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São Paulo – 2013

1ª- edição
HISTÓRIA
Conexão
VOLUME 3
ENSINO MÉDIO
HISTÓRIA
3
a
-
série
Roberto Catelli Junior
Bacharel e licenciado em História pela Pontifícia Universidade
de São Paulo. Mestre em História pela Universidade de São
Paulo. Professor de História da rede particular de ensino do
estado de São Paulo. Assessor para organização de currículos
e formador de professores na rede pública de ensino.
MANUAL DO
PROFESSOR
Editores: Arnaldo Saraiva e Joaquim Saraiva
Projeto gráfico e capa: Flávio Nigro
Pesquisa iconográfica: Cláudio Perez
Coordenação digital: Flávio Nigro e Nelson Quaresma
Colaboração: Maria Soledad Más Gandini, Renata Pereira Lima Aspis e Roberto Giansanti
Produção editorial: Maps World Produções Gráficas Ltda
Direção: Maurício Barreto
Direção editorial: Antonio Nicolau Youssef
Gerência editorial: Carmen Olivieri
Coordenação de produção: Larissa Prado
Edição de arte: Jorge Okura
Editoração eletrônica: Alexandre Tallarico, Flávio Akatuka, Francisco Lavorini, Juliana Cristina Silva,
Veridiana Freitas, Vivian Trevizan e Wendel de Freitas
Edição de texto: Ana Cristina Mendes Perfetti
Revisão: Adriano Camargo Monteiro, Fabiana Camargo Pellegrini,
Juliana Biggi e Luicy Caetano
Pesquisa iconográfica: Elaine Bueno e Luiz Fernando Botter
Cartografia: Maps World (Alexandre Bueno e Catherine A. Scotton)
Conteúdos digitais: Esfera Digital
Fotos da capa: Pirâmide do Egito – Photodisc;
Pirâmide do Louvre – IDREAMSTOCK/Alamy/Glow Images
2013
Editora AJS Ltda. – Todos os direitos reservados
Endereço: R. Xavantes, 719, sl. 632
Brás – São Paulo – SP
CEP: 03027-000
Telefone: (011) 2081-4677
E-mail: editora@editoraajs.com.br
Título original: Conexão História
© Editora AJS Ltda, 2013
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Catelli Junior, Roberto
Conexão história : volume 3 : ensino médio :
3º série / Roberto Catelli Junior. -- 1. ed. --
São Paulo : Editora AJS, 2013.
Bibliografia.
"Suplementado pelo manual do professor"
1. História (Ensino médio) I. Título.
13-06550 CDD-907
Índices para catálogo sistemático:
1. História : Ensino médio 907
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Catelli Junior, Roberto
Conexão história : volume 3 : ensino médio :
3º série / Roberto Catelli Junior. -- 1. ed. --
São Paulo : Editora AJS, 2013.
Bibliografia.
"Suplementado pelo manual do professor"
1. História (Ensino médio) I. Título.
13-06550 CDD-907
Índices para catálogo sistemático:
1. História : Ensino médio 907
ISBN: 978-85-8319-003-5 (Aluno)
ISBN: 978-85-8319-004-2 (Professor)
Muitas gerações se fizeram as mesmas perguntas ao estudar História: Para que serve? Por que tenho
de saber o que aconteceu na Revolução Francesa ou no Brasil colonial? Essas perguntas ainda persistem.
Talvez você já tenha se perguntado isso.
A História, vista em si, talvez não pareça servir para nada. Ela só tem sentido quando lhe atribuímos
um significado. E quanto mais questionarmos e refletirmos sobre os acontecimentos da história, mais
poderemos refletir sobre a realidade que nos cerca e a vida que vivemos.
Quando estudo História com a única finalidade de memorizar fatos do passado para obter um resul-
tado satisfatório em uma avaliação, dificilmente ela terá algum sentido. Seria o mesmo que ouvir uma
canção da qual não gosto repetidas vezes apenas para decorar sua letra e sequência melódica.
Para mim, autor desta obra e professor, estudar História significa, principalmente, estimular a reflexão,
exercitar o espírito crítico e promover descobertas. Preciso sempre fazer perguntas: Em que a Revolução
Francesa, por exemplo, se relaciona com o mundo em que vivo? Que ideias foram produzidas pelo ser huma-
no daquela época (século XVIII)? O que é diferente dos dias atuais? O que pensavam os revolucionários?
Que sociedade eles queriam construir? Preciso ainda ser crítico o suficiente para saber identificar as dife-
rentes posições dos autores que têm interpretações contrárias. Por que concordo com um e discordo do
outro? É preciso saber contextualizar o assunto em um duplo sentido: compreender os eventos históricos
conforme a época em que se vivia, além de buscar construir as relações com o presente.
Estudar História pode ser também um profundo mergulho nas experiências vividas pelos seres huma-
nos, ao longo do tempo, nas mais diferentes dimensões: cultural, econômica, política e social. Podemos
entrar em contato com modos de vida muito diversos do que conhecemos na atualidade e refletir sobre o
significado daquelas experiências para o presente e para o futuro.
O que se estuda na História? Certamente não são apenas os grandes eventos políticos e econômicos,
ainda que esses estabeleçam marcos para a humanidade. Podemos estudar a vida cultural, a condição
feminina, a religiosidade, a música, o pensamento científico, as atividades esportivas, enfim, tudo aquilo
que se refere à experiência de homens e mulheres em sociedade.
Nesse mergulho nas várias dimensões da vida humana não podemos nos limitar aos conhecimentos de
História. Será necessário recorrer às Artes, às Ciências, à Filosofia, à Geografia e à Sociologia, pois sabemos
que a vida humana não está compartimentada em conhecimentos disciplinares. Ao contrário, para com-
preender a sua história é preciso recorrer a todas as suas dimensões, formando uma rede de conhecimentos.
Para estudar história precisamos acessar uma grande rede de conhecimentos para discutir a experi-
ência humana ao longo de milhares de anos. Muitos desses conhecimentos, por sua vez, podem, hoje, ser
obtidos por meio da rede mundial de computadores e da variedade de linguagens disponíveis. É possível
recorrer a internet, vídeos, cinema, televisão, rádio, enfim, a variadas fontes de informação que também
contribuem para a construção do conhecimento histórico na escola.
Ao estudar História, cabe ainda perguntar quais fontes podemos utilizar. Os documentos escritos, os
objetos da cultura material, as imagens, as histórias em quadrinhos, as obras literárias, as propagandas,
as canções, os depoimentos gravados, ou seja, todo registro ou vestígio da vida humana pode ser fonte
para o estudo da História.
Desejo que este material didático o auxilie a construir um sentido para seus estudos, embora isso não
dependa apenas de um livro ou do professor. Estes podem apenas favorecer e despertar a sua curiosida-
de. Essa é minha intenção primeira com esta obra. A partir daí, e das informações disponíveis, recomendo
o mais fundamental: faça perguntas, busque relações e atribua um significado para tudo. “Fazer sentido”
também quer dizer “fazer sentir”: é preciso que esse processo nos desperte para algo. Caso contrário,
tanto a História quanto a música, o futebol, a praia, o(a) namorado(a), os amigos, a família, o mundo,
enfim, ficam incompletos e insuficientes.
O autor
APRESENTAÇÃO
CONHEÇA SEU LIVRO
PESQUISA
Orientações para organização de pesquisa
sobre algum tema relevante para uma melhor
compreensão dos conceitos, fatos históricos ou
situações em estudo no capítulo.
CONTEXTO
Núcleo de desenvolvimento do conteúdo
didático do livro, que contém informações tex-
tuais, cartográficas, visuais e esquemáticas.
LINHA DO TEMPO
Eventos e fatos históricos relativos ao tema
do capítulo em desenvolvimento, organizados
cronologicamente.
NA INTERNET
Sugestão de links destinados ao detalhamen-
to e aprofundamento de assuntos estudados.
TRABALHANDO COM DADOS
Apresentação de coleções de dados e infor-
mações, geralmente organizadas em tabelas,
para suscitar discussões e dimensionamentos
de fatos históricos e econômicos.
ROTEIRO DE TRABALHO
Proposta de atividades ordenadas a partir
de algumas das seções com conteúdos previa-
mente fixados.
VESTIBULANDO
Apresentação de testes e questões exigidas
em vestibulares e no Enem.
RELEITURA
Apresentação das ideias e conceitos estu-
dados no capítulo em linguagem distinta do
texto didático como, por exemplo, letras de
música, obras de arte ou publicações.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
Sugestões de livros, filmes e sites que con-
têm mais e diversificadas informações sobre os
temas estudados.
INTERDISCIPLINARIDADE
Apresenta relações entre os diversos con-
ceitos históricos estudados e outras disciplinas
ou matérias com as quais o aluno tem contato.
DOCUMENTOS
Aqui são apresentados artigos, transcrições
e informações que, quando discutidas, con-
solidam a aprendizagem e a significação dos
conceitos estudados.
PONTO DE VISTA
Detalhamento ou confrontação de diferen-
tes pontos de vista sobre o assunto em estudo.
Relação dos objetos digitais
de aprendizagem apresentados
no livro.
Infográfico de fatos históricos
organizados de forma contínua
e cronológica
Conjunto de referências cruzadas
de temas relevantes estudados ao
longo dos livros da coleção.
UNIDADE 1
Conflitos e diversidade cultural no Brasil . . . . . . . . . . . . . 8
CAPÍTULO 1 O Brasil do sertão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
O sertão das secas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
O sertão – da Colônia à República . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
O sertão do cangaço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
O sertão do padre Cícero. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
CAPÍTULO 2 O Brasil amazônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
A Amazônia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
A independência e os conflitos
durante o Império . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
A borracha e a belle époque . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
As transformações do ecossistema
da Amazônia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
A ocupação da Amazônia no
Brasil contemporâneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46
A terra e o desenvolvimento na Amazônia . . . . . . . . 49
CAPÍTULO 3 Afro-brasileiros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
A África pré-colonial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
Os europeus na África . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
Os africanos no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
UNIDADE 2
Cidadania e relações de poder . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
CAPÍTULO 4 Nacionalismo, guerras mundiais e autoritarismo . . . . 84
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
Imperialismo e nacionalismo
no final do século XIX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
Trinta e um anos de guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90
A Primeira Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
A República de Weimar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96
A crise de 1929 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
A crise da República de Weimar e
a ascensão do nazismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99
A construção do ideário nazista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100
O fascismo italiano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
A Guerra Civil Espanhola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
A Segunda Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107
A Guerra Fria: a Coreia,
o Muro de Berlim e o Vietnã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116
SUMÁRIO
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c
k
CAPÍTULO 5 A República varguista:
da Revolução de 1930 ao Estado Novo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
O fim do predomínio da oligarquia cafeeira
e o governo Vargas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
A Revolução Constitucionalista de 1932 . . . . . . . . . . 132
A Constituinte e a Constituição de 1934 . . . . . . . . . . 134
Fascismo e comunismo no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135
O Estado Novo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138
O fim da ditadura Vargas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
CAPÍTULO 6 Ensaios democráticos no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154
O governo Dutra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154
Getúlio Vargas: presidente eleito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156
O governo JK e o desenvolvimentismo . . . . . . . . . . . . 160
Jânio Quadros e a renúncia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165
O governo Goulart e as reformas de base . . . . . . . 167
CAPÍTULO 7 Da ditadura à democracia:
golpe, guerrilha e abertura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 180
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184
A montagem do poder ditatorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184
O governo Costa e Silva e o período
do “milagre econômico” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 186
A resistência e o Ato Institucional n. 5 . . . . . . . . . . . . 188
A cultura jovem nos anos 1960
e o sentido de protesto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194
O governo Médici . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
De Geisel a Figueiredo: mudança de rumos . . . . 201
A abertura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205
Sarney governa de 1985 a 1989 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209
CAPÍTULO 8 O cidadão contemporâneo: um roteiro de estudo . . . 221
CONTEXTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225
O Brasil democrático e
socialmente desigual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225
A globalização e o desenvolvimento
do capitalismo no mundo contemporâneo . . . . . . 231
Os Estados nacionais no contexto
da globalização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 233
A crítica à globalização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236
Os conflitos pós-Guerra Fria
e as guerras do século XXI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236
O ser humano e o meio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 251
Referências bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 269
Gabarito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 272
SUMÁRIO
CONTEÚDO DIGITAL
G
Paisagens do Sertão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
G
Revolução de 1932 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
G
O DIP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 140
G
Getúlio Vargas – anos 1950 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156
G
Campanhas nacionalistas – anos 1970 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
G
Objetos sagrados de culturas africanas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
G
Festas tradicionais brasileiras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72
G
Cidades destruídas pela guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 112
A
Áudio de soldados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
Declaração de Guerra, 1940 – Mussolini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108
A
Hora do Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129
V
Trecho de vídeo da Primeira Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . 92
V
Olimpíadas de 1936 – Jesse Owens e Hitler . . . . . . . . . . . . . . . . 102
V
Conflito entre israelenses e palestinos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248
V
Degelo na Antártida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222
I
Desmatamento e Mineração – impactos ambientais . . . . . . . . 45
I
Terras indígenas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
I
Sufragistas e o voto feminino . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132
I
Programa de Metas de Juscelino Kubitschek . . . . . . . . . . . . . . 161
I
FMI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204
I
Aquecimento global . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222
I
Conflito entre judeus e palestinos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 247
I
Violência no campo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
I
Antigos reinos e impérios africanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
I
Primeira Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93
I
Ofensivas durante a Segunda Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . 111
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 à 268
G
Imprensa alternativa na ditadura militar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194
G
Alemanha pós-queda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117
V
LINHA DO TEMPO ÍNDICE
OD
THESAURUS
R
o
g
é
r
i
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R
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i
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P
u
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UNIDADE
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O Brasil do sertão
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studar a história brasileira significa desvendar acontecimentos marcados pela
diversidade cultural. A formação multicultural do Brasil se constitui por uma
grande variedade de grupos sociais que interagiram de maneira conflituosa.
Muitos antropólogos, historiadores e cientistas sociais, a exemplo de Gilberto
Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Fernando de Azevedo e, mais recentemente,
Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Roberto da Matta, Alfredo Bosi e Renato Ortiz,
já se preocuparam em definir e compreender a cultura brasileira em suas múltiplas
dimensões. Todos, a par de suas diferentes posições político-ideológicas, são unâni-
mes em concordar que a característica marcante de nossa cultura é a riqueza de sua
diversidade, resultado de nosso processo histórico-social e das dimensões continen-
tais de nossa territorialidade.
Nesse sentido, o mais correto seria falarmos em “culturas brasileiras”, ao invés
de “cultura brasileira”, dada a pluralidade étnica que contribuiu para sua formação.
FERNANDES, José Ricardo Oriá. Ensino de História e diversidade cultural: desafios e possibilidades.
Cadernos CEDES, Campinas, v. 25, n. 67, set./dez. 2005. p. 379. Disponível em:
<www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0101-32622005000300009>. Acesso em: 18 abr. 2013.
Nesta unidade vamos colocar em destaque parte dessa diversidade cultural, buscan-
do compreender a história brasileira mais recente levando em conta a sua pluralidade.
Vamos começar estudando o que denominamos como Brasil do sertão.
Lampião, o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, nasceu em 1897 e morreu em 1938.
Pernambucano, era representante de uma cultura brasileira que não pode ser entendida
apenas pelo que ocorria no Rio de Janeiro, então capital da República. Desde o período
colonial, o sertão se diferenciou pela peculiaridade de sua formação territorial, por suas
condições climáticas, por seu isolamento em relação ao centro de decisão de poder e
por sua formação cultural singular. Para o antropólogo Darcy Ribeiro:
Conformou, também, um tipo particular de população com uma subcultura própria,
a sertaneja, marcada por sua especialização ao pastoreio, por sua dispersão espacial
e por traços característicos identificáveis no modo de vida, na organização da família,
na estruturação do poder, na vestimenta típica, nos folguedos estacionais, na dieta, na
culinária, na visão de mundo e numa religiosidade propensa ao messianismo.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 340.
CAPÍTULO 1
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Lampião com sua mulher, Maria Bonita, e
cachorros. Nesta foto de 1936, tirada pelo
fotógrafo Benjamin Abrahão, que acompanhou
o bando, o cangaceiro aparece segurando um
exemplar da revista musical Noite Ilustrada,
que fazia sucesso na época.
CONTEXTO
O sertão das secas
A seca do Nordeste ocorre em sua região
semiárida, que compreende cerca de 700 mil km
2

do território brasileiro. Lá as temperaturas médias
são bastante elevadas durante todo o ano. Além
disso, as chuvas são escassas e irregulares, haven-
do pouca umidade e ausência de rios perenes.
As médias pluviométricas no semiárido, em alguns
lugares, não ultrapassam os 400 mm anuais.
No sertão nordestino, o inverno seco pode durar
até oito meses e o verão chuvoso até sete meses. A
paisagem torna-se acinzentada nos períodos de seca
e muito verde nas épocas de chuva. Quando as chu-
vas se avolumam no verão, a população das regiões
secas diz que chegou o inverno, pois o calor torna-se
mais ameno com a redução da secura.
A caatinga é um tipo de vegetação própria das
extensões semiáridas. Conforme o geógrafo Nilo
Bernardes:
A região das caatingas abrange, praticamente, to-
da a área dos estados do Ceará e do Rio Grande do
Norte; quase todo o sudeste do estado do Piauí; a
maior parte do este dos estados da Paraíba, de Per-
nambuco, das Alagoas e de Sergipe; a maior parte
de todo o interior da Bahia e até mesmo uma apre-
ciável porção do extremo norte do estado de Minas
Gerais. São mais de 800 mil km
2
de extensão,
Em 1936, o governo federal delimitou o que foi denominado
Polígono das Secas, abrangendo mais de quarenta municípios entre
o Piauí e o norte de Minas Gerais. Após diversas revisões de seu
traçado, em 2010 o número de municípios incluídos contava 1 348.
O POLÍGONO DAS SECAS
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Cangaceiros como Lampião desafiaram o
poder das autoridades brasileiras, impuseram
suas próprias leis e mantiveram centenas de
pessoas sob seu comando.
Estudar o Brasil significa, antes de tudo,
compreender sua diversidade. Por isso, nesta
unidade não podemos deixar de fazer referên-
cia à cultura que expressa as diferenças sociais
e as várias formas de conflito presentes em
nossa sociedade.
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Com base em Ministério da Integração Nacional. Relatório final: grupo de
trabalho interministerial para redelimitação do semiárido nordestino e do
polígono das secas. Brasília. Janeiro de 2005.
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Cactos xiquexiques em Poço Redondo (SE), 2007. Os
xiquexiques e os mandacarus (outra planta nativa
do sertão) servem de alimento para seres humanos
e animais. O xiquexique é uma planta rica em pro-
teínas, sais minerais, carboidratos e fibra. Deve-se
a essa planta a sobrevivência de muitos rebanhos
nordestinos durante as secas.
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significando que uma décima parte do território
brasileiro é coberto pelas caatingas. Ao norte,
elas chegam até a faixa praiana e, a oeste e ao sul,
entram em contato com a região dos campos cer-
rados, características das nossas regiões centrais.
BERNARDES, Nilo. As caatingas. Revista Estudos
Avançados. São Paulo: IEA/USP, maio/ago. 1999. n. 36. p. 69.
O geógrafo ainda esclarece que:
As caatingas aparecem nas áreas onde os totais
anuais de chuva, em termos normais, já estão
abaixo de 1 000 mm. […] De início se dizia que a
caatinga – a mata (caa) clara (tinga), na língua
indígena – era uma floresta espinhenta. Nos ma-
nuais de língua inglesa ela ainda é frequentemente
assim referida (scrub-forest). Mas nem sempre os
seus diversos tipos lembram realmente o porte de
uma floresta e nem sempre eles são, na verdade,
caracteristicamente espinhentos. Em algumas
áreas, com efeito, a predominância das árvores lhe
dá um porte que a caracteriza como caatinga arbó-
rea. Mas em muitos outros lugares somente ocorre
a caatinga arbustiva, ora mais alta, ora mais baixa.
BERNARDES, op. cit., p. 71.
Nesse contexto se destacam as cactáceas, que
se adaptaram à falta de chuvas: os mandacarus,
os xiquexiques e as coroas-de-frade, entre outras
plantas. A caatinga é uma vegetação de folhas
caducas que se renovam todos os anos. Por isso,
nos períodos de seca, os arbustos tornam-se galhos
secos e as árvores ficam desfolhadas.
Há também as regiões úmidas do sertão, cha-
madas pela população local de brejos. Localizam-
-se em formações geográficas específicas, como
serras, encostas e vales úmidos. Esses seriam os
casos de Garanhuns, em Pernambuco, e Ribeira
do Pombal, na Bahia. Segundo o geógrafo Aziz
Ab’Sáber, tais regiões são essenciais para a eco-
nomia regional:
Os brejos são fundamentais para a produção de
alimentos no domínio dos sertões, como mostra
qualquer apanhado sobre a origem dos produtos
comercializados nas feiras locais ou nos agres-
tes. De certa forma, o vigor e o sucesso das
feiras nordestinas são o próprio termômetro da
produtividade dessas áreas, cujos solos de mata
deram origem à formação dos primeiros celeiros
fornecedores de alimentos baratos e de uso tradi-
cional no amplo espaço sertanejo. O transporte a
baixo custo, feito no lombo de jegues, aliado à bai-
xa expectativa de lucro dos camponeses brejeiros,
garantiu a comercialização com níveis toleráveis
de preços para as populações. A carne verde de ga-
do ou de animais de pequeno porte é quase sempre
proveniente de todos os sertões, mas o restante
do necessário à alimentação do povo sertanejo
provém dos pequenos espaços, muito férteis, dos
brejos que pontilham os sertões. Dali saem a
mandioca e a farinha, o feijão, uma parte do café,
um sem-número de frutas, além da rapadura e da
aguardente, subprodutos de pequenas plantações
de cana-de-açúcar.
AB’SÁBER, Aziz Nacib. Sertões e sertanejos: uma geogra-
fia humana sofrida. Revista Estudos Avançados, São Paulo:
IEA/USP, maio/ago. 1999. n. 36. p. 20.
Em 2008, mais de 20 milhões de pessoas viviam
no sertão e agreste nordestinos, sendo Caruaru
(PE), Mossoró (RN), Feira de Santana (BA) e
Campina Grande (PB) algumas cidades que são
capitais regionais e centros de comércio. Ainda
é preciso considerar que quase toda a extensão
do sertão seco nordestino se situa nas chamadas
depressões interplanálticas. Conforme o geó-
grafo Jurandyr Ross:
A depressão sertaneja e do São Francisco compre-
ende uma extensa área rebaixada e predominante-
mente aplanada, constituindo superfície de erosão
que secciona uma grande diversidade de litologias
e arranjos estruturais. Esta superfície apresenta
inúmeros trechos com ocorrência de relevos resi-
duais constituindo inselbergs […]
ROSS, Jurandyr Sanches. Geografia do Brasil.
São Paulo: Edusp, 1996. p. 63.
Esses inselbergs podem ser considerados ele-
vações residuais de relevos mais antigos.
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Inselberg em Itaberaba (BA). Inselberg foi o nome dado em 1900 pelo geólogo alemão Bonhardt e quer dizer “montanha isolada”, “monte
ilha” ou “morro testemunho”. Essas rochas costumam abrigar plantas de lento crescimento e longa vida, com baixa substituição de espécies.
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Há também as regiões agrestes, faixas de tran-
sição entre a zona da mata e o sertão seco. Nos
agrestes chove mais do que no sertão e há zonas
de pecuária intercaladas com zonas de agricultura.
Trata-se da região mais povoada do interior nor-
destino. No período de grandes chuvas, ocorrem
enchentes em algumas áreas onde os rios são mais
rasos. As águas muitas vezes extravasam e correm
pelos vales, atingindo moradias e plantações.
A população nordestina mais duramente atin-
gida pelas secas é aquela desprovida de terras.
A falta de continuidade na produção rural gera
grandes contingentes de desempregados que se
transformam em retirantes – população que deixa
seu local de origem para procurar meios de sobrevi-
vência em outra parte. Nesse sentido, afirma mais
uma vez Aziz Ab’Sáber:
Alta fertilidade humana, forte seleção biológica
e ausência de oportunidades de emprego para os
sem-terra teriam que ocasionar o apelo à migra-
ção, numa desesperada luta pela sobrevivência.
Assim, a grande região seca brasileira passou a ter
o papel histórico de fornecer mão de obra barata
para quase todas as outras regiões detentoras de
algum potencial de emprego. Nordestinos de to-
dos os recantos mobilizaram-se nas mais variadas
direções, seguindo a vaga de cada época. Para a
Amazônia, nos fins do século passado e inícios do
atual. Para São Paulo, desde a década de 1930.
Para Brasília nos anos [19]60. Para o norte do
Paraná e São Paulo por todo o tempo, sobretu-
do depois da construção da estrada Rio-Bahia.
Finalmente, para o norte de Goiás, às margens da
Belém-Brasília, a Transamazônica e, para o sul do
Pará, nos anos [19]70.
AB’SÁBER, op. cit., p. 26-7.
Essa caracterização do sertão seco nordesti-
no não significa que não há solução para que as
famílias possam viver com dignidade e sem sofri-
mento na região. As soluções existem e depen-
dem, certamente, da ação estatal nos diferentes
níveis. Contudo é preciso criar políticas sérias
que não alimentem o que ficou conhecido como
a indústria da seca, ou seja, a transferência de
volumosos recursos para empreendimentos que
jamais resolveram os problemas do sertanejo,
mas, ao contrário, enriqueceram ainda mais certos
empreendedores. Para algumas pessoas, acabar
com a seca seria acabar com verbas e auxílios
governamentais direcionados à região. Manter
a seca, para essas pessoas, é uma forma de se
apropriar de recursos sem investir naqueles que
realmente necessitam. É preciso controlar tam-
bém os desmandos coronelistas, que influenciam
o poder público e exploram os habitantes locais,
além de se aproveitar de toda sorte de situações
para benefício próprio.
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O sertão – da Colônia à República
O processo inicial de colonização das terras que
hoje são o Brasil ocorreu pelo litoral. Nessa região,
desenvolveram-se as primeiras atividades econô-
micas. Nos mapas ao lado, observamos que, até o
século XVII, as áreas de povoamento se situavam
mais próximas ao litoral, sendo o interior pouco
explorado e habitado.
Mesmo assim, ainda no século XVI começaram
as primeiras incursões pelo interior com a finalidade
de obter indígenas para serem escravizados. Além
disso, iniciou-se também a busca de riquezas, como
os metais preciosos tão abundantes na América
espanhola e ainda desconhecidos no Brasil.
O sertão a que nos referimos aqui não inclui
apenas o Nordeste das secas, mas também o inte-
rior de várias regiões. O antropólogo Darcy Ribeiro
classificou essa região como o Brasil Sertanejo,
o qual delimitou, ao afirmar:
Para além da faixa nordestina das terras frescas e
férteis do massapé, com rica cobertura florestal,
onde se implantaram os engenhos de açúcar, des-
dobram-se as terras de uma outra área ecológica.
Começam pela orla descontínua ainda úmida do
agreste e prosseguem com as enormes extensões
semiáridas das caatingas. Mais além, penetrando
já o Brasil Central, se elevam em planalto como
campos cerrados que se estendem por milhares de
léguas quadradas.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 339.
No caso nordestino, ainda no século XVI, expli-
ca-nos mais uma vez Darcy Ribeiro:
O gado trazido pelos portugueses das Ilhas de Cabo
Verde vinha já, provavelmente, aclimatado para
a criação extensiva, sem estabulação, em que os
próprios animais procuram suas aguadas e seu ali-
mento. Os primeiros lotes instalaram-se no agreste
pernambucano e na orla do recôncavo baiano,
suficientemente distanciados dos engenhos para
não estragar os canaviais. Daí se multiplicaram e
dispersaram em currais, ao longo dos rios perma-
nentes, formando as ribeiras pastoris. Ao fim do sé-
culo XVI, os criadores baianos e pernambucanos se
encontravam já nos sertões do Rio São Francisco,
prosseguindo ao longo dele, rumo ao sul e para
além, rumo às terras do Piauí e do Maranhão. Seus
rebanhos somariam então cerca de 700 mil cabe-
ças, que dobrariam no século seguinte.
RIBEIRO, op. cit., p. 341.
Assim, a região do sertão nordestino trans-
formou-se em uma produtora de couros e carnes
que alimentariam a população que vivia na zona
POVOAMENTO E URBANIZAÇÃO
Com base em SOUZA, Laura de Mello e. História da vida privada no
Brasil; AZEVEDO, Aroldo de. A marcha do povoamento
(séculos XVI e XVIII). In: AZEVEDO, Aroldo de. Vilas e cidades do
Brasil colonial. Ensaio de geografia urbana retrospectiva. Boletim
n 208, Geografia 11. São Paulo: FFLCH-USP, 1956.
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açucareira. Até os dias atuais, as carnes salgadas,
como a carne de sol, são uma tradição presente em
cidades do sertão.
Essa criação extensiva de gado originou tam-
bém os primeiros latifúndios do sertão. Colonos
recebiam da Coroa grandes quantidades de terras
na forma de sesmaria. Por intermédio de carta régia
expedida pelo rei, os colonos tomavam posse de
terras desocupadas. Nessa atividade, o trabalho
escravo não predominou, sendo comum o paga-
mento de vaqueiros que recebiam mantimentos e
gado em troca de seu trabalho.
Desde o início, os conflitos dos europeus e seus
descendentes com os povos indígenas tornaram-se
inevitáveis na exploração do território com a finali-
dade de constituir pastos para o gado. Mais do que
a catequese dos jesuítas ou as alianças interessei-
ras, nessa região as lutas armadas com os indíge-
nas foram mais comuns, podendo também estar aí
uma das origens do cangaço, como veremos mais
adiante. O povo Tabajara, por exemplo, que vivia no
Nordeste, resistiu ferozmente aos colonizadores.
Chegou mesmo a ocorrer a Guerra dos Bárbaros,
quando indígenas do Rio Grande do Norte e do
Ceará se uniram aos de outras capitanias para lutar
contra o conquistador, entre o final do século XVII
e o início do século XVIII. O historiador Frederico
Pernambucano de Mello nos adianta:
Nos primórdios da vida social sertaneja, ao longo
dos séculos XVII e XVIII, de forma generalizada, e
mesmo de boa parte do XIX, em bolsões remotos,
a vida da espingarda não se constituía apenas
em procedimento legítimo à luz das circunstân-
cias, mas em ocupação francamente preferencial.
O homem violento, afeito ao sangue pelo traque-
jo das tarefas pecuárias e adestrado no uso das
armas branca e de fogo, mostrava-se vital num
meio em que se impunha dobrar as resistências
do índio e do animal bravio como condição para
o assentamento das fazendas de criar. Naquele
mundo primitivo, o heroísmo social se forjava pela
valentia revelada no trato com o semelhante e
pelo talento na condução cotidiana do empreendi-
mento pecuário. Nas festas de apartação em que
se engalanavam [embelezavam] as fazendas no
meado do ano, um e outro de tais valores – é dizer,
valentia e talento – precisavam somar-se para a
produção ou confirmação de heróis pelas vias da
vaquejada bruta, corrida com o homem nos couros
e por dentro dos paus da caatinga mais cerrada, ou
da corrida de mourão, expressão moderna em que
se resume toda a lúdica sertaneja da derrubada do
boi. Nesse sentido, há versos de gesta que valem
por um retrato sociológico, como o de Francisco
das Chagas Batista:
“Ali se aprecia muito
Um cantador, um vaqueiro
Um amansador de poldro
Que seja bom catingueiro
Um homem que mata onça
Ou então um cangaceiro”.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião.
Recife/Zurique: Stahli, 1993. p. 25-6.
No século XVIII, pode-se afirmar que já existia
um núcleo significativo de povoamento no sertão,
como mostra o mapa da página anterior, com
predomínio da atividade pecuária. Além disso,
as secas já causavam muitos problemas para a
população local. Só nesse século foram registrados
sete períodos de seca. O historiador Marco Antonio
Villa menciona:
A seca de 1723-1727, que atingiu todo o Nordeste,
promoveu, além de desastrosos efeitos econô-
micos, o deslocamento das populações para as
áreas menos afetadas pelo flagelo e o surgimento
de pequenos grupos de bandoleiros, que acaba-
ram marcando durante mais de dois séculos a
história da região. […] Em 1777, depois de outras
duas grandes secas, novamente o flagelo atingiu
a região. A pecuária foi severamente atingida.
Segundo Thomaz Pompeu, no Ceará, o gado
“ficou reduzido a menos de um oitavo e fazendei-
ros que recolhiam mil bezerros não ficaram com
20 nos anos seguintes”. O mesmo quadro de des-
truição atingiu o sertão das outras capitanias, que
acabaram perdendo o mercado consumidor das
Minas Gerais. […] Nos anos 1791-1793 ocorreu
aquela que provavelmente foi a maior seca do sé-
culo XVIII, atingindo Ceará, Pernambuco, Bahia,
Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Paraíba e
até o Piauí. No Ceará, segundo Joaquim Catunda,
“no ano de 1792 as águas desapareceram comple-
tamente em grande parte da capitania. Morreram
os gados, os vaqueiros, muitos fazendeiros e os
animais domésticos e bravios. As estradas jun-
cadas de cadáveres, famílias inteiras mortas de
fome e sede, e envolvidas no pó dos campos; o in-
terior deserto; a população esfaimada e dizimada
pela peste nos povoados do litoral; atulhadas de
retirantes as capitanias vizinhas, esmolando uns,
furtando outros, trabalhando poucos.
VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no sertão.
São Paulo: Ática, 2001. p. 19-20.
A população estava sempre despreparada
para os momentos de seca, por isso seus efeitos
eram catastróficos. Surgiam epidemias, como a
da varíola, em época de fome, e a vida econômica
oscilava entre altos e baixos, conforme a extensão
das secas. No século XIX, após a Independência do
Brasil, o banditismo começou a se espalhar pelo
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sertão nordestino nesses períodos de penúria.
O governo imperial pouco investiu na região, embo-
ra tenham surgido os primeiros projetos de cons-
trução de açudes e se tenham introduzido camelos
e dromedários como meio de transporte nesses
locais de seca. Essa última iniciativa, entretanto,
não obteve nenhum sucesso.
As secas continuaram no século XIX, e, nos
períodos em que elas se estenderam, as cidades
do sertão ficaram “inchadas” de retirantes à pro-
cura de comida e trabalho. Na seca de 1877, mais
de 50 mil retirantes foram para Fortaleza em pou-
cas semanas. No mesmo ano, o jornal paraibano
A Opinião noticiou, em 11 de novembro, que:
[…] os sertões estão ficando desertos pela emigra-
ção […]; e nos brejos surge a miséria pela supera-
bundância de emigrantes que de tudo precisam, e
nada conduzem.
Apud VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no sertão.
São Paulo: Ática, 2001. p. 52.
Parte dessa população ia para o litoral e aca-
bava sendo explorada pelos produtores de açúcar,
que pagavam ínfimos salários aos trabalhadores
famintos. Outros retirantes iam para a Amazônia
tentar a sorte na economia da borracha em ascen-
são. No entanto, chegavam à região endividados
com o transporte e trabalhavam para pagar dívi-
das em regime que se aproximava da escravidão.
Também doenças como a cólera, o tifo e a varíola
mataram milhares de emigrantes. Em cidades
como Fortaleza, meninas, filhas de retirantes,
ainda muito jovens, já se entregavam à prostitui-
ção como forma de ganhar algum dinheiro na luta
contra a fome.
Mesmo com as tragédias ocorridas durante a
seca de 1877-1879, não houve mobilização gover-
namental suficiente para mudar a situação com
relação à seca. O imperador Dom Pedro II não se
manifestou quanto ao problema. As autoridades
locais pareciam mais preocupadas com a lavou-
ra açucareira, não concentrando esforços no
Nordeste das secas.
Ao longo do século XIX, o sul brasileiro acabou
por se tornar um polo pecuário, tornando ainda
mais difícil a situação da economia do sertão, que
não era mais o único setor produtor de carnes e
couros para as regiões litorâneas. Com a procla-
mação da República, evidentemente, os interesses
dos cafeicultores do Sudeste brasileiro prevale-
ceram. O federalismo implementado tinha como
principal objetivo permitir que os ricos governos
do Sudeste pudessem fazer investimentos, sem
ter de prestar contas ao governo federal e sem
ter de destinar recursos aos estados de outras
regiões do país.
No Nordeste, as famílias tradicionais oligárqui-
cas trataram de fazer funcionar a seu favor a nova
ordem política. Os governos estaduais, regidos
por constituições locais, passaram a servir dire-
tamente aos seus interesses. No caso do Ceará, a
família Accioly, liderada inicialmente por Nogueira
Accioly, teve o domínio político do estado entre
1896 e 1912. Para se manter no poder, não só se
submetia às ordens do governo federal, como
contava com o auxílio de coronéis que garantiam
os resultados eleitorais nas localidades. Aos seus
opositores cabia a perseguição e a repressão.
Em Pernambuco dominaram os Rosa e Silva, em
Alagoas os Maltas e no Piauí os Pires Ferreira.
Quando entre 1898 e 1900 ocorreu uma grande
seca, ficou claro que o governo federal não aten-
deria à região. O então presidente Campos Sales
não destinou recursos suficientes para combater
os efeitos dela. Em 1915, uma nova seca atingiu o
Nordeste e mais uma vez os retirantes foram para
as cidades. A fome e as doenças começaram a
fazer muitos mortos. Obedecendo ao jogo oligár-
quico, os governadores não enfrentaram o gover-
no federal, e os recursos novamente não vieram
para combater a seca. Para complicar ainda mais
a situação, em 1915 a borracha amazônica já se
encontrava em decadência como atividade econô-
mica, tornando ainda mais difíceis as migrações.
Nesse período, a região Nordeste começou a
perder a liderança na produção de ovinos, bovinos
e caprinos para o sul do país, pois milhares de
animais morreram com a seca.
Em 1919, o então presidente Epitácio Pessoa
propôs a realização de obras de irrigação no
Nordeste, como a construção de açudes e poços.
Queria ainda ampliar as estradas para facilitar a
circulação de mercadorias na região. No entanto
sofreu forte oposição no Congresso, principal-
mente da bancada do sudeste e do sul do país.
A oposição temia, entre outros motivos, que
essas atitudes levassem à desapropriação de
terras irrigadas que não fossem cultivadas. Em
1920, quando uma nova seca atingiu o Nordeste,
Epitácio Pessoa conseguiu dar andamento a
algumas obras. Construiu mais de 200 açudes e
perfurou mais de 100 poços, além de reformar
estradas e portos. No entanto, nos anos finais da
Primeira República, não se repetiram os esforços
de Epitácio Pessoa, que deixou o governo com a
imagem desgastada.
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Acima, chegada de retirantes em Fortaleza (CE). Milhares de sertanejos que migraram para lá, na seca de 1915, foram abrigados
em locais que ficaram conhecidos como “campos de concentração”, pois as pessoas não podiam sair sem permissão das autorida-
des, e as condições de vida e higiene eram as piores possíveis. Abaixo, foto de família em um desses “campos”, em cerca de 1910.
Arquivo particular
Biblioteca Municipal Mário de Andrade, São Paulo (SP)
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O sertão do cangaço
O cangaço refere-se aos grupos de pessoas
armadas que, com suas roupas e chapéus de couro,
faziam assaltos, matavam opositores, enfim, viviam
sob suas próprias regras. Esses homens e mulheres,
os cangaceiros, estiveram muito presentes no ser-
tão nordestino entre os anos 1910 e 1940. A palavra
“cangaço” faz referência a canga, peça de madeira
que segura o boi pelo pescoço. É uma alusão à carga
que os cangaceiros carregavam no corpo, a qual
muitas vezes ultrapassava os vinte quilos.
De que maneira o cangaço estabelece rela-
ção com a história da pecuária e das secas no
Nordeste? Para responder a essa questão é
necessário estar atento ao duplo significado que
o cangaço pode ter.
É possível se reportar aos cangaceiros para
fazer referência aos grupos de homens armados
que prestavam serviço aos chefes políticos de
dada localidade e que eram pagos para cumprir as
ordens desses senhores. Esse tipo de grupo arma-
do já existia no Brasil há mais tempo, desde pelo
menos o século XVIII. A historiadora Maria Isaura
Pereira de Queiroz explica:
Qualquer dissensão, por pequena que fosse, no in-
terior de uma parentela, ou entre duas parentelas,
imediatamente dava início a um conflito, que podia
desenvolver-se na forma de uma “guerra de famí-
lias”, se estendendo por várias gerações. Assim,
por exemplo, na luta entre Pereiras e Carvalhos,
na zona de Pajeú de Flores, Pernambuco, a cada
pequeno Pereira que nascia, aconselhavam seus
avós, seus pais, seus padrinhos “que procurasse
o seu Carvalho a quem devia liquidar”, o mesmo
acontecia entre os Carvalhos e a pendência, ora
violenta, ora larvada. […]
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. História do cangaço.
São Paulo: Global, 1997. p. 23.
Na Primeira República, essas lutas estavam
diretamente ligadas à disputa oligárquica pelo
domínio político local. Já os grupos de cangacei-
ros independentes surgiram mais tarde e lutavam
em defesa de seus próprios interesses. Errantes
e sem residência fixa, eram fugitivos da polícia e
de grupos armados particulares que queriam seu
extermínio. O mais famoso desses grupos, como
veremos mais adiante, foi o liderado por Lampião
entre 1920 e 1930. Esses grupos independentes
eram uma resposta à miséria que se instalava no
Nordeste principalmente nos períodos de seca.
Sobre a origem mais remota do cangaço, como
já lembramos, devemos considerar que a própria
história da colonização da região envolveu cons-
tantes conflitos entre a população indígena e os
colonos pela posse da terra destinada à pecuária.
Com isso, a utilização de armas e as lutas sangren-
tas entre indígenas e colonos eram comuns, assim
como as brigas entre famílias. O ser humano do
cangaço certamente nasceu dessa fusão cultural
entre uma população indígena que resistia ao
domínio e um grupo de colonizadores que lutava
para conquistar terras a qualquer preço.
Os cangaceiros buscavam o enriquecimento
pelo roubo, e se vingavam dos inimigos com vio-
lência e morte. Procuravam construir alianças que
lhes garantissem segurança temporária. Uma das
formas de os chefes locais evitarem o confronto
com os cangaceiros era estabelecer alianças com
o bando, que se transformavam em relações de
compadrio. Conforme Maria Isaura P. de Queiroz:
Um dos melhores exemplos destas relações de
aliança está no pacto implicitamente estabelecido
entre Lampião e o poderoso chefe político do muni-
cípio de Jeremoabo, ao norte da Bahia, Cel. João Sá.
Vangloriava-se João Sá de ser tão temido e respeita-
do, que o próprio Lampião, que tanto havia circulado
pela região, nunca atacara as “suas” fazendas e
a “sua” cidade. Na verdade, vários documentos
demonstram que João Sá frequentava os acampa-
mentos de Lampião, principalmente o que estabe-
lecera no Raso da Catarina, sendo parceiro habitual
das rodas de jogo que o chefe de cangaceiros ali
organizava frequentemente. Este relacionamento
se estreitara ainda mais porque João Sá aceitara
ser padrinho de filhos de Lampião com Maria Bonita.
QUEIROZ, op. cit., p. 33.
Os bandoleiros também comprometiam comu-
nidades inteiras ao propagar o medo. Ameaçavam
aqueles que se voltavam contra eles e premiavam
com dinheiro e proteção os que estivessem do seu
lado. Uma das atividades que exerciam era exata-
mente a venda de proteção a fazendeiros, com a
qual o bando de Lampião ganhou muito dinheiro.
Economicamente, aderir ao cangaço poderia ser
uma forma de alcançar rendimento, coisa que o
trabalho na terra ou outras atividades jamais pro-
porcionariam a um cidadão pobre. Os cangaceiros
contavam com uma rede de colaboradores e pro-
tetores, os coiteiros, que informavam quando a
polícia ou outro inimigo se aproximava.
Os inimigos do cangaço poderiam se alistar na polí-
cia ou aderir às volantes, grupo de soldados liderados
por um tenente ou um sargento que perseguia os
cangaceiros sem pertencer a um quartel fixo. Assim,
o conflito ganhava dupla dimensão: de um lado, o
grupo de cangaceiros assaltava, matava e ameaçava
comunidades; de outro, as volantes e as polícias locais
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Lampião (à esquerda), em 1922, quando iniciou como chefe
do cangaço. Na foto, tirada na Fazenda da Pedra, município de
Princesa (PB), aparecem também Livino, Antônio Rosa e Antônio
Ferreira, seus companheiros.
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cometiam todo tipo de violência em busca dos bandi-
dos e também para manter o domínio local.
Antônio Silvino foi um dos primeiros que
formaram um desses grupos de cangaceiros inde-
pendentes. Nascido em 1875, em Pernambuco, era
descendente de uma família tradicional da região.
Em 1896, decidido a vingar a morte do pai, juntou-se
a um bando já formado, do qual depois se tornou
líder. Após liquidarem vários de seus inimigos,
os bandoleiros prosseguiram lutando contra a
polícia, promovendo assaltos e armando tocaias
para autoridades e instituições governamentais.
Silvino considerava as autoridades do governo,
em todos os níveis, seu maior inimigo. Andava
pelo sertão com um grupo pequeno, quase nunca
superior a seis homens, fortemente armado. Em
1912, tentou abandonar a vida de cangaceiro e
pediu ao governo do Estado que perdoasse seus
crimes. Como a resposta foi negativa, voltou a atuar
como bandido. Cobrava impostos de comerciantes
e negociantes, assaltava trens e não reconhecia
nenhum tipo de autoridade legal. Em 1914, acabou
sendo capturado no município de Taquaretinga (PE)
pelas forças policiais lideradas por José Alvino, ex-
-comerciante que entrara para a polícia depois
de ter sido assaltado por Antônio Silvino e que
havia prometido capturar o cangaceiro. Silvino
ficou preso por mais de vinte anos; libertado, foi
morar com a esposa no Rio de Janeiro. Uma vez
lá, solicitou emprego ao presidente Getúlio Vargas.
Chegou mesmo a ser recebido pelo presidente, que
lhe concedeu o emprego. Morreu em 1944.
Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como
Lampião, nasceu na fazenda de seus pais, no Vale
do Pajeú, Pernambuco, em 1897. Era filho de um
modesto fazendeiro que foi morar no estado per-
nambucano após matar inimigos no Ceará, sua terra
natal. Depois de novos conflitos entre famílias, foi
viver em Alagoas. Na cidade de Água Branca, seus
filhos, incluindo Virgulino, começaram a participar
de um grupo de cangaceiros. A polícia alagoana
passou a perseguir os Ferreira da Silva após um
ataque a uma vila. O pai de Lampião acabou sendo
assassinado pela polícia. Em seguida morreu a
mãe, e os irmãos regressaram para Pernambuco.
Em 1918, Lampião ingressou no bando formado
por Sinhô Pereira, descendente de família rica e
influente de Pernambuco. Ganhou então o apelido
por ser muito rápido no gatilho e porque de sua arma
saía um constante clarão dos disparos, como um
lampião. Em 1922, Sinhô Pereira abandonou a
região e Lampião se tornou o chefe do bando.
A partir daí, o bando de Lampião começou a
sobreviver de assaltos e das ameaças que fazia
a fazendeiros e chefes locais. Temidos, os canga-
ceiros conseguiram estabelecer várias alianças,
recebendo proteção de autoridades e fazendei-
ros. Quando se sentiam ameaçados, atacavam
o inimigo e as pessoas que lhe eram próximas.
Frequentemente Lampião enviava carta de cobran-
ça ou advertência a possíveis aliados ou inimigos.
Em 1927, enviou uma carta de cobrança para o pre-
feito de Mossoró, Rodolfo Fernandes, na qual dizia:
Estando Eu ate aqui pretendo é dr [dinheiro]. Ja foi
um a viso, ahi pa oSinhoris, si por acauso rezolver
mi a mandar-me a importança qui aqui nos pedi,
Eu envito di Entrada ahi porem não vindo esta
Emportança eu entrarei ate ahi, penço qui adeus
querer, eu entro, i vai aver muito estrago, por isto
si viro dr eu não entro ahi mas nos resposte logo.
Apud MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi
Lampião. Recife/Zurique: Stahli, 1993. p. 142.
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Em outra carta, de 1926, Lampião faz uma adver-
tência ao sargento José Antônio do Nascimento,
delegado de Juazeiro do Norte (CE):
Eu lhi faço este, até não devia mi sujeitar a ti
escrever porem sempre mando ti avizar pois eu
soube qui no dia qui cheguei ahi na fazenda este-
ve prompto para vir mi voltar porem, Eu sempre
lhi digo qui Voce crie juizo, e deixi de violencias,
pois Eu venho chamado é por home, mesmo
asim, com zuada não mi faz medo. Eu tenho visto
é cousa forte, e não me asombra, portanto deve
e tratar de fazer amigos não para fazer como diz
voce. Sempre lhi avizo, qui E para depois não se-
arrepender e nada mais: não se zangue, isto E um
conselho que lhi dou.
Apud MELLO, op. cit., p. 141.
O bando de Lampião era composto de um gran-
de número de homens e também mulheres – chegou
a ter mais de 120 bandidos sob seu comando direto
e mais de 300 divididos em outros grupos –, que
se espalhavam por vários estados do Nordeste
realizando diferentes ações. Quando necessário,
dispersavam-se para escapar de uma luta que
não podiam ganhar. Andavam à noite pelas matas
para evitar serem vistos e apareciam sempre de
surpresa. Maria Isaura Pereira de Queiroz conta:
Surgia inesperadamente nos povoados – como
aconteceu em Souza, na Paraíba, em 1924. O ban-
do cortara previamente os fios do telégrafo, im-
possibilitando assim qualquer pedido de socorro
para o exterior. Penetrando na vila, os cangaceiros
pilharam as casas comerciais. Abasteceram-se
em gêneros; envergaram roupas novas; organi-
zaram um baile; gozaram os favores de algumas
mulheres que não lhes resistiram. Em seguida
partiram, levando com eles um menino para car-
regar cobertores e bagagens – menino que mais
tarde se tornou o cangaceiro Lua Branca.
QUEIROZ, op. cit., p. 49.
O historiador Frederico Pernambucano de
Mello chama a atenção para a ostentação promo-
vida por Lampião. Com as cobranças e os saques
realizados, ele conseguia sustentar o luxo. Explica
o historiador:
Se a vestimenta dos bandoleiros do Nordeste
sempre se mostrou imponente, a ponto de muitos
jovens cederem à tentação de se ligar aos grupos
por conta do fascínio que a beleza do trajo exercia
sobre olhos habituados a cotidiano sem atrativos,
a de Lampião refulgia num destaque que o tornava
inconfundível em meio aos seus homens. Começa
pelo tecido. Enquanto o brim mais comum para a
confecção da calça e da túnica era a mescla azul ou
o cáqui, ele preferia o tecido de cor grafite realçado
por botões de ouro. Sobre a túnica, estreitadas por
dobras e apresilhadas nas pontas, cingiam-se as
cobertas em forma de X sobre o tórax. A de deitar e
a de cobrir, como se dizia no costume. Ambas nor-
malmente em chita forrada, a estamparia de cores
berrantes. As dele eram feitas em bramante da
melhor qualidade […]. Os lenços de pescoço iam
da seda pura de procedência inglesa ao tafetá fran-
cês. Estampados vivamente em cores fortes […].
Sem limite no amor ao ouro e às pedras preciosas,
usava, exagerando a moda entre bandoleiros, anéis
em quase todos os dedos das mãos, alguns com
esmeralda, outros com rubi, outros ainda com
brilhante solitário ou em chuveiro. Houve dedo que
teve a honra de receber mais de um anel. Aliança,
crucifixo, lapiseira, tesoura de unha, tudo de ouro
puro. De ouro também as 15 moedas antigas de
que se achava adornada a bandoleira do mosque-
tão, em cuja boca de cano se incrustavam duas
alianças do mesmo metal.
MELLO, op. cit., p. 45-7.
Em 1926, Lampião foi chamado pelo padre
Cícero para lutar contra a Coluna Prestes.
Aceitou após promessa de que seria nomeado capi-
tão do exército e receberia uniformes e munição
do governo federal. Isso não impediu, contudo, que
seguisse depois sua vida como cangaceiro.
No final de 1930, Lampião juntou-se a Maria
Bonita, que teria declarado amor a ele e dis-
posição de seguir com o bando. Foi a primeira
mulher a ser admitida no grupo de cangaceiros.
Depois disso, vários cangaceiros tiveram compa-
nheiras vivendo com o grupo. Maria Bonita e as
outras mulheres lutavam com o bando, assumindo
o papel de cangaceiras.
Nos anos 1930, Lampião e Maria Bonita insta-
laram-se em uma fazenda em Angico, no Sergipe.
De lá ele comandava as várias células do grupo e
participava de algumas incursões.
Frederico Pernambucano comenta:
[…] sem abandonar de todo os procedimentos
velhíssimos do assalto direto e da venda de pro-
teção a fazendeiros e a quem quer que tivesse
patrimônio a perder no sertão, troca o ataque
frontal a cidades por uma espécie de imposto
sobre transações imobiliárias. E ai de quem com-
prasse ou vendesse fazenda na região do baixo
São Francisco sem comparecer com a cota fixada
pela lei do cangaço. […] Nos anos finais da dé-
cada de [19]30, o cangaço sobrevivia menos pela
força das armas que pela eficácia de relações
de clientela e corrupção tecidas pela versatilidade
extraordinária de seu chefe máximo.
MELLO, op. cit., p. 77 e 80.
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Cangaceiros e cangaceiras do bando de
Lampião, em foto de cerca de 1936.
Cartaz de 1930 anuncia a recompensa oferecida
pela morte ou captura de Lampião, o bandido mais
procurado pelas autoridades nordestinas na época.
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Em Angico, Lampião foi traído por um vaqueiro
que denunciou quem sabia seu paradeiro. Pedro de
Cândida, coiteiro de Lampião, foi preso em 1938 e
pressionado a revelar o esconderijo e a acompanhar
a polícia até o local. Lá chegando, os policiais sur-
preenderam parte do bando e Lampião. Todos foram
fuzilados e decapitados, e suas cabeças expostas
em várias cidades nordestinas, como Piranhas (AL),
Poço Redondo (SE) e Maceió (AL). Foram levadas
ao Rio de Janeiro (RJ) e, por fim, a Salvador (BA),
onde foram mumificadas.
A morte dos cangaceiros insere-se no contexto
da implementação da ditadura do Estado Novo,
quando uma nova ordem jurídica e um maior con-
trole do Estado sobre a vida local foram estabele-
cidos. Isso favoreceu a redução da corrupção nos
órgãos do governo e limitou a ação dos coronéis.
Vários subgrupos ligados a Lampião que esca-
param da chacina se entregaram à polícia. Contudo
um deles, chefiado por Corisco, continuou em
ação. Em 1932, o grupo de Lampião já havia se
dividido em três subgrupos: um sob o comando
de Lampião, outro sob o comando de Virgínio e o
último sob o comando de Corisco. Esses grupos
realizavam ataques simultâneos, o que confundia
as autoridades. Depois, reuniam-se para combinar
novas estratégias, fazer novos planos e partilhar o
que tinham saqueado. Após 1937, Corisco começou
a agir por conta própria, afastando-se aos poucos
de Lampião. Depois da morte deste, passou a per-
seguir seus supostos delatores e matadores. Vários
foram assassinados até que, em 1940, o próprio
Corisco foi morto em uma perseguição.
Concluindo, podemos afirmar que o cangaço
tinha relação com brigas locais entre parentes
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Monumento a padre Cícero
em Juazeiro do Norte (CE),
em foto de 2007.
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e vizinhos, mas também com disputas políticas,
inserindo-se nesse universo na medida em que
estabelecia alianças, debelava inimigos e escolhia
aliados. No entanto, os cangaceiros independentes
não foram prestadores de serviço dos homens
ricos; ao contrário, determinavam as alianças con-
forme seus interesses. Para Maria Isaura Pereira de
Queiroz, o cangaço podia funcionar, em algumas
circunstâncias, como fiel da balança da luta entre
duas grandes parentelas.
A decadência do açúcar e do algodão como ati-
vidades econômicas no final do século XIX, a crise
da borracha na Amazônia nas primeiras décadas
do século XX e a falta de empregos em um sertão
que crescia em termos populacionais certamente
colaboraram para que surgissem os cangaceiros
independentes. Nesse sentido, o cangaço foi uma
alternativa à miséria, embora nunca tenha se con-
figurado como movimento social que lutava contra
a fome ou a pobreza extrema. Em 1920, um cordel
de José Martins de Ataíde denunciava o destino
do nordestino: “Pedir esmola hoje em dia / Não é
boa profissão, / Então ele deixa a vida / Segue a pé
para o sertão, / Somente pra se vingar / Vai pedir
pra se alistar / No grupo de Lampião” (citado em:
MELLO, op. cit., p. 59).
O sertão do padre Cícero
Não se pode deixar de considerar o sertão como
espaço do sagrado. Palco de movimentos messiâni-
cos como Canudos, nessa terra árida foram e são
frequentes os peregrinos, os beatos e os romeiros.
O padre Cícero, chamado também de Padim
Ciço, representa esse universo da crença popular,
sendo uma das figuras religiosas mais cultuadas no
interior nordestino até os dias atuais.
Cícero Romão Batista nasceu no município do
Crato, no Ceará, em 1844. Ordenou-se padre em
1870 e, dois anos depois, mudou-se para Juazeiro do
Norte, onde permaneceu pelo resto da vida. Lá res-
taurou a capela de Nossa Senhora das Dores e pas-
sou a desenvolver um trabalho pastoral. Pregava
em missões, participava de novenas e organizava
festas religiosas e procissões. Sua popularidade
foi aumentando ano após ano, sendo considerado
um religioso despretensioso e dedicado ao povo.
Em 1889, durante uma missa, a lavadeira Maria
de Araújo recebeu o sacramento e foi ao chão. A
hóstia em sua boca parecia estar envolvida por
um líquido cor de sangue. Esse acontecimento
ficou conhecido como o “milagre de Juazeiro”. Isso
ainda teria ocorrido outras vezes, e ficou provado,
por um grupo de médicos, que ela não mordia a
língua nem utilizava qualquer artifício. O fenômeno
só acontecia quando o padre Cícero celebrava a
missa. A comunidade local interpretou o episódio
como uma alusão ao derramamento de sangue de
Jesus Cristo para a salvação dos seres humanos, e
multidões começaram a frequentar o vilarejo para
ver o fenômeno.
Com o constante crescimento das romarias a
Juazeiro do Norte, o bispado cearense interveio e
cobrou explicações do padre Cícero, pois a Igreja
Católica passava por um processo de romanização,
ou seja, de negação das práticas locais e afirma-
ção das orientações do Vaticano para uniformizar
as condutas. Em 1892, autoridades eclesiásticas
consideraram que o ocorrido em Juazeiro não se
tratava de um milagre, e ordenaram que se apre-
sentasse uma nova interpretação. No entanto, as
romarias não cessaram, ampliando a crença popu-
lar no milagre. Nesse mesmo ano, o padre Cícero foi
suspenso, proibido de pregar a religião católica. Em
1896, persistindo as romarias e as missas, a Igreja
Católica ordenou que ele se retirasse de Juazeiro.
O padre foi para Salgueiro (PE) e, em 1898, viajou
para Roma a fim de se explicar ao Santo Ofício. Lá
foi julgado e o milagre, mais uma vez, condenado.
No entanto, não foi expulso da Igreja. Novamente
no Brasil, não conseguiu fazer com que o bispado
cearense aceitasse seu retorno a Juazeiro. Voltou
para a cidade, entretanto não reatou com a Igreja.
Nos muitos anos que este-
ve sob o comando da Igreja
em Juazeiro, padre Cícero
recebeu inúmeras doações
de fiéis, que fizeram dele
um homem de respeitá-
vel patrimônio. Tinha
muitas terras, gado e
comercializava vários
produtos, entre eles
borracha, cana-de-
-açúcar e algodão.
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Sem o apoio da Igreja, aliou-se aos coronéis
locais. Os muitos romeiros que passaram a fre-
quentar a região eram encaminhados por ele para
servirem como trabalhadores nas fazendas locais,
resolvendo o grave problema de mão de obra
enfrentado pelos proprietários. Em 1911, Juazeiro foi
emancipada do município do Crato, e padre Cícero
foi indicado para o cargo de prefeito pelo governador
Nogueira Accioly, líder oligarca local. Transformado
em importante líder político da região do Cariri,
intermediou negociação para que cessassem as
disputas armadas entre os vários coronéis locais. Em
1912, foi eleito vice-presidente do Ceará e ampliou
sua influência política sobre o Nordeste. Em 1914,
liderou a chamada Sedição de Juazeiro, que
depôs o governador. Depois voltou a ser prefeito de
Juazeiro, deixando o cargo somente em 1927.
Nos anos 1930, perdeu espaço político após a
ascensão de Getúlio Vargas. Tentou ainda recuperar
o direito de sacerdócio, mas não obteve sucesso.
Padre Cícero faleceu em 1934, aos 90 anos, causando
grande comoção popular. As romarias continuaram
e se intensificaram nos anos seguintes, e ele foi
transformado em mito popular relacionado ao milagre
original. Juazeiro do Norte se transformou em uma
cidade-santuário, e até hoje milhares de romeiros
visitam a grande imagem do padre Cícero.
Em 2002, cerca de 500 mil pessoas participaram
da romaria que se iniciou em 1.º de setembro e se
estendeu até o dia 15 do mesmo mês. Fiéis das
mais diferentes regiões costumam ir até Juazeiro
do Norte para pedir pelas chuvas no sertão e pela
cura de doenças. Nesse mesmo ano, uma comissão
da Igreja deu início a um processo para reabilitar o
padre Cícero, o que abriria caminho para, posterior-
mente, tentar beatificá-lo e canonizá-lo. Em 2006, o
Vaticano recebeu um dossiê de nove volumes sobre
a vida do padre Cícero. As informações, preparadas
por especialistas em teologia, foram anexadas ao
processo de canonização.
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PONTO DE VISTA
Chapéu de couro de chefe
cangaceiro, adornado com
a efígie de Pedro II, flor de
lis e signos de salomão.
Óculos de alcance alemão com estojo em couro
e liga de prata pertencentes a Lampião.
Alpercatas de ra-
bicho usadas por
cangaceiros.
Observe as imagens e leia o texto a seguir. Depois, responda as questões do Roteiro de trabalho.
Pesquisador estuda vestuário dos bandos
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s cangaceiros de Lampião contrariavam uma regra básica das táticas de guerrilha adotadas
no século XX: em vez de usar um figurino discreto para se confundir com a caatinga, abu-
savam do estilo espalhafatoso e chamativo, a começar pelos chapéus de couro, de aba larga,
com enfeites e moedas de ouro coladas, refletindo o sol do sertão.
Esse vestuário, que incluía punhais de mais de 1 metro de lâmina e um total de 40 quilos de
equipamento, foi estudado pelo pesquisador Antonio Amaury Corrêa de Araújo, autor de sete
livros sobre cangaço e compadre de Sérgia Maria da Conceição, a Dadá, mulher de Corisco, con-
siderada a “estilista” do bando. Apesar de esse estilo ter ficado mais conhecido graças às fotos do
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ROTEIRO DE TRABALHO
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1. De que maneira o vestuário dos cangaceiros, conforme o texto, era adequado à realidade em que
viviam?
2. Qual era a representação simbólica do vestuário de Lampião para outros cangaceiros e para
parte da população?
3. No texto, que relações se estabelecem entre o poder e o vestuário?
árabe Benjamim Abrahão, que conviveu com o grupo entre 1934 e 1935, os cangaceiros nem sempre
usaram roupas vistosas e coloridas. No início de sua história de bandoleiro, Lampião trajava paletó.
Depois do encontro com padre Cícero, em 1926, eles passaram a usar o uniforme de mescla azul-
-acinzentada dos batalhões patrióticos, grupos formados para combater a Coluna Prestes. Na época,
Lampião ganhou até patente de capitão para enfrentar a coluna.
Passatempo – O hábito de usar enfeites nos chapéus, de acordo com Araújo, surgiu em 1934, quando
Dadá, grávida, estava no Raso da Catarina, região desértica da Bahia, e para passar o tempo começou a
bordar estrelas e outros objetos em bornais. Lampião gostou e pediu dois pares. A partir daí, vários can-
gaceiros passaram a usar os enfeites. “Lampião era o manequim do grupo. Há casos de cangaceiros que,
mesmo sem ter problema de visão, usavam óculos somente porque tinham visto ele com um.”
A começar pelo chapéu, o equipamento se assemelhava a uma armadura para enfrentar as difíceis
condições de vida na caatinga. No pescoço, talvez como uma lembrança dos embates com a Coluna
Prestes, os cangaceiros usavam lenços vermelhos, presos por um anel, típicos dos gaúchos. Dois
pedaços de pano eram trançados em “X” no corpo. Um era usado para fazer a torda (barraca) e
outro um lençol. Em quatro bornais coloridos de pano, os cangaceiros levavam carne assada, farinha
e rapadura, além de mudas de roupa e munição.
Nas borrachas – espécies de cantis feitos de couro –, seguia a água. Na cintura, as cartucheiras
viajavam cheias de balas para pistola, revólver e fuzil. Presos ao cinto, além das pistolas Parabellum,
ficavam os punhais. As armas longas preferidas eram os fuzis Winchester – iguais aos dos filmes de
faroeste americanos – conhecidos no Nordeste como rifle cruzeta.
Poder – As alpercatas eram feitas de couro, presas com rebites de metal e muito resistentes,
para facilitar a caminhada pelas veredas. Havia ainda o hábito de usar anéis de ouro e prata, além
de perfume. “Como os cantores de pagode e os jogadores de futebol de hoje, os cangaceiros eram
sinônimo de poder e dinheiro. Dá para imaginar o que significava para as mulheres a chegada deles
a vilas paupérrimas do sertão”, ressalta Araújo.
PESQUISADOR estuda vestuário dos bandos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 9 jun. 2002.
Disponível em: <www.estadao.com.br>. Acesso em: 1 jun. 2013.
DOCUMENTOS
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Leia atentamente os textos a seguir e faça as atividades propostas no Roteiro de trabalho.
A normalista (1892)
Adolfo Caminha
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oi numa tarde infinitamente calma de dezembro de 1877 que o capitão Bernardino de
Mendonça chegou a Fortaleza pela estrada nova de Mecejana, depois de penosíssima viagem.
A seca dizimava populações inteiras no sertão. Famílias sucumbiam de fome e de peste, cas-
tigadas por um sol de brasa. Centenas de foragidos, arrastando os esqueletos seminus, cruzavam-se dia
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e noite no areial incandescente dos caminhos – abantesmas [fantasmas] da desgraça gemendo preces
ao Deus dos cristãos, numa voz rouquenha, quase soluçada. Era um horror de misérias e aflições.
Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na
pista dos socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem
pela sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num
êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza,
embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas.
Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo qua-
renta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito
rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos.
Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente puro e abundante sangue português. Nunca
sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe
ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma famí-
lia de Furtados da Telha. Até então só tivera três filhos. […]
Mendonça abalara de Campo Alegre quando de todo lhe tinham fugido as esperanças d’inverno
seguro, depois de ter visto estrebuchar a última rês no solo duro e estéril.
Todas as tardes, invariavelmente, da janela que dizia para o poente, ou em pé na varanda, con-
sultava o tempo, os horizontes cor de cinza, o céu d’um azul diáfano de safira, procurando bispar
na inclemência da atmosfera imóvel a sombra fresca de uma nuvem, um indício qualquer de chuva.
Surpreendia, às vezes, crivando a transparência do ar, revoadas d’aves de arribação. Recolhia-se
animado. Mas os dias passavam quentes e secos.
[…]
E pouco a pouco aquele estado de coisas foi atuando forte no espírito do sertanejo, como as vibra-
ções d’um clarim que dá sinal de marcha; pouco a pouco foi se convencendo que aquilo era uma
situação impossível em que ele não devia absolutamente permanecer.
Os açudes estorricavam mostrando os leitos gretados pelo sol, duros como pedra; juritis encadea-
das iam espapaçar ofegantes no chão, defronte da casa; cascavéis chocalhavam no alpendre, ocultas,
invisíveis, e todas as coisas tinham um aspecto desolado e lúgubre que se comunicava às criaturas.
Passava gente todo santo dia, a pé, de trouxa ao ombro, arrastando-se pesadamente.
Uma vez, ele próprio, Mendonça, vira de perto a agonia lenta de uma mulher asfixiada pela
elefantíase, pernas inchadas, ventre inchado, rosto inchado – horrível.
Adolfo Caminha (1867-1897) nasceu em Aracati (CE), mas se mudou para o Rio de Janeiro ainda criança. Ingressou na
Marinha em 1883, chegou ao posto de segundo-tenente e depois saiu da corporação. Seu primeiro romance, considerado uma
obra naturalista, foi A normalista, publicado em 1893. No ano seguinte, após uma visita aos Estados Unidos, publicou No país
dos ianques. Em 1895, publicou o livro Bom crioulo, no qual aborda a questão do homossexualismo. Seu último romance foi
Tentação, publicado em 1896, um ano antes de falecer vítima da tuberculose.
Museu Casa de Maria
Bonita. Paulo Afonso
(BA), 2010.
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1. Para Adolfo Caminha, qual é o destino dos homens que vivem sob a seca?
2. De que maneira esse autor descreve a vida do sertanejo e a região das secas?
3. Com base nos versos de Rodolfo Coelho, pode-se estabelecer alguma relação entre a história das
secas e a história do cangaço, mais especificamente a história de Lampião?
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Cordel é um gênero literário originário dos contadores de histórias orais que se disseminaram por diferentes regiões do Nor-
deste desde o século XIX. Essas histórias eram registradas e impressas em folhetos que organizavam a narrativa em forma de
verso. A expressão “cordel” tem origem no fato de os folhetos serem inicialmente vendidos em varais estendidos nas feiras das
cidades. Os cordéis podem versar sobre temas do cotidiano, fazer referência a temas históricos, a atos heroicos, histórias de
amor, crimes ou contar a história de uma pessoa. No cordel transcrito nesta seção, o autor alagoano Rodolfo Coelho Cavalcante
conta a história do encontro dele e de seu irmão com Lampião. Ele era palhaço de circo e, com seu irmão, encontrou Lampião
por acaso em uma das estradas do sertão, em meados dos anos 1930. Nascido em 1917, Rodolfo começou a percorrer o Norte
e o Nordeste ainda adolescente. Vivia de biscates e, mais tarde, começou a trabalhar como palhaço. Dedicando-se aos cordéis,
escreveu cerca de dois mil deles até 1986, quando faleceu.
Decididamente era tempo de arrumar também “os seus cacos” e – adeus, Campo Alegre, adeus,
carnaubais rumorejantes; adeus, igrejinha branca! Ir-se-ia fazer pela vida em qualquer parte, em
Fortaleza, onde felizmente contava amigos políticos, correligionários dedicados que certamente lhe
não recusariam uma acha de lenha, uma pouca d’água fresca, um punhado de farinha… Demais era
homem, graças a Deus, forte como um novilho, tinha sangue nas veias – trabalharia!
[…] Não havia outro recurso, outro jeito senão marchar para a capital, para onde quer que fosse,
como tantos outros infelizes empolgados pela miséria. Iria, que remédio? bater à porta de um amigo, de
um correligionário, de um cristão. Lembrou-se então do “compadre João da Mata”, padrinho de Maria.
Muito bom: iria ao compadre.
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa.
Disponível em: <www.bibvirt.futuro.usp.br/index.php>. Acesso em: 1 jun. 2013.
O encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião (trecho de cordel)
Rodolfo Coelho Cavalcante
Foi Virgulino Ferreira
Pobre homem injustiçado
E por isto vingativo
Se tornou um acelerado,
Se a Justiça fosse reta
Nem Jornalista ou Poeta
O teria decantado.
Lampião era um bom filho
Nunca se pode negar,
Foi também bom companheiro
Como pode se provar
No epílogo da desdita
Junto a Maria Bonita
Os seus dias foi findar.
O homem por mais cruel
Tem seu lado positivo
por ser Centelha Divina,
E enquanto ele for vivo
Há esperança divina
De su’alma cristalina
Ter um rumo objetivo.
Embora sendo criança
Com meus 15 anos de idade
Pude ver em Lampião
Vítima da sociedade,
Talvez ele em outro meio
(Posso dizer sem receio)
Era útil à humanidade!
Não vi a hiena feroz
Nem o leão devorador,
Ao contrário: vi um ser
Realmente sofredor
Que só andava assustado
E para não ser caçado
Matava seja quem for…
CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. O encontro
de Rodolfo Cavalcante com Lampião Virgulino.
Salvador: [s. n.], 1973.
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PESQUISA
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evante informações sobre as últimas secas ocorridas na região Nordeste. Com base nessa
pesquisa, tente responder às seguintes questões:
1. Ocorreram avanços para minimizar esse problema em relação ao que acontecia até
a primeira metade do século XX?

Como tem sido a atuação dos governos local e federal nessa situação?

Qual(is) é(são) o(s) obstáculo(s) para solucionar o problema das secas?

Que soluções deram resultados positivos?
Não se esqueça de consultar pelo menos duas fontes, pois tanto os dados como as interpretações
podem ser diferentes conforme o autor da publicação. Depois, elabore um texto com base nos
resultados obtidos, expondo suas conclusões sobre o problema das secas no Brasil contemporâneo.
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INTERDISCIPLINARIDADE
Nordeste, Nordestes: retratos contemporâneos
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e forma geral, o Nordeste tem sido retratado nas mídias como o espaço das secas, dos
retirantes, do mando e clientelismo das elites políticas e econômicas e de uma população
desvalida, em especial no sertão do semiárido. Com efeito, é preciso considerar que ainda
existe uma elevada concentração regional de recursos, em favor de áreas mais modernizadas do
Centro-Sul. Se comparado às outras regiões brasileiras, de fato é no Nordeste onde estão os mais
baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), as taxas de mortalidade infantil mais elevadas
e os maiores bolsões de pobreza.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2011, realizada pelo IBGE,
mostram que a região, apesar do recuo nas taxas de analfabetismo de jovens e adultos, ainda apre-
senta os percentuais mais elevados do país, em especial nas faixas de 40-49 anos e de 50 anos ou
mais. O número médio de anos de estudo da região (seis anos) também ficou abaixo das demais.
No Sudeste, por exemplo, a média registrada em 2011 foi de oito anos. O rendimento médio mensal
também foi o mais baixo do país.
Entretanto, apesar dos obstáculos, o Sertão Nordestino é a região semiárida mais povoada do
planeta. É preciso refletir também sobre até que ponto esse quadro social regional, de reconhecidas
dificuldades, retrata a realidade complexa desta região brasileira no período atual. “Nordeste” ou
“Nordestes”? É o que veremos a seguir, com base na análise de alguns temas.
1. Em grupo, escolham um núcleo de desenvolvimento econômico-social da região Nordeste.
Conversem com os outros grupos para não escolher o mesmo tema, o que possibilitará, ao final
da pesquisa, que a classe monte um amplo painel sobre novas realidades econômico-sociais da
região. Vejam algumas sugestões de objetos de estudo:
• Campina Grande (PB) e Ilhéus (BA): constituição de polos tecnológicos, com empresas
industriais, universidades e centros de pesquisa. Desenvolvimento em tecnologias da infor-
mação e, em Ilhéus, também de eletroeletrônicos.
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• Juazeiro (BA) e Petrolina (PE): cidades-núcleo da produção agrícola baseada em agricultu-
ra irrigada no médio vale do Rio São Francisco. A região é uma grande exportadora de frutas,
incluindo uvas adaptadas às características climáticas locais.
• Ceará: polos calçadistas em Sobral, Vale do Cariri (Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha) e na
Região Metropolitana de Fortaleza (em especial nos municípios de Maranguape e Horizonte),
com centenas de fábricas e produção voltada ao mercado interno e à exportação de calçados,
sandálias e chinelos de plástico e borracha.
• Recife (PE): núcleo digital para o desenvolvimento de softwares e produtos da tecnologia da infor-
mação e da comunicação, com parcerias entre governos, empresas privadas e universidades.
• Oeste da Bahia e sul do Maranhão e Piauí: produção de soja. Os municípios em áreas de
cultivo de soja vêm conhecendo ritmos de crescimento na casa dos 10% ao ano. Evidentemente,
deve-se considerar nesse caso que muitos produtores vêm de fora da região, trabalhadores
rurais locais perdem suas terras e que parte da população acaba sendo arregimentada para
funções em geral mal remuneradas no comércio e nos serviços nas cidades.
• Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Natal (RN): turismo de Sol e praia, visitação cultural.
Essas cidades estão entre as dez mais visitadas no país.
• Olinda (PE) e São Luís (MA): visitação aos centros históricos e patrimônios culturais.
• Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), Fernando de Noronha (PE) e Atol das
Rocas (RN): visitação aos patrimônios ambientais.
• Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Alagoas e Ceará: fontes de energia. Em solo poti-
guar, está o maior campo de exploração terrestre de petróleo do país, o de Canto do Amaro.
Ceará e Rio Grande do Norte estão se convertendo em polos de geração eólica.
• Semiárido nordestino: construção de cisternas para captação de água da chuva, abasteci-
mento doméstico e irrigação agrícola em comunidades rurais. A iniciativa pode ser discutida
diante de outros projetos, como a transposição das águas do Rio São Francisco e as polêmicas
que a envolvem.
2. Cada grupo deverá coletar informações sobre o tema escolhido em diferentes fontes: jornais,
revistas, livros e internet.
3. Organizem as informações obtidas e avaliem as atividades, os setores econômicos, a infraestrutu-
ra e as redes técnicas, as taxas de crescimento e os benefícios sociais, além dos riscos e desafios
sociais, ambientais, econômicos, políticos e culturais representados pelas atividades na região.
O grupo deverá elaborar um relatório com os resultados obtidos e as principais conclusões.
4. Com base no relatório, elaborem no Laboratório de Informática da escola sínteses e esque-
mas explicativos sobre o tema, seja em infográfico, mapa interativo, jogos ou linhas do tempo.
Apresentem os resultados e conversem sobre eles com a turma.
5. Ao final das apresentações, cada estudante deverá elaborar individualmente um texto dissertati-
vo, analisando criticamente o Nordeste contemporâneo e refletindo em que medida o potencial de
crescimento avaliado pelos grupos poderá trazer benefícios sociais às populações da região.
RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

A questão 1 refere-se a conteúdos estudados neste
capítulo, mas também a outros que não estão pre-
sentes aqui. Caso não consiga resolvê-la, recorra a
outras fontes, como livros e sites, para pesquisar
sobre os assuntos em que encontrou dificuldade.

Na questão 2, leia com atenção os versos que
devem ser utilizados para avaliar a opção correta.
Antes de buscar a resposta correta, identifique
as ideias mais importantes contidas nos versos.

As questões 4 e 5 são dissertativas. Seja obje-
tivo em sua resposta e não deixe de mencionar
os aspectos solicitados. Na questão 4, é preciso
estabelecer a relação entre o cangaço e o con-
texto mais amplo da Primeira República. Já na
questão 5, é necessário utilizar o texto citado
para formular sua resposta.
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1. (Unifesp-SP) Canudos (1893-1897), Contestado
(1912-1916), Juazeiro (1890-1924) e Cangaço (na
década de 1920) demonstram que, na Primeira
República,
a) o campo foi palco de intensos movimentos
sociais que, embora heterogêneos, expressa-
vam revolta contra a miséria e a exclusão social.
b) a oligarquia dominante estava tão segura de
seu poder que não se preocupou muito em
reprimir movimentos carentes de ideias e de
organização.
c) os movimentos insurrecionais foram poucos,
mas muito perigosos para o sistema de poder,
porque representavam apenas os pobres.
d) o sistema político, embora oligárquico, era
flexível e aberto o suficiente para integrar e
absorver os descontentamentos sociais.
e) os movimentos sociais expressavam reivindi-
cações e aspirações de caráter misto, rural
e urbano, articulando milenarismo com anar-
quismo.
2. (Fuvest-SP)
Visitei todo o comércio,
Fiz muito bom apurado,
E vi que de muito povo
Eu me achava acompanhado.
Alguns pediam esmolas:
Então não me fiz de rogado.
Os versos de Chagas Baptista em homenagem
ao cangaceiro Antonio Silvino, o “Governador do
Sertão”, sugerem que o cangaço
a) possuía um caráter político institucional que
ameaçava a estabilidade social e econômica
do Nordeste.
b) contava com o apoio popular, propondo a
reforma agrária e uma nova distribuição de
renda.
c) representava a faceta do movimento anar-
quista, com propostas de socialização da
terra nas áreas rurais.
d) era uma forma de banditismo sem ameaças
à estabilidade fundiária e, portanto, aceito
pelas oligarquias e trabalhadores.
e) tinha apoio popular e representava uma
forma de resistência à opressão dos grandes
proprietários rurais.
3. (PUC-MG) A implantação do regime republi-
cano não modificou a situação de miséria dos
trabalhadores do campo, fazendo surgir um
movimento denominado Cangaço. Sobre isso, é
correto afirmar, exceto:
a) Seus integrantes rebelaram-se contra uma
ordem social injusta e opressiva.
b) Em quase todos os bandos, as mulheres parti-
cipavam em pé de igualdade com os homens.
c) Os cangaceiros eram assalariados do crime,
lutando a serviço dos coronéis que melhor
pagassem.
d) Como fenômeno social, foi uma manifestação
da revolta não organizada em termos políticos.
e) Os cangaceiros assaltavam propriedades e
buscavam justiça pelas próprias mãos.
4. (UEG-GO) A peça teatral “O santo e a porca”,
de Ariano Suassuna, tem como referência histó-
rica a Primeira República – período caracteriza-
do por fenômenos socioculturais como cangaço
e fervor religioso. Analise a relação do governo
republicano com esses fenômenos.
5. (Unicamp-SP)
O bandido social é, em geral, membro de uma
sociedade rural e, por razões várias, encarado como
proscrito ou criminoso pelo Estado e pelos grandes
proprietários. Apesar disso, continua a fazer parte da
sociedade camponesa de que é originário e é consi-
derado herói por sua gente, seja ele um justiceiro,
um vingador, ou alguém que rouba dos ricos.
(DÓRIA, Carlos Alberto. Saga. A grande História do Brasil.)
Utilizando a definição anterior, explique o movi-
mento do cangaço brasileiro.
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RELEITURA
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s duas canções que seguem fazem referência ao sertão nordestino e foram interpretadas por
Luiz Gonzaga (1912-1990), grande compositor e cantor pernambucano, também conhecido
como o Rei do Baião.
Luiz Gonzaga nasceu em 1912 em Exu (PE). Seu pai era sanfoneiro e por isso desde criança já tocava o instrumento. Em 1930,
foi para o Ceará, onde se alistou no Exército brasileiro. Em 1939, deixou o Exército e foi para o Rio de Janeiro, onde começou a
tocar em bares e festas. Em 1941, gravou seu primeiro disco como solista. Nos anos 1950, transformou-se em um dos principais
divulgadores do baião e da cultura nordestina. Várias de suas canções fazem referência à seca e à vida do pobre do sertão nordestino.
Asa Branca, um de seus maiores sucessos, tornou-se uma das canções mais populares do país. Faleceu em 1989, no Recife (PE).
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Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva) nasceu em 1909 na Serra de Santana, próximo ao município de Assaré, no Ceará. Ainda
criança perdeu a visão de um olho por causa de uma doença e mais tarde ficou cego. Desde cedo gostava de criar versos. Retratando a vida
do sertão, tornou-se um dos mais importantes cantadores sertanejos. Faleceu em 2002 na mesma cidade em que nasceu.
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Vozes da seca (1953)
Luiz Gonzaga e Zé Dantas
Seu dotô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas dotô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimo proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do pudê
Pois dotô dos vinte estado temos oito sem chuvê
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage
Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage
Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage
Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage
Se o dotô fizer assim, salva o povo do sertão
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão
Como vê, nosso distino mecê tem na vossa mão
GONZAGA, Luiz; DANTAS, Zé. Vozes da seca. In: Luiz Gonzaga e Gonzaguinha (CD). EMI, 2004.
Luiz Gonzaga, em 1956.
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Meu Deus, meu Deus
Setembro passou
Outubro e novembro
Já tamo em dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai
A treze do mês
Ele fez experiência
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai
Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois a barra não tem
Ai, ai, ai, ai
Sem chuva na terra
Descamba janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: “isso é castigo
não chove mais não”
Ai, ai, ai, ai
Apela pra março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Senhor São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé…
Ai, ai, ai, ai
Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nóis vamo a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai
Nóis vamo a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Ai pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
ASSARÉ, Patativa do. A triste partida. In:
A triste partida (CD). Sony & BMG, 1998.
A triste partida (1964)
Patativa do Assaré
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ROTEIRO DE TRABALHO
1. Que tipo de auxílio os autores da canção “Vozes da seca” reivindicavam para a região da seca?
2. Ainda nessa canção, quem seria o “dotô” que se contrapõe ao sertanejo?
3. Com base na canção “A triste partida”, reconstrua a trajetória do retirante nordestino.
4. Destaque um trecho de uma das canções citadas e utilize-o como tema para a elaboração de
um pequeno texto sobre a história das secas no Nordeste, tendo como base o que foi estudado
neste capítulo.
QUEIRÓS, Rachel de. O quinze. São Paulo: Siciliano, 1993.
Publicada originalmente em 1930, esta obra refere-se à seca de 1915, a qual a escritora viveu em sua infância. Assim
como Vidas secas, de Graciliano Ramos, é um dos mais importantes romances modernistas que tratam de temas rela-
cionados à realidade social brasileira.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 89. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.
Escrito em 1938, traça um perfil das pessoas e das condições de vida daqueles que vivem a seca do sertão nordestino.
Esse romance é considerado parte da chamada segunda fase modernista, que colocou em foco temas sociais e con-
trastes marcantes, como é o caso das secas do Nordeste.
TÁVORA, Franklin. O cabeleira. São Paulo: Ática, 1997.
Romance publicado em 1876 que conta a história dos bandidos Joaquim Gomes e José Gomes, cangaceiros que atua-
ram no Nordeste em fins do século XVIII. A história apoia-se em fatos verídicos.
Abril despedaçado. Direção de Walter Salles. Brasil/Suíça/ França, 2001. (99 min).
O filme se passa em 1910 e retrata as brigas entre famílias no sertão nordestino, destacando temas como o sentido de
vingança e as lutas que se estendem por gerações.
Baile perfumado. Direção de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Brasil, 1997. (93 min).
No filme, o jovem libanês Benjamin Abrahão consegue filmar Lampião com a colaboração do padre Cícero. Após con-
seguir fazer o filme com Lampião, sua exibição foi censurada por Getúlio Vargas. Baile perfumado recupera algumas
das cenas originais do filme produzido por Benjamin.
Cangaço. Disponível em: <www.reidocangaco.cjb.net>. Acesso em: 13 abr. 2013.
Site com imagens, textos e várias informações sobre o cangaço.
Fundação Joaquim Nabuco – Literatura de cordel.
Disponível em: <http://digitalizacao.fundaj.gov.br/fundaj>. Acesso em: 13 abr. 2013.
Espaço no site da Fundação Joaquim Nabuco que traz vários cordéis digitalizados.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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O Brasil amazônico
CAPÍTULO 2
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o primeiro capítulo desta unidade, mencionamos a ideia de que o Brasil só
pode ser compreendido se levarmos em conta o fato de que essa sociedade se
constitui com base em uma pluralidade de culturas. No capítulo anterior, estu-
damos algumas particularidades da história política e cultural do Nordeste brasileiro.
Neste capítulo, vamos nos debruçar sobre a região amazônica, a qual até os dias
atuais abriga mais da metade da população indígena brasileira, ou seja, cerca de
350 mil pessoas. No Amazonas
vivem 60 povos diferentes, 27 em
Rondônia, 36 no Pará, 13 no Acre,
11 em Roraima, 10 no estado de
Tocantins e 9 no Amapá.
1

Ao observarmos a divisão admi-
nistrativa do Brasil em regiões,
verificamos que a região Norte é
composta pelos estados citados
acima (Amazonas, Pará, Tocantins,
Amapá, Rondônia, Acre e Roraima).
No entanto, o que se denomina
Amazônia é uma porção do globo
terrestre coberta por florestas
tropicais, mais especificamente
equatoriais. A Floresta Amazônica
ultrapassa as fronteiras de vários
países: Brasil, Bolívia, Peru, Equa-
dor, Colômbia, Venezuela, Guiana,
Suriname e Guiana Francesa. A
área total da floresta é de aproxi-
1
Conforme os dados do Instituto Socioambiental.
Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/c/0/1/2/populacao-indigena-no-brasil>. Acesso em: 1 jun. 2013.
Com base em Atlas geográfico escolar.
Rio de Janeiro: IBGE, 2009. p. 103..
A AMAZÔNIA
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madamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados, e, destes, cerca de 5 milhões
estão em território brasileiro. No Brasil, a chamada Amazônia Legal extrapola a
região Norte, atingindo os estados do Mato Grosso e do Maranhão.
Assim, ao estudarmos uma cultura que se pode chamar de amazônica, estamos
fazendo referência à confluência de vários aspectos. Não se pode separar a história
dos estados da região Norte da história da própria Floresta Amazônica.
Na região da Amazônia, destacamos a grande presença de povos indígenas, mas
por ela também já passaram africanos escravizados, colonizadores portugueses,
além de invasores espanhóis e franceses. Trata-se, portanto, de uma região com uma
imensa diversidade natural e cultural que construiu uma história particular.
No entanto, essa diversidade resultou também em muitos conflitos, que ainda
se fazem presentes na atualidade. Primeiro foram os europeus que procuraram se
apropriar dessas terras, dominando os povos indígenas e trazendo os africanos para
trabalharem como cativos. Há ainda a luta pela posse de terras e riquezas da floresta,
como madeiras, pedras preciosas e produtos extrativistas. Por isso, coloca-se até o
presente o problema de como conciliar a conservação de uma das maiores riquezas
naturais do planeta e permitir que as pessoas que ocupam as terras amazônicas pos-
sam viver com dignidade, respeitando as diferenças culturais.
Neste capítulo, vamos procurar compreender parte dessa história de conflitos e refle-
tir sobre os caminhos que ainda podem ser trilhados para que o ser humano e a floresta
consigam conviver, sem que a violência seja uma das principais marcas dessa relação.
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A imagem acima, de autoria anônima, foi feita no século XIX e retrata índigenas da Amazônia sob controle de europeus. Não sabemos
ao certo o que os homens europeus pretendem fazer com essas pessoas. Aparentemente assustadas, as crianças se agarram aos
adultos. De qualquer maneira, fica evidente que não se trata de uma convivência harmoniosa. Cenas como essa foram uma constante
no relacionamento entre europeus e povos indígenas no Brasil colonial ou mesmo após a independência, quando os povos indígenas
continuaram a ser utilizados como mão de obra barata, suas culturas desrespeitadas e suas terras invadidas.
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LINHA DO TEMPO
500-1300 ¬ Povos ceramistas vivem na Ilha de Marajó (PA), criando a chamada
cultura marajoara.
1499 ¬ O navegador espanhol Vicente Pinzón percorre a costa das Guianas e
a do Brasil, até a altura do Rio Amazonas.
1541 ¬ Os espanhóis Gonzalo Pizarro e Francisco de Orellana partem de
Quito (Equador) e alcançam no ano seguinte o Oceano Atlântico pelo
Rio Amazonas. É a primeira vez que os europeus navegam por toda a
extensão do Rio Amazonas.
1549 ¬ Os franceses atacam, mas não conseguem dominar a região amazônica.
1600 ¬ Os holandeses fundam as feitorias de Orange e Nassau, nas
proximidades do Rio Xingu, afluente do Rio Amazonas.
1612 ¬ Domínio francês do Maranhão e fundação de São Luís do Maranhão
por La Ravardière.
1615 ¬ Expulsão dos franceses de São Luís (Maranhão).
1616 ¬ Francisco Caldeira de Castelo Branco funda o Forte do Presépio,
marco da fundação da atual cidade de Belém, capital administrativa do
estado do Pará; fundação de Santa Maria de Belém, no Pará.
1659 ¬ Expulsão dos jesuítas do Maranhão.
1661 ¬ Expulsão dos jesuítas de Belém.
1669 ¬ Fundação do Forte de São José da Barra do Rio Negro, atual Manaus (AM).
1684 ¬ Revolta de Beckman, no Maranhão, contra o monopólio das
companhias de comércio.
1713 ¬ Tratado de Utrecht: a França aceita o Rio Oiapoque como limite entre
a Guiana e o Brasil.
1743 ¬ Registro e descrição dos usos da borracha entre os nativos por La
Condamine.
1751 ¬ Criação do Estado do Grão-Pará e Maranhão, tendo Belém por capital.
1755 ¬ Fundação da Companhia Grão-Pará e Maranhão, seguida da
Companhia de Pernambuco e Paraíba.
1759 ¬ Expulsão dos jesuítas da colônia portuguesa pelo marquês de Pombal.
1778 ¬ Supressão da Companhia do Grão-Pará e Maranhão.
1809 ¬ Conquista da Guiana Francesa.
1823 ¬ Adesão do Grão-Pará à Independência.
1835 ¬ Início da Cabanagem no Pará.
1840 ¬ Fim da Cabanagem no Pará.
1845 ¬ Criação do Diretório-Geral dos Índios.
1848 ¬ A Vila de Manaus, criada em 1832, passa ser denominada Cidade da
Barra do Rio Negro.
1850 ¬ Criação da Província do Amazonas, desmembrada da Província do
Grão-Pará; a borracha passa a ser a principal atividade econômica da
região amazônica.
1852 ¬ Criação da Província do Amazonas; organização da Companhia de
Navegação do Amazonas pelo visconde de Mauá.
1856 ¬ A cidade da Barra do Rio Negro passa a ser denominada cidade
de Manaus.
1867 ¬ Abertura da Bacia do Amazonas à navegação internacional.
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1869 ¬ Início da construção do Teatro da Paz, em Belém (PA).
1870-1912 ¬ Período da chamada belle époque amazônica.
1877 ¬ Início da migração de nordestinos para os seringais.
1878 ¬ Inauguração do Teatro da Paz em Belém (PA).
1884 ¬ Abolição da escravatura legal no Amazonas.
1889 ¬ Proclamação da República.
1893-1896 ¬ Reformas e melhorias urbanas: construção da “Manaus moderna”.
1910 ¬ Início da crise da borracha na Amazônia. Queda do preço no mercado
internacional.
1912 ¬ Inauguração da Ferrovia Madeira-Mamoré, que pretendia transportar a
borracha. Seu objetivo era interligar a produção nas proximidades
dos rios Mamoré, Madeira, Guaporé e Beni (Bolívia).
1966 ¬ Criação da Sudam, oferecendo incentivos fiscais para o
desenvolvimento da agropecuária.
Anos 1970 ¬ A exploração da madeira e a do gado passam a ser as principais
atividades econômicas da região.
1972 ¬ Inauguração da Rodovia Transamazônica.
1988 ¬ Assassinato do líder seringalista Chico Mendes.
2005 ¬ Assassinato de Dorothy Stang a mando de fazendeiros. A missionária
desenvolvia projetos de desenvolvimento sustentável no Pará.
Trecho da Rodovia Transamazônica entre Marabá e
Altamira, no Pará, em 2008.
Trecho da Ferrovia Madeira-Mamoré em Ribeirão, hoje
Rondônia, em 1913.
Fachada do Teatro da Paz, Belém (PA), em 2007.
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CONTEXTO
A Amazônia
Alguns navegadores estiveram na região ama-
zônica antes de Portugal tomar posse efetivamen-
te das terras brasileiras após 1500. Entre eles, os
espanhóis Vicente Pinzón e Diogo de Lepe. Ambos
navegaram pelo Rio Amazonas, mas os conflitos
com os indígenas e as dificuldades em navegar
naquelas águas os fizeram recuar e não tomar
posse da região.
Os europeus conseguiram navegar por toda
a extensão do Rio Amazonas entre 1539 e 1541,
quando Gonçalo Pizarro e Francisco Orellana
lideraram uma expedição que partiu de Quito
(Equador) e chegou ao Oceano Atlântico por esse
rio. Com o feito, o imperador espanhol Carlos V
concedeu a Orellana o título de capitão e gover-
nador das terras de que tomasse posse. No entan-
to, em sua segunda viagem, iniciada em 1545,
Orellana fracassou em seu intento de penetrar no
delta do Amazonas.
Os espanhóis realizaram outras expedições
com a finalidade de tomar posse de terras na
região até os anos 1560. Além deles, ingleses,
franceses e holandeses também buscaram se
estabelecer na Amazônia, negando os direitos
dos portugueses e dos espanhóis no Tratado de
Tordesilhas, celebrado em 1494.
Em 1600, os holandeses fundaram as feitorias de
Orange e Nassau nas proximidades do Rio Xingu,
afluente do Rio Amazonas. Também os ingleses
conseguiram estabelecer feitorias no começo do
século XVII. Tinham como intuito investir na coleta
de drogas do sertão, entre elas a baunilha, o cacau,
o gengibre, o cravo e a noz-moscada.
A efetiva conquista portuguesa da região
começou a ocorrer no século XVI. No século XVII,
Belém foi fundada.
Isso aconteceu no momento em que Portugal
estava sob o domínio da Coroa espanhola (1580-
1640). Conforme José Maia Bezerra Neto:
[…] a União Ibérica favoreceu o processo de ex-
pansão portuguesa na Região Amazônica, cuja
maior parte pertencia aos espanhóis. […] Os por-
tugueses em sua conquista, devidamente autoriza-
dos pela Coroa espanhola, realizavam sua obra de
ocupação e defesa da região, a serviço da própria
Espanha contra os demais invasores europeus.
BEZERRA Neto, José Maia. A conquista portuguesa da
Amazônia. In: ALVES FILHO, Armando et al. Pontos de his-
tória da Amazônia. 3. ed. Belém: Paka-Tatu, 2001. v. 1. p. 17.
No final do século XVI, os portugueses avan-
çaram sobre o litoral do Maranhão ocupado pelos
franceses. Após expulsá-los de São Luís em 1615,
prosseguiram na tentativa de ocupar as margens
do Rio Amazonas. Em 1616, adentraram o Rio Pará
e chegaram à Baía de Guajará, onde fundaram, em
12 de janeiro, a cidade que recebeu primeiramente
o nome de “Feliz Lusitânia” e depois Santa Maria
de Belém do Grão (atual Belém, no Pará). Para
defender o território, foi construído o Forte do
Presépio na Baía de Guajará.
Entre 1618 e 1619, os portugueses tiveram
de enfrentar os Tupinambá, que eram aliados
dos franceses e haviam decidido expulsá-los da
região. Os Tupinambá invadiram Nossa Senhora
de Belém em 1619 e, após terem vários de seus
Forte do Presépio, em foto de 2009. A
primeira construção era de madeira e
taipa. No final do século XVII, foi cons-
truída a edificação em pedra. A cidade
cresceu às margens do forte, que se lo-
calizava entre o Rio Guajará e o Igarapé
do Piri, um grande pântano.
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guerreiros mortos, deixaram o local. A luta con-
tra as populações indígenas e sua escravização
prosseguiu nos anos seguintes, e várias batalhas
foram travadas contra holandeses e ingleses pelo
domínio dessas terras. O domínio da cidade de
Belém foi estrategicamente importante, pois ficou
mais fácil controlar o acesso ao Rio Amazonas a
partir do Oceano Atlântico.
A dominação portuguesa na Amazônia tornou-
-se ainda mais sólida com a presença dos missio-
nários cristãos vindos da Europa. Com a finalidade
de catequizar os indígenas, as ordens religiosas
foram fundamentais na construção da sociedade
colonial. Franciscanos, carmelitas e, principal-
mente, jesuítas começaram a chegar à Amazônia
para difundir o catolicismo na América portugue-
sa. A primeira ordem que chegou à colônia foi
a Companhia de Jesus, fundada pelo espanhol
Inácio de Loyola. Seus missionários, os jesuítas,
em 1549, aportaram primeiramente na Bahia.
Assim como em outras regiões do país, os
religiosos organizaram aldeamentos – também
chamados de missões ou reduções – onde reali-
zavam o trabalho de conversão do indígena para o
catolicismo. Além disso, inseriam os indígenas em
um sistema de trabalho no qual o colono poderia
utilizar, por períodos determinados, a mão de obra
indígena em troca de pequeno pagamento. Era
ainda função dos padres organizar os chamados
descimentos, ou seja, eles subiam os rios para
tentar convencer os indígenas a descer para os
aldeamentos do litoral. Para tanto, procuravam
mostrar os benefícios de ser cristão. Conforme o
historiador Armando Alves Filho:
Para essa tarefa, os missionários contavam com
a ajuda de índios da própria tribo abordada. Esses
índios, que já haviam sido “trabalhados” nas mis-
sões, funcionavam como propagandistas das van-
tagens da vida nos aldeamentos missionários. A
música e o teatro eram estratégias pedagógicas
adotadas no intuito do convencimento.
ALVES Filho, Armando. O trabalho forçado na Amazônia
Colonial. In: ALVES FILHO, Armando et al., op. cit., p. 28-9.
Os conflitos entre jesuítas e colonos foram fre-
quentes, pois estes reclamavam da constante falta
de mão de obra e da limitação da escravização dos
indígenas. Só os indígenas resgatados de povos
inimigos e os que se recusavam à evangelização
poderiam ser efetivamente escravizados. Em mui-
tos casos, os que eram cedidos pelos jesuítas não
eram devolvidos aos aldeamentos nem era paga a
quantia combinada pela tarefa, o que aumentava
a tensão entre colonos e missionários. O sistema
que permitia aos colonos fazer uso dos indígenas
não escravos aldeados denominava-se repartição.
Cada jesuíta podia contar com até 150 deles para
essa finalidade. Parte deles realizava trabalhos
para os próprios jesuítas, que também exploravam
as chamadas drogas do sertão. Vale lembrar que
muitos colonos desrespeitavam a legislação colo-
nial, escravizando indígenas que eram retirados de
aldeamentos ou capturados para serem comercia-
lizados em outras regiões da colônia.
Os vários enfrentamentos entre colonos e mis-
sionários acabaram por resultar na expulsão dos
jesuítas do Maranhão em 1659 e de Belém em 1661.
A conquista do Amazonas, de Antônio Parreiras, 1907.
Óleo sobre tela, 90 cm 40 cm.
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Com a promessa de que os africanos escravizados
seriam enviados regularmente para a região, os jesu-
ítas retornaram em 1680. Mas em que medida existiu
a escravidão africana na Amazônia? Por que não
teve a mesma penetração que no litoral nordestino?
Uma das dificuldades para a introdução da mão
de obra africana na Amazônia era o alto custo,
excessivo para a dimensão da economia daquela
região. Além disso, o grande contingente popula-
cional indígena levava os colonos a se interessarem
primeiramente pelo aprisionamento de indígenas.
A criação da Companhia de Comércio do Grão-
Pará e Maranhão, em 1682, foi uma tentativa de
desenvolver o tráfico de africanos escravizados na
região. A ela foram concedidos o monopólio desse
negócio por vinte anos e mais o fornecimento de
gêneros de consumo e a exploração de drogas do
sertão. No entanto o suprimento regular de afri-
canos escravizados pela Companhia não ocorreu,
e isso contribuiu para que, em 1684, os colonos do
Maranhão organizassem a Revolta de Beckman,
liderada por Manuel Beckman. Entre suas princi-
pais reivindicações estava o direito de escravizar
os indígenas. Depois que os rebeldes haviam
prendido autoridades e decidido pela expulsão
dos jesuítas do Maranhão, o movimento foi derro-
tado, seus líderes enforcados e a Companhia de
Comércio extinta em 1685.
No século XVIII, durante a administração
do marquês de Pombal (1750-1777), foi criada a
Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão. Além
disso, ampliou-se o fluxo de africanos escravizados
para a região com a drástica redução da popula-
ção indígena, dizimada pela dominação europeia e
por doenças como a varíola, o sarampo e a gripe.
Entretanto não se pode afirmar que a mão de obra
africana tenha predominado em algum momento
nessa região, já que prevaleceu em todo o período
a exploração da mão de obra indígena.
Durante a administração de Pombal, preten-
deu-se também transformar o indígena em cida-
dão, ou seja, mediante vários dispositivos legais
reconheceu-se a igualdade do indígena diante do
colonizador europeu, proibiu-se severamente a
sua escravidão e os nativos foram incentivados
a se transformar em produtores. Para tanto, foi
criado, em 1845, o Diretório-Geral dos Índios,
cujos diretores substituíram os jesuítas que che-
fiavam os aldeamentos. Antes disso, em 1759, os
missionários foram expulsos da colônia. O Estado
português pretendia garantir aos indígenas os
direitos naturais do ser humano pregado por filó-
sofos iluministas, mas seu principal intuito era
construir uma estratégia de povoamento e explo-
ração da riqueza amazônica, defendendo também
as fronteiras de ataques estrangeiros.
Esse projeto civilizador, que pregava a nega-
ção definitiva da cultura indígena, integrando os
indígenas à cultura europeia, não obteve sucesso.
Em vez de libertá-los, acabou por permitir que fos-
sem ainda mais explorados. Sem a mediação dos
jesuítas, os colonos acabaram por investir ainda
mais na exploração da mão de obra indígena sem
respeitar as ordenações reais que coibiam o des-
respeito aos indígenas e sua escravização.
A independência e os conflitos
durante o Império
Até a independência, continuou a predominar
na região amazônica, na qual estava inserida a
capitania do Grão-Pará, os interesses de colonos
portugueses que detinham o poder local e des-
frutavam de privilégios concedidos pela Coroa.
A adesão do Grão-Pará ao processo de indepen-
dência só ocorreu em 15 de agosto de 1823, depois
que o Lord Cochrane enviou ao Grão-Pará o brigue
(navio com dois mastros de velas redondas) Mara-
nhão, sob o comando do capitão Pascoe Grenfell,
para negociar a adesão da capitania ao Império.
Assim como ocorreu em outras regiões do país,
a independência consumada no Rio de Janeiro, em
7 de setembro de 1822, não significava a adesão
automática das elites locais ao projeto político lide-
rado por Dom Pedro I. Muitos proprietários e nego-
ciantes temiam que a nova ordem pudesse afetar
seus interesses. Aqueles que aderiram à indepen-
dência o fizeram porque haviam sido alijados do
poder nos primeiros anos da década de 1820 e viam
nela uma possibilidade de reaver o espaço perdido.
Beckman no Sertão do Alto Mearim, outra pintura de Antônio
Parreiras, do século XIX.
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A independência também não atenuou os con-
flitos sociais existentes, a exemplo da exploração
dos indígenas, da condição miserável de muitas
pessoas livres e da violência constante que a
manutenção da escravidão representava. Após a
independência, a população da região amazônica
continuou a se dedicar à economia extrativista,
especialmente do cacau, da borracha, de madei-
ras, frutos, couros de animais e sementes diver-
sas. Em pequena escala, havia uma agricultura
dedicada à produção de guaraná, arroz, algodão,
café e farinha de mandioca.
Todavia a região continuou a ter uma densidade
demográfica pequena em relação a outras regiões
do país e uma numerosa população indígena, que
ainda era aproveitada como mão de obra barata
por muitos grandes proprietários. Não se pode afir-
mar que o governo brasileiro tenha mudado radi-
calmente o cenário do período colonial no que se
refere à relação com os povos indígenas. Conforme
a historiadora Patrícia Maria Melo Sampaio:
Em termos de legislação imperial, passou a
funcionar o Regulamento das Missões, de 24 de
julho de 1845, estabelecendo a criação de uma
Diretoria-Geral de Índios em cada província, que
administraria as suas respectivas diretorias par-
ciais, devendo todos contar com a ação evange-
lizadora de missionários. Permitia-se o “aluguel”
de turmas de índios para as obras públicas e par-
ticulares, com a contrapartida de pagamento de
jornais e de dispensa ao término do contrato, para
retorno aos respectivos aldeamentos ou sítios.
Registraram-se inúmeros desmandos, desde o
descumprimento dos contratos ao não pagamen-
to dos salários aos índios. Denúncia comum era a
de que os diretores usavam os índios de sua juris-
dição em benefício próprio ou de pessoas de suas
relações, tornando frequente o não atendimento
das demandas de trabalhadores feitas pelos ad-
ministradores provinciais, em prejuízo de várias
obras públicas. A partir de 1870, o crescimento
do número de nordestinos, atraídos pela expan-
são da borracha, ofereceu alternativas de mão de
obra, o que em parte explica a antecipação da abo-
lição na escravidão na província do Amazonas.
In: VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil imperial.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 40-1.
A abolição da escravatura de africanos ocor-
reu no Amazonas em 1884. Mas essa antecipação
não pode ser considerada o fim dessa forma de
organização do trabalho na Amazônia, como bem
explica o sociólogo José de Souza Martins:
[...] O gesto precursor das províncias do
Amazonas e do Ceará, em 1884, na abolição da
escravatura, esconde a verdadeira história da ser-
vidão nessas regiões.
Essas mesmas províncias estavam na mesma
época envolvidas na gestação da nova escravidão
que se estenderia até os dias de hoje. Milhares de
cearenses migravam, expulsos pela seca, para ou-
tras regiões do país e em grande quantidade para
a Amazônia, para trabalhar na economia da borra-
cha. O Ceará se livrava, assim, de seus excedentes
demográficos. Na província do Amazonas, eram
escravizados na economia da servidão por dívida,
que se multiplicou e se estende até os dias atuais.
MARTINS, José de Souza. A terceira abolição da
escravatura. O Estado de S. Paulo, São Paulo,
15 maio 2005. Disponível em: <www.estadao.com.br>.
Acesso em: 1 jun. 2013.
Não é possível estudar a história da Amazônia
pós-independência sem fazer referência à Revolta
da Cabanagem (1835-1840). No entanto, devemos
salientar que as tensões se faziam presentes na
região desde pelo menos 1808, quando ocorreu a
Abertura dos Portos às Nações Amigas e a che-
gada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro. A
partir daí, as relações econômicas foram se trans-
formando, com a maior presença da Inglaterra na
região e a reorganização da economia local, que
agora se deparava com novas condições para a
realização do comércio. Essa presença inglesa
incomodava as províncias do Norte, já que os
comerciantes portugueses dominavam o mercado
e eram fiéis solidários ao rei de Portugal. Os rumos
e o futuro dos negócios tornavam-se incertos.
Mesmo assim, houve crescimento econômico
nesse período. Conforme a historiadora Magda Ricci:
Trabalhadores de madeireira em Bom Jesus, no Amazonas,
em 2003. Nesse setor e em vários outros há, ainda hoje,
denúncias de trabalho irregular e forçado, ou seja, do não
cumprimento de leis trabalhistas: longas jornadas de trabalho,
condições insalubres, ausência de pagamento de salário por
endividamento e retenção do trabalhador no local de trabalho.
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Estudos mais recentes sobre as exportações por-
tuguesas para o Brasil vêm confirmando dados im-
portantes, notadamente que o Pará e o Maranhão
juntos exportavam entre 1796 e 1799 cerca de
13,6% dos produtos remetidos para a metrópole
vindos do atual território do Brasil. Já entre 1804
a 1807, esta porcentagem aumentava para 19% e,
em ambos os casos, estas duas capitanias ocu-
pavam o quarto lugar no ranking das capitanias
exportadoras. Entretanto, longe de ter um único
grande produto de exportação, o Pará remetia para
a Europa uma gama variada de gêneros.
RICCI, Magda. O fim do Grão-Pará e o nascimento
do Brasil: movimentos sociais, levantes e deserções
no alvorecer do Novo Império. In: PRIORE, Mary Del;
GOMES, Flávio. Os senhores dos rios. Rio de Janeiro:
Campus, 2003. p. 169.
Muitas festas aconteceram na região home-
nageando a presença de Dom João VI no Brasil.
Entretanto, depois da Revolução Liberal do Porto,
que exigia o retorno do rei a Lisboa, e sua volta
efetiva em 1821, as tensões cresceram novamente
no Norte da colônia, uma região onde os conflitos
envolvendo escravos de origem africana, povos
indígenas, autoridades de origem portuguesa e
brasileiros eram constantes.
A própria Cabanagem, como movimento social,
precisa ser entendida com base nesses marcos
definidos acima, pois o início da revolta se deu
quando o presidente da província, Lobo de Sousa,
foi assassinado com o apoio de proprietários locais.
Ele havia se indisposto com vários grupos sociais,
instaurando uma crise de autoridade. Lobo de
Sousa perseguiu e mandou prender muitos daque-
les que o criticavam e começou uma campanha
contra os adversários da abdicação de Dom Pedro I
que defendiam a restauração do trono. De qualquer
modo, como explica ainda Magda Ricci:
Partindo do pressuposto que no dia 7 de janeiro a
cadeia foi esvaziada pelos levantados cabanos e
que ali foram encarcerados, desde então, apenas
os governistas, os “inimigos da religião” e do
“patriotismo” e liberdade, então se pode supor
que o levante de 1835 teve adesões e inimigos que
estavam muito longe da simples dicotomia entre
explorados e exploradores, senhores e escravos.
[…] Simultaneamente o documento escrito pelo
tenente Joaquim Manoel revela ainda as intenções
do levante cabano apontando para um interessan-
te campo de estudo. Ele afirmava que “a revolução
era contra o governo e os maçons por serem,
diziam os conspiradores, inimigos da religião”.
[…] Primeiramente, é preciso lembrar que prati-
camente todos os documentos de época insistem
em uma chamada crise grave de autoridade. A re-
volução era feita contra o governo, mas este não se
resumia ao presidente da província do Grão-Pará,
estando sempre associado a toda uma gama bem
maior e mais complexa de autoridades, que iam
desde as autoridades religiosas, representantes
de Deus na terra, até o último dos senhores de
escravos ou mesmo um simples pai de família. […]
RICCI, op. cit., p. 188.
A borracha e a belle époque
Em meados do século XVIII, o cientista natu-
ralista francês Charles Marie de La Condomine
descobriu a borracha. Em contato com os povos
indígenas, aprendeu a técnica de extração do
látex da árvore que recebeu o nome de Hevea bra-
siliensis. Seu interesse pela substância (a seiva
da seringueira) justificava-se por sua elasticidade,
impermeabilidade e maleabilidade. Uma de suas
primeiras aplicações industriais foi na confecção
de borrachas de apagar. No início do século XIX, já
era utilizada na produção de seringas e galochas.
Seu emprego só se diversificou após a des-
coberta do processo de vulcanização, em 1835,
pelo cientista Charles Goodyear, que resolveu o
problema da borracha de derreter com o calor e
enrijecer no inverno. Com a introdução da nova
técnica, conseguiu-se dar consistência fixa ao
material. A borracha passou, então, a ser utiliza-
da na fabricação de rodas, correias, mangueiras,
sapatos e outros produtos. Dessa forma, a pro-
dução de borracha na Amazônia, única região
produtora no século XIX, cresceu de 156 toneladas
em 1830 para 2 673 toneladas em 1860. Já a partir
de 1850, a borracha passou a ser a principal ativi-
dade econômica da região, envolvendo os atuais
estados do Pará, do Amazonas, do Acre e parte da
Venezuela, do Peru e da Bolívia.
Entretanto, somente depois de 1890, com a
popularização da bicicleta e a posterior fabrica-
ção de carros em série, a borracha começou a ser
adquirida em larga escala por industriais europeus
e norte-americanos. Com o crescimento da deman-
da pelo produto após 1870, rapidamente se desen-
volveu um importante centro comercial na cidade
portuária de Belém, capital da província do Pará.
A estrutura produtiva organizou-se com base
na atividade dos seringueiros, trabalhadores autô-
nomos que empregavam técnicas indígenas para
extração do látex. Por meio de pequenos cortes
nas árvores eles retiravam o líquido, que em segui-
da era submetido a um processo de coagulação.
Depois entregavam o produto ao aviador, que
financiava a produção da borracha oferecendo
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Inaugurado em 1896, o Teatro Amazonas, em Manaus, é uma das construções que fizeram parte da reforma urbana da cidade, pro-
movida com a riqueza adquirida pela comercialização da borracha. Para trazer a modernidade europeia a Manaus, importaram-se
telhas, grades de ferro, móveis, mármores, lustres e outros objetos do Velho Mundo. Foto de 2009.
mercadorias de subsistência em troca. Mediante
relação de compadrio, o aviador assumia uma
postura de “protetor” dos seringueiros, garantindo
assim o fornecimento da borracha pelo endivida-
mento de seus protegidos e pelo uso da violência
contra aqueles que não se submetessem às con-
dições impostas pelas casas aviadoras. O aviador
funcionava ainda como intermediário dos exporta-
dores estrangeiros, especialmente norte-america-
nos e ingleses, sediados em Manaus e Belém.
Além da utilização de mão de obra local, os
aviadores financiavam a vinda de migrantes nor-
destinos para trabalhar nos seringais nos anos da
expansão da borracha. Estranhos à extensa região
amazônica, esses trabalhadores ficavam presos
ao aviador, único canal comercial disponível para
vender a borracha e comprar produtos de subsis-
tência. As populações indígenas da Amazônia,
principalmente os Munduruku e os Apiacá, eram
recrutadas à força para o trabalho nos seringais,
com a rápida destruição de muitos grupos e a pro-
funda mudança dos elementos culturais nativos.
Embora obtivessem grande lucro nas operações
com os seringueiros, os aviadores eram obrigados
a recorrer a empréstimos bancários ou a adian-
tamentos dos exportadores em troca da garantia
de revenda, para poderem financiar a produção
nos seringais. Com isso acumulavam dívidas que,
em situações de queda do preço da borracha, os
obrigavam a vender o produto por preços que não
cobriam o investimento inicial. Os maiores lucros
ficavam reservados aos exportadores estrangei-
ros, o que mantinha a economia local subordinada
ao mercado internacional, uma vez que não havia
nenhum setor interno com condições para con-
trolar o mercado da borracha. Isso não impediu,
contudo, a formação de grandes fortunas locais e
um significativo desenvolvimento urbano.
A cidade de Belém cresceu de maneira ace-
lerada, atingindo uma população de aproximada-
mente 200 mil habitantes em 1910 (em 1872, eram
somente 61 mil habitantes). A infraestrutura urba-
na ampliou-se em pouco tempo com a construção
de bulevares, a introdução de bondes elétricos,
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serviço telefônico, iluminação pública elétrica
e água encanada. Após 1885, além de Belém, a
cidade de Manaus despontou como importan-
te centro de exportação de borracha. Em 1884,
Belém detinha cerca de 90% das exportações. Já
em 1901, esse número caiu para 48%, ficando os
52% restantes para a capital amazonense. Apesar
de Manaus ter sido convertida em símbolo da
expansão da borracha, ela só conseguiu suplantar
Belém como centro comercial entre 1901 e 1905.
Depois disso, a participação de Manaus oscilou
sempre entre 40% e 45%.
Esse desenvolvimento econômico, que se deno-
minou belle époque amazônica, foi um surto de
investimentos na tentativa de implantar aspectos da
modernidade dos centros urbanos em cidades como
Manaus e Belém. Tal modernização pode ser enten-
dida como uma necessidade gerada pelo incremen-
to da economia capitalista na região. Foi necessário,
por exemplo, ampliar os portos para atender à cres-
cente demanda exportadora. Contudo, como adver-
te a historiadora Maria de Nazaré Sarges:
Desse modo, o conceito de modernidade está inti-
mamente ligado ao de progresso expresso através
do desenvolvimento da vida urbana, da construção
de ferrovias, da intensificação das transações co-
merciais e da internacionalização de mercados. […]
Na dinâmica cidade de Belém foram projetados,
além do Porto de Belém, o Mercado Municipal
do Ver-o-Peso (1901), o Hospital Dom Luiz e o
Grêmio Literário (obras da colônia portuguesa),
The Amazon Telegraph Company, linha telegráfica
por cabos submarinos, substituída posteriormente
pela Western Co., o Arquivo e Biblioteca Pública
(1894), o Teatro da Paz (1878), 43 fábricas (incluindo
desde chapéu até perfumaria), 5 bancos, 4 compa-
nhias seguradoras, além da implantação da ilumi-
nação a gás, sob a responsabilidade da Pará Eletric
Railway and Ligthing Co. Ltd., autorizada a funcio-
nar pelo Decreto Federal n. 5.780, de 26.1.1905.
Entendemos que a ação dinamizadora do “embe-
lezamento do visual da cidade” estava associada
à economia, à demografia, mas também aos valo-
res estéticos de uma classe social em ascensão
(seringalistas, comerciantes, fazendeiros) e às ne-
cessidades de se dar a determinados segmentos
da população da cidade segurança e acomodação,
além da colocação em prática da ideia positivista de
progresso enfatizada pelo novo regime republicano.
SARGES, Maria de Nazaré. Belém: riquezas produzindo a
belle époque. 2. ed. Belém: Paka-Tatu, 2002. p. 138-9.
Belém e Manaus entraram em profunda crise
após 1910. Após o preço do quilo da borracha sal-
tar de dois para seis dólares em poucos meses, as
vendas começaram a cair por causa da produção
asiática de borracha, que, financiada por indus-
triais norte-americanos e europeus, suplantou a
produção brasileira no mercado internacional
a partir de 1913. Como resultado da concorrência
asiática, já em 1911 o preço da borracha caiu a
pouco mais de um dólar, recuperando-se lenta-
mente nos anos que seguiram. O efeito da crise
foi avassalador, obrigando aviadores a se desfa-
zerem da borracha estocada por preços muito
menores do que o investimento realizado, para
saldar suas dívidas com credores e bancos.
Assim, de 1910 a 1920 ocorreu o processo de
declínio da economia amazônica, com a falência
de casas aviadoras, a perda da posição de lide-
rança no mercado mundial e o endividamento dos
governos estaduais, que compraram estoques de
borracha a alto preço na tentativa de elevar o
preço do produto. Entretanto, as razões estrutu-
rais da crise produtiva que se instalou na econo-
mia da borracha devem ser buscadas não apenas
na concorrência asiática, mas também na falta
de investimento e apoio governamental ao setor.
Dominado pelos cafeicultores, o Estado brasilei-
ro não elaborou nenhuma política de crédito ou
estímulo ao incremento das plantações de serin-
gueiras, tampouco procurou proteger produtores,
exportadores e comerciantes brasileiros no sen-
tido de consolidar uma classe economicamente
forte para dirigir o processo de produção da borra-
cha na região da Amazônia. Ao contrário, quando o
governo do Pará promulgou uma lei estabelecendo
uma taxação maior para os exportadores estran-
geiros, o governo federal, a pedido dos industriais
norte-americanos, ordenou sua revogação.
Após 1930, mas principalmente depois da
Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as indús-
trias passaram a utilizar borracha sintética, cuja
produção era superior à de borracha natural.
Ainda assim, na região amazônica, o produto
continua a ser produzido até os dias atuais, pre-
servando algumas das características do antigo
sistema produtivo, particularmente no que se
refere ao domínio do aviador sobre os seringuei-
ros. Nos anos 1970, diversos seringais entraram
em decadência e muitas terras foram vendidas a
empresários do Sul.
Surgiram os chamados seringueiros liber-
tos, trabalhadores que se recusaram a abandonar
a região amazônica e passaram a vender livre-
mente sua produção. A partir desse grupo, foi
organizado um sindicato de trabalhadores rurais
no Acre sob a liderança de Wilson Pinheiro, assas-
sinado por fazendeiros em 1980. Seu sucessor,
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Avenida 16 de Novembro, em Belém (PA), em 1905, depois das
reformas de modernização da cidade.
Vista do centro comercial e do mercado Ver-o-Peso, em Belém
(PA). Foto de 2008.
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o seringueiro Chico Mendes (veja o boxe a
seguir), também foi assassinado por fazendeiros
em 1988. Além de lutarem pelo fim definitivo do
antigo sistema produtivo centrado na figura do
aviador, os trabalhadores passaram a defender a
formação de reservas extrativistas na Amazônia.
Por meio delas seria reconhecido o direito dos
seringueiros de permanecerem em áreas tra-
dicionalmente ocupadas por eles, áreas estas
pertencentes à União. Dessa forma, seriam mon-
tadas cooperativas extrativistas, preservando a
Floresta Amazônica da devastação. Aliaram-se
aos seringueiros outros grupos sociais ligados a
atividades extrativistas, como os castanheiros e
alguns povos indígenas da região. A questão da
demarcação de terras e da manutenção da flores-
ta é, ainda hoje, objeto de diversos conflitos entre
fazendeiros e extrativistas na Amazônia.
Chico Mendes
F
rancisco Alves Mendes Filho nasceu em 1944 em Xapuri, no Acre. Seguindo desde criança a profissão do
pai, Chico, como era conhecido, tornou-se o principal líder dos seringueiros na região, alcançando prestígio
nacional e internacional na luta contra a devastação da Floresta Amazônica. Em 1975, firmou-se como líder
sindical ao ser escolhido como secretário-geral do recém-fundado Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia.
No ano seguinte, participou da luta com os seringueiros para impedir o desmatamento da Amazônia por meio dos
“empates”, ações coletivas de trabalhadores extrativistas que visavam impedir a atuação de peões encarregados da
derrubada da mata, convencendo-os a abandonar as motosserras. Em 1977, fundou o Sindicato dos Trabalhadores
Rurais de Xapuri e foi eleito vereador pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Além disso, foi um dos fun-
dadores, em 1980, do Partido dos Trabalhadores (PT) no Acre. Em 1979, foi acusado de subversão e submetido a
interrogatório pelo governo militar por promover debates públicos entre lideranças sindicais na Câmara Municipal.
Durante toda a década de 1980 até sua morte, em 1988, Chico Mendes expôs para o mundo a questão da Amazônia
e da devastação ambiental. Mais do que uma luta pela reforma agrária, percebeu que a floresta não devia ser loteada,
mas sim permanecer patrimônio de todos. Dela os seringueiros tiram seu sustento, sem, no entanto, desmatá-la.
Propôs a formação da União dos Povos da Floresta, que congregaria seringueiros e indígenas em um projeto de
criação de reservas extrativistas que preservassem as áreas indígenas. O reconhecimento disso veio por intermédio
de vários prêmios, incluindo o Global 500, concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU). No entanto,
Chico Mendes também colecionou muitos inimigos interessados na exploração econômica da Amazônia em outros
moldes, principalmente os grandes fazendeiros. Ameaçado de morte, chegou a indicar em entrevistas os nomes de
seus “possíveis futuros assassinos”, confirmando o que ocorreria pouco tempo depois.
Em 1988, foram implantadas as primeiras reservas extrativistas no Acre, o
que implicou a desapropriação do Seringal Cachoeira, de propriedade de Darly
Alves da Silva. Em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi assassinado em
sua casa. Darly Alves da Silva e seu filho, Darci, foram condenados, embora
ainda haja a suspeita de outros poderosos envolvidos no crime. A morte do
líder sindical chamou a atenção para a questão dos seringueiros e da floresta.
Alguns de seus companheiros de luta ocupariam importantes cargos anos
depois: Jorge Viana foi governador do Acre entre 1999 e 2006 e Marina Silva,
ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008 e candidata à presidência da
República em 2010, atingindo quase 19,6 milhões de votos.
Chico Mendes,
em 1988.
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Com base em Atlas geográfico escolar. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. p. 156.
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LOCALIZAÇÃO DE XAPURI (AC)
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As transformações do
ecossistema da Amazônia
Ao longo do tempo, a Amazônia sofreu diferen-
tes devassamentos (expropriação do ser huma-
no e da natureza). Isso decorreu, por um lado, da
visão de que essa região era uma grande área de
recursos; por outro, da ideia de que recursos ines-
gotáveis deviam, obrigatoriamente, ser explora-
dos. Em outras palavras, por trás do slogan “vazio
demográfico” estava a necessidade de ocupar
esse espaço, baseado no “tripé”: necessidade
de progresso, busca pela integração nacio-
nal/internacional e desenvolvimento econô-
mico. O resultado disso foi uma enorme pressão
sobre os grupos sociais que lá habitam.
Após os anos 1960, ampliou-se a ocupação do
território com a privatização gradativa de terras,
minas e florestas. Isso ocasionou grande desi-
gualdade na distribuição dos recursos naturais,
especialmente da terra. A maneira pela qual a
região foi apropriada levou à exclusão social e à
desterritorialização da população indígena, além
de ter ocasionado enorme degradação ambiental.
O Estado, por sua vez, ainda hoje não consegue
cumprir seu papel fiscalizador na região, o que faci-
lita atividades clandestinas como o garimpo e o nar-
cotráfico. Essas atividades são intensificadas pela
pobreza em torno dos centros urbanos, que atinge
principalmente a mão de obra nativa e os migrantes,
levando as pessoas a ingressarem na clandestinidade.
Nos anos 1990, ocorreram transformações eco-
nômicas e políticas na região. A Amazônia tornou-
-se um espaço estratégico na inserção do país na
globalização econômica, e as questões começaram
a transitar em torno da revolução científico-tecnoló-
gica, da conservação ambiental e dos movimentos
sociais. Novos atores nacionais e internacionais
passaram a atuar, especialmente por meio de orga-
nizações não governamentais (ONGs). Para Antonia
M. M. Ferreira e Enéas Salati, existem cinco fases
históricas de transfiguração da região amazônica:
“a de conquista e posse; a de ocupação; a de explo-
ração; a de valorização; e a de integração”
1
Em cada um desses momentos houve uma
forma diferente de devassamento do ser humano
e da natureza.
O primeiro devassamento é conhecido tam-
bém como ciclo de drogas do sertão. Ele cons-
tituiu basicamente a busca por essas “drogas”
1 FERREIRA, Antonia M. M.; SALATI, Enéas. Forças de transformação
do ecossistema amazônico. Estudos Avançados, n. 54, maio/ago. 2005.
p. 33. Dossiê Amazônia brasileira II.›.
– canela, cravo, anil, madeira etc. –, que eram
enviadas para a Europa nos séculos XVII e XVIII.
Os povoamentos eram núcleos militares, coloniais
e missões religiosas. Em razão da necessidade de
mão de obra, os colonos iniciaram uma “caça ao
indígena”, gerando conflitos com os jesuítas.
O segundo devassamento, que ocorreu no
final do século XIX e começo do século XX, foi
denominado ciclo da borracha. A demanda por
borracha na Europa e nos Estados Unidos e a pro-
longada seca nordestina entre 1877 e 1880 foram
suas principais causas. Houve grande aumento no
contingente populacional, especialmente no recém-
-incorporado estado do Acre. Depois dos anos 1920,
o crescimento de um mercado local impulsionou a
agropecuária, além de atividades complementares
de recursos, como a mineração e o extrativismo
vegetal. No entanto, até 1970, elas não causaram
grande impacto destrutivo na floresta.
Após 1970, ocorreu o terceiro grande devas-
samento impulsionado pela descoberta da rique-
za mineral e da pobreza dos solos. A ideia de
“integrar para não entregar” levou à construção
de estradas que cortam a região (entre elas a
Transamazônica, na década de 1970) e aos incen-
tivos fiscais, ocasionando, consequentemente,
um grande crescimento das migrações. Pequenos
agricultores nordestinos foram expulsos de suas
terras e orientados a avançar sobre terras amazô-
nicas “livres”. A nova e intensa ocupação rompeu
com as atividades realizadas até então no local.
Nos anos 1980, a nova ordem econômica mun-
dial também se refletiu na Amazônia. Ainda con-
forme Antonia M. M. Ferreira e Enéas Salati:
Do ponto de vista nacional, a década de 1980 re-
presenta a implantação de uma política de moder-
nização desse território, visando à industrialização
da Amazônia e à exploração de seus recursos mi-
nerais em bases modernizadas.
FERREIRA; SALATI, op. cit., p. 36.
O Programa Grande Carajás (PGC) foi implemen-
tado nessa época, trazendo a demanda por madeiras
e energia hidráulica, a intensificação da exploração
mineral e uma nova mobilidade populacional. A par-
tir daí, as migrações passaram a ocorrer dentro do
próprio território amazônico, com deslocamentos
que acompanham a demanda por mão de obra nas
diferentes atividades econômicas. A população mais
pobre começou a se deslocar de acordo com a explo-
ração de recursos, causando uma “desorganização”
espacial. Um exemplo foi Serra Pelada, em 1985,
quando mais de 500 mil pessoas se amontoaram em
torno dessa área em busca de metais preciosos.
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O quarto grande devassamento ocorreu na
década de 1990, marcada pela revolução científico-
-tecnológica, pela crise ambiental e pelos movi-
mentos sociais. A globalização passou a ser a pala-
vra de ordem, tendo em vista a preocupação com a
escassez dos recursos naturais importantes para
todo o planeta (como a água e a biodiversidade).
O incentivo fiscal do governo, na década anterior,
foi substituído pela atuação da iniciativa privada,
que investiu em várias atividades, como a retirada
de madeiras nobres, a mineração, a pecuária e o
agronegócio. A Amazônia tornou-se o centro da
discussão mundial, e seu futuro passou a ser con-
siderado o futuro do mundo. No entanto, o discurso
da conservação caminhou lado a lado com o cres-
Mineradores em busca de ouro em Serra Pelada (PA), em 1986.
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cimento internacional da demanda por produtos
como madeira, gado e grãos, cultivados na região.
O resultado foi o desmatamento exacerbado.
Outro problema atual é que essas ativida-
des econômicas, apesar de seu grande impacto
ambiental, absorvem pouca mão de obra. Elas
também desestruturam as populações tradicio-
nais da Amazônia. Todo esse quadro leva a con-
flitos pela terra e ao crescimento desenfreado
das cidades (algumas chegaram a crescer 7 000%
entre 1980 e 1991). As novas aglomerações urba-
nas rompem com a cultura e a identidade étnica
das populações nativas.
A ocupação da Amazônia no Brasil
contemporâneo
Nos dias atuais, a Amazônia ainda é ocupada
por vários povos indígenas. Conforme o Instituto
Socioambiental, em 2011 existiam entre 400 mil
e 700 mil indígenas no Brasil, e mais da metade
deles vivem nos estados da região Norte e em
suas fronteiras, ou seja, dentro do espaço ama-
zônico. Há grande variedade linguística e cultu-
ral entre esses povos. Na tabela a seguir, identi-
ficamos alguns dos mais de 140 povos indígenas
que ocupam o espaço amazônico.
As condições de vida desses muitos povos são
bastante heterogêneas. Existem aqueles que vivem
em regiões menos acessíveis e distantes das rotas
de mercado, exercendo, por esse motivo, uma pres-
são ambiental inexpressiva, pois a demanda de
recursos naturais está limitada às necessidades
de subsistência do grupo. Tais grupos podem ser
divididos em duas subcategorias: povos cujas
terras são razoavelmente protegidas de madeirei-
ros, garimpeiros e posseiros (os principais repre-
sentantes são os Enawenê Nawê); e povos que
têm suas terras constantemente invadidas por
elementos exteriores (como os Yanomami). Esses
povos, por terem desenvolvido outros valores cul-
turais, demonstram pouco conhecimento sobre o
mundo das mercadorias e acabam muitas vezes
enganados por garimpeiros e outros intrusos em
troca de produtos ou trabalhos mal remunerados.
Já outros povos indígenas são mais dependen-
tes do dinheiro e das mercadorias industrializadas.
Utilizam os instrumentos dos “brancos” não apenas
para ter status em sua tribo, mas também porque con-
sideram algumas peças indispensáveis a certas ativi-
dades (como machados, facas, espingardas, roupas,
medicamentos etc.). Aos poucos, os conhecimentos
tradicionais e sua mitologia estão sendo substituídos
pela escola e por influências da sociedade industrial e
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correm o risco de ficar restritos às antigas gerações.
Muitos indígenas trabalham em um sistema que
pode ser considerado um resquício do grande período
de exploração do látex. Como trabalhadores dessa
atividade, facilmente são escravizados pelo sistema
de adiamento, ou seja, pelo pagamento antecipado
de algum valor que, depois, tem de ser revertido em
trabalho. Disso resulta uma forma de escravidão por
dívida. Há também o garimpo e o trabalho em madei-
reiras, muitas vezes praticados ilegalmente em áreas
indígenas. Para evitar a fiscalização, garimpeiros ten-
tam se aliar a indígenas em troca de benefícios. No
entanto, na prática do garimpo, joga-se mercúrio nos
INSTITUTO Socioambiental. Disponível em: <www.socioambiental.org.br>. Acesso em: 18 abr. 2013.
Povos indígenas da Amazônia com grupos de mais de 2 mil habitantes
Nome
Família/
língua
UF (Brasil) – Países
limítrofes
População
estimada no
Brasil
Ano da
estimativa
Ticuna Ticuna AM – Peru/Colômbia 36 377 2009
Makuxi Karib
RR – Guiana
Equatorial
29 931 2010
Guajajara Tupi-Guarani MA 19 471 2006
Yanomami (subgrupos
Yanomami, Sanumá e Ninam)
Yanomami RR/AM – Venezuela 19 338 2011
Munduruku Munduruku PA 11 630 2010
Baré Nheengatu AM – Venezuela 10 275 2005
Mura Mura AM 9 299 2006
Sateré-Mawé Mawé AM/PA 9 156 2008
Wapixana Aruak RR – Guiana 7 000 2008
Tukano Tukano AM – Colômbia 6 241 2005
Kayapó (subgrupos Gorotire,
A’ukre, Kikretun, Mekrãnoti,
Kuben-Kran-Ken, Kokraimoro,
Metuktire, Xikrin e Kararaô)
Jê MT/PA 5 923 2006
Baniwa Aruak
AM – Colômbia/
Venezuela
5 811 2005
Kaxinawá Pano AC – Peru 4 500 2004
Kulina Madihá Arawá AC/AM – Peru 3 500 2006
Apurinã Aruak AM 3 256 2006
Karajá Karajá MT/TO/PA 3 198 2010
Wai Wai (subgrupos Karafawyana,
Xereu, Katuena e Mawayana)
Karib RR/AM/PA – Guiana 2 914 2005
Maku (subgrupos Yuhupde, Hupdá,
Nadöb, Dow, Cacua e Nucak)
Maku AM – Colômbia 2 603 2005
Desana Tukano AM – Colômbia 2 204 2005
rios, o que traz enorme prejuízo ambiental a todos.
Madeireiros também presenteiam os indígenas em
troca da madeira a ser cortada.
Existem ainda os povos indígenas que perde-
ram a capacidade de produzir recursos para sua
sobrevivência, vivendo principalmente perto dos
centros urbanos. Atividades como caça, extração
florestal e cultivo foram esgotadas nessas regi-
ões, tornando os indígenas dependentes do mer-
cado. Abandonando sua forma de vida originária,
eles são obrigados a escolher entre viver em um
ambiente desfavorável ou migrar para cidades ou
áreas rurais mais distantes.
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Indígenas das aldeias Barasano e Tuyuca
peneirando a farinha do beiju (à base de
mandioca). Manaus (AM), 2008.
Colono trabalhando em ter-
ra designada pelo Incra, em
Altamira (PA), 1972.
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Ao lado desses povos indígenas há os rema-
nescentes dos grandes latifúndios do século XVIII,
que mantêm relações de trabalho bastante antigas
e estáveis, com base no sistema clientelista e no
pagamento por espécie (o que leva muitas vezes
ao endividamento do empregado). No entanto, para
o meio ambiente, essas propriedades latifundiá-
rias produzem um impacto bem menor do que os
latifúndios mais recentes, pois seu objetivo econô-
mico não é a acumulação de capital e a expansão
territorial, mas sim a manutenção de um domínio
senhorial. Após a década de 1970, com a chegada
do outro tipo de latifúndio, alguns latifundiários
tradicionais tiveram de modificar sua forma de
produção por causa da concorrência.
Com a criação da Sudam (Superintendência
do Desenvolvimento da Amazônia) em 1966, a
região passou a oferecer incentivos fiscais gover-
namentais para o desenvolvimento da agropecuá-
ria. Foi o início da instalação de grandes latifúndios
na região, o que causou inúmeros problemas sociais
e ambientais. A floresta passou a ser vista como
um “vazio demográfico” de subdesenvolvimento,
que precisava ser desmatada para a chegada do
capitalismo. Além do desmatamento, o massacre
de grupos indígenas, o trabalho escravo, a expulsão
dos posseiros e os conflitos pela terra foram outras
consequências drásticas dessa situação.
Além disso, há os migrantes que vieram para
a região e começaram a agir como posseiros,
tomando posse das terras por meio dos desmata-
mentos. Vindos principalmente do Nordeste e do
Sul, onde não dispunham de terras para produzir,
desconhecem a floresta e cultivam elementos
exteriores a ela, o que causa grande prejuízo
ambiental. Estão nesse grupo tanto os pequenos
agricultores como os trabalhadores sem terra e os
sazonais, que, marcados por trajetórias sofridas
que os levam até as terras inexploradas, enfren-
tam a violência dos grandes proprietários.
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Durante a ditadura militar (1964-1985), grandes
empreendimentos estatais foram justificados pela
política de integração nacional, implementados
para levar o capitalismo até o interior do Brasil. Tais
empreendimentos envolviam maciços investimen-
tos em infraestrutura viária, construção de hidrelé-
tricas e programas de exploração de minérios, além
dos incentivos fiscais aos proprietários privados.
No início não demonstravam nenhuma preocupa-
ção ambiental, o que passou a ser questionado
a partir dos anos 1980 por organizações interna-
cionais como o Banco Mundial. O resultado foi a
atual exigência de estudos relacionados aos impac-
tos ambientais que poderiam ser ocasionados na
região antes da aprovação de qualquer projeto.
Todos esses elementos fazem com que as ten-
sões sociais na região sejam enormes, além dos
evidentes riscos para o ecossistema da Amazônia
e para o ser humano que ali vive.
A terra e o desenvolvimento
na Amazônia
No período do regime militar no Brasil, a quase
totalidade do território amazônico brasileiro era
propriedade da União e dos estados. Tanto as terras
públicas e livres de titulação quanto as propriedades
privadas eram ocupadas por pequenos posseiros
que viviam do extrativismo, por populações nativas
e por migrantes de longa data. Os conflitos entre
seus habilitantes eram praticamente inexistentes.
A partir dos anos 1960, surgiu a teoria de que
seria possível atrair para a Amazônia capitais pro-
dutivos vindos de outras regiões do país e do exte-
rior. Os militares iniciaram, então, um plano para
integrá-la ao mercado nacional e internacional, que
tinha nos incentivos fiscais sua principal estratégia,
deixando a modernização da região nas mãos das
grandes empresas privadas. O resultado foi catas-
trófico, já que os empresários investiram o dinheiro
na especulação imobiliária (adquirindo muitas ter-
ras para vendas futuras) e na pecuária (o que cau-
sou um enorme desmatamento). O Estado investiu
na infraestrutura local, construindo estradas, por-
tos, aeroportos etc., o que aumentou a devastação
florestal. O projeto mais conhecido nessa direção
é o da construção da Rodovia Transamazônica,
que foi idealizada para ter 8 mil quilômetros de
extensão e que nunca foi concluída. Além disso,
o governo comprometeu-se a atrair mão de obra
barata para trabalhar nas obras (como os nordesti-
nos que fugiam da seca), a qual lá permaneceu em
condições precárias de sobrevivência.
Após os anos 1970, as terras públicas habita-
das por colonos, ribeirinhos e indígenas passaram
a ser loteadas e vendidas em grandes dimensões
para os novos investidores. Os novos proprietá-
rios, por sua vez, remarcaram os lotes em uma
extensão bem maior do que a original. Muitas prá-
ticas ilegais de grilagem tornaram-se constantes,
como a venda de um mesmo terreno para mais de
um comprador, a venda de terras públicas por par-
ticulares (incluindo áreas de reservas ambientais
e indígenas), a demarcação da terra comprada, a
falsificação de títulos de terra, o remembramento
de lotes destinados à reforma agrária etc. Tudo isso
resultou em uma enorme concentração de terras
na Amazônia e na intensificação de conflitos.
O governo federal, por sua vez, regularizou por
meio de medidas provisórias as terras griladas.
Para “promover a região”, o Estado legalizou as pro-
priedades de até 60 mil hectares que tivessem sido
Trecho da Rodovia Transamazônica entre Itaituba e
Jacareacanga (PA), em 2001. O grande projeto de integração
da região custou muito caro ao governo federal e atraiu muitos
migrantes e colonizadores. A obra nunca foi concluída, existin-
do atualmente pouco mais de 2 mil quilômetros de rodovia,
e grande parte desse trajeto sem asfalto. A construção da
estrada gerou um enorme desmatamento em seu entorno, o
que causa problemas até os dias atuais.
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adquiridas ilegalmente, promovendo a expulsão dos
antigos moradores. Os governos estaduais agiram
da mesma maneira. Dessa forma, os antigos e legíti-
mos posseiros foram obrigados a deixar suas terras.
Após os anos 1970 surgiu, na região, a figura do
pistoleiro, com a finalidade de proteger as gran-
des propriedades ociosas ou improdutivas contra a
invasão dos posseiros. Por causa do pequeno con-
tingente policial, os fazendeiros introduziram os pis-
toleiros para “ajudá-los” na expulsão, além de uti-
lizá-los para assassinar lideranças e sindicalistas.
Também a partir dos anos 1970, a madeira e
o gado passaram a ser as principais atividades
econômicas da região. Ambas exigem grandes
propriedades (concentrando, consequentemen-
te, a renda nas mãos de poucos), empregam
pouca mão de obra e causam enorme destruição
ambiental. E tudo isso para um rendimento baixo,
já que os produtos não são industrializados.
O Pará é o estado mais afetado por conflitos
de terra, tendo crescido bastante as ameaças e o
número de mortes nos últimos dez anos. Com a
construção das estradas federais nos anos 1970,
houve uma “federalização das terras amazô-
nicas” por meio de decretos, o que fez ape-
nas 30% das terras paraenses ficarem sob a
jurisdição do governo estadual. Os maiores
beneficiados pela federalização foram os grandes
proprietários rurais. Nos anos 1980, os decretos da
época da ditadura foram revogados e as terras volta-
ram aos estados, mas a situação não foi resolvida. A
indiferença do poder público e o apoio aos interesses
dos latifundiários agravam a questão. O Pará ainda
é o local onde a impunidade por crimes em conflitos
de terras é maior. O caso do assassinato da freira
Dorothy Stang, cujo julgamento foi relativamente
rápido, foi uma exceção, já que a maior parte dos
casos aguardam mais de dez anos para serem jul-
gados. Ela foi assassinada por pistoleiros, a mando
de fazendeiros do município de Anapu, por defender
a manutenção de um assentamento de pequenos
coletores extrativistas de uma reserva ecológica.
Na proposta de desenvolvimento econômico da
Amazônia, formulada durante a ditadura militar,
foi criada a Zona Franca de Manaus, a fim de
promover a ocupação de uma região despovoada.
Pretendia-se atrair mão de obra e capital nacional
e estrangeiro, dando à Amazônia condições de
rentabilidade econômica global. Assim, realizou-
-se a Operação Amazônia, na qual se incluiu
a criação da Zona Franca, que contemplava o
discurso militarista nacionalista e o processo de
transnacionalização do capital. Na verdade, essa
combinação estava atrelada a um contexto inter-
Dorothy Stang (em foto de fevereiro de 2004) foi assassinada
em 12 de fevereiro de 2005, aos 73 anos de idade. Nascida nos
Estados Unidos, a missionária estava no Brasil desde 1972 e
atuava no município de Anapu (PA), região da Transamazônica.
Ela desenvolvia projetos sustentáveis para geração de empre-
go e renda. Atuava também em projetos
de reflorestamento de áreas degra-
dadas. Ademais, trabalhava para
o Projeto de Desenvolvimento
Sustentável Esperança, no qual
mais de 55 famílias seriam
assentadas em terras confis-
cadas de fazendeiros e madei-
reiros pelo Instituto Nacional
de Colonização e Reforma
Agrária (Incra). Os assentados
receberiam lotes de 100 hectares
para criar gado de corte e produ-
zir leite, além de desenvolver uma
agricultura familiar. Os 80 hectares
restantes seriam preservados. Os
fazendeiros e os madeireiros, por
sua vez, prometeram assassinar
a missionária se o projeto fos-
se adiante. Após o crime, dois
executores foram presos e três
fazendeiros, acusados como
mandantes. Os assassinos fo-
ram julgados e condenados
pelo crime. Desde 1971 até
2005, 587 pessoas foram
mortas por envolvimento
em questões agrárias no
sudeste e no sul do Pará.
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ASSASSINATOS DE CAMPONESES E
TRABALHADORES RUAIS (1986-2006)
Observe a grande concentração de assassinatos no Pará.
Organizado com base em dados da Comissão Pastoral
da Terra. Disponíveis em: <http://www.cptnacional.org.
br/>. Acesso em 23 maio 2013.
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Disponível em: <http://g1.globo.com/natureza/noticia/2013/03/desmatamento-da-amazonia-sobe-26-em-6-meses-aponta-inpe.html>.
Acesso em: 1 jun. 2013.
DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA EM KM
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(1988-2012).
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PONTO DE VISTA
nacional de relacionar a ordem nacional à ordem
mundial, originando várias zonas francas pelo
mundo. Quando foi criada a brasileira, já existiam
três zonas semelhantes no mundo: Kaoshiung
(China), Shannon (Irlanda) e Kandla (Índia).
Nesse sentido, a Zona Franca de Manaus foi
uma tentativa do governo militar de implementar
uma área de livre-comércio, importação e exporta-
ção, e incentivos fiscais especiais. Essa iniciativa
levou a outros investimentos em infraestrutura na
região, sendo contemporânea à criação do Banco
da Amazônia S. A. (Basa) e da Sudam. Coube à
ditadura criar condições para o investimento capita-
lista industrial na região, especialmente por meio da
diminuição do imposto aos investidores capitalistas.
Em 2006, o governo federal sancionou lei que
permite a concessão de florestas públicas para
exploração de atividades econômicas como o corte
de madeiras. Dessa forma ele pretende reduzir a
grilagem de terras e desenvolver uma economia
sustentável na região. Assim o governo brasileiro
toma as rédeas do processo de exploração dos
recursos naturais da floresta e cede concessões de
exploração, controlando os impactos sobre o meio
ambiente e reduzindo a concentração de terras nas
mãos de poucos. Em 2009, registrou-se significativo
recuo no desmatamento da Amazônia. No entanto,
não o suficiente para impedir que ainda fossem
desmatados 7 mil km
2
somente nesse ano. Entre
2011 e 2012 forma desmatados outros 4,6 mil km
2
, o
que equivale a um espaço equivalente a três cida-
des da dimensão de São Paulo. Observe no gráfico
abaixo, o ritmo do desmatamento na Amazônia ao
longo dos anos.
A redução do desmatamento também tem
impacto positivo na emissão de gases do efeito
estufa por causa da diminuição de gás carbônico
na atmosfera.
A visão do progresso na Amazônia em Theodoro Braga
O
pintor Theodoro Braga (1872-1953) tentou criar uma espécie de Renascimento Amazônico
no início do século XX. Artista e historiador, já que realizava grandes pesquisas em fontes
primárias para compor suas obras, ele fez parte de uma elite letrada amazônica que tentou
definir uma “nova” interpretação da história do Brasil, na qual o Norte estaria no epicentro dos deba-
tes. Braga realizou tentativas de investigar o meio natural e os tipos raciais da região, aproximando a
história natural da etnologia.
Sua principal tela foi Fundação da cidade de Nossa Senhora de Belém do Pará, de 1908, que
marcou uma nova leitura da história da Amazônia. A obra foi encomendada pelo então prefeito da
cidade Antônio Lemos, com quem o artista tinha uma relação de fidelidade. Considerado o marco
do modernismo amazônico, o quadro retrata o episódio histórico a que se refere o título com todos
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1. Faça uma descrição detalhada da imagem.
2. Em que medida as ideias contidas no texto acima podem ser observadas na imagem?
3. A visão do autor do texto corresponde à realidade vivida pelas populações amazônicas
no passado e no presente? Explique.
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DOCUMENTOS
os personagens e atos grandiosos envolvidos. Theodoro Braga e seus contemporâneos almejavam
reescrever a história pela pintura. Segundo o historiador Aldrin de Moura Figueiredo:
Como uma espécie de episódio embrionário, o retrato da fundação de Belém era, por si só e por isso
mesmo, um mito fundador da identidade nacional na Amazônia. A escolha do tema possuía, em vista de
seu significado histórico, intenções muito evidentes: o nascimento da capital do Pará legitimava a imagem
do luso conquistador e criador dessa Feliz Lusitânia, como resultado desse encontro de dois povos dife-
rentes. Como fruto de uma criação divina por mãos humanas – paradisíaca portanto –, a cidade deveria
nascer com características marcadas por valores cristãos, humanos, civilizados e heroicos.
FIGUEIREDO, Aldrin Moura. A gênese do progresso: Theodoro Braga e a pintura da fundação da Amazônia. In: GUZMÁN,
Décio Marco Antônio de Alencar; BEZERRA NETO, José Maia. Terra matura: historiografia e história social na Amazônia.
Belém: Paka-Tatu, 2002. p. 125.
Observe a imagem abaixo e responda às questões do Roteiro de trabalho.
Fundação da cidade de Nossa Senhora de Belém do Pará, de Theodoro Braga, 1908. Óleo sobre tela, 22,6 cm 51,0 cm.
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Leia o texto a seguir e depois responda as questões do Roteiro de trabalho.
Arrancada para conquistar o gigantesco mundo verde
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general Médici presidiu ontem no município de Altamira, no Estado do Pará, a soleni-
dade de implantação, em plena selva, do marco inicial da construção da grande Rodovia
Transamazônica, que cortará toda a Amazônia, nos sentido Leste-Oeste, numa extensão
de mais de 3 000 quilômetros e interligará esta região com o Nordeste.
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1. Com base no texto, o que significa, para o governo militar, desenvolvimento?
2. Que críticas podem ser feitas a essa maneira de conceber o desenvolvimento econômico?
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O presidente emocionado assistiu à derrubada de uma árvore de 50 metros de altura, no traçado
da futura rodovia, e descerrou a placa comemorativa do início da construção. […]
Descendo do carro que o conduzia, o presidente hasteou o pavilhão brasileiro em um mastro
improvisado no tronco de uma árvore, enquanto uma banda militar tocava o Hino Nacional. Depois,
descerrou uma placa de bronze incrustada no tronco de uma grande castanheira com cerca de dois
metros de diâmetro, na qual estava inscrito:
“Nestas margens do Xingu, em plena selva amazônica, o Sr. Presidente da República dá início à cons-
trução da Transamazônica, numa arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde”. […]
O presidente Garrastazu Médici aplaudiu entusiasticamente a derrubada, em plena selva amazô-
nica, ontem, de uma árvore de mais de 50 metros de altura, simbolizando assim a transposição de
mais um obstáculo à construção da Rodovia Transamazônica. A solenidade, realizada nesta pequena
cidade do interior do Pará, marcou o início das atividades de construção de mais um trecho daquela
importante via de integração nacional, ligando Altamira a Rio Repartimento, numa extensão de
300 quilômetros. […]
Segundo o coronel Castro Rebello, o custo total da Transamazônica está estimado em 320 milhões de
cruzeiros. Será uma rodovia do tipo clássico de integração, com uma pista de 8,6 metros de largura, além de
outros setenta metros laterais de desmatamento em toda sua extensão, de mais de 5 mil quilômetros. […]
O coronel Castro Rebello considerou a visita do presidente Médici àquele canteiro de obras uma
motivação extraordinária para os milhares de operários, a cuja responsabilidade foi entregue a impor-
tante responsabilidade de integrar a Amazônia.
ARRANCADA para conquistar o gigantesco mundo verde. Folha de S.Paulo, São Paulo, 10 out. 1970.
Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/brasil_10out1970.htm>. Acesso em: 18 abr. 2013.
RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

Nos testes que seguem, procure eliminar as
alternativas incorretas. É preciso tomar o cui-
dado de verificar se o enunciado pede que se
escolha a alternativa correta ou a incorreta.

Nas questões 1 e 2, do Enem, o próprio texto do
enunciado, bem como conhecimentos dos atuais
conflitos na região amazônica, colaboram para a
resposta correta.
1. (Enem)
Em fevereiro de 1999, o Seminário Internacional
sobre Direito Ambiental, ocorrido em Bilbao, na
Espanha, propôs, na Declaração de Viscaia, a exten-
são dos direitos humanos ao meio ambiente, como
instrumento de alcance universal. No parágrafo 3.
o

do artigo 1.
o
da referida declaração, fica estabeleci-
do: “O direito ao meio ambiente deverá ser exercido
de forma compatível com os demais direitos huma-
nos, entre os quais o direito ao desenvolvimento”.
No Brasil, o cumprimento desse direito configura
um grande desafio. Na região Amazônica, por exem-
plo, tem havido uma coincidência entre as linhas
de desmatamento e as novas fronteiras de desen-
volvimento do agronegócio, marcadas por focos
de injustiça ambiental, com frequentes casos de
escravização de trabalhadores, além de conflitos e
crimes pela posse de terras, muitas vezes, impunes.
(Disponível em: <www.unicen.com.br/universoverde>.
Acesso em: 9 maio 2009. Texto adaptado).
Promover justiça ambiental, no caso da região
Amazônica brasileira, implica:
a) fortalecer a ação fiscalizadora do Estado e viabi-
lizar políticas de desenvolvimento sustentável.
b) ampliar o mercado informal de trabalho para a
população com baixa qualificação profissional.
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c) incentivar a ocupação das terras pelo
Estado brasileiro, em face dos interesses
internacionais.
d) promover alternativas de desenvolvimento
sustentável, em razão da precariedade tec-
nológica local.
e) ampliar a importância do agronegócio nas
áreas de conflito pela posse de terras e com-
bater a violência no campo.
2. (Enem)
As queimadas, cenas corriqueiras no Brasil, con-
sistem em prática cultural relacionada com um
método tradicional de “limpeza da terra” para intro-
dução e/ou manutenção de pastagem e campos
agrícolas. Esse método consiste em: (a) derrubar
a floresta e esperar que a massa vegetal seque; (b)
atear fogo, para que os resíduos grosseiros, como
troncos e galhos, sejam eliminados e as cinzas
resultantes enriqueçam temporariamente o solo.
Todos os anos, milhares de incêndios ocorrem no
Brasil, em biomas como Cerrado, Amazônia e Mata
Atlântica, em taxas tão elevadas, que se torna difí-
cil estimar a área total atingida pelo fogo.
(CARNEIRO FILHO, A. Queimadas. Almanaque Brasil socioambien-
tal. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2007. Texto adaptado.)
Um modelo sustentável de desenvolvimento
consiste em aliar necessidades econômicas e
sociais à conservação da biodiversidade e da
qualidade ambiental. Nesse sentido, o desmata-
mento de uma floresta nativa, seguido da utiliza-
ção de queimadas, representa:
a) método eficaz para a manutenção da fertili-
dade do solo.
b) atividade justificável, tendo em vista a oferta
de mão de obra.
c) ameaça à biodiversidade e impacto danoso à
qualidade do ar e ao clima global.
d) destinação adequada para os resíduos sóli-
dos resultantes da exploração da madeira.
e) valorização de práticas tradicionais dos
povos que dependem da floresta para sua
sobrevivência.
3. (Ufam-AM) Com o registro da existência de
mais de 700 grupos linguísticos – em sua maio-
ria pertencentes aos troncos linguísticos Tupi,
Karib, Aruak, Pano, Tukano e Gê –, a Amazônia
pré-colonial impôs grandes dificuldades para o
processo de conquista colonial. Para os colonos
portugueses dos dois primeiros séculos da con-
quista, a principal alternativa a esse dilema foi:
a) a obrigatoriedade do ensino e do uso da língua
portuguesa nos aldeamentos missionários.
b) a adoção e difusão do Nheengatú, que, sendo
uma forma de língua geral, permitia maior
possibilidade de comunicação.
c) o uso da língua tupi-guarani, de maior difu-
são entre as nações indígenas da Amazônia.
d) a adoção do uso do português, nas cidades
e vilas, e da língua geral nos aldeamentos
indígenas.
e) todas as alternativas anteriores estão corretas.
4. (Unama-AM)
Na Amazônia, em todo o período colonial foi cons-
tante a exploração do índio, facilitada por uma
legislação confusa que ora proibia, ora autorizava, ou
simplesmente omitia. Não é de se espantar que, em
determinados momentos desse período, avoluma-
ram-se as práticas da “guerra justa” e do “resgate”.
(ALVES FILHO, Armando. O trabalho forçado na Amazônia.
In: ALVES FILHO, Armando et al. Pontos de história
da Amazônia. 3. ed. rev. e ampl. Belém: Paka-Tatu, 2002.
p. 31. Texto adaptado.)
A partir da leitura do texto e dos estudos que a
História nos oferece sobre o assunto, é correto
dizer que:
a) Na Amazônia, como em todo o território brasilei-
ro, o índio foi o grande responsável pela geração
de riquezas em todo o período colonial, pois a
legislação vinda de Portugal permitia sua escra-
vização através das chamadas “guerras justas”.
b) O índio foi a mão de obra mais utilizada na
Amazônia colonial, pois a própria legislação
portuguesa dava brechas para essa explora-
ção, através das chamadas “guerras justas”
e “tropas de resgate”.
c) Durante o período colonial, especialmente
na Amazônia, foram constantes as lutas em
torno de uma legislação local, acerca da uti-
lização da mão de obra indígena, visto que o
Estado português já havia declarado ilegal o
uso dessa força de trabalho.
d) A mão de obra usada na Amazônia, no período
colonial, foi constituída basicamente da mão
de obra nativa, através das “guerras justas”, e
da mão de obra vinda do Nordeste brasileiro,
através das chamadas “tropas de resgate”.
5. (Uepa-PA)
Cantador paraibano,
eu nasci lá em Monteiro,
aceitei vir à Amazônia,
para enriquecer primeiro,
trabalhando na borracha,
transformado em seringueiro.
Sempre gostei de fazer
o meu trabalho benfeito;
a borracha eu defumava,
do modo que era direito,
com semente de inajá
que davam melhor efeito.
Mas essas mesmas sementes
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que defumavam melhor,
se ao patrão davam lucros,
me dava uma parte pior,
pois a fumaça cegava
silenciosa e sem dor.
(LOUREIRO, João de Jesus Paes. Cena V. In: Pássaro da terra.
São Paulo: Escrituras, 1999. p. 32-3.)
O mundo do trabalho no Brasil a que se refere o
texto diz respeito ao trabalho:
a) das sociedades indígenas no espaço ama-
zônico, antes e depois da conquista euro-
peia, transitando dos regimes coletivos ao da
escravidão.
b) da sociedade da borracha na Amazônia,
entre o final do século XIX e o início do
século XX, cuja principal característica foi
o aviamento.
c) rural e urbano nas Minas Gerais do século
XVIII, composto por diversidades de ativida-
des produtivas e com múltiplos mercados.
d) nas lavouras canavieira e cafeeira, com espa-
ços regionais distintos e diferentes formas
de organização da produção.
e) das sociedades indígenas à época da con-
quista portuguesa, baseado na escravidão e
no uso de mão de obra livre nordestina.
RELEITURA
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Índios e garimpeiros: uma relação complicada
Axé Silva
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egundo algumas estimativas históricas, o espaço que um dia se transformou no Brasil apresen-
tava, no início do século XVI, uma população indígena de 5 milhões de habitantes. Porém o
que se viu ao longo de 504 anos de existência foi um intenso processo de expropriação terri-
torial e a dizimação dos habitantes originais de nosso país. Ao se julgarem donos das terras, os por-
tugueses extinguiram várias aldeias, obrigando parcela considerável de indígenas a realizar trabalhos
forçados. Sua escravização foi auxiliada em grande parte pela ação dos bandeirantes, caçadores de
índios responsáveis pela morte de diversos deles. Agravando ainda mais a situação, muitas doenças
trazidas por europeus e africanos, tais como sarampo, febre amarela, varíola e malária, potencializa-
ram o desaparecimento de enormes contingentes indígenas.
É sob a luz dessa genérica perspectiva histórica que compreendemos na atualidade a existência de
uma pequena parcela de descendentes dos diversos povos que habitaram o Brasil. Hoje, a população
indígena corresponde a cerca de 400 000 indivíduos, distribuídos em 215 etnias, com 170 línguas
diferentes. Desses, 60% encontram-se na chamada Amazônia Legal, em reservas indígenas delimita-
das pelo governo federal. Somadas, suas áreas totalizam uma extensão correspondente a 11,12% do
território nacional. É dessa superfície que os índios retiram recursos para a subsistência e mantêm
tradições e conhecimentos. A Constituição Federal assegura aos povos indígenas a posse perma-
nente das terras, cabendo-lhe o uso exclusivo das riquezas presentes no trecho de suas reservas. É
da Fundação Nacional do Índio (Funai) a responsabilidade pela fiscalização e proteção das áreas,
incluindo a proibição de qualquer invasão.
Apesar de todos os aparatos legais existentes, observa-se em diversas áreas demarcadas a pre-
sença irregular de projetos governamentais, como estradas, usinas hidrelétricas, ferrovias e linhas
de transmissão. Além disso, as áreas indígenas são tomadas por posseiros, arrendatários, grileiros,
madeireiras, mineradoras e garimpeiros. Ocupações, obviamente, que provocam danos irreversíveis
ao ecossistema local. Um exemplo significativo foi visto nas terras dos ianomâmis, onde a extração
mineral ilegal gerou em alguns rios da região o seu assoreamento, ou seja, a deposição de sedimentos
nos leitos, tornando-os mais rasos e largos e impedindo assim a passagem dos peixes em busca de
alimentos ou mesmo dificultando o seu deslocamento para a reprodução. Em outros trechos, houve a
contaminação por mercúrio, acelerando a escassez da pesca. Outro aspecto negativo é a transmissão
de doenças para a população local, aumentando tristemente os índices de mortalidade.
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Porém nem sempre a entrada de garimpeiros e madeireiras é desconhecida pelos índios. Em cer-
tos casos, eles estimulam a exploração de suas terras, cobrando por isso valores equivalentes à quan-
tidade de madeira e riquezas minerais tiradas do território. A ausência de uma fiscalização severa na
região provocou, nos últimos 24 meses, a morte de aproximadamente 100 pessoas. Entre as vítimas,
garimpeiros, contrabandistas e índios.
Não é de hoje que índios e garimpeiros estabelecem confrontos intensos na Amazônia. Há pelo
menos três décadas, os cintas-largas são espoliados por madeireiras, mineradoras e garimpeiros
que utilizam força bruta para retirar recursos naturais. Um dos episódios mais marcantes dessa
história ocorreu na década de 1960. Duas expedições foram organizadas em 1963 por Francisco
de Brito, funcionário da empresa seringalista Arruda e Junqueira. Em uma delas, Brito alugou
uma aeronave para sobrevoar a aldeia num dia de grande festividade para o povo cinta-larga. No
momento do ataque foi lançada uma mistura de açúcar com arsênico que dispersou os participan-
tes da cerimônia. Em seguida, diversas cápsulas de explosivos foram arremessadas nas habitações.
O fato dispersou a comunidade para o interior da mata. Não satisfeitos, os invasores organizaram
uma segunda expedição, que encontrou o restante da população às margens do Rio Aripuanã,
na altura do paralelo 11° sul. No confronto, alguns nativos foram mortos, dentre os quais uma
índia pendurada viva e cortada ao meio com um facão… Brutal, o crime ficou conhecido como
“O massacre do paralelo 11” e somente foi divulgado porque um dos participantes denunciou o
caso, logo após saber que não receberia o valor prometido por seus contratantes. A chacina foi
divulgada internacionalmente, mas os mandantes não foram sequer julgados. Recentemente, em
abril deste ano [2004], deflagrou-se um novo conflito em território indígena, cujo resultado foi a
morte de 29 garimpeiros. Dessa vez ocorreu na reserva Roosevelt, pertencente aos cintas-largas.
O território apresenta uma área equivalente a 2,6 milhões de hectares, situada entre os estados de
Rondônia e Mato Grosso. Encontra-se ali uma das maiores reservas de diamantes do mundo, com
uma capacidade de produção fantástica, da ordem de 1 milhão de quilates de pedras preciosas por
ano. Segundo a Funai, o contrabando de diamantes faz com que o Brasil deixe de arrecadar, anual-
mente, entre 600 e 800 milhões de dólares. Vale ressaltar que a extração mineral em terra indígena
é ilegal e deve ser feita apenas com a autorização expressa do Congresso Nacional. Todavia, mui-
tos diamantes são retirados e enviados clandestinamente ao exterior para abastecer os mercados
norte-americano e europeu.
O assassinato de garimpeiros em abril de 2004 é um episódio cruel que se soma a outros tantos,
colocando em confronto protagonistas com interesses diversos no mesmo espaço. Acima de tudo,
a recente tragédia levanta reflexões sobre muitas questões sem solução: as atividades minerais irre-
gulares, a invasão das terras indígenas, o tráfico internacional de diamantes, a dizimação do povo
cinta-larga, a ausência de outras alternativas de trabalho para os garimpeiros, a relativa conivência
dos órgãos públicos, o interesse das madeireiras e os intensos impactos socioambientais, geralmente
irreversíveis. Todas essas indagações não são novas. É necessária, urgentemente, uma ação efetiva do
governo. Além, claro, de um esclarecimento dos fatos, para que não se repitam discursos manique-
ístas, como os que frequentemente são veiculados nos meios de comunicação e que colocam quase
sempre como culpada a população nativa.
SILVA, Axé. Índios e garimpeiros: uma relação complicada. Discutindo a geografia.
São Paulo: Escala Educacional, ano I, n. 1, jul. 2004. p. 16-9.
1. Conforme o texto, qual é a atuação do governo federal na região?
2. Que relações se estabelecem entre os povos indígenas e os garimpeiros?
3. Reúna-se com alguns colegas e formulem uma proposta para solucionar casos como os citados
no texto e evitar conflitos futuros na região. Tenham como preocupação a conservação da flores-
ta e dos povos que nela habitam.
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ALVES FILHO, Armando; ALVES JÚNIOR, José; MAIA NETO, José. Pontos de história da Amazônia. 3. ed.
Belém: Paka-Tatu, 2001. v. 1.
Coletânea de artigos sobre a conquista portuguesa da Amazônia, o trabalho forçado, o projeto pombalino, a indepen-
dência do Pará e a Revolta da Cabanagem.
____________.Pontos de história da Amazônia. 2. ed. Belém: Paka-Tatu, 2000. v. 2.
Coletânea de artigos sobre a Revolução de 1930 no Pará e a presença dos governos militares na Amazônia.
DAOU, Ana Maria. A belle époque amazônica. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. (Descobrindo o Brasil).
Analisa o período de apogeu da borracha na Amazônia e as transformações sociais e culturais ocorridas em função
dessa atividade econômica.
MUNDURUKU, Daniel. O banquete dos deuses – conversa sobre a origem da cultura brasileira. São Paulo:
Angra, 2000.
Nascido em Belém (PA), o autor é do povo indígena Munduruku (sobrenome que adotou). Formado em Filosofia, com
licenciatura em História e Pedagogia, Daniel expõe neste livro uma visão indígena sobre a cultura brasileira.
VENTURA, Zuenir. Chico Mendes: crime e castigo. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
Biografia de Chico Mendes, enfatizando, em especial, as circunstâncias que envolveram sua morte e o julgamento dos
acusados como mandantes do crime.
Amazônia em chamas. Direção de John Frankenheimer. Estados Unidos, 1994. (123 min).
Cinebiografia do seringalista Chico Mendes, contando a história de seu envolvimento com o sindicalismo até a
sua morte.
Amazônia: herança de uma utopia. Direção de Alexandre Valenti. Brasil, 2005 (90 min.).
Aborda as tentativas de colonização da Amazônia no século XX e os impsctos redultantes desse processo
Biblioteca virtual do Amazonas. Disponível em: <www.bv.am.gov.br/portal>. Acesso em: 18 abr. 2013.
Acesso a livros digitais, textos e informações sobre o ecossistema amazônico, revistas históricas, mapas, fotos e
outras informações sobre a região.
Instituto Socioambiental. Disponível em: <www.socioambiental.org>. Acesso em: 18 abr. 2013.
Organização não governamental que disponibiliza inúmeras informações sobre os povos indígenas brasileiros e sobre
a Amazônia.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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Afro-brasileiros
CAPÍTULO 3
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s brasileiros facilmente se reconhecem como herdeiros dos europeus.
Primeiro dos portugueses, depois dos franceses e dos ingleses. Além disso,
com a imigração de europeus, principalmente para o estado de São Paulo e
o Sul do Brasil, passaram então a se reconhecer como descendentes de alemães,
espanhóis, italianos etc. Sabemos também que descendemos dos povos indígenas. E
dos africanos? Em que medida a cultura brasileira é, também, uma cultura africana?
É comum, mas errôneo, nos referirmos aos africanos como um todo homogêneo, já
que o continente africano reúne culturas essencialmente diferentes. O Egito, por exem-
plo, tem uma cultura muito particular, que não apresenta quase nenhuma relação com
a cultura e a história brasileiras. Então, com que parte da África estamos culturalmente
relacionados? Com quais culturas africanas? Eis nosso desafio neste capítulo: buscar
algumas raízes de nossa identidade, que é mais africana do que muitos supõem.
Missa da padroeira Nossa Senhora do
Bonfim na Igreja de São Francisco Xavier.
Porto Novo, Benim, 2011. Em destaque,
Auguste Amaral, presidente da associação
dos retornados brasileiros no Benin, onde
vivem os agudás, que representam um
grupo minoritário da população do país
e possuem uma história particular: são
descendentes de ex-escravos no Brasil que
conseguiram retornar ao seu local de ori-
gem. Mas não voltaram os mesmos, seja
pela dura vida que tivera, seja por levarem
de volta ao Benim uma cultura que cons-
tituíram na América. Os águdas brincam
o carnaval, festejam o Nosso Senhor do
Bonfim e consomem pratos como a feijoada
no estilo brasileiro. Os agudás nos convi-
dam a investigar e entender esse longo
processo de formação cultural brasileira, no
qual africanos, europeus e indígenas fun-
daram uma cultura particular marcada por
muitos conflitos. Em especial, é necessário
compreender a grande força que as cultu-
ras africanas exerceram nesse processo de
construção de uma identidade brasileira.
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Inclassificáveis
Que preto, que branco, que índio o quê?
Que branco, que índio, que preto o quê?
Que índio, que preto, que branco o quê?
Que preto branco índio o quê?
Branco índio preto o quê?
Índio preto branco o quê?
Aqui somos mestiços mulatos
Cafuzos pardos mamelucos sararás
Crilouros guaranisseis e judárabes
Orientupis orientupis
Ameriquítalos luso nipo caboclos
Orientupis orientupis
Iberibárbaros indo ciganagôs
Somos o que somos
Inclassificáveis
Não tem um, tem dois
Não tem dois, tem três
Não tem lei, tem leis
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No dia da Lavagem do Bonfim, que ocorre desde 1754, católicos e
adeptos do candomblé percorrem as ruas de Salvador cantando
hinos dedicados a Jesus Cristo e Oxalá. As baianas usam turbantes,
saias e braceletes e carregam vasos com água de cheiro.
A letra da canção acima, de Arnaldo Antunes,
ajuda-nos a refletir: em relação à identidade cul-
tural, quem somos nós? Reconhecer a diversidade
cultural de nossa formação pode ser uma maneira
de compreender nossa riqueza cultural?
Contudo não podemos louvar a diversidade sem
atentar para os conflitos e preconceitos que possam
surgir, pois esse encontro de culturas nunca se fez
de maneira pacífica ou como uma soma de saberes.
Ao contrário, tentou-se eliminar as diferenças ou
mostrar a superioridade de uma cultura sobre outra.
Muitas vezes, as relações de poder nasceram do
reconhecimento da existência de diferentes cultu-
ras. Para citar um exemplo, no processo de coloni-
zação do Brasil, os europeus julgavam possuir uma
cultura superior à dos povos indígenas e africanos.
Assim, consideravam que dominar esses povos e
impor-lhes sua cultura e religião era algo nobre, era
oferecer a salvação a que indígenas e africanos não
teriam acesso de outro modo.
Não tem vez, tem vezes
Não tem Deus, tem deuses
Não há sol a sós
Aqui somos mestiços mulatos
Cafuzos pardos tapuias tupinamboclos
Americarataís yorubárbaros
Somos o que somos
Inclassificáveis
Que preto, que branco, que índio o quê?
Que branco, que índio, que preto o quê?
Que índio, que preto, que branco o quê?
Não tem um, tem dois
Não tem dois, tem três
Não tem lei, tem leis
Não tem vez, tem vezes
Não tem deus, tem deuses
Não tem cor, tem cores
Não há sol a sós [...]
ANTUNES, Arnaldo. Inclassificáveis. In: O silêncio (CD). BMG, 1996.
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THESAURUS
CONTEXTO
A África pré-colonial
A maior parte dos africanos trazidos para o
Brasil como escravos veio da denominada África
Atlântica, ou seja, da parte ocidental e centro-
-ocidental da chamada África Subsaariana. Essa
região, que vai do Senegal a Angola, é historicamen-
te habitada por povos que viviam da agricultura e
que conheciam a técnica da metalurgia. Pertencem
ao tronco linguístico denominado banto ou nigero-
-congolês e carregam em sua organização social a
luta contra a natureza hostil. Desde a Antiguidade,
essas populações migraram à procura de savanas
em meio aos desertos. Conforme Mary Del Priore e
Renato Pinto Venâncio:
A crescente desertificação do Saara, assim como o
árduo desflorestamento de áreas ao sul do deserto,
convidava grupos a se estabelecerem, embora de
forma dispersa, em planícies inundadas e sobre
pequenas colinas. A escolha de tais lugares não era
aleatória. Estas eram regiões facilmente defensá-
veis contra ataques de feras ou gente inimiga.
DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais.
Rio de Janeiro: Campus, 2004. p. 2.
Nas savanas, formaram-se complexas organiza-
ções político-sociais. As aldeias eram separadas por
terrenos incultos e rodeadas por terras cultivadas e
mato – território de caça. Vários fatores, como guerras,
crescimento da população e secas, levavam ao aumen-
to ou à diminuição constante dos grupos, em número
de habitantes ou em território. O caráter migratório
dessa população facilitava a multiplicação de famílias
que, por vezes, se instalavam próximas a grupos de
tradições e línguas completamente diversas das suas.
Aproximadamente no século I, começou a
fusão das aldeias em microestados, que foram se
constituindo ao longo de muito tempo. Instalados
em regiões de savana, manguezais e rios, os povos
de língua nigero-congolesa começaram a praticar
o comércio do inhame e da palma com o povo
pigmeu, expandindo-se pela região. Aos poucos,
alguns povos começaram a introduzir a pecuária
em suas atividades, garantindo a carne, o couro e
o adubo para suas plantações.
As migrações e a adaptação aos diferentes
ambientes originaram vários grupos étnicos e uma
complexa cultura. Os falantes da língua banta, por
exemplo, misturaram-se ao noroeste da floresta
equatorial com aqueles que falavam a língua saaro-
-nilótica, formando assim uma nova cultura.
No ambiente hostil da África Atlântica, os povos
estavam sujeitos a doenças como a malária e
outros males trazidos por parasitas – exemplo disso
é a mosca tsé-tsé, transmissora do protozoário
causador da “doença do sono”. Por isso a presença
do curandeiro era de vital importância para esses
povos, importância reconhecida até mesmo pelos
jesuítas portugueses, que chegaram a Angola no
século XVI.
Outro fator que devastava as populações era
a fome, que só não se fazia presente nas culturas
irrigadas. Ainda conforme Mary Del Priore e Renato
Pinto Venâncio:
[...] [as doenças e a fome] empurravam os grupos
a trocar suas crianças por comida, famílias a ven-
der seus filhos e dependentes por um alqueire de
sorgo ou milhete, e homens e mulheres a se deixar
escravizar para não morrer de inanição.
PRIORE, Mary Del; VENÂNCIO, Renato Pinto, op. cit., p. 9.
Em razão das adversidades causadas por doen-
ças ou fome, a capacidade de um homem ou uma
mulher produzir descendentes era extremamente
valorizada. Nos homens, a virilidade aparecia como
CHÁDICO (HAUÇÁ)
SEMÍTICO
EGÍPCIO ANTIGO
CUXÍTICO
BERBERE
BENUE-
-CONGO
(BANTO)
ADMAUA
ORIENTAL
ATLÂNTICO
OCIDENTAL
MANDÊ
VOLTAICO
KWA
REGIÃO
SUBSAARIANA
ÁFRICA
SUBEQUATORAL
ÁFRICA
CENTRAL
ÁFRICA
OCIDENTAL
CORDOFANIANO NIGER-CONGO
CONGO
CORDOFANIANO
NILO-SAARIANO AFRO-ASIÁTICO COISSÃ
TRONCOS LINGUÍSTICOS
TRONCOS LINGUÍSTICOS
AFRICANOS E SUAS FAMÍLIAS
NA ATUALIDADE
Classificação de Joseph Greenberg das línguas africanas, hoje
em torno de 1 900. Atualmente há mais de 260 milhões de
falantes de mais de mil línguas da família nigero-congolesa.
1
1
Conforme CASTRO, Yeda Pessoa de. A língua mina-jeué no Brasil: um falar africano em Ouro Preto do século XVIII. Belo Horizonte: Fapemig/
Fundação João Pinheiro, 2003. p. 35.
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um fator fundamental de aceitação social, assim
como a fertilidade entre as mulheres. As estéreis
eram desprezadas socialmente. Os que não tinham
filhos corriam o risco de serem absorvidos por
outros grupos familiares, saindo em desvantagem
nas guerras, quando a captura de prisioneiros era
prioridade. No Reino do Congo, por exemplo, a
maternidade consolidou-se como um dos temas
mais recorrentes entre as esculturas de madeira.
Embora não haja dados demográficos confiáveis
nem mesmo para o século XVIII, acredita-se que
um terço das crianças morria antes mesmo de
completar um ano de vida.
Na maior parte da África, antes da presença euro-
peia, a terra era um bem coletivo. Os pais de família
recebiam um lote de terra do chefe local para culti-
var, com a condição de pagar um tributo em troca.
Por esse motivo, os homens costumavam ter várias
mulheres e muitos filhos para aumentar a produção.
Isso foi denominado economia da poligamia. Nela
o pai era valorizado de acordo com o tamanho de sua
família, e as mulheres, de acordo com a quantidade
de filhos. Muitas vezes, as mulheres eram adquiridas
por meio de rapto ou do pagamento de um dote à
Na África anterior à presença europeia, grupos humanos organizaram-se em torno de unidades familiares, a partir das quais consti-
tuíram-se aldeias e núcleos comerciais. Aproximadamente no século I, começou a fusão das aldeias em microestados. Mais tarde, a
presença europeia e a expansão do tráfico de escravos agravaram os conflitos internos do continente, e em meados do século XIX
praticamente toda a África foi repartida entre ingleses, belgas, alemães e italianos que buscavam novos mercados e matérias-primas.
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CIDADES E REINOS
AFRICANOS ANTIGOS
sua linhagem, o que facilitava para os ricos possuir
um maior número de esposas.
Já a relação entre idosos e jovens tinha várias
implicações: se por um lado a maturidade e o conselho
dos mais idosos eram valorizados, por outro a virili-
dade e a força da juventude desempenhavam papéis
centrais nessas sociedades guerreiras. Com relação
ao trabalho, em geral, os homens ficavam com a tare-
fa de desmatar, enquanto as mulheres cultivavam.
A colheita, no entanto, era uma atividade coletiva.
Em quase todas as regiões, os grupos organi-
zavam-se em torno de uma unidade familiar, na
qual o homem controlava filhos, esposas, parentes
mais pobres e outros dependentes. Era a partir
dessas unidades que se constituíam aldeias e
núcleos comerciais.
Dentro dessas aldeias havia também uma
hierarquia entre os escravos. Os mais valorizados
eram os prisioneiros nobres, que serviam em ati-
vidades militares. Existiam ainda os escravos que
trabalhavam ao lado dos camponeses, convivendo
com os familiares destes e os chamando de pais. Os
menos valorizados eram enviados a alguma fazenda
de escravos para trabalhar sob a vigilância de um
Com base em DUBY, Georges. Atlas historique
mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 216.
Com base em Enciclopédia Brittanica Kids. Disponível em:
<http://kids.britannica.com/comptons/art-153245/Language-
Families-and-Languages-of-Africa>. Acesso em: 23 maio 2013.
DIVERSIDADE DE LÍNGUAS
AFRICANAS
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Escultura ioruba representan-
do Exu, feita no século XX.
Essa entidade que transita en-
tre o bem e o mal é o principal
intermediário entre o céu e
a terra. É ele quem informa
Olodumaré (o deus supremo)
sobre os demais deuses e so-
bre os seres humanos.
Nesta escultura de aproximadamente
1900, da região do Congo, valoriza-se
a figura materna que carrega seu filho.
Escultura ioruba repre-
sentando Xangô, feita
no século XX.
feitor. Grande parte dos escravos podia adquirir os
mesmos direitos de seus senhores, como o acú-
mulo de propriedades. Só lhe continuava restrito
o direito de casar com mulheres livres e participar
de assuntos políticos.
Depois do século XII, os escravos se tornaram
mercadoria valiosa na África. Comenta a historia-
dora Marina de Mello e Souza:
Na região que abrange do leste do Rio Volta até o
delta do Níger – terra dos acãs, acuamus, evés, dos
povos iorubás e muitos outros – existiam reinos
cujos chefes controlavam áreas consideráveis, se
cercavam de pompa e privilégios, promoviam a
construção de edifícios elaborados e estimulavam
a confecção de objetos que impressionam até hoje
pela beleza. Esses reinos tinham ligação entre si
e com Ifé, espécie de cidade-mãe na qual se origi-
naram as formas de organização política e social
das outras cidades da chamada Iorubalândia ou
Iorubo. Dessa região saiu grande parte dos afri-
canos traficados para a América como escravos,
por causa das vantagens que apresentava, como a
abundância da oferta. Esses eram os prisioneiros
das guerras entre diferentes grupos locais, vendi-
dos aos comerciantes europeus.
SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano.
São Paulo: Ática, 2006. p. 20-1.
A relação com a natureza e as florestas também
variava de um povo para outro. Entre os axantes
e os acãs, por exemplo, a natureza era temida:
um muro era construído para os isolar dela. Já no
Benin (antiga Daomé), faziam-se sacrifícios para
os deuses da mata com a intenção de pacificá-los.
No entanto, a ida à floresta só ocorria por obrigação
ou fuga na época de guerra e fome. Era comum a
utilização de símbolos silvestres nas práticas reli-
giosas. O leopardo, no Benin, estava associado às
figuras dos reis e, em toda a África Atlântica, sua
pele era sinônimo de poder.
Entre os bantos, que mantiveram certa homo-
geneidade religiosa, havia a crença em um espírito
criador, em espíritos de ancestrais e da natureza,
rituais e feitiçarias. No século XV, o povo congo uti-
lizava estatuetas dos avós mortos para recuperar
seus espíritos e achava que elas poderiam resolver
problemas do cotidiano. Em relação à feitiçaria,
acreditavam que havia os bons feiticeiros e os vin-
gadores. As divindades da natureza, como Ogum
e Xangô, confundiam-se com as figuras humanas.
No Reino de Cuba, por sua vez, a crença não era
em um espírito criador, mas em três. Todas as des-
graças eram vistas como fruto da desordem social
e moral da sociedade.
Em Gana (noroeste da África), os reis eram
enterrados com sua comida, seus ornamentos e seus
servidores, o que às vezes resultava na morte de
vários escravos. Isso porque os ganenses julgavam
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Museu de Arte de Seattle
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que os mortos viviam em um mundo igual ao dos
vivos. O sacrifício humano ocorria em diversas
regiões, como na Costa do Ouro e em Bissau.
Os iorubas e outros povos acreditavam em
divindades da natureza que haviam sido assimi-
ladas pelos ancestrais fundadores das dinastias.
Essas divindades são intermediárias entre os seres
humanos e o deus criador, Olodum ou Olodumaré.
Em uma categoria hierárquica inferior, estão os
deuses que atuam como ministros do deus criador,
destacando-se, dentre eles, Obatalá e Xangô. Este
último havia sido rei de Oió, cidade ao norte do
Reino de Ioruba. A tradição diz que, depois que o
soberano foi destronado e enforcado na floresta,
uma forte tempestade caiu sobre a cidade, mos-
trando a vingança de Xangô, desde então associado
ao trovão e ao raio. Nas cerimônias dedicadas a
esse orixá, os sacerdotes traziam uma cabeça na
mão esquerda e uma figura feminina com a imagem
de um “duplo machado” na mão direita. O machado
era uma alusão aos raios lançados pela tempestade
e a uma pedra neolítica encontrada por campone-
ses, interpretada como um presente da divindade.
As práticas religiosas africanas modificaram-se
consideravelmente com a expansão islâmica após
o século VII. O islamismo passou a ser a religião
predominante nos entrepostos comerciais, princi-
palmente no norte da África. No sul, a expansão
islâmica encontrou dificuldades. Entre os iorubas,
por exemplo, a expansão islâmica havia chegado no
século XV, e no fim do século XVIII ela ainda não
havia obtido sucesso na conversão de fiéis. Para os
muçulmanos e os cristãos, as religiões africanas
eram consideradas “obras do diabo”; já para os
africanos, os islamitas eram poderosos feiticeiros.
Os europeus na África
O termo África não tem uma origem defini-
da; porém, sabe-se que seu uso foi introduzido
tardiamente.
Nos séculos XV e XVI, na época da expansão
ultramarina, os europeus denominavam o continen-
te africano de Etiópia. Já os gregos o chamavam
de Líbia. O norte africano, desde a Antiguidade,
foi objeto de conquista para vários povos (como
os fenícios e os romanos). Com a expansão muçul-
mana na Península Ibérica, a partir do século VII
d.C., o contato do norte da África com a Europa
se estreitou. A parte oriental africana também
era conhecida pelos europeus, mas tanto a África
Atlântica como o sul do continente permaneceram
desconhecidos por muito tempo.
A África Atlântica só teve contato com os euro-
peus a partir da expansão ultramarina. O comércio
de ouro, marfim e escravos era realizado na região
desde a Idade Média, mas durante séculos foi exclu-
sividade dos muçulmanos e dos berberes (nômades
que habitavam o Saara e os territórios correspon-
dentes aos atuais Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e
Egito). Somente após a primeira metade do século
XV, foi iniciado um projeto de expansão e conquis-
ta da África Atlântica pelos portugueses, com a
intenção de descobrir rotas para as especiarias
das Índias e para a exploração aurífera na região.
Como os mercadores muçulmanos monopolizavam
o acesso continental e os comerciantes venezianos
defendiam o acesso via Mediterrâneo, a solução
lusa foi abrir novos caminhos pelo Oceano Atlântico.
Essa área produtora de ouro logo se transformaria
em um grande mercado de escravos.
O tráfico interno de escravos na África foi uma
constante entre os séculos VIII e XVI. Ocorria princi-
palmente na costa ocidental (do Senegal até a Angola)
e na costa oriental (do Quênia até Moçambique).
Seu principal mecanismo eram as guerras internas.
Povos derrotados eram transformados em escravos
e vendidos. As guerras aconteciam, em geral, em
razão do processo de formação ou expansionismo
do Estado. Também a fome levava à escravidão: os
mais miseráveis vendiam a si mesmos e aos filhos
como escravos para poder se alimentar. Uma pessoa
também poderia se tornar escrava por meio de uma
decisão judicial. Uma dívida ou um crime poderiam
Mulher dança durante a festa de Xangô, em Fortaleza (CE), em
2003. No Brasil, Xangô é um orixá do candomblé, palavra origi-
nária do banto kandombile e que significa culto e oração. Xangô
representa as forças ocultas da natureza, como o trovão, e para
homenageá-lo as pessoas costumam usar colares de contas
brancas e vermelhas. No catolicismo, como resultado do sincre-
tismo religioso, é identificado com São João, por isso é celebrado
no mês de junho.
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ser pagos com trabalho escravo. Tais escravos, con-
tudo, ainda poderiam se casar com pessoas livres e
ter acesso aos meios de produção.
Com a organização do tráfico negreiro após o
século XV, a dinâmica da escravização de homens,
mulheres e crianças tomou um rumo completamente
diverso. Primeiramente, houve grande incremento no
número de pessoas aprisionadas para serem enviadas
à América em troca de pagamento, que era sempre
muito inferior ao valor de um escravo na América.
Para se compreender a história da África
Atlântica é necessário passar pelo tráfico interna-
cional de escravos, que marcou profundamente a
região. Se no início essa parte da África foi ocupa-
da por portugueses, em seguida vieram outros euro-
peus: franceses, ingleses e holandeses. O tráfico
foi responsável pelo enriquecimento de companhias
europeias e mercadores do início da Idade Moderna,
antes mesmo do surgimento do capitalismo. Se no
século XVI Portugal e Espanha, como detentores
das colônias americanas, dominavam o mercado de
escravos africanos, no século XVII outras nações
europeias passaram a controlar grandes proprieda-
des agrícolas com trabalho escravo no Novo Mundo
e a recorrer à mão de obra cativa.
Desde o século XV, Portugal já ocupava os
arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé. Do pri-
meiro ponto os portugueses atingiram os rios da
Guiné, e de São Tomé foram para o Golfo de Benin.
A partir daí estabeleceram vários entrepostos para
o comércio de ouro e escravos: as duas mercadorias
mais valiosas. Luanda, Senegâmbia e Benguela
tornaram-se parceiros dos portugueses na aqui-
sição de escravos para serem vendidos pelos
europeus. No século XVI, os ingleses começaram
a disputar com os lusos os melhores postos de
compra de escravos e as alianças com os chefes
locais. A partir do século XVII, a região da Costa da
Mina foi um importante fornecedor de mão de obra
escrava para os traficantes europeus. Conforme a
historiadora Marina de Mello e Souza:
[As realizações dos negócios] envolviam várias
etapas, eram lentas e com gestos cheios de signifi-
cados simbólicos. Os navios tinham de pagar taxas
de ancoragem, e os capitães ofereciam presentes
para os chefes locais ou para os representantes
dos reis, que moravam no interior do continente.
Estes geralmente eram presenteados com tecidos
finos, como brocados, veludos e sedas, com botas
de couro, chapéus emplumados, casacos agaloa-
dos [enfeitados com galões], punhais e espadas
trabalhadas, pipas de bebidas destiladas, cavalos
e uma variedade de produtos que indicavam pres-
tígio. As trocas eram feitas aos poucos. Cada dia
pequenas quantidades de escravos eram trocadas
por tonéis de bebidas destiladas, tecidos da Índia
e da Inglaterra, contas de vidro venezianas, uten-
sílios de metal, armas, pólvora, cavalos, barras
de ferro, conchas trazidas de ilhas do Índico, que
cumpriam funções de moeda em sociedades da
África ocidental. Em razão desse processo lento,
um navio podia levar até seis meses para comple-
tar sua carga e voltar ao porto de origem.
MELLO E SOUZA, op. cit., p. 59.
Quanto maiores os conflitos internos na África,
mais favorecidos eram os portugueses em relação
ao abastecimento de escravos. Leia a seguir a
explicação de Roland Olivier.
O Benin passava, quando os portugueses lá chega-
ram pela primeira vez, pelos estágios finais de uma
grande expansão territorial. Enquanto seus exércitos
permaneceram lutando ativamente nas fronteiras,
o Benin foi uma fonte principal de escravos. Mas
quando, em meados do século XVI, o Benin atingiu
os limites naturais de seu poder para controlar as
províncias distantes, o fluxo de escravos diminuiu
gradativamente e os comerciantes europeus tiveram
que buscar seus suprimentos em outro lugar.
OLIVIER, Roland. A experiência africana.
Rio de Janeiro: Zahar, 1994. p. 145.
Assim, o comércio de escravos acabou por
intensificar os conflitos internos e os desequilíbrios
populacionais. As capturas foram se ampliando.
No século XV, estima-se a captura de menos de
mil pessoas, elevando-se esse número para cerca
de 30 mil por ano no século XVII e cerca de 80 mil
no século seguinte. Aproximadamente dois terços
dos capturados eram homens.
No fim do século XVIII, os movimentos liberais e
democráticos ganharam força na Europa, e a escra-
vidão passou a ser condenada não mais apenas por
religiosos ou intelectuais isolados. Na França e na
Inglaterra, nasceu o movimento abolicionista, que
considerava essa forma de trabalho um atraso à
expansão do mercado. Aos poucos o tráfico deixou
de existir, o que ocorreu no Brasil em 1850 com a
promulgação da Lei Eusébio de Queiroz.
No entanto, até mesmo em decorrência do fato
de a escravidão ser realizada na África antes da che-
gada dos europeus, esta prática não cessou total-
mente e permaneceu nas antigas rotas escravistas
do Saara. O tráfico interno no continente atingiu seu
apogeu no século XIX. A abolição da escravatura
na África foi ainda muito lenta, permanecendo no
Congo até 1889, no Senegal até 1892, na Gâmbia até
1894, na Nigéria até 1900 e em Serra Leoa até 1928.
Em meados do século XIX, um novo processo de
conquista europeu começou a ocorrer. Trata-se do
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neocolonialismo, no qual as potências europeias
saíram em busca de novos mercados e matérias-
-primas para sua indústria em constante expansão.
Praticamente todo o continente africano foi repartido
entre ingleses, franceses, belgas, alemães e italianos.
A escravidão foi realimentada e a segregação étnica
tomou grandes proporções. Exemplo dessa herança na
história do continente é o apartheid na África do Sul.
No século XVII, a região da atual África do
Sul foi colonizada por holandeses e franceses,
chegando também os ingleses no século XVIII.
Desde o início se estabeleceu o conflito com as
várias etnias locais: bosquímanos, zulus e xho-
sas. Os europeus lutaram para dominar esses
povos e explorar sua força de trabalho. Os des-
cendentes de holandeses denominaram-se afri-
cânderes ou bôeres e desenvolveram uma língua
própria: o africânder. Em 1899 e 1902, em plena
disputa pela dominação colonial, os britânicos
entraram em conflito com os bôeres, iniciando-
-se a chamada Guerra dos Bôeres, que terminou
com a vitória e dominação britânica da região.
Com isso, os britânicos unificaram a região, que
foi denominada como União Sul-Africana, poste-
riormente África do Sul.
Em 1947, ocorreu a independência da África do
Sul, mas, no ano seguinte, a minoria branca repre-
sentada pelo Partido Nacional implantou o regime
do apartheid, no qual o racismo se transformou em
lei e vigorou até 1994.
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Com base em Atlas geográfico escolar. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. p. 45.
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Manifestação em apoio à elei-
ção de Nelson Mandela em
1994. Na faixa, lê-se: “Adeus,
apartheid; não volte mais”.
Durante o apartheid, a legislação segregacio-
nista limitou a circulação da população negra,
que precisava de um documento de permissão
oficial para poder circular nas áreas destinadas aos
brancos. As áreas de trabalho, lazer e moradia de
negros e brancos eram demarcadas pelo Estado.
A palavra apartheid, em africânder, significa
separação. Havia locais públicos, como praias
e áreas de lazer, além de serviços públicos,
como bibliotecas e escolas, que eram vetados
aos negros. Somente os brancos tinham direitos
civis; por isso, não era permitido aos negros votar,
assumir cargos públicos ou participar de um júri.
Era também proibido o casamento entre brancos
e negros. Conforme a legislação segregacionista
implementada pela minoria branca, todos aqueles
que tivessem antepassados não brancos eram clas-
sificados como negros ou mestiços e receberiam
documentos que contivessem essa informação, ou
seja, todos esses seriam considerados como parte
da população negra discriminada pela minoria
branca que governava o país.
Após o movimento de resistência liderado por
Nelson Mandela, que estivera preso por muitos
anos em razão de sua militância contra o apartheid,
a África do Sul realizou, em 1994, as primeiras elei-
ções multirraciais. Nesse ano, Mandela, represen-
tando o partido denominado Congresso Nacional
Africano, foi eleito o primeiro presidente negro da
África do Sul.
Herança do apartheid na
África do Sul: ba nheiros se-
parados pa ra ho mens bran-
cos e negros no centro de
Johannesburgo, em 2001.
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Os africanos no Brasil
Sabemos que cerca de 220 povos e 5 milhões de
habitantes viviam no atual território brasileiro antes
da chegada dos portugueses em 1500. A partir daí os
colonizadores começaram a se apossar das terras
e a escravizar indígenas. Na segunda metade do
século XVI, com o desenvolvimento da economia
canavieira, o tráfico de escravos ganhou fôlego e
começaram a vir as primeiras levas de africanos
para a colônia. Estima-se que cerca de 50 mil afri-
canos chegaram ao Brasil no século XVI; no século
seguinte teriam sido 550 mil, e, no século XVIII, por
volta de 1 milhão e 700 mil africanos. No total, teriam
chegado ao Brasil mais de 4 milhões de africanos, e,
na América, mais de 10 milhões de seres humanos
vindos da África foram feitos cativos.
Devemos lembrar que não só a cana-de-açúcar
havia começado a se desenvolver no Brasil, mas
também a criação de gado no interior, a extração
de drogas do sertão no Norte e a cultura do fumo
na Bahia; enfim, iniciava-se a organização de uma
sociedade colonial predominantemente rural, na
qual africanos escravizados e indígenas eram a
mão de obra essencial para o funcionamento dessa
economia. Além disso, os escravos eram utilizados
para tarefas domésticas e urbanas.
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Ao longo do período colonial, a segregação
racial foi ganhando contornos mais nítidos e o
preconceito foi se reafirmando a todo momento.
Para as pessoas consideradas brancas, o trabalho
manual era tarefa destinada somente aos escravos.
Assim, para as famílias mais abastadas, tarefas
como cuidar da casa, cozinhar, cuidar das crianças,
transportar cargas, fazer pequenos consertos ou
até mesmo trabalhar como vendedor ambulante
eram destinadas aos escravos. A posse de escra-
vos era um sinal de status, uma demonstração de
riqueza. Sinhás passeavam pelas ruas com várias
escravas para acompanhá-las. Além de lhes pres-
tarem serviço, eram a prova viva de sua abastança.
Uma vez no Brasil, os africanos eram generica-
mente chamados de boçais, termo que remetia à
inferioridade das culturas africanas para os portu-
gueses. Depois de capturados, eram trazidos nus
ou seminus e acorrentados nos porões dos navios.
Muitos morriam nesse percurso. Ao chegarem aqui,
eram besuntados com banha para participarem
de leilões de venda de escravos nos mercados de
cativos. Tratados como animais que serviriam como
ferramenta de trabalho, toda a sua história anterior
era desconsiderada. Seus proprietários despreza-
vam a origem, a língua, a religião e a história familiar
dos escravizados. Quando estes aprendiam a língua
ROTAS DE ESCRAVOS ENTRE BRASIL E ÁFRICA
DURANTE O PERÍODO COLONIAL
Com base em ALBUQUERQUE, Manoel Mauricio de. et al. Atlas Histórico Escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 42.
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portuguesa, os costumes do local e se mos-
travam obedientes aos senhores, passavam a
ser chamados de ladinos. Os que nasciam no
Brasil eram chamados de crioulos.
Como afirmado anteriormente, a maior
parte dos africanos que vieram para o Brasil
era procedente da África Atlântica. No sécu-
lo XVI, vinham da região do Rio Gâmbia, no
Golfo da Guiné, da região do Congo e de
Luanda. No século XVIII, muitos escravos
vieram da Costa da Mina, ligada diretamente
a comerciantes de Salvador e de Luanda, que
abastecia principalmente o Rio de Janeiro.
Podemos considerar, então, que chegaram
ao Brasil mais africanos de origem sudanesa,
vindos da região conhecida como Sudão oci-
dental, a qual abrigava muitas etnias, dentre
elas: os hauçás, os fulanis e inúmeros grupos
iorubas. Além desses, há os vários grupos
bantos já citados.
Com isso, uma variedade de línguas, reli-
giões, enfim, uma variedade de culturas passou
a conviver na colônia. Os africanos, no entanto,
não puderam viver próximo de seus familiares,
pois a lógica do comércio fazia com que as
pessoas fossem separadas, não respeitando
as culturas locais. Dessa forma, ao desembar-
car no Brasil, o africano chegava a uma terra
desconhecida e precisava aprender a conviver
com europeus, indígenas e africanos de outras
etnias. Em alguns casos, escravos de um
mesmo senhor poderiam pertencer a povos tra-
dicionalmente inimigos. Nesses casos, tudo que
tinham em comum era a condição de escravo.
No Brasil, os escravos tinham de aprender
a língua portuguesa para se comunicar com
outros escravos e os senhores. Ocorria então
um novo processo de socialização. Com sua
identidade original negada pelos europeus, eram
chamados pelos traficantes conforme sua ori-
gem ou ponto de venda na África. Poderiam ser
conhecidos como João Mina, Manoel Benguela
ou Maria Angola, por exemplo.
Contudo, os africanos escravizados não
perdiam totalmente sua identidade original.
Na escolha de parceiros sexuais, por exem-
plo, levavam em conta a origem do outro,
preferindo companheiros da comunidade
africana a que pertenciam. A partir das rela-
ções de parentesco e de trabalho que iam
se formando, foram recriadas comunida-
des que mantinham as tradições culturais
africanas e acrescentavam novas práticas
constituídas no Brasil.
O barco do guarda-mor (no alto) e Cenas da Rua Direita (as duas
imagens acima), de Paul Harro-Harring, 1840. O pintor e romancista
dinamarquês esteve no Rio de Janeiro entre maio e agosto de 1840
e retratou o cotidiano da cidade na série Esboços tropicais do Brasil.
Adepto do Iluminismo, seu objetivo não era mostrar a natureza e a
sociedade do Brasil, mas denunciar a brutalidade da escravidão. Nas
imagens, diferentes tarefas exercidas pelos escravos: os remadores de
embarcações, os carregadores urbanos e os vendedores ambulantes.
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Música transoceânica
Afinidades musicais entre Cabo Verde e Brasil ultrapassam a distância e o século
Eduardo Lobo
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iolão, cavaquinho e percussão: formação instrumental típica da música
brasileira. Certo? Não totalmente. Nas ilhas de Cabo Verde isso também
é verdade. E as semelhanças não param aí. Há muito mais em comum
entre o que se produz musicalmente no Brasil e no arquipélago do Oceano
Atlântico, como nós, descobertos e colonizados pelos portugueses, e como nós,
com forte influência de culturas africanas.
“Morna”, “coladeira” e “funaná” são os três ritmos musicais mais populares
das ilhas de Cabo Verde. Ritmos que misturam toques de fado português, cho-
rinho brasileiro, batidas cubanas, tango argentino e raízes africanas. A influência
brasileira é, sem dúvida, uma das mais fortes.
Cabo Verde foi um dos poucos casos em que o Brasil regressou à África para
devolver cultura. No início do século passado, marinheiros brasileiros chegavam à
ilha de São Vicente com seus instrumentos e, não raro, tocavam com os compositores
locais. Assim, o chorinho e o samba influenciaram a música urbana do arquipélago.
A “morna” é o gênero que mais caracteriza o povo cabo-verdiano. É o blues do
país. Uma música que nasceu do sofrimento do povo, tocada num ritmo lento e com
letras que evocam a tristeza, o amor, a perda e a sodade, saudade em crioulo. E não
se pode falar em “morna” sem citar Cesária Évora, a diva de Cabo Verde. Ela foi o grande divisor de águas para a música
cabo-verdiana. Foi com seu sucesso internacional que as portas do mundo se abriram para a música do arquipélago. Com
uma voz carregada de sentimento, frequentemente comparada a Billie Holiday, “Cize”, como gosta de ser chamada pelos
amigos, chega aos 62 anos de idade, dona de uma carreira bastante peculiar, na qual o sucesso só veio tardiamente.
Como a maioria dos músicos e artistas de Cabo Verde, Cesária Évora nasceu em Mindelo, a capital cultural do
país [...] começou a carreira cantando nos bares e bordéis de Mindelo e nos lares de aristocratas portugueses. Com a
independência de Cabo Verde, em 1975, um regime socialista foi instalado no país, provocando a fuga da aristocracia
portuguesa que tinha sido o sustento da cantora.
LOBO, Eduardo. Continente multicultural. Ano III, n. 29, 2005. p. 40.
Apresentação de Cesária Évora,
a “diva de Cabo Verde”, em Los
Angeles (Estados Unidos), em
2008.
A presença cultural
africana no Brasil
Podemos facilmente perceber a presença afri-
cana na origem da música brasileira e de algumas
festas populares nacionais. O batuque, dança
originária do Congo e de Angola, era praticado no
Brasil pelos africanos e consistia em uma roda com
uma dançarina ao centro e o acompanhamento de
um violeiro. Daí surgiu a expressão batucada para
designar as rodas, que, mais tarde, seriam sinônimo
de rodas de samba. Durante o batuque, para sair
da roda, a dançarina deveria encostar o umbigo no
umbigo de outro dançarino que entrava. No idioma
banto-quimbundo isso é denominado semba, pro-
vável origem da palavra samba.
Do Congo veio também a congada, dança dra-
mática realizada entre as festas de Natal e de
Reis. Trata-se de uma mistura de ritmos africanos
com elementos da cultura católica europeia, pois
relaciona-se com o calendário das festas cristãs.
Algumas congadas representam a luta dos povos
negros, mas outras fazem referência às lutas entre
cristãos e mouros na Europa. Outra influência
dos bantos de Angola e do Congo é a presença
do lundu, conhecido por ser uma dança sensual.
Vale ressaltar que o lundu, de dança considera-
da indecente, se transformou, a partir do século
XIX, em dança de salão aceita pela população de
pessoas livres e pela elite.
Um caso típico das diferenças entre os grupos
de africanos escravizados foi o que ocorreu na
Bahia do século XIX, quando muitos africanos
hauçás foram trazidos após serem aprisionados
na guerra contra os iorubas. Esses hauçás, de
tradição islâmica, distinguiam-se em muitos
aspectos dos africanos de outras regiões que
habitavam a Bahia.
A religião é um exemplo dessas novas relações
que foram se constituindo. Africanos capturados
como escravos podiam ser curandeiros, conhe-
cedores de práticas mágicas, de adivinhações e
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Congadas de Catalão (GO), em apresentação de 2007.
O batuque em São Paulo, de Johann Baptist Spix e Karl
Friedrich Philipp von Martius, 1817. Esses viajantes europeus
retrataram a dança batuque, na qual ocorria a “umbigada”.
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Homem da etnia hauçá na Nigéria atual.
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intermediários entre o mundo divino e dos seres
humanos. Mesmo como escravos no Brasil, eles
continuavam a realizar essas tarefas. Jogavam
pedras, praticavam danças de significado religioso
ao som de tambores e preparavam compostos para
beber ou comer, que incluíam extratos de plantas,
dentes e penas de animais, cabelos e mesmo secre-
ções do corpo. Poderiam ter finalidades variadas,
que seriam alcançadas ao cumprir o ritual. Esses
ritos no Brasil eram chamados de calundus, palavra
de origem banta.
Os africanos também costumavam criar bolsas
de mandinga, comuns ainda em algumas regiões
do Brasil. Elas eram feitas de pequenos sacos de
pano ou couro que reuniam objetos variados, papéis
com orações muçulmanas, católicas e dizeres
relacionados às culturas africanas. Expressavam
a síntese cultural e acreditava-se que ofereciam
proteção aos que as usavam.
O candomblé, relacionado a cultos religiosos
de origem ioruba e de Daomé (atual República
de Benin), evocava as entidades sobrenaturais
que são os orixás, heróis divinizados em reinos
africanos. No entanto, essa prática religiosa era
reprimida na colônia portuguesa, condenada pela
Igreja Católica, que a considerava como força
diabólica. Era permitido somente cultuar os san-
tos católicos. A religião cristã era apregoada aos
escravos pelos colonizadores. Havia igrejas desti-
nadas somente aos escravos. Nessas, contudo, os
escravos criaram uma correspondência entre os
orixás do candomblé e os santos católicos. Iansã
era Santa Bárbara, Xangô era São João Batista,
São Jerônimo ou São Judas Tadeu e Iemanjá era
Nossa Senhora da Conceição. Oxalufã era conhe-
cido como o Senhor do Bonfim na Bahia, Oxóssi
como São Jorge (na Bahia) e São Sebastião (no
Rio de Janeiro), Oxum como diversas Nossas
Senhoras (da Conceição, das Candeias etc.) e
Omulu como São Lázaro. Esse é um importante
exemplo de como se foi construindo o sincretismo
cultural que deu origem à cultura afro-brasileira.
Deve-se destacar, ainda, a importância das
chamadas irmandades de pretos. As irmanda-
des surgiram originalmente na Europa medieval
e foram trazidas ao Brasil pelos colonizadores
portugueses. Como instituição laica, tinha por
objetivo difundir o culto aos santos e garantir
Festa de Iemanjá no Rio de Janeiro, em 2008. Iemanjá é a rainha das águas e o orixá da maternidade nas religiões afro-brasileiras.
No sincretismo religioso é identificada com a santa católica Nossa Senhora dos Navegantes.
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Tambozeiros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Minas Novas (MG),
2004. As irmandades ainda representam uma forma de construção de identidades e laços sociais em
muitas comunidades brasileiras, organizando festas e rituais que envolvem grandes grupos.
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Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
São Cristóvão (SE), 2007.
Rubens Chaves/Pulsar Imagens
o esforço de evangelização. Também havia no
Brasil as ordens terceiras, que se submetiam
a uma ordem religiosa específica. Conforme
Sérgio Chahon:
Situadas na base da pirâmide social e numerosas
no ultramar, as irmandades negras, sobretudo as de
escravos, desempenharam, com as bênçãos da Igreja
e do padroado régio, papel relevante no processo de
aculturação da população africana, estimulando-a
ao exercício dos ritos católicos e à participação nos
sacramentos. De um ponto de vista mais amplo, en-
quanto associações dotadas de legitimidade jurídica,
serviram ao conjunto dos habitantes da América
Portuguesa como o principal espaço de sociabilidade
disponível na época e, para os cativos e libertos, desti-
tuídos de quase tudo, forneceram importantes meios
para eles se exprimirem culturalmente e construírem
uma identidade própria.
VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil colonial
(1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. p. 317.
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1. Que referências à história dos africanos no Brasil estão presentes na canção?
2. Faça uma pesquisa na internet para explicar as alusões ao dia 20 de novembro e aos quilombos.
3. O autor faz uma defesa da cultura afro-brasileira? Explique.
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PONTO DE VISTA
Black Broder – 20 do 11
Mestre Negoativo/ Alexandre Cardoso – Berimbrown
Meus ancestrais
trazidos em navios negreiros
Muitos morreram de banzo antes de aqui chegar
A boca secava de sede,
caíram no samba para a dor passar
Criaram uma luta nas matas e debaixo do nariz do
feitor
Dançavam prá disfarçar,
Batuque, São Bento Grande, Santa Maria,
São Bento pequeno, Iúna, Cavalaria.
É bom e tenho o prazer de dizer sou afro-brasileiro
Nossa cultura se expande pelo mundo inteiro
Tem até europeu tocando berimbau e pandeiro
Do mundo do açúcar a computadores
Toca-disco, fax, celular,
rádio de pilha, desemprego
Me mande um e-mail prá a gente se comunicar
Do mundo do açúcar a computadores
Toca-disco, fax, celular,
rádio de pilha, desemprego
Me mande um e-mail prá a gente se aquilombar
Hei, black broder
Levante e lute
Na moral
Hei, black broder
Se ligue e lute na moral
E aí, Domingo Jorge Velho, qual é a sua?
O quilombo permanece vivo, a luta continua
Na ditadura grandes mestres foram exi-
lados
Seu Rui Barbosa, cadê os livros da História
que foram queimados?
Na minha cidade 21 de abril é feriado
e 20 de novembro mal é lembrado
Mas mesmo assim trago sorriso no rosto,
tenho o samba no pé
Sou bamba de capoeira e acredito no meu
candomblé
Aro bôbôi ôxum maré
patácuri ôgum comorodé odé
Cabecilhê kaô
Tem muito mais, não tenho preconceito
Pelo contrário, tenho orgulho estampado
no peito
Somos miscigenados por inteiro
salve o povo índio branco afro-brasileiro
Hei, black broder
Levante e lute
Na moral
Hei, black broder
Se ligue e lute na moral
BERIMBROWN. Black Broder.
In: Aglomerado (CD). Obi Music, 2003.
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DOCUMENTOS
VOCABULÁRIO
Belicoso: que tem inclinação para o combate.
Idólatra: que adora ídolos.
Manilha: argola como adorno para os pulsos ou os tornozelos.
Leia atentamente o trecho da obra Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira, inter-
rompida em 1508, e observe o mapa europeu de 1530. Depois, faça as atividades propostas no
Roteiro de trabalho.
Esmeraldo de Situ Orbis, 1505-1508
Duarte Pacheco Pereira
À
ordem da obra convém dizermos da natureza da gente desta Serra Leoa e do seu modo de
viver. E a maior parte dos moradores desta terra por um nome são chamados Boulões, e
é gente belicosa que poucas vezes estão em paz. Estes chamam ao ouro “enloão” e água,
“men”. E algumas vezes se acontece estes negros comerem outros homens, ainda que isto não usam
tão comumente como se usa em outras partes desta Etiópia. E estes todos são idólatras e feiticeiros,
e por feitiços se regem em tal maneira que os oráculos e os agouros sem dúvida se lhe dão.
Nesta terra há ouro, e não em muita quantidade, o qual os Boulões dão por sal, que levam a uma
terra que chamam Coia, donde este ouro vem, que é assaz fino (quase vinte e três quilates), o qual
costumam resgatar por manilhas de latão e por bacias tamanhas como as de barbeiro, e por lenço
e pano vermelho [...] e panos de algodão e outras coisas. Estes negros têm os dentes limados e
Mapa produzido na Europa
em 1530, mostrando o con-
tinente africano e a presen-
ça de animais mitológicos.
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Duarte Pacheco Pereira nasceu em Santarém (Portugal), em 1460. Dedicou-se desde jovem às expedições marítimas. Esteve a
serviço dos reis Dom João II, Dom Manuel e Dom João III. Alguns historiadores afirmam que ele teria sido o primeiro navegador
europeu a chegar às terras brasileiras em 1498, quando teria desembarcado nas proximidades da fronteira do Maranhão com o Pará.
Foi governador do castelo de S. Jorge da Mina. Em 1503, partiu para o Oriente e participou de várias batalhas contra o samorim
(governante) de Calicute. Foi aclamado herói em Portugal pelo rei Dom Manoel I por seus feitos no Oriente. Sua obra Esmeraldo
de Situ Orbis, que ficou inacabada, é um roteiro comentado da costa africana ocidental e oriental. Faleceu em 1533, em Lisboa.
VOCABULÁRIO
Alimária: qualquer animal, em especial quadrúpede; pessoa estúpida ou grosseira.
1. Duarte Pacheco trata os habitantes de Serra Leoa como selvagens? Justifique sua resposta
citando trechos do documento e explicando-os.
2. Descreva a imagem levando em consideração todos os detalhes possíveis.
3. Com base no texto e na imagem, o que se pode concluir sobre a visão dos europeus a respeito
dos povos africanos?
Lembre-se: uma biografia não apresenta o conjunto completo de fatos que compõem a vida de uma
pessoa, mas uma seleção organizada conforme o olhar do biógrafo. Por isso, quando lemos biografias de
uma mesma pessoa escritas por autores diferentes, podemos encontrar divergências e destaques a diferentes
fatos relacionados à vida dela.
agudos como os de cão. Nesta terra há muitos elefantes e onças e outras muito desvairadas alimárias
que nesta Espanha e em toda a Europa não há. Também há aqui homens selvagens, a que os Anti-
gos chamaram Sátiros, e são todos cobertos de um cabelo ou sedas, quase tão ásperas como de
porco; e estes parecem criatura humana e usam coito com suas mulheres como nós usamos com as
nossas; e em vez de falarem, gritam quando lhe fazem mal.
PEREIRA, Duarte Pacheco. Esmeraldo de Situ Orbis. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1953. p. 121.
Apud DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais. Rio de Janeiro: Campus, 2004. p. 67.
NA INTERNET
Biografias afro-brasileiras
A extrema exploração a que os povos de origem africana foram submetidos no Brasil e os pre-
conceitos étnico e de cor existentes não foram suficientes para impedir que, ao longo da história
brasileira, várias personalidades afrodescendentes se destacassem em diversos setores da vida
social e no campo da cultura.
Escolha duas dessas personalidades e pesquise na internet mais informações sobre elas. Podem
ser pessoas que desempenharam papel significativo na política, em movimentos sociais, nas artes
ou em alguma atividade científica ou profissional.
Para realizar essa pesquisa, siga as orientações do Roteiro de trabalho abaixo.
1. Selecione alguns sites que forneçam informações sobre as duas personalidades escolhidas.
Compare as informações obtidas nesses sites, confirmando os dados disponíveis, pois algumas
vezes diferentes sites informam dados biográficos divergentes.
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2. Selecione as informações que considerar mais significativas sobre as personalidades escolhi-
das, levando em consideração as atividades em que elas mais se destacaram.
3. Produza uma biografia para cada personalidade. Escreva o texto em terceira pessoa e não deixe
de incluir a data e o local de nascimento e, se for o caso, de morte. Os eventos relacionados à
vida de cada personalidade devem ser inseridos em ordem cronológica. Se possível, inclua uma
fotografia das pessoas selecionadas.
4. Apresente para a turma pelo menos uma das biografias produzidas.
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INTERDISCIPLINARIDADE
África: retratos contemporâneos – uma Geografia
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África ocupa os noticiários com informes sobre guerras civis, golpes de Estado, dissemi-
nação de epidemias, fome, pobreza e violência de toda ordem. Com efeito, o berço da
humanidade, após séculos de dominação e colonização europeia, convive com o fraciona-
mento territorial e a criação de Estados e fronteiras sem levar em conta a sua extrema diversidade
étnico-cultural. Há disputas e confrontos armados, boa parte deles opondo governos e grupos
de oposição. Alguns países hoje estão com suas instituições políticas desestruturadas e com ausên-
cia de perspectivas para a população, casos extremos da Somália e da República Democrática do
Congo. Países que alcançaram maior estabilidade política passam por fase de prosperidade econô-
mica, caso da África do Sul. Outros ainda convivem com regimes opressores e penúria social, como
Zimbábue. No norte do continente, o sopro de liberdade levou à deposição de ditadores na Tunísia,
Líbia e Egito, com ecos no Oriente Médio.
O relatório do Unaids (Programa da ONU sobre HIV/Aids) de 2012 indica que existem 34,2
milhões com HIV no mundo, sendo 23,5 milhões na África subsaariana. Países do continente estão
entre aqueles de mais baixo IDH do mundo. O Sahel, faixa de transição semiárida entre o Saara e as
zonas tropicais ao sul, envolvendo Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Sudão, Somália e
outros, está entre as regiões mais pobres e devastadas do planeta.
A ausência de democracia, a seca, a fome, a perda de solos e as disputas pelos recursos existentes
estão entre as principais problemáticas do continente. Mas as perguntas que ficam são: esse quadro,
tão disseminado pelas mídias do Ocidente, é suficiente para retratar a África contemporânea? O que
explica o forte interesse pelo continente de países como a China e os Estados Unidos?
Reflita sobre essas questões e faça as atividades propostas no Roteiro de trabalho a seguir.
1. Observe a tabela abaixo e depois faça o que se pede.
África: indicadores sociais e econômicos de países selecionados
País
Expectativa de vida
(H/M) 2010-2015
IDH (2011) *
Crescimento PIB (%
média anual) 2010
Exportações
(em US$) 2009
África do Sul 53,1 / 54,1 0,619 2,8 73,1 bilhões
Argélia 71,9 / 75,0 0,698 3,0 39,2 bilhões
Egito 71,5 / 75,5 0,644 5,2 44,9 bilhões
Nigéria 51,7 / 53,4 0,459 7,9 39,0 bilhões
Zimbábue 54,0 / 52,7 0,376 9,0 2,9 bilhões
(*) Para comparação: Brasil – 0,718; Noruega – 0,943.
Fontes: Fundo das Nações Unidas para a População; Relatório IDH-PNUD; Banco Mundial.
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a) Após comparar os dois mapas, escreva um texto expondo o que você observou. Nesse texto,
estabeleça relações entre a presença de recursos naturais e a apropriação social desses
recursos em países do continente africano.
b) Com base nos mapas, indique as zonas críticas quanto a hostilidades à vida humana e o potencial
de crescimento econômico dessas regiões, levando em consideração suas riquezas naturais.
c) Avalie efeitos da presença estrangeira recente em função de interesses econômicos (em
especial, da China).
ÁFRICA: HOSTILIDADES À VIDA
HUMANA
ÁFRICA: RIQUEZAS NATURAIS
(DISTRIBUIÇÃO E APROPRIAÇÃO)
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Compare os indicadores sociais e econômicos dos países escolhidos e escreva um pequeno
texto explicando o que você observou. Se achar necessário, faça uma rápida pesquisa sobre
esses países.
2. Observe e compare os mapas abaixo. Depois, faça o que se pede.
Com base em FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. São Paulo: Moderna, 2010. p. 82.
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RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos
Em todas as questões, leia atentamente os enuncia-
dos e para cada uma delas escreva uma frase que
sintetize as ideias principais do texto citado. Depois
disso, analise as alternativas ou elabore a resposta.
1. (Enem)
A Superintendência Regional do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
desenvolveu o projeto “Comunidades Negras de
Santa Catarina”, que tem como objetivo preservar
a memória do povo afrodescendente no sul do
país. A ancestralidade negra é abordada em suas
diversas dimensões: arqueológica, arquitetônica,
paisagística e imaterial. Em regiões como a do
Sertão de Valongo, na cidade de Porto Belo, a fixa-
ção dos primeiros habitantes ocorreu imediata-
mente após a abolição da escravidão no Brasil. O
Iphan identificou nessa região um total de 19 refe-
rências culturais, como os conhecimentos tradi-
cionais de ervas de chá, o plantio agroecológico
de bananas e os cultos adventistas de adoração.
(Adaptado de: <http://portal.iphan.gov.br/portal/montar
DetalheConteudo.do?id=14256&sigla=Noticia&retor=
detalheNoticia>. Acesso em: 1 jun. 2009.)
O texto permite analisar a relação entre cultura
e memória, demonstrando que
a) as referências culturais da população afro-
descendente estiveram ausentes no sul do
país, cuja composição étnica se restringe
aos brancos.
b) a preservação dos saberes das comunida-
des afrodescendentes constitui importante
elemento na construção da identidade e da
diversidade cultural do país.
c) a sobrevivência da cultura negra está basea-
da no isolamento das comunidades tradicio-
nais, com proibição de alterações em seus
costumes.
d) os contatos com a sociedade nacional têm
impedido a conservação da memória e dos
costumes dos quilombolas em regiões como
a do Sertão de Valongo.
e) a permanência de referenciais culturais que
expressam a ancestralidade negra com-
promete o desenvolvimento econômico da
região.
2. (Enem)
A Revolução Cubana veio demonstrar que os
negros estão muito mais preparados do que se
pode supor para ascender socialmente. Com
efeito, alguns anos de escolaridade francamente
aberta e de estímulo à autossuperação aumen-
taram rapidamente o contingente de negros que
alçaram aos postos mais altos do governo, da
sociedade e da cultura cubana. Simultaneamente
toda a parcela negra da população liberada da dis-
criminação e do racismo confraternizou com os
outros componentes da sociedade aprofundando
o grau de solidariedade.
Tudo isso demonstra claramente que a democra-
cia racial é possível, mas só é praticável conjun-
tamente com a democracia social. Ou bem há
democracia para todos, ou não há democracia
para ninguém, porque à opressão do negro con-
denado à dignidade de lutador da liberdade cor-
responde o opróbrio do branco posto no papel de
opressor dentro de sua própria sociedade.
(Adaptado de: RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e
o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.)
Segundo Darcy Ribeiro a ascensão social dos
negros cubanos, resultado de uma educação
inclusiva, com estímulos à autossuperação, de-
monstra que
a) a democracia racial está desvinculada da
democracia social.
b) o acesso ao ensino pode ser entendido como
um fator de pouca importância na estrutura-
ção de uma sociedade.
c) a questão racial mostra-se irrelevante no
caso das políticas educacionais do governo
cubano.
d) as políticas educacionais da Revolução
Cubana adotaram uma perspectiva racial
antidiscriminatória.
e) os quadros governamentais em Cuba esti-
veram fechados aos processos de inclusão
social da população negra.
3. (Ufscar-SP) Aconteceu num debate, num país
europeu. Da assistência, alguém me lançou a
seguinte pergunta:
– Para si o que é ser africano?
Falava-se, inevitavelmente, de identidade versus
globalização.
Respondi com uma pergunta:
– E para si o que é ser europeu?
O homem gaguejou. Ele não sabia responder. Mas
o interessante é que, para ele, a questão da defini-
ção de uma identidade se colocava naturalmente
para os africanos. Nunca para os europeus. Ele
nunca tinha colocado a questão ao espelho.
(COUTO, Mia. In: HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala
de aula. Visita à História contemporânea, 2005.)
Segundo o texto, o autor
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LINHA DO TEMPO ÍNDICE
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a) valoriza a ideia de que existe uma identidade
natural entre os povos europeus, favorecendo
a globalização.
b) denuncia a ideia genérica, presente entre os
europeus, de que há uma suposta identidade
natural entre os africanos.
c) lembra o fato de que a Europa tem uma his-
tória de tendência à globalização, em função
da ausência de conflitos entre seus Estados-
-nação.
d) defende a existência de uma essência natural
do que é ser europeu e do que é ser africano.
e) indica os valores culturais e nacionais euro-
peus e africanos como fundadores do pro-
cesso de globalização.
4. (Unicamp-SP)
Um dos maiores problemas nos estudos históri-
cos no Brasil acerca da escravidão é seu relativo
RELEITURA
Pratos da boa lembrança
Lucas Figueiredo
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os 1,8 milhão de africanos que foram forçados a deixar o continente e servir como escravos
no Brasil na época da corrida do ouro, 99,5% não voltaram para casa. Apenas 8 mil, aproxi-
madamente, conseguiram regressar. Apesar de formarem um grupo pequeno, os chamados
“retornados” foram capazes de um feito extraordinário: levaram a cultura brasileira para a África e
ensinaram seus filhos, netos e bisnetos a amarem a terra onde haviam se tornado escravos.
O regresso de ex-escravos – na verdade, muitos haviam saído da África quando ainda eram bebês
ou tinham nascido no Brasil, no cativeiro – se deu principalmente no final do século XVIII e durante
o século XIX. Após comprarem ou ganharem a alforria, eles adotaram os sobrenomes portugueses de
seus antigos donos e fizeram o caminho de volta para a África. Assim, países de língua francesa e de
população majoritariamente muçulmana, como o Benin, receberam levas de ex-escravos de sobre-
nomes estranhos, como Silva, Souza, Santos, Rocha, Amaral, Monteiro e Campos, entre outros.
Muitos que deixaram o Brasil levaram também um punhado de ouro contrabandeado dos garimpos
de Minas, riqueza com a qual começaram suas novas vidas. [...]
Com a volta dos ex-escravos, a culinária do Benin absorveu diversos pratos brasileiros. Dos
mineiros, eles herdaram a farofa; dos baianos, a moqueca, o acarajé e o abará, que chamam de ablá.
“Também gostamos muito de moyo (molho), cousido (cozido), feijoada e carne de sol”, afirma
Abraham, que mora na capital do Benin, Cotonou, e trabalha a cerca de 100 quilômetros dali, na
Embaixada Brasileira, em Lagos, na vizinha Nigéria. Possivelmente, o costume de comer carne de
sol também tenha sido introduzido no país pelos escravos que trabalhavam nos garimpos de ouro e
diamante de Minas, onde o produto era fartamente consumido.
Os ingredientes para preparar os pratos brasileiros são encontrados nos impressionantes merca-
dos a céu aberto de Cotonou e Porto Novo, onde, entre outros produtos, se vendem testículos de
macaco, que teriam poderes afrodisíacos, e fetiches vodu. O modo de preparo dos pratos brasileiros
desconhecimento da história e da cultura africa-
nas. Aí, a história do Congo tem muitas lições
a dar, quer para os interessados no estudo da
África, quer para os estudiosos da escravidão e da
cultura negra na diáspora colonial. Afinal, a região
do Congo-Angola foi daquelas que mais fornece-
ram africanos para o Brasil, especialmente para
o Sudeste, posição assumida no século XVII e
consolidada na virada do século XVIII para o XIX.
(Adaptado de: VAINFAS, Ronaldo; MELLO E SOUSA, Marina de.
Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do
Congo da conversão coroada ao movimento Antoniano,
séculos XV-XVIII. Tempo, n. 6, 1998. p. 95-6.)
a) O que foi a “diáspora colonial” citada no
texto anterior?
b) Identifique duas influências africanas no
Brasil atual.
c) Nomeie e explique, no Brasil atual, uma decor-
rência da prática da escravidão negra.
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diverge muito das técnicas usadas no Brasil. Os ingredientes também têm suas diferenças. Mas, ape-
sar das variações de sabor, o que importa é a herança cultural presente na cozinha do Benin.
A influência brasileira também está na língua dos beninenses. Palavras como chave, cama, manga,
garfo e colher são usadas pela população – em especial, por aqueles que falam a língua fon.
A Embaixada Brasileira, em Lagos, chegou a ter um curso de português durante anos, mas as aulas
foram interrompidas por problemas operacionais. Abraham, que não é “agudá”, foi o aluno mais
bem-sucedido. Fala e escreve português com desenvoltura. Ele chegou, inclusive, a se tornar pro-
fessor. Um de seus alunos era Bons Amaral, que, apesar da condição de “agudá”, aprendeu pouco.
“Torcemos para que as aulas voltem, pois muita gente aqui no Benin gostaria de aprender a língua
que era falada por seus antepassados”, afirma Abraham.
FIGUEIREDO, Lucas. Raízes do Brasil. O Estado de Minas,
5 jun. 2005. Caderno especial Ouro de Minas: 300 anos de História. p. 15-21.
VOCABULÁRIO
Agudá: nome dos descendentes dos ex-escravos que vieram do Brasil e vivem no Benin, os quais, em geral,
adotam sobrenomes portugueses.
Cardápio Brasil
Nívia Pombo
[…]
N
os engenhos, as refeições cotidianas eram simples. Em dias festivos, no entanto, a mesa
podia ser farta: assados, doces, ensopados, verduras, frutas, molhos e pastéis faziam
parte dos banquetes senhoriais.
Em Pernambuco, a despeito da colonização holandesa, a permanência de receitas portuguesas é
evidente. Algumas com pitadas de ingredientes coloniais como o bolo de rolo, feito com uma massa
fina à base de farinha de trigo e recheado com goiabada. No Maranhão, o prato mais significativo
mistura elementos da culinária portuguesa, africana e indígena: o cuxá. A base da comida é a vina-
greira, verdura africana. Junta-se a ela o caruru ou língua-de-vaca, erva de cor e sabor fortes utilizada
pelos indígenas. Dos portugueses vêm o gergelim e o preparo: as folhas são maceradas e transforma-
das numa papa servida com arroz branco ou peixe frito.
É na Bahia, porém, que a adaptação dos hábitos culinários africanos foi mais forte. As cozinhas
das iaiás, entregues às negras, ganharam novos sabores. O viajante inglês Thomas Lindlev (1740-
1833) escreveu no século XIX sobre as deliciosas conservas de frutas feitas pelas escravas. Debret
(1768-1848) registrou o costume de comer pela manhã pães de ló quentinhos entregues por negras.
Mas o que conquistou mesmo o paladar nacional e internacional foram as comidas oferecidas
aos orixás do Candomblé. O acarajé, citado pela primeira vez no século XVIII, era vendido nas ruas
em tabuleiros que as escravas equilibravam sobre a cabeça enquanto cantavam para atrair fregueses.
Massa de feijão-fradinho frita no azeite de dendê, o acarajé é servido à orixá Oyá-Iansã, deusa dos
ventos e tempestades. Em 2004, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional como patrimônio imaterial.
Alguns pratos indígenas também passaram pela transformação das cozinheiras africanas. É o caso
do caruru, o típico dos típicos na Bahia. Segundo o folclorista Câmara Cascudo (1898-1986), o prato
de origem tupi (cad-ruru, folha grossa) consistia num esparregado [guisado] de quiabos, crustáceos,
peixes e ervas, tendo sofrido alterações nas cozinhas dos engenhos, ganhando ingredientes como o
dendê e o amendoim. Atualmente, em Salvador, a comida é servida na Festa dos Meninos, que cele-
bra o dia dos orixás gêmeos nagôs sincretizados nos santos católicos Cosme e Damião.
POMBO, Nívia. Cardápio Brasil. Nossa História.
São Paulo: Vera Cruz, ano 3, n. 29, mar. 2006. p. 33-4.
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ROTEIRO DE TRABALHO
FIGUEIREDO, Luciano (Org.). Raízes africanas. Rio de Janeiro: Sabin, 2009. (Revista de História no bolso).
Coletânea de pequenos artigos publicados na Revista História, editada pela Biblioteca Nacional, que aborda temas
como a identidade cultural afro-brasileira, a religiosidade e o comércio de escravos.
LOPES, Nei. Dicionário escolar afro-brasileiro. São Paulo: Selo Negro, 2006.
Reúne verbetes sobre temas relacionados ao universo afro-brasileiro.
ARAUJO, Kelly Cristina. Áfricas no Brasil. São Paulo: Scipione, 2004.
Resgata a história do relacionamento Brasil e África a partir da expansão marítima europeia e explora os diversos
aspectos culturais que aproximam o Brasil da África, dentre eles: o candomblé, a congada e a capoeira.
DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais. Rio de Janeiro: Campus, 2004.
Retoma a história da África Atlântica desde o período anterior à presença europeia no continente. Analisa o tráfico
negreiro e suas consequências para os reinos africanos, além de examinar casos específicos, como os da Sene-
gâmbia, do Congo, de Angola e da Costa do Marfim. Traz muitas imagens que retratam como os europeus viam os
povos africanos.
Conspiração violenta. Direção de Ralph Nelson. Estados Unidos, 1975. (101 min).
História de um líder ativista negro durante o regime do apartheid na África do Sul.
Hotel Ruanda. Direção de Terry George. Estados Unidos/Itália/África do Sul, 2004. (121 min).
Aborda o conflito político ocorrido em Ruanda em 1994 que levou quase um milhão de pessoas à morte.
Sophiatown: sobrevivendo ao apartheid. Direção de Pascale Lambe. África do Sul, 2003. (82 min).
Documentário sobre a cidade sul-africana de Sophiatown, foco de resistência ao apartheid nos anos 1940 e 1950.
A cor da cultura. Disponível em: <http://www.acordacultura.org.br/>. Acesso em: 19 abr. 2013.
Artigos, notícias e entrevistas relacionados à valorização da cultura afro-brasileira.
Memória de África. Disponível em: <http://memoria-africa.ua.pt>. Acesso em: 19 abr. 2013.
Coletâneas de textos, documentos e imagens com a história das colônias portuguesas na África.
Museu Afrobrasil. Disponível em: <http://www.museuafrobrasil.org.br/>. Acesso em 19 abr. 2013.
Portal do museu que tem como finalidade a valorização da produção cultural afro-brasileira.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
1. Retire argumentos do primeiro texto para explicar de que maneira a cultura do Brasil colonial foi
levada para a África.
2. Explique em que medida a culinária retrata uma síntese cultural no Brasil.
3. Por que o acarajé baiano pode ser tombado como patrimônio da cultura imaterial do Brasil?
4. Faça uma pesquisa em jornais, livros, revistas e sites sobre outras possíveis influências bra-
sileiras na África. Dirija sua pesquisa para os países que estiveram diretamente relacionados
com o Brasil no período de vigência do tráfico de escravos. Caso seja necessário, retome o item
Contexto para verificar que países podem ser pesquisados. Por fim, responda: De que maneira a
história brasileira interferiu na história de países africanos?
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Nacionalismo, guerras mundiais
e autoritarismo
CAPÍTULO 4
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odemos fazer referência à cidadania desde pelo menos a Grécia antiga, quan-
do os homens livres nascidos na cidade podiam debater e decidir sobre as
questões públicas. Na Idade Média e parte da Idade Moderna, a cidadania foi
negligenciada. No entanto, após as revoluções burguesas, principalmente a inglesa
e a francesa, a cidadania voltou a fazer parte dos discursos e da prática dos
que defendiam a construção de um novo modelo de sociedade. Daí em
diante, muitas lutas ocorreram em nome da cidadania. Reivindicavam-se
maior participação política, voto direto e respeito a uma Constituição.
Tratava-se de uma cidadania que garantia a igualdade dos seres huma-
nos diante da lei.
Durante todo o século XIX, ocorreram movimentos sociais
que lutavam pela ampliação dos direitos dos trabalhadores, das
mulheres, das crianças, buscando conquistar maior igualdade
social. Podemos dizer ainda que a defesa da cidadania esteve
presente em grande parte dos discursos políticos de diferentes
continentes no século XX. No entanto, esse foi também um
século no qual ocorreram duas guerras mundiais, muitas dita-
duras e em que vários países foram submetidos às ordens impe-
rialistas de outros. No caso brasileiro, os períodos de predomínio
de governos oligárquicos ou ditatoriais excederam aos períodos nos
quais se constituíram governos democráticos.
Nesse contexto, em que medida foi possível ampliar a cidadania
no século XX? Para responder a essa pergunta, neste capítulo vamos
estudar o período em que ocorreram as duas guerras mundiais. Mas pri-
meiro vamos buscar uma definição para o que denominamos cidadania.
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Lembrando – quando acordei no meio da noite vi a casa em ruínas, de George Grosz, 1937. Óleo sobre tela, 73 cm 93 cm. Realizada
no período entreguerras, esta pintura de Grosz é uma referência às marcas profundas que a Primeira Guerra Mundial deixou na
sociedade europeia. Nunca se tinha visto tamanha destruição e mortalidade em um conflito. Havia a certeza de que o mundo não
poderia ser mais o mesmo após essa experiência. George Grosz nasceu em 1893 na Alemanha e foi um dos representantes do
movimento artístico denominado expressionismo, que procurava ressaltar os sentimentos do ser humano. Após aderir ao Partido
Comunista e fazer obras de caráter crítico-satírico, foi perseguido na Alemanha, indo viver nos Estados Unidos a partir de 1932.
Voltou ao seu país somente em 1958.
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PONTO DE VISTA
O que é cidadania?
Maria de Lourdes Manzini-Covre
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que é ser cidadão? Para muita gente, ser cidadão confunde-se com o direito de votar. Mas
quem já teve alguma experiência política – no bairro, igreja, escola, sindicato etc. – sabe que
o ato de votar não garante nenhuma cidadania, se não vier acompanhado de determinadas
condições de nível econômico, político, social e cultural.
Podemos afirmar que ser cidadão significa ter direitos e deveres, ser súdito e ser soberano. Tal
situação está descrita na Carta de Direitos da Organização das Nações Unidas (ONU), de 1948,
que tem suas primeiras matrizes marcantes nas cartas de Direito dos Estados Unidos (1776) e da
Revolução Francesa (1789). Sua proposta mais funda de cidadania é a de que todos os homens
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1. Defina cidadania tendo como base as obser-
vações da autora do texto.
2. Considerando a sua definição sobre cidada-
nia, você a pratica em sua vida cotidiana?
3. Formem grupos com a orientação do pro-
fessor e criem uma situação-problema que
possa ser resolvida por meio do exercício
da cidadania.
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são iguais ainda que perante a lei, sem discriminação de raça, credo ou cor. E ainda: a todos
cabem o domínio sobre seu corpo e sua vida, o acesso a um salário condizente para promover a
própria vida, o direito à educação, à saúde, à habitação, ao lazer. E mais: é direito de todos poder
expressar-se livremente, militar em partidos políticos e sindicatos, fomentar movimentos sociais,
lutar por seus valores. Enfim, o direito de ter uma vida digna de ser homem.
Isso tudo diz mais respeito aos direitos do cidadão. Ele também deve ter deveres: ser o próprio
fomentador da existência dos direitos a todos, ter responsabilidade em conjunto pela coletivida-
de, cumprir as normas e propostas elaboradas e decididas coletivamente, fazer parte do governo,
direta ou indiretamente, ao votar, ao pressionar através dos movimentos sociais, ao participar de
assembleias – no bairro, sindicato, partido ou escola. E mais: pressionar os governos municipal, esta-
dual, federal e mundial (em nível de grandes organismos internacionais como o Fundo Monetário
Internacional – FMI).
Na realidade, essas propostas são difíceis de serem efetivadas, pois quem detém o poder cuida
de encaminhar as coisas na direção que atenda basicamente aos seus interesses, e não ao interesse
de todos, apesar da aparência contrária. Contudo, existe a Carta Universal e ela transparece, em
maior ou menor grau, nas Constituições de cada país. A Constituição é uma arma na mão de todos
os cidadãos, que devem saber usá-la para encaminhar e conquistar propostas mais igualitárias. Por
esse motivo, o que apresentei como direitos e deveres (conteúdo do exercício de cidadania) é algo
possível mas dependente do enfrentamento político adotado por quem tem pouco poder. Só existe
cidadania se houver a prática da reivindicação, da apropriação de espaços, da pugna [luta] para fazer
valer os direitos do cidadão. Neste sentido, a prática da cidadania pode ser a estratégia, por excelên-
cia, para a construção de uma sociedade melhor. Mas o primeiro pressuposto dessa prática é que
esteja assegurado o direito de reivindicar os direitos, e que o conhecimento deste se estenda cada vez
mais a toda a população.
As pessoas tendem a pensar a cidadania apenas em termos dos direitos a receber, negligenciando
o fato de que elas próprias podem ser o agente da existência desses direitos. Acabam por relevar
os deveres que lhes cabem, omitindo-se no sentido de serem também, de alguma forma, parte do
governo, ou seja, é preciso trabalhar para conquistar esses direitos. Em vez de meros receptores, são
acima de tudo sujeitos daquilo que podem conquistar. Se existe um problema em seu bairro ou em
sua rua, por exemplo, não se deve esperar que a solução venha espontaneamente. É preciso que os
moradores se organizem e busquem uma solução capaz de atingir vários níveis, entre eles o de pres-
sionar os órgãos governamentais competentes.
Desse modo, penso que a cidadania é o próprio direito à vida no sentido pleno. Trata-se de um
direito que precisa ser construído coletivamente, não só em termos do atendimento às necessidades
básicas, mas de acesso a todos os níveis de existência, incluindo o mais abrangente, o papel do(s)
homem(ns) no Universo.
MANZINI-COVRE, Maria de Lourdes. O que é cidadania? São Paulo: Brasiliense, 1991. p. 8-11.
Detalhe da imagem da p. 101.
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LINHA DO TEMPO
1882 ¬ Formação da Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália).
1907 ¬ Formação da Tríplice Entente (França, Inglaterra e Rússia).
1914 ¬ Assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando, em
Sarajevo. A Áustria, apoiada pela Alemanha, declara guerra à Sérvia. Início da
Primeira Guerra Mundial. A França derrota a Alemanha na batalha de Marne. O
Japão adere à Entente. A Turquia alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria.
1915 ¬ A Itália adere à Entente. A Bulgária alia-se à Alemanha e à Áustria-Hungria.
1916 ¬ A Romênia adere à Entente.
1917 ¬ Revolução socialista na Rússia; o país retira-se da guerra. Entrada dos Estados
Unidos na Primeira Guerra Mundial. A Grécia adere à Entente.
1918 ¬ “14 Pontos de Wilson”: plano de paz formulado pelo presidente norte-americano
Woodrom Wilson. Rendição da Alemanha. Início da República de Weimar.
1919 ¬ Assinatura do Tratado de Versalhes; Benito Mussolini funda o movimento Fascio
di Combattimento. Fundação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores
Alemães, conhecido como Nazi.
1921 ¬ Fundação do Partido Nacional Fascista Italiano.
1922 ¬ Mussolini convoca a Marcha sobre Roma e assume o governo da Itália.
1929 ¬ Quebra da Bolsa de Nova York.
1932 ¬ Franklin Roosevelt é eleito presidente nos Estados Unidos e implanta o New Deal.
Prisão do assassino de Francisco Ferdi-
nando em Sarajevo, em 28 de junho de
1914, logo depois do ataque.
Grupo de soldados norte-americanos em na-
vio rumo à França para participar da Primeira
Guerra Mundial, em 1917.
Mussolini, rodeado de adeptos do fascismo, con-
duz a Marcha sobre Roma. Foto de 1922.
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1933 ¬ Oliveira Salazar institui um governo autoritário em Portugal. Adolf Hitler
torna-se chanceler na Alemanha. Fim da República de Weimar.
1934 ¬ Morte do presidente alemão Hindenburg. Hitler passa a exercer também esta
função e se torna Führer (em alemão, condutor, líder).
1936 ¬ Republicanos ganham as eleições na Espanha. Ofensiva fascista dá início à
Guerra Civil Espanhola. Hitler assina acordo com a Itália de Mussolini.
1938 ¬ A Áustria é anexada à Alemanha.
1939 ¬ Francisco Franco e a Falange derrotam os republicanos. Início do governo
fascista na Espanha. Assinatura do tratado de não agressão entre Alemanha
e União Soviética. A Alemanha invade a Polônia, e a Inglaterra e a França
respondem com declaração de guerra. Marco da Segunda Guerra Mundial.
1940 ¬ Tropas alemãs ocupam a França. Formação do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
1941 ¬ Alemanha rompe o tratado de não agressão e invade a URSS. Ataque japonês
à base naval norte-americana de Pearl Harbour. Os Estados Unidos entram na
guerra e assinam a Carta do Atlântico. O presidente norte-americano, Franklin
D. Roosevelt, e Winston Churchill, primeiro--ministro do Reino Unido, realizaram
um encontro secreto a bordo de um navio no Oceano Atlântico e redigiram um
plano de paz que ficou conhecido como Carta do Atlântico. Invasão da Grécia e
da Iugoslávia pelos nazistas. Ataque alemão sobre Londres.
1942 ¬ Abertura do campo de concentração de extermínio de Treblinka, em Varsóvia.
Primeiro ataque aéreo norte-americano na Europa.
1943 ¬ Mussolini é destituído. Capitulação da Itália. Rendição dos alemães em
Stalingrado. Rendição italiana e alemã no norte da África.
1944 ¬ Retomada da França pelos exércitos aliados.
1945 ¬ A Alemanha é invadida pelas tropas aliadas e Berlim é ocupada. Os Estados
Unidos lançam bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroxima e
Nagasáqui. O Japão assina capitulação. Final da Segunda Guerra Mundial;
conferência de Ialta define acordos de fronteiras entre Roosevelt (Estados
Unidos), Stalin (URSS) e Churchill (Inglaterra); criação da Organização das
Nações Unidas (ONU); conferência de Potsdam divide a Alemanha em quatro
zonas de ocupação: francesa, norte-americana, inglesa e soviética.
Pós-1945 ¬ Início da Guerra Fria. Oposição e conflito entre os blocos socialista e capitalista.
1947 ¬ Início da Doutrina Truman.
1948 ¬ Congresso dos Estados Unidos aprova o Plano Marshall.
1949 ¬ Divisão das duas Alemanhas: Ocidental capitalista e Oriental socialista. Criação
da aliança militar entre a Europa capitalista e a América do Norte, Organização do
Tratado do Atlântico Norte (Otan). A União Soviética cria o Comecon.
1955 ¬ Formalização do Pacto de Varsóvia unindo militarmente a Albânia, a Tchecoslo-
váquia, a Bulgária, a Polônia, a Hungria, a Romênia e a Alemanha Oriental.
A bomba atômica foi
lançada em Naga-
sáqui, no Japão, em
9 de agosto de 1945,
três dias depois da
bomba lançada em Hi-
roxima. As duas bom-
bas juntas provoca-
ram a morte de mais
de 350 mil pessoas.
Base naval norte-americana de Pearl Harbour, ata-
cada por aviões japoneses em dezembro de 1941.
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CONTEXTO
Imperialismo e nacionalismo no
final do século XIX
Com a derrota de Napoleão Bonaparte na
Europa e a realização do Congresso de Viena
em 1815, procurou-se restabelecer o equilíbrio
político entre as nações. Ao longo do século XIX,
ocorreram outros conflitos que resultaram nas
unificações italiana e alemã e na reorganização
das fronteiras de alguns países. A unificação
alemã, em especial, criou condições para que a
Alemanha surgisse nos anos seguintes como uma
das maiores potências econômicas da Europa.
Desenvolveu rapidamente sua indústria, podendo
dessa forma competir com a Grã-Bretanha, que,
até então, era a grande potência imperial mundial.
Com a unificação criou-se o Segundo Reich
(Império) alemão, que tinha pretensões expan-
sionistas, animadas internamente por um fervor
nacionalista e pela defesa do pangermanismo,
ou seja, defesa da unificação dos povos de cultura
germânica. Na América, os Estados Unidos des-
pontavam como uma força econômica industrial.
Nas últimas décadas do século XIX, havia
vários países industrializados. Ocorreu uma
depressão generalizada dos preços no mercado
internacional, uma vez que havia uma superpro-
dução, e a livre concorrência de preços fazia-os
baixarem na disputa por mercados. Em conse-
quência, os lucros caíram e muitas empresas
faliram ou foram absorvidas por grandes cor-
porações. Dessa forma, os Estados tenderam a
adotar medidas protecionistas para sua indús-
tria, retraindo a livre concorrência. Formaram-se
grandes empresas com características de cartel
que dominaram o mercado em muitos casos de
maneira monopolista, surgindo o que se denomi-
na capitalismo monopolista.
Uma das maneiras de ampliar os lucros seria
retomar a expansão colonial, ampliando as exporta-
ções e constituindo novos mercados consumidores.
Construíram-se, então, novos impérios, e a disputa
entre as nações imperialistas europeias se acirrou.
Foi nesse período que se tornou conhecido o
termo “imperialismo”, que passou a designar a nova
divisão do mundo pelas potências capitalistas.
A Alemanha, que se unificou tardiamente
em relação a outras nações europeias, não
conseguiu conquistar tantas colônias quanto os
britânicos. Suas poucas conquistas na África eram
desproporcionais ao grande desenvolvimento
militar e industrial alcançado após os anos 1870.
Em 1885, foi realizada a Conferência de
Berlim, com a participação de 14 países industria-
lizados, incluindo os Estados Unidos. Nesse encon-
tro se discutiram as bases e os princípios da cha-
mada partilha da África. Pode-se considerar que
a disputa imperialista está entre as causas diretas
da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Toda a Ásia
e a África já haviam sido repartidas entre os países
industrializados na década de 1910.
Politicamente, várias disputas territoriais ali-
mentavam a discórdia entre as nações europeias
desde o século XIX. Na segunda metade desse
século, ocorreu a independência dos Estados
eslavos (na região dos Bálcãs), que até então
faziam parte do Império Turco-Otomano: Sérvia,
Montenegro, Bulgária e Romênia. Aliada da Sérvia
e protetora dos eslavos, a Rússia procurou domi-
nar a região. A Sérvia, por sua vez, tinha como
objetivo conquistar regiões do Império Austro-
Húngaro (onde vivia mais de uma dezena de
nacionalidades), ao qual os alemães também
pretendiam fazer frente, ampliando seus domínios
na Europa. A França, por sua vez, derrotada pela
Alemanha em 1870 na Guerra Franco-Prussiana,
aliou-se aos britânicos no combate a novas ofen-
sivas germânicas. Naquele confronto, a França
havia perdido a região da Alsácia-Lorena, rica em
carvão utilizado pelas indústrias.
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Representação francesa da divisão da África pelos países
europeus durante a Conferência de Berlim, 1885.
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Nesse contexto de avanço imperialista e dis-
puta pela hegemonia na Europa, os russos fir-
maram um acordo com a França, da mesma
forma que estes últimos se aliaram aos britâ-
nicos. França e Inglaterra formaram a Entente
Cordiale em 1904, consolidando a divisão da
maior parte da Ásia e da África entre esses dois
países. Em 1907, definiu-se o que ficou conhe-
cido como a Tríplice Entente, a aliança entre
Inglaterra, França e Rússia. Nos termos do acor-
do entre França e Grã-Bretanha, pesou mais uma
vez a partilha colonial da África. Em 1904, os dois
países já haviam assinado um acordo secreto que
deixava o Egito para os britânicos e o Marrocos
para a França, excluindo a Alemanha da possi-
bilidade de explorar o Marrocos. Começariam,
assim, a se formar as forças que entrariam em
conflito na Primeira Guerra Mundial.
Do outro lado, já havia se formado também a
Tríplice Aliança, que reunia o Império Austro-
Húngaro, a Alemanha e a Itália. Este último
país, no entanto, embora tivesse conflitos com
a França pela dominação de regiões na África,
mantinha também conflitos de caráter expan-
sionista com a Áustria-Hungria, pois disputava
a região do Tirol e da Ístria desde o processo
de unificação, ocorrido algumas décadas antes.
Nesse contexto, a Itália assinou um acordo de
não agressão com a França e a Rússia, tornando
frágil sua posição na Tríplice Aliança.
Trinta e um anos de guerra
Pode-se considerar que as duas guerras mun-
diais ocorridas no século XX se referem a um
mesmo processo, que se inicia em 1914 e se
encerra somente em 1945. O historiador inglês
Eric Hobsbawm faz referência a uma “guerra de
31 anos”. Os efeitos e as decisões da Primeira
Guerra Mundial criaram condições favoráveis
para que a Segunda Guerra Mundial ocorresse.
Até 1914 não haviam ocorrido guerras mundiais
nessa proporção e dessa duração. Essas duas
guerras envolveram todas as potências mundiais
da época, deslocando soldados de várias partes do
mundo para combater na Europa. Alguns números
são impressionantes. Na Primeira Guerra, por
exemplo, morreram quase 2 milhões de alemães,
mais de 1,5 milhão de franceses e 500 mil ingle-
ses. No total, foram mais de 8 milhões de mortos.
Na Segunda Guerra, o número de mortos mais que
quadruplicou. Além dos soldados, milhões de civis
morreram. Cidades inteiras foram destruídas.
Em alguns países, cerca de 20% da população
masculina participou da guerra.
Os avanços tecnológicos possibilitaram uma
escalada muito mais agressiva da morte. A
utilização de aviões carregados de mísseis na
Segunda Guerra permitiu o bombardeio de popu-
lações inteiras de civis. Armas muito mais poten-
tes, tanques sofisticados, armamentos químicos
(na Primeira Guerra) e a bomba atômica fizeram
com que a guerra do século XX ganhasse pro-
porções inimagináveis um século antes. Dizemos
que foram guerras mundiais por terem envolvido
todos os continentes em momentos diferen-
tes, seja enviando soldados, seja tomando posi-
ção e alinhando-se a um dos lados do conflito.
O Brasil, por exemplo, participou dos dois con-
flitos, posicionando-se e enviando tropas, ainda
que não tenha tido expressão militar significativa
no desfecho do confronto. Na Segunda Guerra,
o Japão bombardeou uma base militar nos
Estados Unidos, além de ter apresentado pre-
tensões imperialistas no Oriente. Embora as
potências europeias estivessem na origem dos
conflitos, muitos países se envolveram.
Certamente, não é possível compreender o que
ocorreu no século XX sem estudar as guerras e as
tensões desse período. Muito do que aconteceu
depois de 1945 e mesmo nos dias atuais ainda
se relaciona com essas guerras. Somente as
estudando poderemos compreender, por exemplo,
de que maneira os Estados Unidos se tornaram
uma grande potência mundial e por que vários
conflitos militares ocorrem no Oriente Médio e na
Europa ainda hoje.
Tanque de guerra britânico nas ruas de Berlim (Alemanha),
em 1918.
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A Primeira Guerra Mundial
As tensões na Europa tornaram-se mais agu-
das no início dos anos 1910, especialmente na
Península Balcânica, domínio dos turco-otoma-
nos. Em 1912, a Sérvia, a Grécia e a Bulgária
haviam formado a Liga Balcânica e desferido
um ataque contra o Império Turco-Otomano com
apoio russo (veja boxe abaixo).
O Império Turco-Otomano
E
sse império tem suas origens em 1453, quando
Mehmed liderou a conquista de Constantinopla
e derrubou o Império Bizantino. Os otomanos
conquistaram grande parte da Europa oriental e do
mundo árabe. A partir do século XVIII, algumas
regiões europeias sob seu domínio foram se tornando
independentes. A Grécia separou-se do império em
1833 e a Bulgária em 1878. Também nessa data, no
Congresso de Berlim, foi confirmada a independência
da Sérvia, da Romênia, de Chipre e do Montenegro,
após derrota militar dos otomanos em guerra com a
Rússia. Em 1882, o Egito passou para o controle britâ-
nico. No final do século XIX, com a expansão imperia-
lista de países como a Áustria--Hungria, a Alemanha e
a Rússia, acirraram-se os conflitos em torno de regiões
dominadas pelos turco-otomanos que interessavam
aos europeus. Em 1908, um levante de jovens oficiais
do exército forçou o sultão Abdul Hamid a realizar
reformas liberais que davam mais liberdade e garan-
tias constitucionais aos turcos e às minorias étnicas
que viviam sob o império. Foi recolocada em vigor a
Constituição de 1876 e reaberto o Parlamento. No ano
seguinte, o sultão foi destituído, assumindo em seu
lugar Mehmed V. Durante a Primeira Guerra Mundial,
a França – aliada da Alemanha e lutando contra a
Rússia, sua inimiga histórica – e o Reino Unido ocupa-
ram parte do Império Turco-Otomano remanescente.
Em 1923, foi deposto o sultão Mehmed VI, abolido o
califado e proclamada a República da Turquia.
Após gregos e sérvios conspirarem contra a
Bulgária, deixando-a sem nenhuma conquista, o
rei búlgaro Ferdinando iniciou um conflito contra
a Sérvia e seus aliados em 1913. Com a vitória
sérvia, os búlgaros aproximaram-se dos alemães.
Os sérvios, por sua vez, lutavam pela unifica-
ção política dos eslavos. Para tanto, avançaram
sobre o território da Bósnia-Herzegovina (nos
Bálcãs), sob domínio dos austríacos. Em junho
de 1914, em uma visita a Sarajevo, na Bósnia-
Herzegovina, o herdeiro do trono austro-húngaro,
o arquiduque Francisco Ferdinando, foi assas-
sinado em uma ação planejada por um grupo
terrorista bósnio, o Mão Negra. Seus guerri-
lheiros eram defensores da libertação da região
e da unidade eslava. Esse episódio marcaria o
início das hostilidades que levariam à Primeira
Guerra Mundial. Em 28 de julho de 1914, o impe-
rador austríaco Francisco José declarou guerra
à Sérvia. A Alemanha enviou tropas em ajuda
ao seu aliado austríaco, e franceses e russos
intervieram em apoio aos sérvios. Grandes con-
tingentes militares já haviam sido mobilizados, e
o cenário da guerra estava montado.
Os sérvios venceram os austro-húngaros. A
Alemanha, aliada do Império Austro-Húngaro,
iniciou sua estratégia de guerra. Pretendia inva-
dir a França passando pela Bélgica, neutra no
conflito. O plano alemão obteve êxito. Após inva-
dir a Bélgica, os alemães chegaram à França,
onde ocorreram vários confrontos entre as for-
ças alemãs e francesas. No entanto, os russos
conseguiram brecar o avanço alemão. Lutando
em três frentes diferentes, os alemães enfra-
queceram-se e foram detidos pelos franceses na
Batalha de Marne.
Em agosto de 1914, o Japão aliou-se à Tríplice
Entente. Com isso, pretendia apropriar-se de
colônias alemãs na Ásia e avançar sobre o ter-
ritório chinês. Também a Turquia se aliou aos
alemães e aos austro-húngaros, que formariam
as Potências Centrais em 1914.
Após esse momento, os países em conflito
optaram por uma guerra de trincheiras (esca-
vações no terreno defendidas por arame farpa-
do), abandonando as ofensivas de movimento.
Entre as fronteiras da Bélgica e da Suíça foram
criados muitos quilômetros de trincheiras, nas
quais os soldados ficavam por muitos dias à
espera do inimigo. Com as forças entrincheira-
das dos dois lados, milhares de soldados mor-
reram, e nenhuma das duas partes conseguia
avanços territoriais significativos.
Com o apoio das tropas alemãs, os austro-
-húngaros atacaram novamente a Sérvia e der-
rotaram o exército russo, que perdeu mais de
300 mil soldados nesse conflito. A partir de 1915,
os alemães passaram a utilizar gases venenosos
para auxiliar nos combates. Os britânicos ten-
taram ocupar Istambul (capital da Turquia) em
1915, mas não obtiveram sucesso. Ainda nesse
ano, a Itália (desrespeitando o acordo firmado
com a Alemanha) e a Grécia aderiam à Entente
(formada por França, Inglaterra e Rússia). Em
agosto de 1916, a Romênia também aderiu à
Entente, já a Bulgária aliou-se às Potências
Centrais em outubro de 1915.
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POTÊNCIAS DA ENTENTE E POTÊNCIAS CENTRAIS DURANTE
A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
Soldados franceses (ao lado) e ingleses (abaixo) nas trincheiras,
aguardando o inimigo. França, 1916.
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Com base em Ministério da Justiça do Reino Unido – The National Archives. Disponível em:
<http://www.nationalarchives.gov.uk/pathways/firstworldwar/maps/europe1914.htm>. Acesso em 23 maio 2013.
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Observe o mapa abaixo.
A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL EM 1916
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Militarmente, a Entente conquistou a superio-
ridade na guerra ao utilizar tanques capazes de
atravessar as trincheiras e destruir suas cercas de
arame farpado. Os alemães, por sua vez, empre-
garam submarinos para enfrentar as embarca-
ções inimigas, alargando assim as fronteiras da
guerra. Em contrapartida, a Entente usou aviões
para bombardear as Potências Centrais.
Em 1916, os alemães procuraram avan-
çar novamente sobre Paris. Para cumprir esse
objetivo, realizaram um ataque no nordeste da
França. Pretendiam derrubar as fortalezas mili-
tares de Verdun. Mobilizaram mais de um milhão
de homens para os combates. Os franceses, por
sua vez, decidiram atacar os alemães entrinchei-
rados no Rio Somme. Pela primeira vez foram
utilizados tanques de guerra. Somente nessas
duas frentes (a batalha de Verdun e a do Somme)
mais de 1 milhão de soldados morreu de ambos os
lados. Apesar disso, em nenhuma dessas batalhas
houve um claro vencedor. A Alemanha, contudo,
via frustrar-se novamente seu intuito de avançar
sobre o território francês.
Em 1918, com a saída da Rússia do conflito
após a revolução socialista e a tomada do poder
pelos bolcheviques, a guerra tomou novos rumos.
Os alemães impuseram severas condições para
que isso ocorresse por meio do Tratado de
Brest-Litovsk, celebrado em março de 1918, e os
russos acabaram perdendo regiões fornecedoras
de carvão e petróleo.
Vários países, entre eles a Grã-Bretanha, os
Estados Unidos, o Japão e a França, organizaram
uma frente contra os bolcheviques a fim de deter
o avanço comunista. Com isso, a Alemanha viu
uma oportunidade para avançar mais rapidamen-
te sobre os territórios inimigos ganhando posi-
ções. Em março de 1918, os alemães conseguiram
bombardear Paris. Porém em uma nova batalha
próximo à capital francesa, às margens do Rio
Com base em BRENER, Jaime. A Primeira Guerra Mundial. 2. ed. São Paulo: Ática, 2000. p. 33.
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Esquadrilha Britânica em solo francês, 1918. Durante a guerra, os aviões tiveram papel fundamental
no auxílio à artilharia, utilizando pistolas e carabinas. Quando foram desenvolvidos motores mais
potentes, puderam transportar metralhadoras e lançar bombas. Além dos aviões, também os sub-
marinos começaram a ser utilizados por alemães, franceses e ingleses.
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Acima, soldados russos utilizam máscaras de proteção contra gases venenosos, em 1916. Ao lado, criança com
máscara para ir à escola, em 1915. Para se proteger dos gases tóxicos empregados por alemães durante a guerra,
a população civil e os soldados usavam máscaras. Os gases, utilizados como arma de combate, podiam asfixiar ou
deformar as pessoas que os inalassem.
Corbis/Latinstock
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No primeiro plano, Georges Clemenceau (à esquerda), pri-
meiro-ministro da França, e Woodrow Wilson (no centro),
presidente dos Estados Unidos, em 28 de junho de 1919, após
a assinatura do Tratado de Versalhes. Ao final da Primeira
Guerra Mundial, a Europa estava exaurida economicamente, a
população faminta e muitas cidades destruídas. O Tratado de
Versalhes, todavia, não conseguiria estabelecer as bases da
reconstrução da Europa, e várias crises levariam a um novo
conflito armado anos depois.
Marne, os franceses conseguiram derrotar aos
alemães, que começavam a sentir fortemente
o desgaste da guerra. Além disso, os alemães
tinham de enfrentar agora mais um inimigo, os
Estados Unidos, que haviam declarado guerra
contra as Potências Centrais em abril de 1917.
Os estadunidenses montaram uma máquina
de guerra que seria decisiva para o desfecho do
conflito. Outros países da América, como o Brasil,
aderiram ao conflito. Alinhado politicamente aos
Estados Unidos, o governo brasileiro rompeu a
neutralidade em outubro de 1917, quando o presi-
dente Venceslau Brás se aliou à Entente e enviou
uma equipe médica para a zona de combate.
A Entente começou a acumular vitórias con-
tra o inimigo. Muitas tropas alemãs foram der-
rotadas ou se renderam. Além disso, a Bulgária
abandonou a guerra em setembro de 1918, após
sofrer derrota para as forças franco-britânicas.
Entre outubro e novembro de 1918, foram os
austro-húngaros e os turcos que assinaram o
armistício, iniciando sua retirada da guerra.
Em dezembro de 1918, nasceu o Reino dos
Sérvios, Croatas e Eslovenos, que incluía
ainda a Macedônia, a Bósnia-Herzegovina
e Montenegro. Em setembro de 1919, com o
Tratado de Saint-Germain, deixou de existir
o Império Austro-Húngaro, nascendo a Áustria,
que não poderia unir--se mais aos alemães. Em
1929, o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos
passou a se chamar Iugoslávia, que se cons-
tituiria no Estado Eslavo. Dessa forma, esses
povos afastavam-se da guerra, declarando sua
independência das forças imperiais alemãs.
Restava somente a Alemanha, que decidiu
fazer seu pedido de paz em carta ao presidente
dos Estados Unidos, Woodrow Wilson. Exigiu-
se que os alemães abandonassem todos os
territórios dominados, devendo ainda o kaiser
(imperador) Guilherme II abdicar do trono. Ao
mesmo tempo, eclodiu uma revolta de marinhei-
ros comunistas em portos alemães exigindo a
renúncia do kaiser. Defendiam a implementa-
ção de uma República Socialista na Alemanha,
seguindo a orientação russa. Sem saída, a
Alemanha se rendeu e o kaiser renunciou, assu-
mindo em seu lugar um governo civil com
maioria do Partido Social Democrata. A guerra
acabou, oficialmente, em 11 de novembro de
1918, sendo decretado o cessar-fogo e o armistí-
cio (suspensão do conflito).
Como parte do acordo e dos tratados que
puseram fim à guerra, os alemães aceitaram o
programa dos “14 pontos” imposto pelo presi-
dente norte-americano Woodrow Wilson. Nesse
programa, propunha-se a liberdade absoluta de
navegação nos mares; a supressão de todas
as barreiras econômicas; a redução dos arma-
mentos ao mínimo compatível com a segurança
interna; a evacuação integral dos alemães dos
territórios russo, francês, belga, romeno, sérvio e
de Montenegro; a formação de um estado polaco
com livre acesso ao mar; e a criação de uma orga-
nização geral das nações.
Ao mesmo tempo, a Alemanha mergulhou
em uma guerra civil. Na região da Baviera (sul
da Alemanha), proclamou-se uma República
Socialista, que foi derrotada pelas forças do Partido
Social Democrata. Líderes comunistas como Rosa
Luxemburgo foram presos e assassinados.
Em junho de 1919, após vários meses de nego-
ciação, foi assinado o Tratado de Versalhes,
no qual os países da Entente impuseram à
Alemanha duras condições para a manutenção
da paz. Ela deveria pagar uma significativa
indenização aos países vencedores, cerca de
30 bilhões de dólares; renunciar às colônias
ultramarinas; ceder à França a Alsácia-Lorena,
região de exploração de minas de carvão;
reconhecer a independência da Polônia; e limi-
tar seu potencial militar, ficando-lhe proibido
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manter um exército superior a 100 mil homens.
A Alemanha perdeu parte significativa de seu
território, mergulhando em profunda crise eco-
nômica e política. Aproximadamente 9 milhões
de soldados morreram nessa guerra, sendo mais
de 5 milhões deles da Entente.
O Tratado de Versalhes estabeleceu também
a criação da Liga das Nações com sede em
Genebra, na Suíça, país neutro no conflito. A Liga
deveria atuar para impedir que novas guerras
ocorressem. A primeira reunião da Assembleia
Geral da Liga das Nações ocorreu em 1920.
Contudo a Liga das Nações não conseguiria
evitar novos conflitos, desmerecendo o título de
árbitro mundial.
A República de Weimar
A derrota na Primeira Guerra Mundial levou
a Alemanha a uma crise política, social e econô-
mica sem precedentes. O Tratado de Versalhes
havia imposto severas penas ao país derrotado.
Essas condições fizeram com que a Assembleia
Constituinte da nova República alemã, organiza-
da na cidade de Weimar após a queda do Reich,
hesitasse em aprovar o tratado, o que só ocorreu
em junho de 1919.
A vida política alemã dividia-se entre: o
Partido Nacional Alemão e o Partido
Popular Alemão, considerados conservadores;
o Partido Social-Democrata Alemão (SPD),
dito de centro; e o Partido Social-Democrata
Alemão Independente (USPD), uma dissi-
dência do SPD. Enquanto os conservadores vota-
ram contra o Tratado de Versalhes, os demais
partidos votaram a favor. Em 1919, foi criado,
ainda, o Partido Comunista Alemão (KPD),
que era radicalmente contra o tratado. As dife-
renças internas tinham repercussão externa. A
revolucionária Rússia tinha esperança de que
o socialismo ganhasse força na Alemanha. Já
os antigos aliados, em especial a França e os
Estados Unidos, lutavam para que a Rússia per-
manecesse isolada.
Na Alemanha, antes mesmo do fim da Primeira
Guerra Mundial, em 1917, começaram a ocorrer
motins de soldados, principalmente de marinhei-
ros que se recusavam a voltar para a guerra.
Foram criados conselhos de operários e solda-
dos para organizar o movimento de resistên-
cia. Parte do Partido Social-Democrata Alemão
Independente (USPD) defendia a realização de
uma greve geral e apoiava o movimento insurre-
cional. Com a ampliação das forças rebeldes, o
Partido Social-Democrata Alemão (SPD) aderiu
aos revolucionários, defendendo o fim da guerra
e a formação de um novo governo. Queriam a
queda da monarquia e a criação da República
alemã. Em novembro de 1918, com o fim da guer-
ra, foi constituído um novo governo pelos líderes
dos dois partidos. Em janeiro de 1919, realizou-se
a eleição para a Assembleia Constituinte, que,
depois de ocorrida, confirmou a supremacia do
Partido Social-Democrata (SPD). Tendo obtido
ampla maioria nas eleições, esse partido chefiou
o primeiro governo da República de Weimar. A
nova Constituição, aprovada em julho de 1919, fez
da Alemanha uma República parlamentarista.
Ainda em 1919, o governo social-democrata
entrou em declínio, uma vez que a Alemanha
passava por grave crise econômica, forte ace-
leração da inflação, desvalorização do marco
(moeda alemã), desemprego galopante, insa-
tisfação dos ex-combatentes e empobrecimen-
to crescente da população. Após uma tenta-
tiva de golpe de Estado liderada pelo conser-
vador Partido Nacional Alemão, os partidos
social-democratas se uniram para formar um
novo governo. Nas eleições de 1920, os social-
-democratas saíram vitoriosos. Contudo come-
çaram a se formar associações paramilitares
denominadas Tropas de Assalto (SA), com o
apoio e o financiamento de grandes indústrias.
Angela Mendes de Almeida explica sobre a for-
mação dessas associações paramilitares:
Durante os anos de 1920 e 1921 o peso do exérci-
to cresceu, bem como a sua independência face
aos políticos, transformando-o quase num Estado
dentro do Estado. […] Como pelo tratado de paz
[Versalhes] o exército podia ter 100 000 homens,
foram aproveitados apenas parte dos oficiais, que
não tiveram problemas para reencarnar as tra-
dições militares imperiais. O exército tornava-se
assim uma poderosa força antidemocrática e an-
tirrepublicana, cortada das camadas populares.
Mas o resto dos contingentes que haviam formado
os “corpos francos” [milícias formadas por voluntá-
rios] não aceitou a desmobilização. Conformaram
então associações paramilitares clandestinas, fi-
nanciadas pelas grandes indústrias. Nestas asso-
ciações, bem como nos tradicionais partidos de
direita – o Nacional Alemão e o Popular Alemão
– começava a se delinear uma nova corrente po-
lítica: o nacionalismo. A sua base era constituída
sobretudo por essas associações paramilitares
secretas, que passaram a ter grande importância
na vida do país. Para esses nacionalistas o ob-
jeto do seu ódio eram os partidos republicanos:
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o centro católico e os socialistas de todo tipo. A
estes foi acrescentado o ódio aos judeus, vistos
como representantes do capital financeiro.
ALMEIDA, Angela Mendes de. A República de Weimar
e a ascensão do nazismo. 3. ed. São Paulo: Brasiliense,
1990. p. 34-5.
Existiam também as Tropas de Proteção
(SS), originária da Schutzstaffeln, esquadra cria-
da após a fundação do Partido Nazista. Anos
mais tarde, com a ascensão dos nazistas ao
poder, ela passou a fazer a segurança pessoal de
Adolf Hitler. Tais forças paramilitares começa-
ram a realizar uma série de atentados e assas-
sinatos contra aqueles que as criticavam. Em
junho de 1922, por exemplo, o ministro Rathenau
foi morto por ser judeu. A cidade de Munique foi
o núcleo inicial desse grupo, sendo fundado lá,
em 1920, o Partido Nacional-Socialista dos
Trabalhadores Alemães (NSDAP), defensor
do nazismo e liderado pelo então ex-cabo da
Primeira Guerra Mundial, Adolf Hitler.
Entre 1918 e 1919, havia ganhado força na
Alemanha a Liga Espartaquista, grupo de extrema
esquerda que fundou o Partido Comunista Alemão
(KPD) e chegou a organizar um golpe de Estado
para tomar o poder. Mesmo fracassada a tentativa
de transformar a república alemã em um governo
socialista, Hitler e seus partidários viram a neces-
sidade de reagir à ameaça comunista.
Em 1922, a inflação e os enormes custos com
o pagamento das indenizações de guerra haviam
levado a Alemanha a uma situação limite, o que
ocasionou a queda de dois primeiros-ministros.
Só naquele ano, o marco alemão desvalorizou
Adolf Hitler passando a tropa da SS em
revista junto com Heinrich Himmler,
em julho de 1938. Comandadas por
Heinrich Himmler desde 1929, as tropas
tinham o objetivo de formar uma força
de elite com homens de origem germâ-
nica que jurassem fidelidade a Hitler e
ao partido. Em 1933, a SS possuía cerca
de 52 mil homens, enquanto a SA dispu-
nha de cerca de 2 milhões de membros.
Ernst Röhl, chefe da SA, era inimigo de
Hitler e acabou sendo assassinado por
ordem de Himmler, em 1933. Depois dis-
so, foi ampliado o poder da SS, que, em
1936, passou a incluir a polícia alemã,
organizada em vários setores. Um deles
era a Gestapo, a polícia secreta. A SS
participou com tropas na campanha de
anexação da Áustria em 1938, na invasão
da Polônia em 1939, na tomada da França
e nas batalhas contra a Rússia.
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Fotografia de crianças brincando com dinheiro alemão desva-
lorizado, em 1923.
cerca de 200 vezes, ou seja, um marco valia 200
vezes menos ao final daquele ano. Em janeiro
de 1923, um dólar equivalia a 56 mil marcos. Em
agosto do mesmo ano, um dólar valia 2 milhões
de marcos. Para muitos empresários, a inflação
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favorecia as exportações; entretanto, para a
grande maioria da população, a miséria tinha
atingido níveis insuportáveis.
Tal crise fez explodir uma greve geral que
contribuiu para que mais um gabinete ministerial
caísse. Voltaram à cena os social-democratas, que
ocuparam ministérios na formação de um novo
governo, incluindo o das Finanças, ocupado por
Hilferding. Iniciou-se, então, um período de maior
estabilidade econômica, graças, principalmente,
aos empréstimos norte-americanos – os Estados
Unidos começaram a investir no país, fazendo a
Alemanha ficar dependente da Bolsa de Nova York.
Com isso, a economia alemã voltou a crescer e o
desemprego caiu vertiginosamente. Criou-se o
seguro-desemprego e os salários tiveram aumentos
significativos. Esse foi o período mais estável da
economia alemã na primeira metade do século XX.
Ao mesmo tempo que tudo isso acontecia, cresceu
a presença de especuladores na economia, contra
quem a população expressava intensa aversão.
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GROSZ, George. A festa de aniversário, 1923. Óleo sobre tela,
62 cm 49 cm. Grosz fez constantes críticas ao nazismo,
à sociedade capitalista e a seus valores em suas obras. Em
1923, no auge da crise inflacionária, registrou a situação das
grandes cidades, onde se espalhavam casas de prostituição,
comércio de drogas e qualquer atividade que pudesse render
algum dinheiro. Uma população exposta à miséria e temerosa
do futuro submetia-se a todo tipo de atividade em troca de
dinheiro ou prazer.
A crise de 1929
Em 1929, ocorreu a quebra (crash) da Bolsa
de Nova York. Desde a Primeira Guerra Mundial,
os Estados Unidos vinham crescendo economi-
camente, transformando-se em uma importante
força industrial mundial. Isso possibilitou que
investissem capitais na Alemanha e em outros
países, mas não evitou que ocorressem crises de
superprodução, especialmente quando os países
europeus conseguiram recuperar sua produção
industrial após o fim da Primeira Guerra. A euforia
com o desenvolvimento econômico nos Estados
Unidos fez crescer os investimentos na Bolsa de
Valores de Nova York, que se tornou alvo de espe-
culação financeira. Muitas empresas tiveram suas
ações supervalorizadas, mantendo artificialmente
seus preços em alta, uma vez que o crescimento
esperado da produção já não estava acontecendo.
O crash da Bolsa ocorreu quando, em outubro de
1929, tentou-se vender um grande lote de ações,
não se encontrando, porém, compradores. Essa
situação se repetiu nos dias que seguiram, fazen-
do despencar rapidamente o valor dos papéis. Em
29 de outubro de 1929, 16 milhões de ações foram
colocados à venda no mercado sem encontrar
compradores. No mês seguinte, muitas das princi-
pais ações já tinham seu valor reduzido à metade.
As consequências foram imediatas: milhares de
empresas faliram, houve desemprego em massa,
fechamento de bancos e rápido empobrecimento
da população.
Iniciou-se o que se denominou período da
depressão – não só norte-americano, mas em
âmbito mundial. Apenas a União Soviética não foi
diretamente afetada, uma vez que não era depen-
dente dos mercados capitalistas. Na maioria dos
países europeus, repetiu-se o que ocorreu nos
Estados Unidos. No caso brasileiro, dependente
da economia internacional para escoar a produ-
ção de café, a crise afetou fortemente o país, que
viu caírem os preços internacionais do produto
sem ter compradores para a grande produção
de café. Em vários países da Europa, as taxas de
desemprego oscilaram, no início dos anos 1930,
entre 20% e 30% da população ativa.
A solução para a crise nos Estados Unidos des-
pontou após a eleição de Frank Delano Roosevelt
para a presidência do país, em 1932. Decidiu-se
pela intervenção na economia, restringindo a lógi-
ca de total liberdade que predominava até então.
Elaborou-se um plano econômico direcionado pelo
pensamento do economista britânico John M.
Keynes. Instituiu--se o seguro-desemprego como
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Acima, observamos um especulador vendendo seu carro por
US$ 100, em 30 de outubro de 1929, após a quebra da Bolsa.
A grande crise fez com que pessoas se desvencilhassem de
seus bens para honrar compromissos em um contexto de crise.
Manhattan, Nova York, 1929. Depois que a Bolsa de Nova York
quebrou, quatrocentos policiais tiveram de fazer a proteção do
centro financeiro da cidade. Milhares de pessoas pareciam não
acreditar no que estava acontecendo.
utilizavam-se o planejamento econômico
e a intervenção constante do Estado na
economia, prática do socialismo soviético,
como forma de vencer a crise.
O New Deal (novo acordo) deu origem
ao que se denominou, nos anos 1940,
“estado de bem-estar social” (welfare
state). Em vários países europeus, adotou-
-se gradativamente esse modelo de orga-
nização da economia, no qual o Estado
se tornou um regulador e controlador
da atividade capitalista, garantindo uma
distribuição menos desigual da riqueza
e a infraestrutura básica para a criação
de condições dignas de vida para a maior
parte da população. O Estado investiu de
forma maciça nas áreas de saúde, educa-
ção e transportes.
A crise da República
de Weimar e a ascensão
do nazismo
A quebra da Bolsa de Nova York teve
consequências imediatas para a Alemanha,
que viu, da noite para o dia, estancar os
investimentos americanos no país. Em 1930,
a população desempregada chegava a 22% da popu-
lação economicamente ativa. Dois anos depois,
esse número alcançou 45%, mais de 5 milhões de
desempregados. A crise era tamanha que, conforme
o depoimento de um contemporâneo:
[…] nas estações de metrô, relata Alexandre
Arnoux a propósito de uma viagem a Berlim
em 1931, mendigos abordam os passantes.
“Meretrizes com botas ou botinas, algumas das
quais, ao que parece, são homens travestidos”,
chamam os clientes sob as luzes da rua desde
que cai a noite. Senhores corretamente vestidos
ou mães com suas crianças pedem alguns pfen-
nige [moedas] para comer. Há tantos suicídios
na cidade, conta ainda Alexandre Arnoux, que os
jornais foram proibidos de noticiá-los para não
desencorajar ainda mais a população.
Apud RICHARD, Lionel. A República de Weimar (1919-1933).
São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 113.
A crise econômica na Alemanha repercutiu
também na vida política. Nas eleições de 1928,
com a prosperidade econômica conquistada até
então, os social-democratas haviam conseguido
ampla maioria nas eleições legislativas, colocan-
do em segundo plano os partidos conservadores,
incluindo o Partido Nacional-Socialista, ideali-
zador do nazismo. No entanto, após a crise, nas
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forma de vencer a recessão e retomar o cresci-
mento. Com a mesma finalidade, reduziram-se
as taxas de juros e foi implementado um progra-
ma de obras públicas que contribuiria também
para a redução do desemprego. Dessa maneira,
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eleições de 1932, os nazistas obtiveram grande
crescimento no legislativo, tornando-se o maior
partido do Parlamento.
Utilizando um discurso francamente nacio-
nalista, o Partido Nacional-Socialista defendia a
nacionalização dos trustes, a reforma agrária e
a participação dos trabalhadores nos lucros das
empresas. Responsabilizava o Tratado de Versalhes
pela crise e culpava os judeus, especialmente
os marxistas, de terem apoiado a assinatura do
documento. Mesmo assim, os social-democratas
mantiveram-se à frente do Poder Executivo, até que
foi proposta a proibição do grupo paramilitar nazis-
ta (SA). Sem maioria no Parlamento, os social-
-democratas não conseguiram evitar a queda do
primeiro-ministro. Em meio a um contexto de crise
econômica, greves e falta de unidade política dos
social-democratas, em janeiro de 1933 Adolf Hitler,
líder do Partido Nacional-Socialista, foi escolhi-
do primeiro-ministro pelo presidente Hindenburg.
Conforme Angela Mendes Almeida,
[...] durante esse período tornou-se crucial o apoio
que os grandes industriais deram a Hitler. O exér-
cito, que deveria teoricamente apoiar seu ex-mi-
nistro, estava cada vez mais fascinado com Hitler.
ALMEIDA, Angela Mendes de. A República de Weimar
e a ascensão do nazismo. 3. ed. São Paulo: Brasiliense,
1990. p. 114.).
Os comunistas passaram a ser perseguidos
sob a acusação de ter incendiado a sede do gover-
no. O Partido Comunista foi posto na ilegalidade.
Pouco tempo depois, o Partido Social-Democrata
teve o mesmo destino. Seus deputados foram
cassados e os dirigentes presos. Nesse contexto,
o movimento operário alemão desmobilizou-se,
e suas principais lideranças foram perseguidas
pelos nazistas. A Alemanha caminhava na mesma
direção da Itália fascista, ou seja, para a constitui-
ção de um governo totalitário. O chamado Terceiro
Reich teve início neste momento, quando Hitler e
os nazistas estavam à frente do poder. Em agosto
de 1934, após a morte do presidente Hindenburg,
Hitler tornou-se o chefe único do império, o
Führer (em alemão, condutor, líder), extinguindo-
-se as funções de primeiro-ministro e presidente.
O Führer era também o chefe das forças armadas.
A construção do ideário nazista
Os nazistas, fundadores do Partido Nacional-
-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP),
haviam lançado, em janeiro de 1920, o manifesto
do partido, também denominado Partido Nazista
– termo que é abreviação de Nationalsozialist.
Seu programa pregava o nacionalismo e estimu-
lava o preconceito étnico, exigindo a expulsão dos
judeus da Alemanha. Defendia ainda a nacionali-
zação de indústrias, a reforma agrária, a punição
dos especuladores financeiros e a participação
nos lucros dos trabalhadores das empresas.
Adolf Hitler assumira a direção do NSDAP
ainda em 1920. Sua atuação tornou-se mais inten-
sa com a criação dos grupos paramilitares (SA),
que inicialmente tinham como objetivo lutar con-
tra os comunistas, promovendo também aten-
tados contra judeus. Estima-se que, em 1923, já
havia 15 mil homens compondo essas milícias.
Em sua estratégia para atrair militantes e
adeptos, o Partido Nazista subdividiu-se em diver-
sas organizações: havia a Juventude Hitlerista
para jovens de 15 a 18 anos, uma divisão para
crianças, uma para mulheres, uma para artistas
e ainda várias outras destinadas a diferentes
categorias profissionais. Em 1933, quando Hitler
ascendeu ao poder como chanceler, iniciou-se
o processo de exclusão dos cargos públicos de
comunistas e democratas. Um decreto desse ano,
dentre outras medidas, permitiu a prisão preven-
tiva de todos os deputados comunistas. Entrou em
ação a Gestapo, a polícia secreta nazista, encar-
regada de organizar a repressão a toda oposição
a Hitler. Artistas e intelectuais que discordavam
da nova linha política começaram a deixar o país.
Livros considerados ofensivos à nova ordem pas-
saram a ser queimados em cerimônias públicas.
Ainda em 1933, já haviam se constituído 45
campos de concentração, que abrigavam cerca de
4 mil pessoas. Criou-se também uma lei que deter-
minava a esterilização dos doentes hereditários,
O chanceler alemão, Adolf Hitler, saúda a juventude nazista
em 1934.
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além de serem proibidos os casamentos entre
judeus e alemães. Começava-se a colocar em prá-
tica o ideal de purificação e exclusão racial que
fazia parte do discurso dos nazistas. Defendia-se
a criação de uma nova Alemanha formada por um
povo etnicamente superior.
Uma vez no poder, o governo nazista não cum-
priu as propostas de reforma agrária e melhoria
dos salários. Investiu, sim, no rearmamento do
país, que já começava a se preparar para uma
guerra de expansão imperialista, rompendo com
as determinações do Tratado de Versalhes.
Hitler recebia o apoio de grandes indústrias
e grupos financeiros alemães que vislumbravam
a possibilidade de ampliar seus negócios. Além
disso, a grande massa de desempregados acredita-
va que havia chance de melhorar a situação em que
se encontrava. No entanto era mais difícil atrair os
trabalhadores organizados nas fábricas, que resis-
tiam à propaganda nazista. Para tentar se aproxi-
mar deles, o governo nazista instituiu um programa
que levaria a arte para as fábricas: espetáculos de
dança, óperas e concertos seriam apresentados
aos trabalhadores. Em 1938, foi feita a propagan-
da do “carro do povo” (Volkswagen), ou seja, um
veículo de valor acessível à classe trabalhadora.
A arte, aliás, foi constantemente utilizada
pelo nazismo como meio para fortalecer o regime
político. Nesse sentido, como explica o historia-
dor Alcir Lenharo, a política passou a ser vista
como espetáculo.
Nessa direção, a oferta estetizante que o nazismo
trouxe à cena política era familiar a uma visão
enraizada na cultura nacional. A qualificação de
“providencial”, atribuída à pessoa de Hitler, vem
de encontro à imagem da política incapaz em si
mesma de capturar e dirigir os destinos do país,
necessitando do domínio de um homem forte
que a conduza pela arte e pelo poder. A revolução
nacional-socialista, aos olhos de Hitler, só pudera
acontecer entre os alemães – “esse povo de canto-
res, de poetas, de pensadores” – na medida em que
foram pilhados pela dor e pela miséria, permitindo
que “a arte gerasse o desejo de um novo levante,
de um império novo e também de uma vida nova”.
A partir dessa visão é que se torna mais com-
preensível o esforço de Hitler e dos nazistas em
familiarizar os assuntos políticos, teatralizá-los,
musicá-los, filmá-los, atraindo-os para o domínio
do delírio e da embriaguez idólatra… Cada acon-
tecimento era preparado minuciosamente pelo
próprio Hitler. Cada entrada em cena, a marcha
dos grupos, os lugares dos convidados de honra,
a decoração geral, flores, bandeiras, tudo era pre-
visto. Aos poucos, a forma foi sendo definida, e os
acontecimentos ganharam o sentido de um ritual
religioso – um ofício –, que se manteve imutável
em sua forma. Florestas de bandeiras, jogos de
archotes, a multidão disposta disciplinadamente,
a música envolvente, os canhões de luz.
LENHARO, Alcir. Nazismo: o triunfo da vontade.
São Paulo: Ática, 1986. p. 38, 40-1.
Nesse contexto, a propaganda também teve
um papel fundamental, pois ela seria um veículo
para se dirigir diretamente às massas. Joseph
Goebbels, ministro da propaganda de Hitler a
partir de 1933, foi figura central do governo nazis-
ta. O cinema era um dos canais de propaganda
do ideário nazista. Os muitos filmes produzidos
estimulavam o preconceito étnico, a xenofobia
(aversão ao que é estrangeiro), o patriotismo e
o heroísmo. Vários deles dirigiam-se diretamente
aos judeus, acusando-os de acumular fortunas
explorando o povo e condenando-os por suas
poucas qualidades morais, na visão segregadora
dos nazistas.
A propaganda e os filmes não apenas critica-
vam os inimigos, mas também criavam modelos
de comportamento a serem seguidos pelos ale-
mães, como ser comedidos economicamente e
evitar o luxo. Também o consumo de drogas e
o fumo eram condenados. O modelo de homem
nazista era o camponês – glorificado como aquele
que se relacionava às origens do povo alemão
–, considerado sadio e mantenedor da tradição
alemã, representando ainda a pureza étnica.
Cartaz da campanha eleitoral do Partido Nazista, de 1933,
de caráter antissemita, em que se lê: “Trabalhadores!
Camponeses! Se vocês preferem a dominação judia, então
votem nos velhos partidos”.
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O fascismo italiano
Não foi só na Alemanha que se constituiu um
governo totalitário. O mesmo ocorreu na Itália,
na Espanha, em Portugal e em outros países.
Mesmo saindo vitoriosa na Primeira Guerra
Mundial, a Itália iniciou o ano de 1919 em profun-
da crise econômica. Apesar de os investimentos
na indústria serem retomados, a inflação subia a
cada mês e a população mais pobre do país exigia
reformas sociais. Os operários lutavam por melho-
res condições de trabalho e salários, enquanto
os camponeses reivindicavam a reforma agrária.
O desemprego também era alto. Entre 1919 e 1921,
ocorreram saques a lojas e greves no campo e nas
cidades, além de fábricas terem sido ocupadas.
Nesse contexto, fortaleceu-se o Partido
Socialista Italiano (PSI), que criticava o gover-
no liberal, mas não tinha força nacional suficiente
para ter hegemonia política e fazer valer seu pro-
jeto revolucionário.
Simultaneamente surgiu em Milão, em 1919,
sob a liderança de um ex-líder socialista, Benito
Mussolini, o Fascio di Combattimento (“Feixe
de Combate”), núcleo inicial do que viria a ser o
Partido Nacional Fascista (PNF), fundado
em 1921. Esse partido tinha um programa nacio-
nalista, posicionando-se contra o liberalismo e o
republicanismo. Também condenava o socialismo
e o comunismo. Sob o patrocínio de empresários
e proprietários rurais, os fascistas formaram gru-
pos paramilitares, os camisas-negras, que ini-
ciaram ofensiva contra sindicalistas e socialistas.
O governo liberal, por sua vez, permitiu os violen-
tos ataques como estratégia para enfraquecer
os socialistas. Pessoas conservadoras e setores
da classe média também apoiaram os camisas-
-negras, pois viam neles uma forma de impedir as
manifestações dos trabalhadores.
Em outubro de 1922, quando crescia o número
de adeptos ao fascismo, Mussolini organizou a
Marcha sobre Roma. Os fascistas mobilizaram
seus esquadrões para se dirigir a Roma e tomar
o controle de edifícios públicos e estações ferro-
viárias. Após o sucesso da operação militar, eles
exigiram que se formasse um governo de coalizão,
no qual marcariam sua ascensão ao poder.
Entre 1922 e 1925, com a retomada do cresci-
mento econômico, os fascistas ampliaram sua
popularidade e tiveram o apoio da elite econômica
italiana. O poder aquisitivo dos salários foi reduzi-
do nesse período, ao mesmo tempo em que foram
reduzidos os impostos para as indústrias e elabo-
radas leis que restringiam a atividade sindical.
Hitler fez das Olimpíadas de 1936 um espetáculo para engran-
decer a Alemanha, como mostra a foto no alto, em Berlim. As
grandes cerimônias públicas foram empregadas como recurso
estético e de propaganda para, mediante a comoção popular,
fortalecer o poder político. O aniversário do Führer também
foi transformado em um evento grandioso, como se vê na foto
abaixo, de 1939, em Colônia.
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A Marcha sobre Roma, em outubro de 1922.
Em 1924, o deputado Giacomo Matteotti, líder do
Partido Socialista Unido (PSU), foi assassinado
pelos camisas-negras. Houve muitos protestos
contra o poder de Mussolini. No entanto os empre-
sários, o papa e o rei Vítor Emanuel III apoiaram o
chefe do governo. A partir do ano seguinte, Mussolini
intensificou a luta contra os inimigos, abrindo cami-
nho para a instauração de um regime ditatorial.
Depois de enfraquecer o sindicalismo, reconhe-
cendo somente os sindicatos fascistas como repre-
sentantes dos trabalhadores, Mussolini centralizou
o poder em suas mãos a partir de 1926. O direito de
greve foi suprimido. Todos os projetos de lei deve-
riam ser aprovados pelo Poder Executivo antes de
seguir para o Parlamento. Com exceção do Partido
Nacional Fascista, todos os outros partidos foram
colocados na ilegalidade. Estabeleceu-se a censu-
ra, e os parlamentares de oposição foram cassados.
Criou-se ainda uma polícia política secreta para
combater os comunistas e os opositores do regime.
Em 1927, foi divulgada a Carta del Lavoro
(“Carta do Trabalho”), que traria os princípios da
doutrina corporativista defendida por Mussolini, o
Duce (“chefe”), líder maior do movimento fascis-
ta. Negando o capitalismo e o comunismo, o cor-
porativismo tinha como princípio a harmonização
entre empresários e trabalhadores, que se orga-
nizariam em corporações para dirigir a economia
sob o controle do Estado. Cada corporação se
referiria a uma categoria profissional distinta. Na
Itália, somente em 1934 seriam criadas tais cor-
porações, pois havia resistência dos empresários,
que temiam a limitação de seu poder. Na prática,
o corporativismo serviu como instrumento de
controle dos trabalhadores pelo Estado.
Para ampliar sua base de apoio e garantir o
controle do poder, os fascistas preocuparam-se
em formar jovens dentro dos princípios defendi-
dos pelo Estado. Foram criadas várias instituições
para eles com a finalidade de doutrinar e fazer
valer o lema fascista: Crer, obedecer, comba-
ter. Nas escolas também se tornou obrigatória a
utilização de material didático único, conforme
indicação dos governantes. Quanto aos professo-
res, estes eram obrigados a fazer juramento de
fidelidade ao regime fascista sob o risco de serem
afastados e presos como opositores do governo.
Assim como no nazismo, o controle dos meios
de comunicação de massa e a propaganda tam-
bém foram decisivos para o domínio do fascismo.
No rádio, havia programas obrigatórios que divul-
gavam o ideário fascista e engrandeciam a nova
ordem política da Itália.
Capa da revista Juventude Fascista, publicada no final dos anos
1920, que estimulava os jovens a lutar pelos ideiais fascistas.
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Esteticamente, o fascismo aproximou-se do
futurismo, movimento artístico nascido na
Itália que teve seu manifesto literário assinado
pelo poeta Marinetti, em 1909. Os futuristas pre-
gavam uma aceitação do mundo tecnológico
moderno com suas máquinas e invenções. Em
1910, um grupo de pintores publicou um manifes-
to aderindo ao movimento. Entre eles estavam:
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Em Rapidez abstrata

o carro passou (no alto), de Giacomo Balla, 1913, ocorre a duplicação do objeto, produzindo para o observador a
sensação de movimento. Têmpera em papel, 49,5 cm 73,6 cm. O mesmo acontece em O ciclista (acima), de Carlo Carrá, 1913: as linhas se
sobrepõem criando a noção de movimento. Guache e aquarela sobre papel, 26,7 cm 35,8 cm.
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THESAURUS
Umberto Boccioni, Gino Severini, Carlo Carrá e
Giacomo Balla. Utilizaram a máquina fotográfica
como instrumento para estudar o movimento das
pessoas e dos objetos, percebendo que esse movi-
mento podia ser registrado em uma pintura com
a duplicação do objeto retratado como se fosse
suas sombras ou linhas abstratas.
Em 1918, vários futuristas aproximaram-se
dos fascistas. Defendiam o intervencionismo e
a expansão imperialista italiana, resgatando a
Roma imperial. Marinetti participou da fundação
do Partido Nacional Fascista, atuando em sua
comissão de propaganda e imprensa.
A Guerra Civil Espanhola
No início do século XX, a Espanha era uma
monarquia que havia perdido a riqueza colonial,
não tendo desenvolvimento industrial suficien-
te para se comparar a outras potências euro-
peias. Politicamente, socialistas, anarquistas e
comunistas opunham-se à monarquia. Enquanto
os socialistas defendiam reformas sociais que
garantissem melhores condições de vida aos tra-
balhadores, os comunistas acreditavam que o
Estado burguês deveria ser superado e pregavam
a tomada do poder pela força. Os anarquistas, por
sua vez, defendiam a extinção do Estado e suas
instituições e a criação de comunidades autôno-
mas, que seriam geridas por todos que nela vives-
sem e trabalhassem.
Várias greves e atos terroristas liderados por
esses grupos de esquerda ocorreram nos anos 1910,
colocando em dúvida a legitimidade da monarquia
e reivindicando mudanças na ordem social. Esse
contexto favoreceu a intervenção de militares, que,
em 1923, sob o comando do general Primo de Rivera,
estabeleceram uma ditadura com o apoio real.
Sucessivas manifestações populares contra os
atos de repressão promovidos por Rivera levaram-
-no a deixar a chefia do governo no início de 1930.
No ano seguinte, nas eleições municipais, os elei-
tores manifestaram-se contra os monarquistas,
precipitando uma crise e o abandono do trono pelo
rei Alfonso XIII. Com isso, foi fundada a Segunda
República espanhola.
Após o governo provisório tomar posse, uma
nova Constituição foi redigida e aprovada em
dezembro de 1931. Manuel Azaña, advogado, escri-
tor e líder republicano, tornou-se o chefe do novo
governo, e o advogado Niceto Alcalá Zamora tor-
nou-se o presidente do país. Com o intuito de
fundar uma república democrática, estabeleceu
o livre direito de voto, concedeu autonomia às
diferentes regiões administrativas, estabeleceu
um salário mínimo para o campo e a indústria e
decidiu pela realização de uma reforma agrária.
Definiu ainda o confisco dos bens das ordens
religiosas, a laicização do ensino e a
extinção dos privilégios da Companhia
de Jesus (dos jesuítas). Tais medidas
provocaram a oposição da Igreja e dos
grandes proprietários de terra ao novo
regime. Ao mesmo tempo, grupos de
esquerda acusavam o governo de não
executar as reformas necessárias,
principalmente aquelas relacionadas
às melhorias das condições de vida dos
trabalhadores. Já parte dos militares
defendia a volta à monarquia.
Em 1932, um grupo de militares orga-
nizou um levante em Sevilha, exigindo
a volta da monarquia. Anarquistas, por
sua vez, comandavam greves e saques
a igrejas. Também na Catalunha e nas
Astúrias ocorriam levantes popula-
res, e nesta última região os mineiros
VOCABULÁRIO
Laicização: tornar laico, eliminar a influ-
ência religiosa.
Ao lado, cartaz alemão das Olimpíadas
de 1936; abaixo, cartaz espanhol da
Olimpíada Popular, também de 1936.
Em oposição às Olimpíadas orga-
nizadas pelos nazistas em 1936 na
Alemanha, o governo democrático es-
panhol organizou a Olimpíada Popular,
que, em vez de utilizar o homem forte
e escultural como símbolo, preferiu
colocar em destaque a participação
de diferentes etnias na competição.
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chegaram a dominar o governo da província. Em
1936, organizou-se a Frente Popular, que reunia
comunistas, socialistas e anarquistas contra os par-
tidos de direita. Em oposição total a esses grupos
estava a Falange Espanhola Tradicionalista,
que defendia a instauração de um regime fascista
na Espanha. A Falange foi criada em 1933 por José
Antonio Primo de Rivera, filho do general Primo de
Rivera. Nas eleições de 1936, foi expressiva a vitória
dos partidos de esquerda, que dominaram as maio-
res cidades. Manuel Azaña foi eleito presidente e,
logo no início de seu mandato, procurou colocar em
prática a legislação que autorizava a reforma agrá-
ria e concedia aumentos salariais aos trabalhadores.
A direita organizou a reação, pedindo apoio a
Mussolini e Hitler. Enquanto na Alemanha e na Itália
configuravam-se governos totalitários, na Espanha,
ao contrário, buscava-se a organização de uma
república democrática que fosse capaz de conceder
melhores condições de vida à classe trabalhadora.
Após o assassinato de um militante socialista
e de um deputado direitista, instalou-se o clima de
guerra civil, que rebentou, de fato, em julho de
1936. Nesse mês as forças militares lideradas pelo
chefe do Estado-Maior do Exército, Francisco
Franco, e apoiadas pelas forças de direita toma-
ram o Marrocos, então colônia espanhola. Em
poucos dias, esse grupo rebelde conseguiu domi-
nar algumas regiões da Espanha.
O general Franco, que dirigia a Falange, rece-
beu o apoio de Hitler, que enviou soldados, aviões e
Na imagem abaixo, de 1936, em Madri (Espanha), observamos
trabalhadores espanhóis armados para a luta contra as forças
do general Franco.
Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Latinstock
outros equipamentos de guerra à Espanha. O mesmo
ocorreu em relação a Mussolini, que também enviou
tropas e milícias do Partido Fascista (cerca de 70 mil
camisas-negras partiram em auxílio aos falangis-
tas). Já a União Soviética posicionou-se ao lado dos
republicanos. Assim, no contexto do rearmamento
da Alemanha e sob o risco de estourar uma nova
guerra, o caso espanhol tornou-se importante no jogo
de composição de forças entre as nações europeias.
Ao lado dos republicanos espanhóis (da
Frente Popular), lutaram também as chama-
das Brigadas Internacionais, que eram
voluntários de diferentes países para comba-
ter pela República espanhola. A Internacional
Comunista, organização mundial que fornecia
diretrizes aos partidos comunistas em diferentes
países, convocou seus filiados para lutar contra
os aliados dos fascistas.
Em outubro de 1936, ocorreu o bombardeio de
Madri por tropas rebeldes, com o auxílio de aviões
italianos e alemães. Os republicanos contaram
com o apoio de militares soviéticos. Parte da popu-
lação participou da resistência organizando barri-
cadas, postos de vigilância e atendimento médico.
Novos ataques aconteceram no mês seguinte,
sob a liderança do general Franco. Outra vez a
população se mobilizou contra os inimigos, com a
ajuda das Brigadas Internacionais. Entre novembro
e dezembro morreram cerca de 50 mil pessoas
em combate. Somente em 1939 os nacionalistas
falangistas conseguiram tomar a cidade de Madri.
Vários outros conflitos aconteceram, e, em alguns
casos, como em Guernica, em 1937, houve grande
destruição. Um ataque aéreo desfechado pelos
nacionalistas deixou milhares de civis mortos e
feridos, destruindo grande parte da cidade.
No início de 1938, os rebeldes falangistas coman-
dados por Franco já dominavam grande parte
da Espanha, tornando difícil a reação das forças
republicanas da Frente Popular. Preocupado com
o avanço alemão em algumas regiões da Europa, o
governante soviético, Stalin, estabeleceu um acor-
do com Hitler e retirou suas tropas da Espanha.
Sem esse apoio, as chances de vitória dos repu-
blicanos tornaram-se ainda mais remotas. Em
dezembro ocorreu a batalha final da Guerra Civil
Espanhola. Os franquistas tomaram Barcelona,
então sede do governo, e executaram mais de 30
mil republicanos. Só restava dominar Madri, o que
aconteceria em março de 1939. Ao longo da guerra
morreram cerca de 1 milhão de espanhóis.
Desde que assumiu o controle de algumas
regiões da Espanha, Franco impôs um governo
ditatorial, sendo suprimidos os partidos políticos.
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Trabalhadores procuram por sobreviventes em rua de
Barcelona (Espanha), em 1938, depois de um ataque aéreo
das forças aliadas de Franco que durou 41 horas.
Guernica, de Pablo Picasso, 1937. Óleo sobre tela, 349 cm 776 cm. Em 26 de abril de 1937, aviões nazistas bombardearam o vale de
Guernica, no País Basco, por mais de duas horas, matando mais de 1 500 civis em uma população de cerca de 7 mil habitantes. A notícia do
bombardeio da cidade basca provocou pânico em muitas regiões da Europa. O pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973), tido como um dos
maiores artistas do século XX, registrou em uma grande tela a tragédia. Na pintura, observamos o desespero das vítimas do bombardeio.
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A Segunda Guerra Mundial
Em 1938, a Alemanha iniciou sua campanha
militar expansionista anexando a Áustria a seu
território. O Anschluss, como ficou conhecida
a união entre a Alemanha e a Áustria, era jus-
tificado pela necessidade de unificar os povos
germânicos. Anexou, em seguida, parte da
Tchecoslováquia após a Conferência de Munique,
na qual os primeiro-ministros Neville Chamberlain,
da Inglaterra, e Edouard Deladier, da França, con-
cordaram em ceder a região do Sudetos, no sul
da Tchecoslováquia, que, conforme os nazistas,
tinha população majoritariamente alemã.
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- de setembro de 1939, a Alemanha hitle-
rista simulou um ataque polonês à cidade de
Gleiwitz, localizada na fronteira da
Polônia com a Alemanha. Soldados
alemães vestiram uniformes polone-
ses e atacaram um posto de rádio ale-
mão. Esse seria o motivo que justifi-
caria o ataque à Polônia, que ocorreu
no mesmo dia e deu início à Segunda
Guerra Mundial. Em poucos dias, o
exército polonês foi derrotado pelos
bombardeios aéreos e pela ofensiva
terrestre alemã. Com isso, uma parte
da Polônia foi anexada à Alemanha, e
os judeus poloneses foram expulsos
de suas terras. Nos meses seguin-
tes se iniciou o que ficou conhecido
como “guerra relâmpago” (blitzkrieg).
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Logo em seguida, em 1
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- de setembro de 1939,
iniciou-se a Segunda Guerra Mundial, tendo
a Espanha se mantido inicialmente neutra, mas
sempre próxima dos países do Eixo. Em 1942, teve
participação na guerra, lutando ao lado dos ale-
mães contra a União Soviética.
O general Franco governou a Espanha ditato-
rialmente até 1975, quando faleceu. O príncipe
Juan Carlos foi, então, conduzido ao trono. A volta
da monarquia havia sido preparada pelo próprio
Franco em 1966, com a criação da Lei Orgânica do
Estado (Constituição).
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Com o auxílio de carros blindados e da avia-
ção, novas regiões foram rapidamente ocupadas:
Bélgica, Noruega, Iugoslávia, Grécia e França. Neste
último caso, o exército alemão dominou a capital
francesa, Paris, em junho de 1940. Parte do país foi
anexado ao Terceiro Reich. Em setembro do mesmo
ano, os alemães iniciaram o ataque à Inglaterra.
Várias cidades inglesas foram bombardeadas por
aviões, incluindo Londres, que ficou parcialmente
destruída. Após seis meses de combates, os ale-
mães desistiram de continuar o conflito, uma vez
que não conseguiam dominar as forças britânicas,
que mostraram vantagem no combate aéreo.
Nesse momento da guerra, em 1941, já haviam se
configurado claramente as alianças e os inimigos.
De um lado, estavam os países do Eixo: Alemanha,
Itália e Japão, que entrou na guerra em agosto
de 1940. Do outro, encontravam-se os Aliados:
França, Inglaterra e, depois, Estados Unidos.
Poucos meses após entrar na guerra, o Japão já
havia conquistado grande parte do Extremo Oriente
e parte das possessões britânicas e holandesas na
região. Para o Japão, a Segunda Guerra
Mundial representava a possibilidade de
expandir seus domínios no Oriente, domi-
nando principalmente parte da China e da
Coreia. Também era seu objetivo expandir seus mer-
cados na região, transformando-se em potência eco-
nômica e política na Ásia. Em 1937, o Japão já havia
atacado a China, ocupando parte de seu território.
Os Estados Unidos entraram efetivamente na
guerra após o ataque japonês à base norte-america-
na de Pearl Harbor, localizada no Havaí, em dezem-
bro de 1941. Nessa ocasião, os norte-americanos
perderam grande parte de sua frota do Pacífico
ancorada na base militar. Poucas horas depois do
ataque à base naval, o presidente Franklin Delano
Roosevelt declarou guerra ao Japão.
Em 1941, chegou a vez de Hitler tentar invadir a
União Soviética. Com esse fim, foram mobilizados
cerca de 2 milhões de homens desde junho desse
ano. Tratava-se de uma gigantesca força terrestre
apoiada por uma infinidade de tanques e muitas
divisões motorizadas. O objetivo final do exército de
Hitler, inimigo do comunismo soviético, era dominar
Moscou. Antes disso, contudo, as tropas alemãs
realizaram o cerco a Leningrado, que durou cerca
de dois anos. A população local foi exposta à fome
e à miséria, ficando sem luz e aquecimento nos
períodos de baixas temperaturas. Mesmo assim, a
resistência conseguiu conter o avanço dos nazistas.
Apesar da superioridade militar e tecnológica
alemã, a resistência soviética conseguiu evitar
que os alemães chegassem a Moscou. Os nazistas
fizeram mais de 4 milhões de prisioneiros nos pri-
meiros meses de combate e executaram cerca de
1 milhão de soviéticos. Em setembro de 1941, os
alemães já haviam conseguido dominar várias
regiões da União Soviética, porém tinham proble-
mas para manter suas conquistas. Um deles era
como fazer chegar, com eficiência, suprimentos a
todos os soldados em campo de batalha.
Em novembro de 1941, foi desfechado o ataque
final contra Moscou, mas os russos, contando
então com aviões mais modernos e muitos arma-
mentos, conseguiram deter os alemães. Outro
inimigo dos alemães foi o inverno, que impediu o
avanço de carros e fez muitos soldados e animais
morrerem em consequência do frio. Os soviéti-
cos começaram a retomar as áreas dominadas
pelos alemães, impondo uma importante derrota
aos países do Eixo na Batalha de Stalingrado,
grande centro industrial russo. Em fevereiro de
1943, o exército alemão que restava se rendeu.
A entrada dos Estados Unidos na guerra em
1941, quando foi assinada a Carta do Atlântico,
tornou muito mais eficiente a reação dos Aliados,
possibilitando reverter a grande expansão territo-
rial alcançada pelo Eixo. Devemos lembrar que os
Estados Unidos, além de já possuírem uma poten-
te indústria militar nesse período, não sofriam
internamente o impacto da guerra, uma vez que
suas cidades não haviam sido bombardeadas.
Assim, todos os investimentos norte-americanos
se dirigiram para a produção de armamentos e a
manutenção do exército.
Em junho de 1942, os norte-americanos impu-
seram a primeira derrota importante ao Japão,
quando conseguiram impedir que os japoneses
tomassem o Havaí, derrotando-os na batalha do
Arquipélago de Midway, no Oceano Pacífico. Em
abril desse ano os norte-americanos já haviam
bombardeado Tóquio.
A guerra continuava a tomar grandes pro-
porções. Os italianos avançaram pelo norte da
África a partir de 1940, tendo de enfrentar o
exército britânico. Os alemães também enviaram
tropas para lutar na região. Esse grupo de com-
batentes foi denominado Afrika Korps. Até 1942
os alemães haviam conquistado algumas vitórias
parciais, mas não conseguiram tomar o Egito dos
britânicos nem controlar o canal de Suez, uma
das principais saídas do Mediterrâneo.
Em outubro de 1942, os britânicos, com a ajuda
dos exércitos aliados, conseguiram impor uma
derrota definitiva ao Afrika Korps, obrigando os
alemães a se retirarem da região em maio de 1943.
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Adolf Hitler esperava conquistar posições rapida-
mente na Segunda Guerra Mundial. Essa charge de
1943 ironiza suas pretensões. Três fantasmas (Stalin,
Roosevelt e Churchill) tentam assustar Hitler, ron-
dando um túmulo onde se lê: “Sonho da conquista do
mundo”, precedido de uma suástica. Na folha de papel
que Hitler segura está escrito: “Discurso de Hitler”.
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Com base em ARRUDA, José J. de A. Atlas histórico básico. São Paulo: Ática, 2000. p. 30.
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A situação do Eixo na guerra se agravou com
a derrota alemã na União Soviética. Os soldados
soviéticos conseguiram romper o cerco alemão
a Stalingrado e impuseram dura derrota, na qual
mais de 100 mil soldados alemães foram mortos e
outros 150 mil foram feridos ou feitos prisioneiros.
A partir de então já estava clara a superiorida-
de militar dos Aliados, restando apenas saber o
quanto os países do Eixo iriam resistir.
Em setembro de 1943, após a invasão da Sicília
pelos Aliados, foi a vez de a Itália se render.
Mussolini foi derrubado de seu cargo e preso.
Em reação, os alemães o resgataram e ocuparam
Roma. Mussolini criou uma República Fascista
no Norte, enquanto o rei refugiou-se em Bari, na
Itália, sob a proteção dos Aliados.
Em 1944, começaria a se configurar a vitória
final dos Aliados, ou seja, eles teriam conse-
guido se aproximar de Berlim e tomar as áreas
EXPANSÃO E DERROCADA DA ALEMANHA NAZISTA
dominadas pelos países do Eixo. A Itália foi só o
início dessa ofensiva. O general norte-americano
Dwight Eisenhower, em 6 de junho de 1944, esteve
à frente das operações que iniciaram esse pro-
cesso, que consistiu em um grande desembarque
aeronaval dos Aliados na região da Normandia, na
França. Cerca de 200 mil homens participaram da
invasão, que contou com 1200 navios e cerca de 10
mil aviões. Trata-se do conhecido Dia D. No mês
de julho, a região havia sido totalmente dominada
pelos Aliados e, em agosto, Paris seria libertada
do domínio nazista.
Em abril de 1944, Viena, no sul da Europa, foi
tomada. No início de 1945, várias cidades alemãs
começaram a ser bombardeadas. Em janeiro de
1945, Varsóvia, capital da Polônia, foi tomada dos
alemães, tornando frágil mais um flanco da guer-
ra. Os Aliados aproximavam-se de Berlim, ficando
os nazistas cada vez mais cercados.
Com base em SCALZARETTO, Reinaldo; MAGNOLLI, Demétrio. Atlas: geopolítica. São Paulo: Scipione, 1996. p. 16.
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A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL NA EUROPA (1941-1945)
A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL NA EUROPA (1939-1940)
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Com base em The Times Atlas of World History. Londres: Times Books Ltd., 1993.
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As forças alemãs, que dominaram a Polônia
entre 1939 e 1945, promoveram a destruição
de grande parte de suas cidades, como se
vê na foto menor, de 1946, assim como já
haviam feito em outros lugares. Não só domi-
navam o inimigo, como procuravam destruir
sua história e cultura. Quando as forças alia-
das conseguiram impor sua superioridade,
várias cidades alemãs foram violentamente
bombardeadas, como é o caso de Dresden,
na foto maior, também de 1946, que foi qua-
se destruída.
Na Itália, Mussolini foi capturado por tropas
da resistência italiana e, em seguida, fuzilado. Em
30 de abril de 1945, quando os Aliados chegavam
a Berlim, Hitler se suicidou. Em 8 de maio desse
mesmo ano, o almirante Dönitz, sucessor de Hitler,
anunciou a rendição incondicional alemã. Essa
data tornou-se o marco final da guerra na Europa.
No Oriente, a guerra prosseguiria com as
forças norte-americanas tomando um a um os
postos militares estratégicos japoneses. Uma
das últimas armas japonesas foram os pilotos
suicidas, os kamikazes, que se lançavam com
seus aviões lotados de bombas contra barcos
dos Estados Unidos. Ainda que fosse evidente
a superioridade norte-americana, os japoneses
acreditavam ser possível resistir, já que dificil-
mente os Aliados arriscariam a vida de um gran-
de número de soldados para desembarcar no
Japão. No entanto, em março de 1945 começaram
os desembarques americanos no país. Os japone-
ses também não contavam com a possibilidade
de os americanos utilizarem a bomba atômica.
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Em fevereiro de 1945 ocorreu, na
Crimeia, a Conferência de Yalta. Nela se
reuniram o soviético Stalin, o governante
inglês Churchill e o presidente norte-ame-
ricano Roosevelt. Decidiu-se pela criação
da Organização das Nações Unidas
(ONU) e pela divisão do mundo capitalista
e socialista. A ONU iria substituir a Liga
das Nações, dissolvida em 1946. A União
Soviética teria o domínio sobre a Europa
oriental, a parte leste da Alemanha e tam-
bém seria definida a divisão da Coreia, que,
em sua porção norte, receberia interferên-
cia da União Soviética.
Na Conferência de Potsdam (na
Alemanha), realizada em agosto de 1945,
os líderes dos países aliados dividiram a
Alemanha em quatro zonas de ocupação:
soviética, francesa, inglesa e norte-ameri-
cana. Além disso, as potências vencedoras
criaram o Tribunal de Nuremberg, que
deveria combater o nazismo na Alemanha,
julgando os criminosos de guerra.
A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL NA ÁSIA (1941-1945)
Com base em ARRUDA, José J. de A. Atlas histórico básico. São Paulo: Ática, 2000. p. 31.
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DIVISÃO DA EUROPA: CONFERÊNCIAS
DE YALTA E POTSDAM (1945)
Com base em SCALZARETTO, Reinaldo; MAGNOLI, Demétrio.
Atlas: geopolítica. São Paulo: Scipione, 1996. p. 19.
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A bomba atômica
Durante a guerra, foi constante o investi-
mento e o desenvolvimento tecnológico vol-
tados para a criação de novos equipamentos
e armamentos de combate. Vários cientistas
europeus expulsos de seus países por causa do
nazifascismo migraram para os Estados Unidos,
onde puderam pesquisar em laboratórios que
tinham como fundamento as teorias do cientis-
ta alemão Albert Einstein (1879-1955) sobre a
estrutura do átomo. Acreditava-se que, se fosse
possível criar uma reação em cadeia utilizando
plutônio e urânio, isso poderia fazer com que
partes de átomos atingissem outras partes de
átomos, liberando uma quantidade excepcional
de energia. O resultado desse processo seria
uma explosão atômica.
Após um alerta de Albert Einstein sobre
um suposto projeto alemão de construção de
uma arma desse tipo, os americanos criaram,
sob o comando do físico Robert Oppenheimer,
o Projeto Manhattan. Em fins de 1942, os
cientistas reunidos em Los Alamos, no estado
do Novo México, conseguiram colocar em prá-
tica a primeira experiência de uma explosão
nuclear. Embora ainda não tivessem concluído
o processo de fabricação desse armamento, os
norte-americanos esperavam conseguir o que
se denominou “solução final”.
Com o intuito de forçar o Japão a sair da
guerra e demonstrar superioridade militar aos
soviéticos, o presidente dos Estados Unidos,
Harry Truman, mandou lançar duas bombas atô-
micas sobre cidades japonesas. A primeira delas
foi lançada sobre Hiroxima, em 6 de agosto de
1945, e a segunda, três dias depois, sobre a cidade
de Nagasáqui. A nuvem em forma de cogumelo
causou 100 mil mortes na primeira cidade e cerca
de 80 mil na segunda, somente no momento da
explosão. Nas semanas seguintes, mais de 100
mil pessoas, aproximadamente, morreriam em
consequência da explosão em Hiroxima e outras
70 mil pessoas em Nagasáqui. As cidades foram
quase inteiramente destruídas. Além disso, os
efeitos da radiação se fariam sentir por muitos
anos na região. Em 15 de agosto, pelo rádio,
o imperador Hiroíto anunciou a rendição japo-
nesa. O general americano Douglas MacArthur
assumiu o controle do país até 1951. A Segunda
Guerra Mundial chegara ao fim, deixando cerca
de 40 milhões de mortos. Só na União Soviética
morreram 18 milhões de pessoas.
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A explosão da bomba atômica destruiu tudo em um raio de mais de
6 quilômetros em Nagasáqui. Na foto acima, Nagasáqui em 1949,
quatro anos após o ataque.
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Em seus discursos, Hitler afirmava a supe-
rioridade do povo ariano e estimulava os antigos
preconceitos contra os judeus, responsabilizando-
-os por grande parte das dificuldades enfrentadas
pela Alemanha. Em 1933, quando chegou ao poder
como chanceler, começou a colocar em prática
seu projeto de condenação do povo judeu. Primeiro
limitou o trânsito dos judeus, exigindo-lhes identi-
ficação. Na Alemanha, eles perderam a cidadania
e foram humilhados publicamente pelas forças
nazistas. Em seguida, foram levados para campos
de concentração ou obrigados a viver em bairros
isolados, chamados de guetos. Nos campos de con-
centração, muitos eram eliminados diariamente e,
a partir de 1942, foram utilizadas câmaras de gás
como método de extermínio em massa.
Os horrores cometidos pelos nazistas não se
limitaram apenas aos judeus. Ciganos, soviéticos,
inimigos políticos, doentes mentais, homossexu-
ais, eslavos e pacifistas também foram massacra-
dos em campos de extermínio.
A participação brasileira na guerra
A Segunda Guerra foi mundial por ter envolvido
países de vários continentes. Da América Latina,
no entanto, somente o Brasil enviou tropas para
lutar na Europa, entrando na guerra com o obje-
tivo de apoiar os Aliados. Para combater ao lado
dos Estados Unidos, os norte-americanos oferece-
ram ao governo brasileiro recursos para construir
a usina siderúrgica de Volta Redonda (RJ). Além
disso, garantiam ao Brasil a divulgação de sua
imagem como uma liderança na América Latina,
e vários filmes de Hollywood produzidos nesse
período procuraram fazer referência à cultura bra-
sileira. Foi nessa época que nasceu o personagem
Zé Carioca, de Walt Disney. Esse personagem é o
amigo brasileiro do americano Pato Donald.
A entrada efetiva do Brasil na guerra ocorreu
em agosto de 1942, depois que o submarino alemão
U-507 afundou cinco embarcações brasileiras com
passageiros em menos de três dias. Três delas
haviam saído de Salvador (BA), uma com destino
a Recife (PE), outra a Maceió (AL) e a terceira a
Aracajú (SE). Mais de 500 pessoas morreram.
Para participar da guerra, constituiu-se no
Brasil a Força Expedicionária Brasileira (FEB),
que combateu por 11 meses no conflito a partir de
julho de 1944. Mais de 25 mil brasileiros lutaram na
Itália, morrendo 943 soldados.
Os norte-americanos também montaram estru-
turas de guerra no Nordeste brasileiro. Por sua
O Holocausto
Durante a Segunda Guerra Mundial, ocorreu
ainda o Holocausto, genocídio em massa de
judeus (e outras minorias) pelas forças nazistas.
Estima-se que cerca de 6 milhões de judeus foram
mortos entre os anos 1930 e 1945.
O preconceito contra o povo judeu, que era
uma minoria na Europa, existia em várias regiões
do continente. Os judeus não tinham uma terra
natal e não partilhavam do cristianismo, o que os
tornava malvistos pela Igreja Católica. Ampliou-
-se então o antissemitismo, ou seja, a rejeição
aos judeus, que há vários séculos já sofriam pre-
conceito na Europa. O historiador francês Jean
Delumeau explica que:
O antijudaísmo teve dois componentes que muitas
vezes se somaram: de um lado, a hostilidade expe-
rimentada por uma coletividade – ou por uma parte
dessa – em relação a uma minoria empreendedora,
considerada inassimilável e chegando a ultrapas-
sar um limiar tolerável no plano do número ou
do êxito, ou nos dois ao mesmo tempo; e, de outro,
o medo sentido por doutrinários que identificam o
judeu com o mal absoluto e o perseguem com seu
ódio implacável mesmo quando ele foi repelido
para fora das fronteiras.
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente.
São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 278.
Dessa forma, em diferentes momentos eles
foram perseguidos, expulsos de suas casas e cida-
des, responsabilizados por todo tipo de infortúnio
e exterminados.
Sobreviventes do campo de concentração de Buchenwald,
Alemanha, em 16 de abril de 1945.
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proximidade com o continente africano, foram
instaladas bases militares para defesa e partida
de aeronaves que se dirigiam à África e à União
Soviética. Em 1943, o próprio presidente Roosevelt
esteve no campo de Parnamirim (Parnamirim
Field), em Natal (RN), voltando de Casablanca,
em Marrocos. Esse local ficou conhecido entre os
aliados como o “Trampolim da vitória”. Leia mais
sobre o campo de Parnamirim no site da Fundação
Rampa (disponível em: <www.fundacaorampa.
com.br/af_parna.htm>. Acesso em: 1 jun. 2013).
A Guerra Fria: a Coreia,
o Muro de Berlim e o Vietnã
A bomba atômica não só destruiu duas cida-
des japonesas em 1945 como anunciou o início
de uma nova época: a da Guerra Fria, um tipo
de confronto não declarado. Os Estados Unidos
e a União Soviética tornaram-se forças políticas
hegemônicas que partiram o mundo em dois
grandes blocos: o capitalista e o socialista.
A força desses países relacionava-se com o domí-
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Cartaz estimulando as pessoas a comprarem bônus de guerra
para se vingar pelo navio brasileiro Baependi, afundado por
submarino alemão em águas brasileiras, em 1943.
nio nuclear, ou seja, com a capacidade de destrui-
ção. A União Soviética já tinha a bomba atômica
em 1949. Para o historiador Eric Hobsbawm:
Gerações inteiras se criaram à sombra de batalhas
nucleares globais que, acreditava-se firmemente,
podiam estourar a qualquer momento, e devastar a
humanidade. Na verdade, mesmo os que não acre-
ditavam que qualquer um dos lados pretendia ata-
car o outro, achavam difícil não ser pessimistas.
[…] Não aconteceu, mas por cerca de quarenta
anos pareceu uma possibilidade diária.
A peculiaridade da Guerra Fria era a de que, em termos
objetivos, não existia perigo iminente de guerra mun-
dial. Mais que isso: apesar da retórica apocalíptica
de ambos os lados, mas sobretudo do lado america-
no, os governos das duas superpotências aceitaram
a distribuição global de forças no fim da Segunda
Guerra Mundial, que equivalia a um equilíbrio de po-
der desigual mas não contestado em sua essência.
A URSS controlava uma parte do globo, ou sobre ela
exercia predominante influência – a zona ocupada pelo
Exército Vermelho e/ou outras Forças Armadas comu-
nistas no término da guerra –, e não tentava ampliá-la
com o uso de força militar. Os EUA exerciam controle
e predominância sobre o resto do mundo capitalista,
além do Hemisfério Norte e oceanos, assumindo o
que restava da velha hegemonia imperial das antigas
potências coloniais. Em troca, não intervinha na zona
aceita de hegemonia soviética.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos. São Paulo:
Companhia das Letras, 1995. p. 224.
A nova divisão geopolítica do globo relaciona-
va-se diretamente com os acordos e a redefinição
de fronteiras estabelecidos ao fim da Segunda
Guerra Mundial. Isso já havia ocorrido, em parte,
na Conferência de Postdam. Os norte-americanos
ocuparam a porção sul; os soviéticos, o leste; os
franceses, o sudeste; e os ingleses, o noroeste.
A União Soviética conseguiu estabelecer seu
domínio sobre a Bulgária, a Tchecoslováquia, a
Romênia, a Polônia, a Hungria, a Albânia e a parte
leste da Alemanha.
Na porção ocidental da Europa, os Estados
Unidos realizaram fortes investimentos para
recuperar economicamente a região, fazendo
frente ao socialismo soviético. Em 1947, o presi-
dente norte-americano Harry Truman anunciou
o Plano Marshall (referência ao secretário
de Estado George Marshall), posicionando-se
claramente como guardião dos interesses do
mundo capitalista. Essa política foi chamada de
Doutrina Truman. O plano de ajuda financei-
ra aos países europeus afetados pela Segunda
Guerra vigorou até 1951.
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Em 1948, com o fortalecimento econômico da
Alemanha Ocidental, os soviéticos decidiram rea-
lizar um bloqueio terrestre a Berlim em represália
ao esforço norte-americano. A tensão interna-
cional que se constituiu contribuiu para que, no
ano seguinte, fossem criadas as duas Alemanhas:
a República Federal da Alemanha (RFA),
ligada aos países capitalistas, e a República
Democrática Alemã (RDA), sob influência
soviética. A separação foi concretizada em 1961
com a construção do Muro de Berlim, que divi-
diu a cidade alemã em duas partes, uma para
cada Alemanha, evitando a evasão de trabalha-
dores, estudantes, intelectuais e outras pessoas
para a parte ocidental. Pretendiam também con-
trolar o grande contrabando de mercadorias da
parte ocidental para a oriental.
Em 1949, a separação entre os dois grandes
blocos de países na Guerra Fria tornou-se mais
clara com a criação da Organização do Tratado
dos Países do Atlântico Norte (Otan), da
qual faziam parte Canadá, Estados Unidos, Reino
Unido, Dinamarca, Bélgica, Portugal, Itália e
outros países da Europa ocidental em oposição à
União Soviética.
Do lado comunista, criou-se em 1955 o Pacto
de Varsóvia, que unia militarmente Albânia,
Tchecoslováquia, Bulgária, Polônia, Hungria,
Romênia e Alemanha Oriental. Essas nações do
Leste Europeu dominadas pela União Soviética
ficaram conhecidas por “países da cortina de
ferro”. A Revolução Chinesa, consolidada em
1949, acirrou ainda mais a disputa entre os dois
Com base em ARRUDA, José J. de A.
Atlas histórico básico. São Paulo: Ática, 2000. p. 32.
A DIVISÃO DA ALEMANHA EM 1961:
O MURO DE BERLIM
blocos, uma vez que no bloco ocidental capitalista
temia-se cada vez mais a penetração comunista.
Na Ásia, a Coreia, dominada pelo Japão até
1945, foi dividida entre soviéticos e norte-ameri-
canos. A Coreia do Sul manteve-se capitalista,
enquanto a Coreia do Norte foi transformada em
uma república de orientação soviética. Em 1950,
a Coreia do Norte, alimentada pelas disputas
políticas com a Coreia do Sul, promoveu um movi-
mento rebelde que tinha como objetivo unificar
a Coreia sob o comando do governo do norte.
Os norte-americanos intervieram ao lado dos sul-
-coreanos, e os soviéticos e os chineses ao lado
dos norte-coreanos. Em 1953, após enormes gas-
tos de guerra e sem conseguir obter uma solução
negociada para o conflito, a ONU intermediou um
acordo de paz que evitasse o enfrentamento entre
as duas superpotências (Estados Unidos e União
Soviética). Nesse mesmo ano, efetuou-se o armis-
tício entre as duas Coreias, e desde os primeiros
anos do século XXI vários esforços vêm sendo
realizados para uni-las novamente.
Em 1959, a Guerra Fria foi alimentada pela
Revolução Socialista em Cuba, liderada por Fidel
Castro. Em resposta, em 1961 o presidente norte-
-americano John Kennedy (1917-1963) pôs em
ação o plano de invasão da Baía dos Porcos, a
partir de onde uma operação militar, que acabou
por fracassar, pretendia derrubar o governo cuba-
no. Para evitar que a revolução se espalhasse por
alguns países vizinhos, os Estados Unidos cria-
ram um programa de socorro financeiro a esses
países, fortalecendo sua relação com os vizinhos
cubanos. Em 1962, a descoberta da construção
de uma base de mísseis nucleares em Cuba vol-
tados para os Estados Unidos colocou o mundo
às portas de um novo conflito. A situação só foi
solucionada após negociação entre o governante
soviético Nikita Kruschev e o governo dos Estados
Unidos, tendo o primeiro concordado em desistir
de instalar a base de mísseis em Cuba.
Outro episódio relacionado à disputa entre
os blocos hegemônicos foi a Guerra do Vietnã.
Depois de ter lutado contra os franceses entre
1946 e 1954, o Vietnã foi palco de mais uma guerra,
em 1959, que duraria até 1975. Dessa vez foi com
os Estados Unidos. A guerra teve como motivação
inicial a luta entre o Vietnã do Sul e o Vietnã do
Norte, que haviam sido separados em 1954 pelo
Tratado de Genebra, do qual participaram a
União Soviética, a China, os Estados Unidos e
a França. Os conflitos na região relacionavam-
-se mais uma vez com o avanço do socialismo
no norte do país, regime este que a França não
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queria reconhecer como legítimo até a assinatura
do tratado que dividiu o Vietnã em duas regiões: o
norte, de orientação socialista, e o sul, capitalista.
O Tratado de Genebra estabelecia ainda que,
em 1955, haveria uma consulta popular na qual se
decidiria pela reunificação do país ou não. Temendo
o avanço dos comunistas, que recebiam maior
apoio da população, o governo sul-vietnamita, com
o respaldo dos Estados Unidos, implantou uma
ditadura no país e passou a perseguir os opositores
do regime. Ao mesmo tempo, os norte-americanos
começaram a enviar tropas para uma eventual luta
contra o norte. Em 1957, começaram os primeiros
conflitos entre os comunistas do norte e as for-
ças do sul. Dois anos depois, em 1959, os Estados
Unidos entraram definitivamente no conflito contra
os comunistas do norte, liderados por Ho Chi Minh
(1890-1969). No Vietnã do Sul, foi formada a Frente
Nacional de Libertação, sob liderança dos comu-
nistas. Seus integrantes ficaram conhecidos como
vietcongues. Parte dessa organização de guerra
era composta de camponeses voluntários que luta-
vam contra a intervenção norte-americana.
Após 1963, o presidente norte-americano Lyndon
Johnson iniciou o bombardeio aéreo do Vietnã do
Norte, sendo atingida grande parte da população
civil. Foram utilizadas as bombas napalm, que espa-
lham um gel incendiário sobre o alvo. Muitas aldeias
sul-vietnamitas também foram atacadas e destru-
ídas pelos norte-americanos. Apesar do poderio
norte-americano, os vietcongues conseguiram obter
importantes vitórias contra o inimigo. Nos Estados
Unidos, parte da população protestava contra a
presença de tropas norte-americanas no Vietnã.
As manifestações de protesto ocorriam no mesmo
momento que o pacifismo se tornava uma grande
aspiração de parte da juventude mundial. Em 1973,
quando o exército americano não tinha mais como
vencer a guerra, pois havia sido derrotado em várias
batalhas, perdendo domínio territorial, ocorreu o
Acordo de Paris, que previa o início da retirada
de tropas norte-americanas da região. Apesar disso,
ainda houve combates até 1975, quando os vietcon-
gues tomaram Saigon, onde se localizava o núcleo
do governo apoiado pelos Estados Unidos.
Em 1976, houve a reunificação do Vietnã, que
passou a se denominar República Socialista do
Vietnã, sob um governo comunista. Estima-se que o
conflito resultou em mais de 1 milhão de vietnamitas
mortos, além de centenas de milhares de mutilados.
A Guerra Fria estendeu-se por toda a década de
1970 e grande parte da década seguinte. Enquanto
os Estados Unidos mantinham sua hegemonia na
América e na Europa ocidental, a União Soviética
controlava parte da Ásia e grande parte da Europa
oriental. Em todo esse período houve conflitos
regionalizados, nos quais as potências hegemôni-
cas interferiram diretamente ou não. No entanto,
nunca ocorreu um conflito direto entre elas, ainda
que tenham investido tanto em armamentos. Mais
do que a guerra, norte-americanos e soviéticos
queriam manter seus domínios. Para os primeiros,
o socialismo era uma ameaça a ser combatida.
A partir de 1985, quando o governante soviético
Mikhail Gorbachev (1931-) iniciou a reforma eco-
nômica (perestroika, em russo) e a abertura política
(glasnost) do país, começou a se desenhar um qua-
dro favorável ao fim da Guerra Fria. Em 1987, numa
reunião de cúpula com a presença de Gorbachev e
do presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan,
celebrou-se um acordo considerado um marco no
processo de desarmamento. Daí em diante ocorreu a
abertura política em vários países do Leste Europeu,
sendo desmontada a estrutura socialista de governo
e a condução da economia. Iniciaram-se as privati-
zações de empresas e serviços do Estado e a organi-
zação de eleições livres e do pluripartidarismo. Isso
ocorreu na Romênia, na Albânia, na Bulgária e na
Tchecoslováquia, este último dividido em Eslováquia
e República Tcheca. Em 1989, foi iniciado o processo
de reunificação da Alemanha, e o Muro de Berlim,
símbolo da Guerra Fria, foi derrubado após pressão
popular contra o governo ditatorial da Alemanha
Oriental. No ano seguinte, deixou de existir oficial-
mente a divisão entre as duas Alemanhas.
Em 1991, foi a vez de a própria União Soviética,
composta de 15 Estados, deixar de existir. Além
de as reformas iniciadas por Gorbachev terem
aberto espaço para que grupos interessados em
mudanças se manifestassem de maneira mais
incisiva, as deficiências econômicas soviéticas
Táxis e motocicletas passam em área destruída pela guerra
em Cholon, Vietnã, em 6 de outubro de 1968.
Bettmann/Corbis/Latinstock
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provocaram crises de abastecimento e protestos
populares. Juntaram--se a isso os movimentos
separatistas nas repúblicas, que colocavam em
xeque o poder soviético. Em dezembro de 1991,
após a independência da Lituânia, da Ucrânia, da
Letônia e da Estônia, foi proclamado o fim da União
Soviética (fundada pela Revolução Russa em
1917) e, em seu lugar, criada a Comunidade dos
Estados Independentes (CEI). Nesse mesmo
mês, Gorbachev renunciou ao cargo de presidente.
Com isso a Guerra Fria já não tinha mais sentido,
tornando-se hegemônica a economia capitalista
sob a liderança dos Estados Unidos. A própria
Rússia, assim como as repúblicas que se liberta-
ram da União Soviética, tornou-se uma economia
baseada em princípios liberais de mercado.
Jovens comemoram a queda do Muro de Berlim na Alemanha,
em 12 de novembro de 1989.
Peter Turnley/Corbis/Latinstock
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DOCUMENTOS
Leia atentamente os textos a seguir e, em seguida, responda as questões do Roteiro de trabalho.
Programa Nacional Socialista (1920)
1. Exigimos a constituição de uma Grande Alemanha, que congregue todos os alemães com base
no direito dos povos de disporem de si mesmos.
2. Exigimos a igualdade dos direitos do povo alemão com relação às outras nações, a revogação dos
Tratados de Versalhes e de Saint-Germain. […]
4. Somente os cidadãos gozam dos direitos cívicos. Para ser cidadão, é preciso ser de sangue alemão,
pouco importando a confissão. Nenhum judeu pode, pois, ser cidadão. […]
10. O primeiro dever de todo cidadão é trabalhar, física ou intelectualmente. A atividade do indiví-
duo não deve prejudicar os interesses da coletividade, mas inscrever-se no quadro dessa e para
o bem de todos. […]
25. Para conduzir tudo isso a bom termo, exigimos a criação de um poder central forte, a autorida-
de absoluta do Comitê político sobre o conjunto do Reich e de suas organizações, bem como a
criação de Câmaras profissionais e escritórios municipais encarregados da realização […] das leis
básicas promulgadas pelo Reich. […]
KLEIN, Claude. Weimar. São Paulo: Perspectiva, 1995. p. 102-4.
Programa do Partido Nacional Fascista (1921)
Fundamentos
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fascismo constituiu-se em Partido político para reforçar sua disciplina e precisar seu “credo”.
A Nação não é a simples soma dos indivíduos vivos nem o instrumento dos objetivos par-
tidários, mas um organismo que compreende a série indefinida das gerações cujos indivíduos
são elementos passageiros; é a síntese suprema de todos os valores materiais e espirituais da raça.
O Estado é a encarnação jurídica da Nação […].
A Itália deve reafirmar seu direito de realizar sua plena unidade histórica e geográfica, mesmo nos
domínios em que ainda não a realizou; deve preencher sua função de baluarte da civilização latina
no Mediterrâneo; deve impor, de maneira consistente e estável, o domínio da lei sobre os povos de
nacionalidade diferente anexados à Itália; deve proteger energicamente os italianos no exterior, que
devem gozar do direito de representação política. […]
IL POPOLO D’Italia, 27 dez. 1921. In: PARIS, Robert. As origens do fascismo. São Paulo: Perspectiva, 1976. p. 97-8.
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Necessidade da propaganda (1933–1938)
Bertolt Brecht
É possível que em nosso país nem tudo ande
como deveria andar
Mas ninguém pode negar que a propaganda é
boa. […]
Um bom propagandista
Transforma um monte de esterco em local de
veraneio.
Quando não há manteiga, ele demonstra
Como um talhe esguio faz um homem esbelto.
Milhares de pessoas que o ouvem discorrer
sobre as auto-estradas
Alegram como se tivessem carros.
Nos túmulos dos que morreram de fome ou em
combate
Ele planta louros. Mas já bem antes disso
Falava de paz enquanto os canhões passavam.
Somente através de propaganda perfeita
Pôde-se convencer milhões de pessoas
Que o crescimento do Exército constitui obra
de paz
Que cada novo tanque é uma pomba da paz
E cada novo regimento uma prova de
Amor à paz.
Mesmo assim: bons discursos podem conseguir
muito
Mas não conseguem tudo. Muitas pessoas
Já se ouve dizerem: pena
Que a palavra “carne” apenas não satisfaça, e
Pena que a palavra “roupa” aqueça tão pouco.
[…]
BRECHT, Bertolt. Poemas. 1913-1956. 6. ed. São Paulo: Editora 34, 2001. p. 195-7.
1. Compare os programas do Partido Nacional Fascista e os do Partido Nacional Socialista.
Há semelhanças entre eles? Quais?
2. Com base nos programas dos partidos, explique o papel do preconceito étnico e do Estado na
construção do ideário fascista e nazista.
3. No poema “Necessidade da propaganda”, que crítica(s) Bertolt Brecht realiza ao nazismo? Ela(s)
faz(em) sentido nos dias atuais?
Bertolt Brecht (1898-1956) nasceu na Alemanha. Dramaturgo dos mais respeitados do século XX, escreveu peças e poemas com forte
teor político. Defensor das ideias marxistas, deixou seu país de origem quando os nazistas assumiram o poder, em 1933. Dois anos mais
tarde, teve sua cidadania cassada pelo governo de Hitler. Passou os anos seguintes viajando por diversos países, fugindo da perseguição
nazista. Suas peças, como Os fuzis da Senhora Carrar, Terror e miséria do Terceiro Reich e Mãe Coragem e seus filhos, foram escritas com
a intenção de mostrar ao espectador a impossibilidade de permanecer neutro diante do mundo da guerra e das ideologias nazifascistas.
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PONTO DE VISTA
Leia os trechos a seguir, escritos por Eric Hobsbawm, e depois faça o que se propõe no Roteiro de trabalho.
O nacionalismo
Eric Hobsbawm
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ntre as duas guerras, o esporte como um espetáculo de massa foi transformado numa sucessão
infindável de contendas, onde se digladiavam pessoas e times simbolizando Estados-nações,
o que hoje faz parte da vida global. […] Eles simbolizavam a unidade desses Estados,
assim como a rivalidade amistosa entre suas nações reforçava o sentimento de que todos pertenciam
a uma unidade, pela institucionalização de disputas regulares, que proviam uma válvula de escape
para as tensões grupais, as quais seriam dissipadas de modo seguro nas simbólicas pseudolutas. […]
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Entre as guerras, porém, o esporte internacional tornou-
-se […] uma expressão de luta nacional, com os espor-
tistas representando seus Estados ou nações, expressões
fundamentais de suas comunidades imaginadas. Foi nesse
período que […] a Copa do Mundo foi introduzida no
meio futebolístico e, como demonstrou o ano de 1936, que
os Jogos Olímpicos se transformaram indubitavelmente em
ocasiões competitivas de autoafirmação nacional. O que fez
do esporte um meio único, em eficácia, para inculcar senti-
mentos nacionalistas, de todo modo só para homens, foi a
facilidade com que até mesmo os menores indivíduos polí-
ticos ou públicos podiam se identificar como a nação, sim-
bolizada por jovens que se destacavam no que praticamente
todo homem quer, ou uma vez na vida terá querido: ser
bom naquilo que faz. A imaginária comunidade de milhões
parece mais real na forma de um time de onze pessoas com
nome. O indivíduo, mesmo aquele que apenas torce, torna-
-se o próprio símbolo de sua nação. […]
[…] Entre os ex-beligerantes, o nacionalismo, é claro, tinha sido reforçado pela guerra, especial-
mente após a maré de esperança revolucionária ter baixado no início da década de [19]20. O fascismo
e outros movimentos direitistas foram rápidos em explorar isso, fazendo-o, em primeira instância,
para mobilizar os estratos médios, e outros apavorados com a revolução social, contra a ameaça
vermelha que podia ser – especialmente na sua forma bolchevique – rapidamente identificada com
o internacionalismo militante e, o que parece ser a mesma coisa, com um antimilitarismo reforça-
do pelas experiências bélicas em 1914-1918. O apelo de tal propaganda nacionalista era bem mais
eficiente, mesmo entre trabalhadores, à medida que culpava os inimigos, de fora, e os traidores, de
dentro, pelo fracasso ou pela fraqueza. E havia bastante fracasso e fraqueza para serem explicados.
HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. p. 170-2.
As guerras mundiais
Eric Hobsbawm
“As luzes se apagam em toda a Europa”, disse Edward Grey, secretário das Relações Exteriores
da Grã-Bretanha, observando as luzes de Whitehall na noite em que a Grã-Bretanha e a Alemanha
foram à guerra. “Não voltaremos a vê-las acender-se em nosso tempo de vida.” Em Viena, o grande
satirista Karl Kraus preparava-se para documentar e denunciar essa guerra num extraordinário drama-
-reportagem a que deu o título de Os últimos dias da humanidade. Ambos viam a guerra mundial
como o fim de um mundo, e não foram os únicos. […]
A humanidade sobreviveu. Contudo, o grande edifício da civilização do século XX desmoronou nas
chamas da guerra mundial, quando suas colunas ruíram. Não há como compreender o Breve Século XX
sem ela. Ele foi marcado pela guerra. Viveu e pensou em termos de guerra mundial, mesmo quando os
canhões se calavam e as bombas não explodiam. Sua história e, mais especificamente, a história de sua
era inicial de colapso e catástrofe devem começar com a da guerra mundial de 31 anos. […]
Temos como certo que a guerra moderna envolve todos os cidadãos e mobiliza a maioria; é travada
com armamentos que exigem um desvio de toda a economia para a sua produção, e são usados em
quantidades inimagináveis; produz indizível destruição e domina e transforma absolutamente a vida
dos países nela envolvidos. Contudo, todos esses fenômenos pertencem apenas às guerras do século
XX. Na verdade, houve guerras tragicamente destrutivas antes, e mesmo guerras que anteciparam os
esforços totais da guerra moderna, como na França durante a Revolução. […] Apesar disso, antes do
século XX, guerras envolvendo toda a sociedade eram excepcionais. […]
O monstro da guerra total do século XX não nasceu já do seu tamanho. Contudo, de 1914 em
diante, as guerras foram inquestionavelmente guerras de massa. […]
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 30 e 51.
Time de futebol dos Estados Unidos antes
do jogo contra a Itália, em Roma, na Copa
do Mundo de 1934. Havia interesses políticos
em jogo: o fascismo italiano buscava trans-
formar o evento em propaganda pró-regime.
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1. Segundo o primeiro texto, como o futebol e as Olimpíadas se relacionavam com o contexto polí-
tico das primeiras décadas do século XX?
2. Qual é o caráter das duas guerras mundiais para Hobsbawm, no segundo texto? Em que medida
elas foram diferentes das guerras anteriores?
3. Relacione os dois textos. De que maneira o nacionalismo pode ter relação com o caráter das duas
guerras mundiais?
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INTERDISCIPLINARIDADE
O conhecimento científico a serviço da guerra: armas químicas e biológicas
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o longo da história, as epidemias naturais têm provocado mais mortes do que todas as
guerras. Muitos povos, inspirando-se nesse fato, começaram a utilizar substâncias biológi-
cas a fim de provocar mortes e criar condições à invasão de determinadas regiões. Desde a
Antiguidade, há relatos do emprego de venenos, vapores tóxicos, cortinas de fumaça, dispositivos
incendiários e secreções purulentas para aniquilar inimigos.
O uso da bactéria do antraz em cartas postadas nos Estados Unidos, em 2001, após os atentados
terroristas de 11 de setembro, chamou a atenção para os riscos da utilização de substâncias químicas
e seres vivos como armas de guerra, iniciando a era do chamado “terrorismo químico e biológico”.
De produção e armazenamento relativamente fáceis, disseminação rápida, efeito prolongado e
difícil diagnóstico, as bactérias e os vírus usados para a fabricação de armas biológicas geralmente
são altamente contagiosos. Trata-se de microrganismos extremamente letais que podem ser empre-
gados como armas de destruição em massa. Se colocados nos reservatórios de água das cidades,
por exemplo, podem provocar milhares de mortes com enorme velocidade. Também podem levar
a população à fome ou gerar o colapso econômico da região afetada, caso o agente biológico seja
lançado contra criações de animais ou plantações.
O antraz é uma doença quase exclusiva de animais, que ocasionalmente pode infectar o ser
humano. Na forma cutânea, a mais comum, a bactéria entra na pele através de feridas ou picadas de
insetos. Poucos dias após a exposição, surgem pequenas erupções na pele, além de enjoo, febre e
vômitos. Se não for tratada, a doença mata de 5% a 20% dos infectados. Na forma pulmonar, a mais
mortal, o contágio ocorre pelas vias respiratórias. Os sintomas iniciais são semelhantes aos da gripe,
agravando-se progressivamente e levando ao coma e, frequentemente, à morte. Embora o antraz
possa ser tratado com antibióticos, a eficácia do tratamento depende do diagnóstico precoce, o que
é especialmente complicado no caso do antraz pulmonar que, em sua fase inicial, é confundido com
diversas viroses. A prevenção pode ser feita com vacinas, mas estas estão restritas para uso militar e
são de eficácia ainda duvidosa, além de gerarem graves efeitos colaterais.
Especula-se também sobre a possibilidade do uso de outros microrganismos patogênicos ou
de seus esporos como armas biológicas – é o caso da bactéria causadora da peste ou do vírus da
varíola. O caráter altamente contagioso da varíola aumenta os perigos de um ataque biológico,
pois a doença pode ser transmitida por partículas de saliva, mesmo a distâncias consideráveis.
A preocupação com o risco de ataques com o vírus da varíola é reforçada pelo fato de a vacinação ter
sido interrompida em 1980, quando a doença foi considerada erradicada pela Organização Mundial
de Saúde (OMS). Sem a devida imunização, no caso de um ataque, o vírus provavelmente se espa-
lharia com facilidade, o que poderia causar uma epidemia em escala global.
Ao contrário das armas biológicas, utilizadas de modo bastante restrito até o final do século XX, o uso de
armas químicas em campos de batalha se iniciou durante a Primeira Guerra Mundial. Os alemães empre-
garam o gás cloro para obrigar as tropas inimigas a sair da proteção das trincheiras e se expor ao combate
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a céu aberto. O cloro é um gás sufocante, que irrita e resseca as vias respiratórias, levando o organismo a
secretar líquido nos pulmões, o que provoca um edema, que pode levar as vítimas à morte por afogamento.
Os alemães também fizeram uso do gás mostarda, que, além de causar feridas e inchaço das vias respirató-
rias, provoca bolhas e queimaduras na pele e cegueira temporária. Se inalado em grande quantidade, pode
matar. Os franceses responderam com os chamados gases do sangue, o cianeto de hidrogênio e o ácido
prússico. Quando inaladas, as moléculas desses gases unem-se à hemoglobina das hemácias, impedindo-a
de combinar-se com o oxigênio para transportá-lo às células do corpo, o que pode levar à morte por asfixia.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o químico Gerhard Schrader, incumbido da tarefa de desen-
volver inseticidas, acabou sintetizando gases neurotóxicos, produtos altamente mortíferos que
atuam inibindo uma enzima necessária ao controle dos movimentos musculares. Gases desse tipo,
como o zyklon-B, foram empregados em larga escala para matar milhões de judeus nas câmaras dos
campos de extermínio.
Na Guerra do Vietnã, os Estados Unidos empregaram uma substância incendiária denominada
napalm e toneladas de gás lacrimogêneo, que irritam os olhos e as vias respiratórias. Também foram
utilizadas substâncias desfolhantes, os agentes laranja, azul e branco, com o objetivo de destruir
plantações e florestas, principalmente matas fechadas à beira dos rios, facilitando a localização dos
combatentes vietcongues. Trata-se de substâncias que imitam o mecanismo de ação do hormônio do
crescimento vegetal, levando a vegetação a envelhecer e morrer precocemente.
O uso de armas químicas e biológicas é ameaçador. As armas químicas têm a limitação de exigirem
grandes concentrações ou quantidade da substância para matar um grupo significativo de pessoas.
Porém, não há antídoto para a maioria delas, sendo a imediata descontaminação de todas as áreas expos-
tas o único meio efetivo de reduzir os danos aos tecidos do corpo. Já o potencial destrutivo dos seres
vivos vem sendo ampliado por meio da manipulação de seus códigos genéticos, gerando armas com
poder de destruição crescente, para as quais não há vacina ou tratamento.
Embora o desenvolvimento, a produção e a utilização de armas químicas e biológicas sejam proibi-
dos desde 1925 pela Convenção de Genebra, nem todas as nações respeitam os acordos e supõe-se que
vários países tenham acesso a esse tipo de armas. Em 1993, mais de 125 nações assinaram um acordo
que proíbe a fabricação de armas químicas e prevê a eliminação total dos arsenais existentes até 2007.
Contudo muitos países que as possuem recusaram-se a firmar o documento, o que reforça a preocupação
em relação às possibilidades efetivas de utilização desses recursos em um futuro não muito distante…
VOCABULÁRIO
Edema: acúmulo anormal de líquido entre as células de determinado tecido.
Hemácia: célula sanguínea também chamada de glóbulo vermelho, responsável pelo transporte do oxigênio para
todas as células do corpo.
Neurotóxico: que age sobre o sistema nervoso, afetando seu funcionamento normal.
1. Diferentemente dos ataques com armas convencionais, em que as consequências se restringem
às áreas afetadas, a possibilidade de ataques biológicos a determinado país ou região modifica
o conceito de prevenção, uma vez que não se trata de um problema local, mas mundial. Se dis-
seminados em aeroportos, por exemplo, os agentes patogênicos se espalhariam facilmente pelo
planeta e nenhuma medida seria eficaz se não fosse tomada em escala global. Considerando as
peculiaridades das armas biológicas, discuta com seus colegas formas de evitar os desdobra-
mentos de um ataque biológico.
2. A maioria das armas químicas e biológicas disponíveis nos arsenais mundiais foi desenvolvida
originalmente com objetivos não bélicos. Apesar disso, é imenso o potencial de destruição que
se alcançou graças à contribuição dos cientistas.
a) Discuta com seus colegas a relação entre a ciência e a indústria da guerra.
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Geopolítica: mapeando os arsenais bélico-nucleares e efetivos militares atuais
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ual é o papel da posse e manutenção de efetivos militares, arsenais nucleares e de armas
convencionais para as relações de poder no mundo atual? Com a emergência de uma escala
global de relações humanas – em regra, menos guerreira e mais apoiada no poder econô-
mico das corporações transnacionais e de Estados nacionais – os gastos e efetivos militares
hoje são relativamente mais baixos do que no período da Guerra Fria. O fim do confronto leste-oeste
levou a uma redução nos gastos com armamentos.
Entretanto, dados publicados em 2012 pelo Instituto de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (Sipri),
revelam aumento de 24% no comércio internacional de armas entre 2007 e 2011.Os Estados Unidos
permanecem como o maior exportador mundial, seguido de Rússia, Alemanha, França e Grã-Bretanha.
A Índia se tornou o país que mais importa armas no mundo, seguida de Coreia do Sul, Paquistão,
China e Cingapura. Os dados mostram que, embora sejam hoje residuais, permanecem rivalidades
históricas entre Estados nacionais, caso do embate entre Índia e Paquistão. Mas os gastos também
decorrem de cenários geopolíticos marcados por ações do terrorismo internacional e dos circuitos e
redes ilegais (como o narcotráfico) e por confrontos armados em países ou regiões – caso das guerras
civis e disputas políticas internas aos países, hoje o tipo de conflito predominante no mundo.
A questão das armas nucleares tem sido marcada pela redução com manutenção de grandes
arsenais pelos Estados Unidos e da Rússia (herdeira da maior parte do arsenal soviético) e tensões
envolvendo o Irã e a Coreia do Norte.
EVOLUÇÃO DOS GASTOS MILITARES (1988-2011)
(Em bilhões de dólares constantes de 2010 – escala logarítmica)
b) Depois responda: Existe a “neutralidade” da ciência em relação às questões políticas defen-
didas por muitos cientistas? Justifique.
3. Qual deveria ser o papel de organismos multinacionais como o Conselho de Segurança da ONU
no que se refere ao uso de armas químicas e biológicas? Investigue no site da ONU (<www.onu
-brasil.org.br>) a posição dessa entidade em relação a essas questões.
Examine o gráfico e o mapa a seguir, sobre as armas de destruição em massa.
Com base em Atelier de Cartographie de SciencesPo-France. Disponível em:
<http://cartographie.sciences-po.fr/fr/nucl-aire-prolif-ration-et-d-sarmement-2010>. Acesso em: 27 maio 2013.
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1. O que se pode afirmar sobre a posse de ogivas e armas nucleares em geral no mundo atual?
Associe os dados aos contextos geopolíticos que envolvem os países.
2. Com base nos dados, comente a posição do Brasil, Argentina, Irã, Índia, Paquistão e Israel quanto
ao desenvolvimento de armas nucleares.
3. A partir dos dados, o que se pode concluir a respeito da evolução dos gastos militares ao longo das
duas últimas décadas?
4. O que a evolução dos gastos militares e dos arsenais bélico-nucleares pode representar para as
relações entre os Estados nacionais e paz mundial no presente momento? Escreva um texto com
suas opiniões a respeito dessa questão.
Armas nucleares foram usadas somente duas vezes, ambas pelos Estados Unidos contra o Japão, em agosto de 1945. A partir
daí, houve mais de 2 mil testes de armas nucleares: 530 na atmosfera ou debaixo da água, e mais de 1 500 debaixo da terra. Em
1999, o Senado norte-americano rejeitou um acordo para banir todos os testes nucleares, o qual foi assinado por 150 governos.
Levantamentos independentes feitos a partir de inspeções de saúde na Polinésia mostraram câncer, crianças nascidas mortas
(natimortos) e deformidade em bebês habitantes das ilhas após testes nucleares. Testes debaixo do solo na região envenenaram o
estoque pesqueiro, destruíram o suprimento local de alimentos, assim como o meio de vida, e forçaram os povos nativos a se mudar.
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RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

Antes de escolher a alternativa correta de cada
teste, faça uma leitura dos enunciados e das alterna-
tivas verificando quais expressões ou assuntos você
desconhece ou sobre quais tem dúvidas. Em segui-
da, procure selecionar uma alternativa, mesmo igno-
rando essa informação. Por fim, pesquise o assunto
que não era conhecido e certifique-se de sua impor-
tância ou não para se chegar à resposta correta.
1. (UFPE-PE) Sobre o período compreendido entre
a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, assinale
a alternativa correta.
PROLIFERAÇÃO E DESARMAMENTO NUCLEAR
Com base em Atelier de Cartographie de SciencesPo-France. Disponível em:
<http://cartographie.sciences-po.fr/fr/nucl-aire-prolif-ration-et-d-sarmement-2010>. Acesso em: 27 maio 2013.
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do nazismo, na Alemanha, e do fascismo, na Itá-
lia, Espanha e Portugal.
A atuação desses movimentos juvenis caracteri-
zava-se
a) pelo sectarismo e pela forma violenta e radical
com que enfrentavam os opositores ao regime.
b) pelas propostas de conscientização da popula-
ção acerca dos seus direitos como cidadãos.
c) pela promoção de um modo de vida saudável,
que mostrava os jovens como exemplos a seguir.
d) pelo diálogo, ao organizar debates que opu-
nham jovens idealistas e velhas lideranças
conservadoras.
e) pelos métodos políticos populistas e pela
organização de comícios multitudinários.
4. (Uece-CE) A Guerra Civil Espanhola é conside-
rada por muitos autores como um “ensaio para a
Segunda Guerra Mundial”. Assinale a alternativa
que indica corretamente esta ideia:
a) ao experimentarem novas armas, em mãos
espanholas, tanto americanos quanto soviéti-
cos testaram seu poderio militar em estraté-
gias modernas de guerra.
b) o conflito político espanhol, ao colocar lado
a lado liberais e anarquistas, atestou a pos-
sibilidade de união desses grupos contra a
expansão da URSS.
c) a intervenção dos fascistas italianos e dos
nazistas alemães contra as forças republica-
nas espanholas serviu de teste para as armas
que seriam usadas contra os aliados.
d) a vitória do general Franco serviu para
demonstrar a fragilidade das armas e da
diplomacia alemãs.
5. (UFSC-SC) Assinale a(s) proposição(ões)
referente(s) à ONU (Organização das Nações
Unidas) e à Guerra Fria.
(01) Encerrados os conflitos militares da II Guerra
Mundial, representantes de cerca de 50 nações
assinaram a carta das Nações Unidas, na
Conferência de São Francisco.
(02) Os instrumentos de persuasão da ONU têm sido
suficientes para garantir a paz mundial, o desar-
mamento e o respeito aos direitos humanos.
(04) Alguns países uniram-se aos EUA e assinaram
o Pacto do Atlântico. Outras nações aliaram-
-se à URSS em torno do Pacto de Varsóvia.
(08) A tensão entre União Soviética e EUA foi bati-
zada com a expressão Guerra Fria, fenômeno
que agrupou outras nações em torno de cada
uma das duas potências, de acordo com inte-
resses econômicos, políticos e militares.
(16) Registrou-se, na Carta das Nações Unidas, que
a ONU teria, entre outras finalidades, a de pro-
mover, garantir e tutelar a paz mundial, o desar-
mamento das nações e os direitos dos homens.
a) Apesar da vitória alcançada na Primeira Guerra,
os países em que as democracias liberais domina-
vam não conseguiram evitar a crise generalizada
diante da desorganização econômica europeia.
b) Após a Primeira Guerra, a Itália e a Alemanha
passaram a viver um período de muito desen-
volvimento e fortalecimento da ordem demo-
crática interna.
c) O fascismo italiano e o nazismo alemão cres-
ceram com o apoio exclusivo dos militares, já
que a burguesia por sua tradição sempre foi
defensora das instituições liberais.
d) Após a Primeira Guerra, cresceram os discur-
sos em favor da volta à monarquia, associada
à Igreja Católica, a quem a população deveria
subordinar-se totalmente, para alcançar a
ordem e a prosperidade geral.
e) Uma das estratégias utilizadas pelo fascismo na
Itália, como pelo nazismo na Alemanha, foi a tole-
rância em relação a todos que lhe faziam oposição.
2. (UEL-PR) Com base nos conhecimentos sobre
a crise econômica mundial do período de 1929,
considere as afirmativas a seguir.
I. Após a Primeira Guerra Mundial, as nações
derrotadas, como a Alemanha e a Áustria,
foram auxiliadas em sua reconstrução econô-
mica pelas potências vencedoras, Inglaterra
e França, com pesados investimentos nos
setores de energia e siderurgia.
II. O impacto da Crise de 1929 foi mundial, esten-
dendo-se dos Estados Unidos para todos os
países capitalistas, desenvolvidos ou não.
III. O excesso de intervenção dos Estados
Nacionais na economia foi a principal causa
da Grande Depressão, ao desestimular o cres-
cimento econômico da iniciativa privada.
IV. Nos Estados Unidos, a Grande Depressão
começou a ser combatida através do New Deal,
política pela qual o Estado Nacional interveio
na economia, injetando recursos públicos em
reformas sociais e econômicas bem como dis-
ciplinando as relações capitalistas.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
b) Somente as afirmativas I e III são corretas.
c) Somente as afirmativas II e IV são corretas.
d) Somente as afirmativas I, III e IV são corretas.
e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.
3. (ENEM) Os regimes totalitários da primeira me-
tade do século XX apoiaram-se fortemente na
mobilização da juventude em torno da defesa de
ideias grandiosas para o futuro da nação. Nesses
projetos, os jovens deveriam entender que só ha-
via uma pessoa digna de ser amada e obedecida,
que era o líder. Tais movimentos sociais juvenis
contribuíram para a implantação e a sustentação
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THESAURUS
ROTEIRO DE TRABALHO
1. Levando em consideração os muitos anos de guerra que o século XX enfrentou, em que medida
a criação da ONU pretendia fornecer diretrizes para que se evitassem novos conflitos? Utilize
elementos da Carta das Nações Unidas para formular sua resposta.
2. Faça uma pesquisa a respeito da atuação da ONU nos conflitos internacionais ocorridos nos últi-
mos anos. Podemos fazer referência à Guerra da Bósnia, à Guerra do Golfo, aos conflitos entre
israelenses e palestinos e à Guerra do Iraque. Em que medida a ONU consegue, na atualidade,
lutar pela paz mundial e cumprir com os objetivos estipulados em 1945?
RELEITURA
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termo “Nações Unidas” foi utilizado pela primeira vez pelo presidente norte-americano
Franklin Roosevelt, na Declaração das Nações Unidas, em janeiro de 1942. O objetivo era
garantir um acordo entre representantes de 26 nações, para continuar a luta contra o Eixo
(Alemanha, Itália e Japão) na Segunda Guerra Mundial. Ao final do conflito, em 1945, represen-
tantes de cinquenta países se reuniram em São Francisco, Estados Unidos, para uma conferência
internacional, visando à assinatura de uma “Carta das Nações Unidas”. A união se consolidou no dia
24 de outubro desse mesmo ano, data oficial da criação da Organização das Nações Unidas (ONU),
quando 51 nações ratificaram a Carta, na condição de Estados-membros fundadores. Com a união
consolidada, as nações se comprometiam a manter a paz, depois do resultado catastrófico das duas
grandes guerras, e as relações amigáveis. A criação da ONU ainda pretendia trabalhar para erradicar
a pobreza e melhorar as condições de vida de todos os habitantes do planeta. Hoje a organização
conta com 189 Estados-membros, que se reúnem em Assembleia Geral, com igual direito de voto.
A sede das Nações Unidas está instalada em Nova York, mas é considerada território internacional.
Agora vamos refletir sobre o papel da ONU nas guerras que ocorreram após sua criação. Para isso,
leia os trechos da Carta das Nações Unidas e siga as instruções do Roteiro de trabalho.
Carta das Nações Unidas (documento de fundação da ONU, em 1945)
Art. 1.º Os objetivos das Nações Unidas são:
1. Manter a paz e a segurança internacionais e para esse fim: tomar medidas coletivas eficazes para prevenir e
afastar ameaças à paz e reprimir os atos de agressão, ou outra qualquer ruptura da paz e chegar, por meios
pacíficos, e em conformidade com os princípios da justiça e do direito internacional, a um ajustamento
ou solução das controvérsias ou situações internacionais que possam levar a uma perturbação da paz;
2. Desenvolver relações de amizade entre as nações baseadas no respeito do princípio da igualdade
de direitos e da autodeterminação dos povos, e tomar outras medidas apropriadas ao fortaleci-
mento da paz universal;
3. Realizar a cooperação internacional, resolvendo os problemas internacionais de caráter econômico,
social, cultural ou humanitário, promovendo e estimulando o respeito pelos direitos do homem e
pelas liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião;
[…]
Art. 55. Com o fim de criar condições de estabilidade e bem-estar, necessárias às relações pacíficas
e amistosas entre as Nações, baseadas no respeito do princípio da igualdade de direitos e da autode-
terminação dos povos, as Nações Unidas promoverão:
a) a elevação dos níveis de vida, o pleno emprego e condições de progresso e desenvolvimento eco-
nômico e social;
b) a solução dos problemas internacionais econômicos, sociais, de saúde e conexos, bem como a
cooperação internacional, de caráter cultural e educacional;
c) o respeito universal e efetivo dos direitos do homem e das liberdades fundamentais para todos,
sem distinção de raça, sexo, língua ou religião.
Organização das Nações Unidas – Portugal. Disponível em: <www.fd.uc.pt/hrc/enciclopedia/onu/textos_onu/cnu.pdf>.
Acesso em: 1 jun. 2013.
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BERTOLLE FILHO, Cláudio; MEIHY, José Carlos Sebe Bom. A Guerra Civil Espanhola. São Paulo: Ática, 1996.
Este livro mostra que a Guerra Civil Espanhola não foi apenas um ensaio para a Segunda Guerra Mundial, mas um con-
flito político-ideológico. De um lado, os republicanos, os comunistas e os anarquistas. De outro, a falange de Franco,
com o apoio de Hitler e Mussolini.
BRENER, Jayme. A Primeira Guerra Mundial. 2. ed. São Paulo: Ática, 2000.
O livro faz uma síntese da Primeira Guerra Mundial desde sua raízes até a assinatura do Tratado de Versalhes.
CHIARETTI, Marco. Segunda Guerra Mundial. 3. ed. São Paulo: Ática, 1998.
O livro apresenta uma síntese da Segunda Guerra Mundial, desde a origem do nazifascismo até a Guerra Fria.
LENHARO, Alcir. Nazismo: o triunfo da vontade. São Paulo: Ática, 1998.
O livro retoma os antecedentes do nazismo na Alemanha, como a República de Weimar e a ascensão de Hitler. Sua
principal diferença diante de outros paradidáticos sobre o tema está em analisar a importância da propaganda e da
estetização da política para a manutenção do governo nazista.
REMARQUE, Erich Maria. Nada de novo no front. São Paulo: LP&M, 2004.
Publicado pela primeira vez em 1929, o livro ficou conhecido por inaugurar uma tradição pacifista na literatura moder-
na ocidental. Narra a história de Paul Baumer, um jovem humilde que é convencido pela família e pelos professores a
largar os estudos e a lutar na Primeira Guerra Mundial. Baseado nas memórias do próprio autor, relata os horrores dos
campos de batalha e das trincheiras, onde meninos perdem suas vidas e juventude.
A lista de Schindler. Direção de Steven Spielberg. Estados Unidos, 1993. (195 min).
O filme, baseado em fatos reais, mostra a trajetória de Oskar Schindler, que, ao comprar uma indústria falida em 1939,
na Polônia dominada pela Alemanha nazista, utiliza suas relações com oficiais de Hitler para recrutar prisioneiros
judeus como trabalhadores. No entanto, quando as execuções em massa se tornaram evidentes, ele passa a interceder
a favor de seus operários.
A onda. Direção de Dennis Gansel. Alemanha, 2008. (101 min).
Professor propõe aos alunos a realização de uma atividade que coloque em prática princípios próprios de governos
totalitários. A proposta, no entanto, acaba por dar origem a um movimento real entre os estudantes que o professor
não consegue frear.
Apocalypse now. Direção de Francis Ford Coppola. Estados Unidos, 1979. (153 min).
O filme se passa durante a Guerra do Vietnã. Um capitão do exército norte-americano recebe a missão de resgatar um
coronel de seu exército que teria enlouquecido e formado uma comunidade na selva. No entanto, ao longo da busca, o
capitão e seus soldados conhecem as atrocidades e os horrores da guerra.
A queda – as últimas horas de Hitler. Direção de Oliver Hirschbiegel. Alemanha/Itália, 2004. (156 min).
Narra os últimos dias de Hitler, que estava confinado em um local de segurança máxima.
Arquitetura da destruição. Direção de Peter Cohen. Suécia, 1992. (121 min).
O documentário é um dos melhores estudos sobre o nazismo. Apresenta a trajetória de Hitler e de seus principais
colaboradores rumo ao objetivo de embelezar o mundo, gerando uma arquitetura de destruição para uma reconstrução.
Destaque para a importância da propaganda e do cinema na constituição da ideologia nazista.
Nós que aqui estamos por vós esperamos. Direção de Marcelo Masagão. Brasil, 1998. (55 min).
O filme faz um retrato do século XX com imagens de arquivos, fragmentos de documentários e obras clássicas do
cinema. A abordagem engloba tanto os grandes personagens quanto os homens comuns, colocando o cotidiano e as
transformações da vida humana no centro da história.
O grande ditador. Direção de Charles Chaplin. Estados Unidos, 1940. (128 min).
Em seu primeiro filme falado, Chaplin interpreta um barbeiro judeu que é sósia do ditador Hynkel e acaba sendo con-
fundido com ele. O filme é uma sátira ao ditador Adolph Hitler, realizado em plena ascensão do líder nazista (1940).
Operação Valquíria. Direção de Bryan Singer. Alemanha/Estados Unidos, 2008. (121 min).
Conta a história de um coronel alemão que lidera uma conspiração para matar Hitler em 1944. O grupo organiza também
um plano para governar a Alemanha após a morte de Hitler.
O pianista. Direção de Roman Polanski. Inglaterra/Polônia, 2002. (148 min).
Baseado na história real do pianista Wladyslaw Szpilman durante a ocupação alemã da Polônia na Segunda Guerra
Mundial, o filme retrata a vida da população judia no gueto de Varsóvia.
Grandes guerras. Disponível em: <www.grandesguerras.com.br>. Acesso em: 19 abr. 2013.
Site sobre os grandes conflitos mundiais do século XX, traz cronologias, relatos e artigos, além das últimas novidades
em publicação e pesquisas.
Segunda Grande Guerra. Disponível em: <pt.worldwar-two.net/index.php>. Acesso em: 19 abr. 2013.
Traz mapas, vídeos, biografias, textos e muitas informações sobre a Segunda Guerra Mundial.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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A República varguista: da
Revolução de 1930 ao Estado Novo
CAPÍTULO 5
O
poder oligárquico predominou sobre a vontade popular durante a Primeira
República (1889-1930). Ao mesmo tempo, os anos 1920 e 1930 foram marcados
pela ascensão e pelo predomínio de regimes totalitários na Europa. A crença
em um Poder Executivo forte também esteve presente no Brasil dos anos 1930,
quando se instalou um governo ditatorial, eliminando a possibilidade de a população
escolher seus representantes e participar diretamente da vida política.
Nesse período, a indústria nacional sofreu forte impulso e o rádio tornou possível
que o presidente da República Getúlio Vargas discursasse em cadeia
nacional, a partir de 1938, no programa Hora do Brasil. Dali em dian-
te, podia-se falar para as massas de maneira muito ampla, criando
uma relação mais direta entre governante e governados. Grandes
comícios, festivais populares, controle da imprensa e propaganda
exagerada passaram a ser ingredientes essenciais da política.
Getúlio Vargas desfila no Estádio São
Januário (RJ) em 7 de setembro de
1943. Procurava-se construir a imagem
de um líder popular, ainda que gover-
nasse sob uma ditadura. Tratava-se de
criar a imagem de um Estado doador,
que trabalhava para o bem-estar da
população, embora não permitisse sua
participação nas decisões políticas.
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LINHA DO TEMPO
1930 ¬ O Movimento Revolucionário de 1930 depõe
Washington Luís, e Getúlio Vargas assume
o poder; criação do Ministério do Trabalho;
criação do Conselho Nacional do Café (CNC)
com o intuito de promover a compra e a
estocagem do produto para amenizar a crise
no setor.
1932 ¬ Formação da Frente Única Paulista; Revolução
Constitucionalista em São Paulo; criação
da Ação Integralista Brasileira, tendo
Plínio Salgado como principal líder; Vargas
institui um Código Eleitoral: introdução do
voto secreto, do voto feminino e da Justiça
Eleitoral.
1934 ¬ Promulgação da nova Constituição federal;
eleição de Getúlio Vargas pelo Congresso
como presidente constitucional.
1935 ¬ Fundação da Aliança Nacional Libertadora
(ANL), tendo Luís Carlos Prestes como
presidente de honra. Fracasso da Intentona
Comunista em Natal, no Recife e no Rio de
Janeiro.
1936 ¬ Criação da Comissão de Repressão ao
Comunismo.
1937 ¬ Fundação da UNE; o governo divulga o
Plano Cohen, pelo qual se alegou a intenção
comunista em assumir o poder; golpe que
instalou o Estado Novo; nova Constituição é
apelidada de Polaca, referência à inspiração
parcial nas constituições fascistas da Itália e
da Polônia.
1938 ¬ Intentona Integralista tenta derrubar o poder
de Vargas; criação do programa Hora do Brasil.
No texto “O que é cidadania?” (na página 85), de Maria de Lourdes Manzini-
Covre, lemos:
Só existe cidadania se houver a prática da reivindicação, da apropriação de espaços,
da pugna [luta] para fazer valer os direitos do cidadão. Neste sentido, a prática da
cidadania pode ser a estratégia, por excelência, para a construção de uma sociedade
melhor. Mas o primeiro pressuposto dessa prática é que esteja assegurado o direito
de reivindicar os direitos, e que o conhecimento deste se estenda cada vez mais a
toda a população.
MANZINI-COVRE, Maria de Lourdes. O que é cidadania? São Paulo: Brasiliense, 1991. p. 10-1.
Veremos que, no caso do Brasil dos anos 1930 a 1945, não se criaram essas condi-
ções que favorecem o desenvolvimento da cidadania; ao contrário, elas foram grada-
tivamente eliminadas.
História de um governo, caricatura de
Belmonte representando Getúlio Vargas,
publicada no jornal Folha da Manhã, em
22 de julho de 1937.
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CONTEXTO
O fim do predomínio da oligarquia
cafeeira e o governo Vargas
Com o apoio dos tenentes e da oligarquia
mineira, rompendo-se assim a política do café
com leite, Getúlio Vargas tomou o poder em
novembro de 1930, tornando-se presidente do
Brasil. Instalado o governo provisório, iniciou-se
um programa de reformas institucionais no país.
Primeiramente se procurou fortalecer o governo
federal e limitar o poder das oligarquias esta-
duais. Para isso, foram nomeados interventores
em substituição aos governadores nos estados.
A partir de então, os estados ficariam também
proibidos de contrair empréstimos no exterior sem
autorização do governo federal.
Nesse processo de centralização administra-
tiva, o governo federal ainda tomou as rédeas
da política cafeeira. Foram criados órgãos que
centralizavam a política do café. Primeiro foi fun-
dado o Conselho Nacional do Café, em 1930,
e três anos depois o Departamento Nacional
do Café. Esses órgãos coordenaram a compra de
parte dos estoques pelo governo, intervieram no
mercado e no processo de produção. Parte desses
estoques foi queimada para sustentar o preço do
produto no mercado internacional. Dessa forma,
o governo conseguiu o apoio dos cafeicultores e
encontrou uma saída para essa atividade econô-
mica que sofria gravemente desde a crise econô-
mica mundial de 1929, quando ocorreu a quebra
da Bolsa de Nova York.
Logo que assumiu a presidência, Getúlio criou o
Ministério do Trabalho, Comércio e Indústria
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1939 ¬ Criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).
1940 ¬ Começa a vigorar a lei do salário mínimo.
1941 ¬ Fundação da Companhia Siderúrgica Nacional e início da construção da usina em
Volta Redonda.
1942 ¬ Criada a Companhia Vale do Rio Doce; o governo brasileiro declara guerra às
potências do Eixo.
1943 ¬ Aprovação da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho); funcionamento da Fábrica
Nacional de Motores e da Fábrica Nacional de Álcalis, ambas indústrias estatais.
1945 ¬ Confirmação oficial da convocação para as eleições; renúncia de Getúlio Vargas;
governo provisório de José Linhares; Eurico Gaspar Dutra vence as eleições à
Presidência da República.
não só com a finalidade de promover a indústria,
mas também de criar leis de proteção ao traba-
lhador. Mais uma vez, dentro da lógica de centra-
lização do poder, buscou proteger o trabalhador,
porém reprimindo os movimentos contestatórios e
as organizações de classe que pudessem se opor às
suas diretrizes políticas. Nesse período, criou a lei
que concedia o direito de férias aos trabalhadores e
fixava a jornada de trabalho em oito horas diárias.
Em contraposição à estrutura eleitoral da
Primeira República, em 1932 ocorreu uma reforma
eleitoral que introduziu o voto feminino, determi-
nou que o título de eleitor tivesse fotografia, a fim
de inibir fraudes, e reduziu para 18 anos a idade
mínima para votar.
Também os sindicatos tiveram sua atuação res-
tringida. Adotou-se o princípio da unicidade sindi-
cal, o qual determinava que o Estado reconheceria
somente um sindicato para cada categoria. Além
disso, direitos trabalhistas como férias só teriam
validade para as categorias sindicalizadas nos
termos propostos pelo governo federal. Com isso,
Vargas começava a destruir a base de luta operária
constituída nas décadas anteriores, mantendo o
sindicalismo atrelado às decisões do Estado. Por
último, destinou recursos à industrialização do país,
conquistando o apoio desse setor da economia.
Os tenentes que haviam apoiado a Revolução de
1930 formularam um programa no qual defendiam
a industrialização do país e a centralização do
poder. Abandonaram parte do ideário liberal que
sustentavam nos anos 1920 e passaram a identi-
ficar no Estado forte o grande meio para atingir o
progresso e maior igualdade social. Nesse sentido,
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Berta Lutz em campanha pelo voto feminino, no início da década de 1930. Berta Lutz nasceu em 1894 e
formou-se zoóloga na França. Líder feminista, foi defensora do voto feminino e dos direitos jurídicos da mu-
lher. Organizou o I Congresso Feminista no Brasil nos anos 1920. Depois da criação do voto feminino, em 1932,
candidatou-se a uma vaga na Assembleia Constituinte de 1934, mas não foi eleita. A única mulher a participar
dos trabalhos constituintes foi a paulista Carlota Pereira de Queirós. Em 1936, Berta Lutz assumiu o cargo de
deputada como suplente de Cândido Pessoa, que havia morrido. Faleceu em 1976.
deixaram de defender a democracia como forma de
organização política e apoiaram a construção de
um governo fundado no autoritarismo.
Para os tenentes, a sociedade deveria ser orga-
nizada em associações profissionais, denomina-
das corporações, as quais deveriam fundamentar
a ação do Estado. Assim se poderiam reduzir as
tensões entre as classes sociais, construindo um
quadro de harmonia social garantido pela autori-
dade do Estado.
Esse grupo de tenentes atuou com Vargas nos
primeiros anos do novo governo, principalmente
na luta contra as velhas oligarquias. Vários inter-
ventores nomeados no Nordeste eram ligados ao
tenentismo. Contudo não tiveram sucesso nessa
empreitada e foram obrigados, na maioria dos
casos, a estabelecer acordos regionais.
A Revolução Constitucionalista
de 1932
O estado de São Paulo foi politicamente o
maior derrotado da Revolução de 1930. Ao se
posicionar contra a supremacia da elite paulista, a
Aliança Liberal lançou Getúlio Vargas como candi-
dato em 1929 e articulou-se com os tenentes para
forçar a saída de Washington Luís.
Uma das maneiras de recolocar-se politica-
mente no cenário nacional seria a convocação de
uma Constituinte, pois, dessa forma, as antigas
oligarquias poderiam construir alianças que ela-
borassem uma Constituição mais favorável aos
seus interesses. As relações entre a elite paulis-
ta e o governo federal tornaram-se ainda mais
hostis, quando o líder tenentista João Alberto foi
nomeado interventor de São Paulo por Getúlio. Ele
não representava os interesses das oligarquias,
sendo totalmente rechaçado.
Em 1931, organizou-se um movimento no esta-
do exigindo a deposição do interventor e a convo-
cação de uma Constituinte, o que Vargas adiava
sistematicamente. Sem ter suficiente legitimi-
dade para governar, João Alberto renunciou ao
cargo em julho de 1931. Vários outros intervento-
res se sucederam, mas nenhum deles conseguiu
permanecer por muito tempo no poder.
Para enfrentar o governo federal, a elite pau-
lista criou a Frente Única Paulista (FUP),
que reunia o Partido Democrático (PD) e o
Partido Republicano Paulista (PRP). Estes
reivindicavam, mais uma vez, a convocação de
uma Constituinte e exigiam maior autonomia
para os estados. Queriam a constitucionaliza-
ção do regime e o retorno ao modelo liberal.
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THESAURUS
I
Nem mesmo a aprovação do Código Eleitoral
(introdução do voto secreto, do voto feminino e
da Justiça Eleitoral) em 1932 serviu para acal-
mar os ânimos, visto que o governo sinalizava
para o fato de que poderia haver eleições em
um futuro próximo. A oposição aos tenentes não
mais se restringia ao âmbito das elites, uma vez
que grande parte da população de São Paulo
também os hostilizava.
Em março de 1932, houve o rompimento dos
paulistas com o governo federal. Não foi sufi-
ciente também a nomeação do paulista Pedro de
Toledo como interventor para evitar o conflito, até
porque este gozava de pouco prestígio entre as
elites. Após a morte de quatro jovens, Miragaia,
Marcondes, Dráusio e Camargo, que foram bale-
ados quando tentavam invadir a sede de um
jornal tenentista, formou-se o grupo denominado
MMDC – as iniciais dos nomes das vítimas ser-
viram para compor o nome do grupo daqueles
que eram favoráveis à solução armada contra
as decisões do governo federal.
O forte envolvimento da população paulista com
a Revolução Constitucionalista de 1932 fez
com que até as crianças fossem vestidas com
uniformes de combatentes, simbolizando a forte
união contra o governo federal.
Cartaz do MMDC de
1932 convocando a
população para par-
ticipar da luta contra
o governo central.
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Em 9 de julho de 1932 rebentou o conflito, sob
a liderança dos generais Bertoldo Klinger, Isidoro
Dias Lopes e Euclides Figueiredo, que faziam
oposição a Vargas. Era a chamada Revolução
Constitucionalista de 1932. Com o apoio da
população, pretendiam realizar um ataque relâm-
pago à sede da República, obrigando o presiden-
te a deixar o cargo ou a abrir negociação com
os revoltosos. Apesar da intensa participação da
população, que chegou a doar dinheiro e joias para
o movimento, o plano paulista fracassou, uma vez
que não havia força militar suficiente para enfren-
tar as forças legais. A Marinha bloqueou o Porto de
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Santos e os rebeldes ficaram isolados, não rece-
bendo apoio dos estados que inicialmente haviam
se solidarizado com a causa paulista.
Em setembro de 1932, as tropas governistas
já haviam ocupado várias cidades do estado,
obrigando os representantes da força pública de
São Paulo a se render no dia 1.º de outubro daque-
le ano, encerrando-se a jornada revolucionária.
Apesar da derrota, em 1933 foi nomeado um inter-
ventor paulista, Armando de Salles Oliveira, que
lançou um programa para reduzir as dívidas dos
agricultores. Foi também convocada a Assembleia
Constituinte, outra reivindicação paulista.
A Constituinte e a
Constituição de 1934
Em 1933, o Governo Provisório deu início ao
processo de constitucionalização do regime ini-
ciado em 1930. Já não contava com o apoio
direto do movimento tenentista, que perdia sua
força política. Os tenentes eram contra uma
Assembleia Constituinte naquele momento.
O historiador Antonio Paulo Rezende explica:
As divergências entre os tenentes e as oligar-
quias vão criando obstáculos para Getúlio Vargas,
dificultando-lhe a efetivação de seu governo.
Os tenentes não conseguiam manter uma unidade
política e valiam-se muitas vezes da força militar
para impor seus projetos, entrando em choque
com as oligarquias, que eram, na verdade, o setor
de onde Vargas tinha saído. Aos poucos Vargas pro-
curou esvaziar as ações dos tenentes no governo e
retomar suas alianças políticas.
REZENDE, Antonio Paulo. Uma trama revolucionária: do te-
nentismo à Revolução de 30. 6. ed. São Paulo: Atual, 1990. p. 14.
Ainda em 1933 foram eleitos 214 deputados
e escolhidos 40 representantes classistas elei-
tos por sindicatos legalmente reconhecidos
pelo Ministério do Trabalho e que comporiam a
Constituinte. Grande parte dos eleitos tinha o
apoio das oligarquias regionais e seguia as diretri-
zes impostas por Vargas.
Em julho de 1934, a nova Constituição foi pro-
mulgada. Ela ampliou o poder do governo federal e
Plenária da Assembleia Nacional Constituinte, no Rio de
Janeiro (RJ), 1934. Na foto, a única mulher eleita, Carlota
Pereira de Queirós.
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restringiu a autonomia dos governos estaduais.
Para impedir as fraudes e organizar as futuras elei-
ções, foi criada a Justiça Eleitoral, que centralizaria
todo o processo. Criou-se também a Justiça do
Trabalho para regular as relações trabalhistas entre
patrões e empregados. Em seu artigo 121, garantia:
A lei promoverá o amparo da produção e estabe-
lecerá as condições do trabalho, na cidade e nos
campos, tendo em vista a proteção social do traba-
lhador e os interesses econômicos do país.
Nesse sentido, definia a existência de um
salário mínimo, trabalho diário não excedente a
oito horas, férias anuais remuneradas e a proi-
bição do trabalho de menores de 14 anos, entre
outras determinações. Com apelo nacionalista, a
Constituição ainda fazia referência ao processo
de nacionalização de bancos, empresas de segu-
ro, minas, jazidas minerais e quedas-d’água.
No item dedicado à família, à educação e à cul-
tura, colocava-se o casamento como indissolúvel,
estando sob a proteção do Estado. A educação pas-
sou a ser vista como obrigação do Estado, devendo
ser oferecido curso primário gratuito aos cidadãos.
O artigo 148 da Constituição de 1934 determinava:
Cabe à União, aos Estados e aos Municípios favo-
recer e animar o desenvolvimento das ciências,
das artes, das letras e da cultura em geral, proteger
os objetos de interesse histórico e o patrimônio
artístico do país, bem como prestar assistência ao
trabalhador intelectual.
Mantido o regime presidencialista (definido
pela Carta Constitucional de 1891), em julho de
1934, após a promulgação da Constituição, o
grupo constituinte elegeu Getúlio Vargas para a
Presidência da República. Assim a legislatura se
iniciava em 1934 e ia até 1938, quando ocorreriam
as eleições diretas para presidente. Conforme a
Constituição, em seu artigo 52:
A eleição presidencial far-se-á em todo o território da
República, por sufrágio universal, direto, secreto e
maioria de votos, cento e vinte dias antes do término
do quadriênio, ou sessenta dias depois de aberta a
vaga, se esta ocorrer dentro dos dois primeiros anos.
Fascismo e comunismo no Brasil
No plano internacional, o Brasil parecia entrar
em um regime democrático depois de 1934
(mesmo que a eleição de Vargas tenha sido por via
indireta), quando em grande parte da Europa se
implementavam regimes totalitários. Era esse o
caso da Itália e da Alemanha, onde o nazifascismo
dominava o cenário político, e da União Soviética,
na qual se fortalecia um regime totalitário sob a
liderança de Stalin.
Em 1932, o escritor Plínio Salgado e vários
outros intelectuais de São Paulo fundaram a
Ação Integralista Brasileira (AIB), inspirada
no ideário fascista. O integralismo tinha como
ponto fundamental de seu programa o nacionalis-
mo. Criticava a especulação financeira e postula-
va que o Estado deveria ter uma forte intervenção
na economia. Também a atuação dos partidos
políticos deveria ser limitada, pois acreditava
que cabia ao Estado chefiar a nação de maneira
integral, não havendo necessariamente mecanis-
mos de representação direta. A própria expressão
“integralismo” deriva da ideia de que o Estado
deveria chefiar integralmente a nação.
Assim como se estabeleceu na Itália em 1927
pela Carta del Lavoro (sobre o assunto, veja o capí-
tulo 25) a doutrina corporativista, que tinha como
princípio a harmonização entre empresários e tra-
balhadores que se organizariam em corporações
para dirigir a economia sob o controle do Estado,
os integralistas também defendiam a presença de
instituições corporativas que representassem as
profissões e outros setores da sociedade.
O principal lema da AIB consistia em: “Deus,
pátria e família”. Seus maiores inimigos eram os
comunistas, os liberais e os judeus, acusados na
Europa, pelo nazismo, de dominar perversamente
o capitalismo financeiro. Gustavo Barroso, outro
líder integralista, escreveu livros cujo tema cen-
tral era o antissemitismo.
O integralismo, como o nazismo, fez da esté-
tica um elemento importante de sua atuação
política. Os integralistas promoviam desfiles com
seus uniformes de camisas verdes e utilizavam
braçadeiras com a letra grega (sigma), símbolo
matemático do somatório. Os militantes sauda-
vam-se erguendo o braço direito, tal qual faziam
os fascistas na Europa, e diziam “Anauê!” (“meu
parente”, em tupi). Ao utilizar uma referência indí-
gena, evocavam o nacionalismo.
Em 1934, já haviam fundado o jornal A ofensiva
e as revistas Anauê e Pindorama. Todos esses
periódicos circulavam por todo o território nacio-
nal. Nesse ano, começaram a realizar grandes
desfiles pelas cidades, que, em alguns casos,
resultaram em conflitos com os militantes da
Aliança Nacional Libertadora (ANL), insti-
tuição de orientação comunista ligada ao Partido
Comunista Brasileiro.
Fundada em 1935, a Aliança Nacional Liberta-
dora tinha entre seus objetivos fundamentais lutar
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Plínio Salgado, ao centro, entre militantes e as bandeiras do Brasil e da Ação Integralista Brasileira (AIB), em cerca de 1933-1937.
Comício da Aliança Nacional Libertadora (ANL) em 1935, no Rio de Janeiro (RJ).
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contra o fascismo. Seu ideário incluía, entre outros
itens, a reforma agrária, a luta contra o imperialis-
mo, a crítica ao pensamento religioso e a revolução
social, que se daria a partir da luta de classes.
A base social dos filiados da ANL consistia no
movimento operário, enquanto os integralistas pos-
suíam mais adeptos entre as classes médias urba-
nas. Oriundos de diversas correntes de esquerda,
os militantes da ANL lutavam contra qualquer dis-
criminação de raça, nacionalidade ou cor.
Os comunistas integrantes da Aliança Nacional
Libertadora acreditavam que a revolução só pode-
ria acontecer quando o país atingisse um maior
grau de industrialização. Para isso, deveriam
se aliar à burguesia nacional e lutar contra o
imperialismo para fortalecer o sistema produtivo
brasileiro. Juntaram-se a esses comunistas alguns
militares nacionalistas e antigos líderes do tenen-
tismo. O presidente da ANL era o capitão-tenente
da Marinha, Hercolino Cascardo, sendo seus líderes
o comandante da Marinha Roberto Sisson, o capi-
tão do Exército Amoreti Osório, o médico Manuel
Venâncio Campos da Paz, o jornalista Benjamim
Cabello e o advogado Francisco Mangabeira.
Luís Carlos Prestes, ex-tenente e líder do Partido
Comunista, era presidente de honra da ANL.
Em julho de 1935, o governo federal utilizou a
Lei de Segurança Nacional, aprovada pouco antes,
para fechar a Aliança Nacional Libertadora. O pre-
texto para tal medida foi um discurso de Prestes
em que defendia a solução armada para imple-
mentar mudanças sociais. Uma vez na clandesti-
nidade, a ANL contou com os militantes do Partido
Comunista, que planejaram a realização do que
ficou conhecido como Intentona Comunista.
A expressão “Intentona Comunista” foi criada
por seus opositores, que, na tentativa de depre-
ciar o movimento, utilizaram a palavra intento-
na referindo-se a um plano insano, não factível.
Semelhante às revoltas lideradas pelos tenentes
nos anos 1920, os comunistas pretendiam realizar
vários levantes militares em diversas regiões do
país, mobilizando a população e, em especial, a
classe trabalhadora para derrubar o governo e ins-
taurar um Estado revolucionário chefiado por Luís
Carlos Prestes. Em seguida, seria organizado um
governo de base operário-camponesa. O movimen-
to não teve apenas relação com o fechamento da
ANL pelo governo Vargas. Em fins de 1934, a dire-
ção da Internacional Comunista, organização liga-
da à União Soviética que definia diretrizes para os
partidos comunistas de vários países, apresentou
Grupo de prisioneiros após o fim da Intentona Comunista. Rio de Janeiro, 27 de novembro de 1935.
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relatórios favoráveis para o desencadeamento de
uma luta revolucionária no Brasil. Luís Carlos
Prestes foi designado pela própria Internacional
Comunista para dirigir o movimento. Entre 1931 e
dezembro de 1934 ele esteve na União Soviética
e já era considerado uma importante liderança do
partido. Líderes comunistas de vários países foram
escalados para contribuir com a direção do movi-
mento. Entre estes estava a alemã Olga Benário,
que se tornou companheira de Prestes.
Em 23 de novembro de 1935, iniciou-se a luta
com a revolta do 21.o Batalhão de Caçadores de
Natal (RN). No dia seguinte, houve o levante de
um batalhão do Recife e, no dia 27, um regimen-
to de infantaria e uma escola militar de aviação
foram tomados no Rio de Janeiro. No entanto,
a falta de conexão entre os revoltosos dos dife-
rentes estados facilitou a ação das forças legais.
Ainda no dia 27 de novembro, as tropas do Exército
conseguiram prender os revoltosos, pondo fim ao
movimento. No Recife, ocorreu o maior confronto
armado, quando as forças legalistas e os militares
combateram por várias horas.
Prestes e Olga foram presos no início de 1936.
Ele foi condenado a 16 anos de prisão; Olga foi
extraditada para a Alemanha e entregue aos sol-
dados nazistas, que a mantiveram presa e depois
a levaram para um campo de concentração. Além
de comunista, ela era judia, o que a tornava ini-
miga direta do governo de Hitler. Em 1942, Olga
morreu vítima da política de extermínio nazista.
Com a eclosão da rebelião, o Congresso
Nacional declarou estado de sítio a pedido do
Poder Executivo. A prisão de alguns rebeldes
dificultou a comunicação entre os revoltosos e
inviabilizou a eclosão de levantes em São Paulo,
Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.
Mesmo com o fim do movimento, o estado
de sítio foi prorrogado até 1937, dando amplas
prerrogativas para o Poder Executivo reprimir os
envolvidos no movimento. Getúlio Vargas ampliou
o leque repressivo, combatendo todos aqueles
que se opusessem ao seu governo. Foi instituído
o Tribunal de Segurança Nacional, que julgou
os acusados na revolta: mais de mil pessoas foram
sentenciadas, sendo grande parte delas líderes
do PCB. As várias prisões esvaziaram o Partido
Comunista Brasileiro nos anos que se seguiram, o
qual só conseguiu se reerguer nos anos 1940.
O Estado Novo
O fracasso da Intentona Comunista havia sido um
bom motivo para que o Poder Executivo conseguis-
se a aprovação do estado de sítio, podendo assim
combater incisivamente seus inimigos políticos.
Em 1936, iniciaram-se as articulações para as
eleições presidenciais que estavam previstas para
janeiro de 1938. O ex-tenente e ministro de Viação
e Obras Públicas, José Américo de Almeida, foi
escolhido como candidato governista. O Partido
Constitucionalista de São Paulo, formado em
1934, lançou Armando Salles de Oliveira e os inte-
gralistas apresentaram Plínio Salgado, que retirou
sua candidatura ao saber que Vargas daria um golpe
de Estado impedindo a ocorrência das eleições.
Ao longo de 1937, de fato, sem disposição para
deixar o poder e não depositando sua confiança
pessoal em nenhum dos candidatos, Getúlio Vargas
e seus aliados articularam um golpe de Estado.
Depois de demitir militares e destituir políticos que
pudessem opor maior resistência ao golpe, o pre-
texto para tanto veio com o Plano Cohen.
Em setembro de 1937, um militar integralista
teria sido visto datilografando o plano de um levan-
te comunista. O autor se chamaria Cohen. O plano
seria publicado em um boletim da Ação Integralista
Brasileira e daria as diretrizes de como os integralis-
tas combateriam tal iniciativa. Conforme o plano, o
levante traria graves consequências para a vida insti-
tucional, sendo ameaçadas de destruição até mesmo
as igrejas. Com a divulgação do plano na imprensa
e nos canais oficiais de comunicação, o Congresso
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Olga Benário, em 1928, quando ainda residia na Alemanha.
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Nacional aprovou imediatamente o estado de guer-
ra e a suspensão das garantias constitucionais por
noventa dias. Para tornar o golpe viável, um deputado
governista percorreu vários estados brasileiros con-
firmando o apoio dos governadores a Getúlio Vargas.
Em 10 de novembro de 1937, os congressistas
foram impedidos de entrar no Congresso Nacional
pela polícia militar. No mesmo dia, Getúlio anun-
ciou que colocaria em vigor uma nova Constituição,
elaborada por Francisco Campos. Foram dissolvi-
das as câmaras legislativas em todos os níveis
por tempo indeterminado, as garantias individuais
foram suspensas e os opositores do governo, per-
seguidos, entre outras medidas. Não haveria mais
eleições presidenciais, constituindo-se um regime
totalitário no qual o Poder Executivo tornou-se
muito forte. Começava aí o período do Estado
Novo, um novo ciclo da Era Vargas.
A nova Constituição confirmava o caráter dita-
torial do novo governo. Ela concedia muito poder
ao governo federal e limitava ainda mais o poder
dos estados, restringindo também a autoridade do
Legislativo. Os partidos políticos foram extintos e
os governadores teriam de ter seus mandatos con-
firmados pelo presidente. Caso o mandato fosse
rejeitado, seria nomeado um interventor federal.
De inspiração fascista, a Constituição de 1937
definiu que o governo poderia editar decretos-leis
enquanto não se reunisse um novo Parlamento.
Durante todo o Estado Novo não ocorreram elei-
ções para o Legislativo nem para governadores,
ficando o poder sempre centralizado nas mãos do
presidente. Essa Constituição recebeu o apelido
de Polaca por se inspirar na mesma lógica autori-
tária e centralista da Constituição polonesa.
Seguindo o caminho traçado pelos integra-
listas, a Constituição adotou o corporativismo
como norteador de sua política. Em seu artigo
61, a Carta Constitucional definia que deveria ser
organizado um Conselho Nacional de Economia, o
qual precisaria “promover a organização corpora-
tiva da economia nacional e propor ao Governo a
criação de corporação de categoria”.
Em seu artigo 140, lê-se, ainda:
A economia da população será organizada em
corporações, e estas, como entidades represen-
tativas das forças do trabalho nacional, colocadas
sob a assistência e a proteção do Estado, são
órgãos destes e exercem funções delegadas de
Poder Público.
É preciso ressaltar que Getúlio Vargas recebeu o
apoio da indústria e dos militares para sustentar a
ditadura do Estado Novo. Uma das contrapartidas
do golpe seria o desenvolvimento industrial. Após
1937, o governo começou a investir fortemente no
processo de substituição de importações, procu-
rando constituir também uma indústria de base. Em
1941, com financiamento norte-americano, Getúlio
Vargas inaugurou a primeira indústria siderúrgica
da América Latina, a Companhia Siderúrgica
Nacional, em Volta Redonda (RJ).
O acordo com os Estados Unidos significava
uma mudança na política externa brasileira, que
se afastou da Itália e da Alemanha, selando um
compromisso com os norte-americanos. No ano
seguinte, após um navio brasileiro ser torpedeado
pelos alemães, o Brasil declarou guerra aos paí-
ses do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). O Brasil
entrou na Segunda Guerra Mundial como aliado
dos Estados Unidos.
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Reunião do ministério
no Palácio Rio Verde,
em Petrópolis, sob a
presidência de Getúlio
Vargas (à cabeceira da
mesa, à dir.), quando foi
decidido o rompimento
de relações diplomáti-
cas com os países do
acordo tripartite, Rio
de Janeiro.
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Censura e propaganda
Um dos instrumentos fundamentais para a
manutenção da ditadura Vargas era a censu-
ra. Em 1939, foi criado o Departamento de
Imprensa e Propaganda (DIP), cuja função
era atuar na censura de todas as manifesta-
ções contrárias ao presidente, ao mesmo tempo
que deveria fazer uma propaganda positiva do
governo. O órgão era diretamente subordinado à
Presidência e realizava a programação diária da
Hora do Brasil, programa radiofônico criado em
1938 e transmitido obrigatoriamente por todas as
emissoras. Na Hora do Brasil discursavam Getúlio
e seus ministros, mas também tocavam-se as
músicas de Francisco Alves, Carmen Miranda
e de outros nomes de sucesso popular. Assim
o presidente vinculava sua imagem a artistas
nacionalmente famosos. Uma das estratégias de
propaganda era colocar Getúlio Vargas como o doa-
dor dos benefícios trabalhistas que vinham sendo
concedidos ao longo dos anos 1930. Procurou-se
construir nele a imagem do “pai dos pobres”. Para
isso, o rádio, que naquela década já era popular no
Brasil, seria fundamental como veículo de comuni-
cação de massa. Com o nome de A Voz do Brasil, o
programa continua a ser ainda hoje um canal ofi-
cial dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.
Vai ao ar diariamente em todo o país.
O Departamento de Imprensa e Propaganda dedi-
cava-se também a promover manifestações cívicas
e eventos nacionais, como concursos de música
popular ou as festas de Primeiro de Maio (Dia do
Trabalho), que se transformariam em eventos para
homenagear o presidente. A imprensa estrangeira
recebia notícias por intermédio do DIP, que filtrava as
informações sobre o país que chegavam ao exterior.
Quanto à censura, jornais, revistas, teatro,
cinema, enfim, todos os meios de comunicação
e formas de expressão artística estavam sob a
vigilância do DIP. Para garantir que as informa-
ções não seriam contrárias ao governo, o órgão
intervinha em setores da imprensa. No caso do
jornal O Estado de S. Paulo, até o fim do Estado
Novo houve intervenção no periódico, que sofria
censura prévia das matérias a serem publicadas.
Depois da entrada do Brasil na Segunda Guerra
Mundial, ao lado de países tidos como democráticos,
Vargas foi sistematicamente criticado, levando o
DIP a perder, aos poucos, sua capacidade de intervir,
já que crescia a resistência. Em maio de 1945, em um
período de crise do Estado Novo, o órgão foi extinto.
No campo da literatura e das artes em geral, o
governo Vargas realizou um processo de cooptação
e censura. Conforme o jornalista Eduardo Bueno:
Apesar da censura e das perseguições, Vargas, dis-
posto a revelar sua face conciliadora paternalista,
passou a desenvolver uma política sistemática de
“assimilação da inteligência nacional”, desenvol-
vida em especial pelo Ministério da Educação. [...]
Nessa repartição trabalharam Drummond (chefe
de gabinete) e Augusto Meyer (diretor do Instituto
Nacional do Livro), enquanto o Departamento
Cultural da Prefeitura de São Paulo era entregue a
Mário de Andrade. Ao mesmo tempo, os arquitetos
Lúcio Costa e Oscar Niemeyer eram contratados
para fazer o projeto do novo prédio do Ministério da
Educação, cuja decoração foi entregue aos pintores
Portinari, Pancetti e Guignard e ao paisagista Burle
Marx. Com tais atitudes, Vargas lutava para obter, no
mundo das artes, a mesma aceitação – e o mesmo
grau de cooptação – que sua política trabalhista,
Ilustração publicada na cartilha do DIP A juventude do Estado
Novo, de cerca de 1940. O DIP não só censurava os meios de
comunicação como produzia grande parte da propaganda que
procurava enaltecer a ditadura varguista. Nessa revista, que
trazia textos do presidente Getúlio Vargas, extraídos de discur-
sos, manifestos e entrevistas à imprensa, aparecem crianças
que vão à escola para aprender e engrandecer a pátria. Em
1940, o governo Vargas criou o movimento Juventude Nacio-
nal, uma corporação constituída pela juventude escolar que
deveria mostrar sua devoção à pátria.
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pós 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, o governo getulista estabeleceu uma aliança estratégica
com os Estados Unidos. O Brasil passou a apoiar formalmente os americanos, que, em troca, conce-
diam subsídios para fortalecer o parque industrial brasileiro. Ainda fazia parte desse acordo firmar a
imagem do Brasil como uma liderança na América Latina, ao mesmo tempo em que se procurava criar uma
imagem positiva dos Estados Unidos para os brasileiros. Claro que a intenção dos norte-americanos era explo-
rar o mercado consumidor brasileiro. Não foi por acaso que, logo em seguida, o desenhista norte-americano
Walt Disney montou um escritório no Brasil e começaram a surgir personagens como Zé Carioca, um malandro
do samba, ritmo que foi apresentado ao restante do mundo como produto típico do Rio de Janeiro. Outros
filmes foram produzidos nos Estados Unidos, como Brazil, em 1944, estrelado por Carmen Miranda (com sua
figura estilizada de baiana e cantando sucessos do carnaval brasileiro, ela ganhou muita popularidade naquele
país). A trilha sonora desse e de outros filmes ficou a cargo de Ari Barroso, que, em 1939, já tinha composto
“Aquarela do Brasil”, música que se tornaria praticamente um segundo hino brasileiro. Para o filme Brazil, ele
compôs a canção “Rio de Janeiro”, que exaltava as belezas naturais do país. Dessa forma, o samba foi deixando
de ser uma música dos moradores do morro, da população pobre
e “desqualificada”, para servir como instrumento de legitimação
de um governo ditatorial. Nesse sentido, a música também deveria
mudar sua temática, pois uma das marcas de Getúlio Vargas era o
culto ao trabalho e à família. Defendia arduamente a filosofia de que
o trabalho conduz o ser humano à felicidade pessoal, possibilitando
também o desenvolvimento do país.
Abaixo, à direita, em foto de 1940, Carmen Miranda em seu típico traje de
baiana no período em que morou nos Estados Unidos. Abaixo, a artista, nos
Estados Unidos, acompanhada da esposa do embaixador do Brasil naquele
país em evento patrocinado pela primeira-dama Darci Vargas, em 1941. Carmen
Miranda era uma das artistas favoritas de Getúlio Vargas. Em várias ocasiões,
independentemente das intenções do artista, a música popular serviu como
propaganda positiva do governo. A presença de Carmen Miranda na terra do
Tio Sam simbolizou o começo de uma nova aliança política e econômica entre
Brasil e Estados Unidos. A partir dos anos 1940, o Brasil passaria a sofrer forte
influência econômica e cultural dos norte-americanos.
Cartaz do desenho animado Saludos, traduzido para o por-
tuguês como Alô, amigos, no qual Ari Barroso aparece como
compositor na obra de Walt Disney.
Iconographia
Walt Disney Pictures
Bettmann/Corbis/Latinstock
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baseada no paternalismo positivista, estava conse-
guindo entre os trabalhadores.
Mas sempre houve atrito entre o regime e os artis-
tas “dissidentes”. O caso mais rumoroso foi o de
Graciliano Ramos. Prefeito no interior de Alagoas,
destituído pela Revolução de 30, ele estreou na
literatura em 1933 com o pungente Caetés, logo
seguido pelo clássico São Bernardo (1934). Em
março de 1936, sob suspeita de ter participado da
ANL, Graciliano foi preso pela polícia de Vargas.
Levado para a terrível prisão de Ilha Grande (RJ),
ficou lá um ano, sem acusação formal. Defendido
pelo advogado Sobral Pinto, foi solto em 1937. Um
ano depois lançou Vidas secas. A experiência na
prisão foi relatada em Memórias do cárcere.
O pintor Di Cavalcanti e os escritores Jorge Amado
e Érico Veríssimo tiveram também seus problemas
com o regime. [...]
BUENO, Eduardo. Brasil: uma história.
São Paulo: Ática, 2003. p. 340-1.
As leis trabalhistas
A política trabalhista de Vargas procurou sem-
pre colocá-lo como um protetor dos trabalhadores,
sendo esse um de seus trunfos políticos. Aos tra-
balhadores caberia contribuir atuando seriamente
para o engrandecimento da pátria. A legislação
por ele criada inspirou-se na Carta del Lavoro da
Itália fascista. O princípio do corporativismo,
presente na Constituição de 1937, também esteve
presente na legislação trabalhista. O Estado bra-
sileiro inspirou-se ainda no corporativismo portu-
guês de Salazar, que governou Portugal entre 1928
e 1974. Conforme Maria Celina D’Araujo:
[...] [na proposta corporativista] julgava-se que as
sociedades deveriam ser organizadas não a partir
de ideologias políticas nem de interesses imedia-
tos, mas a partir dos grandes ramos de atividades
econômicas. O corporativismo, de maneira geral,
procurava resgatar a ideia das corporações existen-
tes na Idade Média, período entendido por essa dou-
trina como exemplar em termos de harmonia entre
hierarquia social, religião e ordem estabelecida.
Dessa referência às corporações medievais vieram,
exatamente, os nomes corporativo, corporativis-
mo... Segundo a doutrina corporativa, a população
deveria sempre colaborar com o governo e a melhor
forma de fazê-lo seria por meio das atividades cívi-
cas e econômicas e não da política. Todos deveriam
se esforçar para engrandecer seu país e abandonar
divergências políticas e ideológicas. O governo seria
encarregado de formular as diretrizes para a nação e
caberia a todos colaborar nesse esforço. Julgava-se
que a sociedade deveria estar ordenada em grandes
áreas de atividade, por exemplo, indústria e agri-

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A foto mostra Getúlio Vargas chegando à convenção trabalhis-
ta em frente ao Ministério da Fazenda, no dia que a CLT entrou
em vigor, em 1943.
cultura, e, em cada uma, reunir os interesses do
capital e do trabalho. Dentro dessa concepção, os
sindicatos seriam no corporativismo as modernas
corporações que cumpririam esse papel organiza-
dor. O próprio Congresso, caso existisse, deveria
ser composto por representantes dos sindicatos
patronais e operários e deveria expressar apenas as
preocupações de cada uma de suas áreas.
D’ARAUJO, Maria Celina. A Era Vargas.
São Paulo: Moderna, 1997. p. 73-4. (Polêmica).
As greves foram proibidas depois de 1937,
reafirmando-se o princípio da unicidade sindical.
Em 1940, foi criado o imposto sindical, forma de
financiamento dos sindicatos que os atrelava ao
Estado. Cada trabalhador, sindicalizado ou não,
deveria pagar um dia de trabalho por ano ao sindi-
cato (a prática funciona até hoje). Essa verba era
redistribuída aos sindicatos e às confederações
de trabalhadores pelo Estado. Isso criou a possibi-
lidade de sindicatos inexpressivos receberem sub-
sídios do governo. Assim, surgiram os pelegos,
sindicalistas que atuam em causa própria ou con-
forme os interesses de outros. Muitos sindicatos
se transformaram em entidades assistenciais ou
recreativas, oferecendo colônia de férias, serviços
médicos ou atividades esportivas.
Em 1934, a Constituição definia que deveria
haver um salário mínimo; contudo, este só foi
efetivamente fixado em 1940. Em 1943, foi criada
a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT),
uma legislação que sistematizava e ampliava tudo
o que já havia sido implementado desde 1930. A
partir dela, alguns direitos básicos dos trabalha-
dores foram reafirmados e garantidos: o salário
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momento em que o mais antigo – o precursor dos
estados totalitários – naufraga no mar profundo
dos seus próprios vícios, pressente-se que se
aproxima, para todos os povos, a oportunidade de
uma retomada de consciência dos valores demo-
cráticos. [...]
Apud ALVES FILHO, Ivan. Brasil, 500 anos em documentos.
Rio de Janeiro: Mauad, 1999. p. 492.
Após 1944, alguns nomes que apoiaram e con-
tribuíram para a sustentação do regime ditatorial,
como o ministro das Relações Exteriores Oswaldo
Aranha e o general Góis Monteiro, se distanciaram
do governo Vargas por discordar de suas diretrizes.
Os estudantes também começaram a se mobili-
zar contra a ditadura varguista por meio da União
Nacional dos Estudantes (UNE). Várias passea-
tas em protesto ao regime foram realizadas. Em uma
delas dois estudantes morreram no confronto com
forças policiais repressivas. O caso provocou indigna-
ção popular, tornando mais frágil a ditadura Vargas.
Em meio a pressões, Vargas anunciou que
seriam realizadas eleições após o término da
guerra. No início de 1945, como instrumento de
pressão diante das suas declarações, a oposição
liberal lançou oficialmente o major-brigadeiro da
Aeronáutica, Eduardo Gomes, líder do movimento
tenentista nos anos 1920, candidato à Presidên-
cia. Foi fundada também a União Democrática
Nacional (UDN). Inicialmente era uma associa-
ção de partidos estaduais de oposição à política
Manifestação anti-Vargas em São Paulo, em 1945.
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mínimo, as férias remuneradas e a jornada de tra-
balho de 48 horas semanais. A legislação também
garantia que os sindicatos permaneceriam sob a
tutela e o controle do Estado por meio do Ministério
do Trabalho. Assim poderiam existir benefícios aos
trabalhadores, mas não liberdade de expressão
ou autonomia sindical. O Estado assumia o papel
de doador, não admitindo a organização políti-
ca autônoma. Os trabalhadores eram cooptados
pelas políticas de concessão de direitos, sendo ao
mesmo tempo realizada intensa propaganda valo-
rizando o trabalhador como construtor da nação.
O trabalho tornou-se sinônimo de ordem. O pre-
sidente representava o chefe maior da nação que
concedia benefícios aos trabalhadores. Começou
a se estabelecer uma relação direta entre o gover-
nante e as massas populares, ou seja, não se falava
mais em nome de um programa partidário ou de
uma classe social, mas de um governante que se
dizia capaz de, por si mesmo, resolver os proble-
mas do conjunto da população. O Estado colocava-
-se acima das classes sociais, buscando sempre o
governante, a comoção e o respaldo popular como
estratégia de legitimação. Essa forma de tratar a
política foi denominada populismo.
Quanto à legislação trabalhista criada em 1943,
ela continuou em vigor após a ditadura Vargas,
sendo até os dias atuais a legislação vigente sobre
o assunto, ainda que tenha sofrido várias reformas.
O fim da ditadura Vargas
Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra
Mundial após 1942, a oposição a Vargas começou a
criticar a contradição de um país que luta contra o
totalitarismo nazifascista e vive internamente uma
ditadura. Essas críticas deram fôlego aos oposi-
tores da ditadura, que, em 24 de outubro de 1943
(data da tomada do poder em 1930), publicaram
o Manifesto dos Mineiros, idealizado por Afonso
Arinos e Odilon Braga. Foram distribuídos inicial-
mente 50 mil exemplares do Manifesto, assinado
por 92 personalidades mineiras, incluindo políticos
e intelectuais. O documento condenava o regime
ditatorial e reivindicava a volta da democracia. Veja
um trecho desse documento abaixo.
Um povo reduzido ao silêncio e privado da faculda-
de de pensar e de opinar é um organismo corroído.
[...]
Se lutamos contra o fascismo, ao lado das Nações
Unidas, para que a liberdade e a democracia se-
jam restituídas a todos os povos, certamente não
pedimos demais reclamando para nós mesmos
os direitos e as garantias que a caracterizam... No
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Comício do movimento queremista no Largo da Carioca (RJ), em 20 de agosto de 1945.
varguista, sendo depois o partido que sustentaria
a candidatura de Eduardo Gomes.
Em fevereiro de 1945, Vargas cedeu às pressões
populares e à oposição organizada e publicou um
ato adicional à Constituição determinando que em
noventa dias seria marcada a data das eleições.
No mês de maio, ele determinou eleições para
a Presidência da República e para o Congresso
Nacional em 2 de dezembro do mesmo ano.
Marcadas as eleições, começaram a surgir
novos partidos políticos. Além da UDN, formou-
-se o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).
A criação desse partido ocorreu por sugestão do
próprio presidente Getúlio Vargas, devendo fazer
frente ao Partido Comunista no que se referia a
problemas e conflitos ligados aos trabalhadores.
Assim, tinha como objetivo atrair as classes popu-
lares, enfraquecendo o Partido Comunista. Um dos
principais fundadores do novo partido foi o próprio
ministro do Trabalho, Alexandre Marcondes Filho.
Além dele, participaram desse processo outros
nomes do ministério e dos sindicatos. Foi fundado
ainda o Partido Social Democrático (PSD),
que se originou da iniciativa dos interventores de
São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco, com o
apoio de Vargas, em fundar um partido nacional.
José Barbosa Lima Sobrinho redigiu o programa
do PSD, propondo a realização de eleições no país.
Sobre a formação do PSD nos estados, afirma
Lúcia Hipólito:
Nos estados, o PSD começou a ser organizado sob
a liderança dos interventores, reunindo prefeitos
(todos nomeados pelos interventores), membros
da administração estadual e outras forças que
apoiavam o governo, como proprietários rurais,
industriais, comerciantes, funcionários públicos
etc. Em muitos estados, o que decidiu a adesão ou
não ao PSD foi a questão regional. Políticos que
apoiavam o presidente Vargas mas dissentiam do
interventor ficaram na oposição. Antigas desaven-
ças que remontavam à República Velha também
influíram na formação do novo partido.
DICIONÁRIO histórico-biográfico brasileiro pós-1930.
Rio de Janeiro: FGV; CPDOC, 2001. v. IV. p. 4382.
Além das leis que permitiram a criação dos
partidos e a convocação das eleições, outras leis
foram divulgadas durante o processo de abertura
política. Foi concedida anistia aos presos políti-
cos, e o Congresso Nacional eleito se transforma-
ria em Assembleia Constituinte.
Entretanto, na tentativa de permanecer no
poder, Vargas articulou o movimento queremista.
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PESQUISA
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m 1943, Getúlio Vargas lançou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que passou a regular
as relações capital-trabalho desde então. Ainda hoje essa legislação continua em vigência, mesmo
tendo sofrido várias modificações. Vamos fazer um estudo da CLT para compreender como ela
se constituiu no passado e quais suas implicações no presente. Para isso, siga as instruções abaixo.
1. Primeiramente, você deve ir a uma biblioteca ou recorrer ao site do Ministério do Trabalho e
Emprego (www.mte.gov.br) para ter acesso à legislação.
2. Em seguida, deverá fazer uma síntese do que está definido na legislação sobre os itens a seguir.
Nessa síntese, procure fazer referência tanto ao texto original dessa legislação como ao texto atual,
verificando se houve mudanças ou não.
– o papel e o significado da carteira profissional; – a jornada de trabalho;
– os direitos dos trabalhadores; – as greves e os sindicatos.
3. Faça uma pesquisa acerca das condições de trabalho no Brasil atual e explique em que medi-
da essa legislação pode estar de acordo com a realidade concreta enfrentada pelos brasileiros.
Desemprego, mercado informal de trabalho, respeito aos direitos dos trabalhadores, papel dos
sindicatos, enfim, escolha um ou mais assuntos relacionados ao momento presente e analise-
-o(s) criticamente, tendo em vista o que está definido na legislação.
4. Por último, organize uma exposição oral dos resultados da pesquisa. Não se limite a preparar um texto
para apresentar: lembre-se de que a apresentação deve ser interessante para o público e estimule a
participação dos colegas na forma de um debate sobre o tema. Prepare cartazes, questões de debate,
utilize imagens, projeções, enfim, crie uma apresentação que prenda a atenção dos espectadores.
Com o slogan “Nós queremos Getúlio”, esse movi-
mento propunha a realização da Assembleia Cons-
tituinte, mantendo Vargas na Presidência. Dessa
forma, seriam adiadas as eleições presidenciais ou,
pelo menos, procurava-se viabilizar a candidatura
de Vargas ao cargo. Além dos aliados do presidente
gaúcho, o movimento recebeu o apoio dos comu-
nistas e dos empresários. O apoio dos comunistas
adveio da tese do partido do qual faziam parte de
que deveriam apoiar primeiramente aqueles que
combatessem o fascismo e adotassem o nacio-
nalismo econômico. Vários comícios comunistas
foram realizados com a presença de Vargas.
No entanto, o movimento queremista teve
repercussão muito negativa entre os liberais
da oposição, que defendiam a realização das
eleições presidenciais. Parecia que, mais uma
vez, Vargas tentaria se manter no poder como
ditador, anulando as eleições.
Esse temor foi ampliado com o movimento
articulado na Argentina que levaria o líder popu-
lista Juan Domingues Perón à Presidência em
fevereiro de 1946. Ampla mobilização popular
permitiu que ele fosse vitorioso nas eleições
argentinas, após ter sido preso em uma conspi-
ração militar em 1945 e libertado em seguida por
pressão popular. Embora fossem situações muito
distintas, pois Getúlio queria se manter no poder
e Perón pretendia chegar à Presidência, o que há
em comum é o fato de ambos adotarem como
estratégia o apelo à forte mobilização popular
para atingir seus objetivos.
Temendo que o mesmo pudesse ocorrer no
Brasil, ou seja, que a liderança populista de
Getúlio conseguisse articular sua permanência
ou sua volta à Presidência, com apoio dos Estados
Unidos, a oposição organizou um golpe depondo
Getúlio em 29 de outubro de 1945. O general Góis
Monteiro, que antes o apoiara, mobilizou as tropas
do Distrito Federal e Getúlio foi obrigado a renun-
ciar ao cargo. Ele voltou para sua cidade natal,
São Borja (RS), e, em seu lugar, assumiu o presi-
dente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares,
que se manteve no cargo até que as eleições pre-
sidenciais fossem realizadas. Encerrava-se assim
o Estado Novo e a ditadura varguista. Eurico José
Gaspar Dutra, candidato do PSD e ex-ministro da
Guerra de Getúlio Vargas, foi eleito presidente da
República. A vitória de Dutra mostrava que, ape-
sar do fim da ditadura, não se encerraria ainda a
influência do getulismo sobre a política brasileira,
conforme estudaremos no capítulo seguinte.
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DOCUMENTOS
As imagens que seguem são cartazes produzidos pelo Departamento de Imprensa e Propaganda
(DIP) durante o Estado Novo. Observe-as atentamente:
1. Descreva os cartazes o mais detalhadamente possível.
2. De que maneira podemos interpretar esses cartazes, levando em consideração a política traba-
lhista de Vargas e a forma de organização de seu governo ditatorial?
3. Qual é a importância do trabalho no discurso ditatorial de Getúlio Vargas? Utilize os elemen-
tos presentes em sua descrição para elaborar a resposta. Caso seja necessário, retome o item
Contexto deste capítulo.
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Populismo e democracia
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s sociólogos argentinos Gino Germani e Torcuato di Tella construíram modelos que pre-
tendem dar conta da explicação do fenômeno do populismo. Partem do pressuposto de
que o populismo ocorre numa situação de “transição”, isto é, na passagem da assim cha-
mada sociedade tradicional – agrária, pré-capitalista, atrasada – para a sociedade moderna – capita-
lista, urbana e industrial. As raízes do populismo
estão na assincronia entre os processos de
transição de uma sociedade para a outra. [...]
Na América Latina, a mobilização prematura
VOCABULÁRIO
Assincronia: falta de simultaneidade no tempo.
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THESAURUS
Com um colega, procurem na seção Contexto deste capítulo, na parte intitulada “As leis trabalhis-
tas”, a definição atribuída a populismo.
Depois, discutam sua interpretação do texto “Populismo e democracia” e respondam às per-
guntas a seguir. Se necessário, procurem no dicionário as palavras do texto cujo significado vocês
não conheçam.
1. Podemos considerar que os governos populistas são manipuladores das massas? Por quê?
2. Qual é a relação que se pode fazer entre populismo e democracia?
3. É possível a convivência de ambos em um mesmo tempo e lugar? Por quê?
4. Vocês saberiam dar um exemplo atual de discurso político populista? Justifiquem.
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Edas massas, gerando pressões sobre o aparelho político, não encontrou amadurecidos os canais de
participação política exigidos. Assim, a integração das massas não ocorre como no modelo europeu,
surgindo a possibilidade de manipulação das massas [...] por intermédio das elites defensoras do
status quo. [...] Para Francisco Weffort, o populismo se apresenta como a expressão da emergência
das classes populares no cenário político. Essa emergência se torna possível no momento de crise
aguda do sistema liberal-oligárquico que explode com a crise de 1929, e propicia uma ruptura da
hegemonia política oligárquica. Essa crise de hegemonia, quando nenhuma fração de classe tem
força suficiente para assumir o poder, oferece a possibilidade do surgimento dos regimes populistas
na América Latina.
PRADO, Maria Lígia. O populismo na América Latina. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 10-2.
Podemos entender do trecho escolhido que, tanto para Gino Germani quanto para Torcuato di
Tella, o fenômeno do populismo surgiu em uma época de crise de determinada ordem social, um
momento de passagem de uma ordem para outra. Nesse contexto, nenhuma parcela da sociedade
teve força para impor-se contra o poder estabelecido. Compreendemos que havia mobilização e von-
tade de participação política por parte da massa, o operariado, mas que ainda não havia no quadro
político tal amadurecimento para absorver aquela vontade como uma reivindicação democrática, e a
resposta encontrada foram os governos populistas.
1. Acesse o site <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/apresentacao>, no qual
encontramos diversos verbetes sobre a Era Vargas.
2. No menu à esquerda da tela, clique em um dos links relacionados ao período de 1930 a 1945 (“Anos
de Incerteza” ou “Diretrizes do Estado Novo”) e escolha um verbete.
ROTEIRO DE TRABALHO
NA INTERNET
Um dos mais importantes centros de informação e pesquisa sobre a chamada Era Vargas é o Centro
de Pesquisa e Documentação da História Contemporânea (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas. Ele
é responsável pela publicação do Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930, que reúne milha-
res de verbetes sobre o tema em mais de seis mil páginas. A instituição de pesquisa possui o seguinte
site na internet: <http://cpdoc.fgv.br> (acesso em: 20 abr. 2013). Vamos navegar pelo site e obter mais
informações sobre o período Vargas. Para isso, siga as instruções do Roteiro de trabalho.
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THESAURUS
RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

Na questão 2, leia com atenção o enunciado e
procure aproveitar alguns trechos do texto apre-
sentado na elaboração de sua resposta. Dessa
forma, você terá embasamento em sua argu-
mentação e mostrará domínio do texto.
1. (Ibmec) Ao longo da Era Vargas (1930-1945), hou-
ve uma enorme preocupação na transformação
de Getúlio no “pai dos pobres”, o grande protetor
da classe trabalhadora. Sobre esse período são
feitas as seguintes afirmativas:
I. A criação do imposto sindical foi uma das
formas encontradas de permitir uma livre
atuação dos sindicatos durante esse período.
II. A ação do DIP foi decisiva para efetivar o
“culto à personalidade” que caracterizou a
administração getulista durante o Estado Novo.
III. Os meios de comunicação, em especial o rádio,
também tiveram um papel importante nessa
“aproximação” do líder junto às massas, como
comprova a criação da Hora do Brasil.
Assinale:
a) Se apenas a afirmativa I for correta.
b) Se apenas a afirmativa II for correta.
c) Se apenas a afirmativa III for correta.
d) Se as afirmativas I e II forem corretas.
e) Se as afirmativas II e III forem corretas.
2. (Fuvest-SP)
São Paulo não está apenas descontente. Está
ferido na sua sensibilidade. O que a Revolução
lhe pediu ele lho deu... Por que a Revolução tarda
em restaurá-lo na sua autonomia e no governo
direto de seus filhos? Cansado de viver como terra
conquistada, São Paulo... pede apenas, à frente
da administração de seus negócios, um de seus
filhos que lhe compreenda o espírito e não lhe
golpeie o coração.
(O Estado de S. Paulo, 27 jan. 1932.)
Explique os impasses políticos discutidos por
esse jornal e indique seus desdobramentos.
3. (UFPE-PE) A Constituição promulgada em 16
de julho de 1934 resultou de intensos debates
que se prolongaram por oito meses. Entre suas
principais inovações, não se inclui:
a) A legislação trabalhista, a nacionalização
das minas e quedas-d’água.
b) O salário mínimo para os trabalhadores, os depu-
tados classistas e o direito da União em mono-
polizar determinadas atividades econômicas.
c) A criação das justiças Eleitoral e do Trabalho.
d) A inviolabilidade dos direitos à liberdade,
à segurança e à propriedade dos cidadãos
como também a liberdade de consciência e
de crença.
e) O cerceamento de todas as garantias indi-
viduais e a proibição do direito de voto das
mulheres.
4. (UFF-RJ)
Para fazer com que o povo seja presente no
Estado, fez-se simplesmente isto, esta coisa sim-
ples, racional e prática: por um lado, AMPLIOU-
SE O QUADRO DA REPRESENTAÇÃO POPULAR,
instituindo-se novas formas de representa-
ção do povo, como sejam a REPRESENTAÇÃO
SINDICAL, A REPRESENTAÇÃO PROFISSIONAL
e a REPRESENTAÇÃO DOS INTERESSES; por
outro, abriu-se um largo crédito à técnica das
autarquias administrativas, às instituições para-
-estatais e às organizações corporativas, através
das quais o povo-massa e o povo-burguesia, o povo
que trabalha e o povo que faz trabalhar podem
partilhar, diretamente – SEM NECESSIDADE DE
DELEGAÇÕES OU MANDATOS – do governo e da
administração dos negócios públicos [...]. Esta
intervenção das classes produtoras é um fenô-
meno característico da Revolução de 30, o seu
aspecto mais original.
(OLIVEIRA VIANNA, Francisco José de. A política social da
Revolução de 30. In: _. Direito do trabalho e democracia social. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1948. p. 92-3. Palavras destacadas no original).
O fragmento apresentado, escrito por um dos
mais expressivos ideólogos do Estado Novo,
3. Após a leitura do texto disponível no verbete escolhido, registre em seu caderno:
a) o título e o tema do texto;
b) um resumo do texto, indicando as informações e ideias mais importantes;
c) um comentário pessoal, destacando o que mais chamou a sua atenção no texto e o que você
aprendeu sobre a chamada Era Vargas.
4. Prepare uma apresentação para a turma com as informações coletadas.
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THESAURUS
é bastante ilustrativo do discurso autoritário
veiculado pelo regime ditatorial implantado em
1937, que teve como uma de suas característi-
cas marcantes:
a) a Revolução de 1930.
b) a intensa participação popular, autônoma e
plurissindical.
c) a criação exclusiva de sindicatos patronais.
d) a inserção de todo o povo brasileiro dentro do
Estado.
e) a suspensão das mediações político-partidárias.
5. (ENEM) O autor da constituição de 1937,
Francisco Campos, afirma no seu livro, O Estado
Nacional, que o eleitor seria apático; a demo-
cracia de partidos conduziria à desordem; a
independência do Poder Judiciário acabaria em
injustiça e ineficiência; e que apenas o Poder
Executivo, centralizado em Getúlio Vargas, seria
capaz de dar racionalidade imparcial ao Estado,
pois Vargas teria providencial intuição do bem e
da verdade, além de ser um gênio político.
CAMPOS, F. O Estado nacional. Rio de Janeiro: José Olympio,
1940 (adaptado).
Segundo as ideias de Francisco Campos,
a) os eleitores, políticos e juízes seriam malinten-
cionados.
b) o governo Vargas seria um mal necessário, mas
transitório.
c) Vargas seria o homem adequado para implantar
a democracia de partidos.
d) a Constituição de 1937 seria a preparação para
uma futura democracia liberal.
e) Vargas seria o homem capaz de exercer o poder
de modo inteligente e correto.
RELEITURA
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eia as letras das músicas que seguem. A primeira, de 1933, antecede a implementação do
Estado Novo e faz referência à malandragem, tema recorrente dos sambistas cariocas.
O mesmo autor, anos depois, compôs outro samba, em que parece ter mudado de opinião.
Lenço no pescoço (1933)
Wilson Batista
Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso
Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio
Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão
Wilson Batista (1913-1968) era filho
de um guarda municipal e come-
çou a se interessar por música ainda
criança. Morando no Rio de Janeiro,
a partir dos anos 1920 começou a
frequentar os cabarés da cidade, que
eram frequentados por compositores
e malandros. Trabalhou como eletri-
cista no Teatro Recreio e começou a
compor sambas, que foram gravados
em 1933. Trabalhou ainda na Rádio
Tupi e ficou mais conhecido após
1938, quando várias de suas músicas
se tornaram sucesso de Carnaval.
Continuou compondo até os anos
1960, quando faleceu.
BATISTA, Wilson. Lenço no pescoço.
In: Wilson Batista (LP). Acervo Funarte, 1985.
© Warner Chappell Edições Musicais Ltda. Todos os direitos reservados.
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1. Qual é a ideia central dessas canções?
2. Que mudança de atitude se pode perceber entre uma composição e outra?
3. Como pode ser interpretada essa mudança de atitude, levando em consideração a ditadura var-
guista e a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) em 1939?
ROTEIRO DE TRABALHO
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O bonde São Januário (1940)
Wilson Batista e Ataulfo Alves
Quem trabalha é que tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar
O bonde São Januário
Leva mais um operário:
Sou eu que vou trabalhar
Antigamente eu não tinha juízo
Mas resolvi garantir meu futuro
Vejam vocês:
Sou feliz, vivo muito bem
A boêmia não dá camisa a ninguém
É, digo bem
BATISTA, Wilson; ALVES, Ataulfo. O bonde São
Januário. In: Wilson Batista. São Paulo: Abril, 1982.
(História da Música Popular Brasileira).
Ataulfo Alves (1909-1969) era filho de um violeiro e repen-
tista mineiro e nasceu em uma fazenda no município de Mirai
(MG). Desde os 8 anos já fazia versos acompanhando os acor-
des do pai. Após a morte deste, mudou-se para a zona urbana
e trabalhou como leiteiro, menino de recados e carregador de
malas na estação de trem, entre outras atividades. Aos 18 anos
mudou-se para o Rio de Janeiro. Começou então a frequentar
rodas de samba e a compor, e em 1933 algumas de suas com-
posições foram gravadas. Em 1940 e 1941, venceu os festivais
de canções de Carnaval promovidos pelo DIP. Ainda em 1941
começou a atuar como intérprete. Em 1942, compôs um de
seus maiores sucessos, “Ai, que saudades da Amélia”. Faleceu
vítima de úlcera no duodeno.
BERCITO, Sonia de Deus Rodrigues. O Brasil na década de 40. Autoritarismo e democracia. São Paulo:
Ática, 1998.
O livro aborda a década de 1940, marcada pela ditadura do Estado Novo, pela Segunda Guerra Mundial e pela “era do
rádio”, entre outros acontecimentos que transformaram o país. O processo de industrialização, o debate nacionalista,
a ditadura a democracia também estão presentes nele.
D’ARAUJO, Maria Celina. O Estado Novo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
A autora aborda o Estado Novo estudando características como a importância da propaganda, a censura, o autoritaris-
mo e o mito em torno da figura de Getúlio Vargas.
A Revolução de 30. Direção de Silvio Back. Brasil, 1980. (118 min).
O filme é uma colagem de documentários e ficções dos anos 1920, trazendo também imagens posteriores relaciona-
das a essa década. Ele busca na história brasileira a emoção e os sentimentos que julga perdidos nos anos atuais.
Excelente fonte de documentação histórica.
Olga. Direção de Jaime Monjardin. Brasil, 2004. (141 min).
Baseado em romance de Fernando Morais, conta a história do relacionamento amoroso de Olga Benário e Luís Carlos
Prestes, que participou da Intentona Comunista de 1935.
FGV/CPDOC – A Era Vargas. Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br>. Acesso em: 22 abr. 2013.
Este site traz textos, imagens, biografias e linha do tempo sobre o período. A FGV/CPDOC é uma das mais respeitadas
instituições que realiza pesquisas sobre a história brasileira do século XX. Muitos textos estão divididos por temas.
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Ensaios democráticos no Brasil
CAPÍTULO 6
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Brasil voltou a ser uma democracia em 1946. Então por que a imagem de um
tanque de guerra foi escolhida para iniciar o estudo desse período? Os cida-
dãos conquistaram o direito de voto, o livre direito de opinião foi restabelecido
e os sindicatos voltaram a se organizar. O que justifica o clima de guerra?
Como indica o título do capítulo, ocorreram “ensaios democráticos” entre 1946 e
1964, pois, apesar de a vida democrática ter sido restabelecida, as tentativas de golpe
estiveram constantemente presentes. A imagem abaixo retrata a agonia final do
que se denominou também República Populista. No dia 1
o
- de abril de 1964, João
Goulart, o presidente do Brasil, estava no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sob
proteção da parte do Exército que ainda o apoiava. Poucas horas depois seria deposto,
sendo vitorioso o golpe militar de 1964. Mas, como veremos, esse não foi o único esfor-
ço golpista no Brasil. Foi apenas aquele que teve êxito e colocou o país novamente
sob um regime ditatorial. Mais uma vez a maioria da população seria impedida de
participar das decisões relacionadas à vida pública do país.
Tomada do poder
pelos militares em
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de abril de 1964,
Palácio do Catete,
Rio de Janeiro.
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LINHA DO TEMPO
1945 ¬ Renúncia de Getúlio Vargas, final do Estado Novo.
1946 ¬ Eurico Gaspar Dutra toma posse da Presidência da República; promulgação da
nova Constituição brasileira: garantia do voto secreto e universal, assim como
da existência dos três poderes; eleição de Perón para a Presidência
da Argentina.
1947 ¬ Plano Salte: primeiro plano governamental brasileiro, constituía uma tentativa
de coordenar os gastos, principalmente nas áreas da saúde, da alimentação,
do transporte e da energia; cassação do registro do Partido Comunista
Brasileiro (PCB), que passa a atuar na ilegalidade.
1948 ¬ Criação da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Bogotá
(Colômbia).
1949 ¬ Proclamação da República Popular da China.
1950 ¬ Campanha da sucessão presidencial: Getúlio Vargas é eleito presidente.
1950-1953 ¬ Guerra da Coreia; início das transmissões de televisão no Brasil.
1951 ¬ Posse de Vargas; início da campanha “O petróleo é nosso”.
1953 ¬ Criação da Petrobras, empresa estatal com o monopólio da prospecção e do
refino do petróleo no Brasil; greve geral em São Paulo.
1954 ¬ Projeto apresentado ao Congresso cria a Eletrobras, estatal com monopólio
sobre a exploração da energia elétrica. Com a criação da empresa houve
grande mudança no perfil de geração de energia no país, tornando possível a
formação de novas bases para o desenvolvimento industrial com a construção
de grandes usinas geradoras de energia; Vargas anuncia um aumento de
100% no salário mínimo; pressão pela renúncia leva Getúlio Vargas ao suicídio
em 24 de agosto; Café Filho, vice de Vargas, assume a Presidência.
1955 ¬ Eleição de Juscelino Kubitschek; suspeita de golpe de Estado por parte do
presidente em exercício, Carlos Luz, leva à intervenção do Exército para
garantir a posse do presidente eleito.
Perón, presidente da Argentina, e Evita,
em foto de 1946.
Primeira transmissão da TV Tupi no saguão dos Diários
Associados. São Paulo, 1950.
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Juscelino Kubitschek (à esquerda) no dia da posse, em 31 de janeiro
de 1956, acompanhado do vice-presidente João Goulart (à direita)
e de Nereu Ramos (no centro).
Capa do LP Canção de
amor demais, lançado
em 1958 por Elizete
Cardoso. O disco tra-
zia a primeira versão
da canção Chega de
Saudade, com João
Gilberto ao violão.
Capa da edição extra do jornal Folha
de S.Paulo, de 25 de agosto de 1961,
com matéria sobre a renúncia de
Jânio Quadros.
Cartaz de campanha a favor
do presidencialismo, 1963.
1956 ¬ Posse de Juscelino Kubitschek; autorizada por lei a construção de Brasília,
projetada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa; rebelião militar em Jacareacanga.
1958 ¬ O Brasil é campeão da Copa do Mundo de futebol na Suécia; João Gilberto grava a
canção Chega de saudade, marco inaugural da bossa nova.
1959 ¬ Criação da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (Sudene);
rebelião militar em Aragarças; Revolução Cubana.
1960 ¬ Inauguração da nova capital do Brasil, Brasília, em 21 de abril.
1961 ¬ O presidente eleito Jânio Quadros toma posse em janeiro, mas renuncia em
25 de agosto; o Congresso aprova ato adicional instituindo o parlamentarismo
no Brasil; o vice-presidente João Goulart (Jango) assume a Presidência; é lançada
a campanha pela reforma agrária.
1962 ¬ O Brasil é bicampeão mundial de futebol no Chile.
1963 ¬ Plebiscito aprova a volta do presidencialismo.
1964 ¬ Deposição de João Goulart pelos militares em 1
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CONTEXTO
O governo Dutra
Em 31 de janeiro de 1946, o general Eurico Gaspar
Dutra, candidato do Partido Social Democrático
(PSD), foi empossado presidente após vencer as
primeiras eleições diretas para a Presidência desde
a tomada revolucionária de 1930. Nesse ano, os depu-
tados e os senadores eleitos no pleito de dezembro
de 1945 compuseram a Assembleia Constituinte,
encarregada de redigir a nova Constituição do país.
Promulgada em setembro, a nova Carta constitucio-
nal procurou restaurar o equilíbrio entre os poderes,
atribuindo maior força ao Legislativo, que voltaria
a se organizar em duas casas: Câmara e Senado,
sendo seus representantes eleitos por voto direto.
Os eleitores seriam todos os brasileiros alfabeti-
zados de ambos os sexos e acima de 18 anos; o voto,
secreto. Foi ampliada a autonomia dos estados,
e os governadores e o presidente do país seriam
novamente eleitos por voto direto.
A Constituição ampliou os direitos dos cidadãos
ao permitir liberdade sindical, direito de greve e
de organização político-partidária. Preocupou-se
em colocar os problemas sociais acima da própria
propriedade privada. Dessa forma, estabeleceu-se
que poderiam ocorrer desapropriações com fim
social desde que houvesse justa remuneração. Esse
ponto da Constituição fez com que se retomasse
a discussão da reforma agrária no país, defendida
Discurso de posse de Eurico Gaspar Dutra como presidente do
Brasil. Palácio do Catete, Rio de Janeiro, 1946.
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nos anos 1930 pela Aliança Nacional Libertadora
(ANL) e por alguns projetos de lei apresentados no
Congresso Nacional nos anos 1940.
Politicamente, o governo Dutra sofreu dura
oposição do Partido Comunista Brasileiro (PCB),
que criticava a orientação liberal do novo gover-
no. O partido oposicionista vinha conseguindo
ampliar sua participação política, tendo bancada
representativa no Congresso Nacional e em várias
assembleias estaduais. O partido também estava
presente em muitos sindicatos, constituindo uma
importante base de massa. Em fins de 1946, con-
tava com cerca de 150 mil filiados.
Vale lembrar que o governo Dutra se insere no
início da chamada Guerra Fria, ou seja, a polarização
capitalismo versus socialismo obrigava o Brasil a
tomar uma posição, principalmente por estar alinha-
do aos Estados Unidos, liderança na luta contra o
comunismo. Nesse sentido, o governo Dutra rompeu
relações diplomáticas com a União Soviética.
O crescimento do PCB nas eleições complemen-
tares para o Congresso Nacional e nas assembleias
estaduais, em janeiro de 1947, fez o governo Dutra
criar uma estratégia de repressão aos comunistas.
Acusando o PCB de antidemocrático, o governo
valeu-se do artigo 141 da Constituição, que vedava “a
organização, o registro ou o funcionamento de qual-
quer Partido Político ou associação, cujo programa
ou ação contrarie o regime democrático [...]”. Além
disso, o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito
Federal acusou o PCB de duplicidade em seus esta-
tutos, o que poderia ser motivo para colocar o partido
na ilegalidade. Em maio de 1947, o Partido Comunista
Brasileiro foi posto na ilegalidade, suas sedes foram
fechadas e decretada, em seguida, a prisão preventi-
va de seus líderes, como Luís Carlos Prestes, que teve
de permanecer na clandestinidade até 1958.
Ao lado disso, ocorreu um forte movimento
repressivo aos sindicatos, e, desde 1946, logo após a
promulgação da Constituição, Dutra já havia publi-
cado um decreto para limitar o direito de greve. Até
o final desse governo, quase metade dos mais de 900
sindicatos existentes sofreram intervenção federal.
Outra oposição ao governo Dutra foi Getúlio
Vargas, que, eleito senador pelo Partido Social
Democrático (PSD) pelo estado do Rio Grande
do Sul, mobilizou o Partido Trabalhista Brasileiro
(PTB), estimulando a população a aderir ao PTB.
Após 1947, Vargas e o PTB procuraram atrair para
si muitos dos eleitores do Partido Comunista,
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discursando sempre em favor das medidas que
protegessem o trabalhador.
Economicamente, o governo Dutra aproveitou-
-se, no início, do grande número de reservas em
dólares acumuladas durante a Segunda Guerra
Mundial para promover a entrada de produtos
importados no país, satisfazendo assim a deman-
da interna sem investir no desenvolvimento da
indústria nacional. Já em 1947, no entanto, essas
reservas tornaram-se insuficientes para manter tal
política. Conforme o historiador Thomas Skidmore,
em seu livro Brasil: de Getúlio a Castelo, as reservas
cambiais totalizavam US$ 708 milhões em 1945 e
caíram para US$ 92 milhões em 1947. A partir de
então, o governo passou a controlar o câmbio favo-
recendo o desenvolvimento da indústria nacional,
uma vez que o incentivo à importação de bens
de consumo foi limitado. Mantendo o cruzeiro (a
moeda da época) bastante valorizado em relação
ao dólar, o governo estimulou os investimentos
no mercado interno. Com isso, durante o governo
Dutra, a indústria e a economia brasileira tiveram
forte crescimento, embora a prioridade do governo
tenha sido o controle da inflação.
Esse crescimento, entretanto, não significou
uma melhora qualitativa na vida dos trabalhadores.
Conforme a revista O Cruzeiro de julho de 1948, um
trabalhador deveria ganhar 4 090 cruzeiros para
garantir seu sustento. Mas um ferroviário da Central
do Brasil ganhava apenas 1 100 cruzeiros, e a maior
parte dos funcionários públicos recebia em torno
de 850 a 3 300 cruzeiros. Durante esse período em
que a inflação gerava a queda do poder aquisitivo,
não houve nenhum reajuste do salário mínimo, que
havia sido estipulado – em 1943, quando foi criado –
em 380 cruzeiros para o Rio de Janeiro. (Dados citados
em: ABREU, Alzira Alves de et al. (Coord.). Dicionário
histórico-biográfico brasileiro. Rio de Janeiro: FGV/
CPDOC, 2001. v. 2. p. 1953.)
O Plano Salte
Em 1948, o governo Dutra apresentou ao Congresso
Nacional o plano econômico cujo nome faz referência
aos quatro grandes problemas que o governo consi-
derava fundamental enfrentar: saúde, alimentação,
transporte e energia. O Plano Salte só foi aprovado
em 1950, último ano do mandato de Dutra.
Quanto à saúde, buscava-se reduzir a mortalida-
de infantil, aumentar os recursos para a ampliação
do serviço médico no país e combater doenças
com a melhora da qualidade sanitária. Em relação
à alimentação, tinha-se como objetivo ampliar o
crédito agrícola, facilitar a exportação e estimular
o crescimento da produção destinada ao mercado
interno. Para os transportes, a meta era ampliar a
malha ferroviária e rodoviária, modernizar os portos
e construir oleodutos. Por fim, para o setor ener-
gético, propunha-se melhor aproveitamento dos
recursos hidráulicos, a produção de gás natural, a
exploração e a refinação do petróleo e o incentivo
à pesquisa científica.
O plano propunha que parte de seu financia-
mento viesse do capital privado. Contudo este
demonstrou pouco interesse em executá-lo, uma
vez que investimentos em infraestrutura quase
não ofereciam possibilidade de lucro.
Getúlio Vargas e Luiz Carlos Prestes, ambos senadores, aliados durante comício no Vale do Anhangabaú, em São Paulo (SP), em apoio
à candidatura do deputado Cirilo Jr. à vice-governança do Estado de São Paulo, 1947.
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Ao final de 1950, havia sido cumprida somente
uma pequena parte da meta estabelecida, consu-
mindo uma elevada soma de recursos conseguidos,
em parte, com os bancos estrangeiros. Após a posse
de Getúlio Vargas na Presidência, o plano continuou
a ser executado. A partir de 1951, o presidente come-
çou a redirecionar os investimentos, priorizando o
desenvolvimento industrial e os ajustes econômicos.
Mesmo assim, o Plano Salte continuou em vigor,
sendo seus recursos utilizados para diversos fins,
principalmente complementar os fundos de vários
órgãos do governo. Ao fim do período de vigência
do Salte, o Congresso Nacional aprovou o pedido do
presidente para que o plano tivesse prosseguimento.
Entretanto, ao tomar posse após a morte de Vargas,
o presidente Café Filho vetou sua continuidade.
Getúlio Vargas:
presidente eleito
Após obter estrondosa votação nas eleições
de 1945, sendo eleito senador por São Paulo e Rio
Grande do Sul, Getúlio Vargas credenciou-se como
possível candidato à sucessão de Dutra. Durante
seu mandato como senador, procurou desfazer a
imagem de ditador do Estado Novo, mostrando que
estaria apto a governar em um regime democrático.
Eleito senador pelo PSD, Getúlio Vargas passou
a apoiar o PTB nas eleições seguintes, tornando-
-se depois candidato à Presidência por esse par-
tido. Sua estratégia era atrair o apoio desses dois
partidos que havia ajudado a fundar. Conforme o
historiador Thomas Skidmore:
A estratégia de Vargas era clara: manter a lealdade
dos tradicionais caciques políticos do interior, atra-
vés do PSD, ao mesmo tempo em que conseguia
força eleitoral nas cidades, por meio do PTB.
SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio a Castelo. 4. ed.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975. p. 103.
Em junho de 1950, formalizaram-se as candida-
turas de Getúlio Vargas, pelo PTB, do brigadeiro
Eduardo Gomes, pelo Partido Liberal (PL), com o
apoio da UDN, e de Cristiano Machado, pelo PSD.
O discurso de campanha de Getúlio centrou-se no
trabalhismo, no nacionalismo econômico e na cria-
ção de novas medidas de bem-estar social, como
a extensão das leis trabalhistas para o campo.
Propunha também a nacionalização dos recursos
naturais e das riquezas do subsolo, como era o caso
do petróleo. Realizadas as eleições, Vargas obteve
expressiva vitória (48,7% dos votos) e foi empos-
sado no cargo em 31 de janeiro de 1951 com João
Café Filho, vice-presidente. Buscando viabilizar um
acordo que lhe desse sustentação política, criou
um ministério de coalizão, envolvendo nomes dos
maiores partidos políticos. Em fevereiro de 1951, 120
mil pessoas participaram de uma festa no estádio
do Maracanã em comemoração à vitória eleitoral.
Nela estiveram presentes jogadores de futebol e
artistas, entre outras personalidades.
Para vencer a miséria, o governo Vargas julgava
necessário que o país se desenvolvesse economica-
mente, pois a riqueza existente não seria suficiente
para superar as dificuldades. Para tanto, seria
fundamental investir nos setores de energia e trans-
porte, já que, sem eles, não seria possível alavancar
a indústria. Formulou então um programa energé-
tico e procurou atrair investimentos estrangeiros
que tornassem viável o desenvolvimento interno.
Em dezembro de 1951, Getúlio enviou ao
Congresso Nacional um projeto criando a empre-
sa de capital misto (privado e estatal) Petróleo
Brasileiro Sociedade Anônima (Petrobras).
Seu objetivo era estimular a pesquisa, a lavra, a
refinação e o comércio de petróleo e derivados.
Vigorava desde o governo Dutra uma campanha
de intenso apoio popular sob o lema nacionalista
“O petróleo é nosso!”.
O projeto foi discutido no Congresso por quase
dois anos e provocou enorme desgaste político ao
governo. Havia aqueles que defendiam uma posição
nacionalista extremada e aqueles que lutavam pela
ampliação do capital estrangeiro e da participação
da iniciativa privada. Somente em outubro de 1953 o
projeto foi aprovado e a Petrobras criada. No artigo
primeiro da lei que criou a estatal, lê-se:
Constituem monopólio da União: a pesquisa e a
lavra das jazidas de petróleo [...], a refinação do
petróleo nacional ou estrangeiro, o transporte ma-
rítimo do petróleo bruto de origem nacional [...].
Assim, ganhava força o projeto nacionalista de
desenvolvimento econômico do país, garantindo o
monopólio estatal do petróleo e ampliando a infra-
-estrutura para o desenvolvimento industrial. Vale
lembrar que, somente entre 1945 e 1950, o consumo
de petróleo no país triplicou, exigindo maciços
investimentos nesse setor.
Buscando ainda promover o desenvolvimento
econômico, Vargas implantou outras medidas,
como a criação, em 1952, do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico (BNDE),
que tinha como finalidade promover projetos de
ampliação da infraestrutura. Vargas chegou a apre-
sentar um plano de mudança na estrutura agrária
que desapropriaria terras de interesse social. No
entanto, esse projeto ficou parado por vários anos
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no Congresso Nacional. Houve também grande
investimento na ampliação da capacidade de ener-
gia instalada, ampliada em mais de 50% durante o
governo Vargas.
Em 1953, o governo brasileiro ressentiu-se da
falta de financiamentos externos, principalmente
norte-americanos. Além disso, a elevação da infla-
ção fez surgir uma onda de greves em São Paulo
e no Rio de Janeiro. Os grevistas reivindicavam
aumentos salariais, e chegou a ser deflagrada uma
greve geral de ampla repercussão em São Paulo.
Cerca de 300 mil trabalhadores de vários setores da
economia cruzaram os braços, e a greve só acabou
depois da concessão de um reajuste salarial e da
liberação de sindicalistas presos. A manifestação
ficou conhecida como a Greve dos 300 mil.
No Congresso Nacional, Vargas não obteve
apoio suficiente para levar adiante projetos como
o da reforma agrária. Nesse clima de contestação,
ele foi perdendo apoio popular e também político-
-partidário. Um indício da falta de apoio político foi
a folgada vitória de Jânio Quadros para a prefeitura
de São Paulo, pela UDN, em 1953.
Grevistas enfrentam forças policiais na Praça da Sé, em São
Paulo, durante reivindicação por reajustes salariais que mobi-
lizou milhares de trabalhadores em 11 de abril de 1953.
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Campanha a favor do monopólio estatal do petróleo. Cartaz
da III Convenção Nacional de Defesa do Petróleo, promovida
pelo Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia
Nacional (Cedpen). Rio de Janeiro, 5 de julho de 1952.
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Ainda em 1953, a oposição desencadeou uma
campanha contra Samuel Weiner, jornalista e
editor do jornal carioca Última Hora, publicação
alinhada ao governo. Os oponentes queriam provar
que o jornalista tinha se beneficiado de créditos
do Banco do Brasil. O favorecimento seria motivo
suficiente para iniciar um processo de investiga-
ção e impeachment (impedimento) do presidente
por corrupção e favorecimento. A oposição não
atingiu seu objetivo; entretanto, deixou no ar a
possibilidade de que a corrupção poderia estar
presente no governo getulista.
Em meados desse mesmo ano, João Goulart,
também chamado de Jango, foi nomeado minis-
tro do Trabalho e passou a discursar em favor de
algumas greves, defendendo os direitos dos tra-
balhadores e forçando os patrões a promoverem
acordos. Procurou estimular a organização de sin-
dicatos rurais e participou de várias assembleias
sindicais. Jango defendia ainda um aumento de
100% do salário mínimo.
A posição de Goulart provocou a reação de
militares. Em fevereiro de 1954, foi divulgado o
Manifesto dos Coronéis, que acusava o governo
de não financiar adequadamente o Exército e exi-
gia reajustes salariais para os militares. A crise
levou Goulart à demissão. Mesmo assim, Getúlio
insistiu em tomar medidas que conquistassem o
apoio dos trabalhadores.
A partir de então, oposicionistas da UDN e
militares começaram a tecer a trama que levaria à
deposição de Getúlio Vargas. Em 1.º de maio, Dia do
Trabalho, Vargas fez cumprir o desejo de Goulart e
aumentou em 100% o salário mínimo. Houve grande
reação à medida: vários pedidos de inconstituciona-
lidade foram encaminhados ao Supremo Tribunal
Federal (STF). Enquanto Vargas adotava medidas
que o aproximavam da classe trabalhadora e procu-
rava limitar a participação do capital estrangeiro,
os oposicionistas – principalmente a UDN – con-
sideravam perigosa essa tentativa de apoiar-se na
força dos trabalhadores e de seus sindicatos.
Várias greves foram deflagradas no período
que se seguiu, pois os patrões afirmavam que não
tinham como arcar com os custos que a medida
gerou. Em maio de 1954, os oposicionistas, lidera-
dos pela UDN, levaram ao Congresso um pedido
de impeachment do presidente. Dessa vez, a ale-
gação era a existência de um plano secreto entre
os governos da Argentina, do Brasil e do Chile, o
chamado Acordo ABC, no qual os três países
formariam um bloco de resistência aos Estados
Unidos. Acusavam Vargas de se inspirar no pre-
sidente argentino Juan Domingo Perón (eleito em
1946) para fundar, no Brasil, uma república autori-
tária com bases sindicalistas.
Em agosto, veio o golpe final contra Getúlio. No
dia 5, o jornalista oposicionista Carlos Lacerda,
que trabalhava no periódico carioca Tribuna da
Imprensa, sofreu um atentado ao chegar em casa
e foi ferido no pé. Com ele estavam seu filho e um
major-aviador, que morreu na hora. Rapidamente,
Lacerda, um dos líderes da UDN, providenciou
a publicação de vários artigos em que acusava
Vargas pelo atentado.
Em 9 de agosto, a oposição pediu, no Congresso,
que se votasse o afastamento de Vargas. Grupos
de militares também conspiravam contra o pre-
sidente. No dia 11, aconteceram vários protestos
públicos após a missa de sétimo dia do major-
-aviador Rubens Florentino Vaz, morto no atentado
contra Lacerda.
Em 13 de agosto, soldados da Aeronáutica pren-
deram Alcino João do Nascimento, que depôs sobre
o atentado em um inquérito conduzido pela Polícia
Militar. Em seu depoimento, confessou o crime e
acusou Climério Euribes de Almeida, membro da
guarda pessoal de Getúlio, de tê-lo contratado para
matar Lacerda. No dia 18, Climério foi preso e con-
fessou ter sido contratado por Gregório Fortunato,
secretário da guarda pessoal de Vargas. Oficiais
da Aeronáutica foram ao Palácio do Catete e con-
fiscaram a correspondência pessoal de Fortunato.
Encontraram cartas que envolviam diversos polí-
ticos em transações irregulares; um deles era
Manuel Vargas, filho do presidente. A partir daí, até
mesmo a bancada do PTB não sabia mais como
evitar a renúncia.
No dia 23 de agosto de 1954, trinta generais
redigiram um manifesto pedindo a renúncia do
presidente. Muitos militares de outros estados
endossaram o documento. O vice-presidente Café
Filho também rompeu com Vargas, já se preparando
para a possibilidade de assumir o cargo.
Em reunião ministerial ocorrida na madrugada
do dia 24 daquele mês, Vargas decidiu que aceita-
ria licenciar-se temporariamente do cargo, desde
que a ordem institucional fosse preservada e os
militares abandonassem a postura rebelde. O pre-
sidente recusou a ideia de renúncia e disse que
preferiria a morte caso a situação não pudesse
ser revertida.
Na manhã do dia 24 de agosto de 1954, Vargas
recebeu a notícia de que os militares tentariam
derrubá-lo com o apoio do ministro da Guerra, que
horas antes deixara a reunião ministerial afirmando
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que lutaria contra os insurretos. Diante disso, fez
valer sua promessa e se suicidou, em seu quarto,
com um tiro no coração. Ao lado dele foi encon-
trada uma carta-testamento que continha sua
assinatura. Nela afirmava:
[...] Voltei ao Governo nos braços do povo.
A campanha subterrânea dos grupos internacio-
nais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados
contra o regime de garantia do trabalho. A lei de
lucros extraordinários foi detida no Congresso.
Contra a justiça da revisão do salário mínimo se
desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade
nacional na potencialização das nossas riquezas
através da Petrobras e, mal começa esta a funcio-
nar, a onda de agitação se avoluma. [...] Não que-
rem que o trabalhador seja livre. Não querem que o
povo seja independente. [...]
Mesmo sendo colocada em dúvida a autenticida-
de da carta, após sua divulgação pelas rádios ocor-
reram depredações e grandes protestos populares
em várias cidades, responsabilizando a oposição,
principalmente a UDN, e os norte-americanos pela
atitude de Vargas. Sedes de jornais e rádios ligados
à oposição foram atacadas por populares, assim
Tanques do Exército ocupam a sede do jornal Diário de
Notícias, de oposição a Getúlio, para protegê-lo das investidas
populares, 1954.
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Carlos Lacerda recebendo atendimento após o atentado na Rua Toneleiros, no Rio de Janeiro, em 5 de agosto de 1954. O atentado
desencadeou uma nova onda de denúncias contra o governo de Vargas, que se suicidaria no dia 24 do mesmo mês.
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como o consulado dos Estados Unidos. O enterro
reuniu uma multidão nunca vista na capital federal.
Café Filho assumiu o cargo de presidente
ainda no dia 24 de agosto. O governo, apoiado pela
oposição, teve de amenizar as críticas a Getúlio,
uma vez que o suicídio havia conseguido colocar
seus inimigos em uma posição difícil diante da
população. Nas eleições legislativas que ocorre-
ram em outubro, a UDN acabou por ser a principal
derrotada. A aliança PSD e PTB, por sua vez, foi
revitalizada, sendo a carta-testamento de Vargas
transformada em programa partidário do PTB a
partir de então.
Durante seu governo, Café Filho procurou con-
ter o crescimento da inflação e o déficit público.
Para atrair novos investimentos estrangeiros, foi
baixada a Resolução n. 113 da Superintendência
da Moeda e do Crédito (Sumoc), que criou
condições favoráveis para a entrada do capital
estrangeiro no país nos anos seguintes, estimu-
lando assim o processo de industrialização. Café
Filho foi responsável ainda pela assinatura do
decreto que criou a Comissão de Localização da
Nova Capital Federal, que tinha como objetivo
prosseguir os estudos para a transferência da
capital federal para o Planalto Central. Em 1955,
Café Filho apresentou a delimitação da área que
seria, nos anos seguintes, destinada à construção
da nova sede do governo.
Em novembro de 1955, Café Filho teve um
distúrbio cardiovascular que o impediu de con-
tinuar na Presidência da República. Foi subs-
tituído por Carlos Luz, presidente da Câmara.
Este não conseguiu apoio político nem do
Parlamento nem dos militares, e acabou depos-
to. Em seu lugar foi empossado Nereu Ramos,
vice-presidente do Senado. Com o restabele-
cimento de Café Filho, os militares, liderados
pelo general Lott, sustentaram que o gover-
nante não deveria voltar ao governo, pois era
suspeito de ter participado de uma conspiração
contra a posse de Juscelino Kubitschek de
Oliveira, eleito para a Presidência da República.
Em 22 de novembro, o Parlamento aprovou o
impedimento de Café Filho, confirmando Nereu
Ramos à frente da Presidência.
O governo JK e o
desenvolvimentismo
Nas eleições presidenciais de 1955, o mineiro
Juscelino Kubitschek foi eleito presidente e João
Goulart, vice-presidente. Vale lembrar que o voto
para presidente era desvinculado do voto para
vice-presidente. Goulart foi o candidato mais
votado. A derrotada UDN passou a defender um
novo golpe que não permitisse a posse do presi-
dente. Alegava que a Constituição vigente exigia
maioria de votos, e JK, como era chamado, havia
conseguido somente 36% deles. Acusava também
a coligação PSD–PTB de praticar corrupção elei-
toral para obter a vitória. Um dos defensores do
golpe foi o jornalista Carlos Lacerda, que havia
combatido Getúlio e Goulart anos antes. Ele voltou
a discursar contra o comunismo, afirmando que os
candidatos eleitos poderiam facilitar a ascensão
do regime comunista no país.
Além disso, os militares faziam forte oposi-
ção a essa chapa, uma vez que representava as
antigas forças getulistas. Observe na tabela a
seguir o número de votos para cada candidato
nessas eleições.
Multidão acompanha o funeral de Getúlio Vargas,
no Rio de Janeiro, em 25 de agosto de 1954.
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Votação dos candidatos a presidente e a vice
nas eleições de 1955
Candidato Cargo
Total de
votos
João Goulart (PTB)
Vice-
presidente
3 591 409
Milton Campos
(UDN)
Vice-
presidente
3 384 739
Juscelino Kubitschek
(PSD–PTB)
Presidente 3 077 711
Juarez Távora (UDN) Presidente 2 610 462
Ademar de Barros
(PSP)
Presidente 2 222 725
Danton Coelho
(PSP)
Vice-
presidente
1 140 261
Plínio Salgado (PRP) Presidente 714 379
CORTÉS, Carlos E. Política gaúcha (1930-1964).
Porto Alegre: PUCRS, 2007. p. 241-2.
Apesar das ameaças de golpe de Estado, JK
assumiu o cargo de presidente, em janeiro de 1956,
com forte apoio parlamentar em razão do acordo elei-
toral que uniu PSD e PTB. No início de seu governo,
enfrentou a oposição de militares que queriam sua
deposição. Em fevereiro de 1956, ocorreu a Revolta
de Jacareacanga, liderada pelo capitão José Chaves
Lameirão e pelo major Haroldo Veloso, ambos da
Aeronáutica. Combatiam o ministro militar nomeado
pelo presidente, o brigadeiro Vasco Alves Seco, ligado
ao ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott.
Após tomar um avião de caça repleto de arma-
mentos, o major Haroldo Veloso partiu para a base
aérea de Jacareacanga, que, depois de tomada,
tornou-se a sede do movimento rebelde. Foram
organizados batalhões com a participação de
indígenas e seringueiros. Obrigando os militares a
pegar em armas para combater o movimento, os
rebeldes esperavam que o grupo descontente com
o presidente aproveitasse a situação para investir
contra o governo. Na verdade, pretendia-se criar
uma situação favorável para um levante militar
contra Juscelino Kubitschek e o grupo militar que
lhe dava sustentação. Em seguida os insurretos
ocuparam Santarém, conseguindo lá o apoio de
grande parte da população. Depois de dominar o
aeroporto de Santarém, em posse dos rebeldes,
as tropas legalistas dominaram Itaituba, ficando
o movimento restrito a Jacareacanga. O major
Veloso foi preso, tendo os outros líderes do movi-
mento fugido para a Bolívia. Todavia, para evitar
novos confrontos e estabelecer condições mais
propícias para governar, JK concedeu anistia a
todos os envolvidos.
Ainda em campanha eleitoral, Juscelino
Kubitschek assumiu o compromisso de transferir
a capital do Brasil para o Planalto Central. Além
disso, anunciou o Programa de Metas, que
reunia um conjunto de medidas fun-
damentais para o desenvolvimento
econômico de vários setores do país.
Ao assumir a Presidência, buscou
dinamizar o processo de industrialização nacional.
O Programa de Metas, que teve no economis-
ta Roberto Campos um de seus idealizadores,
pretendia investir prioritariamente nos seto-
res de transportes e energia, na indústria de
base, na substituição de importações (indústria
automobilística) e na educação. Dessa forma,
seriam estabelecidas as condições para um
desenvolvimento econômico consistente. Nesse
contexto, consolidou-se o desenvolvimentismo
como modelo econômico, ou seja, a defesa do
crescimento da economia, da riqueza nacional,
como forma de alcançar maior igualdade social.
O ambicioso lema de JK era fazer 50 anos em 5.
Os criadores do Programa de Metas considera-
vam fundamental o desenvolvimento econômico
para garantir a soberania nacional, pois só assim
o país poderia fazer valer o princípio de autodeter-
minação, de livre escolha dos destinos futuros sem
depender dos países ditos desenvolvidos. Um últi-
mo princípio era o de ordem, que deve ser entendido
como o da preservação do regime democrático.
No entender de Kubitschek, a persistência da
pobreza e do subdesenvolvimento criava espaço
para a divulgação e o crescimento de ideologias
que ele considerava antidemocráticas. Uma des-
sas seria o comunismo. Para ele, a ideia de ordem
relacionava-se diretamente com a ideia de segu-
rança, de mobilização constante contra o avanço
do comunismo. Para que o desenvolvimento fosse
alcançado, seria necessária uma intervenção
maior do Estado na economia, atuando como
organizador e planejador.
O desenvolvimentismo defendia a ampliação do
capital nacional na organização do parque indus-
trial, mas considerava indispensável a participação
do capital estrangeiro para que os investimentos
planejados fossem concretizados. Para JK e os
desenvolvimentistas, nacionalismo era sinônimo de
desenvolvimento econômico, não se preocupando em
denunciar a exploração dos países ricos em relação
aos pobres, mas, sim, em criar condições internas
para superar o subdesenvolvimento, aliando-se o
quanto fosse necessário ao capital estrangeiro.
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Palestra de Juscelino Kubitschek no Clube Militar. Rio de Janeiro (RJ), 1959.
A energia e o transporte, considerados fun-
damentais para o desenvolvimento industrial e
econômico, entravam como dois dos objetivos do
Programa de Metas (ao todo eram 31 metas divididas
em cinco grupos). Uma terceira frente de investi-
mentos seria a expansão da produção de alimentos,
principalmente do setor agropecuário. Dever-se-ia
mecanizar a agricultura, criar matadouros indus-
triais e armazéns e investir em fertilizantes. No setor
energético, a prioridade seria para o âmbito elétrico,
investindo na construção de usinas hidrelétricas. Já
nos transportes, os investimentos seriam dirigidos
ao setor ferroviário, à construção de rodovias e à
modernização e ampliação dos serviços portuários.
A construção da nova capital, Brasília, uma das
marcas do governo JK, reforçaria as intenções do
programa ao ampliar o desenvolvimento econômico
para essa região do país. Estava no cerne das preo-
cupações do Programa de Metas a substituição de
importações, fazendo crescer a economia brasileira
ao mesmo tempo que tornava mais favorável a balan-
ça de pagamentos. Nesse contexto, buscava-se a
criação de uma indústria automobilística nacional.
Em 1956, Kubitschek criou o Grupo Executivo
da Indústria Automobilística (Geia), que seria
responsável pelo processo de implementação
desse setor. Em 1958, foi apresentado o primeiro
veículo fabricado no Brasil, o DKW Vemag. Até
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1961, quando ocorreram as novas eleições presi-
denciais, o Programa de Metas tinha sustentado
um desenvolvimento econômico maior que o conse-
guido nos anos anteriores. Houve um crescimento
médio anual de 7% do Produto Interno Bruto
(PIB) e a ampliação da renda per capita.
Nesse período, pavimentaram-se cerca de
6 mil quilômetros de rodovias e ampliou-se em
aproximadamente 800 quilômetros a malha ferro-
viária, sendo produzidos mais de 300 mil veículos
automotores até 1960. Dobrou-se a produção de
aço e cimento; a produção de borracha e alumínio,
por sua vez, teve grande impulso.
Quanto à agricultura, o governo de JK pro-
curou racionalizar o sistema produtivo. Deveria
Juscelino Kubitschek com Heinrich Nordhoff, presidente da Volkswagen mundial, e Schultz Wenk, na inauguração da empresa no
Brasil, em 18 de janeiro de 1959. O fusca foi um dos primeiros veículos fabricados no Brasil. Em 1958, havia sido inaugurada a fábrica
do DKW Vemag, que fabricara o primeiro veículo brasileiro.
aperfeiçoar os métodos de plantio, irrigação do
solo e cultivo. Com a introdução de mais máqui-
nas no campo, foram reduzidos os salários e a
oferta de trabalho. Essa política não priorizava
a reforma agrária, mas a modernização do setor.
Em fins de seu governo, a crise provocada no
mercado de trabalho rural fez a reforma agrária
voltar a ser discutida.
Ao lado do processo de desenvolvimento eco-
nômico, o período também foi acompanhado pelo
crescimento da inflação e da forte penetração do
capital estrangeiro, que dominou vários setores da
economia. Por causa disso JK sofreu um desgaste
popular no final de seu governo, havendo alta de
preços não acompanhada de reajustes salariais
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principalmente pelos governos militares que vieram
depois de 1964, os quais o adotaram como programa.
Mesmo após o fim da ditadura militar em 1985, muitas
lideranças políticas continuam utilizando o discurso
e os princípios desenvolvimentistas, enraizando-o no
pensamento político e econômico brasileiro.
e maior dependência do capital externo. Essa
dependência foi alvo de críticas por parte de seus
opositores e tema bastante explorado na campanha
eleitoral de 1960 pelos partidos contrários a JK.
Nos anos que seguiram a Juscelino Kubitschek,
o modelo desenvolvimentista não foi abandonado,
A construção de Brasília
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esde a primeira Constituição republicana havia sido reservada uma área para a construção de uma futura
capital federal. No artigo 3.o da Constituição de 1891, lemos: “Fica pertencendo à União, no Planalto
Central da República, uma zona de 14 400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada
para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”. No entanto, nenhum dos presidentes republicanos aventurou-
-se em tal obra antes de JK. Como construir uma capital em local tão distante sem nenhuma infraestrutura? A
proposta chegou a ser formulada para Getúlio Vargas, que a refutou de imediato. Juscelino Kubitschek, no entanto,
em seus planos de desenvolvimento econômico do país e temeroso do golpismo que reinava na capital federal,
investiu no projeto. A construção da capital certamente movimentara a economia, mas também seus incalculáveis
custos renderam muitas críticas ao presidente, considerado irresponsável pela oposição de se meter em aventura
tão imprevisível. Havia aqueles que nem mesmo acreditavam que pudesse ser realizado. Aprovada no Congresso
em setembro de 1956, membros da UDN, partido de oposição, esperavam que esse fosse o fracasso que levaria o
presidente à ruína política. O arquiteto Oscar Niemeyer foi convidado pelo presidente Kubitschek para projetar a
nova capital. Para isso, foi nomeado diretor do departamento de arquitetura da Companhia Urbanizadora da Nova
Capital (Novacap). A empresa ficou responsável pela construção de Brasília. Ele ficou encarregado de organizar o
concurso para que fosse escolhido o responsável pela criação do plano piloto. O arquiteto Lucio Costa venceu
o concurso em 1957. Oscar Niemeyer foi responsável ainda pelo projeto do Palácio Alvorada, residência oficial
do presidente. Em 1.º de outubro de 1957, foi sancionada a lei que indicava o início da construção da nova capital.
Em 1959, antes mesmo da inauguração oficial, a cidade já tinha mais de 60 mil habitantes, grande parte deles eram
os envolvidos na própria construção da cidade. O projeto era a continuação daquilo que já tinham feito no projeto de
modernização do bairro da Pampulha em Belo Horizonte. Conta o próprio Niemeyer: “Eu comecei a minha arquitetu-
ra com a Pampulha. E Brasília foi o seguimento natural.
E minha preocupação sempre foi a invenção arquite-
tônica. [...] Em termos de arquitetura, Brasília é con-
tinuação da Pampulha. Porque a Pampulha foi feita
com o mesmo tipo de arquitetura. Arquitetura nova
que a gente estava se impondo. Mais leve, utilizando
a curva, mais próxima das igrejas de Minas Gerais,
mais de acordo com o clima”.
Em 21 de abril de 1960, a cidade foi inaugurada. A
obra havia absorvido até o momento mais de 60 mil
Construção do prédio do Congresso
Nacional na nova capital, em 1960.
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Jânio Quadros e a renúncia
Nas eleições presidenciais de 1960, a coligação
PSD–PTB lançou o marechal Henrique Teixeira Lott
candidato à Presidência, e João Goulart, mais uma
vez, à vice-presidência. Lott havia sido ministro da
Guerra de Café Filho e atuou na defesa da posse
de JK em 1955. Ao ser formado o novo governo, Lott
continuou ocupando o mesmo cargo. Já a UDN que-
ria se aproveitar da crise econômica gerada pelo
governo JK para conseguir obter a vitória eleitoral.
Para tanto, apoiou a candidatura do governador
de São Paulo, Jânio Quadros (1917-1992), que
já havia conseguido obter expressivos resultados
eleitorais no estado, derrotando Ademar de Barros
nas eleições para governador.
O estilo populista de Jânio procurava construir
seu carisma diante da população com um com-
portamento singular: usava roupas amarrotadas,
cabelos pouco penteados e sacava dos bolsos
sanduíches que comia durante os comícios. Como
símbolo de sua campanha, utilizava uma “vassou-
ra”, que serviria para varrer a corrupção do país.
Terminadas as eleições, foram eleitos Jânio
Quadros para a Presidência e João Goulart para a
vice-presidência. A vitória de Jânio sobre Lott e Ademar
de Barros, que também foi candidato, foi esmagadora.
Efetivou-se assim a chamada dupla Jan-Jan (Jânio e
Jango), de grande apelo popular, mas que não havia
sido capaz de articular uma composição partidária.
trabalhadores e 360 mil metros quadrados haviam sido
construídos. Outros 150 mil metros quadrados ainda
estavam por ser feitos ou concluídos. Em 1987, Brasília
foi considerada patrimônio cultural da humanidade pela
Unesco e, em 1999, o mesmo Niemeyer nos advertia:
“Acho que Brasília está num momento grave. A cida-
de está crescendo demais, é preciso conter. É o que
acontece com todas as cidades. Chega um momento
crítico assim, em que o tráfego começa a ficar difícil...
Para defender Brasília é preciso enfrentar essa campa-
nha do poder imobiliário de querer aumentar gabarito,
de entrar em áreas que não devem ser invadidas. Essa
coisa toda que a gente já conhece por experiência nas
grandes cidades brasileiras. Eles sabem que é ruim, mas
continuam querendo fazer essas coisas. É o problema do
lucro, não é? Mas isso a gente já conhece e nem adianta
discutir. É protestar! Defender Brasília é protestar! Nós
estamos fazendo uma Ação Popular contra uma ideia de
aumentar o gabarito dos prédios já existentes, fazer mais
um andar. É uma sacanagem completa!”.
Apud COUTO, Ronaldo Costa. Brasília Kubitschek de Oliveira.
Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 14-5.
O presidente Juscelino Kubitschek recebe a chave da cidade,
de Israel Pinheiro, autoridade responsável pela construção
da cidade. 21 abr. 1961.
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A UDN chegava pela primeira vez à presidên-
cia por intermédio de Jânio Quadros, que não
era uma liderança do partido. Sua candidatura
foi apoiada pela UDN em coligação com outros
partidos: Partido Democrata Cristão (PDC) e
Partido Trabalhista Nacional (PTN). A UDN con-
seguiu importantes vitórias em estados fortes da
federação. Carlos Lacerda foi eleito governador
da Guanabara; e Magalhães Pinto, governador de
Minas Gerais.
Jânio montou um ministério considerado, na
época, conservador e tomou várias medidas
na tentativa de construir uma imagem que realçava
a moralidade pública e a austeridade do presidente.
Um de seus principais apelos eleitorais havia sido
o combate à corrupção, procurando mostrar que
novos hábitos morais seriam criados. Impôs medi-
das para acabar com o contrabando e limitar as
regalias de funcionários públicos. Proibiu brigas de
galo, propagandas nos cinemas, desfiles de mode-
los com trajes de banho pequenos e lança-perfume
em bailes de Carnaval. Tomou várias medidas eco-
nômicas com o objetivo de reduzir a dívida externa,
diminuir o déficit público e controlar a inflação.
Para tanto, buscou a redução dos gastos públicos
e promoveu uma reforma cambial.
Em 24 de agosto de 1961, o governador da
Guanabara, Carlos Lacerda, acusou o presidente
de querer realizar uma reforma constitucional
para reduzir o poder do Parlamento e fortalecer
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No alto, Jânio Quadros desembarcando em Santos (SP), em
1959, após ter permanecido sete meses no exterior. Acima, co-
mício em favor de sua candidatura à presidência da República,
realizado no bairro de Vila Maria, em São Paulo (SP), em 1960.
Em seu jingle de campanha, cantava-se: “Varre, varre, vassou-
rinha/ Varre, varre a bandalheira/ O povo já está cansado de
sofrer dessa maneira”. Por isso as vassouras passaram a ser o
símbolo de sua campanha.
o Executivo. Segundo Lacerda, para realizar
essa reforma, Jânio fecharia provisoriamente o
Congresso. Instaurou-se forte crise na relação do
governo com as demais forças políticas. O pre-
sidente já não contava com o apoio de parte dos
militares, que protestavam contra a política externa
do governo: ele havia condecorado Ernesto Che
Guevara, líder da Revolução Cubana, e buscava se
aproximar dos países socialistas do Leste Europeu.
O presidente Jânio Quadros condecora o ministro cubano
Ernesto Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do
Cruzeiro do Sul. Brasília (DF), em 19 de agosto de 1961.
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Pode-se afirmar que Jânio tentou construir uma
política externa de maior independência em um con-
texto marcado pela Guerra Fria, ou seja, pela divisão
do Ocidente em dois grandes blocos: capitalista,
sob a liderança norte-americana, e socialista, sob o
comando soviético. Logo após sua posse, Jânio deu
demonstrações nesse sentido quando se negou a
colaborar com os Estados Unidos na participação
de uma missão militar armada contra Cuba que
vinha sendo planejada. Também estreitou relações
comerciais com a China e vários países africanos.
No que se referia à economia, Jânio perdeu apoio
popular ao ter congelado os salários e desvalorizado a
moeda, tornando mais caro o custo das importações.
Os produtos importados, como os derivados de petró-
leo, ficaram mais caros também em razão da política
do governo de corte de subsídios.
Em meio à crise e sem maioria no Parlamento,
Jânio decidiu renunciar em 25 de agosto de 1961. No
entanto, como explica o historiador Boris Fausto:
A renúncia não chegou a ser esclarecida. O próprio
Jânio negou-se a dar uma versão clara dos fatos,
aludindo sempre às “forças terríveis” que o leva-
ram ao ato. A hipótese explicativa mais provável
combina os dados de uma personalidade instável
com um cálculo equivocado. Segundo essa hipóte-
se, Jânio esperava obter com uma espécie de “ten-
tativa de renúncia” maior soma de poderes para
governar, livrando-se até certo ponto do Congresso
e dos partidos. Ele se considerara imprescindível
para os partidos na campanha presidencial e se jul-
gava imprescindível para o Brasil como presidente.
Acaso os conservadores e os militares iriam querer
entregar o país a João Goulart?
FAUSTO, Boris. História do Brasil.
São Paulo: Edusp, 1994. p. 442.
O substituto natural de Jânio era João Goulart,
considerado pelos ministros militares que não o
apoiavam como comprometido com os movimentos
de esquerda. Além disso, sua identificação com o
populismo getulista e sua atuação como ministro do
Trabalho de Vargas, propondo aumentar em 100% o
salário mínimo e atuando ao lado de sindicatos, colo-
cava parte da elite econômica do país contra Goulart.
Interinamente, assumiu a presidência da República
Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara, uma vez que
Goulart se encontrava em visita oficial à China. No
Congresso não houve reação expressiva em favor de
Jânio, e sua renúncia foi considerada um ato unilateral,
sendo apenas comunicada sem que ocorresse votação
parlamentar para aceitá-la ou não. A população não
pediu que ele voltasse, não havendo mobilização que
o reconduzisse ao poder com mais força política. Após
uma temporada na Europa, Jânio retornou em 1962
com o objetivo de disputar as eleições para governa-
dor do estado de São Paulo. Dessa vez, contudo, foi
derrotado por Ademar de Barros.
Como solução ao impasse institucional gerado
pela renúncia de Jânio Quadros, uma comissão do
Congresso sugeriu a adoção do regime parlamenta-
rista, reduzindo assim os poderes do presidente. Ao
mesmo tempo, o governador do Rio Grande do Sul,
Leonel Brizola, liderou um plano de resistência à
intervenção militar no governo e passou a defender
o cumprimento da Constituição e a posse de Goulart.
Brizola apoiou a tomada militar de emissoras de
rádio gaúchas e formou o que ficou conhecido como
cadeia da legalidade, integrando 104 emissoras
de rádio que incluíam os estados do Paraná, do Rio
Grande do Sul e de Santa Catarina. O objetivo era
mobilizar a população para apoiar a posse de Goulart.
O movimento gerou desentendimentos entre os mili-
tares sobre as formas de reprimir a iniciativa gaúcha.
O ministro da Guerra, Odílio Denis, ordenou a prisão
das lideranças e a derrubada de Brizola do poder,
enquanto outros militares julgavam que não se podia
ir contra a Constituição. O impasse e o acirramento
das tensões entre civis e militares contribuíram para
que estes acabassem por concordar com a solução
parlamentarista para a posse de Goulart.
Aprovada a emenda parlamentarista, João
Goulart foi empossado em 7 de setembro de 1961.
A partir de então, o chefe do Executivo indicaria o
presidente do Conselho de Ministros, que deveria
ser substituído quando não conseguisse mais o
apoio do Congresso Nacional. Com isso, o poder
do presidente da República foi reduzido.
O governo Goulart
e as reformas de base
Tancredo Neves, liderança do PSD e um dos
negociadores do pacto político que permitiu a
posse de Goulart, foi alçado ao posto de primeiro-
-ministro. Formou-se um ministério de união
nacional, com membros de diferentes partidos para
viabilizarem a aprovação de projetos no Congresso.
Como proposta inicial, o novo governo trouxe o
reajuste periódico dos salários, a nacionalização de
subsidiárias estrangeiras e a implementação das
reformas de base. Essas reformas defendidas por
Goulart pretendiam reorganizar a estrutura econô-
mica, social e política do país. Em 1958, o Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB), sigla de Goulart, havia
defendido a necessidade de reformas que atingissem
os diferentes setores da sociedade. Colocavam-se
em evidência a reforma agrária e o controle do capi-
tal estrangeiro, em especial a questão da remessa
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de lucros ao exterior. Leonel Brizola, em 1962, criou a
Frente de Mobilização Popular (FMP), reunindo
sindicalistas, associações estudantis e organizações
camponesas para pressionar em favor das reformas
e até mesmo sugerir o fechamento do Congresso,
caso este se posicionasse contra elas.
Um dos pontos mais polêmicos do projeto do
governo era a reforma agrária. Goulart defendia que
só seria possível fazer tal mudança estrutural se
fosse alterado o dispositivo constitucional que obriga-
va o governo a pagar antecipadamente, e em dinheiro,
os proprietários das terras desapropriadas. Grande
parte dos deputados e dos ministros não defendia
essa posição, criando-se aí um ponto de atrito. Outro
tema que gerava conflitos era a proposta de aumentar
o controle sobre o capital estrangeiro no país.
Em relação à política externa, o governo bra-
sileiro posicionou-se, em 1962, contra a medida
norte-americana de sanção a Cuba e invasão arma-
da de seu território. Assim, o governo defendia a
As ligas camponesas
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ntre 1955 e 1964, tiveram importante atuação no campo as
ligas camponesas. Criadas inicialmente em Pernambuco,
estiveram presentes em outras regiões do Brasil. A primei-
ra delas originou-se no Engenho Galileia, em uma propriedade
que congregava cerca de 140 famílias de arrendatários. O enge-
nho pernambucano já não produzia mais açúcar e as terras
haviam sido divididas em pequenos sítios e arrendadas aos
trabalhadores. A liga, originalmente denominada Sociedade
Agrícola e Pecuária de Pernambuco (SAPP), teria sido criada
com objetivos assistenciais e também para viabilizar a melhora
da qualidade técnica da produção. Temeroso com o crescimento
de um núcleo de produção camponesa, o proprietário do enge-
nho elevou o preço do foro, ou seja, a quantia paga pelo uso
da terra. Em oposição a essa medida, os foreiros procuraram o
advogado Francisco Julião (1915-1999), no Recife, para defen-
dê-los, uma vez que crescia a renda sobre a terra e os muitos
trabalhadores acabavam expulsos pelos altos preços dos foros.
Somente em 1959 houve uma decisão judicial sobre o caso,
sendo aprovada a desapropriação do engenho. Com isso, as ligas
camponesas transformaram-se em um ícone da reforma agrária.
No período que se seguiu, várias outras ligas foram formadas em
diversos estados brasileiros, sendo constituídos muitos comitês
das ligas. Francisco Julião tornou-se um líder nacional do movi-
mento, que, em vários momentos, reivindicou e questionou as
posições governamentais em relação à reforma agrária.
Em 1958, Julião foi reeleito deputado estadual e, depois, se elegeu
deputado federal por Pernambuco. A atuação das ligas camponesas
teve repercussão internacional. Julião viajou a Cuba, em 1961, na
companhia de Jânio Quadros. O presidente queria se aproximar
do chamado bloco socialista e aproveitou o prestígio de Julião e
das ligas camponesas junto ao governo cubano como estratégia de
aproximação. Julião fez várias outras viagens a Cuba, tornando-se
um admirador da revolução cubana. Jornais norte-americanos
mostravam as ligas como uma ameaça ao Brasil, uma vez que eram
lideradas por forças ditas “radicais” do Nordeste brasileiro. A partir
de 1962, as ligas começaram a entrar em declínio. O governo federal
estendeu ao campo a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e,
com isso, foram formados sindicatos sob o patrocínio do governo
e a supervisão do Ministério do Trabalho. Em 1964, Julião teve seu
mandato cassado pelo governo militar; em seguida, foi preso. Em
fins de 1965, após ser libertado, foi para o México.
Campanha pró-Reforma Agrária durante o I
Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores
Agrícolas, realizado em Belo Horizonte (MG), em 17
de novembro de 1961.
Campanha pró-Reforma Agrária Radical. Confe-
rência de Francisco Julião (o segundo da esquerda
para a direita, sentado à frente), acompanhado de
Luiz Carlos Prestes (o primeiro à direita). Rio
de Janeiro (RJ), setembro de 1961.
Fotos: Iconographia
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neutralidade brasileira em relação ao país socialis-
ta. Essa atitude criou um clima de hostilidade entre
o governo brasileiro e o norte-americano.
A partir de maio de 1962, Jango, como era chama-
do o presidente, tornou-se um radical defensor das
reformas de base, mudanças estruturais impres-
cindíveis para resolver alguns dos problemas sociais
brasileiros. Nesse contexto, Tancredo Neves renun-
ciou ao cargo de primeiro-ministro para disputar o
de governador de Minas Gerais. Goulart indicou San
Tiago Dantas para substituir Tancredo, mas a indica-
ção foi vetada, no Congresso, pelo PSD e pela UDN.
Dantas recebia o apoio de sindicalistas e deputados
de esquerda. Decidiu-se, então, pelo nome de Auro de
Moura Andrade, do PSD, que acabou por renunciar,
pois Jango rejeitou o ministério por ele formado.
Ao mesmo tempo, articulou-se uma greve geral em
apoio a Goulart, em 5 de julho de 1962, contra a posição
do Congresso, que reprovara San Tiago Dantas. Em
10 de julho, foi finalmente fechado um acordo para a
nomeação de um novo primeiro-ministro. O escolhido,
Francisco de Paulo Brochado da Rocha, já havia atu-
ado como secretário de Justiça no Rio Grande do Sul.
Durante a vigência desse gabinete ministerial, Goulart
conseguiu que fosse aprovada a antecipação do plebis-
cito pelo Congresso para decidir sobre a continuidade
ou não do sistema parlamentarista. Em janeiro de 1963,
foi realizado o plebiscito, e mais de 80% dos votantes
optaram pelo presidencialismo. Assim se encerrou o
período parlamentarista, tornando-se possível para
Goulart, a partir de então, dirigir o processo de imple-
mentação das reformas de base, que contavam com
amplo apoio de setores nacionalistas e da esquerda.
Para colocar em prática essas reformas, foi nome-
ado o economista Celso Furtado como ministro
do Planejamento. Idealizador da Sudene (criada em
1959, com sede no Recife), Furtado elaborou o Plano
Trienal de Desenvolvimento Econômico. O
objetivo era combater a inflação, que já ultrapassava
50% ao ano, e criar condições para que se atingissem
altas taxas de crescimento econômico. Ainda em 1963,
foram enviados projetos de lei ao Congresso Nacional
relacionados às reformas de base, e um deles era rela-
tivo à reforma agrária. A proposta, encabeçada pelo
PTB, foi rejeitada. Em janeiro de 1964, o Congresso
regulamentou a Lei de Remessa de Lucros, que
limitava a remessa de lucros das empresas ao exterior
em 10% do capital registrado.
Com a relutância do Congresso em aprovar
a reforma agrária, Jango decretou que as áreas
próximas às rodovias federais e às margens dos
açudes seriam desapropriadas para esse fim. Além
disso, estimulou a pressão popular participando de
comícios que defendiam a reforma. No maior desses
comícios, que ficou conhecido como o Comício
das Reformas, realizado em 13 de março de 1964,
Goulart anunciou a necessidade de várias medidas
estruturais para modernizar o país e atender às
aspirações populares. Propunha uma reforma
constitucional, agrária, fiscal e administrativa,
além da mudança do sistema bancário. Dessa forma,
buscava cada vez mais o apoio dos partidos e das
instituições de esquerda, abandonando o compro-
misso com os setores mais conservadores.
A reforma agrária mantinha o direito de proprieda-
de, mas consagrava o princípio da justa distribuição
social e da igualdade de oportunidades para todos os
cidadãos. Aqueles que tivessem suas terras desapro-
priadas seriam indenizados com títulos da dívida públi-
ca. Seriam consideradas passíveis de desapropriação
para fim social as chamadas terras improdutivas.
Jango defendia ainda uma reforma universitá-
ria, ampliando as garantias do docente e abolindo a
cátedra. Na reforma bancária, aprovava a criação
de um órgão centralizado que coordenasse a política
Comício das Reformas, Rio de Janeiro (RJ), 13 de março de
1964. Nos cartazes, frases em defesa das reformas agrária, ur-
bana, eleitoral, tributária, universitária e bancária, que costuma-
vam ter um tom ao mesmo tempo nacionalista e anticomunista.
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VOCABULÁRIO
Cátedra: cadeira de quem ensina, cargo de professor
catedrático do ensino superior abolido em 1968.
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monetária e tivesse força para atuar no controle da
inflação. Com relação às eleições, queria ampliar o
direito de voto aos analfabetos. No que se referia à
Constituição, pretendia alterar os artigos que impu-
sessem obstáculos às reformas de base.
João Goulart assinou dois decretos que caminha-
vam na direção das reformas; o primeiro fazia referên-
cia à desapropriação das refinarias de petróleo que não
estavam sob o comando da Petrobras. Já o segundo
considerava terras disponíveis para a reforma agrária
aquelas que fossem subutilizadas. Porém as incisivas
manifestações públicas de Goulart em prol das refor-
mas, a falta de apoio no Congresso e o isolamento
político do PTB fizeram com que a tese da interven-
ção militar, sustentada por parte dos integrantes da
União Democrática Nacional (UDN) e por outros líde-
res políticos de oposição ao governo, ganhasse força.
Ainda em janeiro de 1964, o chefe do Estado-
Maior do Exército, o general Castelo Branco,
estabeleceu um acordo militar de cooperação com
os Estados Unidos, no caso de ameaça à segurança
e à paz interna. Esse seria um sinal de que os mili-
tares, com o auxílio dos Estados Unidos, estariam
tramando um golpe contra Jango.
No entanto, até aquele momento não havia um
consenso entre os militares acerca do golpe de
Estado contra Goulart, até porque o presidente
ainda tinha o apoio de parte significativa dos ofi-
ciais. A oposição a Jango, contudo, acirrou-se após
25 de março, quando ocorreu a Revolta dos
Marinheiros. Um grupo de marinheiros, liderado
pelo cabo José Anselmo dos Santos, compareceu
a uma reunião comemorativa da Associação dos
Marinheiros e Fuzileiros Navais no Sindicato dos
Metalúrgicos do Rio de Janeiro. Como a associação
era considerada ilegal, o ato contrariava uma proibi-
ção do Ministério da Marinha e foi interpretado como
quebra de hierarquia militar. Os organizadores do
evento receberam ordem de prisão; entretanto, os
fuzileiros que deveriam prender os rebeldes aderi-
ram a eles. Goulart, por sua vez, proibiu as tropas de
invadirem o local da reunião, o que provocou imediato
pedido de demissão do ministro da Marinha.
Pouco depois, os marinheiros foram presos, mas
logo libertados e anistiados por Jango. O episódio
levou Goulart a perder o apoio de muitos militares,
o que deu fôlego à tese golpista.
O jornalista Elio Gaspari explica:
Havia dois golpes em marcha. O de Jango viria
amparado no “dispositivo militar” e nas bases sin-
dicais, que cairiam sobre o Congresso, obrigando-o
a aprovar um pacote de reformas e a mudança das
regras do jogo da sucessão presidencial. Na segunda
semana de março, depois de uma rodada de reuniões
no Rio de Janeiro, o governador Miguel Arraes, de
Pernambuco, tomou o avião para o Recife avisando
a um amigo que o levara ao aeroporto: “Volto certo
de que um golpe virá. De lá ou de cá, ainda não sei”.
O ex-governador gaúcho Leonel Brizola achava
que viria de cá, do presidente, seu cunhado... Fazia
tempo que Brizola repetia:
“Se não dermos o golpe, eles o darão contra nós.”.
GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada.
São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 51.
O dispositivo militar de Jango seria o apoio do
grupo de militares que lhe davam sustentação. No en-
tanto, esse apoio foi se tornando cada dia mais frágil.
Em março, o governo norte-americano planejava
o envio de uma força-tarefa naval para o Rio de
Janeiro com o objetivo de apoiar a deposição de
Goulart. O embaixador norte-americano no Brasil,
Lincoln Gordon, mantinha constante diálogo com
as autoridades de Washington e os articuladores
do golpe no Brasil. Em um dos diálogos telefôni-
cos, como podemos ler no trecho de Elio Gaspari,
Gordon teria dito ao presidente John Kennedy:
Creio que uma de nossas tarefas mais importantes
consiste em fortalecer a espinha militar. É preciso
deixar claro, porém com discrição, que não somos
necessariamente hostis a qualquer tipo de ação
militar, contanto que fique claro o motivo.
Kennedy teria respondido: “Ele [Goulart] está
entregando o país aos...”. Gordon completou:
“comunistas” (GASPARI, op. cit., p. 60).
Em 31 de março de 1964, já haviam sido iniciadas
as manobras militares com a finalidade de depor
Jango. O general Olympio Mourão organizou suas
tropas, em Minas Gerais, com a concordância do
governador do estado, José Magalhães Pinto, e
rumou para o Rio de Janeiro.
Conforme Vilma Keller:
Entrincheirado no palácio Guanabara, Lacerda orga-
nizou a defesa contra um anunciado ataque – chefia-
do pelo almirante Cândido Aragão, comandante do
Corpo de Fuzileiros Navais, fiel a Goulart. Para essa
defesa contava com um batalhão da Polícia Militar
e com voluntários usando lenços com as cores da
Guanabara, azul e branco, que se reuniram na Escola
Anne Frank, situada em terreno do palácio. O ataque,
entretanto, não chegou a ser desfechado, uma vez
que Aragão foi imobilizado na Ilha das Cobras por
um núcleo de resistência da Marinha, chefiado pelo
almirante Arnold Hasselmann Fairbairn.
ABREU, Alzira Alves de et al. (Coords.).
Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930.
Rio de Janeiro: FGV/CPDOC, 2001. v. III. p. 2987.
No dia 1
o
- de abril, foi-se desmoronando a base
militar de Goulart, que não realizou nenhuma investida
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A multidão sai às ruas para derrubar Jango
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o início de 1964 foi organizado um movimento
que pretendia influenciar a opinião pública con-
tra as medidas e os projetos do presidente João
Goulart. Trata-se da Marcha da Família com Deus pela
Liberdade. A maioria de seus integrantes fazia parte das
classes média e alta brasileiras, temerosas do avanço comu-
nista. Seus adeptos eram também favoráveis à deposição
de Goulart, identificado por muitos como simpatizante do
comunismo. Ocorreram várias marchas organizadas por seto-
res da Igreja e entidades femininas. A primeira marcha
aconteceu em São Paulo, no dia 19 de março, e foi organizada
pelo deputado Antônio da Silva Cunha Bueno, com o apoio
do governador Ademar de Barros. Cerca de 300 mil pessoas
participaram do evento, que recebeu o apoio da Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e foi divulgado pelo
jornal O Estado de S. Paulo. Os manifestantes caminharam
da Praça da República à Praça da Sé, e Carlos Lacerda era
um dos oradores que convocavam a população a reagir contra
Goulart. Outras passeatas com o mesmo intuito foram reali-
zadas em várias capitais. Depois da deposição de Goulart, em 2 de abril de 1964, cerca de 1 milhão de pessoas participaram
de uma marcha realizada no Rio de Janeiro que apoiava o golpe militar. Contando com a participação de Carlos Lacerda, a
manifestação ficou conhecida como Marcha da Vitória.
Marcha da Família com Deus pela Liberdade realizada em
Santos (SP), em 25 de março de 1964, uma das várias pas-
seatas contrárias às reformas propostas por João Goulart,
identificado por muitos como simpatizante do comunismo.
contra os rebeldes. Vários comandos militares
deram apoio aos adeptos do golpe, até que o próprio
ministro da Guerra, o general Jair Dantas Ribeiro,
deixou seu posto e retirou a ajuda ao governo.
Para permanecer no cargo e lutar contra as forças
rebeldes, ele queria que Goulart fechasse a Central
Geral dos Trabalhadores (CGT), o que Jango não
aceitou. Goulart também rejeitou as propostas
do comandante do 2.º Exército, Amaury Kruel, e
de Juscelino Kubitschek, que lhe recomendaram
posicionar-se publicamente contra a esquerda e
reorganizar seu governo para tentar conter a crise.
Fracassou ainda a tentativa de convocação de
uma greve geral. O chefe do Gabinete Civil, Darcy
Ribeiro, procurou organizar um movimento de
resistência, mas não conseguiu.
Isolado e percebendo que já não era seguro
permanecer no Palácio das Laranjeiras, no Rio de
Janeiro, Goulart foi de avião para Brasília. À noite,
viajou para o Rio Grande do Sul, de onde acreditava
poder organizar a resistência. Lá recebeu a notícia
de que tropas estavam marchando de Curitiba
(PR) a Porto Alegre (RS). Seguiu então para sua
propriedade em São Borja, no interior do estado
do Rio Grande do Sul, e, no dia 4 de abril, chegou a
Montevidéu (Uruguai), onde receberia asilo político.
Com a ausência de Jango, Ranieri Mazzilli
assumiu o cargo em 2 de abril na condição de pre-
sidente da Câmara dos Deputados. Foi formada,
Iconographia
paralelamente, uma junta governativa militar,
sendo o general Artur da Costa e Silva o ministro
da Guerra. Participaram dessa junta o vice-almi-
rante Augusto Rademaker Grünewald, ministro da
Marinha, e o tenente-brigadeiro Francisco de Assis
Correia de Melo, ministro da Aeronáutica.
Os objetivos do golpe militar extrapolavam a
deposição de Goulart, pois deveriam ser elimi-
nados da vida política todos aqueles que eram
tidos por “subversivos” ou “comunistas”. Assim,
foi solicitado ao jurista Francisco Campos (reda-
tor da Constituição de 1937) que redigisse o
Ato Institucional n. 1 (AI-1), que alterou a
Constituição e concedeu prerrogativas para que
mandatos legislativos fossem cassados e direi-
tos políticos fossem suspensos por dez anos.
Funcionários públicos que, no entendimento do
novo governo, tivessem ameaçado a segurança
nacional poderiam ser exonerados. O segundo arti-
go do AI-1 determinava que, em dois dias, fossem
realizadas eleições indiretas para a Presidência
e vice-presidência da República. Esse mandato
se estenderia até 31 de janeiro de 1966, quando
assumiria o novo presidente, eleito por meio de
eleições diretas. O general Humberto Castelo
Branco (1897-1967), um dos líderes do movimento
golpista, foi eleito presidente pelo Congresso em
11 de abril de 1964, iniciando-se mais um governo
ditatorial no Brasil.
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ROTEIRO DE TRABALHO
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DOCUMENTOS
Leia o texto abaixo e, em seguida, faça o que se pede no Roteiro de trabalho.
Trechos de discursos de Getúlio Vargas realizados durante a campanha
presidencial de 1950
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ação trabalhista poderá ser a meia-estação entre o capitalismo e o socialismo [Porto Alegre,
9 de agosto].
Uma democracia que se define na prática efetiva do bem comum, na conciliação humana
entre o capital e o trabalho, no amparo aos que lutam pela vida, na assistência à saúde e ao bem-
-estar do povo, sob todos os seus aspectos, na socialização dos benefícios que a civilização trouxe
ao mundo e – principalmente – na conservação do nosso estilo de vida, que é o da fraternidade,
pela máxima cristã do amai-vos uns aos outros. [...] O direito da propriedade da terra ficará, assim,
subordinado ao bem-estar e ao progresso social [São Paulo, 10 de agosto].
Governei com o povo e com os trabalhadores e deles recebi o prêmio maior que um homem
público poderia ambicionar: o reconhecimento singelo, mas leal e expressivo, do carinho do povo...
Criaram em torno a mim um ambiente irrespirável. [...] Se for eleito a 3 de outubro, no ato da posse
o povo subirá comigo as escadas do Catete. E comigo ficará no governo [Rio de Janeiro, estádio do
Vasco da Gama, 12 de agosto].
O capital e o trabalho não são adversários, e sim forças que se devem unir para o bem comum
[Recife, 27 de agosto].
Nem a ditadura do proletariado, nem a dita-
dura das elites. O que a sociedade moderna
aspira é ao trabalhismo, ou seja, a harmonia
entre as classes, a democracia com base no
trabalho e no bem-estar do povo [Araçatuba,
São Paulo, 12 de setembro].
O Partido Trabalhista Brasileiro é uma força
orgânica e construtiva a serviço dos legítimos
interesses do povo. Nele não cabem nem pen-
dores extremistas, nem inclinações reacionárias.
Sua finalidade não é dividir, mas harmonizar,
pois não visa à revolução social, e sim à paz e à
harmonia da coletividade, dentro de uma con-
cepção mais justa e mais humana dos direitos
do indivíduo [Carazinho, Rio Grande do Sul,
21 de setembro].
ABREU, Alzira Alves de et al. (Coords.). Dicionário
histórico-biográfico brasileiro. Rio de Janeiro:
FGV/CPDOC, 2001. p. 5951.
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Getúlio Vargas na campanha presidencial de 1950, no
aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro (RJ).
1. Em seu caderno, destaque algum aspecto dos trechos dos discursos de Getúlio Vargas que lhe
tenha chamado mais a atenção. Justifique sua escolha.
2. Com base nesses trechos de discursos, podemos afirmar que Getúlio Vargas fosse um defensor
do pensamento liberal? Justifique sua resposta.
3. Identifique nos trechos citados indícios que possam ser considerados populistas. Justifique sua
resposta.
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TRABALHANDO COM DADOS
Complexidade da estrutura industrial brasileira (1949-1961)
Ramos da indústria de transformação
Porcentagem da importação sobre o total
(produção total mais importação)
1949 1958 1961
Metalurgia 22,3 11,7 11,7
Mecânica 63,8 41,5 46,3
Material elétrico e de comunicações 44,8 13,3 16,9
Material de transporte 56,6 30,5 18,6
Química e farmacêutica 29,3 20,0 17,4
Transformação de minerais não metálicos 10,1 5,1 4,4
Papel e cartolina 9,6 5,3 7,2
Borracha 1,3 6,5 14,7
Madeira 1,0 1,0 0,7
Têxtil 0,2 0,6 0,6
Vestuário, calçado etc. 0,2 – –
Produtos alimentícios 3,8 2,5 2,2
Bebidas 2,4 2,6 2,6
Fumo 0,4 – –
Editorial e gráfica 2,2 3,0 1,0
Mobiliário 0,3 – –
Couros e peles 3,0 0,7 –
Total 15,6 11,3 9,7
TAVARES, Maria Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro.
In: CASALECCHI, José Ênio. O Brasil de 1945 ao golpe militar. São Paulo: Contexto, 2002. p. 43.
Brasil: Programa de Metas, previsão e resultados (1957-1961)
Previsão Realizado %
Energia elétrica (1000 Kw) 2 000 1 650 82
Carvão (1000 ton.) 1 000 230 23
Petróleo-produção (1000 barris/dia) 96 75 76
Petróleo-refino (1000 barris/dia) 200 52 26
Ferrovias (1000 km) 3 1 32
Rodovias-construção (1000 km) 13 17 138
Rodovias-pavimentação (1000 km) 5 – –
Aço (1000 ton.) 1 100 650 60
Cimento (1000 ton.) 1 400 870 62
Carros e caminhões (1000 unid.) 170 133 78
Nacionalização (carros) (%) 90 75 –
Nacionalização (caminhões) (%) 95 74 –
BANCO do Brasil. Relatório e anuário estatístico, vários anos.
In: CASALECCHI, José Ênio. O Brasil de 1945 ao golpe militar. São Paulo: Contexto, 2002. p. 29.
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1. Após analisar a primeira tabela, destaque os setores nos quais, entre 1949 e 1961, houve uma
maior substituição de produtos importados por nacionais.
2. Explique, com base na segunda tabela, se o Programa de Metas proposto por Juscelino Kubitschek
alcançou seus objetivos. Justifique sua resposta.
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INTERDISCIPLINARIDADE
Rebeldes chegam de fusca, ouvindo Elvis
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0 foi uma década que não devia ter acabado. Um suspiro de alívio na tensão provocada
pela [Segunda] Guerra. Alguns sinais, no entanto, indicavam uma mudança brusca no
comportamento. Os anos 50 foram a manjedoura de tudo o que viria pipocar nos anos 60:
os beatniks, os hippies e até os revolucionários. Era a chamada “juventude transviada”, a primei-
ra vez que grupos de jovens com gostos afins eram rotulados. O que os unia, além do rock, da
calça jeans, das camisetas e ídolos como Marlon Brando (O selvagem) e James Dean (Juventude
transviada), era a rebeldia.
A trilha sonora era Bill Halley, com o Balanço das horas, e Little Richard, com Tutti Frutti.
Tinha, ainda, Elvis, the Pelvis, e os Irmãos Campello gravavam seu primeiro 78 rotações. O
bambolê era a grande mania nacional, e uma campanha, que pretendia interromper seu sucesso,
apregoava os males na coluna e articulações por ele provocados.
Nos Estados Unidos e Europa essa rebeldia era o resultado do pós-Guerra. No Brasil, dizia-se,
era pura imitação. Parte da responsabilidade caía nas costas das mulheres que inventavam de tra-
balhar fora ou delegar às empregadas domésticas a tarefa de criar os filhos.
Ser mulher continuava não sendo fácil: como se comportar diante do moderno que andava de
braços dados com o tradicional? Entrar sozinha no carro do namorado ou noivo não podia; saia
curta também não; ser desquitada era sinônimo de ser “galinha”. Casar ainda era a maior meta da
mulher nos anos 50 e, depois disso, ficava vetado o uso da calça comprida. [...]
Os cinemas ainda eram numerosos – nem de longe ameaçados pela televisão que dava os pri-
meiros passos. Os bondes saíam de cena [...], substituídos pelos ônibus e automóveis – cada vez
mais possíveis para a classe média – e lambretas. O fusca surgia e, com ele, a lenda de ter sido cria-
do para superar todos os obstáculos, um projeto pré-guerra. As mulheres lá do Sul já ostentavam
dois dedos de barriga queimada de sol, com a permissividade do deux-pièces. [...]
Sem aviso prévio, invadia-se a casa da vítima, tendo na mão uma garrafa de rum e várias de
Coca-Cola, para preparar o indefectível Cuba-Libre, salgadinhos e pronto. Era só afastar as cadei-
ras e botar a radiola para tocar o disco do The Platters ou o ousadíssimo Elvis Presley, uma novi-
dade que apenas os mais enturmados já tinham descoberto. [...]
JORNAL do Comércio, Especial 80 anos, 1999. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/JC/_1999/80anos/80b_30.htm>.
Acesso em: 3 jun. 2013.
1. Escreva em seu caderno todas as palavras do texto cujo significado você não conhece. Utilizando
um dicionário, uma enciclopédia ou mesmo perguntando para alguém que tenha vivido a época de
1950/60, procure conhecê-las.
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ROTEIRO DE TRABALHO
1. Explique em que medida essa propaganda se relaciona com as diretrizes econômicas e políticas
do período, em especial, com o caminho tomado pelo país a partir do desenvolvimento do Plano
de Metas.
2. É correto afirmar que essa propaganda é representativa de um certo modelo de desenvolvimento
econômico criado no período? Qual? Esse modelo ainda persiste?
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DOCUMENTOS
Observe a imagem e
responda às questões:
2. Estudamos na seção Contexto deste capítulo como o Brasil entrou na era da sociedade de consu-
mo, industrializada, e como as grandes desigualdades sociais causaram diversos conflitos polí-
ticos. Os anos 1950 foram marcados por mudanças aceleradas. O que, no campo social, político
e econômico, pode justificar o comportamento dos jovens como o descrito no texto? Elabore um
pequeno texto que faça um paralelo entre os costumes dos jovens dos anos 1950 e as transfor-
mações na sociedade daquela época.
Página da revista O Cruzeiro,
em 17 de dezembro de 1960,
que veiculava publicidade do
carro Simca Chambord, símbo-
lo de modernidade na época,
tendo ao fundo Brasília, a nova
capital brasileira.
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THESAURUS
RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

A questão 1 exige uma compreensão adequada
do texto do enunciado para que se escolha a
opção correta.

Na questão 2, você deve ser bastante objetivo,
indicando somente o solicitado.

Nas demais questões, tente chegar à alternativa
correta mesmo que existam informações desco-
nhecidas nas alternativas ou no enunciado. Caso
você não consiga definir a resposta, faça uma
pesquisa sobre as informações que não conhece.
1. (Enem)
A mais profunda objeção que se faz à ideia da
criação de uma cidade, como Brasília, é que o seu
desenvolvimento não poderá jamais ser natural.
É uma objeção muito séria, pois provém de uma
concepção de vida fundamental: a de que a ativi-
dade social e cultural não pode ser uma constru-
ção. Esquecem-se, porém, aqueles que fazem tal
crítica, que o Brasil, como praticamente toda a
América, é criação do homem ocidental.
(PEDROSA, M. Utopia: obra de arte. Vis – Revista do Programa de
Pós-graduação em Arte (UnB), v. 5, n. 1, 2006. Adaptado.)
As ideias apontadas no texto estão em oposição,
porque
a) a cultura dos povos é reduzida a exemplos
esquemáticos que não encontram respaldo
na história do Brasil ou da América.
b) as cidades, na primeira afirmação, têm um
papel mais fraco na vida social, enquanto
a América é mostrada como um exemplo a
ser evitado.
c) a objeção inicial, de que as cidades não
podem ser inventadas, é negada logo em
seguida pelo exemplo utópico da colonização
da América.
d) a concepção fundamental da primeira afir-
mação defende a construção de cidades e
a segunda mostra, historicamente, que essa
estratégia acarretou sérios problemas.
e) a primeira entende que as cidades devem
ser organismos vivos, que nascem de forma
espontânea, e a segunda mostra que há exem-
plos históricos que demonstram o contrário.
2. (UfsCar-SP) O nome de República Populista
designa o período histórico que se estende da
queda de Getúlio Vargas em 1945 ao golpe militar
de 1964. Alguns presidentes da República, por
razões diversas, não completaram seus manda-
tos nesse período.
a) Indique os nomes desses presidentes.
b) Em março de 1964, o presidente João Goulart
participou de um comício no Rio de Janeiro com
a finalidade de formalizar o início das reformas
de base. Que medidas foram tomadas pelo pre-
sidente em consonância com esse projeto de
reformas e quais foram as suas consequências?
3. (Ibmec)
No pós-guerra, o entendimento do nacionalismo é
extremamente complicado pela avaliação de seus
sentidos no momento de acelerada mudança his-
tórica. Os Aliados derrotaram exatamente os nacio-
nalismos racistas e imperialistas do nazifascismo.
O termo é marcado, conota práticas desumanas
derrotadas pela civilização [...]. Contudo, é também
no imediato pós-guerra que o termo reaparece refe-
rindo-se à descolonização, às novas nacionalidades
e às práticas defensivas de economias fragilizadas.
(Trecho retirado de GUIMARÃES, César. Vargas e Kubitschek: a
longa distância entre a Petrobras e Brasília. In: REPÚBLICA
no Catete. Rio de Janeiro: Museu da República, 2001. p. 160.)
No Brasil, o tema apresentado pelo texto foi ca-
racterizado:
a) pelas discussões entre os integralistas e a
Aliança Nacional Libertadora, cujos resulta-
dos foram favoráveis a Vargas, notadamente
simpático ao fascismo.
b) pelo estímulo às revoltas nacionalistas e
separatistas que ocorreram durante a déca-
da de 50, todas elas influenciadas pelo movi-
mento de autodeterminação dos povos.
c) pela entrada maciça de investimentos
estrangeiros voltados à promoção da agricul-
tura do café, estimulando a defesa do preço
do produto pela intervenção estatal.
d) pelo embate entre dois projetos de desenvol-
vimento, sendo um deles defensor da entrada
de capitais estrangeiros e outro do interven-
cionismo do Estado.
e) pelos enfrentamentos entre os comunistas,
favoráveis à criação da Petrobras, e os nacio-
nalistas, contrários à nova estatal criada
durante o governo de Getúlio Vargas.
4. (Fatec-SP) Considere o texto.
A posse de João Goulart na presidência signifi-
cava a volta do esquema populista, em um con-
texto de mobilizações e pressões sociais muito
maiores do que no período Vargas. Os ideólogos
do governo e os dirigentes sindicais trataram de
fortalecer o esquema. [...] O Estado seria o eixo
articulador dessa aliança, cuja ideologia básica
era o nacionalismo e as reformas sociopolíticas
denominadas de reformas de base.
(FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp/FDE, 1996. p. 447.)
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As reformas de base a que o texto se refere ti-
nham como objetivo, entre outros,
a) garantir o acesso de trabalhadores do campo
à propriedade, atendendo a parte das reivin-
dicações de sindicatos rurais.
b) realizar uma ampla reforma tributária,
ampliando as taxas de juros dos bancos pri-
vados nacionais e internacionais.
c) vender aos trustes e cartéis internacionais
algumas empresas nacionais como forma de
obter receita para o Estado Brasileiro.
d) conceder aos fazendeiros os títulos de pro-
priedade de terras que estavam ocupadas há
muito tempo pelos posseiros.
e) mudar a legislação eleitoral com o objetivo
de restringir a candidatura dos analfabetos
aos cargos do poder executivo.
5. (PUC-RS) Juscelino Kubitschek elegeu-se com
uma proposta de “industrialização acelerada”, a
qual esteve presente no slogan de campanha “50
anos em 5” e, posteriormente, no “Programa de
Metas” de seu governo. Essa política populista
de crescimento acelerado da economia que o go-
verno JK procurou promover foi possível graças:
a) ao estímulo de investimentos externos, à
implantação de multinacionais no Brasil e à
obtenção de empréstimos no exterior.
b) ao incentivo aos investimentos privados em
infra-estrutura, como energia, estradas e
siderúrgicas.
c) a uma política de defesa da agricultura
nacional visando ao aumento da produção de
cereais para a exportação.
d) à intervenção direta do Estado na indústria
pesada, automobilística e de bens de consu-
mo não duráveis.
e) a uma série de reformas de base, como a
agrícola, urbana, bancária e fiscal, visando
liberar capitais especulativos improdutivos.
6. (FGV) No decorrer do governo de João Goulart,
a instabilidade da democracia populista chegou
ao seu ponto culminante. A esse respeito, é cor-
reto afirmar:
a) O descontentamento dos setores conserva-
dores era decorrente do decreto de 1964, pelo
qual Goulart garantia a legalidade do Partido
Comunista Brasileiro.
b) A união dos setores progressistas aos gru-
pos conservadores do PSD permitia a imple-
mentação de medidas de caráter socialista
com ampla maioria parlamentar.
c) No Congresso houve um realinhamento
partidário, que resultou na organização da
Frente Parlamentar Nacionalista e da Ação
Democrática Parlamentar.
d) O descontentamento dos setores da esquer-
da era decorrente do veto de Goulart à Lei de
Remessa de Lucros, que limitava a saída de
capital do país.
e) O fechamento do Congresso Nacional e a decre-
tação do estado de sítio, quando da Revolta dos
Sargentos, fizeram o presidente perder o apoio
político dos setores democráticos.
7. (Uerj-RJ)
Varre, varre, varre, varre, vassourinha
Varre, varre a bandalheira
O povo já está cansado
De sofrer desta maneira
Jânio Quadros é a esperança deste povo abandonado.
(NOSSO SÉCULO. São Paulo: Abril Cultural, 1980.)
Esse jingle acompanhou o candidato Jânio Qua-
dros durante a sua campanha à presidência da
República, em 1960. A letra sintetiza a seguinte
política de resolução dos problemas da época:
a) a austeridade do governo e o controle dos
gastos públicos conteriam a inflação e a cor-
rupção oficial.
b) a disputa de mercados externos e a ideologia
nacionalista aumentariam o superávit comer-
cial e a geração de renda.
c) o atendimento à economia popular e a produ-
ção de alimentos baixariam o custo de vida e
os gastos do governo.
d) a defesa dos interesses nacionais e a adoção
de uma política externa independente gerariam
emprego e novas possibilidades econômicas.
8. (Enem) A consolidação do regime democrático
no Brasil contra os extremismos da esquerda e da
direita exige ação enérgica e permanente no sen-
tido do aprimoramento das instituições políticas
e da realização de reformas corajosas no terreno
financeiro econêmico e social.
Mensagem programática da União Democrática Nacional (UDN) – 1957.
Os trabalhadores deverão exigir a constituição de
um governo nacionalista e democrático, com par-
ticipação dos trabalhadores para a realização das
seguintes medidas: a) Reforma bancária progres-
sista; b) Reforma agrária que extinga o latifúndio;
c) Regulamentação da Lei de Remessas de Lucros.
Manifesto do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) – 1962.
BONAVIDES, P; AMARAL, R. Textos políticos da história do
Brasil. Brasília: Senado Federal, 2002.
Nos anos 1960 eram comuns as disputas pelo
significado de termos usados no debate político,
como democracia e reforma. Se, para os setores
aglutinados em torno da UDN, as reformas de-
veriam assegurar o livre mercado, para aqueles
organizados no CGT, elas deveriam resultar em
a) fim da intervenção estatal na economia.
b) crescimento do setor de bens de consumo.
c) controle do desenvolvimento industrial.
d) atração de investimentos estrangeiros.
e) limitação da propriedade privada.
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Leia os textos a seguir e, depois, siga as instruções do Roteiro de trabalho.
Desenvolvimento da televisão no Brasil
Jésus Barbosa de Souza
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implantação da televisão entre nós deu-se em 1950, apenas cinco anos depois de seu apareci-
mento em quase todos os países do mundo, ultrapassando a radiodifusão e desenvolvendo-
-se entre 1950 e 1969. Tecnicamente, teve seu nível melhorado de forma sensível, o que
constitui um dos principais fatores de sua difusão.
[...] “Havia, em São Paulo, apenas 200 receptores, número que aumentou para 375, em janeiro
de 1951”, segundo Mauro Almeida. Não existiam, no país, indústrias de componentes técnicos de
TV. Até as válvulas eram de fabricação americana. Mas, no final da década de 50, Rio e São Paulo
contavam com quatro emissoras (TV Tupi de São Paulo, TV Tupi do Rio de Janeiro, TV Rio, TV
Continental), Brasília, com dois canais e Belo Horizonte tinha a TV Itacolomi desde 1956.
No início do governo Kubitschek foi grande a proliferação do novo veículo, havendo, em meio
ao ufanismo desenvolvimentista, o incitamento do empresariado e, por outro lado, uma investida
maciça de verbas publicitárias.
Em 1955, o número de aparelhos receptores não ultrapassara ainda a casa dos 250 000. Entretanto,
isso não impediu que o jornalista Assis Chateaubriand, disposto a ver uma antena transmissora em
cada grande cidade do país, comprasse, de uma só vez, nove estações, nos Estados Unidos.
Não existia, sequer, uma infraestrutura de imagem e som, nem uma tradição de show business.
[...]
A ampliação do consumo industrial impulsionado na década de 50 fez sentir seu efeito na de
60. Havia, então, 15 estações de TV concentradas nas capitais, apesar das tensões políticas e da
inflação galopante. Já estava bem delineado um perfil urbano de consumo, e a televisão começava
a assumir o caráter comercial, com disputas de verbas publicitárias e busca de maior audiência,
valendo-se do advento do videoteipe, recurso eletrônico de repetição de imagem fundamental na
técnica televisiva...
SOUZA, Jésus Barbosa de. Meios de comunicação de massa. São Paulo: Scipione, 1996. p. 27-8 (Ponto de apoio).
A televisão
Mario Sérgio Cortella
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m dia, há 30 anos, numa sexta-feira à tarde, tocou a buzina do jipe como meu pai fazia
todo dia no fim da tarde (no Paraná se usava jipe na época, jipe de capota de lona) e nós,
os filhos, saímos correndo e fomos lá para ver. Dentro tinha uma caixa grandona. Ele
tirou a caixa e a colocou em cima da mesa da sala. Abriu e dentro tinha um aparelho de televisão
Telefunken, preto e branco, a válvula, com os pezinhos de madeira. A partir desse dia, nossa vida
mudou. Primeira modificação: saiu a imagem de Nossa Senhora Aparecida e em seu lugar entrou
a Telefunken. Segunda modificação: as poltronas mudaram de lugar, ficaram todas de frente para
aquilo. Terceira modificação: nunca mais nós conversamos. Aliás, nem podia. Pensamos estar
ligando a televisão? A televisão é que nos liga. Todo dia à noite, 80 milhões de pessoas estão
paradas defronte a um aparelho de TV, olhando, com um jornal no colo, um prato ou um tricô
no colo, todas de boca aberta. De repente, faz plim-plim e levanta-se o jornal, pega-se o prato e
sai. Aí faz plim-plim de novo, volta-se e fica-se ali até dormir. E se alguém resolve conversar? Não
pode. Aí o filho fala: “Sabe, pai, hoje eu...” “Psiu, fica quieto. Você não está vendo que eu estou
vendo o noticiário?”. O sujeito quer saber de notícia que está acontecendo na Indochina, e não faz
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1. Baseado nos textos desta seção, a partir de que período podemos afirmar que a televisão passou
a interferir efetivamente no cotidiano das pessoas?
2. De que maneira a televisão interferia e ainda interfere no modo como as pessoas se relacionam?
3. Com base nas afirmações de Mario Sérgio Cortella, podemos concluir que o problema está na
televisão ou no uso que fazemos dela? Justifique sua resposta.
4. Como você avalia o papel da televisão no cotidiano das pessoas e da sociedade como um todo?
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a mínima questão de saber o que está acontecendo à sua volta. “Olha, mãe, eu queria...” “Psiu, eu
estou vendo a novela. Trabalho o dia inteiro, já estou por aqui. Agora você fica falando comigo?”.
Se o vizinho chegar é um inferno! Sabe por quê? Por que vai atrapalhar aquele nosso imenso ato
de convivência, que é ficar cinco ou seis de boca aberta, olhando para um aparelho. Tem gente que
nem desliga a televisão quando chega uma visita. Aí fica aquela coisa horrorosa, olho na TV e olho
na visita; depois de dez minutos ela também está assistindo televisão.
CORTELLA, Mario Sérgio. Globalização e qualidade de vida. A Terceira Idade. São Paulo: Sesc, ano X, n. 17, ago. 1999.
ARBEX, José. O poder da TV. São Paulo: Scipione, 1999.
O livro enriquece o debate sobre a relação que se estabelece entre o veículo em questão e o espectador. Para o autor,
a TV é um meio que exige respostas imediatas de quem a assiste, dificultando a produção de reflexões sobre o que se
está vendo. Isso faz com que tudo o que ela transmita se transforme em espetáculo.
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A República bossa-nova: a democracia populista (1954-1964).
São Paulo: Atual, 1991.
Este livro utiliza artigos, depoimentos, letras musicais e charges da denominada “democracia populista” para analisar
a história e o cotidiano brasileiro da época.
FONSECA, Rubem. Agosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
Romance que destaca o mês em que Getúlio Vargas cometeu suicídio e toda a tensão e trama política vivida no país.
Jango. Direção de Silvio Tendler. Brasil, 1984. (117 min).
Documentário que traz a biografia de João Goulart, enfocando a vida política brasileira dos anos 1960. Com imagens
de arquivo e entrevistas com políticos atuantes na época, o filme é favorável à figura de Jango, enfatizando sua política
social desde sua ascensão política até a queda, resultado do golpe militar de 1964.
Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV). Disponível em:
<www.cpdoc.fgv.br>. Acesso em: 3 mai. 2013.
Traz textos, imagens, biografias e linha do tempo sobre o período estudado neste capítulo. O CPDOC/FGV é uma
das mais respeitadas instituições de pesquisa sobre a História brasileira do século XX. No site existem muitos textos
divididos por temas.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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Em 26 de junho de 1968, cerca de 100 mil pessoas se
reuniram no Rio de Janeiro para protestar contra o
regime militar, na Passeata dos Cem mil (foto preto e
branco). Na foto na página ao lado, de 1984, cerca de 1
milhão de pessoas, em frente à Igreja da Candelária, no
Rio de Janeiro, participam de uma passeata pela volta
das eleições diretas para presidente, depois de 20 anos
de ditadura. Entre uma passeata e outra foram vividos
momentos de intensa censura, e muitos civis acabaram
presos, torturados e até mortos. As duas manifestações
não obtiveram êxito. A ditadura não terminou em 1968
e as eleições diretas para presidente não aconteceram
em 1984. Mesmo assim, podemos afirmar que a luta po-
pular foi um instrumento fundamental para o exercício
da cidadania e a reconstrução da democracia no país.
Da ditadura à democracia:
golpe, guerrilha e abertura
CAPÍTULO 7
E
m 1964, com o golpe militar, iniciou-se uma nova fase da história brasileira.
Não mudaram somente as regras políticas e as vestimentas dos governantes.
Depois de 1968, quando foi instituído o Ato Institucional n. 5 (AI-5), uma pessoa
poderia ser perseguida pelas autoridades por causa dos livros que lia, das canções
que ouvia ou simplesmente por ter sido considerada suspeita por suas atitudes ou
algo que teria dito. Essa intensa repressão coincidiu com o movimento de mobilização
e contestação social dos jovens em várias partes do mundo e com as disputas entre
o bloco socialista e o capitalista. Estavam reunidos aí todos os ingredientes de um
conflito explosivo. De um lado os mili-
tares, que desejavam eliminar o que
consideravam o perigo comunista; de
outro uma juventude inspirada em ideais
libertários e aqueles que sonhavam em
fazer do Brasil um país comunista. Para
isso, seria preciso tomar o poder pelas
armas. Foram muitos anos de luta.
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LINHA DO TEMPO
1964 ¬ Golpe militar derruba João Goulart e instaura uma ditadura militar no Brasil;
criação do AI-1 (9 de abril): suspende as imunidades parlamentares, autoriza
a cassação de mandatos e a suspensão dos direitos políticos, e autoriza a
eleição indireta do novo presidente; posse do marechal Castelo Branco como
presidente da República (11 de abril); lançamento do Programa de Ação
Econômica do Governo (PAEG).
1965 ¬ Castelo Branco baixa o AI-2 (17 de outubro): a eleição do presidente é
garantida pela maioria no Congresso, com votação nominal; extinção dos
partidos políticos existentes, podendo atuar apenas a Aliança Renovadora
Nacional (Arena) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB).
1966 ¬ Criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS); AI-3: eleições
indiretas também para os governadores dos estados brasileiros.
1967 ¬ Nova Constituição amplia poderes do Executivo; posse do general Artur da
Costa e Silva como novo presidente (15 de março).
1968 ¬ Maio de 1968 na França; em um protesto estudantil no Rio de Janeiro,
assassinato do estudante Edson Luís pela polícia militar; Passeata dos Cem
Mil; greves operárias em Osasco (SP) e Contagem (MG); primeiras ações
realizadas por grupos de luta armada; assinatura do AI-5 pelo presidente
Costa e Silva (13 de dezembro); intensificação da repressão.
1969 ¬ Costa e Silva sofre derrame e a Junta Militar (Aurélio de Lyra Tavares,
Márcio de Souza e Mello, Augusto Hamann Rademaker Grünewald) assume
o poder; assassinato de Carlos Marighella; posse do novo presidente, Emílio
Garrastazu Médici.
1969-1973 ¬ Período do “milagre econômico brasileiro”.
Tropas nas ruas do Rio de Janeiro (RJ) em 1º
-
de abril
de 1964, após o golpe militar.
Passeata dos Cem Mil,
protesto contra a dita-
dura realizado em 26
de junho de 1968, no
Rio de Janeiro (RJ).
Nas comemorações da vitória do Brasil na Copa do
Mundo de Futebol de 1970, o presidente Médici segura
a taça ao lado do jogador Carlos Alberto Torres, em
26 de junho de 1970.
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Manifestação em favor das eleições diretas. São Paulo (SP), em 1984.
Fernando Collor de Mello e sua esposa, Rosane, na
cerimônia de posse à Presidência da República, no
parlatório do Palácio do Planalto (Brasília), em 1990. Bóton em favor do pacote fiscal do governo Sarney.
General João Figueiredo em
foto de 1977.
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1970 ¬ Brasil conquista o tricampeonato na Copa do Mundo, realizada no México. Salvador
Allende é eleito presidente no Chile.
1973 ¬ Golpe militar coloca o general Augusto Pinochet no poder chileno como ditador.
1974 ¬ General Ernesto Geisel assume a Presidência no Brasil (15 de março).
1975 ¬ Assassinato do jornalista Vladimir Herzog, no DOI-Codi em São Paulo (SP).
1979 ¬ Revogação do AI-5; o general João Batista Figueiredo assume a Presidência
(15 de março); greves operárias no ABC paulista, lideradas por Luiz Inácio da Silva,
o Lula; aprovada a Lei de Anistia; nova Lei Orgânica de Partidos extingue o MDB
e a Arena, obrigando novas articulações partidárias; Revolução Sandinista na
Nicarágua.
1982 ¬ Eleições para governador de estado acontecem de forma direta.
1983 ¬ Crise econômica obriga o Brasil a recorrer ao FMI; fundação da Central Única dos
Trabalhadores (CUT).
1984 ¬ Milhares de pessoas se reúnem na Praça da Sé pedindo eleições diretas para
presidente: campanha Diretas Já!.
1985 ¬ Votação indireta elege Tancredo Neves que, doente, não chega a assumir a
Presidência, tomando o seu lugar o vice, José Sarney.
1986 ¬ Sarney anuncia o Plano Cruzado.
1988 ¬ Promulgação de nova Constituição brasileira.
1989 ¬ Primeiras eleições diretas para a Presidência no Brasil desde 1960, vencidas por
Fernando Collor de Mello; queda do Muro de Berlim.
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CONTEXTO
A montagem do poder ditatorial
Em 11 de abril de 1964, o general Castelo
Branco, um dos líderes do golpe militar, foi eleito
presidente do país pelo Congresso Nacional. Ele
deveria governar até 1966, quando ocorreriam
novas eleições presidenciais pelo voto direto.
Os militares pretendiam afastar a esquerda dita
comunista do poder e depois permitir que os
civis retomassem a condução da vida pública. No
entanto, a chamada “linha dura” do Exército não
pensava da mesma forma. Queria que os militares
se mantivessem no poder instaurando um gover-
no forte e autoritário. Um dos representantes
dessa corrente militar era o ministro da Guerra,
general Artur Costa e Silva.
Sob a influência desse grupo foram criados os
Inquéritos Policial-Militares (IPMs), a fim de iden-
tificar pessoas ou grupos comprometidos com as
chamadas forças “subversivas”. Cerca de duas mil
pessoas passaram por esses inquéritos e acaba-
ram processadas, e universidades, agremiações
e órgãos do governo federal foram investigados
entre 1964 e 1966. Era o início da repressão aos
opositores do regime. Conforme Elio Gaspari (A
ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das
Letras, 2002. p. 130-1 e 134), nesse mesmo perío-
do, aproximadamente 2 mil funcionários públicos
foram aposentados compulsoriamente ou demiti-
dos. Outras 386 pessoas perderam seus manda-
tos e tiveram seus direitos políticos suspensos.
Considerados militantes do Partido Comunista ou
simpatizantes da sociedade soviética, vários pro-
fessores universitários foram aposentados. Muitas
diretorias de sindicatos foram depostas, estiman-
do-se o afastamento de até 10 mil dirigentes. Além
disso, a União Nacional dos Estudantes (UNE)
foi posta na ilegalidade.
Começaram a ocorrer as primeiras denúncias
de tortura. Uma notícia publicada no jornal cario-
ca Correio da Manhã, em 1º - de setembro de 1964,
informava que:
Todos os dias, desde 1º - de abril, o público e as auto-
ridades tomam conhecimento com detalhes cada
vez mais preciosos e em volume cada vez maior de
atentados contra o corpo e a mente de prisioneiros
culpados e inocentes.
Apud GASPARI, op. cit., p. 143.
Ainda que fosse negada pela maior parte das
autoridades governamentais, a tortura seria um
instrumento para fabricar confissões, destruir opo-
sitores e criar culpados. Outro elemento importante
na arquitetura do regime foi a criação do Serviço
Nacional de Informações (SNI), em junho de
1964, chefiado pelo general Golbery do Couto e
Silva. O órgão deveria dar apoio às ações do gover-
no, munindo-o de informações sobre as mais diver-
sas personalidades e situações concretas.
[O SNI] nunca foi um organismo politicamente
neutro destinado a informar o presidente. Desde
o início funcionou como uma assessoria política,
partidária quanto à defesa do regime. […] Golbery
fez do serviço um operador político. Durante o
governo Castelo Branco, sempre que houve uma
crise política, lá estavam – operando – Golbery e o
SNI. […] Transformou-se em tribunal de instância
superior para as questões políticas, e, em 1970, foi
de sua estrutura que saiu a avaliação pela qual o
general Médici escolheria os governadores dos 21
estados brasileiros.
Apud GASPARI, op. cit., p. 168-70.
Agentes do Conselho Nacional de Telecomunicações (Contel),
gerido pelo Serviço Nacional de Inteligência (SNI) e pelo
Departamento de Ordem Política e Social (Dops), lacram
os transmissores da Rádio Marconi, em São Paulo (SP), em
agosto de 1965. Segundo o órgão, a emissora operava irre-
gularmente; na verdade, a rádio mantinha posição política
divergente do governo ditatorial.
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Primeiro comício do MDB após a cria-
ção do bipartidarismo, realizado na
sede do partido, no Rio de Janeiro, em
1966. Observa-se na imagem o então
deputado Benjamin Farah discursando.
Comenta Ronaldo Costa Couto:
[O SNI tornou-se o] braço forte da repressão a
qualquer custo e com quaisquer métodos. Muitos
anos depois o próprio general Golbery dirá que
criou um monstro.
COUTO, Ronaldo Costa. História indiscreta da ditadura
e da abertura. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1999. p. 67.
Economicamente, o país vivia uma escalada
inflacionária em 1964. O governo escolheu o liberal
Roberto Campos para o Ministério do Planejamento,
que ficou encarregado de criar uma política econô-
mica austera capaz de recompor a economia. Foi
então formulado o Programa de Ação Econômica
do Governo (PAEG), que vigorou até 1966. Por meio
dele pretendia-se controlar a inflação, ampliar o
mercado de trabalho, reduzir as diferenças econô-
micas entre as regiões e fazer o país voltar a cres-
cer. Para tanto, procuraram diminuir o déficit de
caixa do governo. As tarifas públicas foram aumen-
tadas, os gastos públicos e os subsídios governa-
mentais foram cortados e os salários deixaram de
ser reajustados anualmente, provocando a redução
de seu valor real. A inflação, que ultrapassava 90%
em 1964, ficou no patamar de 25% em 1967.
Em outubro de 1965, após a derrota dos candi-
datos governistas nas eleições para governador no
Rio de Janeiro e em Minas Gerais, foi decretado o
Ato Institucional n. 2 (AI-2), que representou o
avanço da chamada linha dura do Exército sobre
as decisões governamentais. Seu artigo 18 definia:
Ficam extintos os atuais Partidos Políticos e can-
celados os respectivos registros.
Castelo Branco assi-
na o Ato Institucional
n. 2 em 27 de outu-
bro de 1965.
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No artigo 15, estendia-se o direito de o governo
cassar seus opositores:
No interesse de preservar e consolidar a Revolução,
o Presidente da República, ouvido o Conselho de
Segurança Nacional, e sem as limitações previs-
tas na Constituição, poderá suspender os direitos
políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10
(dez) anos e cassar mandatos legislativos federais,
estaduais e municipais.
Em novembro de 1965, pelo Ato Complementar
n. 4, nascia o bipartidarismo. Na nova organiza-
ção política, criaram-se dois partidos: a Aliança
Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento
Democrático Brasileiro (MDB). O primeiro
reunia os partidários da situação; o segundo, a
oposição ao governo.
Quanto às eleições presidenciais, estas foram
transformadas em indiretas, e o AI-2 definiu que
elas não poderiam ocorrer depois de 3 de outubro de
1966. Isso significava o adiamento das eleições e a
continuidade de Castelo Branco à frente do governo,
pois o AI-1 definia que o mandato do presidente se
encerraria em 31 de janeiro de 1966. As novas medi-
das aprofundavam o regime ditatorial, limitando os
direitos dos cidadãos e inibindo a participação polí-
tica. Foi assegurado ao governo ditatorial o direito
de decretar estado de sítio independentemente de
aprovação do Congresso e editar decretos-leis de
interesses considerados de segurança nacional.
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Pouco depois, em fevereiro de 1966, foi divulga-
do o Ato Institucional n. 3 (AI-3). Este tornou
indiretas as eleições para governador e determinou
que os prefeitos das capitais dos estados fossem
indicados pelos governadores. A partir de então,
ficou claro que o discurso inicial de uma ditadura
breve não se confirmaria, sendo cada vez mais soli-
dificados os mecanismos de controle e repressão
política. Aliados do golpe, como o ex-governador
Carlos Lacerda, decidiram se afastar do governo
de Castelo Branco, uma vez que não concordavam
com o prolongamento do governo ditatorial. Com
Juscelino Kubitschek e a adesão de João Goulart,
Lacerda lançou a Frente Ampla, que pretendia
unificar a oposição contra o regime ditatorial. Em
setembro de 1966, foi publicado o Manifesto da
Frente, assinado por Lacerda. Ele reivindicava elei-
ções livres, reforma partidária e uma política exter-
na independente. Chegou a promover dois grandes
comícios, porém em abril de 1968 as atividades da
Frente Ampla foram proibidas por uma portaria do
Ministério da Justiça. No mesmo ano Lacerda teve
seus direitos políticos suspensos por dez anos.
Ao longo de 1966, colocou-se em discussão
a sucessão presidencial. Antes de mais nada, as
Forças Armadas deveriam indicar um candidato. Da
parte da linha dura, o ministro da Guerra, Costa e
Silva, foi o indicado. Castelo Branco não concordava
com essa indicação, mas não conseguiu evitar que
ela ocorresse. Chegou mesmo a formular uma lista
de possíveis candidatos, incluindo civis. Ele defendia
que a Arena ratificasse um dos nomes da lista. No
entanto, a indicação para ocupar a Presidência era
feita pelos militares, que deveriam escolher um dos
generais de “quatro estrelas”. O Congresso deve-
ria confirmar esse nome, porém tratava-se mais
de uma formalidade para manter as aparências
diante dos outros países, dando assim a impressão
de que algumas instituições democráticas estavam
sendo preservadas. As articulações militares em
torno do nome de Costa e Silva conseguiram levá-
-lo à vitória: indicado à Presidência da República,
elegeu-se pelo Congresso em 3 de outubro de 1966.
Antes de o novo presidente assumir o cargo,
em dezembro de 1966, foi decretado o Ato
Institucional n. 4 (AI-4). O Poder Executivo con-
vocou extraordinariamente o Congresso Nacional
entre dezembro daquele ano e janeiro do ano
seguinte para discutir, votar e promulgar um novo
projeto de Constituição.
A nova Carta constitucional, promulgada em
24 de janeiro de 1967, manteve o princípio fede-
rativo e procurou fortalecer o Poder Executivo,
que passou a ter competência exclusiva sobre as
questões relacionadas à segurança nacional e às
finanças públicas. O texto constitucional definiu
o que se denominava “segurança nacional”, ou
seja, as infrações contra a ordem social e política
e o controle da vida cultural. Em março do mesmo
ano foi anunciada a Lei de Imprensa, que proibia a
veiculação de notícias que ofendessem a honra do
presidente, incitassem a guerra, a subversão da
ordem político-social ou a desobediência de leis.
A nova Constituição estabeleceu ainda, con-
forme os termos do AI-2, que as eleições presi-
denciais seriam, a partir de então, indiretas. Havia
sido dado mais um passo para limitar a partici-
pação civil na vida política do país e ampliar a
repressão aos que se opunham ao regime.
O governo Costa e Silva e o
período do “milagre econômico”
O governo Costa e Silva (1967-1969) represen-
tou o avanço da chamada “linha dura” do Exército
à frente do poder. Entre os ministros militares,
vários pertenciam a esse grupo que defendia o
endurecimento do regime ditatorial. O general
Emílio Garrastazu Médici foi nomeado chefe do
Serviço Nacional de Informações (SNI); o marechal
Márcio de Sousa e Melo, ministro da Aeronáutica; o
coronel José Costa Cavalcanti, ministro das Minas
e Energia; e Jaime Portela, chefe do Gabinete
Militar. No que diz respeito aos ministros civis,
Carlos Lacerda discursando em comício da chamada Frente
Ampla, em São Caetano do Sul (SP), 1968.
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Luís Antônio Gama e Silva, da Justiça, também era
adepto das ideias do grupo da linha dura.
Para o Ministério da Fazenda foi nomeado
o economista paulista Antônio Delfim Neto; e
para o Ministério do Planejamento, Hélio Beltrão.
Eles adotaram como meta a retomada do cresci-
mento econômico e o controle da inflação, o que
realmente aconteceu nos anos que seguiram,
uma vez que o governo militar anterior já havia
criado as bases para o retorno da expansão da
economia. De 1967 até 1973, ocorreu o que ficou
conhecido como milagre econômico brasileiro.
Conforme explica Ronaldo Costa Couto:
Tomam-se empréstimos, estimula-se a entrada de
capitais, diversifica-se a pauta de exportações, par-
ticularmente as de produtos industriais, crescen-
temente mais significativas. Proliferam os inves-
timentos privados, inclusive mediante incentivos,
subsídios e outros estímulos. Amplia--se o papel
do Estado como investidor e produtor, patrocinan-
do importantes obras de infraestrutura e, simulta-
neamente, desenvolvendo atividades empresariais
menos atraentes ao setor privado ou consideradas
estratégicas para o país. É o Estado quem controla e
aplica a maior parte desses recursos, principalmen-
te por intermédio de empresas estatais.
COUTO, op. cit., p. 87.
A taxa média de crescimento do Produto Interno
Bruto (PIB) entre 1967 e 1973 ficou em torno de
10% ao ano. Quanto ao emprego, houve um cresci-
mento médio de cerca de 4% ao ano. Ocorreu tam-
bém, durante esse período, uma grande expansão
do crédito, sendo possível para o consumidor da
classe média gozar de prazos de financiamentos
mais longos, com juros controlados pelo gover-
no. Assim, expandiu-se a venda de automóveis e
eletrodomésticos, além de terem sido concedidas
linhas de financiamento para imóveis mediante a
Política Nacional de Habitação.
No entanto, no que se refere aos salários, a
política de combate à inflação levou à redução do
salário real da população de menor renda, criando
mecanismos de proteção apenas para os setores
de remuneração elevada. Destaca-se nesse período
a grande concentração de renda. Em 1972, os mais
ricos (1% da população) detinham 39,8% da renda
nacional, enquanto em 1960 detinham apenas 28,3%.
Assim se conclui que, apesar do crescimento global
da economia, somente um estrato muito restrito da
população pôde usufruir de seus benefícios.
Como veremos mais adiante, de 1973 em diante
– a partir da crise internacional do petróleo –
a conjuntura internacional deixou de ser favorável.
A inflação voltou a subir e o endividamento externo
brasileiro comprometeu a estratégia econômica
do governo, que não conseguiu mais manter a
política econômica até então vigente.
A charge de Ziraldo faz referência ao arrocho salarial em 1971.
EVOLUÇÃO DO PIB E DO
SALÁRIO MÍNIMO (1940-1984)
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O gráfico acima compara a evolução do PIB e do salário míni-
mo real entre 1940 e 1984.
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A resistência e o
Ato Institucional n. 5
Desde que os militares se afirmaram no poder em
1964, começou a se organizar a resistência às forças
ditatoriais. Alguns opositores foram cassados e
exilados logo no início do governo Castelo Branco.
Também a tortura começou a ser praticada por
setores militares, conforme já foi mencionado.
Antes mesmo do golpe militar, várias organiza-
ções de esquerda se mobilizaram para reivindicar
mudanças estruturais no país, como a reforma
agrária e melhorias trabalhistas. Lutavam contra
o que se denominava imperialismo norte-ame-
ricano. Exemplo dessa mobilização foi a União
Nacional dos Estudantes (UNE) e a Ação
Popular (AP). A primeira foi fundada nos anos
1930 e, em 1962, lutava por reformas no ensino e
promovia os Centros Populares de Cultura (CPC).
Com a participação de muitos artistas, levavam
para todo o país espetáculos em que condena-
vam a elitização do ensino e a presença negativa
do capital estrangeiro no Brasil. Às vésperas de
1964, a UNE denunciou o golpe militar, e em abril
de 1964 sua sede foi invadida e alguns de seus
líderes tiveram de deixar o país. Em novembro
Manchete da Folha de S.Paulo de 13 de outubro de 1968, quando noticiou: “Cerca de mil estudantes que participavam do XXX
Congresso da UNE, iniciado clandestinadamente num sítio, em Ibiúna, no sul do estado [de SP], foram presos ontem de manhã por sol-
dados da Força Pública e policiais do Dops. Estes chegaram sem serem pressentidos e não encontraram resistência. Toda a liderança
do movimento universitário foi presa […]. Eles foram levados diretamente ao Dops. Os demais estão recolhidos ao presídio Tiradentes.
Desde segunda-feira os habitantes de Ibiúna notaram a presença de jovens desconhecidos, que iam à cidade comprar pão, carne,
escovas e pasta de dentes, despertando suspeitas ao adquirir mais de NCr$ 200 de pão de uma só vez. Essas informações foram
transmitidas ao Dops e à Força Pública, que desde quinta-feira já conheciam […] o local exato do Congresso. […] Depois de avançar
alguns quilômetros de carro e outro trecho a pé, por causa da lama da estrada, 215 policiais chegaram ao local às 7h15 de ontem,
organizaram o cerco aos estudantes e dispararam algumas rajadas de metralhadora para o ar, para intimidá-los. Sem resistir, os con-
gressistas foram colocados em fila e levados aos ônibus requisitados para transportá-los para a capital. O governador Abreu Sodré
[…] reafirmou sua disposição de ‘manter a paz e a tranquilidade para a população que deseja trabalhar’. E acrescentou, referindo-se
à prisão dos participantes do Congresso da UNE: ‘Agi com energia para reprimir a agitação e a subversão […]’ ”. (FOLHA de S.Paulo,
13 out. 1968. Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/brasil_13out1968.htm>. Acesso em: 2 jun. 2013.)
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desse ano, a União Nacional dos Estudantes foi
posta na ilegalidade. Mesmo assim, entre 1966 e
1967, ela organizou seu congresso anual critican-
do o processo de privatização do ensino, que foi
efetivado por meio do Acordo MEC-Usaid, fir-
mado entre o Ministério da Educação e Cultura do
Brasil e a United States Agency for International
Development. A UNE criticava também a política
de contenção salarial implementada pelo governo
militar e defendia a revolução socialista.
Já a Ação Popular (AP) foi fundada em 1962 e
era oriunda da Juventude Universitária Católica
(JUC). Seus adeptos queriam arregimentar qua-
dros para promover uma transformação radical
da sociedade brasileira em direção ao socialismo.
Com militantes estudantes e operários de outros
setores da sociedade, a AP criticava a presença
do capital estrangeiro e a dominação capitalista.
Apesar de vários de seus membros terem sido
presos após 1964, o grupo continuou defendendo o
caminho da revolução. Iam ao campo e às fábricas
buscando formar a necessária consciência revolu-
cionária. Em 1967, a AP foi considerada responsá-
vel por uma bomba que explodiu no aeroporto dos
Guararapes, no Recife. O plano de atingir o general
Costa e Silva, que chegava à cidade, não teve êxito,
embora o atentado tenha ocasionado vítimas: o
secretário de segurança de Pernambuco, que se
feriu, um almirante e um jornalista, que morreram.
O Partido Comunista Brasileiro também estava
entre os opositores do regime; contudo, não defendia
a luta armada contra o governo ditatorial. Sua estra-
tégia era aproveitar as brechas deixadas pelo regime
para fazer valer sua posição. No entanto, líderes
do partido, como Carlos Marighella, discordavam
dessa postura. Em 1966, foi expulso do Partido
Comunista e, disposto a pôr em prática a luta
armada, fundou a Aliança Libertadora Nacional
(ALN). Inspirado no modelo cubano de revolução
social, queria realizar a guerrilha no campo para
depois chegar às cidades. Tratava-se de mobilizar as
populações locais contra o poder militar.
Também a Vanguarda Popular Revo-
lucionária (VPR), criada em 1968, tinha como
objetivo promover a luta armada para derrubar
o regime militar. Seu principal líder foi o capi-
tão Carlos Lamarca, morto pela polícia em 1971,
na Bahia. Além dessas organizações, o Partido
Comunista do Brasil (PC do B), uma dissidên-
cia do Partido Comunista Brasileiro, e o Partido
Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR)
apoiavam a luta armada como meio de derrubar o
governo ditatorial e promover a revolução social.
A pressão exercida por todos esses movimentos
e outros opositores do regime tornava tensa a
situação política do país. Além disso, em 1968, em
vários países da Europa eclodiram movimentos
jovens reivindicando paz e liberdade. Nos Estados
Unidos, protestava-se contra a Guerra do Vietnã
e, na França, jovens lutavam contra as regras
tradicionais de ensino (retomaremos o assunto
mais adiante). Esse espírito libertário estimulou
ainda as lutas contra a ditadura no Brasil, que, em
1968, cresceram explosivamente.
Em março de 1968, os estudantes cariocas pro-
moveram uma passeata em protesto ao aumen-
to de preços e à qualidade das refeições do
Restaurante Central dos Estudantes, no Rio de
Janeiro, conhecido como Calabouço, mantido
pelo governo. A polícia interveio, e, no conflito,
o jovem Edson Luís de Lima Souto foi morto.
Mais de 50 mil pessoas participaram do enterro
do estudante e, em seguida, foi decretada uma
greve geral de estudantes pela UNE. Em abril
de 1968, 20 mil metalúrgicos de Contagem, em
Minas Gerais, fizeram uma greve que fazia frente
ao poder ditatorial. Em julho, nova greve parou
15 mil metalúrgicos em Osasco (SP). Os trabalha-
dores começavam a se mobilizar contra a ditadura
e a política econômica do governo militar.
O militar Carlos Lamarca ensina prática de tiro a funcioná-
rias de um banco de São Paulo, em 1969, em razão da onda
de assaltos a bancos nessa cidade. Lamarca abandonou as
Forças Armadas nesse ano e uniu-se à Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR), uma organização clandestina.
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Em maio, no mesmo mês em que eclodiu com
violência o movimento estudantil na França, foram
organizadas passeatas em várias cidades brasilei-
ras. Em São Paulo, os estudantes ergueram barri-
cadas e enfrentaram os policiais. Trabalhadores
descontentes com a política salarial do governo
engrossavam as passeatas.
No mês de junho, foi organizada, também pela
UNE, a Passeata dos Cem Mil, que reivindica-
va o restabelecimento da democracia, o fim da
censura à imprensa e verbas para a educação, e
denunciava a violência praticada pela polícia con-
tra estudantes e pessoas em geral que se opunham
ao regime. No dia 21 de junho, cinco dias antes da
manifestação, quatro pessoas haviam sido mortas
em um conflito de rua com a polícia. Outras 21
ficaram feridas. Muitos artistas e lideranças que
se opunham ao governo ditatorial participaram
da Passeata dos Cem Mil, que se transformou no
maior ato de protesto já realizado contra o regime.
Em agosto, em meio aos conflitos com os estu-
dantes, a Universidade de Brasília foi invadida,
e alunos e professores foram presos pela polícia
militar. No mesmo mês, a Universidade Federal de
Minas Gerais foi fechada.
No mês de setembro, o deputado Márcio
Moreira Alves, filiado ao MDB, fez um pronuncia-
mento no Congresso Nacional em que se mani-
festava contra a violência empreendida pelos
militares nos conflitos com os estudantes. Ele
conclamou a população para que, em protesto,
não comparecesse às festividades em comemora-
ção ao Dia da Independência, como uma forma de
boicotar as Forças Armadas. Os militares conside-
raram seu discurso ofensivo às Forças Armadas
e pediram ao Supremo Tribunal Federal a cassa-
ção dos direitos políticos do deputado. Em 12 de
dezembro de 1968, uma comissão da Câmara dos
Deputados rejeitou o pedido de licença para que o
deputado pudesse ser processado pelos militares.
Esse incidente serviu de pretexto para, naquele
mesmo dia, o presidente Costa e Silva decretar o
Ato Institucional n. 5 (AI-5), que suspendia o direi-
to de habeas corpus nos casos de crimes políticos,
dava ao presidente o poder de intervir nos estados e
nos municípios, suspender direitos políticos por dez
anos, decretar o estado de sítio sem autorização do
Congresso, promulgar decretos-leis e demitir ou refor-
mar oficiais das Forças Armadas e policias militares.
Ainda no dia 13, por meio de um Ato Complementar,
decretou-se o recesso do Congresso Nacional por
tempo indeterminado. Em síntese o AI-5 aprofundava
a ditadura, suspendendo as garantias constitucio-
nais dos cidadãos e atribuindo poderes ilimitados ao
Charge de Ziraldo, publicada em 23 de junho de 1968 no jornal
Correio da Manhã, criticando a ação repressora do Estado
contra os estudantes.
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Executivo federal. A força do Poder Executivo ficava
explícita no artigo 2 º - do AI-5:
Decretado o recesso parlamentar, o Poder Exe-
cutivo correspondente fica autorizado a legislar em
todas as matérias e exercer as atribuições previstas
nas Constituições ou na Lei Orgânica dos Municípios.
No mesmo mês, vários deputados federais, incluin-
do Márcio Moreira Alves, tiveram seus mandatos
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cassados. Além deles, inúmeros jornalistas e polí-
ticos que se opuseram ao governo foram presos,
entre eles Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek.
Em janeiro de 1969, outros 35 deputados foram
afastados de suas funções, assim como três
ministros do Supremo Tribunal Federal. Centenas
de pessoas foram presas por motivos políticos.
Em entrevistas a jornais e canais de televisão,
Costa e Silva justificava as medidas como uma
forma de preservar a segurança interna nacional,
combatendo a corrupção e a subversão.
Em 1969, a repressão ganhou proporção ainda
maior com a mudança na Lei de Segurança Nacional,
que afirmava ser crime a divulgação de notícias con-
sideradas falsas ou verdades truncadas (incomple-
tas). Isso permitia ao ministro da Justiça intervir nas
empresas de comunicação quando julgasse neces-
sário. A reforma constitucional seria concluída em
agosto de 1969 e deveria ser votada pelo Congresso,
que seria reaberto em setembro do mesmo ano.
No entanto, ainda no final de agosto, foi anun-
ciado que Costa e Silva estava doente – vítima
de trombose. O vice-presidente Pedro Aleixo não
obteve o apoio dos militares para assumir o cargo.
Foi então editado o Ato Institucional n. 12, que
entregava o poder temporariamente a uma junta
militar. Em outubro, essa junta anunciou que o
general Emílio Garrastazu Médici seria candidato
à sucessão de Costa e Silva. Ainda nesse mês
foi editado o Ato Institucional n. 16, declaran-
do vaga a Presidência da República.
Em 25 de outubro de 1969, o Congresso
ratificou o nome de Médici, que se tor-
nou presidente da República a partir
dessa data.
A doença de Costa e Silva e a
sucessão presidencial não impedi-
ram que a resistência à ditadura
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O ano de 1968 foi marcado por manifestações e confrontos de rua. Na foto maior,
estudantes na rua Maria Antônia, em São Paulo (SP), fogem de coquetéis molotov
atirados durante o confronto entre alunos da Universidade de São Paulo (USP),
contrários ao regime militar, e da Universidade Mackenzie, favoráveis à ditadura. Na
foto menor, passeata contra o assassinato do estudante José Guimarães, morto pe-
la polícia durante o confronto entre universitários, na rua Maria Antônia, em 1968.
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continuasse a se organizar. Em setembro de 1969, o
embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick
foi sequestrado. Os responsáveis pelo sequestro –
os militantes do Movimento Revolucionário
8 de outubro (MR-8) e da Aliança Libertadora
Nacional (ALN) – exigiram a libertação de 15 pre-
sos políticos e a divulgação de um manifesto. O
governo foi obrigado a aceitar as condições dos
revolucionários, divulgando o manifesto na impren-
sa e libertando os presos. No manifesto, eles anun-
ciavam o início da guerrilha rural e declaravam ser
o sequestro um ato revolucionário.
Após esse episódio, a censura atuou energica-
mente contra qualquer publicação que pudesse
fazer alguma menção negativa ao governo dita-
torial. Qualquer denúncia poderia ser investigada,
resultando em prisões e mesmo tortura de presos
políticos. Líderes da luta armada, como Carlos
Marighella, eram procurados pelas forças mili-
tares. Em 4 de novembro de 1969, Marighella foi
morto em São Paulo por policiais.
A Vanguarda Popular Revolucionária
(VPR), liderada por Carlos Lamarca, iniciou sua
ação armada, em São Paulo, assaltando três
agências bancárias em abril de 1969. Em julho,
participou do roubo do cofre do ex-governador de
São Paulo, Ademar de Barros, que continha mais
de 2 milhões de dólares. Após se firmar como líder
da VPR, Lamarca organizou um campo de treina-
mento para guerrilha no Vale do Ribeira, no estado
de São Paulo. Em 1970, comandou o sequestro do
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Presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano sequestrado em setembro de 1969. A ação dos movimentos de esquerda foi
vitoriosa nessa missão, e os presos políticos libertados embarcaram para o México. Em pé, da esquerda para a direita: Luís Travassos,
José Dirceu de Oliveira e Silva, José Ibraim, Onofre Pinto, Ricardo Vilas Boas Sá Rego, Maria Augusta Carneiro, Ricardo Zaratini e Rolando
Fratti. Agachados: João Leonardo da Silva Rocha, Agonalto Pacheco da Silva, Vladimir Palmeira, Ivens Marchetti e Flavio Tavares.
embaixador suíço no Brasil. Nas negociações,
conseguiu que fossem libertados setenta presos
políticos, que foram enviados ao Chile. Em 1971,
Lamarca deixou a VPR e ingressou no MR-8, acre-
ditando que deveria trabalhar mais intensamente
ao lado das massas para construir uma consciên-
cia revolucionária. Em setembro desse ano, a ope-
ração militar denominada Pajussara encontrou
Lamarca na Bahia. Ele foi morto por uma patrulha
de busca no município de Ipupiara (BA).
A repressão e a tortura, no Brasil, torna-
ram-se ostensivas, sendo cada vez mais difícil
resistir ao poder ditatorial. Organizações como
a Operação Bandeirantes (Oban), o DOI-
Codi e o Departamento de Ordem Política e
Social (Dops) estiveram intimamente ligadas a
esse processo repressivo. A Oban foi lançada em
julho de 1969 pelo general José Canavarro Pereira,
comandante do II Exército. Sua única função era
prender os ditos “subversivos” e “terroristas”. No
governo Médici, a Oban foi institucionalizada e
passou a denominar-se Centro de Operações
para a Defesa Interna, sendo criadas várias uni-
dades denominadas Codi (sigla da organização),
que passaram a servir como coordenadoras do
Departamento de Operações Internas (DOI).
Esses grupos preparavam-se para lutar contra a
guerrilha. Para tanto, construíram um centro de
informações para identificar seus possíveis focos.
O Dops, assim como o DOI-Codi, relacionava-
-se diretamente com a Lei de Segurança Nacional,
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quando foi deflagrada a Intentona Comunista. Em
1969, após várias reedições, a Lei de Segurança
Nacional foi reformulada pelo governo de Costa e
Silva. De acordo com seu artigo 3 º -:
A Segurança Nacional compreende, essencial-
mente, medidas destinadas à preservação da se-
gurança externa e interna, inclusive a prevenção
e repressão da guerra psicológica adversa e da
guerra revolucionária ou subversiva.
Os que fossem enquadrados na lei poderiam ser
condenados à morte ou à prisão perpétua. O Dops
era o órgão encarregado da apuração de infrações
penais contra a ordem política e social. Aqueles que
eram presos acusados de atos subversivos pode-
riam ficar incomunicáveis por vários dias até que se
concluísse o inquérito. Na prática, muitas pessoas
ficavam presas e incomunicáveis durante meses,
e muitas confissões eram obtidas sob tortura.
O Dops funcionava em consonância com o DOI-
Codi – este realizava as prisões e iniciava os inqué-
ritos enquanto aquele os concluía. Em 1975, o jorna-
lista e diretor de jornalismo da TV Cultura, Vladimir
Herzog, foi assassinado nas dependências do DOI-
Codi em São Paulo. O caso pôs em evidência o
problema da tortura e acelerou o movimento em
prol da anistia aos crimes políticos. A versão oficial
divulgada pelo governo afirmava que Herzog teria
se suicidado na prisão com o cinto do macacão de
presidiário que vestia. Essa versão, no entanto, foi
duramente contestada pela oposição. Herzog havia
comparecido pela manhã para prestar um depoi-
mento e no mesmo dia aparecera morto.
E
m 4 de dezembro de 1995, foi promulgada a
lei 9 140, que “reconhece como mortas pessoas
desaparecidas em razão de participação, ou
acusação de participação, em atividades políticas no
período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de
1979” e concede indenização às famílias.
Essa lei determinou que fosse criada a Comissão
Especial dos Desaparecidos Políticos, que deveria anali-
sar os pedidos de indenização por parte das famílias e for-
malizar o reconhecimento da pessoa como desaparecida
ou morta por razões políticas durante a ditadura militar.
Com essa lei, o Estado reconhece a responsabilidade
pelos crimes cometidos contra os cidadãos e concede
indenização por ter violado os direitos humanos ao tirar a
vida de cidadãos em razão de divergências políticas.
Em 1996, os familiares de Carlos Lamarca e Carlos
Marighella protocoloram pedidos de indenização valen-
do-se do que determinava a lei. Ainda em 1996, as famílias
obtiveram o direito à indenização. Em 2002, foi aprovada a
lei 10 536, que ampliou a abrangência para 5 de outubro de
1988, ou seja, todos os familiares de mortos e desapareci-
dos políticos até essa data poderiam requerer indenização.
Mais uma lei foi promulgada em 2004, ampliando os
critérios de reconhecimento, contemplando, dessa forma,
aqueles que tenham sido “vítimas de manifestações públi-
cas ou de conflitos armados com agentes do poder públi-
co, e as que tenham falecido em decorrência de suicídio
praticado na iminência de serem presas ou em decorrência
de sequelas psicológicas resultantes de atos de tortura”.
Até 2007, foram protocolados 475 pedidos de indeni-
zação de vítimas da repressão durante a ditadura militar.
Desses, 136 nomes constavam de lista elaborada pela
Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos e foram
automaticamente contemplados; outros 221 tiveram
seus pedidos analisados e as famílias foram indeniza-
das. Já outros 118 pedidos foram recusados.
É possível consultar uma lista de mortos e desapare-
cidos políticos durante a ditadura militar no site <www.
desaparecidospoliticos.org.br>. Acesso em: 2 jun. 2013.
Com base em: SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS.
Disponível em: <www.direitoshumanos.gov.br/conselho/
cemdp-1>. Acesso em: 2 jun. 2013.
O decreto-lei n. 898, de 29 de setembro de 1969,
pode ser consultado na íntegra no site
<http://www.planalto.gov.br/ccivil/Decreto-Lei/
1965-1988/Del0898.htm>. Acesso em: 2 jun. 2013.
que existia no Brasil desde 1935 e definia os cri-
mes contra o que se denominava ordem política e
social, ou seja, ela fazia referência aos casos em
que a segurança do Estado estaria sendo amea-
çada. A implantação dessa lei ocorreu em 1935,
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O jornalista Vladimir Herzog, morto na cela do DOI-Codi, em
São Paulo, em 1975.
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A “imprensa alternativa”
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urante o regime militar, espe-
cialmente na década de 1970,
surgiram no Brasil publicações
de oposição que ficaram conhecidas
como imprensa alternativa. Quase
sempre tabloides ou minitabloides,
alguns desses jornais eram vendidos
em bancas, passando diretamente pelo
órgão da censura, enquanto outros
tinham circulação restrita e clandestina.
Ao contrário da imprensa que divul-
gava a posição “oficial” do governo,
eles se caracterizavam por questionar
a ditadura, denunciando a violência da
repressão militar e defendendo ideias
de esquerda, sendo vistos como meios
de resistência e luta política.
O Movimento (1975-1981) era um
jornal que contava essencialmente com
a participação de militantes e de gru-
pos próximos ao PC do B (Partido
Comunista do Brasil), embora houvesse
dissidências entre seus principais cola-
boradores. Já o Versus (1975-1979) via a
cultura como instrumento de ação polí-
tica e publicava textos de intelectuais,
jornalistas e militantes, tendo como cen-
tro da discussão a situação da América
Latina, imersa em regimes ditatoriais.
O Em Tempo (1978-1980) estava vin-
culado de maneira explícita aos par-
tidos e às organizações que pregavam
a revolução socialista no Brasil, com a
presença de representantes da luta
armada, como os do MR-8 (Movimento
Revolucionário 8 de outubro).
Utilizando um enfoque menos partidário e mais humorístico, destaca-se ainda o Pasquim (1969-1991), jornal
carioca que misturava política, comportamento e crítica social. Entre seus colaboradores estavam Jaguar, Sérgio
Cabral, Millôr Fernandes, Ziraldo, Henfil e Paulo Francis. Empregando o humor e uma linguagem coloquial como
forma de contestar e driblar a censura, criticavam o regime militar, o moralismo e a imprensa “oficial”, o que agradou
ao público em geral e irritou as autoridades.
Com o processo de abertura e em razão das divergências ideológicas entre seus membros, esses jornais foram
perdendo o teor de luta política de tal forma que poucos continuaram a circular durante os anos 1980.
Primeira página do jornal Movimento, cujas edições de 11 a 17 de maio de 1981
foram apreendidas devido às críticas ao Exército brasileiro.
Iconographia
A cultura jovem nos anos 1960
e o sentido de protesto
Os anos 1950 já haviam introduzido o rock
and roll como música da juventude. Nascido
nos Estados Unidos da mistura de elementos da
música negra com o ritmo musical dos brancos,
o rock ganhou grande popularidade mundial
nessa época. Em 1954, Bill Halley e sua banda
lançaram a canção “Rock around the clock”,
marco desse novo estilo musical que teria
Elvis Presley como um dos grandes expoentes.
A novidade não tardou a chegar ao Brasil.
Nas telas de cinema, exibia-se um novo estilo de
vestir, de “curtir” a vida. Canções com letra fácil
de se cantar falavam de um amor descompro-
missado e da descontração, embalando jovens
nas pistas de dança.
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No entanto, essa nova música não agradava a
todos, especialmente a população mais elitizada
de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, que
ainda era fiel ao samba ou se interessava por um
outro gênero norte-americano: o jazz.
Nesse contexto musical, viviam músicos bra-
sileiros de grande talento, como João Donato,
Johnny Alf, Lúcio Alves, Dick Farney e Tom Jobim.
Entre as vozes femininas, Maysa, Dolores Duran
e Sylvinha Telles já faziam sucesso nos anos 1950,
cantando canções românticas que não ignoravam
nem o samba nem o jazz. Além desses, Vinicius de
Moraes já se dividia entre a carreira de diplomata
e poeta ligado ao samba.
Ainda mais jovens que esses, surgiu, no Rio de
Janeiro, uma turma que se aventurou a produzir
uma música nova sob a influência tanto do jazz
como de alguns dos mestres citados anterior-
mente. Entre eles estavam: Roberto Menescal,
Chico Feitosa, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra, Nara
Leão e João Gilberto, que esteve com o grupo em
alguns momentos.
A conjunção desses e de outros nomes fez
surgir um novo estilo musical: a bossa nova.
De maneira mais precisa, seu marco inaugural
foi o lançamento da canção “Chega de saudade”,
de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, interpretada
por João Gilberto em 1958. Com ela, cristalizou-se
uma nova batida de violão, acompanhada
por uma voz que buscava maior equilíbrio
em relação ao instrumento, e se começou
a deixar de lado as desilusões românticas
como tema das canções. Com um tom de
voz baixo e doce, o baiano João Gilberto
conquistou o público e a crítica, sobretudo
depois da gravação de “Desafinado”, de
Tom Jobim e Newton Mendonça.
Em 1964, no entanto, o golpe militar
desfechado contra o governo democrá-
tico de João Goulart trouxe novas pre-
ocupações a vários artistas brasileiros,
que tomaram como palavra de ordem o
combate ao governo ditatorial e à censura.
Nara Leão, considerada por muitos a musa
da bossa nova, fez declarações contra a
ditadura. Na contracapa do LP Opinião, de
1964, ela escreveu:
Este disco nasceu de uma descoberta im-
portante para mim: a de que a canção
popular pode dar às pessoas algo mais
que a distração e o deleite. A canção popu-
lar pode ajudá-las a compreender melhor
o mundo onde vivem e a se identifica-
rem num nível mais alto de compreensão.
A música popular é um dos mais amplos modos
de comunicação que o próprio povo criou, para que
as pessoas contassem umas às outras, cantando,
suas experiências, suas alegrias e tristezas. É fato
que, na maioria dos casos, esses sentimentos se
referem a situações individuais, a que os compo-
sitores conseguem dar amplitude. Mas existem
outros problemas, outras tristezas e outras ale-
grias, não menos profundas e não menos ligadas
à vida de todo dia. E os compositores, como
Zé Kéti, João do Vale ou Sérgio Ricardo, entre ou-
tros, falam dessas coisas. Eles revelam que, além
do amor e da saudade, pode o samba cantar a
solidariedade, a vontade de uma vida nova, a paz e
a liberdade. E quem sabe se, cantando essas can-
ções, possamos tornar mais vivos na alma do povo
ideias e sentimentos que o ajudem a encontrar, na
dura vida, o seu melhor caminho.
Em uma entrevista concedida a uma revista,
complementou:
Chega de cantar para dois ou três intelectuais
uma musiquinha de apartamento. Quero o samba
puro, que tem muito mais a dizer, que é a expres-
são do povo. […]
Apud CALADO, Carlos. Tropicália: a história de uma revo-
lução musical. São Paulo: Editora 34, 1997. p. 109.
Assim ela buscava um novo caminho, alian-
do-se aos sambistas mais tradicionais para
cantar canções como “Opinião”, cuja letra diz:
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Disco raro do cantor Joao Gilberto, 1959.
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“Podem me bater / Podem me prender / Que eu
não mudo de opinião”. O título dessa canção era
também o título do espetáculo encenado por Nara
Leão, João do Vale e o sambista Zé Kéti. Procurava-
se falar sobre a vida do brasileiro em sambas que
incitavam à reflexão acerca do país. O espetáculo,
com roteiro de Oduvaldo Vianna Filho e dirigido por
Augusto Boal, foi apresentado em vários sindicatos
e entidades estudantis do país.
A arte engajada ganhou adeptos no teatro e
em outras manifestações artísticas. Augusto Boal
dirigia o show Opinião e o Teatro de Arena (em São
Paulo), que procurava criar montagens teatrais
de textos relacionados a temas sociais e políticos
brasileiros de seu tempo. Boal, que desenvolveu
uma teoria – a do teatro oprimido –, foi preso, tor-
turado e exilado na década de 1970.
Além de Boal, nos anos 1960, destacou-se José
Celso Martinez Corrêa. Considerado um revolu-
cionário nas artes cênicas, Zé Celso foi um dos
criadores do Teatro Oficina, fundado em 1958. Ele
faria montagens engajadas, contestando a ordem
política e social vigente. Um dos seus mais impor-
tantes espetáculos foi O rei da vela, de Oswald de
Andrade, em 1967.
Esse contexto também foi marcado pela luta
estudantil, que se constituía em agremiações
estudantis e tinha como direção maior a União
Nacional dos Estudantes (UNE). O discurso da
esquerda criticava a derrubada da democracia,
o início da censura e o imperialismo norte-ameri-
cano, que sustentaria o poder militar e dominaria
economicamente o país. Desde os anos 1950,
Atores durante apresentação da
peça O rei da vela, de Oswald de
Andrade, em 1967, dirigida por
José Celso Martinez Corrêa.
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ganhava força no Brasil um discurso nacionalista
de defesa dos interesses nacionais contra a pre-
sença estrangeira.
Nesse ambiente, nascia a sigla MPB (Música
Popular Brasileira), que se referia especi-
ficamente a uma música herdeira do samba
e influenciada pela bossa nova. Em sua origem,
a MPB incluía questões políticas e sociais entre
seus temas.
Jovem guarda
Ao mesmo tempo em que se politizava a músi-
ca popular, a jovem guarda fazia sucesso repro-
duzindo aquilo que havia de mais americanizado:
o rock, as guitarras, a obsessão por carros como
símbolo de juventude e liberdade, enfim, era a
conhecida turma do iê-iê-iê.
Muitas canções da jovem guarda eram como
histórias em quadrinhos. Contava-se um episó-
dio do cotidiano com humor ou ironia. Os temas
mais recorrentes eram o namoro – “Aquele beijo
que eu te dei / nunca, nunca mais esquece-
rei”, conforme a música de Roberto Carlos –,
o carro e as aventuras com ele vividas e todo o
tipo de descontração da vida jovem. A sonori-
dade, inspirada na banda inglesa The Beatles
e no rock norte-americano em geral, recebia a
reprovação daqueles que discursavam contra a
dominação imperialista e em defesa da música
brasileira. Na década de 1960, militantes dos
partidos de esquerda consideravam alienação
escutar os artistas da jovem guarda, já que estes
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estariam desligados da realidade social do país.
Em 1967, chegou a ocorrer uma passeata con-
tra as guitarras, liderada por Elis Regina, que
no programa televisivo O Fino da Bossa, por ela
apresentado, fazia abertamente o discurso con-
tra a turma do iê-iê-iê.
Em 1965, a jovem guarda consistia em um pro-
grama de auditório de televisão bastante popu-
lar, comandado pelos cantores e compositores
Roberto Carlos e Erasmo Carlos e pela cantora
Wanderléa. Entre 1965 e 1968, os três fizeram
enorme sucesso gravando discos, fazendo filmes
e embalando as festas da juventude, aparente-
mente menos preocupada com a dita dominação
imperialista norte-americana.
Esse período de efervescência musical foi
também o período dos festivais de música popu-
lar, transmitidos ao vivo por algumas redes de
televisão. A partir de 1965, os festivais atraíram
multidões, sendo sucesso garantido de audiên-
cia televisiva. Estavam entre os participantes os
jovens da MPB, como Chico Buarque de Holanda,
Edu Lobo, Geraldo Vandré, Elis Regina, Nara Leão
e também Caetano Veloso e Gilberto Gil, que se
filiariam a um outro movimento: o tropicalismo
(tema que será abordado mais adiante).
Algumas das canções que participaram dos
festivais e foram finalistas evidenciam o enga-
jamento político da MPB. Em 1966, o II Festival
de Música Popular Brasileira da TV Record de
São Paulo teve como finalistas “Disparada”, de
Geraldo Vandré e Théo de Barros, interpretada por
Jair Rodrigues, e “A banda”, de Chico Buarque,
interpretada por Nara Leão e pelo próprio Chico.
“Disparada” tinha grande aceitação de boa parte
do público. Em seus versos fazia referência a um
homem que dizia: “[…] na boiada já fui boi / mas
um dia me montei”, ou seja, convidava as pessoas
a serem protagonistas de seu destino e da histó-
ria. Ao apurar os resultados do festival, as duas
canções foram consideradas vencedoras, ocor-
rendo um empate.
Em 1968, no III Festival Internacional da Canção,
promovido pela TV Globo, uma das finalistas foi a
música de Geraldo Vandré, “Para não dizer que
não falei das flores” (também conhecida como
“Caminhando”), que se tornaria um hino de pro-
testo, mesmo que o autor negasse que ela o fosse,
anos mais tarde.
Chico Buarque e Jair Rodrigues, os vencedores do II Festival
de MPB da TV Record, em 1966. Chico interpretou a sua can-
ção “A banda”, com Nara Leão, e Jair Rodrigues, a canção
“Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros.
Em foto de 1968, a turma do iê-iê-iê: Eduardo Araújo,
Wanderley Cardoso, Roberto Carlos, Erasmo Carlos. Na frente,
Martinha e Wanderléa.
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O tropicalismo
O movimento tropicalista nasceu em 1967.
Inspirados na peça de Oswald de Andrade O rei
da vela, em montagem do Teatro Oficina de 1966, e
na instalação Tropicália, de Hélio Oiticica, Caetano
Veloso, Gilberto Gil, Rogério Duprat, Torquato Neto
e Tom Zé, entre outros, começaram a produzir
canções que buscassem uma renovação cultu-
ral. Irreverentes e debochados, os tropicalistas
opunham-se ao nacionalismo de parte dos intelec-
tuais de esquerda. Incorporaram a guitarra à sua
música sem ignorar a bossa nova ou qualquer outro
estilo musical. Valendo-se da antropofagia cultural
modernista de Oswald de Andrade (um dos orga-
nizadores da Semana de Arte Moderna de 1922),
procuravam incorporar a cultura estrangeira sem
deixar de ser nacionais, quer dizer, não estavam
imitando, mas sim criando uma nova música ao
introduzir elementos de outras culturas. Utilizavam
as guitarras do rock e da jovem guarda, elogia-
vam a bossa nova e tomavam como referência
Carmem Miranda, símbolo dessa fusão cultural.
Em 1968, quando Caetano Veloso, Gilberto Gil
e Os Mutantes entraram em cena no IV Festival
Internacional da Canção, da TV Globo, para can-
tar “É proibido proibir”, foram fortemente vaiados
pelo público, que condenou o uso das guitarras e
a maneira extravagante como os músicos se apre-
Tropicália, Penetráveis PN2 e PN3, instalação de Hélio Oiticica.
Criada originalmente em 1967 e remontada em 2010. Disposto a
romper com os padrões vigentes da arte, Oiticica construiu uma
instalação que procurava levar o espectador às sensações de
quem trafega pelas vielas de uma favela. Queria, assim, colocar
a vida cotidiana em sua obra de arte. O sentido de inovação
estética presente em Tropicália inspirou os artistas da música
a utilizarem o título da obra de Oiticica como denominação do
movimento musical que surgia. No entanto, ele não era conside-
rado ideal para alguns dos membros do grupo, que o aceitaram
por não haver outra alternativa.
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sentaram. Caetano Veloso fez um discurso criti-
cando a juventude que o vaiava e, em uma entre-
vista para o Jornal da Tarde, Gilberto Gil explicou:
Não temos culpa se eles não querem ser jovens.
É isso mesmo, querem que a gente cante os sam-
binhas. Mas não tenho raiva deles não, eles estão
embotados pela burrice que uma coisa chamada
Partido Comunista resolveu pôr nas cabeças deles.
Apud CALADO, Carlos, op. cit., p. 222.
Enquanto parte da juventude politicamente
engajada considerava a obra tropicalista fruto da
alienação e da reprodução da cultura norte-ame-
ricana, os tropicalistas acusavam essa mesma
juventude de ser conservadora e formatada por
um pensamento de esquerda que inibia qualquer
movimento de renovação cultural.
Entretanto, pouco depois de encerrado o fes-
tival de 1968, em setembro, veio o AI-5. Caetano
Veloso e Gilberto Gil foram presos e depois se
exilaram na Inglaterra. Chico Buarque foi para a
Itália. Geraldo Vandré, para a Argélia, passando
depois por vários países da Europa. Em 1969,
ocorreria o último festival, já sem a presença de
muitos daqueles que integraram o movimento de
renovação da canção brasileira nos anos 1960.
Terminava o tropicalismo como movimento, da
mesma forma que haviam terminado a jovem guar-
da e a bossa nova. No entanto, é impossível com-
preender a sonoridade da música brasileira dos
anos seguintes sem fazer referência aos nomes
dessa geração. Do mesmo jeito, os destinos políti-
cos do país e muitas das novas ideias que surgiram
foram alimentadas por esses movimentos.
Gilberto Gil com Os Mutantes cantando Domingo no parque
no I Festival da Música Popular Brasileira. Teatro Record,
São Paulo, 1967.
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Cinema novo
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ersão brasileira do cinema nascido depois da
Segunda Guerra Mundial, a exemplo do neor-
realismo italiano e da nouvelle vague francesa,
o cinema novo começou a ganhar forma a partir de
1956 com a estreia do filme Rio, 40 graus, de Nelson
Pereira dos Santos. Em oposição ao cinema que se fazia
até então, exploraram-se os temas da vida nacional,
principalmente a vida cotidiana da população pobre
em oposição à vida burguesa. No início dos anos 1960,
o cinema novo ganhou consistência com os filmes Cinco
vezes favela, Os cafajestes, de Ruy Guerra, e O pagador
de promessas, de Anselmo Duarte. Cinco vezes favela foi
produzido pelo Centro Popular de Cultura (CPC), vin-
culado à UNE. Em 1964, Glauber Rocha (1939-1981)
lançou Deus e o diabo na Terra do Sol, mostrando a dura
vida de nordestinos sob a seca e a condição de explo-
ração em que viviam. Em oposição aos filmes caros
realizados no passado pela empresa Vera Cruz, Glauber
e os cinemanovistas defendiam que se deveria ter “uma
câmara na mão e uma ideia na cabeça”. Na mesma linha, Nelson Pereira dos Santos lançou nesse ano Vidas secas.
Em 1967, Glauber Rocha lançou Terra em transe e, em 1969, O dragão da maldade contra o santo guerreiro. Em todos
os filmes, Glauber, seguindo a estética do cinema novo, procurou construir uma linguagem revolucionária, fundada
na cultura popular e na vida nacional, sem apelar para o folclórico. Em 1969, deixou o Brasil, vivendo vários anos na
Europa. Faleceu vítima de complicações de doença pulmonar.
Na França e nos Estados Unidos
Milhares de jovens universitários promoveram
na França, em maio de 1968, um movimento revolu-
cionário. Revoltaram-se contra as regras sociais de
longa data. Lutaram contra o sentido de carreira no
ensino, a hierarquia universitária, a formação técni-
ca e a reforma universitária que pretendia ampliar
a formação de técnicos a serviço do Estado. A
revolta estudantil iniciou-se em 3 de maio, e houve
vários conflitos entre a polícia e os estudantes.
Estes arrancavam os paralelepípedos das ruas e
os arremessavam contra os policiais que jogavam
bombas de gás lacrimogêneo. Observavam-se nas
ruas de Paris frases de teor libertário, como “Não
mude de emprego, mude o sentido de sua vida”,
“É proibido proibir”, “A imaginação no poder”. No
dia 13 de maio, com quase todas as universidades
francesas em greve, cerca de 800 mil pessoas mar-
charam pelas ruas protestando contra a violência
policial. Daniel Cohn-Bendit destacou-se como um
dos líderes estudantis de Maio de 68.
Pouco depois, influenciados pelos estudantes,
aproximadamente 9 milhões de operários entraram
em greve e colocaram em discussão o processo de
organização do trabalho e outras questões sociais.
Glauber Rocha (gesticulando) dirigindo Deus e o diabo na
Terra do Sol, em 1964.
Iconographia
Em fim de maio, o presidente Charles de Gaulle fez
um apelo em discurso transmitido pelas redes de
televisão, alertando para o que chamava de “perigo
vermelho”. De Gaulle mandou reprimir com mais
intensidade os movimentos rebeldes e ordenou a
invasão da Sorbonne, universidade parisiense que
era o centro de reflexão do movimento. Apesar disso,
os debates continuaram a acontecer, e as universi-
dades já não seriam as mesmas após maio de 1968.
Nesse mesmo ano, nos Estados Unidos, havia
ganhado fôlego o movimento hippie, também
chamado de flower power em referência ao paci-
fismo. Os jovens protestavam contra qualquer
forma de repressão, sobretudo a presença norte-
-americana na Guerra do Vietnã, e tinham como
ídolos nomes do rock e do country, como Jimmy
Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Rolling
Stones, Joan Baez e Bob Dylan, entre outros.
Milhares de pessoas se reuniram em festivais de
música como o de Woodstock e o de Monterey.
Nesses eventos, drogas como haxixe e LSD eram
largamente consumidas e defendia-se o ideal de
liberdade, fraternidade étnica, paz e a construção
de uma vida social baseada em outros valores que
não o consumismo e o individualismo burguês.
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O governo Médici
Eleito presidente da República pelo Congresso
Nacional em outubro de 1969, o general Emílio
Garrastazu Médici tinha sido chefe do SNI
(Serviço Nacional de Informações). Sua ges-
tão (1969-1974) pode ser considerada o auge da
repressão política, da censura e do autoritarismo.
O movimento sindical e o estudantil foram enfra-
quecidos em razão da perseguição, da prisão e
da tortura de muitos militantes, medidas estas
comandadas pelo presidente.
Em 1974, o governo conseguiu uma impor-
tante vitória sobre um dos focos da resistência:
a Guerrilha do Araguaia. Desde 1966, o Partido
Comunista do Brasil (PC do B) vinha arregimen-
tando militantes para lutar nas matas da região do
Bico do Papagaio, onde se juntam os rios Araguaia
e Tocantins. Espalhados por vários quilômetros,
os revolucionários queriam iniciar a guerrilha
que poderia alavancar a derrubada da ditadura
militar. José Genoino, que participou das lutas do
Araguaia, explica: "[…] a ideia era a estratégia
da guerra popular prolongada, que começa no
campo, vai-se propagando, vai crescendo, acumu-
lando força". (Apud COUTO, op. cit., p. 114).
Em 1972, havia cerca de setenta guerrilheiros
na região, e chegaram a ser quase cem poste-
riormente. Nesse mesmo ano, as forças legais
não conseguiram derrotar os revolucionários.
Nova tropa do Exército tentou marchar para
capturar os rebeldes no final de 1973. Após
quatro meses de conflito conseguiram prender
os guerrilheiros, que foram executados pelos
militares. Alguns conseguiram se esconder na
floresta. Em 1975, ainda havia alguns focos de
guerrilha no Araguaia.
Apesar da intensa repressão, o governo utilizou
a propaganda para criar um clima de solidez, aus-
teridade e eficiência, tudo isso conduzido por um
governo forte. Em 1970, a vitória brasileira na Copa
do Mundo de Futebol no México foi politicamente
explorada como um feito nacional, e o presidente
era mostrado como um torcedor entusiasmado.
Nesse período, a televisão já tinha grande alcance
e se tornara importante instrumento de comu-
nicação com as massas. Vários slogans e jingles
foram criados para promover um nacionalismo
avesso a críticas, como “Brasil: ame-o ou deixe-
-o”, “Pra frente, Brasil!”, relacionados ao futebol,
ou “Ninguém segura este país”. Essas frases
ganhavam força na medida em que os efeitos do
“milagre econômico” ainda se faziam sentir: cres-
cimento da renda e do emprego, apesar
da grande concentração de riqueza nas
mãos de uma elite que defendia ardua-
mente a direção governamental.
Capa do semanário O Pasquim, que realizava críticas constantes
ao governo militar e era frequentemente censurado. No início
dos anos 1970, muitas de suas matérias foram proibidas de cir-
cular pelo governo militar, em um contexto de forte repressão
àqueles que se opunham ao regime ditatorial. Isso fez com que
se publicassem capas como essa de 1972, na qual consideram
“zebra” ter conseguido publicar mais um número, ou seja, com
uma censura tão acirrada, conseguiram ainda editar o semaná-
rio. Sérgio Augusto, que na época era responsável pela editoria
de texto de O Pasquim, afirma que: “Levamos pelo menos qua-
tro prensas da Censura, entre julho de 1972 e março de 1973, e
tivemos de ir às bancas com as migalhas deixadas pelos catões,
a cada semana mais gulosos e paranoicos. Nos dísticos e nas
frases das capas, o recado aos leitores: ‘Um jornal que vai ou
Ra…’; ‘Deu zebra!!! Outro Pasquim nas bancas!’ ”. (AUGUSTO,
Sérgio; JAGUAR (Org.). Antologia do Pasquim: 1972-1973. Rio de
Janeiro: Desiderata, 2007. v. 2. p. 8). Cartaz de propaganda nacionalista durante o governo Médici.
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O Plano Nacional de
Desenvolvimento (PND)
Durante o governo Médici, a economia continuou
a ser comandada por Antônio Delfim Netto. Entre
1972 e 1979, foram colocados em prática dois planos
que dirigiram as ações econômicas brasileiras no
período. O primeiro PND, como era chamado, vigo-
rou entre 1972 e 1974, e o segundo, entre 1975 e 1979.
O primeiro deles estava diretamente relacio-
nado ao Programa de Metas e Bases para a Ação
do Governo, lançado pelo governo em 1970 e apro-
vado pelo Congresso na forma de lei. Criado pelo
então ministro do Planejamento, João Paulo dos
Reis Veloso, tinha como objetivo principal o rápido
desenvolvimento econômico do país, para que este
viesse a figurar entre as nações ditas de Primeiro
Mundo. Para alcançar esse objetivo, era preciso, até
1980, duplicar a renda per capita do país enquanto
o Produto Interno Bruto (PIB) deveria crescer pelo
menos 8% ao ano. Essas medidas teriam como con-
sequência a ampliação da oferta de empregos e a
redução da inflação. Contando com a ampla partici-
pação do empresariado brasileiro, foram utilizados
recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento
(BNDE) e de outras instituições financeiras públi-
cas para implementar o primeiro PND.
Os principais alvos do segundo PND eram a ele-
vação da renda per capita, que deveria ultrapassar
os mil dólares, e do PIB, que deveria exceder os
100 bilhões de dólares. Em razão da crise do petró-
leo, pretendia-se realizar ajustes na economia,
fortalecendo a indústria nacional e desestimulan-
do as importações. Isso também levaria ao incre-
mento do PIB brasileiro.
O PND pretendia ainda fortalecer o setor
energético para viabilizar o desenvolvimento da
indústria de base. Queria integrar o território
nacional investindo na Amazônia e nas regi-
ões do Nordeste e do Centro-Oeste do Brasil.
Acreditava-se que o desenvolvimento de infraes-
trutura, a ampliação da indústria, uma política de
emprego, a ampliação do mercado de consumo
e o investimento em habitação, saúde e sanea-
mento transformariam o Brasil em uma nação
moderna e economicamente desenvolvida.
A expectativa de que o Brasil se tornasse nos
anos 1980 um país moderno industrialmente não
conseguiu se cumprir, iniciando-se na virada da
década de 1970 um forte processo inflacionário,
herdeiro de um grande endividamento externo. Isso
inviabilizou a continuidade desse plano, uma vez que
a crise impossibilitou novos investimentos e o país
se viu obrigado a buscar um outro ajuste econômico.
De Geisel a Figueiredo:
mudança de rumos
Já em 1972, iniciaram-se as negociações entre
os militares para a indicação do sucessor de Médici.
Em meados de 1973, Ernesto Geisel foi convidado
para ser candidato presidencial. No entanto, pode-
-se perguntar: por que Geisel, alinhado aos militares
mais moderados e a Castelo Branco em 1964, seria
o escolhido? Por que não foi indicado um militar da
chamada “linha dura”? Não há uma única explica-
ção para o que ocorreu, mas devemos considerar
que Orlando Geisel, irmão de Ernesto, era ministro
do Exército e homem de extrema confiança do
presidente, valendo muito sua opinião favorável ao
irmão. Alguns militares advogaram também que
Ernesto Geisel era um oficial de formação intelec-
tual sólida e respeitado por todos os setores das
Forças Armadas. A indicação dele recebeu ainda
o apoio do general João Batista Figueiredo, chefe
do Gabinete Militar da Presidência, para quem
Ernesto Geisel era o mais apto a continuar o pro-
jeto militar de governo. Em janeiro de 1974, o Con-
gresso elegeu mais uma vez o candidato do gover-
no, sendo derrotado Ulysses Guimarães, candidato
do MDB, que, sem poder divulgar sua campanha
no rádio e na televisão, peregrinou pelo país denun-
ciando a farsa eleitoral. De acordo com Ulysses,
tratava-se de uma antieleição e uma anticonstitui-
ção, sendo ele um anticandidato.
Geisel assumiu o governo em 1974 em meio a
uma crise econômica internacional relacionada à
crise do petróleo. No ano anterior, após a Guerra
do Yom Kippur, quando israelenses ocuparam terri-
tórios palestinos com o apoio dos Estados Unidos,
as nações árabes membros da Organização dos
Países Exportadores de Petróleo (Opep) decidiram
reduzir a produção diária e aumentar o preço do pro-
duto. Assim, o preço do barril de petróleo subiu de
US$ 2,90 para US$ 11,65. A medida provocou reces-
são na Europa e nos Estados Unidos, e criou déficits
na balança comercial de vários países. A crise tam-
bém teria importantes consequências para o Brasil,
que se ressentiria da diminuição dos investimentos
externos, do crescimento do endividamento externo
e do risco do crescimento da inflação. Chegava ao
fim o período do “milagre econômico”.
O governo Geisel, reforçado pela tendência
pessoal do presidente, manteve o poder forte-
mente centralizado no Executivo. Apesar disso,
ainda em 1974, começou-se a pensar em cami-
nhar em direção à democracia, num processo de
“distensão lenta, gradual e segura”. Conforme
depoimento do próprio Geisel, após dez anos do
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golpe militar e o enfraquecimento da luta armada,
tornava-se possível começar uma transição para
o regime democrático. Afirmava ele que essa
passagem deveria ser lenta, pois só assim a linha
dura das Forças Armadas a aceitaria.
A iniciativa de Geisel, contudo, não é a única
explicação possível para o início da abertura
política. Historiadores como Francisco Iglesias
afirmam que:
A abertura resultou foi de uma imposição. Não foi
nenhuma extraordinária lucidez do Geisel que o le-
vou a fazer a transição. Ele foi levado a isso, porque
era homem suficientemente lúcido para perceber
que o regime deles havia fracassado e que era hora
de começar a transferir o poder.
Apud COUTO, op. cit., p. 148.
Pode-se argumentar também que esse proces-
so gradual de abertura política fazia parte de um
projeto de permanência dos militares no poder por
vários anos. A crise econômica brasileira desen-
cadeada pela crise do petróleo pode ter sido um
dos fatores que estimularam os militares a iniciar
o processo de transição para a democracia. Além
disso, outro problema seria a própria corrupção
existente dentro das Forças Armadas e a existência
de um poder paralelo no que se referia à repressão
política, sem controle direto do governo.
Tal processo de abertura política era defendi-
do pela ala progressista da Igreja Católica, que
constantemente pregava a volta da democracia
e condenava a tortura. Também o movimento
sindical, os estudantes e grande parte da socie-
dade civil lutavam o quanto podiam pela abertura
política e o fim da repressão no país. O desejo de
mudança expressou-se nas eleições legislativas
de 1974, quando o governo Geisel sofreu grande
derrota nas urnas. Dos 22 senadores eleitos, 16
eram do MDB e somente 6 da situacionista Arena.
Ampliou-se ainda a bancada do MDB na Câmara
dos Deputados, que quase alcançou a metade do
número de parlamentares da Casa. Nas eleições
legislativas, o MDB conseguiu eleger a maioria
dos deputados em vários estados.
O bom desempenho do MDB nas eleições foi
facilitado, em grande parte, pela permissão de
se utilizar a televisão nas campanhas políticas.
Nesse período, a censura aos meios de comunica-
ção começou a diminuir. Primeiro, abandonou-se
a censura prévia aos meios de comunicação e, em
seguida, até 1978, foi se tornando possível, cada
vez mais, exercer a crítica às ações governamen-
tais e fazer denúncias de casos de corrupção e
tortura. A censura prévia ao jornal O Estado de
S. Paulo acabou em 1975; e a censura à revista Veja,
no ano seguinte. De acordo com Maria Aparecida
de Aquino, em seu livro Censura, imprensa,
Estado autoritário (1968-1978), o jornal O Estado de
S. Paulo teve 53% de suas reportagens políticas
censuradas entre março de 1973 e janeiro de 1975.
Já as publicações da chamada imprensa alternati-
va, como os jornais Opinião e O Pasquim, continu-
aram diretamente sob a mira da censura.
Contudo, isso não significava que a ditadu-
ra tivesse deixado de utilizar-se de seu aparato
repressivo. Políticos continuaram a ser cassados
pelo AI-5 quando se julgava conveniente, e a tortu-
ra continuava a fazer suas vítimas, como ocorreu
com o jornalista Vladimir Herzog em 1975. No ano
seguinte, o operário Manuel Fiel Filho também mor-
reu, como Herzog, no DOI-Codi paulista. Nos dois
casos foi alegado suicídio. Conforme Elio Gaspari:
[…] a Censura proibiu 47 filmes, 117 peças, 840 mú-
sicas e quilômetros de textos jornalísticos. Nesse
período pelo menos 42 pessoas foram assassina-
das, 39 das quais desapareceram nos porões do
regime, e registraram-se 1 022 casos de denúncias
de tortura. Quando [Geisel] deixou Brasília, o Ato
Institucional n. 5, que lhe dera poderes ditatoriais,
estava extinto, a imprensa recuperara a liberdade,
O presidente da República Ernesto Geisel, durante a comemo-
ração do aniversário do golpe de 1964, na Vila Militar, Rio de
Janeiro (RJ), 1977.
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Como nessa edição de 19 de novembro de 1974, nas ocasiões
em que o jornal O Estado de S. Paulo era censurado, no espaço
da notícia proibida eram colocados versos da obra Os lusíadas,
de Camões. Isso acabava por funcionar como um protesto ou
uma denúncia de que ali havia censura.
não havia mais tortura de dissidentes, haviam ter-
minado as prisões políticas e discutia-se a anistia.
GASPARI, Elio. A ditadura colocou-o no poder e
ele desmontou-a. O Estado de S. Paulo, 13 set. 1996.
Após a morte de Manuel Fiel Filho, o comandante
do II Exército em São Paulo, Ednardo D’Ávila Mello,
foi afastado. Essa atitude marcou uma mudança
na relação do governo com o aparato repressivo.
As torturas não foram mais admitidas de maneira
tão arbitrária. O governo Geisel começou a tomar
as rédeas do controle sobre a tortura, que, pela
primeira vez, não tinha ficado totalmente impune.
Em 1976, temendo nova derrota nas eleições
municipais, o governo decidiu limitar o uso do
rádio e da televisão nas campanhas eleitorais. Foi
criada a Lei Falcão, de autoria do ministro da
Justiça, Armando Falcão, que determinava que só
poderiam ser exibidos, na televisão, a imagem do
candidato, seu nome, número e legenda. Não pode-
ria haver debates políticos nem serem divulgadas
propostas. Também a afixação de cartazes de
propaganda de campanha foi proibida. Com isso, a
Arena conseguiu vencer as eleições, uma vez que
a oposição não teve como divulgar sua plataforma
em todo o território nacional. O MDB ampliou a
base de governantes municipais, mesmo tendo a
Arena conseguido eleger mais prefeitos.
No ano seguinte, o governo temia uma nova
derrota nas eleições legislativas de 1978. Caso isso
acontecesse, perderia a maioria no Senado, corren-
do o mesmo risco na Câmara dos Deputados. Para
contornar a situação, o presidente baixou o chama-
do Pacote de Abril, que fechou o Congresso por
15 dias e fez uma minirreforma da Constituição.
Decidiu-se que as eleições para governadores
seriam permanentemente indiretas e um dos dois
senadores eleitos nas eleições seguintes seria
escolhido pelo mesmo Colégio Eleitoral que esco-
lheria os governadores (deputados estaduais mais
representação de vereadores dos municípios). Foi
criado o chamado senador biônico. Além dessas
mudanças, as bancadas estaduais na Câmara dos
Deputados passariam a ser proporcionais à popu-
lação e não ao eleitorado, e poderiam ter, no máxi-
mo, 55 representantes por estado. Estabeleceu-se
ainda que, para aprovar uma emenda constitucio-
nal, o quórum teria de ser absoluto e que os man-
datos presidenciais passariam a ter seis anos. Com
isso, o governo limitou a atuação do Congresso e
manteve o domínio ditatorial sobre o país.
Apesar disso, setores da sociedade civil se
organizavam para lutar contra a ditadura militar.
O MDB criticava frontalmente as medidas gover-
namentais e a UNE começava a restabelecer suas
bases. Ainda em 1977, ocorreram conflitos com a
polícia durante atos estudantis na Universidade
de Brasília (UNB) e na Pontifícia Universi-
dade Católica de São Paulo (PUC), onde se daria
o II Encontro Nacional de Estudantes. Alunos e
professores foram presos na tentativa da polícia
de impedir a realização do evento.
A partir de 1978, também começariam a res-
surgir as greves e o movimento operário. Elas
recomeçaram em São Paulo, em maio de 1978,
quando os trabalhadores da fábrica automobi-
lística Scania-Vabis assumiram seus postos de
trabalho, mas não ligaram as máquinas, paralisan-
do a produção. Em poucos dias, mais de 500 mil
trabalhadores entraram em greve, parando deze-
nas de empresas. Em São Bernardo do Campo,
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Luiz Inácio da Silva, mais conhecido como Lula,
então presidente do sindicato dos metalúrgicos
da cidade, era um dos principais líderes desse
movimento. O novo movimento sindical que sur-
gia atuava com muita intensidade, mobilizando os
trabalhadores para reivindicar melhores salários
e condições de trabalho. Grandes assembleias
eram realizadas para discutir os problemas da
categoria e votar as propostas discutidas, como a
realização de greves. No dizer de Lula, o espírito
do chamado novo sindicalismo era: "[…] a gente
não vai mais esperar os trabalhadores virem ao
sindicato. Nós vamos pra porta falar com eles".
(Apud COUTO, op. cit., p. 236).
As lutas sindicais não se fizeram, contudo,
sem repressão. Sindicalistas foram presos, houve
confrontos com a polícia e, em 1980, o dirigen-
te Lula foi preso e levado ao Departamento de
Ordem Política e Social (Dops).
Em 1978, definiu-se que o candidato militar
à sucessão presidencial seria o então chefe do
Serviço Nacional de Informação (SNI), João
Batista Figueiredo, que governaria entre 1979
e 1985, após vencer as eleições contra o candi-
dato do MDB, o general Euler Bentes Monteiro.
O partido de oposição buscou lançar um nome
que atraísse possíveis descontentes da Arena.
Era uma tentativa de virar o jogo político sempre
favorável ao governo.
Nas eleições de 1978 para o Legislativo, a opo-
sição conseguiu mais da metade dos votos para
o Senado, mas ficou com um número reduzido
de cadeiras em razão das regras estabelecidas
pelo Pacote de Abril. A disputa foi equilibrada na
Câmara dos Deputados, mas o MDB ficou com
189 cadeiras e a Arena, com 231.
Durante o governo
Figueiredo, a crise econômica
mundial continuou a reper-
cutir no Brasil, que também
atravessava dificuldades eco-
nômicas. A dívida externa bra-
sileira cresceu muito e os
juros internacionais subi-
ram explosivamente.
A inflação aumenta-
va, aproximando-se
dos 40% em 1978 e ultrapassando os 100% em
1980. O ministro Antônio Delfim Netto, na pasta
do Planejamento após a demissão de Mário
Henrique Simonsen, ainda em 1979, não podia
conter a recessão, uma vez que os altos juros
adotados no mercado internacional inviabiliza-
vam novos investimentos e freavam a economia.
Em 1981, o PIB parou de crescer e, entre 1982 e
1984, chegou mesmo a decrescer. Para reduzir
a crise econômica, em 1983 o governo decidiu
desvalorizar a moeda brasileira em 30%, a fim
de enfrentar a dívida externa crescente. Em
contrapartida, nesse ano a inflação chegou aos
150%, atingindo os 200% em 1984. Ocorreu nesse
período o que se denominou estagflação, ou
seja, a economia deixou de crescer, havendo
redução da atividade econômica e ampliação do
desemprego. A grande dívida externa e a reces-
são obrigaram o governo brasileiro a
negociar com o Fundo Monetário
Internacional (FMI). O país precisa-
va de novos empréstimos para saldar
compromissos e renegociar dívidas. A partir de
1985, lentamente, o PIB brasileiro voltou a crescer.
Nesse contexto, surgiram novas mobilizações
e greves de trabalhadores, paralisando vários
setores da economia nos primeiros anos da déca-
da de 1980. Em 1983, nascia a Central Única dos
Trabalhadores (CUT), com o intuito de unificar
as lutas dos trabalhadores.
Lula discursa em concentração de aproximadamente 50 mil trabalhadores durante uma greve de
metalúrgicos no Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), 1979.
Juca Martins/Olhar Imagem
Primeiro Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, em São
Bernardo do Campo (SP), encerrado em 28 de agosto de 1983.
Esse congresso contou com a participação de 5 265 delegados e
aprovou a criação de uma Central Única dos Trabalhadores (CUT),
elegendo uma coordenação provisória. No ano seguinte, ocorre-
ram eleições diretas em todos os sindicatos brasileiros para que
os trabalhadores escolhessem uma coordenação definitiva.
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A abertura
O processo ocorrido a partir de 1974, chamado
pelo presidente Geisel de “distensão lenta, gradual
e segura”, foi o início do processo de abertura polí-
tica, que só se completaria com o retorno das elei-
ções diretas em todos os níveis, o fim da censura,
da tortura e das prisões políticas e a volta dos civis
ao poder. Em 1977, o general Sylvio Frota, ministro
do Exército, rompeu com Geisel. Articulava-se sua
candidatura à Presidência com o apoio da linha
dura das Forças Armadas, que julgavam ainda ser
a ameaça comunista um perigo iminente no país
e por isso não viam com bons olhos o processo de
abertura. Em outubro desse ano, Geisel demitiu
sumariamente o ministro do Exército. A atitude
gerou tensão entre os meios militares, mas não
houve reação. Com isso se deu mais um passo
no caminho da abertura política, pois a linha dura
ficou ainda mais distante do poder.
Sob pressão popular, da imprensa, dos traba-
lhadores, de parte da Igreja Católica e daqueles
que se organizavam para lutar contra a repres-
são política e a tortura, em outubro de 1978
foi aprovada no Congresso Nacional a emenda
constitucional que pôs fim ao AI-5. Ela retirou
do governo a possibilidade de prender pesso-
as ou cassar mandatos indiscriminadamente,
colocar o Congresso em recesso ou suspender
os direitos políticos dos cidadãos. Entretanto, foi
mantido o direito do governo de decretar estado
de sítio quando julgasse necessário.
As novas regras constitucionais valeriam a
partir de 1º - de janeiro de 1979. Ademais, a Lei de
Segurança Nacional modificou-se, sendo abolidas
a pena de morte e a prisão perpétua.
Desde o final do governo Geisel, foram orga-
nizados comícios, passeatas e outras mani-
festações públicas em favor da anistia geral e
irrestrita a todos os presos políticos e àqueles
que foram perseguidos ou tiveram seus direitos
políticos cassados pela ditadura. Em agosto
de 1979, foi aprovada a Lei da Anistia. No
entanto, ela não foi irrestrita: não anistiou os
participantes da guerrilha nem permitiu que
os militares afastados retomassem seus pos-
tos nas Forças Armadas. Também não foram
anistiados aqueles que teriam participado da
formação de partidos políticos ilegais e, quan-
to aos funcionários públicos afastados, estes
deveriam passar por uma comissão de inquérito
para decidir se poderiam ou não reaver suas
funções. Os presos políticos foram libertados,
mas nem todos puderam voltar a participar da
vida política como cidadãos.
Em dezembro de 1979, mais um passo foi
dado na restauração da ordem democrática.
Restabeleceu-se o pluripartidarismo, fato que foi
visto como uma estratégia para dividir o MDB,
que crescia a cada eleição. A Lei Orgânica dos
Partidos definia que os novos partidos teriam um
registro provisório, sendo necessário que, nas
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Passeata pela Anistia Geral e Irrestrita. Rio de Janeiro, 1979.
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Explosão de um carro no Riocentro, em 30 de abril de 1981, no
qual se encontravam o capitão Wilson Luís Chaves Machado e
o sargento Guilherme Ferreira do Rosário, ambos do DOI-Codi.
Esse episódio enfraqueceria o governo Figueiredo e deixaria
ainda mais distante a possibilidade de os militares da chamada
“linha dura” retornarem ao poder.
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Esta charge de Henfil comemora a anistia ao mesmo tempo
que se lembra dos que não podem estar presentes para cele-
brar, como é o caso de Vladimir Herzog, morto em 1975 pela
ditadura militar.
eleições de 1982, alcançassem uma votação míni-
ma para ter o registro confirmado. Logo foram fun-
dados: o Partido Democrático Social (PDS),
substituto da Arena; o Partido do Movimento
Democrático Brasileiro (PMDB), que agre-
gava o antigo MDB; o Partido Trabalhista
Brasileiro (PTB); o Partido Popular (PP),
liderado pelo mineiro Tancredo Neves; e o Partido
dos Trabalhadores (PT), oriundo do novo sindi-
calismo paulista. E mais: o Partido Democrático
Trabalhista (PDT), sob a liderança de Leonel
Brizola, antigo aliado de João Goulart.
Em 1980, definiu-se que as eleições de 1982
para governadores e prefeitos das capitais seriam
diretas e que não haveria mais senadores biôni-
cos. As eleições para presidente foram marcadas
para janeiro de 1985, mas seriam indiretas.
Mesmo nesse ambiente de abertura políti-
ca, foram registrados, desde 1979, vários aten-
tados terroristas, principalmente contra líderes
e organizações de oposição ao regime militar.
O jornal Em Tempo, de Minas Gerais, teve sua sede
invadida; uma bomba explodiu o carro de um sin-
dicalista. Em 1980, Dalmo Dallari, que lutou contra
a tortura, foi sequestrado e alvo de violência. Em
30 de abril de 1981, foi realizado um show com a
presença de vários artistas, como Chico Buarque,
Alceu Valença, Gonzaguinha e Gal Costa. O moti-
vo do evento era a abertura das comemorações do
Dia do Trabalho. O local escolhido foi o Riocentro,
em Jacarepaguá (Rio de Janeiro). Após o início
do show, uma bomba que estava em um carro no
estacionamento explodiu. Dentro do carro esta-
vam um capitão e um sargento ligados ao DOI-
Codi. Um deles morreu e o outro ficou gravemente
ferido. Pouco tempo depois, uma segunda bomba
estourou na casa de força. Depois foi encontrada
uma terceira bomba dentro do carro que explodiu.
Quem seriam os mandantes do atentado? Tudo
indica que se pretendia incriminar organizações
de esquerda para, talvez, estancar o processo de
abertura. Nesse caso, os próprios militares teriam
sido os autores do atentado. O inquérito militar
realizado arquivou a investigação sem definir
nenhum culpado. A falta de solução para esse
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caso acabou por fazer o governo Figueiredo per-
der a credibilidade, lançando suspeitas sobre os
militares. O chefe da Casa Civil, general Golbery
do Couto e Silva, que se demitiu do cargo após o
caso do Riocentro, explicou assim o ocorrido em
uma carta confidencial ao presidente Figueiredo:
Verdade indiscutível é que um grupo radical, mino-
ritário apenas, irresponsável e adepto de práticas
terroristas – como aliás o qualificou o presidente
em sua entrevista a jornalistas peruanos, não faz
muito –, se não dominou ou controla, pelo menos
infiltra os órgãos “vulgarmente chamados DOI-
Codi” e, desde aí, a coberto dessas organizações e
valendo-se, assim, de grandes facilidades e larga
soma de poder, desencadeou ações terroristas
múltiplas obedecendo a linhas hierárquicas dis-
tintas das legais e legítimas e que se estendem
não se sabe até que níveis superiores dos escalões
governamentais. Certo parece, por exemplo, que
o Comando do I Exército está fora do circuito. Por
outro lado, operando em terrenos afins, com am-
plas atividades de informação e contrainformação,
órgãos mais vinculados à Presidência deverão
achar-se de alguma forma envolvidos, uma vez que
o simples saber ou mesmo desconfiar da intenção
da prática de atos terroristas por parte de terceiros
implica, em muitos casos, certa dose de respon-
sabilidade pessoal para quem busque intervir, seja
mesmo para contenção ou fazê-los abortar, ou se-
quer omitir-se de qualquer providência.
Apud COUTO, op. cit., p. 298.
Nas eleições de 1982, o PDS, partido de susten-
tação do governo, só conseguiu manter a maioria
no Congresso depois de uma manobra governa-
mental. Proibiram-se, nessas eleições, as coli-
gações partidárias e o voto em candidatos de
partidos diferentes. Fragmentava-se dessa forma a
esquerda, favorecendo o partido governista. Mesmo
assim, o PMDB conseguiu eleger dez governadores
estaduais. Em maio de 1982, havia sido lançado o
chamado Pacote de Maio, que instituiu várias
outras mudanças no jogo eleitoral a fim de fortale-
cer a base governista. Entre as medidas adotadas,
adiaram-se de outubro de 1984 para janeiro de 1985
as eleições indiretas para presidente. Mudou-se
também a composição do Colégio Eleitoral que
elegeria o presidente. Fariam parte dele os deputa-
dos federais, os senadores – incluindo os biônicos
eleitos indiretamente em 1978 – e os delegados
escolhidos pelas assembleias estaduais. Como o
governo tinha maioria no Senado e havia saído vito-
rioso na maior parte das eleições das assembleias
estaduais, pretendia com isso garantir seu poder
de decisão nas eleições presidenciais de 1985.
As Diretas Já e a eleição de
Tancredo Neves
Em abril de 1983, o deputado Dante de
Oliveira, do PMDB de Mato Grosso, apresentou
no Congresso Nacional uma proposta de emen-
da constitucional que restabelecia as eleições
diretas para a Presidência da República. A vota-
ção dessa emenda na Câmara dos Deputados
seria realizada em 25 de abril de 1984. A Câmara
contava então com 479 deputados – 235 do PDS.
Eram necessários 2/3 dos votos para mudar a
Constituição e realizar as eleições diretas para
presidente já para o próximo mandato. Portanto, a
emenda somente poderia ser aprovada se fossem
conquistados votos da base do governo.
Ao longo de 1983, foi-se fortalecendo a cam-
panha que ficou conhecida como Diretas Já.
O PT, o PMDB e o PDT encabeçaram o movimento.
O primeiro comício multipartidário aconteceu em
Goiânia, mas não reuniu mais que mil pessoas. Aos
poucos, importantes lideranças políticas foram ade-
rindo ao movimento, assim como artistas, membros
da Igreja Católica, lideranças sindicais, governado-
res etc. Com bastante espaço em parte da mídia
que aderiu ao movimento, a Diretas Já foi crescen-
do. No dia 25 de janeiro de 1984, organizou-se um
Nesta charge, de 1984, Henfil contrapõe o povo e o governo ao
se referir à insistência do governo Figueiredo em defender as
eleições indiretas para presidente.
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comício na Praça da Sé, em São Paulo, ao qual com-
pareceram 300 mil pessoas. Em 16 de abril, ainda em
São Paulo, um comício no Vale do Anhangabaú, com
a presença de artistas, políticos de vários partidos e
representantes de diferentes setores da sociedade,
reuniu mais de um milhão de pessoas.
Em resposta, o governo Figueiredo decretou
medidas de emergência permitindo a censura do
rádio e da televisão, e enviou ao Congresso Nacio-
nal o projeto de emenda constitucional que esta-
belecia para 1988 as eleições presidenciais. Essa
última medida permitiu que os deputados do PDS
não fossem acusados de ser contrários às eleições
diretas. Apenas adiaria seu acontecimento, caso a
emenda Dante de Oliveira fosse rejeitada. No dia
da votação, o governo conseguiu fazer prevalecer
sua posição e a emenda foi rejeitada, faltando 22
votos para ser aprovada na Câmara dos Deputados.
Restava então apenas o caminho das elei-
ções indiretas via Colégio Eleitoral. O presidente
Figueiredo, que havia se afastado várias vezes do
governo após 1981 para tratar uma doença cardía-
ca, não apoiou as pretensões de seu vice-presiden-
te, o mineiro Aureliano Chaves, que governou nos
períodos de ausência do chefe de Estado. Aureliano
pretendia candidatar-se ao cargo de presidente da
República. Outro possível candidato que apoiava
o governo era Paulo Salim Maluf, ex-prefeito e
governador de São Paulo e um dos articulado-
res no PDS para a derrota da emenda Dante de
Oliveira na Câmara dos Deputados. Em oposição
ao governo, surgia a candidatura de Tancredo
Neves, político mineiro experiente e governador
de Minas Gerais, que havia conseguido articular o
apoio de vários governadores, incluindo alguns do
PDS, em torno de sua candidatura.
Tancredo Neves recebeu o apoio de vários seto-
res da sociedade, até mesmo de parte dos mili-
tares, como o do ex-presidente Ernesto Geisel.
Aureliano Chaves não conseguiu suficiente apoio
de Figueiredo e do PDS para alicerçar sua candi-
datura. Mário Andreazza, coronel e ministro do
Interior, também pleiteava a Presidência. Após a
implosão política do PDS, que não conseguiu defi-
nir um nome de consenso, Aureliano Chaves aca-
bou por se unir à oposição, engrossando ainda mais
o grupo de apoio a Tancredo. Paulo Maluf, por sua
vez, foi confirmado como candidato da situação.
O PDS contava com 361 dos 686 votos do Colégio
Eleitoral, tendo, portanto, força para derrotar a oposi-
ção. Contudo, o desgaste que sofreu para definir seu
candidato levou o partido a se dividir. José Sarney,
por exemplo, que era presidente do PDS, tornou-se
candidato à vice-presidente na chapa de Tancredo
Neves. Dentro do PDS cresceu o apoio ao candida-
to de oposição, e foi formada a chamada Aliança
Democrática, reunindo setores do PDS e o PMDB.
Nas eleições de 15 de janeiro de 1985, Tancredo obte-
ve 480 votos contra 180 de Maluf. O Partido de seus
deputados decidiram comparecer à votação para
apoiar Tancredo Neves. Iniciou-se desse modo o perí-
odo da chamada Nova República.
Após ser eleito presidente por meio de eleição indireta, Tancredo Neves canta o Hino Nacional ao lado de sua esposa, Risoleta Neves,
e José Sarney, vice-presidente, em Brasília (DF), em 15 de janeiro de 1985.
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A vitória de Tancredo Neves foi vista como
a possibilidade de uma conciliação nacional
para a reconstrução da democracia no país. Os
mais diferentes setores sociais e linhas políticas
haviam se reunido em torno de seu nome. O novo
governo foi montado com lideranças do PMDB e
do Partido da Frente Liberal (PFL), que nas-
ceu após o esfacelamento do PDS. Tratava-se de
uma composição de antigos arenistas e peemede-
bistas. Ulysses Guimarães seria o líder do governo
na Câmara dos Deputados e Fernando Henrique
Cardoso, o líder do governo no Senado (ambos
eram do PMDB).
Dois dias antes da posse, contudo, Tancredo
sentiu fortes dores no abdômen e, após exames
médicos, concluiu-se que deveria se submeter a
uma cirurgia. Tancredo afirmou que preferia esperar
a posse, pois temia que, se não fosse empossado, o
processo de abertura pudesse sofrer um retrocesso.
Além disso, Figueiredo afirmava que não passaria
a faixa presidencial a seu inimigo Sarney. No dia
seguinte, as dores fortes voltaram e ele teve de ser
internado em Brasília. No dia 15 de março, José
Sarney tomou posse e Figueiredo não realizou o ritu-
al de passar a faixa para o novo presidente.
Depois de submeter-se a sete cirurgias e de ter
tido diferentes diagnósticos, Tancredo Neves fale-
ceu em 21 de abril de 1985. Sobreviveu mantido por
aparelhos por vários dias. Falava-se inicialmente
em uma apendicite; no entanto, posteriormente se
constatou um tumor e ainda a possibilidade de ter
seu quadro agravado por uma infecção hospitalar.
Muito se especulou acerca dos possíveis erros
médicos cometidos no atendimento ao presiden-
te. Suspeitou-se até mesmo de alguma atitude
criminosa.
José Sarney tornou-se, então, presidente do Brasil.
Sarney governa de 1985 a 1989
Ao iniciar seu mandato, José Sarney manteve
os ministros indicados por Tancredo Neves. No
entanto, já no primeiro ano foi alterando alguns
deles, conforme as diretrizes políticas que estabe-
leceu. Um dos grandes problemas enfrentados pelo
governo nesse período foi a escalada da inflação,
que chegou a mais de 500% em fevereiro de 1986
no acumulado de 12 meses. No dia 28 desse mesmo
mês, foi lançado pelos ministros da Fazenda e do
Planejamento, respectivamente, Dílson Funaro e
João Sayad, o Plano Cruzado. Tratava-se de
um conjunto de medidas que tinha por finalidade
controlar a inflação e reorganizar a economia
brasileira, promovendo a redistribuição de renda.
Foi criada uma nova moeda, o cruzado, em subs-
tituição ao cruzeiro. Estabeleceu-se também o
congelamento de preços e salários para estancar o
aceleramento da inflação. Os salários seriam rea-
justados apenas quando a inflação atingisse 20%.
A população foi convocada a fiscalizar os preços
de produtos e a denunciar qualquer tipo de abuso.
Inicialmente o plano obteve a aprovação da
população, que viu a possibilidade de beneficiar-
-se com a estabilidade dos preços, melhorando
dessa forma seu poder aquisitivo. O governo,
entretanto, não investiu na solução de outros
problemas econômicos, como a reforma agrária, a
dívida externa e a dívida interna.
Funeral de Tancredo Neves em São Paulo, em 22 de abril de
1985. Uma multidão participou do cortejo para homenagear
aquele que seria o primeiro presidente civil depois de 20 anos
de ditadura militar.
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Prateleiras vazias em supermercado de São Paulo (SP), em
11 de março de 1986, poucos dias após o anúncio do Plano
Cruzado, que tinha como objetivo conter a hiperinflação com
um rigoroso controle de preços.
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As dificuldades, no entanto, começaram a
aumentar em razão das grandes distorções de
preços criadas pelo congelamento e pelas regras
do plano. Conforme Alzira Alves de Abreu:
[…] em meados de 1986, o preço de um automóvel
Monza com um ano de uso era maior do que o mesmo
carro zero quilômetro. As empresas estatais de pe-
tróleo, eletricidade e telecomunicações tornaram-se
vítimas do Plano Cruzado, pois não tinham mecanis-
mos para contornar o congelamento, como poderiam
fazer as empresas privadas através, por exemplo, da
maquiagem de produtos. A lucratividade real dessas
empresas diminuiu ao longo de 1987, contribuindo
para agravar as contas públicas do governo.
ABREU, Alzira Alves de et al. Dicionário histórico-biográfico
brasileiro. Rio de Janeiro: FGV/CPDOC, 2001. v. 4. p. 4708.
As distorções sucediam porque os preços con-
gelados não podiam ser alterados conforme as
regras do mercado. Por isso, um carro usado
poderia ser mais caro que um novo, pois enquanto
o usado subia de preço de acordo com as altera-
ções do quadro econômico, o novo deveria seguir
o preço tabelado. O resultado disso foi um grande
desabastecimento do mercado ou a venda dos
produtos com ágio. Para comprar um carro novo,
por exemplo, muitos pagavam um valor a mais do
que aquele discriminado na nota fiscal, que era o
preço legalmente permitido. Quanto aos produtos
de consumo cotidiano, como carne e diversos
alimentos, era necessário procurá-los em vários
locais de venda, sendo muito difícil comprar todos
os produtos que se desejava. O desabastecimento
ocorreu ainda pela excessiva demanda que o Plano
Cruzado gerou em razão da estabilidade dos preços.
Apesar das dificuldades, o plano contribuiu
para que o PMDB, o partido do governo, tivesse
uma vitória esmagadora nas eleições para gover-
nadores e para o legislativo em 1986. Conseguiu
eleger os governadores de todos os estados e
obteve a maioria no Congresso. Os deputados e
os senadores eleitos naquele ano seriam respon-
sáveis pela elaboração da nova Constituição bra-
sileira. Assim, o Congresso Nacional converteu-se
em Assembleia Nacional Constituinte.
Alguns partidos, principalmente o PT, o PDT
e parte do próprio PMDB, defendiam a convoca-
ção de uma Assembleia Constituinte com delega-
dos escolhidos separadamente do Congresso, pois
só assim se poderia garantir que os deputados
não legislassem em causa própria e que o processo
fosse o mais democrático possível para a elaboração
da nova Constituição. Essa proposta foi derrotada.
Após a eleição de 1986, o governo lançou o
Plano Cruzado II com a finalidade de fazer os
ajustes necessários ao plano original. No entanto,
eles não foram suficientes para conter a volta da
inflação, que tornou a superar os 200% em 1987,
chegando a mais de 1 200% em 1989, no fim do
governo Sarney. Os preços sofriam reajustes cons-
tantes, havendo grandes conflitos para a negocia-
ção de salários e preços específicos, como o de
escolas, aluguéis e outros reajustes de contratos.
Em 5 de outubro de 1988, foi promulgada a
nova Constituição, apelidada de Constituição
Cidadã, simbolizando a volta do regime demo-
crático ao país. A Constituição de 1988 procu-
rou garantir os interesses de diferentes grupos
sociais, preservando também os privilégios.
No artigo 68, da Constituição de 1988, por
exemplo, lê-se:
Aos remanescentes das comunidades dos qui-
lombos que estejam ocupando suas terras é reco-
nhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado
emitir-lhes os títulos respectivos.
Ou seja, reconheceram-se as injustiças come-
tidas contra as populações antes escravizadas e
concedeu-se a propriedade de terras às comuni-
dades que tradicionalmente ocupavam as terras
em que viviam. Em contrapartida, foram inseridas
na Constituição várias regras que beneficiavam
setores específicos, como magistrados, cartórios,
advogados, cedendo ao corporativismo e ao favore-
cimento de grupos específicos. Apesar disso, a nova
Constituição garantiu que as eleições passariam a
ser diretas em todos os níveis. A primeira delas ocor-
reria em 1989, já que o então presidente José Sarney
realizara ampla negociação para aumentar seu man-
dato em um ano. Conforme o sociólogo Emir Sader:
Já na parte final da Assembleia Constituinte, a
discussão sobre a duração do mandato do presi-
dente José Sarney terminou por desmoralizar o
Congresso diante do país. Apesar dos baixíssimos
índices de popularidade a que chegava o governo,
este conseguiu ainda, valendo-se de um gigantes-
co processo clientelista e de corrupção – de que
fizeram parte generosas concessões de rádio e
televisão, entre outras –, um mandato que lhe per-
mitiu ficar na Presidência até 1990.
SADER, Emir. A transição no Brasil.
São Paulo: Atual, 1990. p. 56.
No que se refere aos direitos sociais e políticos
dos cidadãos, a Constituição de 1988 estabeleceu
que homens e mulheres têm direitos iguais,
condenou a tortura, defendeu a liberdade de
pensamento e crença e previu a possibilidade de
desapropriação para fins de reforma agrária de
áreas subutilizadas e de interesse social mediante
pagamento de indenização aos proprietários legais.
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DOCUMENTOS
Observe as imagens e, depois, responda as questões do Roteiro de trabalho.
Capas da revista Veja, de 15 de outubro de 1969 e 20 de novembro de 1968.
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1. Levando em consideração todos os detalhes, descreva as imagens acima.
2. Na capa da revista de 1969, que qualidades são atribuídas ao futuro presidente Médici?
3. Que qualidades são atribuídas ao guerrilheiro Marighela na capa da revista em 1968?
4. Com base na análise dessas capas, pode-se afirmar que foram construídas e veiculadas ima-
gens favoráveis ou desfavoráveis a esses personagens? Argumente.
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PONTO DE VISTA
Leia atentamente as duas cartas a seguir, escritas por Henfil em 1977 e 1978.
Henfil – Cartas da mãe
Natal, 17 de agosto de 1977
Mãe,
Nem te conto! Acabou meu problema de não poder ver certos filmes ou de ver filmes cortados!
Como não pensei nisto antes? Me matriculei num curso preparatório de censores.
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Claro! Agora vou poder ver o balé Bolshoi e – quem sabe? – as letras daquele disco do Milton
Nascimento, O Milagre dos Peixes. Talvez até a capa do disco Calabar, do Chico, já pensou? […]
E o salário? É bom. É bom, mãe… Um censor ganha doze professoras mensais, ou, convertendo
em cruzeiros, pelo câmbio oficial, o salário de doze professoras! Sabem reconhecer a gente, né?
Toda semana temos provas duríssimas. São provas eliminatórias de cultura brasileira, história
geral da cultura e elementos de filosofia. Temos que ficar muito atentos nestas provas, pois quem tirar
mais de três está reprovado e se tirar dez tá preso!
Eu vou indo muito bem. A senhora vai ficar orgulhosa. […] Pois saiba que já tirei quatro zeros
e um oito! Mas este oito não foi em testes culturais, não, foi no teste Cooper. É! A disciplina mais
exigida no curso de censor é o teste Cooper. E no Cooper a gente tem que tirar é dez. […]
E sabe por quê, mãe?
Temos que estar muito bem preparados pro dia em que o povo resolver caçar a gente. […]
Natal, 21 de junho de 1978
Nós, o povo brasileiro, reunidos sob a proteção de Deus, em Assembleia Constituinte para orga-
nizar o regime democrático, decretamos o seguinte:
DA ORGANIZAÇÃO FEDERAL
Artigo 1.º – O Brasil será dividido em Brasil Democrático e Brasil Biônico.
Artigo 2.º – No Brasil Democrático todo poder emana do povo, e em seu nome será exercido.
Artigo 3.º – No Brasil Biônico todo poder emana do poder, e o nome disto é bem conhecido.
Artigo 4.º – No Brasil Democrático o presidente, governadores, senadores, prefeitos, líderes sin-
dicais, livros, peças, filmes, músicas, greves, titulares da seleção, amigos e inimigos serão escolhidos
diretamente pelo povo.
Artigo 5.º – Já no Brasil Biônico tudo isso será feito pelo mais forte, o mais rápido, o mais danado
de todos, que poderá cassar e censurar quando lhe der na telha ou quando estiver indisposto ou com
coceira, tosse, bronquite ou rouquidão.
DOS PODERES
Artigo 6.º – São poderes no Brasil Democrático o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, inde-
pendentes e harmônicos entre si.
Artigo 7.º – São poderes no Brasil Biônico o Executivo, o SNI, o Dops, o BNH, o FMI, o BID, o
PIB, o AI-5, a Lei Falcão, as multinacionais […].
DA JUSTIÇA
Artigo 8.º – No Brasil Democrático todos são inocentes até prova em contrário.
Artigo 9.º – No Brasil Biônico todos são inocentes de corrupção mesmo com provas, e todos são
culpados de subversão se forem contrários.
DO TERRITÓRIO
Artigo 10 – O Brasil Democrático compreende, além dos 22 Estados, o Distrito Federal e os Terri-
tórios, o Flamengo, o Atlético, o Internacional e o Corinthians.
Artigo 11 – O Brasil Biônico compreende uma sala, a escolher, na Granja do Torto, e uma Kombi
para transporte de seus habitantes.
HENFIL. Cartas da mãe. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1986. p. 34-5 e 86-7.
Henfil (1944-1988), ou Henrique de Souza Filho, iniciou sua carreira como cartunista na Revista Alterosa, de Belo Horizonte
(MG), em 1964. Com o golpe militar ocorrido nesse mesmo ano, optou por abordar temas políticos e sociais em seus trabalhos,
sempre tratados com humor crítico e satírico. Tornou-se conhecido nacionalmente em 1969, quando passou a colaborar para
O Pasquim e o Jornal do Brasil. Seus personagens, inspirados em tipos populares brasileiros, como “Os fradinhos”, a “Graúna”
e o “Bode Orelana”, ganharam popularidade nos anos 1970, apesar da grande vendagem atingida pelos quadrinhos norte-
-americanos na época. Destacou-se também no período de redemocratização do país, protestando contra a ditadura, em favor
da anistia aos presos políticos e participando do movimento Diretas Já!. Assim como seu irmão Herbert de Souza, o Betinho,
sociólogo e articulador da “Campanha contra a Fome” nos anos 1990, Henfil, também hemofílico, morreu após contrair o vírus
da Aids em uma transfusão de sangue.
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ROTEIRO DE TRABALHO
1. Na primeira carta, que críticas estão presentes no humor de Henfil?
2. Com base no que foi estudado no item Contexto, o que se pode entender do que ele denomina
Brasil Biônico?
3. Em que se difere o Brasil Biônico do Brasil Democrático?
4. Considerando que Henfil faleceu em 1988, escreva uma pequena carta-resposta a ele, explicando
em que medida prevaleceu o Brasil Biônico ou o Brasil Democrático nos anos que se seguiram
ao texto dele.
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INTERDISCIPLINARIDADE
O trecho a seguir foi escrito por Zuenir Ventura (1931), jornalista e escritor brasileiro, em 1988.
Leia-o atentamente.
1968
Zuenir Ventura
[…] Quando os militares deram o golpe em abril de 64, abortaram uma geração cheia de promes-
sas e esperanças. A esquerda, como acreditava Luís Carlos Prestes então, não estava no governo, mas
já estava no poder. As reformas de base de João Goulart iriam expulsar o subdesenvolvimento e a
cultura popular iria conscientizar o povo. […]
Onipotente, generosa, megalômana, a cultura pré-64 alimentou a ilusão de que tudo dependia
mais ou menos de sua ação: ela não só conscientizaria o povo como transformaria a sociedade, aju-
dando a acabar com as injustiças sociais.
Essa ilusão terminou em 64; a inocência, em 68.
No livro Imagens da revolução, um exaustivo levantamento sobre as organizações de esquerda
que militaram entre 61 e 71, Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá escrevem: “A derrota de 64
não destruiu apenas esquemas, sonhos e partidos. Cortou carreiras políticas, interrompeu projetos
de vida. A grande massa dos que militavam antes de 64 quedou-se perplexa, desorientada. […] Os
que haviam começado em 63, em 64 viram--se subitamente com responsabilidade de direção. Nas
organizações e partidos da Nova Esquerda, a média de idade beirava frequentemente os 20, 22 anos.
Os que tinham 25 anos eram considerados veteranos”.
[…] Apesar de ter marcado a vida do país e de ter antecipado ideias e comportamentos, essa geração
não conseguiu chegar ao poder como, jovem, a de Fidel Castro chegou. “Ela é a um só tempo gloriosa e
angustiada”; segundo Vladimir (Vladimir Palmeira, líder estudantil em 68 com 18 anos e em 1988 depu-
tado pelo PT), “fomos presos, torturados, mortos, exilados, e não conseguimos chegar a lugar nenhum”.
VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou, a aventura de uma geração. 37. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 45.
O trecho que você vai ler a seguir foi tirado de um livro que é resultado da tese de doutorado do
psicólogo Alfredo Naffah Neto. Uma das partes do livro é composta de entrevistas que ele fez com
vítimas de torturas na época da repressão militar no Brasil. Um dos entrevistados foi preso em 1971,
em São Paulo, aos 16 anos de idade. Reproduzimos fragmentos da entrevista.
Relato de tortura
Alfredo: Quais eram suas sensações?
Ivan: A sensação é de que o mundo desabou sobre você, de que tudo acabou. Perde-se a noção do
espaço, tempo e de limites; você sente-se absolutamente sozinho. Eles dizem: “A guerra acabou! Agora
você está nas mãos da repressão! Não adianta nada!”. Antes do pau de arara [instrumento de tortura]
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E encostam a gente na parede e dizem: “Tirem a roupa”; aí começa uma sensação de total impotência,
é como ir entrando num funil, perdendo seu espaço, seus direitos, sua dignidade. […] Ele [o choque
elétrico] não dói propriamente, mas não se sabe de onde vem; é uma força muito grande, uma sensação
de desespero e de angústia, perde-se a noção do corpo, é como querer acordar de um pesadelo. Um
sufoco que você não localiza de onde vem; é como estar na mão de algo desconhecido, não localizável.
Quando param, vem um alívio e você pensa: “Me reencontrei”; quando volta, vem com intensidade
cada vez maior. Cada vez se quer menos que a dose se repita. As pessoas torturadas, em geral, preferem
qualquer tipo de surra do que choque. O choque é algo incompreensível. […]
Alfredo: Como você via os torturadores, como eles te pareciam?
Ivan: Como animais imprevisíveis; como um cachorro hidrófobo. São totalmente irracionais,
imprevisíveis. Quando minha irmã foi presa, ela os descreveu como um bando de “seres”… sei lá!
Não tenho ódio deles, tenho um profundo desprezo. Eles não representam nada de humano. Deu
para sentir que eles não têm tristezas ou alegrias, por exemplo. […] Estão lá para ganhar dinheiro, é
seu trabalho. Depois vão para casa. Tem uma poesia que diz: “Será a mão que tortura a mesma que
afaga a cabeça de um filho?”. Os torturadores são desequilibrados […].
NETO, Alfredo Naffah. Poder, vida e morte na situação de tortura, esboço de uma fenomenologia do terror.
São Paulo: Hucitec, 1985. p. 92.
1. As afirmações do texto de Zuenir Ventura e o depoimento de uma das vítimas de torturas na
época da repressão militar no Brasil reiteram nossa certeza de que a tortura reduz o indivíduo a
uma condição aquém da humana. Como Ivan diz, a pessoa, nessas circunstâncias, perde a noção
de espaço, de seu corpo, seus direitos, sua dignidade. A tortura desumaniza. Do outro lado dessa
“moeda” estão os torturadores, classificados pelo entrevistado como “animais imprevisíveis”.
Dos dois lados, então, teríamos seres desumanos, mas de maneiras diferentes.
a) O que nos leva à conclusão de que o torturado se desumaniza?
b) O que justifica dizer que o torturador é desumano?
2. Reflita sobre esse assunto e escreva a história de um personagem, real ou fictício, que tenha sido
preso e torturado durante o regime militar brasileiro. A ênfase do texto deve ser dada às reflexões
que ele faz a respeito da desumanidade de tal situação. O título também deve fazer referência
direta à questão da humanidade e da desumanidade.
NA INTERNET
O portal Memórias Reveladas (Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil – 1964-1985),
criado pelo governo brasileiro e implantado pelo Arquivo Nacional, traz inúmeros documentos e
informações sobre a ditadura militar no Brasil entre 1964 e 1985.
Vamos buscar novas informações sobre esse tema pesquisando no portal. Para isso, siga as
instruções do Roteiro de trabalho.
1. Acesse o site <www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br> (acesso em: 4 maio 2013) e, a
partir da página principal, navegue pelas seções oferecidas.
2. Escolha uma ou mais imagens, textos, vídeos ou arquivos de áudio relacionados à história do país
durante o período da ditadura militar.
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3. Em seu caderno, indique o título, o autor e a data do material escolhido, que é uma fonte que pode
nos ajudar a compreender um aspecto relacionado a um determinado período histórico.
4. Redija, em um programa de processamento de textos, um comentário explicando o significado da
fonte escolhida levando em consideração o contexto histórico a que se refere.
5. Crie uma resenha sobre uma fonte escolhida. Seu objetivo é produzir uma resenha para um colega
explicando em que medida essa fonte pode ser relevante para o estudo da ditadura militar no Brasil.
6. Reúna-se com um colega e mostre a ele a sua resenha. Ele também deverá mostrar a você a
resenha que ele escreveu. Após a leitura das resenhas, conversem sobre o texto que cada um de
vocês escreveu, levando em consideração a clareza e a suficiência das informações.
Como fazer uma resenha
A
resenha é um tipo de texto utilizado para informar um leitor ou expectador a respeito de um livro, artigo,
filme, exposição, peça teatral etc. No entanto, seu objetivo não é apenas fornecer dados objetivos sobre a
obra: o autor da resenha realiza também uma apreciação crítica. Assim, ele indica aspectos positivos e nega-
tivos da obra analisada, compara-a com outras obras ou, ainda, analisa seu conteúdo e sua forma.
Ao elaborar uma resenha, é importante considerar a que público ela se destina, para que se faça uma análise
interessante para esse leitor. Deve-se lembrar também que a resenha não é um resumo, ainda que sintetize infor-
mações. Uma orientação prática para a criação de uma resenha é entremear informações contidas na obra com os
comentários críticos sobre ela, ou seja, a opinião do autor da resenha.
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DOCUMENTOS
O portal Memória, Política e Resistência (http://<www.arquivoestado.sp.gov.br/memoria
politica/>) criado pelo Arquivo Histórico do estado de São Paulo reúne toda a documentação
do extinto Departamento Estadual de Ordem e Política Social (DEOPS), que existiu entre 1934
e 1983 e teve importante papel na organização da repressão aos movimentos que lutavam contra
a ditadura militar nos anos 1960 e 1970. Desde 2013, todo acervo de documentos do DEOPS
está disponível para consulta no portal indicado. Leia, a seguir, trecho de boletim interno da
instituição e responda as questões:
Aniversário da Revolução: ordem do dia
A
ssinala o dia de hoje, o oitavo aniversário da Revolução do Brasil, data marcante do desen-
volvimento do nosso país.
Com orgulho e envaidecidos é que comemoramos o marco histórico da emancipação
política e econômica da nossa querida Pátria.
Mirando o Brasil grande de hoje, sentimo-nos jubilosos, por ver que este Gigante foi despertado
no dia 31 de março de 1964.
País grande, de extensão continental, cheio de possibilidades, dadivoso por natureza, estag-
nara-se pela inépcia de alguns de seus filhos, que haviam sido guindados aos mais altos postos
da administração.
O Brasil caminhava dessa forma, a passos largos para o caos. É o que sentíamos em princípio de 1964.
(...) Foi de São Paulo que partiu o primeiro brado de alerta, o primeiro protesto legítimo, consubs-
tanciado na "Marcha da Família com Deus pela Liberdade"
De um País subdesenvolvido, passamos para País de desenvolvimento (...) Somos hoje a grande
potência, admirada e respeitada em todo mundo.
(...) O ritmo acelerado de progresso, instaurado no país a 31 de março de 1964 – foi feito com
esforço conjugado do povo e do governo.
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Nessa conjuntura coube a Polícia de São Paulo, Civil e Militar, na Revolução, a significante missão
de prover tranquilidade e segurança a família paulista, contribuindo, assim para a consecução dos
grandes objetivos alcançados.
Na maioria das vezes anônima, outras incompreendida, mas - permanente e eficaz, teve pela frente
inimigos perigosos insidiosos, covardes que, inspirados por ideologias exóticas, insistiram na perturbação
da ordem e da paz. Contra eles a Polícia paulista não deu e nem dará tréguas, pois tem consciência de sua
nobre missão de escoimar da sociedade os elementos perturbadores, os marginais, aqueles que, não tendo
nada para dar insurgem-se contra tudo e contra todos.
São Paulo, 3l/março/72
Gen. SÉRVULO MOTA LIMA
SECRETARIO DA
SEGURANÇA PUBLICA
<http://www.arquivoestado.
sp.gov.br/upload/Deops/
Boletins/BR_SP_APESP_
DEOPS_SS50Z130
RHP30A.pdf>.
Acesso em 3 jun. 2013.
Página de prontuário de pessoa
presa pelo DEOPS de 13 mar.
1972. Disponível em:
<http://www.arquivoestado.
sp.gov.br/upload/Deops/
Prontuarios/BR_SP_APESP_
DEOPS_SAN_P001617_01.pdf>.
Acesso em 3 jun. 2013.
1. Por que o autor do boletim se refere a uma revolução e não a um golpe de estado?
2. Na visão do general, por que se justificava o golpe?
3. Como o autor do documento via os opositores do governo ditatorial? Como ele os qualifica?
4. Observe o prontuário de uma pessoa indiciada pelo DEOPS. Do que ela foi acusada?
5. Pesquise o que foi a Revista Realidade nesse período. Seria ela de oposição ao governo?
Pesquise também o significado da sigla APML? O que seria?
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THESAURUS
RESPONDA NO CADERNO
VESTIBULANDO
Procedimentos

Para responder a questão 1, é necessário inter-
pretar o texto e buscar a sua relação com as
opções de resposta, levando em conta o contex-
to histórico mencionado.

Ao responder os testes 2 e 3, primeiro verifique
qual das afirmações você tem certeza de que está
correta; em seguida, verifique quais alternativas
contemplam essa afirmação, excluindo as demais.
Caso mais de uma alternativa contemple as que
você selecionou como corretas, volte às afirma-
ções e verifique qual mais pode ainda estar correta.
1. (Enem) O ano de 1968 ficou conhecido pela efer-
vescência social, tal como se pode comprovar
pelo seguinte trecho, retirado de texto sobre pro-
postas preliminares para uma revolução cultural:
É preciso discutir em todos os lugares e com todos.
O dever de ser responsável e pensar politicamente
diz respeito a todos, não é privilégio de uma minoria
de iniciados. Não devemos nos surpreender com o
caos das ideias, pois essa é a condição para a emer-
gência de novas ideias. Os pais do regime devem
compreender que autonomia não é uma palavra vã;
ela supõe a partilha do poder, ou seja, a mudança de
sua natureza. Que ninguém tente rotular o movimen-
to atual; ele não tem etiquetas e não precisa delas.
(Journal de la comune étudiante. Textes et documents. Paris:
Seuil, 1969. Texto adaptado.)
Os movimentos sociais, que marcaram o ano de 1968,
a) foram manifestações desprovidas de cono-
tação política, que tinham o objetivo de
questionar a rigidez dos padrões de compor-
tamento social fundados em valores tradicio-
nais da moral religiosa.
b) restringiram-se às sociedades de países
desenvolvidos, onde a industrialização avan-
çada, a penetração dos meios de comuni-
cação de massa e a alienação cultural que
deles resultava eram mais evidentes.
c) resultaram no fortalecimento do conserva-
dorismo político, social e religioso que pre-
valeceu nos países ocidentais durante as
décadas de 70 e 80.
d) tiveram baixa repercussão no plano político,
apesar de seus fortes desdobramentos nos
planos social e cultural, expressos na mudan-
ça de costumes e na contracultura.
e) inspiraram futuras mobilizações, como o
pacifismo, o ambientalismo, a promoção da
equidade de gêneros e a defesa dos direitos
das minorias.
2. (Fatec-SP) Leia atentamente as afirmações a
seguir sobre a República Militar brasileira.
I. Em dezembro de 1968 foi criado o Ato
Institucional n. 5 (AI-5), que passou a censu-
rar sistematicamente revistas, jornais, rádio e
TV. A censura era realizada por telefonemas e
bilhetes ameaçadores ou através da chamada
“censura prévia”, quando eram instalados,
nos órgãos de imprensa, agentes censores.
II. O Poder Executivo exercido por militares e
aliados civis se outorgou plenos poderes, cas-
sando vários representantes do Legislativo e
interferindo nas decisões do Judiciário.
III. O modelo de desenvolvimento socioeconô-
mico implantado nesse período foi marcado
pela redução dos investimentos governamen-
tais nos setores de infraestrutura econômica,
sobretudo energia, transporte e comunicação.
Dessas afirmações,
a) somente I e III estão corretas.
b) somente I e II estão corretas.
c) somente II e III estão corretas.
d) I, II e III estão corretas.
e) nenhuma está correta.
3. (UFRGS-RS) Leia as afirmativas abaixo sobre o
regime militar no Brasil (1964-1985).
I. Houve relação estreita entre a instauração da
ditadura militar brasileira em 1964 e o proces-
so de militarização na América do Sul, confi-
gurando um período de fechamento político
no Uruguai, na Argentina, no Paraguai e no
Chile, entre outros.
6. Levando em conta o que você já estudou sobre a repressão e o DEOPS, o que poderia significar
estar à disposição da instituição, conforme se afirma no texto?
7. Estabeleça as relações possíveis entre a fala do general do boletim e o registro de prisão presen-
te no prontuário.
8. Pode-se afirmar que a prisão desta pessoa representaria uma forma de violação dos direitos
humanos? Responda sua pergunta recorrendo aos documentos nacionais e internacionais exis-
tentes sobre direitos humanos.
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Alegria, alegria (1967)
Caetano Veloso
Caminhando contra o vento
Sem lenço sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou
O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia?
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não? Por que não?
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço, sem documento
Eu vou
Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil
Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou
VELOSO, Caetano. Alegria, alegria. In: Caetano Veloso (LP). Philips, 1967. Copyright © 1967 by Musiclave Editora Musical Ltda.
Caetano Veloso interpretando
Alegria, alegria no III Festival de
Música Popular Brasileira pro-
movido pela TV Record, em 1967.
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II. Há evidências do apoio, da simpatia, da apro-
vação e da atuação indireta e ostensiva do
governo norte-americano na preparação e
organização do golpe de Estado que depôs o
governo de Jango em 1964.
III. O regime militar extinguiu os partidos políticos
e instituiu duas novas agremiações: a Aliança
Renovadora Nacional – Arena – e o Movimento
Democrático Brasileiro – MDB. Com elas,
tentou legitimar o regime ditatorial com um
bipartidarismo artificial e manter o Congresso
Nacional funcionando sob seu comando.
IV. O governo do general Ernesto Geisel iniciou a
distensão lenta, segura e gradual do regime
político e lançou o II Plano de Desenvolvimento
Econômico, que estimulava e ampliava signifi-
cativamente os investimentos nas empresas
estatais do país.
Quais estão corretas?
a) Apenas IV.
b) Apenas I, II e III.
c) Apenas I, II e IV.
d) Apenas II, III e IV.
e) I, II, III e IV.
4. (Uece-CE) Em 1968, o governo militar do presi-
dente Costa e Silva editou o Ato Institucional n.
5 (AI-5) com o objetivo de combater a subversão,
sob pretexto de defender a “segurança nacio-
nal”. Sobre este mecanismo jurídico do regime
autoritário, é correto afirmar:
a) foi aprovado com apoio total do Congresso
Nacional, já que expressava a convicção geral
de que a luta armada precisava ser derrotada.
b) submetia ao Congresso todas as decisões do
presidente, evitando assim os desmandos que
tinham levado o país ao caos e à ditadura.
c) apesar de ter fechado o Congresso e suspendi-
do o processo eleitoral, tornou a tortura e a per-
seguição aos comunistas crimes inafiançáveis.
d) permitia uma concentração de poder ainda
maior nas mãos do Executivo, favorecendo a
tortura e a ação de grupos paramilitares de
perseguição aos comunistas.
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo amor
Eu vou
Por que não? Por que não?
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Opinião (1964)
Zé Kéti
Podem me prender
Podem me bater
Podem até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro
Eu não saio, não
Se não tem água
Eu furo um poço
Se não tem carne
Eu compro um osso
E ponho na sopa
E deixa andar
Fale de mim quem quiser falar
Aqui eu não pago aluguel
Se eu morrer amanhã, seu doutor
Estou pertinho do céu
LEÃO, Nara. Opinião. In: Opinião de Nara (LP). Philips, 1964.
O bom (1967)
Carlos Imperial
Ele é o bom, é o bom, é o bom
Ah!, Meu carro é vermelho,
[não uso espelho pra me pentear
Botinha sem meia e só na areia eu sei trabalhar
Cabelo na testa, sou o dono da festa, pertenço aos
[dez mais
Se você quiser experimentar sei que vai gostar
Quando eu apareço o comentário é geral, ele é o
[bom, é o bom demais
Ter muitas garotas para mim é normal, eu sou o
[bom, entre os dez mais
Ele é o bom, é o bom, é o bom
ARAÚJO, Eduardo. O bom. In: O Bom (LP). Odeon, 1967.
O bêbado e a equilibrista (1979)
João Bosco e Aldir Blanc
Caía
a tarde feito um viaduto
e um bêbado trajando luto
me lembrou Carlitos.
A lua,
tal qual a dona do bordel,
pedia a cada estrela fria
um brilho de aluguel.
E nuvens,
lá no mata-borrão do céu,
chupavam manchas torturadas
– que sufoco!
Louco,
o bêbado com chapéu-coco
fazia irreverências mil
pra noite do Brasil, meu Brasil
que sonha com a volta do irmão do Henfil,
com tanta gente que partiu
num rabo de foguete.
Chora a nossa pátria, mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses
no solo do Brasil.
Mas sei que uma dor assim pungente
não há de ser inutilmente,
a esperança dança
na corda bamba de sombrinha
e em cada passo dessa linha
pode se machucar.
Azar! A esperança equilibrista
sabe que o show de todo artista
tem que continuar.
BOSCO, João. O bêbado e a equilibrista. João Bosco
ao vivo: 10ª- apresentação (LP). Ariola, 1983.
© ADDAF e Samba Entertainment & Music Ltda.
1. As canções Alegria, alegria, Opinião e O bom foram todas compostas nos anos 1960;
no entanto, relacionam-se com movimentos musicais diferentes e trazem mensagens particu-
lares. Explique essas diferenças e a mensagem de cada uma delas, levando em consideração
o período estudado.
2. A música O bêbado e a equilibrista foi composta em 1979. Como podemos interpretar a letra dessa
canção, considerando a data em que foi feita e o que foi estudado neste capítulo?
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COUTO, José Geraldo. Brasil: anos 60. São Paulo: Ática, 1997.
Por meio da história do personagem Márcio Correia, o livro trata dos antecedentes do golpe militar de 1964 e dos cinco
primeiros anos que seguiram, enfatizando a realidade política e cultural dos anos 1960 no Brasil. O autor mostra tam-
bém que muitos dos personagens da época continuam atuantes em nossa história, em todos os setores da sociedade.
PAIANO, Enor. Tropicalismo: bananas ao vento no coração do Brasil. São Paulo: Scipione, 1996.
Trata do movimento tropicalista, que transformou a cultura e a arte brasileira no campo do cinema, das artes plásticas,
do teatro e da música. Ao mesmo tempo que trouxe uma nova estética, o tropicalismo gerou muita discussão com
grupos conservadores tanto da esquerda como da direita brasileira.
Ação entre amigos. Direção de Beto Brant. Brasil, 1998. (76 min).
Quatro amigos se reúnem para acertar as contas com o homem que os torturou 25 anos antes, durante a
ditadura militar.
Cabra-cega. Direção de Toni Ventura. Brasil, 2005. (107 min).
Retrata o cotidiano dos guerrilheiros que lutavam contra a ditadura militar nos anos 1970. O roteiro foi construído com
base em entrevistas com ex-guerrilheiros.
Lamarca. Direção de Sérgio Rezende. Brasil, 1994. (130 min).
Narrativa dos últimos anos de vida de Lamarca, ex-capitão do Exército que desertou das Forças Armadas na época da
ditadura. Organizando uma forte oposição ao governo, ele se tornou um dos líderes da luta armada, mobilizando guer-
rilhas em vários pontos do território nacional.
O ano em que meus pais saíram de férias. Direção de Cao Hamburguer. Brasil, 2006. (110 min).
Garoto de 12 anos, que adora futebol, tem sua vida mudada quando seus pais começam a ser perseguidos pelo
governo militar.
O que é isso, companheiro? Direção de Bruno Barreto. Brasil, 1997. (105 min).
Inspirado no livro de mesmo nome do escritor e político Fernando Gabeira, o filme narra o sequestro verídico do embai-
xador americano Charles Elbrick, realizado em 1969 por um grupo que queria trocar o embaixador por presos políticos.
Quase dois irmãos. Direção de Lucia Marat. Brasil, 2005. (102 min).
O filme aborda o Brasil dos anos 1970, quando, em uma prisão, ficam evidentes as diferenças raciais no país.
O dia que durou 21 anos. Dir. Camilo Tavares. Brasil. 2012, 77 min.
Discute os bastidores da preparação do golpe de 1964, destacando a participação dos Estados Unidos.
Uma noite em 67. Direção de Renato Terra e Ricardo Calil. Brasil, 2010. (93 min).
O filme mostra as tensões existentes na época da ditadura militar brasileira e o contexto histórico relacionado ao final
do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967.
Zuzu Angel. Direção de Sérgio Rezende. Brasil, 2006. (110 min).
História da estilista Zuzu Angel, que teve seu filho aprisionado e torturado até a morte pelo governo militar.
Acervo da luta contra a ditadura. Disponível em: <www.acervoditadura.rs.gov.br/principal.htm>. Acesso em:
4 maio 2013.
Apresenta cronologia e contextualização geral da ditadura, documentos e músicas relacionadas ao período. Há tam-
bém uma lista de mortos e desaparecidos durante o regime.
Centro de Documentação Eremias Delizoicov/Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos
Políticos. Disponível em: <www.desaparecidospoliticos.org.br>. Acesso em: 4 maio 2013.
Além de uma lista de mortos e desaparecidos durante a ditadura militar, apresenta textos e análises sobre a guerrilha
do Araguaia e o processo de anistia.
História do Brasil por Bóris Fausto – Regime militar. TV Escola. Disponível em: <http//tvescola.mec.gov.br/
index.php?option=com_zoo&view=item&item_id=2267>. Acesso em: 4 maio 2013.
Episódio de uma série de entrevistas com o historiador Bóris Fausto, que discute a ditadura militar brasileira.
PARA LER, ASSISTIR E NAVEGAR
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O cidadão contemporâneo:
um roteiro de estudo
CAPÍTULO 8
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stamos no século XXI. Que questões são próprias do tempo em que vivemos?
O que significa ser cidadão neste século? A maior parte dos seres humanos da
primeira metade do século XX deu pouca importância às questões ambientais;
no entanto, elas são fundamentais para a nossa época. A desigualdade social, que
sempre foi um grande problema, persiste na maior parte dos países. Globalização,
conflitos étnico-religiosos, terrorismo, guerras, tráfico de drogas, desemprego,
uso indiscriminado dos recursos naturais, violência urbana, multiculturalismo e
nacionalismo exacerbado são elementos que precisam ser levados em conta
para compreender o tempo em que vivemos.
Apesar disso, nunca o desenvolvimento tecnológico nos ofereceu tantas
possibilidades de boa qualidade de vida a tão baixo custo. Jamais se avançou
tanto em inúmeras áreas do conhecimento humano quanto na atualidade.
Os computadores vão se tornando, cada vez mais, peças fundamentais
nas residências e empresas, a medicina consegue curar doenças que
antes eram fatais, a expectativa de vida cresce na maioria dos países
e há menos espaço para governos ditatoriais ocuparem o
poder em regiões como a América Latina.
Neste capítulo, iremos refletir a respeito de algumas
questões que se relacionam com nosso presente, sabendo
que, antes de mais nada, nosso objetivo é construir uma
visão crítica da realidade. Isso significa tomar uma posi-
ção diante do que vivemos, tornando possível, assim,
seguir a direção de uma ação concreta.
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Iceberg em processo de derretimento na Groenlândia, 2012. Uma das questões centrais para o ser humano do século XXI é a conser-
vação ambiental. A ação humana nos últimos séculos provocou enorme destruição ambiental e está evidente hoje que o desenvolvi-
mento econômico não pode ocorrer sem que se cuide de seus impactos sobre o planeta. Nesta foto, observamos um possível efeito
do chamado aquecimento global. Muitas geleiras da Antártida estão em processo de derretimento em razão das mudanças climáticas.
Os dias estão mais quentes e também as águas, o que provoca o derretimento de geleiras e a elevação do nível dos mares, que pode
provocar o inundação de regiões inteiras. Estima-se que na década de 2000 as águas da Antártida aqueceram duas vezes mais que
o resto dos oceanos. Um estudo realizado pela WWF, uma organização não governamental (ONG), indica que, se o planeta aquecer
entre 0,5º e 2,0º até 2050, o nível dos mares pode subir em até meio metro. Com isso, mais de cem cidades no mundo correriam o
risco de ser inundadas pelos oceanos. Conforme outra ONG, a dinamarquesa CO + Life A/S, dentre as cidades em risco estão: Roterdã
(Holanda), Tóquio (Japão), Olímpia (Grécia), Recife (Brasil), Veneza (Itália) e Paris (França).
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LINHA DO TEMPO
1989 ¬ Queda do Muro de Berlim. Início do colapso
do socialismo no Leste Europeu. Fernando
Collor de Mello é o primeiro presidente eleito
pelo voto direto após o fim da ditadura militar
no Brasil.
1990 ¬ Collor assume e anuncia o Plano Brasil Novo,
ou Plano Collor, bloqueando por 18 meses os
depósitos bancários feitos no país.
1991 ¬ Guerra do Golfo. Os Estados Unidos atacam
o Iraque: cem mil mortos. A União Soviética
é desfeita, dando origem à Comunidade dos
Estados Independentes (CEI). Criação do
Mercado Comum do Sul, o Mercosul.
1992 ¬ Impeachment do presidente Fernando
Collor de Mello sob acusação de corrupção.
Pedro Collor, irmão do presidente, denuncia
à imprensa irregularidades na campanha
presidencial de 1989. Congresso instala CPI
para averiguar as denúncias. População
sai às ruas pedindo o impeachment do
presidente. Fernando Collor renuncia em 29
de dezembro. O vice, Itamar Franco, assume a
Presidência.
1994 ¬ Fernando Henrique Cardoso é eleito
presidente do Brasil sob a bandeira do Plano
Real, implementado a partir de julho do
mesmo ano.
1995 ¬ Guerra na Iugoslávia.
1997 ¬ Intensificação das privatizações das empresas estatais no Brasil.
1998 ¬ Reeleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência do Brasil.
Assinatura do Protocolo de Quioto com o objetivo de reduzir as emissões
de gases de efeito estufa na atmosfera e evitar o chamado aquecimento global.
Os Estados Unidos, maior emissor, não ratificaram o Protocolo. Até 2008,
179 países haviam assinado o Protocolo, que teve suas metas revisadas em
2001. Para entrar em vigor, foi necessário que 55% dos países que, juntos,
produzem 55% das emissões, ratificassem o Protocolo. Isso ocorreu em 2005,
após a Rússia tê-lo ratificado.
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Um soldado de Berlim Oriental ofe-
rece uma flor através de uma brecha
do Muro, na manhã em que ele caiu.
Tom Stoddart/Getty Images
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Os então presidentes Andres
Rodrigues (Paraguai), Carlos
Menem (Argentina), Fernando
Collor (Brasil) e Luis Alberto
Lacalle (Uruguai), em foto
de 1991, em Brasília, por oca-
sião de reunião dos represen-
tantes dos países-membros
do Mercosul.
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Atentado terrorista contra
trens na estação de Atocha,
em Madri (Espanha), em
março de 2004.
No último dia da Conferência do
Clima, ambientalistas mostram re-
tratos das lideranças políticas que
participavam da conferência e
denunciavam a vergonha de não
conseguirem construir um acor-
do que permitisse a redução das
emissões de carbono na atmosfera.
Copenhague (Dinamarca), 2009.
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2001 ¬ Ataque terrorista nos Estados Unidos. O grupo Al Qaeda, liderado por Osama
bin Laden, é acusado do atentado. Realização do Primeiro Fórum Social Mundial
(FSM) em Porto Alegre (RS).
2002 ¬ A Argentina vive uma de suas piores crises econômicas e políticas; o
presidente Fernando de la Rua renuncia ao cargo e, ao final do ano, cerca da
metade da população vive abaixo da linha de pobreza (renda familiar abaixo de
US$ 200 mensais). Luiz Inácio Lula da Silva é eleito presidente da República no
Brasil com expressiva votação e forte apoio popular. É a primeira vez que um
ex-operário chega à Presidência na história do país.
2003 ¬ Os Estados Unidos declaram nova guerra ao Iraque, derrubam Saddam Hussein
da Presidência e o aprisionam. O Iraque passa a ser governado pelos Estados
Unidos.
2004 ¬ Atentado terrorista na Espanha mata 191 pessoas e fere 1,4 mil ao explodir
vagões de trens. Os Estados Unidos continuam ocupando o Iraque e conflitos
entre os grupos locais e o exército norte-americano causam a morte de muitas
pessoas. Tsunami na Ásia mata cerca de 280 mil pessoas.
2006 ¬ Reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para presidente do Brasil.
2009 ¬ Realização da XV Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP) em
Copenhague (Dinamarca). Nesse evento organizado pela ONU, 192 países se
reuniram para buscar um acordo internacional sobre as mudanças necessárias a
serem implementadas com relação ao clima. Em especial, discutiram-
-se metas de redução de emissão de CO2 na atmosfera para evitar o aumento
ainda maior das temperaturas.
2010 ¬ Dilma Rousseff é eleita presidente da República do Brasil.
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THESAURUS
CONTEXTO
O Brasil democrático
e socialmente desigual
Em 1989, ocorreram no Brasil as primeiras
eleições diretas para a Presidência da República
desde 1960. Ao todo concorreram 25 candida-
tos, sendo vários deles lideranças políticas de
expressão nacional. Ulysses Guimarães foi o can-
didato pelo PMDB, Luiz Inácio Lula da Silva pelo
Partido dos Trabalhadores (PT), Leonel Brizola
pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT),
Fernando Collor de Mello pelo Partido da
Reconstrução Nacional (PRN), Aureliano Chaves
pelo Partido da Frente Liberal (PFL), Paulo Maluf
pelo Partido Democrático Social (PDS) e Mário
Covas pelo Partido da Social Democracia Brasileira
(PSDB), que havia sido fundado em 1988 e reu-
nia várias lideranças dissidentes do Partido do
Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).
Conforme a legislação eleitoral vigente, a eleição
realizou-se em dois turnos. Lula e Fernando Collor
de Mello foram escolhidos pela população para dis-
putar o segundo turno. O primeiro era um conhecido
líder sindical e representante do maior partido de
esquerda do país. Já Collor havia sido governador
de Alagoas e crescera na campanha eleitoral ao
se denominar “caçador de marajás”, utilizando um
marketing agressivo que criou o estilo próprio de
um candidato sempre em luta contra a corrupção.
Na campanha do segundo turno das eleições,
Lula recebeu o apoio formal do PDT e do PCB.
O PDS, PFL e o PL, bem como setores do PSDB
e PMDB, ficaram ao lado de Collor, que foi rece-
bendo cada vez mais apoio de empresários, ban-
queiros e proprietários de empresas de meios de
comunicação, temerosos da vitória de um partido
de esquerda. Collor, em seus discursos, afirmava
defender os “descamisados”, acusando Lula de
ser comunista. Na reta final da campanha do
segundo turno, de acordo com pesquisas de inten-
ção de voto, Lula aproximou-se de Collor, que não
mediu esforços para minar o adversário. A equipe
de campanha de Collor levou ao ar, em seu progra-
ma eleitoral, o depoimento de uma ex-namorada
de Lula, Miriam Cordeiro, que o acusava de ter-lhe
oferecido dinheiro para abortar a filha que espe-
rava dele. Tal episódio repercutiu negativamente
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Lula e Collor no último debate antes do segundo turno das
eleições para presidência, em 15 de dezembro de 1989.
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para Lula, ainda que, pouco depois, fosse desco-
berto que Miriam havia recebido dinheiro do irmão
de Collor para falar contra o candidato do PT.
Fernando Collor acabou eleito no segundo
turno com 35 milhões de votos, em dezembro de
1989, com o apoio da elite econômica do país,
tomando posse em 15 de março de 1990. Lula
recebeu 31 milhões de votos.
Fernando Lattmann-Weltman oferece algumas
indicações para explicar a vitória eleitoral de
Collor em 1989.
Não foi apenas o eficiente aparato de pesquisa e
marketing político que o ajudou. A indefinição das
candidaturas dos grandes partidos, como PMDB
e PFL, abriu espaço ao político. Comprometidas
com o processo de transição, estas legendas de-
moraram para escolher seus candidatos, Ulysses
Guimarães (PMDB) e Aureliano Chaves (PFL), o
que permitiu que Collor se inserisse no vácuo polí-
tico deixado por eles.
A escalada de Collor – que foi ainda beneficiado
com a polarização da campanha pela esquerda
– se converteria em uma poderosa força contra
o fantasma de um governo radical esquerdista.
A expressão “o espectro de Brizula” […] reflete
bem a atmosfera do período.
No início da campanha, a imprensa – interlocutora
das elites e dos intelectuais – ainda não havia es-
colhido candidato próprio. A complicada situação
que o país enfrentava deixou a sociedade tomada
por uma perplexidade geral. Mas a certeza em
torno do programa ideal e a ojeriza em relação a
uma possível vitória da esquerda conduziram as
elites e seus principais interlocutores a apoiar
Fernando Collor de Mello. Os meios de comunica-
ção acabaram fazendo vista grossa para uma série
de indicativos que Collor e seu grupo já forneciam,
ao longo de toda a campanha, do que estava para
vir com sua vitória.
LATTMANN-WELTMAN, Fernando. Como fazer um pre-
sidente. Revista de História da Biblioteca Nacional. Rio de
Janeiro: Biblioteca Nacional, ano 5, n. 50, nov. 2009. p. 63-4.
No novo governo, um dos problemas mais ime-
diatos a se resolver era a alta da inflação, que já
superava 80% ao mês. Ainda em março, com a
ministra da Economia, Fazenda e Planejamento,
Zélia Cardoso de Melo, Collor anunciou o plano
de estabilização econômica Brasil Novo, o Plano
VOCABULÁRIO
Brizula: o termo, formado pela junção dos nomes de
Brizola e Lula, significava a possibilidade de um candi-
dato de esquerda (Leonel Brizola ou Luiz Inácio Lula da
Silva) sair vitorioso nas eleições presidenciais.
Collor, que, além de combater a inflação, preten-
dia reduzir o déficit público. Várias empresas esta-
tais foram extintas, funcionários demitidos, subsí-
dios estatais cortados e alguns impostos sofreram
aumento. A moeda voltou a ser o cruzeiro e um
novo congelamento de preços foi anunciado. Preços
e salários seriam reajustados somente conforme
os índices de inflação prefixados pelo governo.
Decidiu-se também pela redução da participação
do Estado na economia e pela abertura para o mer-
cado exterior, com a redução gradual de impostos
de importação. Outra medida que provocou grande
impacto foi o bloqueio dos saldos de caderneta de
poupança, contas correntes e aplicações financei-
ras, limitando os saques a 50 mil cruzeiros. O saldo
excedente seria devolvido ao final de 18 meses.
As medidas de Collor iam ao encontro da
orientação de técnicos norte-americanos e orga-
nismos internacionais como o Fundo Monetário
Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Seguindo o
que se denominou política neoliberal, Collor tra-
tou de liberalizar a economia, permitir a entrada
de capitais de risco e buscar a estabilidade mone-
tária. Essa seria a condição para que houvesse a
ajuda financeira internacional.
Menos de três meses após a implementação do
plano econômico, a inflação voltou a subir depois da
liberação dos preços. Além disso, vivia-se um perío-
do de recessão econômica e crescimento do desem-
prego. Ao final de 1990, a inflação já atingia a marca
de 20% ao mês. Em 1991, o presidente da República
divulgou um novo plano econômico, o Plano Collor
II. Contudo, mais uma vez não conseguiu conter a
inflação. Em 1991, substituiu Zélia Cardoso de Melo
por Marcílio Marques Moreira à frente do ministério.
O novo ministro tinha bom trânsito na comunidade
internacional e iniciou uma política de controle da
economia sem congelamento de preços, com a ado-
ção de altas taxas de juros e maior abertura para o
capital estrangeiro. Mesmo assim, em fins de 1991 a
inflação ainda superava 20% ao mês.
Em 1992, surgiram denúncias de atos de impro-
bidade administrativa. Primeiro Collor foi acusado
de contratar a agência de publicidade que par-
ticipou de sua campanha sem licitação pública,
depois uma empresa teria se beneficiado com
empréstimos do Banco do Brasil em condições
não permitidas. Em 1991, sua esposa, Rosane
Collor, foi acusada de fazer compras superfa-
turadas de cestas básicas ao presidir a Legião
Brasileira de Assistência (LBA). No início de
1992, o irmão do presidente, Pedro Collor, acusou
publicamente Paulo César Farias (também conhe-
cido como PC Farias), tesoureiro da campanha
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de Collor, de se aproveitar da amizade com o pre-
sidente para enriquecer. Segundo Pedro Collor,
PC comandaria um esquema de corrupção no
qual o presidente estaria envolvido. Essas denún-
cias levaram à instalação de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso
para investigar e apurar as acusações.
Em meados de 1992, a sociedade civil se orga-
nizou, tendo forte apoio de parte da imprensa e de
emissoras de televisão, para exigir o impeachment
de Collor. Nesse movimento, ressurgiu a União
Nacional dos Estudantes (UNE) como liderança
política. Muitos jovens saíram às ruas em defesa
do impeachment; participaram de passeatas e
comícios com o rosto pintado com as cores da
bandeira nacional, recebendo o apelido de caras-
-pintadas. Depois de milhares de pessoas terem
participado de passeatas em várias cidades bra-
sileiras, Barbosa Lima Sobrinho, presidente da
Associação Brasileira de Imprensa (ABI),
apresentou o pedido de impeachment de Collor,
levando em consideração o que fora apurado. Um
dos principais motivos que justificaram o pedido
foram as muitas despesas de Collor pagas por PC
Farias com recursos do tráfico de influências no
governo. Em 29 de setembro de 1992, a Câmara
aprovou em votação a admissibilidade do pro-
cesso de impeachment. Em 2 de outubro, Collor
foi afastado e substituído pelo vice-presidente
Itamar Franco. Em 29 de dezembro, foi reali-
zado o julgamento no Senado; prevendo a derrota,
Collor renunciou ao cargo para evitar que o pro-
cesso chegasse a seu termo. Entretanto, o Senado
deu continuidade ao processo, condenando-
-o à inelegibilidade por oito anos.
Assumindo definitivamente a Presidência, o
até então vice-presidente Itamar Franco promo-
veu uma reforma ministerial e tomou medidas
de controle da inflação. Em maio de 1993, indi-
cou Fernando Henrique Cardoso (FHC), líder
do PSDB, para ocupar o posto de ministro da
Fazenda. Em junho desse ano, a inflação ultra-
passou os 30% ao mês. Em vez de choques na
economia, o ministro, assessorado por uma equi-
pe de economistas, defendeu que, para controlar
a inflação, seria necessário reduzir o déficit do
Estado. Dessa forma seria necessário cortar
gastos públicos, privatizar empresas estatais,
enfim, reformar o próprio Estado. Foram anuncia-
dos cortes de gastos em vários ministérios e nos
investimentos sociais.
Apenas em dezembro o ministro Fernando
Henrique Cardoso anunciou o plano de estabili-
zação do governo, que tinha como pressuposto
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Paulo César Farias chega à Polícia Federal em Brasília, em de-
zembro de 1993, depois de ter ficado foragido. Em 1996, ele foi
assassinado em sua casa de praia em Alagoas. O crime nunca
foi totalmente esclarecido.
Manifestação em São Paulo pelo impeachment do presidente
Collor, em agosto de 1992.
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o corte de despesas públicas, a criação de uma
nova moeda, o real, e a utilização da Unidade
Real de Valor (URV) como único indexador da
economia. Seria criado também o Fundo Social
de Emergência, que permitiria desvincular tri-
butos da destinação prevista na Constituição.
O governo poderia, assim, dispor de recursos com
autonomia para honrar as despesas do Estado.
Em março de 1994, após a inflação ter chegado
a 40% no mês de janeiro, a URV entrou em vigor e
os preços tiveram grande elevação. Os partidos de
oposição e as centrais sindicais acusaram o gover-
no de promover um grande arrocho salarial, uma
vez que os reajustes dos salários seriam realizados
pela média dos quatro meses anteriores e os pre-
ços pelo valor máximo atingido. Em abril de 1994,
Fernando Henrique Cardoso deixou o Ministério da
Fazenda para lançar sua candidatura à Presidência
da República. Seu principal concorrente era Luiz
Inácio Lula da Silva, que aparecia em vantagem
nas pesquisas de intenção de voto.
Os governos de FHC, Lula
e Dilma Rousseff
Esse processo de implementação de uma nova
política econômica, que ficou conhecida como
Plano Real, seria complementado com a criação
de uma nova moeda, o real, que seria lançada em
julho de 1994. Ao ser lançado, o real foi equiparado
ao dólar, chegando mesmo a ficar mais valorizado
que a moeda norte-americana. A inflação caiu
rapidamente. O sucesso no controle da inflação
fez a candidatura de Fernando Henrique Cardoso
disparar. Nas eleições de 3 de outubro, ele venceu
as eleições presidenciais ainda no primeiro turno,
recebendo 54% dos votos.
Em seu primeiro governo, de 1995 a 1998, FHC
procurou dar continuidade ao processo de refor-
mas estruturais com a finalidade de evitar a volta
da inflação e conferir estabilidade econômica ao
país. Enviou projetos ao Congresso, propondo o
fim do monopólio do petróleo e das comunicações.
Em seguida, propôs a privatização dos Correios e
do setor elétrico. Os servidores públicos e parte
da sociedade civil protestaram. Apesar disso,
FHC conseguiu aprovar no Congresso os projetos
que eliminavam restrições ao capital estrangeiro
e quebravam o monopólio estatal das teleco-
municações. Em 1995, foi proposta a Reforma
da Previdência, que sofreu muita resistência no
Congresso. Contudo, após mais de dois anos de
discussão, algumas mudanças foram aprovadas.
Mas isso não resolveu o problema do enorme
déficit nas contas públicas gerado pelo sistema
previdenciário. Em 1997, o presidente conseguiu
aprovar o fim do monopólio sobre o refino e a
exploração do petróleo. No ano seguinte, várias
empresas de telecomunicação foram privatizadas.
Ainda em 1997, Fernando Henrique Cardoso
conseguiu que fosse aprovada a emenda da ree-
leição no Congresso, tornando possível sua candi-
datura para mais um mandato em 1998.
Mais uma vez o candidato de oposição a
Fernando Henrique Cardoso foi Luiz Inácio Lula
da Silva. Na campanha eleitoral, a exemplo do que
fez na anterior, Fernando Henrique apelou para a
necessidade de manter o controle da inflação a
partir do Plano Real. Afirmava que, caso não fosse
eleito, a inflação poderia voltar. A oposição, por sua
vez, denunciava o grande arrocho salarial provoca-
do pelo Plano Real e o endividamento