FERNANDO MORAIS

A ILHA
(Um repórter brasileiro no país de Fidel Castro)
Prefácio de Antônio Callado

EDITORA ALFA-OMEGA

São Paulo 1976

Planejamento Gráfico e Produção Tereza R. Guilares
Revisão Carlos A. L. Salum Direitos Reservados
FICHA CATALOGRÁFICA
(Preparada pelo Centro de Catalogação-na-Fonte,
Câmara Brasileira do Livro, SP)
M825i

Morais, Fernando, 1946A Ilha: Um repórter brasileiro no país de Fidel Castro;
prefácio de Antônio Callado. São Paulo, Alfa-Omega, 1976.
p. (Biblioteca Alfa-Omega de cultura universal
Série 2ª. Atualidade, v. 3)
1. Cuba — História — 1959- 2. Cuba — Política e governo
3. Repórteres e reportagens I. Título.

17. CDD-070.44097291064
18.
-070.44997291064
17. e 18.
-320.97291064
17. e 18.
-972.91064
76-0476
Índice para catálogo sistemático:
1. Cuba : História, 1959- 972.91064 (17. e 18.)
2. Cuba : História política, 1959- 320.97291064 (17. e 18.)
3. Cuba : Reportagens sobre a revolução, 1959- : Jornalismo 070.44097291064 (17.)
070.44997291064 (18.)
4. Cuba : Revolução, 1959- : Reportagens jornalísticas 070.4409721064 (17.)
070.44997291064 (18.)

Para José Maria Rabelo

"Mantivemo-nos firmes: no povo
buscáramos a força
e a razão
Inexoravelmente
como uma onda que ninguém trava
vencemos.
O povo tomou a direção da barca.
Mas a lição lá está, foi aprendida:
Não basta que seja pura e justa
a nossa causa.
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós."
(Agostinho Neto, in "Poemas de Angola")

CONTEÚDO
Sobre o Autor .........................................
Prefácio ..................................................
O Cotidiano ............................................
A Cultura, as Relações com o Mundo...
O Racionamento ............................... ... 19
Um País sem Favelas ...........................
A Nova Escola ................................ ......
A Saúde ................................................. 34
Imprensa ..................................... ..........

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.. Paulo" e chefe de reportagem do Departamento de T ele jornalismo da TV Cultura de São Paulo.. Começou a trabalhar aos 13 anos...... um ano depois. como repórter de um jornalzinho de bairro... em Belo Horizonte......... Tem reportagens publicadas em Portugal e no México... publicada no "Jornal da Tarde" e posteriormente editada em livro pela Editora Brasiliense... Reforma Agrária. Atualmente Fernando é editor-assistente da revista "Veja". de onde saiu para juntar-se à equipe que fundaria o semanário "Aqui São Paulo".. sucessivamente como repórter.... era redator de um "house-organ" local........ Justiça...... Eleição. Fernando foi redator da "Folha de São Paulo"... ao recém-fundado "Jornal da Tarde". trabalhando no jornal "A Gazeta"..... é uma reportagem no exato sentido da palavra.... o país que .... pela série "Transamazônica".. PREFACIO A Ilha.. já que o autor não foi imperativamente incumbido por nenhum jornal ou revista de ir a Cuba.......... de Fernando Morais...... o de reportagem escolhida..... Um ano depois...... 42 45 58 65 SOBRE O AUTOR O mineiro Fernando Gomes de Morais nasceu há 29 anos em Mariana.... Escolheu. juntamente com o repórter Ricardo Gontijo. redator............... Foi um dos editores da revista "Bondinho" e colaborador do semanário "Opinião" e da revista "Status"................. quis conhecer pessoalmente o país e foi visitá-lo.A Mulher .. como jornalista.. já profissionalmente. Ela só admitiria um qualificativo... ............ recebeu o "Prêmio Esso de Reportagem". 51 A Revolução Onipresente....... Em 1974 deixou o "Jornal da Tarde".. onde passou oito anos.... Simultaneamente ao trabalho no "Jornal da Tarde"... transferindo-se para a revista "Visão". Em 1965 mudou-se para São Paulo.. A partir daí temos a reportagem........ seu tema.. o franco relato de alguém que observa o país em construção........... do Suplemento Feminino do jornal "O Estado de S. incorporando-se..... Apêndice ..... Em 1970..... sub-editor e repórter especial. Economia ..

Cuba não parecia fadada a antecipar-se a outros países do hemisfério na conquista de uma nítida individualidade. País ilhéu. e portanto criam ao seu redor uma barreira de desdém pelos demais. a favor ou contra. pelo que nos fica da leitura. pequeno e de escassa população. e. sofreu um direto e específico domínio dos Estados Unidos. repudiando o extremo daqueles que tudo possuem. fica insólita. e o outro extremo. ali. parece vir com um fundo falso. daqueles que. conseqüentemente. Em 1934 um novo tratado entre os Estados Unidos e Cuba suspendeu a Emenda Platt. que já se torna difícil delimitá-la. Um olho de câmara de cinema aberto sobre um tema. imune precisamente ao perigo da . por isso mesmo. Não é necessário relembrá-la e. é um país que parece determinado a seguir conselho de autor sério e antigo como Aristóteles. da classe média. no que se escreve sobre Cuba. Foi tão avassalador o crescimento. Se a gente lê o seu relato com tão apaixonado interesse é porque quase tudo que se diz de Cuba ressente-se do tom polêmico. Um diário. A partir de 1901. O traço talvez mais comum entre os países da América Latina é a busca da identidade nacional. no contra como no a favor. nada tendo.lançou sua própria pedra fundamental em janeiro de 1959 e que desde então se elabora penosamente. Todos se desgostam. está na memória de todos. quando exemplarmente usada como neste livro. A Ilha. Em Cuba vão deixando de existir. Tudo que se diz da ilha. cada um deles deseja aparecer diante do mundo com uma vincada personalidade nacional. Só se pode definir uma classe em relação a outras classes. feito mala de contrabandista. de bem ou de mal. Mas permanecem até hoje os direitos americanos de manter uma base naval em Guantánamo. Cuba era forçada a aceitar o direito que se arrogavam os americanos de intervir militarmente na ilha. Fernando Morais nos introduz de chofre na Cuba de hoje. sobretudo. para defender a ordem ou a independência cubana. Todas as orações. a partir da queda de Batista e do governo de Fidel Castro. que no quarto livro da Política diz que um governo que queira prosperar deve cuidar de ampliar sua classe média. A história de Cuba. fecham-se numa barreira de inveja. Perde-se de tal forma contato com a simplicidade que esta. quando incluídos no bloco chamado Latin America. sem exceção. saudável e. da notoriedade que alcançou nos assuntos mundiais. têm cláusulas restritivas. nos termos de uma emenda acolhida pelo Congresso americano e que guardou o nome do senador Orville Platt. A reportagem de Fernando Morais é cristalina. homogeneizadas num povo educado. Cuba seguiu o conselho em ritmo extremamente acelerado.

A Ilha contém. em qualquer faina intensiva e inovadora como a dos cubanos. No avião. Peço papel para anotações e a aeromoça me oferece o verso de um bloco de declaração de bagagem. aliás. Doze horas depois. eu estou aqui. apenas perguntam sobre eventuais sintomas de meningite: há quanto tempo saí do Brasil. o avião pousa no ensolarado Aeroporto José Marti. endurecimento do pescoço. um dos combatentes da Sierra Maestra. cerveja e café. sólida e cerrada como uma fortaleza nos dados que apresenta mas ao mesmo tempo transparente. cantando em espanhol. queijo. pescador de atum. em vez de reter meu passaporte até o dia de minha saída. charutos Romeo y Julieta. salaminho. Passo pela alfândega sem dificuldades e. sorrindo: "Já ouviu falar na crise de papel?". \E passo aqui ao leitor a reportagem de Fernando Morais. excelente capítulo sobre Saúde na ilha. entre outros passageiros. se tenho sentido dores de cabeça fortes. José Antônio Vacas Cubas. negro. viajam. Os alto-falantes transmitem música ambiente e Roberto Carlos me surpreende com Jesus Cristo. Mas os de Cuba deviam estar muito apertados nos dedos. 22 anos. puxa conversa e é o primeiro de uma longa série de cubanos surpresos com a insólita presença de um brasileiro em seu país. morto em 1960. ânsia de vômito. Perdem-se alguns anéis. Estou a caminho de Cuba.luta de classes. que saíra de Madri. em Havana. um suplemento de 64 páginas sobre a vida do guerrilheiro Camilo Cienfuegos. depois de oito meses longe de casa. vindos das costas do Canadá. Na cadeira ao lado. em lugar dos tradicionais jornais diários. Depois da sobremesa. pois deixa ver dentro dos muros a alegre atividade de um povo empenhado na autoria de si mesmo. como faziam até há poucos anos com todos os jornalistas estrangeiros. já que ninguém luta contra categorias abstratas. O serviço de bordo é espartano como a decoração do jato: presunto. dezoito pescadores da Companhia Pesqueira Cubana. se fui . ANTÔNIO CALLADO O COTIDIANO A bordo de um quadrirreator Ilyushin-62 vendido pela Aerojlot à Cubana de Aviación (ainda com a marca soviética pintada na fuselagem) a aeromoça oferece. Os índices de saúde do país melhoraram consideravelmente.

metido numa impecável camisa engomada. falarei de novo com você". O carregador é obrigado a ser claro comigo: "Companero. consultarei de novo a chancelaria e. No caminho. havíamos passado pela porta do Hotel Havana Riviera. consegue-se comprar apenas 82 centavos de peso cubano. o "Torre". no 35? andar de um recém-construído edifício central. O carregador do Nacional leva as malas ao confortável apartamento e fica me olhando. O Nacional é um dos hotéis mais antigos do país. 130 cruzeiros por pessoa — espanto-me com o nível de informação do jovem diplomata sobre o Brasil. um barbudo armado. No meio do jantar — lagosta e vinho branco chileno. construído em 1930. O que muda é a mensagem. em Manaus. mas é para o senhor dizer se está satisfeito com o apartamento". O primeiro que vejo — enorme. . moderno. À noite sou convidado por Ricardo para jantar num dos melhores restaurantes de Havana. prefiro eu próprio pagar minhas despesas. Com um dólar americano. colorido — está colocado logo à saída da ala internacional do aeroporto. jovem diplomata recém-formado. no mínimo.vacinado contra a doença. um dos chefes da Máfia. o homem diz apenas que "não". e é conhecido por ter sido ponto de encontro para reuniões e conspirações contra os governos constitucionais. com todos os apartamentos de frente para o mar. Ricardo sorrira de novo: "Este hotel foi dado de presente ao tirano Batista por Meyer Lanski. No Hotel Nacional há um apartamento reservado em meu nome. sorridente. Numa pequena agência do Banco Nacional de Cuba troco cem dólares. como se trata de um trabalho profissional. os nomes e postos de todos os ministros brasileiros e comentava com naturalidade uma conversa do presidente Geisel com atores. Tiro uma nota de um peso cubano — nove cruzeiros. imagino. aqui não existe mais isso. explico que. Agora é do povo". à noite. Devo estar oferecendo pouco. Sempre sorrindo. cartazes de rua. Estou esperando. ao câmbio da época — e entrego a ele. Mas quem me recebe cordialmente é Ricardo. Cuba surpreende de novo: de um país que oferece biografias de guerrilheiros como leitura de bordo espera-se encontrar como recepcionista no aeroporto. cabelo escovinha. há out-doors. \ Como em qualquer país capitalista.' antes da chegada de Fidel Castro ao poder. Ao saber dele que sou convidado oficial do governo durante a visita. Ele sabia detalhes do Tratado de Itaipu. Exibe um rosto risonho de Ho Chi Minh ao lado de uma frase sua: "Construiremos um Vietnã dez vezes mais bonito". Tiro do bolso moedas recebidas na troca de dinheiro e lhe ofereço. "Bem — diz ele — se é assim.

tem filas enormes. Ao lado dela está sendo levantado um edifício. com trabalho voluntário. seria meu guia. o primeiro-ministro disse que Cuba. à beira-mar. num país onde a produção de coelhos é significativa. com capacidade para hospedar duas mil pessoas. O Ministério das Relações Exteriores colocaria à minha disposição um carro (um Ford Falcon argentino. poucos dias antes. depois do bloqueio. mas que o país ajudaria no que pudesse. o turismo externo praticamente acabou em Cuba. Não havia — nem assado. Hoje o Conejito (coelhinho). um restaurante não tivesse essa carne para oferecer aos fregueses. da Revista Realidade. A oferta do carro e do cicerone pretende apenas facilitar seu trabalho em Cuba". por conta do governo cubano. No fim da viagem eu veria que a promessa tinha sido cumprida. Antes de mim. E sugeriu que se criasse um restaurante que só servisse coelho. nem cozido. Ele não chega a se ofender. em 1968. Pergunto-lhe se toda aquela hospitalidade não acabaria se transformando num constrangimento para minha liberdade de trabalhar e ver o que me interessasse no país. simplesmente não havia coelho. ele. Ricardo. a entrar em Cuba em missão I profissional. Sobre minha permanência em Cuba. Logo depois que Fidel chegou ao poder. mas responde secamente: "O Ministério manda informar que você terá o guia e o automóvel apenas quando quiser. De um lado. Na manhã seguinte viajei para Varadero. só havia estado lá o jornalista Milton Coelho. Fidel estranhou que. ele entrou num restaurante de Havana e quis comer coelho assado. por exemplo. Chamam a atenção dois edifícios mandados construir pessoalmente por Fidel Castro. evidentemente. ele informa oficialmente que sou mesmo hóspede do governo — já que era o segundo jornalista brasileiro. para receber filhos de operários do mundo inteiro — mesmo de países não ligados à organização — que passarão férias ali. Mandou construir uma colônia de férias exclusivamente para cosmonautas e suas famílias. A mão de Fidel está presente em quase tudo neste país. pouca gente se "arriscava" a . durante toda a viagem. Terá toda liberdade de circular pelo país. uma espécie de Guarujá cubano — uma das praias mais famosas do país. não tinha condições de dar qualquer contribuição à tecnologia espacial soviética. E deve ser um dos poucos restaurantes do mundo que serve exclusivamente coelho — feito de mais de vinte maneiras diferentes (e servido a 45 cruzeiros a porção). em Havana.que ele lera numa revista. Um dia. último tipo) com motorista. Numa de suas viagens à URSS. conversar com qualquer pessoa. oferecido por Fidel à "Confederação Mundial de Juventudes Democráticas".

uma requintada adega. abandonada numa das praias próximas após uma batalha contra os espanhóis. um sistema de distribuição das vagas em hotéis e motéis — alguns luxuosíssimos — entre as famílias de trabalhadores em férias. Em Miramar e Laguitos — bairros de Havana — os antigos clubes privativos de algumas famílias. dezenas de outras mansões construídas e abandonadas por milionários cubanos no litoral foram aproveitadas como local de férias gratuitas para quem se oferecia ao trabalho voluntário — por exemplo. convidadas oficialmente. E. o governo acabou com os grandes atrativos que levavam à Ilha. além disso. servidos no Restaurante das Américas. até 1959) exista aproximadamente 70 cruzeiros. ou em qualquer outra praia do país. faz questão de esclarecer o porteiro. com piscinas naturais de água salgada. que acabaram retirados de lá. com tudo o que havia dentro: móveis de cedro entalhados em Portugal. no corte de cana. Terminada a safra. Nesse preço estão incluídos o almoço e o jantar. Hoje o INIT — Instituto Nacional de Indústria Turística — administra tudo isso. A diária de um apartamento de casal no Hotel Internacional de Varadero (a praia preferida pelos milionários de Miami. equipado com aeroporto e no meio de uma praia particular de seis quilômetros de extensão. os grandes bordéis. Móveis e objetos de arte estavam sendo destruídos pelos jovens. também. uma raridade digna de museu: restos da primeira bandeira cubana. A infra-estrutura montada durante todos os governos anteriores (o turismo era a terceira fonte de divisas de Cuba. um pequeno palácio construído pela família americana Dupont. de frente para o mar. e organiza. Assim como ocorreu com o legado dos Dupont. o governo fazia sérias restrições à entrada de ianquis no país mesmo antes do bloqueio: afirmava-se que os grupos de turistas poderiam ocultar "contra-revolucionários e agentes da CIA". em plena revolução. uma biblioteca de dois mil volumes. "Particular antes do triunfo da revolução". junto à Central de Trabalhadores de Cuba. Do lado cubano. Ficou lá. o voluntário tinha direito a férias com sua família em Varadero. 250 mil estrangeiros — na maioria norte-americanos: foram fechados os cassinos. Os traficantes de drogas fugiram ou foram presos. O chefe do clã Dupont não esperou a expropriação. A antiga casa dos Dupont foi inicialmente transformada em "república" para estudantes bolsistas — mas a idéia não deu certo.passar férias lá. anualmente. foram transformados em Centros Sociais . Fugiu e deixou a casa para a revolução. um órgão belga. depois do açúcar e do tabaco) foi aproveitada para o turismo interno ou para receber delegações estrangeiras.

irônico: — Mas não se aborreça se não temos putas aqui. Eu ainda não estava convencido de que não existiam prostitutas e drogas em Cuba. nos clubs (pequenas boates. diminuiu a velocidade do Dodginho argentino e respondeu: — Não compañero. Em 1970 a Cubatur (empresa encarregada de divulgar o turismo no exterior) iniciou os primeiros contatos com o Canadá — e. O porteiro respondeu. até hoje vivem às voltas com esses problemas: prostituição e drogas. segundo dados oficiais. muito escuras. Aqui não temos mais essas coisas. preços muito baixos. drogas. só em 1974. cassinos. o país não teve de "abrir mão de seus princípios": — As regras do nosso jogo são muito claras. com música de fita — todo o repertório de Roberto Carlos). só em 1974. E em Cuba não há gorjetas e impostos. Se a . bailes e piqueniques. Afinal havia. estrangeiro. Compramos iates e ônibus no exterior para melhorar a cada dia o serviço oferecido. Aqui ninguém vai encontrar prostitutas. clima bom o ano inteiro. a resposta ia da simples negativa à advertência: "Cuidado. Resolvi tirar a limpo a questão. Repeti a tentativa mais duas vezes — com outro motorista e com um porteiro de hotel — sem resultado. Os primeiros vôos charter vieram de países da Europa Oriental. como 90% dos que circulam em Cuba) e fui direito no assunto com o motorista. Uma noite tomei um táxi (estatal. a um conjunto de repartições públicas ou a um sindicato. como a Inglaterra e a França. O que temos a oferecer são praias lindas. Quem primeiro me falou que a prostituição tinha sido extinta pela revolução foi um jovem universitário. 100 mil prostitutas no país. em 1959. Nos últimos cinco anos. o jovem diretor do INIT. Com drogas foi a mesma coisa. Cada clube operário foi entregue a uma indústria. claro. afirma com orgulho que. Na universidade. para que o turismo rendesse à economia cubana. cerca de 46 mil turistas canadenses visitaram o país. Manifestei minha incredulidade com um argumento considerado por ele "pouco revolucionário": países desenvolvidos e democráticos. Cuba foi se reabrindo gradativa-mente para o turismo externo. não há doenças infecciosas. Ele levou alguns minutos para entender o que eu queria (evitei usar a palavra prostituta). certamente encontrará uma cubana que vá com sua cara.Operários para reuniões de fins de semana. De graça. algumas centenas de milhões de pesos. da melhor maneira possível: procurando drogas e prostitutas como se estivesse pessoalmente interessado. Quem quiser turismo sadio pode vir a Cuba sem susto — é o lugar ideal. Telésphoro Prates. Você é jovem.

uma característica muito forte: esta revolução foi feita por barbudos. A primeira foi de Ricardo. heróis nacionais — barbudos e guerrilheiros. mama. Assim como a minha. Por outro lado. Cheguei a ouvir pelo menos três versões para a quase total ausência de jovens barbudos no país. O Estado respeita os direitos individuais. puxando-a pela mão: — Mira. Entre os jovens. surpreso. o país está cheio de fotos de Che Guevara e Camilo Cienfuegos. de barba feita. A presença de um barbudo causa tanto espanto que um dia. mira: um guerrillero! A imagem que ficou para as crianças foi essa: quem tem barba é guerrilheiro. o que é pior. E. mas já domina cerca de 96% do PNB. A terceira versão. os cinemas. Embora dezenas de pessoas tivessem me repetido que em Cuba não há qualquer preconceito contra barba e cabelos longos. a barba transformou-se numa coisa da moda. como todas as coisas são do Estado ("isto é — do povo". usa barba se quiser. Então os rapazes. o que inclui o Banco Nacional. quase todos os táxis. os hotéis de "curta permanência" também são. e chamou a atenção da mãe.polícia pegá-lo procurando drogas. o diplomata que me acompanhava: — É que as cubanas. E mais uns quatro ou cinco dirigentes de menor projeção. e a barba virou um símbolo. seu irmão Ramón Castro. lutou na serra. os hotéis. sempre sem resultado. diretor do Hospital Psiquiátrico de Havana. Depois. repetiam-me sempre). pode até não voltar mais". assim como o cabelo grande. quando o sujeito está adulto. Esta deve ser uma das características do que os comunistas ortodoxos . os teatros. o vice-primeiro-ministro Carlos Rafael Rodriguez. têm uma certa vergonha de usar barba. por receio de parecerem pretensiosos. voltei a fazer outras incursões pela área das drogas. o médico Eduardo Ordaz. as bancas de jornais. nas universidades. O Estado não é dono da vontade de ninguém. preferem os homens de cara lisinha. na verdade. de um motorista de táxi: — A verdade é que a barba é proibida nas escolas secundárias e nos cursos pré-universitários. Quem tem vergonha. A explicação de uma estudante de Química era mais convincente: — Não é nada disso. Ou. os restaurantes. todas as indústrias. não usa. à saída de uma repartição. você volta para seu país imediatamente. Para reforçá-la. E moda aqui em Cuba não pega. hoje talvez seja possível contar nos dedos o número de barbudos do país: Fidel. um garotinho olhou-me. O que acontece em Cuba é que a barba tornou-se uma marca registrada.

O interesse despertado por esses hoteizinhos é grande: nos fins de semana é possível ver às suas portas. . Se o apartamento tiver ar condicionado. Uma empresa da Jamaica registrou a marca internacionalmente e Cuba foi obrigada a mudar a sua para Havana Club.80. de que muito me falaram. "Um país com problemas habitacionais não pode se dar ao luxo de oferecer apartamentos para esse tipo de desfrute. o aborto é livre até os três meses de gravidez e existe o divórcio. A CULTURA. esperando a hora de entrar. São pequenas kitchnettes alugadas a preço fixo em todo o país: as três primeiras horas de permanência custam 30 cruzeiros e cada hora adicional custa mais Cr$ 1. disse um jornalista divorciado. Isto é: a tradução pura e simples de obras estrangeiras. O casal entra num pátio que dá acesso ao apartamento. após a revolução. Além de ar condicionado e água quente. Mas apesar disso. O Estado se encarregou de dar abrigo aos casais apaixonados e não casados legalmente. que Cuba exportava para vários países. uma discreta entrada de carros depois de um portão de garage. A pílula anticoncepcional é vendida em qualquer farmácia. cada hora a mais passa a custar 4 cruzeiros. o único luxo oferecido é. a indústria editorial cubana manteve uma prática — hoje em escala muito reduzida — que foi batizada de "fuzilamento" de livros. em alguns casos. e do "machismo" cubano. AS RELAÇÕES COM O MUNDO Durante muitos anos. enquanto há famílias necessitadas". pequenas filas de casais. cuja entrada é proibida nos albergues e posadas. no Rio de Janeiro. Mas recentemente o feitiço virou contra o feiticeiro: o rum Bacardi.apelidaram de "socialismo tropical": em Cuba não existe o forte moralismo com que freqüentemente se costuma caracterizar os regimes comunistas. que vive num hotel. foi vítima de um "fuzilamento". lá é praticamente impossível ter uma garçonnière. sem poder sequer protestar. Em Havana e nas outras capitais de províncias. de mãos dadas. Isso desde que não esteja num carro oficial. evidentemente. a sofisticação dos hoteizinhos da Barra da Tijuca. o INIT criou e passou a administrar as posadas ou albergues. por exemplo. por exemplo. Nenhuma posada chega a ter. sem ser visto por ninguém. sem o pagamento de direitos autorais.

o autor baseou-se em conhecimentos que pertencem à humanidade. por 20 cruzeiros. "'foi um conselho que nos deram os cineastas soviéticos logo após o triunfo da revolução. brasileiros e de qualquer outro país participante do bloqueio econômico (em março de 1975. Embora não se permita a exibição de filmes considerados "contrarevolucionários". As livrarias de Havana são poucas e pobres em títulos. chegam a Cuba filmes americanos. e pelas 1. além da distribuição de livros didáticos pelo Estado. como O Chefão. em 1974. Os três canais de televisão de Cuba apresentam todos os dias. A qualidade dos documentários produzidos em Cuba é respeitada por cineastas de todo o mundo.500 bibliotecas espalhadas em escolas. Algumas das películas mais conhecidas são Girón. Da mesma forma. e La Nueva Escuela um filme sobre a revolução educacional realizada em Cuba. por exemplo. dos quais 23 milhões são didáticos e o restante de ficção. em todos os níveis (do pré-escolar à pósgraduação). que tem mais de meio milhão de volumes. não há restrição quanto à origem dos filmes: adquiridos de distribuidores europeus. Esse livro. compradas ou escritas por cubanos. pelo menos um documentário produzido na Europa Oriental. Nas prateleiras das livrarias. a maior variedade de títulos refere-se a temas marxistas. bestsellers nem tão revolucionários.A publicação de uma obra sem o pagamento de direitos era justificada por dirigentes cubanos de uma maneira bem simples: "para escrever um livro. A influência do leste europeu na cultura cubana não se manifesta apenas no cinema. Dois telejornais — um às 12 e outro às 19 horas — apresentam noticiário nacional e internacional. o Instituto Cubano do Livro editou. toda obra produzida em Cuba pode ser transcrita total ou parcialmente em qualquer idioma — sem pagamento de direitos. do brasileiro Leon Hirzmann). centros de trabalhos e sindicatos. Os livros didáticos são distribuídos gratuitamente aos estudantes. Luzia. A televisão cubana só entra em cadeia nacional . Havana tinha os muros cobertos de cartazes anunciando a exibição de São Bernardo. disse um jovem cineasta. onde a atriz principal vive simultaneamente os papéis de três mulheres cubanas trabalhando em atividades diferentes. que conta como os mercenários foram vencidos na Baía dos Porcos. ensaios e depoimentos sócio-políticos. também pertence à humanidade". Entre obras "fuziladas". Hoje somos capazes de montar filmes sobre tudo o que se passou de importante no país após janeiro de 1959". Mas pode-se comprar. "Filmar tudo o que acontece de importante e guardar as películas". de Mário Puzo. cerca de 34 milhões de exemplares. Em parte isso se explica pela riqueza da Biblioteca Nacional. portanto.

o esporte nacional. título que ainda detém. todos os jogos são realizados com portões abertos. o México. Três anos após a amadorização dos esportes no país. a presença de europeus orientais no dia a dia cubano não é tão intensa e ostensiva como o noticiário dos jornais dá a entender. o Brasil. Muhammad Ali. de 64 anos. depois da chegada dos Mercedes-Benz argentinos. médicos. é intenso em Havana e nas províncias do interior. e George Foreman. Ã exceção desses treinadores de esportes e de alguns instrutores militares. russos e de uma infinidade de outros países. Pode-se. niet (não). a Argentina e todos os outros 18 países concorrentes. O mesmo ocorre com os Zhugulin-Fiat produzidos na Rússia — agora perdidos no meio dos 45 mil Ford Falcon. Até os caminhões Gaz e Zil já começam a ficar em minoria nas estradas. O movimento de atletas canadenses. como tovaritch (camarada). Stevenson — não se cansam de repetir os cubanos — preferiu voltar a ser operário e boxeur amador em Cuba. Joe Frazier. ok. da mesma forma que usamos no Brasil palavras inglesas como yes. Fora isso. o país só perdeu para os Estados Unidos — superando. bye-bye. compostos por operários. como é o caso do húngaro Karoly Laky. o Canadá. em 1960. búlgaros. todos os times cubanos são amadores. Nas Olimpíadas de Munique. . Com o esporte profissional abolido pela revolução. no entanto. acabaram sendo campeões mundiais como profissionais). um operário de quase dois metros de altura. Duane Bobby) e nos últimos Jogos Panamericanos. estudantes. pessoas de todas as categorias. um grupo de managers de Box dos Estados Unidos ofereceu-lhe um milhão de dólares para mudarse para Los Angeles e profissionalizar-se (seus três antecessores no título olímpico peso-pesado. em 1968. não se percebe no cotidiano cubano a presença soviética.para Fidel falar ou para transmitir uma partida importante de baseball (lá chamado de pelota). treinador da equipe cubana de pólo aquático. ouvir nas ruas algumas expressões russas. medalha de ouro em Box peso-pesado nas Olimpíadas de Munique (quando derrotou justamente um americano. nos últimos Jogos Panamericanos. Quem atua num time provincial tem direito à folga no trabalho para os treinos. E. Ninguém fala em esportes em Cuba sem referir-se com orgulho a Teófilo Stevenson. mescladas ao espanhol. O esporte amador parece ser uma das formas com que Cuba facilita sua aproximação com países de todo o mundo. em 1964. Cuba tornou-se campeã mundial de baseball. entretanto. Hoje os esportes em Cuba são amadores para quem joga e para quem vê: nenhum estádio cobra ingressos. Muitos deles vivem em Cuba. realizados no México.

Dom Carmine Rocco. quase todas as edições dos jornais Granma c Juventud Rebelde anunciavam a presença de uma missão estrangeira. disse. em conversa com um grupo de padres católicos. em 1971.Chevy e Dodge 1. qualquer outra pessoa seria condenada à morte. segundo estatísticas americanas) está mais restrita aos acordos de ajuda científica e militar. participou pessoalmente de um período de trabalho voluntário no corte de cana. E. Dois anos depois da revolução. Dom Cesare Zacchi. as relações atuais do governo cubano com a Igreja podem ser consideradas muito boas. Fidel Castro mandou expulsar do país o Núncio Apostólico. segundo se diz em Cuba. o chanceler do Vaticano. o atual Núncio. segundo autoridades cubanas. Sua presença em Cuba (6 mil ao todo. um jurista do Vietnã do Norte tenta inutilmente falar espanhol. Comparadas com as do início da década de 60. Junto com um guia cubano. acusado de envolvimento no contrabando de armas para os grupos que lutavam contra o governo. Às seis horas da tarde de uma agitada segunda-feira. alguns meses antes. os russos residentes em Cuba não têm privilégio em relação aos técnicos de outros países. três mongóis bebem vodca — vieram a Cuba estabelecer convênios agropecuários. E. Durante minha viagem. Não Alinhados e Inimigos do Capitalismo: de um lado. esperando vagar uma mesa. Quando Fidel Castro esteve no Chile. As boas relações de Cuba com o mundo socialista — e não apenas com a Europa Oriental — podem ser medidas pelo número de delegações estrangeiras que diariamente chegam e saem do país. o bar do Hotel Nacional parece uma espécie de Assembléia Geral dos Países Socialistas.500 que Perón vendeu a Cuba há dois anos. interrompeu uma missa que rezava durante sua visita ao país para atender a um telefonema de saudações do próprio Fidel Castro. Quando um padre era acusado de traição. . Há dois anos. A paz entre o Estado e a Igreja veio. três membros do Partido do Trabalho do Congo tomam daiquiri junto à porta. depois que se estabeleceu um princípio: "Os padres não se metem na revolução e os revolucionários não vão à missa". no balcão. e 10 mil. que a revolução sempre teve para com a Igreja uma atitude indulgente. Não se vêem russos nas ruas. liderando um grupo de seminaristas. um diplomata búlgaro conversa com um jornalista romeno. mesmo nos casos em que a acusação contra seus membros era a mais grave de todas em Cuba: traição. Pelo mesmo crime. apesar da participação da URSS no processo cubano. o governo o expulsava do país. e dos AlfaRomeo italianos.

Mais ostensiva do que em relação à URSS é a amizade dos cubanos pelo Vietnã do Norte. Têm também de submeter-se ao racionamento que. O RACIONAMENTO Pelo menos duas vezes por semana os jornais anunciam que um novo gênero alimentício deixou de ser racionado e que já pode ser comprado por la libre (fora da tabela a que todo cubano está sujeito)/ "O . Em todos os grandes hotéis há tiendas turísticas. Ho Chi Minh parece ser a figura mais venerada e respeitada em Cuba. Che Guevara. o mais importante do país. segundo dizem os cubanos. roupas e alimentos europeus e soviéticos a preços muito baixos. discos e posters a preços mais baixos. Estes têm os mesmos direitos e obrigações de qualquer cidadão cubano — ou seja: trabalham e vivem como cubanos. Depois de seus próprios heróis nacionais (José Marti. . . entretanto. onde se pode comprar charutos. rum. Camilo Cienfuegos). O governo mantém dois supermercados especiais para técnicos estrangeiros. a delegação de. com esta frase: "Cubanos e nortevietnamitas têm em suas veias o mesmo sangue. do Bureau Político do PCC". convidada pelo Comitê Central do Partido Comunista Cubano. repete a notinha de primeira página onde só mudam o nome de quem chegou e de quem foi ao aeroporto recebê-lo: "Chegou ontem a Cuba. escritórios.. já está chegando ao fim. que foi recebida no aeroporto José Marti por.. mas apenas na compra de produtos cubanos. O preço dos produtos vendidos nessas tiendas diplomáticas é irrisório: uma garrafa de uísque "Johnnie Walker" custa 35 cruzeiros. bebidas. Nenhuma dessas regalias. apenas exibindo o passaporte e o visto de turista.E diariamente o jornal Granma. Fidel Castro não se cansa de citar o "heróico povo vietnamita" em seus discursos.. beneficia os estrangeiros que entraram no país como exilados políticos. Os turistas também têm tratamento especial. e pelas cidades há bandeirinhas vermelhas nos restaurantes. A justificativa: "O país não pode submeter ao racionamento os estrangeiros que saem de sua terra para prestar ajuda à revolução". onde podem comprar cigarros. enquanto a dose do mesmo uísque custa 45 cruzeiros nos restaurantes de luxo da cidade. cinemas. O sangue vermelho da revolução".

80. se não era caro demais um maço de cigarros custar 18 cruzeiros por Ia libre. ele tirou do bolso seu maço de "Populares" e mostrou-me algo que vem impresso sob . "Hoje a quantidade a que cada um tem direito é mais abundante e acredito que em um ano o racionamento tenha acabado. Se quiser fumar mais. Com isso. Fuma de dez a quinze charutos "Cazadores" por dia. se confundem com o povo. nas palavras de um gerente de supermercado em Havana: "Fidel disse que quando a revolução estivesse terminada. E para os produtos considerados "não essenciais" — como cigarros e bebidas — o Estado arranjou uma solução sui-generis. Acho que no dia em que a libreta for eliminada. todos os cubanos têm direito à mesma quota mensal de alimentos Até o fim da década passada. O preço é o mesmo". de libreta na mão". nos restaurantes. Quem vê um ministro cubano nas ruas passa a acreditar nisso. cada cubano tem direito a apenas um maço de cigarros por semana. Juan Martinez Tinguao. e paga caro: "Sinto-me como se estivesse sustentando um filho que vivesse em Paris. com toda a distribuição e comercialização nas mãos do Ministério do Comércio Interior. nas repartições públicas. E esta mesma fila que faço neste supermercado é enfrentada pela mulher do ministro do Interior. é hoje funcionário do Instituto Nacional da Indústria Turística. A garrafa de rum. mulher de um agrônomo e mãe de três filhos.2 milhões de habitantes. Em 1968. pois o governo ainda não havia assumido o controle total do abastecimento e da comercialização de gêneros no país. Para que a produção agrícola do país dê para abastecer os 9. por exemplo. o motorista que trabalhava comigo. Quando perguntei a Gilberto. Cada cubano tem direito a um charuto por semana que lhe custa dois cruzeiros — quem quiser fumar mais. é vendida a 198 cruzeiros por Ia libre. paga nove cruzeiros a unidade. ele corta". dizem. A libreta. para cada adulto). conta-se que o mercado negro era feroz. sempre em mangas de camisa. que custa 22 cruzeiros pela libreta (uma por mês. O racionamento é igual para todos. Hoje. a quem ajudou a editar um jornalzinho clandestino antes da revolução. só se compra com libreta.racionamento já foi pior" — diz dona Eliana. tem de pagar o maço a 18 cruzeiros. é que existe o racionamento. Pelo menos a gente tem a certeza de que não há discriminação. ele cortaria a barba. de fato. Eles. "é o osso atravessado na garganta da revolução". um leitão que custava 135 cruzeiros pela libreta era vendido no mercado negro por quase Cr$ 3 mil. Assim. ao preço de Cr$ 1. que vive em Havana. adotada recentemente pelo governo do Vietnã na reconstrução do país: assumiu o mercado negro. Ou. amigo pessoal de Fidel.

a marca:
— Está vendo? 'Fumar faz mal à sua saúde". Não é necessário. Em
Cuba um maço de cigarros custa 18 cruzeiros, mas a gente se consola
sabendo que toda criança até sete anos de idade e todo velho de mais de 65
tem direito a um litro de leite por dia, por lei. Uma coisa paga a outra.
Para racionalizar a distribuição e evitar que o mesmo produto falte
num lugar e sobre em outro, cada supermercado serve a determinado
número de moradores de um bairro. Por exemplo: um supermercado do
bairro de Vedado, em Havana< vende a 6 mil famílias residentes naquela
região. Isso significa que um morador da rua 23, por exemplo, só pode
comprar ali seus alimentos racionados. Por Ia libre ele compra onde
quiser. Com o controle total do Estado sobre o abastecimento do país, o
governo consegue manter estáveis os preços ao consumidor há catorze
anos, desde que foi baixada a segunda lei da reforma agrária. Um quilo de
arroz, por exemplo, continua custando 2,60 cruzeiros desde 1962/ embora
nesse período o preço da tonelada do produto tenha aumentado de 864
para 3.600 cruzeiros no mercado internacional. A diferença é subsidiada
pelo Estado. Para reduzir o gasto de divisas, Cuba tem forçado a
diminuição do consumo interno de seus produtos de exportação — o que
explica os preços altos do rum, do charuto e dos cigarros.
Com os preços internos estáveis, o que pode sofrer uma pequena
variação é a quantidade a que cada cubano tem direito. Se uma safra é
boa (ou se os preços de algum gênero importado caem no mercado
internacional), a quota de cada um aumenta, e vice-versa. "Mas sempre
mantendo um mínimo necessário à alimentação das pessoas" — assegura
o gerente de um supermercado. Pregada>à porta dos armazéns há sempre
uma tabela* com a quantidade por pessoa e o respectivo preço — tabela
que é a mesma em Pinar Del Rio, no oeste do país, ou em Santiago, capital
da província de Oriente. Em março de 1975, esta era a tabela em vigor no
país (convertida em cruzeiros):

Produto
Manteiga
Sabão/detergente
Caldo de carne e galinha,
concentrado, para crianças
Arroz

Quantidade per capita
por mês
500 gramas
3,5 quilos
7 tabletes

Preço a pagar
pela quota
Cr$ 2,16
Cr$ 2,70
Cr$ 1,40

3 quilos

CrS 7,80

Massa de tomate
Feijão
Açúcar
Sal
Sabonete
Pasta dental
Carne de boi (preço médio)
Carne de porco
Carne congelada prensada
Salame
Salsichão
Costeleta salgada
Toucinho
Presuntada em lata
Presunto cozido
Presunto cru
Patê
Lombo defumado

1,5 quilo p/ família de até 7
pessoas
700 gramas
1,5 quilos
500 gramas
1,5 unidade p/ pessoa
4 por grupo de 15 pessoas
350 gramas
350 gramas
700 gramas
480 gramas
480 gramas
420 gramas
350 gramas
350 gramas
300 gramas
240 gramas
3 latinhas
270 gramas

Cr$ 2,70
Cr$
CrS
CrS
CrS
CrS
CrS
CrS
CrS
Cr$
CrS
CrS
CrS
Cri
CrS
CrS
CrS
CrS

1,62
0,50
0,30
1,30
6,00
5,00
5,00
5,40
5,40
5,40
5,00
5,00
4,50
5,20
9,45
9,45
4,60

Para entender o racionamento de alimentos é preciso saber que todos
os locais de trabalho (fábricas, repartições públicas, etc.) servem almoço e
jantar a 3 cruzeiros, e as escolas, em todos os níveis, dão café da manhã,
almoço e jantar gratuitamente aos alunos. Nada disso é debitado à quota
individual das pessoas. O que se compra nos supermercados, então, é
utilizado praticamente apenas em jantares eventuais e nas refeições de
sábados e domingos.
A gasolina também é racionada, embora Cuba tenha seu
abastecimento de petróleo garantido pela URSS até 1980, a preço fixo (e
abaixo dos preços do mercado internacional). Os carros particulares de 4
e 6 cilindros (Fiat, Zhugulin, Dodge 1500, Ford Falcon, Alfa Romeo) têm
direito a 76 litros de gasolina por mês, e os de 8 cilindros (geralmente os
velhos carros americanos de antes do bloqueio) têm direito a 95 litros.
Dentro dessa quota, o litro custa 1,42 cruzeiros, mas quem quiser pasear
por Ia libre, como dizem os cubanos, também pode — só que o litro de
gasolina passa a custar 4,72 cruzeiros. Para compensar o racionamento, o
transporte coletivo urbano é eficiente e relativamente barato (uma
passagem de ônibus custa Cr$ 0,45).
As corridas de táxi são caras: a bandeirada custa Cr$ 4,50 e o
quilômetro rodado, Cr$ 3,00. Uma viagem equivalente à do centro de São

Paulo ao aeroporto de Congonhas — 15 quilômetros — custava Cr$
45,00. Mas isso não impede que os táxis sejam disputados pela população
nas noites de sexta-feira, sábado e domingo, quando o povo invade as
boates, restaurantes e casas de espetáculos de Havana e das capitais
provinciais.
À custa do racionamento, quem quiser fazer um galanteio a uma
cubana deve levar-lhe de presente uma dúzia de bobbies plásticos para
enrolar cabelos. A cubana é extremamente vaidosa — o que pode ser
percebido pelo intenso movimento dos salões de beleza. Este "costume
burguês" sobreviveu em Cuba com toques revolucionários: o salão de
beleza do Hotel Nacional, por exemplo, se chama "Van Troi", em
homenagem a uma combatente da guerra do Vietnã. O racionamento fez
desaparecerem os bobbies do mercado, o que criou uma situação
engraçada: pode-se ver pelas ruas mulheres com os cabelos enrolados com
latinhas de talco vazias ou cilindros de papelão de papel higiênico,
transformados em bobbies.
Para os noivos, o racionamento deixa de existir por algumas horas: no
dia do casamento, o homem e a mulher têm direito, cada um, a 15 caixas
de cerveja, 15 garrafas de rum e meia dúzia de garrafas de champanha da
Criméia — tudo a preço de tabela, fora do racionamento. Além disso, o
Estado aluga quantos carros sejam necessários para transportar os
convidados, e os noivos só pagam a gasolina.
No Palácio dos Matrimônios, o movimento é muito grande aos sábados
e domingos. No dia 1? de março de 1975, a noiva era Hortensia, uma exdoméstica de 38 anos, hoje chefe de seção numa fábrica de roupas
industriais. O noivo era Alberto, 35 anos, mecânico de turbinas da Cubana
de Aviación. Intercalando frases de Lênin com conselhos de sua própria
lavra, o juiz dá por encerrada a cerimônia com uma frase dirigida ao
noivo: "Não se esqueça de que este é o Ano Internacional da Mulher. Sua
homenagem, Alberto, deve ser prestada a Hortensia, que agora é a sua
mulher".
Roupas e calçados também continuam racionados: cada pessoa tem
direito a comprar três pares de sapatos por ano. Os homens têm uma
quota anual de dois ternos e as mulheres de dez metros quadrados de
tecido para vestidos. Nenhum desses produtos, entretanto, é anunciado em
Cuba. Os out-door onde antigamente eram colados cartazes de publicidade
foram multiplicados no país e transformados em veículos só de
propaganda política e de estímulo à produção agrícola e industrial. A
"agência de propaganda" do Estado é o DOR — Departamento de
Orientação Revolucionária, responsável pela criação da propaganda

a tecnologia. televisores e máquinas de lavar importados da URSS. prefere gastar o dinheiro bebendo. A cerveja Atuey e os refrigerantes Som. dançando — divertindo-se de várias formas. que atravessa o país de ponta a ponta (quase mil quilômetros de extensão. inclusive pela falta de bens de consumo à disposição. sem pagar impostos e sofrendo um desconto de apenas 6% no salário (pagamento de aluguel. a cultura. Normalmente as economias são depositadas no Banco Nacional de Cuba — que só agora começará a cobrar e pagar juros — ou gastas em bens de consumo (geladeiras. do Canadá ou da Espanha. Isso pode ser percebido facilmente pelo movimento das boates e restaurantes nos fins de semana: é impossível entrar num desses locais sem ter reserva feita com dois dias de antecedência. financiados pelo Estado). os Fiat fabricados na Argentina. livros e cadernos. Os que compraram. Sendo gratuitos quase todos os serviços básicos (educação. Os primeiros que chegaram ao país substituíram os velhos Cadillacs e Oldsmobiles americanos nos setores considerados fundamentais: táxis e repartições públicas. quatro pistas asfaltadas). depois às outras categorias. A economia. Os carros recentemente importados da Argentina passaram a ser a nova tentação dos cubanos. o cubano faz sua poupança. até que se possa atender a todos os interessados. da Polônia". como os carros não são tantos e a procura é grande. de um lado e de outro.oficial. A maioria. A prestação mínima é de 720 cruzeiros. assistência médica e remédios). para os que não tinham casa própria antes da revolução). entretanto. não têm rótulo nem chapinha impressa: são identificados pelo formato da garrafa ou pela cor do líquido. As remessas seguintes puderam ser vendidas a particulares. produzidos no país. Por todo o país estavam espalhados cartazes chamando a atenção para o primeiro Congresso do Partido Comunista Cubano (ocorrido em 1975) e manifestando solidariedade ao povo chileno. que o governo financia em quatro anos. como Cuba esteve". de cinco sabores. os cartazes coloridos: "Os homens morrem. a educação. o fornecimento de petróleo. a alimentação. o Partido é imortal". alimentação escolar. pagaram cerca de 40 mil cruzeiros. por exemplo. comendo. roupas de estudantes. Mas. "Saudações ao companheiro Edward Gierek. a indústria. Cuba passou 60 anos dependendo dos Estados Unidos para tudo. valor do saláriomínimo nacional. Viajando pela carretera central. "A Venezuela não estará sozinha neste continente. pode-se ver. a venda de açúcar — tudo dependia dos . o governo adotou um critério: primeiro vender aos médicos.

Muitas das que continuaram funcionando acabariam desativadas por falta de peças de reposição. Hoje. Os carros foram um bom exemplo desse comportamento: decidiu-se sobreviver com os carros americanos que existiam. por inspiração dos EUA.5 milhões de cubanos. URSS e Argentina. Cuba viveu momentos duros e só podia comprar o que fosse absolutamente indispensável para a vida do país. Largados nos subúrbios das principais cidades. o alimento dos então 5. embora praticamente todos os carros fossem americanos. Com o bloqueio total. decretado pela Organização dos Estados Americanos. de automóvel. no abastecimento de produtos semiindustrializados. a pé. o governo dos Estados Unidos cortou o cordão umbilical por onde passavam o oxigênio. da noite para o dia. aos médicos e aos cientistas altos salários para que abandonassem o país — um estrangulamento no melhor estilo. além disso. O país voltava ao estágio em que os americanos se encontravam em 1900: quando alguém precisava de peças de reposição. Dizia-se que um ladrão. 24 horas por dia. ofereceu aos técnicos. o sangue. As máquinas pararam. \ Cuba resolveu em parte o problema dos carros. sem uma peça sobressalente comprada no exterior. não entrou no país um só parafuso feito nos Estados Unidos. Em Cuba diz-se que os mecânicos de automóvel chegaram à perfeição de "tirar umidade do pó". Itália. Os velhos Ford Fairlane fabricados em 1960. Mas ainda é possível ver nos jornais notinhas da polícia advertindo que "é expressamente proibido abandonar veículos imprestáveis na via pública". E. abastecida pelo Japão. metia um bloco de aço no \ torno e as construía. os velhos Cadillacs dos anos 50 são a última lembrança. que eram usados pela Polícia Nacional Revolucionária. Durante dez anos. uma irônica lembrança da presença americana no país.vizinhos americanos. uma por uma. estava mais bem equipado que a polícia. em matéria de consertos e reparos. pois não havia quem as movimentasse. na compra da quota do açúcar. rodaram durante dez anos. e tentar mantê-los inteiros até que a situação melhorasse e a frota nacional pudesse ser substituída por outros modelos. UM PAIS SEM FAVELAS Uma das mais baixas relações entre piso e teto salarial do mundo é a . Em 1961. Os russos substituíram os americanos no fornecimento de petróleo.

500 cruzeiros).150 cruzeiros.cubana. o governo proclamou o caráter socialista da revolução.500 cruzeiros. por exemplo. segundo o câmbio do cruzeiro em 1975). sobrevivem em Cuba os chamados "salários históricos". pagando o preço ao Estado. ganha cerca de 950 cruzeiros. mas nunca superando o teto da classe. um imóvel a mais. Os "salários históricos" são originários de uma peculiaridade da revolução cubana. Como não há inflação. determinou que todo mundo passava a ser dono da casa em que vivia. Quem tivesse. Quando. Um jornalista ganha em média 2 mil cruzeiros por mês. Em 1975. a título de indenização. para estimular o interesse dos jovens pelos cursos de Comunicação. ocorreu o que os cubanos chamam ironicamente de "reforma urbana espontânea": a fuga em massa dos milionários para Miami. Além dos que recebem "salários históricos". embora a média salarial gire em torno dos 180 pesos mensais. a partir do segundo imóvel. sem direito à indenização. E. Os dois bairros mais elegantes de Havana. a partir de 1959. num prazo que variava de três a oito anos e em prestações mensais proporcionais à renda da família. em caráter vitalício e não hereditário. um motorista. que recebem essa quantia do Estado. em 1961. Os proprietários de mais de dois imóveis eram simplesmente expropriados. 2. um grupo vive de rendas mensais de aproximadamente 500 pesos (cerca de 4. quem tiver pós-graduação. uma das primeiras baixadas pelo novo regime. perderia a segunda propriedade e receberia do governo 500 pesos mensais. Como nenhum empregado teve seu salário reduzido pelos novos governantes. A escala salarial dos jornalistas obedece a critérios objetivos: quem souber mais de um idioma tem direito a x pesos de aumento. 1. mais x. Pouquíssimas pessoas. A lei da reforma urbana. ganham apenas um saláriomínimo. Um basurero — lixeiro — por exemplo. Um cálculo aproximado fixa em torno de mil as pessoas que continuam recebendo "salários históricos". que o Morumbi. alguns funcionários das antigas empresas telefônicas e de eletricidade estrangeiras continuaram recebendo o que ganhavam na época da revolução. Os salários oscilam entre mínimo de 80 pesos e o máximo de 350 pesos mensais (720 a 3. entretanto. Os antigos inquilinos compravam a casa. em São . por exemplo. de 500 a 600 pesos mensais — tão raros que não são computados nos cálculos globais.700. Miramar e Laguitos — infinitamente mais sofisticados. um ministro de Estado. os reajustes salariais são muito raros. o Sindicato dos Jornalistas ia propor ao Ministério do Trabalho um aumento do piso salarial da classe. além da casa em que morava. São os antigos proprietários de casas alugadas. e assim por diante.

a partir de 1969. a produção . passaram a viver estudantes pobres que vinham a Havana terminar seus cursos com bolsas de estudos. Naquele momento estavam nascendo as microbrigadas. foi a formação de grupos especiais para prestar serviços na construção. As milhares de casas abandonadas foram ocupadas de imediato pelo governo. O Estado forneceria material. A reforma urbana e as casas abandonadas pelos milionários não resolveram a crise. Mas o problema habitacional. construindo conjuntos de casas e apartamentos. no início dos anos 60. Em 1968 havia um déficit. de 100 mil casas por ano. arquitetos e engenheiros. que deixou em seu país. E de cada local de trabalho seria deslocado um certo número de funcionários para trabalhar na construção dos conjuntos habitacionais. A redistribuição das mansões de Laguitos e Miramar transformou a vida desses dois bairros arborizados com alamos seculares: onde moravam os "czares do açúcar". uma das diversões preferidas desses estudantes é andar pelas casas batendo na paredes com os nós dos dedos. evidentemente. Fidel Castro havia dito. E ainda havia bohíos espalhados pelo país. do local que fornecesse a mão de obra. industrial do açúcar de 78 anos. da indústria. à procura de fundos falsos. um dos homens mais ricos da Cuba pré-revolucionária (hoje residente em Madri).Paulo e a Gávea. confessou há alguns meses. a revolução não mereceria esse nome". Como parte dessa fortuna. no Rio — ficaram desertos da noite para o dia. abarrotando-os de jóias. os donos de muitas das mansões transformaram as paredes em cofres. continuava de pé. "sem olhar para trás. Fidel impôs apenas uma condição: qualquer que fosse o número de pessoas afastadas do serviço para atuar na construção. lançada pelo próprio Fidel Castro num congresso nacional dos trabalhadores cubanos. por exemplo. ele tinha mais de 400 imóveis alugados em Havana e nas outras províncias — todos expropriados pelo novo governo. A solução adotada. Júlio Lobo. obras de arte e dinheiro vivo. 140 milhões de dólares em dinheiro. O Ministério da Construção tentava diminuir as causas do problema. terreno. determinava também que as casas construídas pelos grupos especiais seriam distribuídas entre os trabalhadores da repartição. A idéia. Na esperança de que a revolução fosse algo passageiro. mas não havia mão de obra suficiente para a construção civil. em uma entrevista a uma revista mexicana. a maior fortuna pessoal de Cuba". reconhecido pelo próprio primeiro-ministro. onde os antigos moradores pudessem ter escondido fortunas antes de partir. Ainda hoje. que "enquanto houvesse um só bohío (casebre) em Cuba.

piscina e praças de esportes. Segundo Alírio Alfonso. A idéia de construir conjuntos de casas foi logo abandonada — fazer prédios de cinco andares era mais racional. As microbrigadas tiveram então de fornecer mão de obra para as fábricas que iriam alimentá-las. gabinetes médicos. ladrilhos e azulejos. diz ele.daquele centro de trabalho não poderia cair. já que também seriam beneficiados na distribuição de casas próprias. dificilmente se encontra um setor de atividade que seja inteiramente independente de outro. Era preciso criar infra-estrutura para as famílias que ali fossem viver. elas tinham crescido para 1. Os que permanecessem teriam que aumentar o ritmo para manter a produção estável. os técnicos procuravam ser exigentes com as normas de segurança. pregando tacos. pré-moldados. professores. berçário. havia três microbrigadas no país: duas na província de Oriente e uma em Havana. Em 1970. as microbrigadas acabaram encontrando-se com a Educação. "Além do espírito de responsabilidade do nosso operário". Assim. garçons. "E era". diplomatas. no fim de 1974. médicos. Se a estética não poderia ser considerada prioritária. mas hoje já se projeta e se constrói tudo em Cuba. usou-se tecnologia soviética em pré-moldados. o maior problema era a falta de qualificação dos trabalhadores. gente de todas as profissões assentando tijolos. Havia padeiros. propriamente . esquadrias metálicas. No princípio. Resolvido desta maneira o problema da mão de obra para o setor habitacional. comenta hoje um engenheiro. cada uma com 33 trabalhadores. homens e mulheres. "Nós estávamos em guerra contra o capitalismo". Em Cuba. Um ano depois de organizadas as microbrigadas. Parecia uma solução de guerra. curto-circuito ou desabamento por defeito em casas ou apartamentos por elas construídos.125. surgiu outra dificuldade: não havia gente para trabalhar na montagem de fábricas de cimento. nunca houve um só caso de incêndio. Como o sistema educacional cubano prevê que o aluno deve dar um período do dia a seu curso. Por melhor que fosse a assessoria técnica. instalando sistemas hidráulicos e elétricos. ficou claro que não bastava construir apenas os conjuntos habitacionais e entregá-los a seus futuros donos. já existiam 440 microbrigadas. Um ano depois. para a construção de obras sociais e de serviços: mercado. de 8 pessoas. No princípio. coordenador nacional das microbrigadas. "existia outro dado: o homem que estava instalando um sistema elétrico numa casa podia ser seu futuro morador". Passou-se então a dividir cada microbrigada em dois grupos: um de 25 trabalhadores para levantar o prédio de apartamentos e outro. as casas construídas eram muito simples.

mas uma coisa é certa: é gente que merece. com um sotaque pouco cubano: era Rui Sánchez.dito. Cada centro de trabalho tem uma comissão. por exemplo. estudante do terceiro ano de Arquitetura. num dia de fevereiro. se as microbrigadas não resolveram integralmente o problema habitacional cubano. Embora já tivesse casa própria. asilado político. Ao lado da fábrica de cimento montada para alimentar as obras de Alamar. que decide quais serão os primeiros a receber casa própria. em que trabalham atualmente quase 40 mil pessoas. as microbrigadas passaram a incorporar estudantes do último ano de Engenharia e de Arquitetura. foi morto em Santiago ali de setembro de 1973. estudante de Engenharia Hidráulica na Universidade de Havana. Há dois anos era tabacalero — enrolador de fumo numa fábrica de charutos. A seu lado. A decisão sempre leva em conta o número de filhos. um mineiro de cobre. onde foi construído um conjunto habitacional para 25 mil pessoas. em todo o país. há uma fábrica de móveis — cerca de 65% dos apartamentos construídos pelas microbrigadas são entregues já mobiliados. À tarde. um jovem louro. entrou como voluntário para as microbrigadas: — Não sei quem é que vai morar aí dentro. de mais de cem quilos. 24 anos. na sua especialidade. na capital. . a 15 quilômetros de distância. e o outro período ao trabalho efetivo (dentro da atividade escolar escolhida). cujo chefe. Quem não fez nada pela revolução não pode ser seu primeiro beneficiário. dia da queda de Salvador Allende. O primeiro apartamento do prédio construído por Armando deverá ser oferecido a uma família de asilados políticos chilenos. vai para o Distrito de Alamar. à beira-mar. supervisiona todo o sistema hidráulico e dá pequenos cursos especiais para formação de pedreiros. passa as manhãs nas salas de aula. o espírito de coletividade do beneficiário. certamente terão contribuído para isso: Cuba é o único país da América Latina que não tem favelas. E. De calças compridas. é o mestre de obras de uma das microbrigadas de Alamar. Ali. estava Célia. Armando Suárez. explicando a um trabalhador como cortar um caibro. ela orientava um grupo de operários na linha de montagem de estantes e camas de casal. Metida no meio da serragem. composta de trabalhadores. Até agora foram construídos cerca de 70 mil apartamentos pelo sistema de microbrigadas. o salário e. sem camisa. Mário. claro. cabelos presos por um lenço. um homem avermelhado. a vontade de trabalhar e de ser revolucionário. arquiteto chileno.

No fim do primeiro ano de trabalho. "Dezenas de alfabetizadores foram assassinados por contra-revolucionários. Foram criadas mais de dez mil salas de aulas apenas no primeiro ano após a derrubada de Fulgencio Batista. almoço e jantar) e todo o material escolar. O ensino tornou-se. o Ministério da Educação instituiu. exercendo as mais diversas tarefas. outras categorias — como donas de casa e aposentados — incorporaram-se voluntariamente às brigadas alfabetizadoras.A NOVA ESCOLA Cem mil estudantes e cem mil operários de nível médio foram mobilizados. Os índices tinham sido reduzidos de 35% para 5% de analfabetos no país — hoje reduzido a cerca de 2%. Alguns deles hoje são considerados heróis nacionais e têm seus nomes em escolas. em 1961. A gratuidade da educação compreende alimentação (café da manhã. diz um funcionário do Ministério da Educação. bandeiras. gratuito em todos os níveis — do pré-escolar ao curso superior — e obrigatório até o 6º grau. só veio a ser iniciada em 1966. entretanto. o país. para iniciar uma campanha de alfabetização em massa do povo cubano — naquele ano o índice de analfabetismo girava em torno de 35%. passou a ser conhecido pelo povo como "Território Livre do Analfabetismo". então. A grande virada nos conceitos tradicionais de educação. acusados de estarem submetendo o povo à lavagem cerebral vermelha". que era chamado pelos revolucionários de "Território Livre do Imperialismo". em caráter experimental. Aos poucos. Naquele ano. depois readaptadas para o ensino médio. uma escola secundária básica — do 7º . medalhas de mérito. A responsabilidade pela educação passou a ser inteiramente do Estado. Uma das primeiras instruções baixadas por Fidel Castro como primeiro-ministro foi a transformação de 70 quartéis em escolas de alfabetização.

ao fim de poucos anos de funcionamento das escolas no campo. em todo o país. arados. onde já os esperam tratores. durante uma hora e à escolha de cada um: baseball. novo encontro de todos. o ritmo de trabalho e estudo é intenso: os alunos acordam às seis da manhã e durante o café ouvem as principais notícias nacionais e internacionais. Frotas de micro-ônibus recolhem os jovens em suas casas na segunda-feira de manhã e os trazem de volta no sábado à tarde. Com base no princípio que concebe a formação do homem vinculada ao trabalho produtivo. A escola experimental conjugava dois fatores considerados fundamentais no país: o desenvolvimento do homem voltado para o campo. uma hora e meia de estudo individual e. natação. basquete. colhedeiras e pulverizadores de herbicidas. vôlei. Essa rotina se repete diariamente para 75 mil moças e rapazes de 12 a 16 anos em 150 pontos diferentes do território cubano. passou a dar resultados concretos. . Das sete às oito. inicialmente criado apenas para estimular o contato do jovem com a terra. Hoje existem 150 escolas como essas espalhadas por todo o país. O trabalho agrícola dos estudantes. e à uma da tarde os trabalhos se invertem: as turmas que assistiram às aulas vão para o campo. que 500 hectares de cítricos plantados e colhidos pelos alunos e vendidos no mercado internacional eram suficientes para pagar todos os gastos da escola em um ano (cada aluno de escola secundária básica no campo custa ao Estado. e a instituição de uma educação de modelo socialista. No final do primeiro ano de experiência. atletismo. em regime de semi-internato. Às 7h30. nas estatísticas da agricultura: a produção das hortaliças e dos cítricos nascidos das mãos dos estudantes. descobriu-se que o aproveitamento dos alunos daquela escola era superior ao de seus companheiros das secundárias básicas urbanas. Às cinco e meia. orientados por técnicos do Instituto Nacional de Reforma Agrária. publicadas pelo Granma. Com surpresa. às dez. lidas por um colega e espalhadas por todo o refeitório através de alto-falantes. anualmente. todos se encontram no refeitório. fez surgir um item novo. para prática obrigatória de esportes. as autoridades descobriram. e vice-versa. com a produção. Ao meio dia.ao 10º grau — na zona rural. entram nas salas de aulas os 250 alunos do 89 e 101? graus. A multiplicação das escolas no campo. Durante a semana. onde os alunos. criou-se uma escola secundária no interior da província de Matanzas. futebol. dedicavam meio período às aulas e meio ao trabalho no campo. cada uma com 500 estudantes. jantar para todos e depois meia hora de "atividade livre". 6 mil cruzeiros). os 250 rapazes e moças do 7? e 9<? graus seguem para o campo. cama. Ao mesmo tempo.

sente-se à vontade como professor de "Moral Comunista". A escola recebeu quase todos os seus 72 laboratórios de física. em San Antônio de los Baños. no interior da província de Havana. inaugurada em fevereiro de 1974 por Leonid Brejnev. química e biologia do governo da URSS. dentro de no máximo dez anos. Entusiasmado com esse tipo de educação.600 moças e rapazes. com destaque para as "degradações morais provocadas pelo capitalismo no ser humano". A receita para a educação secundária (conjugar trabalho e estudo) já está sendo implantada também em Havana. há alguns anos. com componentes soviéticos. "para evitar distanciamento dos alunos". a Lênin é uma verdadeira cidade estudantil. Instalada num conjunto de 98 mil metros quadrados de área construída em 30 blocos de edifícios. ele é também professor de alguma matéria. secretário-geral do Partido Comunista da URSS. Augusto. não havendo nenhum contato dos estudantes com a agricultura. hoje diretor da Secundária Básica Simón Bolívar. tinha apenas 4 anos. todas as escolas como a dirigida por Augusto — as construídas no campo — terão sido pagas com a produção de cítricos dos alunos. naquela que é considerada internacionalmente como um modelo de escola de segundo grau: a Escola Vocacional Lênin. Pergunto a Augusto se ele conhece algum país capitalista. Mas não é preciso ter vivido nas vísceras do monstro para conhecê-lo bem. todas as escolas secundárias cubanas terão sido transferidas para a zona rural. Até 1980. em janeiro de 1959. Uma rápida olhada no programa do curso deixa entrever um tópico em que se estabelecem comparações entre as sociedades capitalista e socialista. que mandou a Cuba um grupo de cientistas para a formação dos professores que dirigem os cursos da escola. De suas oficinas saem anualmente 30 computadores eletrônicos de terceira geração. apenas com uma diferença: na Lênin esta atividade é dirigida exclusivamente para os setores científicos e técnicos. A resposta vem rápida: — Não.Quando Fidel Castro tomou a capital. O aproveitamento dos alunos da Lênin é medido pela produção de seu trabalho. estudam e trabalham 4. onde vivem. inteiramente construídos por alunos. não conheço. Fidel Castro prometeu que. Militante e ex-dirigente da União dos Jovens Comunistas. Da mesma forma que nas escolas no campo. o aluno é obrigado a dar 15 horas semanais de trabalho produtivo. franceses e japoneses (a Lênin fabricou os . A escola foi criada com o objetivo de desenvolver vocações e selecionar os jovens que se interessem por carreiras técnicas e científicas. Como todo diretor de escola em Cuba.

dependendo do curso escolhido). secundária básica (quatro anos). para que o visitante possa ter uma noção exata do que foi feito: 35% da população era composta de analfabetos. e 40. no mesmo período.5 milhões de cruzeiros. divisas no valor de 7. como a Unesco. e o estudante permanece no regime de trabalho-estudo. onde vivem 39. de 93 para 5 mil. Assim como foi feito com a saúde pública. não tinha escolas. O cubano vangloria-se dos progressos atingidos no campo da educação pela revolução. pré-universitária (três anos). Para evitar que o trabalho pudesse ser usado como pretexto para que os jovens se dedicassem menos à educação. a cada dia são fabricados 200 rádios de três faixas de onda e cerca de cem mil pilhas secas. o orçamento da pasta foi de 6. Numa espécie de estágio. os agrônomos no campo. segundo informações oficiais. e ingressar numa universidade era um privilégio de muito poucos. aos cursos médios só tinha acesso uma pequena parcela do povo. Atualmente há cerca de 300 mil bolsistas no país (uma bolsa de estudos em Cuba compreende o pagamento de todas as despesas do estudante. e não se cansa de exibir estatísticas de organismos internacionais. que eram 40 em 1959. os engenheiros em indústrias.400 e o número de alunos que as freqüentam aumentou. o estudante é destacado pelo Ministério do Trabalho (que. A educação geral vai do pré-escolar à universidade. assim dividida: pré-escolar (dois anos). em nível primário. primário (seis anos). mais da metade da população escolar.3 bilhões de cruzeiros — superior. sobre a situação do país antes de 1959.6% dos cubanos. sabe para onde . Durante o curso universitário. a política educacional não incluía ensino técnico e profissional. aos gastos com Defesa). o governo baixou uma lei proibindo o trabalho remunerado aos menores de 17 anos. no ano passado. As escolas para formação de professores de cursos técnicos e profissionais. Só as exportações de bolas e luvas de baseball fabricadas na Lênin deram a Cuba. em contato com o Ministério da Educação.4% dos professores primários em atividade no país estão incorporados ao setor rural. desde o primeiro ano. o governo resolveu investir maciçamente em Educação (em 1974. Terminado o curso.1% para a população entre 6 e 12 anos. repete-se o critério adotado no ensino médio. o universitário é obrigado a dar meio período num centro de trabalho ligado à sua carreira: os futuros médicos em hospitais. A escolarização alcançou a cifra de 96. das quais 20 mil em cursos superiores.primeiros computadores cubanos). universitária (que varia de quatro ali anos. hoje são 1. que passa a viver inteiramente às expensas do Estado).

Estudantes das universidades de Havana e Oriente disseram que o desejo do recém-formado de trabalhar neste ou naquele lugar. Além das universidades instaladas nas capitais e cidades mais importantes de cada província. geralmente é respeitado. "Em Havana ou em qualquer outro ponto do interior do . Com a mesma facilidade com que obtive o remédio eu conseguiria — disse-me o médico — submeter-me a um eletrocardiograma ou internar-me num hospital para receber até um rim transplantado. pergunto: — Quero apenas um sabonete e aspirina. este é um país muito pobre. — Companero. à noite. Consegui em poucos minutos a receita (após dizer ao médico de plantão. que alguém queira permanecer em Havana. o que eu sentia). A SAÚDE Na principal farmácia da Avenida 23. por exemplo. E ser estrangeiro não muda nada: ali na esquina há um posto médico aberto. em casos mais raros. Estes são embalados em papel pardo. decorada com posters em homenagem a Amilcar Cabral e Che Guevara. sem nenhum design especial. apenas com o nome e a composição química do produto impressos de um dos lados. e tenha que se mudar para outra província.se dirigirá profissionalmente toda a população estudantil. em Havana. às onze horas da noite. encarregadas de formar técnicos agrícolas e engenheiros agrônomos que voltaram a estudar depois de adultos. Durante o dia os alunos trabalham na agricultura e na pecuária e. E sou estrangeiro. assistem a aulas. Quem sabe se você deve tomar aspirina é o médico. que não pode se dar ao luxo de estar vendendo remédios a quem acha que precisa deles. O que não impede. onde sua especialização seja considerada mais necessária. e sem vontade de andar num domingo à noite. depois de formada) para trabalhar onde o Estado estiver mais necessitado. os comprimidos e o sabonete. Sem entender bem. Cada escola pertencente à Universidade Operária fica no centro de uma grande área agrícola. peço à balconista gorducha um sabonete neutro e um envelope de aspirina. não sei como conseguir uma receita médica. onde geralmente trabalham seus alunos e professores. o governo mantém Universidades Operárias. lá você obterá a receita. Ela pede a receita médica.

6 bilhões de cruzeiros anuais no setor. a difteria e o tétano foram erradicados. 330 policlínicas. Fidel Castro declarou que Cuba tinha "excelentes médicos" no lugar dos que haviam fugido do país. O conjunto de instalações do Ministério da Saúde atualmente é de cerca de 3. houve apenas um caso de poliomielite no país (depois constatou-se que o garoto vitimado não tinha sido vacinado por descuido dos pais). lembra um assessor do ministro da Saúde. técnicos em odontologia.300 cubanos) e até 1980 esse índice deverá ser elevado para 1 médico para mil habitantes. Ele se referia ao nível de exigência do curso de Medicina cubano: para .200 médicos (um para cada 1. a malária. Entre janeiro de 1959 e fins de 1960. nos últimos sete anos.4 por 1. 400 postos médicos e 2. nos partos.000 nascimentos (a mais baixa da América Latina e inferior até à de algumas regiões dos Estados Unidos.país" — assegurou — "o tempo gasto por um paciente para ser atendido é o que ele leva de sua casa a um posto médico ou hospital". Alguns resultados da "revolução na saúde": a taxa de mortalidade infantil foi reduzida a 27.200 laboratórios de análises e de produção de medicamentos. "em que todo o esforço do país foi dirigido num sentido: prevenir as moléstias para evitar que o povo ficasse doente e viesse a precisar de médicos". Com o país privado inesperadamente da metade de seus médicos. a primeira medida tomada pelo governo foi declarar a saúde como atividade de "exclusiva responsabilidade do Estado" — os serviços médicos. Hoje Cuba tem 7. "Chegamos a um ponto". a metade asilou-se nos Estados Unidos. havia seis mil médicos no país. e incrementar os serviços de medicina preventiva. Quase 15 anos -depois de ter iniciado a reforma dos serviços de saúde. em raios-x e em farmácia.200 unidades: 250 hospitais. o governo iniciou uma campanha nacional de estímulo ao ingresso nas escolas de Medicina. de 1959 a 1973. Para enfrentar uma situação vizinha da calamidade. a tuberculose infantil. Em discurso pronunciado recentemente. O país formou. para reduzir os efeitos da situação. conforme dados da ONU). enquanto o Ministério da Educação era incorporado ao esforço de reestruturação dos cursos médicos. a mortalidade materna foi reduzida a 50 por 100 mil bebês nascidos vivos. Cuba investe hoje cerca de 3. Quando Batista foi derrubado. Simultaneamente. 45 mil enfermeiras (especialistas em clínica geral. estabeleceram-se duas metas: racionalizar o trabalho dos que ficaram. O índice médico/habitante caiu a níveis jamais vistos em Cuba: um médico para 2 mil pessoas. a indústria e o comércio de medicamentos e instrumentos foram estatizados. obstetrícia e pediatria).

Um mês depois de chegar ao poder. no processo de cura. em si. numa população de 4 mil pacientes". e deu-lhe uma ordem: "Transforme aquilo num hospital". prisão e hospital para loucos. algumas capacidades de seu cérebro. depois. As verbas eram desviadas. num só dia morreram 80 pacientes. o estudante passa um ano em regime de internato em clínicas e hospitais. conta Orret. ele funcionava ao mesmo tempo como asilo de velhos. enquanto os pacientes eram alugados pela direção a 50 centavos ao dia. dura cinco anos. que decide o tipo de atividade a ser desempenhada por ele. Em 1947. os médicos optaram pela terapia ocupacional como solução para o problema da recuperação dos pacientes.chegar a formar-se. de desnutrição e disenteria. ou fora dele. Partindo do princípio básico. do Hospital Psiquiátrico de Havana. Ordaz. acima de tudo. o paciente passa efetivamente a . portanto. Construído há dois séculos nos subúrbios da capital. Além dessas estatísticas e números. o hospital só servia. assessorado pelo psiquiatra Francisco Duarte. no tempo de Fulgêncio Batista. podem ser aproveitadas". Todos foram incorporados a alguma atividade. o paciente começa a desenvolver a atividade escolhida — trabalho ou esporte. dividida em quatro fases: 1 — O paciente já definido como crônico é estudado por uma equipe médica. A média de óbitos era de 14 pacientes por dia. Com o tempo. o plácido e grisalho psiquiatra Sidney Orret. Fidel Castro convocou o comandante Eduardo Ordaz. e depois de estudar todos os casos disponíveis. Cuba se orgulha especialmente de seus métodos de tratamento para doentes mentais e. segundo o qual "uma parte da conduta do doente mental não está perdida e. "fizeram o índice de mortalidade cair de 15 óbitos diários para 5 mensais. escolhendo uma das várias atividades consideradas adequadas a seu estado mental. o médico tem de passar onze anos trabalhando e estudando em nível universitário: o curso. "O asseio e a alimentação". começou a reforma pela parte mais elementar: a limpeza total dos 140 hectares ocupados pelo hospital. dois no Serviço Médico Rural e mais três em residência hospitalar. 2 — No setor de terapia ocupacional. médico dos guerrilheiros na Sierra Maestra. O paciente participa da decisão. para trabalhar nas chácaras vizinhas. "para enriquecimento dos políticos". 3 — No próprio hospital. os médicos desenvolveram metodologia própria. Segundo seu diretor.

que pode produzir como pessoa normal — esse é o começo da cura". a eficácia dos métodos adotados pelo hospital pode ser medida pelo número incontável de pacientes que retornaram às suas casas. Pela terapia ocupacional. com que o paciente volte a ser respeitado quando regressa à sua casa. Para Sidney Orret. Pude ver muitos dos antes considerados "irrecuperáveis" jogando baseball no estádio do Hospital. ele se prepara para a reintegração à sociedade. por exemplo. brinquedos. assustava um pouco os outros trabalhadores do campo. de acordo com o grau da doença. como caixas de fósforos e de charutos. sapatos. para que o paciente sinta que tem utilidade social.desempenhar a atividade escolhida — recebendo salário mensal por ela. esse dinheiro acumulado com o próprio trabalho tem feito. onde. comentou Orret. foi criada uma verdadeira linha de montagem de objetos feitos através do trabalho manual. Segundo os diretores do hospital.8 milhão de cruzeiros. Dentro do hospital. caso tenha optado por um trabalho produtivo. no princípio. diz Orret. os doentes mentais ganham salários pelos trabalhos realizados — o mesmo salário pago no país aos trabalhadores normais. criando frangos numa granja interna. Além de receber tratamento gratuito. em Havana. os depósitos do "banco" eram de cerca de 1. Esse dinheiro — a que só o paciente tem acesso. 4 — Transferência do paciente para os centros de reabilitação espalhados pelo país. "O fundamental em tudo isso". facilitando o processo de reintegração familiar. freqüentemente. "é que o trabalho exercido seja real. Periodicamente saem de Havana grupos de trabalho para a colheita de cana e cítricos — o que. os pacientes do Hospital Psiquiátrico de Havana construíram um hospital com 200 leitos na província de Camaguey. Num dia do mês de março de 1975. . construindo móveis de madeira. e dezenas de pequenas lanchonetes no Parque Lênin. curados: "Quase 90% deles tinham no alto de sua ficha médica um carimbo vermelho que assinalava uma verdadeira sentença de morte: irrecuperável". À saída. ou — no caso de crônicos incuráveis — passa a viver comunitariamente com outros na mesma situação. "Não eram todos os trabalhadores que aceitavam passar o dia ao lado de um 'louco' armado de foice". sendo proibida a retirada por pessoas da família — é depositado num "banco" instituído dentro do próprio hospital. um coral formado pelos internos cantou para mim meia dúzia de músicas populares cubanas: Siboney.

na mesma página. Freqüentemente o debate se prolongava até as quatro. com naturalidade: "Liberdade de imprensa é apenas um eufemismo burguês. cinco horas da madrugada. todos os jornais. imaginando que os Estados Unidos — àquela altura já em choque total com Cuba — fossem derrubar Fidel Castro em pouco tempo. A imprensa foi o único setor da vida cubana que não precisou de leis para ser estatizado depois que Fidel Castro chegou ao poder. Menos de uma semana depois. contra as expropriações. Os jornais. E completou. estações de rádio e de televisão tinham sido abandonados por seus proprietários. IMPRENSA Quando perguntei a um influente jornalista cubano se lá existe liberdade de imprensa. contrários aos pontos de vista dos padrões. Às sextas-feiras. os fuzilamentos. Amante. depois de 1959. Durante toda a semana. A proclamação do caráter socialista da revolução cubana foi o momento de ruptura. às oito da noite. portanto. que não eram tantos — os meios de comunicação em Cuba pertenciam a algumas poucas famílias ligadas à indústria açucareira. a maior parte da imprensa fazia campanhas contra a comunização do país. Os jornais. um jovem levantou-se do coro. um artigo assinado pelos gráficos da empresa. de Roberto Carlos. Só um idiota não é capaz de ver que a imprensa está sempre a serviço de quem detém o poder.Guantanamera e outras. Fidel solicitava um horário no canal nacional de televisão (ainda não estatizado) para debater as críticas" com um grupo de jornalistas que se revezavam — muitos deles inimigos declarados da nova ordem. Quando já me preparava para ir embora. único artista brasileiro que ele conhecia. A fuga dos proprietários foi imediatamente seguida pela tomada dos . tomou o microfone e me emocionou com a música Amada. antes de partir. E aqui em Cuba quem detém o poder é o proletariado. mas eram obrigados a publicar. o rádio e a televisão permaneceram nas mãos de seus donos por 2 anos. Muitos dos donos de jornais chegaram a declarar. a serviço do proletariado". ainda nas mãos de seus proprietários. faziam campanhas contra a reforma agrária e outras leis revolucionárias. Estamos todos os jornalistas cubanos. ele deu uma gargalhada e respondeu: "Claro que não". que pretendiam voltar logo ao país.

etc). alunos que foram promovidos na escola com média 100 etc. o presidente Dorticós. com pequenas notícias de todo o país.meios de comunicação por jornalistas. Desde o reinicio do bombardeio do Camboja pelos americanos. liderados por Fidel. Vende 500 mil exemplares diários. foram fechados. Europa um pouco mais abaixo. A maior parte das notícias refere-se à campanha nacional de emulação para o trabalho: são entrevistas com cortadores de cana que quebraram recordes nacionais de colheita. duas revistas semanais e um tablóide semanal humorístico. Os outros apenas mudaram a linha editorial e continuaram com o mesmo nome. atividades do Comitê Central ou do Bureau Político do PC e discursos feitos por autoridades nacionais: Fidel. tem de ser atirado de aviões. Nas datas nacionais (tomada do poder por Fidel. As páginas 3 e 4 são de noticiário nacional. Ali a diagramação é quase padronizada: América Latina está sempre no alto da página.45) — e. A segunda página publica longos artigos como "História das Relações URSS-Cuba". Metade da última página é ocupada por uma seção fixa. a chegada de missões estrangeiras. a página 2 do Granma reconta e analisa os fatos históricos. pela Prensa Latina e pela France Presse — a única agência não comunista que os cubanos utilizam. cinqüenta estações de rádio. sete estações de televisão. As duas últimas páginas. as mesmas características gráficas. para chegar às regiões montanhosas do país. é o órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista. como o "Diário da Marinha". gráficos e radialistas. assinadas por correspondentes voluntários — operários e estudantes que se oferecem para trabalhar gratuitamente em suas cidades para o jornal. Independência. o mais importante do país. Raul Castro. o chanceler Raul Roa. O Granma circula com seis páginas diárias. o "Fio Direto". são dedicadas ao noticiário internacional. a 5 e a 6. em 1970. Hoje existem em Cuba oito jornais diários. Os jornais considerados fascistas. e pela estatização das empresas. com dezenas de pequenas notícias vindas de todo o mundo e enviadas por agências de países socialistas. ou "A quem servem os críticos do princípio leninista do centralismo democrático". em pacotes especiais. Na sua primeira página lêem-se pequenas notas completas (sem "chamadas" para o interior do jornal) sobre a Confederação dos Trabalhadores de Cuba. o nome do ex-presidente Nixon é escrito por toda a imprensa cubana . O diário Granma (nome dado em homenagem ao iate que trouxe do México os guerrilheiros. carregadas de noticiário — não há espaços em branco. a cinco centavos de peso cubano (Cr$ 0. nem títulos espaçados. que subiram a Sierra Maestra).

no tempo de Batista. toda a imprensa passou a compor o nome assim. em termos gráficos. O noticiário internacional do Juventud. entretanto. o conceito de notícia é um pouco diferente do adotado por jornais de países capitalistas. onde. ficaria com a medalha. agora é reservada para a seção chamada "A Cuba de ontem". uma foto de arquivo do tempo de Batista: uma prostituta na rua. é de se esperar destaque para a notícia da morte de um dirigente militar do Chile. Mas no dia da morte do general Oscar Bonilla. 70% do material editorial de Bohemia são definidos — e às vezes escritos — com três meses de antecedência. e a cada número . As notícias sobre a recessão econômica e a crise do desemprego nos Estados Unidos são publicadas com fotos e charges — sinônimo de importância especial na imprensa cubana. no entanto. apresenta apenas. esta notícia ocupou cinco linhas num pé de página. deu o nome de Nixon em manchete e usou a suástica. Antes de serem impressas. exilou-se na Venezuela em 1961. as matérias de cada edição da revista são julgadas por toda a redação. Nele também. Seu antigo proprietário. depois de lançar uma edição latino-americana com o mesmo nome da publicação que deixara em Cuba. A universidade que tivesse o melhor índice de aproveitamento. Chile e demais países do Terceiro Mundo têm sempre destaque garantido. Vietnã. Vende 200 mil exemplares diários e circula apenas na Capital. o jovem que há dois anos é o diretor de Bohemia. Naquela edição. A contracapa. vespertino havanero. um anúncio comercial cujo preço equivalia a 30 mil cruzeiros.com uma suástica no lugar do x. filas de Cadillacs à porta dos cassinos — cenas eliminadas da vida do cubano atualmente. O hábito começou por acaso: o editor do Juventud Rebelde. além desse título. Andrés Quevedo. meninos pedindo esmola. São artigos de pesquisa ou textos doutrinários — como os da página 2 do Granma. Fez sucesso. é normalmente extenso. A revista Bohemia circula em Cuba há mais de 60 anos. no fim do ano. até hoje. O autor geralmente lê seu trabalho em voz . ministro do Interior chileno. A ampla sala que ocupava no prédio da revista pertence hoje a Angel Guerra. Embora sendo uma revista semanal de atualidades. onde. Camboja. o fato que recebeu maior destaque foi o desafio feito por estudantes de Las Villas aos da Universidade de Camaguey — propunham-se a disputar a medalha "Primeiro Congresso do Partido" numa competição de notas escolares. acabou suicidando-se. Por exemplo: para um jornal que dedica diariamente pelo menos meia página à repressão chilena aos movimentos esquerdistas. O Juventud Rebelde — órgão da União dos Jovens Comunistas — é mais noticioso e menos rígido que o Granma.

substituições. Angel Guerra repete: "Liberdade de imprensa para atacar um governo voltado para o proletariado? Isso nós não temos.alta para seus companheiros. A MULHER Os esforços pessoais de Fidel Castro e do regime para "libertar" a mulher cubana têm encontrado um obstáculo quase intransponível: o machismo do cubano. Charuto na boca. Chega às bancas na sexta-feira de manhã e no sábado à tarde está esgotada. Mas qualquer alteração no texto só é feita se a proposta tem o acordo da maioria. Fidel iniciou uma campanha contra o machismo e contra a discriminação sexual: "Há administradores que. com tintas fabricadas em Cuba {Bohemia é colorida). "por uma série de fatores: porque começam a pensar nos problemas da maternidade. Além dela. e vendida em bancas. o tablóide humorístico — além dos jornais diários editados em cada capital de província. Nos últimos anos o primeiro-ministro aproveita quase toda oportunidade para dizer que a mulher cubana precisa participar mais ativamente da vida do país. nas dificuldades que pode ter uma mulher para a freqüência ao trabalho. cortes. por exemplo. há que manter uma luta conseqüente contra essa mentalidade de discriminar a mulher nas possibilidades de emprego". E nos orgulhamos muito de não ter". Em 1959 havia em Cuba cerca de 190 mil mulheres trabalhando. editada pelas Forças Armadas Revolucionárias. É necessário que os regulamentos e a política do Partido e das organizações de massa velem pela preservação e por assegurar as possibilidades de que a mulher se incorpore ao trabalho. e todos têm direito de propor mudanças. à atual tiragem da revista Manchete). sempre que podem dar emprego a um homem. já que num momento determinado a força de trabalho masculina não bastará. a revista tira cerca de 250 mil exemplares (o equivalente. Impressa em papel soviético. segundo porque é uma necessidade imperiosa da revolução. no fim de 1974. precocemente calvo. é uma exigência de nosso desenvolvimento econômico. não o dão a uma mulher". Por isso. Primeiro por uma questão elementar de justiça. circulam no país dois outros semanários: a revista Verde Olivo. No encerramento do Congresso da Federação das Mulheres Cubanas. 70% delas como domésticas — estas foram absorvidas como mão de obra semi- . e Falante. disse ele.

Durante a luta guerrilheira. Uma das medidas nesse sentido foi a criação dos Círculos Infantiles — creches gratuitas onde a criança. decidiu-se criar o pelotão "Mariana Grajales". a mulher cubana. a criança passa a semana inteira. Apesar dessa discriminação. entretanto. Mas. são oferecidos os postos de menor importância. As pressões do governo para que os homens deixem de lado os preconceitos e dêem trabalho às mulheres têm surtido efeito muito lento: a elas. Na tomada do quartel de Moncada. já na Sierra Maestra. Ao terminar seu discurso no Congresso das Mulheres. atual mulher de Raul Castro e presidente da Federação das Mulheres Cubanas. Para colocar uma criança nos Círculos Infantiles só se faz uma exigência: que a mãe trabalhe. em geral. nas diversas atividades do país.6% dos candidatos eram mulheres. "é que se organizou a unidade e as companheiras combateram excelentemente.especializada e especializada. A idéia de armar uma unidade sem homens criou problemas entre os combatentes: ninguém acreditava que as mulheres fossem capazes de lutar. apenas 15% das pessoas que ocupam cargos de direção em Cuba são mulheres — e o número de mulheres no Partido Comunista Cubano não chega a atingir 13% do total de filiados. pelotões de mulheres lutaram. estavam entre os guerrilheiros presos Haidée Santamaria e Célia Sanchez (Haidée é hoje presidente da "Casa de Las Américas". como o próprio Fidel Castro ressaltou no Congresso. composto apenas de mulheres. garçonetes e operadoras de bombas de gasolina. depois que a profissão de doméstica foi extinta. contou depois Fidel Castro. apesar do preconceito dos combatentes. teve participação ativa na própria luta revolucionária. o primeiro-ministro lembrou que os homens não podiam confundir igualdade com grosseria: . "O certo". o governo tem se esforçado para liberar a mulher como mão de obra disponível para o país. e Célia Sanchez é secretária de Fidel Castro). com tanto valor como o teria feito o mais valoroso de nossos soldados". se a mãe preferir. há 600 mil mulheres. Há creches em que. como ascensoristas. Mas o machismo cubano resiste até aos apelos de Fidel Castro.5 milhões de trabalhadores. ao lado de Vilma Espín. Nos últimos anos. Depois. organismo de cooperação cultural internacional. num total de 2. após cursos de treinamento. Atualmente. a partir dos 45 dias de vida e até os seis anos. Nas eleições de 1974 em Matanzas — onde as mulheres constituem 50% da população — apenas 7. passa todo o dia com pedagogas e sob constante vigilância médica. em regime de semi-internato. e só 3% se elegeram.

da União de Jovens Comunistas — e o país inteiro aprovou a campanha em favor da economia do açúcar. Apenas dois. perguntou a alguns passageiros se tinham ouvido o discurso de Fidel Castro sobre as mulheres. ofereceram seus lugares às mulheres. fisicamente mais débil. Fidel explicou o que significava uma libra a menos por pessoa na economia do país: 50 milhões de dólares por ano. é justo que tenha na sociedade todo o respeito e todas as considerações que merece. deve ser em favor da mulher. para adquirir uma fábrica de tecidos capaz de produzir 60 milhões de metros quadrados anualmente. mensalmente. pelo racionamento. a Federação das Mulheres Cubanas tem importante participação como organização de massa. mas a FMC resolveu colocá-la em discussão a nível popular: foram consultados os filiados dos Comitês de Defesa da Revolução. Com o preço do açúcar subindo vertiginosamente no mercado internacional. Os jornais cubanos têm prestigiado a campanha feminista liderada por Fidel: o Granma freqüentemente publica artigos como o que acusa Freud de antifeminista por sua tese sobre o "complexo de castração". a Federação propôs que cada cubano abrisse mão de uma libra de açúcar (pouco menos de 500 gramas) da quota a que tinha direito. davam sempre o lugar às mulheres. O governo recusou a proposta. que seria inerente a todas as mulheres. que tem de ser mãe. alguma desigualdade. Ao agradecer as mulheres cubanas pela mobilização. para que o país pudesse exportar mais. A primeira grande prova da capacidade de mobilização popular da FMC aconteceu no fim de 1974. um fotógrafo de Bohemia entrou no ônibus e acompanhou os entrevistados até o ponto final. em cada dez "cavalheiros". da Confederação de Trabalhadores de Cuba. E se ela suporta os sacrifícios físicos e biológicos que essas funções compreendem. a uma mulher de idade ou a qualquer mulher que vá num ônibus". que acima de seu trabalho leva o peso da maternidade. segundo ele. Todos responderam que eram cavalheiros. Poucos dias depois. Além de dirigir os Círculos Infatiles. cada uma com capacidade para 500 alunos."Se na sociedade humana há de haver algum privilégio. Um repórter saiu à rua e. O bastante. Depois perguntou como eles se comportavam em relação às mulheres nos ônibus. ou para pagar os componentes importados necessários à construção de 400 escolas pré-fabricadas. Disfarçadamente. nas filas de ônibus. a revista Bohemia resolveu fazer um teste com os cubanos. E eu digo isso clara e francamente. E o Juventud Rebelde chegou ao requinte de . porque há alguns homens que entendem que não têm nenhuma obrigação de dar o lugar a uma mulher grávida.

Com cerca de 500 mil habitantes. da reaproximação dos EUA com Cuba. ao cortar 50 mil arrobas de cana até o meio da safra. e por isso foi a escolhida. JUSTIÇA Quando a população da província de Matanzas soube. proporcionais ao número de habitantes: entre 5 e 8 mil habitantes. a notícia da promoção de Luísa Garcia Perdomo a "Heroína Nacional do Trabalho" — ela acabara de bater um recorde nacional. era a mais organizada economicamente. menos de 3 mil. Segundo as leis de antes da revolução. Matanzas era a menor província do país em população. mas lá se encontrava a mais alta densidade demográfica. no princípio de 1974. 9 circunscrições. Depois começou o trabalho de divisão eleitoral. Em cada município foram criadas circunscrições eleitorais. que ali seriam realizadas as primeiras eleições em Cuba desde 1959. amadureceu três anos nas mãos do governo. na véspera. a reação contrária chegou a surpreender: as pessoas mais velhas lembravam-se da corrupção eleitoral do tempo de Batista. pelo bloqueio e pelos inimigos internos). Matanzas podia ser tomada como exemplo do que a revolução pretende realizar em todas as províncias do país. porém. O plano. 7 circunscrições. Foi até agora a província mais beneficiada pela revolução. em 1970. o povo desceu em massa para o litoral para expulsar os mercenários contratados pela CIA. e politicamente tinha dado provas de fidelidade ao governo quando. a idade mínima para alguém se . decidiu-se pela província onde as eleições se realizariam. na invasão da Baía dos Porcos (que fica em território matanzero). entre 3 e 5 mil. em 1974. ELEIÇÃO. O país acabava de se livrar das crises econômica e política mais agudas (provocadas. 5 circunscrições. e os mais jovens não sabiam exatamente do que se tratava — nunca tinham visto uma eleição na vida. até que. A idéia nascera quatro anos antes.dar em manchete no dia 1<? de março. quando Kissinger tinha falado. respectivamente. Foi necessário fazer uma campanha pública de esclarecimento para explicar ao povo por que e para que as eleições seriam realizadas ali.

é praticamente calcado neste.tornar eleitor era de 21 anos. que. A escolha dos candidatos processou-se desta forma: os moradores de cada quadra se reuniram. por sua vez. o seu candidato. Mirta Hernandez. um dos quais. praças. Cada quadra da província tinha. Mas. e os padres e militares estavam impedidos de votar e de serem votados. entre si. e os quatro vogais são trabalhadores de industrias locais. 15% são militantes da União de Jovens Comunistas e 46% são filiados ao Partido Comunista Cubano. Quando a votação terminou. no fim da tarde.6% da população com mais de 16 anos tinham participado das eleições. Todas as famílias de cada cidade receberam. Neles constavam apenas o nome. que desfruta de grande autonomia em relação ao poder central. a exemplo do que ocorre a . currículos de todos os candidatos locais. de 35 anos. a secretária é uma professora secundária. 93. organizados pelos Comitês de Defesa da Revolução. em poucos dias. Por exemplo: 39% dos 7. armazéns. uma semana depois. em cada circunscrição. o currículo e a foto. de que participaram apenas os dois candidatos mais votados do primeiro turno. assim. Em contraste com os métodos de propaganda anteriores à revolução — alto-falantes nas ruas. O "Poder Popular". das mãos do CDR. o engenheiro José Arañaburo Garcia. os 76 delegados da Assembléia Provincial. sem slogans.079 delegados eleitos (um para cada circunscrição). Reduziu-se o limite de idade para 16 anos. Os resultados apresentaram números interessantes. E alguns pontos de muito movimento nas cidades foram escolhidos para afixação desses folhetos: portas de bares. não são sequer inscritos no Partido Comunista. Na manhã de 26 de julho de 1974. e escolheram um representante. Os delegados eleitos em toda a província se reuniram posteriormente para escolher. o primeiro eleitor a aparecer na capital da província para votar foi o bispo de Matanzas. só não podiam votar os presos e os que tivessem ocupado algum posto no governo de Batista. O vice-presidente é o operário José Luiz Rodriguez. a proibição a militares e religiosos foi abolida e modificada: nas eleições de Matanzas. Na província foram criados setores que funcionam como ministérios locais. foi eleito o presidente do "Poder Popular" de Matanzas. cartazes nas paredes e muros — criou-se um novo sistema: cada candidato entregava sua foto e um currículo à gráfica de Matanzas e depois recebia centenas de impressos. escolheram sete membros para compor o Comitê Executivo. foi necessário organizar um segundo turno. como havia um grande número de candidatos e a lei determinava que os eleitos de cada circunscrição deveriam ter 50% dos votos mais 1. paradas de ônibus. padarias. 4% são militares. 3% são mulheres.

que tem grande autonomia em relação a Havana. "Até a qualidade do pão que nós comemos melhorou". Para um estrangeiro acostumado ao que os cubanos chamam de "justiça burguesa". quase sempre. a administração de todas as obras públicas passou à responsabilidade do delegado local de cada cidade. comentou uma mulher numa fila de ônibus da capital da província. Economia. Cuba viveu. Os problemas locais são resolvidos. seu primeiro plebiscito nacional. O mandato não dá qualquer imunidade ao eleito e só os eleitores têm o poder de cassação. por lei. Ainda este ano a experiência de Matanzas será estendida a todo o país e. que ainda sobrevive em outras províncias. Depois da experiência matanzera. e 97. desde que por meio de votação e por maioria absoluta. sem necessidade de consultas a Havana. Os delegados estão obrigados. Cuba deverá eleger uma Assembléia Nacional. Da posse até março de 1975. todos os códigos cubanos são submetidos a votação popular antes de entrarem em vigor. cortado e votado em todos os centros de trabalhos e organizações de massa de todo o país. "Num .nível nacional: Educação. com a criação do poder provincial. No ordenamento jurídico cubano. e eleitos outros para substituí-los. as penas para alguns tipos de crimes — assaltos e furtos. Os resultados obtidos com as eleições ainda são pouco palpáveis. Saúde. Transportes etc. Trabalho. Mas muitas pessoas ouvidas em Matanzas falam que a desburocratização do poder é sensível. desde 1959. o Código de Defesa Social (equivalente ao nosso Código Penal) parece ser o mais rígido deles. Comércio Exterior. por exemplo — são rigorosíssimas. em 1977. considerados inoperantes.7% se pronunciaram a favor da promulgação da Carta. Relações Exteriores. Assim como a Constituição. Algumas decisões consideradas importantes foram tomadas pelo "Poder Popular" de Matanzas: criou-se um sistema de pagamento de horas extras para quem trabalhava voluntariamente em obras públicas — o que praticamente elimina o "trabalho voluntário gratuito". no início de 1976. Somente não foram criados "ministérios provinciais" para os setores que dependem diretamente do poder central. emendado. O altíssimo índice de aprovação não surpreende: na verdade ali se estava apenas ratificando um documento que já havia sido discutido. A nova constituição foi votada por toda a população de mais de 16 anos. como Defesa. foram cassados sete delegados. a comparecer a cada dois meses a reuniões públicas promovidas pelo Comitê de Defesa da Revolução para prestar contas de seu trabalho — e isso se repete até o fim do mandato de dois anos estabelecido pela lei eleitoral.

a Constituição liberal de 1940. terminando com a "concepção burguesa que . Ditaram-se leis como a da Reforma Agrária. No período de três anos (19061909) em que Cuba esteve sob a intervenção norte-americana. entrou em vigor o Código da Família. foi substituído pelo Código de Defesa Social. com a obrigação de repor o dinheiro com o produto de seu trabalho na cadeia. deu um desfalque de 200 mil cruzeiros no caixa da empresa. Até que os revolucionários chegassem ao poder. em Havana e no interior — prevê mudanças extremamente favoráveis à condição feminina. furtou um radinho de pilha de um homem que cochilava num banco de jardim: 6 anos de prisão". a Justiça não pode tolerar o roubo. que — segundo a opinião generalizada das mulheres ouvidas. No dia 8 de março de 1975. Uma entrevistada chegou a declarar.. No que se refere ao casamento. que tinha sido originariamente redigido em Madri. Não importa o quê ou quanto foi roubado — não se pode permitir que alguém tenha algo que não seja produto do seu trabalho". o statusquo foi mantido. Este também é um comportamento recente na justiça cubana. Notícias curtas. de ferramentas industriais. com profundas modificações. administradora da Loja Apoio. mas foi desviado por Maria Elena. proveniente de vendas diversas. disse um juiz em Havana. os códigos fundamentais do país diferiam pouco dos do tempo da colônia. num programa de televisão. ela foi presa. onde o desemprego pode dar penas de até dois anos de prisão. o Código dá uma "interpretação socialista". Em 1969. "onde o trabalho é obrigatório por lei. a da nacionalização dos meios de produção e recolocou-se em vigor. saem freqüentemente nos cantos de páginas do Granma: "Maria Elena Noda Fernandez.país onde todos trabalham". Alberto Garcia y Garcia da cidade de Matanzas. que tinha sido abolida por Fulgêncio Batista. Fidel Castro e seus companheiros concluíram que era necessário criar outra legislação básica.) "Israel Mendez e Roberto Borrego furtaram dois mil cruzeiros em uma loja de roupas: 6 anos de prisão para cada um. como estas. deveria ter sido depositado no Banco Nacional de Cuba. de 37 anos. por exemplo. processada e condenada a 10 anos de prisão. Descoberta. capital da Metrópole. compatível com o novo regime.. Tomado o poder. o novo regime não teve tempo de redigir novos códigos." (. Dia Internacional da Mulher. Só em 1938 é que o Código Penal. que o Código é "a primeira manifestação legal do caráter também feminista da revolução". O dinheiro.

a Federação das Mulheres. "fortalece a instituição da família em sua concepção socialista". Pela antiga legislação. a União dos Jovens Comunistas. em assembléias de moradores. Para o casamento sem autorização paterna — e assim como para todos os atos da vida civil — o Código reduz de 21 para 18 anos a maioridade dos homens e mulheres. em todos os níveis. conjuntamente. Da mesma forma. três anos nos regionais. Com o Código. Exceto o presidente do Tribunal Supremo e dos juizes das quatro salas de apelação. Em nível regional a escolha é feita por intermédio de organizações como a Confederação de Trabalhadores de Cuba.considera o matrimônio uma sociedade de ganâncias e com o predomínio dos aspectos materiais da instituição". segundo seus autores. é a eliminação total e definitiva das diferenças entre filhos legítimos e ilegítimos que o velho Código estabelecia. Agora caberá ao juiz apreciar a existência real ou não da incompatibilidade. Em nível provincial. estabelecendo-se os casos em que se presumirá a paternidade. para os homens — desde que autorizados pelos pais. Anualmente os tribunais — em todas as instâncias — são obrigados a prestar contas de suas . Um dos parágrafos do Código da Família que não constava do texto original. a idade mínima era de 12 anos para as mulheres e 16 para os homens. Outro aspecto tratado e que. Cuba evoluiu para os "Colegiados Populares" onde. a lei agora facilitará amplamente o reconhecimento de filhos nascidos fora do casamento. e um só poderá exercê-lo sozinho quando o outro falecer ou tiver sido impedido por lei. repete-se o processo. Todos os juizes têm mandato com tempo limitado: dois anos nos tribunais de base (municipais). E quase sempre são escolhidos juizes que anteriormente fizeram parte dos "tribunais populares". redigido por juristas. e não apenas tomar como certa a alegação. há juizes graduados e não graduados em Direito. foi a elevação da idade mínima para o casamento para 14 anos. e o exercício do pátrio poder passou a corresponder a ambos os cônjuges. todos os juizes são escolhidos pelo povo. a Associação Nacional dos Agricultores Pequenos (ANAP). cinco anos nos provinciais e sete anos no Tribunal Supremo. para as mulheres. e 16. os Comitês de Defesa da Revolução e a Federação de Estudantes Universitários. Dos antigos "tribunais populares" criados após a revolução para julgar crimes de traição e espionagem. o número de divórcios em Cuba deverá cair sensivelmente: pretende-se evitar o caráter abusivo com que era usada a "incompatibilidade de gênios" — razão suficiente para que se obtivesse o divórcio. e que foi acrescentado após um debate nacional.

onde estão os presos políticos cubanos. Tanto o habeas-corpus como o sursis foram mantidos na legislação .atividades às pessoas que elegeram os juizes. Há tribunais de base não apenas nos municípios. há um tribunal de base de plantão no Estádio Latino-Americano de Baseball. mas passa o dia trabalhando ao ar livre. não. foi polidamente desfeito por um assessor do ministro da Justiça. nos tribunais de base. Com o fim da figura do juiz unipersonal. Na sala de um tribunal ficam o réu. No Tribunal Supremo e nos tribunais provinciais. depois. cuja cobrança de honorários é controlada por uma tabela de preços máximos estabelecida pelo Ministério da Justiça. sem filiação ao Estado. os três juizes são leigos. não recebem salários extras pela função. submetido a pequenas alterações. três juizes e quem mais queira assistir ao julgamento. Os delitos comuns são julgados segundo o velho código de 1938. Os juizes leigos. E em Cuba não existem mais prisões comuns. em vez de serem levados a uma delegacia de polícia. mas apenas o que ganhavam na profissão exercida antes de ocuparem o cargo. nos regionais. Em cada província há uma sala especial para julgamento de crimes contra a segurança nacional e duas para crimes comuns. O Estado oferece ao acusado advogados de ofício. o promotor. um é graduado e dois são leigos. O condenado é obrigado por lei a trabalhar. O convite. onde o condenado só se sente "preso" à noite. Por exemplo. mas espalhados por vários pontos do país. os envolvidos são colocados diante do Tribunal montado numa sala do próprio estádio. E tratando-se de uma briga sem lesões corporais. sem muros ou grades) ou semi-abertas: penitenciárias dentro de colônias agrícolas. e uma sala especial para crimes militares. e na prisão recebe o mesmo salário pago em todo o país à atividade escolhida. fechadas. Nos tribunais regionais há salas apenas para julgamento de crimes previstos nos códigos civil e penal. o julgamento costuma ser tão rápido que os envolvidos freqüentemente têm tempo de voltar à arquibancada para ver a continuação do jogo. mas quem quiser pode contratar seu defensor nas Bancas Coletivas — advogados independentes. no Tribunal Supremo há quatro salas: para julgamento de crimes previstos nos códigos penal e civil e na Lei de Segurança Nacional. não graduados. dois juizes são graduados e um. Cuba extinguiu também o corpo de jurados. o advogado. Quando ocorre uma briga mais grave entre torcedores. as testemunhas. ao dormir. Um funcionário do governo chegou a insinuar um convite para que eu visitasse uma prisão aberta. São todas abertas (granjas e colônias agrícolas.

Apoiando a medida do governo. assinar a lei que estendia os efeitos da primeira a todo o país: ninguém poderia. No dia 6 de agosto de 1960. decretado na véspera pelo governo dos Estados Unidos. a partir daquele dia. já comandante das Forças Armadas Revolucionárias. 50 mil camponeses beneficiados pela reforma agrária se reuniram em uma associação. pode fazer uma denúncia ao promotor que. via seu irmão. por exemplo. respondendo ao corte da cota de açúcar cubano. a Atlantic Sugar Co. segundo dizem os cubanos. lideradas pela Cuban Fruit Co. se for o caso. à área do Estado do Piauí.pós-revolucionária.2 milhão de hectares de terras em Cuba — cifra que se torna especialmente significativa quando se sabe que o país tem uma área total de apenas 114 mil quilômetros quadrados. chegou a possuir 1. determina as ações necessárias — uma maneira. Fidel Castro expropriou sem indenização e nacionalizou toda a indústria açucareira do país. de se evitarem personalismos e perseguições pessoais no seio da revolução. Até então. dois meses e meio antes de tomar o poder. irmão de Fidel. que era bem grande". e passaram a . ECONOMIA No dia 10 de outubro de 1958. 250 mil hectares e a American Sugar. Cinco meses depois. E um consórcio de 12 empresas norteamericanas. diante de uma multidão de pequenos agricultores. ter mais de 400 hectares de terra em Cuba. Quando alguém.826 hectares. organizou no pé da Sierra Maestra o "Primeiro Congresso Camponês em Armas" e proclamou. o primeiro-ministro. "Para dar exemplo" — contou-me Ramón. 143 mil hectares. REFORMA AGRÁRIA. Raul. Raul Castro. a 17 de maio de 1959. E os promotores de justiça têm ainda uma peculiar atribuição. 64% das terras cultiváveis do país estavam nas mãos de latifundiários e das multinacionais americanas que exploravam o cultivo e a industrialização de açúcar. de tabaco e de cítricos: a Bay Nipe Company tinha 49. o equivalente. a ANAP — Associação Nacional de Agricultores Pequenos. se sente injustiçado em seu trabalho. a "Lei nº 3 da Serra" — a reforma agrária das zonas em poder dos combatentes. o ri-sonho irmão mais velho de Fidel e Raul — "a primeira fazenda expropriada foi a do nosso pai. por exemplo. além das normalmente inerentes ao cargo: fiscalizar a "legalidade socialista".

Recebia um salário mensal de 150 pesos. As grande extensões exploradas por latifundiários ou por empresas estrangeiras passaram à propriedade do Estado. Além de dificultar o trabalho das colhedeiras estatais. mas estas nem sempre se estendiam de forma contínua. tabaco. E recebia garantia de emprego e casa própria no plano agropecuário a ser instalado em suas terras pelo Estado. a produtividade nem sempre era satisfatória nessas pequenas faixas de terra. escolhida por ele. em parte. Um desses exemplos é o plano agropecuário de Valle de Picadura. com freqüência. Os camponeses tinham o direito de escolher seus cultivos. para seu consumo familiar.exigir que o governo revisse e tornasse mais rigorosa a lei de 17 de maio de 1959. um estábulo. surgiam pequenas ilhas plantadas com legumes. até aquela data. Com a nova lei. que se tornou o dono de 70% das terras agricultáveis do país. Além dessas vantagens. que tinham de se "desviar" de áreas de até 67 hectares. A resposta ao apelo só veio três anos depois. . a seguinte situação: no meio de dezenas de milhares de hectares de açúcar ou de arroz. a ANAP ganhou mais 140 mil famílias de sócios — ao todo. desde que ele se dispusesse a plantar em suas terras o que fosse determinado pelo Instituto Nacional da Reforma Agrária. o camponês se beneficiava com o aproveitamento da infra-estrutura montada pelo governo para atender à área que se encontrava em volta de suas terras. um chiqueiro e um galinheiro. cerca de 190 mil camponeses tinham recebido terras do Estado através das duas reformas agrárias. Houve casos em que o Estado se interessou pela compra das terras que alguns camponeses receberam através da reforma agrária. A área era adquirida através de um plano em que o camponês recebia o pagamento em prestações mensais variáveis — conforme a qualidade da terra — de 900 a 1. Mas a experiência ainda não começara a dar bons resultados: a segunda lei havia permitido reagrupar. as terras pertencentes ao Estado. ficando os 30% restantes em poder dos camponeses. vitaliciamente.350 cruzeiros. de graça. O governo resolveu esse problema através de uma "troca" com o camponês: o Estado construiria para ele uma casa com água e luz. que estatizou todas as propriedades com mais de 67 hectares. o que produzia. aplicou-se um princípio básico: todo mundo é dono da terra onde vive. frutas. com a promulgação da segunda lei de reforma agrária. Como na lei da reforma urbana. até o limite máximo estabelecido por lei. até que obtivesse lucro com a primeira colheita do novo produto. E podia manter uma pequena cultura.

há seis anos. que se adapta mais facilmente aos climas frios. o governo criou uma Administração Geral de Créditos. Das pequenas fazendas de seus 190 mil associados (cada um tem. como ele chama carinhosamente a fazenda estatal. tem apenas duas mil cabeças de gado holandês preto-e-branco. Pretendese. cerca de 90 mil cruzeiros anuais com a venda de sua produção à Cubatabaco. em média. "um plantei tão refinado como o canadense". Os créditos só são aprovados contra uma previsão da produção — no ato do fechamento do negócio. Um funcionário do banco está em permanente contato com a associação. em média. empresa . plantador de tabaco nas vizinhanças de Havana. eram ideais para a criação de gado holandês. nos laboratórios existentes ali. herbicidas e equipamentos. numericamente. situadas no sopé de uma serra. Ramón reconhece que foi duro "dar o bom exemplo" e expropriar a fazenda dos pais: — Se papai ressuscitasse e visse que seus três filhos são militantes do Partido Comunista. através de inseminação artificial. Dirigido por Ramón Castro. de dez milhões de cabeças. A "República Socialista Popular de Picadura". tem uma participação significativa na produção agrícola nacional. anualmente. ou que o trabalhador urbano). 33 hectares de terras) saem e são comprados pelo Estado 21% da produção nacional de cana de açúcar. garante estar recebendo. Antes. Embora a ANAP informe que seus associados ganham. o primogênito da família Castro (50 anos. cerca de 18 mil cruzeiros (mais que o camponês empregado do Estado. hoje empregados que vivem lá. embora detendo apenas 30% das terras agricultáveis. 82% do tabaco. por várias vezes. Ramón só se converteu ao marxismo depois da revolução. 47% das frutas. leiteiro. para financiar a produção. Fisicamente muito parecido com o irmão famoso. que hoje é meu assessor aqui. Hoje a ANAP. ele hoje confessa entre gargalhadas. o Estado lhe garante preço fixo para a compra da colheita.situado a 60 quilômetros de Havana. 74% do café e 27% da apicultura. ligada ao Banco Nacional de Cuba. pediria para morrer de novo. insignificante perto do rebanho cubano. pedi sua cabeça à polícia da província de Oriente". que trata dos interesses dos sócios. "eu era um latifundiário reacionário. Ter terra própria em Cuba parece ser um bom negócio. O plano dirigido por Ramón é. vender fertilizantes. desenvolver. O Cândido. era comunista e eu. Na pecuária a ANAP participa com 43% do rebanho nacional de corte e leite. dois a mais que Fidel). Paralelamente à implantação da Reforma Agrária. As terras. Salustio Florez. o plano foi instalado numa área anteriormente pertencente a vários camponeses.

quando a libra de açúcar estava cotada no mercado internacional a 1. se durante alguns anos o Estado teve prejuízo no negócio. E. chegou-se às . Em 1967 toda a cana cubana era alçada mecanicamente. As primeiras tentativas de mecanizar a colheita. cortadeiras mecânicas desde 1910) foram violentamente repudiadas pelos macheteros — os cortadores braçais — que temiam perder a única fonte de renda garantida. que antes custava ao pequeno produtor 55% do total moído. O aluguel das centrais açucareiras. ocorridas no início dos anos 60 (embora Cuba já utilizasse. segundo dados oficiais. inacessíveis às cortadeiras mecânicas. em pequena escala. Fidel fez uma proposta aos pequenos produtores da ANAP: o Estado lhes pagaria 5 centavos a libra. reduziu-se em 40% o trabalho braçal nos canaviais. havia cerca de 800 mil desocupados no país. A mecanização da lavoura de cana obriga o agricultor a mudar quase tudo: a preparação do campo tem que ser especial. Depois de muitas seleções. O relevo cubano é adequado à mecanização: só 20% dos canaviais estão em regiões montanhosas. conforme acordo de ajuda assinado entre os dois países em 1960). qualquer que fosse o preço internacional.2 centavos de dólar (e a URSS pagava a Cuba 6 centavos.estatal que administra a industrialização de cigarros e charutos. procurando a que melhor se adequasse às condições locais. foi reduzido pelo governo para 45%. com relação à cana de açúcar ainda é a mecanização da colheita — um problema que não existia há vinte anos. Naquela época. Hoje já se pensa em subir o preço pago aos sócios da ANAP. Fidel Castro aceitou reduzir o preço do aluguel dos engenhos estatais onde a cana é moída. Mas o grande problema dos agricultures e do Estado. Todos aceitaram. apenas semimecanizar a colheita com alçadeiras — máquinas que pegam a cana cortada. que passavam cem dias por ano na safra e os meses restantes à procura de trabalhos eventuais. o Ministério da Indústria Açucareira experimentou todas as máquinas cortadeiras disponíveis no mercado. é necessário alterar os métodos de plantio. Para os camponeses privados que se decidiram pelo cultivo de açúcar. Com a introdução das alçadeiras. por um prazo de 20 anos. redividir a plantação com pequenas estradas para a passagem das máquinas. colocando-a no caminhão. Em 1963. procurando cada vez mais aproveitar-se dessa facilidade natural. só os preços alcançados nos dois últimos anos permitiram que as perdas fossem recuperadas. Nos últimos anos. a princípio. caso a cotação se mantenha estável no mercado internacional. e lhes garantiria fertilizantes igualmente a preço fixo. O governo decidiu.

Apesar de todos esses esforços. Em 1977 deverá começar a funcionar uma fábrica de cortadeiras no país — já em construção. com tecnologia soviética — que produzirá 700 unidades anuais. depois de uma longa discussão com o governo dos Estados Unidos. soviética.2 bilhão de dólares aberto a Cuba pela Argentina. e a KTP. Cuba recebia outra injeção de capital: em dezembro de 1974. o suficiente para que sejam mecanizadas 80% das terras planas onde há canaviais em Cuba. os Estados Unidos interromperam o fornecimento de petróleo e cortaram a quota de açúcar que compravam dos cubanos.7 . com um volume de importações que subiu de 40. Perón chegou ao extremo de ameaçar nacionalizar as fábricas caso as exportações fossem vetadas. Os veículos seriam pagos com parte de um crédito de 1. da Argentina. que absorviam cerca de 70% das exportações do país e abasteciam suas importações na mesma proporção. concedia a Cuba créditos de 900 milhões de dólares para a compra de barcos pesqueiros. que nunca deixou de ter relações diplomáticas com o governo revolucionário. para forçar o governo dos EUA a autorizar as vendas. a União Soviética veio em socorro dos cubanos. Hoje.duas máquinas consideradas ideais: a Massey-Ferguson. em 1970 apenas 11% da produção total de cana cubana era cortada mecanicamente. a Espanha. decidiu vender 45 mil automóveis a Cuba. A preocupação do governo com a manutenção de altos níveis de produtividade da cana de açúcar é óbvia: além de representar quase 50% do Produto Nacional Bruto do país. nenhum cubano se esquece de que essa cultura foi um dos principais fatores que permitiram que o país sobrevivesse ao bloqueio econômico decretado em 1962. Em 1960. e o restante se distribuía entre vários países da América Latina. Antes da revolução. Cuba tinha dois grandes parceiros comerciais. Poucos meses depois. Os carros eram produzidos por subsidiárias norte-americanas e. O negócio foi feito. De lá para cá. os Estados Unidos e o Canadá. A Europa Ocidental respondia com cerca de 15% de exportações e importações. quando o presidente Juan Domingo Perón. O bloqueio começou a agonizar em 1974. o Japão passou a superar a Espanha como o primeiro cliente não comunista de Cuba. Imediatamente depois do bloqueio total. fábricas de cimento e equipamentos de transporte. australiana. Massey-Ferguson e algumas "inventadas" e montadas em Cuba — corta-se 30% da produção mecanicamente. garantindo o fornecimento de petróleo e assumindo a responsabilidade pela compra dos 3 milhões de toneladas de açúcar até então destinados aos EUA. com cerca de mil máquinas operando em todo o país — KTP.

Sempre extra-oficialmente. o "Ano dos 10 milhões de toneladas" (cifra que não chegou a ser alcançada — a produção foi de 8.milhões de dólares. produtos químicos. A irregularidade do preço do produto no mercado internacional. acabou transformando-se no motivo principal da bonança que o país vive hoje. a produção nacional de ácido sulfúrico (duas fábricas) foi de 400 mil toneladas. para 145. As duas fábricas . e quase nada em dados atualizados: o valor da produção industrial de 1972 aumentou 10% em relação ao ano anterior.3 milhões de toneladas) a cotação média era de 3.7 centavos de dólar a libra. produtos de aço. foi. em média.9 centavos a libra. Ao preço médio de 29. em 1968. Neste ano.5% em 1972/73. Mais de 17 anos depois que Fidel derrubou Fulgencio Batista e iniciou a revolução que levaria o país a um regime socialista. a economia cubana continua dependendo fundamentalmente do açúcar.7 para 2. como em 1964 (quando o preço da libra caiu de 5. Para se ter uma noção do que isso significa para Cuba. O programa de desenvolvimento industrial foi iniciado em 1963.3 bilhões de cruzeiros. a ser cotada em 65.3 milhões. e cresceu 10.9 bilhões de cruzeiros no período de 1971/72. a indústria leve — roupas. nas maiores altas. e a partir de então foram instaladas no país fábricas de vidro. Através da estatização da indústria privada o governo passou a controlar toda a produção industrial do país. em 1974. no mesmo período. fios e arames de cobre e acetato. Com o acesso às estatísticas econômicas restrito a muito poucas pessoas — quase nunca a estrangeiros — torna-se difícil avaliar a real situação cubana. Em 1969 o consumo de aço bruto teria sido de cerca de 400 mil toneladas.1 centavos de dólar). Cuba teria acumulado. com uma produção no valor de 3. em 1974. informa-se muito pouca coisa. número que cresceu para 860 mil em 1968 e caiu para 700 mil toneladas em 1971. no setor de indústrias básicas o aumento foi de 15%. calçados. fertilizantes e têxteis — mas nenhuma delas capaz sequer de abastecer o mercado interno. plásticos — alcançou 4. em 1972. de pneus. O preço da libra de açúcar. entre 1959 e 1966 a produção média anual de fertilizantes foi de 450 mil toneladas. 5. basta observar que em 1970. que havia deixado a economia cubana em situações difíceis. de 29 centavos de dólar — chegou.50 centavos.5 bilhões de dólares em divisas (dados contestados por estatísticas norte-americanas que calculam esse total em torno de 3 bilhões de dólares). de papel de imprensa. Essa cifra permite que o país possa pensar na realização do sonho que vem sendo acalentado desde o tempo em que Che Guevara era o Ministro da Indústria e Comércio: a industrialização.

de valor nunca divulgado pelos dois países. disse ele. é de se esperar que Cuba possa ensaiar os primeiros passos de seu processo de industrialização. 300 milhões de rublos — aí não estão incluídas as despesas militares. a viagem do vice-primeiro-ministro Carlos Rafael Rodriguez à Europa. de tecnologia soviética. A prevalecerem estáveis os atuais preços do açúcar. E a União Soviética investiu em Cuba. As cinco fábricas de papel produziram 100 mil toneladas em 1971. A indústria de bens de consumo é pequena: em 1973 produziu 65 mil geladeiras e 50 mil fogões — não há dados precisos sobre a produção total de aparelhos de rádio. com capacidade de produção de 100 mil televisores anuais. Segundo comentou em Havana um diplomata europeu ocidental. Cuba passou a receber ajuda técnica e fundos do Comecon — o "mercado comum" do bloco socialista — organismo ao qual o país se agregou naquele ano. quem tem dinheiro e paga à vista merece esse tratamento".cubanas de pneus produziram 300 mil unidades em 1971 e uma só fábrica produziu 100 mil baterias para automóveis. está sendo instalada no país. Uma fábrica de aparelhos de televisão. Na crise atual. "foi recebido como um sheik árabe em todos os países por onde passou. entre 1973/75. A partir de 1972. . em fevereiro de 1975 reflete o interesse dos países do bloco ocidental em comerciar com Cuba: "Carlos Rafael".

é claro. homens e mulheres. Aqui todo mundo tem de trabalhar muito. quando . nos discursos oficiais. A velhinha. de companero. Pude ver isso ao conhecer de perto uma das últimas propriedades da iniciativa privada no país: os velhos táxislotação que circulam em Havana. nas cartas. Claro que não poderia gostar do sistema atual. ia pegando e deixando passageiros pela cidade (a nove cruzeiros por cabeça) ao som da conversa de seu proprietário. Meu carro está desmanchando de velho. Comunismo é bom para essa juventude que está aí nas ruas. que no tempo de Batista tinha sido empregada doméstica — profissão extinta por lei depois de Fidel — hoje é funcionária de um berçário público. é companero. o chofer do táxi. Quem passou a vida inteira vivendo por sua própria conta não se acostuma. Nos envelopes das repartições públicas. Esse negócio de acordar às sete da manhã e trabalhar até de noite não é para mim. Ele não é um companero. Apertou o passo. todo mundo. e há 40 trabalhando como motorista de táxi. O CDR nasceu em setembro de 1960. ninguém pode me impedir. come a metade do que eu ganho. é filiada ao CDR — Comitê de Defesa da Revolução. que congrega 80% da população com mais de 14 anos de idade. caindo aos pedaços. como outros 4. importados da Argentina. mas estou velho e mal acostumado para mudar minha vida.A REVOLUÇÃO ONIPRESENTE Em Cuba. é um contra-revolucionário.8 milhões de cubanos. não? Eu vi você chamando aquele homem. Mas se me der vontade de brecar aqui. desci e notei que logo atrás de mim caminhava uma senhora idosa que ouvira a conversa. nas conversas. ao se despedir. Quem pensa que pode passar uma semana sem fazer nada neste país está enganado. Alguns quarteirões depois. O Dodge 1953. os considerados contra-revolucionários. é para a garotada. ir para casa e ficar uma semana sem fazer nada. da Itália e da União Soviética: — Não tenho nada contra o comunismo. mandar todo mundo descer. o motorista Francisco Herrera. chegou-se a mim e disse: — Você é estrangeiro. sentada no banco de trás do táxi. ninguém é senhor ou senhora. Todo mundo é companero — menos. Estes são os gusanos. E. um vagabundo. novos. os vermes. ele já recebeu — e recusou — várias propostas para trabalhar nos táxis estatais. Aos 60 anos de idade.

ainda não havia sido proclamado o caráter marxista da revolução. Com o controle total que o organismo exerce sobre o país — com um morador controlando cada quadra — foi possível. O CDR. beneficiados pelas transformações ocorridas. ou simplesmente decidiram viver calados. se o povo apóia a revolução. recolheram o equivalente a 45 milhões de dólares apenas em sucata e papelão . Mas. o CDR tinha o objetivo declarado de "unir as massas em torno da revolução. Em 1961 aconteceu a fracassada invasão da Baía de Porcos. passou a assumir também outras funções. criada na Bulgária por George Dimitrov logo após a Segunda Guerra Mundial. Minutos depois que Fidel começou a falar. outra bomba. pam! uma bomba. ou embarcou na "ponte aérea" criada entre Cuba e os Estados Unidos. explodiram cinco bombas. Temia-se que. onde fizera um longo discurso na ONU. E na quinta bomba. por exemplo. há alguns meses. ele mesmo contou esse episódio a um grupo de jornalistas: "Enquanto nós falávamos. faz uma piadinha sobre o "imperialismo ianque" e recomeça. Os CDRistas contam também que. como podem esses mercenários mover-se? Vamos organizar o povo! E lançou-se o lema de organizar o povo nas fábricas. se o povo está em toda parte. Fidel Castro acabava de chegar dos Estados Unidos. como. quarteirão por quarteirão. uma bomba explodiu. Alguns anos depois. vacinar um milhão de crianças contra a poliomielite em apenas três dias de trabalho. Inspirado na "Frente da Pátria". a nível de quadra. Poucos minutos depois. Em cada quadra do país o CDR fechou as esquinas e manteve presos em suas próprias casas os considerados suspeitos. com o tempo. os inimigos do regime foram desaparecendo: a maioria fugiu. Porque nós dissemos: mas se temos o povo. Um ano depois o CDR — que naquele tempo se chamava Comitê de Defesa e Vigilância — teve sua primeira prova de fogo. só no ano passado. do Partido Comunista Cubano e de Fidel Castro". nas quadras. paralelamente à luta no litoral. auxiliar o Estado na solução de problemas sociais. os inimigos da revolução ainda residentes no país preparassem demonstrações de força e de apoio aos mercenários treinados nos Estados Unidos e na Nicarágua. Tinha de esperar o eco terminar para continuar falando. quadra por quadra. a quinta bomba gerou os Comitês de Defesa da Revolução. cujas ramificações se estendem por todo o país. e os que restaram no país ou mudaram de opinião. Ele interrompe o discurso. impedindo uma eventual saída para reforço à luta no litoral. rua por rua". Cinco bombas! Você ia falando e de repente. e uma multidão esperava em frente ao palácio para ouvi-lo sobre a viagem.

vi o chefe do CDR municipal tentando impedir que um motorista de caminhão cruzasse a cidade com o veículo carregado — para evitar. nem na mais remota aldeia. o presidente do CDR (normalmente um aposentado ou uma dona de casa) passa o dia atento para algum eventual desocupado da vizinhança (em Cuba há uma lei contra a vadiagem que é efetivamente aplicada e que pode condenar o acusado até a dois anos de prisão) ou mesmo cuidando para que as crianças não faltem à aula. O Departamento de Estado só informou o governo de Fidel Castro que os pescadores estavam livres quando faltavam duas horas para que chegassem a Havana. quando os Estados Unidos colocaram em liberdade um grupo de pescadores cubanos presos em suas águas territoriais. Em 1974 a organização realizou provas citológicas para a prevenção de câncer no colo do útero em cerca de meio milhão de mulheres. a avenida à beira-mar da capital cubana. chefiada por um coordenador.conseguidos de casa em casa e que seriam jogados no lixo. já que não existem quadras. Um ano antes. o limite de cada CDR é determinado por agrupamentos de casas. disse Fidel aos líderes CDRistas). Alguns exemplos de mobilização feitos pelo CDR são repetidos ao visitante em todo o país. o senador americano Jacob Javits (republicano de Nova York) declarou à imprensa que se surpreendera com a absoluta ausência de policiamento ostensivo nas ruas. ("Vocês instalaram uma verdadeira fábrica de garrafas". Em cada quadra o presidente é eleito por todos os moradores de mais de 14 anos. Funcionando como uma espécie de síndico da quadra. no mesmo período. Foi o tempo bastante para que o CDR mobilizasse dois milhões de pessoas para recebê-los no Malecón. circulando pelas cidades montados em possantes motos italianas Guzzi-850. Cada grupo de 20 quadras constitui uma zona. sem que um membro do CDR tome conhecimento. uma cidadezinha histórica perdida no interior de Cuba. Na região rural do país. segundo ele. muito mais forte que o CDRista. O homem. Realmente só se vêem os guardas de trânsito. O mais conhecido ocorreu em 1971. em . Depois de visitar Cuba. uma campanha do CDR para economia de vidro permitiu que fossem recolhidas para reutilização 99 milhões de garrafas. nas duas calçadas. Acontece que nada ocorre no país. e passa a ser o responsável pela vigilância de cem metros de rua. Sem nunca desviar os olhos dos possíveis contra-revolucionários — cada vez mais raros. o desmoronamento de edifícios tombados pelo patrimônio histórico. Em Trinidad. Bastou que o outro se identificasse como chefe do CDR local para que a ordem fosse acatada. insistia em passar por ali.

Entreguei meu filho à mãe de meu marido — ele já lutava na Praia Girón —. parece permanecer até hoje. funcionária pública. em . conta como se incorporou às milícias populares que foram à Baía: — Eu era recém-casada. lembra que tudo foi feito apesar de a Nicarágua ser o país de onde partiram os grupos de mercenários para a invasão da Baía dos Porcos — e provavelmente o último país com o qual Cuba voltará a ter relações. O que os cubanos denominam "internacionalismo proletário" não se manifestou apenas aí. durante o terremoto que destruiu Manágua. participam da construção de um hotel de 24 andares. milhares de mulheres fizeram o mesmo. Esses "soldados do povo". de vários níveis. que se ofereciam como voluntários para ir ao Peru (e naquele tempo os dois países ainda não tinham relações diplomáticas). que se revezam a cada seis meses. também. por exemplo. Foi o que ocorreu quando da invasão da Baía dos Porcos. Os dados oficiais sobre Defesa são absolutamente secretos em Cuba). Quando estiver pronto. Estávamos todos muito emocionados. Esse espírito. o "Hotel Vitória" será oferecido ao governo da República Democrática do Vietnã.1970. de malas prontas. O CDR tem. se for o caso (as estatísticas divulgadas por organismos internacionais ou revistas . tinha um bebê de poucos meses. Toda vez que um cubano conta isso.especializadas em armamentos dizem que o efetivo militar permanente do país é de entre 110 e 150 mil soldados. Fidel foi à televisão e pediu ao povo que doasse sangue para enviar a Lima. e a maioria deles pode operar armamentos. uma inacreditável capacidade de mobilização armada dos quase cinco milhões de adultos (maiores de 17 anos). para formar contingentes auxiliares das Forças Armadas. diplomatas). Como eu. Um fato idêntico deu-se depois. Estella Menendez. peguei uma metralhadora e fui para a luta. E tudo sem histeria. grupos de cubanos de todos os níveis (estudantes. operários. podem ser rapidamente mobilizados numa emergência. Em Hanói. durante o terremoto que matou 50 mil pessoas no Peru. professores. e em frente ao Palácio da Revolução se postou uma fila de médicos. sem choro. mas ao mesmo tempo muito tranqüilos. como são chamados. a porta do Ministério da Indústria Açucareira. inclusive os de alto poder de fogo. hoje com 45 anos. Os adultos válidos recebem treinamento militar periódico. Num ensolarado domingo. em 1961. Em poucas horas mais de 100 mil pessoas já haviam passado pelos postos de doação. A prova disso é que em 72 horas o ataque mercenário foi dominado por nós — o Exército e o povo. de certa forma. funcionários públicos. claro.

mas só quem sofreu tantas agressões como nós sabe que a vigilância é indispensável. por quem chega a haver veneração em Cuba. Em cada quadra.9. E o grande inimigo não mudou de endereço. no bar do hotel em Camaguey. em 1968. de corpo inteiro. Perguntei contra quem se dirige esse esquema defensivo. Falam de política internacional. cartazes. Ao lado de um retrato do guerrilheiro Camilo Cienfuegos. Pergunto como o povo reagiu à invasão da Checoslováquia pela URSS. camisa amarrada na barriga. feitos a mão. à beira da estrada. feito na Província de Camaguey". A presença da revolução no interior. Todos os locais de trabalho estão sempre guardados por trabalhadores. por exemplo. país a dentro. quase sensual. uma plaquinha do CDR. entretanto. em que se determina quem vai tomar conta dos prédios aos domingos e durante a noite. Na saída do bar. e de quem os cubanos eram amigos desde 1959. escolas. Seria muito ruim ter de tirar o nome de alguém de uma rua. um fuzil-metralhadora. e um funcionário do Instituto Cubano de Radiodifusão respondeu: — O pior talvez já tenha passado. O jovem responde: . A revolução continua sempre presente. Num barzinho. só virou nome de avenida em Havana depois de morto). está guardada por uma mulata muito bonita. Cada província advoga para si o privilégio de fazer "'o melhor charuto do mundo". Continua morando a 90 milhas de Cuba. capital da província. A caminho da cidade de Camaguey. (Salvador Allende. cabelo armado de laquê e. As ruas. praças têm nomes dos heróis cubanos mortos desde a luta contra os espanhóis até as guerrilhas da Sierra Maestra. um professor de Matemática e seu aluno conversam em torno de cálices de vodca norte-vietnamita. um soldado se aproxima e oferece quatro charutos criollos. o garçon explica por que só os mortos têm seu nome em monumentos e lugares públicos: — Quem está vivo é passível de erro. enquanto serve um refresco. um out-door de trinta metros de comprimento lembra a luta para derrubar Fulgêncio Batista. Blue-jeans desbotados. todos os dias. de uns 20 anos. está a frase: "Camilo cruzou esta estrada aqui. situada na província de Camaguey. Em cada seção e cada departamento há uma escala mensal de plantões (que inclui até os funcionários mais graduados). folhetos e out-doors tomam conta das ruas. é ainda mais intensa e perceptível que em Havana. e com uma recomendação: "Pode dizer lá que você fumou o melhor charuto do mundo. Numa sexta-feira à noite. Na cidadezinha de Ciego de Ávila.Havana. na mão direita.1959". chefiando a Coluna Antônio Maceo em 28. "em homenagem ao Brasil".

Onde estava o povo? Aqui em Cuba. Ele fica bravo: "Isso não existe. de mais de 50 metros de altura. pinarenhos. Dizer que os orientais são melhores ou piores que qualquer outro cubano é criar um regionalismo pouco revolucionário. . em 1956. logo depois. A verdade é que a revolução checa é uma revolução para o povo. hoje hospitaleira. de 400 mil habitantes. mochila nas costas. entretanto. conversando com você. espalhando notícias que diziam que Allende caiu porque pediu dinheiro à União Soviética e voltou de mãos abanando. como assassinos.— Apoiamos. para tocar um dedo em Fidel. os fascistas terão que matar antes nove milhões de pessoas". da Sierra Maestra. Se as coisas continuassem andando como iam. Pergunto ao motorista se a fama de Oriente já existia antes disso. Quer dizer. feita pelo povo. Os soviéticos terminaram pintados como monstros invasores. o motorista que está na porta. logo a burguesia tomaria o poder. O CDR está aí. havaneros juntos. duas evidências pareciam querer justificar a fama da província: um cartaz com os dizeres "Santiago: ontem rebelde. Quem derrubou o regime foi o clima que se deixou criar dentro do país. é claro. Duzentos quilômetros depois. heróica sempre". O professor lembra que "o imperialismo tentou fazer o mesmo depois do golpe no Chile. considerada "a mais revolucionária de Cuba". Esteja certo: um povo que não consegue defender sua revolução não merece ajuda externa. mostra Fidel Castro em roupa de campanha. aquele garçon. Mataram Allende praticamente sozinho. A imprensa burguesa deturpou muito aqueles fatos. Os dois se entusiasmam: "Matar Fidel? Essa seria a última coisa a acontecer em nosso país. Quando é preciso lutar há orientais. fuzil na mão. ele ali. Cuba não apoiou a União Soviética por dever de ofício. tem-se a impressão de ver dois ou três. Um reacionário não anda cem metros em Cuba sem ser apanhado. e não apenas um CDR em cada quadra. Ali Fidel Castro tentou tomar o quartel de Moncada. um grupo de intelectuais. No fim. Cuba é integralmente revolucionária". em 1953. A menor manifestação da reação é esmagada no berço. o povo". em cores. Na cidade. E sabe quem vai pegá-lo? Eu. ali aportou o iate Granma. Argumenta: "Isso é de um primarismo incrível. outro cartaz gigantesco. E dali. Apoiou porque concordava com a invasão. ele comandou a luta que derrubaria o governo de Batista. em toda parte. Na entrada de Santiago de Cuba. sentado à direção do carro. chega-se à província de Oriente. pintou um retrato monstruoso dos acontecimentos. num gesto de verdadeiro diversionismo ideológico. sem meios de conter a crise econômica". Está aqui nesta mesa.

povo fisicamente semelhante ao cubano. e perguntou. sastre". tomou coragem e perguntou de uma vez: — Roberto Carlos é negro? Ele ficou um pouco decepcionado com a resposta. Ele parou um momento. No dia seguinte. em Cuba. Como aqui. E ele: — Há muitos negros no Brasil? — Sim. dizendo que era mecânico em Santa Clara. há 26 monumentos de mármore e concreto. quase carinhoso do dia a dia. À véspera de meu embarque de volta. "Frank. mas que nunca o tinha entrevistado.Na estrada que liga o quartel de Moncada (hoje "Escola 26 de Julho") a uma antiga granja. abogado". pude ver isso mais uma vez no saguão do Hotel Nacional. bastante. homenageando os 70 guerrilheiros mortos por Batista após a frustrada tentativa de tomar o quartel. e me estendeu: — Leve para o Brasil. brasileiro. Siboney. — Brasileiro! Que bom! Então podemos falar um pouco do Brasil? Ele me levou para um lado. pronto . "Ramón. esperava mais um entrevistado — o último da reportagem. Nas portas de muitas casas. na fila de embarque do Aeroporto José Marti. negro. Em cada monumento. — Ah. apenas uma palavra: "Vigilância!" A extrema belicosidade que o cubano manifesta quando trata daquilo que chama de nuestro patrimônio — a revolução — contrasta com seu comportamento cordial. meio timidamente: — Estrangeiro? — Sim. "Carlos. que já tinha cruzado com o primeiro-ministro algumas vezes em Havana. caminhamos até um banco no jardim de inverno do hotel e o rapaz — com alguns livros debaixo do braço — começou a me entrevistar sobre o Brasil: — Como é seu pais? Disse que é muito parecido com Cuba: sol. pintada à mão. Imediatamente mudou de assunto e continuou: — Você conhece o companero Fidel? Respondi que não. é uma lembrança de Cuba. a autodefesa feita por Fidel em 1953. praias. quando. albañil". venezuelano? — Não. onde Fidel e seus companheiros planejaram a invasão. estudiante". Ele tirou de baixo do braço o livro A História me Absolverá. e suas profissões: "Juan. os prenomes de três ou quatro combatentes. à tardezinha. a 300 quilômetros de Havana. Aproximou-se de mim um jovem.

O avião sobrevoa Havana e da janela em que estou só vejo um lado da capital. das alternativas políticas e econômicas para os países latino-americanos. Nesta entrevista concedida com exclusividade ao autor. colocados na praia no tempo da colônia. Pergunta — Como se desenvolveram as grandes reformulações da política exterior cubana. vice-primeiroministro. recebo outros recuerdos dos cubanos que ficaram um mês e meio comigo: uma caixa de charutos. um dos poucos que não lutaram na Sierra Maestra. interpreta um discurso de Kissinger. A última imagem. Carlos Rafael Rodriguez faz uma análise da política externa da Cuba pós-revolucionária. o motorista. é. Che Guevara e Camilo Cienfuegos comandavam a luta guerrilheira. das ligações de Cuba com o bloco socialista. antes de entrar nas nuvens: dois velhos canhões espanhóis. Oswaldo Dorticós. por cima da sua asa prateada. e outra para Comércio e Política Exteriores. de orientação marxista. e até hoje mantida quase totalmente inédita. oferecido por Gilberto. que é Carlos Rafael Rodriguez. e em segundo lugar as condições externas. vejo de novo Ho Chi Minh sorrindo no grande out-door: "Construiremos um Vietnã dez vezes mais bonito". o jovem diplomata. Raul. a nosso ver. que depois do triunfo da revolução daria lugar ao Partido Comunista Cubano. juntamente com o presidente da República. o sessentão Carlos Rafael. de dois elementos básicos. fala da crise do petróleo. que é seu irmão Raul. os objetivos do país. E nossa . dirigindo o Partido Socialista Popular. APÊNDICE UMA ENTREVISTA COM CARLOS RAFAEL RODRIGUEZ Em Cuba diz-se que Fidel Castro tem duas mãos direitas: uma para Defesa. Em primeiro lugar. E comenta as possibilidades de uma reaproximação de seu país com os Estados Unidos e com o Brasil. e um boné da seleção cubana de baseball.para voltar. O Ilyushin-62 levanta vôo e. Enquanto Fidel. Apontados para Miami. comandante das Forças Armadas Revolucionárias. de Ricardo. Do reduzido grupo de homens que há 17 anos dirigem os destinos de Cuba. durante o processo revolucionário? Carlos Rafael Rodriguez — "A política exterior de qualquer país depende. Carlos Rafael trabalhava na clandestinidade.

sobre 100. Isso foi tentado de diversas maneiras. Contamos. O inimigo. Oitenta cubanos diriam: "O amigo? Os Estados Unidos. uma medida mais drástica. veio a ruptura total de relações. a partir desse momento. a União Soviética". Eles romperam unilateralmente as relações. a preços convenientes. também o centro de amizade. em alguns Estados. a União Soviética. pela via do comércio exterior. a nível de Estado. fundamental. O povo cubano naquele momento estava completamente confundido. E aqui veio. foi dado pelo fato de que a tentativa de Fidel Castro. Se perguntássemos a 80 cubanos. por último. em nossa ajuda. A vida nos demonstrou. E nos encontramos de repente com três milhões de toneladas de açúcar em um mundo que não era o de hoje — onde três milhões de toneladas de açúcar teriam sido um tesouro. veio em nossa ajuda a União Soviética. Tivemos que colocar no mercado esses três milhões. há duas projeções da política exterior: começamos a determinar uma política dirigida a nossos inimigos e a delinear uma política para nossos novos amigos. E. a situação internacional.política exterior tem sido uma combinação necessária de objetivos e reações frente às condições externas. junto com o grupo de países socialistas que absorveram. de uma política de assassinatos. as políticas e as diplomáticas. imediatamente. tudo. Aí veio a etapa da pressão norte-americana. de realizar uma verdadeira independência nacional. onde estavam os inimigos. com o apoio. de ataques de menor escala. foi respondida pelos Estados Unidos com uma violenta ofensiva para cancelar o projeto revolucionário. independentes e ter direito a recuperar nossas riquezas naturais. e na América Latina nosso sistema de relações se mantinha. como se sabe. Primeiro. naturalmente. muito mais cruel. de atentados aos dirigentes.pela segunda vez. organizaram e executaram o ataque armado contra Cuba. Agora. à frente do povo. O segundo momento da ofensiva norte-americana foi a supressão do combustível. E. já num plano de relações mais políticas. que podia ter trazido à nossa economia um colapso total. Começamos a viver então em condições de guerra declarada pelos Estados Unidos com todas as armas: as econômicas. e isso nos dava satisfação. com relações diplomáticas. Nem falo de sabotagens. onde estavam os amigos. que forneceu o petróleo. a realidade. que os Estados Unidos dizem provocadas por nós — mas nossa provocação consistiu em querer ser livres. O primeiro elemento. aqui. todo esse açúcar. pela eliminação da quota açucareira. E por último prepararam. E . pela primeira vez. esteve nos países socialistas e particularmente na União Soviética. que se exerceu . Contamos também. a atenção dos povos. em 1959: "União Soviética e Estados Unidos — qual é o amigo e qual é o inimigo?".

Se eu dissesse isso antes poderia parecer uma defesa.singularmente sobre a América Latina. de princípios. Agora que todo mundo sabe que não pedimos nada. em nenhum momento. uma certa agressividade — própria dos que se" defendem. um governo não revolucionário. que Cuba tenha participado na organização ou no apoio de forças que tenham estado fazendo ações subversivas de alguma índole no México. Isto quer dizer que não associamos o fato de ter relações diplomáticas à identificação com situações políticas. De maneira que isso deve ficar bem claro. pouco a pouco. Estávamos atuando como país bloqueado e desenvolvemos. por exemplo. porque é parte de nossa política. nossa política tem sido sempre uma política coerente. vieram novas posições e nós vimos que o bloqueio ditado pelos americanos foi aceito. desses governos. De modo que o caso do Brasil é o mesmo caso do Chile. que lançam golpes. que alguém lhe viesse pedir ajuda para derrubar. que o Brasil ainda votava com Cuba e trabalhava para que os demais votassem com Cuba. evidentemente. com quem nos encontramos em São Paulo. Nós não somos partidários da manutenção do capitalismo. não esquerdista. mas informal — sem que Cuba tenha recebido. com as mudanças. pela quase totalidade dos países da América Latina — menos o México. sequer remotamente. nem digo a Goulart. nem sequer à amizade. Em relação à Europa e outras áreas. manteve uma posição correta e coerente. Eu me recordo. e que às vezes lançam dois golpes para cada um que recebem. nada mais. Em minhas conversações com . ou um pedido de perdão. o chanceler Roa e eu tivemos conversações conjuntas. fomos perdendo amigos e aliados na América Latina. em escala maior ou menor. de algo que possa ser considerado como subversão ou intervenção — ainda que não seja formal. eu queria dizer que o princípio da política revolucionária de Cuba em relação a outros países tem sido o princípio da resposta. Recordo-me de que o chanceler de vocês naquele tempo era Santiago Dantas. com quem o presidente Dorticós. Agora podemos dizer. previamente. porque não necessitamos de nada. mas a seus antecessor. Depois. nas primeiras discussões em Punta Del Este. Isso também ditou uma segunda condição da nossa política externa. Ou que Cuba pensasse. e como conseqüência da mudança na política dos países. Na primeira etapa. Ninguém poderia dizer. Não há nenhum país da América Latina que possa dizer que Cuba participou. do ponto de vista das relações normais entre os Estados. Os países que nos respeitaram foram respeitados — e nisso nós temos sido muito escrupulosos. com a delegação brasileira e até com o próprio presidente da República. um ataque. mas acreditamos no princípio da coexistência pacífica. Veio todo esse processo. Com ele. Somos revolucionários.

Um exemplo da nossa política internacional está dado pelo fato de que com o governo da Espanha (ideologicamente nossas distâncias têm sido sempre — e são — muito grandes). Mas o fato de fazer parte da comunidade socialista internacional não nos separa. e nossa política exterior se baseia naturalmente em critérios de uma coexistência pacífica. Ainda que nesse momento a integração seja maior em relação à Europa socialista. do Peru. uma coordenação e uma integração latino-americana. não no ideológico." Pergunta — O primeiro-ministro Fidel Castro disse há algum tempo . Agora somos parte de uma comunidade socialista — não temos com ela compromissos militares. vamos aumentando o marco de nossas relações. Com a Europa e com os grandes países capitalistas da Ásia — Japão. e de manter uma identidade de critérios dentro da diferença de sistemas. nesse marco. com os grandes sistemas sociais que são incompatíveis historicamente com o socialismo. por razões políticas e sociais. e isso nos permite formalmente ser parte dos não-alinhados. E também uma política de aproximação a tudo aquilo que na América Latina signifique defesa da independência e da economia nacional. mutuamente respeitosas. De modo que poderíamos definir.os companheiros do Ministério de Relações Exteriores de nosso país. inimigos e muito inimigos. por exemplo — nós temos tido relações sujeitas às variações dos governos. aí se inclui a disposição de participar de associações como o SELA — Sistema Econômico Latino-Americano. algo amigos. sem dúvidas temos tido relações diplomáticas normais. Estamos comprometidos com o socialismo como idéia. e eu sou o representante cubano no organismo. trata-se de um nãoalinhamento de outro caráter. Nesse sentido. E uma intensidade de relações econômicas que culminou agora com esse crédito de 900 milhões de dólares que acabam de nos conceder. eu sempre digo que nós temos relações diplomáticas com países muito amigos. Hoje temos um sistema de relações muito amplo. nossa política internacional. amigos. declarei que nós acreditávamos que nosso cenário histórico natural de integração econômica era a América Latina. como sistema e como comunidade — e não o ocultamos. mas permite um tipo também de unidade muito estreita em relação à America Latina. Mas nós temos confiança no futuro da América Latina e não renunciamos à nossa condição de latinoamericanos e à nossa idéia de uma união. do México e dos países anglófonos do Caribe. a longo prazo. um pouco inimigos. Quando ingressamos no Came — o Comecon — em nome de Cuba. Por conseguinte. com as posições internacionais da Venezuela. E podemos manter relações diplomáticas dentro de toda essa gama.

não estabeleceríamos relações sob nenhum pretexto. naturalmente. Eu não posso negar-lhe que até agora a situação que o Brasil projetou é um problema dos brasileiros e o fato de que essa imagem nos agrade ou não tem pouco que ver com a política internacional. outras vezes foram governantes de outros países. Carlos Rafael Rodriguez — "Sim. um Chile fascistizante. como a Nicarágua de Somoza. partindo daquela política expressada pelo primeiroministro Fidel Castro. Outras ditaduras. e se esses sinais dos quais nos têm falado conduzem ao caminho em que se está situando esse processo. tampouco nos interessam. Evidentemente. E certamente. será melhor para o Brasil. não estamos ansiosos. E. o papel que alguns governantes atribuíram ao Brasil — algumas vezes o fizeram governantes brasileiros. já que minha ocupação fundamental é no campo das relações exteriores. É se isso muda. por conseguinte. foi a palavra. se esse caminho conduz até onde alguns brasileiros estão dizendo que vai conduzir. naturalmente. mas olhá-las tal e qual são. mas o sentido dessa relação diplomática. eu o digo como as vejo hoje e como possivelmente a vida nos leve a vê-las em outra oportunidade. Mas a projeção exterior do Brasil. mas este parece ter sido o sentido. Não se trata de que Cuba esteja ansiosa por ter relações com todos os países da América Latina." Pergunta — O senhor acredita. Independentes. que as mudanças vividas nos últimos dois anos pela política externa brasileira possam contribuir para uma reaproximação entre os dois países? Carlos Rafael Rodriguez — "Nós vemos isso como um processo. Em todo esse processo de relações diplomáticas com a América Latina. com toda a franqueza. o que for bom para a América Latina será também aceitável para Cuba. tenho que dizer-lhe que temos podido perceber essas mudanças. O caminho do entendimento. E." . governantes norte-americanos — isso naturalmente suscitou em nós contradições que têm sido muito visíveis nas conferências internacionais. nós dissemos com muita clareza — foram palavras do próprio Fidel que definiram mais precisamente nossa linha — que a nós não nos importa tanto a relação diplomática em si mesma. está dado pelos fatores objetivos da situação. Não é necessário dizer que com o Chile. a situação será diferente da que tivemos até agora. então. um Chile à Ia Pinochet. será melhor para a América Latina. De forma que aqui não se trata de imobilizarmo-nos nas situações.que Cuba estaria disposta a manter relações com países que tivessem uma política externa independente — não me lembro se as palavras foram exatamente essas. E.

quando se tentou. . A posição do secretário de Estado define claramente as bases de uma nova relação. anacrônico e inoperante. colocar fim ao bloqueio da OEA a Cuba? Carlos Rafael Rodriguez — "Veja: para lhe ser franco. mas por legisladores dos próprios Estados Unidos. Foi também o companero Fidel Castro quem ressaltou em outra entrevista o caráter inteligente das soluções e dos enfoques de Kissinger. você está bancando o amigo da onça. um caminho inaceitável. não haja a condição negativa que é o bloqueio. Nós nos sentimos vítimas — e na posição de vítima não se pode negociar. no Equador. E naturalmente o discurso de Kissinger reflete esse convencimento. um elemento novo nessa situação. é uma resposta inteligente a uma situação real. Nós temos dito que se não há mudanças quanto ao bloqueio de Cuba. a condição é a arma. falando a um grupo de jornalistas estrangeiros. Mas a possibilidade de conversar não significa naturalmente nenhum "arranjo". os governantes. . Há poucos dias o companero Fidel Castro. Poderia dizer-se: "mas o senhor está colocando a condição do bloqueio". ou só atingiu parte deles. diríamos. de um lado. Haverá muitas coisas que terão que ser definidas. Nós consideramos que há. Imediatamente depois do discurso. nenhum acercamiento da situação. aqui também há um processo. quando houver disposição para conversar. É importante que não se imponham condições. nós . se convenciam cada dia mais de que o bloqueio era um caminho sem solução. isso não o faz menos lesivo ao país atacado. . ressaltava uma vez mais que tudo indicava que os Estados Unidos." Pergunta — Como o governo cubano acompanhou a reunião de outubro de 1974 em Quito. o diálogo não será possível. Bem. E o governo cubano. negociar sob condições não é possível. Porque se o bloqueio não atingiu todos seus objetivos. Mas para nós. em vão. de outro. não é? É. Mas há uma parte do discurso de Kissinger que foi interpretada não por nós. apresentaram proposições no sentido de conseguir desbloquear Cuba. recebeu o discurso do secretário de Estado norte-americano? Carlos Rafael Rodriguez — "Como é que se diz no Brasil? Amigo da onça. Mas é que quando se tem uma arma apontada para o peito do adversário. evidentemente. . os senadores Pell e Javits. ainda que não se possa dispará-la.Pergunta — A imprensa cubana recebeu com certa indiferença o recente pronunciamento de Henry Kissinger que tratava de um tema aparentemente importante para Cuba: as relações entre os Estados Unidos e Cuba. Estamos tratando também de que. e o senador Kennedy. Historicamente caduco.

Mas a única possibilidade de diálogo é através da unidade. . sim. Porque é evidente — e isso foi confessado — que o Departamento de Estado esperava que se tomasse uma solução de liquidação do bloqueio. só que chegaram antes do tempo. positivo. há calendas. para seguir adiante com a política. a Colômbia.consideramos o final da reunião de Quito como algo que tem um sentido histórico. de uma América Latina uniformizada quanto às suas concepções econômicas e sociais. a Colômbia também e outros países estão sofrendo grande pressão não só popular. ali havia países como a Venezuela. Mas o que se vê é que nesta Grécia. Mas não se trata disso — trata-se da unidade dentro da diversidade. Porque a diferença é tão grande. Marx — e somos marxistas — dizia que a igualdade consiste em tratar desigualmente as coisas desiguais. Não posso dizer que nós tenhamos nos alegrado porque essa não fosse a posição dos demais. Nós nunca dissemos — ao contrário. Não se trata. mas institucional. porque isso é absurdo. não é suficiente uma América Latina . ainda que o desejássemos. . Segundo se confessou. é organizar a América Latina como uma unidade — incluindo naturalmente os países anglófonos do Caribe. Segundo: Quito serviu para definir as características de alguns governos da América Latina. A maioria dos países estava contra. É claro. que começam a se sentir cada vez mais como uma parte da América Latina. E qual foi o resultado? A Venezuela estabeleceu relações com Cuba. Mas Quito demonstrou. não há dúvidas. que o bloqueio é um fracasso. para o estabelecimento de relações. Alguns pensaram que Quito adiaria o problema de Cuba até as calendas gregas. Aspiramos a isso e temos a certeza de que a América Latina um dia será socialista. que tiveram uma posição muito galharda. para equiparar-se aos Estados Unidos. quando a delegação norte-americana queria que votassem a favor. pode-se ver declarações em contrário feitas pelo companero Fidel — que esta América Latina nunca vai conversar com os Estados Unidos. Bem entendido que unidade na diversidade. E o Departamento de Estado esclareceu sua posição. que estão dispostos a fazer o que se diga em Washington — e inclusive nem sabem mais interpretar os sinais. a delegação norte-americana ficou consternada quando comprovou que alguns de seus seguidores a interpretaram mal: votaram contra." Pergunta — Que passos Cuba gostaria de dar para criar um novo sistema interamericano? Carlos Rafael Rodriguez — "Nós temos repetido — e já o disse o companero Fidel no primeiro discurso em que falou dessas coisas — que nós consideramos que o primeiro. primeiro. Naturalmente. a Costa Rica. e essencial.

Porque o que se prevê agora é uma crise catastrófica. com Cuba e o Brasil como parte dessa entidade. É preciso buscar uma via menos catastrófica — e aí se insere esta valorização das matérias-primas dos nossos países. Consideramos isso parte de uma luta que se está realizando agora e que tem condições para liquidar o intercâmbio comercial desigual. na capacidade de negociação. criaríamos um equilíbrio nas relações econômicas internacionais. mas que terá que se transformar numa unidade de conteúdo político. que pretende ser um organismo de caráter econômico. Compacta no fundamental: na defesa de sua independência. e para isso temos que unificar nossas forças. a América Latina." Pergunta — Há uma corrente no Brasil. representa uma posição exportadora muito forte. Mas não deixo de compreender — e tenho dito isso em fóruns internacionais — que seria uma catástrofe para milhões de homens também." Pergunta — Como Cuba vê. é necessário uma América Latina compacta. Uma vez unificadas nossas forças e defendendo o petróleo. como chegar a isso? Nós acreditamos que a OEA já acabou. ligados aos nãoalinhados. e que tenta injetar vida nova à OEA.disseminada. dêem passos mais decididos quanto à ajuda a seus amigos e irmãos não-produtores subdesenvolvidos. fazer-lhe massagens no coração. Se o mundo subdesenvolvido não se desenvolve. e o petróleo continua caro e os grandes exportadores capitalistas não têm a quem vender e continuam vendendo só entre eles — então a bancarrota do sistema capitalista é inevitável. E. seria conveniente até para elas. Nós acreditamos que essa é uma batalha comum. dentro desse ponto de vista. Porque aí há a obrigação histórica e moral por parte dos produtores de aplicar uma decisiva política de ajuda. a criação de um organismo dos produtores de açúcar semelhante à OPEP? Carlos Rafael Rodriguez — "Nós estamos participando no grupo de países latino-americanos que está organizando a Associação de Produtores de Açúcar. Acreditamos que esse pode ser o início de uma organização mais ampla. reviver o cadáver. a bauxita e outras matérias-primas. mas nenhum dos métodos funciona. uma nova ordem econômica. o cobre. como o SELA. Claro. Para isso é necessário que os países produtores de petróleo. liderada por empresários . me agradaria muito ver isso. Há quem não pense assim. Diríamos também que se as grandes potências capitalistas analisam isso a fundo. Como comunista. O importante é que a América Latina se organize. o açúcar. que inclua produtores de outros continentes. À margem da OEA vão surgindo instituições. na defesa de seus interesses.

simultaneamente. E temos tido notícias de que alguns grandes empresários brasileiros têm feito inclusive formulações ao governo quanto às relações. por um dos problemas que você mencionou e que não nos afetará: o problema energético. Mas também eles se verão afetados.mais pragmáticos. não tem para Cuba maior significação. em possibilidades de preços do açúcar como os que temos hoje. deixe de afetar os projetos de desenvolvimento de Cuba. também aceitaríamos. Porque naturalmente não se pode pensar. ainda que 70 por cento dos nossos projetos estejam ligados aos países socialistas. Como o governo cubano vê essa possibilidade." Pergunta — Como o senhor vê o futuro da economia cubana diante da crise econômica e energética que hoje afeta o mundo e. Não posso deixar de lhe dizer que não creio que uma crise do sistema capitalista. É claro que o centro de nosso desenvolvimento está na colaboração com os países socialistas. em meio a uma bancarrota econômica como a de 1929. relações diplomáticas entre os dois países? Carlos Rafael Rodrigues — "Nós acreditamos que essa possibilidade existe. porque a economia tem-se internacionalizado tanto que muitos projetos tecnológicos dos países socialistas estão vinculados a projetos em que a tecnologia capitalista tem um papel importante. Naturalmente. em especial. De maneira que nós seríamos uma . os países industrializados? Carlos Rafael Rodriguez — "Eu vejo isso com uma grande confiança e com muita segurança. De modo que esse fator inquietante. Em primeiro lugar. de créditos a longo prazo como os que nos estão oferecendo. antes que haja relações diplomáticas. ainda que não venham a existir. Quer dizer. não vemos impedimento. De modo que nosso desenvolvimento seria naturalmente atrasado por essa crise. os outros 30 por cento referem-se sobretudo a fábricas e equipamentos de tecnologia de que o campo socialista ainda não dispõe. Nós temos resolvido — e de uma maneira favorável — o fornecimento de petróleo para Cuba até 1980. que defende a reaproximação comercial com Cuba. que ocasiona distúrbios profundos na balança de pagamento de países não produtores de petróleo. não cremos que necessariamente as relações comerciais entre nossos dois países tenham que estar subordinadas às relações diplomáticas — isso já acontece com Cuba e outros países. através de acordos com a União Soviética. De modo que. têm falado do atraso em relação à Argentina e outros tópicos desse tipo. Até temos dito que se os Estados Unidos querem comprar nosso açúcar e vender muitas coisas que nós poderíamos comprar. dos países ocidentais.

ao afogar-se. avançaríamos. é evidente. mas não ao ritmo que estávamos prevendo. Esse é um diagnóstico de um velho apaixonado por Economia. Subsistiríamos. nos desenvolveríamos.espécie de privilegiados num mundo onde os demais se afogam e também nos arrastam um pouco ao fundo." .