Aconsenlhamento Psicológico em Instituição: algumas considerações sobre o Serviço de

Aconselhamento Psicológico do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
Profa Dra Maria Luisa Sandoval Schmidt

I
No filme de Bernardo Bertolucci, baseado no livro de Paul Bowles, O céu que nos
protege, há um diálogo inicial dos três personagens que desembarcam num porto da África
do Norte. Os personagens são um casal e o amigo que os acompanha.
Amigo: Terra firme. Devemos ser os primeiros turistas desde a guerra.
Mulher: Somos viajantes, não turistas.
Amigo: Qual a diferença?
Marido: O turista pensa em voltar para casa assim que chega.
Mulher: E o viajante pode nem voltar.
O turista e o viajante metaforizam disposições e posições possíveis, sempre em
tensão, no trabalho institucional: o turista, nesta metáfora, aponta para as dimensões mais
propriamente instituídas, burocratizadas e hierarquizadas da máquina institucional e o
viajante remete às reservas e às forças instituintes sempre passíveis de emergir,
desestabilizando e reinventando a instituição.
Ao iniciar este recorte analítico do trabalho desenvolvido pela equipe do Serviço
de Aconselhamento Psicológico do IPUSP, gostaria de destacar que este trabalho vem
sendo sustentado pelo desejo de fazer prevalecer a disposição e a posição do viajante,
embora, muitas vezes, no cotidiano dos afazeres teóricos e práticos, busquemos abrigo nas
regiões do familiar e do instituído.
II
Minha intenção, nesta exposição, é a de me ater à concepção de Aconselhamento
Psicológico que vem sendo construída no SAP, buscando estabelecer uma certa linhagem
das idéias que norteiam a prática institucional que ali se desenvolve.
Começo com uma breve notícia histórica sobre os primórdios do Aconselhamento
Psicológico, para salientar que suas práticas estiveram, desde a origem, vinculadas às
instituições, especialmente às educacionais.
Nos Estados Unidos, o Aconselhamento Psicológico iniciou-se através da Teoria
Traço e Fator que é representativa dos conceitos básicos e tradicionais desta área.
Estreitamente relacionada aos estudos e pesquisas no campo da psicometria, portanto,
ancorada numa tradição de investigações executadas sob condições metodológicas
rigorosas desde uma perspectiva positivista, esta teoria teve um desenvolvimento
concomitante ao da Orientação Vocacional e ao da Orientação Educacional, enfatizando
o ajustamento educacional e profissional, bem como a atividade de Aconselhamento

especialmente ao mundo do trabalho. através da aprendizagem. abrangentes e educacionais do Aconselhamento. priorizando a adaptação e o ajustamento do indivíduo à sociedade. diferenciado-o das psicoterapias. Como modelo de excelência. na verdade. Partindo das premissas de que o homem só tem existência significativa em comunidade e de que o desenvolvimento humano necessita cuidados. A visão de Aconselhamento Psicológico cunhada pela Teoria Traço e Fator aproxima-o de uma certa visão de educação: Os objetivos não se limitam ao indivíduo e à sua auto-realização.2 Psicológico realizada no ambiente escolar. enfatizam o estudo e a intervenção a nível do contexto e grupo sociais a partir dos quais o comportamento dos aconselhandos ganham significação. ao mesmo tempo. em primeiro lugar. afetos e ações dos indivíduos. essas duas atividades apresentam características claramente diversas. senso estético. As práticas derivadas da Teoria Traço e Fator delimitaram um campo específico de atuação do psicólogo e. como diagnóstico e tratamento das chamadas “doenças mentais”) e atento às dimensões psicológicas dos processos educacionais e vocacionais. que integra.. É uma preocupação dos adeptos dessa teoria demonstrar os aspectos mais amplos. a fim de se proteger contra o perigo de facilitar o desenvolvimento do individualismo extremado e da individualidade anti- . orientação educacional e vocacional.o uso do termo clínico em Aconselhamento não manifesta uma tentativa de identificação com a psicoterapia. Em segundo lugar. deram a esta atuação um caráter distinto do tratamento clínico. pois. a definição de um campo mais abrangente do que o estritamente clínico (compreendido. (SCHEEFFER. 25) Os objetivos definidos como educacionais colocam os conselheiros como agentes da norma. no seu contexto. No aconselhamento. ajuda e assistência. conduta ética são alguns destes valores. sobretudo. 1976). complementariamente. Estas práticas delimitaram. avaliando e julgando segundo valores claramente explicitados como meta e sustentação de sua prática: solidariedade social. denâmica da personalidade e de relações interpessoais. neste caso. o conselheiro atua de forma diretiva e ativa. do ponto de vista da teoria traço e fator. Seus conceitos básicos referem-se à unidade organismo/ ambiente da qual deriva o reconhecimento da influência do grupo social como base para as percepções. a Teoria Traço e Fator atribuíu ao Aconselhamento Psicológico a tarefa de promover o ajustamento atual e remoto do indivíduo ao seu meio. Desta suscinta apresentação da teoria inaugural do Aconselhamento Psicológico é importante reter. correspondia ao Aconselhamento Psicológico. em complementariedade com fatores endógenos e constitucionais. cujo produto final seria um indivíduo autocentralizado e despreocupado com o bem-estar do outro. como no caso da Orientação Educacional e que. . de uma norma civilizatória. é preciso considerar-se a sociedade. inicialmente. vale ressaltar uma certa vocação institucional que se insinua nestas primeiras práticas de Aconselhamento Psicológico e que remetem não apenas à sua inserção em instituições escolares mas. no pensar e no comportamento. p. 1976. um certo campo que. respeito ao homem como fim. à criação de dispositivos teórico-práticos que já contêm um esboço de respostas a demandas institucionais.. (SCHEEFFER.

resolução de problemas educacionais ou vocacionais . especialmente no que diz respeito aos métodos de trabalho e à concepção do poder do especialista. Mas isso não implica em um enfoque atomístico da natureza humana. persuasão. contudo. fortes elementos retrógrados. próxima da interdisciplinariedade. a uma certa vocação para ler e responder a demandas institucionais e sociais através de dispositivos psicológicos e educacionais que ensejam uma definição mais ampla e plural das tarefas do psicólogo e. aquisição de hábitos de cidadania e de valores sociais adequados. A guisa de conclusão. III Partindo de uma atividade predominantemente calcada no modelo hagemônico à época de sua iniciação profissional . principalmente. Há. pouco a pouco. confiante no poder da educação como meio para atingir uma “boa adaptação” social do jovem e apoiada na crença no valor preditivo dos testes de aptidões e de personalidade. e a individualidade só se configura realmente no contexto do relacionamento com outros indivíduos. historicamente. do instrumental de avaliação para a relação cliente-conselheiro. contém elementos progressistas de grande interesse para aqueles que buscam definí-lo e praticá-lo num eixo de maior abrangência do que o das psicoterapias. pouco a pouco. sugestão. Do interior da prática psicométrica que respaldava um conjunto de técnicas diretivas adotadas pelo conselheiro. tal como instaurado nos Estados Unidos a partir da Teoria Traço e Fator. A chegada de Carl Rogers ao campo de Aconselhamento Psicológico assim configurado abre passagem para uma série de deslocamentos que revolucionam teórica e praticamente este campo. acenam para uma colaboração deste profissonal com outros de áreas afins. do resultado para o processo. 28) Esta perspectiva. Ou seja. vive um primeiro momento autoritário no qual os focos de sua atenção . (. . (SCHEEFFER. A seguir. prescrições.Rogers foi. transformando.) O aconselhamento.são trabalhados através de técnicas de sugestão e persuasão. reconfigurando o campo do Aconselhamento Psicológico e abrindo uma perspectiva mais propriamente clínica para o trabalho de psicólogos. inspirações progressistas ali contindas. retomam. dão visibilidade a críticas frontais às idéias e práticas ligadas à Teoria Traço e Fator e. acompanhado da utilização de dispositivos técnicos visando a mudança de comportamentos na direção da superação de desajustes ou da realização de tendências . embora não explitamente. como a educação. tais como. foi se impondo: aquela que localiza o Aconselhamento Psicológico como um “tipo” de psicoterapia. para aqueles que buscam inverter a concepção que.aprendizagem de determinadas disciplinas. ao mesmo tempo.uso de testes para diagnóstico de tendências e desajustes na personalidade. p. (SCHMIDT. tendo como parâmetro justamente estes deslocamentos que. reconhece a característica única e singular da individualidade. também. em alguns casos.. com veementes tentativas do conselheiro de induzir o orientando a certos comportamentos e atitudes. em outros. passo à análise do percurso rogeriano. é possível afirmar que o campo do Aconselhamento Psicológico. Rogers foi deslocando os focos de sua atuação: do problema para a pessoa do cliente. 1976.. 1987). pois os indivíduos são essencialmente interdependentes. Estes elementos progressistas estão ligados.3 social.

( JORDÃO. sua tradução técnica. 123). 1987. para outras esferas: da educação. retornar ao diálogo com o campo do Aconselhamento Psicológico tal como inicialmente configurado pela Teoria Traço e Fator. sua complementariedade. 1977.no ambiente psico-social é condição necessária e suficiente para o desenrolar de processos de aprendizagem subjascentes ao crescimento e à mudança. nos encontramos con muchas más preguntas que respuestas en lo referente al processo y el contenido del . tomando distância com relação à intenção de traçar uma certa linhagem de idéias que dão sustentação à prática do SAP. Não é propósito desta exposição deter-se na discussão desta vertente temática. A segunda refere-se ao poder do especialista. em seguida. em decorrência. das comunidades de aprendizagem. então. Rogers. 1966. posteriormente. deriva a equação básica segundo a qual a presença de determinadas atitudes . No livro Psicoterapia centrada em el cliente.” (p. com alunos em formação.tendência atualizante . Desta interrogação. tampouco.empatia. dos pequenos grupos. É importante reter os termos desta equação e. Isto implicaria na necessitade de fazer um percurso muito mais longo e tortuoso. la terapia es un processo de aprendizagem. seus modos de relação com aquilo que acontece com clientes em psicoterapia ou participantes das diferentes propostas grupais ou. examinar as críticas que podem ser erguidas contra a transposição da equação básica para as esferas anteriormente citadas. Tomando como pressuposta a existência de uma tendência ao crescimento e ao desenvolvimento . Rogers interroga-se sobre as condições necessárias e suficientes para que a atualização desta tendência à maior complexidade e integração dos organismos ocorra nos seres humanos. MORATO. 1994). en el estado atual de las ciências psicológicas. 1987. faz uma observação sobre a relevância da psicoterapia para a compreensão da aprendizagem: La rica experiencia terapéutica puede contribuir en gran medida a nuestro conocimiento de lo que es el aprendizage significativo. para e no contexto psicoterápico é transposta. congruência e aceitação incondicional positiva . ao realizar os deslocamentos já mencionados. ainda. ROGERS. sua concretização. da intervenção institucional e das experiências com grupos transculturais. de modo próprio. abre. alimentadada pela observação clínica e por pesquisas empíricas.referida ao desdobramento natural de certas potencialidades e presente em todos os organismos vivos. Rogers define a psicoterapia como processo de aprendizagem. à transposição de descobertas realizadas nesta esfera mais propriamente clínica para outras esferas da atividade humana. A primeira diz respeito justamente ao papel desempenhado pela aprendizagem no entendimento da psicoterapia e.4 Estes deslocamentos estão na origem das formulações teóricas e das propostas psicoterápicas que Rogers foi construindo e que derivaram na equação básica através da qual compreende os processos psicoterápicos e de aprendizagem. E. duas ordens de questionamentos importantes para uma redefinição do área do Aconselhamento Psicológico e para a compreensão do processo de institucionalização da profissão de psicólogo. Luego. A tematização das atitudes que configuram as condições necessárias e suficientes para o desenvolvimento dos processos de aprendizagem. y también puede ganar mucho con la integración de los conocimientos anteriores acerca del aprendizage y los hechos conocidos con respecto a la terapia. é recorrente em toda a obra de Rogers. Esta equação formulada. WOOD. nem. primeiramente. diz textualmente: “en términos generales.

. legitima a prática psicoterápica de psicólogos. resolve problemas conjugais ou apaga o estado psicótico. abraçando objetivos mais claramente educacionais. um desdobramento desta análise do percurso rogeriano que gostaria de destacar. p. como já se disse. 76). resgata a possibilidade de atuação do psicólogo em contextos grupais e institucionais. Por aprendizagem significativa entendo uma aprendizagem que é mais do que a acumulação de fatos. os pontos de chegada deste processo? (ROGERS. existe no interior da proposta de Rogers uma abertura para o trabalho pluriprofissional baseado em suas idéias. As respostas que vai encontrando tendem. tais como: medicina. o aconselhamento no eixo da adaptação/desadapção social. pesquisa de opinião. que não se limita a um aumento de conhecimentos. terapia de grupo. na orientação da ação futura que escolhe ou nas suas atitudes e na sua personalidade.5 aprendizage que tiene lugar en la psicoterapia. passam a ser importantes para outros campos de atividade humana. Isto remete a uma reconsideração do que seja aprendizagem a partir das descobertas feitas no campo clínico. a apagar as fronteiras entre psicoterapia e aconselhamento e . uma aprendizagem “quente”. Nesse sentido. 1977. se condensam na equação básica. É uma aprendizagem penetrante.. quais parecem ser as características intrínscecas. conflitos interpesoais e interculturais. a proposta rogeriana também se distancia de um modelo médico-curativo. Há. (ROGERS. respondendo a demandas de ordem coletiva e. Sem se identificar com objetivos educacionais. Esta observação insinua a presença de processos de aprendizagem de uma natureza e qualidade que ele qualifica de significativa: uma aprendizagem que integra aspectos cognitivos e afetivos. Sendo a equação básica válida para múltiplos contextos grupais e institucionais e estando referida à promoção de crescimento e desenvolvimento de potencialidades. ao mesmo tempo. uma “verdadeira” aprendizagem ou. se é que existem. 123/124). É uma aprendizagem que provoca modificação. a revelar a abrangência dos processos de aprendizagem significativa. quer seja no comportamento do indivíduo. Estas descobertas que.) a aprendizagem significativa é facilitada na psicoterapia e ocorre na relação terapêutica. Diversamente. Rogers designa as relações de ajuda como o locus destas possibilidades. mas que penetra profundamente todas as parcelas de sua existência. tendo como conseqüência a própria ampliação e diversificação do campo de aconselhamento psicológico para além das práticas psicoterápicas. grupos gerenciais e inter-raciais. é norteado. Rogers não pergunta se o processo psicoterapêutico centrado no cliente cura neurose obssessiva. ( ROGERS. No bojo desta perspectiva acontece como que um transbordamento do campo mais tradicionalmente considerado como clínico e uma espécie de apagamento das fronteiras aparentemente bem delimitadas que buscavam separar a psicoterapia e o aconselhamento: a psicoterapia definida no eixo da saúde e doença mental. por um lado. p. 258). educação. atendo-se a objetivos “curativos”. Trazendo à tona uma larga região de possibilidades de atuação de profissionais das áreas ligadas aos assuntos humanos. ainda. em suas investigações. pp. que direção ou direções adota e quais são. por outro. 1966. basicamente. 1977. por perguntas do tipo: qual a natureza deste processo?. ainda. Ele diz: . Rogers assim a define: (.

a maturidade. uma definição que acolhe a idéia de participação igualitária de leigos e profissionais na construção de situações propícias à aprendizagem significativa. que Rogers abdica da construção de teorias de personalidade.) Em resumo. Refere-se às manobras. entende-se que Rogers inspira uma definição de Aconselhamento Psicológico que responda às diferenças e singularidades individuais. É notável como os escritos de Rogers. grupos ou instituições. institucionais ou não. um melhor funcionamento e uma maior capacidade de enfrentar a vida. um dos aspectos mais expressivos de sua influência cultural nas esferas da psicologia e da educação. Refere-se ao locus do poder de tomar decisão: quem toma as decisões que. parece que ele está menos interessado em defender e justificar a existência de uma área de atuação específica e exclusiva de psicólogos e mais interessado na multiplicação dos espaços constituídos por relações de ajuda. às estratégias e táticas. ao longo do tempo.ou compartilhado. tenta obter. no uso psicológico e social atual. consciente ou inconscientemente. também. (. talvez. Em decorrência. a compreensão da dimensão política das propostas de Rogers. 43). grupal ou institucional . controle. requer.. Para ele. É. 1977. (ROGERS.6 Entendo por esta expressão uma relação na qual pelo menos uma das partes procura promover na outra o crescimento. também. Esta mesma convicção sobre a função do especialista aparece quando . A radicalidade da posição de Rogers no que diz respeito ao poder do especialista é. Basicamente. primordialmente. Política. a partir de sua constituição como facilitador. compartilhar ou delegar poder e controle sobre os outros e/ou si mesma. mas. ou abandonado.relação dual. como agente capaz de fornecer as condições necessárias e suficientes (clima psico-social não ameaçador) para o desencadear de um processo criativo de desenvolvimento junto àqueles a quem se dirige: clientes. trata-se de colocar em curso modos de compartilhar o poder e o controle. O lugar do especialista é problematizado pois. possuir. informada pela capacidade de viver e traduzir em palavras e gestos as atitudes básicas.. vão cada vez mais dirigindo-se a um público ampliado de leigos e especialistas. p. obtido . (ROGERS. em diferentes âmbitos . entendendo que cabe ao “especialista” criar as condições propícias para que aqueles envolvidos em processos de aprendizagem construam suas próprias teorias sobre os fenômenos psicológicos e interpessoais. para o facilitador. 1978. 14). regulam ou controlam os pensamentos. compartilhar ou abandonar poder. Ou seja. p.configura-se. de desenvolvimento e psicopatológicas. intra e extra profissionais. sentimentos ou comportamentos de outros ou de si mesmo. refere-se a poder e controle: o grau em que a pessoa deseja. Rogers advoga que a inserção do conselheiro. também. é o processo de obter. pelas quais tal poder e controle sobre a própria vida e a de outros é procurado. tomada de decisão. Este último comentário conduz à apreciação da segunda ordem de questionamentos introduzida pelo pensamento de Rogers no campo do Aconselhamento Psicológico: o questionamento sobre o poder do especialista. em nome dessa radicalidade. grupais e institucionais. Esta função de facilitador.

. que aliavam à ilusão de um saber absoluto a aplicação de dispositivos coercitivos e restritivos no trato com a clientela. Implica.  Creio que aquilo que se pode ensinar a outra pessoa não tem grandes conseqüências. nesta caracterização do campo de Aconselhamento Psicológico enquanto região de fronteira.7 discute a educação. por um lado. como pouca ou nenhuma influência sobre o comportamento. através da potencialização de recursos psico-sociais presentes na clientela. eu não posso ensinar a outra pessoa a maneira de ensinar. também. devemos a Henriette T. mas uma constelação de idéias que fundamentam e orientam nossas ações. Do ponto de vista teórico.  (. a abertura para o estudo e o trabalho . As pessoas teriam de reunir-se se quisessem aprender. isto implica acolher autores e textos de diferentes origens e filiações que possam ajudar na interpretação dos fenômenos com os quais nos deparamos no enfrentamento das demandas que nos chegam. Por outro. Esta clarificação não é uma definição propriamente dita. representa um contraponto teóricoprático às tendências autoritárias. abandonando posições teóricas que se mostrem incompatíveis com a realidade vivida. P. (ROGERS. atento às singularidades e pluralidades psico-sócio-culturais da clientela e firmemente dirigido pelo desejo de aprender nas situações concretas oferecidas pela atividade cotidiana.  Quando considero os resultados do meu ensino passado. o esforço de responder às demandas por ajuda psicológica através de uma compreensão psico-sócio-cultural destas demandas e. 1977.acadêmicas. Reconhecemos. IV A partir dos elementos expostos até aqui é possível esboçar uma clarificação da concepção de Aconselhamento Psicológico que subjaz à prática do SAP..)  Uma tal experiência implicaria que se deveria renunciar ao ensino. tais como:  Segundo a minha experiência. pp. permitindo-lhe fazer afirmações de intenso impacto sobre uma audiência de educadores confiantes em seu poder de ensinar.ou foi prejudicial ou nada de significativo ocorreu. Do ponto de vista da definição do campo da Aconselhamento Psicológico esta dimensão mais propriamente política ajuda a definí-lo como um campo afeito a práticas democráticas. Morato a feliz expressão: o Aconselhamento Psicológico é uma região de fronteira. ou seja. Primeiramente. ao mesmo tempo. concebidas no interior do “boom” da psicometria. aqueles que circulam nos contextos culturais de grupos e instituições não. convida a uma reflexão constante sobre os modos de produção e apropriação dos saberes especializados em sua relação com os modos de apropriação e produção dos saberes “leigos”. a conclusão real parece ser a mesma . 253/254/255). Fronteira das práticas que tradicionalmente são identificadas como clínico-psicológicas e educacionais e fronteira de recursos teórico-práticos de diversas disciplinas afeitas aos assuntos humanos. Este posicionamento político.

Ou seja. . aqui. um estado de abertura através do qual nos posicionamos. mas como espaço propício à elaboração da experiência do cliente no que diz respeito ao sofrimento psíquico que ele porta e às possibilidades ou vislumbres de ajuda que ele concebe. A metáfora de uma região de fronteira sugere. de modo instável. também. O facilitador apresenta-se em constante processo de deslocamento do lugar de quem tem o poder e o controle sobre os processos assim desencadeados.8 interdisciplinar. Está estruturado para que o cliente seja acolhido por espaço de escuta qualificada no momento mesmo em que procura auxílio. os saberes psicológicos e os saberes de outras áreas. à sua interpelação. na instituição em que atuam. não podemos atender toda demanda que chega. mas. Plantão Psicológico O Plantão Psicológico é a porta de entrada do SAP para as pessoas que buscam algum tipo de ajuda psicológica. O tipo de elaboração e o grau de elaboração que são alcançados nesta primeira entrevista são funcionam como critério norteador dos desdobramentos possíveis deste encontro inicial. não pretendemos adequar a clientela a uma organização burocrática que apaga diferenças e massifica o atendimento. também. através dos recursos disponíveis a cada momento. a entrevista de Plantão visa facilitar que o cliente clarifique a natureza de seu sofrimento e de sua demanda por ajuda. Responder à demanda não é. Do ponto de vista prático. por sua vez. de veicular um modelo. o Aconselhamento Psicológico é concebido como o campo de invenções das práticas que. A pergunta que se segue é. passo ao relato de algumas das experiências significativas empreendidas no SAP. sentir e agir sintônicos e empáticos com relação às demandas que se apresentam. pois não se trata. propiciem a seus participantes uma experiência de exploração cognitivo-afetiva de suas vivências pessoais e coletivas. representa a disposição para descobrir modos de pensar. Esta abertura. nossas próprias convicções e aquelas que nos são trazidas pela clientela. O Plantão foi a forma encontrada. Este acolhimento exige a priorização do espaço psicoterapêutico em detrimento de necessidades burocráticas de organização do Serviço. contudo. então: como o SAP vem praticando o Aconselhamento Psicológico numa instituição acadêmica (IPUSP) a partir desta concepção acima delineada? V A resposta a esta questão não pode ser genérica. Dito de outra maneira. talvez. A proposta supõe que todo cliente será ouvido no momento de sua procura e que responderemos. em situações consideradas em sua singularidade. Nesse sentido. Nesta região de fronteira toma corpo um certo conjunto de práticas clínicopsicológicas e de ensino que tem como horizonte a criação de condições favoráveis à emergência de aprendizagem significativa e no qual o “especialista” se introduz como facilitador. A concepção de Aconselhamento Psicológico explicitada aponta para algo cujo preenchimento só pode ser dado pelas situações concretas enfrentadas e respondidas por uma equipe de conselheiros. de conseguir uma abertura de 360 graus para as demandas da clientela. entre o instituído e o instituinte. implica a intensão de responder à singularidade de cada demanda. Nesse sentido. A entrevista de Plantão não é pensada como triagem. o conhecimento e o desconhecimento. atender à demanda.

promova uma resignificação do sofrimento do cliente e uma avaliação sobre os recursos disponíveis. continuidade dos encontros marcados sessão a sessão. A busca de um estilo próprio. identificar uma demanda coletiva relativa ao problema do consumo de drogar e propor um programa sobre drogas como resposta a esta demanda. esse sistema pede uma disponibilidade para se defrontar com o não-planejado e com a possibilidade (nem um pouco remota) de que o encontro com o cliente seja único. o atendimento de plantão pede uma sistematicidade do serviço oferecido. exercido por profissionais que se mantêm à disposição de quaisquer pessoas que deles necessitem. responsável pela possibilidade de atender a todos que chegam. o ganho de autonomia na condução dos atendimentos. O trabalho dos estagiários é acompanhado por um grupo de supervisão. É preciso explicitar para o cliente nossos recursos e limitações e propiciar-lhe uma condição de elaboração destes elementos em cossonância com a natureza daquilo que está vivendo e que motiva sua busca por auxílio. Tanto em um caso quanto em outro. . Do profissional.a cada plantão e com cada cliente é preciso pensar. p. o Plantão Psicológico. continuidade dos encontros por tempo determinado. 75). ainda. Sem esta possibilidade.retornos. entende-se que a proposta do plantão se descaracterizaria. expressa bem a relação entre a abertura de uma acolhida inicial e seu desdobramento. Embora tenhamos alguns desdobramentos contemplados em nosso planejamento . Do ponto de vista da instituição. referente à experiência no colégio. Sinteticamente. (MAHFOUD. Para os alunos. As ressonâncias no cliente são várias e dependem. Então. bem como os modos de compartilhar o poder. Eles atendem segundo sua disponibilidade e experimentam seus modos de atuar como conselheiros. ganhou contornos específicos na relação com a singularidade destes contextos institucionais. Neste espaço. os conselheiros puderam. no SAP e fora dele. do nosso sucesso ou fracasso em propiciar este acolhimento.9 Praticamente. Um exemplo. a atenção para as questões da saúde pública são incentivados nos alunos. para o atendimento do cliente de forma a mais adequada possível. envolvendo conselheiro e cliente. da perspectiva do cliente significa um ponto de referência. Em termos institucionais. E. isto se traduz pelo desencadear de um processo que. em decorrência da assistência a alunos que procuravam o plantão individualmente. a partir de sua participação nos plantões. como continuar. para algum momento de necessidade. assim como na relação com a clientela. Enquanto idéia. a facilitação é central. embora difícil para quem está começando. a partir dele e com ele. trata-se de uma experiência rica. e não modelo. no colégio. em períodos de tempo previamente determinados e ininterruptos. em grande parte. o Plantão requer uma disponibilidade constante para sua reinvenção. 1987. em parte. complementação do atendimento com recursos de outras instituições . Miquel Mahfoud define o Plantão da seguinte maneira: A expressão “plantão” está associada a certo tipo de serviço. foi implantando num colégio e num hospital psiquiátrico de São Paulo. A inserção de estagiários (alunos de quarto e quinto anos de graduação em psicologia e alunos de cursos de aperfeiçoamento e extensão) no Plantão é. até onde temos notícia. encaminhamento interno ou extreno.

mais ou menos claramente.10 Este tipo de leitura de demandas coletivas é mais difícil de acorrer junto à clientela que busca o plantão no SAP uma vez que o atendimento é. técnicos e pessoais para proporem e implementarem projetos que levem em conta a singularidade das instituições e das clientelas às quais estão vinculados. Espaços de convivência. objetos de nossas investigações sistemáticas. Cursos de extensão. principalmente. espaços de referência Uma idéia tem nos atraído no sentido de ir de encontro a possíveis demandas coletivas da clientela em atendimento psicológico no SAP. A comunicação oral em contraposição à comunicação de massa. faz uma análise das condições sociais existentes no mundo tradicional. Porém. Morato na sua fala sobre as linhas de pesquisa do SAP. o . também. portanto. origem esta que abrigava. propícias à elaboração e à transmissão da experiência pessoal e coletiva. Nesta vertente. tentamos concretizar a concepção de Aconselhamento Psicológico através da formação de agentes facilitadores que possam multipicar as invenções de práticas nos diferentes contextos institucionais aos quais pertencem. pois estes grupos são. Apenas como notícia introdutória. e aponta o desaparecimento ou as transformações destas condições na modernidade. P. realizados.supervisão de apoio psicológico e oficinas de criatividade . constituindo apenas grupos temporários na sala de espera. individual e a clientela é dispersa. vale destacar que ambas as experiências deslocam o eixo da “assessoria técnica” da transmissão de conhecimento acumulado para aquele da promoção de aprendizagem significativa. ao tematizar o declínio da experiência no mundo moderno. Estes cursos são guiados pelo mesmo desejo de criar condições para que esses profissionais mobilizem recursos teóricos. no espaço físico das instituições a que pertencem as equipes solicitantes e visam contribuir para a formação de profissionais das áreas de saúde e educação através da criação de espaços propícios à elaboração cognitivo-afetiva da experiência profissional.a equipes de profissionais das áreas de saúde e educação que fazem socilitação. coletiva. esta questão de poder receber e responder a demandas constituídas num âmbito coletivo está presente como um eixo das propostas do SAP. são. na equipe e junto à clientela que atendem. Benjamim. Esta idéia deriva de uma leitura da obra de Walter Benjamin. aperfeiçoamento e especialização Nestes cursos. Assessorias Trata-se do oferecimento de dois tipos de dispositivos grupais . justamente pelo respeito à origem do campo de Aconselhamento Psicológico. cabe comentar duas práticas que se voltam para a questão das demandas de profissionais e/ou equipe de profissionais ligados à saúde e à educação e uma terceira que experimenta constituir espaços coletivos accessíveis à clientela que procura individualmente o SAP. grupos com tempo determinado. predominantemente. o trabalho artesanal em contraposição ao trabalho industrial. a certeza de que os problemas postos à psicologia desde uma perspectiva social mais ampla não podem ser considerados apenas através do ponto de vista psicoterápico. Estas duas atividades grupais serão comentadas mais detidamente por nossa colega Henriette T. de ajuda psicológica para lidarem com as questões de sua prática profissional.

Começamos a pensar que o próprio espaço do SAP poderia ser concebido como espaço de referência e de convivência no qual a elaboração de experiências pessoais e coletivas pudesse acontecer. São Paulo. . 1985. São Paulo. V. Ruth. uma apropriação deste espaço por parte destes alunos e a configuração de coletivos significativos para a sua experiência. Martins Fontes. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. As oficinas de criatividade apresentam-se como uma possibilidade de espaço de convivência e referência. IN: Obras Escolhidas. Buenos Aires. Referências Bibliográficas BENJAMIN.11 tempo do ócio contraposto ao tempo do lazer programado. ___________________ Sobre o poder pessoal. Paidós. IN: Obras Escolhidas. Henriette Tognetti Penha.III. 1985. Rachel Lea. Marina Pacheco. SCHEEFFER. Atlas. Brasiliense. IN: ROSENBERG. constituindo espaços de referência e de convivência que permitissem a quebra do isolamento e um certo enraizamento coletivo. IN: ROSENBERG. São Paulo. Rachel Lea. MAHFOUD. o desenraizamento sócio-cultural. que a função de facilitação pudesse ser exercida para além do espaço das entrevistas psicológicas. 1978. tanto em termos de idade quanto de procedência (clientes ou alunos). IN: Obras Escolhidas V. 1985. ___________________ Tornar-se pessoa. ROGERS.. Reflexões de um terapeuta sobre as atitudes básicas na rela ção terapeuta-cliente. MORATO. A vivência de um desafio: plantão psicológico. São Paulo. Psicoterapia centrada en el cliente. Aconselhamento psicológico centrado na pessoa. 1989) Para parte de nossa clientela. ________________ A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. o isolamento. I. Miguel. 1989. JORDÃO. São Paulo. 1966. EPU. Aconselhamento psicológico centrado na pessoa. Rachel Lea. Há um ano e meio já estamos oferecendo estas oficinas para alunos do Projeto de Terceira Idade da USP e neste período pudemos observar que há. EPU. Brasiliense. 1987. São Paulo. São paulo. 1987. São Paulo: Brasiliense. de fato. São Paulo. 1987. 1976. Aconselhamento psicológico na pessoa. ________________ Alguns temas em Baudelaire. I. Teorias de aconselhamento. Carl Ransom. EPU. as formas de produção e de recepção das obras de arte são examinados no sentido das disposições favoráveis à experiência. V. Martins Fontes. Walter. a solidão e o desamparo estão na raiz de seus pedidos de ajuda. Abordagem centrada na pessoa: teoria ou atitude na relação de ajuda? IN: ROSENBERG.(BENJAMIN. 1977. Ou seja. O próximo passo é estender o oferecimento destas oficinas para a clientela do SAP e criar grupos heterogênios.

WOOD. Maria Luisa Sandoval. Rachel Lea. Aconselhamento psicológico: questões introdutórias. Abordagem centrada na pessoa.). John Keith (org. Fundação . São São Paulo. 1987. Ed. Aconselhamento psicológico centrado na pessoa.12 SCHMIDT. EPU. Vitória. 1994. Ceciliano Abel de Almeida. IN: ROSENBERG.