ENXERGANDO MENTIRAS 19-08-2007 + Marcelo Gleiser Enxergando mentiras Quando se trata da mente humana, não existe uma fórmula

perfeita para detectar fraudes MARCELO GLEISER, é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo" Detectar mentiras não é nada fácil. Há pessoas capazes de mentir com tanta tranqüilidade que é essencialmente impossível saber se elas dizem a verdade ou não. Não é à toa que o sistema legal criou o júri; a esperança é que enganar a muitos seja mais difícil do que a um só. Só para garantir, nos EUA ainda se faz um juramento no início, no qual o acusado e as testemunhas juram, com a mão sobre a Bíblia, dizer "a verdade e nada mais do que a verdade". Até parece que os poderes de punição divina surtem o mesmo efeito hoje que surtiam, digamos, há 200 anos. Qual mentiroso tem medo do diabo? Num julgamento em que o acusado se proclama inocente, alguém não está dizendo a verdade. Ou o réu mente ou o promotor cria um caso baseado em provas insuficientes. Como decidir? O sistema judicial funciona, bem ou mal, há séculos. Sem dúvida, muitos inocentes foram condenados e muitos culpados foram absolvidos. Quando se trata da mente humana, não existe uma fórmula perfeita. Detectores de mentiras, máquinas sensíveis a certos sinais metabólicos ligados ao estresse, como o suor ou o fluxo sangüíneo, funcionam, segundo os que defendem o seu uso, com 90% de eficiência. Ou seja, uma a cada dez pessoas pode ter sua vida arruinada pelo teste. Durante a última década, novas tecnologias vêm sendo desenvolvidas para pegar os mentirosos no flagra. Duas delas, análise de estresse na voz e imagem térmica do rosto, têm

resultados relativamente promissores. Mas a mais espetacular é a fMRI, sigla em inglês para Imageamento por Ressonância Magnética Funcional. Diferentemente das outras técnicas usadas até agora, que buscam sinais externos, a fMRI vê a mente internamente, captando em imagens dinâmicas as áreas do cérebro que mostram maior atividade. Para que os neurônios em uma determinada região do cérebro funcionem, o sistema vascular cerebral proporciona um aumento da circulação sangüínea naquele local. O aumento da quantidade de sangue oxigenado em uma região do cérebro indica atividade. Devido ao ferro, o sangue oxigenado tem propriedades magnéticas diferentes sendo, portanto, passível de detecção. A fMRI é um detector de atividade magnética no cérebro, acusando as regiões com maior oxigenação. Ela vê, através de uma seqüência de imagens, a mente em funcionamento. Por trás do uso da técnica está a suposição de que mentir é mais difícil do que dizer a verdade. Esse maior esforço cognitivo é acusado na fMRI por um aumento de oxigenação em determinadas áreas do cérebro. O interessante é que, um estudo conduzido por Daniel Langleben, da Universidade da Pensilvânia (EUA), determinou onde o cérebro processa as mentiras. O teste pedia que pessoas fizessem três declarações verdadeiras e três falsas. Quando as declarações eram falsas, havia um aumento significativo de atividade em três áreas distintas do córtex cerebral, a área ligada à cognição. A indústria da detecção de mentiras cresce rapidamente. Nos EUA, uma companhia recebe dezenas de clientes por semana; homens acusados de abuso sexual de seus filhos, mulheres querendo provar sua inocência aos seus maridos e namorados ciumentos, até governos da China e de países da África querendo pegar dissidentes. Existem ainda sérias dúvidas com relação ao uso da fMRI para detectar mentiras. O teste está longe de ser 100% eficiente. As implicações éticas são enormes. Mas, se superadas essas dificuldades, os mentirosos que se cuidem. Seus dias estão contados. MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo" Fonte:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1908200702.htm