As ideias principais de

“Antifrágil- coisas que ganham com a desordem”
de Nassim Taleb

Clemente Nobrega
Fev. 2013

Sobre este sumário
-Nassim Taleb diz que os títulos dos capítulos de seus livros nada têm a ver com os conteúdos
deles, para obrigar críticos e comentadores a lerem tudo, não apenas folhear, ler a orelha, e
depois comentar.
-Fiz meu dever de casa; li e reli “Antifragility”.Nas telas seguintes, as ideias principais.
-Sei que Taleb não iria gostar desse sumário, pois na manhã em que escrevo essas notas ele
postou o seguinte em seu Twitter:
“Grandes livros enganam os sumários. Grandes aforismas resistem à expansão. O resto é apenas
“comunicação”;
-Bem, você julga. De qualquer forma, leia o livro. Vale a pena.
Clemente Nobrega
04.02.2013

O conceito de ANTIFRAGILIDADE

“Fragilidade” é um conceito familiar. Coisas que quebram quando aplicamos força ou stress,
relativamente pequenos são frágeis;

Coisas que não se quebram facilmente são chamadas de resistentes ou robustas;



Xícaras de porcelana, peças de louça...
Uma panela de ferro, um bloco de concreto. ..

Coisas que se moldam sob stress são ditas resilientes...
Mas há coisas para as quais não temos nem uma palavra que as designe, nem um conceito
que as defina:
ANTIFRAGILIDADE- propriedade de coisas que lucram com choques. Aprendem e crescem
com tensões (até certos limites);

Onde se esconde a antifragilidade?

Esta propriedade está por trás de tudo que muda com o tempo:
Evolução, cultura, ideias, revoluções, sistemas políticos, evolução tecnológica, sucesso
econômico e cultural, sobrevivência corporativa, boas receitas ,digamos, ”canja de galinha ou
steak ao molho tártaro com uma gota de conhaque", a ascenção das
cidades,cultura,sistemas legais, florestas equatoriais, resistência de bactérias.
Até mesmo nossa própria existência como espécie no planeta.

Pode até nos destruir. ou devem lidar com a antifragilidade de alguma forma. Tudo que tem vida é antifrágil . deveríamos aprender com ela. etc. empresas. Se passou no teste do tempo.Antifragilidade e o que estamos perdendo na vida • • • • • • • Como o conceito de antifragilidade está totalmente ausente de nosso vocabulário e (pior)de nossa consciência. não temos um nome para “metade do que é importante na vida”.) têm. A “mãe natureza” é a maior escola de antifragilidade que existe. Não entender a antifragilidade pode nos prejudicar. sistemas econômicos. O teste do tempo é o maior teste. e parece que o segredo dela é a antifragilidade. Não só o que é vivo. é antifrágil. Isso é importante porque esse entendimento pode nos ajudar a abordar o que não podemos saber (e ainda lucrar com isso). . mas todas as coisas complexas que as coisas vivas criam (sociedades.

Isso produz o efeito contrário. pois remove nossa capacidade de lidar com os inevitáveis “cisnes negros” que vão aparecer (ver adiante). porque tendemos a não gostar de desordem e aleatoriedade. economia. Pode travá-los. é frágil. Do contrário. saúde. Lembre-se: o tempo é o maior gerador de antifragilidade que há. . . os que tentam nos proteger construindo blindagens em torno de nós (educação. fará mal a eles. Privá-los de volatilidade. Este ponto é difícil de aceitar. Então. tentamos remover o imprevisível e desordenado dos nossos sistemas (eliminar os choques). aleatoriedade (randomness) e stress.Implicações da antifragilidade • • • • • Qualquer coisa que tenha mais a ganhar do que a perder quando submetida a eventos (ou choques) randômicos é antifrágil. Antifragilidade é a propriedade de todos os sistemas naturais (e complexos) que sobreviveram..) acabam nos causando o maior mal. Esta é a tragédia da modernidade: como acontece com pais neuróticos e superprotetores.

complexidade e simplicidade • • • • • • • Por causa de suas interconexões. o sistema mundial é complexo. Eles também produzem respostas não lineares. ao contrário do que se pensa. “Less is more” e. Dizemos que são opacos. não obtém o dobro do efeito inicial. E mais: não precisamos entender esses sistemas para pô-los a trabalhar a nosso favor.leva a consequências não previstas. ou o número de empregados numa fábrica. Quer dizer. mas muito mais ou muito menos.Antifragilidade. e uma nova intervenção para corrigir os efeitos secundários.diante da opacidade dos sistemas complexos e do espectro dos “Black Swanns”. cada uma pior que a precedente. Sistemas complexos são cheios de interdependências. Por causa de sua opacidade. uma intervenção num sistema complexo como a economia global.. ou o corpo humano. é mas efetivo também.. levando a uma série explosiva de ramificações de respostas “não previstas” . inovação. Quanto mais simples melhor. . seguida de desculpas sobre os aspectos não “previstos” das consequências. se você.sempre à espreita. gestão. política.problem solving – em vários segmentos da vidasaúde. geralmente. Um sistema complexo. Antifragilidade é sobre tomada de decisão. difíceis de detectar e entender. educação. por exemplo. Essas são lições práticas da antifragilidade. dobra a dose de um remédio.. não requer políticas intrincadas nem regulações complicadas .

e exposição agressiva ao risco. tente arrumar encrenca. depende de experimentação antifrágil. O problema é que o não usual geralmente acontece (Fukushima). ou: arrume encrenca! • • • • • • • • O processo de descoberta (discovery)-ou inovação. mas a história é escrita por acadêmicos que não fazem justiça a eles. O excesso de energia liberado pela reação a esses problemas é o que produz inovação! Tudo tem a ver com a ideia de redundância. Nós tendemos a sobre reagir (over react) quando buscamos soluções para problemas que surgem. Redundância é ter alternativas para coisas que não podem dar errado. tão conhecida dos engenheiros. A ideia de redundância é ambígua porque parece ser “desperdício” se nada “não usual” acontece. por exemplo. não depende de educação formal. Engenheiros e experimentadores desenvolvem coisas.Antifragilidade e inovação. mas não terminal”. dando a entender que o conhecimento prático veio da academia. A natureza. gosta de fazer seguro extra para ela mesma. Tecnologia é o resultado da antifragilidade explorada por tomadores de risco. ou progresso tecnológico . Não veio. Como se inova? "primeiro. Encrenca séria. . É por isso que você tem dois pulmões. na forma de experimentação e tentativa e erro (“tinkering”)-o resto fica confinado nos camarins do teatro.

Simplesmente aquilo que sua avó chama de experiência. atuar a nosso favor. O que ANTIFRAGILITY propõe é um road map para modificar os sistemas que construímos e deixar o simples-e natural-seguir seu curso. Heurísticas muitas vezes são conhecimentos ancestrais que nos apontam a rota do que é antifrágil porque passaram no teste do tempo.Antifragilidade e o viver melhor • • • • • • A ideia básica é evitar interferência de coisas que não entendemos. As teorias das heurísticas são a experiência. se posso dizer assim. Rules of thumb. . e aprendermos a explorar o imprevisível e o “não sabível” .ou seja. O frágil quebra com o tempo. Tudo baseado em heurísticas -regras práticas. fazer aquilo que não sabemos. sem teoria por trás-que nos guiam na ação.

Steven Jobs dizia que inovar é dizer não para 1000 outras ideias (bacanas). Mas isso é um erro.O “fragilista” • • • • • • • • Você não pode dizer com nenhum grau de confiança que certo evento ou choque seja mais provável de acontecer que outro. Por quê? Porque sabemos melhor o que está errado do que o que está certo. e tende a confundir aquilo que não vê. Você pode até mesmo dizer qual estrutura vai durar mais. ou o que não entende. .É eliminar. Ele sempre dá conselhos baseados em “conhecimento positivo” :”faça isso. retire aquilo”. O fragilista posa de especialista. Aja assim. pois assim você estará construindo sucesso!”O fragilista age sempre como se tivesse a certeza absoluta do que se deve fazer para adicionar coisas boas ao destino. Algumas pessoas gostam de assumir a posição contrária-chamamos esse pessoal de “fragilistas”. mas você pode estabelecer com muita confiança que um objeto ou estrutura é mais frágil que outra. O fragilista nunca se baseia “em conhecimento negativo”: “subtraia isso. com o não existente.

econômico.os empreendedores. educador. e respeitar. Não chegamos onde estamos hoje graças a policy makers com mentalidade “SovietHarvard”.) é alguém que faz você se engajar em práticas artificiais. dos quais falaremos mais logo adiante.mas graças ao apetite por risco e aos erros de certo tipo de pessoas que devemos encorajar. . que é a supervalorização do conhecimento científico.Harvard”. o fragilista (médico. planejador social. e os efeitos colaterais são potencialmente severos e invisíveis. nas quais os benefícios são pequenos e visíveis..A ilusão “Soviet-Harvard” • • • O fragilista é vítima da ilusão “Soviet. Resumindo. proteger.

.A falsa segurança que os fragilistas nos dão • • • • • Fomos fragilizando a economia.. quase tudo . Tenta nos “turistificar”-eliminar o risco. o não sabido-transformando tudo em narrativas ingênuas e infantilizantes. Joseph Stiglitz lideram a confraria dos fragilistas econômicos. o incerto . deve ser projetada por seres humanos. A modernidade tenta extrair sistematicamente as pessoas de sua ecologia aleatória. Por causa de nossa obsessão em suprimir a volatilidade . portanto. Arrogância.. a vida política. a ideia de que a sociedade é compreensível. Paul Krugmann.o aleatório. Cria vulnerabilidades que nos poderão ser fatais. Tipos como Paul Samuelson. A mentalidade Soviet-Harvard é um insulto à antifragilidade . mas em todas as profissões há fragilistas de plantão. tal como definido nos livros de sociologia. pós agrário. É um pouco o espírito de uma época marcada pela racionalização (racionalismo ingênuo). A modernidade não é apenas o período pós-medieval.. . e pós-feudal histórico. a saúde.Thomas Friedmann. educação.

a ausência de skin in the game. exerceu tanto controle. ganhando do lado bom da volatilidade e transferindo seu lado ruim para terceiros.Antifragilidade e ética • • • • • O que nos leva ao maior fragilizador da sociedade atual. O termo se refere a tomadores de decisão ou influenciadores.Os heróis eram os que corriam riscos para benefício de outros. aqueles cujas ações tinham um lado negativo possível. . pessoas com posição elevada e status. que dão opiniões à vontade mas não pagam pelos erros que cometem. pessoas que não correm risco. Aqueles que se tornam antifrágeis às custas de outros. No passado. hoje ocorre o exato reverso.isso é gente que não tem skin in the game. A grande regra ética da antifragilidade é : ”Não obterás antifragilidade às custas da fragilidade de outros”. eram aquelas -e só aquelas. Nunca na história.que tomavam riscos-ou seja. e ao grande gerador de crises.

e dinheiro de agências (burocráticas) de fomento.O paradoxo da antifragilidade • • • • O mundo moderno está aumentando seu conhecimento tecnológico. mas as coisas estão cada vez mais imprevisíveis. resultado de algum programa acadêmico de pesquisa . mas há evidência convincente-muito convincente!. Então. mais intratável ele é. Temos a ilusão de que o mundo funciona graças a um design. gente!). Esse é o mundo que temos de dominar: quanto mais raro um evento.de que isso é ilusão. muitas coisas que ganham com a aleatoriedade devem estar dominando o mundo hoje-e coisas que sofrem dano com ela devem ter sumido. e menos sabemos quão frequente sua ocorrência será (é por isso que ele é raro. É exatamente o que ocorre. .

. ficará pobre. Nosso país é muito grato a você”. mas a vulnerabilidade do restaurante individual. Restaurantes fracassados ​são tão importantes quanto os bem-sucedidos. Princípios antifrágeis... É por esta razão que devemos comemorar empresários falidos: “a sociedade moderna deve tratar empreendedores arruinados da mesma forma que honra soldados mortos. Na verdade mais importantes. uma vez que haverá. mas somos muito gratos pelos riscos que estão correndo. Veja o setor de restaurantes. há restaurantes indo à falência todo dia. .Antifragilidade. Na verdade. necessariamente. Podemos pensar em negócios individuais como organismos. e conglomerados de indústrias como a própria natureza.. para tirar outros da pobreza. será desrespeitado.. muito mais fracassos do que sucessos. mas usando exatamente a mesma lógica. o empreendedor e a gratidão ao fracasso • • • • O mundo funciona melhor quando adere a princípios orgânicos e evolutivos. A indústria aprende com as falhas . Você está na origem da nossa antifragilidade . é que teríamos um “dia do “empreendedor desconhecido”. indústrias como espécies. com a seguinte mensagem: “a maioria de vocês vai fracassar. talvez não com tanta honra. Meu sonho . e os sacrifícios que fazem para o bem do crescimento econômico do planeta. leva a uma indústria de restaurantes vibrante e estável . . Ao competir por nossa atenção (e apetite) só os melhores sobrevivem.

sem ambiguidade nas consequências (“até mesmo na Rússia”). O desafio é fazer a coisa certa – e ser feliz. vai causar efeitos em cascata da Islândia à Mongólia.O complicado é simples. Por causa das interdependências que a tecnologia torna possíveis. digamos. .. Consequências que eram difíceis de ver antes de agir. mas não 'complexas' porque não têm interdependências. e obterá uma resposta exata. um mundo que não entendemos e não podemos prever. com sistemas complexos as interdependências são fortes. Mas. Você precisa pensar em termos de ecologia: se você remover um animal específico vai interromper uma cadeia alimentar. vivemos num mar de complexidade crescente. um interruptor de luz. Da mesma forma. os predadores vão morrer de fome e a presa vai crescer sem controle. causando complicações e uma série de efeitos em cascata. se você “desligar” um banco em Nova York. Você aperta um botão. o complexo é que é complexo • • • • • As engenhocas de engenharia que dão respostas simples são complicadas.num mundo assim.. O sistema financeiro global é complexo.

Pensamos que podemos manipular esses sistemas (baseados em alguma teoria). perturba-os de tal modo que sua antifragilidade some.os mercados e o comportamento cultural. causando BlackSwanns. a atividades econômica . Os ajustes corretos nós só aprendemos por tentativa e erro (assim como a evolução também). . ideias. como a sociedade. Não podem ser controlados a partir do exterior. Interferir em sistemas complexos de forma top-down e tentar desembaraçar a aleatoriedade. A única maneira de trabalhar com sistemas complexos é a partir de dentro deles. mas tendem a ser confundidos com máquinas de lavar pelos fragilistas.Como a modernidade fragiliza os sistemas complexos • • • • • • • • • Sistemas complexos não gostam de (e resistem a) projetos top-down. interferência de cima para baixo. Elas lembram o biológico porque. Pequenos ajustes reduzem a probabilidade de perturbar o sistema totalmente. tecnologias e empresas. Essas coisas “man made” estão mais próximas “de um gato que de uma máquina de lavar”. pense em rumores. e os resultados serão quase sempre desastrosos . e efeitos exponenciais que diminuem sua previsibilidade até eliminá-la. de certa forma. se multiplicam e replicam. e chegam a algum tipo de auto-organização. e eles tornam-se frágeis. Sistemas complexos tendem a desenvolver reações em cascata. Muitas coisas. fazendo pequenos ajustes (tal como a evolução faz). mas isso acabará por provar-se errado. crescem por conta própria.

talvez nos momentos em que esquecemos de sua existência. BlackSwanns aparecem abruptamente após longos períodos de calma. a melhor gestora de Black Swanns. o evento raro e de grandes consequências (Black Swann) é incomputável no sentido matemático.gera fragilidade. O viés humano segundo o qual “isso era previsível” (viés que só se manifesta depois do fato!). É de grande valia que -graças à sua antifragilidade . . com causas e feitos precisos. mais não detectável. seja a melhor expert em eventos raros. É aí que chegam.Quase tudo na história é assim. lembrem-se! ).a “mãe natureza". O perigo que eles representam é silencioso. Quanto mais raro. Essa é uma das característica mais nefastas dos BlackSwanns-eles nos dão a ilusão de que poderíamos tê-los previsto (mas são incomputáveis. nos dá a ilusão de que tudo era previsível. pois nos impede de aprender. É não sabível. Aquilo que os livros de história apresentam(a posteriori!) como narrativas bem encadeadas.Antifragilidade e a impossibilidade de saber o que virá • • • • • • Por causa da complexidade. inexorável e descontínuo.

aqueles organismos cujos corpos foram reforçadas a partir de exposição ao estresse. agindo como um remédio . Ossos manifestam osteoporose.mas a ciência moderna só agora está começando a chegar perto disso. Hormese era bem conhecida pelos antigos . quando ingeridas em pequenas doses. Há uma razão para que os corpos dos seres vivos sejam antifrágeis-é porque eles foram projetados pela evolução para serem assim.. não só induzem tolerância. Algumas toxinas. Um bom exemplo é a restrição calórica do jejum. e assim espalhar seus genes antifrágeis no pool genético. Mas só em 1888 foi "cientificamente" descrita por um toxicologista alemão. É quando uma pequena dose de uma substância nociva é realmente benéfica para o organismo. foram capazes de sobreviver e reproduzir-se de forma mais eficaz do que aqueles que não foram. mas ainda atuam como um tipo de medicamento .. Músculos perdem tônus. – Dito de outra forma. – • Este processo é chamado hormese. .. uma palavra inventada por farmacologistas.A antifragilidade das coisas vivas • • • • O exemplo mais simples de um sistema antifrágil é um organismo vivo Corpos ficam mais fortes quando lidam com stress periódico.. e a falta dele tende a levar à degeneração e atrofia. As antigas religiões há muito compreenderam os benefícios dessas práticas .

mas através do stress. via hormônios e outros mensageiros que ainda não descobrimos. mesmo que possa ajudá-lo em um aspecto. que você deve permitir que seu corpo cure a si próprio. . Como sistema antifrágil. Sempre que se interfere com um sistema complexo. é possível (até provável) que vá gerar algum efeito colateral involuntário (e negativo) a ponto de prejudicar o sistema mais do que ajudá-lo a longo prazo. na maioria das vezes. o corpo humano foi projetado para curar a si mesmo (pelo menos até certo ponto) e. faz isso muito bem. embora às vezes requeira um pouco de tempo (e paciência). as chances de que efeitos colaterais negativos vão superar os benefícios são altas e. Na maior parte das vezes.Antifragilidade e saúde-Iatrogenia • • • • • • Como o corpo obtém informação sobre o ambiente? Não é através de seu aparato lógico. computar e calcular. por isso. o corpo deve ser deixado para fazer o trabalho de cura em si próprio. Nos casos em que você não está muito doente. é apenas nestes casos. sua inteligência e habilidade de raciocinar. literalmente: “dano causado por quem tenta curar”. O nome para o dano (geralmente escondido ou atrasado) de intervenção em excesso é iatrogenia.

Isso inclui "ciência. Você ficaria surpreso com a diferença. Mesmo hoje. Erro médico atualmente mata entre três e dez vezes mais que acidentes de carro nos Estados Unidos.Mais iatrogenia • • • • • • • • Historicamente. política. a medicina teve um saldo amplamente negativo. Ir ao médico aumentava sua chance de morrer . Nunca pergunte ao médico o que você deve fazer.. iatrogenias têm sido um problema na medicina. É sabido que o dano produzido por médicos. leva a mais mortes que qualquer tipo de câncer. planejamento urbano. educação e vários outros domínios. não incluindo infecções hospitalares. A profissão médica não é a única onde a iatrogenia mostra a cara. iatrogenias continuam a ser um problema sério. Até o surgimento da penicilina. ela será encontrada onde quer que intervenções em sistemas complexos seja praticada. Pergunte o que ele faria se estivesse em seu lugar.“. . O fenômeno está sendo cada vez mais reconhecida dentro da profissão médica. economia.Médicos sempre acham que “tem de fazer alguma coisa”. Na verdade.

e podem destrui-lo. por exemplo.Antifragilidade e as consequências da ignorância • • • • Remover pequenos choques em um sistema complexo pode criar estabilidade por um tempo. você tem longos períodos de estabilidade seguido por acidentes graves. Na economia. Ao contrário dos pequenos choques (que refinam e melhoram o sistema). sabemos de cor. . os grandes choques são geralmente prejudiciais. mas o torna vulnerável a grandes choques no longo prazo. Assim. mas a ilusão de estabilidade. mas não aprendemos. Essa lição. a remoção dos pequenos choques de um sistema complexo não cria estabilidade.

acredita-se que a direção das conquista tecnológicas é do teórico para o prático Na verdade. mas a regra vale na maioria dos casos. Não foi isso que aconteceu. Vem de ideias concretas para resolver problemas práticos. Em outras palavras. e melhorando-os. arquitetura e engenharia ainda avançavam por meio da experimentação prática. O que aconteceu foi a aplicação de heurísticas. hoje como sempre. ao invés da aplicação de teoria. a inovação tecnológica. engenheiros experimentando (“tinkering”) com artefatos.Antifragilidade. A geometria teria vindo primeiro. Há uma tendência a acreditarmos que a geometria euclidiana a viabilizou.tecnologia e inovação • • • • • • • • • • Há uma crença generalizada de que tecnologia e inovação fluem diretamente de descoberta científica. e as magníficas catedrais e outras construções depois. maravilhosos.. Mesmo os aquedutos romanos. parecem ter sido criado a partir do know-how prático. Antes do século XIII não mais do que cinco pessoas em toda a Europa sabiam como fazer uma conta de dividir.o tipo de conhecimento prático que passa de um mestre para seus aprendizes. Considere a arquitetura antiga. Há exceções (o projeto Manhattan). não de matemática aplicada. Na Idade Média. Alguém que “sabe fazer” ensina a quem quer aprender a fazer. vem de pessoas práticas . .

Faziam edifícios (que em sua maior parte ainda estão de pé) graças à heurísticas experimentais. assim. . mas por amadores batalhando em suas oficinas . Os avanços na tecnologia têxtil não devem nada à ciência. surgiu de tecnologia pré-existente. o artefato que encarna a Revolução Industrial . pequenos truques e regras práticas . os lucros de suas fábricas “.Dos aquedutos romanos à revolução industrial • • • • Construtores podiam inferir a resistência dos materiais sem equações . A maioria das inovações da Revolução Industrial não foi feita por cientistas. Foram desenvolvimentos empíricos baseados em tentativa e erro. e cujas soluções trariam recompensa econômica evidente. Homens que aplicaram bom senso prático e intuição para lidar com problemas que os cercavam.. um triângulo era visualizado como a cabeça de um cavalo.. experimentação de artesãos que estavam tentando melhorar a produtividade e. Por exemplo. a máquina a vapor... Isso inclui até as invenções mais notáveis ​da época: ". criada por iletrados.

Antifragilidade e inovação hoje • • • Ainda hoje. iria produzir remédios que haviam escapado aos médicos durante séculos" . a tendência em inovação continua a favorecer a experimentação-”tinkering”. de que não era necessário entender em detalhes o que estava errado. O período do pós-guerra.e tentativa e erro.não o oposto. mas que a química sintética.o entendimento por parte de médicos e cientistas. Elas vieram exatamente do oposto. cegamente e aleatoriamente. na era da grande ciência. que viu nascer um grande número de terapias eficazes "não foi informado por uma visão científica importante”. . A teoria nasceu da cura .

muito parecido com a evolução. a Internet entrou em cena (na verdade. como escrava de descobertas casuais em ambiente opaco .e o resultado é o que temos hoje). foi inventada com um fim completamente diferente . em nenhum ponto a ciência acadêmica serviu na definição de sua direção. .O computador pessoal e a antifragilidade • • • • Quando o computador pessoal foi inventado. Não é um fenômeno top-down baseado em teoria orientadora . mouse e monitor só apareceram depois que o computador decolou por causa de sua aptidão para processamento de texto. Em seguida.O processo permaneceu auto-dirigido e imprevisível a cada passo “. Serviu sim.teclado. e também como os investidores privados devem investir nela. Isso tem implicações sobre como o governo deve financiar a inovação. tinha poucos usos práticos. Tudo isso mostra que o progresso tecnológico é (na sua maior parte) um processo de baixo para cima (bottom-up) que avança por experimentação prática. O resultado: "embora a ciência seja de algum uso ao longo do caminho (a tecnologia do computador depende de ciência na maioria de seus aspectos).

. deve espalhar seus recursos em vários empreendimentos. .Como o governo deve financiar a inovação? • • • • Muito do financiamento dos governos à inovação é canalizado para a ciência pura e pesquisa dirigida .. mas várias ideias promissoras. Como você nunca sabe de onde virá a próxima inovação. É visível que o dinheiro deveria ir para “tinkerers” agressivos . Não uma grande ideia “matadora”. Não se pode ficar trancado em moldes burocráticos. devia ser orientado para formas práticas de engenharia e experimentação aberta .No entanto. escorregam. Tem que haver uma forma de incentivar o que funciona . adotam variantes-e é preciso ter a habilidade de um flanêur para capturar as oportunidades que surgem. O conselho é o mesmo para investidores privados. Inovações não são óbvias de inícioelas flutuam.

Antifragilidade .como a inovação funciona (mesmo!) • O que funciona é este loop a seguir : 1-Experimentação randômica (antifrágil) 2-Heurísticas (tecnologia) 3-Prática e aprendizado (antifrágil) 6-Prática e aprendizado (antifrágil) 5-Heurísticas (tecnologia) 4-Experimentação randômica (antifrágil) E a teoria acadêmica vem da prática: Prática Teorias Acadêmicas Teorias Acadêmicas Teorias Acadêmicas Teorias Acadêmicas .

Para começar. Agindo assim. . As desvantagens do tamanho superam os benefícios. ele não estaria apenas protegendo a sociedade. Os governos tendem a impor políticas que fortalecem as grandes corporações em detrimento das empresas menores.fusões como o caminho a seguir (devido aos benefícios das economias de escala) . pois os interesses dos que comandam o show são diferentes do que é bom para a própria empresa. que vê mega. Empresas ficam mais frágeis à medida que crescem. É iatrogenia. Isto é contrário à opinião dominante. ela vai ter problemas. mas também protegendo as empresas de si mesmas. O contrário do que deveria fazer. sempre que uma empresa cresce o suficiente para que sua gestão seja separada de sua propriedade.Antifragildade e as empresas-qual o papel do governo? • • • • • O governo deve garantir que nenhuma empresa fique tão grande “que não possa quebrar“ (“too big to fail”).

Bons sistemas são configurados para “errar pequeno”. são bons bom para consumir material inflamável numa floresta antes que se acumule. que trabalharão para preservar o sistema. ​ “Logo” quer dizer cedo o suficiente para que "falhem rápido" (fail fast) e possam começar de novo.conduz à mãe de todas as fragilidades. “Tenta eliminar o “ciclo de negócio”-eliminar altos e baixos na economia. minimizando danos de longo prazo ao sistema. Small is beautiful. impedidos de ter efeitos em cascata. . O tamanho das empresas (especialmente bancos) é apenas uma parte do problema. Haverá muitos pequenos erros.Os bancos e a economia • • • • • • • Se algo demonstra que interferir em um sistema complexo tentando remover choques e aleatoriedades leva ao desastre. Sempre garantir que os erros e falhas ficarão confinados. Assim como pequenos incêndios aqui e ali. criando um sistema mais dócil. é a economia. A outra parte da equação tem a ver com a nossa tendência de interferir com o ciclo de negócios. Ninguém pode arrastar outro por ter errado. serve para expulsar logo as empresas vulneráveis. um pouco de dano aqui e ali na economia.

O intervencionismo ingênuo também foi aplicado pelo governo do Reino Unido do fragilista Gordon Brown.Os “fragilistas” Alan Greenspan e Gordon Brown • • Não é preciso olhar mais longe do que a mais recente crise econômica: "a principal fonte da crise que começou em 2007 foi a tentativa iatrogênica do überfragilista Alan Greenspan -o maior iatrogenista de todos os tempos entre os economistas. “Foi isso que fez os riscos se esconderem debaixo do tapete e se acumularem lá. ..de eliminar os ciclos de altos e baixos da atividade econômica.”. até que explodiram a economia . cuja grande missão era 'eliminar' o ciclo de negócios.. um admirador do Iluminismo.

Para começar. . muitas vezes levam a desastres. e são chamados para nos oferecerem suas previsões Há dois problemas com isso. economistas acadêmicos-estão sendo convidados a tomar decisões econômicas para nós.Na verdade. economistas acadêmicos estão enamorados por teorias .Como os economistas estão errando e errando • • • Os erros econômicos têm uma causa mais fundamental: não-praticantes.ou seja. respeitam mais as suas do que as teorias testadas pelo tempo e experiência prática O problema é que as teorias são muito mais frágeis do que a prática e. por isso.

Por isso. Mas. quando suas teorias levam ao desastre. se realmente corressem algum risco se suas teorias não funcionassem . Isto é.e são pouco afetados pelo que acontece abaixo deles. .Tem que ter “skin in the game” • • • Economistas acadêmicos poderiam agir muito melhor se realmente tivessem “skin in the game”. podem manipular as coisas para fazer com que pareça que não foi culpa deles. infelizmente. particularmente distorcer o passado. Além do mais. Eles estão em suas torres de marfim com seus títulos de professor titular -seja em universidades ou no governo. não é assim que é. e podem até dizer que previram o que iria acontecer.. são muito hábeis em distorcer a verdade.

. A probabilidade era tão pequena que era difícil detectar. O que é pior.. o mesmo economista que causou o problema. e construiu uma teoria sobre o que aconteceu. olharam para a Fannie Mae e avaliaram. Assim. “pósviu” (o contrário de “previu”) a crise. Ele escreveu um livro explicando como viu o tempo todo a crise chegando : "o ponto culminante é que Stiglitz escreve em 2010:”eu-disse-que-seria-assim” onde afirma ter "previsto" a crise que começou em 2007-2008 .Peter e Jonathan). “.. num relatório. . não têm noção de fragilidade nos sistemas econômicos . o risco para o governo de um potencial não-pagamento por parte da empresa é efetivamente zero. que "com base na experiência histórica. Declarações como estas refletem o fato que Stiglitz (e outros economistas acadêmicos como ele). Será que Stiglitz admitiu sua parcela de culpa na crise de 2007? Nada. .O caso do “fragilista” Joseph Stiglitz • • • • • • "Joseph Stiglitz e mais dois colegas(os irmãos Orszag . declarações assim convidam outras pessoas a cair na armadilha. incentiva comportamentos que realmente precipitam acidentes.

vieses humanos e “heróis ao contrário” • • • • • É que na verdade Stiglitz enganou a si mesmo.Antifragilidade. teria notado que errou: "um acadêmico não é projetado para lembrar as suas opiniões porque ele não corre risco por elas .“ A ausência de “skin in the game” provoca transferência de fragilidade de uma parte para outra. . Se tivesse. Pelo contrário. O ponto central: se Stiglitz fosse um homem de negócios. E a razão pela qual ele foi capaz de enganar a si mesmo. é que não perdeu nada com o acidente porque não tinha “skin in the game”."os efeitos das transferências de fragilidade estão se tornando mais agudos.. A modernidade está construindo mais e mais heróis “ao contrário”. investindo seu próprio dinheiro. é um problema geral e grave que atinge muitas profissões . convencendo-se que viu o acidente chegando.. ele teria quebrado. e não é um problema que se limita a economistas.

Só confiar neles nesse caso.a maioria decorrente da modernidade.tornam-se mais antifrágeis às custas da nossa fragilidade: funcionários públicos. No caso dos economistas. tudo se resume ao seguinte: organizar as coisas de tal forma que os tomadores de decisão sejam colocados numa posição em que sintam as consequências de suas decisões e ações. muitas profissões. uma solução simples mas bastante drástica é a seguinte: quem vai para o serviço público não pode . Quem decide uma guerra precisa ter pelo menos um descendente (filho ou neto) exposto a possibilidade de ir combater. Para prevenir que um cargo público seja usado como meio para um fim. ganhar mais em qualquer atividade privada do que o mais bem pago funcionário público. posteriormente.O que fazer contra os falsos profetas • • • • • • • Assim. a Big Pharma. e muitos mais. Basicamente. o establishment médico. . por exemplo. jornalistas formadores de opinião. isso não significa que somos impotentes para minimizar o problema-muitas medidas simples podem e devem ser tomadas aqui. No entanto. pesquisadores acadêmicos. só devemos acreditar naqueles que têm carteiras de investimentos coerentes com suas opiniões. O problema é particularmente agudo no mundo moderno devido à especialização que temos na sociedade (o que efetivamente separa os tomadores de decisão dos efeitos de suas decisões) .

ao contrário de decisões vindas de um comando central. confiando mais em ajustes dos sistemas tradicionais do que em grandes teorias. É o país mais antifrágil do planeta. a política deve ser tratada como sistema complexo: a partir de dentro. não é de natureza teórica). ajustes) nos sistemas sociais. A Suíça funciona assim. Isso é muito de acordo com a abordagem “de baixo para cima” para sistemas complexos (que é uma abordagem justificado pela experiência. juntamente com o respeito às heurísticas da tradição. Como regra geral. a decisão política deve ser mantida local. .Recomendações para melhorar a política • • • • • Em um nível geral. Pequenas experiências de tentativa e erro (na verdade.

política. existem muitos mais domínios em que o conceito desempenha um papel.Antifragilidade-como viver mesmo em um mundo imprevisível? • • • • Vimos como o conceito de antifragilidade entra nos domínios do corpo. O truque é não perder tempo tentando melhorar nossa capacidade de prever. Ambas as estratégias estão fadados ao fracasso. . e toca praticamente todos os aspectos da vida. negócios. tecnologia. ou tentar tornar o mundo mais previsível. No entanto. Podemos utilizar o conceito de antifragilidade para nos ajudar a navegar nosso caminho através do imprevisível . economia . São exemplos todos os sistemas complexos e fenômenos em que possamos pensar.

Incerteza média não existe.para computar riscos está cometendo fraude. Pode ser estúpido e antifrágil. e tomar grandes riscos (ou pelo menos muitos riscos pequenos) onde a falha seria relativamente inofensiva. e 10 % em títulos maximamente arriscados. é superado pelo benefício que experimenta com eles.Construindo a antifragilidade • • • • • • • • Um sistema será antifrágil na medida em que o dano que experimenta a partir de eventos aleatórios. Alguém com 100% nos chamados “ títulos médios” corre risco de ruína total. Quem usa a curva de Gauss-distribuição normal de probabilidades. mas essa ideia pode ser explorada infinitamente. Você pode estar errado e ter sucesso . Ao colocar a nossa fé nas coisas que embutem mais benefício do que dano tornamo-nos antifrágeis. Não tomar nenhum risco onde o resultado do fracasso seja desastroso. . O benefício oculto da antifragilidade é que você não precisa saber o que vai acontecer para se dar bem.na verdade é melhor ser assim do que ser inteligente e frágil-vulnerável aos BlackSwanns. Parece muito fácil e simples. você não pode perder mais de 10 %. Se você colocar 90% do seu dinheiro em algo chamado “depósito de numerário de valor . e ganhos poderiam ser muito grandes. enquanto está exposto a ganhos enormes.

pelo menos. simplificando. como fazemos. Isto é. sempre ter certeza de que você tem opções.ou:remova o frágil. A maneira certa não é. . humanos. não tenta adicionar ao destino. Nós. sabemos muito mais sobre o errado do que sobre o certo. o antinatural. O aprendizado da antifragilidade é por “via negativa ”-ou seja: tirando coisas. não tente adicionar ao destino • • • • • • • • Uma última maneira de aumentar a sua antifragilidade é nunca ficar encurralado em um canto. Você subtrai o frágil. pois isso o deixa incapaz de mudar de rumo se uma oportunidade imprevista surgir (conselho que pode ser aplicado para as empresas também). Vá com o que você sabe que funciona. Tecnologia não cria o futuro. Ter a opção de fazer uma coisa. mas sempre conceda-se a opção de mudar de curso se aparecer uma oportunidade . Isto se chama :opcionalidade. Uma maneira de conseguir opcionalidade é nunca ter um plano ou. o que aliena. É o contrário. mas não a obrigação de fazê-la. O conhecimento negativo (o que dá errado) é muito mais antifrágil do que conhecimento sobre o que dá certo. nunca se comprometer com um plano. imaginar um futuro e ir adicionando coisas a partir do presente –para “chegar lá". O melhor dela é remover o frágil.Não se comprometa com um plano.