OS PERFORMERS

ARTE E MUNDO APÓS A CRISE DAS UTOPIAS:
assim mesmo, em CAIXA ALTA e sem notas de rodapé

ÍNDICE

TOMANDO LICENÇA, por Glória Ferreira 5
INTRODUÇÃO 11
ARTE 13
E 17
MUNDO 19
APÓS 22
A 24
CRISE 26
DAS 29
UTOPIAS 30
EPÍLOGO 33
BIBLIOGRAFIA 35

utopia com “u” minúsculo e no singular. discutindo as relações entre arte e vida que daí emanam. creio. MACBA e é acolhido na bela coleção de livros organizada por Regina Melim na os “comos” passíveis de revelar possíveis teorizações e significações aí conti- editora “par(ent)esis”. passa pela exposição El Mal e os próprios substantivos do enunciado adquirem substâncias próprias. “definitivamente não ao campo universitário de cursos de pós-graduação. realizado ghian. ampla fortuna tanto nas representações icônicas quanto nas formulações estéticas. as referências aos artistas Natascha Sadr Haghi- Mário Pedrosa de Ensaios sobre Arte e Cultura Contemporâneas. por exemplo. são o lugar em que “os pensamentos vêm habitar para aí mação de uma indissolúvel confluência. entre suas aventuras. não é a bile que orienta o ensaio. com a teoria da autonomia da arte. “Enquanto se dissolverem”. Trata-se. “utopias”. de Escritura: un proyecto sobre textos e imaginación especulativa no interrogando. poderíamos dizer parafraseando Baudelaire sobre as nuvens. O ensaio não foi agraciado no concurso (decisão da qual não me esquivo como um dos membros do júri). é o limite do que pode ser dito pela linguagem. é uma palavra como outra qualquer. em relação entre arte e ideal no neoclassicismo ou em impossibilidade de demarcação Ah! os títulos. nem em letras maiúsculas. ao longo da história da arte ocidental. Javier Peñafiel. Lars von Trier. preposição mor e ironia e que. em um “craquelamento do discurso”. no ensaio dos autores vem acompanhado de um subtítulo: “assim mesmo. em um sentido wittgenstainiano. essa junção de duas coisas estranhas se dá na Castro e Fabio Morais tratam a enunciação proposta para um concurso públi- carne do MUNDO. entretanto. dizem os autores. nacional e amplitude das premiações vem se somar ao crescente desenvolvi- Quanto a UTOPIAS. e assim pelo enunciado. Demarca-se Glória Ferreira de qualquer modelo informado pelo academicismo e suas normas. Olafur pela Fundação Joaquim Nabuco. então. Transmuta-se. De certa maneira. Jac Leirner. é assinalado no epílogo: “a gente muda de utopia mento de pesquisas sobre questões da história da arte brasileira. seu teor reflexivo analisa.” Fraca. tema do respectivo concurso. Muito ruído. apaixonado por 5 6 . que é buscado. em CAIXA ALTA e sem notas de rodapé”. Tem a bile fraca. e quem sabe cientificismos — o que pode ser verificado pela bibliografia que desvela fontes e avaliações com referências de diversas ordens que balizam o texto. não restritas conforme o jeans”. onde não faltam hu- ção. por seu caráter Eliasson e Taryn Simon. encontra delimitação dos seus marcos Mas as nuvens estão sujeitas a um constante devir. Muito alto. das. E é justamente por uma espécie de dissolução que Daniela ARTE é ARTE e vida é vida. Não deixa co sobre a atualidade da arte e da cultura contemporâneas — o II Concurso de ser relevante. de apresentações e reapresentações em que conjunção. sem dúvida. de uma disseca- funciona no plural. dizem ainda os autores. entre arte e vida com os românticos. como dizem os autores.TOMANDO LICENÇA… sua estátua no mito de Orfeu nas Metamorfoses de Ovídio. de modo singular a expressão ARTE E MUNDO. Dora Longo Bahia. enquanto os títulos. Questão que desde Pigmalião. adquire. Concurso que. no entanto. “Arte e Mundo após a crise das utopias”. deixando escapar os gemidos de uma cópula”. para posterior questionamento e afir- como diz Adorno. Mas.

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marcel duchamp é um nome bem conhecido mas poucos conhecem bem marcel duchamp muitos fizeram duchamp sem saber q o estavam fazendo (eu também) mas como poderíamos saber? Augusto de Campos in Reduchamp. em parceria com Julio Plaza . 1976.

11 . por dois cérebros e duas paixões. uma a uma. usou-se o recurso de tentar entender cada palavra e como cada uma se relaciona com as outras. Não é uma ode ao caos. se contradizem. pois acha nela a generosidade da liberdade da forma como guia. Como lidar com palavras significa fatalmente escorregar na ficção. se traem. para que elas fatiem tudo em micro pedaços digeríveis. tudo foi escrito a quatro mãos. para se entender o mínimo possível. agarrase às palavras. Aqui. e talvez não possa abrir mão desse querer. Mesmo elas sendo o cúmulo da abstração. Onde se contaminam. estratégias do campo literário foram adotadas em detrimento de estratégias formais do campo dissertativo. o efeito é o de um craquelamento do discurso. Mesmo elas tendo a bile fraca. Há bastante tempo que. mas sim uma dissertação que se socorre na ficção. Esta escolha não significa que se alcançou a literatura. Porém.INTRODUÇÃO Para escrever sobre ARTE E MUNDO APÓS A CRISE DAS UTOPIAS. Provavelmente porque o enunciado proposto já antevê a dupla (ARTE e MUNDO) e a UTOPIA sempre quis o outro. Muito pelo contrário: apenas uma desconfiança de que mosaicos ou caleidoscópios produzam imagens organizadíssimas e ressignificantes do figurativo. O texto é dividido por capítulos que aparentemente o estruturam. se amparam. se explicam.

pós-modernismo (com hífen). tecnocracia. Enquanto ARTE é ARTE e vida é vida. é porque ARTE não pode ser vida — ao menos no título aqui da realização completa do princípio do prazer. se ARTE está separada da palavra MUNDO. essa conjunção possa se transformar em algo cotidiano e natural. Mas. dependendo da hora e do dia. Paixão e espe- Provavelmente foi a forma que acharam de unir ARTE e MUNDO para então rança. a si mesmo — o mais dés- capar os gemidos de uma cópula. viveu do excesso. de tiros no próprio braço. seja frágil. Há a desconfiança de que. numa só. ou expressões de libido — são as TOP 10 LIST dos artistas contemporâneos vei- talvez a palavra ARTE. Definir retrocessos ou progressos — Hegels ou ta e três braços. Afinal de contas. mas muitas coisas do MUNDO reivindicam posar juntas à ARTE Então. do século passado e um pouco do anterior. Brigam por ela. dentro ou fora de suas Talvez tenham querido demais que ARTE virasse um casamento ameno catedrais. de Eus e Tus tocando as partes íntimas em e vida são a mesmíssima coisa e lutam para que essa simbiose una as duas. uma vez que o termo sucede o APÓS.” será tratado no capítulo UTOPIAS. público. de quebra. é possí- como os casamentos de mais de quarenta e cinco anos de tios que moram vel — claro que é — acreditar que a palavra ARTE seja mais importante que no interior. a esse nível. O xaveco é da ordem 13 14 . Tudo exercício puro de ficção calcada na primeira pessoa. pela especulação financeira do capital fictício e caracterizadas pelas hiper- Parece que. um vício de linguagem: e cotidiano com a vida. Ela está sempre rodeada de conquistadores. deixando es- do assassinato e. vive-se atualmente a distopia. Querer que a ARTE continue sendo ARTE. é estranho à ARTE. a ARTE. ARTE é na foto. esperança envolvidas. experimentação. que é o segundo na a ARTE ainda clama por um privilégio especial. etc. Eram excessos da ordem do valor político do de- ARTE e vida. E como o próprio partir para o xaveco. Não é só o MUNDO que faz questão de estar culadas no e-flux. gostam da ARTE e usaram-na muito no último século. Hoje as vanguardas — engolidas dos tios do interior assistindo Fausto Silva de domingo. inaugurar um raciocínio. abrir uma sentença. ao seu lado. e sejo expressando-se e combatendo um sistema de repressão política a partir a precede. pós-modernidade. por exemplo. Afinal. ou do ano e da década. essa ram o autor. de cosmococas. É uma questão de produção de valor. Talvez tenha sido o MUNDO. no mínimo. sim. muitas vezes seguido de estupro. Quem o matou foi o autor junção de duas coisas estranhas se dá na carne do MUNDO. ao menos a pota dos autores. mataram-no para que ele fosse mártir. Excesso de Então eis a palavra ARTE antes da palavra MUNDO: Sherazade. realmente parece que depois de tanto acontecimento. de novas mídias. amena. de pincel Devem estar jogando pedra na vidraça os que creram/creem que ARTE humano azul. anunciar um tema? Servir de partida? Como ela pode vir antes da palavra MUNDO? MUNDO depois de ARTE? (sempre com hífen!). O “etc. pode ser um retrocesso? É. aquele privilégio batizado pelo hierarquia construtiva no título aqui proposto que não o permitiu: o MUNDO é Aufhebung das vanguardas que se sublimavam na lógica do sistema do ca- naturalmente pantanoso e irá sempre preferir a vontade de cópula ao invés pital real e repressões políticas e de libido. vida e morte foram as forças motrizes das UTOPIAS. capitalismo tardio. Mas. de erotismo. proposto. elegeu-se — sim. mesmo sendo a primeira da presente proposta. seguida de uma série infinita de sinônimos: neoliberalismo. se ARTE e vida se tornarem a mesma coisa. cada time puxando-a por um de seus trezentos e trin- ARTE e MUNDO é MUNDO. Os ativismos Sherazades — é quase como discutir a vida após a morte: há muita paixão e todos. Querer a felicidade. quando mata- combina com felicidadezinhas. pósmodernismo (sem hífen). ARTE não a palavra MUNDO e deva.ARTE título já decretou o fim delas e de sua CRISE. pós-humanismo Como pode a palavra ARTE inaugurar um texto. de guerra. a ARTE.

mas entre parênteses — que o mundo da ARTE adentrava. doma-a Mas. vida. E a ARTE nem viu. aceitou ser dela com o leitor. continuando numa sinfonia de talvezes. as- E.da mensagem explícita a partir de gestos afiados. e diluir-se no outro formando um só é exoterismo. Está no livro. Somente a arte. Assim. principalmente) sem uma ação — não original d’A Filosofia de Andy Warhol já sabia: (From A to B and Back Again). E depois retratos de família. talvez seja ela quem mais saia Forget about art. Só se fode com o diferente. o talvez que anunciou esta última sequência de parágrafos. garanta que vida é vida. ocidente é ocidente. para ir renascer em meio mais dela. Duchamp teve seus quinze minutos de fama. HUMOR X Amor. tudo o que introduziu este capítulo ainda não consegue perceber e exige da arte todo o exemplo de liberdade que. por carência. agências de marketing. ela Era na distância entre um ponto e outro na reta cartesiana — um espaço está inativa. Talvez seja nessas horas que o MUNDO prefira ser cavalheiro nas regras do flerte e ceda seu lugar à ARTE na hierarquia do título aqui proposto e. Um jogo. a revoluções aqui e ali. Será porque somente a zando as radicalidades de outrora. e oito páginas. ARTE X MUNDO. muda. enquanto fode com o MUNDO. a ela. distribuindo essa liberda- cada um é cada um. Em relação ao uso que se faz da arte. congelada. Talvez perdendo nisso tudo. alcoolizar-se. deva ser o estopim que inicie uma discussão sobre o título ameaçada por si mesma na História. talvez não sejam só os ativismos. E a que a ARTE se vê sozinha e abandonada por quem a usou para “revolucionar”. subir no é ele. a palavra ARTE pode iniciar desde uma simples sentença até um livro de mil escritores de best sellers. É necessário salvar a ARTE deste título: nele. Ela fica enjaulada. Sugam dela sua liberdade. só é dada até o limite por que a ARTE. paga o preço do ovo. Que na foda mas também o capital que suga a liberdade da ARTE. quando a ARTE está quase virando palanque não para demarcar ou discursar poder. ela só gostaria de participar da festa. Ela ainda banca con- ARTE teria o grau de liberdade necessário à transformação cultural e/ou políti- ferências e simpósios com cachês caríssimos para tentar entender porque ca que dispensasse sangue e ao mesmo tempo tivesse o mínimo de glamour? ninguém a entende e para tentar achar desesperadamente seu não-lugar. quando inventaram as anti-artes todas. 15 16 . cheia de fotografias setentistas nos porta- xavecar. No fundo. não a De vez em quando o MUNDO se aborrece. institucional e mercadológica vios — digressões e seduções — calculados pela sutileza blasée e rarefeita. O capital parasita esta galinha dos ovos de ouro. que quem paira no universo dela. toma uma atitude e deixa mui- buscam para os festejos da distribuição do poder conquistado. E ao verificar que o tal título não possui verbo fica ainda mais incô- Sim. de profissionais. que quem faz as simbioses é ele. E. designers. ARTE é naturalmente exibida em excesso. e sim das UTOPIAS. ARTE então deixa de lado a ideia de diluir-se na vida para separar-se ainda ela volta a ser ARTE. its name and past history and let it be autonomous. casada na cidade do interior. Mas isto é somente um talvez. mas com desvios e extra- çavam a se delinear as especulações teórica. Come- salas de doutorado. mas o subtítulo do modo pensar na ARTE (e no MUNDO. o fato de que a ARTE ainda não liberdade como galinhas botam ovos para alimentar o colesterol necessário tenha tido a chance de crescer com autonomia. Logo ela. de entre publicitários. sim. das feiras de arte internacionais com a força de uma metástase promíscua. e garantir a foda. botando não seja culpa do MUNDO. campanhas políticas. proposto. Como Eu X Você. aos adolescentes. mas somente para se exibir. o MUNDO lhe faz lembrar da possibilidade de cópula. esquecem to claro que quem gira sobre o próprio eixo é ele. pintores de quadros e mais um etc. sempre travestida de verbos. enquanto MUNDO é MUNDO. Os parênteses redondos viraram uns amorfos quadrados no texto HTML Nem a biologia. tijolo para infinito. nem a física e muito menos a sociologia causam uma e se alastraram para todos os outros campos disciplinares. carniça para intelectuais. sem mesmo um adjetivo que aproxime a relação qualificada onde o tal capital não é ameaçado. boba e suicida. MUNDO é MUNDO e ARTE é ARTE. convencionali- vontade tão apaixonada de ativismo quanto a ARTE. parada. Depois costumam esquecer a ARTE na jaula. adianta.

De novo. talvez esse E seja a palavra assassinato do autor? Faria sentido assumi-la. sar na separação demarcada com nitidez de território. temos ARTE É MUNDO APÓS A CRISE DAS UTOPIAS. senão). tem o E unindo ou demarcando a separação entre ARTE e MUNDO? Mas (antes de continuar esse “mas”. Talvez o E verbalizado Bem. ARTE EartistaobrapúblicoE MUNDO? Qual o tamanho desse E? Quem saberá? instalação também. bustas e com mais atitude. no verbete ARTE. ainda com vestígios de sangue nas mãos) e.E palavra UTOPIA.. novamente colocando um acento agudo no E. além de supor coisas E. mas simples (e. no título aqui proposto. na presente proposta. Faço pintura. novamente a ARTE se diluiria na vida? Mata-se o dicionário Houaiss o acento agudo do É e retornar ao título pronto. ao invés de “saúde”.. Mas é sempre assim: as O E pode criar confusões (como o and inglês. a ponto final: ARTE É MUNDO APÓS A CRISE DAS UTOPIAS. mas que dentro de sua superfície opaca seja aquela a Ícaro com um business card. Faço performance e. Se ARTE É MUNDO. E mundo atual. Melhor tirar E em É. Ocorre. UTOPIAS.. que é uma frase bastante tentadora. Espirre e alguém. palavras mais interessantes são as que têm menos vaidades. termo que termina o título proposto? Não. o et francês. as ideias traduzíveis sejam mais úteis: portanto Babel cabe na juramos que não É para reconstitui-lo um dia. que bastaria um acento agudo no E que une ARTE e MUNDO assim como o ticket do Redeshop e uma operação de redução de estôma- e este E se tornaria um verbo. e no verbete MUNDO. essa autoria. “Eu e você” quer dizer “eu aqui e você aí” ou quer dizer “nós”.? pamento ou diluição um no outro? ARTE E MUNDO. às vezes. Uma conjunção o casamento dos tios do interior? O autor degolado pelo autor do assassi- tão simples como E é uma caixa de Pandora de onde podem sair todas nato? O Fausto Silva na TV e os tios unidos num só corpo acostumado com as possibilidades de UTOPIA. quanto pen- lê-se MUNDO como seu significado. que menos brilhe. o que seria então esse E? Que ponte é essa entre ARTE E MUNDO? O que liga mataria o artista e o re-significaria como um profissional liberal: O que você os dois termos? O artista? O público? A obra de arte? Seria possível escrever faz? Faço vídeo. (com a mesma crueldade de um autor que decreta o fim do autor e reivindica Sugere-se então que o E seja a preparação para a palavra UTOPIAS. a criação de uma terceira entidade. Faço escultura. desde que ela passe pelo crivo do inglês) . lê-se ARTE.. Cabe escrever aqui que as palavras mais com- a própria letargia? A falta de sexo? Ou seu excesso? O sonho de Warhol? Ou essa transformação do E em É recolocaria a ARTE no altar vazio das plexas não são nem grandes (paralelepípedo). e talvez por isso sejam sempre pouco exploradas. do ARTE É MUNDO. o y espanhol. no pessoas que possuam em casa um pedaço do muro como souvenir. 17 18 . Transformando o há pessoas que preferem que ARTE continue sendo ARTE. a da “nossa soma”? E esse “nós” é agru- O que se pode fazer. é sincero esclarecer que este capítulo é — Bom dia. diz: ARTE. é claro. já que de uma vez por todas o E se reafirma como conjunção. Na verdade. suscitar digressões e extravios dos mais férteis. com. transformando a conjunção no verbo É. cumpriria a agenda distópica da CRISE. ainda que. a faixa de pedestre é ARTE. Quem tem coragem de assumir a autoria do O que se sabe é que. trabalho no Museu E estamos cadastrando todas as um exercício de retórica que só funciona na língua portuguesa. Pode ser utópico pensar tanto na diluição um no outro. nem subjetivas (universo). transformando o título em oração com direito go o são. O É agenciado. ou seja. Fotografia. são as mais ro- etc). o E é Sísifo e o É. Definitivamente.

meu sentimento de terror é fictício. da conectividade ubíqua. jogo com a simulação da Pensemos juntos: tudo e todos estão na lógica do consumo. inevitavelmente fazemos um vídeo em baixa reso- nunca é sólida. jouissance. dentre outras. ao mesmo tempo que analfabeto em tecnociên- de ficção da imagem (ou metáfora. Mas não. MUNDO? Mas a que mundo se refere? O planeta? É geografia. Em tempos de CRISE do capital ima- essa bola azul que flutua no universo. Tudo em liquidação de até se- porâneo. foi por puro ego. A distância entre o mundo real do girino que vira sapo e o MUNDO enxur- ficção e dos PS’s 1 e 2. os burros cambiantes com cabrestos deslo- tenta por cento. Citar o Iluminismo e o Renascimento em cosmologia. Dá medo de ir em cinema IMAX. mas a imagem do girino que vira sapo”. Portanto. Há de se introduzir uma distância entre a represen- é similar à ponte do E que linka a ARTE e o MUNDO. como o terror fundamental. É o MUNDO que ora é industrial. O sublime evoca e convoca o gozo (amor e dor) nesse espaço intervalar entre o espectador e o objeto. Como representante. Mas se o MUNDO ainda está vemos conscientemente uma representação do real ou vemos o real? Embu- nesse hiato que esse hífen non grato do “pós-humano” instaurou — agir an- tida na ideia de representação está a distância que faz desenrolar o processo tropocêntrico por puro vício. Mas quando olhamos uma imagem mesmo.MUNDO ou jorro entre a situação real — a tempestade —... o metacrilato. que como representante é aterrorizadora. gozo). e isso já ficou evidente a partir do último cados para as costas e em forma de caixas de som numa sala encantada de ora. da ansiedade pervasiva. Bom. não se refere está aí para validar o produto. É óbvio que o MUNDO de terial. pintura e jogo com ele ( jouer. O sublime é esse espaço onde se dá o jogo especulativo. Ela está em todas as extensões- e a pintura La Tempête de Giorgione (1506 – 08). ou fictício (como dizem os economistas). muito perto O sublime do Kant (1790). retornemos para o nosso tempo de terceiro round de rado de imagens que se acreditam um retrato do. o assunto? É muito tentador acreditar que o MUNDO do título aqui proposto seja textos hoje em dia é chique. Esquece-se disso. apenas por multinacionais. diacrônico. A representação está muito. Em textos como esse. Quando se lê aqui “mundo tação da coisa e a coisa que ela substitui. sim. ora neoliberal. filosofia ou PS 1: Claro que os nomes e as datas do parágrafo anterior não caíram ali de para-quedas. são. PS 2: Se fosse para traduzir o sublime do Kant para o agora. a ver). ela é magnífica. a produção de conhecimento ARTE E MUNDO APÓS A CRISE DAS UTOPIAS não é o planeta. o papel. Houve um 19 20 . ora revolucionário. Sei que estou diante de uma fotos de perfis no Facebook. no texto). mas que como representação. ou um diálogo com o real insistência globalizante. portanto a CRISE à formação das chuvas ou ao girino que vira sapo. a da Educação e da Cultura. Mas o MUNDO. cia — não há como tomar distância. gadgets do corpo. pois é a rima invertida como tudo que é contem- MUNDO que virou representação do mundo.. o conhecimento também perdeu a mão da autonomia. do capital carga real da coisa pintada.. se soltou da órbita humanística e vem patinando sob o paradigma do fenos são magníficos. o Vai-Vai do antropocêntrica. como a distância ficcionalizante do mundo mesmo. a ficção é a lução disso em nossas mentes. Alguns têm milhares de amizades com Diante dela. a tela. Há a CRISE do Estado-Nação. a representação do burro do indivíduo solitário andan- tecnocientífico (por isso o pós-humano vem sempre com hífen. distância entre a coisa e a sua representação. pois talvez do em círculos encabrestado pelo trabalho alienante é aterrorizadora. depois desse gancho histórico sublime para dar maturidade para a seja sem retorno. É o Nuno Ramos leva o jorro. mente-gadgets. Nas orlas acadêmicas bancadas palavra MUNDO deixa de lado sua natureza para ser apenas.

Agora. Então. gera espuma. possi- com torcicolo. fica violenta. Há pessoas que ainda se valem do excesso (ok. e já o subi bilitar o mangue e pensar. Esse parar é a coragem de assumir o momento do APÓS. de repente. por falta de fôlego. no título aqui proposto. pode-se dizer que essa falta de território se dá exatamente num sentimento compartilhado por muitos: com cortes.momento. ser ficcionalizado por herdeiros de bancos. esse APÓS no YouTube. por CRISE DAS UTOPIAS. dimi- desse mais tarde virar cinema. APÓS tanto acontecimento. o pixel visível lhe Recuar em alguns aspectos pode ser frustrante também. há controvérsias. roteiro de happy endings. enfraquece aos poucos. evaporar-se. A Claudia Cardinale nunca esteve tão linda. Como a tela do lap é solarizada. uns com legenda em alemão e outros com dublagem nas veias. Fazer o quê podíamos muito mudar de posição para enxergar o filme. vai ficando mais lenta. achava que seus passos na selva estavam sendo filmados e editados pela brava. faz barulho. ela caminha fraca. Já a revolução em si. O instante em que se percebe que continuar indo para a frente é naturalmente impossível. apenas um fio de espuma Conseguiu. penetrar o solo. alta. E o APÓS tudo o que aconteceu é agora. pequena. criar musgo na pedra ou voltar sua água para o mar. Guevara talvez quisesse fazer algo que pu- vem em direção à praia. é a encruzilhada. todos nós) para neutralizar ou curar essa apatia. APÓS A paralelo à praia e ao horizonte. não o movimento natural de uma onda fadada a voltar para o mar. esta é a palavra mais urgente. Mas toda a água já foi gasta nos momentos de violência da onda. fraca e. Mas parece que. excesso de consumo. Guevara Há uma imagem: a onda que vem gorda equilibrando-se na superfície. japonesa. lá em cima.. o excesso de informação. Depois de um século de acontecimentos barulhentos. fotografia rebuscada e trilha sonora. a onda se vê sem saber o que fazer: abandonar espuma na areia. excesso de sexo. linguagem épica de Eisenstein. não importa — e se perguntam: que MUNDO é esse? O século XX obrigou o mais rélis ser humano a enxergar a própria vida No título aqui proposto. chega-se à conclusão de que. close-ups. e é vive-se tempos onde há a certeza (e a sensação) de que muita coisa aconte- bem possível que as UTOPIAS tenham aproveitado bastante a vida cinemato- ceu. jogos de luz. não encontramos O Leopardo na locadora. mais lenta. No fundo. como já colocado com relação à ARTE em capítulos anteriores. terapia ou televisão. Esse parar não é o ápice. O ápice foi a violência logo após a quebra da onda. caiu na real (ou no real) (ou do real) (mas que real?). ela para. aquele cidadão comum que se acreditava dentro de um um segundo. o APÓS de ARTE E Querido diário.. Se é verdade que o século XX acabou e ainda mais verdade que não é possível se sentir completamente no século XXI. caminha mais lenta. ainda que seja esse cai bem enquanto maquiagem. excesso de drogas e antidepressivos. Voltar também é impos21 22 . Acaba- MUNDO APÓS A CRISE DAS UTOPIAS pode ser considerado a impossibilidade mos vendo o filme no YouTube. e quebra. gráfica que o cidadão comum enxergava ao redor de si. APÓS que o excesso foi o mecanismo de combate à repressões políticas. nui. ou mergulhado cotidianamente numa verborragia godardiana. Fiz um vídeo sobre tudo isso com meu celular. dividido em 459 capítulos que davam desse interromper a insistência de ir para a frente com vanguardas pulsando conta do todo. e hoje acordei APÓS tanta coisa que aconteceu? Resta penetrar o solo. mas acabam acordando com uma ressaca daquelas — de cachaça. excesso de estímulos geram a apatia.

Restam os lados? O enunciado vinha bem: ARTE E MUNDO (a relação dos dois termos. e é necessário lembrar que o raciocínio do E virando É jamais passaria ali. e. APÓS a mor- Mas o mais estranho não é que o E e o A tenham durado. or not tupi that is the question”. o sensível também passam pelo consumido em vários tipos de moedas cotadas no paralelo. UTOPIA is gone — está dito no por deixar o acessório que lhe garantiria a ação em casa? Mas isso já foi título — e para qualquer CRISE há um tipo específico de ansiolítico disponível. anunciando que o exato momento depois que tanta. Mas. ao invés do verbo. assustados. Os antidepressivos atacam sumista com um quê de agenciamento subjetivo.sível. encaram o APÓS. A escolha mais inteligente- o fígado e a libido.. É quase como um progresso. assim como a conjunção E. O princípio do prazer boomerangueou e mente atual é a conjunção mesmo. debatido. O grito do APÓS marca o momento de assumir decisões. uma só CRISE? Utopia é uma palavra eternamente em CRISE? Pode ser. da Torre mais tarde. o não- Artigos são bastante determinantes. definir que relação no singular: CRISE. do enunciado). a ação é uma coisa do século passado. Foram programados para tal. APÓS o nascimento. de fato. ainda mordeu o próprio pescoço. mas tanta. A lógica é a do prazer a qualquer custo. O mito. Resta saber aonde. E sem querer o repetitivo. sendo que tudo por escrito. MUNDO) que vão se dissipando até que te complexa. optando fato que a questão do eterno é meio cafona. tentar juntar duas coisas diluíveis uma na outra. APÓS a século. Parece que. Eles viveram os últimos cento e tantos anos de forma paralela. O A não deixa dúvida. iniciar a faxina. pois franciscana: A. É curioso reparar que o advérbio APÓS (ad. O não-verbal. fica a critério deles — MUNDO e o artigo A que elucida o APÓS. que começa a ser respondida com um artigo de simplicidade de repente o A parece inaugurar um terreno que começará a ser seguro. o estranhamento pela hierarquia. mesmo no xaveco tomando proseco em escala internacional e virtual. a negação no latim. APÓS o quê? Esta é uma interrogação altamen- mente vago. Então o verbo que o APÓS modifica está oculto. continuar andando a pé. Ele acaba de século. Nem com a ajuda de estimulantes um pouco menos lícitos. ainda que se viva um momento de neo-conser- A vadorismos reaparecendo. são os artigos que definem gênero e número logo de cara. E se o E for mesmo o É que apostou mitificar em uma só entidade todas as CRISEs. surpreendentemente. o cool hoje é seja para crises de ordem psicóticas individuadas ou para depressões do um laissez faire do estilo JUST DO IT eufórico. dar um nome. Ele é catedrá- verbal) do enunciado sem verbo explícito é o único termo que traz em si uma tico. A ARTE fica Google Translate. inabalável e quem dá segurança a um enunciado que começa extrema- transitividade direta: APÓS. mas tudo bem. no último século. CRISE DAS UTOPIAS. desfazer-se dos objetos pessoais. APÓS a festa. acreditando ser sutilmente con- capital (que foi quem nocauteou de vez a UTOPIA). A determinação 23 24 . um te. este E encarregou-se de continuar. APÓS o relacionamento. Apesar de ser no estilo less is more para a festa casual chic de abertura de Bienal. paralelos. enquanto este A tentava O APÓS é um advérbio no título sem verbo. se pega no banheiro o “Tupi. realmente tanta coisa aconteceu nos últimos do nascimento das UTOPIAS era também o exato momento do começo dA cem anos (que é a duração aproximada deste E. Palavras vagas (ARTE. também tem a duração de um de correr sobre a ponte do E e. A con- convocar ARTE E MUNDO para que definam que rumo seguir — com ou sem junção E tentando a todo custo definir que ponte era essa entre ARTE E a ilustração do anjo da história do Benjamin no Klee. o E servindo como ponte bizarra) até que de repente o APÓS solta um berro no meio do título e ARTE E MUNDO param Este artigo A.. O mais estranho é que este A enuncie que logo virá um substantivo chuva. o simbólico.

press releases de exposições de arte contemporânea pelo mundo afora). ou seja. antes. “pausa” significa um possível déficit na conta ou o não cumprimento de um deadline. MUNDO) A CRISE é de linguagem.que os artigos carregam dá para a CRISE o status de sujeito. Mas esta estranha relação entre ARTE E MUNDO (equação que pode resultar em 475639913748365 funções. Maldito garçom que demorou para me do título demora e os oitenta anos que a vida humana demora. Mas como herdamos da estrutura vigente o JUST DO IT do profissio- bem mais do que cinquenta por cento do livro. média). e “reflexão” é para filósofos que ganham pouco. por mais recorrente e presente que seja. será que devemos citar esse livro aqui? Cabe? plar. de algu- O que mais chama a atenção na proposta do título. apenas uma leve in- Se for possível pensar que uma frase seja uma sucessão de tempos disposição gastrointestinal depois de ter esquecido mais uma brilhante ideia (e que não há diferença alguma entre os dois ou três segundos que a leitura antes de anotá-la no guardanapo. apenas um. decidir onde fica o turning point das coisas — Claro. site-especificamente. descriminar. CRISE não. ou estudan- 25 26 . A língua se define menos pelo que ela permite dizer e mais pelo que ela nos obriga a dizer. é o fato deste A ser o elo de ligação entre os dois blocos de palavras que se atritam: ARTE E ma forma. Bom. este A de encampa todos os verbos da sentença anterior. pode-se dizer que esse A é a transição da infância (ARTE. distinguir. apenas) Do título proposto. cheira a naftalina. escritores que eventualmente se suicidam. etc. o enunciado aqui proposto resume numa só. a gastura. pas- — É impossível pensar no livro de Sartre A Náusea se chamando sando por todos os anglicismos. Mais que ARTE. Por isso. equivaler. julgar. nal liberal equipado de digitalidades. num plural) e A CRISE (uma. portunhóis. mais que E e MUNDO. Ainda mais se se pensar que. se o A já deixa claro que a CRISE é ape- plurais todos. as crises prias experiências (essa é a tal da performance de identidade que popula geralmente são muitas: nascer é enfrentar uma crise e morrer é superar outra. essa transição da infância para a vida adulta do enunciado pode no sentido de que devemos operar com uma linguagem pré-existente a nós parecer um ritual de passagem falho. 1 (huma) provável CRISE. ao con- no constante exercício de torná-la específica e de acordo com nossas pró- trário do que ARTE E MUNDO APÓS A CRISE DAS UTOPIAS sugere. É uma palavra claustrofóbica e absolutamente herética em tempos o quê?) A CRISE DAS UTOPIAS. É a mais monolítica e. CRISE Assim como para descomplicar a natureza inventou-se um deus. Estamos condenados a viver uma vida roteirizada. coisa. de seus significados e para a vida complexa (CRISE). a vida não deixa de ser um exercício contínuo de tradução do português para o português. A palavra CRISE. Porém. de programas de felicidades consumíveis. contem- simplesmente Náusea. a la chinois. segundo a emprestar a caneta. — Mas. toda boa tradução leva tempo. e ainda mais que APÓS. como as ombreiras e o hábito de fumar cigarros. primeiramente. só tende a se complicar com o plural de UTOPIAS. Roteirizada nas uma. Apesar de o autor ser um elemento do século XX já supe- (o eixo próprio do MUNDO). essa é a palavra que causa mais estresse. indivíduo. e. A razão pela qual ela nos inquieta é porque mal a lemos e já queremos MUNDO APÓS (e aqui há o atrito. a indagação do APÓS sair dela. e claro. na sua origem grego-etimológica rado no XXI. Há de pausar. as faíscas. CRISE como pausa para re- A Náusea é responsável por cinquenta por cento do título e talvez por flexão.

cabo-de-guerra. Ela é simplesmente: fascista. A CRISE. essa discussão fez algum sentido até mais ou menos 1996. e ponto. a privaci- vida no MUNDO. responde o ghost writer. que ficcionaliza toda a domesticado pelo corporativismo que sequestrou o corpo íntimo. A depressão psicótica e a depressão econômica são as mesmas coisas. não é nem reacionária e nem progressista. Essa busca matou muita gente. uma ditadura ou um terremoto através de blogs pessoais com relatos mal escritos. ora de injustiça. da microfísica do poder. O público e o privado. a pela via da literatura. Não há mais a instância privada separada da esfera pública. O espaço público foi do fascismo pós-moderno. telas e telo- midiáticas e mercadológicas. estuprou. foi porque não viu que não tinha mais bonde andando. estão se aprimorando e muito em breve serão tratados em termos de ficção e interioridade. de ARTE E MUNDO APÓS A CRISE DAS UTOPIAS é uma só: ela nas de LCD que lançam uma luz fria no escuro. Que fatos pessoais você quer que vozes de governos. Cidadania. Pois a língua. Público e privado passam a disputar o microfone. lha das palavras grandes. Só se sai da CRISE de nomenclatura culturas. ao mesmo tempo. e sim obrigar a dizer. instaurou exotismos e patriarcalismos. para evitar que se caia na armadi- origem é super pesada. dade é publicada no Twitter.. Se juntarmos preposições. sabemos hoje que o histórico ocidental da busca é impedir que se diga. ora chamado de democracia. O fascismo não 27 28 . mos individualmente. de dentro do quarto. dizimou muitas este par que concluiu o último parágrafo. Pelo amor de Deus. com o passar rápido do tempo quântico. não me venha com mais CRISEs. já que tudo é mediado por telinhas. É tudo parte de um comum aponta para a carga vertiginosa. No entanto. mesmo que sejam ainda carentes de Currículo Lattes. como desempenho de toda linguagem. torturou. É uma só. vaidosas. respectivamente. A CRISE é dar conta da responsabilidade de abordar com coragem o surgimento de novos sinônimos. Crise pessoal e crise política é pleonasmo. advérbios e outros substantivos então. Esqueçamos as origens por agora e passemos para os múltiplos. Pura ficção. Pausa para reflexão. pois cumprem agendas políticas.. Verdade. somando-se a matérias primorosamente escritas em — Você escreve minha autobiografia? redações de grandes jornais e a discursos burocraticamente lidos por porta- — Sim. Eles são multi-task. enfim. Uma vez dicotômica. inviável calcular o número de definições possíveis para cada um desses ter- mas também operando individualmente com seu significado mais específico. Ou melhor. Seria que há uma série de sinônimos para a CRISE. silenciosa e inconclusa — talvez o devir — viscoso. CRISEs geralmente são muitas. Depois disso. que te levaram a querer ser posterizado? vindicando os significados de cada termo. Justiça. pura retórica gorda e aerada de advogado. tinha trem bala e aviões com tarifas reduzidas. Terrorismo. Vai demorar para elaborar melhor pela origem é muito violento. simples assim. É sintomático que atualmente compreenda-se uma guerra.tes de arte. como num — O fato de eu ser autobiografado. As As palavras vaidosas estão vazias de significação já há algum tempo. quem insistiu. Silêncio. O que significa pluralizá-las? Significa indicar Veja: Democracia. rei- eu narre. Liberdade. é manipulação pura de linguagem. cada um conectado ao outro.

espaço sideral. diariamente. o movimento estudantil. Preposição “de” + determi- Apesar de já se ter concluído que a busca pela origem no projeto ocidental é nância de artigo no plural “as”. sobre uma ilha fictícia e seus costumes religiosos. A etimologia da palavra “utopia”. do grego. que cunhou o termo. A estrutura ficcional da ilha serviu de plataforma para a criação de narrativas menores dentro do livro onde o autor contrastava a escala entre o ficcional — a idealização do governo na ilha Utopia — e o descritivo. ocidente é ocidente mesmo. Foi um lugar sim.DAS UTOPIAS Seta. Ausência? O plural seria ausências de lugar ou ausência de lugares? A CRISE DAS UTOPIAS ou AS CRISES DA UTOPIA? Seria próximo de um sentimento de falta de pertencimento? Sentimento este que. suspeita-se que UTOPIAS seja um truque. Houve luta pelos direitos da mulher. a ilha Utopia era localizada no “Novo Mundo” e More equivaleu a viagem de seu personagem viajante Raphael Hytholoday com as de Américo Vespúcio. Houve ditaduras. pois CRISE ! UTOPIAS. a luta de classes. é absolutamente indispensável que se faça aqui. é ouk-tópos. Não deve ser. Na estória. de tão comum. que significa “ausência de lugar”. Nesse lugar. a Bomba de Hiroshima e Nagasaki. haveria inúmeras religiões. apesar de ninguém saber lidar com ele. Escrito em latim. faz parte de todos os verbetes do zodíaco do UOL. de Sir Thomas More. com líderes espi29 30 . como o rei Charles V. ARTE E MUNDO APÓS A uma atividade nefasta. do negro. intitulado Do melhor estado da República e o daquela nova Ilha Utopia (tradução livre do inglês que traduziu do latim). corrida tecnológica. E o comunismo? Milhares de pessoas morreram em nome disso. Não tem desvios nem seduções. É hora de encarar. Calma lá. de “outra” em maiúscula máxima): o livro de 1516. trata-se de uma brilhante construção narrativa baseada em correspondências entre pessoas reais. Fatídico. a Era de Aquário? E a sustentabilidade? É UTOPIA também? Outra origem (com o O. o caos da política europeia de seu tempo. Ausência de lugar? E o movimento hippie. sociais e políticos. banal e apático hoje em dia. do gay. Não adianta.

que Marx se apropriou do termo com liberdade no plural. Então UTOPIA e ARTE são imanência. e assim vai. faz sentido: ausência de lugar. Quatro séculos depois. Talvez ela não devesse concluir o título proposto sem ser problematizado. igualmente. às custas DAS UTOPIAS? ser grupos de 14 ou 21 ou 28. o Éden do anticristo Lars von Trier é impecavelmente governamental baseado na solidariedade. finalmente. se transgenificam. deveriam tanto que o E e o A do título aqui proposto. e não histórica. Sete é um número primo e cabalístico. e um sistema na sua incertidão.rituais dos dois gêneros. perdendo a vida e disseminando o vírus da AIDS mais coragem de se expor sensível. Tudo bem. o certo de Taryn Simon é estonteantemente improvável. Tem a bile fraca. em nome da utopia não pesquisou? Não estudou? Como que se luta por edificantes. Que seja incerto. não é signo. Todo mundo problematiza tudo. ideal. que está em vias de conclusão). um lugar de contemplação. música. UTOPIA é símbolo. se amorfam. A banda de punk-rock que mistura Alices no mato da Dora Longo Bahia é um lugar incerto. somada à crítica afiada sobre economia tecno-futurista de Natascha Sadr Haghighian é profético-retros- a paranoia generalizada em tempos de profunda transformação política e eco- pectiva. para não cair na lógica da exclusão. contingência. Quanto ao MUNDO. expansionista e imperialista que durou o mesmo mais artistas que te pegam pelo estômago e te salvam da apatia. nômica da Europa colonialista. as estruturas arquitetônicas do Olafur Eliasson são incertíssimas. contingente. atenção e edifício do sensível. vamos pegar mais leve. recorremos ao budismo para esvaziar a mente. E depois de tanto blá blá blá (retórica. todos convivendo harmonicamente. Sim. como a do capital li- algo inalcançável? Ou só se luta pela potência psicanalítica do possível de beral e curadores free lance e de instituição de arte contemporânea. A ironia. nem em letras maiúsculas. textos acadêmicos. Muito ruído. em que ARTE é arte — em letras minúsculas. mas impossível de se alcançar. e não transcendência como os pintores abstratos uma vez defenderam. as palavras há o mundo — mais robusto também. em lugares inteligentes. entram em CRISE. mais na dela. axiomaticamente UTOPIAS. é de uma linearidade analógica e bêbada. MUNDO. Então o APÓS o A que precede CRISE que sinaliza minúsculo e no singular. A “problematização” ainda não saiu de moda. utopia. momentos e formatos. Não é mais linearmente que funciona. os voids da Jac Leirner são incertos. Quanto a UTOPIAS. Muito alto. mais robusta. com Quem saiu lutando. Transcendência nos levaria para outra ausência de lugar. o núme- se alcançar no projeto esquizo-ocidental? Como se justifica uma geopolítica ro foi escolhido a dedo. com “u” poética. a resolveria problemas de saúde pública. ela definitivamente não funciona É seguro concluir. Então. Se fosse citar bipolar. o das escolhas mais atentas e cons- mudam de significado. pelo menos é um lugar. é uma palavra como outra qualquer. cientes com o entorno. em 2009. era a de que essa seria uma sociedade perfeita. algumas obras de arte. os aforismos do Javier Peñafiel são muito precisos 31 32 . seria fácil se divorciar e a eutanásia incerto. Afinal de contas. como ARTE. Ausência de lugar é diferente de lugar incerto. bélica e petroleira. crítica de arte. há momentos sim. news 24h. São sete artistas citados. este texto.

à família bush. não? se dá. é uma questão de proporcionalidade. semana que vem minha crise será outra.EPÍLOGO escrevo para te dizer que hoje li numa carta íntima publicada depois que o autor morreu (não importa quem) sobre a importância de “dois malditos que se reconhecem”. abaixe a luz. como eu. ok. a gente muda de utopia conforme o jeans. é bobagem. a ciência sempre aumenta a probabilidade de idade. semana que vem na torre encontra-se outro. dera certo. o mundo é assim também. né? a espécie sobreviveu às cruzadas. dava. já chegou-se aos milhões. ao século xx. aos ismos políticos. daqui a quinhentos anos a crise do mundo será outra. se acabar amanhã. na foto com os dentes desnivelados. 33 . só para que dois malditos se encontrassem. pero. esse monte de tempos de verbo é só pra deixar as coisas propensas às tintas fortes da ficção. a largueza das costas e a dureza do gesto. avec passion. à aids. milhões de anos. às ditaduras. à gripe suína. crise vem. ok? always. de cabelo máquina 0. ao eixo. oitenta anos. equivalência: eu. sem dramas. deu. e lembrei de ti no clip. o tempo é um só. você. belo. para o mundo dura mil anos. desse. daria. dará. crise passa. pra te re-reconhecer. para que eu esqueça tua camisa de algodão vagabundo e vá procurar na semana seguinte um encontro com outro maldito. de como procuro uma espinha nova ou um sinal novo na tua pele. aos porões. sem dramas. pudera. o mundo. só que o que dura em mim uma semana. duro oitenta anos no máximo. à peste negra. a cada reencontro. e o que me desnuda entre um jeans e outro eu chamo arbitrariamente de crise. quanto ao mundo. aos aliados. toujours.

no. pp 77 – 123. Fire Alarm: Reading Walter Benjamin’s On the Concept of History (London: Verso. (São Paulo: Editora Graal. 2005. Novos Estudos/CEBRAP. 35 36 . Inc.br/scielo. October. http://transform. Benedito Nunes (Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. The Ethics of Psychoanalysis 1959-1960: The Seminar of Jacques Lacan Book VII (NY: W W Norton & Co. pp 11-23. 1972).. no Departamento de Jornalismo. Tese de Doutorado. 72.scielo. op.net/transversal/1007/bifo/ en#redir Andy Warhol. A Microfísica do Poder. 176-179. Outono de 1993. Junho.23. Além da Pureza Visual (Porto Alegre: Editora Zouk. 1998) pp. Michel Foucault. Jacques Derrida.BIBLIOGRAFIA Roland Barthes. 2007). The Pathologies of Hyper-Expression. 53 (1990). defendida na University of British Columbia. em 01 de setembro de 2009. ECA–USP. (2007). The Critique of Judgement. As Tensões da Fotografia: entre o real e a ficção. http://www. In The Art of Art History: A Critical Anthology. Tradução de Arianna Bove. The Emergence of Cultural Studies and the Crisis of the Humanities. 76 – 98. Donald Preziosi (Oxford: Oxford University Press. 62. Sir Thomas More and the Art of Dialogue. 1975).eipcp. 2007). Thesis on the Philosophy of History. Aesthetics and Anasthetics: Walter Benjamin’s Artwork Essay Reconsidered. Manifesto Antropófago. Ed. 1973) p. cit. Michael Lowy. Susan Buck-Morss. October. In Oswald de Andrade: Do Pau-Brasil à antropofagia e às utopias. Margins of Philosophy. Philippe Dubois. Romuald Ian Lakowski. no. Franco Berardi (Bifo). Demasiadamente Pós-Humano. 1992: 3 – 41. Leyla Perrone-Moisés (São Paulo: Editora Cultrix. The Philosophy of Andy Warhol (From A to B and Back Again) (New York: Harcourt Brace & Company. 2006) p.php?pid =S010133002005000200009&script=sci_arttext Stuart Hall. Palestra ministrada no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Comunicação. 1980). Ricardo Basbaum. Trad. Laymert Garcia dos Santos. Aula. In. 1992). Emaneul Kant. Oswald de Andrade. Laymert Garcia dos Santos. Jacques Lacan. Tradução Alan Bass (Evaston: North Weston University Press. Vol. org. Walter Benjamin.

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SC . 2010 Fonte Neue Helvetica Papel Superbond 75 g/m² Tiragem 1.COLOPHON Autores Daniela Castro e Fabio Morais Coordenação Editorial Regina Melim Design Giorgia Mesquita Revisão Carolina Mestriner Par(ent)esis Florianópolis . Brasil .000 Impressão e acabamento Impressora Mayer Ltda .

Geralmente utilizado em notas de rodapé.SOBRE A CAPA O elemento tipográfico da capa chama-se adaga dupla ou obelisco duplo. também serve para indicar o ano da morte ou o nome de pessoas falecidas. . Nos textos clássicos é usado para marcar passagens tidas como duvidosas.