A MÃO DA CRIAÇÃO 09-12-2007 + Marcelo Gleiser Marcelo Gleiser, é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor

do livro "A Harmonia do Mundo" “Nos animais e plantas todos os aminoácidos são canhotos” Eu sei que o título dessa coluna é meio apelativo. Peço desculpas. Mas agora que tenho sua atenção, explico do que se trata. A vida, feito as suas mãos, pode ser destra ou canhota. Quer dizer, não a vida em si, mas as moléculas que compõem os seres vivos. Que existem preferências já sabemos, mesmo ao nível macroscópico. Por exemplo, cerca de 15% da população é canhota; a maioria dos moluscos que tem uma concha espiralada tem, também um sentido prioritário de rotação (algo que vale a pena confirmar). O mistério dessa chamada "quiralidade" é que, no laboratório, quando os aminoácidos e os açúcares que compõem as proteínas e DNA dos seres vivos são sintetizados artificialmente, moléculas com orientação destra e canhota aparecem na mesma proporção, 50% de cada. Nos animais e plantas todos os aminoácidos são canhotos e todos os açúcares são destros. Por que essa assimetria fundamental? Será que ela é determinante para a vida? Será que, se seres vivos forem achados em outros planetas deste e de outros sistemas estelares, terão a mesma assimetria? Quando cientistas se deparam com esse tipo de desequilíbrio no mundo natural, procuram logo por uma explicação lógica. Dizer que isso é uma coincidência, mesmo que uma possibilidade viável, não é muito interessante. Além do mais, só podemos afirmar que algo é uma coincidência após eliminarmos todas as outras possibilidades, o que não é nada fácil. Melhor é imaginar que existe algum mecanismo, alguma força que seleciona a orientação espacial das moléculas. A hipótese mais conhecida usa uma assimetria da física de partículas, ligada ao decaimento radioativo: das quatro forças

fundamentais da natureza, a gravitacional, a eletromagnética e as forças nucleares forte e fraca, apenas a última exibe uma assimetria entre as orientações espaciais. Portanto, nada mais natural do que tentar usar essa assimetria como explicação. Se estiver correta, o efeito seria o mesmo por todo o Universo. O problema é que a força fraca atua a distâncias subnucleares, isto é, dentro do núcleo atômico. É difícil imaginar que ela possa ter algum papel em escalas moleculares, que são muito maiores. Fora isso, o efeito é muito muito pequeno, e pode ser corrompido por outros maiores. Esse colunista provou recentemente que essa explicação é inviável. Temos que procurar por um outro caminho, então. Outra idéia é que luz ultravioleta e outros tipos de radiação podem influenciar a orientação espacial das moléculas. De fato, esse efeito foi demonstrado no laboratório com vários tipos de radiação. Mas como usar essa idéia na vida primitiva, ou mesmo antes da vida, em eras "pré-bióticas"? Se a nuvem rica em hidrogênio que gerou o sistema solar há pouco menos de cinco bilhões de anos tiver passado por uma região no espaço rica nesses tipos de radiação, o efeito pode ser ativado. Especula-se que, talvez, a nuvem tenha passado perto de uma estrela de nêutrons, que pôde irradiá-la, ou numa região onde estrelas nascem, também rica em radiação. O problema, aqui, é encontrar essas estrelas e identificar a radiação correta; fora isso, ela tem que sobreviver durante muito tempo para ser efetiva, algo que não é fácil. De qualquer forma, foram encontrados vestígios de aminoácidos com orientação como a dos da Terra em meteoritos provenientes dos confins do Sistema Solar. Será que fomos todos irradiados e a orientação molecular da vida na Terra veio do espaço? Ainda não sabemos. Eu tenho minha própria teoria, mas hoje não sobrou espaço para explicá-la. Fica para a próxima! MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo" Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0912200703.htm -----------------------------------------

Informações complementares:

ESPAÇO Nave Stardust tenta pouso no deserto dos EUA com amostras do Wild-2 e de poeira interestelar, após viajar seis anos Sonda retorna amanhã com pó de cometa REINALDO JOSÉ LOPES DA REPORTAGEM LOCAL Carregar a poeira de estrelas e cometas ao longo de alguns bilhões de quilômetros e seis anos já parece um feito heróico, mas a jornada da sonda Stardust deve ser considerada um fracasso se o último estágio -um simples pouso de pára-quedas no deserto americano- não der certo na madrugada de hoje para amanhã, às 2h (horário de Brasília). O sucesso, se vier, promete trazer aos cientistas dados preciosos sobre a origem do Sistema Solar. A Nasa está escaldada por um fracasso recente: a Genesis, outra nave não-tripulada que conseguira coletar partículas do vento solar, se esborrachou contra o solo em setembro de 2004 porque seus pára-quedas não abriram. Segundo o cientista-chefe da Stardust, a lição da mancada foi aprendida. "Na Genesis, os "g switches" [pequenos sensores que detectam a desaceleração da reentrada na atmosfera e coordenam a abertura dos pára-quedas] foram colocados virados para o lado errado, mas os nossos estão no lugar certo e foram testados antes do lançamento. Estamos confiantes de que não haverá um problema com eles", disse à Folha Donald Brownlee, astrônomo da Universidade de Washington. A Stardust, lançada para o espaço em 1999, precisou de vários empurrões gravitacionais da Terra para cumprir suas três coletas: duas de poeira interestelar e uma de refugos do cometa Wild-2. A aventureira robótica passou por momentos difíceis, como em novembro de 2000 -uma tempestade solar quase fritou as câmeras da nave, desorientou-a e a fez perder temporariamente a conexão com o centro de comando na Terra.

O importante, porém, é que o coletor de amostras da nave, que parece uma raquete de tênis, recolheu centenas de partículas de origem estelar e milhares de natureza cometária. "Temos certeza de que elas estão lá, já que os detectores de poeira a bordo mediram seu impacto", diz Brownlee. Uma substância extremamente leve e porosa, o chamado aerogel, recobre o coletor e ajudou a "fisgar" as partículas, todas muito mais finas que um grão de areia. Apesar das proezas da Stardust, só a cápsula com as amostras terá a honra de voltar para o planeta onde foi fabricada. O resto da sonda será colocado pelos computadores de bordo em órbita perpétua ao redor do Sol (aliás, mais ou menos como a do cometa que perseguiu). Cerca de 150 cientistas no mundo todo vão dividir a honra de examinar as amostras. As promessas da pesquisa são muitas. Tudo indica que o material do cometa seja uma relíquia da era em que o Sistema Solar estava se formando. A matéria-prima dos planetas -e da vida que existe em um deles- estaria em estado quase virginal. "Estamos muito interessados na forma e na abundância do carbono nesses corpos", conta Brownlee. O carbono é o elemento crucial para a vida, o que daria pistas sobre seu surgimento na própria Terra. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1401200601.htm -----------------------------------Livros recomendados::mg “O fim da Terra e do Céu”, O apocalipse na Ciência e na Religião, Marcelo Gleiser, 336 páginas, Editora Companhia das Letras, Rio de Janeiro, 2002. www.companhiadasletrinhas.com.br/ “Leite: Alimento ou Veneno?” do pesquisador e cientista Robert Cohen, Editora Ground, São Paulo, 2005. "Atividade Física e Envelhecimento Saudável", Dr. Wilson Jacob Filho, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas (SP), Editora Atheneu.