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Prescrições de gênero via autoajuda científica.

Gilmar de Sousa Figueiredo

As prescrições de gênero via autoajuda científica se inserem em um contexto
sociocultural, em que os objetos “híbridos” de natureza e cultura, como assim
denomina Latour e os “ciborgues”, no entender de Haraway, ocupam uma posição
central. Constituem-se como verdadeiras práticas de “biopoder” do mundo
contemporâneo.
O velho paradigma cartesiano, com sua rígida demarcação entre natureza e
cultura e entre corpo e mente, já não se mostra mais suficiente para explicar a
complexidade do humano. Isto é especialmente evidente quando se fala das questões de
gênero e da dicotomia homem/mulher, masculino/feminino. Neste mundo em
transformação é cada vez mais perceptível como as fronteiras entre natureza e cultura
estão se tornando mais flexíveis, fluidas e permeáveis.
Na literatura especializada em autoajuda científica, as diferenças de gênero são
explicadas a partir da química cerebral, das cores das neuro imagens, ou seja o
comportamento de homens e mulheres passa a ser determinado, não a partir de
construções sociais, mas a partir dos hormônios masculinos e femininos. Tudo isto com
a rubrica do saber-poder biomédico baseado na reputação de profissionais de
excelência, cientistas de renome, instituições inquestionáveis. A verdade científica
baseada em evidências descarta Freud e a Psicanálise, assim como todas as ciências
humanas.
As inovações científicas da biotecnologia trazem sempre as últimas descobertas
que podem ser aplicadas em nossa vida cotidiana para ter um corpo saudável, aprender
mais, melhorar nosso desempenho sexual e esportivo, parecer mais bonito e atraente,
ficar mais calmo e longe da tristeza, manter o foco no trabalho, produzir mais, ganhar
mais dinheiro, consumir mais e ter mais prazer. A solução para todos os nossos
problemas, bem na palma de nossas mãos, em pílulas de felicidade de um “admirável
mundo novo”. A indústria farmacêutica, com certeza, um dos pilares por trás desta “co-
produção” entre ciência, tecnologia, medicina, mercado editorial, jornalismo, mídias em
geral.
Neste cenário, a literatura de autoajuda científica traz os manuais com as devidas
prescrições para lidar com as diferenças de gênero a partir da neuroendocrinologia e da
neuropsiquiatria. Uma enorme pretensão de um ramo do saber biomédico especializado,
que desconhece, apaga e desqualifica toda uma gama de complexos fenômenos
abordados como objetos por outros saberes. Afinal, agora o universo das relações de
gênero pode ser explicado com os detalhes da biologia molecular. Passamos de um
sujeito do inconsciente, a um “sujeito cerebral”, o que pelo menos por outro lado, nos
liberta do emaranhado “complexo de édipo” e priva-nos de angústias de castração. Ao
invés de “inveja de pênis”, talvez a inveja do “cérebro feminino”.
De forma reincidente as diferenças de gênero são evidenciáveis a partir do
enraizamento na biologia. A essencialização da diferença sexual é “substancializada” na
materialidade dos hormônios, que ganham vida e potência para dirigir e determinar a
vida de homens e mulheres.
A Psiquiatria é capaz de entender e explicar exatamente como o cérebro das
mulheres funcionam, através de sua arquitetura peculiar e da atuação dos hormônios
femininos sobre os neurotransmissores. Uma libertação dos divãs e do movimento
feminista.
As substâncias hormonais e sua possível modulação pela intervenção médica são
capazes não só de moldar o comportamento, mas também valores, desejos e prioridades.
Profissionais tomam como missão educar médicos, psicólogos, profissionais de saúde
em geral, a ajudar as mulheres a utilizar através do manual o seu sistema “cérebro-
corpo-comportamento”. È a morte das ciências humanas. A mente acaba de ser
resumida em uma sopa de neurotransmissores.