, conseguindo, assim, apoio dos
camponeses. Nesse ano foi aprovada uma nova
Constituição, a qual concedia a ele o título de impe-
rador. Apesar desse título, a França não voltaria a
ser uma monarquia tal qual era a nação absolutista
antes de 1789. O principal apoio a Napoleão advi-
nha dos estratos burgueses e camponeses, e não
da antiga nobreza. Seu compromisso era manter e
ampliar as conquistas burguesas e as instituições
liberais. Internamente, ele impôs maior controle ao
processo de emissão de moedas com a criação do
Banco de França, conseguindo, assim, controlar a
inflação. Paralelamente, fomentou a indústria.
A partir de então começou a se constituir o
Império Napoleônico, expandindo-se por várias
regiões da Europa até a fronteira com o Império
Russo. Em alguns casos, Napoleão não exercia
o domínio direto sobre o país, mas conseguia
empossar governantes ligados a ele. Em outros
casos, membros de sua própria família assumiam
a direção do país, como ocorreu na Espanha.
O historiador Jean Tulard nos indica parte das
conquistas e das transformações provocadas no
mapa da Europa com as vitórias napoleônicas:
Sob o Consulado, a primeira mudança ocorre na
Itália. Após a vitória de Marengo, em 14 de junho
de 1800, e da consequente paz de Lunéville, em
9 de fevereiro de 1801, o primeiro-cônsul, dono
de expressiva parte da Itália do Norte, divide o
Piemonte em seis departamentos. Em 1805, a
antiga república liguriana [região ao norte da atu-
al Itália] transforma-se em três departamentos:
Gênova, Montenotte e Apeninos. A Ilha de Elba,
classificada como prefeitura pelo almanaque im-
perial, é dirigida por um comissário geral e um
conselho de administração. A Toscana, reunida ao
Império em 1808, é dividida em três departamentos.
O ducado de Parma, por sua vez, é transformado
em departamento do Taro, enquanto o Valais (na
Confederação Helvética) se torna departamento do
Simplon […] Uma espetacular anexação, nascida
do conflito entre Napoleão e seu irmão Luís, rei
da Holanda, provoca, em julho de 1810, a criação
de dez novos departamentos nos Países Baixos.
As cidades da Hansa constituem, por sua vez, no
dia 13 de dezembro de 1810, três departamentos
[…] O Império submetido à administração direta
de Napoleão ultrapassa os 750 mil km2, e engloba
uma população de 45 milhões de habitantes. E isso
não é tudo. Napoleão é rei da Itália. Após as vitó-
rias da Campanha da Itália, ele criou a República
Cisalpina, com capital em Milão, cuja existência foi
comprometida pelos fracassos do Diretório. Desde
o dia 5 de junho de 1800, a República ressuscita, por
ordem de Napoleão, e seus limites são estendidos.
Por decreto de 7 de setembro de 1800, a República
Cisalpina é ampliada: Bonaparte é seu presidente
no momento em que se torna República italiana.
TULARD, Jean. Napoleão: o construtor de uma nova
Europa. Revista História Viva. Ano 1, n. 1, nov. 2003.
São Paulo: Duetto Editorial. p. 42-3.
Para tentar vencer a Inglaterra, Napoleão organi-
zou o Bloqueio Continental em 1806, que decreta-
va o fechamento dos portos europeus à navegação
inglesa. Com o isolamento da Inglaterra, os france-
BOUCHOT, François. de 1840. Óleo sobre tela, sem di-
mensões. Representa Napoleão invadindo o Conselho
dos Quinhentos durante o golpe de Estado do 18
brumário em 1799.
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ses esperavam debilitar a economia do reino britâ-
nico e, assim, vencê-lo na guerra que travavam em
busca da hegemonia política e econômica europeia.
Quando tentava dominar o Império Russo, em
1812, o exército de Napoleão foi derrotado. Leia
a seguir a descrição de Marvin Perry sobre essa
jornada militar.
Em junho de 1812, o Grande Exército de Napoleão,
reunindo 614 mil homens […] penetrou na Rússia.
Travando apenas escaramuças de retaguarda e re-
cuando de acordo com um plano, as forças do czar
atraíram os invasores à vastidão do território russo,
muito distante de suas linhas de abastecimento.
Em 14 de setembro, o Grande Exército, com seus
efetivos muito reduzidos por doença, fome, esgo-
tamento, deserção e combate, entrou em Moscou,
que estava praticamente abandonada. Para de-
monstrar seu desprezo aos conquistadores france-
ses e negar-lhes abrigo, os russos atearam fogo à
cidade, que queimou por cinco dias. Instalando-se
em Moscou, Napoleão esperou que Alexandre I
admitisse a derrota e procurasse um acordo. Mas
o czar permanecia intransigente. Napoleão enfren-
tou um dilema: penetrar ainda mais na Rússia era
morte certa; ficar em Moscou, com o inverno que
se aproximava, significava fome provável. Diante
disso, resolveu retirar-se para o oeste. A 19 de ou-
tubro de 1812, mil soldados e milhares de carroças
carregadas com o saque deixaram Moscou para a
longa viagem de volta. Em princípios de novembro
começou a nevar e gear. Cossacos e camponeses
russos dizimaram as tropas que se perdiam.
PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa.
São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 346-7.
Depois disso, em fins de 1813, Napoleão foi nova-
mente derrotado na Batalha das Nações, em
Leipzig, na Alemanha. As nações aliadas (Prússia,
Grã-Bretanha, Rússia e Áustria) tomaram Paris
em março de 1814 e obrigaram Napoleão a assinar
o Tratado de Fontainebleau, no qual abdicava
o trono francês e recebia, em troca, a soberania
sobre a Ilha de Elba, no Mar Mediterrâneo.
Após a primeira derrota de Napoleão, foi restaura-
da a monarquia na França e conduzido ao trono Luís
XVIII, irmão de Luís XVI, da dinastia dos Bourbon.
No entanto, ele não gozaria de poderes absolutos e
seria obrigado a respeitar a Constituição, existindo
também uma Câmara de Deputados, liberdade de
imprensa e opinião. O catolicismo foi declarado a
religião oficial do Estado, que deveria garantir mais
uma vez o direito de propriedade.
Apesar de sua derrota, Napoleão deixaria mar-
cas profundas na organização política europeia,
VOCABULÁRIO
Escaramuça: breve batalha militar ou de menor importância.
Cossaco: soldado do exército russo do período imperial.
MAPA NAPOLEÔNICO (1812)
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Com base em ARRUDA, José J. de A. Atlas histórico básico. São Paulo: Ática, 2000. p. 24.
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INTERDISCIPLINARIDADE
A ciência iluminista
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o período compreendido entre os séculos XVII e XVIII ocorreu uma transformação sig-
nificativa da visão do ser humano sobre si mesmo e sobre a natureza. Nesse período, a
ciência assumiu um papel central na construção de um pensamento que valorizava a ideia
de progresso tendo como base o uso da razão. Essa “nova ciência” passou a reconhecer a observação
como forma de compreender o Universo e a experimentação como forma rigorosamente planejada
de verificar hipóteses. Além disso, adotou um enfoque matemático para a natureza, descartando os
argumentos qualitativos, a magia e o misticismo, tão comuns na ciência renascentista, para optar pelo
uso da abstração matemática a fim de descrever e explicar os fenômenos naturais e os resultados dos
experimentos realizados.
O crescente interesse do Estado pela ciência refletiu-se na fundação das academias científicas de
Nápoles e Florença, na Península Itálica, da Royal Society of London, na Inglaterra, e da Académie
des Sciences, na França. Nessas instituições, o aperfeiçoamento do cálculo pelos mate-
máticos Leonhard Euler e Pierre Laplace e a aplicação de conceitos como logarit-
mo e cálculo probabilístico, desenvolvidos no século XVII, foram tornando a
Matemática uma ferramenta essencial para descrever o Universo, permitindo a
resolução de inúmeros tipos de problema.
A aplicação da Matemática à Física permitiu avanços, especialmente no que
se refere à óptica (estudos sobre a natureza da luz e sua refração), às investiga-
ções sobre o vácuo, aos estudos sobre o calor (natureza do calor, desenvolvi-
mento dos termômetros e respectivas escalas termométricas), à eletricidade e
ao magnetismo. O aprofundamento dos estudos sobre os gases, a combustão
e a respiração marcaram o desenvolvimento da Química nesse período. Na
Geologia, estudos mais cuidadosos levaram a avanços importantes nas ideias
sobre a Terra, sua idade, as transformações sofridas ao longo do tempo, além
de um aprofundamento no estudo dos fósseis (Paleontologia).
Telescópio do século XVIII utilizado para observação astronômica.
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pois, após as guerras e as anexações que promoveu,
o mapa e as fronteiras dos Estados europeus se
transformaram. Ainda em 1814, foi organizada uma
conferência internacional denominada Congresso
de Viena, a qual pretendia reorganizar as fronteiras
após a derrocada de Napoleão. Pretendia-se, ainda,
combater o programa liberal-burguês do imperador,
restaurar as monarquias absolutistas que haviam
sido destituídas e restabelecer o equilíbrio de forças
entre as potências europeias, evitando dessa forma
novos confrontos. Quanto a Napoleão, como foi
explicado antes, foi-lhe concedida a soberania sobre
a Ilha de Elba, onde passou a viver.
No ano seguinte, acompanhado de mil soldados,
realizou uma marcha até Paris, aonde chegou em
20 de março. Comandando essa força militar, con-
seguiu tomar o poder, fazendo com que o rei Luís
XVIII fugisse para a Bélgica. Dois dias depois, uma
nova Constituição foi promulgada. Prevendo a hos-
tilidade das nações inimigas, Napoleão julgou que
deveria realizar uma ofensiva e impor-se por meio
de seu poder militar. Assim, invadiu a Bélgica, mas
novamente a aliança entre as nações foi mobiliza-
da, impondo-lhe uma derrota definitiva em 1815, na
Batalha de Waterloo. Em 22 de junho desse ano,
deixou mais uma vez o poder, sendo esse período
denominado Governo dos Cem Dias. Napoleão foi
exilado na Ilha de Santa Helena, na costa africana,
onde faleceu em 1821.
Luís XVIII retomou o trono francês, porém um
novo tratado internacional impôs penas mais
duras à França, que passou a ser considerada
inimiga internacional, sendo obrigada a pagar
uma milionária indenização de guerra aos países
aliados, além de ter suas fronteiras reduzidas ao
que eram em 1789.
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ROTEIRO DE TRABALHO
1. Retome os conceitos de revolução apresentados neste capítulo e explique se as mudanças ocor-
ridas no pensamento científico do período em estudo podem ser consideradas uma revolução.
Apresente argumentos.
2. Faça uma relação das características da ciência iluminista apresentadas no texto e responda em
seu caderno:

É possível identificar algum desses elementos no pensamento científico atual? Quais? Exem-
plifique concretamente.
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ENo campo das ciências da vida, além da nova dimensão do micromundo aberta pelo uso do
microscópio, ocorreram progressos notáveis na Botânica, na Zoologia e na Medicina graças à apli-
cação da Física a essas áreas do conhecimento. Aprofundaram-se os estudos sobre a anatomia e o
transporte de substâncias no interior dos seres (condução da seiva nos vegetais e circulação sanguí-
nea nos animais). O crescente interesse pela organização da diversidade na natureza, reforçado pela
descoberta de novas espécies na América, na África e na Ásia, levou ao desenvolvimento de novas
formas de classificar os seres vivos, baseadas em descrições detalhadas de sua anatomia. Em 1735,
Carl von Linné (1707-1778) publica Systema naturae (Sistema da Natureza), obra que se propõe a
classificar todos os seres vivos conhecidos e que constitui o fundamento para o método de classifica-
ção empregado pela Biologia até a atualidade.
A ciência assume finalidades eminentemente práticas. Ocorre um desenvolvimento considerável
no projeto e na fabricação de instrumentos científicos de precisão com objetivos científicos, quer
para confirmar teorias já existentes, quer para refutá-las, uma vez que permitem investigar o mundo
natural de forma mais rigorosa. Os observatórios astronômicos aperfeiçoam-se no estudo das leis do
movimento planetário com o uso de telescópios. Além de permitir pesquisas astronômicas, como a
construção de mapas celestes, a determinação da distância da Terra em relação ao Sol e o estudo do
movimento da Terra, tais instrumentos tornam possível a realização de observações que possibilitam
aos marinheiros encontrar suas coordenadas no mar, facilitando a navegação.
O desenvolvimento dos microscópios trouxe nova dimensão para o estudo das ciências da vida,
permitindo a identificação da estrutura celular dos seres vivos e seu detalhamento anatômico, além
da visualização de espécies invisíveis a olho nu, até então desconhecidas (protozoários).
Esse breve panorama dos avanços científicos do período possibilita perceber que, de uma forma ou
de outra, todas as áreas do conhecimento científico mostraram-se importantes a múltiplas finalidades,
contribuindo para concretizar o sonho de progresso humano com base no desenvolvimento da razão.
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Revolução Francesa: a viragem
Elisabeth G. Sledziewski
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isse-se muitas vezes que as mulheres nada tinham ganhado com a Revolução, quer porque
esta em nada tinha mudado a sua condição, quer, pelo contrário, porque a tinha mudado,
mas no mau sentido. Esses dois pontos de vistas convergentes e antagônicos negligenciam,
um e outro, a importância da transformação revolucionária.
Considerar-se-á, portanto, a Revolução Francesa como uma mutação decisiva na história das
mulheres. Em primeiro lugar, muito simplesmente porque o foi na história dos homens – os do
outro sexo e seres humanos no seu conjunto. Em seguida, porque essa mutação foi a ocasião de um
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questionar sem precedentes das relações entre os sexos […] Mais profundamente, a condição das
mulheres mudou porque a Revolução levantou a questão das mulheres e inscreveu-a no próprio
coração de seu questionamento político da sociedade.
Na opinião de todos os seus adversários, contemporâneos e vindouros, a Revolução é espe-
cialmente culpada por ter introduzido o vício no próprio âmago da ordem social, ao emancipar
as mulheres […]
O teórico monárquico Bonald faz precisamente a acusação aos revolucionários de terem arruina-
do a “sociedade natural”, na qual a mulher é “súdito e o homem é poder”. Os dois termos são aqui
entendidos como contrários e a mulher “sujeito” é um ser submetido a outrem, incapaz de se com-
portar como sujeito autônomo de seus atos, e, portanto, como sujeito de direito […] O homem que
solta as rédeas à mulher falta aos seus deveres naturais para com Deus e para com o rei.
[…]
A revolução deu às mulheres a ideia de que não eram crianças. Reconheceu-lhes uma personali-
dade civil que o Antigo Regime lhes negava, e elas tornaram-se seres humanos completos, capazes
de fruírem e de exercerem direitos. Como? Tornando-se indivíduos.
A Declaração de 1789 reconhece a cada indivíduo um direito imprescritível “à liberdade, à
propriedade, à segurança e a resistência à opressão”. Consequentemente, toda mulher é, como
todo homem, livre das suas opiniões e das suas opções, segura da integridade de sua pessoa e dos
seus bens. É neste sentido que as raparigas deixam de ser desfavorecidas nas partilhas sucessórias
[…] A Constituição de setembro de 1791 define de maneira idêntica para as mulheres e para os
homens o acesso à maturidade civil. A mulher vê, além disso, reconhecer-se-lhe suficiente razão e
independência para ser admitida a testemunhar nos registros civis e a contrair livremente obriga-
ções (1792). Acede também à partilha dos bens comunais (1793). No primeiro projeto de Código
Civil, apresentado à Convenção por Cambacérès em 1793, a mãe goza das mesmas prerrogativas
que o pai no exercício da autoridade paternal.
Mas são, sobretudo, as importantes leis de setembro de 1792 sobre o estado civil e o divórcio que
tratam em pé de igualdade os dois esposos e estabelecem entre eles a mais estrita simetria, tanto no
processo civil como no enunciado dos direitos. O casamento como contrato civil […] baseia-se na
ideia de que os dois contraentes são igualmente responsáveis e capazes de verificar por si mesmos se
as obrigações criadas pelo seu acordo são corretamente executadas […]
A lei dispõe que o casamento se dissolve pelo divórcio, seja por simples incompatibilidade de
temperamentos, seja por consentimento mútuo, seja, em terceiro lugar apenas, por motivos deter-
minados, ou seja, de forma litigiosa […] O casamento não é um fim em si mesmo. É um meio da
felicidade individual. Se deixa de o ser, ou se se torna um obstáculo a essa felicidade, perde todo
o seu sentido.
SLEDZIEWSKI, Elisabeth G. Revolução Francesa: a viragem. In: DUBY, Georges; PERROT, Michelle.
História das mulheres, século XIX. Porto: Afrontamento, s.d. p. 41-5.
Filhas da liberdade e cidadãs revolucionárias
Dominique Godineau
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uem diz convulsão revolucionária diz multidões insurretas. Ora, sabe-se que na
Europa moderna as mulheres desempenhavam tradicionalmente um papel de agitadoras.
Não é, portanto, de admirar encontrá-las à cabeça de certas insurreições parisienses.
Em 5 de outubro de 1789, foram elas as primeiras a agruparem-se e a marcharem sobre
Versalhes, seguidas, nessa tarde, pela guarda nacional. Os levantamentos da Primavera de 1795
começam pelas suas manifestações: elas tocam o sino a rebate, fazem rufar os tambores nas ruas da
cidade, zombam das autoridades e da força armada, arrastam os transeuntes, penetram nas lojas e
nas oficinas, e trepam aos andares das casas para forçar os recalcitrantes a marchar com elas sobre
a Convenção, onde chegam em vagas sucessivas, acompanhadas pouco depois pelos homens em
armas. Elas desempenharam “o papel de bota-fogo”, escreverão mais tarde as autoridades.
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1. O que mudou com relação às mulheres e que conclusões elaboram as autoras dos dois textos
sobre a participação feminina na Revolução Francesa?
2. Em que medida essas mudanças ainda ecoam no mundo contemporâneo? A igualdade entre os
sexos é reconhecida? Dê exemplos.
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Em 1795, como em 1789, ou ainda em maio de 1793, nas semanas que precedem as insurreições,
elas ocupam as ruas e aí formam grupos (a 23 de maio de 1795, os deputados proibirão as mulheres
de se juntarem em número superior a cinco, sob pena de prisão) e incitam os homens à ação, cha-
mando-lhes covardes. Perante a inércia masculina, garantem que as mulheres devem “abrir o baile”
[…]. Antes de rebentar a insurreição de maio-junho de 1793, um deputado grita na Convenção: “As
mulheres iniciarão o movimento, […] os homens virão em apoio das mulheres”. O movimento não
foi desencadeado pelas mulheres, mas esta reflexão, que de modo algum é isolada, mostra bem que
se espera delas o início da sublevação […]
Os numerosos apelos dos militantes às mulheres traduzem também a concepção dos papéis
masculino e feminino na insurreição: as mulheres aparecem como a mediação obrigatória entre a
militante e os homens. Dos seus gestos e das suas vozes, nascerá a revolta. Uma vez esta lançada,
a relação entre os sexos inverte-se: na multidão, doravante composta por homens e mulheres, são
agora estas que, elas mesmas o dizem, “dão apoio aos homens”.
GODINEAU, Dominique. Filhas da liberdade e cidadãs revolucionárias. In: DUBY, Georges; PERROT, Michelle.
História das mulheres, século XIX. Porto: Afrontamento, s.d. p. 23.
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DOCUMENTOS
A Tomada da Bastilha,
segundo Restif de La Bretonne
Noite – 14 de julho, 1789
[…]
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grande dia, resultado da libertação, começava a me despertar; respirava livremente, quando
vi diante de mim uma multidão em tumulto. Não fiquei surpreso… Aproximo-me e… oh!
Espetáculo de horror! Vejo duas cabeças na ponta de uma lança!…
[…] Prossigo: mil vozes servem de arauto para a Novidade… “A Bastilha foi tomada…”
Não acreditei e fui ver o cerco de perto… No meio da Grève, encontro um corpo sem a cabeça
estendido no meio do riacho, rodeado por cinco ou seis indiferentes. Faço perguntas… É o gover-
nador da Bastilha…
[…] Eu me aproximava para ver o início da tomada da Bastilha e tudo já havia acabado; o lugar
fora ocupado: alguns selvagens jogavam papéis, documentos preciosos para a história, do alto das
torres para as fossas… Um gênio destruidor pairava sobre a cidade… Vejo essa Bastilha temida,
para a qual, passando todas as tardes pela Rua Neuve-Saintgilles, três anos antes, eu não ousava
erguer os olhos! Eu a vi cair, com seu último governador!…
Oh! Que pensamentos. Eu estava sufocado e mal podia desembaraçar o raciocínio… Voltei a mim:
um sentimento de alegria, por ver aquele horrível espantalho prestes a tombar, misturava-se aos
sentimentos de horror que me invadiam…
VOCABULÁRIO
Arauto: aquele que torna pública uma notícia.
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ROTEIRO DE TRABALHO
1. Por que Restif de La Bretonne sentiu-se, ao mesmo tempo, “sufocado”, “alegre” e “horrorizado”
com o que teria visto no dia 14 de julho, durante a queda da Bastilha?
2. Ele defende a Revolução? Quem são, para ele, os culpados das dificuldades do povo francês?
3. Há alguma inspiração iluminista em seu depoimento? Justifique.
4. Observe a imagem acima e faça uma descrição da cena. O que está acontecendo?
5. Que ideias ou aspectos da Revolução Francesa a imagem traz para o observador? De que manei-
ra essas ideias podem estar relacionadas com as afirmações de Restif de La Bretonne?
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Noite – 17 de julho, 1789
[…] Quem acreditais que semeia a desordem entre vós? Quem pensais que arma os bandidos que
se opõem à Assembleia Nacional? Quem pensais que estimula o conflito, que encarece os víveres,
que faz desaparecer o dinheiro? Não são os aristocratas fogosos, que se mostram audaciosamente
arengando na tribuna: são os nobres, que vos lisonjearam, que vos afagaram; são os padres, […]
que vos abençoam com a mão e vos amaldiçoam com o coração; é uma multidão de nobres enfu-
recidos, que fazem, cada um deles, quanto mal conseguirem […]. E vós, distritos, não oprimas a
liberdade individual! Prendei apenas os bandidos, os desertores! Respeitai o escritor, o que quer que
ele escreva: se ele é antissocial, o desprezo
público vos vingará. Que a imprensa seja livre!
[…] Mas se quiserdes a liberdade de impren-
sa, estabelecei a liberdade de Estado!
LA BRETONNE, Restif de. As noites revolucionárias. São Paulo: Estação Liberdade, 1989. p. 57-8.
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O despertar do Terceiro Estado,
gravura francesa de 1789. (sem
dimensões)
VOCABULÁRIO
Lisonjear: fazer sentir ou sentir orgulho, enaltecer.
Restif de La Bretonne (1734-1806) foi escritor contemporâneo à Revolução Francesa. Em suas narrativas, mistura fatos
autobiográficos com romances inspirados nos acontecimentos cotidianos da época. Utiliza-se da palavra escrita para defender a
ideia de que a reforma social e política deve começar pela reavaliação da moral e dos costumes. No livro As noites revolucioná-
rias, Restif apresenta um olhar sobre os acontecimentos noturnos das ruas parisienses durante o período anterior à tomada da
Bastilha até o fim da monarquia. Como um homem da revolução, seus textos aproximam-se da vivência experimentada pelo
cidadão comum diante de fatos que mudaram a história.
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THESAURUS
RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

Para responder à questão dissertativa, retome
os elementos apontados no enunciado na elabo-
ração de sua resposta. Seja objetivo sem deixar
de fazer as relações pertinentes com as informa-
ções presentes no enunciado.

Responda às demais questões eliminando
as alternativas incorretas. Retome a seção
Contexto deste e de outros capítulos quando
não conseguir compreender ou situar alguns dos
eventos mencionados. Antes, contudo, tente res-
ponder à questão mesmo sem conhecer todas as
informações presentes.
1. (UfsCar-SP)
A 5 de outubro, oito ou dez mil mulheres foram a
Versalhes; muita gente as acompanhou. A Guarda
Nacional forçou o sr. de La Fayette a conduzi-las
para lá na mesma noite. No dia 6, elas trouxeram
o rei e obrigaram-no a residir em Paris.
[…] Não devemos procurar aqui a ação dos parti-
dos. Eles agiram, mas fizeram muito pouco.
A causa real, certa, para as mulheres, para a mul-
tidão mais miserável, foi uma só, a fome. Tendo
desmontado um cavaleiro, em Versalhes, mata-
ram o cavalo e comeram-no quase cru.
[…] O que há no povo de mais povo, quero dizer, de
mais instintivo, de mais inspirado, são, por certo,
as mulheres. Sua ideia foi esta: “Falta pão, vamos
buscar o rei; se ele estiver conosco, cuidar-se-á para
que o pão não falte mais. Vamos buscar o padeiro!”
(MICHELET, Jules. História da Revolução Francesa.
São Paulo: Companhia das Letras, 1989.)
Sobre aquele momento da Revolução Francesa,
é correto afirmar:
a) o povo, constituído principalmente de fun-
cionários da nobreza, acreditava que era
necessário separar o rei da corte, para que
se pudessem fazer as reformas econômicas.
b) a Assembleia havia assinado a Declaração
de Direitos do Homem e do Cidadão e o povo
acreditava que o rei era seu aliado para resol-
ver o problema da circulação de cereais.
c) os revolucionários estavam negociando com
o rei a assinatura de sua deposição, visando
a instalação de uma República na França.
d) o rei e a rainha eram vistos como inimigos do
povo e cúmplices da aristocracia, responsa-
bilizada pela crise econômica.
e) o rei escolhera ficar em Versalhes, com a finali-
dade de proteger a nobreza dos ataques do povo.
2. (PUC-SP) As Revoluções Inglesas do século XVII
e a Revolução Francesa são, muitas vezes, compa-
radas. Sobre tal comparação, pode-se dizer que
a) é pertinente, pois são exemplos de processos
que resultaram em derrota do absolutismo
monárquico; no entanto, há muitas diferenças
entre elas, como a importante presença de
questões religiosas no caso inglês e o expansio-
nismo militar francês após o fim da revolução.
b) é equivocada, pois, na Inglaterra, houve vitória
do projeto republicano e, na França, da pro-
posta monárquica; no entanto foram ambas
iniciadas pela ação militar das tropas napole-
ônicas que invadiram a Inglaterra, rompendo o
tradicional domínio britânico dos mares.
c) é pertinente, pois são exemplos de revolução
social proletária de inspiração marxista; no
entanto, os projetos populares radicais foram der-
rotados na Inglaterra (os niveladores, por exem-
plo) e vitoriosos na França (os sans-culottes).
d) é equivocada, pois, na Inglaterra, as revoluções
tiveram caráter exclusivamente religioso, e, na
França, representaram a vitória definitiva da
proposta republicana anticlerical; no entanto,
ambas foram movimentos antiabsolutistas.
e) é pertinente, pois são exemplos de revolu-
ções burguesas; no entanto, na Inglaterra, as
lutas foram realizadas e controladas exclusi-
vamente pela burguesia, e, na França, conta-
ram com grande participação de campone-
ses e de operários.
3. (UFPR-PR) O despotismo esclarecido marcou a
atuação de alguns monarcas europeus no século
XVIII, promovendo o progresso de seus povos. A
fórmula política associava:
a) absolutismo real – democracia.
b) democracia – socialismo.
c) absolutismo real – feudalismo.
d) feudalismo – filosofia iluminista.
e) absolutismo real – filosofia iluminista.
4. (Unicamp-SP) Em sua obra Os “sans-culottes”
de Paris, o historiador Albert Soboul escreveu:
Os cidadãos de aparência pobre e que em outros
tempos não se atreveriam a apresentar-se em lugares
reservados a pessoas elegantes passeavam agora
nos mesmos locais que os ricos, de cabeça erguida.
(Citado por: HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções.
São Paulo: Paz e Terra, 1976. p. 231.)
• Carac¦er¦.e o no.¦nen¦o oos sans-culottes
na Revolução Francesa.
5. (Enem) Em nosso país queremos substituir o ego-
ísmo pela moral, a honra pela probidade, os usos
pelos princípios, as conveniências pelos deveres, a
tirania da moda pelo império da razão, o desprezo
à desgraça pelo desprezo ao vício, a insolência
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RELEITURA
pelo orgulho, a vaidade pela grandeza de alma, o
amor ao dinheiro pelo amor à glória, a boa com-
panhia pelas boas pessoas, a intriga pelo mérito,
o espirituoso pelo gênio, o brilho pela verdade, o
tédio da volúpia pelo encanto da felicidade, a mes-
quinharia dos grandes pela grandeza do homem.
HUNT, L. Revolução Francesa e Vida Privada, in:
PERROT, M. (Org). História da Vida Privada:
da Revolução Francesa à Primeira Guerra. Vol. 4.
São Paulo: Companhia das Letras, 1991 (adaptado).
O discurso de Robespierre, de 5 de fevereiro
de 1794, do qual o trecho transcrito é parte,
relaciona-se a qual dos grupos político-sociais
envolvidos na Revolução Francesa?
a) À alta burguesia, que desejava participar do
poder legislativo francês como força política
dominante.
b) Ao clero francês, que desejava justiça social
e era ligado à alta burguesia.
c) A militares oriundos da pequena e média bur-
guesia, que derrotaram as potências rivais e
queriam reorganizar a França internamente.
d) À nobreza esclarecida, que, em função do
seu contato com os intelectuais iluministas,
desejava extinguir o absolutismo francês
e) Aos representantes da pequena e média
burguesia e das camadas populares, que
desejavam justiça social e direitos políticos.
E
m 1989, quando eram celebrados os 200 anos da Queda da Bastilha, a historiadora fran-
cesa Michelle Perrot foi entrevistada. Fizeram-lhe a seguinte pergunta: “Você acredita que
existem valores proclamados pela Revolução e que, mesmo não realizados, permanecem
válidos ainda nestes dias?”.
A historiadora respondeu:
Certo. Aquela grande conquista, que são os direitos do homem, é ainda incompleta. Por exemplo,
no campo das relações entre os sexos, das relações sociais, das relações étnicas. Se considerarmos que a
Revolução Francesa proclamou que os judeus eram cidadãos como todos os outros, e que, atualmente,
vemos renascer os discursos sobre o antissemitismo… Ainda: os direitos do homem não são certamen-
te aplicados nas prisões. Em outras palavras, eu penso que os direitos do homem são um texto cujos
efeitos práticos não foram ainda obtidos. […] De outro lado, existem também possibilidades úteis. Os
jovens de hoje desconhecem quase tudo da Revolução. Uma ex-aluna minha, que leciona num insti-
tuto técnico, contava-me ter feito esta pergunta a seus alunos: o que é a Revolução, o que significa para
vocês? Responderam: Oh! Houve um rei que foi enforcado. Qual rei? Luís XV, ouviu-se como resposta.
Depois perguntou: o que é, para vocês, o dia 14 de julho? Sabiam mais ou menos. Alguém disse: Ah!
Havia o negócio da Bastilha. Mas o que era a Bastilha? Isso ninguém sabia. Eis que, deste ponto de vista,
as celebrações podem ser uma ocasião para tornar tudo um pouco mais compreensível.
A Revolução Francesa (1789-1989). São Paulo: Editora Três, 1989. p. 66.
Fascículo especial da revista Isto é Senhor em comemoração aos 200 anos da Revolução Francesa.
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão Assembleia Nacional
Francesa, 26 de agosto de 1789
Art. 1.º Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos; as distinções sociais não
podem ser fundadas senão sobre a utilidade comum.
Art. 2.º O objetivo de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescrití-
veis do homem; esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.
[…]
Art. 4.º A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique a outrem. Assim, o exercício
dos direitos naturais do homem não tem limites senão aqueles que asseguram aos outros membros
da sociedade o gozo desses mesmos direitos; seus limites não podem ser determinados senão pela lei.
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THESAURUS
1. Você concorda com a afirmação de Michelle Perrot: “[…] eu penso que os direitos do homem são
um texto cujos efeitos práticos não foram ainda obtidos”? Para responder a essa pergunta leia os
artigos da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e faça, em seu caderno, uma
justificativa para cada um deles, explicando se foram ou não colocados em prática.
2. Formule uma resposta para a pergunta: “O que é a revolução, o que significa para você?”. Utilize
os textos e os documentos deste capítulo para formular uma resposta. Explique também se ainda
é possível perceber as consequências da Revolução Francesa na sociedade atual. Registre suas
conclusões em seu caderno.
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Art. 8.º A lei não deve estabelecer senão penas estritamente necessárias, e ninguém pode ser puni-
do senão em virtude de uma lei estabelecida e promulgada ao delito e legalmente aplicada.
Art. 9.º Todo homem é tido como inocente até o momento em que seja declarado culpado; se for
julgado indispensável para a segurança de sua pessoa, deve ser severamente reprimido pela lei.
[…]
Art. 11. A livre comunicação dos pensamentos e opiniões é um dos direitos mais preciosos do
homem; todo o cidadão pode, pois, falar, escrever e imprimir livremente; salvo a responsabilidade
do abuso dessa liberdade nos casos determinados pela lei.
[…]
Art. 16. Toda a sociedade na qual a garantia dos direitos não é assegurada, nem a separação dos
poderes determinada, não tem constituição.
Art. 17. A propriedade, sendo um direito inviolável, e sagrado, ninguém pode ser dela privado
senão quando a necessidade pública, legalmente constatada, o exija evidentemente, e sob a condição
de uma justa e prévia indenização.
História do mundo: Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Disponível em:
<http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/declaracao.htm>. Acesso em: 16 fev. 2011.
HOBSBAWM, Eric J. A Revolução Francesa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
Originalmente capítulo do clássico A era das revoluções – 1789-1848, o livro aborda a Revolução Francesa como a prin-
cipal influência política e ideológica do século XIX. O texto, referência para qualquer estudo sobre o tema, aprofun-
da-se em questões como nacionalismo e liberalismo, sendo recomendado utilizá-lo após um conhecimento prévio da
Revolução por parte dos alunos.
VOVELLE, Michel. A revolução francesa explicada à minha neta. São Paulo: Unesp, 2007.
De maneira descontraída, o historiador francês realiza o registro de uma longa conversa com sua neta, para explicar
as várias fases e eventos relacionados à Revolução Francesa.
Casanova e a revolução. Direção de Ettore Scola. França/Itália, 1982. (118 min).
Ettore Scola reúne por acaso, em uma noite da cidade de Varennes, personagens da Revolução Francesa: o rei Luís
XVI, um jacobino, um industrial, uma cantora e o sedutor Casanova. Enquanto presenciam a prisão de Luís XVI (fato
essencial para entender a radicalização do processo revolucionário), discutem temas como amor, vida e política.
Danton, o processo da revolução. Direção de Andrzej Wajda. França/Polônia, 1982. (131 min).
Um filme clássico sobre a Revolução Francesa, trata do denominado “período do Terror”, quando os jacobinos, encabe-
çados por Robespierre, utilizam-se de meios violentos para fazer valer suas aspirações. É o período no qual a guilhotina
esteve mais presente na sociedade francesa, executando opositores. Danton, líder revolucionário, opõe-se a esse novo
rumo da Revolução e acaba vítima de seus antigos aliados.
Maria Antonieta. Direção de Sofia Coppola. França/Japão/Estados Unidos, 2006. (123 min).
Biografia de Maria Antonieta, rainha da França na época da Revolução Francesa, em 1789. Narra as transformacões
vividas pela corte durante a Revolução Francesa.
Napoleão Bonaparte. The biography channel. Log on DVD, 90 min.
Documentário sobre a trajetória política e militar de Napoleão Bonaparte.
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Industrialização e
trabalho assalariado
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defesa do fim da escravidão e do tráfico negreiro tornou-se mais inten-
sa a partir do século XVIII. O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau,
que viveu entre 1712 e 1778, em sua obra Do contrato social, afirmava que “nulo
é o direito de escravidão não só por ser ilegítimo, mas por ser absurdo e nada significar.
As palavras escravidão e direito são contraditórias, excluem-se mutuamente.”.
Da mesma forma, durante o século XIX, intelectuais e políticos brasileiros inspira-
dos no ideário liberal condenaram a escravidão. É o caso do estadista José Bonifácio,
do poeta Castro Alves e do jornalista e político que dedicou a vida a essa causa, José
do Patrocínio. A defesa do fim da escravidão coincidiu com a maior difusão do trabalho
assalariado e o desenvolvimento da indústria na Europa. A Inglaterra, detonadora da
chamada Revolução Industrial em meados do século XVIII, passou a defender, no início
do século seguinte, a abolição do tráfico negreiro. Começava a se delinear um mundo
no qual ficariam claras as distinções entre patrões e empregados. Organizaram-se
as classes dos trabalhadores e da burguesia proprietária. O cidadão passou a ser
também um consumidor, que, em tese, com seu salário poderia comprar gêneros de
primeira necessidade e outros objetos de seu interesse. Porém, na prática, a maioria
dos operários, após a Revolução Industrial, recebia salá-
rios insuficientes para a sua sobrevivência. Além disso,
a jornada de trabalho podia ultrapassar 15 horas e
a disciplina fabril era rigorosa. Não havia nenhuma
segurança para o trabalhador, sendo as mulheres e as
crianças submetidas a essas mesmas condições.
Neste capítulo vamos buscar compreender se, no
mundo atual, ainda prevalece essa forma de organização
da sociedade e do trabalho. O que mudou? O que signi-
fica ser um trabalhador assalariado? Em que medida a
maior difusão dessa forma de organização do trabalho
transformou a vida social como um todo?
CAPÍTULO 5
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Tanto nas fábricas do século XIX quanto nas contemporâneas, trabalhadores realizam tarefas específicas na cadeia produtiva. Não
sendo proprietários, os assalariados vendem sua força de trabalho a um empregador que fabrica produtos para serem revendidos no
mercado. Em troca do trabalho, recebem o que chamamos de salário. Observe a foto acima, de uma fábrica francesa do século XIX;
e na foto abaixo uma fábrica de calçados de Ivati (RS), 2010. Nos dois casos, os trabalhadores são assalariados que cumprem tarefas
determinadas no processo de produção de um produto.
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Linha do tempo
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tilizando a seção Contexto, a seguir, e realizando pesquisa suplementar na internet, em revis-
tas, jornais, enciclopédias e outros livros, responda às questões abaixo e monte uma linha
do tempo com seu conteúdo.
1. Objetivos do trabalho

Construir linha do tempo sobre o processo de industrialização na Europa e no Brasil e estabe-
lecer relações entre marcos cronológicos.
2. Orientações iniciais

Pesquise pelo menos duas fontes para a mesma data, pois é possível encontrar datas diferentes
para o mesmo evento. Quando isso ocorrer, consulte ainda mais uma fonte e crie um critério
para escolher uma delas. Faça um registro, explicando porque escolheu uma e não outra.
3. Inclua na linha do tempo as respostas para as questões a seguir:
a) Quando o trabalho assalariado passou a ser predominante no Brasil?
b) Quando a Inglaterra passou a ser uma nação industrial?
c) Quando outras nações europeias começaram a se industrializar?
d) Em que período o Brasil começou a se industrializar?
e) Quando começou a se organizar um movimento operário na Europa?
f) Quando começou a se organizar o movimento operário no Brasil?
g) Quando foi implementado o sistema fordista de produção nos Estados Unidos?
h) Em que período as fábricas europeias e de parte da América começaram a ser robotizadas?
i) Em que período predominaram as manufaturas na Europa?
j) Quando foram criadas a energia a vapor e a energia elétrica na Europa?
4. Orientações gerais
Após organizar sua Linha do Tempo com as respostas
das questões anteriores, procure estabelecer alguma rela-
ção entre os itens elencados. Por exemplo:

Como podemos relacionar energia e industrialização?
Utilize as informações que você possui e retome os
assuntos estudados em outras séries para estabelecer
essas relações e justificar sua resposta.
5. Conclusão

Esteja preparado para realizar, em classe, uma
rápida apresentação do material levantado.
Você deve saber apresentar a Linha do Tempo
e estabelecer pelo menos uma relação entre os
marcos cronológicos.
Detathe da imagem da p. 97.
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CONTEXTO
O trabalho assalariado
O desenvolvimento do capitalismo esteve
diretamente associado ao crescimento da bur-
guesia como grupo social. A história da for-
mação capitalista remonta à história medieval,
podendo-se afirmar que, no século XVI, o sistema
capitalista já dominava grande parte da economia
europeia. Contudo esse capitalismo tinha por
fundamento o comércio, ou seja, com base nas
relações comerciais é que se constituía a acu-
mulação de riquezas. Somente no século XVIII o
capitalismo assumiu sua face industrial. Houve,
entretanto, um longo processo até que se consti-
tuísse o que se pode denominar indústria.
As atividades capitalistas, diferentemente do
que ocorria no sistema feudal, concentravam-se
nas cidades, que se tornaram palco das transa-
ções de comerciantes, banqueiros e investidores.
Também nas cidades são fundadas as manufatu-
ras, empreendimentos organizados por burgueses
comerciantes, especialmente do setor têxtil.
As manufaturas, bastante presentes na Europa
durante o século XVII, eram muito diferentes da
produção artesanal medieval realizada pelas
corporações de ofício. Nestas últimas reuniam-se
pessoas de uma mesma profissão, havendo entre
elas uma relação de proteção mútua. A corporação
tinha sempre um mestre responsável pela produ-
ção e pela inspeção das várias oficinas de artesãos
que deveriam funcionar sob as mesmas regras.
Os trabalhadores eram jornaleiros (que traba-
lhavam diariamente) e, em geral, viviam na casa
do mestre. Havia ainda os aprendizes, que eram
jovens que pretendiam seguir a profissão. Essas
corporações também se organizavam politicamente
para se opor aos interesses dos mercadores.
Já a manufatura criada pelos comerciantes
burgueses tinha por princípio a divisão entre
patrões e empregados. Não se tratava de uma
corporação de interesses comuns, mas de um
negócio capitalista, do qual o proprietário espe-
rava obter grande lucratividade com a comercia-
lização dos produtos que produzia. Nesse novo
sistema de produção, os trabalhadores, por sua
vez, receberiam um salário – ou um pagamento
por alguma tarefa realizada –, devendo ser esse o
mínimo necessário para sua subsistência.
Ao contrário do que ocorria nas corporações
de ofício, o trabalhador passou a se especializar
em uma etapa do processo produtivo. Ele deixou
de ser um artesão capaz de confeccionar o pro-
duto em sua totalidade para se especializar em
apenas uma função, realizando uma tarefa parcial
em relação ao que seria produzido. No entanto,
o proprietário continuava a depender da habilida-
de do artesão para manipular as ferramentas e
fabricar os objetos. A produção de uma empresa
manufatureira não se concentrava necessariamen-
te em um único espaço. O proprietário poderia
contratar trabalhadores fornecendo-lhes matéria-
-prima e alguns instrumentos e fixando previamente
um valor a ser pago pelo trabalho a ser executado.
Esse sistema doméstico de produção foi denomina-
do putting-out na Inglaterra e verlag na Alemanha.
Todavia, tal sistema de trabalho gerou muitos
conflitos, uma vez que o comerciante manufatu-
reiro não tinha o controle sobre o processo de
fabricação da mercadoria. O trabalhador pode-
ria decidir a respeito do tempo que se dedicaria
ao trabalho, não tendo o capitalista um controle
preciso sobre o destino das mercadorias produ-
zidas, que poderiam ser em parte desviadas ou
possuir qualidade muito variável.
Um passo fundamental para a Revolução
Industrial, que aconteceria no século XVIII, foi a
introdução das máquinas-ferramentas, ou seja,
a mecanização de grande parte do trabalho antes
realizado por mãos humanas. Um conjunto de fer-
ramentas articuladas e impulsionadas por energia
motriz (do vapor) era capaz de realizar boa parte da
produção. Com isso, não só a produção se expan-
diu extraordinariamente, como as máquinas passa-
ram a orientar as etapas do trabalho, que se tornou
coletivo para dar conta dos vários momentos do
processo de produção. Também não era mais exigi-
da a especialização do trabalhador, uma vez que a
máquina possuía a capacidade de produzir, sendo
o operário apenas um operador dela. Esse era e é
o espaço da fábrica, na qual o tempo de produção
passa a ser controlado pelo capitalista, que impõe
ao trabalhador o ritmo da máquina.
Segundo o historiador José Jobson de Andrade
Arruda:
Completa-se a separação entre o trabalhador e
seus instrumentos de produção. Assiste-se a uma
desqualificação do trabalho, dispensando-se o
tempo de aprendizado e rebaixando-se o custo
médio da força de trabalho, pela incorporação do
trabalho feminino e infantil.
ARRUDA, José Jobson de. A Revolução Industrial.
2. ed. São Paulo: Ática, 1991. p. 52.
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Representação de máquina de fiar spinning jenny, inventada por
James Hargreaves, em 1765. (sem dimensões)
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Nesse contexto foram criadas máquinas como
a de fiar, conhecida por spinning jenny, inventada
pelo inglês James Hargreaves em 1765 e 12 a 18
vezes mais rápida que um tear manual. Outro exem-
plo é o tear de malhar inventado pelo inglês William
Lee, capaz de produzir até 1 500 malhas por minuto,
ao passo que os trabalhadores manuais produziam
somente 100. Foram inventados ainda tornos, lança-
deiras, estampadeiras e semeadeiras, entre outras
máquinas. A maior parte dessas invenções atendia
à indústria têxtil de algodão da Inglaterra.
(ambos episódios de 1649). Após esse acontecimen-
to até 1688, quando se deu a Revolução Gloriosa,
foram construídas as condições políticas para que
os investimentos nacionais permitissem o desenvol-
vimento do capitalismo, ou seja, sob o comando do
Parlamento, o dinheiro arrecadado com os impostos
passou a ser investido no avanço dos negócios bur-
gueses. A Inglaterra tornou-se o país mais desenvol-
vido do mundo na metade do século XVIII.
No século XIX, ocorreu o processo de indus-
trialização de vários países: Bélgica, França,
Alemanha, Itália e Rússia. Os Estados Unidos e
o Japão também conseguiriam promover a indus-
trialização ainda nesse século. Nesse período,
aconteceu o que alguns estudiosos chamam de
Segunda Revolução Industrial, quando a ener-
gia a vapor foi substituída pela energia elétrica
e foram aperfeiçoados os motores a combustão
– movidos por combustível derivado do petróleo.
No século XX, pode-se falar em uma
Terceira Revolução Industrial com a
difusão da energia atômica, ou seja, as
possíveis etapas desse processo esta-
riam diretamente relacionadas à capacidade de
desenvolvimento técnico das máquinas e de seus
alimentadores: os sistemas energéticos.
No século XX, a especialização do trabalho ope-
rário alcançou níveis muito maiores que em perío-
dos anteriores. Foram criadas as linhas de mon-
tagem, inventadas por Henry Ford, dono da fábri-
ca de veículos Ford. Tratava-se de fabricar o maior
número de produtos possível em menor tempo.
Um trabalhador repetia muitas vezes a mesma
tarefa, como colocar, por exemplo, uma determi-
nada peça do carro. Seguiam-se a ele outros tra-
balhadores, que iam colocando outras peças até
que o carro estivesse pronto. Dessa forma, poder-
-se-ia produzir mais carros a um custo mais baixo,
pois, pagando os mesmos salários, obtinha-se a
máxima produção no menor tempo possível.
Tal forma de organização do trabalho expan-
diu-se por diversos setores da indústria em todo
o mundo. Juntou-se a isso o que ficou conhecido
como taylorismo, teoria do engenheiro norte-
-americano Frederick Taylor. O taylorismo busca-
va maior eficiência e racionalização do processo
produtivo controlando trabalhadores e máquinas.
Conforme o economista Paulo Sandroni, a teo-
ria incluía:
[…] propostas de pagamento pelo desempenho do
operário (prêmios e remuneração extras conforme o
número de peças produzidas). O sistema foi muito
aplicado nas medidas de racionalização e controle do
trabalho fabril, mas também criticado pelo movimento
Tornou-se possível movimentar essas má-
quinas com mais eficiência com a invenção da
máquina a vapor, que substituiu o sistema hidráu-
lico. A invenção dessa máquina, que utilizava água
e carvão e foi patenteada em 1784 por James
Watt, impulsionou os investimentos na obtenção do
mineral, que passou a ser um agente poluidor das
cidades. Além disso, em muitos casos, as águas
dos rios tiveram seu curso desviado ou tornaram-se
impróprias para o consumo. Nessa época ainda se
desenvolveram a metalurgia e o processo de fun-
dição do ferro. O setor de transportes foi incre-
mentado, sendo inventados, no começo do século
XIX, o barco e a locomotiva a vapor. A expansão
da produção e dos mercados exigia formas mais
eficientes de vencer as grandes distâncias.
Esse processo de transformação no sistema
de produção ocorreu inicialmente na Inglaterra
em fins do século XVIII. Mas por que na Inglaterra
e não em outros países?
A Inglaterra adquiriu as condições para o desen-
volvimento capitalista no século XVII, com a ocorrên-
cia da Revolução Puritana (1640-1649), a deposição
do rei Carlos I e a tomada do poder pelo Parlamento
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Gravura inglesa representando Sheffiled (Inglaterra) em 1879.
As fábricas, símbolo do desenvolvimento econômico a partir
da segunda metade do século XVIII, soltavam excessiva fuma-
ça negra por suas chaminés. Os aspectos danosos ao meio am-
biente, consequência da atividade industrial, não eram levados
em conta. (sem dimensões)
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Fábrica de velocípedes, França, 1890. A imagem retrata tra-
balhadores de uma fábrica executando funções parciais, es-
pecíficas e sequenciais. Trata-se de um trabalho coletivo, pois
cada tarefa é parte do processo de fabricação do produto e
será continuada pelo trabalhador seguinte. (sem dimensões)
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Carros sendo produzidos por robôs em linha de montagem
francesa, 2009.
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sindical, que o acusou de intensificar a exploração
do trabalhador e desumanizá-lo, na medida em que
procura automatizar seus movimentos.
SANDRONI, Paulo. Dicionário de economia. São Paulo:
Nova Cultural, 1985. p. 424.
No mundo atual observamos uma presença
expressiva de sistemas robotizados e automatiza-
dos de produção, o que torna possível dispensar
grande parte dos trabalhadores do processo pro-
dutivo. Intensifica-se assim o problema do desem-
prego, gerando a necessidade de criar novas
ocupações para o ser humano.
Transformação social, movimento
operário e conflito
O desenvolvimento da indústria no século XVIII
levou a uma rápida polarização entre a burguesia
e o proletariado. A cidade transformou-se não
somente no espaço da indústria, mas também no
palco das contradições surgidas com seu desen-
volvimento econômico. Camponeses que perderam
suas terras vinham para as cidades em busca de
uma oportunidade de trabalho, enquanto burgue-
ses ostentavam o luxo que o lucro de suas indús-
trias proporcionavam. Os direitos feudais haviam
sido abolidos na Inglaterra; a terra era uma proprie-
dade capitalista e, nas suas extensões, criavam-se
ovelhas que forneciam a lã utilizada pelas tece-
lagens. As terras foram sendo cercadas ao longo
de vários séculos, tornando-se propriedades par-
ticulares produtoras para o mercado. A cidade de
Manchester, um dos primeiros centros industriais
ingleses, possuía cerca de 30 mil habitantes em
1760, chegando a 73 mil em 1800, ou seja, sua popu-
lação mais que dobrou em 40 anos.
Com o aumento vertiginoso da população, as
condições de vida nas cidades eram precárias:
não havia saneamento básico adequado por causa
do crescimento rápido e da expansão industrial,
as chaminés soltavam uma fumaça preta que
adentrava as casas e atacava a saúde de seus
moradores. Além disso, tanto as moradias dos
trabalhadores quanto os salários eram miseráveis.
Assim, as péssimas condições de higiene nos
centros urbanos superpovoados, bem como a insa-
lubridade nas fábricas, tudo enfim facilitou a proli-
feração de doenças infectocontagiosas. Ao longo
do século XIX, as cidades industriais foram se
adensando e se tornando o espaço das multidões,
dos cidadãos anônimos, da violência, do medo e da
disciplina do trabalho. Nos anos 1850, Londres che-
gou a ter cerca de 2,5 milhões de habitantes.
A disciplina nas fábricas era excessiva. Enquanto
o trabalhador artesanal organizava sua jornada
de trabalho com autonomia, o operário industrial
sofria severo controle e eram-lhe impostas longas
jornadas. O trabalho industrial exigia menor espe-
cialização e a oferta de trabalhadores era grande,
permitindo desse modo que fossem pagos salá-
rios muito baixos. Mulheres e crianças também
eram contratadas para operar as máquinas, e uma
criança chegava a receber menos de um terço do
salário de um homem adulto, apesar de a jornada de
trabalho ser equivalente à de um adulto – poderia
se estender até 18 horas por dia. Meninos e meni-
nas de cinco anos de idade eram explorados em
vários tipos de trabalho, sobretudo nas minas.
Muitos deles não conseguiam chegar aos 12 anos.
Havia ainda um capataz que vigiava os trabalha-
dores e aplicava severos castigos corporais àqueles
que cometessem erros. Os acidentes de traba-
lho aconteciam com frequência, havendo muitas
mortes e mutilações. O trabalhador e sua família
não recebiam nenhuma indenização quando isso
ocorria. Nesse contexto, trabalhadores que se viam
sem perspectiva de conseguir uma vida melhor se
suicidavam ou então se entregavam ao alcoolismo
ou à prostituição. Nessa época, houve também um
grande crescimento do número de seitas religiosas.
A quebra de máquinas e a destruição de mer-
cadorias produzidas estão entre as primeiras rea-
ções coletivas dos trabalhadores a essa forma de
exploração do trabalho. Esses grupos de operários
ingleses destruíam as máquinas (segundo eles, o
principal motivo dos baixos salários) que permi-
tiam a economia de mão de obra, atentando, ao
mesmo tempo, contra o patrimônio dos proprietá-
rios. Ficaram conhecidos como luditas em refe-
rência a um de seus líderes: King Ludd. Em 1812 foi
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Crianças trabalhando em uma fábrica de papel em Aschaffenburg (Alemanha), cerca de 1850. (sem dimensões)
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Representação do trabalho feminino em uma fábrica de tecidos na Inglaterra, 1835. (sem dimensões)
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aprovada uma lei que condenava à morte os res-
ponsáveis pela quebra de máquinas na Inglaterra.
Nos anos 1820 já havia um movimento operário
inglês organizado que fazia reivindicações, como a
redução da jornada de trabalho para 10 horas diárias
e melhorias das condições de trabalho. Na década
seguinte ocorreu, ainda na Inglaterra, o movimento
cartista, por meio do qual organizações traba-
lhistas defendiam uma reforma parlamentar que
instituísse o voto secreto, a criação do sufrágio uni-
versal e que abolisse a necessidade da qualificação
de proprietário para os candidatos a cargos públi-
cos. Pretendiam, dessa maneira, conquistar maiores
direitos políticos para a classe trabalhadora.
A primeira lei trabalhista foi criada na Inglaterra
em 1802 com o objetivo de reprimir os abusos na
exploração do trabalho infantil. Em 1819 surgiu
uma nova lei, proibindo o trabalho de menores de
9 anos e restringindo a 12 horas o dia de trabalho
dos menores de 16 anos. Apenas em 1844 outra
lei inglesa exigiu a inclusão de dispositivos de
proteção nos postos mais perigosos para evitar
acidentes de trabalho, proibiu a mulheres e crian-
ças a limpeza de máquinas em funcionamento e
limitou o trabalho infantil a meio período para que
os menores frequentassem a escola.
Em 1848 rebentaram quase simultaneamente,
na Europa, vários movimentos republicanos com
forte participação operária e influência do pensa-
mento anarquista e socialista, duas vertentes que
defendiam diferentes propostas para construir
transformações sociais e eram contrárias ao
governo liberal e à economia capitalista. Muitas
monarquias europeias foram derrubadas. Isso
ocorreu na França, na Bavária (sudoeste da atual
Alemanha), em Berlim, Viena, Milão, Budapeste e
Praga. Todos esses movimentos aconteceram na
primavera de 1848, ficando tal momento conheci-
do como Primavera dos Povos.
Na França, os adversários (burgueses e operá-
rios) do rei Luís Filipe propuseram a criação de uma
república democrática. Foi formado um governo
provisório composto de um operário e alguns líderes
socialistas. Ainda em 1848, os teóricos do socialis-
mo, os alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich
Engels (1820-1895), publicaram o Manifesto do
Partido Comunista. Logo nas primeiras linhas afir-
mavam que “a história de toda a sociedade até
hoje é a história da luta de classes”. Defendiam a
tomada do poder pelos trabalhadores e propunham,
entre outras coisas: a expropriação da proprieda-
de fundiária, a criação de impostos progressivos
taxando a riqueza, a criação de um banco nacional
que centralizasse os créditos nas mãos do Estado
e a multiplicação das fábricas nacionais (estatais).
O manifesto foi publicado em Londres, no mesmo
momento em que eclodiu o movimento operário em
Paris, onde a república democrática foi proclamada
em 24 de fevereiro também desse ano.
Esses movimentos, entretanto, não tiveram
êxito, ainda que tenham conseguido constituir
governos provisórios. Os trabalhadores foram der-
rotados em Paris em junho de 1848, o mesmo ocor-
rendo em outros lugares da Europa. Cerca de mil e
500 homens foram mortos em confrontos e outros
12 mil trabalhadores foram presos em combate
às forças opositoras, que incluíam proprietários,
políticos moderados e setores conservadores, em
Paris. Politicamente isolados, os trabalhadores
não tiveram força política e militar para resistir.
Apesar da derrota, o movimento operário con-
tinuou a se organizar em outras regiões da Europa
nas décadas seguintes. Na luta pela conquista
de direitos e melhores condições de trabalho, os
operários organizaram greves e ampliaram sua
capacidade de interferência nas decisões públicas
e nas negociações trabalhistas. Sob pressão dos
sindicatos (associações defensoras dos interes-
ses dos trabalhadores), ao longo do século XX,
várias legislações trabalhistas foram sendo consti-
tuídas resguardando os direitos dos trabalhadores,
como férias, licença-maternidade, licença-saúde,
descanso semanal remunerado e muitos outros.
Greve dos trabalhadores das docas, Londres, 1889. A greve foi
um marco do movimento sindical da Inglaterra, fortalecendo as
organizações de trabalhadores. Esse acontecimento colocou em
evidência também as péssimas condições de trabalho existentes
na Inglaterra no século XIX.
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O processo de industrialização
brasileiro e o movimento operário
Até a década de 1880 pouco se pode falar da
indústria brasileira, pois ainda predominava uma
economia assentada em latifúndios voltados para
a produção de gêneros agrícolas para a exporta-
ção, utilizando mão de obra abundante, importada
e barata. Na Câmara dos Deputados se defendia
a preservação da “vocação agrária” brasileira
para justificar os subsídios à agricultura e não
à indústria. As importações podiam ser taxadas,
mas não as exportações, das quais dependiam os
cafeicultores. Com uma possível industrialização,
temia-se o esvaziamento do campo por causa da
transferência maciça de trabalhadores rurais para
a cidade. Sem capitais, sem a possibilidade de com-
prar máquinas por sua alta taxação e sem a presen-
ça do Estado como agente estimulador, a indústria
ficava sem o impulso necessário à sua implemen-
tação. Os homens que dirigiam o Estado brasileiro,
comumente representantes da cafeicultura e da
agricultura em geral, viam o Brasil, dentro da divisão
internacional do ao mesmo tempo, consumidor de
produtos importados. Dessa forma, o crescimento
da indústria estaria sempre condicionado ao desen-
volvimento da economia do café.
Embora as primeiras tentativas de implemen-
tação de atividades industriais no Brasil tenham
ocorrido na metade de século XIX, a única que
obteve algum sucesso até 1880 foi a indústria cha-
peleira. Em 1852, existiam 21 fábricas nacionais
de chapéus. Em 1883, depois da primeira crise de
superprodução do café, a classe dirigente ressen-
tiu-se da vulnerabilidade de uma nação assentada
economicamente sobre um único produto. Nesse
contexto, nas duas últimas décadas desse século,
houve um aumento significativo de investimentos
industriais no país. Mas, sendo a cafeicultura o
motor da economia nacional, esta estabelecia a
dinâmica do desenvolvimento da indústria, tornan-
do o capital industrial dependente do capital cafe-
eiro para repor e ampliar sua capacidade produtiva.
Além disso, o capital industrial era incapaz de gerar
seu próprio mercado, uma vez que seu crescimento
estava atrelado aos mercados externos criados
pelo complexo exportador cafeeiro. O suprimento
de mão de obra para a indústria também estava
condicionado à cafeicultura, pois dependia dos
imigrantes vindos da Europa, onde muitos já tinham
alguma experiência no trabalho industrial. Em 1889,
o Brasil contava com 636 empresas e 54 mil operá-
rios. Muitas delas eram propriedade de cafeiculto-
res. A Cia. Melhoramentos foi fundada em 1883 por
um fazendeiro, que investiu no setor de papel e,
posteriormente, em cal e cerâmica.
Em 1887 e 1888, cresceram os investimen-
tos industriais e inauguraram-se novas fábricas,
como a cervejaria Antarctica e a fábrica de teci-
dos Crespi, com recursos declaradamente origi-
nários de fazendeiros. Antonio Prado, importan-
te cafeicultor paulista, fundou a vidraria Santa
Marina. No ano de 1897, foi fundada ainda, por
outro fazendeiro, a fábrica de cimento Rodovalho.
Assim, até 1933, foi se consolidando o primeiro
grande momento da industrialização brasileira.
Apesar de se desenvolver originalmente com base
no capital cafeeiro, foram se integrando ao pro-
cesso comerciantes, imigrantes, importadores e
outros mais que se transformaram em industriais.
Exemplo disso são os Matarazzo, família de imi-
grantes que rapidamente se tornou proprietária
de um moinho e depois diversificou seus negó-
cios, acumulando grande fortuna. Entretanto,
mesmo tendo sido montadas muitas indústrias
por imigrantes ou importadores, o desenvolvimen-
to econômico e o financiamento foram propicia-
dos e regulados pela cafeicultura.
Outra importante característica desse primeiro
processo de industrialização é que ele se realizou só
a partir da produção de bens de consumo assalaria-
do. Quer dizer, instalou-se primeiro a indústria leve,
produzindo principalmente tecidos. Apenas mais
tarde seria implantada uma indústria de bens de
produção, de máquinas e equipamentos industriais,
siderurgia etc. As razões disso estão diretamente
relacionadas com a Segunda Revolução Industrial,
ocorrida em meados do século XIX na Europa, por
meio da qual foram introduzidas novas tecnologias
que tornaram o investimento mínimo proibitivo para
os padrões brasileiros. Já a indústria de bens de
consumo assalariado necessitava de investimentos
menores por apresentar tecnologia mais simples e
disponível no mercado internacional. A implementa-
ção de um parque industrial completo no Brasil só
se daria nas décadas seguintes.
Com a crise do café, em 1929, e sua queda no
mercado internacional, o capital industrial tomou
definitivamente o pulso da economia nacional,
e o Brasil deixou de ser um país eminentemente
mercantil. Após 1930, o presidente Getúlio Vargas
preocupou-se em criar maior diversidade econô-
mica ao país, evitando a monocultura. Defendeu
a expansão de outras culturas agrícolas, do setor
de transportes e a implementação de condições
infraestruturais para o desenvolvimento industrial.
Nesse período foi organizado o movimento ope-
rário brasileiro, que fixou bases especialmente no
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Operárias de tecelagem das indústrias Matarazzo. São Paulo, anos 1920.
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Rio de Janeiro e em São Paulo. As autoridades
do governo do início do período republicano, após
1889, repudiavam qualquer forma de organização
operária. Em 1890, o Governo Federal determinou
que os operários imigrantes que participassem de
atos operários fossem expulsos do país. Da mesma
forma, a população pobre não participava do siste-
ma político, dominado pela oligarquia cafeeira.
As condições de trabalho
e o movimento operário no Brasil
As condições de trabalho nas fábricas brasilei-
ras também eram precárias: os salários eram mise-
ráveis, os castigos físicos admitidos e as jornadas
de trabalho se estendiam a até 14 horas por dia.
Nos últimos anos do século XIX já existiam
associações de trabalhadores no Brasil. Eram
denominadas mutualistas, de ajuda mútua, e
haviam sido criadas sob a influência de anarquis-
tas como Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865).
Mas foi nos primeiros anos do século XX que
surgiram associações mais consistentes de traba-
lhadores, organizadas e interessadas em movimen-
tos reivindicatórios. Em 1906 ocorreu o Primeiro
Congresso Nacional dos Trabalhadores,
depois do qual se tornou mais comum a utilização
do termo sindicato, definido como aquele que rea-
liza a resistência aos patrões. Muitas organizações
operárias reuniam profissionais de mesmo setor
ou mesma atividade profissional. Formaram-se,
então, as associações dos gráficos, dos ferreiros,
dos vidreiros, dos tecelões etc. Havia ainda as
uniões gerais, que reuniam várias dessas asso-
ciações. Em 1908, os sindicalistas de orientação
anarquista, os chamados anarcossindicalistas,
fundaram a Confederação Operária Brasileira
(COB), que tinha por objetivo organizar greves e
mobilizações de trabalhadores de várias catego-
rias em protesto contra a sociedade capitalista.
Os anarcossindicalistas tiveram presença mar-
cante na formação do movimento operário brasileiro.
Tinham no horizonte a superação do capitalismo e
do próprio Estado, criticavam a burocracia governa-
mental e propunham, em seu lugar, a organização
de assembleias de trabalhadores que tomariam as
decisões fundamentais. Como forma de atuação
sindical, defendiam a realização de greves, protestos
públicos, redução do ritmo de trabalho, boicote da
produção, enfim, utilizavam todos os meios possí-
veis de mobilização contra o patronato. O crescente
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Grevistas descem a Ladeira do Carmo, no bairro do Brás, em
São Paulo (SP), durante a greve geral de 1917.
número de greves deveria conduzir o país a uma ou
mais greves gerais, e estas seriam o ponto de partida
das transformações e da superação da sociedade
capitalista. Muitos operários imigrantes europeus
aderiram a essa corrente após terem suas expectati-
vas de ascensão social na América frustradas.
Existiam ainda, nessas primeiras iniciativas
de organização operária no Brasil, as correntes
socialista e trabalhista. Enquanto os adeptos
do socialismo não acreditavam que o movimento
sindical fosse a mola propulsora da transforma-
ção da sociedade, os trabalhistas defendiam a
ampliação dos direitos dos trabalhadores e melho-
res condições de trabalho sem a organização de
greves ou movimentos de protesto. Exigiam maior
proteção do Estado e não defendiam mudanças
na ordem social. Os socialistas tiveram partici-
pação importante em alguns setores específicos,
como entre os têxteis em São Paulo.
Entre os anos 1900 e 1920 eclodiram várias
greves no Brasil que reivindicavam menor jorna-
da de trabalho, melhores condições de trabalho
e maiores salários. Mais de 500 imigrantes foram
expulsos por envolvimento nessas mobilizações.
Em 1917 ocorreu a primeira greve geral em São
Paulo. No primeiro semestre desse ano ocorre-
ram várias greves simultâneas no Rio de Janeiro,
exigindo ganhos salariais mais justos e melhores
condições de trabalho. Em junho do mesmo ano,
trabalhadores de várias indústrias têxteis e outros
setores de São Paulo entraram em greve sem
haver uma unificação do movimento. Os grevistas
tiveram vários confrontos com a polícia, e em um
deles foi morto o sapateiro José Iñeguez Martinez.
Após esse acontecimento, deflagrou-se uma greve
geral preparada pelo Comitê de Defesa Proletária.
Entre suas reivindicações, estavam aumentos sala-
riais, jornada de oito horas, libertação de grevistas
presos, direito de associação. Parte dessa pauta
foi atendida e a greve encerrada após votação em
assembleia realizada em 16 de julho. Em seguida,
iniciou-se uma greve do mesmo tipo no Rio de
Janeiro, reunindo quase todas as categorias.
No período que se seguiu a 1917 e durante toda
a década de 1920, tornou-se mais consistente a
organização operária. Muitas greves ocorreram,
especialmente sob a liderança anarcossindicalista.
Buscou-se obstruir a atuação sindical autônoma
demitindo empregados sindicalizados, fechando
jornais operários e destruindo sedes de sindica-
tos, entre outras medidas. Durante o governo de
Washington Luís, em 1927, foi aprovada a Lei Ce-
lerada, que, a pretexto de combater o comunismo,
limitou a liberdade de expressão, censurando a
imprensa e controlando a atividade dos sindicalistas.
Em 1930, após um golpe de Estado, Getúlio
Vargas assumiu a presidência do país e destruiu
a estrutura sindical autônoma. Uma nova forma
de organização sindical foi instituída, mas dessa
vez com grande controle do Estado. Por isso,
entre outros motivos, foi criado nesse ano de 1930
o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio.
A intervenção do Estado nos sindicatos marcou
a organização operária brasileira das décadas
seguintes, sendo a autonomia sindical recolocada
somente muitos anos mais tarde.
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Descrição de Manchester
Alexis de Tocqueville
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rinta ou quarenta manufaturas se elevam no alto das colinas que eu estou descrevendo.
Seus seis estágios erguem-se no ar, seus imensos limites anunciam à distância a concen-
tração da indústria. […] Mas como se poderia descrever o interior desses quarteirões
colocados ao acaso, receptáculos do vício e da miséria, que envolvem e comprimem com suas
medonhas voltas os grandes palácios da indústria? Sobre um terreno mais baixo que o nível do rio,
dominado por todos os lados por enormes oficinas, se estende em terreno pantanoso, com valas
lodosas, que não são secadas nem saneadas. Noutra parte, aparecem pequenas ruas tortuosas e
estreitas, margeadas por casas de um único andar, onde há tábuas mal unidas e tijolos quebrados
como a última morada que possa ter o homem entre a miséria e a morte. Entretanto, seres desa-
fortunados que ocupam esses redutos excitam ainda inveja entre alguns de seus semelhantes.
Sob essas miseráveis moradias encontram-se uma fileira de porões, os quais conduzem a um
corredor semissubterrâneo. Em cada um desses lugares úmidos e repelentes são amontoadas,
confusamente, 12 ou 15 criaturas humanas. […] Levantai a cabeça, e a toda volta desse lugar vos
vereis levantarem-se imensos palácios da indústria. Vós ouvireis o ruído dos fornos e os silvos do
vapor. Estas vastas moradas impedem o ar e a luz de penetrar nas habitações humanas que elas
dominam; aquelas lhes envolvem de um ruído contínuo. […] Uma espessa e negra fumaça cobre a
cidade. O Sol aparece através dela como um disco sem raios. É neste dia incompleto que se agitam
sem cessar 300 mil criaturas humanas.
TOCQUEVILLE, A. de. Ouvres complètes. p. 79-81. Citado em: ARRUDA, José Jobson de. A Revolução Industrial.
2. ed. São Paulo: Ática, 1991. p. 66.
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Alexis de Tocqueville
(1805-1859) foi escritor e
político francês. Após uma
visita aos Estados Unidos
nos anos 1830, escreveu
o livro Democracia na
América. Em 1849 foi
ministro das Relações
Exteriores, tendo escrito a
obra Lembranças de 1848
em que analisa as jornadas
revolucionárias de Paris. É
considerado um observador
e analista político ímpar
acerca dos conflitos e das
questões de seu tempo.
A fotomontagem mostra o
contraste entre crianças ri-
cas e pobres em Londres,
Inglaterra, em cerca de 1860.
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1. Caracterize a cidade industrial e um bairro operário inglês de meados do século XIX, utilizando
as descrições dos observadores da época e as imagens da página ao lado e acima.
2. O processo de desenvolvimento do capitalismo e a industrialização dividiram a sociedade entre
proprietários e trabalhadores. Utilize elementos dos textos e das imagens para mostrar como
essa divisão pode ser observada no espaço.
3. Essa divisão espacial ainda existe nos dias atuais? Isso ocorre em sua cidade? Explique e dê exemplos.
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Bairro operário de Bloomsburry, Inglaterra, em 1875.
Os bairros operários da Inglaterra, anos 1840
Friedrich Engels
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odas as grandes cidades possuem um ou vários “bairros de má reputação” – onde se concentra
a classe operária. É certo que é frequente a pobreza morar em vielas escondidas, muito perto
dos palácios dos ricos, mas, em geral, designaram-lhe um lugar à parte, onde, ao abrigo dos
olhares das classes mais felizes, tem de se safar sozinha, melhor ou pior. Estes “bairros de má reputa-
ção” são organizados em toda a Inglaterra mais ou menos da mesma maneira, as piores casas na parte
mais feia da cidade; a maior parte das vezes são construções de dois andares ou de um só, de tijolos,
alinhadas em longas filas, se possível com caves [porões] habitadas e quase sempre irregularmente
construídas. Estas pequenas casas de três ou quatro divisões e uma cozinha chamam-se cottages e
constituem vulgarmente em toda a Inglaterra, exceto nalguns bairros de Londres, as habitações da
classe operária. Habitualmente, as próprias ruas não são planas nem pavimentadas; são sujas, cheias de
detritos vegetais e animais, sem esgotos nem canais de escoamento, mas em contrapartida semeadas de
charcos estagnados e malcheirosos. Para além disso, o arejamento torna difícil, pela má e confusa cons-
trução de todo o bairro, e como aqui vivem muitas pessoas num pequeno espaço, é fácil imaginar o ar
que se respira nestes bairros operários. De resto, as ruas servem de secadouro, quando há bom tempo;
estendem-se cordas duma casa à casa fronteira, onde se pendura a roupa branca e úmida.
ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Lisboa: Afrontamento, 1975. p. 59.
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O ócio criativo: entrevista concedida a Maria Serena Palieri
Domenico De Masi
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rofessor De Masi, há quem fale do senhor como “profeta do ócio”. E há quem
chegue a dizer que preconiza o advento de um mundo parecido com o “país do
chocolate”, do famoso filme com Gene Wilder. Rótulos irritantes, imagino. Que
relação têm com o seu verdadeiro modo de pensar?
Eu me limito a sustentar, com base em dados estatísticos, que nós, que partimos de uma socie-
dade onde uma grande parte da vida das pessoas adultas era dedicada ao trabalho, estamos cami-
nhando em direção a uma sociedade na qual grande parte do tempo será, e em parte já é, dedicado
a outra coisa. […] Eu me limito a registrar que estamos caminhando em direção a uma sociedade
fundada não mais no trabalho, mas no tempo vago.
Além disso, sempre com base nas estatísticas, constato que, tanto no tempo em que se trabalha
quanto no tempo vago, nós, seres humanos, fazemos hoje sempre menos coisas com as mãos e
sempre mais coisas com o cérebro, ao contrário do que acontecia até agora, por milhões de anos.
Mas aqui se dá mais uma passagem: entre as atividades que realizamos com o cérebro, as mais
apreciadas e mais valorizadas no mercado de trabalho são as atividades criativas. Porque mesmo as
atividades intelectuais, como as manuais, quando são repetitivas, podem ser delegadas às máqui-
nas. Assim sendo, acredito que o foco desta nossa conversa deva ser esta dupla passagem da espé-
cie humana: da atividade física à intelectual, da atividade repetitiva à criativa.
Essas duas trajetórias conotam a passagem de uma sociedade que foi chamada de “industrial”
a uma sociedade nova. Podemos defini-la como quisermos. Eu, por comodidade, a chamo de
“pós-industrial”.
Quer uma imagem física desta mudança? Nós, nestes milhões de anos, desenvolvemos um
corpo grande e uma cabeça pequena. Nos próximos séculos, provavelmente reduziremos o
corpo ao mínimo e expandiremos o cérebro. Um pouco como já acontece através do rádio, da
televisão, do computador – a extraordinária série de próteses com as quais aumentamos o poder
da nossa cabeça.
O resultado disso tudo não é o dolce far niente. Com frequência, não fazer nada é menos doce
do que um trabalho criativo.
O ócio é um capítulo importante nisso tudo, mas para nós é um conceito que tem um sentido
sobretudo negativo. Em síntese, o ócio pode ser muito bom, mas somente se nos colocarmos de
acordo com o sentido da palavra. Para os gregos, por exemplo, tinha uma conotação estritamente
física: “trabalho” era tudo aquilo que fazia suar, com exceção do esporte. Quem trabalhava, isto é,
suava, ou era um escravo ou era um cidadão de segunda classe. As atividades não físicas (a políti-
ca, o estudo, a poesia, a filosofia) eram “ociosas”, ou seja, expressões mentais, dignas somente dos
cidadãos de primeira classe.
[…] A sociedade industrial permitiu que milhões de pessoas agissem somente com o corpo, mas
não lhes deixou a liberdade para expressar-se com a mente. Na linha de montagem, os operários
movimentavam mãos e pés, mas não usavam a cabeça. A sociedade pós-industrial oferece uma
nova liberdade: depois do corpo, liberta a alma.
O cérebro do operário não estava empenhado em coordenar o movimento das mãos para que se
harmonizasse com o da máquina?
Na realidade, a sociedade industrial não só fez com que, para muitos, se tornasse inútil o cérebro
como também fez com que somente algumas partes do corpo fossem utilizadas. Isto era diferente
da sociedade rural na qual o camponês, para usar a enxada ou a pá, assim como o pescador para
pescar, além de utilizar o corpo inteiro, usava talvez um pouco mais o cérebro.
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Após a leitura atenta da entrevista, responda
em seu caderno:
1. O que é o ócio criativo para o professor italia-
no Domenico de Masi?
2. Quais críticas ele faz à forma de organização
do trabalho que ainda persiste?
3. O que mudou nas relações de trabalho entre o
século XIX e a atualidade que justifica a posi-
ção do autor? Para responder a essa questão,
releia a seção Contexto e faça uma pesquisa
adicional sobre o desenvolvimento da indús-
tria e as condições de trabalho entre os sécu-
los XX e XXI.
4. Você concorda com as ideias do autor? Dê
argumentos.
Domenico de Masi nasceu em 1938 na Itália e é professor titular da cátedra de Sociologia do Trabalho na Universidade de Roma.
Sobre o futuro
Quer dizer que a próxima palavra-chave, “trabalho”, será sinônimo de apocalipse?
Ou de paraíso. Será um apocalipse caso se continue, teimosamente, a distribuir o trabalho e a
riqueza como se estivéssemos ainda na sociedade industrial.
Dou um exemplo muito simples: se nós comêssemos só bananas e para produzi-las fosse preciso
muito trabalho, poderíamos decidir dar bananas só a quem trabalha.
Porém, se um dia descobríssemos um modo de produzir bananas mecanicamente, sem a neces-
sidade de qualquer esforço humano, todos nós poderíamos comer quantas bananas quiséssemos.
Mas, se insistíssemos em dizer que só comerá banana quem trabalha, deveríamos inventar trabalhos
falsos ou artificiais, para poder assim retribuir com bananas quem os efetuasse. É exatamente o que
estão fazendo, com uma frequência crescente, os governos de esquerda para fazer face ao problema
urgente do desemprego: graças ao progresso tecnológico, a produção de riqueza não só existe, mas
continua a aumentar a cada ano que passa. Mas para fazer com que uma parte desta riqueza atinja
também os desempregados, permanecendo ao mesmo tempo fiel ao moto “quem não trabalha não
come”, é preciso inventar subterfúgios e ficções de vários tipos, como, por exemplo, os assim cha-
mados trabalhos “socialmente úteis”.
Com muita frequência no Brasil, mas às vezes também na Itália, sobretudo nos hotéis ou nas
diretorias empresariais, vejo rapazes que, para ganhar o pão de cada dia, passam o dia inteiro dentro
de um elevador, apertando os botões correspondentes aos andares onde os clientes desejam sair.
Eu me pergunto: como é possível depreciar a este ponto a vida e a inteligência de um rapaz, man-
tendo-o fechado, mofando, oito horas por dia num elevador, para fazer um trabalho completamente
idiota e inútil? Não seria melhor para ele e para a sociedade que lhe dessem a mesma importância de
dinheiro, pedindo-lhe, em troca, que continuasse a estudar?
DE MASI, Domenico. O ócio criativo: entrevista concedida a Maria Serena Palieri. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. p. 13-6; 264-5.
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Detalhe de gravura, de T. Wrainey 1855. (sem dimensões). Um
grupo de homens debate na rua durante a greve Preston.
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1. Conforme o gráfico, existe maior desemprego entre os jovens na Europa? Justifique.
2. Como se pode explicar a situação dos jovens pela leitura do artigo jornalístico?
3. O que você sabe sobre o Brasil? Pesquise na internet dados sobre o desemprego dos jovens
no Brasil e busque argumentos para compreender o seu comportamento no Brasil. Faça uma
comparação com o que ocorre na Europa. Para realizar a pesquisa, consulte a Organização
Internacional do Trabalho (OIT). Disponível em: <www.oit.org.br>. Acesso em: 13 abr. 2013.
4. Apresente os resultados de sua pesquisa criando um gráfico comparativo entre a Europa e o
Brasil no que se refere ao desemprego juvenil.
ROTEIRO DE TRABALHO
TRABALHANDO COM DADOS
Leia o texto, observe o gráfico e siga as orientações:
Trabalhadores jovens e idosos, duas faces da mesma moeda
OIT Brasil, out./2011
GENEBRA (Notícias da OIT) – As economias desenvolvidas estão enfrentando dois desafios
interdependentes: o desemprego juvenil está crescendo e as pessoas vivem mais tempo.
À primeira vista, a resposta parece muito simples: diminuir a idade de aposentadoria de maneira
que os jovens substituam os trabalhadores idosos enquanto estes últimos retiram-se para um bem
merecido descanso. Mas se fosse assim, estaríamos omitindo um aspecto muito importante.
“Na prática, os trabalhadores mais jovens não podem substituir facilmente os trabalhadores mais
velhos. A evidência sugere que as políticas de aposentadoria antecipada não geraram empregos para
os grupos de pessoas mais jovens”, afirmou o Diretor Executivo para Emprego da OIT, José Manuel
Salazar-Xirinachs, em uma recente conferência das Nações Unidas sobre envelhecimento.
Uma das razões principais é que o número de postos de trabalho não é estável, mas muda cons-
tantemente em função das condições do mercado laboral. De maneira que quando um trabalhador
mais velho deixa seu trabalho antes do tempo, ele ou ela não são automaticamente substituídos por
um trabalhador mais jovem.
Outro fator que deve ser levado em conta é que um trabalhador jovem não tem necessariamente
a capacidade de realizar o mesmo trabalho que um trabalhador mais velho que adquiriu qualificações
ao longo de sua carreira.
O ponto mais importante é que tanto os trabalhadores jovens como os idosos necessitam de emprego.
Organização Internacional do trabalho (OIT). Disponível em:
<http://www.oitbrasil.org.br/content/trabalhadores-jovens-e-idosos-duas-faces-da-mesma-moeda>. Acesso em 13 abr. 2013.
TAXA DE DESEMPREGO EM PAÍSES DA UNIÃO EUROPEIA, 2011
Fonte: Eurosat. Disponível em: <http://www.europarl.europa.eu/news/pt/headlines/content/
20120203STO37184/html/Juventude-e-desemprego-na-EU>. Acesso em: 13 abr. 2013.
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INTERDISCIPLINARIDADE
Poluição industrial e qualidade de vida
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s sistemas de produção industrial e suas tecnologias exigem o consumo de enormes quan-
tidades de matéria-prima, energia e água. Geralmente são sistemas lineares, isto é, não rea-
proveitam os recursos utilizados, além de gerar grandes volumes de subprodutos nocivos à
saúde dos seres vivos. Além disso, os sistemas de eliminação, tratamento e destinação dos resíduos,
em particular daqueles perigosos, são inadequados, o que causa graves desequilíbrios nos ecossiste-
mas, além de constituir uma ameaça direta à saúde das populações.
Um exemplo de danos provocados à saúde humana em consequência de atividades industriais ocorreu
durante muitos anos em Cubatão (SP), quando diversos trabalhadores tiveram problemas de saúde rela-
cionados ao contato com percloroetileno, substância que é utilizada como desengraxante na lavagem de
peças e na manutenção de máquinas e pode provocar descamação crônica, rachaduras e feridas na pele.
Outro caso que ilustra os efeitos da poluição industrial sobre a saúde das pessoas e dos ecossiste-
mas ocorreu em 1956, na cidade de Minamata, Japão, quando 56 pessoas residentes nas vizinhanças
da Baía de Minamata apresentaram graves disfunções do sistema nervoso. Na época, cristais de
mercúrio orgânico foram encontrados em dejetos industriais despejados em um rio que desaguava
no mar, principal fonte de alimentos para as comunidades da região. Constatou-se que a fauna mari-
nha havia sido intoxicada e, por intermédio da comida, o metal altamente tóxico chegara aos seres
humanos, cuja dieta era rica em peixes e frutos do mar.
O despejo de resíduos das indústrias metalúrgicas, de tintas e de plástico PVC, entre outras, é a prin-
cipal fonte de contaminação das águas dos rios com metais pesados. Essas indústrias utilizam mercúrio e
outros metais em suas linhas de produção e acabam lançando parte deles nos cursos d’água. Dessa forma,
os metais pesados podem alcançar o mar, onde são absorvidos por animais e vegetais ou se depositam
no leito oceânico. Os metais contidos nos tecidos dos organismos que morrem acabam se depositando
nos sedimentos e passam a representar um estoque permanente de contaminação para a vida aquática.
A maioria dos seres vivos só precisa de alguns poucos metais e em doses muito pequenas, como
é o caso do ferro, constituinte da hemoglobina. Quando ultrapassam determinadas concentrações,
esses metais tornam-se tóxicos e perigosos para a saúde. Já os metais pesados, como o mercúrio,
não desempenham nenhuma função no organismo dos seres vivos, e sua presença é prejudicial em
qualquer concentração, mesmo que bem pequena.
Casos de contaminação humana decorrentes de atividade industrial, como os de Cubatão e
Minamata, revelam que a vulnerabilidade às substâncias não está restrita aos trabalhadores que
lidam diretamente com elas, mas estende-se à comunidade e ao ecossistema como um todo.
Outro desdobramento da atividade industrial é a poluição do ar, que representa uma das mais graves
ameaças à qualidade de vida dos seres humanos, especialmente em regiões urbanas. Poluentes como o
monóxido de carbono (CO), o dióxido de enxofre (SO
2
), o dióxido de nitrogênio (NO
2
), os hidrocar-
bonetos e alguns materiais particulados em suspensão têm efeitos prejudiciais à saúde humana.
Uma das principais fontes de emissão do monóxido de carbono são os automóveis a gasolina. Efeitos
de alcance global também podem ser constatados. A ocorrência de chuva ácida, a destruição da camada de
ozônio e o agravamento do efeito estufa são fenômenos que denotam a gravidade da situação na atualidade.
Os governos, tradicionalmente, enfrentam o problema ambiental estabelecendo níveis máximos de
poluição admissíveis para a água, o ar e o solo. As indústrias reagem instalando equipamentos para que se
mantenham nos níveis determinados. No entanto, a contínua degradação do ambiente é prova de que essa
conduta tem falhas graves. Em primeiro lugar, ela supõe que o ambiente possa tolerar algum nível de polui-
ção sem se alterar, o que é falso. Além disso, como água, ar e solo, em geral, são regulamentados por auto-
ridades diferentes, essa fragmentação apenas provoca o deslocamento de substâncias tóxicas no ambiente.
Considerando o crescimento da atividade industrial e a necessidade de atender a um número cada
vez maior de pessoas, usar racionalmente os recursos naturais e diminuir o impacto da atividade
industrial é imprescindível. Isso implica buscar caminhos alternativos de energia e mudar hábitos de
consumo de bilhões de pessoas.
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E É possível atender à necessidade das pessoas de forma sustentável, isto é, usando com eficiência os
recursos disponíveis e garantindo a preservação da biodiversidade. Para isso, antes de mais nada, é fun-
damental questionar sobre a necessidade real dos produtos e procurar outras formas pelas quais essas
necessidades possam ser satisfeitas ou reduzidas. Também é de suma importância mudar o enfoque
dado aos problemas ambientais: é mais barato e eficiente prevenir danos à saúde e ao ambiente do que
tentar controlá-los ou corrigi-los. A prevenção da poluição deve substituir seu controle.
Os chamados sistemas de produção limpa constituem uma alternativa interessante aos atuais siste-
mas produtivos: são atóxicos, eficientes no uso de energia, utilizam materiais renováveis, reaproveitá-
veis e extraídos de modo que mantenham a viabilidade dos ecossistemas ou dos materiais não renová-
veis, mas são passíveis de reprocessamento de forma não tóxica e a baixo consumo energético. Acima
de tudo, os sistemas de produção limpa não são poluentes e geram produtos duráveis e reutilizáveis.
A indústria não pode mais objetivar unicamente a minimização dos custos de produção. Deve
desenvolver estratégias de redução da quantidade de materiais consumidos, favorecendo o uso de
materiais recicláveis ou renováveis, deve optar por materiais mais duráveis e reduzir o volume de
resíduos produzidos, evitando materiais perigosos e incentivando a reciclagem e a reutilização. Em
suma, é necessário que se leve em conta os custos ambientais, sociais e econômicos do esgotamento
de recursos e da geração de resíduos decorrentes da atividade industrial.
1. Faça uma síntese dos impactos da atividade industrial apresentados no texto.
2. Analise as vantagens dos sistemas de produção limpa e explique por que eles seriam uma alter-
nativa interessante para eliminar ou minimizar tais impactos.
3. Qual a relação existente entre a dinâmica das cadeias alimentares terrestres e aquáticas e a con-
taminação dos seres vivos com poluentes industriais? Use um exemplo hipotético para explicar
como o ser humano é envolvido nessa situação.
4. Pesquise as causas e as consequências do efeito estufa, da chuva ácida e da destruição da
camada de ozônio. Construa uma tabela comparativa para apresentar essas informações.
Depois responda: O que esses fenômenos têm em comum?
5. Investigue o que se entende por poluição. Descreva outras fontes de poluição observadas em sua
comunidade, além da que é gerada pela indústria.
6. De que forma você pode contribuir para reduzir a degradação ambiental, como um todo e indivi-
dualmente, que é decorrente de atividade industrial? Proponha ações concretas.
RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

A questão 1 exige um conhecimento sobre os
princípios do movimento operário no Brasil que
pode ser adquirido pela leitura deste capítulo.
Para responder à questão 2, é preciso interpre-
tar o texto do enunciado, não sendo necessário
nenhum conhecimento prévio.

Na questão 3, é necessário conhecer as
transformações essenciais ocorridas com a
Revolução Industrial.

Nas questões 4 e 5, é essencial uma leitu-
ra cuidadosa do texto do enunciado, pois ele
fornece pistas importantes para a resolução
das questões.
1. (UFPI-PI) Leia o texto a seguir.
A imagem mais corrente do operariado na Primeira
República é a do italiano anarquista. Caricata, ela
reúne dois componentes fundamentais: por um
lado, a associação automática entre trabalhador e
imigrante – este, por sua vez, reduzido ao italiano;
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por outro, a atribuição de um ideário único, o anar-
quismo, àquele momento histórico.
BATALHA, Cláudio. O movimento operário na Primeira República.
Rio de Janeiro: Zahar, 2000. p. 7.
A partir do texto e dos seus conhecimentos, as-
sinale a alternativa correta sobre o movimento
operário no Brasil da Primeira República:
a) A cooptação dos trabalhadores pelo Estado,
que cedeu a algumas das reivindicações tra-
balhistas, caracterizou todo o período.
b) As formas de organização dos trabalhadores,
bem como as correntes político-ideológicas
que os influenciaram, foram marcadas pela
heterogeneidade.
c) Os trabalhadores brasileiros não participa-
vam dele por medo da repressão, limitando-
-se o movimento, portanto, aos ambientes e à
ação de imigrantes.
d) A ideologia que inspirava os vários movimen-
tos foi toda baseada no anarquismo, e as
reivindicações eram endereçadas aos empre-
sários, mas não ao Estado.
e) As únicas cidades brasileiras que foram palco
do movimento foram São Paulo e Rio de
Janeiro, porque somente elas apresentavam
um desenvolvimento industrial no período.
2. (UFPel-RS)
Um fato saliente chamou a atenção de Adam
Smith, ao observar o panorama da Inglaterra: o
tremendo aumento da produtividade resultante da
divisão minuciosa e da especialização de trabalho.
Numa fábrica de alfinetes, um homem puxa o fio,
outro o acerta, um terceiro o corta, um quarto faz-
-lhe a ponta, um quinto prepara a extremidade para
receber a cabeça, cujo preparo exige duas ou três
operações diferentes: colocá-la é uma ocupação
peculiar; prateá-la é outro trabalho. Arrumar os
alfinetes no papel chega a ser uma tarefa especial;
vi uma pequena fábrica desse gênero, com ape-
nas dez empregados, e onde consequentemente
alguns executavam duas ou três dessas operações
diferentes. E embora fossem muito pobres, e por-
tanto mal acomodados com a maquinaria necessá-
ria, podiam fazer entre si 48 000 alfinetes num dia,
mas se tivessem trabalhado isolada e independen-
temente, certamente cada um não poderia fazer
nem vinte, talvez nem um alfinete por dia.
FARIA, Ricardo de Moura et al. História. v. 1.
Belo Horizonte: Lê, 1993. Adaptado.
O documento sobre a Revolução Industrial, na
Inglaterra,
a) relaciona a divisão de trabalho com a alta pro-
dutividade, situação bem diferente da produ-
ção artesanal característica da Idade Média.
b) enfatiza o trabalho em série e as condições
do trabalhador nas fábricas, reforçando a
importância das leis trabalhistas, no início da
dade Moderna.
c) demonstra que a produtividade está direta-
mente relacionada ao número de emprega-
dos da fábrica, ao contrário das Corporações
de Ofício, em que a produção artesanal
dependia do mestre.
d) destaca a importância da especialização do
trabalho para o aumento da produtivida-
de, situação semelhante à que ocorria nas
Corporações de Ofício, de que participavam
aprendizes, oficiais e mestre.
e) evidencia as ideias fisiocráticas e mercantilis-
tas, ao realçar a divisão do trabalho, caracte-
rísticas marcantes da Revolução Comercial.
3. (UEL-PR) Sobre a Revolução Industrial nos sé-
culos XVIII e XIX, é correto afirmar:
a) Uma condição indispensável para a transi-
ção do artesanato para a manufatura e desta
para a indústria moderna foi a concentração
da propriedade dos meios de produção nas
mãos do capitalista.
b) O crescimento industrial na Inglaterra resul-
tou em um processo conhecido como “segun-
da servidão”, na qual os antigos servos rurais
foram transferidos para as indústrias urba-
nas, visando ao aumento de produtividade
das mesmas.
c) Embora detivessem o poder político, tanto a
burguesia rural como a aristocracia urbana
não possuíam capitais que possibilitassem
o desenvolvimento da Revolução Industrial,
sendo esta, portanto, financiada pelos peque-
nos proprietários rurais.
d) A industrialização na Grã-Bretanha iniciou-
-se com a instalação das indústrias de bens
de capital (aço e maquinário) e, depois de
estruturada essa base, partiu-se para a pro-
dução de bens de consumo semiduráveis e
não duráveis (tecidos, alimentos, bebidas).
e) Por não haver complementaridade entre a ati-
vidade industrial e a pecuária (gado bovino,
ovino), este foi o setor mais duramente atingido
pela conversão da Europa rural em industrial.
4. (Enem)
A prosperidade induzida pela emergência das
máquinas de tear escondia uma acentuada perda
de prestígio. Foi nessa idade de ouro que os arte-
sãos, ou os tecelões temporários, passaram a ser
denominados, de modo genérico, tecelões de tea-
res manuais. Exceto em alguns ramos especiali-
zados, os velhos artesãos foram colocados lado a
lado com novos imigrantes, enquanto pequenos
fazendeiros-tecelões abandonaram suas peque-
nas propriedades para se concentrar na atividade
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de tecer. Reduzidos à completa dependência
dos teares mecanizados ou dos fornecedores de
matéria-prima, os tecelões ficaram expostos a
sucessivas reduções dos rendimentos.
(THOMPSON, E. P. The making of the English working class.
Harmondsworth: Penguin Books, 1979. Adaptado.
Com a mudança tecnológica ocorrida durante
a Revolução Industrial, a forma de trabalhar
alterou-se porque
a) a invenção do tear propiciou o surgimento de
novas relações sociais.
b) os tecelões mais hábeis prevaleceram sobre
os inexperientes.
c) os novos teares exigiam treinamento especia-
lizado para serem operados.
d) os artesãos, no período anterior, combinavam
a tecelagem com o cultivo de subsistência.
e) os trabalhadores não especializados se apro-
priaram dos lugares dos antigos artesãos nas
fábricas.
5. (Unesp-SP)
A Exposição Internacional de Eletricidade foi
aberta ao público no Palácio da Indústria em Paris,
em agosto de 1881 […]. A maior parte dos apare-
lhos expostos resultou de descobertas modernís-
simas […]. O bonde que transporta os visitantes;
as máquinas eletromagnéticas e o dínamo-elé-
trico em funcionamento; os focos luminosos
brilhando; os telefones que nos permitem ouvir
à distância representações de ópera – tudo isto é
tão novo que nem sequer seu nome era conhecido
cinco anos atrás.
Revista A Natureza, 1881.
As inovações mencionadas:
a) resultaram dos investimentos em tecnologia
e da criação dos cursos técnicos nas univer-
sidades europeias e norte-americanas.
b) foram consequências da Segunda Revolução
Industrial, que explorou novas fontes de ener-
gia e desenvolveu novos processos produtivos.
c) ficaram restritas às camadas privilegiadas
da sociedade, sem alterar o cotidiano da
maioria dos habitantes da Europa.
d) possibilitaram a autossuficiência dos países
capitalistas adiantados e trouxeram dificul-
dades para os exportadores de produtos
primários.
e) determinaram a expansão dos regimes demo-
cráticos e iniciaram a difusão dos conheci-
mentos científicos em diferentes sociedades.
RELEITURA
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O homem das multidões (trechos selecionados) – 1840
Edgar Allan Poe
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ão faz muito tempo, quase ao findar duma noite de outono, estava eu sentado diante da grande
janela da sacada do café D em Londres. Durante alguns meses estivera mal de saúde, mas me
achava agora convalescente e voltando-me as forças, encontrava-me em uma daquelas felizes
disposições que são tão precisamente o contrário do tédio… Com um cigarro na boca e um jornal no
colo, estivera a distrair-me na maior parte da tarde, ora esquadrinhando os anúncios, ora observando a
promíscua companhia que havia no salão, e ora espreitando a rua pelas enfumaçadas vidraças.
Esta rua é uma das principais vias públicas da cidade, e estivera bastante cheia de gente durante o
dia inteiro. Mas, ao escurecer, a multidão, de momento a momento, alimentava, e, ao tempo em que
as luzes foram acesas, duas densas e contínuas marés de povo passavam apressadas diante da porta.
Nunca me encontrara antes em semelhante situação naquele momento particular da noite, e aquele
tumultuoso mar de cabeças humanas enchia-me, por conseguinte, duma emoção deliciosamente nova.
Deixei por fim de prestar atenção às coisas do hotel e absorvi-me na contemplação da cena lá de fora.
A princípio minhas observações tomaram um jeito abstrato e generalizador. Olhava os passan-
tes em massa e neles pensava em função de suas rela-
ções gregárias. Em breve, porém, desci a pormenores
e examinei com minudente interesse as inúmeras
variedades de figura, roupa, ar, andar, rosto e expressão
fisionômica.
VOCABULÁRIO
Gregário: que tende a viver em bando.
Minudente: minucioso, cheio de detalhes.
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Em alto grau, o maior número daqueles que passavam tinha um porte convencido de gente
atarefada, e parecia estar pensando apenas em abrir caminho pela multidão. Franziam as sobran-
celhas e seus olhos rolavam com vivacidade. Quando encontrados por outros passantes não
davam sinal de impaciência, mas concertavam a roupa e se apressavam. Outros, classe ainda
numerosa, mostravam-se inquietos em seus movimentos, tinham rostos avermelhados e fala-
vam e gesticulavam consigo mesmos como se se sentissem em solidão por causa da enormidade
da densa turba em seu redor. […] Nada havia de muito peculiar nessas duas grandes classes
além do que observei. Suas roupas incluíam-se na categoria que exatamente se define como:
decente. Eram sem dúvida nobres, mercadores, advogados, lojistas, agiotas; os eupátridas e o lugar-
-comum da sociedade; homens de lazer e homens ativamente empenhados em negócios sob sua
exclusiva responsabilidade. Não me excitaram grandemente a atenção.
A tribo dos escreventes era inconfundível, e nela eu distinguia duas notáveis divisões. Havia os
pequenos escreventes das casas baratas: jovens cavalheiros de roupas justas, sapatos brilhantes,
cabelos bem brilhantinados e lábios insolentes. Pondo de lado certa atividade, de maneira que pode
ser denominada “escrivaninhismo”, na falta de melhor palavra, o jeito desses indivíduos parecia-me
ser um fac-símile exato do que havia sido a perfeição do bom-tom, doze ou dezoito meses antes.
Usavam os restos da classe alta – e isso, acredito, envolve a melhor definição de sua classe.
[…]
Havia muitos indivíduos de aparência vivaz, que facilmente reconheci como pertencentes à raça
dos elegantes batedores de carteira, de que todas as grandes cidades andam infestadas. Vigiei tal
destacada espécie social com grande atenção e achei difícil imaginar como podiam ser tomados por
pessoas de trato pelas próprias pessoas distintas. A enormidade dos punhos de suas camisas, com
um aspecto de franqueza excessiva, devia traí-los imediatamente.
Os jogadores profissionais – que descobri em quantidade não pequena – eram ainda mais facil-
mente identificáveis. Usavam roupa de todas as espécies, desde a vestimenta berrante e audaciosa
do casquilho, com colete de veludo, fantasiosa gravata, correntes folheadas a ouro e botões filigrana-
dos, até as vestes do clérigo escrupulosamente desadornado, de modo que nada houvesse capaz de
despertar suspeitas. Eram todos, contudo, facilmente distinguidos em vista de certa coloração amo-
renada e oleosa, de um vaporoso escurecimento dos olhos, do palor e da compressão dos lábios…
Descendo a escala do que se chama a “gentilidade”, encontrei temas de meditação mais negros e
mais profundos. Vi revendedores judeus, com olhos de gavião, cintilando em fisionomias das quais
todas as outras feições mostravam apenas uma expressão de abjeta humildade; atrevidos mendigos de
rua, profissionais, fechando a cara para mendigos de melhor estampa, a quem somente o desespero
havia impelido a implorar a caridade, nas trevas da noite; fracos e lívidos inválidos, sobre os quais a
morte pusera uma mão firme, e que andavam de viés e cambaleavam por entre a multidão, fitando
a todos, suplicantemente, bem no rosto, como se em busca duma esperança de consolação, alguma
esperança perdida; mocinhas humildes, de volta dum trabalho longo e tardio, para um lar sem alegria,
e encolhendo-se, mais chorosas do que indignadas, diante das olhadelas dos rufiões, de cujo contato
direto nem mesmo conseguiam esquivar-se; prostitutas de todas as espécies e de todas as idades, com
a incontestável beleza, na primavera de sua feminilidade…; a simples criança de formas imaturas, mas,
graças a uma longa camaradagem, versada nas espantosas galantarias de seu comércio, ardendo de
raivosa ambição de alcançar posto igual ao das veteranas do vício; ébrios inumeráveis e indescritíveis,
alguns esmolambados e remendados, cambaleando, desarticulados, com rostos cheios de equimoses e
olhos aquosos; uns tantos, com as roupas inteiras, porém sujas…; além destes, vendedores de empa-
das, carregadores, carvoeiros, limpadores de chaminés, tocadores de realejo, exibidores de macacos,
vendedores de modinhas, os que vendiam com os que cantavam, artífices esfarrapados e operários
exaustos de toda a casta, e todos cheios de uma vivacidade
desordenada e barulhenta, que atormentava os ouvidos e
levava aos olhos uma sensação dolorosa.
POE, Edgar Allan. O homem das multidões. In: MENDES, Oscar;
AMDO, Milton (Org.). Ficção completa, poesia e ensaios.
Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1997. p. 392-400.
VOCABULÁRIO
Palor: palidez.
Rufião: aquele que briga por causa
de mulheres de má reputação.
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1. Identifique os grupos sociais que foram mencionados por Edgar Allan Poe no texto anterior e
quais são as características deles.
2. De que maneira a caracterização social feita pelo autor se relaciona com as mudanças pro-
vocadas pela Revolução Industrial na Inglaterra? Retire exemplos do texto e utilize as infor-
mações da seção Contexto.
3. Considerando o texto anterior e o que foi estudado no capítulo, explique em que medida a forma de orga-
nização do trabalho em uma sociedade tem papel fundamental na organização de toda a vida social.
4. Faça uma crônica sobre a vida urbana de sua cidade, considerando as atividades econômicas e a
forma de organização de trabalho predominante na região. Procure relacionar esses elementos
com a vida cotidiana da cidade.
Edgar Allan Poe nasceu em Boston, nos Estados Unidos, em 1809. Órfão aos dois anos, foi adotado por um rico
comerciante que o levou para a Inglaterra, onde concluiu os estudos. Nos anos 1820 dedicou-se ao estudo das lín-
guas na Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos, mas abandonou a carreira e passou a dedicar-se à literatura.
Além de publicar seus primeiros poemas e contos, tornou-se editor de revistas literárias da época. Entre seus escritos
mais conhecidos estão O crime da rua Morgue (1840) e O escaravelho de ouro (1841). Suas
personagens frequentemente são inquietas e neuróticas; revelam aspectos do ser humano nem
sempre presentes nas relações cotidianas. Assumem grande importância em sua obra a trama
psicológica, o ambiente denso, tenso, imprevisível, no qual a morte e a fatalidade se fazem pre-
sentes. Nesse sentido, ele é conhecido como um dos “escritores malditos”. Faleceu em 1849.
SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa. São Paulo: Companhia das
Letras, 2001.
O autor discute aspectos da virada do século XX para o século XXI. Para Sevcenko, a rapidez das mudanças causa-nos
uma sensação de vertigem, como a sentida no loop de uma montanha-russa.
SINGER, Paul. A formação da classe operária. São Paulo: Atual, 2002.
Este livro procura explicar o que é classe operária e como se deu sua formação. Levando em conta as especificidades
locais, o autor considera os motivos que fazem com que o operariado seja mais ativo em alguns países.
Daens. Direção de Stijn Coninx. Bélgica/França/Holanda, 1993. (132 min).
Na Bélgica, durante a Revolução Industrial, o padre Daens une os trabalhadores na luta por melhores condições de
trabalho nas tecelagens.
Eles não usam black-tie. Direção de Leon Hirszman. Brasil, 1981. (120 min).
Na São Paulo de 1980, o jovem operário Tião decide furar a greve de sua categoria, pois vai casar-se com a namorada
grávida e teme perder o emprego. Essa decisão o põe em conflito com o pai, líder sindical que encabeça o movimento.
Germinal. Direção de Claude Berri. Bélgica/França/Itália, 1993. (155 min).
Baseado no romance de Émile Zola, na França do Segundo Império, uma família de mineiros enfrenta a exploração,
o desemprego e a miséria. Um deles se engaja na luta por melhores condições de trabalho, deflagrando uma greve.
Oliver Twist. Direção de Roman Polanski. Inglaterra/República Tcheca/França/Itália, 2005. (130 min).
Adaptação da obra clássica de Charles Dickens que retrata as condições de vida da Inglaterra do século XIX.
Tempos modernos. Direção de Charles Chaplin. Estados Unidos, 1936. (87 min).
Último filme mudo de Chaplin, ilustra, por meio da vida do operário Carlitos, a sociedade industrial da primeira metade
do século XX, baseada na linha de montagem e na especialização do trabalho. Trata-se de uma crítica à modernidade
e à vida urbana norte-americana dos anos 1930.
CPDOC – Movimento operário. Disponível em: <pdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos20/Questao
Social/MovimentoOperario>. Acesso em: 13 abr. 2013.
Imagens e artigos sobre a história do movimento operário brasileiro e outros links para temas afins.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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Retrato de 1907,
por Ismael Gentz.
(sem dimensões)
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ão se pode afirmar que toda a Europa do século XIX fizesse parte de uma mesma
cultura. Muito do mundo medieval ainda persistia e grande parte da população
vivia no campo seguindo tradições já longamente estabelecidas. No entanto,
naquelas cidades em que o capitalismo e as indústrias avançaram, surgiram novas
formas de viver e de pensar influenciadas por princípios liberais. Isso ocorreu princi-
palmente com as classes médias e a burguesia enriquecida desses centros urbanos.
Conforme o ensaísta norte-americano Marshall Berman:
[o século XIX adquire] uma paisagem de engenhos a vapor, fábricas automatizadas, fer-
rovias, amplas novas zonas industriais; prolíficas cidades que cresceram do dia para a
noite, quase sempre com aterradoras consequências para o ser humano; jornais diários,
telégrafos, telefones e outros instrumentos de medida, que se comunicam em escala
cada vez maior; Estados nacionais cada vez mais fortes e conglomerados multinacionais
de capital; movimentos sociais de massa, que lutam contra essas modernizações […];
um mercado mundial que a tudo abarca, em crescente expansão, capaz de um estarre-
cedor desperdício e devastação, capaz de tudo, exceto solidez e estabilidade.
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 18.
Nesse novo contexto, o mundo burguês seria aquele que valoriza a liberdade indi-
vidual e o sujeito empreendedor capaz de vencer por seus esforços. O gosto pela dis-
crição, a privacidade e uma clara separação entre a vida privada e a vida pública mar-
cariam esse novo modo de viver. As mudanças poderiam ser sentidas nos aspectos
mais cotidianos: na maneira de se vestir, de tratar a sexualidade, o amor, os amigos e
mesmo a família. Muito dessa nova forma de ser estará presente nos personagens das
obras literárias do período, conforme veremos na seção Documentos.
O historiador inglês Peter Gay estudou a vida burguesa do século XIX e afirmou:
Quer a temessem ou festejassem, todos os observadores contemporâneos concor-
davam em que a família burguesa do século XIX era o porto mais seguro para a priva-
cidade. Por trás de suas muralhas protetoras era possível retirar-se e fechar a porta a
magistrados intrometidos, vizinhos mexeriqueiros e até mesmo prelados inoportunos
A cultura burguesa, as repúblicas
liberais e os conflitos na Europa
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CAILLEBOTTE, Gustave. Paris, tempo chuvoso, 1877. Óleo sobre tela, 212,2 cm × 276,2 cm. A obra é impressionista e mostra a moder-
nidade urbana de Paris no século XIX e a elegância de um jovem casal. A moda burguesa, nesse período, passa a ser signo de “bom
pertencimento social”.
[…] O ambiente doméstico moderno oferecia uma proteção inigualável contra a bis-
bilhotice indesejada. Alguns, contemplando esse magnífico invento, se entregaram a
pensamentos profundos, ou até mesmo à filosofia. “Por trás da vida exterior de cada
homem, da vida que ele leva em público”, escreveu Walter Bagehot em 1853, “há uma
outra vida que ele leva sozinho, e que carrega consigo fora do alcance das pessoas
com quem convive. Dos nossos vizinhos vemos apenas uma face, assim como vemos
apenas uma face da lua”. Ao fim das contas, “todos nós descemos à sala de refeições,
porém, cada um tem seu dormitório”. […] O século XIX foi uma era em que os mem-
bros das classes médias aspiravam a ter, cada um, seu próprio aposento.
Mesmo no interior do reduto da vida familiar, contudo, a privacidade estava muito
longe de ser completa, visto que os pais cediam à sua própria bisbilhotice. Abriam as
cartas escritas por seus filhos ou a eles endereçadas, supervisionavam sua leitura,
acompanhavam-nos em suas visitas e inspecionavam suas roupas íntimas. […]
Nem mesmo os diários, essa proverbial encarnação da privacidade, estavam comple-
tamente a salvo de invasões, permitidas ou desautorizadas. Nem só nos romances os
pais e maridos se aproveitavam da ausência do dono do diário para tomarem conhe-
cimento de segredos que não eram destinados a seus olhos. […] O diário íntimo do
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LINHA DO TEMPO ÍNDICE
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THESAURUS
DEGAS, Edgar. A fa-
mília Bellelli, 1858-
1869. Óleo sobre tela,
200 cm × 250 cm.
Nesta imagem, foi
retratado o espaço
privado da família na
Europa do século XIX.
Os Bellelli moravam
em Florença, Itália, e
eram tios do artista
francês.
século XIX continua a ser um valioso objeto histórico, pois permite acesso à caracterís-
tica que mais claramente define a moderna experiência burguesa. Sabemos que a gran-
de maioria das culturas estabelece limites, mais ou menos nítidos, entre as esferas
pessoal e pública. Entretanto, a cultura da classe média do século XIX dava particular
ênfase a essa distinção, tornando o abismo que separa as duas esferas o mais amplo
possível. Numa cultura como essa, o diário íntimo estava destinado a florescer, e foi
com justiça que o século XIX veio a ser considerado sua época áurea.
GAY, Peter. A experiência burguesa da rainha Vitória a Freud: a educação dos sentidos. São Paulo:
Companhia das Letras, 1988. p. 314.
Mesmo sendo um século de afirmação do pensamento burguês, formaram-se, aí,
críticas contundentes ao sistema capitalista. Ao mesmo tempo que o capitalismo
criou uma nova ordem e uma nova classe, criou também condições para sua crítica.
Os operários das fábricas começaram a organizar associações de classe e a reivindi-
car melhores condições de trabalho. Fizeram greves e alguns passaram a defender a
superação do regime capitalista por uma sociedade anarquista ou socialista.
Perdurou ainda a crítica à monarquia, e, em vários países, os liberais defendiam a
instauração de governos republicanos que deveriam ampliar a participação da popu-
lação nas decisões políticas nacionais. Os governos absolutos que persistiam eram
criticados; exigiam-se a elaboração de constituições, o fim da censura e a ampliação
do direito de voto ou mesmo sua universalização.
Os debates e os problemas formulados nesse período, como podemos perceber,
não se esgotam no século XIX, fazendo parte do século XX e mesmo do XXI. Vamos
deparar com muitas das estruturas sociais que ainda estão presentes em nosso
tempo. Algumas até agora lutam para se afirmar, outras já dão sinal de cansaço.
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MONET, Claude. Impressão do sol nas-
cente, 1872. Óleo sobre tela, 48 cm 63
cm. Esta obra deu origem ao impressionis-
mo. No nevoeiro, refletem-se as águas do
Rio Sena. À primeira vista indistintos,
os objetos vão tomando forma revela-
dos pelo sol nascente.
PISSARRO, Jacob Camille. A grande
ponte em Rouen, 1896. Óleo sobre tela,
74 cm 92 cm. Nesta obra, o artista re-
presentou a moderna cidade industrial
na França do século XIX.
A Paris do século XIX foi palco de um dos mais importantes movimentos artísticos:
o impressionismo. No ano de 1874, jovens artistas de Paris resolveram mostrar seus
trabalhos em uma exposição coletiva, pois estavam cansados de ter seus quadros,
gravuras e esculturas excluídos dos salões oficiais de arte. Uma das telas da expo-
sição chamava-se Impressão, sol nascente, como vemos acima, de Claude Monet
(1840-1926). A imprensa passou a chamar os artistas da exposição de impressionistas.
Incorporavam novas técnicas e captavam de forma diferente a vida urbana da moder-
na Paris. Cenas históricas e alegóricas, a exemplo do que os renascentistas faziam,
eram evitadas pelos impressionistas, que se identificavam mais com temas banais e
corriqueiros. Rebelando-se contra as regras artísticas e o ensino acadêmico, eles gos-
tavam de pintar ao ar livre a fim de captar “impressões” da paisagem. Os efeitos da
luz sobre as superfícies eram vitais para eles. Assim, usavam cores brilhantes e pince-
ladas soltas. Os franceses Edgar Degas (1834-1917) e Jacob Camille Pissarro (1830-
1903), além de Claude Monet, estão entre os principais expoentes do impressionismo.
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LINHA DO TEMPO
Museu Nacional do Castelo, Rueil-Malmaison,
Paris/ akg_images/Intercontinental Press
1814-1815 Congresso de Viena. Áustria, Prússia, Rússia e Inglaterra
assinam o pacto militar da Santa Aliança.
1815 Napoleão toma o poder e governa por cem dias.
É derrotado na Batalha de Waterloo.
1818 A França adere à Santa Aliança.
1824 Morte de Luís XVIII; Carlos X assume o trono francês.
1830 Revolução liberal na França: Carlos X é destituído e Luís
Filipe de Orléans assume o poder. Fim da dinastia Bourbon.
1837-1901 Reinado da rainha Vitória na Inglaterra: era vitoriana.
1848 Na França, abdicação de Luís Filipe e instauração de um governo provisório, de
caráter republicano; Luís Bonaparte vence as eleições presidenciais francesas.
Revoluções liberais e nacionalistas na região das atuais Itália e Alemanha.
1851 Luís Bonaparte dissolve a Assembleia Legislativa francesa.
1852 Plebiscito condecora Luís Bonaparte com o título de Napoleão III, imperador
da França. Ascensão de Cavour ao posto de primeiro-ministro do Reino do
Piemonte, na Península Itálica.
1858 Aliança franco-piemontesa: pacto militar antiaustríaco.
1859 Declaração de guerra da Áustria ao Piemonte marca o início da unificação italiana.
1860 Toscana, Parma, Módena e a região da Romanha, territórios conquistados pelas
tropas de Giuseppe Garibaldi, são incorporadas ao Piemonte: processo de
formação do Reino da Itália.
1861 Incorporação do Reino das Duas Sicílias e da parte oriental dos Estados
Pontifícios à Alta Itália: origem do Reino da Itália.
1862 Otto von Bismarck torna-se chanceler da Prússia.
1864 Guerra dos Ducados: a Prússia, em aliança com a Áustria, ganha o domínio dos
ducados da Dinamarca. Marco inicial da unificação alemã.
1866 Pacto militar ítalo-prussiano; Guerra Austro-Prussiana: a Prússia vence a Áustria.
1870-1871 Guerra Franco-Prussiana, vencida pela Prússia; Napoleão III é aprisionado pela
Prússia, o que leva ao fim do Segundo Império e ao início da Terceira República
na França; incorporação de Roma, que passa a ser capital do Reino da Itália.
1871 Consolidação da unificação alemã: Guilherme I, rei da Prússia, é coroado
imperador da Alemanha. Fundação do II Reich; a transferência de Vítor Emanuel
II para Roma completa a unificação italiana; Comuna de Paris.
Chapéu usado por
Napoleão Bonaparte.
Representação do incên-
dio e destruição do Hotel
Ville. Forças governamen-
tais enfrentam os rebeldes
protegidos por uma barri-
cada durante a Comuna de
Paris. Março de 1871.
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DOCUMENTOS
Leia os textos, observe as imagens e siga as instruções do Roteiro de trabalho.
O vermelho e o negro – 1829
Stendhal
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marquês era perfeito com a mulher; cuidava em que o seu salão estivesse suficientemente orna-
mentado; mas achava que os seus novos colegas não eram bastante nobres para irem à casa deles
como amigos e iguais, nem bastante divertidos para serem admitidos ali como subalternos.
Só muito mais tarde Julien penetrou esses segredos. A política dirigente, que é o assunto das casas
burguesas, nas da classe do marquês só é abordada nos momentos de contrariedade.
Mesmo neste século entediado, ainda é tamanha a necessidade de divertimento que, mesmo nos
dias de jantares, logo que o marquês deixava o salão, todos fugiam. Contanto que não pilheriassem
com Deus, nem com os padres, nem com o rei, nem com os artistas protegidos pela Corte, nem com
tudo o que está consagrado; contanto que não falassem bem de Béranger, nem dos jornais da oposi-
ção, nem de Voltaire, nem de Rousseau, nem de todos os que se permitiam certa linguagem franca;
contanto, sobretudo, que nunca falassem em política, podiam comentar tudo livremente.
Não há cem mil escudos de renda nem condecorações que possam lutar contra tal código de salão. A
menor ideia viva parecia uma grosseria. Apesar do bom-tom, da perfeita cortesia, do desejo de agradar,
lia-se o aborrecimento em todos os semblantes. Os moços que compareciam para cumprir um dever, de
medo de aludir a qualquer coisa que levantasse suspeita de uma opinião ou de trair alguma leitura proi-
bida, calavam-se depois de algumas frases muito elegantes sobre Rossini e o tempo que estava fazendo.
STENDHAL. O vermelho e o negro. Rio de Janeiro: Globo, 1987. p. 254.
Ilusões perdidas – 1835-1843
Honoré de Balzac
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urante o seu primeiro passeio vagabundo através dos bulevares e da rua da Paz, Luciano,
como todos os recém-chegados, ocupou-se mais das coisas do que das pessoas. Em Paris, o
conjunto das construções e das atividades urbanas chamam logo atenção: o luxo das lojas,
a altura das casas, a afluência das carruagens, os permanentes contrastes que apresentam o extremo
luxo e a extrema miséria, antes de tudo despertam o interesse. Surpreendido por aquela multidão à
qual se sentia estranho, aquele homem de imaginação sentiu como que uma imensa diminuição de si
mesmo. As pessoas que, no interior, gozam de certa consideração, e que ali a cada passo encontram
provas de sua importância, não se acostumam de modo algum a essa perda total e súbita de seu valor.
BALZAC, Honoré de. Ilusões perdidas. São Paulo: Abril Cultural, 1981. p. 93.
Sobre a modernidade – 1863
Charles Baudelaire
O
homem rico, ocioso e que, mesmo entediado de tudo, não tem outra ocupação senão correr
ao encalço da felicidade; o homem criado no luxo e acostumado a ser obedecido desde a
juventude; aquele, enfim, cuja única profissão é a elegância sempre exibirá, em todos os
tempos, uma fisionomia distinta, completamente à parte.
BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. p. 47.
O jogador – 1866
Fiódor Dostoiévski
E
m primeiro lugar, a mim me parecia tudo aquilo tão sujo… quanto moralmente repulsivo e
asqueroso. Não me refiro de modo algum àqueles rostos ávidos e inquietos que às dezenas, às
centenas, bloqueiam as mesas de jogo. Nada vejo de repugnante no desejo de ganhar depressa
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THESAURUS
ROTEIRO DE TRABALHO
PISSARO, Jacob Camille. Bulevar dos italianos. Manhã
de sol, 1897. Óleo sobre tela, 73,2 cm 92,1 cm.
RENOIR, Pierre-Auguste. O baile no Moulin de la
Galette, 1876. Óleo sobre tela, 131 cm × 175 cm.
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Autores do século XIX
O século XIX foi marcado na Filosofia, nas Artes e na Literatura pela presença da sociedade burguesa. O sentimento contraditório
entre o encantamento e o desconforto diante das transformações, cada vez mais efêmeras, está presente nos autores e nos artistas
desse período. O francês Honoré de Balzac (1799-1850) registrou na primeira parte do conjunto de sua obra, denominada
Comédia humana, o estudo dos costumes, opondo os hábitos das províncias aos costumes de Paris. Também o russo Fiódor
Dostoiévski (1821-1881) percebia em sua época a permanente preocupação com as aparências e denunciou em seus livros o
mundo que não desfilava nos bulevares dos grandes centros urbanos: as paixões interiores, o desespero, o desconforto, o vício.
Em Sthendal (1783-1842), pseudônimo do escritor francês Marie-Henri Beyle, a caracterização do mundo exterior, das camadas
sociais estabelecidas, e o individualismo das personagens retratam a contradição entre o sentimento humano e a preocupação
com a exposição da imagem. Já o eterno inconformado Charles Baudelaire (1821-1864), marcado pela vida boêmia que lhe
causou inúmeras doenças, foi quem melhor definiu o espírito de seu século, utilizando, para isso, a palavra “modernidade”. Mais
conhecido por seus poemas, foi também um estudioso da estética, analisando a pintura moderna. Certamente, lhe agradavam as
obras dos amigos impressionistas, que, com traços rápidos, tentavam captar o movimento frenético das ruas. Um deles, Pierre-
Auguste Renoir (1841-1919), mais do que registrar a realidade, utilizava seus pincéis para captar o belo. Cada um desses artistas
percebia que estava em um mundo que mudava a cada dia e tentava transformar em arte aquilo que viam.
Após a leitura atenta da entrevista, responda em seu caderno:
1. De que maneira os autores desses textos descrevem o europeu do século XIX? Enumere os ele-
mentos que aparecem nas obras.
2. Essas descrições podem se referir a todas as classes sociais? Explique.
3. Observe atentamente as imagens desta página. Redija um pequeno texto estabelecendo alguma
relação entre duas obras e um dos textos citados. Não se esqueça de fazer alguma referência à
visão que esses autores do século XIX tinham do lugar onde viviam.
o mais possível; sempre me pareceu muito estúpido o pensamento de certo moralista superficial,
que, diante da desculpa de alguém: “Repare: jogam pouquinho”, replicou: “Tanto pior, porque
ganham menos”. Como se a ganância miúda e gorda… não fosse a mesma. […] não é só na roleta
que os homens se esforçam por enriquecer à custa do próximo, mas em toda a parte. […] O que
desagradava particularmente, à primeira vista, em toda aquela canalha de jogadores de roleta, era o
apreço pela ocupação, aquela seriedade e até mesmo respeito com que todos rodeavam as mesas.
[…] Porque há dois jogos: um… próprio do gentleman, e outro… plebeu, interesseiro, jogo da ralé.
Aqui isto se distingue muito bem e quão ruim é, na realidade, tal distinção! […] O verdadeiro gentle-
man, ainda que perca toda a sua fortuna, não deve denotar emoção. O dinheiro deve ser uma coisa
desprezível para o gentleman, que quase não vale a pena preocupar-se com ele.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. O jogador/Noites brancas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976. p. 69-70.
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THESAURUS
CONTEXTO
Liberais, realistas, socialistas,
anarquistas: república contra
monarquia na Europa
Com o fim do período napoleônico, foi realizado
o Congresso de Viena, que pretendia reorgani-
zar as fronteiras europeias restabelecendo o equi-
líbrio entre as nações. Tinha também o objetivo de
devolver às antigas dinastias o poder que havia
sido destituído durante as guerras napoleônicas.
Desse modo, recolocava-se o absolutismo como
forma de governo na Europa.
Em 26 de setembro de 1815, conforme pro-
posta do czar russo Alexandre I, foi articulado
um tratado de ajuda mútua com o rei Frederico
Guilherme II, da Prússia, e o imperador da Áustria,
Francisco II. Denominado Santa Aliança, o acordo
já havia sido proposto durante o Congresso de
Viena entre 1814 e 1815. Em nome da Santíssima
Trindade cristã (Pai, Filho e Espírito Santo), a
aliança manteria uma vigilância sobre a França e
reprimiria possíveis movimentos revolucionários
ou separatistas. De fato, o acordo entre os mais
importantes soberanos da Europa visava defender
as disposições impostas pelo Congresso de Viena.
Ademais, defendia a política colonialista e com-
batia o liberalismo.
Em 1818, realizou-se o primeiro congresso da
Santa Aliança, que decidiu retirar tropas estabe-
lecidas na França desde a derrota definitiva de
Napoleão (na Batalha de Waterloo, na Bélgica,
em junho de 1815). Em 1823, movimentos con-
trários ao absolutismo monárquico na Espanha
foram derrotados pelas forças militares da Santa
Aliança, fazendo com que Fernando VII fosse entro-
nado como rei absoluto, sem a criação de uma
Constituição. Nos anos que seguiram, a aliança
ficou desmoralizada por não conseguir intervir em
outros movimentos que ocorreriam na Europa nem
nos processos de independência da América do
Sul. Em repúdio à Santa Aliança, os Estados Unidos
divulgaram a Doutrina Monroe, que defendia
“a América para os americanos”, ou seja, negava
qualquer intervenção com intuito de recolonizar
as nações americanas. No entanto, essa doutrina
Membros do Congresso de Viena, Áustria, século XIX
(sem dimensões).
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THESAURUS
que se afirmava protetora das nações da América
acabou por justificar mais tarde a intervenção dos
Estados Unidos em outros países no continente
americano.
Com a derrota de Napoleão, Luís XVIII assumiu
o trono da França, tornando-se evidente a divisão
política entre os realistas, que defendiam o rei,
e os liberais, que defendiam as liberdades indivi-
duais e os direitos constitucionais. Os conflitos
entre esses dois grupos foram uma constante nos
anos que seguiram, tanto na política parlamentar
quanto nos debates da imprensa.
Em 1820, o assassinato do duque de Berry,
sucessor do trono francês, provocou a ira daque-
les que eram conhecidos como ultrarrealistas,
que condenavam os liberais por divulgar ideias
que estimulariam ações como essa. Dessa forma,
foram aprovadas resoluções que restabeleciam a
censura, autorizavam a prisão de suspeitos polí-
ticos e concediam voto duplo aos eleitores mais
ricos. Os liberais se organizaram e realizaram
manifestações públicas contra as medidas que
limitavam as liberdades civis.
A ofensiva antiliberal ganhou fôlego nas eleições
parlamentares de 1820, quando os liberais não tive-
ram bom desempenho. Também a Igreja Católica
foi fortalecida, sendo a ela delegado o controle do
sistema educacional, e qualquer ofensa à autorida-
de eclesiástica passou a ser considerada um delito.
Em 1824 Luís XVIII faleceu e foi sucedido por
seu irmão, o conde de Artois, que ficou conhecido
pelo nome de Carlos X. Partidário do absolutis-
mo em 1789, Carlos X era considerado uma das
figuras mais destacadas da contrarrevolução nos
anos 1790. Após sua posse, adotou medidas que
procuravam proteger a Igreja Católica e também
reprimir qualquer manifestação contra a realeza e
o poder constituído. Conseguiu que o Parlamento
aprovasse uma lei destinando recursos para com-
pensar aqueles cujas propriedades haviam sido
confiscadas pela revolução. Foram restauradas,
ainda, práticas monárquicas anteriores a 1789,
como o ritual de coroação. Os liberais e parte da
população francesa não viam com agrado o forta-
lecimento do poder real aliado ao clero.
Em 1828, após a realização de eleições para
o Parlamento, os liberais conseguiram constituir
maioria, fazendo com o que o rei perdesse sua
base de sustentação. No ano seguinte, o soberano
nomeou um ministério de perfil conservador, haven-
do entre os ministros alguns reconhecidamente
ultrarrealistas. Vários jornais antimonárquicos pas-
saram a atacar o governo, acusando-o de querer
restaurar os privilégios da aristocracia. Em julho
de 1830, Carlos X assinou decretos que impunham
rigorosa censura a jornais e panfletos políticos,
dissolviam a Câmara dos Deputados e convocavam
novas eleições parlamentares com regras que res-
tringiam o corpo de eleitores. O rei pretendia, assim,
contar com o apoio de uma minoria rica para poder
governar com maioria no Parlamento.
Jornalistas e advogados redigiram um mani-
festo que foi publicado nos jornais e distribuído
nas ruas de Paris. Milhares de trabalhadores
saíram às ruas contra os decretos, demonstrando
seu descontentamento em relação aos ultrarrea-
listas e à crise econômica que abalava o campo e
reduzia o número de empregos. Ocorreram vários
conflitos com a polícia e muitos manifestantes
morreram. Entre 27 e 29 de julho de 1830, Carlos X
perdeu o controle sobre a capital dominada pelos
trabalhadores. Lojas foram invadidas, símbolos
reais destruídos, e vários prédios públicos ocupa-
dos. Soldados começaram a desertar e, no dia 29
de julho, toda a cidade havia sido controlada pelos
manifestantes. Estava em curso uma revolução
liberal na França, a Revolução de 1830.
Os liberais propuseram que o rei deixasse
o trono, que deveria ser entregue ao duque de
Orléans, primo de Carlos X. Dessa forma, preten-
diam manter o controle da situação, já que temiam
uma revolta popular. No dia 1
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de agosto, Carlos X
abdicou do trono. Após concordar com a conde-
nação da censura e com reformas que limitassem
o poder real e reestruturassem o Parlamento, o
duque de Orléans foi proclamado rei dos franceses,
em 9 de agosto, sob o nome de Luís Filipe.
A reação francesa a Carlos X acabou por inspirar
outros movimentos na Europa. Foi o que ocorreu na
Bélgica, que, pelo Congresso de Viena, teve sua por-
ção católica anexada à Holanda. Um movimento de
caráter liberal proclamou a independência belga e
estabeleceu um governo de orientação liberal.
Luís Filipe, por sua vez, não defendia ideias libe-
rais nem se afinava com o pensamento burguês,
ainda que tivesse recebido o apoio de banqueiros
e grandes comerciantes ao tomar posse no gover-
no francês. Nos anos que seguiram, a indústria
francesa se desenvolveu e os bancos se expandi-
ram. Com isso, as cidades cresceram com muita
rapidez. Politicamente, contudo, pouco se fez para
expandir o direito de voto, que continuava restrito a
menos de 3% da população, podendo votar apenas
os proprietários adultos do sexo masculino.
Em 1847, os adversários do governo começa-
ram a promover encontros públicos, os banque-
tes, nos quais defendiam a ampliação do direito
de voto e as reformas sociais. Vários banquetes
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O romantismo
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romantismo foi um movimento cultural, literário e musical originário da Alemanha e da
Inglaterra, que ocorreu no final do século XVIII, no contexto das revoluções burguesas
na Europa, da superação do Antigo Regime e da segunda Revolução Industrial. O artista
romântico europeu, incapaz de resolver os conflitos com a sociedade, é lançado à evasão e ao culto
à liberdade, recriando o passado, sobretudo a Idade Média e ambientes exóticos. Esse movimento, que influen-
ciou diversos estilos artísticos subsequentes, expressa ainda a nostalgia do que se acreditava para sempre perdido
e o desejo do que se sabia irrealizável. Ainda: na tentativa de simbolizar os novos tempos que se anunciavam,
o romantismo procurou opor-se aos temas clássicos e universais da literatura e da arte em geral para deter-se
no elemento local. Assim, valorizou a nação, os heróis, o culto à língua nativa, o retorno às origens e o folclore.
Na Alemanha, Goethe (1749-1832) tornou-se o autor romântico de maior relevo ao publicar, em 1774, o livro
Werther. Na Inglaterra, destacaram-se Lord Byron (1788-1824) e Walter Scott (1771-1832), com seus romances
históricos evocando a Idade Média; na França, Honoré de Balzac (1799-1850) e Stendhal (1783-1842). Na pintu-
ra, destacaram-se o francês Eugène Delacroix (veja obra abaixo) e o inglês John Constable (1776-1837), entre
outros artistas. Na música, foram importantes o polonês Frédéric Chopin (1810-1849), o italiano Gioacchino
Rossini (1792-1868) e o húngaro Franz Lizt (1811-1866).
Museu do Louvre, Paris, França/The Bridgeman/Keystone
A liberdade guiando o povo é o nome desta alegoria do francês Eugène Delacroix (1798-1863), pintada em 1830. O autor exalta a
liberdade na figura de uma mulher que empunha uma bandeira com as três cores da Revolução Francesa (1789). A mulher ainda
traz na cabeça o barrete frígio, que era o gorro republicano. A liberdade representada por Delacroix é uma entidade superior que
guia o povo contra as restrições impostas pela realeza, como censura à imprensa e ao menor número de eleitores. Algumas vezes
interpretado equivocadamente como a representação da Revolução Francesa, o quadro foi realizado para o levante de julho de
1830, do qual o artista participou. Óleo sobre tela, 260 cm × 235 cm.
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gidas pela nova economia, onde permaneciam como
relíquias) teria de ser abolida, como era inevitável que
a Grã-Bretanha não poderia para sempre permanecer
o único país industrializado. Era inevitável que as
aristocracias proprietárias de terras e as monarquias
absolutas perderiam força em todos os países em
que uma forte burguesia estava se desenvolvendo,
quaisquer que fossem as fórmulas ou acordos polí-
ticos que encontrassem para conservar sua situação
econômica, sua influência e sua força política. […]
Analisando a década de 1840, é fácil pensar que os
socialistas que previram a iminente crise final do
capitalismo eram sonhadores que confundiam suas
esperanças com suas possibilidades reais. De fato, o
que se seguiu não foi a falência do capitalismo, mas
sim seu mais rápido período de expansão e vitória.
[…] Para a massa do povo comum, o problema era
mais simples. Como já vimos, sua condição nas
grandes cidades e nos distritos fabris da Europa
Ocidental e Central empurrava-os inevitavelmente
em direção a uma revolução social. Seu ódio aos
ricos e aos nobres daquele mundo amargo em que
viviam, e seus sonhos com um mundo novo e melhor
deram a seu desespero um propósito, embora so-
mente alguns deles, principalmente na Grã-Bretanha
e na França, tivessem consciência deste significado.
HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções (1789-1848). 9. ed.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994. p. 327-8.
CHAMPIN, Jean-Jacques. Visão da Praça da Bastilha e a barri-
cada do Faubourg Saint-Antoine em 25 de junho de 1848, 1848.
Óleo sobre tela. (sem dimensões).
ocorreram no país até que, em janeiro de 1848,
o governo monárquico proibiu sua realização,
temendo a mobilização popular. Entretanto, desa-
catando essa ordem, a oposição realizou um novo
banquete. O rei, então, ordenou que os rebeldes
fossem reprimidos pela Guarda Nacional, mas
grande parte de seus membros declarou apoio
às reformas. Luís Filipe tentou, ainda, formar um
novo ministério para acalmar os ânimos, mas
não conseguiu reverter a situação, pois entre os
dias 23 e 24 de fevereiro as ruas de Paris foram
tomadas por barricadas e manifestantes que
enfrentavam as forças legais. Ainda no dia 24 de
fevereiro, a multidão chegou a invadir o palácio
real, o que culminou na abdicação do rei e na
proclamação da Segunda República na França.
A revolta popular ganhou fôlego em Paris com a
maciça presença de trabalhadores que protesta-
vam contra o desemprego, os baixos salários e as
más condições de vida da população pobre.
O historiador Eric Hobsbawm assim explica a
origem dos conflitos de 1848:
O mundo da década de 1840 se achava fora de equi-
líbrio. As forças de mudança econômica, técnica e
social desencadeadas nos últimos 50 anos não ti-
nham paralelo, eram irresistíveis mesmo para o mais
superficial dos observadores. Por exemplo, era inevi-
tável que, mais cedo ou mais tarde, a escravidão ou a
servidão (exceto nas remotas regiões ainda não atin-
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Neste cartaz parisiense, datado da metade do século XIX, são
retratadas as barricadas populares, em fevereiro de 1848,
quando uma nova república foi fundada na França.
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Com a queda de Luís Filipe e a proclamação da
república, formou-se um governo provisório que:

ampliou o direito de voto a todos os adultos do
sexo masculino;

reduziu a jornada de trabalho para 10 horas
diárias;

eliminou a censura.
Esse governo foi composto de republicanos
moderados e socialistas (entre estes últimos esta-
va Louis Blanc, socialista que ficou muito conhe-
cido por defender a criação de associações pro-
fissionais de trabalhadores de um mesmo ramo de
produção). Os socialistas diferiam dos moderados
principalmente por não descartarem a violência
política para conseguir as reformas sociais que
julgavam fundamentais.
Maurice Agulhon define, assim, os grupos que
integravam o governo provisório:
Os dois socialistas – Louis Blanc, teórico, e Albert,
operário – assumiam a posição mais avançada e
eram também os mais jovens. […] Blanc e Albert
não tinham pastas ministeriais, mas dispunham,
pelo menos nos primeiros tempos, de outro tipo de
poder – a confiança das massas. […]
No outro extremo encontravam-se os republica-
nos liberais, grupo relativamente homogêneo. […]
Opunham-se claramente ao socialismo, decididos a
nada sacrificar dos valores da ordem, da propriedade
e do que então se considerava a ortodoxia econômica.
AGULHON, Maurice. 1848: o aprendizado da República.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. p. 45.
Em abril de 1848 foi eleita uma Assembleia
Constituinte que redigiria uma nova Constituição
para a França. Os republicanos moderados obtiveram
a maioria das cadeiras, ao passo que a esquer-
da socialista tornou-se minoritária. Enquanto os
socialistas tinham votação expressiva em centros
urbanos como Paris, os moderados tinham grande
adesão nas áreas rurais e nas cidades menores.
Desde que a república havia sido novamente
proclamada, o direito de liberdade de expressão
foi restituído à população, sendo restaurados os
clubes políticos que estavam fechados desde 1835.
Isso fez com que as mobilizações operárias e os
grupos políticos organizados saíssem constante-
mente às ruas em protesto. É nesse contexto que
tem início o que se denominou como Primavera
dos Povos, um conjunto de movimentos revolu-
cionários nacionalistas que se estenderam pela
Europa. O historiador Eric Hobsbawm considera
que nesse momento histórico havia um “sentido
inicial de libertação, de imensa esperança e con-
fusão otimista” (HOBSBAWM, Eric. A era do capi-
tal. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 33).
No governo provisório francês, os conflitos
eram constantes, pois governavam, juntos, os
socialistas defensores de reformas radicais e
os republicanos aliados da burguesia industrial.
Mesmo assim, conseguiu-se criar as Oficinas
Nacionais, que deveriam estimular a formação de
cooperativas de trabalhadores conforme a pro-
posta dos socialistas. No entanto, organizaram-
-se brigadas de trabalho que não respeitavam as
especialidades dos artesãos. Em muitos casos,
estes acabavam trabalhando em obras públicas.
Isso provocou o descontentamento de vários
trabalhadores, que também não concordavam
com os baixos salários. As oficinas sofriam seve-
ra crítica dos políticos mais conservadores e
eram consideradas excessivamente dispendiosas
e pouco produtivas. Sob a pressão desses gru-
pos, a Assembleia Nacional elaborou um plano
de redução gradual das oficinas. Muitos operá-
rios começariam a deixar de receber o chamado
abono público em recompensa por serviços pres-
tados. Em seguida, definiu-se que trabalhadores
jovens empregados nas oficinas deveriam servir
o exército por dois anos.
Tal fato provocou a intensificação dos pro-
testos, pois os trabalhadores, além de não verem
saída para o desemprego, eram forçados a servir
o exército. Novamente as barricadas tomaram
conta de Paris, mas dessa vez se tratava de um
levante da classe operária, influenciada pelas
ideias anarquistas e socialistas, em defesa de
melhores condições de vida e pela igualdade.
Nesse momento, o movimento operário já mostra-
va capacidade de organização e luta, fazendo a
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Representação em gravura da Barricada no Boulevard Montemartre, em Paris, na
visão de um contemporâneo, 1848.
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crítica do liberalismo e do próprio sistema capita-
lista. Maurice Agulhon mais uma vez afirma:
A revolta operária então iniciada, que entraria para
a história com o nome de Jornadas de Junho, teve
como traço mais evidente a espontaneidade. […] A
motivação social era bem concreta: os operários,
que, devido à crise, estavam desempregados e
viviam de abono público, entraram em desespero
quando o abono foi suspenso. […] O movimento
praticamente não teve dirigentes políticos. […] As
Jornadas de Junho representaram na história da
França a batalha de classes em estado puro – de
um modo que nunca tivera antes paralelo, nem
teve depois, até o momento. […]
AGULHON, op. cit., p. 74.
O levante de junho foi fortemente reprimi-
do e controlado. Nesse contexto, a Assembleia
Constituinte começou a esboçar uma reação con-
servadora, vendo nas rebeliões populares excesso
de liberdade. Os socialistas foram acusados de
incitar a revolta e Albert, operário que havia com-
posto inicialmente o governo provisório, foi preso.
Já Louis Blanc teve de deixar o país.
Não foi apenas na França que eclodiram movi-
mentos contestatórios da ordem em 1848. Isso
também ocorreu na Baviera (no sudoeste ale-
mão), em Berlim, em Viena e em Milão. Em Viena,
os liberais exigiam o fim do absolutismo, defen-
diam a elaboração de uma Constituição, a liber-
dade de imprensa e o fim da servidão. Estudantes
e trabalhadores saíram às ruas e lutaram contra
o governo do Império Habsburgo. Tanto em Milão
como em Veneza, o povo lutou pelo fim da ocupa-
ção austríaca da região e fundou uma república
em Veneza. No entanto, também nesses lugares
tais movimentos foram derrotados, sendo restau-
rados os antigos governos.
No caso francês, em 1848, organizou-se um
governo republicano e uma nova Constituição
foi elaborada. Em dezembro desse ano ocorre-
ram eleições presidenciais com sufrágio uni-
versal masculino. Luís Napoleão, príncipe e
sobrinho do ex-imperador Napoleão Bonaparte,
foi eleito presidente da República com a esma-
gadora maioria dos votos: 5,4 milhões de votos
em 7,4 milhões.
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Em maio do ano seguinte ocorreram as elei-
ções para a Assembleia Legislativa. Dessa vez,
a esquerda republicana e os socialistas levaram
vantagem, dificultando a Luís Bonaparte aprovar
os projetos de seu interesse. Acusando a esquer-
da de atentar contra o governo, Luís Bonaparte
iniciou um processo de perseguição política a
seus líderes. Os jornais foram fechados e a ativi-
dade dos clubes políticos foi limitada. Os bares, as
festas e todas as reuniões passaram a ser contro-
lados pelo governo, não sendo admitida nenhuma
espécie de organização que pudesse ser conside-
rada conspiratória.
Em 1850, Luís Bonaparte conseguiu, com apoio
dos conservadores na Assembleia, que fosse
aprovada uma lei que limitava o direito de voto,
restringindo-o à população que pagava impostos,
que não tivesse registro criminal e residisse por
três anos, pelo menos, no mesmo local. Com isso,
reduziu-se para um terço da população o número
de votantes e afastou-se principalmente a classe
trabalhadora dos pleitos.
Em fins de 1851, Luís Bonaparte colocou em
prática um golpe de Estado que dissolveu a
Assembleia com a qual estava em constante con-
flito. Ao defender o restabelecimento do sufrágio
universal, culpou a Assembleia por recusar tal
medida, decretando, então, sua dissolução e a
organização de um plebiscito que o recolocou
como chefe da nação. O golpe de Estado permi-
tiu que Luís Bonaparte continuasse a governar
após o término de seu mandato formal. Uma nova
Constituição foi redigida, e ele se tornou impera-
dor do Segundo Império francês sob o título de
Napoleão III após a realização de um plebiscito
que ratificou essa decisão em 1852.
Napoleão III governou a França até 1870, quan-
do foi derrotado, na Guerra Franco-Prussiana,
na Batalha de Sedan. O governo imperial foi der-
rubado, e Napoleão III tornou-se prisioneiro dos
inimigos. Iniciou-se, então, a Terceira República
francesa, que provisoriamente seria governada
por Adolf Thiers (burguês republicano).
Esse governo provisório foi rejeitado pela popu-
lação de Paris. Os trabalhadores se rebelaram e
organizaram a Comuna de Paris. Incluindo anar-
quistas, republicanos extremistas, comunistas e
socialistas, a comuna assumiu o poder. Eleita por
voto popular, foi a primeira experiência mundial de
um governo socialista. Os comunardos (adeptos
da comuna) deveriam votar o orçamento comunal,
fixar e distribuir os impostos, organizar a magis-
tratura, a política e o ensino. Instaurado o governo
revolucionário em 18 de março de 1870, fez-se do
Hotel de Ville sua sede política. Conforme a histo-
riadora Maria Stella Bresciani:
Em seu programa, os communards definem uma
linha de atuação política que supera em muito
a genérica busca de abundância e da felicidade.
A questão social encontrou momentaneamente
sua forma política – a república formada pela livre
associação das Comunas federadas.
BRESCIANI, Maria Stella. Londres e Paris no século XIX: o
espetáculo da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 121.
Entre as medidas tomadas pelo governo revo-
lucionário da comuna estavam: a supressão do
exército permanente substituído por milícias com-
postas de cidadãos; a criação de um poder arbi-
tral para determinar os salários de cada setor da
economia; a implementação de uma educação
gratuita, obrigatória e laica; a moratória de dívi-
das dos cidadãos; a adoção da bandeira vermelha;
e a prisão de membros da Igreja, que se separou
do Estado. Horácio González caracteriza o progra-
ma revolucionário ao afirmar:
[…] Vê-se claramente o traço irreligioso, igualita-
rista, universalista, racionalista, laico, e o apelo à
ciência. O federalismo na organização das unida-
des políticas. A ideia de “propriedade social” no
tratamento das unidades de produção e moradias
abandonadas. Mas sempre cuida-se de garantir
futuras indenizações. Nada se expropria nem se
confisca. O Banco da França foi administrado em
termos tradicionais. A Comuna pegou apenas o
dinheiro que lhe pertencia, enquanto o Banco fazia
transações normais com as sucursais dominadas
por Versalhes. Difícil pensar que não se tenha co-
gitado em fazer do Banco uma propriedade social.
Mas seguramente se impôs o critério, de imediato,
de não desorganizar o crédito, do qual dependia a
guerra e o salário da Guarda Nacional. […]
GONZÁLEZ, Horácio. A Comuna de Paris: os assaltantes
do céu. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 84.
Pode-se considerar que os revolucionários
sofriam influência dos jacobinos dos primeiros
anos da Revolução Francesa. Tanto assim que
acabaram por restaurar o Comitê de Salvação
Pública, que tinha como finalidade tomar providên-
cias que assegurassem o sucesso da revolução e
afastassem os inimigos. Além desses revolucio-
nários, também tiveram papel importante nesse
movimento os herdeiros de François Babeuf
(1760-1797), que já tinham realizado a Conspiração
dos Iguais, em 1796 (ver capítulo 7), e influenciaram
lideranças socialistas como Auguste Blanqui,
cujos seguidores ficaram conhecidos como blan-
quistas. Estes defendiam a igualdade entre os
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ser realidade até hoje; as concubinas passaram
a ter os mesmos direitos das mulheres casadas
e os filhos naturais eram considerados iguais em
direito aos filhos dos casais legítimos. Na França,
foram necessários mais de 20 anos para que se
voltassem a obter estatutos semelhantes; aboliu-
-se a prostituição com a exploração comercial de
criaturas humanas por outras criaturas humanas.
WILLARD, Claude. História e vigência da Comuna
de Paris. In: BOITO Jr. (Org.). A Comuna de Paris na
História. São Paulo: Xamã, 2001. p. 19-20.
A comuna esteve no poder por dois meses, pois
o governo provisório republicano que governava o
restante da França conseguiu vencer militarmen-
te os rebeldes e retomar o controle sobre Paris.
Depois de vários dias de luta, em maio de 1871,
registra-se a morte de mais de vinte mil pessoas
pelo governo provisório, sendo outras dezenas de
milhares presas e deportadas.
GIRARDET, Jules. Louise Michel em Satory, 1871. Óleo sobre
tela. (sem dimensões). Louise Michel (1830-1905), em pé à
esquerda da imagem, foi uma das mulheres que se destacaram
na Comuna de Paris. Atuava nas áreas social e pedagógica,
além de participar das barricadas. Em junho de 1871 foi en-
carcerada no campo de Satory, com vários companheiros, e
depois deportada para Nova Caledônia, um arquipélago situ-
ado na Oceania e colônia da França. Anistiada em 1880, até
o fim de sua vida dedicou-se às atividades revolucionárias e
educacionais. É autora de vários livros, entre eles, A comuna,
publicado em 1898, um relato pessoal da revolução proletária.
seres humanos, a justiça e a liberdade, mas enten-
diam que isso só seria conquistado mediante uma
mobilização política efetiva, uma luta que deve-
ria ser empreendida para conquistar a desejada
igualdade entre as pessoas.
Auguste Blanqui nasceu em 1805, em Puget-Théniers, nos Alpes
franceses. Mudou-se para Paris em 1818, onde estudou Direito. Em
1824 começou a participar dos movimentos políticos que lutavam
contra a dinastia Bourbon no poder. Entre 1831 e 1836 esteve preso
por participar da Sociedade dos Amigos do Povo e defender a mobi-
lização das classes desprivilegiadas como forma de estabelecer um
governo popular. Em 1848 fundou a Sociedade Republicana Central
para pressionar o governo provisório da República a adotar uma
orientação mais próxima do socialismo. Acabou sendo novamente
preso ao ser acusado de liderar as manifestações revolucionárias
populares de maio e junho de 1848, que exigiam mudanças sociais.
Condenado a 10 anos de reclusão, foi libertado somente em 1859.
Em 1865 foi para a Bélgica, após um novo período de prisão. Voltou
para a França em 1870 e foi novamente preso por pregar a insurrei-
ção contra o governo provisório que se instalou após a queda de Luís
Napoleão Bonaparte. As várias prisões acabaram por torná-lo um
líder revolucionário ainda mais importante, um símbolo da luta pela
igualdade que se pretendia conquistar. Faleceu em Paris em 1881.
O ideal igualitário aparece, com clareza, na
Comuna de Paris quando o governo decide que
as fábricas abandonadas por seus patrões seriam
ocupadas por associações de operários. Era o
princípio da autogestão, no qual não haveria
patrões, mas sim trabalhadores que administra-
riam o negócio em condição de igualdade. Os
revolucionários aboliram as fronteiras nacionais,
admitindo como igual todo ser humano que par-
tilhasse dos objetivos da nova sociedade que se
fundava. Assim, vários estrangeiros puderam se
tornar dirigentes da comuna.
É necessário destacar o papel das mulheres
nesse processo revolucionário. O historiador fran-
cês Claude Willard afirma:
Vimos que elas se colocaram à frente da cena […].
Não somente as mulheres eram muito ativas nos
clubes, mas criaram o primeiro movimento femini-
no de massas. A União das Mulheres, dirigida por
uma jovem aristocrata russa de 20 anos, Elizabeth
Dmitrieff […], agiu pela emancipação das mulhe-
res. Os obstáculos eram numerosos: a “falocracia”
milenar […] que pregava a manutenção da mulher
no lar. Imaginem bem, os próprios eleitos da
Comuna eram impregnados pelo machismo […].
Mas é o movimento das mulheres, a ação das mu-
lheres, a democracia direta que levará a Comuna
a constituir uma etapa importante na direção da
emancipação das mulheres. Dou alguns exemplos:
desenvolveu-se a instrução feminina, até então
inexistente, inclusive em áreas técnicas; instituiu-
-se a noção de que “a trabalho igual corresponde
salário igual”. […] Na França isto está longe de
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Museu de Arte e História, Saint-Denis, França/The Bridgeman/Keystone
A unificação italiana
Na Europa, nesses anos de muitos conflitos
entre monarquistas, liberais e socialistas, tam-
bém ocorreu o processo de unificação da Itália,
envolvendo disputas entre esses diferentes gru-
pos sociais e políticos. Conforme John Gooch:
O risorgimento foi basicamente um processo
durante o qual muitas lutas convergiram para
tornar-se uma só luta. Em seu âmago, encon-
tram-se duas forças motivadoras. A primeira foi
a busca de liberdade política dentro da Itália.
Os que lutavam por essa meta, espalhavam-se
por todo um espectro que ia da burguesia, que
só queria reformar e limitar os poderes dos mo-
narcas, até os democratas, como Garibaldi, que
desejavam o envolvimento do povo na política.
A segunda força era a busca da independência
[…]. As facções implicadas em cada uma des-
sas lutas – e, naturalmente, elas muitas vezes
se relacionavam – de modo algum concordavam
a respeito de seus objetivos […]. A história do
risorgimento é o relato de como e por que esses
muitos grupos lutaram […].
GOOCH, John. A unificação da Itália.
São Paulo: Ática, 1991. p. 14.
A região da atual Itália era formada por oito
Estados independentes em 1815. Alguns eram con-
trolados pela Áustria desde o Congresso de Viena e
outros eram governados por reis absolutistas.
O risorgimento reuniu esses Estados em um
único país. Sob a marca de movimentos nacio-
nalistas e com o desejo de se libertar do domínio
estrangeiro, construiu-se o processo de unifica-
ção, que também estava ligado ao desejo da alta
burguesia local e dos republicanos de pôr fim ao
poder absolutista na região. Os burgueses almeja-
vam uma única Itália a fim de expandir seus negó-
cios. Em sua maioria, os grupos que lutavam pela
unificação italiana dividiam-se em duas frentes
políticas: republicanos e monarquistas.
Durante o período napoleônico (até 1815), a
região da Península Itálica esteve sob domínio
francês. Depois disso, as repúblicas criadas por
Napoleão foram substituídas pelas antigas monar-
quias que retornaram ao poder. No entanto, várias
sociedades secretas de orientação republicana
passaram a lutar contra a monarquia. Em uma
dessas sociedades, Filippo Buonarotti queria
libertar a região do domínio austríaco e fundar
uma sociedade comunista. No sul da península os
carbonaris lutavam contra o absolutismo.
Giuseppe Mazzini (1805-1872) foi outro expo-
ente na luta contra a Áustria e contra a aristo-
cracia a partir dos anos 1820. Em 1831 ele fundou
Barricada em Paris durante a Comuna de Paris, 1871.
VOCABULÁRIO
Risorgimento: nome pelo qual ficou conhecido o movi-
mento de unificação da Itália.
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LEGAT, Remigio. Batalha de Calatafimi, 1860. Óleo sobre tela, 121 cm 180 cm. Esta imagem representa Garibaldi e seus soldados na
Batalha de Calatafimi, ocorrida em 1860, na qual derrotaram as forças austríacas iniciando o processo de libertação da região do
domínio Bourbon. Em seguida, Garibaldi vence a Batalha de Palermo e a região é anexada ao Piemonte.
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a Jovem Itália, uma sociedade secreta nacio-
nalista que defendia a criação de uma república
unitária. Contudo seu projeto fracassou, uma vez
que não conseguiu reunir força militar suficiente
para enfrentar as monarquias.
Após 1847, sucederam-se vários levantes revo-
lucionários e revoltas populares na região, com
grande participação dos republicanos. Ocorreram
movimentos rebeldes no Reino das Duas Sicílias,
em Roma (capital dos Estados Pontifícios, ter-
ritórios sob a autoridade papal), no Reino do
Piemonte-Sardenha e na Lombardia, e foram colo-
cadas algumas questões: a expulsão dos austría-
cos, a deposição de governantes absolutistas e a
melhoria das condições de vida de uma população
faminta. Especialmente na Lombardia, iniciou-se
um processo de luta que obrigou o rei a propor uma
nova Constituição na qual passaria a existir um
Poder Legislativo eleito. Abriu-se, então, uma bre-
cha para se começar a questionar o absolutismo.
No Reino de Veneza, assim como na Lombardia
e no Piemonte, a luta contra os austríacos fra-
cassou. Em Roma, sob a liderança de Mazzini e
Giuseppe Garibaldi (1807-1882), proclamou-se
uma república em fevereiro de 1849. O novo gover-
no foi derrotado com o ataque de tropas francesas
e austríacas a Roma. Por fim, também na Sicília, a
nobreza conseguiu retomar o poder, malogrando o
movimento que havia deposto a dinastia Bourbon
e pretendia reformar a Constituição.
Dessa forma, fracassaram as primeiras ten-
tativas para estabelecer repúblicas e expulsar os
austríacos da região. A estratégia de Mazzini de
buscar a revolução política mostrou-se ineficaz.
O processo de unificação italiana só começou a
ganhar corpo com a presença do conde Camilo
Benso di Cavour, primeiro-ministro do Piemonte-
Sardenha, após 1852. Defensor de uma monarquia
constitucional e adversário da república e do socia-
lismo, procurou expandir o Piemonte e fortalecer
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sua economia. Para enfrentar a Áustria, Cavour
buscou estabelecer uma aliança com diversos seto-
res sociais de vários Estados da península a fim de
formar uma força política e militar capaz de derro-
tar o inimigo austríaco. Nesse momento não estava
em questão a forma de governo adotada em cada
um dos Estados. Em 1858, Cavour recebeu o apoio
de Napoleão III, imperador da França. Em abril do
ano seguinte foi iniciada a guerra contra a Áustria.
Os conflitos estimularam a ocorrência de levan-
tes nacionalistas na Península Itálica, que fizeram
Napoleão III recuar e propor a paz. O acordo de paz
estabelecia que parte da Lombardia seria entregue à
França, devendo os antigos governantes de Estados
onde havia ocorrido levantes retomar seus tronos.
Cavour conseguiu, por sua vez, organizar um plebis-
cito que colocaria em questão a possível anexação
da Toscana e da Emília ao Reino do Piemonte. Em
troca, para que houvesse concordância da França,
Nice e Savoia foram anexadas ao território francês.
Na Sicília, Garibaldi liderou a expulsão da
dinastia Bourbon em 1860, sendo seu território
também anexado ao Piemonte. Em seguida, lide-
rou a tomada de Nápoles.
Em 1861, passou a existir o Reino da Itália,
governado por Vítor Emanuel II. Ficaram ainda fora
do novo reino Veneza, dominada pela Áustria, e
Roma, governada pelo papa, mas defendida por
tropas francesas. Em 1866, a Itália lutou ao lado
da Prússia contra os austríacos e recebeu Veneza
como recompensa após a vitória prussiana. Em
1870, com a Guerra Franco-Prussiana, a França
retirou-se de Roma abrindo caminho para que os ita-
lianos ocupassem a região e a anexassem, e Roma
foi transformada em capital da Itália unificada.
A unificação alemã
Nesse período esteve também em curso a uni-
ficação alemã. Depois de 1815 foi formada a
Confederação Alemã, constituída por 38 Estados
independentes que tinham como um dos objetivos
se defender de possíveis ambições imperialistas da
França (antes disso existia o antigo Sacro Império
Romano-Germânico). Entre esses Estados des-
tacavam-se as poderosas Áustria e Prússia, que
divergiam quanto à unificação da região.
O chanceler (espécie de primeiro-ministro) aus-
tríaco Klemens Metternich (1773-1859) foi o ideali-
zador da Confederação. Em 1834, sob a liderança da
Prússia, foi criada a aliança aduaneira Zollverein,
que aboliu as tarifas alfandegárias entre os Estados.
Essa medida foi um passo importante para a uni-
ficação, pois conseguiu criar uma certa unidade
econômica. A Áustria, rival política da Prússia, ficou
fora desse acordo. Por ser uma iniciativa prussiana,
esta assumiu a liderança do processo de unificação.
Após as derrotas dos liberais na Bavária (sudo-
este alemão) e em Berlim, em 1848, ficou evidente
que seria difícil unificar a Alemanha sem uma
vitória militar sobre a Áustria. Com isso, concor-
davam os prussianos, para quem a Áustria era o
maior impedimento na concretização da unifica-
ção. Por esse motivo, o governo prussiano pro-
curou aprovar medidas no Parlamento que refor-
çassem os gastos militares a fim de promover a
guerra contra o inimigo. Recebendo a negativa do
Parlamento, o rei Guilherme I confiou ao chance-
ler da Prússia Otto von Bismarck (1815-1898),
representante da aristocracia junker (proprietá-
rios de terras cultivadas), a tarefa de superar as
dificuldades impostas pelo Parlamento. Para reor-
ganizar o exército, no cargo de primeiro-ministro,
ele criou novos impostos sem a autorização do
Parlamento, censurou a imprensa e mandou pren-
der várias lideranças políticas liberais.
Com o apoio da Áustria, em 1864, Bismarck rea-
lizou uma guerra vitoriosa contra a Dinamarca, que
teve de ceder os ducados de Schleswig e Holstein.
A UNIFICAÇÃO ITALIANA
Com base em ARRUDA, José J. de A.
Atlas histórico básico. São Paulo: Ática, 2000. p. 26.
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* decorrentes da guerra contra a Áustria
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Este seria um marco do processo de unificação,
uma vez que esses ducados haviam sido cedidos
à Dinamarca em 1815 pelo Congresso de Viena,
contrariando prussianos e outros Estados germâ-
nicos. Em seguida, em 1866, iniciou a guerra con-
tra a Áustria, conhecida também como a Guerra
das Sete Semanas. Vitoriosa nos combates, a
Prússia organizou a Confederação Alemã do
Norte, que tinha capital em Berlim. Com isso, a
Áustria foi afastada das decisões políticas germâ-
nicas, sendo a Prússia sua principal liderança.
A vitória prussiana significou um predomínio
conservador e uma derrota dos liberais, pois não
se conseguiu avançar no sentido da construção
de um governo constitucional.
Para completar a unificação dos Estados ale-
mães ainda faltava a Prússia anexar os Estados do
sul. Por ocasião da sucessão do trono espanhol,
criou-se uma situação de impasse com a França ao
ser indicada a candidatura do príncipe Leopoldo de
Hohenzollerm, parente do rei prussiano, para assu-
mir a Coroa da Espanha. Com a recusa da França e
utilizando forte apelo nacionalista, o passo seguin-
te seria a guerra liderada por Bismarck (fora ele
que havia indicado seu parente para ocupar o trono
da Espanha). Para isso o prussiano contava com
o apoio dos Estados do sul da Alemanha contra
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Napoleão III. Esse motivo, no entanto, foi o pretexto
para que Bismarck fizesse frente à posição dúbia
do governo francês, que afirmava não se opor ao
processo de unificação alemã, mas, ao mesmo
tempo, procurava dificultar o processo de integra-
ção do sul da Alemanha na Confederação Alemã.
A Prússia saiu-se vitoriosa na Guerra Franco-
-Prussiana em 1870, conseguindo, assim, anexar
os Estados do sul e ainda fazer com que a França
cedesse as províncias de Alsácia e Lorena para a
Alemanha. Napoleão III foi preso, o que estimulou
forças rebeldes a organizarem a Comuna de Paris.
Com isso, completou-se a unificação alemã,
sendo Guilherme I da Prússia transformado em
imperador (kaiser) do II Reich Alemão (Segundo
Império Alemão) – já que o primeiro havia sido o
Sacro Império Romano-Germânico, que sobreviveu
à grande parte da Idade Média. Sob a liderança do
primeiro-ministro Bismarck, os minérios da região
da Alsácia-Lorena foram utilizados para acelerar o
processo de industrialização e, assim, a Alemanha
fortaleceu-se muito economicamente, conseguin-
do, em pouco tempo, se transformar em uma das
mais importantes forças econômicas e políticas da
Europa. Bismarck ainda criou um banco central,
unificou a moeda, promulgou um código civil e ins-
tituiu um sistema de previdência social.
UNIFICAÇÃO ALEMÃ
Com base em ARRUDA, José J. de A. Atlas histórico básico. São Paulo: Ática, 2000. p. 26.
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PONTO DE VISTA
Londres e Paris no século XIX: os trabalhadores e a miséria
Maria Stella Bresciani
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ara o francês da época, praticamente inexiste diferença entre homem trabalhador, pobre e
criminoso. Na verdade, constituem níveis de uma mesma degradada condição humana, a do
trabalhador dos grandes centros urbanos. A exposição pública do trabalho e da pobreza com-
põe no social uma dimensão assustadora da realidade. Nas palavras de Considerant, é o espetáculo
de “legiões de operários vivendo o dia a dia com um salário inseguro, constrangidos, além disso, pela
dureza de um trabalho repugnante” (Chevalier, 235). Também Louis Blanc é pessimista quanto às
incertezas do mercado de trabalho regido pela concorrência, que considera um regime de extermínio
do povo. A certeza de se estar vivendo um tempo particular, determinado por transformações de
alcance total imprevisível, está presente nesse conselho de um contemporâneo: “Olhe Paris como
observador e meça a lama deste esgoto do mundo, as raças selvagens entre essa população tão ativa,
tão espiritual, tão bem vestida, tão polida, e o assombro tomará conta de você” (Chevalier, 235).
É sempre a apreciação crítica da pobreza proletária londrina e de suas más consequências para a vida
da cidade o argumento mais utilizado pelos franceses quando elaboram em projeção as futuras condições
de vida em Paris. O argumento central consiste em se estabelecer um vínculo solidário entre cidade,
pobreza e criminalidade. No final da década de 1830, Gerando, embora considere os centros urbanos
lugares privilegiados, tanto para o equilíbrio entre as classes rica e pobre, dada a existência de uma classe
média, quanto para a proteção institucional dos fracos, reconhece ser nas cidades também o lugar onde a
miséria mais abundante e hedionda encontra ambiente favorável para se desenvolver. Às perguntas: “não
é o veneno corruptor das cidades que por sua ação deletéria apaga entre milhares de desgraçados as forças
físicas e morais? E não é lá que reinam afrontosamente a prostituição e o jogo?”, ele responde com as evi-
dências londrinas: “Vejam essa Londres, com seus 11 800 gatunos e receptadores, suas 75 000 prostitutas,
seus 16 000 mendigos, seus 20 000 indivíduos sem meios de subsistência…” (Chevalier, 250).
Por essa mesma época, Flora Tristan [liderança feminista e operária que viveu entre 1803 e 1844 na
França] não hesita em trocar o título do seu livro de Passeio a Londres por A cidade monstro, e Buret,
participando do concurso da Academia de Ciências Morais sobre o tema da pobreza, vai mais longe
e associa, de forma explícita, aos centros comerciais e industriais, a miséria, a barbárie e o crime, mas
também os perigos políticos. Os contornos do mundo urbano, habilmente desenhados por ele, se
apresentam saturados por múltiplos sinais negativos: “Na Inglaterra e na França encontram-se, lado
a lado, a extrema opulência e a extrema privação. Populações inteiras, como a da Irlanda, reduzidas
à agonia da fome; no centro mesmo dos núcleos mais ativos da indústria e do comércio se veem
milhares de seres humanos levados pelo vício e pela miséria ao estado de barbárie”. Com ele, a figura
literária dos bárbaros da civilização se desfaz. A barbárie não comporta nenhum traço de simpatia
complacente. Trata-se de uma ameaça social:
“A humanidade se vê afligida desse mal que ela apenas entrevê, pois estamos longe de conhecê-lo
em toda a sua extensão; os governos se inquietam com razão; eles temem que, no seio dessas popu-
lações degradadas e corrompidas, explodam um dia perigos inabarcáveis”.
Essa imagem pessimista se impõe, porque, como muitos dos seus contemporâneos, Buret estabe-
lece uma diferença fundamental entre a pobreza, que só atinge o homem fisicamente, e a miséria, que
atinge também sua alma. Sendo um “fenômeno de civilização”, a miséria “supõe no homem o des-
pertar e mesmo um desenvolvimento avançado da consciência”. Por ser parte componente do mundo
civilizado, sua tendência é crescer. E na expansão radica sua ameaça maior, pois, no seu entender, “à
medida que atinge as partes esclarecidas da classe trabalhadora, esta se torna mais inquieta e menos
resignada: já raciocina e persegue suas causas através de uma investigação apaixonada. As classes
pobres, adverte ele, já têm seus teóricos que pretendem ter encontrado nas instituições políticas a
causa dos sofrimentos do povo: que os governos se ponham em guarda!” (Chevalier, 257).
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1. De que maneira os autores citados no texto descrevem os trabalhadores e os pobres de Londres e Paris?
2. O que imaginavam que poderia ocorrer no futuro se as sociedades continuassem a se organizar
dessa forma?
3. As preocupações indicadas pelos autores do século XIX são válidas para a realidade em que você
vive? Explique.
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TRABALHANDO COM MAPAS
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[…] Observações plausíveis para um crítico da “civilização industrial” como Louis Blanc, quan-
do, em 1839, ele vê Paris tomada de emoção, com grupos de trabalhadores reunidos em diversas
partes da cidade, controlados de perto por destacamentos de cavalaria – “que esperamos? Será que
a epopeia da indústria moderna ainda tem mais algum lúgubre episódio para nos apresentar?” –,
constituem também presença marcante nos textos literários. Balzac se indaga sobre a atitude possível
de homens aos quais a sociedade nega a satisfação de suas necessidades primárias, e pergunta: “Terá
a política previsto que, no dia em que a massa dos miseráveis estiver mais forte do que aquela dos
ricos, a sociedade será organizada de uma maneira totalmente diferente? A Inglaterra, neste momen-
to, encontra-se ameaçada por uma revolução desse tipo”.
BRESCIANI, Maria Stella. Paris e Londres no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 51-5.
O CONGRESSO DE VIENA – 1815
Com base em DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 86.
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ROTEIRO DE TRABALHO
Observe os dois mapas e compare o que mudou nas fronteiras dos países europeus entre 1815 e
1914. Em seu caderno, mencione pelo menos dois motivos que justifiquem essas mudanças.
INTERDISCIPLINARIDADE
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s avanços no conhecimento científico podem ter desdobramentos que afetam costumes já
consagrados. Um exemplo disso é o aumento das preocupações quanto à salubridade dos
espaços públicos na Europa durante o século XVIII, com base no estabelecimento de novas
teorias científicas para explicar questões relativas à saúde.
A repercussão desse movimento no Brasil afetou, entre outras coisas, os costumes fúnebres vigentes.
Era comum, até o século XIX, enterrar os mortos da nobreza rural e da burguesia urbana nas igrejas, nos
conventos e nas capelas particulares. O cadáver era conduzido em um caixão, envolto em uma mortalha
e sepultado sem o caixão, diretamente em catacumbas dentro das igrejas. As paredes dessas sepulturas
não ofereciam uma vedação completa, deixando passar o mau cheiro decorrente da decomposição,
que chegava a comprometer a permanência das pessoas nos templos. Durante as epidemias, quando
o número de mortos era maior, sepultavam-se dois corpos em uma mesma catacumba ou retiravam-se
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A EUROPA DE 1914 A 1918
Com base em ARRUDA, José J. de A. Atlas histórico básico. São Paulo: Ática, 2000. p. 27.
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Eos corpos antes que passasse o tempo necessário para a decomposição do cadáver, a fim de reutilizar
a sepultura. Não havia, também, um prazo determinado para o sepultamento, sendo comum que os
cadáveres entrassem em avançado estado de decomposição antes de serem sepultados.
Na época, a medicina considerava que a principal fonte de contágio de doenças eram os mias-
mas – gases ou vapores pútridos, possivelmente originados da decomposição da matéria orgânica
– que infectavam o ar, causando doenças naqueles que os respiravam. A terra era considerada um
centro de fermentação e putrefação, o que fazia com que os materiais em decomposição voltassem
ao ambiente, com o tempo, em forma de miasmas. Os odores pútridos também tinham origem nas
águas paradas, nos detritos espalhados pelas ruas, nos animais mortos encontrados nas beiras dos
rios, nos matadouros e nas sarjetas. Dessa forma, o ar era considerado o principal propagador das
doenças e o mau cheiro era uma ameaça.
Os sanitaristas (especialistas em saúde pública) brasileiros conseguiram desencadear um movi-
mento de vigília constante da população para qualquer evidência da presença de emanações maléfi-
cas, alertando quanto aos perigos dos miasmas, recomendando o isolamento de mortos e moribun-
dos e descrevendo os perigos da insalubridade de matadouros, peixarias, hospitais, prisões e, sem
dúvida, cemitérios e igrejas.
A proibição de se enterrar dentro das igrejas surgiu por determinação de dona Maria I, rainha de
Portugal, por volta de 1810. O principal motivo da proibição era a preocupação com a saúde públi-
ca. A promulgação da legislação que modificava o costume de enterrar os mortos nas igrejas gerou
protestos. Em 1836, na cidade de Salvador, Bahia, ocorreu uma revolta que ficou conhecida como
Cemiterada. Munida de machados, alavancas, pás e picaretas, uma multidão destruiu um cemitério
local, exigindo a anulação da lei que proibia os enterros nas igrejas.
Mesmo lentamente, os sepultamentos em igrejas e capelas foram deixando de acontecer e a adoção de
cemitérios fora das igrejas, com seu consequente deslocamento para regiões afastadas das áreas urbanas,
tornaram-se mais comuns. Além disso, medidas preventivas já adotadas na Europa alcançaram os cemité-
rios brasileiros: cal, água com cloro ou outras substâncias corrosivas passaram a ser usadas no combate ao
mau cheiro dos cadáveres, além de acelerar a decomposição dos corpos, evitando assim a contaminação.
Havia um cuidado especial com a localização dos cemitérios, que deveriam situar-se a pelo menos
trezentos metros de áreas urbanas, em terrenos elevados, que permitiam melhor ventilação, e longe
dos lençóis freáticos.
O transporte dos cadáveres deveria ocorrer em veículos apropriados para isso, evitando-se a uti-
lização de carros particulares. As covas deveriam ter espaçamento e profundidade determinados. O
cercamento dos cemitérios deveria ser feito por muros de no mínimo dois metros de altura e vege-
tação, a fim de purificar o ar.
A construção de cemitérios públicos no século XIX foi uma inovação urbana, consequência direta
da insalubridade das cidades e das teorias científicas vigentes. A individualização do cadáver, do
caixão e do túmulo surge não por razões religiosas ou por respeito ao morto, mas por uma questão
político-sanitária de preocupação com os vivos.
O saber científico alterou a topografia da cidade, eliminando ou afastando construções ameaçadoras,
modificando costumes e produzindo nas pessoas o sentimento de que a convivência com o mundo dos
mortos constituía uma ameaça real à saúde. Tudo isso ilustra a influência da ciência na alteração de costumes.
1. É importante levar em conta que a teoria dos miasmas foi desenvolvida em uma época em que
os microrganismos ainda eram desconhecidos pela ciência. Reveja os conhecimentos já adquiri-
dos a respeito de vírus e bactérias e apresente a explicação científica aceita atualmente para a
transmissão de doenças “pelo ar”, como a tuberculose ou a meningite.
2. Procure descrever alguns costumes de seu dia a dia que sejam afetados pelo saber científico.
Pense em aspectos como alimentação, segurança, hábitos de higiene etc.
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RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

Para escolher a alternativa correta nas ques-
tões 1 e 3, analise cada uma das afirmações
atentamente. Ao verificar que uma delas está
correta ou incorreta, verifique quais alterna-
tivas já podem ser eliminadas mesmo sem ter
lido as demais.

Na questão 5, leia atentamente o texto presente
no enunciado e, depois, verifique em que medida
ele foi necessário para que você chegasse à
resposta correta.
1. (UEL-PR) Sobre a unificação da Itália (1870) e da
Alemanha (1871), analise as afirmativas abaixo:
I. Os movimentos liberais, que nesses países
assumiram um aspecto fortemente nacionalis-
ta, tiveram importante participação no processo
de unificação.
II. A ausência de guerras ou revoltas marcou a
unificação italiana e alemã.
III. O processo de unificação acelerou o desen-
volvimento do capitalismo na Alemanha e na
Itália, o que resultou em disputas que desem-
bocaram na Primeira Guerra Mundial.
Assinale a alternativa correta.
a) Apenas a afirmativa II é verdadeira.
b) Apenas a afirmativa III é verdadeira.
c) Apenas as afirmativas I e II são verdadeiras.
d) Apenas as afirmativas I e III são verdadeiras.
e) Apenas as afirmativas II e III são verdadeiras.
2. (Uerj-RJ) Em 1860, um contemporâneo da unifi-
cação da Itália afirmou:
Fizemos a Itália; agora precisamos fazer os italianos.
(D’AZEGLIO, Massimo (1792-1866). In: HOBSBAWM, E.
A era do capital: 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.)
Essa frase traduz uma particularidade da cons-
trução da unidade italiana, que é identificada na:
a) divergência entre nacionalismo e nação-
-Estado.
b) fusão entre nacionalismo de massa e patrio-
tismo.
c) adoção da língua italiana no dia a dia da
população.
d) união entre os interesses dos partidários da
Igreja e da República.
3. (UFRS-RS) Considere as seguintes afirmações
sobre a Comuna de Paris.
I. Ocorreu como desdobramento imediato da
crise provocada pela queda de Napoleão III
e a consumação da derrota francesa ante a
Prússia em 1871.
II. Apresentou importantes medidas de cunho
popular-progressista, visando dissolver o
exército permanente, separar a Igreja do
Estado, instituir o ensino gratuito e entregar
as fábricas à direção dos trabalhadores.
III. Constituiu o exemplo histórico europeu mais
bem-sucedido, no século XIX, de conquista
do poder pela burguesia liberal.
Quais estão corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas III.
d) Apenas I e II.
e) Apenas I e III.
4. (UnB-DF) Liberalismo, imperialismo e socialismo
representam alguns dos mais significativos em-
blemas do século XIX. A esse respeito, julgue os
itens que se seguem.
( 1 ) Ideologicamente sustentado pelo liberalis-
mo, desenvolveu-se o capitalismo de base
industrial, associado, portanto, à expansão
imperial.
( 2 ) Embora enfatizando a competição como
definidora das leis do mercado, o liberalis-
mo defendia a intervenção do Estado na
economia.
( 3 ) Na Alemanha, a unificação política foi pre-
cedida pela unificação econômica; a união
aduaneira estimulou o comércio interno, a
produção industrial e as comunicações.
( 4 ) O Manifesto Comunista de 1848, publicado
no calor da onda revolucionária, expressava
o desenvolvimento de uma nova visão – o
socialismo –, que se opunha à vitoriosa
ordem burguesa.
5. (UFU-MG)
No início de 1848, o eminente pensador político
francês Alexis de Tocqueville tomou a tribuna da
Câmara dos Deputados para expressar sentimen-
tos que muitos europeus partilhavam: “Nós dor-
mimos sobre um vulcão… Os senhores não per-
ceberam que a terra treme mais uma vez? Sopra
o vento das revoluções, a tempestade está no
horizonte”. 1848 foi a primeira revolução poten-
cialmente global […] foi a única a afetar tanto
as partes desenvolvidas quanto as atrasadas do
continente. Foi ao mesmo tempo a mais ampla e a
menos sucedida desse tipo de revolução.
(HOBSBAWM, Eric. A era do capital: 1848-1875. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1988.)
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A respeito deste contexto histórico, marcado
pela chamada “Primavera dos Povos”, podemos
afirmar que:
I. Na França, as barricadas foram empreendidas
pelos camponeses, influenciados pelos ideais
nacionalistas, e estas promoveram, após a
tomada do poder pelos rebeldes e a restau-
ração da monarquia, o enfraquecimento do
liberalismo burguês e a democracia represen-
tativa em nome da democracia direta.
II. A crise econômica que assolava a Europa,
agravada por pragas e pela seca, prejudicou
os camponeses, levando-os às ruas em apoio
às novas ideologias baseadas nas ideias
socialistas, divulgadas com a publicação
do Manifesto Comunista de Karl Marx e
Friedrich Engels em 1848.
III. As revoltas de 1848, embora tivessem se
alastrado pela Europa, não tiveram reper-
cussão no Brasil. Em função do seu caráter
fragmentado e das disputas internas entre
nacionalistas e liberais, dificultaram os pro-
cessos de Unificações da Itália e Alemanha.
IV. As diferentes ondas revolucionárias da
Primavera dos Povos tiveram em comum o
espírito romântico, a construção de barrica-
das, as bandeiras coloridas e o ideal de liber-
dade, pondo em xeque o poder e a tradição
aristocrática europeia.
Assinale a alternativa correta.
a) Apenas I e II são corretas.
b) Apenas II e IV são corretas.
c) Apenas III e IV são corretas.
d) Apenas I e III são corretas.
MARTINEZ, Paulo. A teoria das elites. São Paulo: Scipione, 1997.
Aborda o surgimento do título “elite”, criado como autodesignação pelos burgueses do século XIX, que se considera-
vam os mais aptos para dirigir a sociedade.
Zola, Émile. Germinal. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
Edição reduzida da obra, com cortes de muitos trechos, tornando a leitura bastante acessível ao público juvenil. Faz
referências às condições de vida na França do século XIX e aos movimentos sociais organizados que lutavam por
mudanças.
O discreto charme da burguesia. Direção de Luis Buñuel. França/Itália/Espanha, 1972. (100 min).
O cineasta surrealista Luis Buñuel critica, neste filme, os valores da sociedade burguesa de forma hilariante, mas
também voraz.
O Leopardo. Direção de Luchino Visconti. Itália, 1963. (205 min).
O filme, adaptação do livro de Lampedusa, se passa um pouco antes da unificação italiana. Visconti, descendente de
uma nobre família siciliana, imortalizou a frase “é preciso mudar para que as coisas continuem as mesmas” nesta obra,
referindo-se ao período no qual a burguesia tomava o lugar privilegiado da aristocracia.
Musée d’Orsay. Disponível em: <www.musee-orsay.fr/>. Acesso em: 14 abr. 2013.
O Musée d’Orsay localiza-se em uma antiga estação de trem de Paris. Sua coleção conta com obras datadas de 1848
a 1914, de autoria dos principais artistas do realismo, do impressionismo e do neoimpressionismo. O site pode ser
visitado em francês, inglês ou espanhol.
Museu de Artes de São Paulo (Masp). Disponível em: <www.masp.art.br/>. Acesso em: 14 abr. 2013.
Disponibiliza a visualização de parte de suas obras, entre as quais algumas de artistas como Manet, Monet, Delacroix,
Degas, Cézanne e Renoir.
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A crítica ao capitalismo e o
caminho para o socialismo
CAPÍTULO 7
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século XIX não só foi um período de afirmação da sociedade burguesa e das
ideias liberais na Europa, como também um período de crítica a essa socie-
dade. Operários organizaram associações e sindicatos que contestavam a
exploração e reivindicavam melhores condições de trabalho. Nesse contexto, foram
criadas teorias de organização da vida econômica e social que defendiam a igualdade
e propunham a derrubada do sistema capitalista. Dentre essas novas teorias estão o
anarquismo e o socialismo, que, como veremos neste capítulo, tiveram a adesão de
vários grupos sociais interessados na transformação da realidade. Ao longo do século
XX, países como a extinta União Soviética (URSS), China e Cuba fizeram revoluções
socialistas que se contrapuseram à ordem capitalista. Dando continuidade aos temas
da unidade, vamos estudar o que propunham os críticos do capitalismo dos séculos
XIX e XX e quais foram os resultados concretos das mudanças efetivadas.
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Na página anterior, rebeldes entrincheirados em Wuchang, China, durante a Revolução Chinesa. No alto, soldados bolcheviques mar-
cham pelas ruas de Moscou, Rússia, em 1917. Acima, Fidel Castro é recebido por uma multidão em Havana, Cuba, em janeiro de 1959,
marcando o triunfo da Revolução Cubana. Nesses países ocorreram as três mais importantes revoluções socialistas do século XX.
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LINHA DO TEMPO
1825 ¬ Robert Owen funda a comunidade de Nova Harmonia, em uma propriedade no
estado de Indiana, Estados Unidos da América. Morte de Saint-Simon.
1837 ¬ Morte de Charles Fourier.
1838 ¬ Publicação da Carta ao povo, na Inglaterra, que deu o nome ao movimento
cartista.
1848 ¬ Marx e Engels publicam o Manifesto do Partido Comunista, marco inicial do
“socialismo científico”. Eclosão de movimentos revolucionários em diversos
países da Europa Ocidental (França, Itália e Alemanha).
1858 ¬ Morte de Robert Owen.
1864 ¬ Fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores, a I Internacional.
1865 ¬ Morte do líder e teórico anarquista Pierre-Joseph Proudhon.
1870 ¬ Primeira edição de O capital, de Karl Marx.
1871 ¬ Criação da Comuna de Paris.
1876 ¬ Morte do teórico e líder anarquista Michail Bakunin.
1883 ¬ Morte do téorico do socialismo Karl Marx.
1890 ¬ Surgimento dos primeiros partidos operários no Brasil: em São Paulo, no Rio
Grande do Sul e no Rio de Janeiro.
1891 ¬ Ressurgimento da Associação Internacional dos Trabalhadores (II Internacional).
1895 ¬ Morte do teórico do socialismo Friedrich Engels.
1902 ¬ Fundação do Partido Socialista Brasileiro.
1914 ¬ Início da Primeira Guerra Mundial.
1917 ¬ Eclosão da Revolução Russa.
1919 ¬ Bolchevistas russos fundam a III Internacional, com o nome de Internacional
Comunista. Assassinato dos líderes comunistas Rosa Luxemburgo (nascida
na Polônia) e Karl Liebknecht (Alemanha); intensificação da repressão aos
movimentos comunistas.
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Estátua de Napoleão derrubada na Praça Vêndome, em Paris,
por integrantes da Comuna de Paris, em maio de 1871.
Frontispício da primeira edição do Manifesto do Partido Comunista, de 1848.
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1921 ¬ Fundação do Partido Comunista Chinês por Mao Tse-tung. Implantação da
Nova Política Econômica (NEP) na URSS.
1922 ¬ Fundação do Partido Comunista Brasileiro.
1923 ¬ Grupo ligado à II Internacional funda a Internacional Socialista.
1924 ¬ Morte de Lenin; Trotski e Stalin passam a disputar a presidência do partido.
1928 ¬ Criação dos planos quinquenais na União Soviética.
1935 ¬ Levante comunista no Brasil.
1936 ¬ Guerra Civil Espanhola.
1939 ¬ Segunda Guerra Mundial.
1940 ¬ Assassinato de Trotski no México, onde vivia exilado.
1949 ¬ Vitória do Partido Comunista na China; instalação da República Popular da China.
Criação da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que reúne os
Estados Unidos, o Canadá, os países da Europa ocidental, a Grécia e a Turquia.
1953 ¬ As Coreias assinam acordo de paz; a Coreia do Norte permanece comunista.
Morte de Stalin.
1955 ¬ Pacto de Varsóvia une países socialistas em torno da União Soviética.
1959 ¬ Triunfo da Revolução Cubana.
1961 ¬ Construção do Muro de Berlim. Cuba se torna declaradamente socialista.
1966 ¬ Revolução Cultural na China.
1968 ¬ Primavera de Praga.
1970 ¬ Chile elege o socialista Salvador Allende presidente do país.
1975 ¬ Com a derrota do governo do Vietnã do Sul, os dois Vietnãs passam a
constituir a República Socialista do Vietnã.
1976 ¬ O Vietnã chega à independência e ao socialismo. Morre Mao Tse-tung.
1979 ¬ Guerrilheiros da Frente Sandinista de Libertação Nacional, na Nicarágua,
entram na capital, Manágua. O sandinista Daniel Ortega assume o governo.
1985 ¬ Mikhail Gorbachev chega ao poder como secretário-geral do Partido
Comunista soviético.
1989 ¬ Queda do Muro de Berlim.
1990 ¬ Reunificação alemã.
1991 ¬ Fim do socialismo na União Soviética e criação da Comunidade de Estados
Independentes (CEI).
Tanque soviético no centro de Praga, capital da então
Tchecoslováquia (atual República Tcheca), em agosto
de 1968.
Tropas inglesas e francesas alinhadas contra a esperada
ofensiva alemã. França, 1918.
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CONTEXTO
As primeiras propostas
alternativas de organização social
Vários autores formularam críticas à socie-
dade burguesa capitalista no século XIX. Alguns
deles, ainda sob influência das ideias iluministas,
defendiam que somente com o desenvolvimento
da razão e apostando no progresso se poderia
conquistar a felicidade humana. Tomando como
ideário a defesa da igualdade, tinham como refe-
rência essencial o pensamento filosófico de Jean-
Jacques Rousseau, que havia afirmado ser a
propriedade a origem da desigualdade entre os
seres humanos.
O pensador alemão Friedrich Engels chamou
alguns desses pensadores de socialistas utópi-
cos. Segundo ele:
Tratava-se de descobrir um sistema novo e mais
perfeito de ordem social para implantá-lo na so-
ciedade, vindo de fora, por meio da propaganda e,
sendo possível, com o exemplo, mediante expe-
riências que servissem de modelo. Esses novos
sistemas sociais nasciam condenados a mover-se
no reino da utopia; quanto mais detalhados e mi-
nuciosos fossem, mais tinham que degenerar em
puras fantasias.
ENGELS, Friedrich. Do socialismo utópico ao científico.
3. ed. São Paulo: Global, 1980. p. 35.
Para Engels, autores como o britânico Robert
Owen e os franceses Saint-Simon e Charles
Fourier criavam modelos ideais que não poderiam
ser implementados.
Robert Owen (1771-1858) nasceu no Reino
Unido e era proprietário de uma fábrica. Reduziu
a jornada de trabalho dos operários de sua empre-
sa, favoreceu a educação das crianças e contri-
buiu para que os trabalhadores tivessem melhores
condições de moradia e saúde. Criticou o lucro
como finalidade do trabalho e passou a defen-
der o comunismo como princípio de organização
social. Entre 1824 e 1829 tentou fazer funcionar,
na América, uma colônia comunitária, a Nova
Harmonia, que fracassou.
Oriundo da nobreza francesa, Saint-Simon
(1760-1825) combatia a pobreza e a desigualdade
social. Para ele, a industrialização deveria ser acom-
panhada de uma planificação que favorecesse a
classe mais numerosa, a dos proletários. Criticava
o sentido de liberdade da Revolução Francesa, que
defendia o individualismo sem se preocupar com o
bem-estar dos proletários. Não defendia o fim da
propriedade privada, mas exigia que os empresários
tivessem responsabilidade social.
Charles Fourier (1770-1837) nasceu na França
e foi um crítico fervoroso da sociedade burguesa.
Para ele, o ser humano deveria alcançar o máximo
de prazer individual. Por isso, criticava o sistema
social que separava o trabalho do prazer. Defendia
também a libertação da mulher e a liberação
sexual, uma vez que esta última se relaciona com
a liberação dos instintos e a obtenção de prazer.
Defendia que a sociedade deveria se organizar
com base em cooperativas nas quais a produção
e os benefícios do trabalho seriam partilhados por
todos. O socialismo seria a última fase da história
dos seres humanos, na qual se teria cooperação
entre as pessoas e a felicidade seria possível.
O socialismo
O francês François Babeuf (1760-1797) e o
italiano Filippo Buonarroti (1761-1837) – que já
haviam tentado derrubar o governo do Diretório
como líderes da Conspiração dos Iguais em 1796
– fundaram na França um Comitê de Insurreição,
com o qual pretendiam minar as instituições bur-
guesas, insuflando as classes oprimidas a lutarem
contra a burguesia. Babeuf foi preso como cons-
pirador e morreu em seguida. Além de defender a
reforma agrária, o francês e o italiano acreditavam
que o poder deveria ser tomado pelos proletários,
já que a igualdade só poderia ser conquistada com
a luta dos trabalhadores. Surge, então, a ideia de
que uma classe deve se organizar para lutar con-
tra aquela que a oprime. O socialismo só poderia
ser alcançado mediante essa luta.
Nos anos 1830, ocorreu o cartismo na
Inglaterra. O movimento iniciou-se com a divulga-
ção da Carta do Povo, escrita por William Lovett e
enviada ao Parlamento inglês. Nela estavam con-
tidas as reivindicações de organizações trabalhis-
tas que defendiam uma reforma parlamentar que
instituísse o voto secreto, a criação do sufrágio
universal e abolisse a necessidade da qualifica-
ção de proprietário para os candidatos a cargos
públicos. Pretendiam, assim, conquistar maiores
direitos políticos para a classe trabalhadora.
Em 1848, eclodiram quase que simultanea-
mente vários movimentos republicanos com forte
participação operária e influência do pensamento
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anarquista e socialista, como vimos no capítu-
lo anterior. Várias monarquias europeias foram
derrubadas. Isso ocorreu na França, na Bavária
(no sudoeste alemão), em Berlim, em Viena e em
Milão. Na França, foi proposta a criação de uma
república democrática, com um operário como
membro do governo provisório e outros líderes
declaradamente socialistas.
Nesse mesmo ano, os téoricos do socialis-
mo Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels
(1820-1895) publicaram o Manifesto do Partido
Comunista. Logo nas primeiras linhas afirma-
vam que: “a história de toda a sociedade até
hoje é a história da luta de classes”. Eles defen-
diam a tomada do poder pelos trabalhadores e
propunham, entre outras coisas, a expropriação
da propriedade fundiária, a criação de impostos
progressivos taxando a riqueza, a criação de um
banco nacional que centralizasse os créditos
nas mãos do Estado, além da multiplicação das
fábricas nacionais (estatais). Apesar da derrota
do movimento operário em 1848, consolidava-
-se uma nova proposta de organização social que
se relacionava diretamente com a organização do
movimento operário.
Entre os anos 1840 e 1880, Marx e Engels for-
mularam a base teórica do socialismo que Engels
chamaria de científico. Eles consideravam que
a sociedade se dividia em duas classes sociais.
De um lado estavam os proprietários dos meios
de produção, os proprietários de terras ou fábri-
cas, ou seja, a burguesia; de outro, os proletários
despossuídos desses meios de produção, que
vendiam sua força de trabalho para sobreviver.
Isso geraria uma luta de classes, na qual os tra-
balhadores, explorados pelos proprietários dos
meios de produção, lutariam contra esses abusos.
Para eles, o Estado não era somente um aparelho
administrativo, mas principalmente um poder políti-
co que tinha como função primeira defender os inte-
resses da classe dominante, no caso, a burguesia.
Marx e Engels formularam uma proposta socia-
lista, na qual seria superada a luta de classes e
extinta a propriedade privada. Em um segundo
momento, na sociedade comunista, o Estado deve-
ria ser também abolido. Para tanto, seria neces-
sário realizar uma revolução proletária, na qual os
trabalhadores tomariam o poder e redistribuiriam
a riqueza produzida para todos (a “ditadura do pro-
letariado”). Tudo se transformaria em propriedade
do Estado, responsável pela redistribuição iguali-
tária das riquezas. Para eles, o capitalismo era um
sistema de organização da vida social que tinha
como princípio de construção da riqueza a explora-
ção do trabalhador, a extração da mais-valia.
Marx e Engels desenvolveram ainda a base
do que denominaram materialismo histórico.
O sociólogo Arnaldo Spindel sintetiza essa teoria:
Como materialista, interessava-lhe descobrir a ba-
se material daquelas sociedades, religiões, impé-
rios etc. A ele importava saber qual era a base eco-
nômica que sustentava estas sociedades: quem
produzia, como produzia, com que produzia, para
quem produzia e assim por diante. [...] Marx queria
mostrar o movimento da História das Civilizações
enquanto movimento dialético. A teoria da História
de Marx e Engels foi elaborada a partir de uma
questão bastante simples. Examinando o desen-
volvimento histórico da Humanidade, pode-se fa-
cilmente notar que a filosofia, a religião, a moral, o
direito, a indústria, o comércio etc., bem como as
instituições onde estes valores são representados,
são sempre entendidos pelos homens da mesma
maneira. Este fato é evidente: a religião na Grécia
antiga não é vista da mesma maneira que a religião
em nossos dias, assim como a moral existente
durante o Império Romano não é a mesma moral
existente durante a Idade Média. A pergunta que
os criadores do socialismo marxista propunham-
-se a responder era: o que é que determina estas
mudanças? [...] Para um materialista, como eram
tanto Marx quanto Engels... deveria existir uma
estreita correlação, passível de ser provada, entre
este movimento das ideias e a realidade mate-
rial da sociedade; o movimento seria produto de
O alemão Karl Marx, teórico do socialismo, representado por
Hans Seckelmann, em 1878. (sem dimensões)
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modificações que estivessem ocorrendo na base
material da sociedade. [...] Eles concluem que a
estrutura político-jurídica e a ideologia (entendida
esta como o sistema de ideias e os costumes)
eram o resultado das relações estabelecidas pe-
los homens em um determinado momento da
História, e correspondiam a um certo estágio das
forças produtivas. O que Marx denominava forças
produtivas é o conjunto formado pelo clima, solo,
água, matérias-primas, máquinas, mão de obra,
instrumentos de trabalho e técnicas.
SPINDEL, Arnaldo. O que é socialismo? São Paulo:
Brasiliense, 1980. p. 34-5. (Primeiros passos).
Os autores do Manifesto do Partido Comunista
acreditavam que os países com mais chances de
realizar primeiro uma revolução socialista seriam
aqueles em que as forças produtivas tivessem
sido bastante desenvolvidas, como era o caso da
Inglaterra. Quanto mais desenvolvidas as forças
produtivas, ou seja, as técnicas e os instrumentos
de trabalho, existiria mais necessidade de mudar
as relações de produção. Nesse momento, para
Marx, torna-se iminente a revolução social. Isso
já teria ocorrido em diferentes momentos da
história, como na passagem do feudalismo para
o capitalismo. O desenvolvimento de novas téc-
nicas, o crescimento do comércio e a expansão
marítima haviam criado novas condições econô-
micas que fizeram com que o modo de produção
anterior entrasse em colapso, abrindo espaço
para o desenvolvimento do capitalismo na Europa.
Segundo Marx, um sistema produtivo gera sua
negação, ou seja, o feudalismo propiciou o nas-
cimento da burguesia que derrubou o sistema
feudal. O mesmo poderia ocorrer com o capitalis-
mo, que havia criado uma grande classe operária
que poderia tomar o poder e destruí-lo, abrindo
as portas para o nascimento de uma sociedade
comunista. Em sua obra O capital, Marx faz uma
análise aprofundada da economia capitalista.
Marx e Engels defendiam ainda a internacio-
nalização do movimento, sendo fundada, em 1864,
a Associação Internacional dos Trabalhadores,
conhecida como I Internacional. Ela reunia
trabalhadores ingleses, franceses e de outros
países europeus. Em 1871, na França, os líde-
res da I Internacional participaram da organiza-
ção do movimento revolucionário denominado
Comuna de Paris, que tomou o poder local e
procurou reconstruir o Estado sob novas bases.
Com o fracasso do movimento, a I Internacional
entrou em crise, sendo fechada em 1876. Em 1891,
foi fundada uma II Internacional e, em 1919, a
III Internacional.
O anarquismo
O movimento anarquista nasceu no mesmo
período que o socialismo proposto por Marx e
Engels, e também realizava a crítica da socie-
dade burguesa. Um de seus primeiros teóricos,
Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), escreveu,
em 1840, o livro Que é a propriedade?. Ele mesmo
concluiu: é um roubo. Conforme Proudhon:
A possessão individual é condição da vida so-
cial. Cinco mil anos de propriedade demonstram
isso. A propriedade é o suicídio da sociedade.
A possessão é um direito, a propriedade é contra o
direito. Ao suprimir a propriedade mantendo a pos-
sessão, por esta simples modificação de princípio,
revolucionaremos a lei, o governo, a economia e as
instituições, eliminaremos o mal da face da Terra.
PROUDHON, Pierre-Joseph. Que é a propriedade?
In: WOODCOCK, George (Org.). Os grandes escritos
anarquistas. 2. ed. Porto Alegre: L&PM, 1981. p. 64.
A crença de que o Estado é nocivo e desne-
cessário aos seres humanos é um dos primeiros
princípios do anarquismo. A palavra anarquis-
mo vem do grego e significa “sem governo”.
Em substituição ao Estado, os anarquistas pro-
põem que existam formas de organização volun-
tária. O anarquista é aquele que pretende criar
uma sociedade sem Estado, equilibrada entre a
liberdade e a ordem, que só poderia ser construída
com base na cooperação voluntária e na autodis-
ciplina. Proudhon faleceu em 1865 e teve como
um de seus seguidores o russo Mikhail Bakunin
(1814-1876), que participou da I Internacional e
discordava principalmente de Marx por defender
a abolição imediata do Estado. Ele afirmava:
É óbvio que a liberdade não será restituída à huma-
nidade, e que os verdadeiros interesses da socie-
dade [...] só serão satisfeitos quando não existirem
mais Estados. Está claro que todos os chamados
interesses gerais que o Estado deveria represen-
tar são, de fato, uma abstração, uma ficção, uma
mentira. Estes interesses, na realidade, não são
nada mais que a negação total e contínua dos in-
teresses reais das regiões, comunas, associações
e da grande maioria dos indivíduos submetidos ao
Estado. O Estado é um enorme matadouro, um
vasto cemitério no qual, sob a sombra e o pretexto
de abstração, todas as reais aspirações e forças
ativas de um país deixaram-se enterrar generosa
e pacificamente.
PROUDHON, Pierre-Joseph. In: WOODCOCK,
George (Org.). Os grandes escritos anarquistas.
2. ed. Porto Alegre: L&PM, 1981. p. 75.
Para Bakunin, o Estado defendia os interesses
da burguesia, “classe que é hoje o principal – se
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não o único – agente da exploração e que, além
disso, ainda demonstra uma certa tendência para
absorver todas as outras classes” (idem, ibidem).
Já a Igreja representava os interesses do clero.
Esses teóricos anarquistas condenavam a exis-
tência de partidos políticos, acreditando que os
seres humanos deveriam ser capazes de agir
espontaneamente sem ter de seguir diretrizes
partidárias. Afirmavam também que a liberdade
não poderia ser conquistada por meio da lei do
Estado. Tratava-se de uma conquista individual
que deveria ser partilhada com os demais inte-
grantes da sociedade. Para os anarquistas, o ser
humano era naturalmente social, mas as institui-
ções sociais de caráter autoritário impediam que
ele desenvolvesse uma perspectiva cooperativa.
Em vez de a burocracia do Estado criar regras, o
indivíduo deveria desenvolver a responsabilidade
pelo grupo social em que vivia, praticando a coo-
peração. A própria comunidade deveria se reunir
para tomar decisões de seu interesse.
As sociedades socialistas
do século XX
No século XX, vários países fizeram revoluções
socialistas. Entre eles Rússia, China e Cuba. Além
disso, em muitos países se organizaram gover-
nos, partidos políticos e sindicatos de orientação
socialista. Em cada um deles, o socialismo assu-
miu feições próprias conforme a realidade local.
A Revolução Russa
Esta foi a primeira revolução
socialista vitoriosa. Em 1917, os
socialistas tomaram o poder e começaram a der-
rubar as antigas estruturas sociais e econômicas
para implementar o socialismo na Rússia. Até
essa data, a Rússia era um império. Seu último
imperador foi o czar Nicolau II, que governava
com base em princípios absolutistas (a monarquia
russa foi chamada de czarista). Seu poder era
legitimado pela suposta origem divina dos reis.
A Rússia foi um dos últimos países da Europa a
se industrializar. A maioria de sua população vivia
da agricultura no campo em meados do século XIX.
Somente em 1861 foi abolida a servidão e os
camponeses puderam se tornar proprietários. Em
fins do século XIX, a indústria desenvolveu-se
com maior rapidez e as cidades cresceram. As
condições de vida nos centros industriais eram
precárias. Os trabalhadores, além de submetidos
a longas jornadas de trabalho e de serem mal
remunerados, não tinham condições adequadas
de saúde e moradia.
Nos anos 1900 foi constituído um partido operá-
rio, o Partido Operário Social-Democrata Russo.
Seus líderes defendiam a deflagração de uma
revolução socialista e convocaram várias greves
de trabalhadores.
Entre 1904 e 1905, a Rússia envolveu-se em
uma guerra com o Japão pelo domínio da região
da Manchúria e da Coreia, territórios em disputa
desde fins do século XIX. Derrotado, o Império
Russo saiu enfraquecido do confronto. Tornaram-se
mais intensos os ataques ao czar em um contexto
marcado por greves, crise econômica e escassez
de alimentos. Ainda em 1905 a crise se agravou
quando o czar ordenou que seu exército reprimisse
uma manifestação por melhores condições de
vida. Centenas de pessoas morreram, ficando
esse dia conhecido como Domingo Sangrento.
Ampliaram-se as greves e as manifestações.
Pressionado, o imperador cedeu e atendeu a uma
das reivindicações populares, transformando a
Rússia em uma monarquia constitucional. Foi
criado o Parlamento russo – a Duma – em 1906.
Antes disso, em 1905, quando ocorreram
grandes manifestações grevistas e populares
envolvendo marinheiros, operários e campone-
ses, formaram-se os sovietes. Eram conselhos
de autogestão que reuniam representantes de
fábricas em greve, que rapidamente adquiriram
forte representatividade diante dos trabalhadores.
O czar reagiu e reprimiu os movimentos grevistas
Retrato do anarquista russo Mikhail Aleksandrovich Bakunin
(1814-1876). (sem dimensões)
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aprisionando vários de seus líderes. Nos anos que
se seguiram, o governo czarista conseguiu cons-
truir uma maior estabilidade política.
Com o início da Primeira Guerra Mundial em
1914, a Rússia aliou-se à França e à Inglaterra con-
tra a Alemanha e a Áustria-Hungria. Nos embates
com a Alemanha, sofreu várias derrotas e teve
parte de seu território invadido; o número de mor-
tos em combate aumentava e os gastos de guerra
aceleraram a crise econômica.
Em fevereiro de 1917 foram novamente organi-
zadas manifestações públicas. Greves e protestos
contra a situação econômica tomaram conta de São
Petersburgo, capital da Rússia. Ocorreram saques
a lojas, ataques a tribunais, delegacias e a outros
edifícios ligados ao poder público, expressando-se
dessa forma o descontentamento com o governo
czarista. A permanência do czar no poder tornou-
-se insustentável quando grande parte dos soldados
aderiu aos protestos e deixou de acatar as ordens
do governo. Em março de 1917 o czar foi deposto,
encerrando-se assim a história imperial russa.
Formou-se, então, um governo provisório lide-
rado por Alexander Kerenski, um socialista mode-
rado. O objetivo era transformar a Rússia em uma
República parlamentarista democrática. Seria con-
vocada uma Assembleia Constituinte e instituído
Manifestantes fogem dos disparos das tropas czaristas em São Petersburgo (então Petrogrado), em 1917.
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o voto universal. Kerenski era um menchevique
(minoria, em russo), grupo de marxistas que defen-
dia o desenvolvimento das forças produtivas capita-
listas como uma etapa essencial para se chegar ao
socialismo. Seria necessário fazer uma revolução
burguesa para, só depois, alcançar o socialismo.
Em oposição, o grupo bolchevique (maioria),
adepto das ideias de Marx, acreditava que o forta-
lecimento dos sovietes e a criação de uma ditadu-
ra do proletariado seriam o melhor caminho para
a consolidação de um Estado socialista. O líder
bolchevique Vladimir Ilitch Ulianov (1870-1924),
mais conhecido como Lenin, colocou-se contra a
organização de uma república parlamentar afir-
mando que seria possível organizar um governo
socialista a partir dos sovietes. A república parla-
mentar manteria a Rússia nos limites da organiza-
ção social burguesa.
Leon Trotski (1879-1940), que estava exilado na
América, aderiu também ao Partido Bolchevique e
voltou reforçando as teses leninistas. Em 1917,
Lenin definiu alguns pressupostos da revolução
socialista em suas Teses de abril. Ele afirmava:
A particularidade do momento atual da Rússia é
que o país está passando do primeiro estágio da
revolução – que deu o poder à burguesia, pelo fato
de o proletariado não ter o suficiente nível de cons-
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ciência e de organização – ao segundo estágio, que
deve colocar o poder nas mãos do proletariado e
dos setores mais pobres do campesinato.
[A missão dos bolcheviques] é explicar às massas
que os sovietes de deputados operários são a única
forma possível de governo revolucionário e que, por
isso, enquanto este governo se submete à influên-
cia da burguesia, nossa missão só pode ser a de ex-
plicar os erros de sua tática de uma forma paciente,
sistemática, persistente e adaptada especialmente
às necessidades práticas das massas.
LENIN, V. I. Teses de abril. Disponível em:
<www.marxists.org/ portugues/index.htm>.
Acesso em: 18 maio. 2013.
Nesse documento, Lenin defendia ainda o
confisco dos latifúndios, a nacionalização de todas
as terras, a criação de sovietes de camponeses
pobres, a nacionalização dos bancos, que seriam
transformados em um único banco nacional submetido
ao controle dos sovietes de deputados operários,
e a criação de uma nova Internacional Comunista.
O governo provisório menchevique passou a
perseguir Lenin, sendo colocado na ilegalida-
de o Partido Bolchevique. Paralelamente, novos
sovietes foram criados por todo o país que então
representavam não só os operários, como tam-
bém os soldados e os camponeses. O soviete de
São Petersburgo foi adquirindo, cada vez mais,
importância e poder, e as medidas governamen-
tais deveriam ser aprovadas também por essa
instância para que tivessem legitimidade.
Após uma tentativa de golpe de Estado ocor-
rida em agosto de 1917, que pretendia fechar os
sovietes, o Partido Bolchevique ganhou fôlego
e o movimento popular fortaleceu-se. O sovie-
te de Petrogrado (até 1914 denominado São
Petersburgo) passou a ser presidido por Trotski,
que rompeu com o governo provisório.
Em outubro de 1917, organizou-se um comitê
revolucionário que conseguiu derrubar o gover-
no provisório e tomar o poder com o auxílio do
Exército Vermelho (também chamado de Guarda
Vermelha) organizado por Trotski, com a partici-
pação de soldados desertores e trabalhadores. O
Palácio de Inverno, sede do governo de Kerenski, foi
dominado pelos guardas vermelhos. Dessa forma,
consolidava-se a Revolução Socialista com a
ascensão dos bolcheviques e dos sovietes ao poder.
Lenin assumiu o governo, sendo extintos todos
os demais partidos políticos. Instaurou-se, então,
o regime de partido único e foi revogada a con-
vocação da Assembleia Constituinte. Iniciava-se,
assim, a chamada ditadura do proletariado,
que iria consolidar a revolução com base em um
Estado centralizador que construísse os alicerces
de um governo socialista. No dia 26 de outubro,
Lenin fundou a República Soviética Russa.
Entre as primeiras medidas do governo socia-
lista de Lenin, estavam a reforma agrária e a
nacionalização de indústrias e bancos. Estes pas-
saram a ser propriedade do Estado. Além disso,
as fábricas ficaram sob o controle dos operários.
Em 1918 foi assinado um acordo de paz com a
Alemanha, retirando a Rússia definitivamente da
Primeira Guerra Mundial. Por fim, nesse mesmo
ano, decidiu-se pela execução dos membros da
família imperial, que foram assassinados a tiros
por soldados do Exército Vermelho.
Após a tomada do poder, ocorreu a guerra civil
(de 1918 a 1921) contra os opositores dos bolche-
viques; no entanto, o Exército Vermelho, guardião
militar da revolução, conseguiu conter a reação
dos mencheviques e czaristas. Os contrarrevo-
lucionários uniram-se e organizaram o Exército
Branco. Tropas inglesas, francesas e norte-ame-
ricanas lutaram ao lado dos brancos. Somente
em 1921 os conflitos entre as duas forças rivais se
encerraram, consolidando a vitória bolchevique.
Em 1921, à frente do poder, Lenin instituiu a Nova
Política Econômica (NEP). Sobre a NEP, explica
o economista Paulo Sandroni:
Consistiu em um programa de desenvolvimento
da economia, com relativa liberalização, adota-
do pelo governo da União Soviética entre 1921 e
1928. Tinha como objetivo recuperar a economia
nacional devastada pela guerra e aliviar enormes
tensões raciais decorrentes da aplicação do “co-
munismo de guerra” nos anos anteriores, quando
o Estado assumiu de forma absoluta o contro-
le de toda a produção do país para fazer fren-
te à guerra civil e à invasão estrangeira. Com a
Lenin discursando, em
1918, no primeiro ani-
versário da Revolução
Bolchevique.
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NEP o comércio interno foi liberado, permitiu-
-se o funcionamento de pequenas e médias em-
presas privadas, estimularam-se os investimentos
estrangeiros, instituiu-se o pagamento de horas ex-
tras e de prêmios aos trabalhadores e criou-se o im-
posto sobre propriedades urbanas. Isso possibilitou
uma rápida recuperação da economia do país [...]
SANDRONI, Paulo. Dicionário de Economia. São Paulo:
Abril Cultural, 1985. p. 298.
O pensamento leninista pode ser sintetizado
em sua tese “Um passo atrás para dar dois passos
à frente”, ou seja, era preciso tomar medidas pró-
prias da economia capitalista para construir condi-
ções favoráveis ao desenvolvimento do socialismo.
Politicamente, ampliou-se o centralismo
governamental. Em 30 de dezembro de 1922,
foi fundada a União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas (URSS), que pregava a internacionali-
zação da revolução socialista. Em 1925, o antigo
Partido Bolchevique transformou-se em Partido
Comunista da União Soviética (PCUS), sendo
responsável pela direção governamental e pela
repressão a todos os inimigos.
Em 1924 Lenin faleceu, iniciando-se a disputa
pela sucessão ao cargo de chefe do governo e
do Partido Comunista. Trotski, árduo defensor da
internacionalização da revolução (sobretudo nos
países industrializados), era um dos aspirantes ao
cargo. Além dele havia Stalin, secretário-geral do
partido, que defendia a consolidação interna do
regime antes de buscar uma internacionalização
da revolução. Stalin foi o vitorioso e governou a
União Soviética entre 1924 e 1953, quando faleceu.
Durante o governo de Stalin, a economia sovi-
ética foi completamente socializada e a NEP foi
substituída, em 1928, pelos planos quinquenais.
Com isso, Stalin pretendia modernizar e intensi-
ficar o processo de industrialização da Rússia.
Também o campo foi socializado com a criação
dos sovkhozes (fazendas estatais) e dos kolkho-
zes (fazendas coletivas) no lugar das fazendas
privadas. Em sua estratégia de fortalecimento da
União Soviética, Stalin priorizou a indústria de
base e não a de bens de consumo, ampliando o
poder do Estado sobre a economia.
Stalin fez um governo ditatorial, censurando
e eliminando seus opositores. Esse foi o caso de
Trotski, exilado em 1929 e assassinado em 1940,
no México. Várias outras lideranças de oposição
foram presas, torturadas e executadas nos anos
seguintes, incluindo antigos companheiros de par-
tido. Também os civis que se opunham às ideias
totalitárias do Partido Comunista foram perse-
guidos e eliminados. Muitas pessoas foram envia-
das para executar trabalhos forçados na Sibéria,
dentre elas camponeses que eram contrários à
coletivização das terras. A esse respeito comenta
Philip Clark:
Stalin forçou muitos camponeses a entregar suas
terras às grandes fazendas coletivas do Estado.
[...] É claro que muitos camponeses resistiram.
Alguns até matavam seu gado para não entregá-lo
às fazendas. Stalin reagia com violência, forçan-
do pelas armas a entrega das terras. Milhões de
kulaks (camponeses com certos recursos) foram
mortos. E milhões de outros deportados com
suas famílias para a Sibéria e a Ásia Central. [...]
Durante o governo de Stalin foi totalmente supri-
mida a liberdade de expressão e de organização dos
trabalhadores. Cientistas, historiadores, artistas e
escritores eram obrigados a seguir a linha oficial
do partido. [...] Paciente e metodicamente, Stalin
foi eliminando os que se opunham a seus planos.
[...] Mais de sete milhões de pessoas foram presas
durante a era Stalin. E pelo menos 1 milhão delas
executadas.
CLARK, Philip. A Revolução Russa. 6. ed. São Paulo:
Ática, 1997. p. 26-8. (Guerras que mudaram o mundo).
Depois da morte de Stalin, em 1953, Nikita
Kruschev assumiu o poder e procurou “desesta-
linizar” o país, reaproximando-se das nações capi-
talistas. Chegou a denunciar no XX Congresso
do Partido Comunista os crimes cometidos por
Stalin. Inaugurou um período de flexibilização nas
tensas relações entre Estados Unidos e União
Soviética durante a Guerra Fria (uma disputa ide-
ológica entre Estados Unidos e União Soviética
pela hegemonia política, econômica e militar no
mundo, que teve início após a Segunda Guerra
Mundial e durou até a queda do Muro de Berlim).
Nesse período, a potência socialista obteve
importantes conquistas tecnológicas, lançando
ao espaço, em 1957, o satélite artificial Sputinik
e fazendo o primeiro voo tripulado, em 1961, com
Yuri Gagarin.
Em 1964, a Nomenklatura, órgão superior
da estrutura burocrática criada pelos stalinistas,
destituiu Kruschev e entregou a direção governa-
mental a Leonid Brejnev, que novamente enrije-
ceu a postura da União Soviética em relação aos
países capitalistas e desfez o espírito de coexis-
tência pacífica proposto pelo governo anterior.
Foi alimentada a corrida armamentista entre
os Estados Unidos e a União Soviética, em busca
da supremacia militar no contexto da Guerra Fria.
Mas nos anos 1980 começava a transparecer o
atraso tecnológico soviético em relação às potên-
cias capitalistas.
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O desenhista argentino Quino criou as primeiras tiras da personagem Mafalda em 1963. As historinhas, publicadas por um jornal
argentino e atualmente reunidas em livros, fazem referência a vários temas da época, entre eles o socialismo e a Guerra Fria. O es-
critor italiano Umberto Eco comentou que Mafalda era a personagem dos anos 1960, “uma heroína ‘enraivecida’ que recusa o mundo
tal como ele é”. Segundo Eco, ela “pertence a um país repleto de contrastes sociais que, no entanto, nada mais quer do que torná-la
integrada e feliz, algo que Mafalda recusa, resistindo a todas as tentativas [...]. Na verdade, Mafalda tem ideias confusas em questão
de política. Não consegue entender o que acontece no Vietnã, não sabe por que existem pobres, desconfia do Estado, mas tem receio
dos chineses. De uma coisa ela tem certeza: não está satisfeita” (Apud QUINO. Toda Mafalda. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. XVI).
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QUINO. Toda Mafalda. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. XVI, 18, 77 e 123.
Em 1982, após a morte de Brejnev, seguiram-se
Yuri Andropov (1982-1984) e Konstantin Tchernenko,
que faleceu em 1985. Em seu lugar assumiu Mikhail
Gorbachev, que iniciou um amplo processo de
reformas: a reestruturação econômica, denominada
perestroika; a abertura política e a descentralização
do poder (glasnost); além da busca de acordos inter-
nacionais que interrompessem a corrida armamen-
tista. Não seria possível investir em outros setores
necessitados da União Soviética sem que se redu-
zissem os gastos com armamentos.
Para colocar em prática a reforma política,
Gorbachev pôs fim ao monopartidarismo, per-
mitindo a formação de várias forças políticas.
Dentre essas, as mais importantes eram as que
ficaram conhecidas como antiperestroika e ultra-
perestroika, ou seja, os que se pronunciavam con-
tra a reforma econômica proposta e os que que-
riam aprofundá-la realizando uma maior abertura
para a economia de mercado. Este último grupo
conseguiu o apoio popular, e um de seus líderes,
Boris Yeltsin, foi eleito presidente do Congresso
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do Povo das Repúblicas Russas e do Soviete
Supremo da Rússia, em 1990, nas eleições diretas
que se realizaram como consequência do proces-
so de abertura política.
Em 1989 ocorreu a queda do Muro de
Berlim – marco estabelecido em 1961 para
separar a Alemanha Ocidental, sob influência
capitalista, e a Alemanha Oriental, sob influên-
cia soviética. Nesse ano ganhou força, ainda, o
movimento pela democratização do regime na
então Tchecoslováquia, aliada ao bloco comu-
nista. Muitas manifestações públicas ocor-
reram até que os comunistas renunciaram a
seus cargos e foram realizadas eleições que
tornaram Vaclav Havel, uma das lideranças
do movimento, presidente da Tchecoslováquia.
O país foi gradualmente adotando a economia
de mercado e, em 1993, dividiu-se em duas
repúblicas independentes: Eslovaca e Tcheca.
Em 1991 foi a vez de as repúblicas soviéticas
Letônia, Lituânia e Estônia se separarem do
bloco soviético.
Em agosto de 1991, Gorbachev foi afastado do
governo da União Soviética em uma tentativa de
golpe de Estado das lideranças conservadoras.
Boris Yeltsin, recém-eleito presidente da República
da Rússia, reagiu e propôs uma resistência arma-
da com amplo apoio popular. Realizou-se uma
greve geral e um cerco aos golpistas, que foram
Cidadãos alemães golpeiam e pulam a barreira do muro que
separava Berlim Oriental de Berlim Ocidental, em novembro
de 1989.
Na foto abaixo, o então candidato à presidência da Rússia Boris
Yeltsin é cumprimentado pela população a caminho do local de
votação (Moscou, junho de 1991). Eleito com ampla maioria de
votos, Yeltsin passou a articular o fim da União Soviética.
Em julho de 1990, a rede de lanchonetes McDonald’s abriu a
sua primeira loja em Moscou. Muitas pessoas formaram filas
para conhecer a loja, como podemos observar na foto abaixo.
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DA UNIÃO SOVIÉTICA À CEI
derrotados. Em dezembro, quando Gorbachev já
havia retomado o cargo, Yeltsin, aproveitando-
-se da força política que tinha angariado com a
derrota dos conservadores, articulou o fim da
União Soviética. Assim fundou a Comunidade
dos Estados Independentes (CEI) mediante o
Tratado de Minsk, assinado também pela Ucrânia e
por Belarus. Pouco depois, outras repúblicas aderi-
ram ao tratado. Em seguida, Gorbachev renunciou
à presidência da já extinta União Soviética, com-
posta até então de 15 Estados.
Ocorreu, a partir daí, o desmembramento polí-
tico e um processo de abertura econômica que
rapidamente aderiu ao regime capitalista. Na
atualidade, a maioria das nações que compunham
a antiga União Soviética vive sob a lógica da
propriedade privada e das regras de mercado da
sociedade capitalista.
A Revolução Chinesa
Nos primeiros anos do século XX, a China
vivia sob um regime imperial. Esse império esta-
va sob influência direta de outros países como a
Inglaterra, que controlava sua alfândega. A maio-
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ria da população levava uma vida em condições
miseráveis e a fome tomava conta de regiões
inteiras do império.
Um movimento nacionalista de oposição – a
dinastia Manchu – que condenava a presença
estrangeira no país, organizou um processo
revolucionário. Em 1911, as forças revolucioná-
rias fizeram com que o imperador abdicasse e
fosse criada a República da China. É dessa
época a criação do Partido Nacional Chinês,
o Kuomitang, que governaria o país. No entan-
to, a situação econômica e social da China não
havia mudado, ainda que o capitalismo e as
indústrias tivessem conseguido se desenvolver
em algumas regiões do país. Em 1915, durante a
Primeira Guerra Mundial, o Japão havia imposto
à China várias exigências que a colocaram sob o
controle político dos japoneses. Esse domínio foi
reforçado pelo Tratado de Versalhes, documen-
to internacional que reorganizava as fronteiras
europeias após a Primeira Guerra Mundial. A
decisão provocou a reação da população chi-
nesa, que organizou muitos protestos, ocorren-
do também uma aproximação da China com o
governo russo.
Com base em DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 263.
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Em 1921 foi fundado o Partido Comunista
Chinês, que, em 1923, se aliou ao Kuomitang
para governar a República Chinesa e unificar o
país sob um único governo. No entanto, em 1927,
quando Chiang Kai-shek assumiu a liderança do
Kuomitang e do país, o Partido Comunista Chinês
foi colocado na ilegalidade, sendo seus líderes
perseguidos e presos. Apesar disso, Chiang Kai-
shek conseguiu reunificar o país, tornando-se o
chefe do governo nacional da China.
Nesse contexto, os comunistas construíram
uma nova estratégia de atuação sob a liderança de
Mao Tse-tung (1893-1976). A nova proposta era
mobilizar a população pobre camponesa contra o
governo nacionalista de Chiang Kai-shek. Os cam-
poneses acabariam por se transformar na maior
força da revolução socialista. Assim, a partir de
1928, foi formado o Exército Vermelho, que, após
tomar as terras de proprietários, redistribuíam-
-nas entre os camponeses da região. Os conflitos
entre as forças nacionalistas e os comunistas
adentraram toda a década de 1930, e, além desse
conflito, havia a presença japonesa no país, o que
desagradava sobremaneira a população chinesa.
Em 1934, quando Chiang Kai-shek principiou uma
grande ofensiva militar anticomunista, o Exército
Vermelho começou a se retirar do território sobre
o qual tinha domínio. Os comunistas deram iní-
cio, assim, ao que ficou conhecido como a Longa
Marcha. Mais de 100 mil soldados vermelhos, lide-
rados por Mao Tse-tung, foram para o norte do
país com o objetivo de reunir novas forças para
combater as tropas nacionalistas, que reuniam mais
de 500 mil homens e armamentos mais poderosos.
Passado um ano do início da marcha e cerca de
10 mil quilômetros percorridos, restavam apenas
cerca de 10 mil soldados do Exército Vermelho.
Muitos morreram de frio, fome ou foram extermi-
nados por nacionalistas. Isso não impediu, contudo,
que os comunistas continuassem a conquistar a ade-
são de camponeses, promovendo a reforma agrária
nas regiões pelas quais passavam. Com isso, o apoio
camponês à proposta comunista foi crescendo.
Em 1937, o Japão invadiu novamente a China
e iniciou-se nova guerra entre os dois países.
Os comunistas entraram na luta contra os japo-
neses e conseguiram agregar muitos adeptos
camponeses que passaram a integrar o Exército
Vermelho. Nos anos 1940, os comunistas come-
çaram a realizar a reforma agrária em regiões
de guerra por eles controladas. A partir de 1946,
intensificou-se outra vez a guerra civil entre
comunistas e nacionalistas, que passaram a ser
financiados pelos Estados Unidos, os quais luta-
vam contra o comunismo.
Em janeiro de 1949, as forças comunistas,
apoiadas pelos camponeses, conseguiram dominar
Pequim. Meses depois os comunistas proclamam a
República Popular da China, tendo Mao como
presidente. O episódio obriga Chiang Kai-shek a
se refugiar na Ilha de Formosa (Taiwan), a qual
foi reconhecida como sede do governo chinês por
vários países, entre eles os Estados Unidos. Dessa
forma, os países que lutavam contra o comunismo
procuraram isolar a China e o governo de Mao
Tse-tung. A China aproximou-se, então, da União
Soviética, porém ocorreram disputas territoriais e
discordâncias políticas no âmbito da Guerra Fria.
Os russos não admitiam que os chineses tivessem
seu próprio arsenal atômico e os chineses, por sua
vez, discordavam da atuação imperialista dos rus-
sos na Ásia e em parte da Europa.
Soldados comunistas que derro-
taram os nacionalistas em Xangai,
em agosto de 1949. Eles são re-
cebidos calorosamente por estu-
dantes e habitantes da cidade e
usam capacetes tomados dos na-
cionalistas, que eram apoiados pelo
governo dos Estados Unidos.
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O AVANÇO COMUNISTA CHINÊS A PARTIR DOS ANOS 1940
Para enfrentar a fome e tirar o país da miséria
incrementada por duas décadas de guerra civil,
Mao Tse-tung criou primeiramente um plano quin-
quenal, seguindo a lógica do planejamento eco-
nômico adotado pela União Soviética. O objetivo
inicial era fomentar o crescimento industrial. A
partir de 1958, implementou as comunas popula-
res, unidades de produção coletivas que reuniam
milhares de famílias. Nesse momento começaram
a ser abolidas propriedades privadas e instalados
nas comunas equipamentos industriais que per-
mitissem a junção da produção agrícola e indus-
trial. Foram criadas mais de 20 mil comunas.
A criação das comunas insere-se na política de
Mao, que ficou conhecida como o Grande Salto
para a Frente. José Mao Jr. e Lincoln Secco
assim explicam:
A política do Grande Salto para a Frente era mais
cultural do que econômica, embora seus reflexos
na economia tenham sido gravíssimos. O fervor
revolucionário das massas deveria substituir o frio
cálculo dos burocratas do planejamento centraliza-
do; a criação da cultura e do lazer, provir do próprio
povo; a defesa militar, ser popular [...]. Milhões de
homens comuns, semiletrados, foram estimulados
a escrever poesias e contos; milhares de estudan-
tes e intelectuais transferiram-se para o campo;
proclamou-se o igualitarismo, e fez-se a crítica da
separação entre o trabalho manual e o intelectual.
Além disso, houve forte crítica à família nuclear,
e a participação da mulher no mercado de traba-
lho foi incentivada com a criação de creches e a
centralização do trabalho doméstico em grandes
lavanderias e cozinhas coletivas. Do ponto de vista
da economia, porém, o Grande Salto fracassou,
embora não possa ser considerado uma perda total
de recursos, pois a economia não deixou de crescer.
MAO JR., José; SECCO, Lincoln. A Revolução Chinesa: até
onde vai a força do dragão. São Paulo: Scipione, 1999. p. 49.
Em 1966, iniciou-se na China a Revolução
Cultural, que tinha como base o movimento ini-
ciado com o Grande Salto para a Frente. Buscou-
se radicalizar as propostas de igualdade e a críti-
ca à burocracia. Construiu-se uma arte engajada
(ligada a causas políticas) ao mesmo tempo que,
na China, procurou-se romper com a hierarquia.
Oficiais militares tiveram de trabalhar nas fábri-
cas, intelectuais foram levados para o campo
Com base em SCALZARETTO, Reinaldo; MAGNOLI, Demétrio. Atlas: geopolítica. São Paulo: Scipione, 1996. p. 31.
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e foi estimulada a crítica à ideologia burguesa.
Pretendia-se também reformar o ensino. Houve
ainda perseguição a intelectuais e cientistas
desalinhados ao pensamento vigente. A popu-
lação foi estimulada a criticar as autoridades.
Cartazes gigantes mostravam subordinados criti-
cando seus superiores. Poder-se-ia reduzir, assim,
a distinção entre governantes e governados.
Entretanto, Wladimir Pomar explica:
as autoridades chinesas proibiam que os represen-
tantes da burguesia infiltrados no Partido fossem
citados nominalmente na imprensa sem a aprova-
ção do comitê ao qual pertenciam, que os quadros
técnicos e científicos dedicados a atividades es-
tratégicas fossem incomodados e que a Revolução
Cultural fosse levada às fileiras do Exército Popular
de Libertação.
Milhões de chineses organizaram-se na “guarda
vermelha” e nos diversos “comitês de rebeldes re-
volucionários” e passaram a aplicar a democracia
direta, cada grupo interpretando a seu modo as
citações e as instruções do presidente Mao, que
Pôster de propaganda da Revolução Cultural, c. 1966-1976.
Mao Tse-tung aparece retratado na bandeira chinesa, que é
reverenciada por membros da aeronáutica, da marinha e do
exército. Essas instituições protegem a indústria e a agricul-
tura, simbolizadas na imagem na parte esquerda do cartaz.
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defendia firmemente a ideia de que as “massas
não deveriam ser tuteladas”.
Em 1969, porém, a situação tornara-se extrema-
mente perigosa. Além dos prejuízos à produção,
em razão das constantes paralisações para as
discussões e disputas políticas, e das repetidas ar-
bitrariedades, injustiças e até crimes contra os que
se opunham às ideias e práticas dos “guardas ver-
melhos” e “rebeldes revolucionários”, o perigo de
uma guerra civil real materializou-se após choques
envolvendo unidades do EPL na cidade de Wuhan.
A direção do PC e o governo ordenaram o desar-
mamento e a dissolução da Guarda Vermelha,
reorganizaram os organismos estatais, com a
participação de representantes dos comitês do PC,
dos comitês revolucionários e do EPL, e passaram
a dar atenção redobrada à economia.
POMAR, Wladimir. A Revolução Chinesa. São Paulo:
Ed. da Unesp, 2003. p. 99.
Em 1976, quando faleceu Mao Tse-tung,
encerrou-se a Revolução Cultural, tendo Deng
Xiaoping assumido o governo chinês.
Nos anos 1970 a China começou a abrir
suas fronteiras para o comércio internacional e
abandonou a organização de comunas populares.
Nos anos 1980, ampliou a abertura de empresas
privadas, inaugurando, assim, a denominada
economia socialista de mercado. Com isso,
o Estado deveria intervir na economia para
organizar e criar a política de desenvolvimento
interno, reduzindo as desigualdades sociais. Isso
não impediria, por sua vez, que a economia
de mercado funcionasse na busca de lucros e
alimentasse a riqueza nacional.
Foram criadas, em 1980, as Zonas Econômicas
Especiais (ZEEs), que ofereciam condições lucra-
tivas a investidores estrangeiros, como infraes-
trutura básica para a instalação de indústrias e
mão de obra barata. O baixo salário pago pelo
empresário capitalista é, em parte, compen-
sado por um salário indireto pago pelo Estado.
Esse se encarrega da saúde, da educação e dos
preços subsidiados para vestuário e alimentos,
entre outros itens. Com isso, a China foi se
incorporando cada vez mais à economia mundial
capitalista com preços muito competitivos. Nos
anos 1990, os produtos chineses passaram a ser
vendidos a preços vantajosos no mercado brasi-
leiro e no de outros países.
Entre 2000 e 2008, a economia do país cresceu,
em média, 9,1% ano. Em 2010, a China superou
o Japão e se tornou a segunda maior econo-
mia do mundo, na frente de França, Inglaterra e
Alemanha, atrás apenas dos Estados Unidos.
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Na foto, pode-se observar o trânsito na cidade de Pequim,
em 2009.
O grande crescimento econômico da China
trouxe também novos problemas, como o dese-
quilíbrio ambiental, a poluição, grande emissão
de gases efeito estufa e dificuldades para a vida
cotidiana das grandes cidades. Somente entre
2008 e 2009, cresceu 63% o número de veículos
em Pequim, passando a marca de 1 milhão de veí-
culos. Nos primeiros sete meses de 2009, a China
vendeu 7,2 milhões de veículos. O resultado disso
são as enormes filas de carros que se acumulam
pelas avenidas das maiores cidades do país.
na ilha toda vez que seus cidadãos tivessem sua
segurança ameaçada. A emenda permitia, tam-
bém, que os norte-americanos instalassem uma
base militar em Guantánamo. Dessa forma, esta-
va aberta a porta para que os norte-americanos
estivessem presentes na região, que, além de
despertar o interesse militar, transformou-se em
grande ponto turístico, no qual a prostituição e os
cassinos proliferaram. Em relação às empresas
norte-americanas, estas dominaram o comércio
exterior de certos produtos, como açúcar, miné-
rios e fumo. A presença estrangeira na ilha per-
sistiu durante as primeiras décadas do século XX.
Em 1933 a emenda Platt foi revogada, mas os
interesses norte-americanos continuaram a pre-
valecer, já que os governantes eram subservientes
aos interesses do país vizinho. Nesse período,
greves e protestos populares contestaram o poder
ditatorial do presidente Gerardo Machado, que aca-
bou deixando o cargo. Formou-se um novo gover-
no nacionalista, que repudiava a influência norte-
-americana. No entanto, logo um golpe de Estado
foi tramado com o apoio dos Estados Unidos.
Em 1940, depois de aprovada uma nova
Constituição para o país, o militar Fulgêncio
Batista foi eleito presidente. Ele já havia se des-
tacado em 1934 por participar do golpe de Estado
que havia derrotado os nacionalistas. Nos anos
1950 voltou ao poder, mas dessa vez instalou uma
ditadura no país, revogando a Constituição e
fechando o Congresso. O governo norte-americano
apoiava as medidas de Batista e continuava a ter
forte influência sobre a ilha.
Iniciou-se então um processo de oposição à
ditadura de Fulgêncio Batista. Entre os opositores
estava Fidel Castro, formado em Direito pela
Universidade de Havana, que em 1953 organizou
o ataque ao quartel de La Moncada, localizado
em Santiago de Cuba. Este seria um primeiro
passo da ofensiva contra o governo de Batista.
Era esperado o apoio popular para iniciar uma
luta armada. Contudo o grupo rebelde que invadiu
o quartel não teve sucesso militar e Fidel acabou
sendo preso e condenado.
Em 1955, após uma campanha pela libertação
de presos políticos, Fulgêncio Batista anistiou
Fidel. Ele e seus companheiros partiram para o
México, de onde Fidel e seu grupo, o qual incluía
o guerrilheiro Che Guevara (1928-1967), começa-
ram a organizar uma campanha contra a ditadura
cubana. Em 1956, voltaram a Cuba e realizaram
um ataque às forças de Batista. Tendo sido der-
rotados, parte do grupo fugiu para a região de
Sierra Maestra, encontrando lá outros grupos
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A Revolução Cubana
Desde fins do século XIX, Cuba, ilha localizada
na entrada do Golfo do México e dominada pelos
espanhóis, era bastante dependente dos Estados
Unidos (cerca de 150 km separam os dois países).
A região era, para os norte-americanos, uma base
militar estratégica na América Central, pois, loca-
lizada no Oceano Atlântico, estava próxima tam-
bém do Pacífico (vale destacar que, nessa época,
os Estados Unidos já negociavam a construção
de um canal ligando os dois oceanos, no atual
Panamá). Sua independência ocorreu em 1898, sob
a liderança de Jose Martí, poeta antiescravagista e
contrário ao domínio colonial. Os norte-americanos
declararam guerra à Espanha durante o processo
de luta dos cubanos contra a metrópole, que logo
reconheceu a derrota. Em Paris foi assinado um
tratado de paz, e os Estados Unidos passaram a
ter o controle dos territórios de Porto Rico e das
Filipinas como recompensa de guerra.
Em 1901, os norte-americanos conseguiram
fazer que o Congresso cubano aprovasse a emen-
da Platt, que admitia a interferência estrangeira
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guerrilheiros e a facilidade de se esconder por
causa das muitas montanhas do local. Ao mesmo
tempo, muitos camponeses e outros habitantes
dessa porção sul da ilha começaram a apoiar o
grupo revolucionário como forma de protesto ao
governo ditatorial e às precárias condições de
vida em que se encontravam. Em 1957, o grupo viu-
-se fortalecido pelas várias greves e protestos que
ocorriam no país contra a ditadura de Batista. O
governo procurou, com apoio dos Estados Unidos,
reprimir o movimento. Em fins de 1958, os rebeldes
liderados por Fidel já dominavam grande parte da
ilha, tendo até mesmo um governo próprio. Foram
criadas escolas, hospitais, estradas e fábricas.
Nesse mesmo ano, Che Guevara havia organiza-
do uma rádio que transmitia discursos de Fidel
Castro em defesa da reforma agrária.
No segundo semestre de 1958, o grupo que
havia dominado a região de Sierra Maestra come-
çou a marchar em direção a Havana. Soldados
do exército legal aderiram ao movimento, assim
como a grande maioria dos trabalhadores. Em
dezembro, sob a liderança de Che Guevara, os
rebeldes tomaram a cidade de Santa Clara e impe-
diram que soldados que passavam de trem pela
região chegassem ao leste, onde se insurgiam
os revolucionários. Diante disso, em 1
o
de janeiro
de 1959, com Havana dominada e a revolução se
espalhando pela ilha, Fulgêncio Batista deixou o
poder e saiu de Cuba sem nenhum apoio popular
e sob a ameaça dos guerrilheiros. O ministro da
Suprema Corte, Carlos Piedra, assumiu o governo.
Em 8 de janeiro Fidel entrou em Havana, tornando-
-se, em 16 de fevereiro, primeiro-ministro de Cuba.
Logo que assumiram o poder, os revolucionários
implantaram medidas que iriam ao encontro do
chamado programa da Moncada, ou seja, do núcleo
rebelde que inicialmente havia lutado contra a dita-
dura de Fulgêncio Batista. O sociólogo Emir Sader
faz referência a algumas das medidas adotadas:
O novo governo decretou a redução de 50% nos
aluguéis, de 25% nos preços dos livros escolares,
de 30% nas tarifas de eletricidade e, em porcenta-
gens variadas, nos preços dos remédios. Foi supri-
mida qualquer possibilidade de despejo dos inqui-
linos de suas casas. Para combater a especulação
financeira, praticada especialmente pelos grandes
magnatas que fugiram do país com Batista [...] no
plano do combate à imoralidade reinante, além das
expropriações feitas conforme a Lei de Confisco de
Bens Malversados e dos processos penais corres-
pondentes, atacou-se a enorme rede de cassinos,
ligada diretamente às casas de prostituição e
ao comércio de drogas que imperava livremente
População de Havana em frente ao palácio presidencial, em
apoio à revolução (1
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de janeiro de 1959).
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em Cuba. O país havia sido transformado pela
máfia ianque em antro de jogo para a burguesia
norte-americana [...]. Foi proibida a construção de
monumentos, a afixação de retratos de pessoas
vivas ou placas com seus nomes em lugares pú-
blicos, para evitar formas de culto à personalidade.
Os quartéis foram transformados em escolas,
inclusive o quartel Moncada, em Santiago de
Cuba, que passou a se chamar Cidade Escolar 26
de Julho, e o quartel Columbia, que, por sua vez,
passou a se denominar Cidade Escolar Liberdade.
SADER, Emir. A Revolução Cubana.
São Paulo: Moderna, 1985. p. 44-5.
Em maio de 1959, Fidel assinaria ainda a lei de
reforma agrária. A partir de 1961, ocorreu de manei-
ra mais efetiva o processo de rompimento defini-
tivo com os Estados Unidos, e Cuba ficou econo-
micamente isolada na América. Várias empresas
de capital norte-americano sofreram intervenção
do governo cubano e outras foram nacionalizadas,
como é o caso de companhias petrolíferas que
atuavam na região. Nesse período, Fidel começou
a estreitar suas relações com a União Soviética,
assumindo sua admiração pelo socialismo. Selou
ainda aliança com o Partido Socialista Popular
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(PSP), de orientação comunista, criando o Partido
Único da Revolução Socialista, que depois se tor-
nou Partido Comunista Cubano (PCC).
Em 1961, as pressões norte-americanas con-
tra Cuba aumentaram. Logo no mês de janeiro,
o governo dos Estados Unidos rompeu relações
diplomáticas com a ilha revolucionária. Em abril
desse ano, aviões bombardearam o aeroporto de
Santiago de Cuba. Ainda no mesmo mês, cerca
de 1 500 homens invadiram uma praia na Baía dos
Porcos, no litoral sul da ilha. Eles supostamente
estariam recebendo apoio aéreo de aviões com
insígnias cubanas. Com isso, pretendia-se forjar
uma rebelião nas forças militares cubanas. Houve
reação do exército de Fidel e o grupo não conse-
guiu avançar. A perspectiva norte-americana de
que a população cubana apoiaria os contrarrevo-
lucionários não se concretizou. Muitos soldados
norte-americanos foram presos e, mais tarde, tro-
cados com o governo opositor por medicamentos
e alimentos. Em 1962, os Estados Unidos decreta-
ram o bloqueio econômico a Cuba.
Nos anos 1980, apesar do bloqueio econômico
comercial das nações capitalistas, já havia sido
vencido o desemprego, combateram-se as drogas
e a prostituição, erradicou-se o analfabetismo,
eliminou-se a miséria e realizou-se intenso com-
bate à discriminação racial. O bloqueio norte-
-americano tornou obrigatório o racionamento de
vários produtos, como alimentos, combustível e
outros gêneros de primeira necessidade.
Na década de 1990, uma das alternativas do
governo cubano para enfrentar o bloqueio comer-
cial imposto pelos Estados Unidos e dinamizar
a economia local foi o estímulo ao turismo, que
atualmente constitui uma das receitas mais impor-
tantes do Estado cubano. É preciso lembrar que,
com o desmantelamento da União Soviética em
1991, Cuba deixou de ter um importante apoio
político e econômico. Nos anos 1970, a economia
cubana havia se integrado ao Conselho Econômico
de Assistência Mútua (Comecon), formado pela
URSS e por países do Leste Europeu. Graças a isso
Cuba tinha um mercado seguro para suas expor-
tações e a garantia do abastecimento de petróleo.
Mais da metade das exportações cubanas nesse
período eram destinadas à União Soviética.
Em julho de 2006, Raul Castro, irmão de Fidel
Castro, assumiu o poder devido à saúde debilitada
de seu irmão. Em fevereiro de 2008, Raul Castro
assumiu oficialmente a presidência.
Em 1
o
de janeiro de 2009 a Revolução Cubana
completou cinquenta anos. Durante as comemo-
rações em Cuba, os meios de comunicação de
todo o mundo indagavam qual seria o futuro do
socialismo na ilha.
Dentre as críticas formuladas ao regime políti-
co cubano, está a falta de liberdade de expressão
no país, uma vez que os meios de comunica-
ção e a vida política são fortemente contro-
lados pelo Estado. Em 2006, conforme relatório
Fidel Castro e Che Guevara em Havana, 1960. Após a tomada
do poder, Guevara tornou-se embaixador, presidente do Banco
Nacional e ministro da Indústria. Em 1965, deixou Cuba para propa-
gar os ideais da Revolução Cubana em outros países da América.
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À direita, um carro antigo e uma construção em péssimo estado de
conservação fazem parte do cotidiano de Havana (2009) e contrastam
com saúde e educação de boa qualidade. Abaixo, no outdoor de 2009,
a propaganda da revolução continua presente: “Revolução é: defender
valores nos quais se acredita ao preço de qualquer sacrifício”. São mui-
to presentes na cidade de Havana outdoors com propagandas oficiais
e dizeres de Fidel Castro e Che Guevara fazendo a defesa dos ideais da
revolução e posicionando-se contra os Estados Unidos.
da ONG Repórter sem fronteiras, somente 2% da
população tinha acesso à internet. Ainda confor-
me a ONG, isso ocorria, em parte, porque
o governo cubano emprega diversos mecanismos
para garantir que a internet não seja usada com
fins “contrarrevolucionários”. O governo pratica-
mente baniu o acesso privado à internet – para
acessar sites e e-mails os cubanos precisam ir a
pontos públicos, como cibercafés e universidades,
onde é fácil monitorar o acesso. Além da vigilância
física, os cubanos estão sujeitos à monitoração
por software, já que o governo instala programas
nas máquinas que disparam alertas quando pala-
vras “subversivas” são digitadas. O regime asse-
gura ainda que a oposição e a imprensa indepen-
dente não tenham acesso à rede, evitando que eles
tomem contato com notícias fora da mídia cubana.
IDG Now! Disponível em: <http://idgnow.uol.com.br/
internet/2006/10/20/idgnoticia.2006-10 -20.1697749614>.
Acesso em: 21 fev. 2011.
Discursando em favor de reformas liberalizantes,
Raul Castro abriu, em 2008, o acesso a telefones
celulares no país e permitiu que cubanos se hospe-
dassem em hotéis antes apenas destinados a turis-
tas. Em 2011, o governo passou a permitir a viagem
de cubanos ao exterior, a compra e venda de imóveis,
além de tornar-se permitida a abertura de pequenos
negócios, que se coloca como uma alternativa para
reduzir o grande número de empregados do governo.
Vendedores e proprietários de pequenos negócios passam a
fazer parte da paisagem urbana de Havana, capital de Cuba,
no contexto de reformas econômicas que avançam na direção
da realização de negócios privados. Havana, 2012.
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PESQUISA
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a seção Contexto foram estudadas as revoluções socialistas da China, da Rússia e de Cuba.
Agora vamos fazer uma pesquisa para descobrir se existiram outras revoluções ou tentativas
de implementar o socialismo. Para iniciar sua pesquisa, utilize a linha do tempo das páginas
142 e 143 como referência de alguns movimentos revolucionários. Em seguida, consulte sites, jornais,
revistas etc. e procure responder as seguintes questões:
1. Outros países viveram experiências ou tentativas de implementação do socialismo? Quais?
2. E no Brasil? Existiu algum movimento socialista ou comunista brasileiro? Existem partidos polí-
ticos que defendem o socialismo ou o comunismo no Brasil atual?
Por fim, organize as informações levantadas para realizar uma apresentação para a classe confor-
me orientação do professor. Não se esqueça de que, em uma apresentação, é necessário clareza, além
de organização e uma conclusão bem formulada, com base nos dados apresentados.
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PONTO DE VISTA
Menos Estado e mais mercado
Roberto Campos
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s sobreviventes do naufrágio das esquerdas mundiais procuram hoje, por toda a parte, algu-
ma saída para seu universo ideológico desarvorado. Ao contrário do fascismo, derrotado
pelas armas e privado de respeitabilidade intelectual, ao fim da Segunda Guerra o regime
soviético não foi liquidado nos campos de batalha. [...] Começou, nos anos 80, a procurar inúteis
fórmulas para preservar a mitologia socialista com alguma eficiência de mercado, até ruir de vez, pelo
esgotamento do pouco de funcionalidade que ainda lhe restava.
No Primeiro Mundo, onde nunca tivera muito a oferecer, já estava exaurido [...]. No Terceiro Mundo,
porém, durante as três primeiras décadas do pós-guerra, os povos se viram confrontados com cabulo-
sas perguntas, para as quais o socialismo apresentava soluções categóricas, simples (e incorretas). [...]
Nos países menos desenvolvidos, o ressentimento da presença estrangeira e a angustiosa sensação
de inferioridade econômica e técnica diante das grandes potências “capitalistas” provocariam radica-
lismo político e nacionalismo às vezes extremos.
Depois das crises que se estenderam do fim dos anos 60 ao princípio dos 80, no entanto, o cenário
alterou-se em todo o mundo. Os povos começaram a perder suas ilusões sobre o papel do Estado
como instrumento do progresso econômico e da melhor distribuição dos bens sociais. Ao mesmo
tempo, foi ficando cada vez mais visível que o mercado era um regulador melhor e mais barato do
que as burocracias estatais. Cada vez mais caro e ridiculamente incompetente, o “Estado Social”
transformou-se de esperança de solução em problema intratável. [...] Ao invés dos resultados que se
propunham, os programas sociais tenderam a criar “subclasses” de pessoas dependentes, algumas
vivendo há três gerações da assistência pública, na indignidade de uma mendicância oficial burocra-
tizada. E as classes médias, chamadas a pagar a conta das benesses governamentais, passaram a pisar
no freio, cansadas dos resultados pífios de uma burocracia que consideram opressiva e inepta. [...]
É um engano – ou má-fé – dizer que os liberais (ou “neoliberais”) acham que o mercado é critério
supremo de distribuição dos bens deste mundo e o caminho da perfeição. A essência do projeto
liberal sempre foi, e continua a ser, a maximização da liberdade individual, sem confundir a econo-
mia de mercado com o paraíso terrestre. Herdeiro do humanismo e da tradição religiosa ocidental,
ele aceita os deveres fundamentais de humanidade e solidariedade em relação àqueles que não têm
como defender-se, ou que foram tocados pela desgraça.
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A diferença em relação ao socialismo está nos critérios de eficácia. O socialismo acha que a auto-
ridade do Estado, exercida pela burocracia, pode decidir o melhor para todos e cada um. Confunde
intenções com resultados, achando que identificar certos males é o mesmo que ser capaz de curá-los.
[...] De querer a poder, entretanto, vai uma distância muitas vezes intransponível. Além do que, cada
pessoa tem as suas próprias ideias de quais são os males deste mundo. O burocrata com emprego
estável numa estatal monopolística, por exemplo, acha um mal absoluto que capitais estrangeiros
venham a criar empregos em indústrias concorrentes...
A grande causa da reação liberalizante que se espalhou pelo mundo, a partir dos países altamente
industrializados, nos anos 80, foi que o público percebeu que os governos eram, como regra, maus
ou, quando muito, medíocres gestores econômicos. E que os custos do “Estado do Bem-Estar Social”
estavam excedendo de muito seus eventuais benefícios. [...]
CAMPOS, Roberto. Menos Estado e mais mercado. Folha de S.Paulo, 8 set. 1996.
Roberto Campos (1917-2001) foi um dos principais mentores do modelo econômico implantado pelos militares após o golpe
de 1964. Iniciando-se na carreira de diplomata em 1939, foi embaixador nos Estados Unidos e na Inglaterra. Participou da elabo-
ração do projeto de criação do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDE), vindo a ser seu presidente em 1958. No entanto,
destacou-se, sobretudo, pela atuação como ministro do Planejamento no governo militar de Castelo Branco, privilegiando uma
economia baseada nas exigências do mercado. Suas convicções econômicas renderam-lhe, mais tarde, o cargo de dirigente de
várias multinacionais no Brasil, como a Mercedes-Benz e a Olivetti. Na década de 1980, exerceu o mandato de senador, inte-
grando a ala conservadora do Congresso. Em 1993, esteve presente na formação do Partido Progressista Reformador (PPR), sob
a liderança do então prefeito de São Paulo Paulo Maluf.
Por que Cuba?
Antonio Candido
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m triste espetáculo é a alegria feroz com que os políticos e cidadãos que se dizem democra-
tas, os jornais, o rádio, a TV descrevem as dificuldades de Cuba, na alvoroçada esperança
de uma derrocada do seu regime. Parece que lhes dá prazer noticiar e comentar que faltam
alimentos e roupa, as máquinas agrícolas estão sendo puxadas por animais, a bicicleta substitui o
automóvel. Com certeza esperam que o regime odiado acabe na fome, na miséria e na desgraça
coletiva, a fim de pagar os sustos que deu.
Um dos pressupostos dessa atitude é que o socialismo não funciona. Provavelmente, para esses
críticos eufóricos o que funciona é a “democracia” brasileira, que só pode ser mencionada entre
aspas, pois tem não apenas mantido, mas cultivado e agravado a miséria de um povo que, cinco
séculos depois do Descobrimento, não sabe ler, vive doente, sofre todas as privações e, portanto,
serve de boa massa para os demagogos elegerem quanto aventureiro consiga vender a sua deteriorada
mercadoria política. Isso, quando as classes dominantes não resolverem salvar a pátria por meio do
singular instrumento “democrático” que são os golpes mais ou menos militares.
Mas o fato é que (repita-se pela milésima vez) o regime cubano conseguiu o que nenhum outro
tinha conseguido na América Latina: tirar o povo da sujeição torpe e dar-lhe o sentimento da própria
dignidade, graças à aquisição dos requisitos indispensáveis: a saúde, alimentação, relativa equiva-
lência de oportunidades, afastamento mínimo possível entre os salários mais altos e os mais baixos.
Nota-se que isso não é uma vaga esperança; é uma realidade. E mesmo que o regime cubano dure
apenas o tempo de uma geração, ele terá mostrado que o socialismo é possível nesta parte do mundo,
permitindo uma vida de teor humano em contraste com a iniquidade mantida pelas oligarquias.
[...] No entanto, embora seja importante discutir se há ou não métodos democráticos em Cuba,
creio que neste momento é ainda mais importante perguntar se o regime cubano propiciou ou não
um modo de vida que pode ser considerado socialista. A resposta é afirmativa, porque ele realizou
nesta parte do mundo o que os regimes oligárquicos conservadores nunca fizeram, e na verdade
nunca quiseram efetivamente fazer. E realizou mediante a tentativa de um novo tipo de Estado, que
se relaciona de maneira diferente com a sociedade, demonstrando a possibilidade de superar o capi-
talismo predatório a que estamos acostumados.
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1. Quais as críticas de Roberto Campos à esquerda e por que ele defende a economia de mercado?
2. Em que medida e por que Antonio Candido defende o socialismo cubano?
3. A biografia dos autores justifica a posição que assumem em seus textos?
4. Com base no que já foi estudado e nos seus conhecimentos, você concorda com os autores dos
textos ou discorda deles? Justifique.
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Antonio Candido de Mello e Souza é carioca, crítico literário e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP). Cursou a
Faculdade de Filosofia e a de Direito, abandonando esta no quinto ano. Seguiu carreira universitária, ingressando no corpo docente da
USP em 1942, como primeiro-assistente de Sociologia. Em 1945, obteve a livre-docência em um concurso de literatura brasileira, discipli-
na que o tornou conhecido por seus ensaios e análises humanistas. De suas obras, podemos destacar: Introdução ao método crítico de Silvio
Romero (1945), Formação da literatura brasileira (1959), Tese e antítese (1964) e Os parceiros do Rio Bonito (1964). Fora do meio acadêmico,
teve importante participação na história política brasileira, sendo um dos fundadores da União Democrática Socialista (1945), que deu
origem ao Partido Socialista Brasileiro dois anos depois, além de ser membro fundador do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980.
[...] Por tudo isso ela [Cuba] pôde efetuar uma síntese original e realizar nesta América encharcada
de iniquidade uma vida mais justa e mais igualitária, que representa algo insuportável para a prepotência
imperialista. Por isso, Cuba desperta em todos os conservadores um ódio quase irracional, que agora tra-
duz na alegria selvagem que ficou assinalada no começo deste artigo. Mas a coesão do povo cubano e sua
capacidade de resistência são simplesmente fenomenais. Esperemos que graças a elas possa vencer este
momento difícil e despertar no resto da América Latina a solidariedade indispensável para a sobrevivência
e o aperfeiçoamento do seu regime, impedindo o retrocesso sangrento com o qual contam os seus inimigos.
CANDIDO, Antonio. Cuba e o socialismo. In: SADER, Emir (Org.). Por que Cuba? Rio de Janeiro: Revan, 1992. p. 7-10.
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DOCUMENTOS
O stalinismo é um produto da velha sociedade
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Rússia empreendeu o mais grandioso salto para a frente da história,
salto que é a expressão das forças mais progressistas do país. Durante o
atual período de reação, cuja amplitude é proporcional à da revolução,
as forças da inércia tomam sua desforra. O stalinismo tornou-se a encarna-
ção desta reação. A barbárie da velha Rússia,
ressuscitada sobre novas bases sociais, assu-
me uma feição ainda mais repugnante, por-
que agora tem de valer-se de uma hipocrisia
sem precedentes na história.
Os liberais e social-democratas ocidentais,
obrigados pela Revolução de Outubro a pôr
em dúvida suas ideias envelhecidas, sentem
renascer suas forças. A gangrena moral da
burocracia soviética parece-lhes reabilitar o
liberalismo. [...] Contrapor-se democracia à
ditadura, com o intuito de condenar o regime
socialista em nome do regime burguês, reve-
la, do ponto de vista teórico, um espantoso
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Joseph Stalin (1879-1953) participou da Revolução Russa de 1917,
tornando-se secretário-geral do Partido Bolchevique com a morte de
Lenin, em 1924. Permaneceu no comando da União Soviética até sua
morte. Durante o período em que esteve no poder, tentou manter
a unidade ideológica e política do país por meio do uso do terror,
eliminando seus opositores, entre eles, Trotski. Implantou uma rede
burocrática que garantia privilégios aos membros do partido e elimi-
nava os dirigentes das responsabilidades perante o povo. Considerava
que a revolução socialista poderia acontecer em uma só nação e que
esta deveria ser implementada nas demais, como ficou claro durante a
Segunda Guerra Mundial, quando impôs o socialismo aos países que
conquistou. Depois de sua morte, vieram à tona os inúmeros crimes
cometidos sob seu comando, o que colaborou para sua imagem de
“traidor” dos ideais marxistas. [...] O stalinismo é um conglomerado
das monstruosidades do Estado assim como a história o criou; e é
também sua mais funesta caricatura e a máscara mais repugnante. [...]
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THESAURUS
1. Que críticas Trotski formula a Stalin?
2. O que diferenciava o stalinismo do trotskismo? (Caso seja necessário, releia a seção Contexto
deste capítulo.)
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INTERDISCIPLINARIDADE
A sociedade ideal
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magine que o mundo acabou e que só umas poucas centenas de pessoas sobreviveram. Imagine
que você faz parte de um seleto grupo de pessoas que tem a missão de repensar a sociedade.
Vocês devem assumir a gestão dessa nova sociedade. Para isso, é necessário responder às indaga-
ções: O que queremos? Como devemos e podemos organizar a vida do ser humano em sociedade?
Aproveitando tudo o que você estudou e conhece sobre os sistemas de governo e as teorias polí-
ticas – lembrando-se das cidades e dos impérios da Antiguidade, da Idade Média, do feudalismo,
do capitalismo, do socialismo e do anarquismo –, forme um grupo de quatro pessoas para discutir a
criação de uma sociedade ideal. Esta deve ser justa e oferecer liberdade e felicidade a todos.
A seguir, vocês encontram um roteiro de questões para facilitar o levantamento de todos os pon-
tos que devem ser levados em conta. Nosso objetivo é exercitar a imaginação intelectual, utilizando
como referência as formas de organização social que já conhecemos e estudamos. Prestem atenção
para a prática de um diálogo em que cada um deve levar em consideração o que ouviu para respon-
der às questões e apresentem argumentos para defender seus pontos de vista.
Organizem-se para registrar os resultados das discussões em relatórios e, depois, redijam um texto
final expondo a teoria do grupo. É possível que o professor organize um debate no qual cada grupo
terá de apresentar sua teoria política e social; portanto, caprichem!
Leon Trotski (1879-1940) foi um crítico ferrenho do stalinismo. Destituído dos cargos que exercia no Partido Bolchevique, foi
expulso da União Soviética em 1929, quando seu opositor se consolidou no poder. Considerava que a burocratização degenera-
va o Estado e o Partido, e que a revolução deveria sempre se expandir. Sua teoria mais famosa é a da “revolução permanente”,
na qual o socialismo deveria começar em escala nacional para depois se espalhar pelo mundo, estabelecendo uma integração
econômica e cultural entre os povos. Embora não tivesse em torno de si um grupo organizado, suas ideias influenciaram vários
revolucionários e pensadores, adeptos do trotskismo. Exilado no México, foi assassinado, em 1940, por um agente de Stalin.
VOCABULÁRIO
Kremlin: sede do governo da extinta União Soviética. Em russo significa “fortaleza”.
manancial de ignorância e má-fé. À infecção do stalinismo, realidade histórica, contrapõe-se a demo-
cracia, abstração supra-histórica. Mas a democracia teve também uma história, na qual os horrores
também não estiveram ausentes. [...]
[...] A Revolução de Outubro anulara os privilégios, declarara guerra às discriminações sociais,
substituíra a democracia pelo autogoverno dos trabalhadores, abolira a diplomacia secreta; esforçara-
-se para dar a mais completa transparência a todas as relações sociais. O stalinismo restaurou as
formas mais ofensivas de privilégio, conferiu à desigualdade um caráter provocativo, sufocou com
absolutismo policial a atividade espontânea das massas, fez da administração um monopólio da
oligarquia do Kremlin, ressuscitou o fetichismo do poder sob formas que a própria monarquia
absoluta não tivera sequer coragem de sonhar.
TROTSKI, Leon. Moral e revolução. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. p. 29-32.
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INTERDISCIPLINARIDADE
Questões que devem ser consideradas na discussão a respeito da formação de uma sociedade ideal:

Como seria a divisão de trabalho nessa sociedade?

Como seria a educação?

Todos teriam direitos iguais? Todos seriam iguais perante a lei?

Qual seria o papel das mulheres nessa sociedade? Seria diferenciado do papel dos homens?

Como se garantiria o respeito mútuo?

Seriam somente as leis que regulariam a ordem nessa sociedade?

A educação garantiria a ausência de violência no convívio humano?

Quem precisaria de polícia?

Se o dinheiro fosse extinto, a ganância desapareceria?

Se as pessoas fossem educadas para o respeito ao outro, a inveja seria eliminada?

Como se instauraria a justiça na organização social dessa sociedade?

O que é justiça?

É possível ser livre em sociedade?

O que é liberdade?

É possível eliminar o individualismo? Ou isso não é necessário?

É possível existir uma sociedade sem restrições?

É possível ser feliz em sociedade?
A força do dragão: uma geografia da China no atual cenário mundial
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ão 1,33 bilhão de pessoas distribuídas em 9,5 milhões de km
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, o quarto país do mundo em
extensão. Cerca de 55 etnias, com predomínio da maioria han, e dezenas de línguas e dialetos
configuram uma grande diversidade cultural. O país em questão é a China, onde, após a década
de 1970, a combinação entre a liberalização econômica, investimentos estrangeiros, uso intensivo da
mão de obra e a baixa carga tributária e do valor da moeda resultou em um vigoroso salto econômico,
com crescimento em torno de 10% ao ano há mais de uma década. Para viabilizar a modernização
econômica, foram constituídas as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), marcadas pela presença de
firmas estrangeiras e elevados investimentos externos. No início da segunda década do século XXI,
há sinais de que a China começa a se voltar para o seu mercado interno.
Na esfera política, trata-se de um regime fechado de partido único que persegue e silencia oposi-
tores de forma implacável. Isso inclui censurar acessos à internet. No plano geopolítico, o país possui
contendas com a Índia e o Tibete, este ocupado pelos chineses em 1950. As políticas de colonização
e fracionamento da unidade político-territorial implantadas pelos chineses procuram romper a iden-
tidade cultural tibetana.
O país é hoje a oficina do mundo, grande exportador de eletroeletrônicos, baterias para celulares,
peças para automóveis e computadores, roupas, calçados, brinquedos e uma infinidade de itens.
Importa petróleo de países africanos (Sudão, Angola) e do Oriente Médio e bens como a soja e o
ferro, trazidos do Brasil. Por outro lado, está a política do filho único, a falta de liberdades essenciais
e a degradação ambiental (a China está entre os maiores emissores de gases estufa), além das desi-
gualdades entre o campo e as metrópoles da faixa oriental.
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THESAURUS
Observe os mapas e responda às perguntas a seguir:
CHINA: ECONOMIA E CONFLITOS CHINA: INSTALAÇÃO DE USINAS
TERMELÉTRICAS A CARVÃO
1. Sobre as zonas de desenvolvimento econômico na China, responda:
a) Em que faixas do território elas estão?
b) O que as caracterizam do ponto de vista espacial (cidades, espaços produtivos etc.)?
2. O que se pode afirmar sobre a organização da fração do território que não está nas ZEEs?
3. A que se referem as zonas de conflitos assinaladas no primeiro mapa?
4. Comente a instalação e distribuição da produção de energia elétrica em usinas movidas a carvão.
O que isso representa do ponto de vista ambiental?
5. Escreva um texto dissertativo com suas conclusões e considerações finais sobre a organização
do espaço na China atual.
RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
ROTEIRO DE TRABALHO
Procedimentos

As questões a seguir se referem às revoluções
russa, chinesa e cubana. Antes de escolher as
alternativas corretas em cada teste, elimine as
incorretas. Para cada uma delas identifique o
erro e registre-o em seu caderno.

Na questão 2, fique atento, pois o que se pede é
a alternativa incorreta.

Na questão dissertativa, procure ser objetivo e
releia a resposta para conferir se o texto está
claro, se a gramática está correta e se não há
erros ortográficos.
Com base em FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico:
espaço mundial. São Paulo: Moderna, 2010. p. 104-105.
Com base em National Geographic Brasil.
China: no ventre do dragão, n. 98, maio. 2008, p. 70.
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1. (UEL-PR) Compreender o processo revolucioná-
rio socialista ocorrido na Rússia de 1917 implica
discernir historicamente os seus autores e as
atitudes assumidas por eles.
Desta forma, pode-se afirmar.
a) O partido comunista russo, criado por Marx
e Engels em pleno vigor da lei de exceção
imposta pelo Czar Nicolau II, adotou táticas
de guerrilha de elevada eficácia sociopolíti-
ca, vencendo assim a guerra revolucionária.
b) O processo revolucionário leninista colocou
um ponto final no período feudal soviético
dos Petrogrados, unindo os comerciantes
revolucionários das principais cidades e os
camponeses como anteriormente havia ocor-
rido na Revolução francesa de 1789.
c) O comandante do exército bolchevique,
Stalin, assumiu o poder no processo revo-
lucionário expulsando o Czar e nomeando
como seu líder no congresso socialista,
Trotski, organizador das barricadas sindicais
na Praça Vermelha.
d) Marx e Bakunin elaboraram os princípios
revolucionários de uma sociedade socialis-
ta, no entanto, devido aos intensos debates
entre eles sobre a forma como o processo
deveria ocorrer, distanciaram-se, tornando-
-se adversários.
e) Proudhon, exilado na Rússia, organizou os
operários em sindicatos comunistas que, na
revolução, se integraram ao exército vermelho
chefiado por Kerensky, estabelecendo a estra-
tégia da guerra total contra o exército branco.
2. (PUC-MG) Em outubro de 1917, os bolcheviques as-
sumiram o poder na Rússia. A Revolução Russa de
1917 anunciou o fim do capitalismo e o início do co-
munismo em escala planetária. Sobre a Revolução
Russa e a consolidação do socialismo soviético,
todas as afirmativas estão corretas, EXCETO:
a) Revelou-se um movimento de caráter radi-
cal, visto que morreram milhares de homens
defendendo suas posições e impondo um
sacrifício à população russa em nome de
uma revolução social.
b) Foi um movimento de ruptura no processo do
antigo Império Russo. A demolição quase ins-
tantânea do regime czarista significou uma
mudança no destino da Rússia e da Europa.
c) Revelou-se como um movimento perverso.
A ascensão do comunismo demonstrou um
socialismo com regime autoritário compará-
vel aos governos totalitários da Europa.
d) Foi um movimento isolado no processo de
modernização da Rússia empreendido pelo
Czar, refletiu os anseios do grupo dos cam-
poneses pela coletivização da terra.
3. (Uece-CE) “A história não admite erros.”
Che Guevara. In: WOLF, E. R. Las Luchas Campesinas
del Siglo XX. Siglo Veintiuno Editores, p. 367.
Acerca da Revolução Cubana, assinale a alter-
nativa correta:
a) Fulgêncio Batista faz um acordo com os
rebeldes, propõe rendição em troca de seu
exílio no exterior, enquanto as colunas assu-
mem o comando do governo cubano.
b) Após a vitória revolucionária em Cuba, Che
Guevara assume o comando militar e é
assassinado na tentativa de evitar uma inva-
são americana à ilha.
c) Comandadas por Camilo Cienfuegos, Che
Guevara, Fidel e Raul Castro, quatro colunas
foram ocupando, uma a uma, as cidades e
províncias da ilha cubana.
d) A OEA (Organização dos Estados Ameri-
canos) intermediou o diálogo e o acordo de paz
entre os rebeldes vencedores e os representan-
tes do então governo Fulgêncio Batista.
4. (FGV-SP) Com o afastamento de Fidel Castro
do poder, muitos especulam sobre o destino de
Cuba sem Fidel. Sobre a história de Cuba, desde
a independência, é correto afirmar que
a) a guerra de libertação contra a Espanha
ocorreu somente no final do século XIX, com
apoio da Grã-Bretanha, maior investidora de
capital na produção de açúcar na ilha, e tam-
bém dos Estados Unidos.
b) a imposição da Emenda Platt à Constituição
de Cuba assegurou aos Estados Unidos o
direito de nomear os presidentes cubanos, de
intervir na ilha e de instalar bases, como a de
Guantánamo.
c) o movimento guerrilheiro, que derrubou o
ditador cubano Fulgêncio Batista, liderado
por Fidel Castro e Che Guevara, declarou-se
comunista desde o início, o que provocou a
imediata oposição norte-americana.
d) a instalação de mísseis soviéticos em Cuba de-
sencadeou, além da invasão à baía dos Porcos,
um conflito militar entre os Estados Unidos e a
União Soviética, no auge da Guerra Fria.
e) o fim da União Soviética fez Cuba perder
seu grande parceiro comercial, o que agra-
vou os efeitos do bloqueio norte-americano
e forçou o país a buscar novos mercados e a
atrair o turismo.
5. (Fuvest-SP) Em outubro de 1949, Mao Tse-
tung, derrotando os nacionalistas, proclamou
a República Popular da China. Mostre a im-
portância desse fato no interior do chamado
campo socialista.
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RELEITURA
O fim da União Soviética
Eric Hobsbawm
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om o colapso da URSS, a experiência do “socialismo realmente existente” chegou ao fim. Pois,
mesmo onde os regimes comunistas sobreviveram e tiveram êxito, como na China, abando-
naram a ideia original de uma economia única, centralmente controlada e estatalmente plane-
jada, baseada num Estado completamente coletivizado – ou uma economia de propriedade coletiva
praticamente operando sem mercado. Será essa experiência, algum dia, renovada? Claramente não o
será na forma desenvolvida na URSS, nem provavelmente em qualquer outra, a não ser em condições
de uma guerra econômica total ou algo semelhante, ou em alguma outra emergência análoga.
[...] O fracasso da revolução em outros lugares deixou a URSS comprometida a construir sozinha o
socialismo, num país onde, pelo consenso universal dos marxistas em 1917, incluindo os russos, as con-
dições para fazê-lo simplesmente não estavam presentes. A tentativa de construir o socialismo produziu
conquistas notáveis [...], mas a um custo humano enorme e inteiramente intolerável, e daquilo que acabou
se revelando uma economia sem saída e um sistema político em favor do qual nada havia a dizer. [...]
Até onde o fracasso da experiência soviética lança dúvida sobre todo o projeto de socialismo tradi-
cional, uma economia baseada essencialmente na propriedade social e administração planejada dos
meios de produção, distribuição e troca já é outra questão. [...] O fracasso do socialismo soviético
não se reflete sobre a possibilidade de outros tipos de socialismo. [...]
A tragédia da Revolução de Outubro foi precisamente a de que ela só pôde produzir seu tipo de
socialismo de comando implacável e brutal [...].
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 481-2 (trechos selecionados).
A Ilha
Fernando Moraes
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maior crise econômica de toda a história da Revolução Cubana explodiu na tarde de uma
ensolarada quinta-feira, dia 21 de dezembro de 1991. Despachos das agências de notícias
davam conta de que os líderes de 11 das 15 repúblicas soviéticas, reunidos em Alma-Ata,
capital da República do Casaquistão, haviam decidido acompanhar as declarações de independência
da Rússia, da Ucrânia e da Bielo-Rússia, até então abrigadas sob o chapéu da URSS, e anunciar o
fim da federação. No lugar do colosso comunista nascia a Comunidade dos Estados Independentes,
comandada pelo presidente russo Boris Yeltsin [...]. A partir de então, as apostas que se faziam pelo
mundo afora não eram sobre se Cuba ia acabar, mas quando sumiria do mapa. [...]
Para a crise bater no dia a dia dos cubanos foi um pulo. A primeira medida que o governo tomou
para conter a hemorragia foi baixar um duríssimo racionamento de eletricidade, que deixava a popu-
lação 16 horas por dia sem energia. [...]
Quem chegasse a Cuba no auge da crise, começo da década de 1990, tinha a impressão de que
estava em um país-fantasma. Não havia um só veículo circulando pelas ruas: táxis, ônibus, carros
particulares, carros oficiais – nada.
[...] Até o mais empedernido revolucionário era obrigado a reconhecer que o naufrágio parecia próximo.
[...] Só havia, no entanto, uma forma de manter as conquistas obtidas na saúde pública e tentar
reeditar os áureos tempos dos esportes olímpicos: era preciso obter dólares. [...] É nesse momento
que Cuba decide abrir parcerias com grandes grupos hoteleiros internacionais...
[...] Uma das razões que levaram Cuba a demorar tanto tempo para descobrir o potencial turístico
do país foi a mal disfarçada má vontade dos setores mais duros da Revolução. Eles acreditavam que
abrir o país indiscriminadamente para o turismo era permitir a contaminação da juventude cubana
pelo que consideravam “vícios do capitalismo”, como a prostituição, as drogas e o consumismo.
MORAES, Fernando. A ilha. 30. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
Prefácio à edição, "Cuba revisitada um quarto de século depois", p 23-40 (trechos selecionados)
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ROTEIRO DE TRABALHO
1. Segundo Hobsbawm, que motivos levaram o socialismo soviético ao colapso?
2. Que caminho adotou Cuba nos anos 1990, conforme Moraes? Que relações podem ser feitas entre
o colapso da União Soviética e a necessidade de Cuba de construir novos caminhos nos anos 1990?
3. Com base na leitura dos dois textos, elabore uma justificativa para a frase de Hobsbawm: “O fra-
casso do socialismo soviético não se reflete sobre a possibilidade de outros tipos de socialismo.”.
MORAES, Fernando. A ilha: um repórter brasileiro no país de Fidel Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
Passados 25 anos da primeira edição de A Ilha, Fernando Moraes lançou, em 2001, uma nova edição desse livro. Originalmente
uma reportagem histórica sobre a Cuba socialista, o livro aborda temas como educação, saúde e reforma agrária, além de
anexos como uma entrevista com Fidel Castro. Nesta versão atualizada, o autor volta ao país e acrescenta um prefácio sobre
as diferenças sentidas após o fim da URSS, bem como a trajetória cubana para se livrar da crise que assola o país.
REIS FILHO, Daniel Aarão. A aventura socialista do século XX. São Paulo: Atual, 1999.
Uma abordagem ampla das experiências socialistas soviéticas, leste europeias, chinesas e cubanas. O livro mostra como,
no decorrer do século XX, o socialismo tentou ser implantado em diferentes contextos, que se interpenetraram. Entretanto,
o fim da União Soviética abalou todas essas tentativas, levando os países de regime socialista a impasses e revisões.
XINRAN. O que os chineses não comem. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Coletânea de textos de uma jornalista e escritora chinesa radicada em Londres sobre questões culturais, políticas e de
gênero que marcam a sociedade chinesa contemporânea.
Antes do anoitecer. Direção de Juliano Schnabel. Estados Unidos, 2000. (125 min).
Cinebiografia do escritor cubano Reynaldo Arenas, que foi perseguido em seu país e viveu exilado em Nova York.
Che (Parte 1). Direção de Steven Soderbergh. Espanha/Estados Unidos/França, 2008. (126 min).
Mostra a trajetória de Che Guevara, que se tornaria importante liderança da Revolução Cubana.
Che (Parte 2). Direção de Steven Soderbergh. Espanha/Estados Unidos/França, 2009. (131 min).
Mostra a trajetória de Che Guevara após o êxito revolucionário em Cuba até a sua morte.
Guantanamera. Direção de Tomás Gutiérrez Alea. Cuba/ Espanha/Alemanha, 1995. (102 min).
Com o nome sugestivo da base norte-americana em território cubano (na verdade, a base chama-se Guantânamo),
trata das questões relacionadas a Cuba atual. Uma decisão democrática cria normas para os funerais dos cidadãos,
com o objetivo de economizar combustível. O filme defende a importância da ilha em abrir as portas para a realidade
internacional, como meio de resolver a crise do país.
O encouraçado Potemkin. Direção de Sergei Eisenstein. Rússia, 1925. (74 min).
Exemplar cinematográfico do “realismo soviético”, foi financiado pelo Estado e divulgava os ideais da revolução socia-
lista. O tema do filme é a Revolução de 1905, contra o autoritarismo do czar. Nessa época, a Rússia era um país com
sérias dificuldades econômicas, agravadas pelas investidas colonialistas e pela guerra contra o Japão. As técnicas
utilizadas por Eisenstein fazem desta obra uma inovação para o cinema, com cenas ousadas, como a sequência da
escadaria de Odessa, em que as tropas do czar massacram homens, mulheres e crianças.
Outubro. Direção de Sergei Eisenstein e Grigory Alexandrov. Rússia, 1927. (74 min).
Filme que homenageia a Revolução Russa de 1917, quando os bolchevistas tomaram o poder. É o terceiro longa-metra-
gem do diretor soviético, feito com métodos experimentais e inovadores para o cinema da época. O objetivo é colocar
a massa como agente-herói e incentivar uma mobilização política transformadora.
Reds. Direção de Warren Beatty. Estados Unidos, 1981. (188 min).
John Reed, jornalista norte-americano, realizou a maior cobertura jornalística da Revolução Russa, criando o clássico
Os dez dias que abalaram o mundo. Ele é o tema deste filme, que retrata sua vida desde quando escrevia no periódico
soviético The Masses, no início do século, até sua participação na fundação do Partido Comunista dos Estados Unidos.
A presença de Reed na Revolução de Outubro rendeu-lhe o papel de herói na União Soviética, constatado em seu
enterro, ao lado do mausoléu de Lenin, com grandes honras.
Fórum Social Mundial. Disponível em: <www.forumsocial mundial.org.br>. Acesso em: 13 abr. 2013.
Site oficial do evento que acontece anualmente, para discutir políticas sociais e soluções que transformem o mundo.
É um bom espaço de discussões e novas opiniões sobre o combate à desigualdade social em um mundo globalizado.
Revolução Cubana nas páginas do Estadão. Disponível em: <www.estadao.com.br/especiais/a-revolucao-
cubana-nas-paginas-do-estadao,41834.htm>. Acesso em: 13 abr. 2013.
O site traz notícias e reportagens sobre a Revolução Cubana veiculadas nos últimos 50 anos pelo jornal O Estado
de S. Paulo.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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Relações de poder e vida cotidiana
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poder muitas vezes é caracterizado por sua negatividade, ou seja, ter poder
significa ter domínio sobre o(s) outro(s), ter privilégios adquiridos em detri-
mento do(s) outro(s). Os poderosos seriam os que têm mais direitos ou bens
do que os menos poderosos ou sem poder algum.
Será que as relações de poder não estão presentes também em nosso cotidiano?
Em nossas relações familiares e amorosas, nas instituições religiosas e até mesmo
em um simples jogo destinado ao lazer? Será que o poder não está ligado à própria
construção do sentido da vida em comunidade?
Para essa reflexão, precisaremos, antes de mais nada, construir um conceito de poder,
essencial à área de Ciências Humanas, ou seja, ao estudo da história dos conflitos e das
diversas mudanças produzidas pelos seres humanos no mundo em que vivemos.
Para começar, vamos ler o que disse a filósofa alemã Hannah Arendt, em 1958,
sobre as relações de poder:
O único fator material indispensável para a geração do poder é a convivência entre
os homens. Estes só retêm poder quando vivem tão próximos uns aos outros que as
potencialidades da ação estão sempre presentes; e, portanto, a fundação de cidades
que, como as cidades-estado, converteram-se em paradigmas para toda a organiza-
ção política ocidental, foi, na verdade, a condição prévia material mais importante do
poder. O que mantém unidas […] e o que elas, por sua vez, mantêm vivo ao permane-
cerem unidas é o poder. Todo aquele que, por algum motivo, se isola e não participa
dessa convivência, renuncia ao poder e se torna impotente, por maior que seja a sua
força e por mais válidas que sejam suas razões.
ARENDT, Hannah. A condição humana. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991. p. 213.
Neste capítulo introdutório da unidade, leremos vários textos que nos ajudarão a
compreender o conceito de poder para que possamos analisar o mundo contemporâ-
neo, em especial as relações de poder que se estabeleceram no século XX.
CAPÍTULO 8
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Paradigma: exemplo que serve de modelo.
Antônio Gaudério/Folhapress
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No século XIX, a mulher era totalmente submissa ao marido. Nesta pintura de estética naturalista, Arrufos, de 1887, de Belmiro
de Almeida (1858-1935), a mulher chora após uma briga e o homem mantém-se indiferente, fumando seu charuto. Observe a rosa
despedaçada no chão e o vaso quebrado na mesa. Conforme Goran Therborn: “O patriarcado tem duas dimensões básicas: a domi-
nação do pai e a dominação do marido, nessa ordem. […] A opinião predominante entre os detentores de poder foi bem expressa
por Cort van der Linden, um esclarecido e aristocrático liberal holandês, que declarou no Parlamento em 1900: ‘Em minha opinião,
o caráter de casamento, todavia, é incompatível com uma igualdade por princípio entre homem e mulher.’” (THERBORN, Goran.
Sexo e poder. São Paulo: Contexto, 2006. p. 29 e 33). Óleo sobre tela, 89,1 × 116,1 cm.
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Política e poder
João Ubaldo Ribeiro
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frase “a política tem a ver com o exercício do poder” não quer dizer muita coisa, principalmente
porque há inúmeras dificuldades para que se saiba o que é “poder”. Que significa “ter poder”?
Não pode ser simplesmente estar investido em algum cargo, pois acontece com frequência que
os ocupantes de um cargo qualquer se submetam à vontade de outras pessoas, não ocupantes de cargo
algum – as chamadas eminências pardas. Não basta, também, usar expressões como “carisma” ou “mag-
netismo” ou “poder do dinheiro”, pois isto tampouco explica muita coisa, ou não explica coisa alguma.
E, pior ainda, o poder só pode ser visto, sentido, avaliado, ao exercer-se. Para usar uma comparação
fácil, a situação é como a que existe antes do jogo entre um grande time de futebol e um clubezinho do
interior. O time grande tem poder de sobra para vencer os desconhecidos obscuros da cidade pequena.
Não obstante, pode ocorrer que, num jogo decisivo, o poderoso perca. Claro que não é uma coisa normal,
é uma exceção explicável de mil formas. Mas acontece, da mesma maneira que em situações equivalentes
na vida social, na coletividade, na administração pública. Ou seja, é em ação que se analisa o poder. É no
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processo, na inter-relação, não na elaboração intelectual abstrata. Antes, tudo está sujeito a fatores no mais
das vezes imprevisíveis. Assim é também, em tudo, o jogo disso a que chamamos vagamente de “poder”.
Portanto, devemos procurar outros elementos que tornem nosso conceito de política mais preciso.
Os americanos, muito práticos, costumam dizer que “o poder é a capacidade de influenciar o comporta-
mento das pessoas”. Isto ainda não explica o que vem a ser o tal poder, pois apenas troca uma palavra ou
outra – ficamos no ar sobre o que seria essa “capacidade”. Mas ajuda a entender que, se a política tem a ver
com o poder e se o poder visa a alterar o comportamento das pessoas, é evidente que o ato político possui
dois aspectos que aparecem de pronto: a) um interesse; b) uma decisão. Raciocinemos da seguinte forma:
a) se alguém deseja influenciar ou modificar o comportamento das pessoas, esse alguém tem um
interesse que deseja ver implementado pela modificação pretendida, seja ele ditado por conve-
niências pessoais, de grupo, religiosas, morais etc.;
b) o objetivo configurado pelo interesse só pode ser conseguido por uma decisão que efetivamente venha
a alterar o comportamento das pessoas – seja esta decisão imposta, consensual, de maioria etc.
Podemos assim tornar mais confortável e manobrável nosso conceito de política. Neste caso, a
política passa a ser entendida como um processo através do qual interesses são transformados em
objetivos e os objetivos são conduzidos à formulação e tomada de decisões efetivas, decisões que
“vinguem”. O termo “poder”, é claro, continua a ter utilidade, mas já sabemos que ele é enganoso
e vago. O que interessa é o desenrolar do jogo, acompanhado de seu resultado. Em linguagem mais
formal, o que interessa é o processo de formulação e tomada de decisões.
Para trocar em miúdos tudo isto, pode-se afirmar que a política tem a ver com quem manda, por
que manda, como manda. Afinal, mandar é decidir, é conseguir aquiescência, apoio ou até submis-
são. Mas é também persuadir. Não se trata, como já foi dito, de um processo simples, e ninguém
pode alegar compreendê-lo integralmente, apesar dos esforços dos estudiosos, que há milhares de
anos vêm tentando dissecá-lo, analisá-lo e categorizá-lo. Em toda sociedade, desde que o mundo é
mundo, existem estruturas de mando. Alguém, de alguma forma, manda em outrem; normalmente
uma minoria mandando na maioria. Este fato está no centro da política.
RIBEIRO, João Ubaldo. Política. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. p. 9-11.
João Ubaldo Ribeiro nasceu em 1941 na Ilha de Itaparica (Bahia). Um dos mais respeitados escritores brasileiros dos últimos
anos, fez carreira universitária na área de Ciências Sociais, chegando a ser professor da Universidade Federal da Bahia. Entre os
anos 1960 e 1970, passou a dedicar-se cada vez mais à literatura, publicando também crônicas em jornais.
A definição de poder
Bobbio, Matteucci e Pasquino
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m seu significado mais geral, a palavra poder designa a capacidade ou a possibilidade de agir,
de produzir efeitos. Tanto pode ser referida a indivíduos e a grupos humanos como a objetos
ou a fenômenos naturais (como na expressão “poder calorífico”, “poder de absorção”).
Se o entendermos em sentido especificamente social, ou seja, na sua relação com a vida do homem
em sociedade, o poder torna-se mais preciso, e seu espaço conceitual pode ir desde a capacidade geral de
agir, até a capacidade do homem em determinar o comportamento do homem: Poder do homem sobre o
homem. O homem é não só o sujeito, mas também o objeto do poder social. É poder social a capacidade
que um pai tem para dar ordens a seus filhos ou a capacidade de um Governo de dar ordens aos cidadãos.
BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco (Org.). Dicionário de política. 3. ed. Brasília: UnB, 1991. p. 933.
O que é poder?
Gerard Lebrun
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poder é mercadoria rara, que só podemos possuir à custa de outra pessoa. Ou ainda:
o poder que possuo é a contrapartida do fato de que alguém não o possui. Tomemos o
exemplo mais anódino: um professor pode ser amigo de seus alunos, deixá-los chamarem-no
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de “você” etc. Ainda assim, detém um poder (de dar-lhes notas) que os alunos não têm sobre ele. Isto
é o essencial. E é por isso que só se pode compreender uma relação intersubjetiva (em qualquer
plano que seja: profissional, comercial, sentimental) se for possível responder às questões: Quem está
em posição inferior? Quem está em posição superior? Quem é o soldado? Quem é o oficial? Se X tem
poder, é preciso que em algum lugar haja um ou vários Y que sejam desprovidos de tal poder.
A rejeição de Michel Foucault a essa definição de poder
Por que reduzir a dominação à proibição, à censura, à repressão escancarada? Por que só pensar no
poder enquanto limitador, dotado apenas do “poder do não”, produzindo exclusivamente a “forma
negativa do interdito”? O poder é menos o controlador de forças que seu produtor e organizador…
[…] Deixaremos, então, de representar o poder como uma instância estranha ao corpo social, e de opor
o poder ao indivíduo. Afinal de contas, ainda é muito tranquilizante interpretar o poder apenas como “um
puro limite imposto à liberdade”. Representação que, além disso, é muito grosseira. Na verdade, encontra-
mos as relações de poder funcionando em relações muito distintas na aparência: nos processos econômicos,
nas relações de conhecimento, no intercurso sexual… De modo que, “no princípio das relações de poder,
não existe, como matriz geral, uma oposição binária e global entre dominantes e dominados”.
Em suma, o poder não é um ser, “alguma coisa que se adquire, se toma ou se divide, algo que se deixa
escapar”. É o nome atribuído a um conjunto de relações que formigam por toda a parte na espessura
do corpo social (poder pedagógico, pátrio poder, poder do policial, poder do contramestre, poder do
psicanalista, poder do padre etc.). Por que, nestas condições,
conferir tanta honra ao tradicional e arcaico poder de Estado,
constituído na época das monarquias absolutas europeias?
LEBRUN, Gerard. O que é poder? São Paulo: Círculo do Livro, s.d. p. 137-9.
VOCABULÁRIO
Anódino: banal.
Intersubjetivo: relativo às relações
entre vários sujeitos.
Interdito: proibido.
Intercurso: relacionamento.
Gerard Lebrun nasceu na França em 1930 e lecionou Filosofia na
Universidade de São Paulo. Faleceu em 1999, em Paris.
1. Identifique a ideia central de cada um dos textos no que se refere à explicação sobre o que é poder.
2. Há diferenças ou semelhanças nas conceituações nos dois últimos textos?
3. Redija uma definição de poder tendo como base sua compreensão dos textos. Prepare-se para
defendê-la em um debate com os colegas de classe, sob a coordenação do professor.
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O texto a seguir, da historiadora francesa Michelle Perrot, fala sobre a mulher e as relações de poder
entre os gêneros. Leia-o com atenção e, em seguida, responda às questões do Roteiro de trabalho.
As mulheres, o poder, a História
Michelle Perrot
A
s relações das mulheres com o poder inscrevem-se primei-
ramente no jogo de palavras. ‘‘Poder’’, como muitos outros,
é um termo polissêmico. No singular, ele tem uma conota-
ção política e designa basicamente a figura central, cardeal do Estado,
que comumente se supõe masculina. No plural, ele se estilhaça em
VOCABULÁRIO
Polissêmico: que tem
vários significados.
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1. Explique a diferenciação que a autora realiza sobre o papel da mulher nos espaços públicos e
privados ao longo da história.
2. De que maneira o texto nos permite relacionar a mulher e o poder?
3. A mulher seria vítima da opressão masculina ou exerceria poder sobre os homens?
4. Na realidade em que você vive, como se estabelecem as relações entre os gêneros? Como são
as relações de poder entre homens e mulheres?
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fragmentos múltiplos, equivalente a “influências” difusas e periféricas, onde as mulheres têm sua
grande parcela.
Se elas não têm o poder, as mulheres têm, diz-se, poderes. No Ocidente contemporâneo, elas
investem no privado, no familiar e mesmo no social, na sociedade civil. Reinam no imaginário dos
homens, preenchem suas noites e ocupam seus sonhos.
“Somos mais do que a sua metade; somos a vida que vocês passam para seu sono e pretendem
vocês dispor o plano dos seus sonhos”, declara uma heroína de romance, nesse século XIX que, mais
do que qualquer outro, celebrou a Musa e a Madona.
As representações do poder das mulheres: imenso tema de investigação histórica e antropológica.
Essas representações são numerosas e antigas, mas muitas vezes recorrentes. Elas modulam a aula
inaugural do Gênesis, que apresenta a potência sedutora da eterna Eva. A mulher, origem do mal e
da infelicidade, potência noturna, força das sombras, rainha da noite, oposta ao homem diurno da
ordem e da razão lúcida, é um grande tema romântico, e, em particular, de Mozart a Richard Wagner,
da Ópera. Em Parsifal, a busca da “salvação consiste em exorcizar a ameaça que a mulher representa
para o triunfo de uma ordem dos homens”.
[…] Segundo um viajante inglês dos anos 1830, “embora juridicamente as mulheres ocupem uma
posição em muito inferior aos homens, elas constituem na prática o sexo superior. Elas são o poder
que se oculta por detrás do trono e, tanto na família como nas relações de negócios, gozam incon-
testavelmente de uma consideração maior do que as inglesas”. Mais prosaicamente, é a ideia muito
difundida de que as mulheres puxam os fiozinhos dos bastidores, enquanto os pobres homens,
como marionetes, mexem-se na cena pública. Inspiradora da decisão política, muitas vezes tomadas
“sobre o travesseiro”, a mulher, em si tão pouco criminosa, é a verdadeira instigadora do crime […].
As mulheres, além disso, não são exclusivamente forças do mal. São também potência civilizado-
ra, outro tema muito antigo reatualizado no século XIX pela insistência sobre a função educadora de
uma criança revalorizada. As mães possuem “os destinos do gênero humano”, escreve Louis-Aimé
Martin numa obra com título significativo: Da educação das mães de família, ou da civilização do
gênero humano pelas mulheres […].
Mas então as mulheres não deteriam de fato a realidade do poder? “E um sexo que se chama frágil
e no entanto exerce, seja sobre a família, seja sobre a sociedade, uma espécie de onipotência tanto
para o bem como para o mal”, prega o Padre Mercier […].
[…] A pesquisa feminista recente por vezes contribuiu para essa reavaliação do poder das mulhe-
res. Em sua vontade de superar o discurso miserabilista da opressão, de subverter o ponto de vista
da dominação, ela procurou mostrar a presença, a ação das mulheres, a plenitude dos seus papéis, e
mesmo a coerência de sua “cultura” e a existência dos seus poderes.
[…] Estudando “as burguesas do Norte da França no século XIX”, Bonnie Smith mostra a ativida-
de multiforme das “senhoras da classe ociosa” que, excluídas da empresa, tentaram reconstruir um
feminismo doméstico, apoiado na casa e na religião.
[…] Eu, por minha vez, quis substituir a representação dominante de uma dona de casa insignificante,
negligenciada e negligenciável, oprimida e humilhada, pela de uma “mulher popular rebelde”, ativa e
resistente, guardiã das subsistências, administradora do orçamento familiar, no centro do espaço urbano.
PERROT, Michelle. Os excluídos da história. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001. p. 167-172.
Michelle Perrot nasceu na França em 1928 e é professora emérita de História Contemporânea na Universidade Paris-VII. Além de
autora de outros livros, é co-organizadora da obra História das mulheres no Ocidente (em cinco volumes), em parceria com Georges Duby.
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Visite esses sites, leia parte de seus textos, observe as imagens e assista a alguns vídeos. Em
seguida, escolha dois deles e responda:
1. Qual a posição dessas organizações sobre o papel da mulher na sociedade em que vivemos?
2. De que maneira essas organizações analisam a relação entre homens e mulheres?
3. Quais lutas e desafios estão colocados para a mulher em nossa sociedade conforme as organi-
zações escolhidas?
4. Você concorda com as posições dessas organizações? Justifique.
NA INTERNET
Vamos realizar uma pesquisa na rede sobre o que se denomina movimento feminista, ou seja,
sobre a luta para fazer valer os direitos da mulher. Consulte alguns sites relacionados ao movimento
feminista, como, por exemplo:

Geledés
Instituto da mulher negra. Disponível em: <www.geledes.org.br>. Acesso em: 13 abr. 2013.

Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA).
Disponível em: <www.cfemea.org.br>. Acesso em: 13 abr. 2013.

Sempreviva Organização Feminista (SOF).
Disponível em: <www.sof.org.br>. Acesso em: 13 abr. 2013.
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A vida nas ruas e na Febem
Esmeralda do Carmo Ortiz
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li as meninas compensavam as carências namorando umas com as outras. Algumas namo-
ravam fixo, outras namoravam um pouco e depois iam trocando. E tinha as louquinhas, que
a gente chamava de “birozinhas”. Tinha umas que tentavam matar as outras, enforcar.
De vez em quando tinha briga entre as meninas, mais com as sapatões, porque uma tinha ciú-
mes da outra. Geralmente a história das meninas era de meninas sem pai, de estupro, de mãe que
bebe, pai que bebe, de abuso sexual, de uso de drogas. Tinha muitas sapatões. Mas as meninas não
mexiam comigo, não. Tinha as pais de rua, as sapatões namoradas das mães de rua. Eu entendi logo
como era lá dentro. A gente aprende.
Tinha mãe de rua que ficava sendo mãe de rua de alguém só porque tinha simpatizado com a
cara: “Gostei de você. Se quiser, com você ninguém vai mexer.”. Elas geralmente eram as mais fortes.
Na rua conheci uma tal de Gláucia e uma Vanusa, uma delas tinha ficado na Febem comigo. Passei a
andar com elas. Fui pra Praça da Sé e fiquei definitiva mesmo. Arrumei um mocó pra ficar, conheci o pessoal.
Quando queria ver meu irmão, eles me contavam onde meu irmão estava. Eles já sabiam que eu
era irmã dele, que chamavam de Marcelinho e era considerado lá na Praça da Sé. A turma dele os
outros tinham que temer. Eu fui conhecer o ambiente, procurar um lugar pra ficar, um mocó.
Fui parar no mocó da Avenida 23 de Maio, que eu não conhecia, mas era um lugar muito falado. Todo
mundo que eu via ia pro mocó. O mocó era onde tinha mais drogas, então era onde tinha mais movimento.
Comecei a andar pelos lados do mocó. Qualquer pessoa, se reparar bem, pode ver que debaixo
das pontes tem às vezes buracos feitos pelos ratos. A gente ia lá e terminava o trabalho: aumentava
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o buraco, do tamanho pra gente caber. Era só pegar um papelão e forrar o chão, porque é tudo de
areia debaixo da ponte, na parte que ela já está no chão. Assim a gente fazia o nosso mocó. Em alguns
cabiam umas vinte pessoas. No mocó era gostoso dormir porque era bem quentinho. Dormiam
meninos e meninas, às vezes só meninas, às vezes só meninos.
Lá também tinha essa de poder. O dono do mocó era homem e era o mais forte. Ele era mais res-
peitado, porque segurava o pessoal na pancada ou no respeito, numa boa. Alguns a gente respeitava
por consideração, outros por causa da pancada.
ORTIZ, Esmeralda do Carmo. Esmeralda: por que não dancei. 3. ed. São Paulo: Senac, 2001. p. 61 e 64.
Esmeralda do Carmo Ortiz nasceu em 1979, em São Paulo, tendo vivido até os oito anos pedindo esmolas pelas ruas da cida-
de com sua mãe e irmãos. Depois começou a dormir na rua e a consumir drogas. Esteve encarcerada na Febem (atual Fundação
Casa) por várias vezes. Conseguiu fugir da instituição mais de uma vez e, aos 11 anos, começou a roubar para sobreviver e con-
sumir drogas. Aos 16 anos voltou a estudar ainda como interna da Febem, e já desejava mudar de vida. Aos 17 anos foi integrada
ao Projeto Travessia (de uma ONG), por meio do qual recebeu apoio e pôde prosseguir nos estudos. Aos 19 anos precisou ainda
ser internada em uma clínica de recuperação de drogados. Aos 20 anos continuava a participar do Projeto Travessia e começou
a trabalhar, escrevendo também o livro Esmeralda: por que não dancei, no qual relata sua experiência nas ruas de São Paulo.
1. O que Esmeralda entende por poder?
2. Explique em que medida a relação de poder a que ela se refere se diferencia do poder político.
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RELEITURA
Leia o texto a seguir que relata as observações realizadas em um trabalho de pesquisa sobre as
relações de poder na escola. Em seguida, responda as questões
Diversidade, identidades e poder na escola
Maria Aparecida Souza Couto
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educação formal promovida pela escola é responsável pelo ensino de conhecimentos téc-
nicos/administrativos, através deles são produzidas representações sociais cujos sentidos
e significados são não só vivenciados pelos alunos/as como também propalados para fora
de seus muros; é local onde ocorre um processo de submetimento de pessoas a conhecimentos e
valores definidos como essenciais pela escola. É em si mesmo um processo de modelagem do sujeito
a conhecimentos e normas sociais vigentes em determinada sociedade em determinado momento
histórico. Portanto, o sistema educacional é um elemento fundamental na manutenção das relações
existentes de poder.
Sabe-se que a escola gera poder disciplinar; a espacialização disciplinar é parte integrante da arqui-
tetura escolar e se observa tanto na separação das salas de aula (graus, sexos, características dos alu-
nos) como na disposição regular das carteiras, coisas que facilitam, a rotina das tarefas e a economia
do tempo. Essa distribuição dos espaços organiza minuciosa e sutilmente os movimentos e os gestos
e faz com que a escola seja um “continente de poder”. Gestos, movimentos, sentidos são produzidos
no espaço escolar e incorporados por rapazes e moças, tornando-se parte de seus corpos. E todas
essas lições são atravessadas pelas diferenças, elas confirmam e também produzem diferenças.
(...) A contestação por parte dos alunos da cultura imposta pela escola é uma reação ao poder que esta
instituição tenta exercer. Ao rejeitar a cultura imposta, em parte ou em sua completude, os estudantes
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1. Em que medida para a autora se estabelecem relações de poder na escola?
2. Observe a imagem e indique quais aspectos do texto estão representados na imagem.
3. Como a autora interpreta a maneira como os estudantes se portam durante as provas? Qual a
posição da professora? Em que medida expressa uma relação de poder e uma forma de resistên-
cia dos estudantes ao poder?
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demonstram o seu desacordo com os ditames da escola, com isso tende a minar seu poder. A reação
dos estudantes às exigências da escola foi observada durante a aplicação das provas bimensais, quando
os estudantes permaneciam, em média, por cerca de quinze minutos na sala de aula para responder às
provas. De acordo com as docentes entrevistadas “eles mal lêem a prova e logo querem sair da sala”.
Para as docentes os alunos “não querem mais pensar, têm tudo fácil na televisão, na internet, a tecno-
logia esta aí, o mundo é rápido para eles, querem tudo de uma vez”. As docentes revelam que têm de
“baixar o nível de exigência”, pois, caso assim não procedam, o aluno será reprovado.
Texto apresentado no 9
o
Seminário Internacional Fazendo Gênero: Diásporas, Diversidades, Deslocamentos,
23 a 26 de agosto de 2010. Disponível em: <http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/resources/anais/
1278011913_ARQUIVO_DIVERSIDADE.pdf>. Acesso em: 20 maio 2013.
Sala de aula da Escola Estadual Euclides da Cunha, na cidade de Boa Vista (RR), em 2010.
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CHOMSKY, Noam. Para entender o poder: o melhor de Noam Chomsky. São Paulo: Bertrand, 2005.
O autor reinterpreta muitos acontecimentos do século XX e procura, a partir daí, explicar as relações de poder. São
palestras proferidas e vários textos escritos pelo pensador e reunidos nesta obra.
LEBRUN, Gerard. O que é poder? São Paulo: Círculo do Livro, s.d.
Nesta obra, o autor faz referências aos vários teóricos que estudaram o tema e analisa a questão do poder, levando em
consideração diferentes momentos históricos.
PINTO, Célia Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003.
A autora aborda as lutas das mulheres por direitos iguais, desde o século XIX até os anos 1990.
O quarto poder. Direção de Costa Gavras. Estados Unidos, 1997. (115 min).
Este filme coloca em destaque o poder da mídia de manipular informações e suas relações com a vida social.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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ão se pode afirmar que os movimentos anticolonialistas na América, ocorri-
dos a partir da segunda metade do século XVIII, fossem consequência direta
das novas ideias que surgiam na Europa. Sabemos, porém, que vários líderes
americanos foram leitores dos textos iluministas e concordavam com suas formula-
ções. As ideias do Iluminismo fundamentaram esses movimentos, mas várias outras
motivações incentivaram as elites locais, intelectuais e, em alguns casos, setores
populares a lutar contra o domínio colonial. No caso dos Estados Unidos, que não
pode ser considerado modelo para analisar a independência de outras colônias ame-
ricanas, o movimento separatista esteve diretamente ligado às ideias francesas, e
o próprio governo francês apoiou a luta contra os ingleses.
É possível até dizer que os acontecimentos norte-ame-
ricanos também ajudaram a alimentar o processo
revolucionário na França.
De qualquer forma, é nesse
contexto que vão se formar
as nações independentes da
América, ocorrendo a ruptura
definitiva com o pacto colonial,
como veremos neste capítulo,
que dá especial atenção ao pro-
cesso de independência brasileiro. É
evidente que nesses processos ocorre-
ram acirradas disputas de poder.
Movimentos anticolonialistas
e independências na América
CAPÍTULO 9
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Em 1776, os norte-americanos puseram abaixo o monumento nova-iorquino, Filhos da Liberdade, em homenagem ao rei inglês
Jorge III (acima, gravura francesa do século XVIII), da mesma forma que os revolucionários franceses derrubaram a estátua de
Luís XIV, em Paris (abaixo, no alto, em gravura do século XIX). Simbolicamente, estavam sendo destruídos a memória e os laços com
o passado monárquico, afirmando-se, a partir de então, o Estado republicano e independente, no caso dos Estados Unidos.
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LINHA DO TEMPO
1776 ¬ Independência dos Estados Unidos da América.
1788-1789 ¬ Inconfidência Mineira. Tentativa de separação de Minas Gerais da
metrópole portuguesa.
1791 ¬ Revolta de escravos no Haiti liderada por Toussaint-Louverture.
1798 ¬ Conjuração Baiana.
1804 ¬ Independência do Haiti, proclamada por Jean-Jacques Dessalines.
1806-1807 ¬ Bloqueio Continental. As tropas de Napoleão invadem Portugal e Espanha.
1808 ¬ Chegada da família real portuguesa ao Brasil, que se torna capital do
Império. Abertura dos portos brasileiros a outras nações.
1810 ¬ Primeiros movimentos de independência no México, na Colômbia, na
Argentina e na Venezuela.
1811 ¬ O Paraguai torna-se independente da Espanha.
1814 ¬ Restauração do trono espanhol por Fernando VII, o que intensificou a
reação da Coroa às independências americanas.
1815 ¬ O Brasil é elevado à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves.
1816 ¬ Independência da Argentina, proclamada em Tucumán.
1817 ¬ Insurreição Pernambucana no Brasil.
1818 ¬ Bernardo O’Higgins conquista a
independência do Chile, com o apoio do
general José de San Martín.
1819 ¬ Independência e formação da
Grã-Colômbia (região formada pela
Colômbia, pelo Panamá, pela Venezuela e
pelo Equador). Bolívar assume a presidência.
1821 ¬ Consolidação da independência do
México, declarada por Agustín de Iturbide.
O Uruguai é anexado ao Brasil com o
nome de Província Cisplatina.
Declaração de independência da
América Central; a Capitania-Geral da
Guatemala transforma-se na República
Federal da América Central.
1822 ¬ Independência do Brasil.
A República Federal da América Central
incorpora-se ao México.
1823 ¬ Criação do estado independente das
Províncias Unidas da América Central,
que a partir do ano seguinte passou a
chamar Federação Centro-Americana,
integrada por Costa Rica, El Salvador,
Guatemala, Nicarágua e Honduras.
1825 ¬ Consolidação da independência do Alto
Peru, atual Bolívia, sob a liderança de
Simón Bolívar e Antonio José de Sucre.
Bolívar é o primeiro presidente do
país, que recebe o nome de República
Boliviana em sua homenagem.
1826 ¬ A Nicarágua passa a fazer parte da
Federação Centro-Americana.
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José de San Martín e seus soldados,
em pintura anônima do século XIX.
Simón Bolívar, de Antonio Salas, 1825.
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1828 ¬ Independência da Província Cisplatina, que passou a se denominar República
do Uruguai.
1830 ¬ A Grã-Colômbia divide-se em Colômbia, Venezuela e Equador.
1839 ¬ Fim da Federação Centro-Americana.
1868 ¬ Início da primeira guerra pela independência de Cuba, que tem duração de 10 anos.
1895 ¬ Segunda guerra pela independência de Cuba, na qual morre o poeta José Martí.
1898 ¬ Cuba consegue a independência com a entrada dos Estados Unidos na guerra
contra a Espanha.
1966 ¬ A Guiana proclama a independência do Reino Unido, mas se mantém membro
da Comunidade Britânica.
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CONTEXTO
A Independência dos
Estados Unidos
Os Estados Unidos tornaram-se um país inde-
pendente em 1776. Até então eram 13 colônias
inglesas. No núcleo colonial que se formou ao sul
dos domínios britânicos da América, predominou
o trabalho agrícola em sistema de plantation,
grandes propriedades com trabalho escravo afri-
cano, voltadas para a monocultura e a exportação.
Foram colônias de exploração, produzindo tabaco,
consumido na Europa, além de algodão, arroz e
índigo (anil). No grupo do norte, na chamada Nova
Inglaterra, formaram-se colônias de povoamento,
desenvolvendo-se a pesca, a pecuária, atividades
comerciais e a produção de alguns bens manu-
faturados. Já as colônias centrais, mais hetero-
gêneas, abrigavam alguns centros comerciais e
urbanos, como a Filadélfia.
Apesar das muitas diferenças entre os núcle-
os coloniais, eles tinham em comum a depen-
dência em relação à metrópole, embora essa
dependência não se desse da mesma forma como
ocorria com as colônias portuguesas e espanholas.
Envolvida em várias guerras e conflitos internos
desde o século XVII, a Inglaterra não exerceu um
controle colonial rigoroso. Só a partir de meados do
século XVIII os britânicos procuraram impor maior
restrição à liberdade comercial de suas colônias.
Entre as guerras de que a Inglaterra participou
está a Guerra dos Sete Anos contra a França, que
ocorreu de 1756 a 1763. Os franceses estabelece-
ram, nesse conflito, uma aliança com grupos indí-
genas da América do Norte e invadiram algumas
colônias inglesas. Com a ajuda de colonos, o exér-
cito inglês conseguiu derrotar os franceses, além
de conquistar territórios de seu domínio, como
Québec, Montreal e outras possessões francesas
na África e na Ásia.
Apesar da vitória inglesa, os grandes custos
de guerra endividaram a metrópole, que decidiu
impor à colônia novos impostos a fim de sanear
as finanças britânicas. Essa política ia contra os
interesses dos colonos, que clamavam por maior
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Mural retratando a independência da
Bolívia, sob liderança de Simón Bolívar.
Pamplona, Colômbia.
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autonomia e não desejavam novas taxações
sobre sua produção. O conflito com a metrópole
ampliou-se quando o rei inglês Jorge III proibiu, em
1763, que os colonos avançassem nos domínios
indígenas da região entre os Montes Apalaches
e o Rio Mississípi, como vinham fazendo para
dominar novas áreas. Com a finalidade de evitar
a expansão do conflito com os indígenas e manter
a segurança das colônias, o rei inglês proibiu os
colonos de ocuparem esses territórios.
Em 1764, a Inglaterra impôs às suas colônias
norte-americanas a chamada Lei do Açúcar
(Sugar Act). Ela criava uma taxação adicional sobre
o açúcar que não fosse oriundo das Antilhas ingle-
sas. Com isso, colonos que compravam açúcar e
melaço de outras regiões para produzir rum, por
exemplo, seriam afetados. A lei traduzia a dispo-
sição inglesa de ampliar sua receita com a explo-
ração de suas colônias, além de demonstrar maior
rigor no controle do pagamento dos impostos.
No ano seguinte, em 1765, uma nova lei inglesa
viria a colocar definitivamente os colonos contra
a metrópole: a Lei do Selo. Por essa lei, todos
os documentos públicos, contratos, jornais e car-
tazes eram obrigados a receber um selo vendido
pela Coroa britânica. Mais uma vez ocorreram
protestos contra a metrópole e a essa nova forma
de taxação. Chegou a haver um boicote a produ-
tos ingleses e à utilização dos ditos selos, que
acabaram por ser abolidos em 1766.
Uma outra lei concedeu, em 1773, à Companhia
das Índias Orientais, o monopólio do comércio do
chá nas colônias norte-americanas, ou seja, todo
o chá consumido deveria advir de comerciantes
ingleses. Era a Lei do Chá (Tea Act).
Essas medidas da metrópole, que preten-
diam impor a lógica mercantilista de exploração
colonial, encontraram forte resistência nos colo-
nos. Por isso ganharam força, nessa porção da
América, os escritos iluministas que criticavam
o monopólio e o domínio colonial, tendo importân-
cia fundamental as ideias do filósofo inglês John
Locke, que defendia os direitos naturais do ser
humano: a liberdade e a propriedade. Sustentava
ainda que, quando esses direitos fossem ameaça-
dos, a pessoa teria o direito de se rebelar. Também
o inglês Thomas Paine teve importante influência
no processo de crítica à Coroa britânica. Em 1774
ele se mudou para a América e lá publicou, em
janeiro de 1776, um panfleto intitulado “Senso
comum”. Nesse folheto, ele atacava a Coroa e
reivindicava a independência das colônias.
Afirmava:
Uma das provas naturais mais fortes da loucura da
hereditariedade real é que a natureza a desaprova;
de outro modo, não a faria tão frequentemente
ridícula, dando à humanidade por leão um burro.
PAINE, Thomas. Senso comum. In: Os federalistas.
São Paulo: Abril, 1973. p. 58. (Os pensadores).
Em 1774 ocorreu o Primeiro Congresso
Continental da Filadélfia, que reuniu represen-
tantes de quase todas as colônias com a finalida-
de de redigir uma petição ao rei inglês, protestan-
do contra as medidas já adotadas (as chamadas
Leis Intoleráveis). O Congresso tornou-se uma
instância deliberativa em favor daqueles que se
opunham às ordens metropolitanas, mesmo sem
ter um caráter separatista.
É importante lembrar, como afirma o historia-
dor Leandro Karnal, que:
Não havia na América do Norte, de forma alguma,
uma nação unificada contra a Inglaterra. Na verda-
de, as 13 colônias não se uniram por um sentimen-
to nacional, mas por um sentimento antibritânico.
Era o crescente ódio à Inglaterra, não o amor aos
Estados Unidos (que nem existiam ainda) que tor-
nava forte o movimento pela independência. Mesmo
assim, esse sentimento a favor da independência
não foi unânime desde o princípio [...]. Na verdade,
as elites latifundiárias ou comerciantes das colô-
nias resistiram bastante à separação, aceitando-a
somente quando ficou claro que a metrópole dese-
java prejudicar seus interesses econômicos.
KARNAL, Leandro. Estados Unidos: a formação da nação.
São Paulo: Contexto, 2001. p. 81
Retrato do britânico Thomas Paine (1737-1809), crítico das mo-
narquias que atuou na defesa da Independência dos Estados
Unidos. Óleo sobre tela (sem dimensões, s.d.).
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Declaração de Independência dos Estados Unidos, 4 de julho de 1776.
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Em 1775, constituiu-se o Segundo Congresso
Continental da Filadélfia que seria o núcleo de
deliberações importantes: decidiu pelo rompimen-
to das relações comerciais com a Inglaterra e, em
julho de 1776, optou pela ruptura definitiva das
colônias com a metrópole. No dia 4 de julho foi
divulgada a Declaração de Independência, criando-
-se, assim, os Estados Unidos da América do Norte.
Essa situação deu início à Guerra de
Independência contra a metrópole, pois esta
não aceitava a decisão do Congresso. Os con-
flitos estenderam-se por sete anos, e os norte-
-americanos receberam apoio militar da França,
nação inimiga dos ingleses. Somente em 1783
a Inglaterra reconheceu a independência das
colônias norte-americanas. A Constituição dos
Estados Unidos foi promulgada em 1787, adotan-
do a República Federativa Presidencialista como
forma de governo.
Na história da independência dos Estados
Unidos, destacam-se alguns nomes como o de
Benjamin Franklin (1706-1790), intelectual
defensor da liberdade e da democracia e crítico
da escravidão. Lutou diretamente contra a domi-
nação colonial e participou da Declaração de
Independência. Além disso, foi embaixador ameri-
cano em Paris, onde articulou a ajuda francesa na
luta contra a Inglaterra.
Outra liderança da época, George
Washington (1732-1799), fazendeiro da Virgínia
(uma das colônias do Sul), se tornou chefe maior
das tropas americanas durante a guerra de inde-
pendência. Em 1789, tornou-se o primeiro pre-
sidente dos Estados Unidos. Por fim, devemos
lembrar da atuação de Thomas Jefferson (1743-
1826). Herdeiro de uma das mais ricas famí-
lias da Virgínia, estudou Direito e foi um adep-
to das ideias iluministas. Participou da reda-
ção da Declaração de Independência e tornou-
-se presidente dos Estados Unidos em 1801.
Percebemos, dessa forma, que o processo
de independência dos Estados Unidos não teve
um caráter popular, sendo a maior parte de suas
lideranças proprietários de terra e comercian-
tes descontentes com a política metropolitana.
A separação da metrópole viria atender às aspira-
ções desse grupo, que desejava maior autonomia
econômica. A escravidão, alvo de crítica de pen-
sadores do Iluminismo, mas desejada por produ-
tores agrícolas, seria mantida até os anos 1860.
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Revoltas contra a
metrópole no Brasil
Com a Revolução Industrial, iniciada em mea-
dos do século XVIII, interessava às potências
emergentes, especialmente a Inglaterra, deten-
tora da hegemonia internacional, a prática do
livre-comércio, ou seja, a abertura dos mercados
coloniais a seus produtos industrializados. Nesse
contexto, o antigo sistema colonial, baseado no
monopólio comercial, tornava-se um obstáculo ao
pleno estabelecimento do capitalismo industrial.
Paralelamente, fortaleciam-se, na colônia, interes-
ses contrários à manutenção do sistema colonial.
O desenvolvimento econômico e a expansão da
atividade mineradora tornaram asfixiante a explo-
ração metropolitana, com seus pesados tributos
e determinações monopolistas. Para os grandes
proprietários coloniais, o sistema passava a signi-
ficar um obstáculo ao acúmulo de riquezas.
De outro lado, a estrutura da sociedade colo-
nial se diversificava. A economia mais complexa
e a crescente urbanização propiciavam o surgi-
mento de novos setores não comprometidos dire-
tamente com as atividades voltadas à exportação.
Artesãos e pequenos comerciantes ressentiam-
-se da falta de perspectivas em uma sociedade
baseada na exploração escravista da propriedade
rural. O fim do pacto colonial tornava-se, assim,
uma aspiração disseminada por diversos setores
da colônia, tendo estado na origem das várias
revoltas ocorridas em fins do século XVIII e início
do XIX, como a Insurreição Pernambucana
(1817), a Inconfidência Mineira (1788-1789) e a
Conjuração Baiana (1798).
Nesse contexto, embora possamos afirmar
que as ideias iluministas francesas influenciaram
esses movimentos, não podem ser consideradas
sua causa direta, visto que alguns grupos sociais
já desejavam maior autonomia e o fim do pacto
colonial. Assim, não foram as ideias iluministas
que criaram o desejo de autonomia. Elas, na ver-
dade, só vieram a alimentar um desejo já antigo.
A Inconfidência Mineira refere-se ao plano
revolucionário que pretendia tornar Minas Gerais
uma República independente de Portugal. Antes
que os rebeldes executassem o planejado, uma
denúncia levou todos os revolucionários à prisão,
impedindo que o plano fosse levado adiante.
Em fins de 1788, parte da elite econômica e inte-
lectual de Vila Rica, atual Ouro Preto, incluindo-
-se aí advogados, funcionários da administração
colonial, poetas e mineradores, formou o grupo
que ficaria conhecido como os inconfidentes.
Vista de Vila Rica, tela de Henry Chamberlain (1796-1844), século XIX. A produção aurífera, no século XVIII, possibilitou a Vila Rica
tornar-se um dos principais aglomerados urbanos do Brasil, com um ambiente propício à abertura social, expansão das artes, circu-
lação de novas ideias e o movimento da Inconfidência Mineira. Aquarela sobre papel, 0,564 m × 0,664 m.
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As reformas pombalinas
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ntre 1750 e 1777, foram implementadas pelo Marquês de Pombal, ministro do rei de Portugal, D. José I,
um conjunto de reformas modernizadoras com o intuito de ampliar a eficiência administrativa do Império e
garantir maior lucratividade nos empreendimentos coloniais. Pombal procurou tornar mais eficaz a cobrança
de tributos para restabelecer os ganhos com a mineração no Brasil, que estavam em queda. Em 1750, foram reabertas
as casas de fundição, fechadas desde 1735, sendo proibida a comercialização de ouro em pó. Pombal incentivou
ainda o surgimento de novas culturas agrícolas e o ressurgimento da produção de outras. Com a criação das casas
de inspeção, procurou fortalecer o comércio colonial ao fiscalizar, regular os preços, aferir os pesos e a qualidade
dos produtos, protegendo, assim, os interesses dos produtores exportadores. Em Portugal, criou o Erário Régio para
controlar e centralizar os gastos da Coroa. Também foi intenção de Pombal reduzir a dependência portuguesa em
relação à Inglaterra. Para isso, fomentou o desenvolvimento industrial de Portugal.
Fundou, ainda, as Companhias de Comércio com a finalidade de fortalecer os grandes comerciantes do reino
e enfraquecer os estrangeiros. Dentre as seis empresas criadas, que detinham o monopólio do comércio da região,
estão a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão, criada em 1755, e a Companhia Geral de Pernambuco e
Paraíba, criada em 1759. Mais ao norte da colônia, no Pará e no Maranhão, Pombal entrou em conflito com os jesu-
ítas que detinham o monopólio da mão de obra indígena, impedindo que colonos a utilizassem para desenvolver
economicamente a região. Os conflitos com os religiosos fizeram com que o ministro determinasse a expulsão do
Brasil, em 1759, da ordem missionária Companhia de Jesus, da qual os jesuítas faziam parte. Já em 1757, Pombal
havia criado o Diretório dos Índios, que transferiu a administração das aldeias para civis. Dois anos antes, uma outra
resolução havia libertado os indígenas do Pará e Maranhão. Em 1758 seriam libertados em toda a colônia. Pretendia-
se que o indígena fosse integrado ao esforço de ocupação do território e utilizado como mão de obra pelos colonos.
Com a morte de D. José I em 1777, Pombal foi afastado do ministério e interrompeu-se o processo de moderni-
zação que tinha como inspiração as ideias ilustradas francesas de racionalização da administração do Estado.
Influenciados pela independência dos Estados
Unidos e pela leitura de autores iluministas (como
Diderot, Montesquieu, o abade Raynal e Voltaire),
defendiam a liberdade e a autonomia da colônia.
Além disso, após o afastamento do Marquês de
Pombal (leia o boxe abaixo) da administração
metropolitana, em 1777, ampliaram-se os confli-
tos entre a Coroa e a elite local, uma vez que sua
autonomia foi limitada e seus membros foram
substituídos por portugueses da confiança do
governador na administração colonial. O gover-
no de Portugal passou a controlar diretamente a
cobrança de impostos e procurou punir, com rigor,
os contrabandistas. Assim, mineradores, contra-
bandistas e aqueles que haviam sido afastados
da administração decidiram organizar a rebelião
contra o governo mineiro.
Em 1788, um novo governador, o visconde de
Barbacena, chegou à capitania de Minas Gerais
e instituiu a derrama. Tratava-se de um tributo
cobrado com a finalidade de sanar as dívidas acu-
muladas pelos mineradores que haviam deixado
de pagar o quinto do ouro. Desde 1750, a metrópo-
le exigia que fosse recolhida a quantia fixa de 1 500
quilos (100 arrobas) de ouro por meio do imposto.
Quando isso não ocorresse, após dois anos suces-
sivos, seria feita a derrama, ou seja, toda a popula-
ção local pagaria a diferença entre o que foi reco-
lhido e a meta estabelecida pela metrópole. Cada
habitante pagaria de acordo com suas posses. Em
1783, o quinto arrecadou para Portugal 62 arrobas
de ouro e em 1788 apenas 41 arrobas.
A notícia de que a derrama se realizaria acirrou
os ânimos contra Portugal, e tanto mineradores
como o restante da população da colônia mostra-
vam insatisfação com a medida autoritária. Nesse
contexto, os revoltosos definiram o plano rebelde.
Aproveitariam a insatisfação popular para depor
o governador e tomar o poder em fevereiro de 1789
– mês em que seria executada a derrama. Assim,
os rebeldes proclamariam uma república indepen-
dente em Minas Gerais. Dentre os 34 inconfidentes,
estavam os poetas Tomás Antônio Gonzaga
e Cláudio Manuel da Costa, o cônego Luís
Vieira da Silva, o padre José da Silva Oliveira
Rolim, José Álvares Maciel, Alvarenga
Peixoto e o alferes Joaquim José da Silva
Xavier, conhecido como Tiradentes.
No entanto, considerando que não haveria
recursos disponíveis entre os habitantes para
executar a derrama, o governador suspendeu a
cobrança do tributo. Ao mesmo tempo recebeu
uma denúncia de que a rebelião iria ocorrer.
O delator foi um dos inconfidentes, Joaquim
Silvério dos Reis, que o fez em troca do perdão
de suas dívidas com o governo.
Instaurou-se, então, o processo de prisão dos
rebeldes. Primeiramente, foi preso Joaquim José
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Ele se tornou símbolo da traição para a metró-
pole. Sua pena serviria como exemplo para todos
aqueles que tentassem trair a Coroa. Mais tarde,
no período republicano, sua memória foi resgata-
da como herói que lutou em defesa da república.
Outro movimento com pretensões separatistas
ocorreu na Bahia em 1798. Trata-se da chamada
Conjuração Baiana. O objetivo também era
fazer da capitania uma república. No entanto, não
se caracterizou somente como uma mobilização
da elite, uma vez que entre os conjurados estavam
várias pessoas pobres, trabalhadores escraviza-
dos, ex-escravos alforriados, soldados e artesãos.
Um outro destaque foi a participação de mulheres
afrodescendentes livres. Havia, entre seus líderes,
dois alfaiates, por isso o movimento também ficou
conhecido como Revolta dos Alfaiates.
Além de pregarem a proclamação da república,
seus líderes defendiam o fim da escravidão, o livre-
-comércio entre as nações, a separação entre
Estado e Igreja e a igualdade de direitos. O movi-
mento foi articulado pela sociedade secreta baiana
denominada Cavaleiros da Luz, que reunia pes-
soas de diferentes grupos sociais e atividades pro-
fissionais: havia um padre, um senhor de engenho,
um médico, um poeta, um farmacêutico e oficiais
militares. Nas reuniões da sociedade eram discuti-
das obras e ideias de autores iluministas franceses.
Com base nesses princípios (de liberdade, igualda-
de e fraternidade), os membros da Cavaleiros da
Luz realizaram um trabalho de propaganda com a
população pobre. Em agosto de 1798, foram distri-
buídos manifestos (panfletos) ao povo da Bahia em
que se defendiam os ideais apontados.
O governador da capitania, Fernando José de
Portugal e Castro, instaurou um inquérito para
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Praça da Piedade (Salvador), em foto do século XIX.
Nessa praça, foram executados alguns dos partici-
pantes da Conjuração Baiana, de 1798.
da Silva Xavier, que não pertencia à elite e era
propagandista do movimento. O poeta Cláudio
Manuel da Costa, que também foi preso, morreu
em sua cela de prisão. Embora a versão oficial
diga que ele tenha se suicidado, não se descarta
a hipótese de assassinato. Em seu depoimento,
Tiradentes assumiu sozinho a elaboração do
plano rebelde. Em abril de 1792, foi proferida a
sentença dos acusados. Alguns foram condenados
ao degredo em colônias portuguesas na África, e
Tiradentes foi enforcado e esquartejado conforme
lemos na sentença publicada naquela data:
Justiça que a Rainha Nossa Senhora manda fazer a
este infame réu Joaquim José da Silva Xavier, pelo
horroroso crime de rebelião e alta traição de que se
constituiu chefe e cabeça, na Capitania de Minas
Gerais, com a mais escandalosa temeridade con-
tra a real soberania e suprema autoridade da mes-
ma Senhora que Deus guarde. Manda que, com
baraço e pregão, seja levado pelas ruas públicas
desta cidade ao lugar da forca, e nela morra morte
natural para sempre, e que separada a cabeça do
corpo seja levada a Vila Rica, onde será conservada
em poste alto junto ao lugar da sua habitação,
até que o tempo a consuma; que seu corpo seja
dividido em quartos, e pregados em iguais postes
pela entrada de Minas, nos lugares mais públicos,
principalmente no da Varginha e Cebolas; que a
casa da sua habitação seja arrasada e salgada, e
no meio de suas ruínas levantado um padrão em
que se conserve para a posteridade a memória de
tão abominável réu e delito, e ficando infame para
seus filhos e netos, lhe sejam confiscados seus
bens para a Coroa e Câmara Real. Rio de Janeiro,
21 de abril de 1792.
DEL PRIORE, Mary (Org.). Documentos de História
do Brasil. São Paulo: Scipione, 1997. p. 37.
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Execução de líderes da Insurreição Pernambucana, em 12 de
junho de 1817, no Campo da Pólvora, em Salvador. PARREIRAS,
Antônio. Os Mártires, 1927. Óleo sobre tela, 71,5 cm 141 cm.
Antônio Parreiras nasceu em Niterói (RJ), em 1860. Em 1882,
ingressou na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro. Em
1888, foi para a Europa para estudar pintura em Veneza (Itália). Voltou
ao Brasil nos anos 1890, quando começou a realizar diversas pinturas
históricas, como é o caso de A conquista do Amazonas. Nos anos 1920,
era um pintor bastante conhecido no país. Faleceu em 1937.
prender os organizadores da revolta. Com a prisão
de um dos líderes, Luís Gonzaga das Virgens,
outros rebeldes, entre eles João de Deus e
Manuel Faustino, tentaram organizar uma frente
revolucionária para libertar o conspirador e iniciar
a tomada do poder. Antes disso, contudo, as forças
legais começaram a prender os revolucionários.
Em seguida foi criada a devassa (processo jurí-
dico para recolhimento de provas) contra os
prisioneiros, no total 33, sendo 22 deles afrodes-
cendentes e mestiços pobres. O médico Cipriano
Barata e Moniz Barreto, membro da Cavaleiros
da Luz, também foram presos. Alguns líderes
da Conjuração foram condenados à morte e ao
esquartejamento, outros foram enforcados ou chi-
coteados em praça pública. Quanto aos homens
de elite que participaram do movimento, parte
deles ficou presa por alguns meses e outra
parte foi libertada.
Apesar de seu fracasso, a Conjuração Baiana
foi um dos movimentos mais radicais de seu tempo,
pois propunha a igualdade fundada em princípios
democráticos e a criação de uma república, além
do fim da escravidão. Parte de seu fracasso pode
ser explicada pela resistência da elite em aceitar
propostas que condenavam a escravidão.
Por fim, devemos fazer referência à Insurreição
Pernambucana, de 1817, movimento separatista
ocorrido em Pernambuco.
Em março de 1817, o governador da capitania,
Caetano Pinto de Miranda Montenegro, recebeu
denúncia de que uma rebelião estava sendo tra-
mada contra o governo. Foram indicados como
conspiradores o capitão do regimento de artilha-
ria, Domingos Teotônio Jorge, e o comerciante
Domingos José Martins, além de outros sete
colaboradores. Depois de convocado o Conselho
de Guerra, decidiu-se pela prisão dos implica-
dos na conspiração; entretanto, no momento
da execução das ordens no regimento de arti-
lharia, os soldados reagiram: sob o comando do
capitão Pedro da Silva Pedroso, assassinaram o
brigadeiro Manuel Joaquim Barbosa de Castro,
comandante da tropa governista. Avisado do ocor-
rido, o governador refugiou-se no Forte do Brum
(no Recife), enquanto Domingos José Martins e
outros cinco acusados, que já haviam sido presos,
foram libertados. Com o apoio de muitos militares,
os rebeldes iniciaram sua ofensiva apossando-se
do Erário Régio do Recife e interceptando a muni-
ção que seria utilizada para enfrentar a rebelião.
No dia seguinte, os revoltosos dirigiram-se ao
Forte do Brum e obrigaram o governador a renun-
ciar. Foi organizado, então, um governo provisório,
para o qual foram eleitos membros dos diversos
setores da sociedade. O padre João Ribeiro de
Melo Montenegro foi nomeado o representante
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do clero; Domingos José Martins representava
o comércio; José Luís de Mendonça, a magistra-
tura; Manuel Correia de Araújo, a agricultura; e
Domingos Teotônio Jorge, o setor militar. Formou-
se um Conselho de Estado com cinco membros,
no qual se destacava a presença de Antônio
Carlos Ribeiro de Andrada.
O ideário político do movimento, profunda-
mente influenciado pelas ideias liberais em voga
na Europa, sustentava a luta contra o antigo sis-
tema colonial, a substituição da monarquia pela
república e a defesa da independência. Instalado
o governo provisório, o regime republicano foi
imediatamente adotado, devendo, em seguida,
ser convocada uma Assembleia para elaborar
uma Constituição. Os rebeldes receberam o
apoio de parte da elite produtora, especialmente
do setor algodoeiro, que esperava maior apoio da
metrópole para desenvolver essa atividade.
Conforme o historiador Carlos Guilherme Mota:
O movimento de 1817 fora a primeira e mais ra-
dical revolução anticolonialista no mundo luso-
-afro-brasileiro. Liderada por setores da burguesia
comercial nativa, porém internacionalizada, do
clero e da administração [...]. A revolução trouxe
um forte sentido de ruptura e fundação republi-
canista, verdadeira antecâmara do movimento
de Independência de 1822, abrindo o ciclo de
movimentos liberais-constitucionais [...]. Sempre
evocada, a Revolução de 1817, republicanista [...],
permaneceria referencial e paradigmática no pro-
cesso mais amplo de formação do Estado nacional.
MOTA, Carlos Guilherme (Org.). A experiência brasileira:
formação – histórias. 2. ed. São Paulo: Senac, 2000. p. 219.
(Viagem Incompleta)
Mas, apesar de o novo governo utilizar um
discurso em que defendia a soberania popular e
instaurar um regime formalmente representativo,
de acordo com as ideias francesas, o movimento
ficou restrito à camada dirigente pernambucana,
que, por meio da revolta, sustentava a luta contra o
sistema colonial. Com o objetivo de garantir o livre-
-comércio, direito conquistado em 1808 com a aber-
tura dos portos, muitos proprietários, negociantes
e donos de engenho engajaram-se na rebelião.
Embora apoiassem as ideias liberais e iluministas,
defendiam a manutenção da escravidão.
Assim, a Insurreição Pernambucana, que ini-
cialmente caracterizou-se pela forte presença de
filiados às “novas ideias”, foi aos poucos sendo
conduzida conforme os interesses de uma classe
dirigente em formação, avessa ao sistema colo-
nial. Para fortalecer a nova República e ampliar
sua força armada, procurou-se o apoio da Bahia,
de Alagoas, do Ceará, do Rio Grande do Norte
e da Paraíba. Todavia, somente nestas duas últi-
mas capitanias obteve-se adesão completa ao
movimento. Seus governadores foram depostos e
instalados governos provisórios.
As primeiras medidas para sufocar a rebelião
foram tomadas pelo governador da Bahia, conde
dos Arcos, que, sob ordens da Corte, organizou
uma frota para bloquear os portos de Pernambuco.
No dia 15 de abril chegaram os navios baianos ao
Recife. Dez dias depois, navios vindos do Rio de
Janeiro vieram reforçar o bloqueio. As províncias
do Rio Grande do Norte e da Paraíba foram rapi-
damente pacificadas e os chefes rebeldes, apri-
sionados. Em maio, a revolta já estava restrita a
Pernambuco. No dia 19 do mesmo mês, Recife foi
retomada pelos legalistas. Domingos José Martins,
José Luís de Mendonça e João Ribeiro de Melo
Montenegro foram fuzilados, enquanto Domingos
Teotônio Jorge e outros rebeldes foram enforcados.
O processo de
independência brasileiro
A independência brasileira relaciona-se com
as mudanças políticas e econômicas ocorridas
na Europa, as quais refletiram sobre o sistema
econômico mundial. Além disso, acirravam-se as
tensões coloniais, que opunham, cada vez mais, os
interesses dos colonos às medidas metropolitanas.
O processo de independência tomou impulso a
partir de 1808. Nessa época o Brasil passou a ser
o centro das decisões políticas e econômicas do
Império Português, com a transferência da família
real e sua Corte para o Rio de Janeiro, após a inva-
são de Portugal pelas forças de Napoleão. A cidade
tornou-se sede do Império Português. Uma vez no
Brasil, o príncipe regente D. João (sua mãe, Dona
Maria I, tinha sido afastada do trono), em troca da
proteção militar britânica, declarou a abertura dos
portos brasileiros às nações amigas de Portugal.
Quem mais se beneficiou com o decreto foram
os ingleses, que passaram a adquirir as matérias-
-primas brasileiras. Além disso, D. João celebrou
com a Inglaterra, em 1810, os Tratados de Comércio
e Navegação, concedendo-lhe privilégios tarifários
e livre acesso aos portos brasileiros.
Com a instalação da Corte lusitana no Rio de
Janeiro, os membros da burocracia reinol passa-
ram a investir na colônia, tornando-se proprietá-
rios de terras e envolvendo-se diretamente nos
negócios coloniais. Tornou-se prioridade para a
Coroa a melhoria dos serviços públicos na nova
capital e o desenvolvimento de uma rede de abas-
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O bloqueio continental
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bloqueio continental foi uma medida imposta pelo imperador francês Napoleão Bonaparte, em 1806,
decretando o fechamento dos portos europeus à navegação inglesa. Com o isolamento da Inglaterra, os
franceses esperavam debilitar a economia do reino britânico e assim vencê-lo na guerra que travavam em
torno da hegemonia política e econômica europeia. Portugal, aliado da Inglaterra, não acatou a determinação france-
sa. Em represália, a França, com o apoio da Espanha, ameaçou desmembrar Portugal em três Estados independentes,
delimitados pelo Tratado de Fontainebleau.
Em fins de 1807, o exército napoleônico, comandado pelo general Junot, invadiu Portugal. Sem condições de
resistir ao poderio militar francês, a família real portuguesa decidiu fugir para sua colônia na América. Nobres,
comerciantes, juízes, quadros superiores da administração e toda criadagem acompanharam a família real, totalizan-
do cerca de dez mil pessoas que desembarcaram no Rio de Janeiro em janeiro de 1808. Mas, poucos meses depois,
a Espanha, até então aliada francesa, retirou seu apoio, após a chamada “Traição de Baiona”. O monarca espanhol
e seu filho foram obrigados pelos franceses a abdicar ao trono. Em seguida, os regimentos espanhóis que estavam
em Portugal entraram em confronto com as tropas francesas e iniciou-se uma guerra de resistência que, com o apoio
inglês, terminou vitoriosa, em agosto de 1808. Ocorreram ainda mais duas invasões a Portugal até 1814, sendo a
França derrotada em ambos os casos. Com a queda de Napoleão em 1815 e a realização do Congresso de Viena, as
fronteiras europeias foram restauradas, tal como estavam configuradas antes das invasões napoleônicas.
tecimento que fornecesse aos novos habitantes
da colônia gêneros de subsistência, que eram
escassos por conta do rápido crescimento da
população da cidade. Assim, o Rio de Janeiro, que
foi modernizado com novas construções, escolas
e teatros e teve suas ruas alargadas e pavimenta-
das, entre outras melhorias, substituía Lisboa na
aplicação dos recursos públicos.
De outro lado, expulso o invasor francês, em
1810, Portugal encontrava-se com sua economia
arruinada não só pela guerra interna que tivera de
travar, mas, sobretudo, porque sua principal fonte
de renda, o comércio colonial, havia sido dras-
ticamente reduzida com a abertura dos portos
brasileiros ao comércio de outras nações. A situa-
ção tornava-se insustentável aos olhos dos portu-
gueses pelo fato de a Corte lusitana não parecer
disposta a retornar a Portugal, prolongando sua
estada indefinidamente na colônia e adotando
políticas que pareciam prejudicar ainda mais o
combalido reino. Cada vez mais se distanciavam
os interesses da burocracia reinol instalada no Rio
de Janeiro e os daqueles que haviam permanecido
em Portugal, especialmente a burguesia lusitana.
Em 1815, o Brasil foi elevado à condição de Reino
Unido a Portugal e Algarves, abandonando
definitivamente o estatuto de colônia.
As divergências entre os portugueses do reino
e a Coroa acabou por resultar na eclosão, em 1820,
em Portugal, da Revolução Liberal do Porto. Seus
objetivos fundamentais eram, de um lado, instau-
rar uma monarquia constitucional em Portugal e
obrigar o retorno da Corte para a metrópole e, de
outro, restaurar o pacto colonial. Os revolucioná-
rios eram liberais e antiabsolutistas. Para redigir
a Constituição, os rebeldes convocaram as Cortes
portuguesas (o Parlamento), para as quais foram
eleitos 170 deputados portugueses e 30 brasilei-
ros. As intenções dos representantes brasileiros
foram expressas pelo paulista José Bonifácio de
Andrada e Silva. Segundo ele, o Brasil deveria se
manter unido a Portugal, garantindo os privilégios
conquistados a partir de 1808, por meio do esta-
belecimento de uma monarquia dual, cuja sede
deveria revezar-se entre Rio de Janeiro e Lisboa.
No entanto, a face liberal da revolução portuguesa,
concretizada no intuito de substituir o absolutis-
mo vigente por uma monarquia constitucional,
tinha sua contrapartida no desejo de reconduzir as
terras de além-mar ao estatuto anterior a 1808.
Em abril de 1821, D. João VI (o título de D.
João VI veio com a morte de Dona Maria I, em
1816) foi obrigado a cumprir a exigência dos
constituintes e retornar a Portugal, deixando seu
filho Pedro como regente no Brasil. A partir de
então, a metrópole adotou medidas de restrição
à autonomia administrativa e comercial brasi-
leira. Instituições como o Desembargo do Paço,
o Conselho da Fazenda e a Casa de Suplicação
retornaram a Portugal. Além disso, foram restau-
rados privilégios portugueses existentes antes da
transferência da Corte para o Brasil.
A reação da elite articulada em torno do gover-
no do Rio de Janeiro foi imediata. Proprietários de
terra e traficantes de escravos optaram por fazer a
independência, única forma de impedir a recoloni-
zação, como queriam as Cortes portuguesas. Para
tanto, tiveram em D. Pedro um importante aliado.
O príncipe regente e a burocracia portuguesa que
permanecera na colônia aderiram à emancipação
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Embarque para o Brasil do príncipe regente de Portugal, D. João VI, e de toda a família real, no Porto de Belém, em 27 de novembro
de 1807. Pintura de Nicolas Delariva, c. 1808. Gravura rara, a partir de óleo, 40 cm × 54 cm.
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como forma de resistir aos novos ventos liberais
que sopravam na metrópole. Entre os articuladores
da recolonização, de um lado, e os emancipacio-
nistas, de outro, havia em comum a consciência de
que era necessário preservar a ordem escravista e
a hegemonia política da elite dirigente do governo
sediado no Rio de Janeiro. A constante ameaça
de revoltas escravas, ainda mais temidas após a
revolução vitoriosa dos escravos ocorrida no Haiti
em 1791, a permanente agitação das pessoas livres
pobres, a pressão que a Inglaterra exercia para
que fosse extinto o tráfico negreiro e a resistência
das diversas regiões americanas colonizadas por
Portugal em submeter-se a um governo centraliza-
do no Rio de Janeiro colocavam em risco a conti-
nuidade da ordem escravista.
A transferência da Corte e o enraizamento do
Estado português no Centro-Sul depois da vinda
da família real para o Brasil, em 1808, permitiram
à elite colonial conquistar as reformas almejadas
sem precisar arriscar-se com a luta armada. Esse
era o requisito fundamental para evitar a mobi-
lização dos demais setores sociais. Mobilização
perigosa, como ensinara a Conjuração Baiana,
pois trazia consigo reivindicações que as classes
dominantes não estavam dispostas a atender. Era
esse arranjo que a Revolução do Porto coloca-
va em perigo e que só a independência poderia
preservar. Em suma, a elite brasileira não queria
correr o risco de perder a autonomia em relação a
Portugal nem permitir que movimentos populares
colocassem em xeque a continuidade da escravi-
dão. O enraizamento da Corte na colônia permitiu
que o movimento pela emancipação permaneces-
se restrito aos grupos dominantes e que o governo
do Rio de Janeiro se tornasse a base a partir da
qual se estabeleceria um Estado forte capaz de
conter os demais setores.
O confronto acirrou-se quando, em setembro
de 1821, as Cortes ordenaram o retorno imediato
do príncipe D. Pedro a Portugal. Sob influência
de José Bonifácio e atendendo à solicitação da
Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em 9 de
janeiro de 1822, D. Pedro recusou-se formalmente
a retornar a Portugal, ato que ficou conhecido
como o Dia do Fico. Selava-se, assim, a aliança
entre o príncipe regente e as elites brasileiras,
em oposição ao projeto recolonizador português.
D. Pedro tornou-se, então, o principal instrumento
de conquista da autonomia política e econômica
para os proprietários e os negociantes da colônia.
Dois grupos disputavam a liderança do movi-
mento que resultaria na separação de Portugal.
O primeiro deles, dirigido por Joaquim Gonçalves
Ledo e José Clemente Pereira, defendia a inde-
pendência imediata e a instauração da república,
enquanto o grupo de José Bonifácio, reunido na loja
maçônica denominada Apostolado, pregava o regi-
me monárquico constitucional e uma transição lenta
para a independência. No entanto, acirradas as diver-
gências políticas com a metrópole, os monarquistas
constitucionais passaram a apoiar a independência
imediata. Nesse contexto, Bonifácio, ministro de
D. Pedro, proibiu os portugueses de serem admitidos
na administração pública e declarou inimiga qualquer
tropa portuguesa que desembarcasse no Brasil.
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Duas visões construídas da independência
Pedro Américo pintou a tela Independência ou morte! mais conhecida como O grito do Ipiranga (acima) em 1888. François René
Moureaux criou a tela Proclamação da Independência (abaixo) em 1844. O grito do Ipiranga foi realizado pelo artista por encomenda
de D. Pedro II, imperador do Brasil, em um contexto de crise da monarquia. Ele procurou dar grandiosidade ao evento, fazendo dele
uma heroica vitória do então príncipe Pedro, depois imperador D. Pedro I. A guarda de honra, vestida de branco na obra, ainda não
existia. Não era comum a utilização de cavalos em viagens como a que fazia, em geral utilizavam mulas. Na obra de Moureaux, a
Independência do Brasil é mostrada como um evento popular, no qual o imperador é aclamado pela população. As pessoas parecem
felizes e se cumprimentam festejando esse acontecimento.
AMÉRICO, Pedro. O grito do Ipiranga, 1888. Óleo sobre tela, 415 cm × 750 cm.
MOUREAUX, François René. Proclamação da Independência, 1844. Óleo sobre tela, 244 cm × 383 cm.
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A ruptura definitiva veio com o anúncio do
governo lusitano de que enviaria tropas ao Brasil
para pressionar D. Pedro a retornar à metrópole.
O conservador José Bonifácio, diante da impossi-
bilidade de estabelecer uma relação de igualdade
com Portugal e das medidas agressivas tomadas
pela Corte, sugeriu o rompimento sob a liderança
do príncipe D. Pedro. Este recebeu o apoio de pro-
dutores e comerciantes brasileiros, que tinham
nele a garantia de que a independência não alte-
raria o funcionamento da economia brasileira,
assentada no regime escravista. Assim, contan-
do com o apoio dos setores sociais dominantes,
D. Pedro proclamou a Independência do Brasil em
7 de setembro de 1822. O ato de proclamação
ocorreu na região do Ipiranga, na província de
São Paulo (em 1821, as capitanias passaram a
ser chamadas de províncias), onde o príncipe se
encontrava em viagem.
Nas províncias de Pernambuco, Bahia, Piauí,
Grão-Pará e Maranhão ocorreram lutas e resistên-
cia, resultando na Guerra de Independência, que
persistiu até fins de 1823. O primeiro país a reco-
nhecer a Independência do Brasil foram os Estados
Unidos, em junho de 1824. Já entre os países da
América Latina, dos quais se esperava pronto
reconhecimento, este só se concretizou em 1825,
pois as repúblicas vizinhas encaravam com des-
confiança a instauração de um regime monárquico
na América. Com a mediação da Inglaterra, que em
troca exigiu a ratificação dos tratados comerciais
de 1810 pelo governo brasileiro, Portugal, imerso
em uma profunda crise econômica, desistiu da
ideia de tentar recuperar a antiga colônia, reconhe-
cendo sua independência em agosto de 1825.
A independência em outros
países da América
Dos processos de independência ocorridos
na América, pelo menos um deles preocupou
bastante as elites coloniais de vários países do
continente. Trata-se do caso do Haiti. Durante o
século XVIII, o Haiti era uma colônia francesa e,
em 1791, quando ocorria a Revolução Francesa, o
escravo liberto Toussaint-Louverture liderou uma
rebelião de escravos que exterminou a maior
parte da população local de origem europeia. No
governo da colônia francesa, Louverture decretou
o fim da escravidão. A independência só ocor-
reu em 1804, quando o ex-escravo Jean-Jacques
Dessalines liderou o movimento pela ruptura
com a metrópole e se tornou imperador do país.
Em 1806, após o assassinato de Dessalines, o Haiti
dividiu-se em um reino, ao norte, e uma república,
ao sul. Em 1820, sob a liderança do mestiço Jean
Boyer, ocorreu uma nova unificação sob o regime
republicano, sendo Boyer o presidente do país.
O caso do Haiti tornou-se objeto de reflexão das
elites coloniais e metropolitanas, pois se passou
a temer que novas rebeliões de escravos pudes-
sem ocorrer sob sua inspiração. Em outros países
da América o processo de independência seguiu
caminhos particulares. Vejamos alguns deles.
De um modo geral, as colônias hispânicas da
América passaram a ter as liberdades munici-
pais restringidas a partir da segunda metade do
século XVIII. Foram criadas intendências, órgãos
administrativos metropolitanos nas colônias com
a finalidade de centralizar o poder e controlar a
cobrança de impostos. Com as várias guerras que
ocorriam na Europa, a ampliação da cobrança de
impostos era uma maneira de cobrir as imensas
despesas militares.
Em 1778 foi permitido o livre comércio entre as
regiões americanas sob o domínio espanhol, mas
ele continuava proibido com portos estrangeiros,
havendo altas taxações sobre as mercadorias que
não viessem da Espanha. Além do monopólio sobre
o comércio de alguns itens, como o fumo, a pólvora
e os metais preciosos, era proibido desenvolver
atividades manufatureiras nas colônias. Nesse
período, foram restringidos os direitos políticos das
elites locais (os criollos, que eram os descendentes
hispânicos nascidos na América). Esses criollos
tinham restrições de alguns privilégios em rela-
ção aos nascidos na Espanha, o que dificultava a
ascensão social desse grupo (determinados cargos
públicos e religiosos, por exemplo).
Já os indígenas viviam em condições mise-
ráveis, sofrendo constante discriminação. Não
pagavam impostos religiosos, mas pagavam
imposto individual ao rei. Frequentemente eram
escravizados por dívida.
As elites criollas de várias regiões da América
começaram a questionar o poder metropolitano,
defendendo o princípio iluminista de liberdade e as
teorias liberais do livre-comércio. Desejavam, antes
de tudo, liberdade econômica e autonomia política
para tomar decisões acerca de seu destino.
O bloqueio continental decretado por Napoleão,
em 1806, também contribuiu para o alargamen-
to da crise entre várias colônias da América e
o poder espanhol. Assim como aconteceu com
Portugal, as forças napoleônicas ocuparam o
trono espanhol e abriram a possibilidade para que
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empregada na agricultura e na pecuária. A elite criolla
mexicana contestava o poder metropolitano na medi-
da em que tinha seus poderes políticos restringidos.
Porém, os criollos não queriam a independência, pois
temiam rebeliões populares. Com a invasão napoleô-
nica, foram criadas juntas provinciais de governo na
Espanha. No entanto, instalou-se uma crise para defi-
nir qual junta teria o reconhecimento dos mexicanos.
Em 1810, em Querétaro, um grupo de criollos abasta-
dos armou uma conspiração revolucionária liderada
pelo padre Miguel Hidalgo y Costilla, pároco do
povoado de Dolores e adepto das ideias do Iluminismo.
Preocupava-se em melhorar a vida dos indígenas e dos
mestiços, defender a religião e acabar com os tributos
e qualquer outra forma de exploração metropolitana
no território. Exigia a independência e a devolução de
terras às comunidades indígenas.
Com o apoio das massas, principalmente dos
indígenas, Hidalgo pretendia realizar o sequestro
dos bens dos gachupines (espa-
nhóis), mas respeitar os bens
dos criollos brancos. Ocorreu,
então, o Grito de Dolores:
Hidalgo convocou indígenas
e mestiços a se juntarem em
um levante. Esse é considera-
do o Dia da Independência
Mexicana (comemorado em 16
de setembro). A revolta alas-
trou-se rapidamente, transfor-
mando-se em uma guerra con-
tra os brancos, e até mesmo
contra os criollos, que eram
considerados, pelos indígenas
e pelos mestiços, seus opres-
sores. Essa situação fugiu ao
controle de seus líderes. Após
três meses de luta, a grande
destruição e a matança ocor-
rida provocaram o terror nos
criollos, que passaram a ser
mais prudentes em relação às
suas reivindicações. Hidalgo foi
preso e assassinado.
Em 1812, surgiu um novo líder
do movimento rebelde: o sacer-
dote José Maria Morelos.
Voltaram a se delimitar os obje-
tivos da revolução, dentre eles
a independência e as reformas
sociais que favoreceriam a
população indígena e mestiça.
Porém, foi somente em 1821 que
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as elites criollas se desvinculassem da metrópole
com o apoio da Inglaterra, maior força indus-
trial do período, que tinha grande interesse no
livre-comércio com a América. Em 1810 sucede-
ram movimentos de independência no México, na
Colômbia, na Argentina e na Venezuela. No ano
seguinte seria a vez do Paraguai. Em 1815, quando
Napoleão foi derrotado e a família real espanhola
reassumiu o trono, a Espanha encontrou dificul-
dade em restabelecer o pacto colonial e o domínio
sobre as colônias, nas quais, com apoio inglês,
ocorreram guerras de independência até 1825.
A Independência do México
A colônia de Nova Espanha (atual México), a mais
rica dentre todas, era um importante entreposto
comercial, estando a grande maioria da população
A AMÉRICA COLONIAL ESPANHOLA EM 1800
Com base em ALBUQUERQUE, Manoel Mauricio de. et al. Atlas Histórico Escolar.
Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 59.
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Detalhe de mural público de Diego Rivera (1886-1957), localizado na Cidade do México, representando o sacerdote
José Maria Morelos à frente do movimento de independência mexicana.
Rivera é um dos principais representantes do movimento da pintura mural, no México. De caráter monumental e didático, o
muralismo pretende que a arte seja acessível à população, exibida em locais públicos e não apenas em museus e galerias.
se consolidou a independência, quando Agustín
Iturbide, que havia sido enviado pelo vice-rei para
lutar contra os rebeldes, formulou o Plano de Iguala
e proclamou a Independência do México. Iturbide
concedeu direitos iguais a espanhóis e criollos. Foi
criado um governo monárquico, e Iturbide autopro-
clamou-se imperador em 1822. Após ser deposto e
assassinado por um movimento de caráter repu-
blicano, o México conheceu, em 1824, seu primeiro
presidente: o general Guadalupe Vitória. Contudo,
as lutas populares não conseguiram fazer valer seu
objetivo. O historiador Leon Pomer explica que:
Em 28 de setembro de 1821, foi assinada a ata da
independência e os que a assinaram não foram
outros senão os antigos dominadores, com a
presença notória de marqueses, condes, bispos,
ricaços proeminentes e donos de vilas e fazendas.
O México começava a sua vida independente. O
único fator modificado é que a parte da riqueza do
país que era enviada para a Espanha seria agora
monopolizada pelos senhores atuais.
POMER, Leon. As independências da América Latina.
13. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995. p. 25.
O caminho de independência da
Venezuela e da Colômbia
A Capitania-Geral da Venezuela, no começo do
século XIX, vivia um grande contraste social. A
população afrodescendente, indígena ou mestiça
vivia em condições miseráveis e sua ascensão
social era limitada, além de ser proibido o casa-
mento com pessoas consideradas brancas, de
descendência europeia. Até mesmo os trajes eram
uma forma de diferenciação social.
Em 1809, Simón Bolívar (1783-1830), filho
de um proprietário minerador representante da
elite criolla, integrou a Junta Governativa que
representaria os interesses do rei Fernando VII da
Espanha enquanto durasse a intervenção napo-
leônica. Essa junta decidiu conceder os mesmos
direitos a criollos e espanhóis, proibir a impor-
tação de escravos e abolir os impostos sobre os
gêneros de primeira necessidade.
Nos anos 1810, as forças políticas locais divi-
diam-se entre realistas e patriotas, sendo os
primeiros aliados da monarquia espanhola e os
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segundos defensores da independência. Nesse
período cresceu o número de fugas e rebeliões
escravas. Aos poucos foi se consolidando a rebelião
contra a população branca proprietária.
Angariando as forças populares, em 1811,
Francisco Miranda liderou a proclamação da
Primeira República venezuelana, que não conse-
guiu se sustentar, sendo militarmente derrotada
pelas forças realistas em 1812. No ano seguinte,
Bolívar e seu exército conseguiram tomar Caracas,
a mais importante cidade da capitania. Contudo,
a vitória definitiva sobre os realistas só viria em
1819, quando Bolívar libertou Bogotá (capital do
vice-reino de Nova Granada) e uma nova nação se
formou, unindo a Venezuela e a Colômbia: a Grã-
Colômbia, que teria como capital Bogotá. Bolívar
passou a ser conhecido como o Libertador e a ele
foi entregue a Presidência da República. Vieram
ainda a se juntar a essa República a Junta Superior
de Guiaquial (Equador) e o Panamá. Todas essas
regiões pertenciam antes ao Vice-Reinado de
Nova Granada, além da atual Colômbia e parte da
Venezuela. Em 1830 ocorreu a separação, transfor-
mando-se a Venezuela, o Equador e a Colômbia em
Estados independentes.
A atual Bolívia, denominada Alto Peru no
período colonial, fazia parte do Vice-Reinado
do Rio da Prata (incluía também Buenos Aires
e a região do atual Paraguai). Era uma região
abundante em prata, o que estimulou a explora-
ção excessiva das populações locais no trabalho
de obtenção do minério. Uma das grandes regiões
de exploração da prata era Potosí, de onde foram
retiradas muitas toneladas do minério.
A partir de 1809 ocorreram lutas entre patrio-
tas e realistas na região, tal como acontecera em
outras regiões da América. Essas lutas estende-
ram-se até 1822, quando o general argentino José
de San Martín (1778-1850) obteve a vitória e pro-
clamou a Independência do Alto Peru. Dias mais
tarde, contudo, as forças defensoras da Espanha
conseguiram derrotar os patriotas. Mais uma vez
Bolívar interviria e, em 1824, eliminaria os realis-
tas do Alto Peru. Em 1825 foi criada a República
Boliviana, sendo seu nome uma homenagem a
Bolívar, que foi seu primeiro presidente.
Em Buenos Aires, sede do Vice-Reinado do
Rio da Prata, região onde se constituiu a atual
Argentina, residia um importante grupo mercantil
relacionado ao tráfico de escravos, ao comércio
da prata e à produção de couro e outros deri-
vados bovinos. Após a invasão napoleônica, os
comerciantes argentinos (criollos) passaram a
criticar de maneira mais contundente o monopólio
colonial, defendendo o livre-comércio. Da mesma
forma que em outros lugares, os criollos de Buenos
Aires pretendiam ampliar sua participação políti-
ca ocupando cargos proibidos a esse grupo social.
Na ausência do rei espanhol Fernando VII, prisio-
neiro de Napoleão, eles organizaram uma junta
governativa em 1810 em nome do rei, mas não se
posicionaram a favor da independência, uma vez
que temiam a ocorrência de levantes populares
que colocassem em risco o controle político e
econômico que a elite criolla exercia.
Na parte oriental do Rio da Prata, José Artigas,
nascido em Montevidéu, dirigiu um levante popu-
lar que depôs o governador espanhol e criou
uma Junta Governativa que declarava autonomia
em relação à Espanha. O movimento pela inde-
pendência em Buenos Aires só se tornou mais
contundente com a presença de San Martín, que
lutou também na independência do Chile (1818).
Em 1816, após várias batalhas contra os realistas,
foi declarada a Independência argentina, quando
San Martín pressionou para que o Congresso,
realizado na cidade de Tucumán, Buenos Aires,
assumisse a posição de não mais representar o
reinado de Fernando VII.
Tanto San Martín quanto Simón Bolívar estive-
ram presentes em vários movimentos de indepen-
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A AMÉRICA ESPANHOLA EM 1830
Com base em BETHEL, Leslie (Org.). História da América Latina:
da independência até 1870. São Paulo: Edusp, 2001. v. 3. p. 266.
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Monumentos em homenagem a Simón Bolívar em Caracas, Venezuela
(abaixo, em foto de 2009), e em La Paz, Bolívia (ao lado, em foto de
2007). Nos dois países, monumentos públicos alimentam a memória
de Bolívar como um herói que contribuiu decisivamente para a fun-
dação dessas nações independentes.
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dência na América Latina, com o apoio dos ingleses
e dos Estados Unidos. Defendiam a formação de
nações livres, unidas e fortes. Em 1826 foi realizado
o Congresso do Panamá, no qual Bolívar defendeu
a criação de um exército comum e a abolição
da escravatura. Em 1812, em seu Manifesto de
Cartagena, o “Libertador”, como foi chamado por
suas atividades revolucionárias, fazia alusão a uma
confederação latino-americana. Afirmava:
Eu sinto que, enquanto não centralizarmos nos-
sos governos americanos, os inimigos obterão as
mais completas vantagens; seremos fatalmente
envolvidos nos horrores das dissensões civis e
conquistados vilipendiosamente por esse punhado
de bandidos que infestam nossas comarcas.
BOLÍVAR, Simón. Memória dirigida aos cidadãos da
Nova Granada, 1811. In: BELLOTTO, Manoel Lelo;
CORRÊA, Anna Maria Martinez (Orgs.). Simón Bolívar:
política. São Paulo: Ática, 1983. p. 111.
No entanto, os planos de Bolívar esbarravam
nos interesses das elites locais. No caso brasilei-
ro, por exemplo, a escravidão era mantida confor-
me os interesses dos proprietários de terras e dos
traficantes de escravos.
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A Independência do Brasil (1984)
Leslie Bethell
A
separação do Brasil de Portugal, tal como a das colônias norte-americanas da Inglaterra, e
da América espanhola da Espanha, pode ser explicada até certo ponto em termos de uma
crise geral – econômica, política e ideológica – do velho sistema colonial em todo o mundo
atlântico, no final do século XVIII e no início do século XIX. A independência do Brasil, mais ainda
do que a da América espanhola, foi também o resultado de uma combinação casual de desdobra-
mentos militares e políticos na Europa, no primeiro quartel do século XIX e de suas repercussões
no Novo Mundo. Não resta dúvida de que o meio século anterior à independência foi testemunha
do desenvolvimento da autoconsciência das colônias e do surgimento de uma reivindicação de
autodeterminação política e econômica. No entanto, devido a uma série de razões – a natureza do
domínio colonial português, o caráter da economia colonial, o predomínio esmagador do escra-
vismo, os vínculos estreitos entre as elites da colônia e da metrópole –, isso se fez sentir menos no
Brasil do que na América espanhola. A invasão de Portugal por Napoleão e a transferência da Corte
portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1807-1808, podem ser vistas apenas como um mero
adiamento do confronto final entre a colônia e a metrópole que a derrubada da monarquia espanhola
por Napoleão desencadeou na América espanhola. Mas também aproximou mais estreitamente a
Coroa portuguesa da oligarquia brasileira e satisfez, em grande parte, as insatisfações econômicas,
e mesmo políticas, brasileiras. Pode-se dizer que o Brasil avançou gradual e inexoravelmente para a
independência a partir de 1808, mas deve-se reconhecer também que, ainda em 1820, não havia no
Brasil um sentimento generalizado de separação total de Portugal [...].
Uma vez decidida, a independência brasileira foi instaurada rápida e pacificamente, em contraste
com a da América espanhola, onde a luta pela independência, em sua maior parte, se arrastou por
muito tempo e teve lances de violência [...].
A transição de colônia para império independente caracterizou-se por um grau extraordinário de
continuidade política, econômica e social. Dom Pedro I e a classe dominante brasileira assumiram
o aparelho do Estado português existente, que, de fato, nunca deixou de funcionar. A economia
Aclamação de D. Pedro I, imperador do Brasil, gravura do século XIX, de Félix-Emile Taunay (1795-1881).
Aquaforte, 28 cm × 44,3 cm.
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Leslie Bethell é de origem inglesa e especialista em história política e cultural do Brasil, tendo publicado, entre outros títulos,
o livro A abolição do tráfico de escravos no Brasil (1970). Atualmente é professor emérito de História Latino-Americana da
Universidade de Londres. Foi também o primeiro diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, inau-
gurado no fim de 1997.
não sofreu grandes desarranjos: os padrões de comércio e rendimento se alteraram (em particular,
a Inglaterra tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil e fonte de capital), mas tanto o modo
colonial de produção quanto o papel do Brasil na divisão internacional do trabalho não foram gran-
demente afetados. Não houve rebeliões sociais de maior importância: as forças populares, que, de
qualquer forma, eram fracas – e divididas por classe, cor e posição legal – foram contidas com suces-
so; nenhuma concessão relevante foi feita aos grupos menos privilegiados da sociedade; sobretudo,
a instituição da escravidão sobreviveu embora o tráfico de escravos estivesse agora sob ameaça. Fora
feita uma revolução conservadora [...].
BETHELL, Leslie (Org.). História da América Latina: da independência a 1870. São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial do Estado;
Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2001. p. 228-30.
A Independência do Brasil (1933)
Caio Prado Jr.
[...]
O
certo é que se os marcos cronológicos com que os historiadores assinalam a evolução social
e política dos povos não se estribassem unicamente nos caracteres externos e formais dos
fatos, mas refletissem a sua significação íntima, a independência brasileira seria antedatada
de quatorze anos, e se contaria justamente da transferência da Corte em 1808. Estabelecendo no
Brasil a sede da monarquia, o regime aboliu ipso facto o regime de colônia em que o país até então
vivera. Todos os caracteres de tal regime desaparecem, restando apenas a circunstância de continuar
à sua frente um governo estranho. São abolidas, uma atrás da outra, as velhas engrenagens da admi-
nistração colonial, e substituídas por outras já de uma nação soberana. Caem as restrições econômi-
cas e passam para um primeiro plano das cogitações políticas do governo os interesses do país. São
estes os efeitos diretos e imediatos da chegada da Corte. Neste mesmo ano de 1808 são adotadas mais
ou menos todas as medidas que mesmo um governo propriamente nacional não poderia ultrapassar.
Sem a menor dúvida, podemos ligar estes fatos diretamente à vinda do Regente. A simples
circunstância de aqui exercer o seu governo exigia naturalmente um aparelhamento político e
administrativo que não fosse o de uma simples colônia... Concorrerá também para a atitude do
Regente português, favorável aos interesses nacionais, de um lado, o próprio ambiente brasileiro
que o cercava, e a que não se poderia furtar, e, do outro, talvez o desejo íntimo, em todo caso
nunca expressamente manifestado, de se fixar definitivamente no Brasil...
[...] Quanto às camadas populares, elas não se encontravam politicamente maduras para fazerem
prevalecer suas reivindicações; nem as condições objetivas do Brasil eram ainda favoráveis para a sua
libertação econômica e social. [...] Reformas mais profundas teriam ainda que esperar outros tempos
e outro momento mais favorável e avançado da evolução histórica do país.
A agitação popular será por isso dominada, serenando aos poucos. E permanecerá mais ou menos
intacta a organização social vigente. E simplesmente no sentido da independência que evoluirá
a revolução constitucional. E caberá a direção deste processo ao partido brasileiro naturalmente
indicado para isto, pois seus interesses e objetivos se confundiam no momento com a marcha dos
acontecimentos. Este partido, divisando no príncipe herdeiro D. Pedro (que ficara como Regente
VOCABULÁRIO
Ipso facto: expressão de origem latina que significa pelo próprio fato; como resultado da evidência do fato;
por isso mesmo.
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1. Como cada autor explica a independência do Brasil? Por quais motivos ela teria ocorrido?
2. Quais são as diferenças entre as opiniões dos autores?
3. Em que medida a biografia dos autores e as datas nas quais foram escritos os textos podem
justificar suas diferentes explicações sobre o mesmo fato?
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Caio Prado Jr. nasceu em São Paulo em 1907 e frequentou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP), formando-se
em 1928. No entanto, optou por dedicar-se aos estudos históricos e políticos, abandonando a carreira de jurista. Um dos
fundadores do Partido Democrático (PD) em 1926, participou da Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder.
Decepcionado com as atitudes políticas de Vargas, ingressou no Partido Comunista no ano seguinte, adotando, a partir de então,
o marxismo como corrente teórica. Em 1933 publicou o livro Evolução política do Brasil e outros estudos e realizou uma viagem à
então União Soviética (1933) com o intuito de conhecer de perto o socialismo. Preso pela primeira vez por participar do levante
comunista de 1935, voltou à prisão durante a ditadura militar, em 1970. Também foi a ação dos militares que forçou a cassação
do título de professor livre-docente de História do Brasil pela Universidade de São Paulo, o qual lhe havia sido concedido no
mesmo ano, em 1968. São livros como Formação do Brasil contemporâneo (1942) e História econômica do Brasil (1945) que fazem
de Caio Prado Jr., ao lado de Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, um dos renovadores da historiografia brasileira dos
anos 1930 em diante. Faleceu em 1990 em São Paulo.
depois da partida do Rei, seu pai) um hábil instrumento de suas reivindicações, soube dele se utilizar,
atirando-o, talvez sem que ele mesmo a princípio o sentisse, na luta contra as Cortes portuguesas
e os projetos de recolonização do Brasil. Desta manobra, coroada de pleno êxito, resultaria a inde-
pendência; e foi este o grande mérito de José Bonifácio e dos demais que o seguiram nesta política.
PRADO JR., Caio. Evolução política do Brasil. 15. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 47-51.
Aviso ao Povo Bahiense
Ó
vós Homens cidadãos; ó vós Povos curvados, e abandonados pelo Rei, pelos seus despo-
tismos, pelos seus Ministros.
Ó vós Povo que nascesteis para sereis livre e para gozares dos bons efeitos da Liberdade, ó
vós Povos que viveis flagelados com o pleno poder do indigno coroado, esse mesmo rei que vós crias-
tes; esse mesmo rei tirano é quem se firma no trono para vos veixar, para vos roubar e para vos maltratar.
Homens, o tempo é chegado para a vossa ressurreição, sim para ressuscitareis do abismo da escra-
vidão, para levantareis a sagrada Bandeira da Liberdade.
A liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do abatimento; a liberdade é a doçura da vida,
o descanso do homem com igual paralelo de uns para outros; finalmente a liberdade é o repouso e
a bem-aventurança do mundo.
A França está cada vez mais exaltada, a Alemanha já lhe dobrou o joelho, Castela só aspira a sua
aliança, Roma já vive aneixa, o Pontífice está abandonado, e desterrado; o rei da Prússia está preso
pelo seu próprio povo, as nações do mundo todas têm seus olhos fixos na França, a liberdade é agra-
dável para todos; é tempo povo, povo o tempo é chegado para vós defendereis a vossa Liberdade; o
dia da nossa revolução; da nossa Liberdade e de nossa felicidade está para chegar, animai-vos que
sereis felizes.
ACCIOLI, I.; AMARAL, B. Memórias históricas e políticas da província da Bahia. Bahia, Imprensa Oficial do Estado, 1931.
v. 3. p. 106-7. In: PRIORE, Mary Del. Documentos de história do Brasil. São Paulo: Scipione, 1997. p. 38.
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1. Em quais documentos aparece o pensamento liberal e iluminista? Justifique.
2. Escolha dois documentos e faça uma comparação quanto aos objetivos dos revolucionários.
O que eles pretendiam? Quais eram as diferenças dos objetivos?
3. Em algum desses documentos está expressa a intenção de reorganizar as estruturas sociais?
Justifique utilizando as informações presentes na seção Contexto.
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Carta da Jamaica (1815)
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sucesso coroará nossos esforços porque o destino da América se fixou de maneira irrevogá-
vel; o laço que a unia à Espanha está cortado [...]. O hábito à obediência, um comércio de
interesses, de luzes, de religião, uma recíproca benevolência, uma terna atenção pelo berço
e pela glória de nosso país, enfim, tudo o que formava nossa esperança, nos vinha de Espanha. [...]
Presentemente ocorre o contrário: a morte, a desonra, tudo quanto é nocivo nos ameaça e tememos,
tudo sofremos dessa desnaturalizada madrasta. O véu foi rasgado, já vimos a luz, e querem nos devorar
às trevas; romperam-se os grilhões, já fomos livres, e nossos inimigos pretendem novamente escravizar-
-nos. Por isso, a América combate desesperadamente, e raras vezes o desespero não acarreta a vitória.
[...] Pretender que uma região constituída de modo tão feliz, extensa, rica e populosa seja mera-
mente passiva, não é um ultraje aos direitos da humanidade?
[...] Eu desejo, mais do que qualquer outro, ver formar na América a maior nação do mundo,
menos por sua extensão e riquezas do que por sua liberdade e glória. Ainda que aspire à perfeição do
governo de minha pátria, não posso persuadir-me de que o Novo Mundo seja, no momento, regido
por uma grande república; como é impossível, não me atrevo a desejá-lo e menos ainda desejo uma
monarquia universal da América, porque este projeto, sem ser útil, é também impossível.
[...] É a união seguramente o que nos falta para completarmos a obra de nossa regeneração.
[...] Eu direi a V. S.ª o que pode nos colocar em condições de expulsar os espanhóis e fundar um
governo livre: é a união, certamente; e esta união não nos virá por milagres divinos mas por efeitos
concretos e esforços bem dirigidos.
BELLOTTO, Manoel Lelo; CORRÊA, Anna Maria Martinez (Orgs.). Simón Bolívar: política. São Paulo: Ática, 1983. p. 75-90.
Declaração unânime dos 13 Estados Unidos da América (1776)
Q
uando no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário para um povo dissolver os
grupos políticos que os têm unido, uns aos outros, e para assegurar, entre os poderes da terra, a
posição separada e igualitária com que as Leis da Natureza e a Natureza Divina os capacitam, o
respeito às opiniões dos homens exige que sejam declaradas as causas que os levam a tal separação.
Nós sustentamos essas verdades por serem evidentes, por si mesmas, que todos os homens são
criados iguais, que eles são dotados pelo Criador de certos Direitos inalienáveis, e que entre esses estão
a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade. Que para assegurar tais direitos, são instituídos Governos
entre os Homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados. Que todas as vezes
que qualquer Forma de Governo se torne destrutiva desses objetivos, é do Direito do povo alterá-la ou
aboli-la, e para a instituição de um novo Governo, fundado em tais princípios e organizando seus pode-
res em tal forma, como deva parecer-lhe mais adequado para efetivar sua Segurança e Felicidade. [...]
Nós, portanto, os Representantes dos Estados Unidos da América, no Congresso Geral, reunidos
em Assembleia, solicitamos ajuda ao Juiz Supremo do mundo para a retidão de nossas intenções,
fazendo, em Seu Nome, e pela autoridade da boa Gente destas Colônias, declarar e editar solene-
mente, que estas Colônias Unidas são, e de direito devem ser, Estados Livres e Independentes...
MORRIS, Richard B. Documentos básicos da história dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964. p. 36-40.
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RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

Para selecionar a alternativa correta em cada
um dos testes, elimine primeiramente as alter-
nativas que você sabe que estão incorretas.

Na questão dissertativa, procure ser objetivo.
Releia a resposta antes de considerá-la termina-
da e verifique se a redação está clara e gramati-
calmente correta.
1. (UFF-RJ) O lema liberal “Liberdade, Igualdade
e Fraternidade” consagrado pela Revolução
Francesa influenciou, sobremaneira, as chama-
das Inconfidências ocorridas em fins do século
XVIII no Brasil colônia.
Assinale a opção que apresenta informações cor-
retas sobre a chamada Conjuração dos Alfaiates.
a) Envolveu a participação de mulatos, negros
livres e escravos, refletindo não somente a
preocupação com a liberdade, mas também
com o fim da dominação colonial.
b) Esta Inconfidência Baiana caracterizou-se
por restringir-se à participação de uma elite
de letrados e brancos livres influenciados
pelos princípios revolucionários franceses.
c) Em tal conjuração, a difusão das ideias libe-
rais não acarretou crítica às contradições da
sociedade escravocrata.
d) Este movimento, também conhecido como
Inconfidência Mineira, teve um papel singular
no contexto da crise do sistema colonial, reve-
lando suas contradições e sua decadência.
e) Um de seus principais motivos foi a prolonga-
da crise do setor cafeeiro que se arrastou ao
longo da segunda metade do século XVIII.
2. (UFRN-RN) Na América Latina, a proclamação
das independências revestiu-se de caráter nota-
damente político, ou seja, representou a ruptura
com o colonialismo europeu. Apresente duas
diferenças entre o processo de consolidação da
Independência no Brasil, colônia portuguesa, e
na maioria dos países da América espanhola.
3. (UFPB-PB) A independência das treze colônias
inglesas, em 1776, criou os Estados Unidos da
América.
Sobre esse processo de independência, com
fortes repercussões na Europa e nas Américas,
é correto afirmar que:
a) decorreu dos ideais do liberalismo – livre-
-comércio e liberdade civil –, razão pela qual
a escravidão foi abolida de imediato.
b) estabeleceu um modelo de sociedade demo-
crática e igualitária em que brancos, índios
e negros gozavam dos mesmos direitos e
oportunidades.
c) organizou uma estrutura política unitária,
congregando os brancos e os índios, mas não
os negros, que foram mantidos em regime de
escravidão.
d) formou o primeiro país independente das
Américas, congregando as colônias do Norte
comercial com as do Sul agroexportador e
escravocrata.
e) representou um novo modelo de descoloniza-
ção, no qual Colônia e Metrópole se irmana-
vam em uma independência negociada diplo-
maticamente.
4. (FGV-SP) Na Carta da Jamaica, de 1815, [Simón
Bolívar] escreveu:
Eu desejo, mais do que qualquer outro, ver formar-se
na América a maior nação do mundo, menos por sua
extensão e riquezas do que pela liberdade e glória.
(CAMPOS, Flavio de; MIRANDA, Renan Garcia. Oficina de História
– História integrada. São Paulo: Ciência Moderna, 2000.)
A intenção de uma América hispânica indepen-
dente e formando um único país, entre outros
motivos, não prevaleceu em razão:
a) de um acordo entre franceses e ingleses,
assinado no Congresso de Viena.
b) do interesse espanhol em enfraquecer o
poderoso Vice-Reinado da Nova Granada.
c) dos fortes e decisivos interesses ingleses,
norte-americanos e das próprias elites locais
da América.
d) da deliberada ação do Brasil, preocupado com a
formação de um poderoso Estado na América.
e) das tensões entre as elites do México e Peru,
que disputavam a hegemonia sobre a América.
5. (Enem) No clima das ideias que se seguiram à
revolta de São Domingos, o descobrimento de
planos para um levante armado dos artífices mu-
latos na Bahia, no ano de 1798, teve impacto muito
especial; esses planos demonstravam aquilo que
os brancos conscientes tinham já começado a
compreender: as ideias de igualdade social esta-
vam a propagar-se numa sociedade em que só um
terço da população era de brancos e iriam inevita-
velmente ser interpretados em termos raciais.
MAXWELL, K. Condicionalismos da Independência do Brasil. In:
SILVA, M. N. (coord.) O Império luso-brasileiro, 1750-1822.
Lisboa: Estampa, 1986.
O temor do radicalismo da luta negra no Haiti
e das propostas das lideranças populares da
Conjuração Baiana (1798) levaram setores da
elite colonial brasileira a novas posturas diante
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AMÉRICO, Pedro. Tiradentes
esquartejado, 1893. Óleo so-
bre tela, 270 cm × 165 cm.
Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905) era pintor e desenhista. Considerado um dos principais nomes da pintu-
ra histórica brasileira, nasceu na cidade de Areias (SP). Aos 10 anos, participou, como desenhista, da expedição do naturalista
francês L. J. Brunet, que percorreu o Nordeste do país. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1854 e, no ano seguinte, ingressou
na Academia Imperial de Belas-Artes. Patrocinado por D. Pedro II, em 1859 viajou à França, onde aperfeiçoou seu estilo com
pintores famosos, como Ingres. Ao retornar ao Brasil foi nomeado professor da Academia Imperial de Belas-Artes. Veja outra
pintura de Pedro Américo na p. 193.
das reivindicações populares. No período da
Independência, parte da elite participou ativa-
mente do processo, no intuito de
a) instalar um partido nacional, sob sua lideran-
ça, garantindo participação controlada dos
afrobrasileiros e inibindo novas rebeliões de
negros.
b) atender aos clamores apresentados no movi-
mento baiano de modo a inviabilizar novas
rebeliões, garantindo o controle da situação.
c) firmar alianças com as lideranças escravas, per-
mitindo a promoção de mudanças exigidas pelo
povo sem a profundidade proposta inicialmente.
d) impedir que o povo conferisse ao movimento
um teor libertário, o que terminaria por preju-
dicar seus interesses e seu projeto de nação.
e) rebelar-se contra as representações metro-
politanas, isolando politicamente o Príncipe
Regente, instalando um governo conservador
para controlar o povo.
Tiradentes
Estanislau Silva, Mano Décio e
Antônio Penteado
Intérprete: Elis Regina
Joaquim José da Silva Xavier
Morreu a vinte e um de abril
Pela Independência do Brasil
Foi traído e não traiu jamais
A Inconfidência de Minas Gerais
Foi traído e não traiu jamais
A Inconfidência de Minas Gerais
Joaquim José da Silva Xavier
Era o nome de Tiradentes
Foi sacrificado pela nossa liberdade
Este grande herói
Pra sempre há de ser lembrado
SILVA, Estanislau; DÉCIO, Mano;
PENTEADO, Antônio. Tiradentes. In: A
bossa maior de Elis Regina (LP). Elenco, p1983.
Samba-enredo com o qual a Escola
Império Serrano foi campeã no carnaval
carioca de 1949.
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1. Compare a imagem de Tiradentes construída por Pedro Américo com a da pintura Alferes
Tiradentes. Por que suas feições foram tão transformadas na obra de Pedro Américo? Qual seria
a intenção do artista?
2. Elis Regina gravou esse samba em 1971. Esse fato pode ter alguma relação com o que se estava
vivendo politicamente no Brasil daquele período?
3. Com base na canção e nas imagens, interprete a frase: As fontes históricas são sempre subjetivas
e trazem consigo a visão e os valores de quem as produz.
ROTEIRO DE TRABALHO
BERBEL, Márcia. A Independência do Brasil (1808-1828). São Paulo: Saraiva, 1999.
A historiadora insere o processo de independência no contexto que se inicia com a chegada da família real ao Brasil e
vai até a independência da Província Cisplatina.
OLIVEIRA, Cecilia Helena de Salles. A Independência e a construção do Império. São Paulo: Atual, 1996.
Este livro amplia a análise da independência, não se limitando a entendê-la como um conflito restrito a Brasil e
Portugal. A autora coloca em questão os vários projetos de nação e os interesses que estavam sendo discutidos.
Carlota Joaquina, princesa do Brasil. Direção de Carla Camurati. Brasil, 1995. (138 min).
Uma caricatura histórica sobre a vida da família real no Brasil, o filme gerou muita polêmica por seus estereótipos, ape-
sar do sucesso de público. O rei de Portugal, D. João, e sua mulher, Carlota Joaquina, espanhola, decidem abandonar
o país e vir para a colônia com a ameaça das tropas napoleônicas. Instalam-se no Rio de Janeiro, em 1808, obrigados a
se adaptar aos trópicos e à condição colonial.
Os inconfidentes. Direção de Joaquim Pedro de Andrade. Brasil, 1972. (100 min).
Por intermédio da história da Inconfidência Mineira, o diretor estabelece um paralelo com seu tempo: 1972, ditadura
militar. O filme é um exemplo de como o estudo do passado pode elucidar a realidade e incentivar uma mobilização no
presente. Assim como se articularam os inconfidentes para lutar pela independência, deveriam os intelectuais daquela
época lutar também por sua liberdade.
Memorial da América Latina. Disponível em: <www.memorial.org.br>. Acesso em: 13 abr. 2013.
Disponibiliza textos sobre a América Latina, obras de arte do acervo e a programação de eventos, entre os quais shows
e exibição de filmes.
Museu Paulista (ou do Ipiranga). Disponível em: <www.mp.sp.uso.br>. Acesso em: 13 abr. 2013.
Neste site é possível visualizar parte do acervo, consultar o catálogo da biblioteca e conhecer um pouco sobre a histó-
ria do monumento à Independência do Brasil.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), conhecido como
Tiradentes, nasceu em São João Del-Rei (MG) e era filho
de minerador. Com a morte de seus pais, quando ainda era
criança, foi morar com um tio que era especialista em arrancar
dentes, o qual lhe ensinou a profissão. Em 1775 optou pela car-
reira militar, recebendo a patente de alferes (equivalente hoje a
segundo-tenente). Sua condenação à morte por enforcamento
por causa de sua participação na Inconfidência Mineira serviu
como punição exemplar. Seu corpo foi esquartejado e exposto
em diferentes locais da cidade de Vila Rica.
Detalhe da obra Alferes Tiradentes, de Washington
Rodrigues, 1940. Óleo sobre tela. (sem dimensões)
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A construção do Brasil independente
CAPÍTULO 10
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Brasil tornou-se independente de Portugal em 1822. Contudo, isso não
significa que todas as regiões do novo país aderiram automaticamente ao
governo central constituído no Rio de Janeiro. Será que toda população se
via contemplada pelas medidas adotadas por esse governo? Que forma de governo
atenderia melhor aos interesses dos grupos regionais? Uma monarquia parlamen-
tar? Uma república federativa? Deveria haver autonomia provincial? Que setores
sociais pagariam mais impostos? Não seria melhor para certas províncias se confe-
derar com algum país vizinho? Todas essas perguntas ainda estavam por ser respon-
didas após a independência. Pela primeira vez, colocava--se o desafio de construir
um Estado nacional autônomo que deveria constituir uma economia, uma cultura
e uma organização política próprias. Por fim, ainda havia outra grande questão: a
escravidão. Deveria o Brasil independente manter a escravidão? Sabemos que a
escolha foi mantê-la. Isso ocorreu até 1888, quando a princesa Isabel assinou a Lei
Áurea extinguindo o trabalho escravo no Brasil.
Mesmo rompendo os vínculos com Portugal, o Brasil continuou sendo governado
por um membro da família real portuguesa: D. Pedro I. Ao contrário do que aconte-
ceu com as colônias espanholas na América, não houve proclamação da República
em nosso país.
Ao longo do período imperial, a escravidão foi mantida, a cafeicultura tornou-se
a mais importante atividade econômica, alguns centros urbanos cresceram, surgi-
ram as primeiras indústrias, algumas cidades foram iluminadas, chegaram os trens.
A música europeia – as valsas e as polcas – invadiu as casas e os salões da elite
urbana. A ela se juntou o lundu, ritmo de origem africana que, misturado ao estilo
europeu e tocado na flauta e no violão por pessoas pobres e ex-escravos, fez nascer
a primeira expressão genuinamente brasileira na música, o choro. Esse era mais
um sinal de que a nação brasileira estava se formando.
O Império também foi marcado por disputas políticas internas pelo controle do
poder e por revoltas separatistas em diversas províncias de norte a sul do Brasil,
conforme veremos neste capítulo.
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Anacleto de Medeiros (ao centro, de braços
cruzados, com a Banda do Corpo de Bombeiros
do Rio de Janeiro) é um exemplo de músico que
está nas origens da música nacional. Nasceu em
1866 em Paquetá, filho de uma escrava liberta.
Aos 9 anos conseguiu entrar para a Companhia
de Menores do Arsenal de Guerra, iniciando seus
estudos de música. Em 1884, tornou-se aprendiz
de tipógrafo e matriculou-se no conservatório de
música. Dedicou-se a tocar sax soprano e come-
çou a compor valsas, polcas e xotes. Organizou
bandas em fábricas até conseguir formar a
Banda do Corpo de Bombeiros, que reunia seus
colegas e músicos de choro. Com Antonio da
Silva Calado e Chiquinha Gonzaga, pode ser con-
siderado um dos fundadores da música nacional,
a qual criou uma maneira própria de interpretar
estilos europeus. Faleceu em 1907, no Rio de
Janeiro.
Chiquinha Gonzaga (1847-1935), compositora, pianista e
regente, em foto do século XIX. A passagem de Chiquinha
Gonzaga pela música brasileira é um marco na história
feminina. Revolucionou os costumes, foi a primeira mulher
a reger uma orquestra no país e compôs a primeira música
de Carnaval, a marcha Ô abre alas (1899).
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LINHA DO TEMPO
1822 ¬ Declaração da Independência do Brasil.
1823 ¬ Instalação da Assembleia Constituinte (maio). Fechamento “Noite da Agonia”, que
antecedeu a dissolução da Assembleia Constituinte em 12 de novembro de 1823. Ao
saber que D. Pedro I reunira as tropas com o objetivo de dissolver a Constituinte, o
deputado Antonio Carlos de Andrada propôs que a Assembleia permanecesse reunida
em caráter permanente e enviasse uma deputação ao imperador para saber os
motivosde as tropas estarem de prontidão. Procurava-se assim restabelecer relações
com o imperador, entretanto a Assembleia Constituinte foi dissolvida no dia seguinte.
1824 ¬ Outorgada a primeira Constituição brasileira (25 de março). Confederação do
Equador (julho a novembro).
1825 ¬ Guerra entre Brasil e Argentina pela província Cisplatina.
1827 ¬ Acordo com a Inglaterra para suprimir o tráfico negreiro.
1828 ¬ Fim da Guerra Cisplatina; o Uruguai torna-se independente.
1831 ¬ Abdicação de D. Pedro I (7 de abril) e início do período regencial.
1834 ¬ Ato Adicional: reforma da Carta outorgada de 1824.
1835 ¬ Eclosão da Cabanagem no Pará. Eclosão da Farroupilha no Rio Grande do Sul (setembro).
Diogo Feijó assume a Primeira Regência Una.
Revolta dos Malês na Bahia.
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Retrato do imperador Pedro I (detalhe), de
Jean-Baptiste Debret, 1839.
Capa e primeira página da primeira Constituição brasileira,
de 1824.
FIGUEIREDO, Aurélio. Abdicação do primei-
ro imperador do Brasil em 1831, século XIX.
(Sem dimensões)
VOCABULÁRIO
Deputação: comissão.
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1837 ¬ Demissão de Feijó do cargo de regente; assunção de Pedro de Araújo Lima (setembro).
Início da Sabinada na Bahia (novembro).
1838 ¬ Eclosão da Balaiada no Maranhão.
Fim da Sabinada.
1840 ¬ Fim da Cabanagem. Antecipação da maioridade de D. Pedro II (23 de julho).
1841 ¬ Fim da Balaiada.
1844 ¬ Adoção da Tarifa Alves Branco, que elevou os impostos sobre produtos importados
e contribuiu para criar uma conjuntura favorável para os investimentos industriais.
1845 ¬ Término da Guerra dos Farrapos.
1848 ¬ Início da Revolução Praieira em Pernambuco.
1850 ¬ Lei Eusébio de Queirós, que extinguiu o tráfico negreiro, e promulgação da Lei de Terras.
1854 ¬ Inaugurada a primeira estrada de ferro do Brasil por Mauá. Iluminação a gás, no Rio
de Janeiro.
1862 ¬ Questão Christie. O ministro plenipotenciário (agente diplomático) inglês no Brasil
William Dougall Christie exigiu que o governo brasileiro se desculpasse oficialmente
e indenizasse o governo britânico por dois incidentes envolvendo navios ingleses.
O primeiro foi devido à pilhagem por assaltantes não identificados do navio Prince
of Walles, que naufragou na costa do Rio Grande do Sul em 1861. Em junho do ano
seguinte foram presos oficiais da fragata Fort, acusados de desacatar as autoridades
brasileiras. Christie exigiu indenização no primeiro caso e satisfação no segundo.
Diante da resposta negativa do governo brasileiro, ele ordenou que navios ingleses
tomassem posse de navios brasileiros. O imperador D. Pedro II não aceitou as
exigências britânicas, e o governo brasileiro solicitou a saída de Christie do Brasil e
a retratação da Inglaterra. A recusa britânica resultou no rompimento das relações
diplomáticas entre os dois países. Somente em 1865, com a Guerra do Paraguai (1864-
1870), foram restabelecidas as relações entre Brasil e Inglaterra, uma vez que esta
temia ver prejudicados seus interesses comerciais na região do Prata.
1864 ¬ Início da Guerra do Paraguai.
1870 ¬ Morte de Solano López e fim da Guerra do Paraguai.
1871 ¬ Lei do Ventre Livre, conhecida também como Lei
Rio Branco.
1885 ¬ Lei de libertação dos sexagenários, conhecida como
Lei Sinimbu.
1888 ¬ Lei Áurea: fim da legalidade da escravatura no Brasil.
1889 ¬ Proclamação da República.
Acendedor de lampiões
no Rio de Janeiro, no
final de século XIX.
RUGENDAS, Johann Moritz. Escravos
(detalhe), c. 1835. Litografia colorida,
35,5 cm 51,3 cm.
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CONTEXTO
O Primeiro Reinado (1822-1831)
Esse período iniciou-se com a Independência
do Brasil, em 7 de setembro de 1822, e encerrou-se
com a abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de
1831. O confronto do imperador com as elites brasi-
leiras foi uma das principais características dessa
fase do Império, como resultado do regime profun-
damente centralizado imposto pelo monarca.
Reunida a Assembleia Constituinte, em maio de
1823, foi colocado em discussão um projeto que limi-
tava os poderes do imperador em favor do Parlamento.
D. Pedro I reagiu com a dissolução da Assembleia
Constituinte, em novembro do mesmo ano, e a outor-
ga da Constituição de 1824, por meio da qual se con-
sagrava um regime com alto grau de centralização
política e administrativa. Entre os vários deputados
que foram presos e expulsos do Brasil após o fecha-
mento da Assembleia, estava José Bonifácio, um dos
líderes conservadores do partido brasileiro.
Foi estabelecido, ainda, o voto censitário, ou
seja, apenas aqueles que possuíssem renda líqui-
da anual de cem mil-réis ou mais poderiam votar.
Também estariam impedidos de escolher os depu-
tados e os senadores do Império os homens com
menos de 25 anos e as mulheres. Dessa forma,
somente uma elite teria o direito de eleger aqueles
que decidiriam os rumos do país. Na nova Carta
constitucional, redigida pelo Conselho de Estado
sob encomenda do imperador, foi instituído o
Poder Moderador, além dos poderes Executivo,
Judiciário e Legislativo. Exercido por D. Pedro
I, conferia-lhe o direito de dissolver a Câmara dos
Deputados e emitir vetos às leis por ela aprovadas.
Ou seja: todo o poder político da nação que nascia
estava concentrado nas mãos do imperador.
A disputa entre o imperador e os monarquistas
constitucionais, defensores de um regime des-
centralizado, revestiu-se da aparência de luta entre
portugueses e brasileiros, especialmente após 1825,
quando foi reconhecida a Independência do Brasil
por Portugal e D. Pedro se envolveu na questão
da sucessão de D. João VI. A desconfiança com
relação ao imperador aumentou com o falecimento
do rei português em 1826. D. Pedro I era o herdeiro
natural do trono lusitano. Os brasileiros receavam
que as duas Coroas, do Brasil e de Portugal, se
unissem. A forte presença lusa na administração
pública e nos cargos próximos a D. Pedro fazia rea-
parecer o fantasma da recolonização. Na verdade,
as críticas aos portugueses funcionavam como ins-
trumento de luta contra a diretriz política imposta
por D. Pedro, que frequentemente destratava minis-
tros, escolhia-os sem consulta prévia à Câmara,
formava gabinetes secretos, desrespeitava leis e
agia de maneira autoritária.
Economicamente, o Primeiro Reinado foi mar-
cado pela defesa da ordem escravista e do tráfico
negreiro, ameaçado por pressões da Inglaterra para
a extinção do comércio de escravos. Os traficantes
passaram a controlar diretamente os portos de
escravos na África, mantendo o circuito econômico
formado entre Europa, Brasil e África, só que naque-
le momento dirigido por proprietários e negociantes
brasileiros. O tráfico tornou-se, portanto, um dos
pilares da economia da nova nação, em especial
com o início da expansão da cafeicultura no Rio
de Janeiro e mais tarde em São Paulo. Foi durante
o Primeiro Reinado que o Brasil, para enfrentar o
déficit público acumulado após a Independência,
recorreu aos primeiros empréstimos externos, prin-
cipalmente de banqueiros ingleses.
A Guerra Cisplatina, iniciada em 1825, não
só causou grande desgaste político a D. Pedro
I, como tornou calamitoso o quadro econômico
nacional. Essa guerra resultou na separação da
província Cisplatina do Império e na criação do
Estado do Uruguai em 1828. É bom lembrar que a
Cisplatina tinha sido anexada ao Brasil em 1821.
Em 1829, o Banco do Brasil, criado em 1808,
entrou em crise e foi liquidado. A eleição de
uma Assembleia oposicionista em 1830 tornou
mais difícil a sustentação política do imperador,
agravada pelos diversos confrontos de rua entre
portugueses e brasileiros no Rio de Janeiro. Além
disso, algumas províncias mantinham vínculos
com Portugal, o que desagradava a D. Pedro I.
O mais conhecido desses confrontos foi a Noite
das Garrafadas, quando brasileiros invadiram
um quarteirão onde moravam portugueses e foram
recebidos com garrafadas. Houve muitos feridos,
entre eles vários jornalistas, que, sob a liderança
de Evaristo da Veiga e diversos nomes de expres-
são nacional, redigiram uma carta ao imperador,
exigindo reformas. Em resposta à carta e diante da
crise econômica e política que assolava o Império,
D. Pedro I formou, em 19 de março de 1831, um novo
ministério, denominado Ministério Brasileiro.
Porém a medida não conseguiu reverter seu iso-
lamento político. Na Câmara dos Deputados, os
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THEREMIN, Carlos Guilherme von. O chafariz do campo tomado da Igreja de Santana, 1835. Litografia colorida sobre papel,
18,2 cm 27,2 cm. Campo de Santana, no Rio de Janeiro, foi onde ocorreu a aclamação de D. Pedro I como imperador do Brasil e
depois serviu de espaço de concentração para a multidão que acompanhava sua renúncia, em 1831. Após a proclamação da