ENTRE A RAZÃO E O PRAGMATISMO 08-07-2007 + Marcelo Gleiser Entre a razão e o pragmatismo A representação de um círculo é inevitavelmente imperfeita E m uma coluna

no mês passado, abordei as idéias de Empédocles, um dos grandes filósofos pré-Socráticos, o grupo de pensadores que plantou as sementes da grande tradição intelectual do Ocidente. Hoje, gostaria de continuar essa exploração dos fundamentos do pensamento científico, tratando de dois dos maiores filósofos de todos os tempos, Platão e Aristóteles. Platão, provavelmente pupilo de Sócrates, viveu entre 427 a.C e 347 a.C. Em 380 a.C., fundou a famosa Academia de Atenas, que pode ser considerada a primeira instituição de ensino superior da história. Para Platão, influenciado pelo pensador pré-Socrático Parmênides, a realidade, quando apropriada apenas através dos sentidos, era ilusória. Sua verdadeira essência encontra-se no mundo das idéias, povoado pelas formas. Essas formas eram representações eternas das estruturas que dão fundamento ao verdadeiro conhecimento. Por exemplo, um círculo é apenas perfeito enquanto idéia. Sua representação num papel, portanto, será necessariamente imperfeita. Para Platão, o Demiurgo, a inteligência criadora do cosmo, usou as formas como arcabouço da realidade. Sua filosofia era, portanto, necessariamente abstrata. Ao propor aos seus pupilos que estudassem os céus, Platão lançou um desafio: que todos os movimentos dos astros celestes, criados pelo Demiurgo, fossem explicados em termos de círculos e suas inter-relações. Esse desafio inspirou a astronomia por dois milênios. A filosofia de Platão reverenciava a geometria e a razão acima da percepção sensorial das coisas. Seu pupilo mais famoso, Aristóteles, discordava. Considerado por muitos o filósofo mais influente da história, ele era um pragmático, que acreditava no poder da lógica e do bom senso para construir uma explicação da realidade conforme captada pelos

sentidos. Como resposta às abstrações ensinadas na Academia, Aristóteles fundou, em 335 a.C., o Liceu. Enquanto a Academia era dedicada à Atena, deusa da sabedoria, o Liceu era dedicado a Apolo, deus das curas e da luz, da música e da verdade. Para Aristóteles, a realidade era dividida em duas partes. Seu cosmo era como uma cebola, com a Terra fixa no centro, e a Lua, o Sol, os planetas e as estrelas girando à sua volta em movimentos circulares, carregados por esferas cristalinas concêntricas. Da Lua para baixo, as coisas eram compostas pelos quatro elementos -terra, água, ar e fogo- em combinações que podiam mudar. Da Lua para cima, tudo era composto de éter, uma substância eterna e imutável. A explicação de Aristóteles para a gravidade ilustra bem sua filosofia pragmática: as coisas caem pois querem voltar ao seu lugar de origem. Uma pedra, se largada de uma certa altura, cai verticalmente. Já o fogo sobe, pois quer ocupar as partes superiores da atmosfera. Para Aristóteles, os movimentos dos corpos celestes eram impostos no cosmo de fora para dentro: a esfera mais externa era a morada da sua versão de Demiurgo, o "Que Move Sem Ser Movido", responsável pelo movimento inicial que propagava-se através do cosmo como as engrenagens de um relógio. Com isso, Aristóteles oferecia uma solução pragmática para o problema da Primeira Causa: como surgiu o mundo e seus movimentos. A noção de uma divindade imortal externa ao universo seria apropriada pela Igreja. Na Idade Média, a aliança entre Aristóteles e a teologia cristã criou uma visão de mundo onde o homem era o centro do cosmo e senhor da Natureza -visão que, infelizmente, persiste até hoje. Está mais do que na hora de nos livrarmos dela. MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo" http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0807200701.htm