UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
TEORIA SOCIOLÓGICA
Professora: Antônia L. Colbari
Aluno: Roberto Izoton

Comentários de Leitura dos Textos de Georg Simmel

Da leitura dos textos sobre e de Simmel, podemos elencar os seguintes pontos para
debate:
MORAES FILHO, Evaristo de. Introdução. In: SIMMEL, Georg. Sociologia. São
Paulo: Ática, 1983.

Simmel era adepto do individualismo ético e “negava o império absoluto da
norma ética, cujo critério devia ser autonômico, anti-racionalista e subjetivo”
(MORAES FILHO, 1983, p. 10).

Para Simmel, a reconstrução do fato histórico pelo historiador é subjetiva,
mas esse subjetivismo é regulado quando o historiador seleciona os fatos que
ultrapassam o umbral da consciência histórica, ou seja, fatos relevantes cujas
consequências possuem continuidade.

Simmel nega a verdade absoluta e vê a verdade atrelada à sua utilidade na
conservação da vida humana.

É possível dizer que Simmel antecipou o individualismo metodológico de
Weber, pois ele compreendia a sociedade como formada pela interação entre
os indivíduos (sociação). Os impulsos, motivos, interesses e objetivos dos
indivíduos estão na base da sociação, por isso, a psicologia é importante para

 A oposição é benéfica ao grupo. de Max Gluckman (1987). Além disso. 1983. ódio e amor. 1983. para Simmel. as relações sociais são uma totalidade formada por elementos e sentimentos contraditórios. porém. que mostra como o conflito e a cooperação decorrente da clivagem existente entre brancos e negros no sistema social da Zululândia ocasionam a mudança social naquele sistema. amizade e inimizade. p. Cap. As formas das interações sociais. Sociologia.  Para Simmel. SIMMEL. 8. ele metaforicamente separava a forma e o conteúdo da sociedade e defendia que a sociologia deveria se ocupar pela forma assumida pelas interações sociais. a oposição e o conflito podem ser prejudiciais na primeira dimensão.  Quando trata do duplo sentido dos termos discordância e oposição.  É interessante que. 122-134. 22). nos casos de tirania.2 a sociologia. o conflito ocasiona a transformação social. Georg. Simmel distingue a dimensão micro – que diz respeito a indivíduos particulares – e a dimensão macro – que se refere a todo o grupo – da sociedade. p. 1983. mas “são obtidas pela exageração de certas características dos dados reais. A escravização. p. Georg. a violência inicial de uma relação hostil pode ser atenuada. de acordo com o autor.  O autor da introdução ainda destaca que. A natureza sociológica do conflito. até o ponto em que se tornem ‘linhas e figuras absolutas’” como os tipos ideais (MORAES FILHO. In: SIMMEL. Se a discordância. 127). Essa ideia é encontrada no ensaio Análise de uma situação social na Zululândia moderna. não são encontradas na realidade. Podemos encontrar essa ideia na obra Casa- . é um exemplo desse tipo de relação. cooperação e conflito etc. para Simmel. na segunda eles são benéficos. São Paulo: Ática. enquanto outras ciências sociais estudariam seu conteúdo. o que dá origem a uma relação na qual a harmonia e a animosidade se misturam. por exemplo. porque “a opressão costuma aumentar quando é suportada sem protestos” (SIMMEL. como atração e repulsão.

 A divisão do trabalho. a segunda parece empobrecer. os seres humanos elevam para além da natureza tanto os objetos sobre os quais trabalham quanto a si mesmos. . na qual Gilberto Freyre (2006) enfatiza a contemporização entre senhores e escravizados. Isso é fruto da vontade e do sentimento humanos “desdobrados por ideias” (SIMMEL. fazendo com que estes percam a noção do todo.  O fato de a divisão do trabalho separar os objetos da cultura dos sujeitos. as obras de arte etc. 1900. Georg. Vemos nisso um equívoco do autor. as tecnologias. independente das classes sociais. – de cultura subjetiva – que seria o uso da cultura objetiva pelos sujeitos. Com isso. pois o conceito de cultura abarca toda a atividade humana. separando-os tanto dos produtores quanto dos consumidores. o que ocasiona a objetivação da cultura moderna.  Parece que o conceito de cultura em Simmel se limita à cultura erudita. além de provocar a objetivação da cultura. ao especializar e parcelizar a produção.3 grande e senzala. que objetiva os produtos da cultura. A divisão do trabalho como causa da diferenciação da cultura objetiva e subjetiva (1900). explica porque a cultura objetiva enriquece mais que a subjetiva. SIMMEL.  Ao produzir cultura. enquanto a primeira enriquece. devido à especialização e à parcelização da produção.  Simmel distingue cultura objetiva – cujos exemplos são a linguagem. os objetos separam-se dos sujeitos. segundo o autor são menos cultivadas. exatamente por causa de sua ideia de que as classes superiores seriam mais cultas (ou cultivadas) que as classes inferiores. p. O uso incorreto do da língua portuguesa nas redes sociais é um exemplo contemporâneo disso. Ele afirma também que.  A diferença entre cultura objetiva e subjetiva é fruto da divisão do trabalho. faz com que essa atividade se distribua entre as classes superiores – que para Simmel são mais cultivadas – e inferiores – que. à cultura escolar ou a algo parecido. a despeito da violência existente nas relações entre os dois seguimentos. 2).

p. a personalidade estava atrelada à propriedade. p. possibilitada pela economia monetária. 5). os sujeitos podem se desenvolver mais rápido do que as instituições. A modernidade. 1896.  O dinheiro proporciona. Com isso. O dinheiro na cultura moderna (1896).  Por outro lado. p. pois ele desobriga os sujeitos de um “contato mais imediato com as coisas”. 1896. a economia monetária contribuiu para a divisão do trabalho.  A desvinculação entre personalidade e propriedade.  O dinheiro abriu caminho também para a impessoalidade das atividades econômicas. ao mesmo tempo. A ideia do “humano universal” também surgiu em decorrência do dinheiro (SIMMEL.  Na idade média. um sentimento de liberdade – por não estarmos mais presos e submetidos aos objetos – e “uma ausência de conteúdos da vida e um afrouxamento de sua substância” – porque.  O dinheiro permite o maior estabelecimento de laços entre os sujeitos do que nos estágios pré-modernos da história. foi a “anonimidade” e o “desinteresse pela individualidade do outro” das relações propiciadas pelo dinheiro que acarretou o individualismo (SIMMEL. e a elas estava submetida. à comunidade. em decorrência da separação entre cultura objetiva e subjetiva. Georg. 6). provocou também a separação entre personalidade e localidade. por sua vez. sendo que . muitas vezes dependemos dos objetos para a reprodução da nossa vida.4  Simmel aponta também que. 1). A inserção das mulheres no mercado de trabalho e a busca de autonomia dos cônjuges em um casamento são exemplos desse fenômeno. SIMMEL.. possibilitando também a objetivação da vida (SIMMEL. proporcionou “a autonomia da personalidade” dos sujeitos e separou estes dos objetos. às corporações etc. 1896.  O dinheiro é importante para a separação entre o espírito objetivo e o subjetivo.

dos textos de Simmel que li.  O dinheiro nos traz uma disposição de agirmos de uma maneira irresponsável e ambivalente. Por isso. 1896. quanto mais o alcançamos. foi com esse que eu mais me identifiquei. a febre. Referências Bibliográficas FREYRE.  Para Simmel. . não são apenas as condições econômicas que influenciam “a situação psíquica e cultural de uma época”. p. p. a falta de pausas na vida moderna. 2006. ele trata de importantes disposições psicológicas trazidas pelo dinheiro na vida dos sujeitos. então vivemos o perseguindo como a um fim.5 nem todo o objeto é plenamente equivalente ao dinheiro (SIMMEL. e não eticamente orientados. 17). 13). assim como acontece com a felicidade. p. Porém. devido à sua ênfase na quantificação das coisas. mas também “as grandes correntes homogêneas da história” o fazem (SIMMEL. 1896. 1896. enquanto tal ele é inútil. 14). 1896. reunindo em si mesmo todas as heterogeneidades. vida propulsionada pelo motor desenfreado do dinheiro que torna a máquina da vida um perpetuum mobile” (SIMMEL.  Como o dinheiro se torna um meio para a satisfação dos desejos. mais desejamos tê-lo.  Simmel compara o dinheiro a Deus.  A economia monetária contribuiu para a racionalização da modernidade. São Paulo: Global. devido à disposição da nossa alma para com ele. “Disso vem a inquietude. 8). a partir da teoria marxista.  A economia monetária faz com que nos esqueçamos de que o dinheiro é um meio para a obtenção de outras coisas. p. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sobre o regime da economia patriarcal. e à “segurança e tranquilidade” que sua posse nos traz (SIMMEL. sem perceber que.  Tudo o que Simmel diz sobre o dinheiro nesse artigo pode ser relacionado à ideologia e ao fetichismo da mercadoria. ao fato de que ele se equipara a todas as outras coisas. Gilberto.

122-134. São Paulo: Ática. Max. 1983.6 GLUCKMAN. p. Bela Feldman. Evaristo de. 8. In: ______. SIMMEL. A divisão do trabalho como causa da diferenciação da cultura objetiva e subjetiva (1900). Georg. In: BIANCO. MORAES FILHO. São Paulo: Global. . ______. Antropologia das Sociedades Contemporâneas. O dinheiro na cultura moderna (1896). 1987. Análise de uma Situação Social na Zululândia Moderna. 1983. Sociologia. Sociologia. São Paulo: Ática. Georg. In: SIMMEL. Introdução. ______. Cap. A natureza sociológica do conflito.