OLIVEIRA, M. Rita Neto Sales. Histórico da Didática.

In: ________________ O
Conteúdo da Didática: um discurso da neutralidade científica. Belo
Horizonte: UFMG, 1988, pg. 33 - 47.

HlSTÓRICO DA DlDÁTICA
Neste capítulo, serão delimitadas as propostas atuais da Didática que têm
por objetivo dar uma visão de conjunto do processo de ensino, não sendo
vinculadas ao ensino de determinada disciplina, e que aparecem na produção
intelectual brasileira da área.
Para atender à característica de representatividade atual das propostas, a
sua delimitação será feita a partir de uma abordagem histórica da Didática em que
serão focalizadas as principais fases de sua evolução. Independentemente do
critério mencionado, acredita-se, sobretudo, ser esse histórico fundamental e mesmo indispensável para uma melhor compreensão do significado de tais propostas.
Vários autores se ocupam, em maior ou menor grau, com o histórico da
Didática.
Dentre eles encontram-se GARCÍA-HOZ (1960), TITONE (1966) e GARCÏA y
GARCÍA (1969), de cujos relatos, mais divulgados entre nós, serão extraídas as
informações básicas deste capítulo. Nesses relatos, não se registram diferenças
significativas. Concordam, em geral quanto às etapas por que passa o processo de
evoluçäo da Didática, seja em relação aos critérios para sua delimitação, seja
quanto às suas principais características, no que se repetem muitas vezes.
Em função do objetivo desta investigação, ou seja, possibilitar um melhor
entendimento do conteúdo da Didática, que, na produção intelectual será
considerado atual em função da análise evolutiva da área, importa apenas salientar
os momentos mais significativos do processo de desenvolvimento histórico da
mesma. Assim, não se pretende reproduzir, de forma linear e cumulativa, o que
aqueles especialistas registram, e nem mesmo comparar seus relatos, adotando-se,
entretanto, os cortes epistemológicos realizados por eles.
Por outro lado, cada fase será apresentada de forma a permitir, ainda que em
linhas gerais, a sua comparação com as demais, tomando-se por referencial o fator:
definição do campo da Didática. Na descrição de cada uma, serão, pois, focalizados
os fundamentos da Didática, o seu relacionamento com outros campos do
conhecimento e as suas preocupações principais.
Tendo em vista essas pretensões, os escritos dos autores citados, que
descrevem o histórico da Didática, serão enriquecidos com dados extraídos da
literatura pedagógica em geral. Tais relatos serão, então, reinterpretados e
reorganizados, tendo em vista variáveis importantes para o presente estudo.
A descrição do histórico da Didática será, então, complementada por críticas
que serão feitas à orientação e ao conteúdo da área, em sua fase considerada
atual. Em seguida a essas críticas, serão identificadas as propostas atuais da
Didática, que têm representatividade na produção intelectual brasileira, e que
aparecem em obras especializadas, cujo objetivo é construir e não relatar o histórico
sobre a Didática.

COMENIO (1966) preocupa-se. Esta consiste em uma das três moradas naturais do homem. uma obra sobre educação. a sensível e mutável. A Didática.note-se a presença do grupo σκ (sk) dos verbos incoativos indica a característica de realização lenta através do tempo. caracterizada por LUZURIAGA (1963) como "extraconfessional".antecipando ROUSSEAU (1973) e já apresentando características que serão enfatizadas na próxima fase da Didática. A FASE NATURALISTA-ESSENCIALISTA Esta fase vai de Comênio até o princípio do século XIX.Eruditio Didascalia . Não obstante a importância da observação dos fenômenos naturais para a dedução de conclusões didáticas. As obras de Hugo de San Víctor . Tal plano se desenvolve tendo em vista a evolução do homem --. na verdade.no século XII. Tomando Comênio por ponto de partida. mas sim a essência mesrna das coisas.estão associadas aos primeiros tratados sistemáticos sobre o ensino. É ela o ponto de partida para se definirem os princípios didáticos que garantirão o ensino "de tudo a todos". Os fundamentos da educação e do ensino são . A Didáctica Magna é. aqui. processos considerados indispensáveis ä humanização do ser humano. o naturalismo. a Didática assume caráter muito amplo. que esta se populariza na literatura pedagógica. sem grandes alterações.no século XVI. durante toda essa fase naturalista-essencialista. das línguas. própria do processo de instruir. psicológica e experimental. Para COMÉNIO (1966). e de analogias estabelecidas entre a constituição do Paraíso e a do Homem.Aporiam didactici principio . de Juan Luis Vives . que se traduz por arte ou técnica de ensinar. ao lado das vidas terrenas intra e extra-uterina. Lembradas por LUZURIAGA (1963).da infância ä juventude ---. a Didática se organiza nas seguintes fases: naturalista-essencialista. matérias incluídas no plano orgânico de estudos que propõe. entretanto. e de Wolfgang Ratke . escrita no século XVII e considerada marco significativo no processo de sistematização da Didática. Nessa obra o autor caracteriza os fundamentos da educação e do ensino como teológicos e filosóficos deduzidos a partir da doutrina religiosa por ele adotada. dedica capítulos ao ensino das ciências em geral. As linhas gerais descritas se mantêm.De disciplinis . A natureza a que se refere não é. já em sua Didáctica Magna. das artes. apreendida pela experiência. Esse naturalismo traduz a influência da Renascença e de Bacon sobre a época. têm por fim último prepará-lo para a vida eterna. a partir da escola da natureza. com Comênio. como algo natural e íntimo. é mais metafísico que empirista. agradável. fácil.PRELIMINARES O vocábulo didática deriva da expressão grega Τεχνή διδακτική (techné didaktiké). em geral. em Comênio. o vocábulo referido origina-se do termo διδάςκω (didásko) cuja formação lingüística . A religiosidade aparece. Enquanto adjetivo derivado de um verbo. sólida e rápida. É. da Ética e da Religião. estará em condições do promover a aprendizagem de forma segura. a natureza é de fundamental importância para a arte de ensinar. através de sua Didáctica Magna. A educação e o ensino. com o que ensinar e. Nesse seu início. também.

o jogo deve ser a atividade preferencial nos primeiros anos. Segundo EBY (1970) Pestalozzi teria percebido claramente a necessidade de se basear a teoria e a prática da educação na ciência psicológica apesar de sua falta de conhecimento de Psicologia e ainda do grau primitivo desta última enquanto ciência. A educação fundamentada na Psicologia já aparecera em Rousseau e. Quanto a Rousseau. la Política o la Literatura". continuando a tradição da Didática. a principal contribuição do representante dessa fase – Comênio – haver sido em relação ao método. de que o ensino seja gradual e ordenado. Como lembra LUZURIAGA (1963).as leis da natureza e as relações entre a Didática e a Pedagogia não são definidas.. E. "Fluctuando las ideas educativas en uno y otro campo. apesar de. LARROYO (1957) lembra que foi através de Rousseau que Locke influenciou Pestalozzi. A FASE PSICOLÓGICA Essa segunda fase da Didática se caracteriza por buscar seus fundamentos na Psicologia. a tônica de sua proposta é a coerência entre· seu método único e os fins amplos da educação e da vida. não se restringindo às prescrições sobre regras e formas de ensinar. a . vivía al amparo de la Filosofía.” As preocupações principais da Didática nessa fase centralizam-se em problemas referentes aos fins da educação e aos conteúdos culturais a serem dominados pelos homens. como un apéndice· o a modo de ideas prácticas. A metodologia caracteriza-se. em Locke. antes ainda. era lógico que se amparasen a la sombra de la Didáctica. y cuando la sistematizacion de las ideas referentes a la enseñanza provocó la aparición de la Didáctica. Locke insiste na importância de se conhecer o caráter da criança e analisa as características necessárias a um educador. sin incardinación definitiva. Conforme lembra LARROYO (1957). Este último tem seus pensamentos sobre a educação influenciados pelo sistema psicológico que propõe. Neste último. Pestalozzi expressa mesmo seu intento de psicologizar a educação. esta nueva ciencia hubo de recoger en un principio la doctrina de la educacicín que. Para ele. E. segundo LUZURIAGA (1963). Como registra GARCÍA-HOZ (1960). o método de ensino em Locke deve prover uma aprendizagem atraente. deriva do conhecimento da natureza da criança e dos períodos de desenvolvimento do ser humano. "entonces no se había constituido la Pedagogía en cuanto ciencia. cuidando-se. segundo LUZURIAGA (1963). em situações de aprendizagem . por referir-se a toda uma prática pedagógica. e tem como princípio central do método de ensino a não autoridade de uns sobre os outros. as leis da educação e do ensino fundamentam-se na observação psicológica.. a questão da metodologia aparece também discutida. como lembra EBY (1970). a Psicologia aparece como fundamental para a sua proposta educativa. tendo seu início marcado pelos trabalhos de Pestalozzi. mais tarde. assim. que. como registram MONROE (1970) e LOURENÇO FILHO (1967).

a sua compreensão. Entretanto. a Psicologia moderna valoriza a ação. respectivamente. Pelas descrições de MONROE. que é a ação moral. metafísico e contraditório. ao mencionar instrução e ensino dentro de sua doutrina geral da educação. baseado em suas concepções psicológicas sobre apercepção e interesse. Enquanto Herbart enfatiza a representação. solicitação e ação. Entre estes. a que correspondem os passos formais da instrução: clareza. Entretanto. que denuncia o seu caráter obscuro. No método herbartiano. lembrando também que após Rousseau. verbalista. Este é fundamental para o processo de instrução. enfatiza-se a aquisição do conhecimento e.valorização que faz do método "como agente supremo e universal da educação". na Psicologia moderna. a ele evolui por modificação da própria estrutura. pode-se comparar a base lógica do sistema proposto por Herbart com a falta de forma da obra de Pestalozzi. por parte de Pestalozzi. é só em Herbart que aparece novamente a idéia de se basear a educação na Psicologia. na Ética e na Psicologia. no funcional. embora declare ser a alma algo incognoscível. os dois sistemas favorecem o mesmo resultado. não se delimitam os problemas didáticos em relação aos pedagógicos. em sua obra. sobre a importância da apercerpção herbartiana para a Didática. e tenha por propósito cientifizar a Psicologia e utilizar o método empírico. A fase psicológica da Didática consolida-se com Herbart. Herbart constrói um sistema de teoria educativa em que o fato educacional é explicado e fundamentado em um corpo de doutrina. BRUBACHER (1961). Entretanto. e apresenta-se diferentemente segundo os passos: observação. afirma que as obras de ambos têm um princípio comum. Seus estudos. o processo educativo se baseia. o referido autor apresenta vários indicadores. embora não se referindo especificamente à mencionada área como tal. é um dos motivos pelos quais lhe são feitas restrições. finalmente. associação. em Herbart. O sistema herbartiano é alvo de sérias críticas por parte de CLAPAREDE (1940). permitiram a seus discípulos constituírem uma verdadeira Didática herbartiana. CLAPAREDE (194O) reforça essa idéia. e da valorização das idéias. No consenso dos especialistas. se dispõe a caracterizar a alma. respectivamente. deduz a Psicologia da Metafísica e nega a prática da experimentação no campo psicológico. tais fatos não minimizam a grande influência exercida sobre a Didática pela obra de Herbart. Em relação a este último aspecto. o conhecimento de um mundo que se acredita passível de compreensão tal como é na realidade. E. Herbart propõe um plano metódico. em Herbart. Ainda segundo MONROE (1970). A doutrina herbartiana apresenta caráter intelectualista. (1970) e de EBY (1970). Para CLAPAREDE (1940). se em Herbart o pensamento se desenvolve como que por adição de idéias. comparando a Pedagogia e a Psicologia de Herbart com o método funcional e a Psicologia moderna. CLAPAREDE (1940) indaga ainda. destacam-se Tuiskon . A instrução adquire importância central: o sentir e o querer são resultantes da representação de idéias. Para o alcance da finalidade da instrução. agora de forma sistemática. que. Apesar da ênfase no ensino intuitivo. expectativa. ou seja. Para LARROYO (1957). a incoerência é uma constante em toda a obra de Herbart. Herbart dá um passo decisivo para a delimitação da Didática. sistema (generalização) e método (aplicação). considerado o "pai da psicologia moderna" e "o pai da moderna ciência da educação" como lembra EBY (1970). em seus objetivos e meios.

propõe-se aliar os aspectos individual e social na educação. doutrina dos fins da educação. mantendo-se sua proposta fiel à doutrina de Herbart. Complementando as informações de GARCÍAHOZ (1960) com as referencia que LARROYO (1957) faz sobre tais discípulos.Ziller. Didática e da disciplina. e Metodológica. como lembra EBY (1970). Tal exame deve ser feito considerando o significado da instituição em seu contexto. . e ainda a metodologia baseada na Filosofia. Apesar da incorporação do sociológico a didática. apresentação. a História da Educação e as linhas principais de uma teoria do sistema escolar. embora. É na Psicologia que Willmann baseia sua técnica didática. e que. discípulo imediato de Herbart. se ocupa da. sistema e método. Ziller defende a idéia de que o desenvolvimento da criança repete os estágios da cultura. no decorrer do processo histórico. Em Willmann. Para Rein. Publica em alemão. como também a sua natureza. Essas matérias devem ser tratadas de acordo com os passos formais: análise. sobretudo. LUZURIAGA (1963) registra o fato de que esta perdeu sua influência. doutrina dos meios. consideração e aplicação. a Ética e a Psicologia. esse aspecto não suplanta o ponto de vista do indivíduo. que tëm. Rein estuda com Ziller. Afirmando que a permanência dos fatos no processo histórico acarreta a sua validade. para auxiliá-las. a reflexão histórica e social – nova fundamentação para resolver os problemas do ensino . Wilhelm Rein e Otto Willmann. Técnica didáctica: Base psicológica: Ensenanza: Estudio: momento empírico momento racional momento práctico Percibir Exponer Intuición Pensar Explicar Comprensión Hacer Aplicar Ejecución Avaliando a influência da escola herbartiana. conseqüentemente. no desenvolvimento da humanidade. Willmann – pedagogo de orientação religiosa-católica . podem-se extrair os dados que se seguem. A Pedagogia Metodológica. A finalidade da instrução é a formação cristã-religiosa. para descobrir-Ihes os princípios. associação. uma obra com um título cujo significado é bastante expressivo para indicar a sua contribuição: Didática como teoria da formação em suas relações com a investigação social e com a História da Educação.incorpora-se à Didática e a toda a Pedagogia. A Pedagogia Teorética divide-se em: Teleológica. deduz que a Didática deve construir-se sobre o exame das instituições educativas. a doutrina da educação é constituída pela Pedagogia Prática e pela Pedagogia Teorética. assim esquematizada por LARROYO (1957). associação. os critérios de seleção e distribuição das matérias escolares devem ser as etapas históricas. apercepção ou passos formais em textos que tratam de métodos e currículos. síntese. ainda continuem aparecendo princípios ligados a interesse. Sua obra tem um duplo aspecto: didático e histórico-social. pelas críticas que representantes da Pedagogia ativa lhe fizeram. Em relação aos passos formais propõe os seguintes: preparação. entre o ético e o psicológico.

Tal característica teria sido introduzida. que. duas posições. embora se utilize de conquistas de outras áreas. importa considerar a investigação na área. recursos y procedimientos específicos que deben informar el conocimiento y actuación del maestro. tem objeto próprio. A análise bibliográfica mostra que as discussões sobre a "cientificidade" e a autonomia da Didática. juntamente . estando inserida no tronco comum das ciências da educação. independiente de la especulación filosófica en la que venían enmarcadas las reflexiones sobre la educación". como `conjunto sistemático de principios. Alguns definem a Didática como dependente da Psicologia. Considera-se que a fase experimental da Didática se iniciou com o trabalho de Sikorsky sobre a fadiga que o trabalho intelectual produz nos escolares. e outros reivindicam-lhe a autonomia. Os métodos e procedimentos de ensino tornamse. "en su contenido. desenvolveram-se vários estudos de caráter didático e. normas. por seu "metodologismo" conforme lembra TITONE (1966). em sua fase contemporânea. GARCIA y GARCIA (1969) caracterizam a Didática atual como a área do conhecimento que. para orientar a los escolares en la adquisición de conocimientos y formación de hábitos. Costuma-se enfatizar a atitude científica do estudioso diante da situação de ensino como indispensável à passagem do empirismo à experimentação. A Didática experimental se preocupa em apresentar generalizações referentes ao ensino. paralelamente ao ingresso da investigação experimental na Pedagogia e ao desenvolvimento da doutrina de Herbart. que servirão de subsídio à sua efetivação. GARCIA-HOZ (1960) apresenta a Didática como a primeira das ciências da educação "que se constituye con un cuerpo de doctrina autónomo. A respeito do método de investigação. Por outro lado. en orden a un objetivo educativo"'. A FASE EXPERIMENTAL Na definição desta nova etapa da Didática. Após o seu aparecimento. nesse campo. a autonomia da Didática é reforçada por diferentes autores. caracterizadores desse ramo do conhecimento que se distingue. como um ramo do conhecimento. registramse pelo menos. LIMA (1970) afirma que a Didática é apenas "a aplicação dos conhecimentos de psicologia da aprendizagem na tarefa de educar". os assuntos metodológicos vão ganhando força. Lay publica a sua Experimenttelle Didaktik. Enguanto tal. em 1903. GARCÍA y GARCÍA (1969) define a Didática. pouco a pouco. a fase contemporânea da Didática se define pelo uso de experimentações. publicado em 1879.Resumindo as características da fase psicológica da Didática percebe-se que seu conteúdo se baseia sobretudo na Psicologia começando a se delimitar em relação à Pedagogia. acompanham os relatos de estudos realizados em seu domínio. como também o seu conteúdo propriamente dito. Quanto às preocupações principais da área. definindose como a ciência do ensino. Considerando-se o relacionamento da Didática com a Psicologia.

PLANCHARD (1961) lembra ainda que os trabalhos realizados em laboratórios. em oposição aos verbais e intuitivos.com tais estudos. e o Laboratório de Didática Experimental. em seus aspectos político e ideológico. para serem discutidos. em áreas próximas à Didática. em que: o aluno redescobre e reconstrói o conhecimento.devem ser substituídos pelos ativos. sobre a aquisição de conhecimentos e a adaptação do ensino às diferenças individuais. assunto ainda não pesquisado. Lembra PENTEADO (1979) que o caráter científico em estudos sobre questões didáticas data de poucas décadas. são classificados por Buyse em dois grandes grupos: os que empregam o procedimento comparativo e os que se utilizam. também. Neste último grupo. Estudos relativos a esse tema impulsionariam o desenvolvimento de modelos teóricos sobre o ensino e o aperfeiçoamento da prática pedagógica em sala de aula. Problemas como o da expectativa. Em relação ao conteúdo da Didática. Nessa fase da Didática. ao lado de pesquisas. A evolução dos métodos de ensino é lembrada também por PIAGET (1976) para quem os métodos receptivos e baseados no verbalismo . em sua fase considerada experimental. Para PIAGET (1974). em Genebra.dos verbais aos ativos . publicam estudos referentes à Didática. nos Estados Unidos. instituições como o Instituto São José de Calasanz. Belot e Vaney. TITONE (1966) apresenta o relato da evolução dos métodos de ensino . o significado da expressão Pedagogia experimental. enquadram-se. Binet. entretanto. embora as preocupações a respeito se registrem desde o século passado. o trabalho de Freeman. Entretanto. e o de Judd e Gray. Simon esclarece. tendo em vista a "técnica didática". a consideração dos aspectos técnicos como característicos da Didática. em 1935. como. na Espanha. e os do segundo grupo envolvem descriçöes de processos que intervêm na situação de aprendizagem escolar. no Brasil. da Universidade de Louvain.da palavra ou da imagem . na Europa. ainda. Os primeiros referem-se a comparações em que se enfatiza o tratamento estatístico. sobre o ato de escrever.como uma das formas de se descrever o histórico da Didática. impulsiona a Didática e representa a base sobre a qual ela passa a se estruturar. Por outro lado. Uma questão que ele considera significativa refere-se à função docente. que compila uma série de trabalhos referentes à comparação entre métodos didáticos e entre procedimentos de ensino. na Pédagogie expérimentale. do método analítico. empreendem significativas investigações dentro do mencionado campo de estudos. PLANCHARD (1961) lembra que são dispersos e não muito numerosos. de forma sistemática. o Instituto das Ciências da Educação. do Instituto de Ciências Pedagógicas da Universidade de Bruxelas. publica-se a obra de Buyse L'expérimentation en Pédagogie. a melhoria de critérios para a seleção de professores e para o acompanhamento de seu trabalho. são representativos os trabalhos de Meumann. predominantemente. relativo à leitura. e. de momentos anteriores. Boletins e Revistas como a Revue des Sciences Pédagogiques. lamenta o pouco que se conhece sobre o comportamento dos professores e suas influências sobre os alunos. os trabalhos na área. tal fato consiste em condição . A natureza dos trabalhos mencionados reforça. observa-se que os métodos ativos. O autor aponta temas sobre os quais há trabalhos de maior densidade: os métodos de ensino. acerca do papel do professor deveriam ser propostos aos investigadores. passam a constituir questão central. Em 1924. por parte de pais e alunos.

Lembra PENTEADO (1979) que os métodos. em sua fase experimental. a situação se caracteriza pela "pedagogia de la variedad". em detrimento da necessária análise de suas funções no contexto educacional mais amplo. na literatura pedagógica. por sua vez. quando as reflexões didáticas ultrapassam os limites do "como aplicar". como lembra PARRA (1977). A inadequação e a dificuldade do controle científico em tais pesquisas e a complexidade do fenômeno ensino são Iembradas também por SMITH (1969). quando se discutem as vinculações dos meios aos fins. Enfatiza-se o aspecto descritivo dos métodos. Com essa crítica. o princípio de atividade. Para ele. justifica o uso do termo "funcional". Entretanto. . são características centrais da fase experimental da Didática: a utilização do método experimental. é alvo de críticas que incidem sobre os dois aspectos tomados como ponto de partida para a sua caracterização: o seu conteúdo e a metodologia de investigação na área. e a substituição dos métodos verbais e intuitivos pelos ativos. a partir de classificações que salientam seus aspectos formais. a proliferação metodológica é tão grande "hasta el punto de que podría afirmarse que en la actualidad existen más técnicas y métodos escolares que los ha habido en toda la historia de la pedagogía". uma grande parte se refere a comparações entre os métodos de ensino. É que suas conclusões ou são muito óbvias. a discussão em torno das relações entre a Didática e a Psicologia. Na realidade. denunciando a falta de uma Psicologia bem definida nesse movimento. conforme registra TITONE. em geral. tendo em vista a dificuldade de se tratar com o devido rigor científico um objeto como o ensino. em seu aspecto taxionômico. as discussões se fazem em um âmbito restrito às relações entre ensino e aprendizagem na sala de aula. Quanto às pesquisas realizadas na área. e de se estabelecerem generalizações sobre o mesmo. um dos fatores que dificultam o mencionado controle é o fato de os trabalhos sobre o ensino não o estudarem fora de contextos doutrinários. não vão muito além da questão "que método é mais adequado para a aprendizagem de um conteúdo específico ou de determinada habilidade?" Assim. a maioria desses estudos não contribui efetivamente para a melhoria do processo de ensino.fundamental para uma reforma do ensino que multiplique o número de "vocações" de que a sociedade atualmente necessita. são apresentados. Segundo LUZURIAGA (1958). a reivindicação do caráter de ciência para a Didática. em detrimento de outros aspectos da situação pedagógica. evidenciado em um conteúdo que enfatiza a apresentação de métodos. em sua concepção de educação. Algumas dessas críticas se referem ao afunilamento da problemática didática. A prática eficaz de tais métodos demanda o estudo de Psicologia por parte dos pedagogos. Pelo exposto. Para STOCKER (1964). para indicar os fundamentos psicológicos que propõe para o ensino. analisando como e onde ele realmente se dá. CLAPARÈDE (1940) já havia discutido essa necessidade em suas referências às imprecisões do conceito de atividade da Escola Nova. que denuncia o fato de que as conclusões de investigações sobre tal fenômeno não são concludentes. necessária para esclarecer o significado de seu fundamento. CRÍTICAS À DIDÁTICA EXPERIMENTAL E NOVAS PROPOSTAS A Didática. ou de reduzido significado. o conteúdo "técnico" prevalecendo sobre o "crítico".

E em 1964. Propostas alternativas de didáticas não psicológicas constituem-se no tratamento do ensino a partir de modelos sistêmicos. e que vêm surgindo nas últimas décadas delineiam como que diferentes didáticas. que respondem de certa forma e em alguns casos. como informa PFROMM NETTO (1971). em princípio. a aplicação direta. aplicáveis. mas de sua integração com a Tecnologia.As propostas de tratamento do processo de ensino como um todo. no ensino. como a proposta de ROGERS (1973) sobre o ensino centrado no aluno. de princípios de Psicologia tem sido alvo de críticas desde o século passado. como por exemplo. produziu senão uma arte. da expressão Tecnologia do Ensino. as que se baseiam em teorias de desenvolvimento. Vários estudiosos. mas ainda é uma solução psicológica. regras operacionais referentes ao planejamento das tarefas de aprendizagem. com efeito. discutiram-se os limites do uso de teorias da aprendizagem no processo de ensino dadas as dificuldades de controle de tal processo. em um Congresso nos Estados Unidos sobre avaliação de técnicas de ensino aplicadas à educação médica. "um ramo especial da psicologia. TUCKMAN & EDWARDS (1971). Paralelas ao questionamento sobre um conteúdo didático centralizado em métodos encontram-se as propostas que giram em torno de: descrições do processo de ensino. à maioria das críticas apontadas. ao ensino de qualquer disciplina. Tal integração pode ser . A solução sugerida por Skinner responde a um dos aspectos presentes na crítica Ievantada. ele passou a ser utilizado também na área da instrução. para designar a área intermediária entre a ciência de aprender e a arte de ensinar. Para SKINNER (1972). a de BRUNER (1973). da qual se pode. e KEMP (1977). também.em oposição à Psicologia da Aprendizagem. que surgem quase que com cada estudioso da área. perante a Royal Society de Londres. defendem esse enfoque. e sim. E. pelo menos uma tecnologia do ensino. a partir da Psicologia. Skinner se utiliza. Entretanto. as que se fundamentam em teorias de personalidade. encontram-se as propostas elaboradas a partir de diferentes corpos teóricos da Psicologia: as que partem de estudos ainda sobre a aprendizagem. Como se mencionou anteriormente. que têm. cujo desenvolvimento mais significativo não se faz a partir dos novos modelos. as descrições do processo de aprendizagem apresentadas por psicólogos. a assim chamada análise experimental do comportamento. a ocorrência continuada de problemas de ensino não solucionados satisfatoriamente pelas diretivas didáticas existentes ocasiona o aparecimento de críticas também às derivações feìtas pela Didática. como a de AEBLI (1974). como importante fundamento. A Psicotecnologia do Ensino não apresenta princípios. `deduzir programas e esquemas e métodos de instrução' ". como BANATHY (1968).nova abordagem para controlar tipos complexos de aprendizagem em situações planejadas --. solidificando e ampliando também as suas bases psicológicas. e. Em 1963. Na ocasião MOSEL (1964) se referiu à Psicotecnologia do Ensino --. Tendo-se constatado o sucesso do enfoque sistêmico em diferentes áreas.

e os trabalhos desenvolvidos por BORI referem-se à aplicação da linha skinneriana no ensino. ARAÚJO E OLIVEIRA (1973) desenvolve. Pregando a autonomia deste em relação à aprendizagem. 1974. o enfoque sistêmico. Paralelas a todas essas propostas. para discutir as diferentes fases do processo de instrução que Ihes servirão de suporte. uma tecnologia educacional. PROPOSTAS DA DIDÃTICA PRESENTES NA PRODUÇÃO INTELECTUAL BRASILEIRA No Brasil. surgem as tecnologias educacionais e de ensino. Já o enfoque sistêmico da instrução se encontra representado na proposta de ARAÚJO E OLIVEIRA & OLIVEIRA (1974). Suas etapas sobrepöem-se às etapas do processo de aprendizagem. THOMPSON (1973) lembra a importância da teoria e denuncia a sua inexistência em relação ao ensino. citado por IBARRA-PEREZ (1965). MATTOS (1973) descreve o processo de ensino dando ênfase ao que denomina ciclo docente. Em síntese. A posição de que a Didática deve libertar-se da Psicologia é vista como promissora por estudiosos do campo da Comunicação. A importância de a Didática se construir a partir de estudos sobre o ensino como objeto de estudo particularmente considerado --.é enfatizada po SMITH (1969). As discussões de CASTRO (1974) e de GASMAN (1971) sobre a Didática fundamentada em Piaget e a Didática não diretiva a partir de Rogers. também. pretendendo preencher o espaço entre as prescrições teóricas e as práticas pedagógicas em sala de aula. tal como descrito por Woodruff. discute a relação entre comunicação e ensino. Como já se afirmou o autor lembra a fragilidade das conclusões de pesquisas que pretendem solucionar problemas sobre o ensino. 1973) propõe o estudo de modelos e processos de aprendizagem e ainda das categorias de seus resultados. sincronicamente. expressam as didáticas a partir de teorias do desenvolvimento e da personalidade. As propostas não psicológicas discutem o ensino a partir de outro referencial que não a Psicologia. respectivamente. centralizam-se em construções sobre. em um de seus elementos. na segunda parte deste estudo. As primeiras centralizam-se em descrições do processo de ensino análogas a descrições do processo de aprendizagem ou em aplicações de teorias psicológicas a situações de ensino. podem-se agrupar em duas grandes classes: as psicológicas e as não psicológicas.percebida na proposta de Gagné. as propostas atuais da Didática. GAGNÉ (1976. que discutem o ensino em geral e têm representatividade na produção intelectual brasileira da área. por ele considerado como essencial: as teorias da instrução. ou seja. que discute o ensino ainda a partir da aprendizagem. Elas não esgotam todo o universo da Didática. e propõe a aplicação do que se conhece sobre comunicação a situações de ensino. que. de forma sistêmica. As propostas identificadas serão apresentadas. encontram-se representantes de várias das linhas identificadas no tópico anterior. que sugere um "modelo de um sistema de instrução”. o ensino derivadas de diferentes fundamentos. Após analisá-las enquanto um . mas expressamno dentro dos limites estabelecidos por este trabalho. denunciando a dissonância entre as teorias pedagógicas tradicionais e a prática de ensino.

elas serão retomadas na discussão do conteúdo da Didática descrito por professores da área. .objeto específico de estudo.