Universidade Federal de Santa Catarina

Centro de Comunicação e Expressão
Departamento de Língua e Literatura Vernáculas
Diciplina: Teoría Literária IV
Aluna: Nadir Maria Dutra Matos
Relatório III

Para entender este ensaio é preciso compreender antes a história da
colonização, pois o discurso latino-americano foi influenciado pela cultura da
metrópole por ser sua colônia.
Silviano Santiago mostra dois aspectos que nos guiam ao entre-lugar do
discurso latino-americano na fase do colonialismo e do renascimento: O ontem e o
hoje. Fica bem claro nas entrelinhas que não havia entendimento entre brancos e
índios pois ambos tinham princípios diferentes. Para os brancos, importava as ciências
sociais ligadas diretamente à palavra de Deus, ao passo que aos índios importava as
ciências naturais, que era fonte da divindade religiosa, ou seja, eles acreditavam no
verdadeiro acontecimento do milagre de Deus na natureza. A religião e a língua
européia serviram como instrumentos de controle, e sua arbitrariedade está na luta
contra o extermínio dos traços originais dos selvagens. Na verdade os colonizadores
queriam acabar a todo momento com esses traços. À partir do entre-lugar podemos
entender que a exclusão do índio e do negro no plano nacional, se traduz também em
um voltar as costas eurocêntrico para a África e América Hispânica.
O entre-lugar propõe que o escritor latino-americano é obrigado a trabalhar
com formas-prisões, e uma das coisas que destaca é que a forma prisão é sempre
original, ela é imposta de fora. É aquele exterior com o qual temos que conviver, e na
medida do possível devemos transgredir para que surja uma voz que tenha
originalidade e não seja mera cópia.
Este “Entre-lugar” foi criado por Silviano como forma de observação, análise
ou interpretação. Não é nem cá, nem lá, mas é um determinado entre que tem que ser
inventado pelo leitor e que fica entre o verdadeiro e a cópia. Santiago almejava
compreender o lugar ocupado pelo discurso literário latino-americano em relação ao
europeu, não mais a partir da perspectiva de que o europeu seria a fonte e a influência
dos textos latino-americanos, mas enfocando o modo como o discurso literário latinoamericano reescrevia o já-escrito.
Santiago discute aqui o lugar que ocupa o discurso literário do Brasil e das
Américas em confronto com o europeu, e se pergunta a respeito do que é produzir
cultura e literatura em província ultramarina, analisando as relações entre as duas
civilizações completamente estranhas uma à outra, cujos primeiros encontros
situaram-se no nível da ignorância. Para ele o renascimento colonialista está na
origem de uma nova sociedade mestiça , cuja principal característica é a reviravolta
que sofre a noção de unidade e pureza contaminada em favor de uma cultura sutil e
complexa que se dá entre o elemento europeu e o indígena, associada a infiltração
progressiva efetuada pelo pensamento selvagem, que leva à abertura do único
caminho possível para a descolonização.
Esse espaço aparentemente vazio, templo e lugar de clandestinidade, seria o
lugar do ritual antropófago da literatura latino americana, no qual ela se realiza, “entre
o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a submissão ao código e a

agressão, entre a obediência e a rebelião, entre a assimilação e a expressão”.
(Santiago- p.15).
E por falar em discurso, me reporto agora para a novela de “Herman Melville”
e trago a tona a expressão que o copista deixou intrigado não só o narrador, mas
também o leitor, o “Prefiro não fazer”, que diante de tamanha resignação, deixam
estupefatos todos aqueles que se envolvem com a história.
Narrado por um advogado que trabalha num escritório com seus três
funcionários, que apesar de suas particularidades no comportamentos, de nada
influenciam na narrativa, apenas servem para demonstrar, segundo o narrador, que
eles de certa forma fazem com que haja um equilíbrio perfeito no escritório. Segundo
o advogado, que descreve o ambiente como de certa forma opressor, pois é uma sala
cercada de prédios com paredes de tijolos enegrecidas, tudo transcorre bem, mas ele
decide contratar um outro funcionário devido ao grande aumento de atividade no
escritório.
O mais novo integrante chama-se Bartleby, e é logo instalado atrás de um
biombo que fica entre a sala do chefe e a dos demais funcionários. Ele a princípio
mostra-se competente para a profissão de copista, um trabalho de certa forma
monótono e cansativo, que consiste em copiar inúmeras páginas de processos. Até que
um dia o advogado o requisita, junto com os outros colegas, para que seja feita uma
revisão nas cópias, e eis que de repente ele vem com esta resposta de “prefiro não
fazer”, e é a partir daí que tudo começa a se complicar, pois sempre que é mandado
fazer algo, se esquiva e a resposta é sempre a mesma, chegando por fim a não tirar
mais cópias. O advogado indignado até tenta entender suas atitudes, mas não chega a
lugar nenhum, até um dia, para piorar a situação, descobre que Bartleby faz do local
de trabalho a sua casa.Neste meio tempo, o narrador perde a paciência e fica obcecado
de tanto tentar descobrir o por quê de tudo isso. O que levaria tal pessoa a agir
daquela forma tão estranha e quem era na verdade aquele homem. E assim segue a
novela, e o leitor, tanto quanto o narrador, ficam na angústia de saber os motivos que
levaram o copista a agir daquela forma.
Herman Melville segue conduzindo a novela com um certo mistério e
algumas reflexões feitas pelo próprio narrador sobre o dito funcionário, as quais
ocupam a maior parte da obra. A falta de motivos desperta a curiosidade do narrador.
Diversas são as formas com que o advogado tenta para uma aproximação com o dito
cujo, mas nenhuma delas faz com que consiga identificar, o que leva-o a agir
daquela maneira tão excêntrica. E como ele nada fala, o narrador fica angustiado por
esta experiência de não encontrar sentido em coisa alguma.
A linguagem bloqueia a comunicação e tanto narrador como o leitor ficam sem
resposta e essa busca do advogado incita também no leitor o desejo de chegar no final
e saber o que vai acontecer.
Agambem ao indagar acerca dos pressupostos implicados na privação da
função de escrivão a que se abandonara Bartleby, transforma a análise deste
paradigma numa das mais densas meditações que são inerentes ao exercício da sua
condição de escritor e filósofo, apresentando simultaneamente as figuras e os modos
que compõe o seu método.
Em se tratando de Bartleby, Agambem se utiliza para explicar a escrita da
potência através das três imagens distintas que no decorrer do texto dialogam e
constroem a leitura do texto de Melville. A primeira dessas imagens é a da “tabuinha
de escrever” de Aristóteles, que transforma a criação do mundo num processo de
escrita. Num segundo momento o autor busca em Escoto Eriúgena, um certo leitor de
Aristóteles, a imagem de abismo como possibilidade infinita de criação. Finalmente,

quase no final do texto, Agambem retira de Leibniz a imagem de Pirâmide do
Destino, lugar onde estão inscritos, além do mundo real, todos os mundos possíveis.
Nos três casos , a reflexão que o autor propõe é sobre a mesma questão, ou seja, a
potência. Este termo compreendido sempre em sua forma de poder ser ou fazer algo é
ao mesmo tempo, não ser e não fazer.
É a esta constelação filosófica que Bartleby, o escrivão, pertence. Como
escrivão que cessou de escrever, ele é a figura extrema do nada, de onde procede toda
a criação e, ao mesmo tempo , a mais implacável reivindicação deste nada como pura,
absoluta potência. Surge assim a imagem da “tabuinha de escrever” encerada, na qual
ainda não há nada escrito, mas que justamente por isso, carrega em si a possibilidade
de ter qualquer coisa escrita sobre sua superfície. A tabuinha é como Aristóteles diz, é
o intelecto da potência. O escrivão tornou-se essa “ tabuinha de escrever”, e nada
mais é agora que a sua folha branca.
Não surpreende , portanto, que ele se demore assim obstinadamente no abismo
da possibilidade e não pareça ter a mínima intenção de dele sair. Se Bartleby renuncia
ao condicional, é só porque lhe interessa eliminar todo o vestígio do verbo querer.
Mas a potência não é a vontade, e a impotência não é a necessidade. Crer que a
vontade tenha poder sobre a potência, que até chegar ao ato seja resultado de uma
decisão, põe fim à ambiguidade da potência ( que é sempre a de fazer e não fazer).
(Agambem p.25)
Os teólogos medievais viam em Deus uma potência absoluta, segundo a qual
ele pode fazer qualquer coisa, e uma potência ordenada, segundo a qual ele pode fazer
somente aquilo de acordo com a sua vontade. A vontade é o princípio que consente
pôr ordem no caos indiferenciado da potência. Bartleby repõe essa questão de que a
vontade seja superior a potência. Se Deus pode verdadeiramente tudo o que quer,
Bartleby pode somente sem querer, pode só de potência absoluta. Esta é a fórmula de
potência de Bartleby, aquela tantas vezes repetida por ele, que destrói qualquer
possibilidade de construir uma relação entre poder e querer, pois ele não consente e
nem recusa, apenas “prefere não fazer”. (Agambem p.26)
Bartleby é um copista de leis, um escriba no sentido evangélico, e a sua
renúncia a cópia é também uma renúncia à lei, um libertar-se da “antiguidade da
letra”. A interrupção da escrita marca a passagem à criação segunda, na qual Deus
reclama para si a sua potência de não ser, e cria a partir do ponto de indiferença de
potência e impotência. A criação que agora se realiza não é uma criação nem uma
repetição eterna, mas, antes, uma decriação, na qual o que foi e o que não aconteceu
são restituídos à sua unidade originária na mente de Deus, e o que podia não ser e
aconteceu, se esvai no que podia ser e não aconteceu.(Agambem, p 47)
Os críticos viram em Bartleby uma figura de Cristo, que vem para abolir a
velha Lei e para inaugurar um novo mandamento. Mas se Bartleby é um novo
Messias, ele não vem como Jesus, para redimir o que aconteceu, mas para salvar o
que não aconteceu.