As decisões mais difíceis que alguém pode tomar estão muito além da compreensão de

muitos. Há os dois lados de uma moeda e dois lados totalmente opostos de uma mesma
história. Se essa história é trágica para a maioria, ela é feliz para quem a capta, de um
amor que ultrapassa quaisquer barreiras e passa por todos sem aviso; machuca e alivia;
uma contradição ambulante, mas com toda certeza, a contradição mais linda já vista.
Observada não por olhos normais, mas por olhos especiais, daqueles que de alguma
forma sentiram o mesmo.
A história começa com um amor revestido de orgulho com generosos toques de
desentendimentos, depois lentamente vai suavizando. Entretanto será que o amor
fortalece tudo? Será que é possível amar duas pessoas igualmente? Será que é possível
deixar de amar alguém? Será que é possível perdoar por amor?
Muitas vezes não contestamos o amor, apenas o sentimos. Nesses poucos minutos, ou
horas; quiçá segundos, que paramos de pensar e questionar; onde apenas sentimos de
forma mais profunda e intensa um sentimento tão forte e ao mesmo tempo tão clichê.
Esses são os melhores momentos. Quantas pessoas tem a chance de serem agraciadas
com o amor? De pelo menos alguma vez na vida sentir às famosas borboletas no
estômago? Batimentos acelerados, coração descompassado e pensamentos
desorganizados. Quantos podem afirmar que estiveram na presença do “amor
verdadeiro”? Poucos eu receio, e dessa pequena porcentagem que afirma com todas as
fibras desgastadas de seu inútil corpo que já, definitivamente, sentiram o amor, eu estou
entre eles.
Você pode me chamar de Amor; pode me imaginar com a aparência que desejar, mas
não pode mudar o meu sentimento ou interferir na minha história. Mesmo se o fizesse,
lamento informar que já fui sucumbido ao temido amor e por mais que o caminho que
eu trilhei de uma forma ou de outra me machucou e deixou cicatrizes incuráveis,
roubando até pequenas partes da minha própria mente, cravejando meu coração,
fazendo a confusão mais sinuosa da qual já presenciei, me matando aos poucos e ao
mesmo tempo me deixando tão vivo. Tudo na minha contradição ambulante, na qual eu
não sei se realmente venci ou se ainda estou somente no meio do caminho. Apesar disso
tudo, eu não me arrependo de nenhuma decisão tomada, por mais que ninguém entenda,
eu não me arrependo de amar.
Pensar que sobrepujar ao amor é só mais uma forma atual de dizer que minhas emoções
ingênuas e dissimuladas são na verdade inventadas, só me faz querer que a humanidade
reconhecesse que os tempos estão difíceis. De como amar se tornou banal e impróprio,
se tornou dependente de um só lado. De como sentir virou uma mentira bem contada na
frente do espelho. De como se importar com isso não tivesse importância, como se a
esperança fosse apenas por um segundo um sorriso disfarçado. Sentimentos julgados
facilmente por uma simples ilustração pejorativa, tendo como a dúvida sua expectativa
decadente. O descaso com as emoções, a falta de atenção e a subjugada sensação de
“se” estamos genuinamente sentindo, tudo isso se perde no cotidiano atual. O
contentamento das pessoas em sentir algo abstrato, sem lhe dar o devido valor.

guardadas em segredo como se não estivessem ali. por mais chocolates quentes que eu tomasse ou fogueiras que acendesse. Isso se ainda sentiam alguma coisa. não me importo. todos ficam por ali ou acolá. Imagine o local mais impróprio para um romance e me terá lá. andando de cabeça erguida via suas faces enrubescidas e cabisbaixas. não por obrigação. casas. carros e diversas outras coisas ficavam soterradas e escondidas. sorri. Gostava de passear pelos parques e lembrar-se das crianças brincando. mas mesmo assim tem a capacidade de o sentir intensamente. que não sabem o que encontraram até dar de cara com aquilo. Totalmente exasperado por ver tantas pessoas evasivas e hostis. Menos. chorei e por fim encontrei. ou de algum outro nome que faça você se sentir confortável. única e ainda me arrisco a dizer. também me deixei levar. Já havia deixado de acreditar no calor. dos mais velhos caminhando e dos mais jovens se encontrando. tirar ou adicionar em mim. fortes e cheios de paixão numa enxurrada de pretensões escondidas nos cantos onde ninguém perdia seu tempo observando. Como já mencionei você pode me chamar de Amor. Sentia-me frio por dentro. depois de tanto procurar em lugares vazios. Não importava se estivessem tristes. Os sentimentos não eram mais como antes. Ao longo do tempo as pessoas ficaram eximias quando o assunto era encobrir o que realmente sentiam. seja para sossegar ou papear. outono ou primavera. ou inábeis. com ruas cercadas por um branco puro que caia delicadamente nas estradas de dia e voraz jorrava entre as noites. Eu andava tenso pelas ruas. felizes ou apaixonados. infelizmente. haviam deixado sua pureza. Falaremos dela mais tarde. Sorrateiro o vento sussurrava palavras inextensíveis. nada mais fazia sentido. O frio me domava lentamente e apagava vestígios de esperança e lucidez. onde os céus se abriam vez ou outra para aconchegar as nuvens que se acumulavam sem espaço para nenhuma outra. ela. Cercas. Por isso contarei minha simples e trivial história. cenho franzido e postura rígida. pois mesmo que soe pretensioso era assim que ela se dirigia a mim. inverno. mas por encanto. Eu estava especialmente desanimado. para aumentar a taxa de natalidade ou somente para dizer que a chama ainda não se apagou. eu não saberia determinar. o amor se alternando de acordo . Por mais casacos que eu usasse. vivi. primeiro vamos aos fatos. Por mais que eu tentasse me enganar a muito tempo a esperança havia se perdido junto com as rajadas de vento. algo que pudesse me preencher. Num ano exclusivamente frio. todos como uma coisa em comum: o sentimento. é claro. onde os beijos continuavam com a mesma intensidade. o trabalho que gostar e qualquer coisa que deseje modificar. Todos se união por obrigação. Entretanto eu sabia que eram todos hipócritas. com raiva. no entanto se quiser pode me chamar de Christopher. Eu fui um dos sortudos.Quero fazer com que as pessoas acreditem no amor. perfeita. andavam com as mãos nos bolsos longe de qualquer contado físico com outro individuo. talvez pelo frio ou pela vergonha. eu me sentia frio. A resposta mais sincera de todos no verão. sinceramente. não reconhecem o amor. deixado de ser pequenos flocos de neve brancos pela estrada. Eu tenho a idade que você preferir. como testemunho de que senti. Insubstituível.

Sentada em um velho banco de madeira. da timidez ao frenesi. alma e coração. se quiser chame-a de Melanie.com uma invasão de bipolaridade. Ainda é possível ver uma pessoa ou outra refletindo. Apenas me lembro de seu olhar calmo e esperançoso. mas tudo isso há tanto tempo que é como se nem existissem. assim como eu. ela merecia muito mais do que uma denominação sem acepção. quer dizer. Sinto o calor. Eu iria conhecer a garota que exalava pureza e que tão facilmente seria confundida com um dos vários flocos de neve que caiam delicadamente do céu sobre seus cabelos. eu senti. Por fim quando ela se ergueu e estendeu sua mão delicada para me ajudar a levantar. Seus dedos lentamente se fecharam em torno dos meus. num claro gesto para se proteger do frio. a autenticidade e o êxtase. Nada mais aconteceria e seria justo que eu me adequasse ao modo de vida atual e parasse de viver de lembranças inexistentes. tudo virou um borrão indecifrável como o vento sussurrando para mim em uma noite fria. quem sabe ser até mais. A alma mais pura capaz de se igualar. Fiquei atônito e demorei alguns segundos para me recompor. Isso até ela chegar. do coibido ao libidinoso. no meu parque predileto. Algo que eu não acreditava mais. talvez até um pouco trêmula pelo tremendo frio – foi que eu novamente me sobressaltei e senti. Pode chama-la de Paixão. minha mente. pois eu não prestei a mínima atenção a nossa conversa. eu senti. como jamais havia aspirado. Foi à primeira coisa que consegui distinguir no meio daquela bagunça que se apoderava rapidamente do meu corpo. Do amor incondicional de uma mãe e seu filho. Não lembro quem começou a falar ou quem riu primeiro. Hoje o parque serve para embelezar o local – mesmo abandonado e decrépito. Um turbilhão de sentimentos me inundando. lá esta ela. Ponto das lembranças. A sucessão dos fatos é insignificante. rude eu sei. camuflando a de pouco em pouco. Parque das Invenções. ela merece tudo. sentadas nos bancos de madeira consumidos pelo tempo. Talvez as que estejam. Ainda surpreso olho para nossas mãos unidas e estremeço. Imagine a garota mais linda ostentando o sorriso mais sincero. tudo era lícito. Curiosidade. isso você pode instituir. Quando sua palma tocou a minha – gelada e áspera. mas infelizmente. Não se preocupe com toda a parte do diálogo. quem se remexeu um pouco desconfortável por algum motivo. do amor cheio de experiência entre os idosos e do bucólico amor entre os jovens. a última perspectiva que eu quase não lembrava existir. com saudade do amor. . que um floco de neve. lembranças deslembradas. Dos amores simples até os mais exagerados. No instante em que sentei ao lado daquela até então desconhecida. pois ela é a personificação desse belo fascínio. Por mais incrível que pareça. Sinto aquela velha e esquecida sensação. não permaneceu muito. _ Paixão foi à primeira garota que eu amei com toda minha essência.

Eu enfim reconheço o amor e suas brechas. depois de alguns anos quando seus dedos macios deixaram os meus. Para algumas pessoas o amor é efêmero. Para algumas pessoas o amor é desentendimento. de certa forma Melanie me preparou para o que viria a seguir. Definitivamente não é perfeito. todos cheios de algo especial e grande demais para se descrever. Gostaria de pensar numa forma fácil para expressar e ao mesmo tempo expelir o que estou sentindo. Aprender a ama-la levou menos de um segundo. até quando ela me deixou. Para algumas pessoas o amor é mágico. mas em algo mais além. Mas isso não é o suficiente. Para algumas pessoas o amor é contradição. seus olhos reluzentes e sua personalidade diligente. tudo que sou e meus pensamentos. mesmo eu não tendo nada mais com que me preocupar ou mesmo tendo um desanimo absurdo para qualquer movimento retesado. entende? De jogar tudo para o alto e deixar . as estrelas e coisas inimagináveis. Para algumas pessoas o amor é inexplicável. porém aprender a odiá-la está longe de se tornar fácil. Simples e rápida ela virou as costas e saiu sem olhar para trás. tão longe eu me lembro de seu cabelo esvoaçante. tão nitidamente lembro-me desde seus beijos com gosto de carinho até os mais brutais. pelo lado positivo eu reconheci o amor e soube da maneira mais instantânea que ele não é perfeito.Eu sofri quando compreendi que era o fim. a mim mesmo. Lembro-me de tudo. Eu não era mais satisfatório. Para algumas pessoas o amor é dor. sinto seu perfume pelo ar. a parte mais difícil foi pensar em como continuar. Mas principalmente. Eu só poderia lhe entregar o meu amor. eu não poderia cumprir. pelo menos comigo. Para algumas pessoas o amor é beleza. emaranhava seus dedos e mordia os lábios. Estou sendo depreciativo. não para ela. Ainda não sei como prosseguir. tudo ao redor me faz recordar momentos simples em que eu me reergui e voltei a absorver vida. Amor já não era mais satisfatório. Para algumas pessoas o amor é encanto. Para algumas pessoas o amor é felicidade. De algum tempo pra cá nada mudou. para algumas pessoas o amor não é suficiente. Para algumas pessoas o amor é ódio. Por que ela acabou comigo? Para algumas pessoas o amor não é o suficiente. Seus olhos não me focavam especialmente. Por mais que eu prometesse o mundo.

E eu espero. tão sóbrio ou imódico.do jeito que esta. Minha mãe também. Sentia saudades dos meus pais. Nos cinco anos depois da morte dos meus pais ninguém se atreveu em demonstrar cortesia. Eu amava essa cidade. Meu pai é um policial muito rígido. do café esfriando pela demora de uma boa conversa. sem esperanças eu tive que ceder e me despedir dos dois. de mamãe gritando do outro lado da rua que tinha bolinhos prontos para mim e acabar que a rua inteira queria um pedaço. Eu sentia uma tremenda saudade. sinto falta deles todo dia. era. Agora só me resta olhar para frente. houve um tempo em que as ruas eram vivas e cheias de energia. única e exclusivamente pela sirene estridente da viatura do meu pai. me deixava emocionada. Olho para os lados e continuo esperando calmo e sereno. sorrio abertamente e aceno não tão animada. Desde os pequenos pontos parados aos com uma movimentação maior. porém surpreendentemente nesta pitoresca cidade nada me instruía curiosidade. o amor e afeto que ela carregava em si. dos vizinhos metidos opinando em tudo. falta do aconchego. quando o amor finalmente vai ser o suficiente. Entretanto depois de um tempo isso foi se esvaindo e logo chegando a um final desastroso. da sirene que irritava a todos pela alameda. Saudade das ruelas animadas pelos gritos. Houve um acidente de carro e dali pra frente às coisas só complicaram. Para variar atrasada outra vez. . do respeito e do amor que eu sentia por eles. as crianças brincavam animadas por vezes caindo desajeitadamente no chão. mas logo se levantando e retornando a correr. A última vez em que acordei na hora deve ter sido há uns cinco anos atrás. de alguma maneira. Ele morreu faz cinco anos. Estava procurando uma boa história para o jornal mesmo tendo que investigar sobre um assassinado. a sirene podia ser ouvida a uma distância razoável. _ Natalie Atrasada. esperando por uma nova oportunidade. pois é. imóvel e ridicularizado por algo que eu apreciava. agora a casa é de uma velhinha muito simpática que sempre acena para mim quando me vê bisbilhotando. ou melhor. Todos os vizinhos se conheciam um pouco e se ajudavam nos momentos mais terríveis. mas feliz em ter uma amiga pelas redondezas. dos beijos escondidos dos jovens amantes – até dos mais velhinhos – de uma loja a cada passo ou um bom dia a cada pessoa vista. todos pareciam mortos e caquéticos. dos conselhos e da sirene barulhenta da viatura. Entre os corredores vazios do meu apartamento eu espio pela janela no outro lado da rua a casa dos meus pais. neste momento seu braço se movimenta animadamente para cima e para baixo enquanto ela me observa atentamente de sua cadeira de balanço revestida de crochê. a ideia de morte agora ainda me deixava um pouco sensível e de “detetive criminal” eu estava agora em entrevistas mais leves.

Marcos têm olhos extremamente azuis. nada muito promissores. Apesar de tudo Marcos nunca desistiu de mim e eu não estava disposta a desistir dele. uma “detetive criminal” e o advogado bem-humorado como poderiam dar errado? Ele fazia de tudo para me ver feliz. Arrisco-me em sentar perto dele e descobrir o que fazia ali sentado. bolsa. cabelos pretos e uma postura rígida.. minha história poderia estar bem a minha frente. poderia compartilhar tudo com ele. afinal. Com músculos de colocar inveja em muitos atletas. ele parece não perceber de imediato e mesmo após notar minha presença resolveu ignorar-me por completo. Fecho a porta atrás de mim com um chute e saio andando para o parque mais próximo. era um advogado respeitado em NY e sempre tinha um momento para seus clientes. chorar ou sorrir. Eu o amava de uma forma arrebatadora no começo do nosso namoro. antes e depois. mas já tivemos dias melhores. mas eles trazem uma bela recordação. Sua tristeza era tão aparente que chegava a ser palpável. carteira. algo parecia me chamar para ele. além de ser um lugar muito inspirador para se pensar em algo. documentos e caderno de anotações. menos tempo para mim. Os parques estão uma porcaria. não é todo dia que vejo um homem de terno sentado no parquinho. encontrava-se usando um terno e mesmo a distancia parecia extremamente triste e abalado.. Um pouco nervosa esfrego uma mão a outra e penso no que dizer. além disso. ele é lindo e tem o emprego dos sonhos. Caminho em direção à saída e observo se tenho tudo em mãos: celular. Enfim o que seria interessante nessa cidade? Não havia nada que chamasse a atenção de ninguém. Tenho um namorado. isso seria desprezível.. Calmamente me aconchego ao seu lado sem soltar um ruído. A não ser os parques. O frio se intensifica e eu olho cuidadosamente para o homem de terno que aparentava . eu era jovem e decidida. não eram carregados de emoção e vontade. mal entro no parquinho e vejo algo que me prende a atenção. ele conheceu meu pai e minha mãe. claro. Eu amo Marcos há tanto tempo. Balancei a cabeça me livrando de todos esses fatos controversos. certo? E se ele fosse louco? Algum tipo de psicopata esperando a próxima vitima no parquinho deserto.O amor nunca me faltou tanto. pois se sentia bem. Para ser bem sincera. mas hoje parecia só mais uma obrigação para agradar sua querida noiva. Um homem estava sentado em um dos muitos bancos velhos olhando inexpressivamente para frente. Eu amo Marcos. Os abraços e beijos não tinham o mesmo efeito em mim. foi nele que eu poderia me apoiar nos momentos mais difíceis. Marcos estava lá quando meus pais morreram. eu só pensava o que podia ter causado isso. meus pais amavam Marcos. São três anos? Quatro? Fazia um bom tempo que eu não entrevistava ninguém para um jornal ou história e neste momento estava me sentindo incrivelmente apreensiva. ele é perfeito para qualquer mulher. não deixavam minha visão turva e pensamentos embaralhados. O pior que ele poderia fazer era me expulsar. Contudo eu não conseguia deixar de pensar que faltava alguma coisa. ambos o amavam assim como eu devo amar agora. Estamos noivos há dois anos e nenhum de nós tem o jeito de estarem entusiasmados. alguns comentários sobre o assunto caem aqui ou ali.. mas. Marcos. até para mim.

sua voz. quer dizer.. O homem não me olhava diretamente.” “O que faz você pensar que eu tenho uma história de vida digna de ser eternizada e repassada ao seu público?” Suas palavras eram cortantes. O primeiro pensamento que reluz em minha mente é: agrade-o. Uma saudação entre conhecidos. . seja envolvente. “Quer dizer. Ele deve se sentir confortável em compartilhar algo e como jornalista eu preciso lhe proporcionar isso. eu sou uma jornalista a procura de uma história e gostaria de conhecer a sua. Pergunte alguma coisa. mas suas palavras ditas tão rispidamente me fizeram olhar para ele quase que automaticamente. eram inebriantes de uma maneira que eu nunca tinha me deparado. Penso um pouco antes de responder e junto as melhores palavras. O que são quatro anos para quem ama jornalismo? Eu estava pronta para uma entrevista com esse homem. é agora ou nunca. mas ao mesmo tempo tão cheias de sentimento.” História de vida? Na minha cabeça isso soou profissional e cheio de atitude.” “E porque eu a compartilharia com você?” Ele continuava a fitar a chão e a remexer seus pés impacientemente. se portar. “O que você quer?” Pergunta uma voz áspera em um tom frio. Ele suspira pesadamente e eu sei. mas que deveria ter uma idade aproximada a minha. “Se não se importa eu gostaria de entrevista você.ser muito mais velho com a barba por fazer. era como se eu quisesse conhecer esse homem.” Você ser a única pessoa desse parque.. Algo direto e totalmente normal. era até possível que minha boca estivesse escancarada diante dele. “Algo me diz que você tem uma história a ser partilhada. nem sequer conseguia disfarçar meu fascínio. Quatro anos de experiência rendem algum conhecimento. como se algo me puxasse ao seu encontro e o seu jeito de falar. Algo como um conhecido que esta de terno no meio de um dos parques mais assustadores em que eu já estive. se me permitir. mas só foi uma frase sem sentido. eu gostaria de conhecer a sua história de vida. “Porque ela é digna o bastante para ser eternizada e repassada ao meu público?” Pergunto e finalmente seus olhos se voltam aos meus – sabe o mar de Maragogi? Nem se compara com o tom de verde dos olhos desse homem – seus cabelos castanhos balançavam sutilmente com a brisa fraca e minha nossa! Os olhos dele eram uma mistura que me entorpeciam. “Seu jeito de falar.

Será que ele tem história com a máfia? Vamos com calma. uma mania irrevogável minha. Além de querer terminar logo a entrevista perguntando se cada pergunta feita era mesmo necessária. . caro o bastante para um morador de rua. Ele se endireita novamente olhando atentamente para frente e suspirando pesadamente. Com certeza descendente de italiano. “Christopher Magni Fontana. não é morador de rua e não matou ninguém. 26 anos. novamente. Infelizmente não era o caso. “Isso é mesmo necessário?” Christopher arqueia uma sobrancelha e remexe no cabelo. Remexo em minha bolsa pronta para anotar tudo que puder à medida que ele se endireita numa postura profissional.” “Como?” Pergunto surpresa.“Bom. “Você acredita no amor?” Amor. claro. “Não acha mais fácil que eu conte o que realmente pode ser uma história legal. ele poderia ter fabricado o terno Armani que esta usando ou é só um morador de rua que tem tudo para ser um mafioso. provavelmente Armani. você conseguiu. O que ele poderia me contar? Será que ele já matou alguém? Tem filhos. felizmente. O que espera saber?” Seus dedos passaram distraidamente pelo seu cabelo e o homem a minha frente parecia bem mais relaxado do que estava dois minutos atrás. porém ele está certo. Vamos para próxima pergunta?” Eu estava ficando constrangida por ter feito as perguntas mais capciosas no começo. como você se chama?” Devagar e sempre. mas eu estava curiosa e seu estilo evasivo me fazia achar que ele tinha matado alguém e escondido ali mesmo. Mexer os pés e colocar as mãos nos bolsos também. ainda sem virar para mim Christopher pergunta enfaticamente. “Christopher Fontana. observo seu terno. essa é uma mania irrevogável dele. Concordo com um maneio de cabeça e a caneta presa em meus dentes. ninguém morreu e esse cara não é um assassino em série. ao invés de você ficar supondo coisas?” Talvez pensar que ele tenha matado alguém tenha ferido seus sentimentos. assim vai ser mais fácil para ambos. esposa? Tem família? É morador de rua? Já roubou alguma vez? Será que ele já matou alguém? “Hum. Roubou de Christopher? Ah. Será que ele roubou de alguém? “Christopher. deve ser seu nome! Bela jornalista. atenta a tudo. descendente de italianos. no entanto eu queria uma história. é o meu nome” Ele olha curioso para mim. quer dizer.

mas ninguém se importa. Presto atenção em seu semblante e quase que fico sem ar. . mas o que um cara solitário no parquinho sabe sobre amor? Ele vai me explicar sobre o amor entre a natureza e o nosso “eu” interior? A questão é: o que eu tenho a perder? Isso mesmo. De como tive medo em não conseguir controlar esse sentimento que tomava conta de mim. “Sim. O que o fazia sofrer antes do amor? Ele ainda acredita no amor? Por que ela o deixou? Qual era o nome dela? Como ela se parecia? Ele imaginava um futuro ao seu lado? Era mais uma história de amor clichê. Ele é bonito mesmo. além de ser clichê demais. do canto mais sincero do seu coração ele está me oferecendo sua história de amor. eu amava e ainda amo verdadeiramente meus pais. De como em um dia repleto de frio e sem alento eu pensei ter encontrado o amor da minha vida. Ele está dizendo a verdade. do jeito que encontrei junto com ela o amor. de amor e ruina. “Acredita no amor verdadeiro?” Ele está cheio de intensidade e eu me pergunto o que virá a seguir. “Sim. Contudo isso não importa.Já disse que o amor está ultimamente faltando na minha vida? Ele vai falar sobre amor. A intensidade de sua voz carregada de significado só me faz pensar no melhor e no pior que pode ter acontecido. a curiosidade me pega desprevenida e num segundo me vejo envolvida e sedenta por mais. Mesmo que de uma forma estranha. “Eu vou te contar sobre duas almas completamente diferentes e praticamente mortas que há algum tempo se uniram e reencontraram o caminho para vida.” Respondo monossilábica.” Me permito dizer indecisa. só me restou à lembrança e no final eu aprendi que o amor nunca foi e nunca será o suficiente. detesto ser portadora de más noticias. nada! Não custa nada escutar a voz inebriante de Christopher falando sobre amor. aquele bonito sem exagero.” Perco o fôlego e olho para o homem de terno ao meu lado. Dos dias que passei ao lado da garota mais maravilhosa que já conheci. Christopher sorri para o nada e eu acompanho seu olhar por entre as árvores e o riacho do grande parque. Da forma que ela me deixou na penumbra e sem olhar para trás foi para um futuro longe de mim. Acredito no amor verdadeiro? Bom. O que um cara como aquele poderia dizer sobre o amor? Ser traído? Ser o traidor? Que o amor estragou a pobre vida dele? Que o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxa? Sem querer ofender. mesmo para um homem bonito de terno no meio de um parque. com promessas perecidas.

será que Christopher ainda amava Melanie? Sempre me emociono ao o ver falando dela. jornalista?” Ele diz me fitando milimetricamente. Ah. – Com o passar dos dias eu só ficava mais deslumbrada pela história de Christopher. “Vai de novo praquele parque? Meu Deus Natalie! Você não tem nada melhor para fazer em casa. a gente quase não se vê direito. nunca ouvi ninguém que entende tanto de amor quanto ele e a cada dia que passa me sinto entrar num mundo com perspectivas totalmente diferentes. Ontem quando estive com Christopher ele disse não se arrependia de nada. “Pode me dizer qual seu nome. Aproximo-me mais perto e sento animada para mais um dia de história. parece que ele vai demorar. “Natalie” sussurro quase que inaudível. nem mesmo de tê-la deixado partir. arrumar os móveis ou preparar o jantar?” Era esse tipo de preocupação que me fazia querer arrancar a cabeça de Marcos e o mandar passear. estou com saudades. porém hoje ele parece querer abordar outro assunto.E eu estou alucinada para escrevê-la. o que? Eu não tinha alternativa senão isto. mesmo depois dela ter o deixado. As palavras fluíam de sua boca até os meus ouvidos atentos e eu as transcrevia de volta ao papel. sempre voltava a amar Marcos apesar de tudo. perfume impregnável e olhos que são a . Encontrávamo-nos sempre no mesmo local dia após dia e eu sempre ficava animada em vê-lo.” E me beijava daquele jeito todo especial que mesmo não tendo o mesmo efeito arrebatador ainda surtia consequências muito fortes e me deixava lembrar-se do quando o amo. exatamente o oposto que eu estava me renegando a fazer. com a mesma taxa de emoção que ele passava para mim. vejo-o sentado no mesmo banco de sempre. machão ao extremo que me deixava com raiva. Natalie!” Ele começava arrependido “Só estou preocupado. sem um pingo de arrependimento ou ódio. Ele é muito mais profundo do que eu jamais pensei que seria para ser sincera. como: lavar a roupa suja. “Perdoe-me. Ao chegar ao parque que Chris – apelido carinhoso que agiliza nossa conversa – apelidou de Parque das Invenções. sinto minhas bochechas ficando coradas com a sua expressão avaliadora e me endireito no banco gasto. Falando em amar. mas ele sempre dava um jeito de remediar e soltar um carinho que mais parecia força do abito do que algo espontâneo. olhar seu terno Armani e seus olhos mais verdes que o mar de Maragogi. qual é? Tente responder a alguma coisa enquanto um homem com terno Armani. Só que havia Marcos e sua súbita vontade de se preocupar comigo. Então a briga era momentaneamente esquecida e boa noiva que sou começava a arrumar a casa.

se ele não está se sentindo bem hoje fico feliz em ajudar. sabia exatamente o que dizer ou o que fazer. Eu odeio falar sobre mim... que tal falarmos sobre você?”. “Natalie Rae Turner. Ele tinha uma postura rígida e profissional no „tribunal‟. não. “Não quero saber como ele parece para os outros. mas quando estava comigo era descontraído e aventureiro. não é moradora de rua. Sua barba facilita mais as coisas escondendo o resto do rosto dele e seu pescoço. Ele tinha acabado de ser . sua coragem e ao mesmo tempo seu sentimento. descendente de ingleses. Praticamente impossível. ele era advogado de um lobo que eu estava entrevistado pelo assassinato de um dos três porquinhos. Em minha defesa eu pensei que os chocolates estavam sendo distribuídos como brinde. Pois bem. não!” Chris interrompeu quase que gritando esbaforido. parecia que ele me conhecia desde sempre. não é?” Claro que tudo tem seus limites.. “Marcos e eu nos conhecemos há nove anos. “Não.. nunca matou ninguém e já roubou chocolates do Wal-Mart. Marcos Anthony. Eu comecei a ama-lo bem depois da formatura. mas como ele se parece para você!”. quem sabe daqui a alguns anos. quando Marcos resolver finalmente se casar. eu ficava encantada com a forma com que ele via o mundo.personificação do verde-mar te observando. Chris estava se divertindo as minhas custas. mas Chris parece extremamente satisfeito em brincar comigo. Posso fazer melhor que isso. Mas eu estou noiva e a presença de outro homem não me intimida. eu estou ouvindo suas confissões mais profundas. 24 anos. porque eu obviamente gosto de saber sobre os outros... na época estávamos os dois na faculdade passando por várias provas seletivas. mas Chris passou há muito tempo para o quesito amigo-que-eu-posso-contar. odeio falar da minha vida pessoal. é obvio que o nosso relacionamento não é o mesmo faz uns anos. Eu fiquei apaixonada pela sua persistência. eu me perdi nos seus olhos azul cobalto.. Na primeira vez que nós nos vimos. afinal. hum. por que não responder algumas perguntas também? O que eu posso dizer sobre Marcos? “Bom. Marcos tem 27 anos e é um ótimo advogado e tem uma carreira. está noiva. foi tão certo e tão único. “Conte-me sobre o seu noivo. Encontrávamo-nos diariamente e eu adorava conversar com ele. um cara que conhece sobre o amor esta sendo entrevistado por uma jornalista fria de coração que continua com o namorado por comodidade. entretanto eu me sinto envergonhada em dizer isso para Christopher... “Natalie Turner” Quase Natalie Turner Anthony.”. pois de acordo com ele “Hoje eu não estou me sentindo a vontade para contar a história.”.. Ele tem tantos ideais. nem um pouco. Eu odeio falar sobre mim.

” Ele diz impressionado e eu só penso em me esconder dos seus olhos acusadores.contratado para o emprego dos seus sonhos. que o amor continuava intacto e mais forte do que nunca ao passar dos anos. Marcos me ama? Eu o amo? Como as coisas chegaram a esse ponto. Meu pai e minha mãe o conheceram. Ele me pediu em casamento no mesmo lugar e por incrível que pareça foi ainda mais emocionante. Marcos me ajudou a superar. foi um total frenesi quando ele se declarou. dançou comigo. Falando desse jeito parecia que o meu relacionamento com Marcos ia do bom ao melhor. quando ele não me liga e passa a noite no trabalho. Ele me fez rir. Foi tudo lírico e amável. ele me aguentou quando eu pensei estar perdida. Não contei porque seria muito humilhante e depreciativo. nos nós amávamos tanto! . compartilhando minha vida e meus pensamentos. nunca vou esquecer a confusão de pegar o anel. só de estar naquele lugar já me fazia recordar daquele mesmo dia tantos anos atrás e do sentimento tão intenso e palpável que estava entre nós. Suspirei com os olhos marejados. eu lembro que ele ficou tão feliz que fez uma noite inteiramente romântica e mesmo eu afirmando que odiava coisas melosas lá no fundo. quando depois de dois anos da morte dos meus pais alugou a casa deles ou como ele não me deixava dar mais a opinião abertamente e parecia não me amar mais. bem lá no fundo. eu era loucamente cativada por esses fatos. Marcos sempre foi „O Cara‟. só em momentos de extrema importância. foi meu apoio e meu guia. nesse momento tudo que eu não preciso é que Christopher sinta pena de mim. quando ele comprou um „Porsche 911 Carrera S‟ para mim e simplesmente me proibiu de usa-lo. chorar e dizer milhões de „Sim. Seus beijos me tiravam de orbita. eu era extasiada pelo sentimento que corria desenfreado por entre minhas veias. “Vocês parecem um casal perfeito. mas eu deixei o pior de fora. eu percebi que queria sempre rir com Marcos. já que meus pais morreram há cinco anos.”. eles o amavam tanto quanto eu o amo e isso são um dos casos mais importantes para mim. me segurou quando eu estava caindo num abismo sem fundo. “Você nem imagina!” Fecho meus olhos com força e tento refrear a vontade de chorar. Eu não falei da vez em que Marcos gritou comigo na frente de todo mundo da lanchonete por ter derrubado seu sanduiche. Nunca pensei que amaria alguém mais do que o amo. a mesma coisa pra mim. eu aceito‟ e no final a aliança estava era mesmo dentro de uma rosa e acabou que eu encontrei o anel errado. lembro-me de ter chorando antes mesmo da proposta. Para sua informação eu não sou tão sentimental assim normalmente. me jogou no lago e lá embaixo por entre a água eu vi algo que reluzia brilhante. vai que o Christopher acha que o meu noivado não vale apena. criar situações loucas e depois relembra-las sentados na varanda. Eu nunca estive tão feliz. abraçou-me e beijou-me arduamente. tão exato. Nessa mesma noite ele me levou a um lago cheio de flores espalhadas por entre o caminho e a água.

Entenda. acariciando a barba enorme.” Então quem fecha os olhos sou eu. sorriu.“Nós nos amávamos tanto!” deixo escapar e antes que perceba estou chorando copiosamente nos ombros de Christopher que parece tenso com a situação. Mais infeliz do que nunca. Mesmo porque ele mesmo afirmou que Melanie era somente uma boa lembrança. queria uma boa conversa amiga nesses dias sinuosos.” Responde virando-se para mim e sorrindo logo em seguida. Mas continua dando medo. E por um momento parece que vai explodir. era tudo que eu precisava alguém em quem me apoiar e desabafar sem ser julgada. Já estava com a minha história quase pronta. eu precisava daquele tempo para mim. obviamente. Respiro e inspiro. Quem pode culpa-lo? Cuidar de uma Natalie em prantos e resmungos não deve ser fácil. Ele não é pobre. Diz cabisbaixo. Eu tinha que admitir. Nunca fiquei tão agradecida pelo silêncio de alguém. “O que houve com você?” Indago apreensiva e o analiso esperando uma resposta plausível. Ele olha para mim quase que alarmado. Fecha os olhos. de uma hora para outra bufa irritado e parece infeliz. mas mesmo assim. Christopher tem um jeito excelente de amparar. há poucos segundos perdido em pensamentos. também não parece sofrer por ninguém. eu não consigo imaginar como . “Por que você não faz a barba?” Christopher e eu estávamos olhando para as folhas secas do outono caindo distraidamente pelo chão. “Não quero. Ele para. Nesse exato momento percebi que Christopher era um dos melhores amigos que eu poderia querer agora. Tento pensar nos problemas que um cara „livre‟ pode ter. Ele não disse absolutamente nada e quando eu terminei de chorar continuou em silêncio. sem intervenções e Christopher me ofereceu seu ombro amigo. Ele olha para os lados frequentemente inquieto e por diversas vezes se prende em pensamentos. Por que isso me deixou tão preocupada? Pra falar a verdade e ser totalmente sincera. Nos últimos dias em que nos encontramos Christopher anda distante e falando somente o estritamente necessário. Até que não é tão horrível assim. e feliz espiro o aroma da bela rosa em minhas mãos. “Eu não consigo esquecer. pegou uma rosa do chão e me ofereceu. “Melanie”.

não! Christopher não tem cara de quem vê novela. você viu o filme de comédia-romântica ontem?‟ Que tal. você viu a novela ontem?‟ Não. não posso fingir que não ouvi nada.. O grande problema é que me importa e ele é meu amigo. ainda intacta e mais presente do que nunca eu nossas conversas.. No decorrer das nossas conversas eu fugia constantemente em focar a história nela.Melanie pode ser. Nem mesmo eu sei por quê. cara?‟ „Problema é seu!‟ Ou quem sabe só fingir que não ouvi nada e sequer me importa. „Então. . „Tá e daí? O que eu tenho a ver com isso. Como será que eu devo agir? „Então. Agora ela está ai.