De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio

(1541-1493 a.C.).
Fábio Frizzo
Dossiê Impérios

De Kamés a Amenhotep I:
a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze
Tardio (1541-1493 a.C.).
Fábio Frizzo

Mestre em História pelo PPGH-UFF, professor da UCAM e da UVA
e integrante do NIEP-PréK (seção pré-capitalista do Núcleo
Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Marx)
fabio.frizzo@gmail.com

Resumo: O presente artigo analisa o final do Segundo Período Intermediário e
o início do Reino Novo no Egito Antigo com o objetivo de demonstrar a criação
das bases políticas, econômicas e militares para construção do Império Egípcio
no Oriente Próximo.
Palavras-chave: Antigo Egito. Reino Novo. Imperialismo.

 
From Kames to Amenhotep I:
The foundation of the bases of the Egyptian Empire in
the Late Bronze (1541-1493 B.C.).
Abstract: The paper analyzes the final decades of the Second Intermediate Period
and the beginning of the New Kingdom of Ancient Egypt, our aim being to show
the creation of the political, economical and military bases to the construction
of the Egyptian empire in the Near East.
Keywords: Ancient Egypt. New Kingdom. Imperialism.

No princípio de tudo, fez-se a ordem. Da colina primordial, cercada das águas de Nun,
criou-se o demiurgo. A partir deste momento, determinou-se a dualidade que serviu de
quadro de referência para o pensamento egípcio durante milênios: ordem e caos, masculino
e feminino, Alto e Baixo Egito etc1. A matéria por baixo deste mito não foi, contudo, a tal
1 Gertie Englund. “Gods as a Frame of Reference. On Thinking and Concepts of Thought in Ancient Egypt”. In:_____
(Edit.). The Religion of the Ancient Egytians: Cognitive Structures and Popular Expressions. Uppsala: Acta Universitatis Upsaliensis, 1987. pp. 7-28.

R. Mest. Hist., Vassouras, v. 12, n. 1, p. 25-40, jan./jun., 2010
25

C. 135. mas também os cientistas sociais. I. Cambridge: Cambridge University Press. como também à ocupação estrangeira de parte das terras de Kemet.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. ao sul as cataratas do Nilo. Seus primeiros habitantes instalaram-se nas margens do Nilo a partir de 5. portanto. marcada pelo deserto que isolava o Vale entre duas cadeias de formações rochosas. uma economia que não necessitava de contatos exteriores para a manutenção da população ou mesmo de um desenvolvimento apurado dos meios de produção. n. O Homem Egípcio./jun. “O Soldado”. Os antigos egípcios conviviam com a dualidade geográfica de seu país. Esta expansão englobante da ideologia egípcia está ligada não apenas ao processo imperialista do Reino Novo. The sources of social power. 2 vols. Se a topografia isolou-os geograficamente.). que. R. 1994. Monografia de Conclusão de Curso. a partir do Reino Médio. A experiência singular dos egípcios de autosuficiência levou-os à associação de kemet ao universo organizado. Maria Jorge Vilar de Figueiredo.C. 110-4. 25-40. dependentes do “sopro da vida” dado pelo faraó4. Hist. Ideologia Real e Ideologia Particular (1550-1069 a. Mais importante do que a definição do seu perímetro era a autosuficiência resultante da fertilidade das terras. A simetria dualizante de kemet era desheret. 2008. portanto. formando um país muito mais longitudinal que latitudinal. sacralizando as terras ao redor do Nilo e garantindo sua posse ao herdeiro divino do demiurgo: o faraó. bem como as modificações na religião a partir do Reino Novo estão presentes em minha monografia. Trad.). 1.C. Fábio Frizzo Dossiê Impérios colina primordial. que precede este período. A disposição física geral do Egito definiu-se há cerca de 25 mil anos. jan. O Antigo Egito tinha. seja a primeira ou. Lisboa: Editorial Presença. a terra vermelha. Até meados do século XVIII a. Sua principal característica eram os solos aluviais do Vale e do Delta do rio. a natureza proporcionou. inundados anualmente durante a estação da cheia entre os meses de julho e novembro. e. 4 Alguns dos aspectos teóricos do tratamento da visão de mundo egípcia como ideologia. a saber. 12. No Reino Novo.. outrossim. que. Mest..). que cunharam teorias como a do “efeito de confinamento”2 ou a lógica da “insularidade”3 do território de kemet para demonstrar o isolamento daquele povo na estreita faixa de terra ao longo do rio. Na visão de mundo egípcia somente os habitantes de kemet eram agraciados com o direito de habitar o mundo organizado. fronteiras bem definidas: a leste e a oeste o deserto. 3 Sheihk ‘Ibada Al-Nubi. o Egito passou a perceber a totalidade de seu território através da lógica do universo autônomo e ordenado.C. p. o Egito nunca tinha 2 Michael Mann.500 a. desenvolveram o topônimo kemet ou “terra negra” para seu habitat. Vassouras. A força da geografia egípcia orientou não só os seus habitantes. erguia-se no mar de caos de desheret. v. ao norte o Mediterrâneo. 2010 26 . como no mito. portanto. As Representações Funerárias do Reino Novo. em conjunto com outros fatores naturais. abastecidas anualmente de detritos orgânicos provenientes da reviravolta da terra do fundo do rio quando da cheia – ligada tanto a chuvas na sua nascente quanto ao desgelo das montanhas etíopes. 1986. considerando-se todos os outros como agentes do caos. pp. orientou a lógica daquela visão de mundo. Uma vez unificado. In: Sergio Donadoni (Dir. através da convivência com o meio ambiente. em fins do Reino Médio. p.. a ideologia interna passou a considerar os estrangeiros como habitantes do mundo criado pelo demiurgo e. Niterói: Universidade Federal Fluminense. a segunda. Fábio Frizzo.

As circunstâncias do norte do país já vinham se modificando desde a XIIIª Dinastia.). Fábio Frizzo Dossiê Impérios sofrido ocupações de sua terra sagrada. incluindo a antiga capital egípcia de Mênfis. com a presença dos invasores hiscos. n. incluindo uma vasta gama de povos e cidades-Estado localizados no território. A situação mudou por volta da XIVª dinastia. a partir da XIIª Dinastia (1937-1759 a.C.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. cuja versão grega resultou no termo pelo qual são chamados comumente na egiptologia: hicsos. Núbia é o termo criado após a expulsão dos romanos para caracterizar genericamente as terras do Vale do Nilo ao sul de Aswan. R. por outro lado. quando o faraó Ay resolveu escolher as proximidades da cidade de Avaris e não a capital Mênfis como sua morada para a eternidade. Se a fragmentação do poder egípcio facilitou a invasão dos hicsos. Na época os egípcios pensavam o sul a partir da dualização Wawat (Baixa Núbia) e Kush (Alta Núbia). no Reino Médio. servindo tanto para o comércio quanto para o recrutamento de mercenários núbios conhecidos como medjayw. p. e o surgimento do poder tebano da XVIIª Dinastia. os “príncipes das terras estrangeiras” compuseram a XVª Dinastia e controlaram a região do Delta entre os anos de 1636 e 1528 a. o que sugere a fragmentação da região do Delta.C. pois neste período foi possível um acréscimo considerável na produção da região através da implantação de tecnologias de irrigação até então desconhecidas na região. determinado por três processos: a perda da Núbia./jun. Tal situação acabara com o início do Segundo Período Intermediário. príncipes das terras estrangeiras. assim como armamentos feitos de um bronze de melhor qualidade ou mesmo arcos compostos. originário da Palestina e associado iconograficamente aos guerreiros do reino de Mitanni. 1. 12. reconhecia a soberania dos hicsos. onde hoje se encontra Luxor. Vários colonos estabelecidos nos fortes. Hist. herdeira teórica do legado do Reino Médio. A situação tornava-se ainda mais complicada pela presença ali de um povo. uma guerra de conquista em busca da preeminência nesta área. 2010 27 .).. todavia. ou seja. 25-40. Vassouras. a divisão do Delta em pequenos reinos. O próprio título principesco de hekaw khaswt é um dos indícios que demonstra o fato de que a dinastia tebana. Reinando a partir de Avaris (que teve sua localização recentemente descoberta por uma missão austríaca na cidade de Tell al-Dabaa). Estes ficaram conhecidos pelos egípcios como hekaw khaswt. hoje dividido entre o Egito e o Sudão. Ao contrário dos exércitos de kemet. cujo governo justificava-se nas bases comuns da monarquia faraônica. o que praticamente dobrava o alcance das flechas. A maioria dos habitantes do Delta não parecia se importar com o governo dos asiáticos. O terceiro processo que ajuda a caracterizar o II Período Intermediário é o surgimento da XVIIª Dinastia egípcia. os asiáticos já estavam habituados ao uso em larga escala de cavalos e carros de guerra no campo de batalha. liderada pela cidade-Estado de Kerma. na primeira catarata.C. com um território que se estendia até a cidade de Cusae. quando uma confederação kushita.. jan. Guarnições foram estabelecidas em fortes construídos até a segunda catarata.. a superioridade técnica e tecnológica deste povo mostrou-se um fator fundamental para sua ocupação. retomou as terras sob ocupação egípcia. v. como o mecanismo de contrapeso conhecido como shaduf. Mest. que controlava o Alto Egito a partir de Tebas5 e estendia suas 5 Nome grego dado à cidade conhecida pelos egípcios como Waset. permaneceram no território. A visão da terra negra como espaço sagrado destinado aos egípcios justificou.

n. Garner (org.. – que estava em Avaris e toda a terra estava submetida a ele com seus direitos (. 9. 2010 28 . Entretanto. 1982. Fábio Frizzo Dossiê Impérios fronteiras até Aswan. Mest. p. Forbes & G.. saúde – ou rei do período. War in Ancient Egypt. foi mal sucedida. A angústia estava na cidade dos asiáticos. jan. 1993.C. na qual o primeiro mostra todo seu incômodo e discorda dos funcionários: Sua Majestade falou em seu palácio ao Conselho dos notáveis de seu séquito: – Que eu compreenda isto: Para que serve o meu poder? Há um chefe em Hutuaret9. 1. O tratamento de ambos como governantes legítimos do Egito fica claro a partir de uma fonte do período. 9 Topônimo egípcio renomeado pelos greco-romanos como Avaris. nas quais está registrada a batalha entre os dois governantes. ao mesmo tempo. A tensão nas relações com o reino asiático no norte chegou a ser caracterizada por Anthony Spalinger como uma guerra fria6. Princeton: Princeton University Press. um outro em Kush. 8 C. localizado atualmente na cidade de Tell ElDaba. Uma vez iniciado o conflito entre o Alto e o Baixo Egito.)8. p. O documento de referência para o período é a inscrição de guerra de Kamés.. A insatisfação com a fragmentação do país permanecia. acontece que a terra do Egito está angustiada. Vassouras. para o trono de Tebas como seu vassalo.) Documents of The Egyptian Empire (1580-1830 a.p.p. v. Melbourne: The Australian Institute of Archaeology. bem como havia o aparecimento de uma tentativa de deslegitimar a posição de Apophis como legítimo faraó.. demonstra o conflito entre eles e a superioridade do rei asiático: Agora. Eu permaneço associado a um asiático 6 Anthony Spalinger. possivelmente em batalha. 125. a monarquia tebana desenvolveu uma forma centralizada de governar seu território e teve que conviver com o controle estrangeiro na terra negra sagrada. de parte do príncipe Apophis – v. p. Egypt. A ação. contudo. uma vez que sua múmia foi encontrada com ferimentos no crânio feito por um machado de perfuração.C./jun. O texto contém – fato raro! – tradução original em português e é iniciado com uma discussão entre o faraó e seus conselheiros da djadjat – órgão coletivo não militar –.). p. terminando com a morte de Seqenenrá. composta por duas estelas. 7 Donald Redford. Hist. prosperidade. 12. Certamente descontente com a presença de um estrangeiro que reivindicava poder sobre o Egito.s. Não há Senhor – vida. 2005. restou ao sucessor de Seqenenrá II abraçar o seu legado e levar à frente a guerra. Oxford: Blackwell Publishing. que utiliza a saudação clássica aos reis para os dois e. foi desse governante que partiu a primeira ofensiva contra os hicsos7.). Seqenenrá II aproveitou a crescente centralização do poder do Alto Egito em suas mãos e forçou um ataque contra os asiáticos. 25-40. de uso característico dos hicsos do período.s. acontece que o rei Seqenenrá – v. Ainda que Donald Redford afirme que alguns egiptólogos acreditam que o faraó Seqenenrá II possa ter sido nomeado por Apophis. Canaan and Israel in Ancient Times. rei em Avaris.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. R. Num período de aproximadamente um século. – era governante da Cidade Meridional [Tebas]. 1.

48. que se perde na tradução.. 54. Cit. 25-40.. 35-36. que discorda das orientações para agir defensivamente e manter o estado apresentado na citação acima. formal. Op. considerado atualmente autor do texto ao contrário das teorias antigas que acreditavam que o próprio Kamés havia concebido a narrativa e ordenado a sua inscrição. Cit.. 12. Ibidem.) o governante no interior de Tebas./jun. Op. Sydney: Kaleidoscope Eyes. é chamado de nacionalismo xenófobo14. Sydney: Kaleidoscope Eyes. 2. através de uma caracterização identitária baseada na alteridade. A lealdade do Egito não vai além dele (= não ultrapassa os domínios do rei hicso Apophis) até Mênfis [que seja]. 1982. 13 Idem. abrir-lhe-ei o ventre. Este documento é singular dentro do conjunto da literatura militar egípcia. Se eu lutar com os asiáticos. despojado pelos impostos dos asiáticos. Op. 14 O termo nacionalismo é utilizado em Anthony Spalinger. Imperialism in Early New Kingdom Egypt. 54. War in Ancient. Nenhum homem tem repouso. New Haven and London: Yale University Press. Eles (= os conselheiros) foram desagradáveis ao coração de Sua Majestade: – Quanto ao vosso conselho (. Kamés rejeita o ambiente pacífico estabelecido no decorrer do II Período Intermediário e apela perceptivelmente. pois meu desejo é libertar o Egito e golpear os asiáticos10.. pp. R. o sucesso virá.. 1. anacronicamente. p. jan. aquele que protege o Egito13! Ao contrário de seus conselheiros. Mest. Cit. Estes são desvalorizados pelo escriba Neshi.. 2002. p. Cit. o faraó é apresentado em uma discussão com seus conselheiros. cada homem possuindo a sua fatia do Egito. o país inteiro (. algo impensável dentro da lógica dos relatos anteriores. Deverei eu respeitar estes asiáticos? Eu navegarei corrente abaixo até chegar ao Baixo Egito... distante da forma tradicional de utilização da primeira pessoa para introduzir os feitos bélicos do faraó11.C. aceita literariamente séculos mais tarde. p. Vassouras. 12 Ciro Cardoso. Fábio Frizzo Dossiê Impérios e a um núbio. Mas eu lutarei contra ele. principalmente pela forma destas primeiras linhas. Ressalta-se a valentia e a visão superior do monarca. p. entre dois tipos de linguagem: o médio egípcio literário.. n. e a xenofobia aparece em BUSBY. v. Um tipo diferente de narrativa introduz o texto. partilhando comigo o país. Aspects of the Military Documents of the Ancient Egyptians. 14 O termo nacionalismo é utilizado em Anthony Spalinger. p. e uma forma do falar coloquial. p. 13 Ciro Cardoso..De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. chefe dos tesoureiros. Op. Ciro Cardoso acentua que a qualidade literária das Estelas de Kamés está muito acima dos outros relatos de campanhas do Egito e contém um jogo textual.). 2002. batizada pelos egiptólogos de neo-egípcio12. para um discurso baseado no que. Russel. e a xenofobia aparece em BUSBY. 11 Anthony Spalinger. Kamés. Se ele crê estar contente com (. em pranto.. Imperialism in Early New Kingdom Egypt..) [Lacuna considerável] Aquele que divide a terra comigo não me respeitará. Russel. 2010 29 . Hist. War in Ancient. Na narrativa. 2.. já que ele está de posse de Khemenu..).

não apresentou dificuldades para ser tomada pelas tropas de Kamés. 48. estando alegre o seu coração15. 1./jun. A cidade de Nefrusi. 20. 12. Em Avaris. não deixa de ser um pedido desesperado de auxílio do rei asiático. a interpretação de Newby parece-nos descuidada tanto ao utilizar a terminologia dos “proprietários de terra”. v. isolando a primeira cidade e não deixando alternativa distinta da rendição.C. p. que em determinada estação alimentava-se no Delta16. referente à tomada da cidade de Nefrusi: Meus soldados. de fato. uma vez que a dominação daquele povo já durava um tempo considerável. 25-40. rei-deus responsável pelo extermínio dos agentes do caos. tudo que as tropas tebanas tinham que fazer era passar por ela. nos quais os soldados apoderavam-se de alimentos. Op. azeite de untar e mel. Newby afirma que grandes proprietários de terras egípcios toleraram o regime tirânico e explorador dos asiáticos e os apoiaram em troca da possibilidade de assegurar pastagens para seu gado. jan. London & Boston: Faber and Faber. conforme descrito no seguinte trecho. Para além de simples meio de transporte das tropas. dirigir-se ao norte e conquistar as localidades próximas. que. Newby. Não nos é difícil pensar que alguns egípcios tenham. semelhantes a leões. Kamés não parece ter tido muita dificuldade para chegar às muralhas da capital asiática do Delta na cidade de Avaris. Fábio Frizzo Dossiê Impérios No decorrer do texto.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. gado. complementado a partir dos saques. p. quanto ao presumir – pelo que acreditamos ser uma leitura superficial das fontes egípcias – que a dominação era tirânica e exploradora para todos. o saque feito pelo exército de Kamés ao porto da cidade. H. percebemos a importância da marinha para o tipo de guerra planejada por Kamés. quando uma cidade apresentava um nível maior de resistência. Assim. estavam carregados do produto de seu saque. A personalização da guerra na figura do faraó. n.).. a frota foi colocada em ordem. Warrior Pharaohs. p. contudo. para iniciar o cerco. os navios eram responsáveis pelo seu abastecimento. aparece claramente nos discursos da fonte em que ele é mostrado como ator principal tanto do cerco. uma vez que mesmo os asiáticos deveriam contar com certo apoio local para controlar toda a porção de terra sob seu mando. Acreditase que as cidades do Médio Egito dividiram-se entre o apoio aos egípcios e aos hicsos. 1980. quanto da interceptação do mensageiro enviado por Apophis ao rei de Kush com uma proposta de aliança. 15 Ciro Cardoso.. O faraó retornou a Tebas sem derrotar completamente os asiáticos liderados por Apophis. Esta aliança. Todavia. liderada pelo navio dourado de Kamés. a frota real. localizada no Médio Egito. Os invasores do sul deveriam se aproveitar do deslocamento da frota egípcia para invadir a capital da XVIIª Dinastia. provavelmente devido ao elemento surpresa. leite. 16 P. a cidade de Tebas. apoiado os hicsos por interesse. The Rise and Fall of The Egyptian Empire. R. Vassouras. Isto se deveu principalmente à rapidez de movimentação possibilitada pelo controle d`“A Próspera”. de cima de sua muralha. Mest. partilhando os seus bens. 2010 30 . na posse de servos. Acima de tudo. Hist. antevira a derrocada de Avaris quando observou. Cit.

era menor. Ambos eram membros da família dos nomarcas de El Kab. agora. provavelmente. Vassouras. Mest. finalizasse o trabalho por ele começado. apresenta mais detalhadamente os eventos. A dificuldade. as tropas egípcias dirigiram-se mais ao norte para seu novo objetivo: Sharuhen. demonstrado a vulnerabilidade do território hicso e isto foi suficiente para que seu irmão e sucessor. Ahmés. 1. Revoltas na região acima da primeira catarata não eram estranhas aos egípcios.. 2010 31 . como Ahmés. iniciando a XVIIIª Dinastia. Fábio Frizzo Dossiê Impérios Havia.. Hist./jun. Do Delta do Nilo. os navios zarparam para o Alto Egito. Todas as informações disponíveis acerca de suas ações militares no norte e no sul são provenientes de biografias de oficiais que estiveram ao serviço do faraó e descreveram suas façanhas em suas tumbas. Em geral. ainda baseada majoritariamente na marinha para o deslocamento e abastecimento. eles eram alistados a partir das fortalezas construídas em seu território e desde o I Período Intermediário há relatos de revoltas. sendo possível perceber uma interrupção. ponto de apoio para a cidade conquistada de Avaris. em que se afirma: R. por volta da primeira catarata. no sul da Palestina. Esta foi a terceira campanha sucessiva do faraó em direção ao Levante e tinha uma importância fundamental: extinguir qualquer possibilidade de um contra-ataque dos asiáticos no território de kemet. contudo. uma linhagem anterior ao império.C. 12.). um egípcio que havia permanecido em um dos fortes construídos no Reino Médio em terras núbias. constatada desde a XIIIª Dinastia e que apoiara fortemente a dinastia nascente do faraó Ahmés. Ahmés. O cerco parece ter durado alguns anos. filho de Ebana. uma vez que a tecnologia bélica egípcia era superior e os soldados estavam mais bem equipados que seus inimigos. iniciados com uma nova campanha para tomar a cidade de Avaris. filho de Ebana. capturado e todos os seus rebeldes serviram como butim de guerra para o monarca. através da descrição de uma dilatação temporal entre dois ataques distintos. não contamos com fontes reais descrevendo as campanhas de Ahmés. o faraó Ahmés finalmente toma a cidade de Avaris. 25-40. um núbio que aparentemente invadira parte do sul do território egípcio. formando as tropas de elite do Exército do faraó. como fica claro a partir do texto conhecido como Admoestações de Ipu-ur. Segundo Ahmés. p. uma rebelião no Alto Egito. jan. O primeiro a ser derrotado foi Aata. A provável causa. Os núbios serviram desde o princípio do período faraônico como força militar. este cerco durou mais três anos. não aparece como algo importante e. v..De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. Este foi descoberto pelo faraó. levando rapidamente as tropas para sufocar duas fortes rebeliões na Núbia. Eram conhecidos como medjayw e tinham grande habilidade com os arcos.C. Após o saque à antiga capital do reino hicso. Os dois oficiais de El Kab iniciam seus relatos descrevendo suas atuações nas campanhas setentrionais do primeiro soberano da XVIIIª Dinastia. filho de Ebana e Ahmés Pennekhbet. Outro papel desempenhado pelos núbios era o de forças policiais. Chamava-se Tetian e teve seus barcos derrotados pela Marinha real. que foi do ano 1539 ao 1295 a. em sua segunda investida. n. O segundo revoltoso foi. Ao contrário de seu predecessor. única descrição de uma revolta social durante o Egito faraônico.

2010 32 . apelou-se para um dispositivo há muito conhecido: a crença na superioridade inata dos egípcios frente a todos os outros povos. uma explicação de grande consistência. conforme afirma P. Vassouras. n. e revelaram aos asiáticos a situação do país18. as forças navais mantinham a hegemonia na atividade bélica. um dos principais objetivos de Kamés e seu irmão Ahmés no sul fora a retomada do forte de Buhen. uma vez que a experiência da invasão da terra negra sagrada era nova. a povos hostis ao Egito.. Isto demonstra uma nova percepção egípcia acerca do que era necessário para sua segurança. a partir da XIIª Dinastia. 12. H. 17 A palavra “arqueiro” no plural é comumente traduzida como o coletivo genérico “estrangeiro”.). Este pensamento deu à guerra de expulsão dos estrangeiros. 2000. buscando não somente acumular mais butim. A utilização de mercenários estrangeiros em atividades militares é comumente explicada através da afirmação de que estes tinham maior habilidade marcial do que os nativos. Cit. portanto. Seguiram-se. auxiliadas por estabelecimentos em terra. e Trad. mesmo assim as campanhas que ele agora travou na Palestina e na Núbia não eram apenas necessárias à segurança do Egito contra o ataque de outras partes. A geografia do Vale é composta por terrenos estreitos e./jun. à vitória em Sharuhen. Newby: Provavelmente somente um rei que empreendera uma guerra patriótica com sucesso teria sido capaz de estabelecer sua ascendência. contudo. Não há alternativa comprovada. cada homem mata seu irmão? Os soldados que recrutamos para nós mesmos tornaram-se arqueiros17. A preeminência da marinha em batalha começara a ser questionada a partir da tomada de Sharuhen. Newby. Brasília: Editora da UNB. Fábio Frizzo Dossiê Impérios Como. na região da segunda catarata. Hist. como também enfraquecer ainda mais as posições asiáticas na região. jan.. levando à contratação de mercenários. então. 190. 19 P. Ideologicamente. v. mas nos parece mais provável a ideia de que a população nativa não era numerosa o suficiente para suprir as necessidades bélicas. Mest. Não por acaso. mas meios de consolidar o poder do rei no Egito em si19. próxima a Gaza. O tipo de guerra no Vale do Nilo era bastante diferente daquela travada ao norte. como haviam sido os fortes do Reino Médio. Assim. p. Outra possibilidade que levantamos é a de que as tropas de elite fossem estrangeiras para manter o controle da coerção nas mãos da classe dominante ligada ao Estado. não havia grandes espaços abertos que possibilitassem o uso adequado e vantajoso dos carros de guerra. núbios ou asiáticos.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. associado em geral.) Escritos para a Eternidade. determinados a (tudo) destruir. 1. 25-40. 30. um caráter patriótico de grande importância. algumas sortidas em território asiático. 18 Emanuel Araújo (Org. p. Op. abastecendo as tropas com rapidez. H. R. na qual os carros de guerra tiveram importância fundamental. Esta não é.C. p. uma vez que os egípcios poderiam ser tão bem treinados quanto quaisquer outros. decorrente da herança legítima do demiurgo. todavia. na SíriaPalestina.

posteriormente. bem como suas propriedades e sua família. da modificação no significado de certos vocábulos em relação à sua utilização no Reino Médio. 25-40. o que corrobora a afirmação do Sheihk ‘Ibada al-Nubi: Os soldados eram um grupo social hereditário. 20 Sheihk ‘Ibada Al-Nubi. Hist./jun. p. filho de Ebana. 21 David Lorton. fartamente documentada nas fontes da época. e Trad. além disto. Da mesma maneira. para que se pudessem constituir autênticas aldeias militares.. por exemplo. sem o estabelecimento de fortes alianças com famílias importantes. e quando o militar é dispensado.. então. o almirante de tripulação Ahmés. nada mais lógico do que serem dele todos os bens conquistados. a quem cabia. 11.). ca. eram dele todos os bens da Terra. Inscripciones. o filho ocupava o seu posto e as vantagens que lhe estavam associadas. Em artigo de 1974. jan. que decidia pela doação deles como escravos ou por sua manutenção no âmbito estatal. passam a serem posses do vencedor21.C. Ambas as situações são atestadas por Ahmés. R. como. v. contudo. Vol.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. as capturas foram-me concedidas como dependentes22. portanto. entre outros fatores.). Os prisioneiros eram capturados em campo e levados ao faraó. pp. insistem nas premiações recebidas por méritos em campo. o estadunidense David Lorton descreveu bem as mudanças ocorridas no sistema de recompensas a partir da luta de expulsão dos hicsos através. a função distributiva relativa a seus melhores guerreiros. 1550-1300 a. American Research Center in Egypt. a cidade de Sharuhen foi sitiada por três anos e. 53-68. cujos residentes tinham à sua disposição um campo e os escravos que foram recebendo como recompensas por sua bravura20. “Terminology Related to the Laws of Warfare in Dyn. que transmitia a sua posição de pais para filhos. 2002. Concedeu-se a mim. Op. Journal of the American Research Center in Egypt. normalmente. n. De grande importância para a questão é a lógica que estabelece que o indivíduo derrotado em batalha. Isto levava a uma concentração do butim nas mãos do rei. eu capturei como butim duas mulheres e uma mão. Afinal. 1. p. 12. 22 Jose Manuel Galán (Edit. Segundo sua biografia. ou seja. 2010 33 . como deus vivo. atestadas pela apresentação de uma das mãos do cadáver. El Imperio Egipcio. Cit. O autor argumenta que há no Antigo Oriente Próximo. Vassouras. p. filho de Ebana: Logo. Mest. 1974. Outra modificação social que ajudou a manter a centralização do poder e a construir as bases do império foi a mudança na forma de recompensa dos militares. Eram registrados em listas constantemente atualizadas. havia recompensas dadas pelo rei para as mortes em batalha. o usufruto de um pedaço de terra. situado em zonas circunscritas. o ouro do valor e. XVIII”. aquela dos nomarcas de El Kab.. 150. 40. Barcelona: Edicion de la Universitat de Barcelona. como em qualquer outro momento histórico.C. descenderia de um oficial do exército de Seqenenrá II. que fornecera grandes militares. Fábio Frizzo Dossiê Impérios Tal consolidação do poder interno no Egito não se deu. quando sua majestade (enfim) a saqueou. As biografias militares do início da XVIIIª Dinastia têm um acentuado caráter de construção da figura do indivíduo como importante servidor do faraó e. Se ideologicamente o faraó era o único responsável pela vitória nas batalhas. leis da guerra.

27 Ao fim de seu reinado. Hist.. ou seja. 24 Jose Manuel Galán. filho de Ebana. jan. o ouro era também um valor pago ao guerreiro por suas capturas e mortes. Foram-me concedidas três pessoas e cinco sTAt23 de campo cultivável em minha cidade24.). n..C. Sua matança está entre os habitantes de Khenthennefer25. A expansão territorial iniciada pelo faraó Ahmés em sua luta contra os invasores surtiu efeito e. p.. em outras fontes. Nota-se nesse excerto que.. 28 Apoiamo-nos para esta descrição da organização sócio-política do Antigo Oriente Próximo no período em Donald Redford. responsável pelo trânsito de ópio. mais do que um título honorífico. a Babilônia foi invadida por kassitas. Após o reinado de Hammurabi (1795-1750 a. No oeste. Op. que afirma: Os habitantes das terras estrangeiras vêm prostrados e se detêm ante a sua sala.) Eles trazem suas respectivas contribuições. já encontramos fontes descrevendo o envio de tributos estrangeiros a Tebas. criou-se um vácuo de poder com o fato de que a Babilônia não tinha forças para sustentar. sua reputação está pelas terras dos fenkhu26. 1. Isto fica claro a partir da descrição do mesmo Ahmés. um povo originário das montanhas ocidentais do Irã. 12. A partir destas nominações. Cit. veio então. não ter demonstrado claramente suas ações gloriosas no campo de batalha – como fizera em outras ocasiões –. desde então.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. Ahmés já vislumbrava uma nova organização social no Antigo Oriente Próximo28. 41.). de nome Tetian. é nomeado “ouro da recompensa” ou simplesmente “ouro”. 2/3 de acre. p. ele recebera cativos como recompensa da mesma maneira.C. 2010 34 . na Ásia ocidental costeira. tendo reunido para si os de intenções perversas. Galán. (. Op. Isto certifica a idéia do estabelecimento de um padrão de recompensa aos militares mais importantes. de sua participação na contenção da revolta de Tetian: Aquele inimigo. v. um império mesopotâmico. Começava a se fortalecer uma rota de comércio com o Chipre. apesar de Ahmés. p. 130-148. 23 Medida egípcia de superfície equivalente a 2735 m². Cit. Sua majestade o derrotou e sua tripulação foi destruída. As fontes indicam que a distribuição do ouro e dos cativos aos principais guerreiros de sua majestade era mais do que a legitimação das conquistas destes em campo de batalha./jun. Um exemplo disto é uma estela encontrada no templo de Karnak. pp. da qual o Egito já se aproximara no período da dominação dos hicsos. 37. 27 Jose M. cobre e cerâmica para o Levante. pode-se perceber que. Cit. 25-40. 25 Topônimo dúbio empregado para se referir ao extremo meridional sob controle egípcio. R. que. filho de Ebana. 26 Equivalente setentrional de Khenthennefer. Op. Vassouras. Mest. carregados com produtos para o rei. Fábio Frizzo Dossiê Impérios Este trecho da fonte esclarece outra forma de premiação: o “ouro do valor”.

mantendo a lógica expansionista.. a pressão dos hurritas e seus líderes indo-arianos deu origem a um Estado territorial chamado Mitanni. Enquanto Kadesh era um centro de poder relacionado à região do alto Orontes e da Galiléia. Entre 1600 e 1550 a. O primeiro deles é o dos hititas. este povo proveio do norte de Zagros e talvez na Armênia e já aparecia na Mesopotâmia setentrional no final do terceiro milênio a. a se referirem a estes povos como kharu. 1. “jovem”.C./jun. Cerca de meio século depois. no norte. Os egípcios começaram a “estender as fronteiras”.). que ameaçaram o equilíbrio do Levante. ambas na Síria-Palestina. e se estabeleceram no platô central da Anatólia. Fábio Frizzo Dossiê Impérios De grande importância para a história egípcia e sua correlação de forças no Oriente Próximo foi o surgimento em cena. R. Por volta de 1530 a. A partir disto.. de língua indoeuropeia.C. Mest. p. A partir do reinado de Ahmés. traduzido comumente como sírio. como a adoção do cavalo e do carro de guerra. v.C. criando um império que buscava transformar as cidades sírio-palestinas em servos e seus governantes em representantes do faraó. o Egito iniciou a construção de sua esfera de influência. O segundo grupo étnico a despontar neste período no Mediterrâneo Oriental foi o dos hurritas. Isto se deve ao amálgama com um grupo indo-ariano vindo do norte. A história hitita passa a ser largamente documentada a partir dos últimos anos da ocupação hicsa no Egito. n. 25-40. os hurritas passaram por mudanças sociais importantes. que mantinha fortes relações com o Egito.C. gerando um povo que falava “cananeu”. a substituição do enterramento pela cremação e o desenvolvimento de uma aristocracia conhecida pelo nome maryannu – termo derivado do sânscrito maurya.C. os hurritas deixam de ser um grupo disperso. O reinado pessoal de Amenhotep I (1514-1493 a. a cidade de Tunip desempenhava este papel em relação à costa que no futuro seria a Fenícia. obrigados a juramentos de fidelidade. Como os kassitas.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. que migraram nos séculos finais do terceiro milênio a. Amenhotep I inicia sua ação militar contra os núbios ao sul da segunda catarata do Nilo.C. gozavam de certa independência em relação ao Mitanni.C. e Ahmés Pennekhbet. Algumas cidades. 12. foram fundadas cidades governadas por famílias que combinavam elementos hurritas e indo-arianos na Palestina e na Síria Central. Amenhotep I. Ao final de seu governo. Vassouras. contudo. filho de Ebana. As fontes egípcias passaram. de dois grupos étnicos não semíticos. a partir de meados do XVº século a.) segue as características do governo de seu pai. Com a influência dos indo-arianos. jan. Por volta do oitavo ano de seu reinado. que rapidamente se tornou o centro da sociedade hurrita e exerceu influência sobre cidades diretamente ligadas ao processo de expansão egípcia. A expansão dos impérios baseados nos dois grupos étnicos acima descritos levou ao embate entre eles no território reivindicado por ambos: o norte da Síria e o alto Eufrates.. 2010 35 . estabelecendo como estrutura geral a dominação e a intimidação periódica através de sortidas e ataques punitivos. provavelmente das estepes russas. auxiliado pela rainha Ahmés-Nefertari. como era o caso de Ugarit e do entreposto comercial de Biblos.. estas campanhas seriam contadas nas tumbas dos militares Ahmés. como Megiddo e Kadesh. ganhando o formato de uma civilização forte politicamente.. Hist. agora dirigida para a Núbia. é provável que Ahmés já contasse com a co-regência de seu filho.

tinham mantido a população culturalmente egípcia.. assinalamos. 41. Galán. um aspecto que gostaríamos de ressaltar nesta fonte. perseguimos sua gente e seu gado e eu trouxe um prisioneiro e o presenteei a Sua Majestade. p. armamentos e silos de grãos. Cit. além dos que já havia presenteado Sua Majestade. na vanguarda de nossa tropa. Trouxe duas mulheres dependentes como butim. guerreiro do governante29. Op. 1.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. prosperidade. por sua importância. Fábio Frizzo Dossiê Impérios O primeiro afirma que: Sendo eu marinheiro do rei do Egito Djeserkara (Amenhotep I) – vida. Eu estava. após a mobilização das tropas nacionais para a retomada do território da “terra negra”. 30 Jose M. Continuamos. O investimento na invasão da Baixa Núbia ligava-se à questão econômica.. saúde –. abaixo da segunda catarata e hoje em área inundada pela represa de Aswan.) e ele me recompensou com ouro. 1995. A palavra egípcia para fronteiras refere-se não às fronteiras físicas ou naturais bem delimitadas da “terra negra”. Eram. lutei de verdade e Sua Majestade observou meu valor: trouxe duas mãos e apresentei a Sua Majestade. p.. Afinal. Todavia. que se repete através de todo o corpus documental do império. fontes escritas demonstram que funcionários egípcios chegaram a construir templos de deuses da “terra negra” na Núbia. aquele localizado em Buhen. algo flexível. o que fazer com as forças armadas? Isto se fortalece se considerarmos o contexto do surgimento de uma nova fração da classe dominante.. os mesmos aspectos relativos às recompensas dadas pelo serviço militar.). 25-40.). Mest. tinham como função primária a defesa do perímetro.C. portanto. o que explica o fato de que durante a XVIIIª Dinastia os faraós estavam constantemente “estendendo as fronteiras” do Egito30./jun. então. embora contivessem tropas. 133. p. Hist. é a expressão “estender as fronteiras”. 2010 36 . ligada às recompensas conseguidas na guerra. Conduzi Sua Majestade de volta ao Egito em dois dias (. novamente. Dentre os fortes. v. Os fortes localizavam-se na região da segunda catarata.. Apresentam-se. Vassouras. Aproveitava-se o terreno rochoso e o curso natural do Nilo para conseguir o máximo com o estabelecimento dessas cidadelas fortificadas. mas sim ao resultado das relações do faraó com seus vassalos e com os poderes vizinhos. predominantemente na margem ocidental e nas ilhas do rio. que.. A continuidade da atividade militar está diretamente ligada ao fim da expulsão dos invasores estrangeiros do norte e do sul do Egito. ele navegou rio acima até Kush para estender as fronteiras do Egito. A ação na Núbia apoiou-se nos fortes construídos no Reino Médio e que. Sua majestade golpeou aquele iuntiu em meio a sua tropa (. Se a Arqueologia não prova isto com a descoberta de uma cultura material ligada aos núbios. uma vez que por lá passavam importantes rotas de minérios e produtos de luxo como marfim e 29 Jose M. R. n. Galán. então. 12. Terminology related to Egyptian Imperialism in the XVIIIth Dinasty. apesar de isolados do território da “terra negra” durante o II Período Intermediário. Hildesheim: Gerstenberg. jan. Fui nomeado. Victory and Border.

através principalmente do investimento no templo de 31 Betsy Bryan. Vassouras. Betsy Bryan cita uma estela deixada por Amenhotep I no forte egípcio de Aniba. na segunda catarata. n. jan. o deus dinástico.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. p. Eu fui elogiado e nada foi encontrado contra mim. 25-40. proveniente provavelmente de Abidos e hoje no museu de Florença. Hist. construído na região da primeira catarata. “The 18th Dinasty before the Amarna Period (c. Mest. 2000. 214. Amenhotep expandiu as fronteiras do sul para além dos limites do Reino Médio. 2001. Edição original de 1906. Era necessário limpar o vale do Nilo de qualquer ameaça séria à hegemonia egípcia. 1550-1069)”. o que pode significar que a uma expedição de sucesso a Kush seguiu-se uma visita oficial do faraó para assegurar a posse da Baixa Núbia à família real31. construindo mais fortes para abrigar guarnições egípcias ligadas ao comércio e às ações de repressão dos rebeldes kushitas. New York: Oxford University Press. Urbana e Chicago: University of Illinois Press. p. Por outro lado. Nos 12 anos de paz do reinado de Amenhotep I. De qualquer forma. A conquista da Baixa Núbia fornecera um fluxo constante de ouro e outros minérios. The Oxford History of Ancient Egypt. Eu trouxe seus tributos para o Senhor das Duas Terras. impedindo qualquer união ou rebelião daqueles povos. O maior exemplo disto foi o fortalecimento do culto de Amon. sendo favorito de meu senhor. v. que se iniciava em Nekhen. Ian (Org. 21. Ancient Records of Egypt. cada ano. 32 James Henry Breasted (Edit. a economia egípcia continuou sua linha de desenvolvimento iniciada com as inovações nas forças produtivas relativas às trocas de experiências com os hicsos. em seu oitavo ano de reinado. Eu alcancei idade avançada em Wawat. Fábio Frizzo Dossiê Impérios peles. pode-se ler o seguinte: Eu passei muitos anos como prefeito de Nekhen (Hieraconpolis). É possível também que esta região tenha sido incorporada à antiga jurisdição de Harmini. Primeiro. Harmini fora magistrado chefe de Nekhen-Hieraconpolis. A tributação da região de Wawat aparece ainda em outra fonte do período. 12.. abriram-se minas de turquesa no Sinai. na estela de Harmini. o produto desta exploração era usado diretamente para a construção de templos e monumentos em geral. 1. A intensificação da mineração liga-se a pelo menos duas questões importantes para a sociedade egípcia. e Trad). Nela afirma-se que os intiu (arqueiros) e os mentiu (saqueadores do deserto ocidental) entregaram ouro e grandes quantidades de produtos ao rei.). Eu fui ao norte com seus tributos para o rei. Vol. e foram abertos os trabalhos nas minas de arenito em Gebel el-Silsila. 2010 37 . Para garantir a invulnerabilidade da “terra negra”./jun. iniciou-se a extração de alabastro em Bosra e em Hatnub. In: SHAW. sagrada para os egípcios.). Na estela.32 Com a expansão do império para o sul e a tributação de Wawat. ele foi o funcionário responsável pela coleta do tributo das terras do sul. R.. p. 2 The Eighteenth Dinasty. antes de ser promovido a governador de Wawat.C. o domínio daquela região também era importante para assegurar a segurança da “terra negra”.

1953. inclusive em vida. a mineração também tinha sua faceta militar. A adoração dos faraós como divindades. afastando quaisquer reivindicações políticas ou econômicas ao trono. Além disto. 2010 38 . justificar e manter a dominação egípcia no Oriente Próximo. Fábio Frizzo Dossiê Impérios Karnak. uma vez que tropas eram deslocadas para garantir a segurança dos trabalhadores e do produto. Todavia. sendo a expressão utilizada devido à lógica organizacional dos trabalhadores. The Journal of Egyptian Achaeology. Op. Em decorrência disto e da importância de seu reinado no contexto do início do Reino Novo. v. foi um elemento característico em todo o decorrer da XVIIIª Dinastia. Mest. Faulkner corrobora a ideia de que não eram os militares que trabalhavam.). a indivisibilidade dos ganhos da guerra com outras famílias. Tebas. mas não as enviava a governantes estrangeiros. Vol.. Assim. A citação refere-se à página 38. Hist. A concentração dos ganhos econômicos nas mãos de poucas famílias diretamente associadas à realeza dava aos monarcas a possibilidade de enriquecer apenas seus principais seguidores militares. p. 25-40. principalmente. assim suas posições políticas34. através da diplomacia internacional. em termos econômicos. inclusive.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. O fechamento da família real deveu-se provavelmente. p. R. Vassouras. “Egyptian Military Organization”. 32-37. 34 Betsy Bryan. A pureza da linhagem não foi total porque a XVIIIª Dinastia observou um problema na geração de prole masculina com as rainhas principais.C.. O vocábulo para determinar os trabalhadores das minas era o mesmo utilizado para os soldados. jan. fortalecendo. fortaleceu-se o núcleo fechado da família real. logo após seu falecimento. e se desenvolveu uma organização administrativa ligada a importantes famílias de cidades centrais do Egito. buscou-se justificar a exclusividade da linhagem real com uma tática empregada anteriormente no Reino Médio: a manutenção das princesas dentro da família real – o que fica claro. na qual o Egito recebia princesas. 39. n. eram divididos em batalhões33. no qual foram registradas as façanhas dos faraós da XVIIIª Dinastia. O sucesso na dominação de Wawat e as rendas de lá provenientes. o que significaria. 1. 216. 12. Amenhotep I passou a ser adorado como divindade ao lado de sua mãe Ahmés-Nefertari. Dez. expandiu-se o território para o sul em busca de conquistas materiais. é possível notar que o período entre os reinados de Kamés e Amenhotep I foi o chute inicial do processo de expansão imperialista egípcia. Fortaleceu-se o culto de Amon com o investimento no templo de Karnak./jun. Em termos religiosos. em conjunto com a intensificação da mineração levaram a um aumento das construções na margem oriental do Nilo. cit. que. como afirma Betsy Bryan. pp. o reinado de Amenhotep I também contou com a presença de outros elementos que se consagrariam durante sua dinastia. À guisa de conclusão. pelo menos parte dos faraós foi proveniente de esposas secundárias. Inicialmente a guerra teve uma justificativa defensiva e identitária. a uma decisão deliberada de limitar o acesso a ela. Edfu e. como Elkab. Faulkner. fundando as bases político-econômicas utilizadas para governar. como no exército. baseada na expulsão 33 Raymond O. Por outro lado. Egypt Exploration Society.

./jun. um desenvolvimento das forças produtivas. Tal evolução das forças produtivas não só proporcionou um aumento da produção. como suscitou modificações na sociedade. na manutenção do conflito. A expansão gerou. 12. na metalurgia e. ligada principalmente à conquista e administração dos territórios dominados.De Kamés a Amenhotep I: a Fundação das Bases do Império Egípcio do Bronze Tardio (1541-1493 a. R. Dentre elas. por exemplo.. portanto. Mest. v. tributário ainda de uma aliança com a nobreza mantida através da hereditariedade dos cargos no exército e das recompensas pelos sucessos bélicos. O apelo a saques periódicos e a dominação através de juramentos de fidelidade estabelecidos entre príncipes locais e o faraó juntaram-se ao esforço de dominação da Baixa Núbia para consolidar as bases político-econômicas do Império. Fábio Frizzo Dossiê Impérios dos estrangeiros do território sagrado egípcio.C. As técnicas utilizadas para integrar e governar o império por todo o seu período de existência também foram geradas nestas primeiras décadas. jan. 2010 39 . com adoção de novas técnicas e tecnologias utilizadas na agricultura. o aparecimento de uma nova fração da classe dominante. 1. Hist. o novo processo de forja do bronze e a utilização de cavalos e carros de guerra – fundamentais para as conquistas na Síria-Palestina. Este movimento ajudou a consolidar o poder político e o prestígio da XVIIIª Dinastia. p. 25-40. n.). como. Vassouras. outrossim. destacamos o shaduf.

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