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Universidade Federal do Espírito Santo Programa Institucional de Iniciação Científica Jornada de Iniciação Científica 2013/2014 Ciências Sociais Aplicadas

A inserção de nova arquitetura em sítios históricos urbanos, protegidos por tombamento estadual Conselho Estadual de Cultura / Secult / ES.

Identificação:

Grande área do CNPq.: Ciências Sociais Aplicadas Área do CNPq: Arquitetura e Urbanismo Título do Projeto: Cidade no Brasil: o papel do passado em intervenções urbanas, 1950 2010. Professor Orientador: Renata Hermanny de Almeida Estudante PIBIC/PIVIC: Natália Selestrini Dias

Resumo: Inserido no projeto “Cidade no Brasil: o lugar do passado em intervenções urbanas, 1950- 2010”, o subprojeto analisa as intervenções urbanas realizadas em dois dos sítios históricos com tombamento promovido pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC) no Espírito Santo - Porto de São Mateus (São Mateus) e São Pedro do Itabapoana (Mimoso do Sul) - a partir da inserção de nova arquitetura e quanto ao tipo e nível de modificação da ambiência. Considerando a condição particular a que estão submetidos estes contextos com preexistência crítica; sua importância para a sociedade, bem como para a história e o fato de que, enquanto espaços urbanos, estão em constante desenvolvimento, faz- se necessário refletir acerca dos impactos decorrentes de intervenções urbano-arquitetônicas, necessariamente transformadoras. Para tal, utiliza-se a metodologia proposta por Silva (2012) e desenvolvida por Queiroz (2013), na qual, através de relações de confronto ou subordinação entre elementos da nova arquitetura e os da preexistência é expresso numericamente o Índice de Modificação da Ambiência Urbana (IMAU). Por ser menos subjetiva, a aplicação dessa metodologia na pesquisa, além de dotar a discussão sobre o tema de parâmetros objetivo-metodológicos, demonstra ser uma prática eficaz para intervir nos contextos de preexistência crítica, como os sítios históricos urbanos.

Palavras chave: Antigo/Novo, Sítio Histórico Urbano - ES, Arquitetura, Urbano, Intervenções. 1 Introdução

O subprojeto apresentado neste relatório é integrante da pesquisa Cidade no Brasil: o lugar do passado em intervenções urbanas, 1950-2010, iniciada em 2006 com o objetivo de analisar intervenções urbanas promovidas em cidades brasileiras pós-Brasília. Neste subprojeto, são realizadas investigações sobre os imóveis tombados e o quanto as modificações nos mesmos podem alterar a ambiência do sítio histórico, pois, apesar da notória importância da legislação e das cartas patrimoniais 1 para consolidação dos conceitos de sítio histórico e vizinhança do bem tombado, existe certa deficiência em relação ao quão

1 As cartas patrimoniais são um conjunto de documentos, de diferentes nominações - recomendações, declarações, cartas, etc. - de alcance internacional, relativos à conservação patrimonial, compreendendo definições quanto ao objeto da preservação, bem como instrumentos e agentes participantes da mesma, entre outras indicações. Elaboradas como sínteses de reuniões de especialistas, são realizadas por instituições importantes como a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e o Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS). Os conceitos formulados nas cartas orientam, até hoje, pesquisas e ações sobre o patrimônio.

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objetivo é esse embasamento teórico e o quanto ele pode orientar na prática processos complexos e decisões tênues como o da introdução de novas arquiteturas em um contexto histórico importante.

O sítio histórico urbano, segundo o conceito adotado pela pesquisa - o da Carta de Petrópolis de 1987 2 - é parte de um contexto amplo, que leva em consideração os aspectos materiais e imateriais, como a vivência atual, mas também a vivência passada, por sua característica formadora da cultura local. Portanto, quando é promovido o tombamento de um sítio/conjunto, por exemplo, a ação incide sobre todos os seus

componentes, porque o que importa é o todo. Isso acontece independentemente deste todo conter ou não elementos constitutivos que possuem importância enquanto patrimônio se considerados isoladamente, já que, se tivessem valores individuais seriam tombadas isoladamente. No caso de tombamentos de conjunto, existe um valor único expresso por todas as partes que o compõem. O mesmo ocorre sob o ponto de vista

da preservação e legislação para essa categoria, pois “as coisas em si não perdem sua característica

individual para efeitos civis, mas, para efeito de tombamento, tornam-se uma só - o bem tombado. (

...

)

O

objeto jurídico de interesse público não é a individualidade, mas aquilo que as coisas representam em seu

conjunto” (CASTRO, 1991, p. 70). Pretende-se, então, neste subprojeto estudar os imóveis tombados dos sítios históricos citados e observar o impacto provocado pelas intervenções sobre o conjunto.

As interferências no urbano analisadas neste subprojeto são referentes a dois dos cinco sítios históricos urbanos do Espírito Santo com tombamento promovido pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC), órgão vinculado a Secretaria de Estado da Cultura (SECULT) do mesmo estado - Porto de São Mateus (São Mateus) e de São Pedro do Itabapoana (Mimoso do Sul). Opta-se por não trabalhar com o sítio de Santa Leopoldina devido à preexistência de pesquisa concluída com objetivos semelhantes, realizada pelo laboratório no qual esta se desenvolve o Patri_Lab. No caso dos sítios de Muqui e de Itapina (distrito de Colatina), o levantamento realizado junto ao acervo do Conselho Estadual de Cultura é bem completo e atualizado, no entanto, nele há carência de informações antigas - especialmente visuais - que permitam a análise por comparação dos edifícios à época do tombamento e atualmente, inviabilizando a aplicação da metodologia adotada no subprojeto.

Para apurar diferenças e semelhanças referentes aos instrumentos legais adotados, sõ analisadas as principais leis e decretos que guiam estas instituições na atuação junto ao patrimônio nos âmbitos federal e estadual. Para isso, analisa-se a esfera federal, a partir do Decreto-Lei nº25 de 30 de novembro de 1937, que conceitua e organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional, para a apreensão do posicionamento do Brasil quanto ao seu patrimônio. Alterado de maneira pontual 3 , “desde sua edição, o Decreto-lei 25/37 vem sendo utilizado pela administração pública para efetivar os tombamentos federais,

variando apenas em quantidade no tempo” (CASTRO, 1991, p. 2). Como a pesquisa analisa tombamentos

  • 2 Resultado do 1º Seminário Brasileiro para a Preservação e Revitalização de Centros Históricos; a carta de Petrópolis define: “O sítio

histórico urbano - SHU - é parte integral de um contexto amplo que comporta as paisagens natural e construída, assim como a vivência de seus habitantes num espaço de valores produzidos no passado e no presente, em processo dinâmico de transformação, devendo os

novos espaços urbanos ser entendidos na sua dimensão de testemunhos ambientais em formação.” (CURY, 2004, p. 285)

  • 3 O Decreto-lei nº 3886 de 29 de novembro de 1941, cancela a necessidade da homologação do tombamento pelo presidente da República e a Lei 6292 introduz a homologação ministerial no procedimento de tombamento.

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realizados no Espírito Santo, consideram-se as leis e decretos atuantes no estado: a Lei nº 2.947, de 16 de dezembro de 1974, que, como tal, possui caráter obrigatório e regulamenta o Tombamento do Patrimônio Histórico no Espírito Santo; o Decreto 626-N, de 28 de fevereiro de 1975, que regulamenta a Lei nº 2.947 criando meios para sua fiel execução; e o Decreto nº 2026-R, de 17 de março de 2008, que regulamenta o Conselho Estadual de Cultura (CEC) do Espírito Santo. Com a assimilação desse conteúdo, conclui-se que as leis e decretos pertencentes ao Espírito Santo seguem o estabelecido no Decreto-Lei nº25/37, no que se refere às regras gerais. Por exemplo, a Lei Estadual nº 2.947/74 transcreve os artigos primeiro e segundo do Decreto-Lei nº 25/37, quando determina o que constitui Patrimônio Histórico e Artístico, os bens a que se refere, e a quem se aplica a presente lei.

A Resolução nº 02/87 aprova em caráter definitivo o tombamento de 40 imóveis em São Pedro do Itabapoana, pelo Conselho Estadual de Cultura. Os imóveis 24 e 42 do mesmo sítio têm tombamento mais recente, por meio das Resoluções nº 01/2007 e nº 01/2008, respectivamente, totalizando e 41 imóveis tombados. Após o tombamento, no mesmo ano, duas alunas do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo analisam o Processo nº 31/86, iniciado apenas quatro meses antes de sua finalidade, o tombamento formal do sítio. O trabalho de graduação das autoras contém o levantamento de todos os imóveis do sítio histórico, incluindo perfis das principais ruas, plantas de algumas edificações, fotografias, estado de conservação dos imóveis tombados e plantas do núcleo do sítio de São Pedro do Itabapoana. A produção final faz parte do acervo atual da SECULT, portanto, pode ser considerada enquanto fonte confiável de informações e, por se tratar de um produto efetuado à época do tombamento, é imprescindível para a pesquisa. São Mateus tem seus imóveis tombados antecedentemente, através da Resolução nº 01/76, na mesma década em que se inicia o processo de tombamento do casario do porto. Não apresenta mapeamento, mas possui croquis no caderno de “Recuperação do Porto de São Mateus”, feito pela Divisão de Patrimônio Histórico e Cultural do Departamento Estadual de Cultura, utilizados neste subprojeto. Na tentativa de ampliar a proteção formal dos imóveis a todo o sítio, ou seja, ao conjunto, devido à sua importância de totalidade e preocupação com o entorno dos imóveis tombados, no ano de 2008 é elaborada, pelo CEC, uma investigação sobre cada um desses sítios e o produto do estudo, denominado Análise da Proteção do Ambiente Cultural (APAC), é base para a criação das Resoluções nº 02/2010 para São Pedro do Itabapoana e nº 01/2010 para São Mateus, que estabelecem a Área de Proteção Cultural dos sítios e normatizam diretrizes para intervir no espaço público, lotes ou edificações locadas no interior da área em questão.

2 Objetivos

O objetivo deste subprojeto é investigar a relação Antigo/Novo, com interesse específico na análise de novas inserções formais e intervenções a nível urbanístico em sítios urbanos de caráter histórico; com foco naqueles com tombamento promovido pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC) do Espírito Santo, órgão vinculado a Secretaria de Estado da Cultura (SECULT) do mesmo estado. Através da investigação, pretende-se reconhecer o impacto das intervenções e as formas de ocupação em relação à preexistência nos sítios históricos de São Mateus (São Mateus) e São Pedro do Itabapoana (Mimoso do Sul). Para tal, esta

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pesquisa faz uso da metodologia de Queiroz (2013) - baseado no modelo proposto por Silva (2012) - exposto no tópico a seguir. Ao fazer uso do método citado para outros sítios, espera-se confirmar sua eficácia na tentativa de parametrizar o processo de análise da modificação urbana em sítios históricos.

3 Metodologia

Na fase inicial da pesquisa, são feitas leituras relativas à temática do subprojeto. Para tanto, são consultadas referências resultantes de produção acadêmica no âmbito de graduação (pesquisa em nível de iniciação científica), de pós-graduação (dissertações de mestrado); legislação de preservação do patrimônio em âmbito federal e estadual; e cartas patrimoniais. Procura-se conhecer a abordagem dada, nas diferentes referências indicadas, à nova inserção em sítios históricos urbanos. Primeiramente, obtêm-se as noções de proteção do patrimônio; e conhecem-se as medidas existentes e os responsáveis por tal ato, especialmente no caso dos conjuntos históricos. Por meio da comparação entre as leis federal e estadual, busca-se estabelecer o quão completas são, bem como o quanto se assemelham ou se diferenciam, no que se refere

ao tratamento dado ao sítio histórico e às novas inserções. Segue-se com o estudo acerca da categoria da

pesquisa, “sítio histórico urbano”, descobrindo como o conceito se desenvolve, por meio das diferentes

denominações, reconhecendo definições parecidas, até a hoje conhecida, por meio das cartas patrimoniais. E, por fim, após obter as noções citadas, tem-se a apresentação de alguns estudos que tratam diretamente a relação Antigo/Novo, estes também realizados sob a perspectiva das cartas, complementado com conclusões e conhecimento atingidos a partir de todas as leituras. Em sequencia, realizam-se resumo/dissertação sobre o assunto e quadros síntese sobre a categoria sítio histórico urbano sob a

perspectiva das cartas patrimoniais associada à análise do entorno dos monumentos. A continuidade da pesquisa é dada a partir de levantamento de documentação junto ao acervo do Conselho Estadual de Cultura: processos de tombamento, documentos sobre as Áreas de Proteção do Ambiente Cultural (APAC); e processos relativos a propostas de intervenção projetos arquitetônicos em sítios históricos urbanos do Espírito Santo. Com o material coletado, produzem-se quadros síntese no Word e base digital - carta com localização dos imóveis analisados no software SPRING 4 - dos sítios históricos de São Mateus, no município de São Mateus e São Pedro do Itabapoana, no município de Mimoso do Sul. Os dados são organizados segundo a metodologia de Queiroz (2013), desenvolvida com base no modelo proposto por Silva (2012), ambos elaborados em dissertações de mestrado. Com essas informações é possível avaliar a influência dos elementos na modificação da ambiência urbana dos sítios históricos.

No que concerne à questão específica das relações formais da nova edificação em relação à preexistência, Silva (2012) identifica, em sua dissertação de mestrado, nove elementos condicionantes da relação Antigo/Novo, na leitura das cartas patrimoniais: Volumetria, Cor, Densidade, Materiais, Proporção, Implantação, Altura, Escala e Textura. No quadro abaixo eles estão ordenados conforme as décadas das cartas em que estão presentes.

4 O SPRING é um software que associa informações numéricas e/ou de texto à imagens georreferenciadas, possibilitando um banco de dados espaciais.

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Quadro 1 - Elementos encontrados nas cartas patrimoniais organizados por décadas. Fonte:

SILVA (2012, p. 29)

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Nota-se que as duas primeiras décadas são aquelas em que aparece a maior quantidade de novos elementos, que vão sendo reforçados nas décadas seguintes. Mas, é principalmente nos anos 1970 que ocorre a maior diversidade, o que pode ser justificado pela Recomendação de Nairóbi, datada de 1976, ou seja, na década em questão. De acordo com Sant’Anna (1995), a Recomendação de Nairóbi é o documento que expressa a maior quantidade de aspectos para regularização de novas construções. Após as conclusões pela análise da tabela, Silva (2012) agrega esses elementos em três grupos, sendo o primeiro grupo relativo à caracterização formal da nova arquitetura (volume, proporção, escala e altura), o segundo à ocupação da arquitetura no lote (implantação), e o terceiro à aparência (material, densidade, cor e textura). Estes elementos podem se relacionar com a preexistência por meio da imitação ou ruptura.

[

...

]

Quanto maior a subordinação dos novos elementos em relação aos elementos

encontrados na preexistência, maior será a relação de imitação que a nova edificação terá com as construções existentes. Da mesma forma, quanto maior o confronto dos novos elementos com relação aos elementos existentes, maior será a relação de ruptura

que a nova edificação terá com as edificações precedentes. (SILVA, 2012. p. 32)

São feitas, ainda por Silva (2012), simulações em terrenos vazios em Sabará (Minas Gerais), na tentativa de analisar como e qual (is) o elemento (s) interfere (m) de maneira mais ou menos significativa quando integrante (s) de um contexto amplo e complexo, como o de sítios históricos urbanos, especificamente sobre a cidade de Sabará em Minas Gerais. Esse tipo de experiência é realizado para tentar tornar mais palpáveis os processos de decisão sobre propostas de nova inserção formal nestes sítios, logo, é de grande importância.

Existe um estudo que ampliando o método proposto por Silva (2012) ao sítio histórico de Santa Leopoldina, no estado do Espírito Santo. Na dissertação de mestrado de Rodrigo Zotelli Queiroz (2013), adota-se um novo instrumento para o estudo do impacto das novas inserções arquitetônicas sobre a ambiência dos sítios históricos urbanos, o Índice de Modificação da Ambiência Urbana - IMAU, que possibilita a análise do nível de interferência de cada grupo, ao estabelecer pesos a estes e a seus elementos. Esse índice é expresso na forma de um número, resultado da somatória dos elementos analisados que estabelecem relação de confronto com a preexistência, conforme indicado na tabela 1.

Tabela 1 - Peso indicado por Queiroz (2013) para cada elemento selecionado das cartas patrimoniais por Silva (2012), seguindo o agrupamento proposto pela mesma. Fonte: QUEIROZ (2013, p. 80).

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Além do IMAU o autor propõe a definição do nível de modificação da ambiência urbana, termo que expressa um tipo de forma arquitetônica (tabela 2), diretamente associada ao IMAU da edificação.

Tabela 2 - Relação entre os elementos que compõem as “Formas arquitetônicas” e “Índice de Modificação da Ambiência Urbana”. Fonte: Queiroz (2013, p. 81)

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O estudo do autor pode e deve ser usado em outras situações como fundamento de processos de projetação e aprovação de projetos de nova arquitetura; porém, deve ser considerado que as mesmas reações podem não se repetir quando analisados todos os outros sítios históricos tombados, portanto, não é possível considerar as conclusões do estudo como regra para todas as inserções de nova arquitetura em contextos históricos sem que sejam feitos estudos específicos para a área que se deseja analisar. Sendo assim, aplica-se nesta pesquisa, a metodologia descrita, como confirmação do método.

4 Resultados e Discussão

Apesar do processo realizado para ambos os sítios ser o mesmo, bem como o método e o modelo aplicados, a execução ocorre separadamente na formulação de quadros e/ou ao usar o SPRING. A produção inicial consiste na análise dos 33 imóveis tombados do sítio histórico de São Mateus e dos 44 (quarenta e quatro) do segundo sítio em estudo - São Pedro do Itabapoana. Ou seja, totaliza a elaboração de 77 quadros além de oito mapas, dentre os quais, os quatro de maior relevância estão expostos neste relatório - imóveis tombados e IMAUs de cada sítio. São elaborados quadros síntese, fontes de dados relativos a edificações tombadas e novas inserções arquitetônicas. Estes são produzidos a partir da análise de cada imóvel

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isoladamente através de imagens da edificação a época do tombamento, ou o mais antiga possível, em relação ao seu estado atual.

Quadro 2 - Exemplo de quadro síntese com características dos imóveis tombados de São Mateus e de São Pedro de Itabapoana, modelo que advém de pesquisa de iniciação científica de Mazzini (2013), associada diretamente à dissertação de Queiroz (2013). O imóvel analisado neste quadro está localizado no sítio de São Pedro do Itabapoana. Fonte: Produção própria da autora (2014).

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Na formulação de base digital no programa SPRING é utilizado um ortofotomosaico, elaborado a partir de um levantamento aerofotogramétrico em junho de 2007 sobre a região sul, e entre maio e junho de 2008 sobre a região norte do estado, disponibilizadas pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Espírito Santo (IEMA). A partir deste levantamento, é feito o recorte da área que interessa ao estudo, a dos sítios históricos analisados São Pedro do Itabapoana e São Mateus. Inserida a ortofoto com a área do sítio a ser estudado no SPRING, é importada a base em formato vetorial composta por polígonos representativos dos imóveis tombados já locados com posicionamento mais fidedigno possível ao atual, devido à indisponibilidade de uma base precisa efetuada por órgãos/profissionais competentes. A base utilizada é produzida pela própria autora no programa AutoCAD e expressa a localização e as dimensões aproximadas, visto que a carência dessa informação não impossibilita nem prejudica o objetivo da pesquisa. Após a sobreposição da base vetorial sob a ortofoto, são associadas informações cadastrais aos imóveis, frutos da análise das características (quadros produzidos) e de levantamento junto ao acervo da SECULT e

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da Superintendência Estadual do IPHAN. Os dados associados aos polígonos no espaço são - uso atual e estado de preservação determinados nas respectivas APACs em 2008, número de pavimentos das edificações e o IMAU, resultado do estudo realizado previamente nos quadros.

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Figura 1 - Cartas geradas no programa SPRING, conforme descrito no texto. Preenchidos, em destaque nos mapas, estão os imóveis tombados (acima) com seus respectivos IMAUs (abaixo) do sítio de São Mateus. Fonte: Produção própria da autora (2014)

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Figura 2 - Cartas geradas no programa SPRING, conforme descrito no texto. Preenchidos, em destaque nos mapas, estão os imóveis tombados segundo a data de tombamento (acima) com seus respectivos IMAUs (abaixo) do sítio de São Pedro do Itabapoana. Fonte: Produção própria da autora (2014)

Para que as conclusões embasadas nas cartas fiquem claras, é preciso expor alguns aspectos

importantes sobre os imóveis analisados.

Vale ressaltar que as informações predominantes para a

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montagem do material de estudo e para as constatações são retiradas principalmente da APAC, ou seja, as informações são do ano de 2008. Nas figuras 1 e 2, as cartas estão organizadas da mesma forma para os dois sítios, sendo que a de acima indica os imóveis tombados através das respectivas resoluções; e a de baixo indica o Índice de Modificação da Ambiência Urbana. O mapa de edificações tombadas em São Pedro do Itabapoana se apresenta por meio das datas de tombamento: dois imóveis não tombados em 1987 são tombados em 2007 e 2008 por resoluções do CEC. As edificações 25 e 26 são casos diferenciados, pois, apesar de não serem tombadas, são marcadas e numeradas juntamente com as demais no mapa exibido na APAC, logo, como a APAC está sendo considerada a fonte principal, opta-se por analisá-las. Sendo assim, ambas aparecem sem preenchimento no mapa de tombamento e preenchidas no mapa de IMAUs. No caso do sítio histórico de São Mateus, há 33 imóveis tombados, dentre os quais, nove ruíram por completo e quatro estão em ruínas. Apesar dos números por si só serem expressivos, in loco essa situação parece mais recorrente do que realmente é, devido ao vazio urbano causado pela ausência dos imóveis ou de novas construções onde estes estavam implantados; bem como pela localização destes lotes desocupados de construção, em maioria fora da área do antigo porto, visto que à medida que se afasta daquele local os imóveis tombados estão distribuídos pontualmente e mais espaçados entre si, realçando a sensação de dispersão e possível percepção de ausência de edificações tombadas. Nos casos onde ainda há ruínas é possível fazer a análise proposta, sendo que o mesmo é inviável no caso dos imóveis que ruíram, ficando estes últimos, portanto, sem um valor de IMAU, preenchidos no primeiro mapa de imóveis tombados e sem preenchimento no mapa representativo dos IMAUs.

Quanto aos elementos condicionantes nas edificações, nos dois sítios, ao se estudar os quadros elaborados, nota-se que os três principais elementos que apresentam relação de modificação são a densidade, em razão da abertura e fechamento de vãos frequentes, a textura e a cor. Ou seja, as modificações se manifestam com maior ocorrência no Grupo Aparência. Essas mudanças são rápidas de efetuar, dessa forma, fogem mais facilmente ao controle dos órgãos competentes. Segundo a responsável pelo CEC, Maria Angélica Tulli Neto, em 2013 os moradores de São Pedro do Itabapoana tomam a iniciativa e pintam por conta própria os imóveis tombados, com cores fortes e discordantes das originais, sem a anuência do órgão consultivo. Para que o sítio volte às características originais, o conselho emite notificações para que as edificações sejam repintadas com as cores originais. No mesmo ano, os imóveis do porto de São Mateus também são pintados sem o consentimento dos órgãos responsáveis, porém, neste caso as cores usadas são menos destoantes em relação à preexistência. Logo, não há proposta de repintura para retorno das cores originais dos imóveis.

Observa-se em alguns casos outro aspecto influenciador direto do grupo da aparência e que não consta dentre os nove elementos condicionantes firmados por Silva (2012), a mudança de estilo arquitetônico, como por exemplo, em um dos dois imóveis com IMAU fora da primeira faixa de valores, o imóvel 15 em São Mateus (IMAU = 13). Esse tipo de mudança se manifesta por modificação das características formais, como substituição de esquadrias e/ou adição de adornos nas fachadas, e se manifesta no somatório do IMAU enquanto modificação dos elementos mais recorrentes - cor e textura ou

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densidade. É a única questão onde se observa deficiência na metodologia adotada. Porém, por se tratar de casos muito específicos, há a possibilidade de serem desenvolvidos novos estudos para adaptação do método na mudança de estilo arquitetônico. No entanto, ainda assim, continua eficaz em seus objetivos e pode ter a prática ampliada para novos sítios históricos no mesmo procedimento aplicado nesta pesquisa.

A ocupação, grupo de maior peso no cálculo do IMAU da construção, só não permanece em manutenção em um dos imóveis dentre todos os pesquisados, o imóvel 28 do sítio de São Pedro do Itabapoana. Esta edificação é escolhida como exemplo de quadro de características gerais (Quadro 2) por apresentar outra particularidade: é a única entre todas que está na faixa de IMAU de cor vermelha, possui o valor máximo de IMAU, 57. Até a vistoria realizada em 2008 por arquitetos da SECULT, só resta a fachada frontal do imóvel original e trechos das fachadas laterais, sendo que já há uma nova construção implantada afastada da fachada original. Atualmente, situação tomada como base para a análise, não existem mais vestígios da edificação tombada em 1987, e a nova construção apresenta modificação dos nove elementos em relação ao imóvel original. Portanto, esse imóvel recebe destaque por ser a única edificação desta pesquisa com relação de ruptura total com a preexistência em meio à maioria de imitação. Silva (2012) constata-se, ainda, que a construção se afasta da imitação e se aproxima da ruptura conforme muda a sua implantação, principal elemento modificador da ambiência, ocorrência que se verifica no imóvel 28, em São Pedro do Itabapoana.

O mapeamento de IMAU está organizado em cinco faixas de valores - 0 a 12, 13 a 23, 24 a 34, 35 a 45 e 46 a 57 - associadas à cor dentro da escala de verde a vermelho, nessa ordem. Sendo assim, quanto mais esverdeado for o polígono representativo do imóvel mais próximo ele está da relação de subordinação à preexistência ou imitação, da mesma forma, quanto mais próximo da cor vermelha, maior a relação de confronto ou ruptura. Dos 77 imóveis tombados analisados 69 possuem IMAU na primeira faixa de valor (entre 0 a 12), indicação de que em ambos os sítios a relação de imitação é mais frequente do que a de ruptura. Ao examinar o mapa sob a perspectiva do IMAU, pode-se constatar que em São Mateus apenas duas edificações apresentam IMAU fora da primeira faixa de valor, sendo que em São Pedro do Itabapoana são seis casos como este. Chega-se a conclusão que o sítio de São Mateus, quando analisado a partir dos valores de IMAU, encontra-se mais conservado que o sítio de São Pedro do Itabapoana. Como dito anteriormente neste relatório, os edifícios da área histórica do porto de São Mateus passam por um processo de restauro na década de 1970, fator significativo para inferir a afirmação anterior. Em São Mateus existe também maior frequência de processos de solicitação de restauro de imóveis por parte dos proprietários, não exatamente por iniciativa própria, mas por notificações prévias enviadas pelo CEC baseadas em relatórios e vistorias no local. Os estudos feitos em Sabará, cidade de Minas Gerais, por Silva (2012 indicam que, para aquele caso especificamente, os projetos aprovados pelo IPHAN se aproximam mais da imitação quando a nova arquitetura é construída próxima ou no interior do centro histórico tombado e com mais liberdade de ruptura com o antigo quando construídas mais afastadas do objeto tombado (inclusive visualmente). Em São Pedro do Itabapoana a averiguação não se repete, porém, em São Mateus há relação

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com a conclusão da autora, conservação.

se considerada a área

do porto, prioridade nas obras de restauração

e

A exceção do imóvel 28 as conclusões acima são feitas com base na análise da situação original e atual dos imóveis tombados. Em relação à nova arquitetura, somente quatro imóveis tombados no sítio histórico de São Pedro do Itabapoana configuram caso de nova construção locada onde antes havia um imóvel tombado, sendo que, entre os quatro, três (nº 01, 14 e 31) possuem IMAU fora da menor faixa de valor expresso nos mapas. No entanto, deve-se salientar que o IMAU máximo entre as três edificações é igual a 25, logo, apesar de estarem mais afastadas da imitação, quando em relação aos demais imóveis analisados, ainda estão um pouco mais próximas da imitação do que da ruptura, quando analisados por valor de IMAU, variante entre 0 e 57. Ou seja, baseado na situação e época consideradas pela pesquisa, pode-se afirmar que em São Pedro do Itabapoana, a maioria das edificações - 38 de 44 imóveis - encontram-se com baixo impacto de modificação sobre a ambiência urbana e as novas construções se aproximam do equilíbrio.

5 Conclusões

Sempre há possibilidade de a nova inserção desequilibrar a ambiência do contexto urbano já consolidado. No entanto, ainda que haja um esforço nas decisões para que isso não ocorra, e que desde os primeiros documentos e discussões essa preocupação esteve presente; não é possível reconhecer uma base conceitual e metodológica orientadora.

A partir da utilização da metodologia, percebe-se que o método de Silva (2012) não se aplica à maioria dos casos, pois a edificação tombada não tem como estar em relação de imitação com a preexistência se considerar que ela mesma representa o preexistente. Porém, para novas edificações, confirmam-se as conclusões da autora. Quanto ao método de Queiroz (2014), averiguou-se que a aplicação é válida tanto para imóveis tombados quanto para imóveis do entorno ou novas construções, pois, as modificações realizadas em um imóvel tombado podem alterar a ambiência urbana na qual este está inserido tanto quanto uma nova construção. Com base na aplicação feita no subprojeto, afere-se que ambas as metodologias se configuram eficazes para análise dos sítios históricos urbanos de São Mateus e São Pedro do Itabapoana, mas se fazem necessários desdobramentos em estudos complementares que deem prosseguimento à análise e verifiquem aspectos, como se o peso dado a cada elemento está adequado ao sítio estudado.

Os projetos relativos a novas inserções arquitetônicas devem ser avaliados previamente pelo CEC; porém, encontram-se exemplos de irregularidades em intervenções em edificações tombadas, como demolições; novas inserções arquitetônicas, incompatibilidade da construção em andamento em relação ao projeto aprovado; e, principalmente, obras irregulares. Falta, segundo Queiroz (2013, p. 94) “maior integração entre o nível municipal e estadual responsáveis pelo planejamento e pela gestão do sítio histórico”. Durante as pesquisas realizadas diretamente no CEC, é possível confirmar esta situação. Considera-se, portanto, que havendo critérios claros, associados a rigor nas verificações, é possível

Universidade Federal do Espírito Santo Programa Institucional de Iniciação Científica Jornada de Iniciação Científica 2013/2014 Ciências Sociais Aplicadas

controlar a modificação da ambiência urbana protegida. Não há uma receita para essa situação, trata-se de um processo delicado, de análise caso a caso por órgãos competentes. Todavia, existem métodos como o utilizado nesta pesquisa que tornam o processo mais claro e podem facilitá-lo. As metodologias adotadas são relativamente simples e rápidas quando comparadas com a elaboração de leis, além de permitir a possibilidade de modificação e discussão dos pesos atribuídos a cada elemento condicionante, inclusive com a participação da população local através de reuniões e discussões com os órgãos competentes. Dessa maneira, os habitantes do sítio histórico mantêm a relação direta com o local, auxiliando efetivamente na sua conservação e os órgãos responsáveis passam a ter um mecanismo mais produtivo, prático e direto para análise, controle e conservação do patrimônio.

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