UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
NÚCLEO DE ESTUDO DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA


A NATUREZA HUMANA
SEGUNDO FREUD E ROGERS
Trabalho apresentado por Sonia Maria
Lima de Gusmão ao Forum Brasileiro da
Abordagem Centrada na Pessoa, Rio de
Janeiro, 1996.

JOÃO PESSOA - ABRIL/1996

participando.Brasil. Se você tem alguma crítica ou sugestão a fazer poderá enviar para o seguinte endereço eletrônico: Sonia@terra. o que de certo modo influenciou a postura tímida e isolada do jovem Rogers.R. Foi o criador da Psicanálise e influenciou. São Francisco. pequena cidade situada na atual Slováquia4. 4 Antes de receber o nome atual e após a época de nascimento de Freud era conhecida como Tchecoslováquia . portanto. marcada pela repressão sexual. embora mantivessem uma vida social bem reduzida. Parece não haver dúvidas de que a posição de Rogers é nitidamente otimista em confronto com a de Freud. Rogers. é grandemente responsável pela forma como se conduzirão. várias áreas do conhecimento. enquanto profissionais.npd. Sizenando de Oliveira. “ Carl Rogers: o homem e suas idéias”. dos conflitos deste quase final de século.. sofreu os entraves de duas guerras mundiais. Revolucionário Tranquilo. Morávia. 1 Este texto encontra-se em revisão e faz parte de um Estudo comparativo mais completo que a autora está realizando. 3 Richard Farson. Além disso. 1977. Des. Considerado um revolucionário tranquilo. publicado in EVANS.PB . de cada um.ufpb. enfatizam tal aspecto. Freud. Foi obrigado. filho de pais de princípios religiosos rígidos. Nascido no ano de 1856. a se exilar no final da sua vida na Inglaterra. daí a importância desse estudo. desde cedo aprendeu a se opor ao ambiente e a manter “um certo grau de independência de julgamentos”. filho de pais judeus. em Freiberg. pela maneira como contribuiu para mudar vários aspectos da psicologia e de outras áreas. É evidente que o modo como os terapeutas percebem o homem. igualmente. por Farson3. perseguido pelo nazismo. sofreu durante toda a sua vida a discriminação pela sua origem.br ou para Sonia Gusmão . onde morreu em 1939. Altiplano. Diretor do Instituto Esalen. por conta disso. 2 . A NATUREZA HUMANA 1 SEGUNDO FREUD E ROGERS Sonia Maria Lima de Gusmão2 INTRODUÇÃO Um dos pontos mais contraditórios entre a teoria psicanalítica e a teoria centrada na pessoa é aquele que diz respeito à natureza humana. além da Psicologia. porém afetivos no trato com as crianças. Fundadora do Núcleo de Estudos da ACP-PB e Presidente da Comissão de Educação e Formação Profissional do CRP-13 (Paraíba). sua época. frequentemente. Richard I. americano. faziam com que prevalecesse em família um clima de união e de valor ao trabalho. Nasceu em janeiro de 1902 e morreu em fevereiro de 1987. Os autores que abordam essas teorias. 256. é sem dúvida alguma um marco referencial na obra psicológica existente. trouxe-lhe experiências profissionais bem diferentes das de Rogers. 2 A autora é professora e supervisora de estágio na Universidade Federal da Paraíba. autor do artigo Carl Rogers.João Pessoa . talvez possam ser responsabilizados pelas ênfases que dão às suas abordagens. de câncer. CEP 58046-370 . O processo experiencial e o contexto sócio-cultural e histórico. ainda por conta da perseguição nazista.

cujo único objetivo consiste em aliviar suas tensões. de acordo com Kline (1988): O homem tem dois impulsos principais: sexualidade e agressão. sem as defesas é impossível a civilização. o ego e o superego têm o seu lado obscuro ou inconsciente. pelas pulsões e forças irracionais. determinada. segundo o princípio do prazer e de acordo com o processo primário. Um terceiro elemento. juntos com motivos determinados pelo meio ambiente. que exigem expressão. pode-se afirmar que. como vocês devem estar lembrados. abstém-se de qualquer lógica ou racionalidade e faz tudo o que lhe é possível fazer para atingir seus objetivos. precisa se fortalecer para dominar o mais possível o conteúdo inconsciente e escrever a sua própria história. Trata-se do superego. O id totalmente inconsciente. na sua visão. Sendo a natureza humana. oriundas do inconsciente. pois. viveríamos de forma arriscada (p. Para ele. Tudo o que o homem construiu . além de mediador entre as exigências do id.as artes. a pulsão de vida e a pulsão de morte como faces da mesma moeda. na forma de sintomas neuróticos e atos simbólicos. Através da mediação do ego em defesas bem e malsucedidas a expressão direta e indireta. oriundo do ego. em prol de uma racionalidade aceitável. trazem fortes implicações para a gerência de suas próprias vidas. tenta a todo custo servir de mediador entre as exigências dele e as exigências da realidade externa.Por outro lado. Sem esses. de acordo com o modelo freudiano. Quando apreciamos a obra freudiana. das quais ele é o próprio reservatório. o aliado da cultura. na perpetuação das normas e dos valores sociais. a expressão é vital. pela busca de um equilíbrio homeostático. nem bom nem mal. ganha força com o complexo de Édipo e de castração. o ego. as ciências. A NATUREZA HUMANA SEGUNDO FREUD O modelo de homem apresentado pela psicanálise pode ser resumido nos seguintes termos. é conseguida. Freud considera. Este modelo de homem necessita de um alto grau de controle na sociedade e saídas institucionalizadas para os impulsos. ou seja: livrar-se da pressão de energias. suas instituições e a própria civilização . não obstante. Todas as duas formas de energias transitam livremente no inconsciente.num contexto mais amplo. não passa de sublimações dos seus impulsos sexuais e agressivos. o homem é possuidor de um permanente conflito entre forças antagônicas existentes em seu interior. gerado que foi pelo id. e também participa desse jogo de poder. e que uma sociedade livre e sem necessidade de controle está fora de cogitação. e pelas experiências vividas na primeira infância. Agora. 3 . reduzindo ou adiando o seu prazer. sobretudo.143). no sentido de facilitar-lhe a obtenção do prazer. Neste sentido. na sua teoria. O ego. Uma vez que estes operam um sistema de energia fechado. tais concepções. por sua vez. dando a entender que eros e tanatos têm o mesmo peso. do superego e da realidade externa. observamos que toda ela é marcada por um certo ceticismo em relação ao homem. tais como os conflitos de Édipo e de castração.

(Cit. frequente. ao que tudo indica. o indivíduo tem alguma chance de mudar esse quadro determinista. Ao contrário. Afirma Freud: 'Não é nosso propósito negar a nobreza humana. quer quando se refere ao "princípio do prazer" quer quando se refere a repressão necessária para suplantar a marcante hostilidade presente. Ao passo que. pelo menos isso. 1988. o que provoca nele um sentimento. nem fizemos nada para diminuir seu valor. pelo fato de possuirem um superego forte e um ego fragilizado. nunca poderemos formar relacionamentos emocionais adequados com outras pessoas. cit. em cada um de nós. Por outro lado. Mas.218) Na teoria psicanalítica os neuróticos são atormentados por sentimentos de culpa constantes. os psicóticos são indivíduos dominados pelo seu id. dando a entender que tanta destruição não poderia ser desencadeada por uns poucos homens ambiciosos e sem princípios. mostrei-lhes não apenas o desejo do mal que é censurado mas também a censura que o suprime e o torna irreconhecível' (Riviere. Freud fêz diversos comentários sobre a supressão do conteúdo psíquico desagradável em sua nona conferência que tratava da censura onírica. se essas tendências destrutivas não existissem na maior parte da humanidade. tem por objetivo restaurar a harmonia entre o id.Considerando que a psicanálise.. 1982. enquanto tratamento. o que nos afirma Freud no trecho abaixo: 4 . p. Falou ainda da guerra que devastava a Europa. A hostilidade humana.40). em decorrência da quebra de suas defesas. O ego precisa ser restaurado para que ele volte aos padrões normais de funcionalidade.)"a análise não se propõe abolir a possibilidade de reações mórbidas. o próprio Freud não se mostrava muito otimista. O auditório protestava contra o fato de que a psicanálise atribuia muito do comportamento a uma predisposição fundamental para o mal. Freud considerava o complexo de Édipo como núcleo das neuroses. nunca poderá ser satisfeita. e a necessidade de expressar e receber afeição. por Stefflre & Grant. conforme é vista na criança. por May. p. na sua opinião. Freud procurou mostrar que o auditório não enxergava a vileza egoística da natureza humana e o fato de que o homem não é muito dígno de confiança a tudo o que se refere a vida sexual. percebemos nos psicanalistas uma tendência para enfatizar os aspectos destrutivos da natureza humana. Essa é uma causa primária da perturbação neurótica (Kline.159). de frustração. p. É. ao afirmar: (. a menos que aprendamos a chegar a um acordo com nosso amor e ódio ambivalentes em relação aos nossos pais e possamos aceitar os sentimentos edipianos. Isso significa que.. Tais sentimentos tendem a impossibilitar ou diminuir a expressão pulsional. reprimí-los ou encená-los. parece que. não tem limites: o homem é hostil não só a sociedade como também a seus companheiros mais próximos. Toda obra freudiana se apresenta repleta de afirmações que traduzem seu pessimismo com relação ao homem. 1976. o ego e o superego. eles perderam o contato com a realidade. pois. só através da mesma. e sim proporcionar ao ego do paciente liberdade para optar de uma maneira ou de outra". não negá-los.

parece que não havia outra saida a não ser a da coerção social. passando a enfatizar. p.A sociedade civilizada está perpetuamente ameaçada pela desintegração por causa dessa hostilidade primária dos homens entre si. nunca nos vangloriamos de que nosso conhecimento e nossa capacidade fossem completas e definitivas.como sabem. num grande número de pessoas.24/5) Mas. A cultura tem de recorrer a todo reforço possível a fim de eregir barreiras contra o instinto 5 agressivo dos homens. p. por Walker. É dele os seguintes dizeres: "Senhores . 5 Fizemos uso do termo instinto para nos mantermos fiéis as diversas traduções. por Walker. p. Cabendo. a revisão e reformulação de conceitos. de acordo com os seus próprios valores.2). caso fosse vivo. Infelizmente. (Kline. p. (Freud (1930). eu penso. fecharam-se no dogmatismo. cit. a larguesa de percepções e de coragem para voltar atrás. a cada cultura. dos ensinamentos do mestre. ou qualquer combinação dos quatro". anti-sociais e anticulturais e que. por certo. A gente tem. transformando-o num deus e a sua teoria uma crença de natureza quase religiosa.26).3) Diante de um ser tão hostil e desintegrador. louco. 1957. aprender coisas novas e a modificar nossos métodos em qualquer sentido que possa melhorá-los"(Cit. de contar com o fato de que em todos os homens estão presentes tendências destrutivas e. Tanto anteriormente como na atualidade estamos dispostos a arrostar as imperfeições de nosso entendimento. na maioria das sociedades. já as teria reformulado. portanto. Diante desse quadro predominantemente hostil.. ao longo de sua história. seu mandamento ideal de amor ao próximo como a si mesmo ser realmente justificável pelo fato de que nada está tão completamente em desacordo com a natureza humana original. no seu processo de desenvolvimento. inclusive a da Imago. também outros aspectos da constituição humana. é duvidoso que. por Ekstein. ao que parece. sagrado.. Como podemos perceber. quando necessário. possivelmente. Quando não o é. são bastantes fortes a ponto de lhes determinar o comportamento na sociedade. e que.. embora a tradução correta seja pulsão. como elemento coibidor desse aspecto tão forte de sua natureza. 5 . o indivíduo costuma ser considerado muito especial. Daí.. nada mais natural do que a sociedade fazer uso do seu poder de coerção. sempre fizeram parte do dia a dia desse homem de natureza positiva. De qualquer modo. em um homem cujo organismo era grandemente dominado pelas suas pulsões destrutivas. aprender a controlar os desejos do id.. considerando como verdades irrefutáveis o que para Freud eram apenas hipóteses. cit. portanto. (Freud. mal. muitos de seus seguidores. Parece mais provável que cada cultura seja edificada sobre a coerção e a renúncia instintiva. 1957. Esqueceram-se.. o id terá sido domesticado. 1978. "até o início da idade adulta. Aliás. in Burton. Freud acreditava. Freud reformulou alguns dos seus pontos de vista. sem coerção a maioria dos homens esteja pronta para submeter-se ao trabalho necessário para adquirir novos meios de suportar a vida.

) Muito raramente uma ação é obra de um impulso instintual único(. destruindo uma vida alheia.. com toda seriedade. não obstante. 1976. segundo sua hipótese: o erótico. o instinto de autopreservação certamente é de natureza erótica. in Burton. 6 . por exemplo. Isto serviria de justificação biológica para todos os impulsos condenáveis e perigosos contra os quais lutamos. Considerando a data dessa correspondência e a síntese feita por Freud da teoria das pulsões. parece indicar uma nova perspectiva em relação a natureza humana: Anteriormente.(. e temos procurado atribuir numerosos fenômenos normais e patológicos a essa internalização do instinto de destruíção. podemos supor que esse instinto está em atividade em toda a criatura viva e procura levá-la ao aniquilamento. reduzir à condição original de matéria inanimada. Freud continua esclarecendo que devemos nos abster de colocar juizos éticos e de valor. antes da introdução do modelo estrutural e do ponto de vista adaptativo. haja vista que. Assim. 1978. que tende a preservar e a unir. para a qual também é necessário encontrar uma explicação (Freud (1932).. se essas forças se voltam para a destruição do mundo externo.) Gostaria não obstante de deter-me um pouco mais em nosso instinto destrutivo. p. o organismo se aliviará e o efeito deve ser banéfico. Por outro lado.. posteriormente. cuja tendência é matar e destruir. ele se expressou sobre o objetivo da análise em termos de onde estava o id. que fosse capaz de suportar e restaurar a continuidade entre o passado e o presente. p. Uma parte do instinto de morte. deve ter à sua disposição a agressividade. para bjetos. e que usasse essa continuidade no sentido da adaptação. referiu-se realmente à necessidade de desenvolver a técnica de modo não apenas a tornar consciente o inconsciente. mas também a fortalecer a organização do ego de tal maneira que ela não tivesse de se defender do passado mediante a repressão. contudo. ao ego. achamos que em muito elucidaria uma análise mais acurada desse documento. cuja popularidade não é de modo algum igual a sua importância. O organismo preserva sua própria vida por assim dizer.A ênfase que Freud deu. Em setembro de 1932. essas pulsões são importantes ao homem na mesma medida. isto é. lá estará o ego. para atingir seu propósito(.27/8). O instinto de morte torna-se instinto destrutivo quando . continua atuante dentro do organismo. Freud explica a sua teoria dos instintos e oferece sugestões no sentido de evitar a guerra que estava prestes a acontecer. com o auxílio de órgãos especiais é dirigido para fora. Freud dizia que a psicanálise tinha como objetivo terapêutico tornar consciente o inconsciente. da capacidade para novas soluções de problemas (Ekstein. ao passo que os instintos eróticos representam o esforço de viver. Como consequência de um pouco de especulação. Mais tarde.. Inicialmente. Uma vez colocada a oposição entre o amor e o ódio.. Isso estava em conexão com o modelo topográfico. e o agressivo. merece.) O senhor perceberá que não é absolutamente irrelevante se esse processo vai longe demais: é positivamente insano. ele nos fala da existência de dois instintos presentes no homem.. ser denominado instinto de morte.252/4). Deve-se admitir que eles se situam mais perto da natureza do que a nossa resistência. Portanto. numa correspondência dirigida ao físico Albert Einstein.

Continuando. Todavia. Continuando. Em primeiro lugar. como sendo as características psicológicas mais importantes da civilização. em grande escala (p. os homens tendem a se classificar em líderes e seguidores. onde a terra é privilegiada e as necessidades do homem são providas em abundância. pode-se tentar desviá-lo num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra" (p. seria a comunidade humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão" (p. com todos os riscos que possa acarretar.Freud deixa claro. como podemos observar na conclusão deste trecho. Eros.259) 7 . Freud coloca que isso não passa de uma ilusão. com a seguinte afirmativa: "Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra.. haja vista que. a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista. ele esclarece que. Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento. que esperam acabar com a agressividade. diz ele.255). mediante a satisfação de todas as necessidades materiais e o estabelecimento da igualdade entre eles. podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um objeto amado. onde a vida transcorre sem coerção e sem agressão. "de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas do homem". A situação ideal. faz-se necessário uma melhor atenção à educação daqueles que não se deixam intimidar e têm por objetivo a busca da verdade e o comando das massas submissas. uma vez que. que os "impulsos condenavéis e perigosos" são justamente os que mais próximos estão da natureza humana." (p.256).255). embora não tenham uma finalidade sexual. apresenta algumas sugestões.. Finalmente. E a estrutura da sociedade se baseia nelas. Esses vínculos podem ser de dois tipos. no sentido de se evitar o abuso de poder cometido. povos. e demonstra claramente a sua perplexidade diante do fato de existirem. naturalmente. geralmente. continuando sua apreciação.(. na sua opinião. segundo ele. pelas autoridades. em algumas regiões. Freud conclui sua carta a Einstein. que ele denomina métodos indiretos para acabar com a guerra: Se o desejo de aderir a guerra é um efeito do instinto destrutivo. Em seguida. A outra sugestão refere-se a educação dos líderes.) O segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação. eles mantêm juntos seus adeptos através do ódio que incitam contra qualquer pessoa que se situe fora de suas fronteiras. essas indentificações. Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra. Enfatiza o fortalecimento do intelecto no comando da vida pulsional e a internalização dos impulsos agressivos. e é categórico quando afirma: "Não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem. Pois. Nos fala também dos bolchevistas. "é desnecessário dizer que as usurpações cometidas pelo poder executivo do Estado e a proibição estabelecida pela igreja contra a liberdade de pensamento não são nada favoráveis à formação de uma classe desse tipo.

na sua correspondência a Einstein. 8. uma crença maior na força do amor e da liberdade. portanto. se o homem não possui lesões ou conflitos estruturais profundos. p. 6 Rogers. apesar do ponto de vista freudiano ter se mantido o mesmo. segundo ele.Como podemos perceber. que tentam atribuir à sua obra. escrito em resposta ao artigo de Walker. ao longo de sua obra. A NATUREZA HUMANA SEGUNDO ROGERS Ao estudarmos a teoria rogeriana. parecer ingênua. assim. Acredita ele que. o que parece indicar uma abertura. em relação a natureza humana. desprovido de ameaças ou desafios à imagem que a pessoa faz de si mesma. E que esta é uma característica inerente ao homem que independe de aprendizagem. encontra-se. regressivo. além de resultados de pesquisas realizadas por ele e por seus colaboradores. A grande crença que ele sentia na capacidade do indivíduo é. de compreender-se a si mesmo e de resolver seus problemas de modo suficiente para alcançar a satisfação e eficácia necessárias ao funcionamento adequado" (Rogers & Kinget. p. à primeira vista. marcantemente. Assim mesmo. 1957. anti-social e nocivo (Rogers. de uma parte do Emílio.39).). A concepção de uma natureza "angélica" do homem. ainda que precária. Não possuo visão ingênua da natureza humana. intitulado “Carl Rogers e a Natureza do Homem” (ambos em forma de apostila). ao contrário da coerção. ou. é necessário um clima de calor humano. Por outro lado. como elementos indispensáveis à união e ao crescimento dos indivíduos. Nela destaca-se a grande confiança que Rogers sentia pelo homem. que pode. pois. amplamente embasada e demonstrada através de gravações em tapes e filmes. mas que é fruto de uma larga experiência clínica e comunitária. enunciada: "O ser humano tem a capacidade. nos deparamos com um posicionamento bastante diferente daquele que vimos quando estudamos a teoria freudiana. em várias partes do mundo. Confiança. percebe-se. quando esteve muito perto de ser reprovado 6. latente ou manifesta. no que se refere a natureza humana. caracterizada pelo controle e pela coerção. a arma sugerida era o amor e a liberdade. 1961. de fato. apresenta esta capacidade. Tenho bem consciência de que para se defender e movido por medos intensos. 8 . imaturo. indivíduos podem e. p. é destituída de verdade. Todavia.27. mais para o final. bem longe da verdade. uma nova postura em relação à técnica de combate a tanatos: no início. “Uma Nota Sobre a Natureza do homem”. 1977. se comportam de modo incrivelmente destrutivo. atribuida a Rogers. pelo menos. para que esta potencialidade logre a sua atualização. a influência rousseauniana. só teve um único contato pessoal com a obra de Rosseau. leitura exigida no exame de lingua francesa no seu doutorado. esta.

entre outros. quando o homem é. Como já disse em outra publicação (Rogers. verdadeiramente. ele afirma: 9 . ad infinitum. que ele é levado a não acreditar que.10) As observações de Rogers o conduziram. Será individualizado. referindo-se àquelas pessoas com quem ele trabalhou nas salas de fundo dos hospitais estaduais. livre para tornar-se o que êle é no mais fundo de seu ser (como no clima seguro da terapia ).105): (Quando o homem) é de todo um homem. como o amor. muitas vezes. Nem sempre será convencional. estejam todos empenhados em esconder os fatos ( Cf. da extrema direita e da extrema esquerda.Mas a compreensão de Rogers a respeito da natureza humana vai além dessa constatação: Contrariamente à opinião que vê os mais profundos instintos do homem como sendo destrutivos. in Walker. enquanto terapeuta. na pele dos políticos. observei que. Mas será também socializado (Rogers. É. Rogers sabe que somente consciente dos fatos que o cercam. a confiança e a bondade são. E preocupa-se ante a consciência de que a nossa sociedade. quando ele é o seu organismo completo. 1978. então seu comportamento é construtivo. então ele. está operando na sua máxima plenitude. Mas. numa discussão sobre o tema. experimentemos as pessoas tão diferentemente? Talvez. Rogers. as seguintes questões: Como pode ser que Menninger e eu trabalhando com um objetivo tão semelhante. considerados positivos. conduz o criador da Abordagem Centrada na Pessoa. então se pode confiar nele. que percebe o homem como sendo "inatamente destrutivo". Ao longo de sua experiência. justamente. quando a apercepção da experiência. p. nitidamente. 1961. in Burton. 1957. ele constatou que muitos dos sentimentos. dos funcionários do governo. uma vez liberada a camada mais profunda da natureza humana. como pode o analista sentir um interesse positivo para com o seu paciente quando sua própria tendência inata é destruir? E ainda mesmo que suas tendências destrutivas fossem adequadamente inibidas e controladas por seu analista. Apesar de sua grande confiança no homem. da indústria. nos depararíamos com um id incontrolável e destrutivo. in Evans. num relacionamento tão íntimo com indivíduos angustiados.195). p. a uma idéia bem diferente da natureza humana. Tal afirmativa. por conta de suas observações. E. e não somente aqueles impulsos socialmente proibidos. se encaminha para a globalidade e a integração. como sugere Snyder. realmente. aqueles mais profundamente recalcados. 1977). o que. (Rogers. nem sempre será conformista. como um ser capaz de perceber as coisas que o cercam. quem controlou a destrutividade daquele analista? E assim sucessivamente. esse atributo peculiarmente humano. p. poderá o indivíduo tomar decisões acertadas. essas profundas diferenças não contem quando o terapeuta se interessa realmente por seu cliente. a identifica com o próprio fluxo da vida. E se mostra perplexo quando um freudiano do porte de Karl menninger lhe diz. num certo sentido. quando é livre para agir conforme sua natureza.

tornam-se excessivamente urgentes. pouco humanas. a homeostase não pode se constituir na orientação última do organismo. e não uma parte dele. Os organismos estão sempre em busca de algo. Um outro ponto que fica evidente no pensamento acima é a sua concepção holística do homem. às diversas situações que a vida lhe impõe. sempre iniciando algo. quando privado de estimulação externa. num eterno vir-a-ser. Esta tendência construtiva e poderosa é o alicerce da abordagem centrada na pessoa (Rogers. somente um organismo doente.. utilizando-se dos recursos que acreditam ser os disponíveis. No seu entendimento. pode-se confiar que a tendência realizadora está presente nessas pessoas. 10 . que abrange não só a manutenção mas também o crescimento do organismo (Rogers. ele se abre para uma imensidão de estímulos internos. há uma fonte central de energia no organismo humano. distorcidas. as teorias vigentes que tratam da motivação. pois. segundo o qual o organismo procura reduzir suas tensões e reestabelecer um estado de equilíbrio. particularmente as básicas. A maneira mais simples de conceituá-la é como uma tendência à plenitude. A teoria freudiana. O organismo é para ele a pessoa inteira. A abordagem centrada na pessoa considera a tendência realizadora ou atualizante como uma motivação polimorfa. Como se sabe. bem como a ênfase que é dada a experiência organísmica. um aparelho que deveria se manter. esta tendência pode assumir diversas formas. aqueles dos relatos de experiências cósmicas. mas são uma tentativa desesperada da vida para existir. num estado de completa não estimulação". Rogers discorda dessa orientação.41).44). considera esse modelo. Ao nível do comportamento. de um modo bem diferente do equilíbrio homeostático preconizado por Freud quando diz: "O sistema nervoso é. p. se fosse possível. por exemplo. sempre 'prontos para alguma coisa'. exceto quando algumas delas. muitas vezes. mantém-se num equilíbrio passivo. tendem a descrevê-la a partir do modelo utilizado pela biologia. Essa fonte é uma função do sistema como um todo. segundo ele. os organismos estão sempre em busca. que reage. haja vista que. Para as pessoas saudáveis. Portanto. haja vista que ele está sempre à procura de estímulos mais complexos. Mas a busca de satisfação dessas necessidades será feita no sentido de promover a auto-estima e não de diminuí-la. A chave para entender seu comportamento é a luta em que se empenham para crescer e ser.. para ele. E no entanto. 1983. p. os resultados podem parecer bizarros e inúteis. à auto-realização. 1983. como tal. No homem. essa busca de estímulos mais enriquecedores é denominada curiosidade. em consonância com as necessidades presentes no organismo. semelhantes. numa unidade bio-psico-sócio-espiritual.As condições em que se desenvolveram essas pessoas têm sido tão desfavoráveis que suas vidas quase sempre parecem anormais.

"Creio que o homem é mais sábio do que o seu intelecto considerado isoladamente e que as pessoas (que funcionam bem) aprendem a confiar em sua experiência como a mais satisfatória e sábia indicação para o comportamento apropriado.196) CONCLUSÃO A RESPEITO DA NATUREZA HUMANA Cheguei a pensar em alguns momentos desta pesquisa. que ambos estavam de acordo sobre a natureza humana. ou melhor. seu comportamento tenderá a ser construtivo. Caso contrário. Os 11 . no sentido de controlar e de coibir o indivíduo. aliás. 1978. É inegável a ênfase que Freud dá aos aspectos destrutivos do homem. Mas será também socializado" (Rogers & Wood. como defende Rogers. p. não pode ser feita sem acarretar prejuízo à compreensão do que seja ser uma pessoa. 1978. atualizar o seu potencial. E mesmo quando percebi. foram unânimes em reafirmar a postura negativista do mesmo até o final de sua vida. "Será individualizado. em mim. uma natureza positiva. colocada por ele. Do mesmo modo. atribuir-se ao indivíduo. me leva a concluir que o homem. ele simplesmente é". na sua carta a Einstein. é visível em todos os seres vivos. não é. o que desfez. como o fez Freud. nada temos a temer.para a atualização do seu potencial . atribuir-se ao homem uma energia agressiva. Mas. socialmente falando. alguns trechos de suas falas fizeram a balança pender mais para um ou outro lado de um modo contundente. onde o indivíduo não pode expandir."(Rogers & Wood. mas sim que existe nele uma tendência para o crescimento . preconizado por Freud. A necessidade. não implica em dizer que o homem é bom. podem influenciar no modo como se conduzem socialmente. Não resta dúvida de que a história de vida das pessoas e a maneira como vivenciaram essa história.195). pois. a dúvida. Freud enfatiza o homem determinado por forças inconscientes. Rogers enfatiza o homem auto-determinado. in Burton. Que ambos pareciam dizer: . os colegas especialistas consultados.A tendência de se valorizar um ou outro aspecto de sua constituição."O homem nem é bom nem é mau. p. que necessitam do controle social para sua própria manutenção e da sociedade. o que o torna hostil ou anti-social. não significa caracterizá-lo como mau. muito dígno de confiança. indícios de uma nova postura sua com relação a natureza humana.como. devido ao perigo que ele poderia representar para a sociedade. apesar de perceber e colocar na sua apreciação o limite dessa possibilidade. e que os posicionamentos antagônicos não passavam de viéses pessoais. in Burton. De fato. Em Rogers observa-se o inverso: é justamente um contexto coercitivo.

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