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Gazeta do Sul

ESPECIAL
SÁBADO E DOMINGO
1º e 2 de novembro de 2014
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O
que você leu ou viu cir-
culando pelas redes sociais,
nas últimas sema-
nas, não é uma de-
monstração de que estamos
mais politizados. Pelo con-
trário: revela uma postura in-
tolerante e mostra que a políti-
ca está longe de protagonizar as rodas
de conversa em períodos distantes das
eleições, especialmente entre os usu-
ários das redes. Em toda a campanha,
mas com mais intensidade no segun-
do turno, muita gente saiu em defesa
de um ou outro candidato e pu-
blicou o seu apoio nas redes.
O problema é que o debate
esquentou e se encaminhou
para a baixaria.
O apogeu foi no domin-
go passado, após o resultado do
segundo turno. “A reação emocional
no resultado da eleição é muito mais
uma relação de torcedor do que de um
apoiador consciente”, avalia o profes-
sor do Departamento de Ciência Po-
lítica da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (Ufrgs), Rodrigo Stum-
pf González. Para o cientista político,
a agressividade das postagens, identi-
ficadas principalmente no Facebook,
mostra que as pessoas não estão acos-
tumadas a discutir política em seu co-
tidiano. “As pessoas passam a vida
discutindo outra coisa: futebol, nove-
la... menos política”, diz.
No caso dos gaúchos, uma compa-
ração entre política e Gre-Nal dá pis-
tas sobre o fervor das redes. Para o psi-
canalista Mário Corso, a paixão inten-
sa, aliada à inexistência de argumen-
D
e uma hora para a outra, pessoas que aparentemente nunca tiveram
engajamento político, o que inclui a não participação em conselhos
e entidades, passaram a atacar pessoas com pensamento oposto ao
seu nas redes sociais. O que, afinal, motivou esse comportamento
agressivo? Segundo o psicanalista Mário Corso, um dos fatores que facilita-
ram a intensidade das agressões foi o fato de, nas redes, o contato não acon-
tecer frente a frente. “A falta de olhar do outro exacerba a agressividade. As
pessoas não dizem ao vivo o que dizem na internet”, explica.
O professor de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social (Fame-
cos) da Pontifícia Universidade Católica do RS (PUCRS), Marcelo Träsel,
indica que a própria interface das redes como Facebook e Twitter, a primeira
em maiores proporções, contribuiu para os ataques. “São projetadas para fa-
vorecer nossos instintos mais baixos. Toda interface é feita para que a gente
interaja o mais rápido possível. É óbvio que fica mais fácil dizer bobagem”,
sustenta. O aumento do uso de dispositivos como o celular também contri-
buiu para a rapidez da interação sem muita concentração no ato.
Para os especialistas, o xingamento entre os internautas também reflete o
que foi trabalhado pelos candidatos durante a campanha política, em espe-
cial no caso dos presidenciáveis. O cientista político Rodrigo Stumpf Gon-
zález lembra que, em um segundo momento, as campanhas se encarregaram
de fragilizar a imagem do outro candidato. Ao invés da apresentação de pro-
postas, houve um bate-boca que enalteceu o lado pessoal. “As campanhas da-
vam uma ideia de embate entre Super-Homem e Mulher Maravilha, como se
pessoalmente (os candidatos) fossem fazer tudo”, compara.
Depois do calor das postagens nas redes, o que sobra para a vida real? Con-
forme Corso, as pessoas poderão repensar suas relações em função dos dis-
cursos de raiva e preconceito. “O Brasil tem uma democracia jovem que sai
arranhada depois do pleito”, diz. Para a próxima eleição, o professor Marce-
lo Träsel acredita que o uso das redes será ampliado pelos partidos. E quanto
à postura das pessoas, resta saber qual será a rede social do momento e como
ela se comportará. Enquanto isso, a aposta é de que a raiva do próximo vai
passar. Pode ser que a proximidade do Natal promova a reconciliação.
Adotar uma postura agressiva em defesa de d
partido, nas redes sociais, não demonstrou que
mas que o assunto precisa fazer parte d
No resultado da eleição, a
reação emocional foi muito mais
uma relação de torcedor do que
de um apoiador consciente
tos, que geralmente são vistas no fute-
bol, nortearam as publicações. “As pes-
soas tomaram essas atitudes de cabeça
quente, típico da intolerância. É Inter ou
Grêmio, direita ou esquerda, chope ou
vinho, praia ou serra. Na política tam-
bém. É um pulo muito rápido para a in-
tolerância”, complementa o coordena-
dor do curso de Publicidade e Propa-
ganda da Unisinos e doutor em Comu-
nicação Política, Sérgio Trein.
Em análise às postagens que invadi-
ram as redes sociais, Trein elaborou o
termo “egocracia”. O termo correspon-
de às postagens carregadas de um pon-
to de vista pessoal, sem a preocupação
de compartilhar os projetos dos candi-
datos. “Cada um defendeu o seu ponto
de vista e houve um choque entre egos”,
considera o professor a respeito das di-
vergências de opinião. Para Trein, os
eleitores transformaram as palavras em
armas nas redes sociais. A postura vai
na contramão do que essas ferramentas
possibilitam, que é a integração entre
pessoas diferentes. O psicanalista Má-
rio Corso acrescenta que o extremismo
das postagens revelou indivíduos deses-
perados por atenção.
Além das postagens ofensivas a outras
regiões brasileiras, em especial o Nordes-
te, os gaúchos voltaram a falar em sepa-
ratismo e ameaçaram sair do País. Para
Corso, esse exagero corresponde a uma
mentalidade primitiva e remete à percep-
ção infantil das coisas, já que o extremo
também aparece nos contos de fadas. O
cientista político Rodrigo Stumpf Gonzá-
lez reforça que essa conduta lembra algo
infantil, do tipo “se não é como eu que-
ro, não brinco mais”. González também
lembra que as pessoas tendem a manter
uma autoimagem de virtude – o que os
gaúchos têm de sobra – para se livrar da
culpa e transferi-la aos outros.
P
o
r

q
u
e
tanta agressividade?
Marília Gehrke
mariliagehrke@gazetadosul.com.br
Até que as eleições nos separem...
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Jornalista e blogueira de moda, Maíra Assmann Becker,
de 30 anos, passou a acompanhar a política com mais afin-
co de 2012 para cá. À época morando em Madri, pôde fazer
comparações entre aspectos socioeconômicos da Espanha e
do Brasil. Quando eclodiu a onda de protestos no País, em
junho do ano passado, somada aos casos de corrupção, ela
percebeu que o cenário político brasileiro estava em trans-
formação. E buscou maior engajamento.
Nessas eleições, Maíra entendeu que o melhor para o Bra-
sil seria a alternância de poder e propostas diferentes, por isso
votou na oposição. E expôs os seus pontos de vista no Face-
book. “No momento em que me posiciono é porque quero ex-
pressar a minha opinião e defender as minhas ideias”, expli-
ca. Além de divulgar textos de sua própria autoria, ela com-
partilhou notícias de veículos de comunicação.
Como possui um blog de moda, Maíra pautou a política
somente em sua página pessoal do Facebook, sem misturar
os papéis de cidadã/eleitora e profissional. A jornalista não
chegou a desfazer amizades por causa da política. Nas redes,
não comprou briga. E, fora da internet, seu círculo de amiza-
des inclui pessoas com o mesmo posicionamento político.
Coordenador do Departamento de Comunicação Social na
Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), o professor De-
métrio de Azeredo Soster, 47 anos, assumiu uma posição no
ambiente virtual por identificação com os projetos dos atuais
governos estadual e federal. O posicionamento se restringiu
às redes e não chegou à sala de aula. Em seu ponto de vista,
não há confusão entre sua opinião pessoal e as instituições
em que está inserido. “O que eu posso pensar é que as pesso-
as que me leem são inteligentes e sabem discernir”, diz.
Ao deixar claro seu ponto de vista nas redes, o professor
procurou criar textos diferentes, alguns em tom reflexivo e
outros convidando ao debate. “Não ataquei ninguém e even-
tualmente entrei em debate com alguns amigos”, conta. Ele
chegou a bloquear uma pessoa de sua relação e afirma que é
cedo para dizer de que forma isso pode afetar a vida fora das
redes. Soster admite ter sido mais incisivo após a vitória de
sua candidata. “Eu comemorei e falei visceralmente, na pers-
pectiva de quem usa o seu espaço”, relata.■
E
la gosta de sair para jantar e ele de re-
ceber os amigos em casa. Ela gosta da
cidade, ele do interior. Ela é gremis-
ta, ele colorado – e, na final da Copa
do Mundo, ela torceu pela Argentina e ele pela
Alemanha. Ela não gosta de cozinhar, e ele
adora. Ela gosta de novela e ele de assistir ao
Animal Planet. Janaíne de Almeida Peres, 40
anos, e Alexandre Schneider, 46, têm pouca
coisa em comum além dos
13 anos em que estão jun-
tos e das duas filhas. Na po-
lítica, a divergência tam-
bém impera: eles escolhe-
ram candidatos diferentes
nessas eleições.
O casal, que mora em
Santa Cruz do Sul, tem
perfis individuais no Fa-
cebook. Para evitar discus-
sões desnecessárias, ambos
preferiram não fazer parte do mesmo círculo
no ambiente virtual. No entanto, como as fi-
lhas tinham as senhas, adicionaram um ao ou-
tro. “Não olho o que ele publica, não comen-
to o que ele posta. Até porque sei que ele vai
discordar e me dar uma resposta”, diz Janaí-
ne. “Não desejei feliz aniversário pra ela no
Face”, retruca Alexandre. Durante a campanha
política, não se manifestaram nas redes.
Juntos, eles são proprietários de uma loja de
utilidades domésticas. E moram sob o mesmo
teto, em uma casa ao lado do comércio. Mes-
mo passando o dia juntos e divergindo em tan-
tos pontos, Janaíne e Alexandre aprenderam a
manter um bom relacionamento – que sobrevi-
veu às eleições. “O que ajuda é a nossa idade.
Tu começas a enxergar que tem de respeitar a
opinião da outra pessoa”, diz ele. “Acontece
de a gente ceder. Um cede
aqui, o outro ali, mas isso
não quer dizer que a gente
concorde”, ela afirma.
Janaíne e Alexandre
servem de exemplo para
aqueles que discutiram
feio nas redes sociais. O
casal é a prova de que é
possível manter uma con-
vivência respeitosa mesmo
tendo opiniões diferentes.
Para ele, a política pode mudar se houver al-
terações na lei. E, para ela, dificilmente quem
ingressa na política sai ileso, sem ser corrom-
pido. O fato é que, após o pleito, a vida con-
tinua. “A gente tem a consciência de que, in-
dependente do ganhador, nós vamos continuar
trabalhando sábados à tarde, domingo de ma-
nhã e em feriados. Se entrasse A ou B, não iria
mudar nada”, comenta Alexandre.
As publicações nas redes sociais não passa-
ram batidas nas eleições deste ano e mobiliza-
ram eleitores de todos os cantos do País. Com o
poder em mãos, o internauta que utilizou essas
ferramentas o fez para se expressar ou mesmo
provocar a reflexão. Enquanto alguns foram
mais incisivos e agressivos em seus pontos de
vista, inclusive confrontando e afastando pes-
soas de opinião contrária, outros optaram por
uma postura moderada e conciliadora.
Nessa segunda opção se enquadra o jorna-
lista Cássio Filter, de 37 anos, que procurou
criar postagens para suscitar a discussão polí-
tica. Mesmo abrindo o voto para a oposição,
elencou pontos positivos do atual governo. No
caso dele, as publicações não afastaram pesso-
as, mas ajudaram a ampliar o leque de amiza-
des. Já a arte-finalista Anna Porto, de 26 anos,
chegou a discutir com suas primas e excluir al-
gumas pessoas depois de ler postagens ofen-
sivas. Anna defendeu a continuidade do atu-
al governo, e a influência da família acabou
pesando nas suas preferências políticas. “Me
dei conta que muita coisa está em jogo e que
é preciso sim lutar pelo melhor, levantar uma
bandeira”, conta.
Inspirado nas amizades desfeitas em fun-
ção da política, um Tumblr batizado de Coxi-
nha S2 Petralha reúne mensagens bem-humo-
radas para reconciliar amigos que se desenten-
deram na internet. O site apresenta sentenças
costumeiramente ditas por petistas e tucanos.
“Se dividirem o Brasil, quero ficar do mesmo
lado que você” e “Se inventassem uma bolsa
amizade, eu dava a minha para você” são al-
guns dos pedidos de desculpa.
determinado candidato
que estamos mais
parte do nosso cotidiano
■■Alexandre e
Janaíne: o oposto
que dá certo há
13 anos
Mobilização gerou mais e menos amigos
Mesmo divergindo em
tantos pontos, o casal
aprendeu a manter um
bom relacionamento, que
sobreviveu às eleições
Pelo direito de se expressar
■■Soster eventualmente entrou em debate com amigos
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■■Maíra passou a acompanhar a política com intensidade
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...ou nos unam apesar das diferenças