UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de Antropologia e Museologia
Programa de Pós-Graduação em Antropologia – PPGA
Núcleo de Estudos de Religião Popular – NERP

Título do Sub-Projeto Pibic
René Ribeiro: posição atual e impacto da sua obra no campo da antropologia da religião

Aluno: Mariana Silva Auto

Orientador: Profa. Dra. Mísia Lins Reesink – PPGA/UFPE
Projeto do Orientador: A Geopolítica Acadêmica da Antropologia da Religião no Brasil, ou
como a “Província” vem sendo submetida ao Leito de Procusto.
Agência Financiadora CAPES: PNPD Institucional – 2011.

2014

tendo em vista que é exatamente neste momento que pesquisadores do Núcleo de Estudos das Religiões Populares (PPGA-UFPE) estão desenvolvendo pesquisas e reflexões sobre os processos que institucionalizaram as relações de poder e de dominação no campo acadêmico da Antropologia Brasileira. O centenário de René Ribeiro parece ser o testemunho de uma ironia feliz. faz-se necessária a solicitação de renovação da bolsa PIBIC. este Sub-Projeto de PIBIC se apresenta como um modo privilegiado de produzir um outro conhecimento sobre a produção acadêmica antropológica. Abaixo será especificado os objetivos parcialmente atingidos. apenas possibilitou o cumprimento de parte dos objetivos específicos. Estando mais diretamente relacionado a dois dos seus objetivos específicos: 1) Analisar as recensões bibliográficas sobre o campo religioso brasileiro – 1970-2010. em geral. parece ser este um momento oportuno para debruçar-se sobre este personagem. Introdução (Problematização e Justificativa) Em 2014 será o centenário do antropólogo René Ribeiro.OBS: Trata-se de submissão de mesmo projeto anterior que já conta com bolsa PIBIC (2013-2014). ao subprojeto inserido no projeto maior “René Ribeiro e o Campo da Antropologia no Brasil” (coordenação: Profa. O Projeto Maior tem por objetivo geral: Desvelar. Este Sub-Projeto de Pesquisa 2 PIBIC “René Ribeiro: posição atual e impacto da sua obra no campo da antropologia da religião” está relacionado. Tendo em vista: a) a complexidade e volume do campo de pesquisa. ou como a 'Província' vem sendo submetida ao Leito de Procusto” e. a estrutura de prestígio que tem retido a produção norte-nordestina às margens da antropologia. que pode ser tomado aqui como modelo emblemático dos processos de invisibilização pelo qual passa a produção antropológica norte-nordestina. um dos fundadores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPE. através da obra de e sobre René . e pesquisador dedicado ao campo da Antropologia da Religião. b) a antecipação do calendário de solicitação de bolsas PIBIC. portanto. Nesse sentido. na área da Antropologia da Religião. com os objetivos do projeto de pesquisa maior “A Geopolítica Acadêmica da Antropologia da Religião no Brasil. Mísia Lins Reesink). e da antropologia da religião em particular. Sendo René Ribeiro o primeiro antropólogo brasileiro a possuir o grau de mestre em Antropologia. através da análise das narrativas construídas sobre a história das ciências sociais no Brasil. 2) Identificar as estratégias discursivas e de poder que invisibilizam a produção nortenordestina. particularmente. além de ser ele o exemplo típico do modelo de pesquisa que se institucionalizava em Pernambuco – através da sua atuação na Fundaj e na UFPE. e mesmo com o intenso volume de trabalho. mais especificamente.

atingindo seu ápice na primeira década deste século. Fundamentação Teórica: A partir de leituras dos balanços produzidos pela Anpocs (1995 e 2010). Parece-nos que esse processo de invisibilidade acadêmica da produção norte-nordestina se faz em três direções: das regiões que deixam de fazer parte do Brasil. o mais problemático em todo esse processo. muitos recenseadores e historiadores das ciências sociais torna nacional aquilo que é regional. que em sua maioria recobre esse mesmo espaço etnográfico. Assim. a invisibilidade do campo etnográfico. 2004: 11). “A fundação do Império é ainda hoje uma história contada exclusivamente do ponto de vista do Rio de Janeiro. que tem como conseqüência a nossa invisibilização. no que se refere aos dados etnográficos. particularmente o nordestino1. Esse esforço narrativo conjunto pode ser interpretado como a face visível e estratégica disso que identificamos como um projeto de hegemonia geopolítico acadêmico. mas que não seria demasiado propor que se trata mais de uma metonímia. ao excluir o que se produz nessas regiões. é esse último ponto. conseqüentemente. Entretanto. se pode afirmar que a história das Ciências Sociais. . pois a prática dos pesquisadores das instituições do Sul e do Sudeste é a mesma: em sua maioria realizam as pesquisas nas fronteiras dessas regiões. Nesse sentido. visando contribuir para a reflexão desses processos que produziram a invibilização dessa obra – no âmbito nacional e local. em particular da Antropologia da Religião. e que pode ser antropologicamente refletido a luz das análises 1 A região Norte é salva desse corte. e do campo etnográfico. pelo fato de fazer parte de área de pesquisa do autor e de. através de livros. como dito. da Antropologia e da Antropologia da Religião no Brasil vem sendo contada do ponto de vista do eixo centro-sul. No entanto.Ribeiro. compor os seus interesses temáticos. são as narrativas desses antropólogos que são estabelecidas como legítimas. Essas palavras do historiador Evaldo Cabral de Mello são tomadas aqui de forma metafórica. das suas instituições e dos pesquisadores que estão a elas vinculados. coletâneas e artigos publicados em revistas de alcance nacional. Na nossa perspectiva. para se pensar a geopolítica acadêmica no campo da antropologia da Religião. pelos publicistas que participaram do debate político da Independência. através de injunções realizadas pela ABA e ANPOCS. observa-se que a sua mais notável característica é a exclusão explícita de toda a produção de estudos sobre religião cuja localização institucional esteja na “província” (regiões Norte e Nordeste). à época. a região Norte fica aí restringida ao seu aspecto “paraíso dos etnólogos” não locais. no campo da Antropologia Brasileira. tendo em vista o caso aqui em foco parecer fazer parte de um quadro geopolítico maior. com maior sistematicidade a partir da década de oitenta do século 20. e depois pelos historiadores” (Cabral de Mello. como já se referiu Maués (1999).

e que tem como objetivo e efeito subjacente elaborar uma mensagem “consistente”. assumimos. em que várias versões diferentes são contadas. na mesma ou em outras variações. O Que Ler na Ciência Social Brasileira (1970-1995) – Antropologia (Sergio Miceli [org] 1991). o que se tem então é um corpus inscriptum que vai se constituindo em um sistema mitológico que narra a instauração da “real” ciência social brasileira. mesmo quando os pormenores variam. o crente pode sentir que. Uma Antropologia no Plural (Peirano. que todo mito faz parte de um complexo e que qualquer padrão que pareça em um deles irá reaparecer.de E. o resultado disto é a inivilização da produção acadêmica norte-nordestina. Até mesmo o mais confiante dos devotos pode sentir-se meio incerto quanto ao que está sendo dito exatamente. inversões e variações pode vir a formar uma ‘mensagem’ consistente” (Leach. (Martins e Duarte [orgs] 2010). pois: “[A] redundância do mito serve para reassegurar a sua veracidade. e Horizontes das Ciências Sociais Brasileiras (2010). e. O Campo da Antropologia no Brasil (Trajano Filho e Ribeiro [orgs] 2004). Qualquer mito particular tomado isoladamente é como uma mensagem codificada confusa com interferência de ruídos. já que “[é] um traço comum a todos os sistemas mitológicos que todas as estórias importantes se repitam em várias versões diferentes” (1983: 58). e. Entretanto. portanto. como observou Leach. Como vem demonstrando Campos e Reesink (2010) e Reesink e Campos (2011). História das Ciências Sociais no Brasil (Miceli [org] 1989). como a “multiplicidade de repetições. As Assim Chamadas Ciências Sociais Brasileiras (P. desde o início. um dos pontos mais pertinentes na reflexão de Leach é quando ele avança. no contexto do complexo mitológico. Haveria aqui uma lógica prática e simbólica nessa redundância. 1983: 69). percebe-se claramente como a mensagem é tornada “consistente”. Além disso. Birman e H. vista como “verdadeira”. como sua eficácia simbólica (com efeitos práticos) parece ser poderosa. 1983: 69). Entretanto. Bomeny [orgs] 1991). Aplicadas essas reflexões ao complexo mitológico que narra a história da nossa ciência. portanto: “Ao invés de tomar cada mito como algo em si mesmo com um significado singular para si. Entretanto. São essas obras que são consideradas aqui grandes narradores do mito das ciências sociais brasileiras. 1983: 58). para nós. 1991). . A estrutura que é comum a todas as variações torna-se evidente quando as versões diferentes são superpostas umas às outras” (Leach. em outras partes do complexo. por força da redundância. em particular da Antropologia. Leach estava preocupado em demonstrar que essas diferentes versões são articuladas. essa variedade não é improdutiva. Leach (1983) sobre o mito. o mais importante. Essas diferentes versões são narradas em especial nas seguintes obras: Sobre O Pensamento Antropológico (Roberto Cardoso de Oliveira 1988 [1985]). cada versão alternativa de um mito confirma a sua compreensão e reforça o significado essencial de todas as versões” (Leach. Assim.

Objetvos: Geral: Conhecer o impacto da obra de René Ribeiro no campo da antropologia da religião. Levantamento da bibliografia que cita René Ribeiro. observando qual a maneira que a obra de René Ribeiro é aí discutida. na realização de uma meta-antropologia (Rabinow. (Parcialmente atingido) a) Fazer um levantamento bibliográfico das recenções sobre o campo da antropologia da religião. (Parcialemente realizado) 3. (Parcialmente atingido) Metodologia Para atingir esses objetivos. unindo isto a idéia de que eles devem também ser encarados como textos (Geertz. Viabilidade de Execução na UFPE: – Este projeto é de execução viável na UFPE. Resultados Esperados: 1. assim como os processos que levaram ao seu posicionamento atual neste campo. 1983). passíveis assim de um profundo trabalho de interpretação antropológica. Os textos científicos serão então compreendidos como discursos. 1983 e 1984). conjugada as noções de “habitus” e “campo” de Bourdieu (1982. os documentos e as informações obtidas serão analisados a partir da idéia de “deformação ideológica” elaborada por Cabral de Mello (2004). A estudante PIBIC contará com: computador disponível. Leitura analítica da obra de René Ribeiro. (Parcialemente realizado) 2. observando como a sua abra é abordada nessas literatura. serão adotados os seguintes passos metodológicos: 1. Compreender a maniera pela qual essa obra é avaliada e pensada no campo antropológico. material de escritório. reuniões teóricas do NERP. Elaborar uma primeira reflexão sobre a posição desse antropólogo no Campo da Antropologia da Religião Brasileira. 1999). Da investigação desses dois pontos. sala do NERP para estudo individual e em grupo. pessoais e institucionais. (Parcialmente atingido) 3. (Parcialmente atingido) 2. – . b) Realizar um levantamento das produções que tem René Ribeiro como fonte bibliográfica. particularmente das suas reflexões sobre as trocas lingüísticas (Bourdieu 2001). Específicos: a) Fazer descrição análitica do conteúdo da obra de René Ribeiro. Mapear o impacto da obra de René Ribeiro. Acesso a bibliotecas e arquivos. 1978) e mitos (Leach.

C. B. D. Raimundo H. Testemunhos: Emílio Willems e Donald Pierson. Luis F. M. E. (1992). CORRÊA. B. (1999).Cronograma de Atividades do aluno abrangendo o período de agosto de 2014 a julho de 2015 Atividades Levantamento Bibliograf. A interpretação das Culturas. Contra Capa/ABA. PEIRANO. MARTINS. (2002). . e RIBEIRO. R. método generalizante e idiografia no contexto brasileiro”. W. Rio de Janeiro: Zahar. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Uma Antropologia no Plural: três experiências contemporâneas. (1991). _____________. Horizontes das Ciências Sociais – Antropologia. “Um Esboço da Teoria da Prática”. São Paulo: Editora Sumaré/ANPOCS. Carlos B. (1989). 4.6. H. 1.. Leitura Bibliográfica Trabalho nos arquivos Sistematização e Análise dos Dados Redação Relatório Parcial Redação Relatório Final 2013 2014 ago set out nov dez jan fev * * * * * * * * * * * * Mês/Ano * * * ma r * * abr mai jun jul * * * * * * * * * Bibliografia (citada no corpo do projeto). 2 e 3. (2001). nº 16: 27-42. São Paulo: Editora Sumaré/ANPOCS. Paris: Minuit _____________. Sobre o pensamento antropológico. Mariza. CABRAL DE MELLO. 2011. G. vol. (1983). (1984). Paris : Fayard.. (1982). O que ler na ciência social brasileira (1970-2002). e REESINK. in Ortiz. 1. (2011).) Pierre Bourdieu . ___________. (2004). TRAJANO FILHO. vol. Rio de Janeiro: UERJ/Relume Dumará. Fábio Wanderley. SP: Ática. Revista Brasileira de Ciências Sociais. Langage et Pouvoir Symbolique. São Paulo: Vértice/Editora Revista dos Tribunais/ IDESP. e REESINK. MAUÉS. “O Gênesis Enquanto Mito”. identidades. DUARTE. REIS. (1999). Rio de Janeiro: Relume-Dumará REESINK e CAMPOS. histórias. BIRMAN. São Paulo: ANPOCS/Editora Bacarolla. ou como a “Província” vem sendo submetida ao Leito de Procusto. RABINOW. P. (2004) A outra Independência: o Federalismo Pernambucano de 1817 a 1824. C. (1991) As Assim chamadas ciências sociais. vols. O campo da antropologia no Brasil. Col. (1988). e BOMENY. Pierre. Antropologia da Razão. Homo academicus. “Mudando de eixo e invertendo o mapa: para uma antropologia da religião plural”. A Geopolítica Acadêmica da Antropologia da Religião no Brasil. (org.C. Rio de Janeiro: Religião e Sociedade (no prelo) CARDOSO DE OLIVEIRA. Uma outra “invenção” da Amazônia: religiões. (2010). São Paulo: Ed. Ce que parler veut dire : l'économie des échanges linguistiques. Boa Vista. XIII ABANNE. R. R.).Grandes Cientistas Sociais. BOURDIEU. 34. São Paulo: Ed. M. Paul. O que ler na ciência social brasileira (1970-1995). MICELI. (1999). (2004) A outra Independência: o Federalismo Pernambucano de 1817 a 1824. “Mudando de eixo e invertendo o mapa: para uma antropologia da religião plural”. CABRAL DE MELLO. História da Antropologia no Brasil (1930-1960). (2010). 34. Evaldo. História das Ciências Sociais no Brasil. v. “O tabelião e a lupa: teoria. Roberto. Grandes Cientistas Sociais. ___________. (2010). Belém: CEJUP.L. Mariza. in Edmund Leach. Rio de Janeiro: Religião e Sociedade. _____________. CAMPOS.L. Paris : Fayard/Seuil. (eds. Evaldo. LEACH. Campinas: Editora da Unicamp/ Editora Vértice. CAMPOS. (1978). (1983). Sergio. São Paulo: Editora Ática. (1987). GEERTZ. Brasília: Editora UnB. R.