You are on page 1of 3

A CONSCIÊNCIA DA HISTÓRIA – UMA RETROVERSÃO DO MATERIALISMO HISTÓRICO1

POR CLÁUDIO BUENO

O livro do sociólogo e filósofo Nildo Viana, A Consciência da História – Ensaios Sobre o Materialismo Histórico-Dialético, com diz o título, trata da concepção materialista da história. A primeira idéia que temos ao ver um livro sobre este tema é que se trata de mais daquelas simplificações que se vê na fórmulas do tipo – a infra-estrutura que determina a superestrutura –, mas não é este o caso, como veremos a seguir. Podemos dizer que o autor segue a linha do marxismo ocidental dos anos 20, tal como se vê nas obras de Karl Korsch (Marxismo e Filosofia) e de Georg Lukács (História e Consciência de Classe) tanto na forma quanto no conteúdo. Na forma, pois, como se vê no subtítulo, trata-se de ensaios, tal como fizeram Korsch e Lukács; no conteúdo, pois aqui se vê um rompimento radical e uma denúncia implacável dos deformadores do marxismo (Lênin, Stálin, Gramsci, Althusser, etc.), tanto os de orientação socialdemocrata (reformistas) quanto os de orientação bolchevista ou leninista (jacobinos que querem conquistar o poder do estado). Sem dúvida, neste último ponto há uma discordância com Lukács, mas não com Korsch.

Neste sentido, podemos dizer que para Nildo Viana o marxismo foi deformado e por isso é preciso retomar o verdadeiro caráter do marxismo. Sem dúvida, A Consciência da História já é uma tentativa neste sentido de voltar ao conteúdo original do marxismo, sendo, portanto, uma retroversão do marxismo.

Como o autor faz isto? Em um conjunto de ensaios, ele aborda questões clássicas do marxismo (a relação entre ser e consciência, a relação entre materialismo histórico e materialismo dialético, o caráter materialista da dialética, etc.) apresentando uma visão que se fundamenta principalmente nas obras de Marx e Korsch. Aborda temas
1

Resenha do livro: Viana, Nildo. A Consciência da História. Goiânia, Edições Combate, 1997. Artigo publicado no CMI – Centro de Mídia Independente e republicado em http://cafehistoria.ning.com/group/nildovianaeahistoriografia/forum/topics/1980410:Topic:64173?com mentId=1980410%3AComment%3A64785&groupId=1980410%3AGroup%3A63525 de onde foi extraído.

colocados pelo – marxismo ocidental – de Korsch e Lukács (crítica à ciência e ao positivismo, rompimento com toda abstração metafísica, a questão da totalidade, etc.) e também novas questões postas pelo mundo contemporâneo (determinismo, relativismo, o lugar do conceito, pós-modernidade, etc.); tudo isto partindo de um ponto de vista ao mesmo tempo crítico e renovador.

O autor compreende o marxismo como sendo “expressão teórica do movimento operário”, tal como havia sido colocado por Karl Korsch, e este é o fio condutor do texto. Ele realiza todo um processo de trabalhar na consciência os conceitos do materialismo histórico. Tanto é verdade que sua definição de modo de produção se distingue radicalmente do que vemos nos diversos manuais sobre marxismo ou materialismo histórico. Para Nildo Viana, modo de produção não é a “base econômica” da sociedade composta pelas forças produtivas e pelas relações de produção e sim ?um modo de relação e luta entre as classes sociais? (p. 64).

Neste contexto, há a recusa de qualquer determinismo, seja “econômico” ou “tecnológico”. O autor também questiona o que se chama de “superestrutura”, recolocando as questões postas por Althusser e Gramsci, mas dando-lhes uma resposta diferente. A distinção entre infra-estrutura e superestrutura é, como colocou Althusser, apenas uma metáfora que se refere ao conceito de modo de produção e, segundo a proposta inovadora de Nildo Viana, formas de regularização das relações sociais. A reificação da idéia de superestrutura (tomando-a como se fosse uma realidade e não uma metáfora) ofusca a compreensão de seu caráter e sua complexidade.

Por fim, Nildo Viana, no bojo de sua crítica à ciência e à pós-modernidade, aprofunda de forma original questões muito pouco discutidas no interior do marxismo, tal como se vê nos ensaios A Dialética do Conceito e o Método Dialético e o Estudo do Particular. O primeiro retoma a definição de Marx a respeito do conceito (que é, para ele, uma “expressão da realidade”) e o distingue de construtos e noções e o segundo coloca em evidência como o método dialético estuda um aspecto particular da totalidade em contraposição aos que buscam autonomizar os “fragmentos” ou o “fragmentário” (pósmodernos), realizando uma separação anti-dialética entre o todo e as partes.

Enfim, trata-se de um texto complexo, tanto pelo conteúdo quanto pela variedade de temas abordados. Os habituados com o “marxismo dos manuais” ou com a ortodoxia leninista certamente sentirão um estranhamento em relação ao texto. De qualquer forma, concorde-se ou não com o seu conteúdo, basta um pouco de percepção para reconhecer o seu valor intrínseco caracterizado pela ousadia, tão ausente nos meios intelectuais em nosso país, onde o costume é repetir os autores estrangeiros.
Revista Formação, Ano 1, número 02, Novembro de 2009.