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ELIANE BRUM - 22/04/2013 08h59 - Atualizado em 22/04/2013 12h19

TAMANHO DO TEXTO

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Pela ampliação da maioridade moral
E pelo aumento do nosso rigor ao exigir o cumprimento da lei de governantes
que querem aumentar o rigor da lei (e também dos que não querem)
ELIANE BRUM
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Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Autora de um romance Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O avesso da lenda(Artes e Ofícios), A vida que
ninguém vê (Arquipélago, Prêmio Jabuti 2007) e O olho da rua - uma repórter em busca da literatura da vida
real (Globo).
elianebrum@uol.com.br
Twitter: @brumelianebrum
(Foto: Lilo Clareto/ Divulgação)

Eu acredito na indignação. É dela e do espanto que vêm a vontade de construir um mundo que faça
mais sentido, um em que se possa viver sem matar ou morrer. Por isso, diante de um assassinato
consumado em São Paulo por um adolescente a três dias de completar 18 anos, minha proposta é de
nos indignarmos bastante. Não para aumentar o rigor da lei para adolescentes, mas para aumentar
nosso rigor ao exigir que a lei seja cumprida pelos governantes que querem aumentar o rigor da lei.
Se eu acreditasse por um segundo que aumentar os anos de internação ou reduzir a maioridade penal
diminuiria a violência, estaria fazendo campanha neste momento. Mas a realidade mostra que a
violência alcança essa proporção porque o Estado falha – e a sociedade se indigna pouco. Ou só se
indigna aos espasmos, quando um crime acontece. Se vivemos com essa violência é porque
convivemos com pouco espanto e ainda menos indignação com a violência sistemática e cotidiana
cometida contra crianças e adolescentes, no descumprimento da Constituição em seus princípios
mais básicos. Se tivessem voz, os adolescentes que queremos encarcerar com ainda mais rigor e por
mais tempo exigiriam – de nós, como sociedade, e daqueles que nos governam pelo voto –
maioridade moral.
Se é de crime que se trata, vamos falar de crime. E para isso vale a pena citar um documento
da Fundação Abrinq bastante completo, que reúne os estudos mais recentes sobre o tema. Mais de
8.600 crianças e adolescentes foram assassinados no Brasil em 2010, segundo o Mapa da Violência.
Vou repetir: mais de 8.600. Esse número coloca o Brasil na quarta posição entre os 99 países com as
maiores taxas de homicídio de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. Em 2012, mais de 120 mil
crianças e adolescentes foram vítimas de maus tratos e agressões segundo o relatório dos

e com bastante atenção: a quem isso serve? É uma mentira dizer que os adolescentes não são responsabilizados pelos atos que cometem. Vale a pena pensar. Numa pesquisa realizada pelo CNJ. a um desejo que vá além do consumo e também a formas não violentas de se relacionar com o outro – os principais espaços de dignidade. em 11 estados. seguido por tráfico. E encontro muitos argumentos que me convencem de que a violência está relacionada ao que acontece com a escola no Brasil. adivinhe: a maioria abandonou a escola (ou foi abandonado por ela) aos 14 anos.4% cometeram homicídios. E quase 90% não completou o ensino fundamental. Mas. de novo. Deste total de casos. Menos de 3% dos suspeitos de terem cometido violência contra crianças e adolescentes tinham entre 12 e 18 anos incompletos. uma relação explícita? Não são a escola – como lugar concreto e simbólico – e a educação – como garantia de acesso ao conhecimento. Do total de adolescentes em conflito com a lei em 2011 no Brasil. é que há muitos adolescentes assassinos entre nós. 68% sofreram negligência. conforme uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Quase metade do total de adolescentes infratores realizaram o primeiro ato infracional entre os 15 e os 17 anos.20% violência sexual e 8. as instituições operam acima da sua capacidade. Será que não há algo para pensar aí. em 19 há registros de mortes de jovens sob a tutela do Estado. conforme levantamento feito entre janeiro e agosto de 2011. algo tremendo nessa faixa etária.60% exploração do trabalho infantil. sim. Sem contar que.20% violência psicológica. como mostrou uma reportagem do Fantástico feita por Marcelo Canellas. de imediato. desvalorizados ensinando (ou não ensinando) outros desvalorizados. Quem comete violência contra crianças e adolescentes são os adultos. 29. Será que o assassinato de mais de 8. Será que essa violência – brutal de várias maneiras – não tem nenhuma relação com a outra que tanto nos indigna? Teríamos mais esperança de mudança real se. talvez os mesmos que clamam por redução da maioridade penal. O tão atacado Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê a responsabilização. 49. A começar pelo recado que se dá a crianças e adolescentes quando os professores são pagos com um salário indigno. diante de um crime bárbaro. apenas em 5% de quase 15 mil processos de adolescentes infratores havia informações sobre o Plano Individual de Atendimento (PIA).600 crianças e adolescentes e os maus tratos de mais de 120 mil não valem a nossa indignação? Diante desse massacre persistente e cotidiano.70% violência física. desenvolvimento e inclusão na infância e na adolescência? É demagogia fazer relação entre educação e violência. E a sensação da maioria da população. Aqueles que escolhem (e eles são cada vez menos) uma das profissões mais importantes e estratégicas para o país se tornam. torturados e sexualmente violados para pagar pelos seus crimes. praticado por um adolescente a três dias de completar 18 anos. o Estado não cumpre a lei. 8. pode se alegrar.atendimentos no Disque 100. pelo menos um adolescente foi abusado sexualmente nos últimos 12 meses. A maioria dos delitos é roubo. que permitiria que a medida socioeducativa funcionasse como possibilidade de mudança e desenvolvimento. É o que acontece na prática numa parcela significativa das instituições que deveriam dar exemplo de cumprimento da lei e oferecer as condições para que esses adolescentes mudassem o curso da sua história. Segundo a pesquisa do CNJ já citada. E. . Alguém pensa em se indignar contra isso? Se você se alinha àqueles que querem que os adolescentes sejam encarcerados. e 28% dos entrevistados disseram ter sofrido agressões físicas dos funcionários. Não é. Wálter Nunes e Luiz Quilião. Inclusive com privação de liberdade. talvez se pudesse esperar um alto índice de violência por parte de crianças e adolescentes. É como se aquele que matou Victor Hugo Deppman na noite de 9 de abril fosse legião. em 34 instituições brasileiras. 46. como querem alguns? Mas será que é aí que está a demagogia? É sério mesmo que a maioria da população de São Paulo acredita que tenha mais efeito reduzir a maioridade penal em vez de pressionar o Estado – em todos os níveis – a cumprir com sua obrigação constitucional de garantir educação de qualidade? Não encontro argumentos que me convençam de que a redução da maioridade penal vá reduzir a violência. entre a quinta e a sexta séries. o povo fosse às ruas exigir que crianças e jovens sejam educados – em vez de bradar que sejam enjaulados mais cedo ou com mais rigor nas prisões que tão bem conhecemos.

3% para 1%.09%. Vou repetir: 0. segundo pesquisa do Datafolha.9% para 8. Alguém se lembra de ter visto esse tipo de tese em algum momento histórico? Percebe para onde isso leva? . apenas 0. num ano pré-eleitoral e com 93% dos paulistanos a favor da redução da maioridade penal. em vez de melhorar a educação e as condições concretas de vida. não seria mais racional cumpri-la? É o que o bom senso parece apontar. assim como nenhuma relação com as condições concretas em que cumprem as medidas socioeducativas. Entre os muitos problemas desse raciocínio que parece afetar o senso comum está o fato de que a maioria dos adolescentes infratores é formada por pretos. Uma medida tida como enérgica e rápida. passando o período máximo de internação dos atuais 3 anos para 8 anos em casos de crimes hediondos. como alguns querem fazer parecer. os de latrocínio (roubo seguido de morte). de 3. É claro que. (São também os que mais morrem e sofrem todo o tipo de violência no Brasil. Vale a pena registrar ainda que o número de crimes contra a pessoa cometidos por adolescentes diminuiu – e não aumentou. um pedaço arrancado de mim “Dom Ciccillo” e o fim do mundo Eternidade de mercado Açúcar.) Essa espécie de “marca da maldade” teria então cor e estrato social? Nesse caso. definiu como “epidemia de insegurança” – situação que não tem colaborado para aumentar a popularidade do atual governo. Afif Domingos (PSD). e os de estupro.saiba mais                        Esses filhos perplexos diante da velhice dos pais À margem do pai O capeta do porcelanato Dentro da mãe. E a maioria deles cometeram crimes contra o patrimônio.5% para 1. a única medida preventiva possível para quem defende tal crença seria enjaular ao nascer – ou nem deixar nascer. num momento em que o Estado de São Paulo sofre com o que o próprio vice-governador. pardos e pobres. faz sentido acreditar que se trata apenas de “vocação para o mal”. Sal e Gordura: as engrenagens da 'junk food' O Doping das crianças O coração grande de Cristina A cara da vagina O mindinho torto A menina quebrada Perdão. Vale a pena também dar a dimensão real do problema: da população total dos adolescentes brasileiros. se alguém acredita que os crimes cometidos pelos adolescentes não têm nenhuma relação com as condições concretas em que vivem esses adolescentes. Segundo dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.9%.4%. o governador Geraldo Alckmin (PSDB) prefira enviar ao Congresso um projeto para alterar o ECA. entre 2002 e 2011 os casos de homicídio apresentaram uma redução de 14. de 5. Mas é previsível que. Aaron Swartz Permissão para ser INfeliz Rosângela e o livro enterrado O silêncio não existe “Malditos maias!” A educação tem sotaque Sensação de insegurança? Máscara sem rosto Sobrenome: “Guarani Kaiowa” Missão Ebola: “Me reinventei a marretadas” Memória é tanto lembrar quanto esquecer Será que a perpetuação da violência juvenil decorre da falta de rigor da lei ou do fato de que parte das instituições de adolescentes funciona na prática como um campo de concentração? Antes de tentar mudar a lei.09% cumprem medidas socioeducativas como infratores.

Enilda pagava as prestações do caixão do segundo filho. mas não sei se estavam vivas. Àquelas que fracassam cabe a dor que não tem nome. Mas o Estado não tem essa prerrogativa.Há que ter muito cuidado com o que se deseja – e com o que se defende. Em 2006. roubem nem sejam mortos? Que é disso que se trata? Quando o primeiro filho de Enilda foi executado. O extraordinário é que. a maioria consegue. E só testemunhei a sociedade brasileira olhar de verdade – olhar para ver essa realidade – uma única vez: quando o Brasil assistiu. É claro que perdia todas as suas batalhas. Enilda vivia numa situação de precariedade quase absoluta. mas também de comprar caixão para filho vivo. num calor infernal. O que podemos dizer a mulheres como Enilda? Que agora podem ficar tranquilas porque o país voltou a discutir a redução da maioridade penal e o aumento do período de internação? Que é por falta de cadeia logo cedo que seus filhos vendiam e consumiam drogas. cuidando da casa e dos filhos das outras. Se eu estivesse no lugar dos pais de Victor Hugo Deppman. eles correram para regularizar o pagamento. a parcela que morre bem mais do que mata. eu defendesse o aumento do número de anos de internação. sempre me surpreendi não com a violência cometida por adolescentes – mas que não seja maior do que é. É um bom momento para revê-lo. De minha parte. a lavadeira Enilda. a mesma dor impossível que vive a mãe de Victor Hugo Deppman: enterrar um filho. Não há como alcançar a dor de perder um filho – e de perdê-lo com tal brutalidade. numa luta solitária e sem apoio. A maioria delas trabalha dura e honestamente. Elas respiravam. Enilda dizia: “Meu filho vai morrer honestamente”. Diante da minha perplexidade. O garoto ainda estava vivo. Diante de um crime bárbaro. essa mãe tinha certeza de que o filho morreria em breve. cuja expectativa de vida era 20 anos. tentando trancar nas peças apertadas da casa os filhos que restavam. seus filhos ainda vivos aceitarão as péssimas condições de vida e levarão uma existência em que não trafiquem. em horário nobre do domingo. ele tinha 20 anos – e já tinha passado por instituições para adolescentes e pela prisão. andei pelo país atrás dessas mulheres. espantada com uma geração de brasileiros. qualquer crime bárbaro e não apenas o que motivou o atual debate. Lembro especialmente uma. Enilda me explicou que se precavia porque testemunhava muitas mães nas redondezas pedindo esmola para enterrar os filhos – e ela não queria essa humilhação. apesar de sua enorme solidão. para ela. É uma prerrogativa do indivíduo. elas se viram do avesso para garantir um futuro para seus filhos. O indivíduo pode desejar vingança em seu íntimo. em meio à enormidade da sua dor. os parentes da vítima podem até desejar vingança. ao documentário Falcão . sem amparo e com falta de tudo. como sociedade. . E. O pai do menino tinha ganhado um dinheiro fazendo pão e. neste momento de dor impossível. A certeza de ser honesta era. ela estava com as prestações do caixão atrasada. Quando conversei com ela. assim como a redução da maioridade penal. roubavam e foram assassinados? Que. toda a sanidade possível. dado o nível de violência em que vive uma parcela da juventude brasileira. Sabe por que a violência praticada por adolescentes não é maior do que é? Por causa de seus pais – e especialmente de suas mães. Do Estado se espera que leve adiante o processo civilizatório. Contra tudo e contra todos.Meninos do tráfico. (leia aqui). de Fortaleza. a maioria negros e pobres. as conquistas de direitos humanos tão duramente conquistadas. Assim como muito cuidado em não permitir que manipulem nossa indignação e nossa aspiração por um mundo em que se possa viver sem matar ou morrer. mas em absoluta impotência. Quando o primeiro filho foi assassinado pela polícia. para que não fossem às ruas e se viciassem em crack. talvez. daqueles que sofrem o martírio e estão sob impacto dele. nossa maturidade se mostra pelo conteúdo que damos à nossa indignação. ao saber que podem ir presos aos 16 em vez dos 18 anos. É nas horas críticas que mostramos se estamos ou não à altura da nossa época – e de nossas melhores aspirações. Nunca alcancei essa dor. o Estado não pode ser vingativo em seus atos. muitas como empregadas domésticas. o único ato de potência de uma mulher que perdera tudo. que era não apenas de enterrar um filho.

Educa-se também pelo exemplo. Não há educação sem responsabilização. Neste caso. E ninguém responde por isso. é a falsa questão. pretende-se dar a impressão à sociedade que os adolescentes não são responsabilizados ao cometer um crime. de fato. a maioria das crianças e adolescentes que infringiram a lei foi vítima. que só empurra o problema para a frente.) . se responsabilizam o suficiente pela nova geração de brasileiros. nem a sociedade. Essa. (Eliane Brum escreve às segundas-feiras. Mas. A questão. quando a solução apresentada é aumentar o rigor da lei – e/ou reduzir a maioridade penal –. governantes e parlamentares poderiam demonstrar que têm maioridade moral cumprindo e fazendo cumprir a lei cujo rigor (alguns) querem aumentar. é que nem o Estado.Antes de tornar-se algoz. me parece. É por compreender isso que o ECA prevê medidas socioeducativas.