EDIÇÃO 2013

EDIÇÃO 2013

FICHA TÉCNICA

CONTOS DE NATAL
ORGANIZAÇÃO | JUNTA DE FREGUESIA DO MURO
PARCEIRO FINANCEIRO | ELECTRUM TROFA
EDIÇÃO | 1ª EDIÇÃO, DEZ 2013
COORDENAÇÃO DA EDIÇÃO | CONCEIÇÃO CAMPOS
TEXTOS | ADELAIDE FERREIRA, ALEXANDRA FREITAS, CONCEIÇÃO CAMPOS,
HERMÍNIA ABELENDA, JULIANA SÁ, MANUEL ARAÚJO, MANUEL PEREIRA, PEDRO
ALMEIDA, RITA GOMES.
DESIGN GRÁFICO | MARGARIDA PINTO
ILUSTRAÇÃO DE CAPA | DANIEL MAIA
TIPOGRAFIA | METRIC
EXEMPLARES | 100 UNIDADES
IMPRESSÃO | PORTUGAL
CONTACTOS | JUNTA DE FREGUESIA DO MURO - RUA JOSÉ MOURA COUTINHO Nº 4190,
4745-345 MURO-TROFA, TEL. 229 820 914, FAX 229 812 187
COPYRIGHT © JUNTA DE FREGUESIA DO MURO
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

PREFÁCIO

Ponderou a Junta de Freguesia do Muro abrilhantar a época de
Natal com algo que perdurasse para o futuro.
O livro de Contos de Natal é a compilação de oito histórias de
diferentes autores com uma profunda ligação ao Muro que prontamente acederam ao convite lançado. É um livro de verdade, de
sentimentos e de busca de felicidade, expressando o que vai na
alma de cada um na principal noite do ano em que ninguém deseja estar só.
Obrigado aos autores por nos permitirem partilhar o seu mundo
e juntos fazermos parte desta comunidade que anseia por mais
amor, verdade e liberdade.

dezembro de 2013
o executivo da junta de freguesia do muro

INDÍCE

06 ADELAIDE FERREIRA | O NATAL QUE NUNCA ESQUECI
08 ALEXANDRA FREITAS | A ESSÊNCIA DO NATAL
10 HERMÍNIA ABELENDA | O NATAL DO JOÃO
13 JULIANA SÁ | UM NATAL IGUAL NA DIFERENÇA
16 MANUEL ARAÚJO | IRÍS E A MAGIA DO NATAL
19 MANUEL PEREIRA | UM CONTO DE NATAL
22 PEDRO ALMEIDA | MADRUGADA DE UM HOMEM INCERTO
25 RITA GOMES | DESEJOS DE NATAL

ADELAIDE
FERREIRA
56 ANOS
ALDEIA NOVA
MURO

ALEXANDRA
FREITAS
17 ANOS
RIBEIRO
ALVARELHOS

HERMÍNIA
ABELENDA
63 ANOS
QUINTÃO
MURO

JULIANA

15 ANOS
SERRA
MURO

MANUEL
ARAÚJO
61 ANOS

ALDEIA NOVA
GUIDÕES

MANUEL
PEREIRA
61 ANOS
IGREJA
MURO

PEDRO
ALMEIDA
26 ANOS
IGREJA
MURO

RITA
GOMES
17 ANOS
IGREJA
MURO

O NATAL
QUE NUNCA
ESQUECI
ADELAIDE FERREIRA

Quando eu era pequenina, há muito muito tempo atrás, em tempo de inverno,
a minha avó contou-me que tinha uma irmã em Trás-os-Montes, e como não
se visitavam há alguns anos, o nosso Natal ia ser na terra dela. Eu e os meus
irmãos ficamos muito felizes, pois não fazíamos ideia nenhuma onde ficava tal
terra, do tempo que demorava chegar até lá e nem sequer nunca tínhamos
visto essa tia-avó…
A minha avó começou bem cedo a preparar tudo o que precisávamos, fez casacos de lã das nossas ovelhas, tinham capucho, botões de pau, eram entrançados e muito quentinhos. Estreamos socos de verniz, as meias chegavam
aos joelhos, a minha saia era franzida e as tranças do cabelo amarradas com
uma tira de pano que tinha sobrado da saia. O perfume da brilhantina ficava
incrustado no nariz durante muito tempo. Eu e os meus irmãos sentíamo-nos
uns autênticos príncipes.
Chegou o dia da viagem, fomos bem cedo para a estação para tirarmos os
bilhetes. Quando chegou o comboio, ficou tudo escondido pelo fumo que
deitava, sentimos medo, mas a minha avó explicou que era do carvão. Pensei
logo na nossa chaminé, também deitava fumo para defumar as chouriças,
era parecido…
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O comboio arrancou, a minha avó agarrava a mão dos meus irmãos mais
novos e os mais velhos cuidavam dos sacos dos presentes. Entretanto o comboio parou, já tínhamos chegado à primeira estação, entraram pessoas adultas e algumas crianças, traziam sacolas às costas e garrafões de vinho. Lá se
acomodaram e não demorou muito tempo a meterem conversa com a minha
avó. Também iam para a terra da minha tia-avó, a minha avó explicou-lhes
que íamos passar o Natal com a irmã dela, que era solteirona e tinha ficado a
cuidar dos pais, que já tinham falecido. Ao ouvirem a minha avó, aquelas pessoas confirmaram que o Natal só tem conteúdo quando é partilhado, quando
nos lembramos de quem tem menos do que nós. O casal gostou tanto da
minha avó, que convidou-nos para passar com eles as festas de Natal.
Chegamos a Trás-os-Montes, a Carrazeda de Anciães. A minha tia-avó já estava à nossa espera, era parecida com a minha avó, tinha cabelos às ondas,
uns lindos olhos azuis e usava uma travessa por cima do puxo, igualzinha à
da minha avó. Saímos do comboio e cumprimentamos a minha tia. - O comboio é normal atrasar-se, lá em baixo nas minas tem muitas curvas e anda
muito devagar, é sempre assim. – disse a minha tia-avó. Depois, a minha avó
contou à minha tia que aquele casal nos tinha convidado a todos para passar
o Natal com a família deles. A minha tia ficou feliz com a ideia.
Quando chegamos à casa deles, a casa já estava cheia de familiares, na cozinha o cheirinho era intenso, já se viam rabanadas, mexidos, sopa seca, migas
doces e chocolate quente. Fomos ver o presépio, que lindo! Havia uma corte
ao lado que tinha palha, lenha e musgo e o menino Jesus estava deitado na
manjedoura. Tinha uma queda de água que aproveitaram para girar uma
estrela. Não demorou muito tempo a chamarem toda a gente para a ceia. Viemos todos numa correria até à mesa. Era uma sala muito grande, ao canto da
parede tinha uma lareira a queimar um grande tronco que iluminava e aquecia os nossos corações. Havia uma mesa para as crianças e a sopa já estava a
ser servida. Era tudo diferente da minha casa. Antes de começarmos a jantar,
o dono da casa levantou-se e começou a agradecer a Deus os alimentos que
tínhamos, também agradeceu pela minha avó ter aceite o convite. A seguir
trouxeram travessas com um peixe lilás, no início ainda pensei que era um
bacalhau diferente, mas depois a minha avó disse que era costume daquela
terra comer polvo. Fiquei admirada. A minha avó e a minha tia-avó pareciam
estar muito felizes com aquelas pessoas. Passaram a noite a beber vinho
nuns copos muito grandes e riam-se à gargalhada dos contos que o senhor
contava da família dele. Até descobriram que o nosso bisavô era primo do
avô do senhor. Quando chegou a hora das prendas, a minha avó repartiu por
eles todas as prendas que levamos, e nós recebemos um embrulhinho de
chocolates! Passamos lá a noite e de manhã, tomamos chocolate quente e
fomos à missa beijar o menino Jesus.
Nesse Natal aprendi que o Natal é mágico. Mesmo que não passemos o Natal
com a nossa família, somos todos irmãos, filhos de Deus, e podemos fazer
uma família mesmo com pessoas que conhecemos dentro de um comboio.
O importante do Natal é a partilha e a bondade que nasce dentro de nós.
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A ESSÊNCIA
DO NATAL
ALEXANDRA FREITAS
A neve caía graciosamente. Os cânticos ecoavam em todas as cidades. Estava
claro: o Natal chegaria em breve. E, ao mesmo tempo que decorriam todas
as preparações festivas desta época, um anjo chamado José vivia muitíssimo atarefado. Desde que começara a dizer as suas primeiras palavras que
Jesus lhe incumbira uma importante e especial tarefa: daí em diante, estaria
responsável por assegurar a felicidade de todas as famílias no dia de Natal.
Inocente e ingénuo, o pequeno José aceitou a sua missão de nobre vontade,
sem hesitar, ainda que inconsciente de toda a responsabilidade que lhe confiara o seu Mestre.
Durante os primeiros anos da sua vida enquanto ajudante do Senhor, o pequeno, viajando pelo mundo com o seu coração cheio de vida e movido pela
força do Espírito Santo, garantia que em todas as casas havia comida em
abundância e que todos recebiam maravilhosos presentes. Estas pessoas
que ele ajudava pareciam comemorar o nascimento do filho de Maria com
amor e em harmonia, o que o levava a pensar que estava a realizar o seu
trabalho de forma distinta e exemplar.
No entanto, o anjinho cresceu, tornando-se mais responsável e maduro. O
bastante para perceber que, no dia 25 de Dezembro, apesar de tentar satis-9-

fazer todas as necessidades das famílias, a maioria das pessoas apenas aparentava estar contente, escondendo um enorme vazio e tristeza latentes no
seu coração. Foi então que decidiu falar com Jesus acerca desta realidade e
Ele lhe respondeu: “Tanto esperei por este momento, José! Orgulha-me a tua
coragem, toda a tua honestidade e bondade. Chegou a altura de solucionares
esse problema.” Acabando de proferir tais palavras, o Senhor enviou-o a casa
de uma família que vivia na pobreza.
Subitamente, algo mudara. Os olhos de José cintilavam agora de compaixão, estava espantado! Uma mãe sentada no sofá estava a ler a Boa Nova
aos seus filhos e eles rejubilavam a cada palavra que ela proferia. Naquela
casa, não havia um farto banquete, ou presentes com chamativos embrulhos.
Como seria possível que nunca os tenha visitado anteriormente? Algo de
diferente estava diante de si, uma força inabalável. Ainda que lá fora houvesse
luzes a cintilar, as pessoas estivessem atarefadas a comprar os presentes de
última hora, eles ali estavam, serenos no quentinho da sua pequena casa. Não
estavam preocupados com o dinheiro que não tinham, ou com as imensas
dificuldades que passaram para estarem todos reunidos naquela noite tão
especial… Queriam apenas acolher o Menino nos seus corações e agradecer-Lhe todas as dádivas, toda a segurança que Ele lhes dava e a oportunidade
de poderem renascer em cada Natal. Foi então que o anjo encontrou a essência de tudo aquilo: o amor..

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O NATAL
DO JOÃO
HERMÍNIA ABELENDA
Situado entre pinhais, na encosta da serra, o Solar dos Carvalhais erguia-se
majestoso, captando os olhares curiosos de todos os que circulavam pela
região.
A importância deste solar remonta ao séc. XVIII. Não só era famoso pelo estilo
arquitectónico do edifício, mas também, pela carismática família aristocrata,
que o ocupava essencialmente na época natalícia.
João de Menezes era o último descendente desta família. Tendo apenas 10
anos de idade era uma criança frágil, introvertida, muito carente, mas com
um enorme sentido de partilha, não vendo com bons olhos as desigualdades
sociais e a opulência com que vivia a família em que estava inserido.
Nas férias divertia-se exclusivamente com Rita, filha dos feitores, menina de
parcos recursos e que, ao contrário do “fidalguinho”, era alegre e muito comunicativa. Extravasava felicidade em tudo o que dizia e fazia.
Certo dia, em plena quadra de Natal, numa das muitas brincadeiras, entre
ambos, João perguntou:
- Rita, gostas do Natal? O que representa esta festa para ti?
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A menina muito surpreendida pela questão, respondeu:
- Gosto imenso do Natal. Para mim é uma festa extremamente importante,
porque estamos em família. Celebramos o nascimento de Jesus e eu gosto de
fazer o presépio. Apenas fico triste porque há muita gente sem pão na mesa
e sem agasalhos para vestir. Há meninos, que nem sequer têm o aconchego
dos pais nesse dia.
João, pensativo e com muita atenção às palavras da amiga, retorquiu:
- Sabes, eu tenho tudo! Na noite de Natal costumamos cear em mesa farta.
Há bacalhau, peru recheado, rabanadas, sonhos, formigos, aletria, bolo-rei, bolos variados… Oh! Tanta coisa! Mas, eu fico sempre triste…
- Porquê? Tens família, presentes e uma casa tão linda!... Não há razão para
não te alegrares – disse Rita.
- Olha, eu tenho tudo isso, mas falta-me algo que não se compra, que é o
carinho dos meus pais. Estão frequentemente a viajar e sempre que o fazem
trazem-me presentes. Mas... eu queria apenas o colo deles e uns abracinhos
de aconchego.
Ritinha emocionou-se. Foi para casa pensativa. Como poderia ajudar o amiguinho? Queria dar uma prova de afecto ao João. Rapidamente tomou uma
decisão. Dirigiu-se à mãe sem hesitação e perguntou:
- Mãe, podemos convidar o Joãozinho a jantar cá em casa? Ele anda tão
triste!...
Os pais da Rita acederam, embora um pouco receosos da autorização dos
patrões.
Ao receber a resposta afirmativa do amigo ao seu convite, a menina sentiu
uma alegria imensa. Afinal os senhores tinham sido compreensivos!
João compareceu no dia combinado à hora de jantar. A senhora Ana cozeu
batatas com bacalhau e pencas. A sobremesa limitou-se a aletria e algumas
rabanadas.
Sentaram-se todos à mesa após terem agradecido a Deus os alimentos. Conversaram sobre a escola, as tradições natalícias e no fim de jantar o Sr. António, pai da Rita, fez questão que fizessem uns jogos divertidos.
João sorria, dava gargalhadas e os seus olhitos azuis brilhavam de contentamento. Nunca se sentira assim.
Por último, a Sra. Ana exclamou:
- Rita, Joãozinho, venham fazer o presépio!
Entusiasmados, pegaram no musgo, nas pedrinhas, nos paus e lá foram construindo a cabana, em cima de uma mesa, perto da lareira, Depois, colocaram
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as imagens e a estrela. Definiram o percurso até à gruta com areia e colocaram os reis magos.
- Está lindo! – Disse João encantado.
- Agora, que o presépio está pronto, vamos a casa dos vizinhos levar um prato
com aletria, fruta e umas roupinhas para as crianças, como costumamos fazer
sempre que esta época do ano se aproxima.
Era tarde. João regressou a casa, após se ter despedido da Rita e família. Estava tão bem disposto que os pais ficaram curiosos e perguntaram:
- Gostaste do jantar?
- Foi o dia mais feliz da minha vida!
Relatou à família tudo o que se tinha passado e formulou um desejo:
- Mãe, Pai, este ano não queria que gastassem dinheiro em presentes. Preferia que brincassem comigo, em vez de irem às compras.
Os pais cruzaram os seus olhares e perceberam a mensagem. João queria
apenas amor e carinho.
Então, resolveram tornar o Natal desse ano diferente.
Na noite da consoada, apresentaram uma mesa mais simples. Convidaram
a família do feitor e ainda os únicos vizinhos, gente humilde que vivia da
pastorícia.
Foi uma noite deslumbrante! Contaram histórias de Natal, recordaram alguns
antepassados, brincaram, enfim… houve partilha e convívio entre todos.
Por fim, o João ficou encarregado pelos pais de entregar um envelope com
dinheiro, para os sem-abrigo, numa instituição das proximidades.
A partir desse ano, todos os Natais foram vividos intensamente, com muito
amor e fraternidade.
Ah! Quanto ao João, cresceu, tornou-se um médico famoso e muito admirado
na região, pelo seu espírito de solidariedade bem vincado.
Hoje, o Solar dos Carvalhais já não é uma casa de aristocratas, mas sim o
“Orfanato João de Menezes”, onde o espírito de Natal é vivido todos os dias
com intensidade, por todos os que o habitam.

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UM NATAL
IGUAL NA
DIFERENÇA
JULIANA SÁ

Era uma vez um menino chamado Nicolau que tinha 10 anos e vivia numa
casa de acolhimento infantil desde os seus 2 anos. Os seus pequeninos e
tímidos 10 anos nada diziam sobre a sua forma de ver o mundo e encarar as
situações da vida.
Dia 15 de Dezembro e Nicolau já não aguentava as publicidades alusivas ao
Natal… bebés a falarem, casas com mil bonecas a tomar chá e até mesmo
estava farto daqueles bonecos que têm poderes sobrenaturais e são ídolos
de crianças pelas suas horríveis caras, pensava ele. Na sua opinião o Natal
era muito mais do que estava visível aos olhos das crianças, era mais que
brinquedos e dinheiro.
Nicolau tinha crescido naquela casa de acolhimento e nem tinha memórias
da sua família mas, ainda assim, tinha uma educação de amor e humildade.
Na verdade, não era igual aos seus colegas da escola… a sua mãe era a mãe
de muitos outros meninos e nem sempre sentia atenção.
Para ele o Natal era um acontecimento importante porque tratava do nascimento do menino Jesus, que segundo a Mãe Fátima, veio ao mundo para salvar meninos como ele, mas ele nunca vivia esta época festiva como os outros
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meninos e passava aqueles mágicos dias a imaginar como seria estar no seio
de uma família, ao calor de uma lareira reunidos pelo amor que os unia. Ainda
assim, Nicolau era feliz e amava os seus amigos e reconhecia o trabalho das
pessoas que trabalhavam para o ajudar.
Era dia 24 de Dezembro, a ceia de Natal. Tudo estava a decorrer como nos
outros Natais. Estava ele e mais 9 meninos com as suas 3 grandes mães em
volta de uma mesa a comerem batatas com bacalhau. Fizeram jogos e Nicolau estava feliz por sentir que não estava sozinho e, ainda que não ligasse
muito a brinquedos, recebeu um carro de brincar.
Passavam 5 minutos da meia-noite e Nicolau estava deitado na sua cama
a olhar pela janela do quarto. A lua estava enorme…e linda… lua cheia numa
noite de Natal, nunca ele visto uma lua tão brilhante e mágica. De repente,
algo inesperado apareceu na sua janela, uma espécie de família de pirilampos
aflitos que pareciam querer chamar Nicolau. Mas desapareceram e ele pensou que tudo foi uma loucura dele.
Nicolau adormeceu. Um sono rápido porque no seu sonho uma voz de tom
experiente e dócil disse “Nicolau, fica atento aos sinais que te são dados, és
um menino especial e o mundo precisa de ti.” Acordou de imediato, ainda
atordoado olhou pela janela e lá estavam as luzinhas e quase que jurava
ouvir “Nicolau, anda, rápido!” Ele levantou-se, calçou as pantufas e um roupão
comprido e quente e, de forma sorrateira saiu de casa, sem que ninguém
desse por isso.
Qual o seu espanto ao ver que os pirilampos estavam à sua porta, à sua espera, como numa daquelas salas de espera dos hospitais. E Nicolau começou a
segui-los. Eles estavam a levá-lo por um caminho estreito do bosque e lá ao
fundo ele conseguia avistar luzes e os pirilampos desapareceram.
O que Nicolau devia fazer? Ele não sabia o que estava a acontecer, primeiro a
lua, depois o sono, depois pirilampos… estaria ele a ter alucinações? Mas num
ato de ponderação, decidiu seguir o seu instinto e foi em direcção às luzes.
Uma casa?! O que que será que alguém queria que ele visse numa casa,
numa noite fria de Natal?!
Mesmo assim, Nicolau espreitou para dentro daquela pequena casa… Nem
podia acreditar! Ele agora tinha a certeza que era um menino especial. Naquela casa estava uma mãe, com profundas rugas vincadas no seu rosto a
repartir 2 pães com os seus dois pequenos filhos seguido de um enorme forte
e ternurento abraço.
Mais uma vez, Nicolau não sabia o que fazer… tudo o que lhe apetecia era
poder agradecer a Deus pelo que tinha e ter a possibilidade de ajudar quem
tinha menos que ele.
Foi exactamente isso que fez, rapidamente se pôs em casa e pegou no seu
presente de Natal, o carro, e num Bolo-Rei caseiro que fizera com os outros
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meninos e levou à porta daquela família. Não o fez para ser reconhecido, mas
sim para imaginar a felicidade daquelas crianças ao ver comida e presentes, e
daquela mãe que tanto amor tinha para dar aos seus filhos.
Quando em dois velozes passos regressou a casa, mesmo sem saber como
não tivera sido apanhado, Nicolau deitou-se a olhar para a lua e entendeu o
verdadeiro significado do Natal e viveu o resto da sua vida com um coração
enorme e cheio de amor para dar aos outros.

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ÍRIS E A
MAGIA DO
NATAL
MANUEL ARAÚJO

Certo dia nasceu uma menina. Era um bebé lindo, encantador. No dia do
seu batizado, pertinho do Natal, quando seus pais a levavam para a Igreja,
formou-se no céu um arco-íris. Seus pais compararam a beleza da filha com
este fenómeno da natureza, dando-lhe o nome de Íris.
Íris começou a crescer nas Terras da Maia, mas, depois da morte de seu pai,
veio com sua mãe viver para a pequena aldeia junto do rio, num magnífico
vale, com campos verdejantes, onde sua mãe, dona de casa, passou a trabalhar a terra. Com aquilo que produzia, conseguia sustentar a família.
Íris cresceu e foi para a escola. Tornou-se uma menina cheia de encanto e
beleza. Depressa conheceu outros meninos. Era bem comportada e naquela
aldeia todos se davam bem. Toda a gente conhecia a Íris, a menina de cabelos
dourados e olhos azuis brilhantes.
Os dias passam, as noites crescem, o céu começa a ficar ameaçadoramente
cinzento e o vento fica frio. É o Natal que se aproxima.
Todos os dias, terminada a escola, Íris ajudava sua mãe nas tarefas domésticas e nas colheitas que os campos produziam.
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Uma vez por semana passava na mercearia do senhor Manuel buscar o leite
que sua mãe preparava todas as manhãs antes de ir para a escola.
- Bom dia, senhor Manuel! - Dizia a Íris com um sorriso sempre estampado
no rosto.
- Bom dia, minha linda menina! - Respondia o senhor Manuel com um brilho
de alegria nos olhos - Só a tua presença alegra-me a alma!
- Está quase a chegar o Pai Natal, vou esperá-lo - Rematou a Íris. E sai a correr
pela margem esquerda do rio, ficando o seu longo cabelo louro a esvoaçar ao
vento, quase pareciam raios de sol.
Aproxima-se o Natal e Íris passa os dias com muita ansiedade à sua espera.
Recordava-se sempre do carinho que o Pai Natal lhe transmitia, da prenda
que recebia e que a fazia tão feliz.
Como via naqueles olhos azuis tanta alegria e felicidade, o Pai Natal passava
naquela aldeia muito vagarosamente. Já conhecia a menina de cabelos compridos, cor de ouro e olhos brilhantes. Prestava-lhe sempre muita atenção.
Mas este ano o Pai Natal atrasou-se e a Íris já estava preocupada porque os
meninos não iam receber os presentes.
- O Pai Natal já foi a tua casa? - Perguntou uma das meninas que vivia ao
lado da Íris.
- Não, ainda não passou e nunca se atrasa.
Como acharam tudo muito estranho, resolveram ir a casa do Pai Natal. Logo
que lá chegaram, bateram à porta.
- Quem é? - Ouviram uma voz rouca que parecia vir de longe.
- Somos nós, Pai Natal, as meninas da linda aldeia junto do rio. Estávamos
preocupadas.
- Entrem! - Disse o Pai Natal - Sabem, eu como não tenho despertador e
trabalhei muito durante o dia, adormeci e atrasei-me. Agora vamos, devem
estar todos muito ansiosos. Sigam o vosso caminho que eu ainda tenho de
passar por outros meninos.
- Vamos! - Disseram todos em coro.
Em casa da Íris havia uma árvore de Natal muito bem iluminada.
À noite, quando as únicas lâmpadas acesas eram as da árvore de Natal, a sala
parecia ficar com um brilho especial, como se aquela árvore fosse o centro
de todas as promessas do mundo. A árvore que transmitia felicidade, amor
e segurança.
- Olhem - Disse a mãe - está a nevar.
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Do céu, parecia chegar alguém.
Era noite de Natal e Íris viu ao longe um homem de barbas brancas e com
um saco enorme às costas. Logo pensou que dentro desse saco estariam as
prendas que todos esperavam.
Aos saltinhos, que alegria está a chegar o Pai Natal.
Deve vir de longe, deve vir de Lisboa.
Que bom, o Pai Natal nunca morre.
Íris sentia a falta do seu pai, sentia uma enorme saudade dos seus afetos e
carinhos e aquela noite era como se tivesse tudo de volta e nada lhe faltasse.
Como vivia no seio de uma família humilde, longe dos centros comerciais,
esperava com muita ansiedade pela prenda do Pai Natal.
O Pai Natal chega e deixa a prenda da Íris à entrada da cozinha.
- Ali está o teu presente, Íris - Disse o Pai Natal.
Ela nem queria acreditar no que os seus olhos viam. Encostada à porta da
cozinha estava uma bicicleta brilhante. Respirou fundo, aproximou-se e tocou
com muito carinho no presente que seus olhos admiravam.
Agradeceu muito ao Pai Natal. Mas, antes que o frio aumentasse, o Pai Natal
despediu-se, porque tinha de seguir viagem, queria que todos os meninos
ficassem felizes.
- HÔ, HÔ, HÔ - Vou andando.
- Obrigada, Pai Natal.
E muito contente Íris foi dormir, sonhando com o Pai Natal, esperando que
volte novamente.

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UM CONTO
DE NATAL
MANUEL PEREIRA

Naqueles dias de Dezembro, o diabo andava à solta na serra do Larouco.
Em Casal do Monte, pequena aldeia pousada numa das suas encostas, há
dias que a chuva e o vento castigavam impiedosamente as parcas gentes
e o gado abundante. Este, garboso e bem cuidado, era quase todo da raça
barrosã, a única que ainda valia a pena reproduzir e criar, dada a excelência
da sua carne e o valor acrescentado no mercado.
Os habitantes, quase todos avançados na idade – os mais novos foram em
demanda dum futuro mais feliz – formavam uma pequena comuna, ou se
quisermos uma grande família, onde a entreajuda era a matriz da sua vivência.
Ao começo da noite o vento uivava pelo penedio, e audaz, já lambia as paredes dos modestos casebres. A chuva mais uma vez não se fez rogada, e num
temporal medonho desabou cruel e fartamente, inundando lameiros e caminhos e algumas habitações começaram perigosamente a ceder. Era agora um
pequeno tornado e os carvalhos dançavam loucamente, alguns arrancados
pelo pé, ao mesmo tempo que as telhas das casas e cortes do gado voavam
quais pássaros tontos. A linha de água, pequeno ribeiro que tantas vezes lhes
matou a sêde e a fome ao regar as preciosas courelas das suas margens, era
agora uma torrente monstruosa que tudo arrastava na sua fúria. Não fossem
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os gritos da tia Rosa Coelheira e o António Ferrador já não teria tempo de
salvar o único tractor que havia na aldeia, já que nessa altura a água tomava
conta da eira onde estivera arrumado.
Enquanto as pessoas choravam aquela sorte madrasta a noite deu lugar a
uma aurora ainda tristonha, mas já sem chuva e com o vento amainado.
E era então tempo de fazer contas à vida. Fora dois porcos e algumas galinhas que desapareceram nas águas daquele rio que desta vez os atraiçoou,
nenhuma cabeça de gado faltava. O pior eram as casas e os abrigos dos
animais: eram necessárias traves, barrotes, ripas, chapas, pregos e principalmente telhas, muitas telhas. O ti Zé das Cortinhas prontificou-se a ir à vila
na sua velha carrinha à procura desta tralha toda. Mas eram tão grandes as
necessidades que aquilo não era empreitada para o tractor quanto mais para
a pobre carripana.
Estavam assim neste dilema, quando ouviram primeiro um leve rom-rom e
logo depois o ronco seguro de várias viaturas. Era gente do Outeiro, povoação que ficando a escassos quilómetros foi poupada ao temporal por estar
na encosta contrária.
Estes não esqueceram o que aconteceu há alguns anos atrás. Num verão
dantesco em que aquelas serranias foram varridas pelo fôgo que para além
dos pastos lhes queimou as searas de centeio e uma praga de míldio lhes deu
cabo dos batatais, foram os seus irmãos de Casal do Monte que lhes matou a
fome. Aqui estavam pois para ajudar. Não era evidentemente necessário que
estivessem em dívida para o fazer, mas assim sentiam-se duplamente felizes.
Naquelas povoações longínquas e esquecidas, absolutamente irrelevantes
até em tempos de eleições porque os votos são minguados e a desertificação
é uma ferida aberta, não há subsídios nem ajudas públicas. A aldeia é uma
vasta família e é com ela que se conta. E às vezes quando a empresa é grande
como agora após tamanha devastação, são os vizinhos os anjos da guarda.
Enquanto três viaturas partiam em direcção a Montalegre para buscar os artefactos necessários, várias equipas de homens das duas aldeias lançaram-se
ao trabalho perigoso de retirar as peças danificadas para a substituição que
se impunha. Os dois únicos rapazes que ainda paravam em Casal do Monte,
o Daniel e Quim Canaverde saíram com o gado da aldeia para a serra a espairecer um pouco. As mulheres entregaram-se aos tachos, pois dar de comer
àquela gente toda ía ser empreitada de se lhe tirar o chapéu.
Como é uso dizer-se por aqueles lados, Deus é grande. Voltaram os homens
com os materiais e desceram os outros que andaram encavalitados naquelas
paredes escorregadias. Ao contrário do que esperavam as cozinheiras, engoliram uma bucha para confortar os estômagos, e ála que se faz tarde, pois
a noite agora vem cêdo. O tradicional cozido tão generosamente preparado
podia esperar.
Os braços dos homens eram gruas e alavancas a içar e pregar traves e bar- 21 -

rotes e as mulheres ajudavam a passar as telhas de mão em mão. De tal
sorte foi a tarefa que ao anoitecer o mais importante estava feito. Todas as
casas estavam novamente cobertas, alguns ajustes far-se-iam no dia seguinte. Onde todos ajudam, tudo custa um pouco menos. Era agora o tempo de
fazer as honras ao almoço adiado e conviver, pois de convívio se tecia aquela
relação ancestral entre as duas aldeias.
Alguém alvitrou uma ida ao carvalhal em busca do madeiro. Aquele madeiro que pelo Natal sempre ardia no centro daqueles povoados aquecendo
corpos e corações. Abalaram pois e em pouco tempo estavam carregados
dois imponentes carvalhos, que caídos durante o temporal, iriam aquecer e
iluminar durante vastos dias as duas aldeias irmãs.
E foi assim que aconteceu, apesar das agruras da mãe natureza, um Natal
doce e feliz na ditosa aldeia de Casal do Monte.

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MADRUGADA
DE UM HOMEM
INCERTO
PEDRO ALMEIDA

Nesse dia acordou cedo. Alinhou a dobra do lençol abaixo do queixo e, deitado de costas na cama, esticou as pernas, curvando os dedos dos pés para
diante. Espreguiçava-se, tentava a custo reunir forças e a plena faculdade
dos sentidos. Acompanhando o instante em que despertara, quando se é
consciência e só depois, lentamente, membro a membro, corpo completo, a
evidência de que era dia de Natal tomou-o de imediato, como se fosse um
problema que exigisse solução urgente sobre o qual, por descuido, se deixara
adormecer.
Cerrou as pálpebras e esperou que ganhassem novamente espessura, se
tornassem opacas e o impedissem de ver, mesmo de olhos fechados, os filamentos de luz com que a manhã se ia anunciando através das frinchas das
persianas. Respirou fundo, até para si de forma inesperada, como se procurasse conforto de ânimos mas, lamentando a antecipação do dia à sua própria
alvorada, o que acabou por sentir foi algo de muito semelhante a um desgosto, felizmente logo refreado pelo estado sonolento em que se encontrava. De
manhã, vulnerável pelo sono, era esse o seu único desejo, irmanar-se com o
dia – fosse lá o que isso fosse – e despertar para o mundo com olhos frescos
de animal selvagem, mal se desenhasse a nascente a mais leve fímbria da au- 23 -

rora. Talvez isso justifique o despeito ainda há pouco referido, pois constatou
que apesar de ser dia de Natal não lhe calhou como presente a realização
de uma utopia.
Como fora a noite que terminava? Fria, chuvosa, nublada? Ele não sabia dizer,
ali, deitado, aonde não chegava o canto de qualquer pássaro matinal. Tinha
perdido a ascensão conjunta com a alvorada, por isso lhe serviu de consolo
lembrar-se do mar. Resta-me o mar, pensou, e, de olhos fechados, percorreu
mentalmente a distância que o separava do entroncamento com a estrada
marginal, por onde se acede ao passadiço de madeira que atravessa as dunas
e desce à praia. Evocando as noites de Verão que tão bem conhecia, vislumbrou o areal liso, repleto de minúsculas cintilações minerais no rasto do luar.
O mar, esse, era um mar ideal. Na forma como as ondas se sucediam, ordeiras
e indistintas, ele via um gigante domado, reduzido à delicadeza possível à
pujança dos músculos. Vento nenhum, indício algum de presença humana, só
ele e o seu espanto renovado a cada vaga – primeiro homem sobre a Terra à
procura de entender a perplexidade que lhe enche o peito.
A cadência das ondas, cujo som ouvia distintamente, em vez de o embalar,
teve o efeito oposto. Como força motriz de um moinho de água, desencadeou
nele o movimento de um mecanismo que o trazia à tona, o fazia emergir do
sono leve em que mergulhara. Toda a casa dormia. Ao seu lado repousava a
mulher que se encarregara da festa, que idealizara a decoração, preparara a
ceia, se desdobrara em atenções e desvelo. Embora não lho tivesse dito ainda
– talvez desconhecesse como fazê-lo, quais as palavras a usar, que ocasião
escolher – reconheceu-lhe a dedicação e o esforço, parecendo, então, que a
simples consciência disso, apesar de muda, seria o seu tributo mais genuíno.
Descobriu-se com cuidado, calçou os chinelos, vestiu o robe e dirigiu-se à
casa-de-banho. Abriu a porta e não achou necessário accionar o interruptor
da iluminação. Pela janela entrava uma luz pálida, reveladora de céu cinzento,
mas detentora da estranha virtude de iluminar os objectos nos seus contornos indispensáveis, resgatando-os da penumbra e da impessoal classificação
de sombras. Via-se o suficiente para que uma mão estendida não hesitasse
entre duas embalagens quando se quer gel de banho e não champô, condição mínima a garantir para que os gestos mecânicos, tão próprios destas
tarefas rotineiras, se executem sem estorvo.
Ao sair da cabine do duche foi recebido por uma nuvem de vapor, quase
palpável de tão densa. Confrontou-se ao espelho. Só ele não podia confirmar
se era quem julgava ser. As gotículas de água que cirandavam no ar, aderindo
a todas as superfícies, permitiam-lhe distinguir somente o emaranhado dos
cabelos, as cavidades mais escuras das órbitas, o volume do nariz e a protuberância dos lábios. Com um movimento circular, usando uma toalha, tentou
enxugar aquele orvalho que lhe dissolvia as feições mas, de imediato, outra
camada fina como película cobriu o espelho. Tentou recapitular as manhãs,
recordar a última vez que enfrentara tantas dificuldades ao querer barbear-se. Acendeu a luz sem grande convicção de que isso resolvesse o problema.
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Precisava de reagir, fazer qualquer coisa. Mais uma vez limpou o espelho com
a toalha. A névoa ia-se dissipando, os azulejos escorriam água e, no tecto,
como numa caverna, formavam-se gotas que a avaliar pelo tamanho cairiam
a qualquer momento. Começava a sentir frio, não podia aguardar mais. Deitou
espuma de barbear na palma da mão esquerda, pousou o recipiente que segurava com a direita e, com ambas, aplicou-a na cara. A surpresa foi imediata.
As pontas dos dedos deslizavam sem obstáculo pelo rosto, não se deparando
com a aspereza conhecida da barba a despontar. Inclinou a nuca para trás e
experimentou a pele do pescoço. O resultado foi semelhante: no fundo, era o
mesmo miúdo de anos atrás, nivelado diante do mesmo espelho com a ajuda
de um banco, enterrando os dedos numa massa de espuma branca espalhada sobre a face imberbe.
Um pouco assustado, esquecido por completo da lâmina de barbear, lavou a
cara, vestiu-se, compôs o cabelo como pôde e saiu da casa-de-banho. De volta ao quarto, embora caminhando com cautela para não fazer barulho, pontapeou algo encostado aos pés da cama. Ao som seco produzido pelo embate
seguiu-se o de peças soltas. Ficou imóvel, primeiro garantindo o equilíbrio,
depois, para não contribuir com movimentos que pudessem perturbar o sono
da mulher que entretanto se voltava na cama. Procurou palavras tranquilizadoras para dizer caso ela acordasse, quisesse saber que horas eram e o que
fazia acordado. Para seu maior embraço, aos lábios surgiram-lhe dois nomes
de mulher. Numa situação de necessidade não saberia qual deles usar, pois
tanto um como outro se mostravam adequados à sua voz, conhecia-os bem,
estava habituado a dizê-los.
Com alívio, deu conta de que o sobressalto não a acordara. Pegou no embrulho e desceu as escadas em direcção à sala do piso inferior onde, debaixo do
pinheiro enfeitado, se juntavam os presentes que as crianças da casa abririam
assim que despertassem. Logo à entrada, como que por magia enclausurada
naquela divisão onde as portas tinham permanecido abertas toda a noite,
notou a essência conjunta que se desprendia dos bolos, dos doces e das
frutas, exótica, completa e indefinível, onde cabia, também, o tom alaranjado
das brasas da lareira que entretanto se extinguiam. Reminiscências desse e
doutros Natais disputaram-lhe atenção mais demorada. Entre a realidade dos
acontecimentos e a recordação que deles tinha, este homem ficou de embrulho debaixo do braço, atónito face à súbita possibilidade de esse presente lhe
ser destinado: na noite anterior, impaciente mas tonto de sono, talvez fosse a
mulher que o deitara na cama a retirá-lo das suas mãos, esquecendo-se de o
voltar a pôr debaixo da árvore de Natal.

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DESEJOS
DE NATAL
RITA GOMES
Era uma vez, uma pequena cidadezinha, num pequeno país remoto do norte.
Essa cidade, muito pequena de facto (combinava com o país), era caracterizada pela abundância de florestas e pela escassez de casas e edifícios. No
entanto, tal caso não era sinónimo de desabitação. Pelo contrário, as casas
podiam ser poucas, mas em cada uma havia um número abundante de pessoas. Não eram só os pais e filhos que viviam juntos: juntavam-se pais, filhos,
avós, tios e primos. Deste modo, esta cidadezinha possuía, ainda, um número razoável de pessoas. Todavia, a subsistência dessas pessoas residia nas
frondosas florestas que existiam e cresciam em volta. Lenha, resina, frutos,
plantas medicinais, cogumelos e até mesmo alguns animais, faziam com que
as pessoas sobrevivessem. Não eram ricas. Mas também não eram pobres.
Viviam felizes, ou pelo menos quase todos achavam isso…
Nesse povoado, existia um orfanato. O único da cidade. Infelizmente, como
qualquer outra cidade do mundo acabavam por haver problemas: crianças
que eram abandonadas ou que, infelizmente, perdiam os seus pais ainda muito novos. O orfanato da cidade tomava-as e dava-lhes proteção e abrigo, até
serem suficientemente capazes para tomarem conta de si. E, apesar de parecer um pouco triste, a vida das crianças não podia ser mais alegre e divertida.
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Esse facto devia-se à coordenadora do orfanato e do seu pessoal. Eram eles
que tomavam conta das crianças, e todos os dias eram encantadores. Para
além de darem proteção, abrigo e comida às crianças, a coordenadora e a sua
equipa também davam algo sem o qual uma criança não pode viver: amor e
carinho. No conjunto, todos eles funcionavam como uma grande família. Bem,
todos eles, menos uma.
Era Natal. A época mais divertida do ano no orfanato. Entre as decorações, a
árvore e os doces, ainda se encontrava tempo para fazer lutas e bonecos na
neve. Todos se divertiam ao máximo. Exceto, Tulia. Tulia era uma menina de
10 anos, com cabelos ruivos, ondulados, olhos azuis e sardas tão ruivas quanto o seu cabelo. Infelizmente, Tulia teve a terrível experiência de ficar sem os
pais aos 3 anos, devido a um terrível acidente. Desde então nunca ninguém a
tinha visto sorrir. A coordenadora tinha feito de tudo para acolhê-la e fazê-la
sentir-se em família, mas nada parecia resultar. Além disso, Tulia possuía um
terrível temperamento.
- O que tanto olhas pela janela? Queres ir brincar com os outros meninos?
– perguntou a coordenadora, limpando as suas mãos cheias de farinha, por
causa da sua tarefa açucarada a um pano, a Tulia que se encontrava sentada
na beira da janela.
- Não. – respondeu Tulia de forma concisa e ríspida – O que eu quero não
posso encontrar aqui.
A coordenadora suspirou. Era sempre o mesmo, todos os anos. Da primeira
vez que fez a pergunta à pequena, pensou que ela estava a referir-se aos
seus pais, mas ficou surpreendida pela resposta.
- Devias de estar agradecida, pequena. Sei que não temos muito, mas pelo
menos vivemos o verdadeiro espírito de Natal.
Tulia olhou pela primeira vez para a senhora com a qual falava.
- Aqui não há nada. O ano passado recebi um trapo de presente.
- Era uma boneca feita à mão.
- Não. Estava toda mal cosida. Os olhos eram botões e nem sequer eram
iguais. E o cabelo de linhas de lã. – virou-se de novo para a janela a encarar a
neve que caía do grande céu azul escuro – Estou farta de estar aqui.
A coordenadora sentou-se ao lado de Tulia a encarar o exterior. Ficaram em
silêncio durante um momento, mas este logo foi quebrado.
- Bem, querida, o Natal é altura de milagres – afirmou a coordenadora enquanto alisava o cabelo de Tulia – Tenho a certeza de que se pedires um, ele
vai acabar por se realizar.
A mulher levantou-se e deixou Tulia, novamente, sozinha. A menina olhou
para o céu, para as nuvens cinzentas e para os pequenos flocos de neve
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que caíam. Depois olhou, para o canto, onde se encontrava a árvore de Natal do orfanato e mais importante, o grande presépio. A coordenadora tinha
ensinado a todas as crianças dali que se tivessem fé nos seus desejos, eles
poderiam vir a realizar-se. Tulia nunca acreditou muito nessas histórias da
carochinha, mas não custava nada tentar e Tulia queria muito, mas mesmo
muito uma só coisa.
Foi até ao canto e ajoelhou-se perto da árvore de Natal. Juntou as mãos e
fechou os olhos com muita força.
- Por favor, por favor… – suplicou ela – Faz com que o meu desejo se realize.
Quero uma grande casa, com muitas prendas e com muitas outras coisas.
Coisas com as quais me possa entreter. Com tudo do bom e do melhor. O
meu desejo de Natal é este: quero uma família que me possa oferecer isto
tudo.
Tulia abriu um olho e depois o outro. Olhou à sua volta. Não sabia muito
bem do que estava à espera, mas tudo parecia igual. Levantou-se um pouco
desiludida.
- Já sabia que estas coisas não davam em nada.
O Natal acabou por passar. Tudo correra igual aos outros anos. Todos gostaram da consoada (menos a Tulia). Todos gostaram dos presentes (menos a
Tulia). Todos gostaram do ambiente (menos a Tulia).
Mas foi uns poucos dias após esse Natal que tudo mudou. Estranhamente,
apareceu um casal no orfanato que dizia querer adotar uma criança. E diz-se
estranhamente porque o casal não parecia dali, daquela cidadezinha, querse dizer. Aliás, eles destacavam-se e muito dos outros habitantes. Neles não
havia estampada a pobreza da cidade, mas sim uma beleza e elegância extraordinária.
Tulia foi a primeira a reparar neles e ficou estonteante quando soube que
aquele casal andava à procura de uma criança. Enquanto a coordenadora
lhes mostrava o espaço, Tulia fez de tudo para ser notada.
E pode dizer-se que as suas ações deram frutos. Quando a coordenadora
perguntou ao homem e à mulher que criança é que eles tinham em mente,
ambos concordaram que tinham adorado Tulia. Tulia ficou radiante. Finalmente, o seu desejo iria realizar-se.
Quando os papéis para a adoção ficaram prontos, Tulia partiu para a grande
cidade com os seus novos pais, deixando para trás o orfanato.
Alguns anos se passaram e Tulia cresceu. Era agora uma jovem. Vivia numa
grande e bela mansão. Não lhe faltava nada: comida, roupas, brinquedos e
outras coisas com as quais passava o tempo. Tinha dinheiro para ir onde
quisesse, quando quisesse. Nos primeiros anos Tulia não poderia estar mais
feliz. Afinal, o seu desejo tinha-se finalmente tornado realidade.
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A ilusão de que tudo o que queria na vida estava ao seu alcance, realmente,
perdurou ao princípio. No entanto, Tulia foi-se apercebendo de algumas coisas à sua volta.
Os novos pais de Tulia eram muito ocupados. Quase nunca os via. Ela passava os dias com uma ama e o resto dos empregados da mansão. Além do
mais, havia um pormenor que estava a perturbar Tulia. Ao princípio achou estranho, mas não deu muita importância, todavia, agora, estava a incomodá-la:
ao contrário de todos os seus amigos da escola, clubes e outras atividades
extracurriculares, Tulia não tratava os seus pais por ‘pai’ e ‘mãe’, mas sim pelos
seus nomes verdadeiros. Isso foi uma realidade que ficou estabelecida logo
à sua chegada.
Tulia nunca perguntou o porquê e também pouco se importou. Agora, que
aquela realidade tomava conta de si, não podia questionar porque raramente
via os pais.
Era outra vez época de Natal, e Tulia estava sentada na grande cama do seu
enorme quarto. O quarto estava todo mobilado a seu gosto, com coisas que
ela própria pediu ou ia pedindo aos seus pais. E era exatamente isso que ela
estava a fazer. Sentada na cama, escrevia uma lista com tudo o que queria receber no Natal. Todos os anos era a mesma coisa. Ela fazia a carta, a ama entregava aos pais e no dia de Natal todos eles apareciam em baixo da árvore.
Normalmente, Tulia ficava contente com isso, mas este ano sentia-se vazia e
estava, de facto, com dificuldades em escrever as suas pedinchices. Um pouco antes tinha perguntado à sua ama se os pais vinham passar o Natal a casa.
A ama deu-lhe a conversa fiada de todos os anos ‘a menina compreende que
eles são muito ocupados’ e ‘eles também queriam passar o Natal consigo’
e ainda ‘mas eles vão compensá-la dando tudo o que a menina pedir, sim?’
Tulia olhou para a folha em branco à sua frente. Começaram a aparecer pingos de água no branco do papel e Tulia apercebeu-se de que estava a chorar.
Olhou em volta do quarto analisando todas as coisas que tinha adquirido
desde que ali chegara, e o que antes lhe providenciava uma felicidade desmedida, agora só lhe deu um nó no peito. Tulia olhou de novo para a folha,
escreveu meia dúzia de palavras e depois aninhou-se, juntando a face aos
joelhos e deixando as suas lágrimas correrem livremente.
Na véspera de Natal, Tulia estava na grande sala da mansão. Toda a sala se
encontrava rigorosamente decorada, com uma grande árvore e um grande
presépio dispostos num canto. A, agora jovem, encontrava-se sentada à janela a olhar para o exterior. Estava a nevar, e enquanto Tulia admirava o céu
azul-escuro e os flocos de neve, pensava na sua vida. Principalmente na sua
família. Se é que ainda se podia ser chamado de família. Tulia deu um sorriso
triste. Não, não podia. Véspera de Natal e ela estava mais sozinha do que nunca. Uma grande mesa estava posta para ela e só para ela. Os pais não iriam
mesmo aparecer. A esta altura, Tulia já nem sabia se podia designar aquele
homem e aquela mulher como pais. Os pais não tratam assim os filhos. Tulia
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continuou a observar a neve com um olhar perdido. Foi, então, que do lado de
fora, viu as crianças da vizinhança a brincarem na neve. Uma luz iluminou-se
na sua consciência e ela recuou em memórias.
- Os milagres de Natal… - sussurrou.
A sua cabeça virou-se em direção da árvore e do presépio. Levantou-se e
muito devagarinho foi aproximando-se. Olhando fixamente, ajoelhou-se e
juntou as mãos. Fechou então os olhos e sussurrou algumas palavras. Abriu
os olhos e olhou em volta. Suspirou e então reparou numa coisa que estava
pousada em cima da mesa. Chegou-se perto e pegou no pequeno quadrado
de papel: uma foto. Uma foto dos seus dias passados no orfanato. Tulia sorriu.
Já sabia exatamente o que fazer.
Saiu de casa às pressas e fez o seu caminho até à cidadezinha onde uma vez
viveu. Foi fácil chegar até lá. Tulia encontrava-se agora fora do edifício. Não
sabia bem o que dizer, nem o que fazer. Decidiu espreitar pela janela. Nada
tinha mudado, a mesma mobília, as mesmas repartições, as mesmas coisas e,
mais importante, o mesmo ambiente de alegria e amor.
Tulia entrou, então, de rompante para dentro. Era a noite mais feliz do orfanato: a Véspera de Natal. Tulia reconheceu a coordenadora do orfanato, agora
um pouco mais velha. Ficou especada sem saber o passo seguinte. A coordenadora que brincava com umas crianças olhou para a porta. Observou-a um
momento e depois sorriu.
- Bem-vinda a casa – disse ela.
De repente os olhos de Tulia encheram-se de lágrimas.
- A senhora reconheceu-me…
- É claro. Eu nunca esqueço nenhum dos meus meninos – afirmou oferecendo um dos seus sorrisos característicos. Aqueles sorrisos que aqueciam o
coração das crianças – Vens para a ceia? Podes vir. Não custa nada pôr mais
um lugar. A comida é que não é… - a coordenadora foi interrompida quando
Tulia se abraçou a ela.
- Sim. Sim, por favor. Eu quero muito ficar.
A coordenadora sorriu e abraçou-a também, um pouco preocupada com o
motivo do choro. Tulia limitou-se abraçá-la mais forte e a sorrir. Finalmente,
estava em casa. O seu desejo de Natal tinha sido novamente concedido e
desta vez ela tinha a certeza de que tinha pedido o desejo certo.

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Todos os contos presentes neste livro,
são da total responsabilidade dos seus
autores. Neste sentido, poderão ser, ou
não, escritos segundo o novo Acordo
Ortográfico, por opção do autor.

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FINANCEIRO