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O livro de Simon Winchester, "The Professor and the Madman", conta a história
excepcional do mais importante editor do Oxford English Dictionary, o qual
levou quase 80 anos para ficar pronto. Trata-se do lexicógrafo James Murray.
Seu sistema era simples: democratizar o dicionário. Ele pedia a qualquer
interessado que lesse livros com atenção e mandasse para Oxford citações
relevantes, que eram coligidas por sua equipe, checadas e então entravam nos
verbetes. Sem computadores ou qualquer tecnologia arquivística sofisticada,
ele fazia o trabalho com apenas quatro pessoas.
O texto abaixo é a introdução ao OED, em que ele explica o que é e como deve
ser estudada uma língua viva.
Mais informações sobre Murray podem ser conseguidas na biografia escrita por
sua neta. K. M. Elizabeth Murray, "Caught in the Web of Words", publicada em
1977.

EXPLANAÇÕES GERAIS
James Murray
(in OED, volume 1, Clarendon Press, 1933, pp. xxvii - xxviii)

O vocabulário de uma língua muito difundida e altamente cultivada não é uma
quantidade circunscrita, definida por limites. O vasto agregado de palavras e de
expressões que constitui o vocabulário dos falantes do inglês apresenta, para a
mente que pretende englobá-lo como um todo definido, o aspecto de uma
dessas massas nebulosas familiares ao astrônomo, nas quais um claro e
inequívoco núcleo se esvanece para todos os lados, por zonas de brilho
decrescente, para quase desaparecer em uma lâmina marginal que parece não
terminar nunca, mas sim perder-se imperceptivelmente na escuridão em volta.
Em sua constituição, pode ser comparado a um desses grupos naturais do
zoólogo ou botânico, no quais espécies típicas que formam o núcleo
característico da ordem estão por todo lado ligadas a outras espécies, nas
quais o traço típico é cada vez menos aparente, até desaparecer em um limite
externo de formas aberrantes, que se fundem imperceptivelmente nas várias
ordens circundantes e cuja própria posição é ambígua e incerta. Para
conveniência de classificação, o naturalista pode traçar a linha que limita uma
classe ou ordem, dentro ou fora de uma forma particular. Mas a natureza não a
traçou em lugar algum. Assim, o vocabulário inglês contém um núcleo ou
massa central de muitos milhares de palavras cuja "anglicidade" não é
questionada. Algumas delas literárias, algumas apenas coloquiais, a grande
maioria ao mesmo tempo literária e coloquial, elas são as Palavras Comuns da
língua. Todavia elas estão ligadas por todos os lados com outras palavras que
cada vez menos merecem esse nome e que pertencem cada vez mais e mais
distintamente ao domínio do dialeto local, à gíria e linguajar de "conjuntos" ou
classes, a tecnicalidades peculiares de negócios e processos, à terminologia
científica comum a todas as nações civilizadas, à língua atual de outras terras e
povos. E não existe absolutamente nenhuma linha definidora em qualquer
direção: o círculo da língua inglesa tem um centro bem discernível, mas não

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uma circunferência.
<< científico --- literário --- estrangeiro >>
comum
<< técnico --- coloquial --- dialetal >>
gíria
O diagrama acima se explica sozinho, como uma tentativa de expressar para os olhos o
aspecto no qual o vocabulário é aqui apresentado e também algumas relações entre seus
elementos, tanto típicos como aberrantes. O centro é ocupado pelas palavras "comuns", nas
quais os usos literário e coloquial se encontram. Palavras "científicas" e "estrangeiras" entram
na linguagem comum principalmente por meio da literatura; "gíria" ascende por meio do uso
coloquial; os termos "técnicos" dos ofícios e processos e as palavras "dialetais" fundem-se com
a língua comum tanto na fala como na literatura. A gíria também toca por um lado a
terminologia técnica dos negócios e ocupações, como na "gíria náutica", "gíria de escola
pública", "gíria do mercado de ações" e, por outro, passa ao verdadeiro dialeto. Da mesma
forma, palavras dialetais formam um contínuo com as línguas estrangeiras. A terminologia
científica continua, de um lado, com palavras puramente estrangeiras e, de outro, funde-se
com o vocabulário técnico das artes e manufaturas. Não é possível fixar o ponto onde a "língua
inglesa" para, em nenhuma dessas linhas divergentes.

Ainda assim, a utilidade prática tem certos limites e um dicionário tem fronteiras
definidas: o lexicógrafo deve, como o naturalista, "traçar a linha em algum
lugar", em cada uma das direções divergentes. Ele deve incluir todas as
"palavras comuns" da literatura e da conversação e aquelas palavras
científicas, técnicas, gíria, dialetais e estrangeiras que passam ao uso comum e
que se aproximam da posição ou estatuto de "palavras comuns", já sabedor de
que a linha que traçar não irá satisfazer todos os seus críticos. Pois para todo
homem o conjunto das "palavras comuns" se expande na direção de sua
própria leitura, pesquisa, negócio, residência provincial ou no exterior e se
contrai na direção na qual ele não tem conexão prática. Nenhum inglês de um
homem é todo o inglês. O lexicógrafo deve se dar por satisfeito em exibir a
maior parte do vocabulário de cada um, o que será imensamente mais que
todo o vocabulário de qualquer um.
Em adição ao, e atrás do, vocabulário comum, em todas suas linhas
divergentes, fica um número infinito de nomes próprios ou meramente
denotativos, exteriores à província da lexicografia, mas ainda assim tocando-a
em milhares de pontos, nos quais esses nomes, e ainda mais os adjetivos e
verbos formados sobre eles, adquirem valor mais ou menos conotativo. Aqui
também, limites mais ou menos arbitrários têm de ser assumidos.
A língua ainda apresenta outra fronteira indefinida, quando é vista com relação
ao tempo. O vocabulário vivo não é mais permanente em sua constituição que
definido em sua extensão. Ele não é hoje o que era um século atrás, menos
ainda o que será um século no futuro. Seus elementos constituintes estão em
um estado de lenta mas incessante dissolução e renovação. "Palavras antigas"
a toda hora tornam-se obsoletas e morrem; "palavras novas" estão sempre
pressionando para entrar. E a morte de uma palavra não é um evento cuja data
possa ser determinada; é um processo evanescente, que se estende por um
longo período, cujo fim os contemporâneos nunca veem. Nossas próprias
palavras nunca se tornam obsoletas: são sempre as palavras de nossos avós

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que morrem com eles. Mesmo depois que deixamos de usar uma palavra, sua
memória sobrevive, e a própria palavra sobrevive como possibilidade. É só
quando não resta ninguém para quem seu uso seria ainda possível que a
palavra está completamente morta. Assim, existem muitas palavras das quais é
duvidoso dizer se devem ainda ser consideradas parte da língua viva; estão
vivas para alguns falantes e mortas para outros. E, por outro lado, existem
muitas reclamantes por admissão no vocabulário reconhecido (onde algumas
irão certamente algum dia ser admitidas) que já são correntes com alguns
falantes e escritores e, ainda assim, para outros, não são "bom inglês", ou
mesmo inglês algum.
Se tratarmos a divisão entre palavras correntes e obsoletas como uma
subordinação e estender nossa ideia de língua de tal forma a incluir tudo o que
foi inglês desde o início, ou a partir de uma época particular, entraremos em um
departamento do assunto no qual, dada a natureza do caso, nossa exibição
deverá ser imperfeita. Pois o vocabulário dos tempos passados só nos é
conhecido a partir de sua preservação em registros escritos. A extensão de
nosso conhecimento acerca dele depende inteiramente da completeza dos
registros e da completeza de nossa familiaridade com eles. E quanto mais para
trás nos dirigimos, mais imperfeitos são os registros e menor é o fragmento do
vocabulário real que poderemos recuperar.
Sujeitos às condições que assim delimitam toda tentativa de construir um
completo Dicionário do Inglês, o presente trabalho objetiva exibir a história e
significado de palavras inglesas atualmente em uso, ou que se saiba terem
estado em uso, a partir de meados do século doze. A data foi escolhida como o
único ponto natural, evitando que se fosse até os primeiros tempos, de forma a
incluir todo o vocabulário do Old English ou Anglo-Saxão. [...]

Traduzido por Vittorio Pastelli

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