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ENSINO DE FÍSICA: presente e futuro

CO-1-017

Atrito : “Salvando aparências” ♦
Marcelo Elias da Silvaa [marcelo.elias@zipmail.com.br]
Wilma Machado Soares Santosa [wilma@if.ufrj.br]
Penha Maria Cardoso Dias a [penha@if.ufrj.br]
a

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Introdução
A Física ensinada nas salas de aula nem sempre trata de situações do mundo real. É claro que uma
conquista na metodologia da Física foi a redução de problemas a seus fatores essenciais, deixando de lado
qualidades não inerentes a um fenômeno em estudo. Mas a prática indiscriminada desse método pode
levar ao ensino de uma Física que existe, apenas, no mundo do “faz de conta”. Entretanto, há muitas
situações em que o ``supérfluo” produz efeitos interessantes em si e não necessariamente deletérios. Em
particular, forças de atrito são, freqüentemente, desprezadas, mas há situações em que o atrito é o centro
e a razão de ser do fenômeno. Este artigo propõe um método de ensinar atrito a estudantes do Ensino
Médio. Um pressuposto do método é a abordagem construtivista de David Ausubel, cujo breve resumo é
apresentado na segunda seção.
Breve resumo sobre a teoria da aprendizagem significativa
Essa teoria foi desenvolvida por David Ausubel, na década de 60. Ela pretende explicar o processo
de ensino-aprendizagem a partir de uma “perspectiva cognitiva” , isto é.
“[...] entender a aprendizagem como um processo de modificação do conhecimento, em vez de
comportamento em um sentido externo e observável, e reconhecer a importância que os processos
mentais têm nesse desenvolvimento”.
Uma outra característica marcante das idéias de Ausubel é o fato de
“[...] basearam-se em uma reflexão específica sobre a aprendizagem escolar e o ensino, em vez de
tentar somente generalizar e transferir à aprendizagem escolar conceitos ou princípios explicativos
extraídos de outras situações ou contextos de aprendizagem”.
A aprendizagem significativa depende, pois, do quanto a nova informação for “substanciada” pelos
conhecimentos prévios do aprendiz; contrariamente, quando não houver tal embasamento, a aprendizagem
é mecânica ou repetitiva. Logo:
Efetivamente, a aprendizagem significativa tem vantagens notáveis, tanto do ponto de vista do
enriquecimento da estrutura cognitiva do aluno como do ponto de vista da lembrança posterior e a utilização
para experimentar novas aprendizagens, fatores que a delimitam como da aprendizagem mais adequada
para ser promovida entre os alunos.
Na aplicação do método de aprendizagem significativa, a História da Física e experimentos são
usados como instrumento para absorção de nova informação. A Historia é qualificada para essa tarefa, na
medida em que mostra questões que foram, no decurso dos fatos, relevantes à formulação de algum
conceito; ao clarificar idéias e conceitos, ela é parte inseparável dos fundamentos da Física.
♦ APOIO: FUJB
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ela cresce em proporção direta à carga. Em resumo. então. Podemos representar a lei de movimento de Aristóteles por: Aplicando à queda dos corpos. Sugeriu. De sua leitura desses experimentos. A análise dos resultados nos orientam sobre o quê ensinar. resultaram as leis empíricas: A resistência de fricção muda com a natureza das superfícies em contato. Leonardo introduziu o conceito de coeficiente de fricção e estimou que. o resultado de pensamento e fatos. aulas sobre o assunto foram preparadas. Ele reconheceu. Amonton redescobriu as duas primeiras características do atrito (Leonardo não havia divulgado seus resultados). 2 . Leonardo estabeleceu que o atrito entre dois corpos: 1 . Catálogo historiográfico Aristóteles (384-322 a. Os questionários foram formulados a partir de fatos cotidianos vivenciados pelos alunos. reconheceu a importância da resistência de fricção não somente entre corpos sólidos mas também em líquidos e gases. Além disso. a razão atrito/peso é 0. suporte de esfera e rolamento.C. que para haver movimento uma condição auxiliar era necessária: F > R (Cohen) Leonardo Da Vinci (1452 . fizemos um levantamento de conhecimentos prévios dos alunos. Ele montou equipamentos sujeitos a fricção a fim de estudar o assunto. Na quinta seção descrevemos algumas experiências sobre situações nas quais o atrito não pode ser desprezado : O pára-quedas. acrescentando mais uma: 594 . o cientista francês G. por autores clássicos mostra ao aprendiz como o atrito foi reconhecido e como suas leis não precisam ser o fruto de especulação vazia.1519) Leonardo entendeu que o impedimento de todos os movimentos mecânicos era o atrito. Uma breve nota sobre o reconhecimento da existência do atrito é apresentada na terceira seção. ela depende do grau de polimento das superfícies. Esse valor é razoavelmente apurado para atrito entre madeira e madeira. questionários sobre o tema atrito foram elaborados e aplicados. várias maneiras para reduzir o atrito: Uso de suportes de mancais com fendas. pode-se dizer que. mas foram. Leonardo entendeu que a lubrificação não era suficiente para impedir o desgaste de mancais. para superfícies polidas e lisas. Na quarta seção são apresentadas as análises das respostas dos alunos aos questionários aplicados antes e após as aulas. entretanto.Atas do XV Simpósio Nacional de Ensino de Física Inicialmente. ela pode ser reduzida interpondo elementos de rolamento ou fluidos lubrificantes entre superfícies em contato. ela é independente da área da superfície em contato.Não depende da área das superfícies em contato.25 ou um quarto do peso. Na sexta seção são apresentadas as conclusões. Em 1699. Então. em 1508.) Aristóteles afirmava que a velocidade (V) com que um corpo se move depende de uma força (F) aplicada diretamente sobre o corpo e da resistência (R). essa lei significa que corpos mais pesados caem mais rapidamente.Depende da força que comprime um corpo contra o outro. experiências envolvendo força de resistência do ar em diferentes materiais e força de atrito em um bolão infantil. entre bronze e aço e para outros materiais com os quais Leonardo estava acostumado. buchas de metais antifricção (“três partes de cobre e sete de latão derretidos juntos”). para isso. de fato.

Assim.ENSINO DE FÍSICA: presente e futuro 3 . entretanto. devido à proximidade entre as moléculas de ambas as superfícies. dificultando o deslocamento relativo entre elas. embora tecnicamente muito difícil de ser realizado. Isso pode ser visto. é da ordem de 1/10000 da área aparente. ele mostra que o polimento não reduz o atrito. interações eletromagnéticas extremamente complexas entre os elétrons e os núcleos das moléculas dos materiais em contato. não foi mencionado que versava sobre forças de atrito e essa informação também não constava do texto do questionário para que os alunos. evitando raciocinar. Coulomb propôs. Coulomb faz uma clara distinção entre o atrito estático e o atrito cinético. Charles Augustin Coulomb (1736 . a forças de adesão: Avalia-se que apenas 10% da força de atrito se deve aos encaixes e desencaixes sugeridos por Coulomb e os restantes 90% são forças de adesão. 595 . Em 1785. no entanto. diversos trabalhos mostraram que o atrito seco (entre superfícies rígidas não lubrificadas) deve-se. o que não favorece a teoria de Coulomb. avaliase que o contato efetivo entre duas superfícies planas de aço. que a lei não é estritamente observada na prática e que o coeficiente de atrito varia com os materiais envolvidos. de natureza eletromagnética. num processo conhecido por stick-slip (gruda-escorrega). como queria Coulomb. A forma predominante de contato ocorre entre saliências e praticamente não se observam encaixes. Conhecimentos prévios e resultados Com o intuito de verificar o conhecimento prévio dos alunos sobre atrito. ocorrem sucessivas rupturas e soldas. ou forças moleculares de atração. Quando uma superfície é arrastada sobre a outra. um questionário foi aplicado nos colégios Educo e Santo Inácio da rede particular da cidade do Rio de Janeiro. Nesse processo. 1 cm2. duas superfícies planas de aço de 1 m2 têm uma área efetiva de contato de. quando uma superfície se apoia sobre a outra. Essas três propriedades se tornaram conhecidas como “leis do atrito”. esse processo é conhecido como solda a frio. Quando se distribuiu o questionário. não é mais inteiramente aceita. surgem forças de adesão que soldam as superfícies. que elas se soldam. aproximadamente. formando uma única peça. não existem superfícies planas.1806) Em 1773. Ele notou. parecem vales e montanhas. Coulomb utilizou a Lei de Amonton. O atrito era visto como resultante do contato tangencial entre os corpos. vistas sob potentes microscópios. As perguntas elaboradas dizem respeito a situações do dia-a-dia do aprendiz e se tentou usar uma linguagem bem simples para que eles entendessem. O atrito hoje A explicação de Coulomb. por exemplo. ou seja. Ainda é desconhecida uma formulação teórica para o atrito. respondessem a todas as questões com a palavra atrito. quando se juntam superfícies extraordinariamente polidas de duas peças metálicas: A adesão é tão grande. Segundo essa lei: A resistência de atrito é proporcional à força normal à superfície e não à área da superfície de contato. Nos pontos de contato. Mesmo aquelas “extraordinariamente polidas”. como causa do atrito. Não há duvida. do ponto de vista microscópico. a área efetiva de contato é muito menor que a área macroscopicamente aparente.O atrito não depende da velocidade. As questões foram baseadas em textos bastante utilizados no Ensino Médio (Gaspar) e (Fonte Boa). sobretudo. Elas se encaixariam uma nas outras. De fato. não é a aspereza entre as superfícies a maior causa do atrito. ou seja. automaticamente. que dá origem à força de atrito. a existência de irregularidades entre as superfícies em contato. A partir da década de 1950. no entanto. de que a sua origem está nas forças de adesão. embora varie com a carga ou força normal. parte do material de uma superfície fica agarrada à outra.

enquanto no colégio Santo Inácio os questionários foram aplicados em 47 alunos antes das aulas e 54 alunos após as aulas. aplicado. Abaixo mostramos o resultado de aplicação antes e depois de aulas sobre atrito. o teste foi. 3 perguntas. No colégio Educo os questionários foram aplicados em 23 alunos antes e após as aulas. Pergunta 2 Qual a diferença entre você andar no asfalto e no gelo? Por que as pessoas usam patins para deslizar no gelo? Análise da primeira parte da pergunta 2 antes (a esquerda) e depois (a direita) do método ser aplicado. que consideramos serem as que representam situações mais interessantes de ocorrência do atrito. o tempo que ela leva para subir é igual. maior ou menor que o tempo que ela leva para chegar ao solo? Análise da pergunta 1 antes (a esquerda) e depois (a direita) do método ser aplicado. Selecionamos. Análise do questionário (Colégio EDUCO) Pergunta 1 Quando você joga uma bola grande e leve para cima. O questionário consiste de 6 perguntas. 596 .Atas do XV Simpósio Nacional de Ensino de Física Após aula(s) sobre o tema. como exemplo. novamente. fazendo um lançamento vertical.

o tempo que ela leva para subir é igual.ENSINO DE FÍSICA: presente e futuro Análise da segunda parte da pergunta 2 antes (a esquerda) e depois (a direita) do método ser aplicado. 597 . maior ou menor que o tempo que ela leva para chegar ao solo? Análise da pergunta 1 antes (a esquerda) e depois (a direita) do método ser aplicado. Análise do Questionário (Colégio Santo Inácio) Pergunta 1 Quando você joga uma bola grande e leve para cima. Pergunta 3 Por que é mais fácil para você empurrar uma bola de borracha do que uma caixa com 30 livros de física? Análise da pergunta 3 antes (a esquerda) e depois (a direita) do método ser aplicado. fazendo um lançamento vertical.

Análise da segunda parte da pergunta 2 antes (a esquerda) e depois (a direita) do método ser aplicado. Pergunta 3 Por que é mais fácil para você empurrar uma bola de borracha do que uma caixa com 30 livros de física? Análise da pergunta 3 antes (a esquerda) e depois (a direita) do método ser aplicado. 598 .Atas do XV Simpósio Nacional de Ensino de Física Pergunta 2 Qual a diferença entre você andar no asfalto e no gelo? Por que as pessoas usam patins para deslizar no gelo? Análise da primeira parte da pergunta 2 antes (a esquerda) e depois (a direita) do método ser aplicado.

com o objetivo de auxiliar a aprendizagem dos alunos . uma bola de gude (aproximadamente 2 cm de diâmetro) e uma pena. O que você observa de diferente nas duas situações? O que você pode concluir? Experiência do Pára-quedas Força de resistência do ar em diferentes materiais Objetivo: Estudo da força de resistência do ar. Depois deixe cair a caixa com o pára-quedas aberto. O que você observa? Depois abra as embalagens e deixe cair a pena e a bola de gude da mesma altura e ao mesmo tempo. Mostrar que a força de atrito do ar é proporcional a velocidade e a área de contato do objeto em queda. Procedimento do Experimento : Deixe cair a caixa de fósforo com o pára-quedas dentro. O que você observa? O que você pode concluir? 599 . Procedimento do Experimento : Coloque em uma embalagem de “Kinder Ovo” a bola de gude e na outra a pena. Material utilizado : Duas embalagens vazias de “Kinder Ovo”. e ensinar-lhes que fenômenos físicos muitas vezes podem ser observados facilmente (Silva). Pára-quedas Objetivo: Estudo da força de resistência do ar.ENSINO DE FÍSICA: presente e futuro Experiências Foram selecionadas três experiências com materiais bem simples e de fácil realização. Material utilizado : Uma caixa de fósforo vazia e um pára-quedas. Deixe cair as duas embalagens da mesma altura e ao mesmo tempo. Mostrar que a força de atrito do ar varia com a forma do objeto.

Brincadeira de criança Objetivo : Estudo da força de resistência do ar. A outra pessoa começará a medir o tempo quando a bola sair da mão do lançador e terminará quando o mesmo voltar a pegar a bola. Uma jogará a bola e a outra medirá o tempo. Material utilizado : Uma bola grande e leve ( bolão de criança que geralmente é vendido em parques. Procedimento do experimento : Serão necessárias no mínimo duas pessoas para fazer esta experiência. com aproximadamente 60cm de diâmetro) e um cronômetro. o tempo de descida é diferente do tempo de subida devido a esta força.Atas do XV Simpósio Nacional de Ensino de Física Experiência da força de resistência do ar em diferentes materiais. Qual foi o tempo de subida? Qual foi o tempo de descida? O que você pode concluir? Experiência Brincadeira de criança. Serão medidos o tempo de subida e o tempo total (subida e descida). 600 . Mostrar que para um movimento vertical. A pessoa que está com a bola a jogará para cima e voltará a pegá-la fazendo um lançamento vertical.

e MASINI. A. Vol. mostrou uma melhora relevante no entendimento do atrito. como é proposto na abordagem da aprendizagem significativa. Tal motivação se mostrou também muito presente nos alunos ao tomarem contato com a História da Física. E.São Paulo. O terceiro experimento foi realizado com o objetivo de esclarecer as dúvidas geradas na questão 1.A.ENSINO DE FÍSICA: presente e futuro Conclusões A comparação das respostas do questionário. S. No 6. Os grupos em sua maior parte mostram-se bastante receptivos à aprendizagem dos conceitos. 192-245 GUIMARÃES. 439-447 GILLISPIE.). 1. Editora Scribners. M. F. analisando alguns pensamentos que nortearam a construção da ciência e entendendo que conhecimentos que espera-se que eles aprendam em poucas horas. Física. dando origem a seus novos conceitos.. 1. Vol. Editora Scribners. O nascimento de uma nova Física. 44. Charles Coulston (Ed. Alberto. 1976 GASPAR. Dictionary of Scientific Biography.). Vol. 1960 FRANKLIN. Referências COHEN. L. Allan. vislumbrando os obstáculos que levaram à construção de conceitos. Vol. levaram anos e anos para serem construídos. Editora Ática. Marcelo Elias da. Editora Edart . I. 3. A Aprendizagem Significativa. 1981. p. ‘American Journal of Physics’. Novembro 2002. podemos observar a relevância de realizar o experimento para a reavaliação por parte dos alunos de seus conhecimentos prévios. Dictionary of Scientific Biography. Física. Ao observarmos as respostas depois da aplicação do método. 2000 GILLISPIE. Vol. Editora Moraes. antes e depois de aplicar o método em sala de aula. FONTE BOA. 1982 SILVA. interagiram com os conhecimentos prévios dos alunos. M. Charles Coulston (Ed. p. Bernard. p. A teoria de David Ausubel. Outro aspecto que gostaríamos de ressaltar foi a motivação mostrada pelos alunos durante a aplicação do método. 1981. 178 601 . “Resumos da XXIV Jornada de Iniciação Científica da UFRJ. “Um Jeito Diferente de Ensinar o Atrito”. 8. 2001 MOREIRA. As novas informações obtidas pelos alunos através dos textos históricos e teóricos e dos experimentos realizados. Editora Futura.