Porque sou contra a EBSERH

Francisco Mata Machado Tavares (Franck) - FCS/UFG
A administração atual da Universidade Federal de Goiás - UFG pretende
ceder a gestão do respectivo Hospital das Clínicas a uma pessoa jurídica de
direito privado e patrimônio próprio denominada Empresa Brasileira de
Serviços Hospitalares – EBSERH. A empresa em questão, como uma atenta
leitura da Lei1 que a institui permite concluir, não é submetida ao regime
jurídico de direito público e prevê, como se nota no parágrafo único do artigo
8o, a obtenção de lucro em suas atividades.
O tema é complexo e pode ser abordado sob incontáveis perspectivas,
oscilantes desde a natureza do SUS e das políticas de saúde pública no Brasil,
até o conteúdo jurídico da autonomia universitária insculpida no artigo 207 da
Constituição2. A proposta deste texto, ciente da impossibilidade de se abarcar a
matéria em toda a sua vastidão, reside em uma leitura imanente e generosa dos
argumentos apresentados pelos defensores da EBSERH na UFG. A hipótese a se
testar é de que, se os próprios elementos supostamente favoráveis à cessão do
HC para uma empresa lucrativa se revelarem indicadores da tese contrária em
seus pressupostos e consequentes intrínsecos, então não restariam razões para
se manter esta proposição; e, se forem coerentes com o que dizem defender, os
atuais partidários da medida hão de notar que ela não produz os resultados
esperados e desistirão de atuar em seu favor. Em suma, ambiciona-se, neste
texto, apenas levar os argumentos pró-EBSERH a sério, antes de se desferir
qualquer crítica externa à iniciativa.
O primeiro argumento apresentado em uma entrevista publicada na
página oficial da Universidade Federal de Goiás parece inusitado. Fala-se em
inúmeras continuidades. Os verbos “manter” e “continuar” são repetidos em
duas ocasiões cada, reforçando-se que ficariam inalterados o caráter público do
Hospital, a gestão por parte da UFG e os direitos dos/as atuais servidores/as.
Ora, não é necessária muita habilidade na ciência da lógica para se indagar,
desde logo, as razões que levam a uma profunda mudança que teria como
principais fundamentos as continuidades e manutenções. Se o objetivo da
EBSERH é manter o SUS, os direitos dos/as servidores/as, a autonomia da
universidade e o caráter gratuito dos serviços, creio que os respectivos
defensores estariam de pleno acordo com uma medida bem mais simples e
1

Trata-se

da

Lei

12.550/2001,

disponível

por

meio

do

seguinte

elo:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/Lei/L12550.htm
2
A Justiça Federal, na 2a vara da seção judiciária de Juiz de Fora, aliás, expediu medida liminar
impedindo que a UFJF celebrasse contrato com EBSERH, sob o entendimento de que a lei que
cria esta empresa malfere o artigo 207 da Carta de 1988, ao ofender a autonomia universitária.

prática. Proponho que aprovemos, na reunião do CONSUNI de 14 de novembro
de 2014, uma resolução composta de um único artigo, que assim disponha:
“Ficam mantidos, no HC, o SUS, os direitos dos/as servidores/as, a autonomia
da universidade e o caráter gratuito dos serviços.” Eu lutarei por essa resolução.
Creio que as divergências que guardo com quem pretende a contratação de uma
empresa lucrativa de direito privado para cuidar do Hospital das Clínicas não
devam se encerrar aí, contudo. Eles têm outros argumentos que, então, devem
ser apreciados.
Consta da reportagem já mencionada a declaração de que “a contratação
CLT (sic) é mais rápida e permite a adaptação necessária a um hospital que não
pode esperar meses pela contratação de funcionários.” Aduz-se, ademais, que,
atualmente, há muitos servidores terceirizados em atuação no HC, mas sua
contratação “é irregular para o Ministério da Saúde”. Chega-se, agora, a duas
diferenças entre o quadro atual e o cenário proposto pela gestão da UFG ao
ceder o HC para uma empresa lucrativa de direito privado.
Trata-se, primeiramente, da transposição de um contexto em que
funcionários são contratados de modo ilegal, como reconhecem os defensores
da EBSERH na matéria publicada na página da UFG e acima parcialmente
transcrita, para um cenário em que a mesma ilegalidade supracitada, agora com
um novo nome, torne-se legal. Isso é grave! Mudar o nome de um ato ilícito não
o torna adequado ao direito. Tal prática é classicamente conhecida como um
exemplo da figura da simulação, no contexto da qual um ato conta com uma
intenção formal (contratação celetista, por meio de empresa) e outra intenção
substantiva (não obedecer ao comando do artigo 39 da Constituição, que
determina regime jurídico próprio aos servidores públicos). A incompatibilidade
entre a contratação de pessoal para atuação no HC segundo regime celetista e o
ordenamento jurídico é, aliás, um dos argumentos apresentados pela
Procuradoria Geral da República em Ação Direta de Inconstitucionalidade
contra a Lei que institui a empresa EBSERH. Ora, se UFG não quer contratar
terceirizados porque “é irregular para o Ministério da Saúde”, por que quer
contratar celetistas que são irregulares para o Ministério Público Federal, órgão,
é de se convir, mais próximo ao domínio de assuntos jurídicos do que aquele?
Outra diferença a ressair da transcrição acima aponta para uma maior
“facilidade” da contratação segundo a CLT. O argumento não condiz com a
verdade, mas, ainda assim, precisa ser analiticamente decomposto. Quem diz
que “a contratação CLT (sic) é mais rápida” certamente não leu a Lei que cria a
EBSERH ou, se o fez, cansou-se antes de chegar ao seu artigo 10o, cuja norma
assim dispõe:

Art. 10. O regime de pessoal permanente da EBSERH será o da
Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada
pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943 , e legislação
complementar, condicionada a contratação à prévia aprovação
em concurso público de provas ou de provas e títulos,
observadas as normas específicas editadas pelo Conselho de
Administração.

Fica claro que é simplesmente falsa a tese de que a contratação mediante o
regime da CLT seria mais fácil ou diferente, haja vista a expressa disposição
legal a exigir os mesmos requisitos – concurso de provas ou de provas e títulos –
já aplicáveis para os/as servidores/as submetidos ao Regime Jurídico Único.
Há, contudo, uma importante distinção entre servidores/as públicos
estatutários e celetistas. Os direitos daqueles são superiores aos destes. Em
suma, a migração de um cenário de trabalhadores/as regidos pelo RJU em
direção à CLT implica, de fato, uma mudança concreta, que não guarda
nenhuma relação com facilidade de contratação: trata-se da redução de direitos
trabalhistas. Apenas como um exemplo, destaca-se que os futuros celetistas a
serem contratados/as, diferentemente dos/as atuais servidores/as, não
possuirão estabilidade em seus cargos. É o que se infere da Resolução TST
143/2007, a afastar a estabilidade dos celetistas que trabalham para empresas
públicas. Daqui, surge uma nova problemática. Aduzir-se que o regime celetista
é mais eficiente ou adequado à melhor gestão significa correlacionar
positivamente a redução de direitos dos trabalhadores à melhor prestação de
serviços ou racionalidade laboral. O problema é que, em oposição ao desejo
ideológico dos neoliberais, jamais ficou demonstrada na economia ou sociologia
do trabalho qualquer correlação entre precarização laboral e acréscimo de
eficiência. O contrário, sim, vem sendo atestado ao longo dos decênios. Da
mesma maneira, o entendimento de que o regime jurídico de direito privado é
mais adequado do que o de direito público para fins de entrega de serviços
aos/às cidadãos/ãs não resiste a um perfunctório teste empírico, como atestam
segmentos como telecomunicações, transportes e congêneres. Trata-se,
novamente, de mero wishful thinking dos discípulos de Tatcher, Reagan e
Pinochet.
Para além dos argumentos até aqui perquiridos, constata-se que,
informalmente, haja quem defenda a EBSERH como um fato consumado. A tese
é de que o Governo Federal dificultaria o repasse de recursos e a expansão dos
HCs de IFEs não aderentes a contratos com a empresa lucrativa de direito
privado. Nesse caso, o problema é mais sério ainda! Se o Poder Público
condiciona a manutenção ou expansão do ensino e da extensão prestados nos
HCs de universidades federais, além do direito fundamental à saúde, à adesão a

uma medida cuja consequência prática imediata é apenas o vilipêndio ao artigo
39 da Carta de 1988, de modo a reduzir direitos de trabalhadores/as, então há
que se responsabilizar os governantes, antes de se aceitar tamanho arbítrio. O
repasse de recursos para que a obra nunca concluída do HC da UFG se ultime;
para que haja concursos de servidores regidos pelo RJU que superem o déficit
atual; para que haja material e tudo o que um hospital precisa para funcionar;
não é um favor do governo, mas dever inescusável. Assim, não cabe à
administração universitária ceder à chantagem de governos que se recusam a
cumprir a Constituição mas, ao contrário, incumbe-lhe honrar a autonomia que
o artigo 207 nos dá e os votos democráticos da comunidade que a elege para
denunciar, em todos os órgãos de controle, essa eventual prática, acaso de fato
ocorra.
Seria possível avançar sobre o debate, apresentando-se fundamentais e
definitivas críticas de ordem externa, como, por exemplo, o caráter de
desmantelamento do SUS tacitamente ocorrente com a adesão à EBSERH, a
vedação constitucional à manutenção de empresa pública lucrativa para
prestação de serviços hospitalares – na forma do artigo 173 da CR/1988 – a
inexistência de qualquer correlação entre regime jurídico de direito privado e
maior eficiência gerencial, ou a farta existência de recursos para a saúde e as
universidades em um Estado que despeja vultosas somas em juros não
auditados (contra o que manda a constituição no ADCT) da dívida pública, ou
obras faraônicas, como Belo Monte. Pouparei o leitor destes argumentos, ao
menos nestas linhas. Se, realmente, o que os adeptos da EBSERH pretendem é
mais eficiência, respeito ao SUS, à autonomia universitária e aos direitos
trabalhistas, espero ter demonstrado que eles estão a escolher o caminho
equivocado. Se, por outro lado, é mais um caso em que se propõe a
desregulamentação, a submissão ao regime de direito privado e a precarização
do trabalho como meio de se otimizar a gestão pública, então estamos em uma
contenda entre progressistas e neoliberais. A história parece já ter mostrado
quem tem razão nesta disputa.